ABSTRACT: Focusing Paulo Honorio's narrative as a narrator's reflection upon his past, this paper tries to analyse the enunciation in Sao Bernardo. Logo nas primeiras linhas de Sao Bernardo, percebe-se urn eu que conduz a narrativa: Paulo Hon6rio. com a linguagem crua e direta que imprime no discurso a marca de sua personagem. Considerando 0 conceito de enunciafao enunciada retomado por Jos6 Luiz Fiorin (1996:36) - "0 conjunto de marcas. identificaveis no texto. que remetem a instlincia de enuncia~ao" - dirfamos que sao inumeros os indfcios de enuncia~lio enunciada em Sao Bernardo. 0 texto 6 permeado por marcas da instlincia narrativa. concretizada na figura do narrador Paulo Hon6rio. No primeiro capItulo. 0 narrador fala do processo de narra~lio; explica que tentou construir 0 livro pela divislio do trabalho. mas a tarefa foi infrut!fera pois os possfveis colaboradores nlio se mostraram competentes. 0 processo de narra~lio que nlio se seu 6. como bem observa Jos6 Luiz Fiorin (1996:236). narrativizado, tornado como acontecimento. Assim sendo, 6 submetido aos tempos do enunciado. ou seja. 6 narrado com tempos do pret6rito. No segundo capftulo, 0 narrador passa a empregar 0 presente do indicativo; ocorre, pois, quanto ao tempo, uma debreagem enunciativa da enunciafaO, isto 6, 0 tempo do narrador 6 projetado no enunciado. Esses dois primeiros capftulos ficam como que fora do livro que Paulo Hon6rio pretende construir. Funcionam como uma esp6cie de explica~lio do narrador sobre 0 que vai escrever e sobre si pr6prio: Tenciono contara minha historia. Diflcil (... j o certo e que, a respeito de letras sou versado em estat(stica, pecutiria, agricultura, escriturapio mercantil, conhecimentos inuteis neste g~nero. G. Ramos (1996:8-9). pior que jti estraguei diversas folhas e ainda nao principiei (...j Dois cap(tulos perdidos. G. Ramos (1996: 10). o e Na verdade, esses dois cap!tulos introdut6rios' nao sao de maneira alguma perdidos, mas muito significativos. Neles 6 explicitada a situa~ao de enuncia~iio, e slio instalados narrador e narratano. As evid8ncias quanto a instaura~iio deste ultimo surgem nos instantes em que Paulo Hon6rio refere-se a urn poss!velleitor de seu livro: loao Nogueira queria 0 romance em lfngua de Camoes, com per(odos jormados de tras para diante. Calculem. G. Ramos (1996: 5) (grifo nosso). As pessoas que me lerem terao, pois, a bondade de traduZir isto em linguagem literaria, se quiserem. G. Ramos (1996: 9). E e imaginando a indagalfao de urn possivel leitor que Paulo Hon6rio lanlfa uma questiio de extrema importancia: - Entao para que escreve? - Sei ldl G. Ramos (1996: 10). Nao sabe para que escreve. No entanto vai, aos poucos, deixando transparecer o grande motivo de escrever 0 livro: a busca da compreensiio de seus pr6prios atos passados. No capitulo terceiro, inicia-se 0 livro de Paulo Hon6rio. Os tempos verbais empregados no inicio do capitulo pertencem ao sistema enunciativo, ou seja, 0 tempo da enuncialfiio e projetado no enunciado. 0 narrador caracteriza-se, e novamente dirige-se a urn narratario. A partir de urn dado ponto do terceiro capitulo, os acontecimentos passam a ser narrados nos tempos enuncivos, 0 narrador utiliza-se do pret6rito; ocorre, pois, uma debreagem enunciva do enunciado. Hli que se observar que em Sao Bernardo ha debreagens temporais enunciativas (nos momentos em que aflora 0 presente da enuncialfiio, ou seja, quando 0 narrador, utilizando-se do presente do indicativo, fala do instante em que escreve) e enuncivas (quando siio narrados fatos passados). A debreagem actancial, no entanto, e sempre enunciativa, uma vez que 0 discurso e conduzido por urn narrador que diz eu. E esse narrador que diz eu e que tambem tern urn papel na hist6ria narrada (0 de personagem principal), assume diferentes fun~oes na sua tarefa de narrar. Se pensarmos nas cinco fun~oes do narrador levantadas por Gerard Genette e citadas por Jose Luiz Fiorin (1996: 105-106), chegaremos a conclusiio de que Paulo Hon6rio investe-se de todas elas. Pela funlfiio narrativa, relatada a hist6ria. Pela funlfao de direlfiio, marca a organiza~ao interna do texto, dizendo 0 que vai narrar, 0 que vai e 0 que nao vai descrever: Concluiu-se a construfao da casa nova. lulgo que nao preciso descrev~-la (...) Aqui existe um saito de cinco anos. G. Ramos (1996: 38). A funlfao de comunicalfao, voltada para 0 