LEILA MARIA FRANCO O MST na Folha de S. Paulo e no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra: Análise das Práticas Discursivas Programa de Estudos Pós-Graduados em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL) PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO SÃO PAULO - 2003 LEILA MARIA FRANCO O MST na Folha de S. Paulo e no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra: Análise das Práticas Discursivas Programa de Estudos Pós-Graduados em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL) Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem, sob orientação da Professora Doutora Sumiko Nishitani Ikeda PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO SÃO PAULO - 2003 DISSERTAÇÃO DEFENDIDA E APROVADA EM ___ DE ______________DE 2003, PELA BANCA EXAMINADORA CONSTITUÍDA PELOS PROFESSORES: ________________________________________________ ________________________________________________ ________________________________________________ Agradeço e ofereço a todos que de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho, mas de modo especial: À orientadora, prof.ª dr.ª Sumiko Nishitani Ikeda, parâmetro constante, pela orientação segura e amiga, sem que não teria sido possível a execução deste trabalho. A minha admiração e gratidão. À prof.ª dr.ª Mara Sophia Zanotto, ao prof. dr. Antônio Paulo BerberSardinha e à prof.ª dr.ª Leila Bárbara pelas sugestões feitas no exame de qualificação, importantes para finalizar este trabalho. Aos meus pais, Saul e Carmelina, e aos meus irmãos, Carlos e Léia, pelo incentivo nas diferentes etapas de meus estudos ; neste momento, em especial pela solidariedade e por amenizarem minhas ansiedades. À Lana, Lara, Sara, Rosângela e ao José Luiz, filhas e irmãos de coração, por tantas horas roubadas de nosso convívio e por semearem sempre o ânimo. Ao Pedro Paulo, por tudo que vivemos e passamos, companheiro inseparável de todas as horas - pela presença, pela confiança e pelo apoio. Aos meus filhos, Lucas e Laura, que sempre esperaram pela minha volta, pela ternura paciente em horas de impaciência. À Secretaria Nacional do MST, pelos jornais e pelas informações gentilmente fornecidas. À FEI/ISEPI/ISEDI, Campus Fundacional da Universidade do Estado de Minas Gerais que, em uma política de valorização e aperfeiçoamento de professores, concedeu-me licença para cursar o Mestrado. À FAPEMIG pelo financiamento da bolsa de mestrado. RESUMO Este trabalho compara dez textos sobre o Movimento dos trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): cinco publicados no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (JST) e cinco no Jornal Folha de S. Paulo (FSP). Nosso objetivo é analisar e discutir, de modo crítico, as escolhas léxico-gramaticais na prática ideológica de representação do discurso do MST, no JST e na FSP. A Análise Crítica do Discurso (Fairclough, 1992, 2001), (Fairclough, 1995), (Fairclough e Wodak, 1997), (Chouliaraki e Fairclough, 1999) e a Abordagem da Lingüística Sistêmico-Funcional (Halliday, 1985, 1994) formam a base teórica para a realização da análise de dados dos dez textos, publicados nas edições de março a junho de 2000. Nesse conjunto de textos, observando-se as escolhas lingüísticas referentes à metafunção ideacional, a análise revela a estreita relação que esta metafunção mantém com a metafunção interpessoal. Há assim uma conjugação das duas metafunções no texto jornalístico, através das quais, o escritor expressa o seu viés ideológico, sua visão de mundo, suas atitudes e as relações sociais que estabelece entre si e com o que se propõe a dizer. Nestas funções, concorre também a metafunção textual, que contribui para manipular a reação do público pelo controle da informação que é colocada no Tema, fornecendo o quadro dentro do qual o Rema é interpretado. Palavras-chave : linguagem jornalística – análise crítica do discurso – gramática sistêmico-funcional – ideologia. ABSTRACT This study compares ten texts about the Movement of Landless Rural Workers – MST: five of them were published in the Landless Rural Workers Newspaper (JST) and five in the Folha de S. Paulo (FSP). Our aim is to analyze and discuss in a critical way the lexicalgrammatical choices in the ideological MST discourse practice representation in the JST and the FSP. The Critical Discourse Analysis (Fairclough, 1992, 2001), (Fairclough, 1995), (Fairclough and Wodak, 1997), (Chouliaraki and Fairclough, 1999) and the Linguistic Systemic-Functional Approach (Halliday, 1985, 1994) formed the theoretical basis for the carrying out of the data analysis, made up of 10 texts, from the March to June 2000 editions. In this group of texts, observing the linguistic choices relating to the ideological metafunction, the analysis reveals the close relation that this metafunction maintains with the interpersonal metafunction. In this way, there is a union of the two metafunctions in the journalistic texts, through which the writer, expresses his ideological bias, his view of the world, his attitudes and the social relations that he establishes between himself and what he proposes to say. In these functions, the textual metafunction is present, and it contributes to manipulate the public’s reactions by controlling the information that is inserted in the Theme, offering the picture in which the Rheme is interpreted. Key-words: journalistic language – critical discourse analysis – systemic-functional grammar – ideology. ÍNDICE INTRODUÇÃO ..............................................................................................................12 CAPÍTULO I - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ..................................................................18 A Gramática Sistêmico-Funcional .......................................................................18 1. A Metafunção Ideacional ....................................................................................20 1.1. A Transitividade ..............................................................................................20 1.1.1. Tipos de Processos e Participantes.................................................................21 1.2. O Componente Léxico – Gramático .................................................................34 2. A Metafunção Interpessoal..................................................................................39 2.1. A Modalidade ..................................................................................................42 3. A Metafunção Textual.........................................................................................47 3.1. O Método de Desenvolvimento ........................................................................47 4. As Metáforas Gramaticais ...................................................................................48 4.1. Metáforas Ideacionais ......................................................................................50 4.2. Metáforas de Transitividade .............................................................................51 A Lingüística Crítica.............................................................................................53 1. Análise Crítica do Discurso: A Contribuição de Fairclough.................................54 2. A Lingüística Crítica: A Contribuição de Fowler.................................................60 2.1. Elementos Ideacionais na ACD: Transitividade................................................61 3. Ideologia.............................................................................................................65 4. Hegemonia..........................................................................................................70 CAPÍTULO II - ASPECTOS METODOLÓGICOS ..............................................................72 1. Natureza do Método para a Análise dos Dados....................................................72 8 2. Caracterização, Coleta e Descrição do Corpus de Estudo ....................................73 2.1. Procedimentos para a Análise de Dados ...........................................................76 CAPÍTULO III – ANÁLISE DOS DADOS .........................................................................79 Metafunção Ideacional .........................................................................................80 1.Os Processos........................................................................................................80 2. Os Participantes ..................................................................................................86 3. As Passivas .........................................................................................................91 4. A Seleção Lexical ...............................................................................................95 Metafunção Textual ............................................................................................ 