ENTRE FERAS CAPÍTULO 5 NOVELA DE: RÔMULO GUILHERME ESCRITA POR: RÔMULO GUILHERME CENA 1. VIADUTO. EXTERIOR. NOITE Continuação imediata da última cena do capítulo anterior. Fernanda e Silvestre. SILVESTRE — Eu estou morrendo. Não tem mais porque eu continuar vivendo essa vida sem razão, sem fundamento. Meus dias estão contados. FERNANDA — Tenho certeza que esse é um grande motivo pra você buscar a solução nessa atitude desesperada, mas vamos conversar. Deixa eu tentar te ajudar... SILVESTRE — Mas eu nem te conheço. FERNANDA — Mais um motivo para você descer daí e a gente se conhecer. Quem sabe posso me tornar sua grande amiga?! Silvestre pensa um pouco. Ele olha pra Fernanda e acaba descendo. CENA 2. BARRAQUINHA CACHORRO-QUENTE. EXTERIOR. NOITE Fernanda e Silvestre estão comendo o sanduíche. FERNANDA — Pelo menos uma vez na semana eu venho aqui, comer o cachorro-quente que eles fazem. Só tenho que ficar esperta com a balança... SILVESTRE — É muito bom. Tem anos que eu não sei o que é um cachorro-quente. Tinha até esquecido o delicioso sabor. FERNANDA — Não acredito! SILVESTRE — Verdade! Ultimamente só tenho feito trabalhar... E foi por tanto trabalhar, que acabei me condenando a morte. FERNANDA — Eu não sei o que levou o senhor a subir naquele viaduto. Mas pular de lá seria o caminho mais fácil para o que lhe aflige. Mas, ao mesmo tempo, estaria o condenando pra sempre. (T) Eu já sofri muito na vida, já tive muitas dores, que seriam mais do que suficientes para escolher esse mesmo caminho. Mesmo assim nunca pensei em desistir da vida. Levantei a cabeça, dei a volta por cima e hoje estou bem. Com meu coração machucado, mas bem! SILVESTRE — (TRISTE) Hoje descobrir que vou morrer. Tenho um tumor no cérebro que vai me matar em dois meses. Não quero ficar sofrendo, me definhando aos poucos numa cama, dependente dos outros. Por isso que eu tomei essa atitude. FERNANDA — Que eu cheguei a tempo de evitar que terminasse. Fernanda pega na mão de Silvestre. FERNANDA — A gente não se conhece, mas saiba que você pode ter em mim uma amiga. Pode contar comigo pro que o senhor precisar. SILVESTRE — Não sabe como é bom ouvir isso! FERNANDA — Só o senhor sabe como deve estar sendo difícil aceitar o que lhe aconteceu. SILVESTRE — Eu não merecia esse castigo de Deus! É verdade que não sou o melhor cristão do mundo, praticamente de todos seus mandamentos. Mas tem gente muito pior do que eu, que merecia receber esse castigo no meu lugar. FERNANDA — Pode parecer loucura o que vou dizer agora, mas tudo na vida tem um sentido, uma explicação. Isso que lhe aconteceu tem uma razão. Agora pode não estar claro. Mas um dia vai fazer sentido. SILVESTRE — Posso te pedir um abraço? FERNANDA — Claro! Fernanda levanta e abre os braços para Silvestre, que lhe abraça forte. CENA 3. MANSÃO VISCOY. QUARTO MARINO. INTERIOR. NOITE Cíntia vem do banheiro, enrolada num roupão. Mariano entra, vindo do escritório. Enquanto conversa com Cíntia vai tirando sua roupa, até se enrolar num roupão. CÍNTIA — Por que você não atendeu meus telefonemas, Mariano? Tava muito ocupado? MARIANO — Não começa, Cíntia. Acabei de chegar do trabalho, estou cansado, por isso dá um tempo. CÍNTIA — Você não tem idéia do dia das trevas que eu vivi. Mandei até queimar a minha roupa, pra mandar embora essa energia ruim que ficou empreguinada nela e podia afetar minha vida, nossa vida. MARIANO — (IRÔNICO) O que aconteceu? Não encontrou a roupa que queria no shopping? A cabeleireira não fez o serviço direito? CÍNTIA — Uma velha doida, que atravessou a rua sem olhar, bateu no meu carro. Tive que leva-la no hospital, pagar todas as despesas. E não bastando isso, a filha dela aparece lá. Me diz um monte de