EDITORIAL N este mês de junho, estaremos fazendo nossa já tradicional subida à serra para mais um “Relendo Freud e Conversando sobre a APPOA”. “Contribuições à psicologia do amor” é o título da coletânea de Freud que escolhemos para trabalhar no encontro deste ano, a qual reúne os seguintes artigos: “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” (1910), “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor” (1912) e “O tabu da virgindade” (1918). No ano em que o trabalho da APPOA está voltado para o tema da diferença sexual e, mais especificamente, do masculino, trabalhar este conjunto de textos tem propiciado discussões bastante frutíferas. Mas, no que a releitura desses três breves escritos de Freud, da segunda década do século XX, pode contribuir para esclarecer as questões com as quais nos deparamos, hoje? Na verdade, o que temos constatado é a extrema atualidade das formulações de Freud nesses três artigos. Mesmo que tenhamos que relativizar algumas questões, levando em conta a época em foram escritos, o essencial das idéias de Freud mantém um vigor e uma força surpreendentes. A partir do trabalho prévio de discussão desses artigos em cartel, foi elaborado este número do Correio. O conjunto de textos que compõe a seção temática deste mês procura trazer algumas das questões que temos discutido no cartel preparatório ao “Relendo Freud”. Nesta mesma direção, os três textos da seção debates discutem alguns pontos que perpassam a temática da masculinidade, das relações amorosas e da diferença sexual. Além do trabalho em torno dos textos de Freud, o evento em Canela tem uma segunda parte de extrema importância para a vida da Associação – aquela que batizamos de “Conversando sobre a APPOA”. É, neste espaço, a uma certa distância do cotidiano da instituição, que muitas questões, problemas e propostas são discutidos e elaborados, permitindo relançar mais uma vez o projeto de trabalho que tem sustentado a APPOA ao longo desses quinze anos de existência. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 1 NOTÍCIAS NOTÍCIAS RELENDO FREUD E CONVERSANDO SOBRE A APPOA O “Relendo Freud e Conversando sobre a APPOA” têm se caracterizado, tradicionalmente, por ser um momento de encontro bastante acolhedor e informal entre os membros da Associação. O espaço para discussão do texto freudiano tem permitido refletir sobre a atualidade dos conceitos fundadores de nossa prática clínica e manter viva a experiência de trabalho com o inconsciente. É esta mesma experiência que justifica o laço associativo e, por este motivo, sustenta o segundo momento de nosso encontro – o “Conversando sobre a APPOA”. Neste espaço, nos propomos a falar sobre a instituição, suas questões e impasses para que possamos seguir trabalhando com base nos princípios éticos fundamentais que tem norteado a APPOA nestes quinze anos de existência. Este ano, os textos escolhidos são: “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” (1910), “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor” (1912) e “O tabu da virgindade” (1918). Retomar os conceitos e proposições desses artigos nos instiga especialmente neste momento, já que o trabalho da APPOA, neste ano, tem girado em torno das questões do masculino e da diferença sexual. A discussão destes três textos, no Cartel preparatório ao Relendo Freud, tem antecipado algumas questões de nosso fim-de-semana na serra. Quais são as condições e os determinantes da escolha de um objeto amoroso? O que situações como a impotência e a frigidez têm a nos ensinar sobre a vida erótica de homens e mulheres e, de forma mais ampla, sobre as relações entre a cultura e o funcionamento da pulsão? Se estas são algumas das questões que Freud se colocava ao produzir estes escritos, hoje, podemos nos colocar outras tantas: temos uma mesma estrutura com novas “roupagens” ou há uma modificação estrutural em curso, a partir dos deslocamentos na posição de homens e mulheres que a cultura tem estabelecido? O sujeito subjetiva-se de forma hegemônica? Estas são apenas algumas das questões que o trabalho com esses três escritos levanta e que prometem “esquentar” os três dias de nosso encontro de inverno. 2 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 PROGRAMA SEXTA-FEIRA – 18 de junho 18h30min – Abertura Mário Corso Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (1910) Gerson Pinho e Marieta Rodrigues SÁBADO – 19 de junho 9h30min Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (1912) Rossana Oliva e Otávio Nunes 10h15min – Intervalo 10h30min – Conversando sobre a APPOA Tarde livre 17h30min – Sessão de Cinema 20h30min – Jantar de confraternização, por adesão DOMINGO – 20 de junho 9h30min O tabu da virgindade (1918 [1917]) Carlos Kessler e Maria Ângela Brasil 10h30min – Conversando sobre a APPOA 12h30min – Encerramento Maria Ângela Brasil C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 3 NOTÍCIAS NOTÍCIAS RESERVAS Hotéis Continental Canela Informações e reservas: (54) 3031.1111 Luxo individual: R$130,00 Luxo duplo: R$150,00 Luxo triplo: R$170,00 Cama extra: R$48,00 As reservas devem ser feitas até o dia 15 de junho pelos participantes interessados. INSCRIÇÕES As inscrições já podem ser feitas na Secretaria da APPOA pelo valor de R$30,00. Informamos que o jantar de confraternização acontecerá no sábado, dia 19/06 por adesão. LOCAL Hotéis Continental Canela Endereço: Rua José Pedro Piva, 220 – Canela/RS Fone: (54) 3031.1111 – Fax: (54) 3031.1122 E-mail: [email protected] Site: www. hoteiscontinental.com.br O Cartel preparatório ao Congresso “a masculinidade” informa que foram organizados três cartéis de estudo que constituirão nossos eixos de trabalho. Estão abertos à participação dos interessados. TESOURARIA CATEGORIA VALOR R$ Membros 159,00 Membros Correspondentes 211,00* Participantes 116,00 * Valor anual. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 As questões da linguagem e a modalidade de intervenção clínica motivaram o chamamento desta Jornada para promover interlocuções interdisciplinares a respeito desta temática. Palestrante: Mauro Spinelli – Médico especialista em otorrinolaringologia e neurofoniatria; estudos em Psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae; Doutor pela PUC de São Paulo; Professor do curso de graduação e pósgraduação em fonoaudiologia da PUC de São Paulo. Data: 05 de junho de 2004. Local: Rua Dr. Lauro de Oliveira, nº 71. Programa – linguagem: conceito, origem e evolução; transtornos na linguagem oral e escrita; diagnóstico e intervenção interdisciplinar na linguagem; linguagem e comunicação. CARTÉIS PREPARATÓRIOS AO CONGRESSO A Associação Psicanalítica de Porto Alegre informa que, a partir do mês de junho, haverá um acréscimo de 6% nas mensalidades de membros e participantes em função da inflação acumulada no último ano. A Mesa Diretiva da APPOA decidiu pela manutenção dos valores de Grupos, Seminários e Percursos de Escola. Seguem, abaixo, os novos valores: 4 XXIV JORNADA DE ESTUDOS – CENTRO LYDIA CORIAT TRANSTORNOS ESPECÍFICOS DA LINGUAGEM 1. Lei, Família e Trabalho – A relação do homem com a lei: poder e direito – Mudanças na estruturação familiar e na educação de meninos e meninas – Transformações nas relações de trabalho – O masculino e a violência na relação com a morte 2. Representações do Masculino e História da diferença sexual – O masculino nas artes plásticas, cinema, literatura, etc. – Interfaces com a Antropologia e a História da diferença sexual 3. Desejo, Amor e Gozo – O desejo masculino – O masculino e a violência na relação com a morte Os que desejarem mais informações enviem seus dados à Secretaria para que as recebam por e-mail. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 5 NOTÍCIAS SEÇÃO TEMÁTICA SOBRE A VIDA AMOROSA DO HOMEM CONTEMPORÂNEO FILME E PALAVRAS PARA UM DIA CENTENÁRIO – 16 DE JUNHO DE 1904 No próximo dia 16 deste mês, uma quarta-feira, o Seminário Sinthoma na clínica e na escrita e o Núcleo Passagens estarão promovendo a apresentação e exibição do filme “Os vivos e os mortos”, do diretor John Huston. A película é baseada no conto “Os mortos”, da coletânea de contos “Os Dublinenses”, de James Joyce. Enéas de Souza fará a apresentação do filme e introduzirá uma discussão sobre os aspectos cinematográficos desta adaptação em sua articulação com a psicanálise. Além disto, Luis Roberto Benia lerá trecho de Ulisses, de Joyce; pois nesta data, 16 de junho, tradicionalmente, comemora-se o Bloomsday , dia em que transcorre a narrativa do livro. A atividade é aberta aos interessados e será realizada na sede da APPOA. Atividade: Filme e discussão: “The Dead”, de John Huston. Data: 16/06/04, quarta-feira Hora: 19 horas Local: APPOA – Rua Faria Santos , 258 – Fone 3333.2140 Entrada franca. Solicita-se que as reservas sejam feitas antecipadamente. Os lugares são limitados. DIÁLOGOS COM A CLÍNICA A Mosaico – Centro Interdisciplinar e Oficinas Terapêuticas convida para o 2º Diálogos com a Clínica: “Histórias de Brincar – reflexões psicanalíticas sobre a infância contemporânea na clínica”. Neste ocasião, estaremos recebendo Ana Marta Meira e Simone Rickes para discutirmos sobre o lugar do brincar e sua ausência, o papel do jogo e da escrita na psicanálise de crianças. Data: 26 de junho de 2004 Horário: das 9h às 12h Local: Mosaico, Rua Miguel Tostes n° 230, Bairro Rio Branco, Porto Alegre. Informações sobre inscrições através do telefone 3346.4236. As vagas são limitadas. Ana Laura Giongo p/equipe da Mosaico 6 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 Gerson Smiech Pinho N o filme “Abaixo o amor”, a escritora feminista Barbara Novak abala Nova York, no início da década de 60, com a publicação de um bestseller em que aconselha as mulheres a dizerem “não” ao amor e “sim” à carreira, ao poder e ao sexo. No desenrolar da história, somos surpreendidos pelas verdadeiras intenções da personagem: era uma apaixonada inveterada que havia procurado a fama apenas como