QUEM SÃO ESSAS, QUE SÃO COMO NUVENS? AS VIRTUDES DE
ORDO VIRTUTUM.
doi: 10.4025/XIIjeam2013.goncalvesvidigal.oliveira25
GONÇALVES-VIDIGAL, Andressa1
OLIVEIRA, Terezinha2
Introdução
Esse trabalho teve como objetivo refletir acerca do conceito de ‘virtude’ presente
na peça teatral e musical, Ordo Virtutum, de Hildegard von Bingen3 elucidando esta
questão e outros conceitos por meio de um levantamento bibliográfico acerca do assunto.
Contudo, salienta-se que o estudo privilegiou o conceito ‘virtude’, uma vez que Hildegard
elenca um número diverso e singular de virtudes, no seu sentido mais amplo e complexo.
Vale ressaltar que para além da compreensão exegética de textos de Hildegard, fazse, também, necessário um maior desenvolvimento de reflexões que abarque e relacione os
pensamentos religiosos de sua obra aos pensamentos concernentes na filosofia Escolástica.
As obras da abadessa Renana sofreram influências da mencionada corrente filosófica, uma
vez que é perceptível a preocupação de Hildegard no que tange o pensamento humano, em
especial, a busca de compreensão do mundo material em que ela vivia e a relação entre o
ser humano, Deus e o mundo real.
Neste sentido, a obra Ordo Virtutum de Hildegard von Bingen é indubitavelmente
um rico objeto de estudo, principalmente por sua singularidade, que foge aos padrões
formais impostos por seus contemporâneos mais tradicionais. Em termos gerais essa obra
surpreende o espectador, trazendo elementos inovadores que tangem diversos aspectos do
drama litúrgico tradicional, principalmente quanto à forma, que se assemelha a um
1
Bacharel em Música pela Universidade Estadual de Maringá, e-mail: [email protected].
Professora Associada, Departmento de Fundamentos da Educação, Universidade Estadual de Maringá
3
Hildegard von Bingen (1098 – 1179) foi uma eminente persona em seu tempo. Nasceu em Bermersheim,
próximo à Mainz, região do Reno. Sobretudo, foi uma prolífica escritora, filósofa, mística, pregadora e
compositora. Ordo Virtutum é uma das diversas obras que esta abadessa compôs. A principal característica
das obras desta autora é o discurso profético e místico, onde esta, ao iniciar suas explanações, afirma receber
tais revelações diretamente de Deus.
2
1
psicomaquia4, à quantidade de personagens femininos, ao elenco de virtudes, à presença da
música e à escassez de personagens masculinos (SHEINGORN, 1992, p. 47).
Figuras intelectuais como Hildegard von Bingen surgem na região da Europa que,
hoje, compreende a Alemanha e países da Europa ocidental (Itália, França e Suiça). Nesta
região explicitou-se um grande desenvolvimento educacional, já que ela herdou práticas
políticas provenientes das reformas educacionais promovidas pela dinastia Otoniana (919 –
1024).5 A importância cultural feminina dentro da organização social Otoniana não era
incomum. Assim, Hildegard nasce dentro de um espaço social ao qual o a influência
feminina não é um elemento estranho. As mulheres da dinastia Otoniana eram altamente
educadas e todas as comunidades que estavam sob os cuidados das abadias vinculadas a
dinastia monarquica possuíam mulheres instruídas (STEVENSON, 2005, p. 96).
Ademais, dentre os aspectos mais relevantes dessa questão sócio-cultural é
necessário reforçar que, no passado, esta região esteve sob o governo de Matilda, única
filha de Oto I e abadessa de Quedlinburg, que governou com sucesso no posto de matricia
(governadora) a região da Germânia quando, ao final do século X, Otto III ausentou-se do
país por um longo período. Destaca-se, também, o fato de que as três principais abadias
dessa região: Quedlinburg (936 d. C.), Essen (845 d. C.) e Gandersheim (852 d. C.) eram
dirigidas por mulheres otonianas (Ibid, p. 101). É, pois, a partir desse contexto que nos
torna possível compreender a emergência, o surgimento de uma intelectual como
Hildegard von Bingen.