101 1. O Tema............................................................................................................. 101 CONCLUSÃO ............................................................................................................. 106 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 109 ANEXOS ................................................................................................................... 113 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - Orações com um participante (Ator) e com dois participantes (Ator e Meta) ....................................................................................................... 21 FIGURA 2 - Orações ativas e passivas.......................................................................... 22 FIGURA 3 - Orações com processos abstratos ............................................................. 23 FIGURA 4 - Processos abstratos em uma oração Ativa e Passiva.................................. 23 FIGURA 5 - Ilustrações de processos mentais............................................................... 24 FIGURA 6 - Processos Comportamentais ..................................................................... 28 FIGURA 7 - Alvo e Recebedor no processo verbal ....................................................... 29 FIGURA 8 - Orações beneficiárias mostrando Recebedor............................................. 30 FIGURA 9 - Beneficiário na oração atributiva efetiva................................................... 31 FIGURA 10 - Exemplos de Extensão ............................................................................. 32 FIGURA 11 - Sistema de tipos de modalidade ................................................................ 42 FIGURA 12 - Diagrama mostrando a relação da modalidade à polaridade e ao modo ..... 43 FIGURA 13 - Sistema de orientações na modalidade...................................................... 44 FIGURA 14 - Sistema de valores na modalidade ........................................................... 45 FIGURA 15 - Análise da forma metafórica .................................................................... 51 FIGURA 16 - Análise da reformulação congruente......................................................... 51 FIGURA 17 - As duas análises combinadas.................................................................... 52 FIGURA 18 - Dimensões do discurso ............................................................................ 59 LISTA DE TABELAS TABELA 1 - Os principais tipos de processos relacionais ............................................. 27 TABELA 2 - Receptor no processo verbal ..................................................................... 31 TABELA 3 - Extensão nos processos verbais ................................................................ 33 TABELA 4 - Circunstanciais de extensão e localização ................................................ 34 TABELA 5 - Colocando as palavras em estruturas ........................................................ 35 TABELA 6 - ‘Tipo’ e ‘Orientação’: exemplos .............................................................. 45 TABELA 7 - Valores da Modalidade ............................................................................ 45 LISTA DE QUADROS QUADRO 1 - Textos selecionados aleatoriamente do Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra .................................................................................. 76 QUADRO 2 - Textos selecionados aleatoriamente da Folha de S. Paulo........................ 76 QUADRO 3 - Quadro demonstrativo, referente ao número de palavras em cada texto..... 77 QUADRO 4 - Categorias escolhidas para análise ............................................................ 78 QUADROS (5A e 5B) - Levantamento dos processos no texto (1A)(Falta de vistoria causa violência e mortes), do JST, e no texto (1B) (Governo e UDR temem novos confrontos), da FSP ................................. 80 QUADROS (6A e 6B) - Levantamento dos participantes no texto (2A) (As portas de vidro), do JST, e no texto (2B) (Iniciativa cabe ao MST, diz governo), da FSP ...................................................................... 86 QUADROS (7A e 7B) - Levantamento das construções passivas no texto (3A) (UDR ameaça matar e Justiça pede prisão de dirigentes do MST no Pontal), do JST, e do texto (3B) (Sem-terra saqueia depósito em PE), da FSP......................................................................... 92 QUADROS (8A e 8B) - Levantamento da seleção lexical no texto (4A) (Jornada de Lutas: Mobilização Nacional contra o modelo econômico de FHC), do JST, e do texto (4B) (MST deixa prédios, mas ameaça voltar), da FSP ............................................................. 96 QUADROS (9A e 9B) - Levantamento dos temas no texto (5A) (MST: preparando o 4º Congresso Nacional), do JST, e do texto (5B) (Novo Presidente da UDR vê "guerra civil" na região), da FSP.......... 102 QUADRO 10 – Recorte dos temas no texto (5A)........................................................... 104 QUADRO 11 – Recorte dos temas no texto (5B)........................................................... 104 INTRODUÇÃO A imparcialidade do profissional do jornalismo em relação às matérias que publica tem sido submetida a um crivo crítico por parte dos estudiosos da mídia, segundo Fowler (1991)1. Notadamente, o Grupo da Mídia da Universidade de Glasgow e o centro da Universidade de Birmingham para Estudos Culturais Contemporâneos, nas várias pesquisas publicadas, aperfeiçoaram uma visão alternativa da prática jornalística que se tornou corrente entre sociólogos e estudiosos da mídia. Dentre os principais estudos examinados sobre jornais, Berger (1996) identificou as possibilidades de relação entre o popular e o massivo, por meio da observação do encontro entre as ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e as notícias veiculadas sobre tais ações no Jornal Zero Hora. Por um lado, a autora refletiu sobre a reestruturação do popular nestes tempos de predomínio da mídia, a partir do estudo das ações do MST; por outro, apreendeu a especificidade do discurso jornalístico que, ao noticiar os acontecimentos produzidos pelo MST, os constrói como eventos significativos para a mediação com os interlocutores do movimento. Garcia (1998) estudou a construção de sentidos no texto jornalístico noticioso, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, detendo-se sobre as estratégias utilizadas no processo argumentativo que busca captar adesões dos leitores. Guimarães (1999) analisou notícias políticas publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo, durante as eleições municipais da capital paulista de 1996, verificando as estratégias e estruturas de texto reveladoras dos padrões de dominação ou manipulação do poder em discursos públicos. Mais especificamente, examinou como as notícias são 1 Neste trabalho, optamos pela tradução ipsis litteris dos seguintes teóricos: Halliday (1985,1994), Fowler (1991), Eggins (1994), Fairclough (1995), Fairclough e Wodak (1997), Chouliaraki e Fairclough (1999). 