um meio para conquistar o amor de seu antigo chefe. Esta bem-humorada comédia romântica pode servir de ponto de partida para expressar uma das questões que tem sido levantadas pela discussão dos três textos de Freud reunidos sob o título “Contribuições à psicologia do amor”. Até que ponto as diversas mudanças na posição de homens e mulheres, processadas na cultura ao longo do último século, implicam em alguma modificação efetiva naquilo que foi estabelecido por Freud sobre a vida amorosa, nestes artigos? À primeira vista, o filme parece afirmar a permanência de certas questões, independente das mudanças do tempo. Mesmo com o surgimento da pílula e do feminismo, o cerne da vida amorosa de homens e mulheres aconteceria mais ou menos da mesma maneira, já que tudo o que a feminista durona fazia era em nome do amor que tentava escamotear. Porém, o final da história parece assinalar o surgimento de algo novo. Após ter seu segredo revelado, Barbara constata ter sido bem sucedida em seu plano: seu exchefe realmente se apaixona por ela. Mas, ela descobre também que, após o sucesso como escritora, sente-se uma nova mulher. Algo se desloca na posição dos personagens e, agora, é ele quem passa a se interrogar sobre o tipo de homem que necessita ser para poder estar ao lado dessa “nova mulher”. No presente escrito, tomando essas questões, procuro interrogar a atualidade dos conceitos e idéias propostos por Freud em suas “Contribui- C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 7 SEÇÃO TEMÁTICA ções à psicologia do amor”, coletânea composta pelos seguintes títulos: “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” (1910), “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor” (1912) e “O tabu da virgindade” (1918). Este conjunto de artigos contém uma extensa análise do caminho percorrido por ambos os sexos na organização da vida sexual e refletem, sem dúvida, um dos momentos mais fecundos da produção freudiana em relação a esta questão. Vou procurar centrar minhas reflexões nas proposições de Freud acerca do tipo de escolha amorosa feita pelos homens, principalmente nos dois primeiros artigos desta trilogia e num texto posterior, “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914), em que o assunto é retomado. O TERCEIRO (PREJUDICADO?) Segundo Jones (1989), a intenção de escrever um ensaio ou um livro sobre “A vida amorosa do homem” foi comunicada pela primeira vez por Freud em uma reunião da Sociedade Psicanalítica de Viena no final de 1906. Esta intenção se concretizaria somente quatro anos mais tarde, com a publicação de “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens”. Como o título indica, neste artigo, Freud aborda as condições necessárias ao amor em um tipo particular de escolha de objeto que ocorre, principalmente, nos homens. Enumera duas condições do objeto para que possa ser eleito: a necessidade de existir uma terceira pessoa prejudicada com o relacionamento e a preferência por mulheres cuja fidelidade é “duvidosa”. Já o comportamento do amante que faz esse tipo de escolha se caracteriza pela alta valorização do objeto amoroso, o caráter compulsivo com que o mesmo é abordado, o estabelecimento de uma série de relacionamentos sucessivos e a ânsia em “salvar” a mulher amada. Segundo Freud, todas estas características tem como origem a fixação infantil na relação edípica. Em seu artigo, Freud situa a figura do “terceiro prejudicado”, principalmente, em uma posição de rivalidade para com o sujeito. O que pensar quando este terceiro elemento passa a ter um lugar consentido em um relacionamento? Esta situação, improvável na época de Freud, não é rara nos 8 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 PINHO, G. S. Sobre a vida amorosa... dias de hoje. Lembro de situações, na clínica, nas quais homens que experimentavam “relações abertas” falavam da especial curiosidade que sentiam em saber a respeito dos atributos físicos e o desempenho sexual dos outros parceiros de suas companheiras. A comparação das “medidas” indica que um tanto de rivalidade ainda persiste. Porém, o fato de que a outra relação seja permitida parece deslocar a idéia do prejuízo para outra, mais ligada ao benefício concedido a todos os integrantes do triângulo amoroso, em nome de uma suposta “liberdade sexual”. Chemama (2002) refere que, principalmente durante as décadas de 60 e 70, proliferaram relacionamentos que propunham dar ao terceiro eventual um lugar lícito, previsto na própria constituição do casal. Na medida em que esta ideologia da liberação era proposta como ideal, surgia o imperativo de incluir outros parceiros no relacionamento com a conseqüente proibição em sentir qualquer ciúme em relação aos mesmos. No lugar de uma “lógica do terceiro excluído”, ganhava terreno uma “ideologia do terceiro incluído”. Ao interrogar essas ideologias, esse autor afirma que, à primeira vista, a proposição de Freud, em seu artigo de 1910, parece distante das mesmas, pois, ali, descreve o caso de homens que só podem amar na rivalidade. Porém, é possível aproximá-las, ao enfatizar não a rivalidade com o terceiro, e sim a obrigação de deixar-lhe um lugar. Chemama (2002) aborda esta questão tomando a trilogia “As leis da hospitalidade”, do escritor Pierre Lossowski: obra na qual é retratado o fantasma de alguns homens que consiste em “emprestar” sua esposa a outros homens. Independente do lugar que o sujeito venha a ocupar nesse fantasma, importa situar no mesmo a presença de um lugar reservado ao terceiro no laço conjugal. Em todos estes casos, temos o terceiro elemento como presença necessária para que a relação aconteça. Assim, torna-se possível afirmar que a ideologia da liberação sexual, que teve seu apogeu três ou quatro décadas atrás, tem a mesma base de sustentação subjetiva que o comportamento do tipo masculino descrito por Freud em “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens”. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 9 SEÇÃO TEMÁTICA PINHO, G. S. Sobre a vida amorosa... AMOR E DESEJO Se, no primeiro artigo das “Contribuições à psicologia do amor”, Freud limita sua abordagem a um tipo específico de escolha amorosa dos homens, no segundo, avança em suas proposições a respeito da vida erótica masculina em geral ao abordar o problema da impotência psíquica. Sob o título “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”, afirma que a impotência está vinculada à dificuldade em conjugar, em um mesmo objeto duas diferentes correntes – a amorosa e a sensual. Para que a corrente sensual possa ser colocada em cena, é necessário que o objeto não seja investido pela corrente amorosa, já que esta última tem sua origem associada a objetos incestuosos, nos primeiros cuidados da criança exercidos pelos pais. Assim, as duas correntes em jogo são impedidas de investir num mesmo objeto; se um objeto amoroso é abordado sexualmente, surge o sintoma da impotência. A estratégia para sustentar esta divisão é a depreciação do objeto investido pela corrente sensual, já que o investimento pela corrente amorosa sempre implica na valorização do mesmo. Deixando de lado o tema da impotência, Freud conclui com a idéia de que a divisão entre um objeto amoroso valorizado e um objeto sexual depreciado faz parte da vida sexual do homem civilizado em geral, o qual expressa respeito e valorização pela mulher amada, enquanto deprecia a mulher desejada. Na clínica, encontramos algumas situações que remetem diretamente ao texto freudiano, com modificações referentes ao contexto cultural atual. Se, na época de Freud, a valorização e o respeito por uma mulher estavam relacionados a seu lugar de esposa e mãe e a sua “integridade” sexual, hoje, outros atributos ocupam esse lugar. Por exemplo, um paciente queixava-se do mais absoluto desinteresse sexual por sua esposa, a qual julgava “perfeita”: era extremamente bela, com o corpo malhado, inteligente e muito bem sucedida profissionalmente. Esta personagem impecável parece ter pouco a ver com a “santa”, devota ao lar e aos filhos, do tempo de Freud. Porém, a impotência diante dela denuncia o parentesco com a mesma figura materna de outrora. Pommier (1992) afirma que a divisão assinalada por Freud entre objeto de amor e objeto de desejo nos homens é um caso particular de uma clivagem inevitável entre o amor e o desejo, estrutural e constitutiva da própria sexualidade. Sem esta clivagem, ou seja, sem uma pitada de depreciação, a vida erótica ficaria inviabilizada. Esta separação tem sua origem na forte ligação do desejo sexual com sua “irmã”, a perversão, que se sustentam no anonimato e na impessoalidade, pois “o parceiro da fantasia sexual, da mesma forma que o pai na perversão, não tem nome” (Pommier, 1992, p. 157). Na neurose, sai-se do anonimato e o interesse é dirigido a uma pessoa a quem se dedica afeição e amor. É possível articular o desejo sexual em sua impessoalidade ao interesse por uma pessoa, registrado no amor? Segundo Pommier (1992), a clivagem é a regra geral e é inevitável, mesmo que exista um único parceiro. “A partir do momento em que o amado sai da impessoalidade, a sexualidade se retrai e fica por trás de um véu, numa obscuridade onde é preciso ir a seu encontro de olhos fechados, com a luz apagada, para que o duplo erótico possa novamente se animar.