Mesmo sendo uma religiosa pertencente à vigorosa ordem beneditina, Hildegard
abordou temáticas religiosas de forma bastante peculiar, um exemplo é a forte presença da
teofania do feminino. Há uma forte valoração da figura feminina que é marcante no
pensamento de Hildegard e permeia suas obras, em especial a Ordo Virtutum. Essa
característica foi apontada pela autora Ann Storey (1998) como algo muito presente não só
nas obras de Hildegard, bem como no pensamento de suas contemporâneas: Elisabeth de
Schönau (1129 – 1165) e Herrad de Landsberg (1130–1195).
4
Segundo Hozeski (1982) o Psicomáquia é um gênero literário que surgiu com Prudêncio no ano 450 d.C.
Essa obra introduz a ideia de que a vida virtuosa só é alcançada pelo esforço, fato que se contrapõe aos
pensamentos presentes em Aristóteles e Platão que, por sua vez, concebiam a ideia de vício como pertencente
às capacidades racionais e não na vontade. Para além, Hozeski ressalta o formato dessa obra que mistura
guerra e adoração, descrevendo o combate travado, no interior da alma humana, entre vícios e virtudes,
personificados.
5
STEVENSON, J. Women latin poets. Language, gender, & authority from antiquity to the eighteenth
century. Oxford University Press Inc., NY, 2005.
2
Em Ordo Virtutum, Hildegard demonstrou sua destreza linguística e filosófica ao
tratar do embate entre o bem e o mal sem romper com o seu pensamento de
complementaridade dos sexos (ALLEN, 2002). O conceito de complementaridade dos
sexos foi assim denominado a fim de caracterizar momentos frequentes nas obras de
Hildegard onde a autora acentua e atribui conotações positivas à feminidade usando o
símbolo de virilidade/masculinidade de forma negativa ou, ainda, positiva, enfatizando,
sobretudo, a complementaridade sexual tanto na humanidade quanto em Deus, mesmo
quando ela reafirmava os princípios de hierarquia sexual (NEWMAN, 1989, p. 255).
Ordo Virtutum (a Peça das Virtudes) é uma alegoria escrita por volta do ano de
1151 que tem como tema central a condição humana, e o embate entre as virtudes e o
diabo, que é compreendido como a concentração dos vícios mundanos. Esta obra tem seu
primeiro esboço registrado de forma abreviada ao final do livro Scivias, mais precisamente
na XIII visão, e nela Hildegard relaciona esta história ao caminho que se deve seguir a fim
de se alcançar a Cidade de Deus, a Jerusalém Celeste (DAVIDSON, 1992).
A peça concentra-se no conflito entre os três principais grupos de personagens: as
Virtudes (representantes diretas de Deus, da moral e da ética), o Diabo e As Almas que
habitam o mundo terreno. A personagem central do enredo é a Alma, que a princípio surge
feliz e em harmonia com Deus e, posteriormente, encontra-se com as Almas Queixosas que
sofrem com as fraquezas humanas. A Alma, então, temendo esse fim, invoca o auxílio das
Virtudes, que vêm imediatamente em seu socorro. No entanto, surge o Diabo,
representante das tentações mundanas e das fraquezas humanas e este convence a Alma de
desfrutar do mundo. Neste momento Alma desaparece de cena, enquanto as Virtudes
continuam a se apresentar e a lamentar a “decaída” da Alma. Por fim, Alma se volta,
“retorna” às Virtudes, arrependida e machucada, e estas a acolhem com amor. Como
desfecho as Virtudes vencem o Diabo e o amarram. Esta temática retrata os conflitos de
cunho moral, comuns à realidade da sociedade do século XII e pertencentes ao cerne do
pensamento cristão (TABAGLIO, 1999).