13 ‘fabricadas’2 nos jornais-empresa; verificou como as informações são manipuladas e transformadas pela opinião jornalística e investigou as estratégias usadas pelos jornalistas. Gohn (2000) destacou, em um grupo de notícias, as principais manchetes sobre o MST selecionadas e apresentadas ao público, pela mídia, e como essas notícias contribuíram para o desenrolar dos acontecimentos a serem narrados. As fontes analisadas foram os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo e os noticiários principais dos canais de televisão Globo, Bandeirantes, Cultura, Manchete e CNN, entre os anos de 1997 e 2000. Guimarães (2001) estudou uma série de editoriais da Folha de S. Paulo referentes à prática do MST, confrontando-os com um conjunto de artigos de militantes desse movimento social, publicados no mesmo jornal. Tal estudo inscreve-se na análise da problemática do embate cultural, entre a fala de quem tende a deter o poder dos órgãos de informação e, a fala daquelas organizações, como o MST, que destoam da hegemonia vigente e buscam interlocução com a sociedade. Nesse sentido, na acepção de Fowler (1991:2), “a notícia é socialmente construída. Os eventos que são noticiados não são um reflexo da sua importância, mas revelam a operação de um conjunto complexo e artificial de critérios para seleção”. Uma vez selecionada, a notícia é submetida a um processo de transformação ao ser codificada para publicação; as propriedades técnicas da mídia – televisão, imprensa, por exemplo, e os modos como são usados, são efetivos nessa transformação. Tanto a ‘seleção’ quanto a ‘transformação’ são guiadas por referência, geralmente inconsciente, a idéias e crenças. A análise do produto revela proposições abstratas que não são necessariamente afirmadas e nem questionadas e tendem a ser consoantes com as idéias dos grupos dominantes na sociedade industrial capitalista, porque o jornal é uma indústria com seus próprios interesses comerciais. Então a notícia é uma prática: um discurso que, longe de refletir a realidade social e os fatos empíricos, intervém no que Berger e Luckmann (1976) chamaram a ‘construção social da realidade’. Posto que as instituições jornalísticas estão situadas social, econômica e politicamente, qualquer coisa que é dita ou escrita sobre o mundo é articulada de uma 2 Indica que algo significa. 14 posição ideológica particular: “a língua não é uma janela límpida, mas um meio de refração e de estruturação e, como conseqüência, a visão do mundo resultante será necessariamente parcial”, (Fowler, 1991:10). Estudos sobre a mídia são linhas de investigação da Análise Crítica do Discurso. Essa se define, no dizer de Fairclough (1992, 2001), como uma área de investigação que busca estabelecer os elos de ligação entre a prática social e a linguagem, realçando a investigação sistemática das conexões entre a natureza dos processos sociais e as propriedades dos textos lingüísticos. Trabalhando com textos que ocorrem de forma regular em domínios importantes da vida sócio-cultural, a Análise Crítica do Discurso, segundo Fairclough (1992, 2001), tem como objetivo fornecer uma dimensão crítica à análise de textos, para tornar visíveis aspectos opacos e sombrios do discurso que podem ser invisíveis e aparentemente naturais ao leitor. Além disso, para ele, a Análise Crítica do Discurso propõe-se a evidenciar e criticar as conexões existentes entre as propriedades dos textos e os processos e relações sociais (ideológicas, relações de poder). As pessoas que produzem e interpretam os textos não percebem essas conexões, cuja eficácia reside no fato de serem opacas. Nesse sentido, diz Pedro (1997), a Análise Crítica do Discurso reconhece as escolhas lingüísticas dos interlocutores como produtos resultantes da consciência de falantes e participantes sociais, selecionados a partir do que se pode dizer ou não no seio das convenções que regulam os contextos. Todos os estudiosos da mídia reconhecem a importância da língua no processo de construção do texto jornalístico, mas na prática, segundo Fowler (1991), a língua recebe um tratamento relativamente pequeno quando submetida à análise. Por isso, este atribui à língua a devida importância, não somente como um instrumento de análise, mas também como um modo de expressar uma teoria geral da representação. Diante disso, para Fowler (1991), a posição padrão dos estudiosos da mídia considera o jornal como sendo um constructo que deve ser entendido em termos sociais e semióticos. Para a compreensão desse constructo sócio-semiótico, a Gramática SistêmicoFuncional de Halliday (1985,1994), ao fazer referência ao uso da língua, possibilita: (i) uma análise crítica de textos, orientada em termos lingüísticos, bem como (ii) privilegia, em sua abordagem, fatores de funcionamento dos diversos aspectos da prática discursiva, 15 trazendo ferramentas para que a análise possa alcançar as escolhas léxico-gramaticais dos interlocutores. Tais escolhas que são estruturalmente organizadas no sistema lingüístico e motivadas socialmente, operam em todos os níveis do discurso: lexical, gramatical e modal e é a partir delas que se pode verificar os recursos lingüísticos usados numa manifestação discursiva. Nesse sentido, Fowler (1991) nos diz que toda forma particular de expressão lingüística em um texto – vocabulário, construção sintática, etc., tem sua razão. Há sempre meios diferentes de dizer a mesma coisa e eles não são alternativas aleatórias, acidentais. Diferenças na expressão acarretam distinções ideológicas e diferentes maneiras na representação. Mas estas alternativas, acrescenta esse autor, claramente visíveis, seus significados abertamente exibidos, são somente uma pequena parte do processo ideológico da expressão lingüística. Muitos outros aspectos da língua, menos dramáticos mas igualmente vigorosos em sua forma de representação, podem ser trazidas à tona para análise. Então, Fowler (1991) nos diz que a notícia é uma representação do mundo na língua; porque a língua é um código semiótico, impõe uma estrutura de valores de origem social e econômica sobre tudo que é representado; e então, como qualquer discurso, molda aquilo que é dito. O contato com a abordagem crítica do discurso que tenta associar um método de análise textual com uma teoria social do funcionamento da linguagem, envolvendo processos ideológicos, recorrendo à teoria lingüística funcionalista de Halliday (1985,1994), resultou no interesse pelo presente trabalho. Assim, o objetivo desta pesquisa é analisar e discutir, de modo crítico, as escolhas léxico-gramaticais na prática ideológica de representação do discurso do MST, no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, doravante (JST) e do discurso sobre o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), no jornal Folha de S. Paulo, doravante (FSP). A justificativa para a realização da pesquisa está em examinar se realmente diferentes escolhas léxico-gramaticais revelam diferenças ideológicas e diferenças de representação, o que contribuirá para a conscientização dos leitores pouco preparados a ver por meio das veias ideológicas da representação. 