narratario, tambem se aplica a Paulo Hon6rio, nas muitas referencias que faz 0 narrador a seu posslvel leitor e na maneira comunicativa com que a narrativa e conduzida: Acham que andei mal? A verdade e que nunca soube quaisjoram os meus atos bons e quaisjoram os maus (...) E os neg6cios desdobraram-se automaticamente. Diflcil? Nadal G. Ramos (1996: 39). Nao me ocupo com amores, devem ter notado. G. Ramos (1996: 57). A fun~iio de atesta~iio, ligada a rela~iio afetiva, moral ou intelectual do narrador com a historia, tambem pode ser observada no narrador de Sao Bernardo. A historia que Paulo Honorio narra e a sua propria, e e evidente a rela~iio do narrador com os acontecimentos que relata: Na ultima fun~iio, a ideologica, 0 narrador avalia a a~iio segundo uma determinada visiio de mundo. E, talvez, uma das fun~oes mais importantes do narrador de Slio Bernardo, se considerarmos que Paulo Honorio narra para refletir sobre suas a~oes passadas, para compreender 0 que viveu e a si mesmo. E esse narrador que se volta para 0 passado na tentativa de entende-Io, e detentor de urn saber sobre os fatos pass ados conferido pela distAncia temporal em rela~iio a eles. Diana Luz Pessoa de Barros (1985: 148) considera a delega~iio do saber como importante aspecto na organiza~iio dos pontos de vista, utilizado como criterio classificatorio nas distin~oes entre narrador onisciente e niio-onisciente, entre narrador consciente de seu papel e narrador inconsciente. Paulo Honorio e narrador consciente de seu papel, e as inumeras marcas da enuncia~iio enunciada confirmam essa consciencia. seu vasto saber sobre os fatos narrados the garantido pelo distanciamento temporal em rela~iio aos mesmos, 0 que permite ao Paulo Honorio narrador saber mais que 0 Paulo Honorio personagem. E importante, pois, distinguir 0 eu-narrante do eu-narrado. o primeiro, Paulo Honorio que relata, diferencia-se do segundo, Paulo Honorio que vivencia os eventos, justamente pelo saber que a distancia the dli. Pode-se dizer que esse saber que 0 faz narrar: procura interpretar fatos do passado a luz de sua visiio de quem ja os viveu. A narrativa constitui de certa forma, uma busca de compreensiio do eu-narrado pelo eu-narrante. Siio muitas as reflexoes do narrador sobre os acontecimentos que narra: o e e Estd visto que Madalena nao tinha nada com 0 descaro~ador e a serraria, mas naquele momenta nao refleti nisso. G. Ramos (1996: 120). o capitulo 19 mostra-nos 0 presente da enuncia~iio. Ao longo de todo 0 capitulo afloram 0 eu, 0 aqui e 0 agora da enuncia~iio. Constitui urn dos momentos maximos de reflexiio do narrador Paulo Honorio: urn eu-narrante perdido e triste, pensando em sua vida, seus erros e perdas: A culpafoi desta vida agreste que me deu uma alma agreste (...) Com efeito, se me escapa 0 retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas soufor~ado a escrever. G. Ramos (1996: 100). Para que serve a narrativa? Para que narrar 0 passado? Para refletir sobre ele, tentar compreende-Io. Paulo Honorio niio busca simplesmente reviver 0 passado ao narra-Io mas compreende-Io e compreender-se a si mesmo: 776 Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros (...). Sol, chuva, noites de insonia, calculos, combinap'Jes, violencias, perigos - e nem sequer me resta a ilusao de ter realizado obra proveitosa. G. Ramos (1996: 184 185). E Paulo Hon6rio termina sua narrativa, sua grande reflexilo sobre o que foi e 0 que e: 0 que viveu, Julgo que me desnorteei numa errada. G. Ramos (1996: 186) Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um corafao miudo, lacunas no cerebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. G. Ramos (1996: 190). - Entao para que escreve? - Sei la! G. Ramos (1996: 10). Escreve para analisar-se e entender a pr6pria vida. A narrativa funciona como modo de reorganizar 0 vivido. RESUMO: Considerando a narrativa de Paulo Honorio como uma reflexao do narrador sobre seu passado, este trabalho procura analisar a enunciafao em Siio Bernardo. BARROS, D.L.P. de (1985). A festa do discurso: teoria do discurso e analise de redafoes de vestibulandos. Tese (Livre Doc8ncia em LingUfstica). Faculdade de Filosofia, Letras e Ci8ncias Humanas, Universidade de Silo Paulo. flORIN, J.L. (1996). As astucias da enunciafao. As categorias de pessoa, espafo e tempo. Silo Paulo, Atica. RAMOS, G. (1996). Sao Bernardo. 65 ed. Rio de Janeiro, Record.