Ordo Virtutum inicia com a fala dos Patriarcas e Profetas (representantes da
tradição cristã) que proferem um texto fazendo referência ao texto bíblico de Isaías 60:8
“Quem são estes que voam como nuvens, e como pombas para as suas janelas?”6. A este
6
FIGUEIREDO, A. P. Bíblia Sagrada: contendo o Velho e Novo Testamentos traduzida em Português
segundo a Vulgata Latina por Antônio Pereira de Figueiredo, Lisboa: Typographia Universal de Tomaz
Quintino Antunes, 1867.
3
respeito, Peter Dronke (1999) aponta que Hildegard parte da ideia da construção da
Jerusalém Celeste presente no texto bíblico para ambientar o início de sua peça. Então a
peça inicia-se com a pergunta “Quem são essas, que são como nuvens?”. As Virtudes
respondem: “Oh santos antigos, por que vos maravilham conosco? A palavra de Deus
resplandece luminosa na forma do homem, e por isso nós brilhamos com Ele, constituindo
os membros de seu belo corpo” (tradução nossa).7
Assim, podemos inferir que Hildegard concebe as virtudes como membros do
corpo de Cristo e, de tal forma, indissociáveis de Deus e da religião cristã. Reiterando essa
ideia, Bejczy (2011) afirma que para os autores patrísticos a verdadeira virtude é
impensável fora do contexto cristão. Para eles a bondade só existe em Deus e qualquer
conceito de virtude que não esteja relacionado a Ele é, portanto, falso. O autor ainda
afirma:
Ambrósio, Jerônimo e Agostinho similarmente rejeitam a noção de
virtude como uma atitude humanamente adquirida e redefinem
esse conceito como um dom divino que permite aos fiéis viver em
união com Deus – se não perfeitamente na vida presente pelo
menos na outra vida [na vida após a morte]. Virtude então torna-se
propriedade exclusiva dos Cristãos, como categorias de uma
bondade concebida por meio da religião culminando em beatitude
celestial (tradução nossa)8
A passagem acima nos permite observar que Hildegard segue esses princípios.
Interessantemente a lista de virtudes presentes na obra de Hildegard são as seguintes:
Scientia Dei (conhecimento de Deus), Humilitas (humildade), Caritas (caridade), Timor
Dei (temor de Deus), Obedientia (obediência), Fides (fé), Spes (esperança), Castitas
(castidade), Innocentia (inocência), Contemptus Mundi (desprezo do mundo), Amor
Caelestis (amor celeste), Disciplina (disciplina) ou Caeleste Desiderium (anseio celeste) 9,
7
“O antiqui sancti, quid amiramini in nobis? Verbum Dei clarescit in forma hominis, et ideo fulgemus cum
illo, aedificantes membra sui pulchri corporis” (TABAGLIO, 1999, p.83).
8
“Ambrose, Jerome and Augustine accordingly reject the notion of virtue as a humanly acquired attitude and
redefine it as a divine gift enabling believers to live in union with God - if not perfectly in this life at least in
the next. Virtue thus becomes the exclusive property of Christians, as categories of a religiously conceived
goodness culminating in celestial beatitude.” (BEJCZY, I. P. Virtue and vice. In LAGERLUND, H. (ed.)
Encyclopedia of medieval philosophy, p. 1365-1369, Springer Netherlands, Netherlands, 2011).
9
Roswitha Dabke (2006) sugere que esta virtude seja nomeada assim depois de extensivo estudo que
realizou, uma vez que no manuscrito original tal virtude não possui designação e à autora o nome de
Disciplina não encaixa na esquematização geral.
4
Verecundia (modéstia), Misericordia (misericórdia), Victoria (vitória), Discretio
(discrição) e Patientia (paciência).