16 A análise apresentada apoia-se no modelo teórico da Análise Crítica do Discurso, Fairclough (1992, 2001), Fairclough (1995), Fairclough e Wodak (1997) e Chouliaraki e Fairclough (1999) que se apóia na Gramática Sistêmico-Funcional, de Halliday (1985, 1994) que, como um modelo metodológico, permite uma análise léxicogramática do ponto de vista (1) Ideacional - um meio de representar padrões de experiência através de processos, os tipos particulares de participantes e circunstâncias associadas ao processo; (2) Interpessoal - o evento interativo envolvendo o produtor e o receptor3, e que envolve a modalidade; (3) Textual - a estruturação da informação. O modelo metodológico de Halliday será complementado pelas sugestões da análise textual da Lingüística Crítica, de Fowler (1991). Outras questões enfocadas neste trabalho são: o Componente LéxicoGramático em Eggins (1994), o Método de Desenvolvimento do texto em Fries (1995a), explorando a relação entre tema e texto, as discussões sobre modalidade em Hodge e Kress (1988) e Fairclough (1992, 2001) e os estudos sobre ideologia e hegemonia por Fairclough (1992, 2001). Sendo assim, elaboraram-se perguntas que orientam este trabalho: Considerando-se os jornais JST e FSP, que escolhas são feitas na léxicogramática para a realização das metafunções ideacional, interpessoal e textual? a) qual é a função do processo material e o papel dos participantes envolvidos? b) que funções são desempenhadas pela construção passiva e a nominalização? c) que elementos da seleção lexical dicotomizam grupos sociais diferentes? d) como se realiza o Método de Desenvolvimento (Fries, 1995) nos dois textos jornalísticos? e) que relação existe entre as metafunções ideacional, interpessoal e textual? O trabalho se organiza da seguinte maneira: No capítulo 1, apresentam-se, em linhas gerais, as teorias que dão suporte às análises: a Gramática Sistêmico-Funcional e a Análise Crítica do Discurso 3 Toda vez que dissermos produtor, envolve falante ou escritor e receptor, ouvinte ou leitor. 17 No capítulo 2, apresenta-se a metodologia utilizada na pesquisa, ressaltando a natureza da pesquisa, a caracterização dos documentos portadores dos textos investigados, o modo de coleta, a descrição do corpus e os procedimentos de análise. No capítulo 3, apresentam-se a análise e a discussão dos dados, buscando analisar e discutir, de modo crítico, as escolhas léxico-gramaticais na prática ideológica de representação nos textos investigados. Na conclusão, sintetizam-se as constatações mais representativas detectadas na pesquisa. CAPÍTULO I FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Segundo Gómez-González (2000), há três correntes funcionalistas: a Escola de Praga (Firbas, Danes, Valcheck, Mathesius, Novak, Sgall, Weil); a Gramática SistêmicoFuncional (Halliday, Martin, Fries, Downing, Hasan, Matthiessen) e a Gramática Funcional (Dik, Givón, Chafe, Lambrecht). A GSF de Halliday é tomada como ferramenta de análise neste trabalho. A GRAMÁTICA SISTÊMICO-FUNCIONAL A Gramática Sistêmico-Funcional, doravante (GSF), tem suas origens teóricas nos trabalhos que vêm sendo desenvolvidos por Halliday, dos quais a presente pesquisa se apoia em especial nas obras de 1985, 1994, foi influenciada pelos estudos do antropólogo Malinowski (1923, 1935). Como afirma Halliday (1985, 1994), a gramática é funcional em três sentidos distintos, apesar de intimamente relacionados: na sua interpretação de textos, do sistema, e dos elementos da estrutura lingüística. Primeiro, diz que ela é funcional no sentido de que é destinada a explicar como a língua é usada. Todo texto, ou seja, tudo que é dito ou escrito, revela-se em algum contexto de uso; além disso, é o uso da língua que molda o sistema. A língua tem se desenvolvido para satisfazer as necessidades humanas; e o modo como ela é organizada, diz ele, é funcional com respeito a estas necessidades − ela não é arbitrária. Uma gramática funcional é essencialmente uma gramática natural, no sentido de que tudo nela pode ser explicado, definitivamente, por referência a como a língua é usada. 19 Resultando disso, para ele, os componentes fundamentais de significado, na língua, são componentes funcionais. Todas as línguas são organizadas em torno de dois tipos de significados: o ‘ideacional’ ou reflexivo e o ‘interpessoal’ ou ativo. Estes componentes, chamados ‘metafunções’, na terminologia da presente teoria, são as manifestações no sistema lingüístico dos dois propósitos mais amplos os quais formam as bases para todas as línguas: (i) entender o ambiente – metafunção ideacional, e (ii) influir sobre os outros- metafunção interpessoal. Combinado com estes, está um terceiro componente – metafunção textual, o qual dá relevância aos outros dois. Em terceiro lugar, segundo o autor, cada elemento, em uma língua, é explicado por referência à sua função, no sistema lingüístico total. Neste terceiro sentido, por conseguinte, uma gramática funcional é aquela que constrói todas as unidades da língua − suas orações, frases e assim por diante − como configurações orgânicas de funções. Em outras palavras, cada parte é interpretada como funcional em relação ao todo. A língua, para Halliday (1985,1994), então, é interpretada como um sistema para fazer significados: um sistema semântico, com outros sistemas para codificar os significados que ela produz. O termo semântico, diz ele, não se refere, simplesmente, aos significados das palavras; ele é o sistema inteiro de significados de uma língua, expressos pela gramática, bem como pelo vocabulário. De fato, como diz o autor, os significados são codificados em ‘palavras’: seqüências gramaticais, ou ‘sintagmas’, consistindo de itens lexicais e itens gramaticais. Daí, os sistemas de significados, por sua vez, geram estruturas léxico-gramaticais que são igualmente plausíveis: há, então, verbos e substantivos para enquadrar a análise da experiência em processos e participantes. A relação entre o significado e a palavra não é, contudo, uma relação arbitrária; a forma da gramática relaciona-se naturalmente aos significados que são codificados. Uma gramática funcional é destinada a mostrar isto, ela é, segundo Halliday, um estudo da palavra, mas um estudo que interpreta a palavra por referência ao que ela significa. Cada distinção que é reconhecida na gramática, cada conjunto de opções, ou ‘sistema’ em termos sistêmicos – traz alguma contribuição para a forma da palavra. Diz ele que a relação entre a semântica e a gramática é uma relação de realização: as palavras ‘concretizam’ ou codificam o significado. A palavra, por sua vez, é ‘interpretada’ através dos sons ou da escrita. Não é possível perguntar o que cada elemento significa isoladamente e o significado é codificado nas palavras como um todo integrado. 20 A escolha de um item particular deve significar uma coisa; seu lugar no sintagma, outra; sua combinação com outro elemento, outra; sua organização interna, outra, ainda. O que a gramática faz é, para esse autor, separar todas essas possíveis combinações e ordená-las em suas funções semânticas específicas. Uma gramática funcional destina-se, pois, a revelar, pelo estudo das seqüências lingüísticas, os significados que são codificados por essas seqüências. O fato de ser ‘funcional’ significa que ela está baseada no significado, mas o fato de ser ‘gramática’, significa que ela é uma interpretação das formas lingüísticas. 1. A Metafunção Ideacional Ao discutir os componentes fundamentais de significado, Halliday (1985, 1994) nos fala que a metafunção ideacional preocupa-se com a oração na sua função experiencial, sua função como um meio de representar padrões de experiência. Uma propriedade fundamental da língua é que ela capacita os seres humanos a construir um quadro mental da realidade, a fim de dar sentido à sua experiência daquilo que ocorre ao seu redor e nele se insere. Aqui, para ele, a oração é a unidade gramatical mais significante, porque ela corporifica um princípio geral para modelar a experiência − isto é − o princípio de que a realidade é composta de processos. A mais poderosa concepção de realidade, conforme o autor, é de que ela consiste de comportamentos e procedimentos: acontecer, fazer, sentir, significar, ser e tornar-se. Todos esses comportamentos ou procedimentos são ordenados no sistema semântico da língua e expressos através da gramática da oração. Além de ser um modo de ação, a oração é também um modo de reflexão, de impor ordem sobre a variação e fluxo de eventos. O sistema gramatical pelo qual isso é alcançado é a transitividade. 