barbaridade e me agrediu. Mas eu também bati, e não foi pouco não! MARIANO — Ela morreu? CÍNTIA — A velha? Não! MARIANO — Então tá bom! CÍNTIA — (TOM) Você tá preocupado é com a mulher? Nem pergunta se eu me machuquei, se aconteceu algo de sério comigo? MARIANO — Seus problemas são do tamanho de uma formiga, comparados ao meus no escritório, que são do tamanho de um elefante. Tenho certeza que você estava errada, Cíntia. Sei bem como você dirige. Atende o celular, retoca a maquiagem...Mexe em tudo. Até tirar a mão do volante você tira, Cíntia. CÍNTIA — Para de me criticar, Mariano. Achei que iria encontrar em você, meu marido, o seu apoio, que ficaria do meu lado contra ela. MARIANO — Se você tivesse certo, eu ficaria. CÍNTIA — Ma estou. Foi ela quem foi culpada. (T) Vou exigir que meu pai mande ela embora. Eu vi o uniforme dela. Ela trabalha no Tudão. Guardei bem o nome dela: Fernanda! Quando Cíntia pronuncia o nome “Fernanda”, Mariano fica perplexo. MARIANO — (SEM ACREDITAR) Como você disse que ela chama, Cíntia? CÍNTIA — Fernanda. Por que? Conhece? MARIANO — Não. (INDO PRO BANHEIRO) Vou tomar banho. Mariano entra na suíte e fecha a porta. CÍNTIA — Ela vai descobrir que mexeu com a pessoa errada. Vou virar o verdadeiro demônio na vida dessa mulher, que atravessou o meu caminho! CENA 4. QUARTO MARIANO. SUÍTE. INTERIOR. NOITE Mariano caminha até a bancada e fica parado em frente ao espelho. MARIANO — Não pode ser a mesma Fernanda! Insert da cena 1, do capítulo1: Mariano (20 anos) correndo atrás de Fernanda (18 anos). Eles se divertem com essa brincadeira inocente. Marino consegue pegar Fernanda e eles caem, rolando pelo campo. Se beijam, demonstrando que são um casal apaixonados. Fim do insert. MARIANO — O destino não seria perverso comigo dessa forma. CENA 5. MANSÃO VISCOY. COZINHA. INTERIOR. NOITE Cordélio está mexendo na geladeira. Ele tira um frango assado lá de dentro e leva pra mesa. Tira uma coxa e começa a comer. Mariano aparece. MARIANO — Não perdeu o habito de comer comida gelada, hen Cordélio! CORDÉLIO — (RINDO) Com a fome que eu estou como até petrificada. Mariano vai na geladeira, procura alguma coisa, mas fecha. Pega a outra coxa do frango e começa a comer, escorado no bancada. CORDÉLIO — Que cara é essa, Mariano? MARIANO — Como será que teria sido minha vida se eu tivesse me casado com a Fernanda, Cordélio? CORDÉLIO — Você tá me perguntando isso? Eu não tenho a mínima idéia, Mariano. Mas por que você tá pensando nisso agora, depois de tantos anos. MARIANO — É que a Cíntia me disse que tem uma Fernanda trabalhando na Tudão. E eu achei que podia ser ela... Mas logo caí em mim que não seria possível. CORDÉLIO — Seria muita coincidência do destino, né? Mas eu também não acredito que seja ela. Tem muita Fernanda nesse mundão de Deus. Por que logo a que você abandonou, iria aparecer na sua vida novamente?! MARIANO — Tem razão, Cordélio. Um raio não caí duas vezes no mesmo lugar. Só em filmes, novelas, que isso acontece. Como estamos na vida real, essa possibilidade é pífia. CENA 6. CARRO SILVESTRE. INTERIOR/EXTERIOR. NOITE Fernanda e Silvestre. FERNANDA — Agora que você tem meu número pode ligar a hora que você quiser, pro que você precisar, Silvestre. Você tem em mim agora uma amiga. Uma eterna amiga para os bons e maus momentos. SILVESTRE — Fernanda, você me fez enxergar que mesmo tendo um grande problema na nossa frente, temos que tentar, de algum modo, enxergar o lado positivo, alguma coisa que nos faça sorrir, diante dessa dificuldade. Porque nos afundar junto com ele, não vai adiantar em nada. Só vai piorar a situação que já não está muito boa. FERNANDA — É isso aí, Silvestre. Sabe quem me ensinou isso? A vida! Eu aprendi