Esta lista foge ao padrão proposto por Platão que enumera sabedoria (sophia),
coragem (andreia), temperança (sôphrosune) e justiça (dikaisunê) como as virtudes
principais, cardeais, de uma cidade ideal. Distancia-se, também, à proposta das virtudes de
Aristóteles que lista as quatro virtudes em Platão e conceitua que virtude é um hábito
adquirido por meio da prática. Sua caracterização da virtude se baseia na ideia de mediana,
a busca do justo meio entre dois extremos por meio do uso da razão, experiência e
contexto. Aristóteles adiciona virtudes como coragem, moderação, generosidade,
perspicácia, amizade, honestidade, honra, etc. (DAHLSGAARD et al., p. 208, 2005). Essas
virtudes se dividem em virtudes morais, que são determinadas pelo justo meio e virtudes
intelectuais que se dividem em sabedoria filosófica e sabedoria prática. A sabedoria prática
faz uso do desejo e da razão para sustentar uma boa escolha, já a filosófica distingue o
falso do verdadeiro (ANDRADE, 2002).
Na obra de Hildegard as únicas virtudes que surgem em comum com os demais
autores, são as virtudes teológicas, que se mostram presentes nos textos de Santo
Agostinho e aparecem, posteriormente, em Tomás de Aquino. Fé, esperança e caridade são
as virtudes que Ordo Virtutum traz em comum com as demais obras de seu tempo. As
demais virtudes variam, consideravelmente, quando comparadas aos outros autores. Como
sugestão de compreensão, pode-se afirmar que a outras virtudes se encaixam no quadro de
virtudes tradicionais quando interpretadas em relação à Beatitude e aos dons do Espírito
Santo. Algumas virtudes derivam dos sete dons do Espírito Santo, como é o caso de Timor
Domini, temor do Senhor, que Hildegard depois transforma em Timor Dei, temor de Deus,
(DABKE, 2006).
Em extensiva análise a autora Roswitha Dabke (2006) propõe a separação das
virtudes presente em Ordo Virtutum, respeitando a cronologia do enredo, em dois grupos
de oito virtudes com respectivas subdivisões: a primeira tríade formada por: Humilitas,
Caritas, Timor Dei, que, na peça, se apresentam nessa ordem. Após essa apresentação,
ocorre uma breve interjeição do Diabo, representante da soberba, em contraposição
diametral à Humilitas. Segue, então, a segunda tríade: Obedientia, Fides e Spes encabeçada
por Obedientia que é um resultado da virtude Timor Dei, pois segundo Hildegard com o
temor de Deus vem a obediência. Por fim, ao final desse primeiro conjunto surge a díade:
5
Castitas e Innocentia, que são intimamente associadas entre si. Segundo Dabke, o segundo
grupo de oito virtudes faz diversas alusões ao Sermão da Montanha (Mateus 5: 1-7, 26).
Para a autora, esse segundo grupo traz uma reorientação aos que buscam a ascensão ao
divino. Assim, a primeira tríade do segundo grupo traz as Beatitudes incorporadas:
Contemptus Mundi, Amor Caelestis, Disciplina ou Celeste Desiderium, Discretio,
Misericordia, Pacientia, Verecundia e Victoria.
O drama Ordo Virtutum, quando é pensado como uma totalidade, música e
encenação, mostra a intenção de Hildegard em representar o seguimento e a prática das
virtudes como algo para além do intelecto, do imaginativo, da teoria. Este fato converge à
ideia aristotélica apontada por Kraut (2012)
A sabedoria prática, como Aristóteles concebe, não pode somente
ser alcançada através do aprendizado de regras gerais. Nós
também temos que conquistar/adquirir, pela prática, essas
habilidades deliberativas, emocionais e sociais que nos permitem
colocar nossa compreensão geral de bem-estar em prática de forma
10
adequada a cada ocasião (tradução nossa).