1.1. A Transitividade O sistema de transitividade, para Halliday (1985,1994), constrói o mundo da experiência em um conjunto manejável de tipos de processos que são reconhecidos na língua, e a estrutura pela qual eles são expressos. 21 Diz ele que a estrutura semântica básica para a representação de processos consiste de três componentes: o próprio processo, os tipos particulares de função participante e as circunstâncias associadas ao processo, na oração. Os conceitos de processo, participante e circunstância, na compreensão desse autor, são categorias semânticas que explicam, de maneira bem ampla, como os fenômenos do mundo real são representados como estruturas lingüísticas. Os processos são divididos, por ele, em três grupos semânticos, a saber: o material, o mental e o relacional. Em adição a eles, há outros três grupos: o comportamental (entre o material e o mental); o verbal (entre o mental e o relacional); e o existencial (entre o relacional e o material). 1.1.1. Tipos de Processos e Participantes a) Processos Materiais Os processos materiais, para Halliday (1985,1994), são processos do fazer. Eles expressam a noção de que alguma entidade faz alguma coisa a uma outra. Há um participante obrigatório que faz a ação − o Ator, por exemplo, o rato em o rato subiu no relógio, em direção a um outro participante opcional − a Meta, como na Figura 1. i) O leão pulou. Ator Processo ii) O leão pegou o turista. Ator Processo Meta FIGURA 1: Orações com um participante (Ator) e com dois participantes (Ator e Meta)4 (Halliday, 1985:103) Diz ele que em ambos os casos, o leão faz alguma coisa; mas em (i) o fazer foi limitado ao leão, enquanto em (ii) foi dirigido a, ou extendido ao turista. Um outro termo que é usado para a função Meta é Paciente, significando aquele que sofre ou se submete ao processo. No entanto, mantém-se o termo familiar Meta na presente análise, embora nenhum dos dois atinja a característica principal; o conceito pertinente seria algo como 4 A tradução dos termos da GSF (Gramática Sistêmico-Funcional) foi feita consultando o Glossário de termos da Gamática Sistêmico-Funcional em Português, aprovados para utilização pelas equipes de investigação da FLUL e do Projeto Direct do LAEL – PUCSP, disponibilizado no site http://www. sistemica.f2s.com., visitado em 18/12/01. 22 ‘aquele ao qual o processo se extende’. O conceito de extensão é, de fato, aquele que é denominado, na terminologia clássica, de ‘transitivo’ e ‘intransitivo’, do qual o termo transitividade é derivado. De acordo com esta teoria, o verbo pular é dito ser intransitivo (não extendido) e o verbo pegar é dito ser transitivo (extendido) − ou seja, extendendo a alguma outra entidade. O termo Ator é usado por Halliday na interpretação dos dois tipos de orações; e isto corporifica a suposição adicional, a saber que o leão tem a mesma função em ambos, já que, nas duas orações, está ‘fazendo’ algo. Nos processos materiais, cada participante é uma COISA: ou seja, ele é um fenômeno da experiência, incluindo naturalmente a experiência ou imaginação interior − alguma entidade (pessoa / criatura / objeto / instituição ou abstração), ou algum processo (ação / evento / qualidade / estado ou relação). No entanto, não há a menor possibilidade de um fato ser um participante em uma oração de processo material, pois eles, os fatos, não podem fazer nada, nem tampouco ter algo feito para eles. Para provar tal processo, explica esse autor, deve-se fazer a pergunta: O que o leão fez?, O que o leão fez ao turista?. Olhando do ponto de vista do turista, por outro lado, o processo não é do fazer, mas do acontecer; assim, pode-se dizer também O que aconteceu com o turista?. Consequentemente, se há uma Meta do processo, assim como um Ator, a representação deve vir de duas formas: tanto na ativa o leão pegou o turista, ou passiva o turista foi pego pelo leão, como na Figura 2. i) O leão pegou o turista Ator Processo Meta ii) O turista foi pego pelo leão. Meta Processo Ator FIGURA 2: Orações ativas e passivas (Halliday, 1985:104) Alternativamente, para Halliday, a outra entidade pode ser aquela que é concebida pelo processo, não pré-existindo, como em construindo uma casa e escrevendo uma carta. Aqui, pode-se distinguir um ‘fazendo a’, ou tipo DISPOSITIVO e um ‘causando’, ou tipo CRIATIVO de processos materiais. O participante que resulta do processo criativo é, ainda assim, referido como Meta. Tais processos também têm opções ativas e passivas. 23 Os processos materiais, para ele, não são necessariamente eventos físicos, concretos; eles podem ser ações abstratas e acontecimentos, como na Figura 3. i) O prefeito renunciou. Ator Processo ii) O prefeito dissolveu o comitê Ator Processo Meta FIGURA 3: Orações com processos abstratos (Halliday, 1985:104) Observa ainda que estes são ainda tratados gramaticalmente na língua como tipos de ação; a prova apropriada seria O que o prefeito fez?, O que o prefeito fez ao comitê?. Tanto mais abstrato se torna o processo, acrescenta o autor, mais difícil de se fazer a distinção Ator e Meta. Com um processo concreto está sempre claro qual função um dado participante está desempenhando; há uma aguda distinção entre o garoto chutou, em que o garoto é Ator, e o garoto foi chutado, em que o garoto é Meta. Mesmo com processos concretos, contudo, há de se reconhecer alguns em que o Ator é involuntário, e então em alguns casos como uma Meta; por exemplo o turista desmaiou. Apesar de o verbo ser ativo, este é muito mais um acontecer do que um fazer: a prova não é O que o turista fez? mas O que aconteceu ao turista?. Com processos mais abstratos, diz Halliday, freqüentemente, encontram-se formas ativas e passivas, lado a lado, com muito pouca diferença entre elas: por exemplo a escola das garotas e a escola dos garotos juntaram/ foram juntadas; uma nova abordagem está surgindo / está sendo criada. Há ainda, para esse autor, alguma diferença: se a forma passiva é usada, pode-se prová-la usando um Ator explícito, através da pergunta: Por quem?. Enquanto com a forma ativa não se pode. E isto é o que justifica dar um status funcional diferente para os participantes nas duas orações como na Figura 4. As duas escolas Juntaram. As duas escolas foram juntadas. Ator Processo Meta Processo FIGURA 4: Processos abstratos em uma oração Ativa e Passiva (Halliday, 1985:104) 24 b) Processos Mentais Os processos mentais, para Halliday (1985, 1994), são processos do sentir, do pensar e do perceber. Dentro da categoria geral de processos mentais, estes três constituem os principais subtipos de termos gerais, como: • Percepção (ver, ouvir etc); • Afeição (gostar, temer etc); • Cognição (pensar, saber, compreender etc). Para os participantes, diz ele, usam-se os termos Experienciador e Fenômeno. O Experienciador é o ser consciente que está sentindo, pensando ou vendo. O Fenômeno é aquilo que é sentido, pensado ou visto, como na Figura 5. i) ii) iii) Eu não gosto disto. Experienciador Processo: afeição Fenômeno Eu acredito em você. Experienciador Processo: cognição Fenômeno Nós ouviríamos sua chegada. Experienciador Processo: percepção Fenômeno FIGURA 5: Ilustrações de processos mentais (Halliday,1985:111) Enquanto nas orações de processos materiais a nenhum participante é exigido ser humano, observa, em uma oração de processos mentais, há sempre um participante que é humano; aquele que sente, pensa ou percebe; por exemplo Maria em Maria gostou do presente. Mais precisamente, deve-se dizer típico do ser humano; a característica significante deste tipo de participante é a de ser ‘favorecido com consciência’. Expresso em termos gramaticais, o participante que é engajado no processo mental é aquele que é referido pronominalmente como ele ou ela. 25 Diz ele que se todo participante no processo material é uma ‘coisa’ e não um ‘fato’, como já referido nos processos materiais, qualquer destas coisas, deve também, naturalmente, ser o objeto de consciência. Por exemplo, em Maria gostou do