(...) A clivagem é inevitável, e o desejo só se resguarda do amor graças a diferentes processos que separam a amada dela mesma, dissociando-a entre sua face noturna e aquilo que ela deixa surgir à luz do dia” (Pommier, 1992, p. 158). Então, como afirmamos acima, algo da ordem da depreciação e do anonimato sempre entram em jogo no erotismo, na medida em que a divisão entre amor e desejo é estrutural e necessária para a atividade sexual. No contexto cultural atual, em que ponto poderíamos situar esta depreciação? Levantar esta questão na época de Freud teria muito pouco sentido, já que a restrição moral imposta a vida sexual acarretava a imediata divisão entre as mulheres “para casar” e aquelas de vida “fácil”, por exemplo. Em uma época como a nossa, de banalização, em que tudo é mostrado, tudo é explícito, o que seria passível de depreciação? Melman (2003) afirma que um dos grandes traços da mutação cultural que vivemos, hoje, é que aquilo que nos parecia ser demais, a ser rejeitado, excessivo, agora é o normal. Segundo esse autor, em nossa cultura, há uma presença crescente de representações do objeto a, ligada à ideologia liberal que ao “nos forçar ao gozo, acarreta obrigatoriamente a modificação moral que consiste em acharmos bom o que outrora era mau, e que era preciso rejeitar” (Melman, 2003, p. 86). Nessa C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 10 11 SEÇÃO TEMÁTICA cultura do excesso, da visibilidade, que almeja tudo representar, que espaço resta àquilo que, ao se manter encoberto, não-visível, não-representável, poderia manter viva a hiância necessária ao desejo? PINHO, G. S. Sobre a vida amorosa... SOBRE O NARCISISMO Entre a publicação do primeiro texto das “Contribuições à psicologia do amor”, em 1910, e do último deles, em 1918, temos um intervalo que recobre praticamente o tempo de uma década – momento da elaboração freudiana que é chamado por Lacan (1983) de “período intermediário”. Este período sucede a experiência inaugural, em que são estabelecidas as primeiras idéias a respeito do inconsciente, e antecede a formulação da teoria das três instâncias, a partir de 1920. É um momento de impasses clínicos e teóricos que irão conduzir Freud a reformulações importantes em sua teoria. Um dos conceitos centrais desse tempo de elaboração, fundamental para compreender as modificações posteriores, é a noção de narcisismo. Apesar de Freud não abordar diretamente o tema do narcisismo nos três artigos em questão, assinalo sua importância porque sua formulação é contemporânea a eles e perpassa as questões que Freud ali trabalha. Se a noção de narcisismo vinha sendo elaborada paralelamente aos dois primeiros desses artigos, Freud só vai articulá-la de forma direta às questões neles trabalhadas em “Introdução ao narcisismo” (1914). Nesse texto, um dos temas através dos quais aborda o estudo do narcisismo é a vida erótica e suas diferenciações no homem e na mulher. Ali, afirma que as primeiras escolhas de objeto sexual das crianças derivam de suas primeiras experiências de satisfação, relacionadas às experiências vitais que servem à finalidade de autopreservação. As pulsões sexuais estão sempre ligadas, de início, à satisfação das pulsões do eu. A partir daí, teríamos duas possibilidades. Se a escolha objetal toma a mãe ou quem quer que a substitua como modelo, é denominada como escolha de “tipo anaclítico” ou “de ligação”. Se, ao invés da mãe, o próprio eu é tomado como modelo de objeto amoroso, temos um tipo de escolha objetal narcisista. Mesmo que ambos os tipos de escolha objetal estejam abertos a qualquer indivíduo, Freud afir- ma que uma comparação entre os sexos masculino e feminino indica que existem diferenças fundamentais entre eles. O amor do tipo de ligação é característico dos indivíduos do sexo masculino. Ele exibe a acentuada supervalorização sexual que se origina do narcisismo original da criança, correspondendo assim a uma transferência desse narcisismo para o objeto sexual. Já o tipo narcisista, é característico do sexo feminino. Na verdade, ambas as escolhas são fundadas no narcisismo primário; o que varia é se o modelo amoroso é tomado do lado da própria criança ou do lado da mãe. Poderíamos pensar, hoje, em alguma modificação nesta proposta de Freud quanto a relação entre o tipo de escolha de objeto e a diferença sexual? Muito recentemente, a mídia tem nos apresentado o surgimento de um novo tipo de homem, apelidado com o termo “metrosexual” – união das palavras metrópole e sexual, criado pelo jornalista americano Mark Simpson para definir um tipo de consumidor específico. São homens heterossexuais de 25 a 45 anos, com alto poder aquisitivo, urbanos, preocupados com a aparência, que gastam com roupas de grife, pilotam carros velozes, consumidores de cremes anti-rugas, tratamentos de beleza e cirurgias plásticas. Dois ícones desse tipo são o ator Brad Pitt e o atacante inglês David Beckham. Enquanto Brad Pitt planeja por semanas a posição exata de cada fio de seu cabelo “despenteado”, Beckham pinta as unhas, muda o corte e a cor do cabelo como quem troca de camisa no final do jogo, gasta milhares de libras com produtos de beleza e confessou já ter usado algumas vezes as calcinhas da mulher, a ex-Spice Girl Victoria. O termo metrosexual delimita um “tipo masculino” cada vez mais presente nas últimas décadas, mas que difere substancialmente daquele que organiza a escolha de objeto de tipo anaclítico, descrita por Freud em seu artigo. Aproxima-se muito mais da escolha de tipo narcísica. Ao tomar a figura do metrosexual como ideal masculino da atualidade, poderíamos pensar em uma maior flexibilização no modo como são feitas as escolhas de objeto por homens e mulheres do que aquela do tempo de Freud? Ou, ao contrário, teríamos uma tendência de ambos os sexos em direção a escolha narcísica, em detrimento da escolha anaclítica? Neste último caso, qual C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 12 13 SEÇÃO TEMÁTICA seria o destino da escolha de objeto considerada por Freud como tipicamente masculina? Enquanto escrevia este texto, me deparei com uma notícia que, inevitavelmente, me fez pensar no lugar reservado ao masculino no porvir de nossa cultura. Em um número bastante recente da revista “Isto É”, lemos o seguinte: “Um dogma da ciência na área da reprodução foi quebrado na quarta-feira 21 (de abril de 2004). Desde que o mundo é mundo, acreditava-se ser impossível o nascimento de um mamífero sem a presença do sexo masculino no processo de fecundação.” A reportagem prossegue com o relato, originalmente publicado na revista britânica Nature, do nascimento de Kaguya, uma fêmea de camundongo produzida por partenogênese. Isso significa que essa camundonga, fabricada por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Agricultura de Tóquio, tem duas mães e nenhum pai, tendo sido gerada sem a presença de espermatozóide. Se os bancos de sêmen já haviam reduzido o lugar paterno ao de um produtor de esperma, a reportagem mencionada parece indicar um novo “avanço” em relação às tecnologias de reprodução. Resta a questão sobre as modalidades de mal-estar que estas novíssimas conquistas no campo da ciência e modificações no plano da cultura venham a produzir. Questões que se mantém como importantes pontos a serem interrogados por nosso trabalho de escuta. PINHO, G. S. Sobre a vida amorosa... ISTO É. Nasce a camundonga Kaguya, a verdadeira filha da mãe. 28 abr. 2004, nº 1803. JONES, E. A vida e a obra de Sigmund Freud. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 1989. LACAN, J. O seminário, livro 1 – os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983. MELMAN, C. Novas formas clínicas no início do terceiro milênio. Porto Alegre: CMC editora, 2003. POMMIER, G. A ordem sexual. Perversão, desejo e gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CHEMAMA, R. Elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano. Porto Alegre: CMC editora, 2002. FOLHA ON LINE, Mercado “descobre” o homem vaidoso. 20 jul. 2003. FREUD, S. Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (1910). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. _________ Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (1912). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. _________ Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. _________ O tabu da virgindade (1918). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. 14 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 15 SEÇÃO TEMÁTICA OLIVA, R. S. E NUNES, O. A. W. Tabus no corpo. TABUS NO CORPO Rossana Stella Oliva Otávio Augusto Winck Nunes U ma das questões que mais intriga ao lermos os textos de Freud reunidos sob o subtítulo “Contribuições à Psicologia do Amor”1 é saber se seus pressupostos são atuais ou se são textos datados. Parece-nos que, obviamente, algumas reflexões ainda permanecem vigentes, enquanto outras já ultrapassaram, em muito, seu prazo de validade. Mesmo assim, em relação às idéias que poderíamos considerar datadas, uma nova discussão pode relançá-las dentro de uma outra contextualização, tornando-as, deste modo, atuais. Uma dessas discussões, por exemplo, poderia ser feita sobre o texto “O Tabu da Virgindade”, que data de 1917, publicado em 1918, num momento diferente da obra freudiana em relação aos outros dois textos integrantes desta série. Nele, defende a idéia de que a mulher, em geral, desenvolve uma agressividade direcionada ao homem que a desvirginou. Isso aconteceria, numa das vertentes exploradas pelo autor, pela eclosão de uma injúria narcísica resultante da destruição de um órgão corporal hipervalorizado culturalmente, já que a perda da virgindade levaria a mulher à diminuição do seu valor sexual na sociedade. Não seria preciso nos estendermos em demasia na análise desta tese, pois a discussão e a reordenação dos costumes já avançaram o suficiente para mudar a situação e considerá-la sem vigência – a preservação da virgindade – no que diz respeito ao nosso tempo. Não obstante, se no início do século passado, situar na virgindade um tabu foi uma interpretação necessária para o trabalho freudiano, poderíamos, ainda, localizar no corpo outros tabus, por certo, modernizados. Afinal, do corpo não nos livramos. 1 Os textos reunidos por Freud em “Contribuições à psicologia do amor” são: “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” (1910); “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor” (1912); “O tabu da virgindade” (1918[1917]). 