Portanto, é possível pensar que a incorporação das Beatitudes e dos dons do
Espírito Santo também invoca a ideia de ação. Assim, as ações que cada virtude incorpora,
certamente, são os conjuntos de ações os quais Hildegard tinha intenção de disseminar em
sua abadia. Dabke (2006) não concorda com a ideia tão defendida por Flanagan, Tabaglio,
Dronke, dentre outros estudiosos de Hildegard, de que Ordo Virtutum foi escrita,
principalmente, ao grupo, à audiência de religiosos. No entanto, o grande número de
personagens femininos, mesmo que herdadas das Beatitudes e as mensagens obscuras
presentes no texto, como a autora mesmo aponta, nos levam a crer que a sua mensagem
principal foi dirigida àquelas que a rodeavam, suas íntimas companheiras, as noviças.
Outra questão interessante a ser observada é o fato de Ordo Virtutum não trazer
indícios em texto que necessariamente nos leve a crer que a história contada trata de uma
trama que se dá somente no pós-vida. Ao contrário, mostra a queda e retorno de uma alma
que certamente está viva e segue seu curso no mundo, vivendo a dualidade de seguir as
10
Therefore practical wisdom, as he conceives it, cannot be acquired solely by learning general rules. We
must also acquire, through practice, those deliberative, emotional, and social skills that enable us to put our
general understanding of well-being into practice in ways that are suitable to each occasion. (Kraut, R.
Aristotle's ethics: the Stanford encyclopedia of philosophy (Winter 2012 Edition), Zalta, E. N. (ed.) URL =
<http://plato.stanford.edu/archives/win2012/entries/aristotle-ethics/>.)
6
virtudes ou seguir ao diabo. Assim, quebra-se o paradigma de impossibilidade de
felicidade no mundo real e de uma vida mundana digna. Na verdade, a obra apresenta o
caminho que o ser humano percorre em vida: se vive em virtude, vive radiante; se vive nas
fraquezas mundanas, então, vive-se em dor e infelicidade. A alma (Anima) quando,
primeiramente surge, aparece feliz (Felix Anima) e em vestes radiantes. Essas vestes são
referência à própria encarnação humana que, no princípio, se faz em alegria e virtude,
dentro da virtude da Innocentia (virtude bastante elevada por Hildegard na obra junto a
Castitas).
Poucos autores apontam para uma relação entre as virtudes presentes no texto de
Ordo Virtutum e as demais listas propostas por Platão, Aristóteles, Agostinho e a autores
posteriores como é o caso de Tomás de Aquino. No entanto, é possível pensar algumas
virtudes dentro do contexto da ética proposta por vários desses autores. Fides (fé), Spes
(esperança) e Caritas (caridade) são elevadas por Santo Agostinho em seus Solilóquios,
além das considerações sobre o amor, que podem ser usadas para a compreensão da virtude
Amor Caelestis, outro exemplo são as duas virtudes Scientia Dei (conhecimento de Deus) e
Timor Dei (temor de Deus) que reiteram a ideia de virtude por meio do conhecimento de
Deus e são ações que requerem o intelecto. Victoria poderia estar associada à coragem,
pois foi essa virtude que venceu o Diabo e o amarrou.
Portanto, é notável a necessidade de investigações mais extensivas acerca das
virtudes em Ordo Virtutum que pudessem se centrar nos aspectos filosóficos da obra, para
que pudéssemos sistematizar as singulares exposições e conceituações de Hildegard sobre
as virtudes em suas demais obras.
Quanto à personagem do Diabo e a não enumeração dos vícios na obra de
Hildegard é necessário refletir as suas causas e circunstâncias. Sabina Flanagan e Maria
Tabaglio, dentre outros autores, apontam a hipótese de que Hildegard ocultou os vícios, ou
deixou de enumerá-los por fins de não alimentar a criatividade das noviças, Sheingorn
explica que todos os vícios estão concentrados em uma só personagem, Tabaglio
apronfunda esse pensamento e sugere que é porque a maioria vícios, na língua latina,
pertence ao gênero feminino. Todavia, esse é um aspecto a ser investigado.