presente, Tim conhece a cidade, Jane viu as estrelas, o presente, a cidade, as estrelas são ‘coisas’ que poderiam aparecer em um processo mental. Mas também pode-se dizer: • Maria ficou contente por ter recebido um presente; • Tim percebeu que estava na cidade grande; • Jane viu que as estrelas tinham saído. Nestes exemplos, para esse autor, o que é ‘sentido’ não é uma coisa, mas um fato. Gramaticalmente falando, fatos podem ser sentidos − visto, sentido ou pensado, mas eles não podem fazer algo e, tampouco podem ter algo feito para eles. Quando se encontra uma expressão tal como o fato de que seu pai estava doente, perturbou-o, sabe-se que perturbou é usado no sentido de um processo mental. Os processos mentais também são, para Halliday, representados na língua como processos bidirecionais. Pode-se dizer tanto Maria gostou do presente ou o presente agradou Maria. Não é o caso de se dizer que todo verbo de processo mental do tipo gostar (gostar, temer, admirar-se, compreender, apreciar, esquecer, notar, acreditar, admirar, pensar) tem um exato equivalente semântico do tipo agradar (agradar, amedrontar, assombrar, intrigar, encantar, escapar, atacar, convencer, impressionar, transtornar); mas essa é a característica geral dos processos mentais que podem ser realizados em duas direções − o Experienciador ou o Fenômeno que é sentido podem ser o sujeito, ainda assim, mantendo a oração na voz ativa. Como referido acima, por Halliday (1985,1994), os processos materiais podem ser provados e substituídos pelo verbo fazer. Já os processos mentais, por outro lado, para ele, são processos que não podem ser provados ou substituídos por fazer. Não se pode dizer O que João fez foi saber a resposta?; ou O que Maria fez com o presente?. Uma outra distinção adicional feita por esse autor entre processos mentais e materiais é em relação à variação no número de participantes. Como foi visto, os processos materiais consentem dois tipos: aquele com um participante (intransitivo) e aquele com 26 dois (transitivo). Com os processos mentais não há tal distinção, pois todos os processos mentais, potencialmente, envolvem tanto um Experienciador e um Fenômeno. Isto não significa, segundo ele, que ambos devam estar presentes na oração. (i) Pode ocorrer situações em que há um Experienciador e nenhum Fenômeno, como em Jill não consegue ver, Tim sabe. Na realidade, há presumivelmente alguma coisa que Jill não pode ver − a tela do cinema, talvez, ou também que ela tenha perdido sua visão e não pode ver qualquer coisa. E também há alguma coisa que Tim sabe, mas que não está explícito. Dentre os muitos exemplos propostos por Halliday em que ocorre o Fenômeno implícito estão as passivas do tipo agradar, tais como Ela se sentiu satisfeita, encantada, preocupada, inpressionada; estes estão próximos de ser simples atributos sem a implicação de que qualquer fenômeno particular seja a fonte da preocupação ou do encantamento. (ii) Do mesmo modo, há situações em que se pode ter um Fenômeno e nenhum Experienciador, como em: Seu sorriso maroto consegue enganar; Cada um de seus olhares encanta; Ele só faz isso para irritar; Porque ele sabe que provoca, em que o Experienciador implicado de engana, encanta, irrita e provoca é simplesmente ‘pessoas’. c) Processos Relacionais Já os processos relacionais, propostos por Halliday (1985,1994), são aqueles do ser; por exemplo, Sara é sábia, Tom é o líder. O significado central das orações deste tipo é aquele de que alguma coisa é. Toda língua acomoda, na sua gramática, diz ele, um número de modos distintos de ser, expressos com tipos diferentes de processos relacionais na oração, como demonstrado abaixo: • intensivo (‘x é a’); • circunstancial (‘x está para a’); • possessivo (‘x tem a’). 27 Cada um destes vem em dois modos distintos: - atributivo (‘a é um atributo de x’); - identificativo (‘a é a identidade de x’). Isto dá os seis tipos de processos relacionais, conforme apresentado na Tabela 1. TABELA 1: Os principais tipos de processos relacionais (Halliday, 1985:113) MODO TIPO • intensivo • Circunstancial • possessivo (a) atributivo (b) identificativo Sara é sábia. Tom é o líder; O líder é Tom. A feira é na terça feira. Amanhã é dia 10; Dia 10 é amanhã Pedro tem um piano. O piano é de Pedro; De Pedro é o piano Os exemplos dados nesta Tabela, demonstrados por Halliday, levantam uma importante diferença entre o modo atributivo e o modo identificativo. Os identificativos são reversíveis, tanto que o x e o a podem ser mudados de lugar: Tom é o líder; O líder é Tom. Os atributivos não são reversíveis: não há a forma sábia é Sara que é aparentado (sistematicamente relacionado) a Sara é sábia. d) Processos Comportamentais Os processos comportamentais são, no dizer de Halliday, processos do comportamento psicológico e fisiológico, como respirar, sonhar, sorrir, tossir. Gramaticalmente, eles são intermediários entre processos materiais e mentais. O Comportante, diz ele, é tipicamente um ser consciente, como o Experienciador; mas a maioria das orações de processos comportamentais têm somente um participante, como o exemplo na Figura 6. 28 Buff nem ri nem chora A tartaruga Mock suspirou profundamente Eu choro por você Comportante Processo (Circunstância) FIGURA 6: Processos Comportamentais (Halliday, 1985:129) Esta categoria inclui, segundo o autor, em relação ao fim mental, processos de consciência que são representados como formas de comportamentos, como olhar, assistir, ouvir, pensar (no sentido de ‘ponderar’); por exemplo Não olhe!, Eu estou pensando, Ninguém está escutando. Para o outro fim da escala, são atividades as quais devem ser classificadas como comportamentais sobre bases semânticas mas que, além do fato de que o participante é tipicamente humano, são gramaticalmente indistingüíveis do processo material intransitivo; por exemplo, cantar ou esquiar. Estes podem ser analisados como materiais, incluindo alguns em que o comportamental envolve dois participantes humanos, como beijar. Em Maria beijou João, Maria é Ator e João é Meta, e a oração pode ser provada do modo normal dos processos materiais transitivos: O que a Maria fez ao João?. e) Processos Verbais Quanto aos processos verbais, Halliday observa que são processos do dizer, como em O que você disse? − Eu disse que está barulhento aqui. Mas ‘dizer’ tem que ser interpretado em um sentido mais amplo; ele cobre um tipo de troca simbólica de significado, como o aviso diz para você ficar quieto ou meu relógio diz dez e meia. A função gramatical de você, eu, o aviso, meu relógio é aquela do Dizente. Duas outras funções participantes operam, segundo ele, regularmente em um processo verbal. Uma é o Receptor, o participante para quem a verbalização é endereçada. O outro é um nome para a própria verbalização, por exemplo, um monte de mentiras em ele me disse um monte de mentiras é a Verbiagem. 29 Há, contudo, acrescenta ele, um outro tipo de processo verbal, no qual o Dizente está em um sentido agindo verbalmente sobre um outro participante direto, com verbos tais como insultar, louvar, caluniar, abusar, estimular. Este outro participante será referido como o Alvo, conforme Figura 7. Eu estou sempre elogiando você para meus amigos. Dizente Processo: verbal Alvo Recebedor FIGURA 7: Alvo e Recebedor no processo verbal (Halliday, 1985:130) f) Processos Existenciais O processo existencial representa, no dizer de Halliday (1985,1994), que algo existe ou acontece, como em havia um coelhinho da Índia, parece que há um problema, tem alguma chamada?. Estas orações tipicamente têm o verbo ser, ou algum outro verbo expressando existência, tais como existir, surgir, seguidos por um grupo nominal funcionando como Existente. Diz ele que o Existente deve ser um fenômeno de qualquer tipo, e é freqüentemente, de fato, um evento, como em houve uma batalha, seguiu-se uma discussão calorosa. Algumas vezes outros verbos agem como Processos em uma oração existencial, por exemplo, veio uma aranha grande, ao redor crescia uma sebe espessa. Os participantes dos Processos listados acima são aqueles que estão diretamente envolvidos no processo, pois se referem diretamente ao verbo, sem uma preposição como intermediária. Há outras funções participantes ‘oblíquas’ ou ‘indiretas’, segundo o autor, que também especificam tipos de processos particulares. Contudo, é possível agrupá-las juntas em duas funções gerais comuns a todas as orações: o Beneficiário e a Extensão. Diferentes dos participantes diretos, tais funções não se combinam com a função Sujeito no sistema do modo verbal. 