isso com fatos que aconteceram na minha vida. SILVESTRE — Eu queria te conhecer melhor, Fernanda. Você acharia abuso da minha parte se eu te convidasse pra jantar na minha casa? Em agradecimento ao que você fez por mim hoje! FERNANDA — (SURPRESA) Jantar? SILVESTRE — Sim! Algum problema pra você? Se tiver você ignora o que eu acabei de dizer. Não quero estragar nosso encontro. FERNANDA — Não tem nenhum problema, Silvestre. É que eu trabalho e preciso ver o dia que estarei de folga. Como você também me deu o seu celular, eu vou te ligar e assim combinamos melhor esse jantar. Pode ser? SILVESTRE — Vou ficar ansioso esperando você me ligar. Fernanda e Silvestre se despendem, depois ela saí. CENA 7. MANSÃO VISCOY. SUÍTE CÍNTIA. INTERIOR. NOITE Cíntia está relaxada na sua banheira. CÍNTIA — Amanhã aquela mulher me paga. Já sei bem o que vou fazer pra me vingar. Vou humilha-la bastante, antes de colocá-la atrás das grades! Cíntia ri maquiavelicamente. CÍNTIA — Como você é perfídia, Cíntia! Terrível! Cíntia ri novamente. Brinca com as bolhas de sabão. CENA 8. ESCRITÓRIO VISCOY. SALA SILVESTRE. INTERIOR. DIA Silvestre está com a cabeça longe, pensativo. Mariano bate na porta e entra, carregando uns documentos. MARIANO — (ENTREGANDO) Acabei de analisar aqueles relatórios que você me deu e fiz algumas pequenas modificações. MARIANO — Está tudo bem, Silvestre? SILVESTRE — O que foi, Mariano? MARIANO — Não escutou nada do que eu disse, né? Aconteceu alguma coisa? SILVESTRE — Aconteceu, mas não vem ao caso. MARIANO — (BRINCA) Pela sua cara to sentindo que tem mulher na jogada, sogro. Estou errado? SILVESTRE — (DIRETO) Não te interessa, Mariano. Se você veio pra ficar me interrogando, pode ir dando meia volta. MARIANO — Fiz algumas modificações naquele relatório... O celular de Silvestre começa a tocar, interrompendo Mariano. SILVESTRE — (CEL) Alô? Fernanda... Que bom que você me ligou. Silvestre faz sinal para Mariano sair da sala. MARIANO — (SEM ACREDITAR) Fernanda? Outra vez esse nome! (SAINDO) FERNANDA — (OFF) Estou te ligando pra te falar que amanhã vou estar de folga e eu pensei que podíamos marcar o jantar, como você está querendo! SILVESTRE — (CEL) Por mim está perfeito, Fernanda. Vamos ter um jantar maravilhoso, inesquecível. Eu te prometo isso. CENA 9. LOJA TUDÃO. INTERIOR. DIA Fernanda acaba de desligar o celular. Kíria vem passando por ela. FERNANDA — Kíria, você não sabe o que me aconteceu ontem a noite. Eu até agora tô passada. KÍRIA — Fala. FERNANDA — Salvei a vida de um homem que ia se jogar de um viaduto. KÍRIA — (PERPLEXA) O quê? Como assim, Fernanda? Que homem é esse? FERNANDA — Ele está com um tumor no cérebro e tem apenas dois meses de vida. Por isso resolveu pular do viaduto para acabar com tudo de uma vez. Quando ele estava se preparando para pular eu cheguei e segurei nele, impedindo que ele terminasse o que planejava fazer. KÍRIA — Meu Deus, então minha amiga é uma heroína?! CORTA PARA Cíntia entrando na loja. Ela tira seu óculos preto e procura Fernanda com os olhos. Assim que localiza-a, caminha firme em sua direção e para perto das duas. CÍNTIA — (SUPERIOR) Eu sei que o papo deve estar bom, mas alguém pode me atender? Fernanda encara Cíntia. FERNANDA — (BAIXO, P/ KÍRIA) Atende ela pra mim, Kíria. Já encontrei com esse entojo e nossos santos não bateram! KÍRIA — (BAIXO, P/ FERNANDA) Tudo bem, Fernanda! (P/ CÍNTIA) Em que posso te ajudar? CÍNTIA — Não quero que você me atenda. Quero ela. Quero que você me atenda, Fernanda! Tem algum problema nisso? FERNANDA — (P/ KÍRIA) Pode ir, Kíria. Eu vou atender ela. (P/ CÍNTIA) Nenhum! Só achei que você não queria ser atendida por mim, diante dos acontecidos... CÍNTIA — Que pra mim já