16 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 Referimo-nos aos excessos, que estão na ordem do dia, para transformar o corpo em modelo de perfeição, tanto pelo seu valor estético, quanto pelo seu funcionamento. Há cem anos, o corpo virgem e intocado de uma mulher era o ideal cultuado. Parece-nos que, atualmente, o corpo (tanto do homem quanto da mulher) quanto mais mexido e trabalhado, mais próximo estará da excelência, tal como a virgindade era noutros tempos, ou seja, mais valorizado o corpo será. O ideal da cultura, como sugerimos, foi se deslocando da virgindade para o corpo perfeito, sendo que este pode, inclusive, já ter sido maculado. De uma parte mínima do corpo, o hímen, para o que representaria a totalidade imaginária do corpo, o que é interditado agora parece estar localizado numa depreciação libidinal do corpo, na medida que há uma hipervalorização dele, o que é acentuando, ainda mais, com o exibicionismo do corpo em todas as suas dimensões. Neste sentido, gostaríamos de pensar quais as conseqüências psíquicas na vida erótica dos sexos, que a ruptura com este ideal tão caro à época vitoriana – o tabu da virgindade – acarretou. Sabemos que em relação aos ideais a assimilação não se dá de maneira hegemônica, é necessário fazer uma contextualização. De qualquer forma, essa diferença acarretou mudanças no processo de subjetivação e nas vicissitudes da pulsão sexual. Sabemos da importância da sublimação para a vida psíquica. Entre todos os destinos pulsionais, talvez seja o que mais favoreça a cultura e o sujeito, provando mais uma vez o entrelaçamento indissociável entre um e outro. Dos benefícios para o sujeito podemos contar com a satisfação parcial da pulsão sexual, já que é impossível que ela se esgote em strictu senso, pelas razões do objeto, pois ele é sempre parcial, e por ser uma konstante Kraft. A cultura aproveitaria a produção individual que é a conseqüência da sublimação. Esta produção deverá interessar o laço social, na medida em que são os ideais de uma época que incitam o rumo da sublimação, apontando as direções que ela poderá tomar. Evidentemente, existem outros destinos pulsionais, como por exemplo o próprio recalcamento, que incide na cultura de uma outra maneira. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 17 SEÇÃO TEMÁTICA Nossa proposta, é começarmos a pensar que destino pulsional sublimatório seria possível hoje, já que nos ideais de nossa época – entre eles, que não há nenhuma verdade que nos transcenda, seja ela de que ordem for – a idéia de que tudo começa e termina em nós é mais atual do que nunca. Quais as conseqüências disto? Retomando o exemplo do processo de sublimação e no que ele deve consistir, entendemos que a sublimação é uma forma de satisfação da pulsão sexual, realizada de forma não sexual. Queremos dizer com isso que a libido é desviada do objeto que traria a satisfação sexual (segundo a fantasia de cada um) para um outro não sexual, mas valorizado socialmente. Aliás este é o pré-requisito para satisfação. Como indica J. D. Nasio, é pela intervenção do eu narcísico que esta troca de objeto produz satisfação: “...uma vez iniciado o processo, o impulso sublimado desliga-se do ideal e retorna em direção ao próprio eu, dando lugar a um gozo narcísico”. 2 Isto só é possível devido à plasticidade das pulsões que podem substituir umas às outras, canalizando a intensidade para que se ofereça em substituição àquela que não pode ser satisfeita por exigências da censura. Retornando a possibilidade de sublimação na atualidade, e tendo o ideal como incitador do processo, pensamos que um dos ideais mais caros de nossa atualidade é o propalado consumo, a aquisição de objetos. A cultura do corpo perfeito tanto esteticamente quanto nas questões de saúde, como dissemos anteriormente, entraria na mesma lógica, inclusive, podemos transformá-lo e pagar pelos serviços prestados em suaves prestações. Não pensamos que estes ideais sejam melhores ou piores que o da virgindade, que, nos parece, apontava para a sustentação do poder patriarcal e da família que ameaçava dissolver-se3, mas que a única vantagem é que apontava para algo fora do sujeito. Quando se fala de corpo estética e saudavelmente perfeito, como seria o processo? A libido, ao se encaminhar para o objeto sexual, deparar-se 2 3 OLIVA, R. S. E NUNES, O. A. W. Tabus no corpo. com a censura, desvia-se deste objeto e retorna agora para o corpo, dessexualizado. O corpo como início, meio e fim. Bem, dessa constatação, talvez, seja possível retirar conseqüências: pode-se entender porquê, apesar do aumento fantástico do número de plásticas e seu correspondente “aumente seu pênis”, não é exatamente o exercício aprimorado da sexualidade que está em jogo, mas uma convocatória do dar-se a ver, como corroboração necessária para que o gozo narcísico aconteça. Seria isto a geração de uma sociedade mais histérica, uma vez que a obra – conseqüência da sublimação – para o laço social não precisa ser utilitária, basta que simbolicamente reproduza o valor do que ela mesma valoriza? Poderíamos compreender, igualmente, que este ideal, que confere pouca exterioridade ao sujeito mas que, sobretudo, em nada transcende a ele, provoque um empobrecimento na cadeia simbólica, propiciando menos recursos para responder e para lidar inclusive com o pulsional. E então não estaríamos diante de uma sociedade mais propensa ao acting e a depressão? A tristeza que advém deste fato é, sobretudo, porque isso nos impede de sonhar. Nasio, J.D. “Os 7 conceitos cruciais da psicanálise”. Jorge Zahar Editor (1995) Conforme prefácio de M. Rita Kehl – “A necessidade da neurose obsessiva”. 18 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 19 SEÇÃO TEMÁTICA KESSLER, C. H. Acercamentos... ACERCAMENTOS ÀS ‘PSICOLOGIAS DO AMOR’ trecho acima é uma pequena referência à história de Salomé que, pelo que se conta, teria feito decapitar João Batista, por este não se deixar seduzir. Oscar Wilde, irlandês nascido no mesmo ano que Freud, mas que ‘encerrou seus trabalhos’ quando recém se lançara “A Interpretação dos Sonhos”, escreveu uma peça em torno desta personagem. O fragmento que coloquei acima situa – além da interessante assonância na língua francesa na qual ele escreveu esta peça – a posição do escritor quanto a dois temas centrais constitutivos do campo da psicanálise. Curiosamente, um deles foi objeto de exame no primeiro “Relendo Freud” (quando nem tinha ainda sido batizado com este nome). Naquela época, o “além do princípio do prazer” me parecia o mais complexo e decisivo ponto de trabalho em psicanálise. O outro tema, que vem proposto nestes pequenos escritos de Freud que agora escolhemos trabalhar, pode também nos indicar tanto uma direção para nossos trabalhos, quanto alertar para a dimensão da empreitada. Uma temática que se impôs, durante o trabalho do Cartel preparatório ao próximo encontro “Relendo Freud” deste ano – que como todos sabem tomará os três textos reunidos sob o título de “Contribuições à Psicologia do Amor” – foi a respeito de haver ou não uma subjetivação estruturada independentemente das circunstâncias de tempo e lugar, ou se estas circunstâncias incidiriam substancialmente nesta constituição. Isto foi evidenciado nos relatos dos encontros do Cartel, publicados em nossos correios, tanto o impresso quanto o eletrônico. Em função dos textos abordados, isto surgiu particularmente no que concerne aos campos amoroso e sexual. Parece que encontramos aqui um ponto latente daquilo que está na base do que se consagrou como sendo a produção característica de nossa instituição. Assim, se partimos da distinção freudiana entre masculino e feminino, passando por Lacan e suas posições de ‘amante’ e ‘amado’ do Seminário 8; ou ainda sua elaboração das fórmulas da sexuação, todos estes elementos podem apontar para o estabelecimento de posições subjetivas e estruturas constitucionais, independentemente de fatores contextuais. Mas também podemos nos remeter às inúmeras produções sobre o sujeito contemporâneo, laço ou sintoma social, partindo da proposição do ‘inconsciente como discurso do Outro’, apontando, então, para a necessária consideração do sujeito como constituído desde os mesmos fatores contextuais, o que pode ir até uma espécie de plasticidade radical do sujeito, singular e moldado conforme os caprichos do momento em que se viva. Pode-se fazer de conta que não há aqui tensão ou contradição, ou mesmo adotar alguma “solução de compromisso”, mas pode-se também levar estes dois princípios a um antagonismo. Parece uma boa hora para fazer a questão trabalhar. Até aqui a manutenção desta em suspensão já produziu o seu efeito interessante: possibilitou a consolidação de uma posição que já rendeu seus bons frutos, mas sobre a qual poderíamos agora tentar avançar. Talvez nos ajude, colocadas estas questões, retomar o velho e bom Freud. Visitando o texto freudiano, em acordo com o espírito do nosso encontro anual, ver o que isso nos indica. Buscar nos próprios textos escolhidos, elementos para alimentar este debate. Caso alguém não os tenha presente, basta revê-los rapidamente que saltarão aos seus olhos as tantas referências a elementos culturais, bem como outras que remetem ao que teria a ver com a constituição parcial, tanto dos objetos, quanto das próprias pulsões. Sempre é interessante perceber o horizonte riquíssimo, infindável, de questões e linhas de trabalho que se descortina em um exame mais aproximado do texto freudiano (e aqui pouco importa se é com a velha lupa ou o moderno zoom). Em “Um tipo especial de escolha de objeto”, o estruturante gira em torno do conflito edípico. Segundo o editor da tradução inglesa da obra C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 Carlos Henrique Kessler “...o mistério do amor é muito maior que o mistério da morte.” O. Wilde O 20 21 SEÇÃO TEMÁTICA KESSLER, C. H. Acercamentos... freudiana, seria este texto o primeiro lugar onde a referência ao “complexo de Édipo” ocorreu, curiosamente apontando para sua reedição na “pré-puberdade”. A “escolha especial” em questão, como