30 O Beneficiário O Beneficiário é o participante que se beneficia do processo. Halliday (1985,1994) diz que ele aparece no processo material e no processo verbal e, ocasionalmente, no processo relacional. • No processo material, o Beneficiário é tanto Recebedor ou Cliente. O Recebedor é aquele para quem bens são dados; o Cliente é aquele para quem serviços são feitos. Cada um deve aparecer com ou sem uma preposição, dependendo da sua posição na oração, como por exemplo, em deu o pacote a João, deu o pacote para João. Normalmente, diz ele, o Recebedor ocorre somente em uma oração que é ‘efetiva’ (que tem dois participantes diretos). Em um processo material, isto significa um processo que tem uma Meta; a Meta representa os ‘bens’, como na Figura 8. Eu dei ao meu amor um anel que não tem fim. Ator Processo: material Beneficiáio: Recebedor Meta FIGURA 8: Orações beneficiárias mostrando Recebedor (Halliday,1985:132) Com um Cliente, o ‘serviço’ deve, do mesmo modo, ser expresso através de uma Meta, especialmente uma Meta do tipo ‘criativo’, distinta do tipo ‘dispositivo’, algo que é transformado em ser pelo processo; por exemplo, um quadro, esta casa em ele pintou um quadro para João, construiu Maria esta casa. Mas é realmente o processo que constitui o serviço; daí, um Cliente deve também aparecer no meio de uma oração − que não tenha Meta, mas que tenha um Processo + Extensão, como por exemplo tocou uma melodia para Maria, ou somente o processo, como em toque para mim. • No processo verbal, o Beneficiário é aquele para quem algo é endereçado; por exemplo Maria em João disse para Maria; notificou Maria sobre a decisão. Refere-se a esta função como o Receptor. 31 O Receptor está usualmente presente em uma oração de processo verbal em que o sentido é aquele de um processo causativo mental, por exemplo convencer (‘fazer acreditar’), dizer (‘fazer saber’), explicar (‘fazer entender’), mostrar (‘fazer ver’), conforme exemplos na Tabela 2. TABELA 2: Receptor no processo verbal (Halliday, 1985:133) Dizente Processo Receptor Explicação ela isto / ela isto / ela isto / ela isto / ela explicou mostrou disse provou convenceu / persuadiu (a John) (John) John (a John) John que...; QU -... que...; QU -... que...; QU -... que...; QU -... que.... fez entender fez ver fez saber fez aceitar fez acreditar • Há também uns poucos processos relacionais atributivos, contendo um Beneficiário, por exemplo lhe em ela lhe foi boa esposa, custou-lhe bem caro. Refere-se a isto como Beneficiário, sem introduzir um termo mais específico, desde que constituem um papel distinto na oração. Diz Halliday que em uma oração atributiva, o Beneficiário funciona como Sujeito, se a oração for ‘efetiva’, na qual a forma ativa contém um Atribuidor, conforme Figura 9. (i) mediano A ligação custou me dois dólares. Portador Processo: circunstancial Beneficiário Atributo (ii) efetiva (I) Sujeito= Atribuidor O hotel cobrou me dois dólares pela ligação. Atribuidor Processo: circunstancial Beneficiário Atributo Portador (iii) efetiva Eu fui cobrado dois dólares pela ligação. Beneficiário Processo: circunstancial Atributo Portador (II) Sujeito= Beneficiário FIGURA 9: Beneficiário na oração atributiva efetiva (Halliday,1985:134) 32 A Extensão A Extensão é o elemento que especifica a extensão, o alcance do processo. Exemplos são uma canção em cante uma canção de seis pence, um terrível erro em O Grande Pássaro cometeu um terrível erro. Uma Extensão, diz Halliday, deve ocorrer em processos materiais, comportamentais, mentais e verbais. • Nos processos materiais, a Extensão expressa (i) o domínio sobre o qual o processo acontece. Por exemplo, em Maria subiu a montanha, a montanha especifica a extensão da subida de Maria; ou (ii) o próprio processo. Em João e Maria estavam jogando tênis, tênis é a Extensão. E é claramente não uma entidade, mas o ato de jogá-lo. É útil classificar a Extensão em um processo material, mais especificamente, argumenta Halliday, como qualquer dos dois: ‘Extensão: entidade’ ou ‘Extensão: processo’, como na Figura 10. O arganaz atravessou o pátio. Ator Processo: material Extensão: entidade Ela Ator fez me uma cortesia. Processo: material Beneficiário: Recebedor Extensão: processo FIGURA 10: Exemplos de Extensão (Halliday,1985: 135) A Extensão em um processo material tipicamente ocorre no ‘meio’ da oração, aquelas nas quais há somente um participante direto − consequentemente nas quais há somente Ator e nenhuma Meta. Como um resultado, não é sempre fácil distinguir uma Extensão de uma Meta. Semanticamente, um elemento Extensão não é um participante no processo; mas, gramaticalmente, é tratado como se fosse. Assim, a Extensão pode se tornar Sujeito da oração, como em cinco partidas foram jogadas antes do chá. Como já foi apontado por Halliday, a Extensão não pode ser provada por fazer ou fazer com, enquanto a Meta pode. Desde que nada esteja sendo feito para isto, um elemento Extensão nunca pode ter um Atributo resultativo acrescentado no interior da 33 oração, enquanto uma Meta pode: pode-se dizer eles pisotearam o campo até achatar-se significando com o resultado que ele ficou achatado, em que o campo é Meta, mas não achatado atravessou o campo até achatar-se, em que o campo é a Extensão, embora o nivelamento deva ter resultado do seu constante cruzamento. A Extensão não pode ser um pronome pessoal, e não pode, normalmente, ser modificada por um possessivo. • Nos processos mentais, para esse autor, a Extensão não é um elemento adicional, mas fornece um meio de interpretar um elemento que já foi encontrado, assim como para explicar a existência dos dois tipos paralelos de estrutura, e também as diferenças entre elas. Aqui, deve-se interpretar o Fenômeno, em um tipo gostar de processo mental, como um tipo de elemento Extensão. Tais orações, então, têm somente um participante direto, o Experienciador consciente; o Fenômeno – aquele que é visto, sentido ou pensado – funciona mais como um tipo de delimitação das fronteiras dos processos do sentir. • Nos processos verbais, a Extensão é o elemento que expressa a classe, a qualidade e a quantidade do que é dito: então, refere-se à Extensão em um processo verbal como a Verbiagem, conforme Tabela abaixo: TABELA 3: Extensão nos processos verbais (Halliday, 1985:137) Orações de Processos Verbais Extensão: Verbiagem O que você disse? Ele fez uma pergunta. Ela fala alemão. Conte-me uma estória. Não fale bobagem! Ele fez um discurso longo. o que uma pergunta alemão uma estória bobagem um longo discurso Elementos Circunstanciais Os principais tipos de elementos circunstanciais, propostos e discutidos por Halliday, são: de Extensão e Localização no tempo e no espaço; Modo (meio, qualidade e comparação); Causa (razão, propósito e benefício); Acompanhamento; Assunto e Papel. 