Para além, há que se pesquisar sobre as circunstâncias as quais moveram a abadessa
Renana às reflexões de moral e ética. Não parece muito perspicaz saltarmos à conclusões
tão simplistas quanto as motivações de criação dessa peça. Se Ordo Virtutum se assemelha
7
a um psicomaquia, então Hildegard lia Prudêncio e se a autora modificou os termos
tradicionais de um psicomaquia, há também de se questionar os motivos. Se há virtudes
que parecem aludir os pensamentos de outros autores, esses aspectos devem ser apontados
e estudados.
Considerações Finais:
Por fim, é relevante pensar que as diversificadas listas de virtudes apresentada
pelos autores que pensam e discutem ética e virtude refletem a preocupação que estes têm
em compreender como os aspectos da vida humana se articulam entre si. Dentro dessa
compreensão, pensar a heterogênea gama de virtudes elencadas por Hildegard von Bingen
é também refletir e nos aproximar das preocupações morais que sondavam os pensamentos
dessa filósofa. No entanto, são escassas as investigações que ousam buscar essa
compreensão. Resignificar Hildegard e seu tempo é também trazer novos sentidos ao nosso
presente e à nossa história e este exercício é que constrói nosso sentido de identidade e nos
faz compreender melhor a humanidade.
REFERÊNCIAS:
ALLEN, P. The concept of woman: volume II: the early humanist reformation 12501500, 2, p. 659, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Plublishing Co., 2002.
ANDRADE, R. C. O indivíduo e o cidadão na história das ideias. (Com um ensaio sobre
Maquiavel). Lua Nova: Revista de Cultura e Política, 57, São Paulo, SP, 2002.
AGOSTINHO, S. (354-430). Solilóquios e a vida feliz. Traduzido por FIOROTTI, A.,
OLIVEIRA, N. A., São Paulo: Paulus, 1998.
BEJCZY, I. P. Virtue and vice. In LAGERLUND, H. (ed.) Encyclopedia of medieval
philosophy, p. 1365-1369, Netherlands: Springer Netherlands, 2011.
FIGUEIREDO, A. P. Bíblia Sagrada: contendo o Velho e Novo Testamentos traduzida
em Português segundo a Vulgata Latina por Antônio Pereira de Figueiredo, Lisboa:
Typographia Universal de Tomaz Quintino Antunes, 1867.
DAHLSGAARD, K., PETERSON, C., & SELIGMAN, M.E.P. Shared virtue: The
convergence of valued human strengths across culture and history. Review of General
Psychology, 9, 203-213, Washington, DC, 2005.
8
DAVIDSON, A.E. Music and performance: Hildegard of Bingen’s Ordo Virtutum, In
DAVIDSON, A.E. (ed) The Ordo Virtutum of Hildegard of Bingen: critical studies.
Kalamazoo: Medieval Institute Publications, 1992.
DRONKE, P. Nine medieval latin plays. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.
KRAUT, R. Aristotle's ethics: the Stanford encyclopedia of philosophy (Winter 2012
Edition), ZALTA, E. N. (ed.) <http://plato.stanford.edu/archives/win2012/entries/aristotleethics/>.
NEWMAN, B. Sister of wisdom: st. Hildegard's theology of the feminine. Berkeley e Los
Angeles: University of California Press, 1989.
STEVENSON, J. Women latin poets: Language, gender, & authority from antiquity to the
eighteenth century. New York: Oxford University Press Inc., 2005.
STOREY, A. A theophany of the feminine: Hildegard of Bingen, Elisabeth of Schönau,
and Herrad of Landsberg. Woman's Art Journal. v. 19 (1), p. 16-20, 1998.
TABAGLIO, M. E. Ildegarda di Bingen: Ordo Virtutum: Il camino di Anima verso la
salvezza, Verona: Gabrielli, 1999.
9
Download

quem são essas, que são como nuvens? as virtudes de ordo virtutum.