é sabido, remete a algumas pré-condições. Uma delas é que a atração do homem se dá por uma mulher já comprometida, implicando uma condição de rivalidade. Em segundo lugar, com a posteriormente famosa “divisão na esfera do amor”: de um lado a atração por uma mulher de alguma forma rebaixada, de má reputação quanto a sua fidelidade; seria endereçado a outra mulher “de boa reputação” um laço elevado, afetuoso, mas sem atração. Aqui estaríamos frente à condição do ciúme. Uma terceira derivação desta escolha de objeto é a ânsia por ‘salvar’ a mulher amada, o que mistura os dois elementos anteriores. E então a questão retorna, pois – se isto não impede de percebermos que opera uma estrutura onde pode predominar o laço entre dois (rivais), ou onde o que rege é o lugar de um ou outro, perante um terceiro (ciúme) – em que medida seria viável tomar o que, por exemplo, no final do século XIX implicaria “boa” ou “má” reputação, no início do XXI? A clínica aqui pode auxiliar, e é fato que se encontram inúmeros relacionamentos comportados pelo modelo indicado por Freud, quer gerem demandas de tratamento ou não. Mas isso não é suficiente, pois sempre podemos pensar em um efeito residual, mas não mais prevalente, ou que, no mínimo, não opere mais com a mesma contundência de outro tempo. Ainda encontramos um outro elemento importante, que também será explorado no texto seguinte, que remeteria a uma condição estrutural: trata-se da constituição de um objeto primordial no inconsciente, insubstituível, o que só pode buscar ser compensado por uma série infindável. “Tendência universal à depreciação na esfera do amor” parece ser o texto mais rico. Freud o dividiu em três pequenos capítulos e não considero que ele fizesse, seja divisões, seja escolha de títulos, por simples capricho, geralmente percebem-se claros motivos para isto. Vai aqui abordar a “impotência psíquica”, para o que, após seguir com sua elaboração sobre a divisão das correntes afetiva e sensual, propõe que o apagamento, exatamente daquilo que possa velar o traço incestuoso responsável pela atração, é que levaria a condição de impotência. Para isso, a depreciação, retomada aqui no título, cumpriria sua função de defesa. Nada mais estrutural/estruturante que a condição de interdição incestuosa. Isso não seria um dos legados decisivos que Lacan, via Levi-Strauss, nos deixou? Mas a eventual certeza que aqui nos confortaria é complexificada na seqüência. Freud vai abordar o paralelo feminino da impotência: a frigidez. De saída já precisamos destacar a sobreposição entre homem/masculino, mulher/feminino. Isso contraria outros momentos de sua produção, nos quais ele vai convictamente propor como ”definição operacional”, para o masculino, a condição de atividade; enquanto para o feminino, atribui a passividade. Quando faz assim, Freud não deixa dúvidas, indicando que a raiz destas definições – provocativamente aos estudiosos do gênero, podemos defender que Freud é um dos precursores neste campo – não concernem ao biológico, mas ao cultural, sendo que para ele tanto homens quanto mulheres podem se encontrar em uma ou outra destas condições. Mas, voltando, a condição de frigidez remeteria para a componente do tempero amoroso feminino – a proibição – como sendo a correspondente daquilo que o elemento de rebaixamento é para os homens. Teríamos uma conexão quase behaviorista, uma vez que a proibitividade derivaria da componente (também explorada no texto seguinte) que remete à condição de fidelidade/tabu da virgindade. A mulher devendo “guardar” sua atividade sexual para depois do casamento, não esqueceria dessa proibição inicial como elemento constitutivo de seu erotismo. Novamente não podemos dizer que o fantasma/fantasia de tipo “bela da tarde” tenha desaparecido do horizonte contemporâneo, mas de qualquer modo, dificilmente os termos que são os que alimentam a reflexão freudiana são os que encontramos nos nossos dias, até por conseqüência, diga-se de passagem, destes próprios escritos. A demora, entre a maturidade sexual e seu exercício, não é mais um elemento indispensável. Justamente aqui encontramos, no terceiro capítulo do texto o momento “mais explícito” relativo a questão que estamos “perseguindo”. Segundo a velha tradução da Imago: “...se não se limita a liberdade sexual desde o início, o resultado não é melhor. Pode-se verificar, facilmente, que o valor C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 22 23 SEÇÃO TEMÁTICA KESSLER, C. H. Acercamentos... psíquico das necessidades eróticas se reduz, tão logo se tornem fáceis suas satisfações. Para intensificar a libido, se requer um obstáculo; e onde as resistências naturais à satisfação não forem suficientes, o homem sempre ergueu outros, convencionais, a fim de poder gozar o amor.” Temos aqui talvez uma boa pista para pensar em uma combinação necessária entre ‘estrutura atemporal’ e as soluções que até em função disso cada época tem que se arranjar por fabricar. (A seqüência inclusive traz uma afirmação extremamente contundente e interessante: “Isto se aplica tanto aos indivíduos como às nações”). Mas tenho claro que para muitos isso não resolveria o assunto. Dando seqüência, então, vemos que Freud vai abordar o ascetismo (o que bem poderia levar a tentação de estabelecer o paralelo entre a “não exigência” atual e a emergência dos fundamentalismos religiosos nas suas diversas versões). Condição do dinamismo cultural, então. Mas o texto dá seqüência ao contrapondo estrutural, ao discorrer sobre o que claramente podemos ler com Lacan como sendo a caracterização de objeto e pulsão parcial. E por aí segue, abordando a impossibilidade de harmonizar pulsão e cultura, chegando à sublimação como sendo a solução civilizatória. Em torno de “O tabu da virgindade”, imediatamente o que ocorre é interrogar da vigência ou não deste em nossos dias. Ao longo dos anos, acompanhamos o movimento da sua aparente entrada em falência. Este tabu caiu, não funciona mais. A ‘revolução sexual’ preconizada por Reich ocorreu, o que não quer dizer que isto tenha trazido a revolução social (deste ponto de vista, é uma das teses que o curso da história decisivamente demonstrou estar equivocada). A sequência necessária desta consideração seria pensar sobre o destino do que operava em função deste tabu. Ora, novamente somos remetidos à tensão entre o que poderia ser devido a uma estrutura do sujeito e o que seria atribuível ao tempo em que se vive. Um primeiro exame das considerações do texto sugere-o como extremamente datado, propondo a condição da mulher como em um estado de sujeição, objeto do desejo do homem. Mas não é isso o que seríamos levados a pensar a partir das “fórmulas da sexuação” de Lacan? Logo podemos também notar que Freud mesmo já constata a seu tempo uma mudança nesta condição de sujeição: ela estaria ocorrendo “mais amiúde” também nos homens. Vai fazer um percurso – influenciado por seu trabalho sobre “Totem e tabu” – nos povos primitivos. Mostra-nos assim que também ele estava às voltas com esta questão da existência de possíveis invariantes, o que ele igualmente vai buscar, mais ou menos nesta mesma época, ao tomar instituições milenares (Exército e Igreja Católica) em exame. No caminho que passa pelos povos primitivos, podemos entrever a questão do mistério d’A mulher, pois o que motiva um tabu é o temor de algum perigo desconhecido. A “receita” freudiana poderia indicar ser melhor a fórmula adotada em nossos dias: deveria se evitar um parceiro “que deve ingressar numa vida em comum”, que esteja ligado à experiência do primeiro ato sexual de uma mulher (teríamos aqui ‘resíduos’ daquele fantasma/fantasia no número significativo de ocorrências de gravidez nas primeiras relações sexuais, na ocorrência de incestos e etc..?). Curiosamente, pode-se encontrar uma esperança, talvez a que anime algumas feministas, quando Freud situa os assim chamados “impulsos antigos”, anteriores à escolha de objeto: da inveja do pênis, do complexo de castração. Bem, minha intenção passa longe de resolver esta questão. Se acaso alguém considerar isso cômodo, permito-me divergir. Meu interesse é que o debate continue (que haja debate). PS: Permitam-me um pequeno parênteses. Seria abusado (ou quem sabe ultrapassado?) supor a necessidade de atualização do debate psicanalítico no campo do sexual, a partir da produção de um autor como Foucault, com seus três textos sobre a “história da sexualidade”? Trabalhos por sinal, que marcaram a obra deste autor, a ponto de os dois derradeiros destes textos caracterizarem um “terceiro Foucault”, conforme o que ouvi de alguns de seus estudiosos. Dá para imaginar que Freud, que tanto revisou seus ‘Três ensaios’ – atenção apenas comparável a que ele dedicou à “A interpreção dos sonhos” – ao longo de sua vida, certamente o levaria em consideração. Deixo esta questão apenas posta aqui. Embora muito me intrigue atualmente, transcende o alcance deste trabalho, quem sabe consiga retomá-la a tempo para nosso Congresso. Fecha parênteses. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 24 25 SEÇÃO DEBATES SILVEIRA, E. R. Considerações sobre o lugar... CONSIDERAÇÕES SOBRE O LUGAR DO HOMEM E DO PAI NA TEORIA PSICANALÍTICA E NA CULTURA PATRIARCAL Elaine Rosner Silveira 1 N este momento em que se discute a masculinidade e se sabe que Freud produziu bem mais sobre o feminino, pode ser interessante fazer interlocução com áreas que têm trabalhado sobre isso. Os estudos na área da cultura trabalham a masculinidade e a feminilidade dentro da categoria de gênero. Autores como Bourdieu (1995) e Rosaldo (1995) têm abordado a construção social da diferença genérica homem/mulher e a forma como esta diferença é naturalizada e geralmente justificada a partir das diferenças biológicas entre os sexos. Outros autores relacionam o gênero como uma característica central da sociedade e organizador da vida humana tanto no aspecto social (Rosaldo,1995) como no aspecto psíquico (Kaufman,1997). Badinter (1993) mapeia duas grandes correntes que pesquisam a questão do gênero: o determinismo biológico que considera que os comportamentos se definem em função da biologia e os culturalistas que contestam o papel principal da biologia e dedicam-se a demonstrar a plasticidade humana. Para estes últimos, a masculinidade não é uma essência, ela se ensina e se constrói, além de ser mutável e variável conforme a cultura. Os pesquisadores da cultura em geral (falo mais dos antropólogos) procuram não universalizar afirmações sobre a masculinidade ou feminilidade, mas contextualizá-las no tempo e no espaço para que não sejam naturalizadas e consideradas imutáveis. Em toda cultura, mesmo com múltiplas formas de apresentação, se tem sempre uma referência predominante do que se considera masculino e 1 Mestre em Antropologia Social/UFRGS. 