passou. Mas já que tocou nesse assunto, sua mãe está bem? FERNANDA — Está sim! CÍNTIA — Ótimo! Cíntia começa a andar pelo loja, olhando as roupas, objetos. Fernanda vai atrás dela. CÍNTIA — Estou procurando uma roupa, mas não sei qual. Sabe como é, né! É uma peça que eu não sei definir... Só sei que preciso dela. Você vai me ajudar, não é Fernanda? (IRÔNICA) Você é uma mulher de muito bom gosto, vais saber me dar ótimas dicas. FERNANDA — Meu trabalho é ajudar os clientes. Não importa quem eles sejam. Clientes pra mim são todos iguais! CÍNTIA — Ótimo! Agora vamos rodar essa loja, que eu não sossego enquanto não encontrar esse vestido! Cíntia começa a andar na loja, mexendo nas roupas. Fernanda vem atrás dela. Cíntia pega um vestido, uma roupa, olha, experimenta no corpo, e joga para Fernanda catar. Isso vai se repetindo incansavelmente, já que faz parte do plano de Cíntia. CENA 10. SALA MARIANO. INTERIOR. DIA Mariano está concentrado trabalhando. Silvestre entra. SILVESTRE — Ocupado, Mariano? MARIANO — Não, Silvestre! Algum problema? SILVESTRE — Não, é que eu vim avisar que amanhã vou dar um jantar, lá em casa, pra uma pessoa muito especial que eu conheci e faço questão que você e a Cíntia compareçam. Não marque nada, ouviu! MARIANO — Sem problemas. Desculpe me intrometer, Silvestre, mas essa pessoa especial é a tal Fernanda? SILVESTRE — O nome dela é Fernanda sim. Por quê? MARIANO — Posso saber de onde o senhor a conhece? É que esse nome me é familiar numa ocasião da minha vida... SILVESTRE — Tem tanta Fernanda nesse mundo, Mariano! (T) Mas não se preocupe que a amanhã vocês saberão de tudo. Será um jantar muito especial e revelador também! Silvestre saí. Nesse momento uma rajada forte de vento entra na sala, derrubando vários papéis no chão. Da mesma forma inesperado que veio, o vento vai embora, deixando Mariano impressionado. MARIANO — Agora eu fiquei com medo, viu! Só pode ser a minha Fernanda. A Fernanda do meu passado, que mudou toda minha vida! CENA 11. LOJA TUDÃO. FRENTE PROVADOR. INTERIOR. DIA Cíntia e Fernanda estão na porta do provador. Fernanda está carregando um monte de vestido. CÍNTIA — Espero que eu tenha encontrado esse bendito vestido. FERNANDA — Eu também espero. Rodamos a loja toda atrás dele. CÍNTIA — Tenho certeza que dentre esses vestido que eu peguei, ele vai estar aí. Agora pega aquele vestido vermelho. Vou experimentá-lo primeiro! Fernanda procura o vestido vermelho que Cíntia está falando, em meio aos vários outros vestidos. Enquanto isso, sem que Fernanda se de conta, Cíntia pega seu celular, que está dentro da sua bolsa, e coloca no bolso do uniforme de Fernanda, que acha o vestido e o entrega para Cíntia. FERNANDA — (ENTREGANDO) Aqui está. CÍNTIA — (ENTREGANDO A BOLSA) Segura minha bolsa pra mim. Cíntia entra no provador com o vestido. Passa um tempinho. Ela saí carregando-o, com uma cara de não satisfeita. CÍNTIA — Não gostei! Não gostei de nenhum vestido na verdade. FERNANDA — A senhora só experimentou um. Experimenta os outros pra ver se gosta. CÍNTIA — (TOM) Já disse que não gostei de nenhum. Me dá minha bolsa. Fernanda dá a bolsa para Cíntia. Ela abre e procura o celular. De uma forma bem cínica, atuando como uma grande atriz, Cíntia começa seu show. CÍNTIA — (ALTO) Meu celular... Ele não está aqui! Fui roubada! Todos da loja focam em Cíntia e no escanda-lo que ela arruma. FERNANDA — Roubada? Procura direito, vai ver que ele está no fundo... CÍNTIA — (TOM, P/FERNANDA) Você me roubou, sua ladra! FERNANDA — (SURPRESA) O quê? Eu, ladra? CÍNTIA — Isso mesmo! Você roubou meu celular. Seguranças revistem-na! Os seguranças se aproximam de Fernanda. FERNANDA — (GRITA) Ninguém vai tocar em mim! FIM DO CAPÍTULO