26 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 feminino. E essa referência não muda de uma hora para outra, talvez nem de um século para outro. Ta nto que se diz que tal homem tem um comportamento feminino e isso chama a atenção a ponto de ser citado pelas pessoas, ou que tal mulher é masculina. Nesses casos, houve um certo desvio do que se espera que seja o comportamento esperado para um homem ou para uma mulher. Apesar da multiplicidade, há caracteres comuns associados à masculinidade ou à feminilidade e estes estão ligados ao ser homem e ser mulher. Sabe-se que Freud (1932) deixou em aberto uma circulação do masculino e do feminino entre homens e mulheres. Não colou uma coisa à outra, até porque teorizou a respeito da bissexualidade original humana ou o quanto cada um possui do outro sexo. Mas, nem por isso, deixou de apontar algumas características como mais tipicamente femininas e outras como masculinas. Considerou a atitude passiva, um elevado narcisismo e a necessidade maior de ser amada, bem como o masoquismo como características femininas. E a atitude ativa e de amante, como masculina. Para não tomar estas categorias como universais é interessante ampliar sua contextualização histórico-cultural, utilizando os estudos da cultura. Freud (1925) analisa o real da anatomia corporal e seu efeito sobre o imaginário e o simbólico dos sujeitos homens e mulheres quando aborda as conseqüências psíquicas da diferença sexual anatômica. Não toma a biologia como principal determinante, mas também não recusa seu papel, teoriza sobre seus efeitos na subjetividade. É um modelo metodológico a seguir também na análise da questão da masculinidade. Embora com facilidade se caia numa busca de justificativas, pelo real, para as diferenças simbólicas, se esquece que a própria justificativa já está no registro simbólico e imaginário que ela defende. Faz parte do contexto histórico-cultural em que se encontra. Sendo assim, não podemos negar que ao pensar em masculino inevitavelmente nos vem à mente a figura de homem. E qual é o lugar do homem na cultura patriarcal? Certamente é um lugar de dominância. Assim como o do pai, que também tem um lugar central na cultura, da mesma forma que na teoria de Freud e Lacan. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 27 SEÇÃO DEBATES SILVEIRA, E. R. Considerações sobre o lugar... Na obra de Freud, observa Julien (1997), em todos os casos clínicos, há conflito com o pai. Da mesma forma, ele teoriza o pai em vários textos como em “Totem e Tabu”, “Moisés e o Monoteísmo” e “Leonardo da Vinci”. Em seu pensamento, Freud apresenta três mitos fundadores (Julien,2000), os três relacionados ao pai: o pai Édipo; o pai primitivo de Totem e Tabu e Moisés, fundador de uma nova religião. Lacan também seguiu este caminho dando lugar fundamental ao pai, seja teorizando a função paterna (1956-57), seja ao falar do Nome-do-Pai que amarra os três registros do nó borromeu (1974-75), só para citar dois momentos. Neste último seminário, Lacan diz que não importa se somos ateus ou não, todos cremos em Deus e temos nele a referência que estrutura e ordena a nossa cultura. Então, é válido perguntar por que Deus e o pai têm essa função como estruturadores da subjetividade e da cultura. Na teoria psicanalítica, verificase essa função na prática clínica em geral e em especial de crianças, quando se vê sua necessidade de que ocorra a separação da função materna e a individuação; bem como na clínica da psicose, onde o saber se organiza sem uma referência centralizada como na neurose o faz o Nome-do-Pai. Não se trata de questionar esse lugar fundamental nem sua importância, mas de tentar responder por que é assim. Sempre foi assim em diferentes momentos da história das civilizações e em todas as culturas? Acredito que a resposta aponta para a questão da sociedade patriarcal que tem no mínimo três ou quatro milênios de existência em sua forma absoluta (Badinter, 1986). Segundo esta autora, houve um tempo em que não acontecia a predominância do masculino, embora não se possa afirmar que isso tenha sido universal. Porém, onde isto aconteceu, as mulheres se deixaram despojar pouco a pouco pelos homens e adquiriram, em troca, passividade, dependência e desejos masoquistas. A própria criação de um Deus todo-poderoso é, para a autora, invenção dos homens para fundar e manter o patriarcado. Os homens inventaram Deus para melhor assentar o poder paterno. Antes, na mitologia, as deusas tinham lugar de igualdade com os deuses em relação aos poderes divinos. Aos poucos, a mãe deusa torna-se esposa subalterna e os mitos femininos são ridicularizados e inver- tidos, passando o homem a ocupar seu lugar. A autora demonstra isso examinando registros da cultura indiana, egípcia, lendas mitológicas celtas, religiões pré-islâmicas e os trágicos gregos, entre outros. Faz um percorrido bibliográfico extenso sobre diferentes culturas para fazer suas afirmações. Badinter (1986) refere que o patriarcado na história foi em alguns momentos mais fechado (no século XVIII nas monarquias católicas) ou mais aberto (nos países protestantes) mas que em todas as culturas teve como fundamento o controle da fecundidade e a divisão sexual do trabalho. Sempre utilizou sistemas de representação e valores para justificar a si e à concepção hierarquizada dos sexos. A oposição homem/ mulher sempre se funda em uma mitologia ou teologia. Para a civilização judaico-cristã, Adão foi criado por Deus em partenogênese, não há mulher, esta tem papel secundário, sai do corpo de Adão, o primeiro está mais próximo da imagem de Deus. Os mitos de criação do mundo na sociedade patriarcal dão vantagem ao pai. O sistema patriarcal perdurou tendo como base a assimetria dos sexos e o casamento como significado de troca de mulheres pelos homens, ou seja, a mulher como objeto. As representaçãos sobre as mulheres levavam à idéia de que precisavam ser controladas. Os padres da Idade Média diziam que as mulheres eram fornicadoras insaciávieis, associadas à serpente e Satã. Os teólogos muçulmanos diziam que a mulher era omnissexual, com grande apetite sexual, perigosas e fonte de desordem, por isso o homem deveria dominá-la. No Corão, a mulher fica com ¼ de homem, pois este tem direito a quatro mulheres legítimas, fora as concubinas. A sociedade patriarcal dá dois pesos e duas medidas à relação entre homem e mulher. A relação homem/mulher se inscreve no sistema geral de poder e a derrocada do patriarcado se deu, primeiramente, despojando o pai do divino nos séculos XVIII e XIX, com a separação do soberano do poder divino, a laicização do Estado, a Revolução Francesa e seus ideais de igualdade, fraternidade e liberdade. E, num segundo momento, no século XX, quando diminui a autoridade moral do pai e a exclusividade do poder econômico. Pois, após a segunda guerra, houve grande questionamento dos valores tra- C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 28 29 SEÇÃO DEBATES SILVEIRA, E. R. Considerações sobre o lugar... dicionais (viris) que levaram ao racismo e à discriminação, e a uma ascensão de valores humanistas de respeito pelo outro e não submissão. Nesse contexto, ocorreu a emancipação feminina paulatina, que teve grande incremento com a possibilidade de contracepção nos anos 60 e a ruptura na equivalência entre mulher e mãe. Tendo em vista esta contextualização, pode-se dizer que Freud e Lacan foram grandes leitores ou intérpretes da cultura patriarcal em que viveram, que é, em grande medida, a que ainda vivemos e que vem passando por grandes transformações. Se o pai tem um papel central em suas teorizações, é porque reflete o papel central que tem na cultura onde viveram e clinicaram. Quando associa-se ao feminino ou ao masculino certas características comumente ligadas à mulher ou ao homem, nada mais se faz que reconhecer os aspectos culturais, imaginários e simbólicos relacionados ao real da diferença sexual. Porém, não creio ser possível analisar de forma etérea e separada os aspectos simbólicos, eles se assentam no imaginário que é seu substrato e também no real. A questão é que em todas as épocas sempre houve representações e justificativas imaginárias para a diferença homem/mulher, pois ela minimamente existe no real. E parece que hoje em dia vem se tornando cada vez mais mínima. Mas este é um outro ponto, igualmente instigante, que merece estudos à parte e que outros trabalhos têm abordado com propriedade. _____. A Feminidade. 1932 In: Obras Completas de Sigmund Freud. RJ: Delta, vol. X,1958. JULIEN, Philippe. O Manto de Noé: Ensaio Sobre a Paternidade. Rio de Janeiro: Revinter, 1997. JULIEN, Philippe. Abandonarás teu pai e tua mãe. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000. KAUFMAN, M. “Las Experiencias Contradictorias del Poder entre los Hombres”. Masculinidad/es: poder y Crisis. Ediciones de las Mujeres, Santiago, Isis Internacional, nº 24, 1997. LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 4. A Relação de Objeto. 1956-57.RJ: Jorge Zahar Ed., 1995. ______. Seminário R.S.I. 1974-1975. Fotocópia da APPOA. ROSALDO, Michelle. O Uso e o Abuso da Antropologia: Reflexões sobre o Feminismo e o Entendimento intercultural. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, PPGAS/UFRGS, nº 1, ano 1, 1995. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BADINTER, Elisabeth. Um é o Outro; relações entre homens e mulheres. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. _____. XY: Sobre a Identidade Masculina. RJ: Editora Nova Fronteira, 1993. BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Educação e Realidade, Porto Alegre, vol. 20, nº 2, jul/dez 1995. FREUD, Sigmund. Algumas Consequências Psíquicas das Diferenças Sexuais Anatômicas. 1925. In: Edições Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. RJ: Imago, vol. XIX, 1976. 30 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 31 SEÇÃO DEBATES GOLDENBERG, R. A propósito de um certo... A PROPÓSITO DE UM CERTO DIVÓRCIO ENTRE O PÊNIS E O FALO Ricardo Goldenberg 1) VIAGRA esão e ereção dependem do falo. Mas a sua presença nunca está garantida. Agora existe uma pílula que, agindo sobre o pênis, assegura o cumprimento do mandamento: “não falharás!”. Mesmo nada havendo de errado com a vascularização do órgão ímpar, os homens querem se precaver contra o risco do instrumento não estar à altura da sua função, qual seja, fazer o parceiro gozar (o Wiwimacher do Herbert Graf criança – o Pequeno Hans – é um Lustmacher). “Tomo Viagra para garantir o meu funcionamento com a Fulana”. Depois dessa, venham me falar em Razão Instrumental. A “Fulana” em questão, note-se, é a legítima esposa, por quem meu interlocutor não tem tesão há tempos. A droga assegura, portanto, o cumprimento do dever conjugal, consistindo tal dever num faz-de-conta recíproco: ela finge querer dar e ele, comer. Não forço a interpretação, a mulher já declarou “não sentir nada” e preferir ser poupada (sic) do coito. E ele preferiria não ter que, como ele mesmo disse, go through the motions 1, mas entende que é mau para a sua reputação de macho não confirmar a posse da própria mulher de vez em quando. Já com a amante... Com a amante ele toma por medo de errar na performance. Não ficou broxa uma vez ao dar-se conta que esquecera o remédio? Meu paciente em suma é um viciado em Viagra, a pílula da ereção prêt-à porter. T 2) ORGASMATRON Na outra margem do rio, a tecno-ciência se sai com um eletrodo a ser implantado num lugar xis da medula feminina que, controle remoto mediante, produz um inevitável, incontrolado e automático orgasmo. Vinte mil dólares 1 Inimitável expressão inglesa, literalmente: repassar pelos gestos. 32 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 a implantação, trezentos o chip e o controle remoto. O mítico ponto G finalmente realizado pela tecnologia aplicada à medicina. Sozinha ou acompanhada, durante o coito ou fora dele, basta apertar o botão. Nasce um novo órgão feminino localizado fora do corpo. E o orgasmo enlatado, a melhor ilustração que conheço do gozo do Outro. Já tínhamos o café sem cafeína, a carne sem colesterol, a cerveja sem álcool e agora vem aí o orgasmo sem sexo. Fosse eu amante dela faria questão de ficar com o controle remoto... 3) NÃO HÁ MAIS HOMENS Falava do pênis finalmente separado do falo. Psicanalistas, atentar para a ironia: há mais de quarenta anos repetimos para os estudantes que o pênis não deve ser confundido com o falo que o simboliza – quem simboliza o quê? Vejamos, o órgão viril adquire status simbólico e passa a exercer a função para a qual foi criado pela mãe natureza graças ao falo, mas o falo chama-se assim e está simbolizado por um enorme pênis ereto separado de qualquer corpo (às vezes tem asinhas) precisamente devido ao órgão que um meu amigo batizara, no tempo em que o pinto ainda gozava de um certo cartaz, como “o desbravador” (eram bons tempos aqueles!). Hoje, aparentemente, o órgão ímpar perdeu o brilho imaginário e a marca do significante que lhe conferiam dignidade e garantiam o seu funcionamento e o vemos convertido num reles apêndice de carne, uma tripinha; o rabicho, como dizem na França. Lembro de uma mulher que dizia adorar pau, só lamentava que o homem viesse junto. Um deles me contava ontem que só conseguiu manter a ereção ao ir para a cama com uma moça que o paquerara no dia anterior ao se imaginar estuprando-a amarrada. “Eu nunca broxei com mina nenhuma, mas acho que fiquei inibido por ela ter tomado a iniciativa”, comentou. Há pouco recomendei a uma paciente pegar leve na exigência de ser comida, uma vez que o amante – homem cujo ofício é de reputados garanhões – já reclamara por estar sendo tratado como um objeto. Digamos que perdia o desejo (e o falo) ao sentir-se reduzido ao pênis. Nada há aqui de surpreendente, já que ao passar do querer ao dever o gozo vira persecutório, superegoico, digamos. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 33 SEÇÃO DEBATES CALLIGARIS, C. O casamento gay... Maria Ida Fontenelle me fazia observar que os homens estão produzindo o mesmo discurso das mulheres de antigamente: a queixa de serem tratadas como objetos e só serem procuradas para trepar. Teriam os gêneros (falar em sexos é politicamente incorreto) trocado de lugar? Não é isso que as mulheres declaram, elas dizem: “não há mais homens”. Não há mais homens é a própria mensagem que elas recebem do Outro, de forma invertida. Com efeito, desde as suffragetes, passando pelo women’s lib, as fêmeas insistem em reivindicar a igualdade com os homens. “Ah”, diz o Outro, “querem igualdade? Pois então, toma a igualdade: não há mais homens!” E nada melhor para ilustrar esta demissão masculina segundo olhos femininos que o fenômeno recente de proliferação de casos de neo-lesbianismo. Mulheres que, depois de vários decênios de devotados serviços como esposas e mães descobrem repentinamente o verdadeiro amor... nas mulheres. 4) O PAI É O FALO “Nas mulheres” quer dizer aqui, precisamente, prescindindo do pênis para realizar o falo. Não me parece que estejamos perante uma conversão heterossexual (a blague de Lacan de que heterossexual é quem gosta de mulher, seja qual for o seu sexo): a iluminação do novo amor que anuncia a mudança do discurso. Antes pelo contrário, parece-me um sintoma social revelador desta separação entre o falo e o órgão viril. É menos atração do não-todo que desafio jogado na cara dos que se cadastram do lado do todo: o pai imaginário, cuja inoperância para sustentar o pai simbólico é escancarada desta maneira. E o pai real revela não ser nem o espermatozóide, nem o genitor ou o esposo da mãe (que alguns preferem denominar “pai da realidade”); o pai real revela-se idêntico ao falo simbólico, este produzido pela metáfora paterna a partir da demanda materna real . O falo, enfim, teria deixado de ser patrimônio masculino, se posso dizer assim, para se ter deslocado, graças à tecno-ciência (e agora estou pensando nas técnicas de fertilização in vitro e nos bancos de sêmen), à seara feminina. Podemos sugerir que o famigerado declínio da função paterna de que tanto se fala coincide com este deslocamento real do falo para o lado feminino? 34 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 O CASAMENTO GAY E A VOLTA DA INTOLERÂNCIA 1 Contardo Calligaris N o fim de julho, o papa exortou os políticos católicos a combater qualquer lei que legalize a união de casais homossexuais. Os nãocatólicos, ele acrescentou, deveriam pegar carona com a Igreja de Roma para defender a “lei moral natural”. Quase simultaneamente, o presidente Bush declarou que casamento deve ser entre homem e mulher, embora lembrando que é preciso respeitar as escolhas amorosas de todos. Ele expressava assim a contradição de seu eleitorado, que é cristão e conservador, mas que é também americano, ou seja, não gosta que o Estado se meta na vida privada dos cidadãos. Na semana seguinte, a Igreja Episcopal enfrentou uma ameaça de cisma ao aprovar a nomeação de um bispo assumidamente homossexual. Eu imaginava que esses eventos despertariam debates adormecidos sobre a existência ou não de princípios morais “naturais”, sobre o caráter laico do Estado etc. Aprestava-me a participar quando, no começo de agosto, foram publicados os resultados surpreendentes de uma pesquisa de opinião do instituto Gallup. Resumindo: entre os americanos, houve um repentino declínio da aprovação da “agenda gay”. Em maio passado, 60% dos americanos pensavam que as relações homossexuais deveriam ser legais; hoje, só 48% pensam assim. Desde 1997, uma maioria (crescente) de americanos afirmava que ser gay é “um estilo de vida aceitável”. Hoje essa é a opinião de uma minoria. A queda não vale apenas para as fileiras conservadoras: quase um quarto dos democratas favoráveis à união civil gay mudou de opinião. O que aconteceu? Primeira explicação: a idéia do casamento gay produz uma resistência particular. Por quê? O americano médio divorcia-se sem muita hesitação, 1 Texto publicado originalmente no Jornal Folha de São Paulo em 21/08/2003. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 35 SEÇÃO DEBATES CALLIGARIS, C. O casamento gay... mas, paradoxalmente, mais de 80% dos casais americanos confirmam sua união numa cerimônia religiosa. Ou seja, os casamentos acontecem e quebram-se segundo as variações das paixões e dos desejos, mas ninguém admite. Quase todos preferem continuar concebendo o casamento como sacramento eterno, orientado pelo projeto de criar filhos. Nesse contexto, a idéia do casamento gay (que é sempre efeito de uma escolha afetiva) é incômoda, pois desvenda uma verdade que vale para quase todos os casamentos modernos: eles são instáveis não por acidente, mas por essência, por serem cimentados mais pela precariedade dos sentimentos que por compromissos solenes e procriativos diante de Deus. Segunda explicação. Nos últimos tempos, o estilo de vida gay triunfou na cultura popular americana. O canal de televisão a cabo Bravo propõe, com grande sucesso, o show “Queer Eye for a Straight Guy” (olhar homo para um cara hétero). A cada semana, cinco gays reorganizam a vida de um heterossexual: arrumam sua casa, sua aparência física, suas escolhas de indumentária, suas maneiras, ensinando-lhe “estilo, bom gosto e classe”. Os gays se tornaram alvos privilegiados e explícitos de muitas propagandas por serem, em média, segundo as pesquisas de mercado, consumidores mais abastados e mais requintados que os heterossexuais. Quando a mídia recenseia a vida noturna e os prazeres do momento, as boates e os clubes gays lotam regularmente os primeiros lugares das listas. Em suma, o universo gay está se tornando, na cultura popular, um ideal de hedonismo bem-sucedido: “Eles, sim, têm uma vida boa”. Subentendido: não a gente. Quando, numa proposição que habita a mente do homem da rua, o sujeito é uma terceira pessoa do plural (“eles”), a paranóia nunca está longe. É fácil objetar que há uma grande distância entre o ideal da vida gay, que assombra a cabeça dos heterossexuais, e a realidade do universo gay, que não é tão gaio assim. Além disso, o dito estilo de vida gay concerne a uma minoria de homossexuais, que talvez sejam fascinados pela imagem que lhes é proposta, como um espelho, pelos heterossexuais que os idealizam. Mas não adianta objetar: há uma razão de fundo que alimenta a idealização coletiva do universo gay. Os homossexuais, reprimidos por causa de suas práticas sexuais, só puderam reivindicar respeito e liberdade constituindo-se como grupo definido por sua sexualidade sufocada. Consequência: eles são o único grupo social que deve sua consistência a uma modalidade comum de desejo sexual. A coesão feminista das mulheres, por exemplo, é decidida pelo sexo biológico e pela discriminação comum no trabalho e na vida de família, não por uma preferência sexual. Travestis e transexuais se definem como grupos a partir da experiência comum de um desacordo entre seu sexo biológico e seu gênero, não por uma preferência sexual. Por isso, por serem o único grupo social definido pela forma de seus prazeres, os homossexuais encarnam facilmente, aos olhos dos “normais”, um ideal genérico de prazer sexual: “eles” (“à diferença de nós”) ousam e sabem gozar. É um privilégio duvidoso. Afinal, na Europa de 70 anos atrás, os judeus eram aqueles que, “à diferença da gente”, ousavam e sabiam fazer dinheiro, não é? Quem é idealizado por saber pretensamente, de uma forma ou de outra, aproveitar a vida, mais cedo ou mais tarde, acaba sendo apontado como o responsável por nossas privações. A lógica corre assim: eles sabem gozar, eles têm o prazer que não tenho, eles me privam. A idealização do gozo dos outros é, frequentemente, a antecâmara do ódio e da perseguição. Escuto, nestes dias, aqui no Brasil, vozes pretensamente liberais contra o casamento gay. Comentam: “Eles querem casar? Mas que coisa mais careta! A gente esperava deles que fossem os porta-bandeiras da revolução sexual”. É um jeito velado de dizer: já gozam mais que a gente, agora vão apoderar-se também dos modestos prazeres do lar, os únicos que nos sobram? C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 36 37 RESENHA RESENHA JUGAR LA PALABRA MIGUELEZ, Luis Vicente. Jugar la palabra. Editorial Letra viva. Buenos Aires, 2003. S em dúvida, um livro que provoca. Começa já no título, cuja ambigüidade convida a brincar, a escorregar no jogo do significante , a nos deixar levar pela inter-textualidade entre o castelhano e o português. “Jugar la palabra” não pode ser traduzido como “Brincar com a palavra”, e também pode. Entretanto, “juego” nos remete à “jogo”, aposta, a colocar na roda , assim como em castelhano se fala de “estar jugado” quando se trata de se implicar de maneira definitiva num dos lados do jogo. Tudo isso me suscita o texto de Luis Miguelez. Um estar jugado na sua nítida definição pela psicanálise, numa prática clínica que salta à vista em cada uma das reflexões que, a maneira de uma trama tecida de fios de cores variadas, se estende em quatro grandes momentos. O primeiro, onde desenvolve sobretudo suas reflexões sobre a presença do analista e os modos em que ela pode e precisa se enodar no tecido delicadíssimo de uma analise. Poder estar, saber jogar: condensação de inúmeras indicações que nos dizem, em princípio da matriz de sua formação, e porque não, da apaixonada dedicação à clínica de crianças e adolescentes que marcou o seu início no caminho da psicanálise. O segundo, os Testemunhos Clínicos, onde centra a mira exatamente na experiência que essa clínica lhe trouxe, com especial acento na figura do adolescente e o que esta nos revela acerca do mal-estar contemporâneo. No terceiro, Identidades e Pertenças, transita pelas referencias teóricas e históricas que o constituem como analista, nos levando de mão para pensar junto com Freud, Lacan, Winnicott ,Groddeck e Tausk as questões que remetem á clínica de nosso tempo: o desamparo, a psicossomática, o lugar e a 38 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 constituição da metáfora paterna, ancoradas em ricas e numerosas vinhetas clínicas, próprias e resgatadas dos textos que o orientam no seu caminho. Finalmente, as Reflexões Babelianas nos certificam a presença de um analista que entende que seu instrumento não pode nem deve ficar reduzido a uma prática fechada na compreensão do sofrimento em seu recorte singular, senão que o coloca à prova no pensamento de aquilo de onde o sofrimento singular toma sua carnadura: as formas do mal-estar de nosso tempo. Nesse sentido, Miguelez afirma a vocação de continuidade com a obra freudiana, que Lacan retoma com vigor – muitas vezes não escutado. Pensar a política, os traços que sustentam o imaginário de uma sociedade e suas conseqüências no padecer dos sujeitos que o compõem, se inclui numa tradição de pensamento que hoje mais que nunca se nos apresenta como de importância vital para enfrentar os duros tempos que nos toca viver. E, sobretudo, o que ressalta, no texto, é a presença constante do humor, do lúdico como instrumento fundamental para a existência do espaço de pensamento e trabalho analíticos. Cito: “Nossa experiência como analistas nos ensina com freqüência que o humor e a arte são boas razões para amar a vida. Permitem uma emancipação de nosso eu da prisão do ser, possibilitam o descentramento, a libertação do sujeito da certeza alienante de ser sempre o mesmo. Essa emancipação cria laços com os outros, formas de prazer partilhado”. No prólogo, Emilio Rodrigué joga tanto com a dimensão do lúdico quanto ressalta o efeito viajante que a leitura lhe suscita. Fala da necessidade de tomar o texto como “um manual de instruções babelianas”, no sentido de afirmar a paixão pela multiplicidade das línguas, nascidas no momento em que a ilusão de uma única língua se revela impossível. E alerta que se trata, não tanto da destruição da Torre, mas de sua descontrução. Texto nômade, que transita pelas fronteiras, incitando a perder a triste paixão da solenidade que tanto mortifica nosso afazer, por vezes tingido de um delicado lirismo, Jugar la palabra é leitura recomendada para todo aquele que não deseja esquecer que fazer psicanálise em sério, é sobretudo, se atrever a brincar. Isabel Marazina C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 39 AGENDA Capa: Manuscrito de Freud (The Diary of Sigmund Freud 1929-1939. A chronicle of events in the last decade. London, Hogarth, 1992.) Criação da capa: Flávio Wild - Macchina JUNHO – 2004 Dia 03, 17 e 24 07 e 21 17 04 e 18 14 e 28 18 e 25 Hora 19h30min Local Sede da APPOA Atividade Reunião da Comissão de Eventos 20h30min 21h 8h30min 20h30min 16h15min Sede da APPOA Sede da APPOA Sede da APPOA Sede da APPOA Sede da APPOA Reunião do Serviço de Atendimento Clínico Reunião da Mesa Diretiva Reunião da Comissão de Aperiódicos Reunião da Comissão do Correio da APPOA Reunião da Comissão da Revista da APPOA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE GESTÃO 2003/2004 Presidência: Maria Ângela C. Brasil a 1 Vice-Presidência: Mario Corso 2a Vice-Presidência: Ligia Gomes Víctora 1a Secretária: Marieta Rodrigues 2a Secretária: Marianne Stolzmann 1a Tesoureira: Grasiela Kraemer 2a Tesoureira: Luciane Loss Jardim MESA DIRETIVA Alfredo Néstor Jerusalinsky, Ana Maria Medeiros da Costa, Ângela Lângaro Becker, Carmen Backes, Clara von Hohendorff, Edson Luiz André de Sousa, Gladys Wechsler Carnos, Ieda Prates da Silva, Jaime Betts, Liliane Seide Froemming, Lucia Serrano Pereira, Maria Auxiliadora Pastor Sudbrack, Maria Beatriz Kallfelz, Maria Lúcia Müller Stein e Robson de Freitas Pereira EXPEDIENTE Órgão informativo da APPOA - Associação Psicanalítica de Porto Alegre Rua Faria Santos, 258 CEP 90670-150 Porto Alegre - RS Tel: (51) 3333 2140 - Fax: (51) 3333 7922 e-mail: [email protected] - home-page: www.appoa.com.br Jornalista responsável: Jussara Porto - Reg. n0 3956 Impressão: Metrópole Indústria Gráfica Ltda. Av. Eng. Ludolfo Boehl, 729 CEP 91720-150 Porto Alegre - RS - Tel: (51) 3318 6355 PRÓXIMO NÚMERO VIOLÊNCIA C. da APPOA, Porto Alegre, n. 125, jun. 2004 Comissão do Correio Coordenação: Marcia Helena de Menezes Ribeiro e Robson de Freitas Pereira Integrantes: Ana Laura Giongo, Fernanda Breda, Gerson Smiech Pinho, Henriete Karam, Liz Nunes Ramos, Maria Lúcia Müller Stein, Rosane Palacci Santos e Rossana Oliva S U M Á R I O EDITORIAL 1 NOTÍCIAS 2 SEÇÃO TEMÁTICA 7 SOBRE A VIDA AMOROSA DO HOMEM COMTEMPORÂNEO Gerson Smiech Pinho 7 TABUS NO CORPO Rossana Stella Oliva Otávio Augusto Winck Nunes 16 ACERCAMENTOS ÀS “PSICOLOGIAS DO AMOR” Carlos Henrique Kessler 20 SEÇÃO DEBATES 26 CONSIDERAÇÕES SOBRE O LUGAR DO HOMEM E DO PAI NA TEORIA PSICANALÍTICA E NA CULTURA PATRIARCAL Elaine Rosner Silveira 26 A PROPÓSITO DE UM CERTO DIVÓRCIO ENTRE O PÊNIS E O FALO Ricardo Goldenberg 32 O CASAMENTO GAY E A VOLTA DA INTOLERÂNCIA Contardo Calligaris 35 RESENHA 38 “JUGAR LA PALABRA” 38 AGENDA 40 N° 125 – ANO XI JUNHO – 200 4 RELENDO FREUD: “CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA DO AMOR”