34 Os circunstanciais de Extensão e Localização formam um conjunto, como demonstrado na Tabela 4. TABELA 4: Circunstanciais de extensão e localização (Halliday, 1985: 137) Extensão Localização Espacial Temporal Distância andar (por) sete milhas Lugar Duração / freqüência ficar (por) duas horas Tempo trabalhar na cozinha levantar às seis horas As expressões circunstanciais de extensão são expressas em termos de alguma unidade de dimensão, como distância, anos. As formas interrogativas para extensão são: quantos?, a que distância?, quantas vezes?. A estrutura típica é um grupo nominal com quantificador, tanto definido, por exemplo cinco dias, ou indefinido, por exemplo muitas milhas; isto ocorre com ou sem preposição. Os interrogativos de localização são onde?, quando?. A estrutura típica é um grupo adverbial ou frase preposicional; exemplos são debaixo de, à porta, antes do por do sol. 1.2. O Componente Léxico-Gramático No dizer de Eggins (1994), a língua tem um ‘potencial criativo’ ilimitado. Ou seja, (i) a língua nos permite criar novos significados e (ii) a língua nos permite criar qualquer significado. Desde que é possível criar infinitos significados na língua, ela não é um sistema semiótico bi-único. Diz ela que se a língua fosse um sistema bi-único, um conteúdo seria relacionado a uma expressão, i.e. um significado significaria um som. Cada vez que quiséssemos criar um novo significado, teríamos que introduzir um novo som. Se este fosse o caso, cada vez que algo de ‘novo’ acontecesse, ou necessitasse ser expresso, precisaríamos de um novo som para representá-lo. Se a língua fosse construída sobre este princípio bi-único, nunca conseguiríamos lembrar de todos os sons e chegaria um momento em que não teríamos mais sons que fossem diferentes. 35 Está claro que não é assim que a língua funciona, observa Eggins. Existe alguma coisa na língua que nos permite ‘re-usar’ os sons, a fim de que sons individuais possam ser relacionados às suas ocorrências, em combinações. Como é, então, que a língua é diferente? Como é que a linguagem consegue fugir desta restrição da bi-unicidade? Para ela, o que faz com que a língua seja diferente é o fato de que ela tem um nível intermediário ‘léxico-gramátical’, a que informalmente nos referimos simplesmente como sendo o nível ‘gramático’. A função deste nível gramático é livrar a língua das restrições da bi-unicidade. O efeito desta libertação da bi-unicidade, é que a língua aceita um número finito de unidades de expressão (sons) para realizar um número infinito de conteúdos (significados). Assim, a autora observa que, na língua usamos meios finitos para realizar propósitos infinitos. TABELA 5: Colocando as palavras em estruturas (Eggins, 1994:118) Expressão Significado O João come ovos pochê. Afirmação sobre o comportamento habitual de João com relação aos ovos O João está comendo ovos pochê. Afirmação sobre o comportamento atual de João com relação aos ovos. O João comeu ovos pochê. Afirmação sobre uma ação passada de João. Ovos pochê são comidos por João. Afirmação com relação a algo que acontece com os ovos. O João comeu ovos pochê? Um pedido de informação com relação a um ato passado de João. O João come ovos pochê? Um pedido de informação com relação ao comportamento habitual de João. João, coma ovos pochê. Uma ordem para João efetuar o ato de ‘comer’. Ovos pochê o João comeu. Afirmação sobre o que o João comeu. Ovos pochê, João. Uma ordem para João efetuar a ação de ‘escaldar’ os ovos. A léxico-gramática, explica Eggins (1994), nos permite fazer isto quando nos fornece os meios de combinar sons para formar palavras que, por sua vez, podem ser agrupadas em ‘estruturas gramaticais’ diferentes para formar significados diferentes. Por 36 exemplo, como mostra a Tabela 5, nós podemos utilizar as quatro palavras João, comer, pochê e ovos, colocando-as em estruturas gramaticais diferentes e, assim, conseguimos uma série de significados diferentes. Uma parte do que estas sentenças significam está nas palavras que são usadas (que estamos falando de ovos e não livros, João e não o cachorro, comer e não correr). Mas uma segunda parte deste significado está no posicionamento destas palavras em ‘estruturas’. São as diferenças estruturais que nos dão as diferenças de significado entre o fazer uma afirmação ou fazer uma pergunta ou dar uma ordem (escolhas de modo diferentes). Da mesma forma, as diferenças estruturais são responsáveis pelas diferenças de significado entre falar sobre algo que acontece habitualmente, versus algo que está acontecendo agora, ou que aconteceu no passado (estruturas verbais diferentes). Estas diferenças estruturais subjazem à necessidade de modificações pequenas no elemento verbal (comer) a fim de expressar os significados diferentes. Diz ela que a léxico-gramática fornece à língua um potencial criativo inerente. Este potencial criativo vem da gramática – os princípios que nos permitem transformar um substantivo em verbo, adjetivo, advérbio, etc., e assim usá-la em uma variedade de estruturas para criar diferentes significados. Cunhar novas palavras ou combinar palavras existentes de formas novas representam, para essa autora, as duas maneiras mais óbvias dos falantes explorarem o potencial criativo da língua. Ambas são formas de usar os meios fonéticos infinitos de uma língua para alcançar infinitos fins semânticos, e ambas são possíveis apenas graças ao nível intermediário de codificação da língua. No entanto, o potencial criativo da língua não está limitado à criação de palavras novas e sua disponibilidade automática para uso nas estruturas gramaticais. Nós podemos também usar o repertório gramatical das línguas para criar um significado de uma forma não típica, ou ‘criativamente diferente’. Uma forma, segundo Eggins, que talvez pudéssemos utilizar para obter silêncio na sala seria: Calem-se ou Parem de falar, por favor. O que se estaria fazendo aqui seria a utilização da estrutura gramatical do imperativo para criar o significado de uma ‘ordem. Porém, talvez desejássemos ser mais conciliatórios com eles: Vocês se incomodam de parar de conversar, quando eu estou falando? Neste caso, não foi usada uma estrutura de 37 imperativo, mas uma estrutura interrogativa; embora o que ainda se queira dizer é a ordem para ‘calar-se’, estamos ‘pegando emprestado’ a estrutura gramatical que normalmente usamos para fazer perguntas. Você nota que esta não é uma pergunta ‘de verdade’, ao perceber que respostas como sim e não, não seriam respostas aceitáveis no caso. A resposta precisa significar concordância (ou desafio) por parte dos alunos: ou eles se calam, ou eles me ignoram (assim provocando conflito). Outra maneira que poderíamos usar para dar ordem seria: Está tão barulhento aqui, que não consigo ouvir meus pensamentos. Aqui, para a autora, não foi usado um imperativo, nem uma interrogativa, mas uma forma declarativa: o tipo de estrutura gramatical que normalmente usamos para dar informação. No entanto, está claro que não estamos realmente dando informação, mas querendo que os alunos se calem. Uma outra forma seria dizer: Que barulho! Aqui foi usada uma estrutura exclamativa; no entanto, está claro que não estamos meramente fazendo uma exclamação com relação à situação, mas tentando fazer com que esta situação mude. Esta forma de ‘brincar com o sistema’, explica Eggins, usando estruturas não típicas para expressar significados de maneiras que podem ser altamente sensíveis às restrições contextuais, é um tipo de ‘metáfora gramatical’. A metáfora gramatical, para ela, faz parte do potencial criativo que a gramática oferece aos usuários da língua. Assim, parte do que a léxico-gramática faz, é oferecer à língua um potencial criativo: uma forma de criar novos significados, inventando novos signos que conseqüentemente são incorporados à léxico-gramática da língua, simplesmente pelo agrupamento de signos existentes, de formas diferentes, ou através do uso de estruturas existentes de formas atípicas. No entanto, diz Eggins, a gramática não nos permite apenas fazer mais significados ou criar; ela também nos permite significar MAIS DE UMA COISA AO MESMO TEMPO. Por exemplo em João come ovos pochê, parte do significado desta sentença é o significado experiencial, o significado das palavras João e ovos pochê (os participantes envolvidos) e a palavra come (o processo em que ele está envolvido). Estes significados experienciais estão em contraste com a oração sobre Pedro lendo livros, ou o cachorro comendo um osso. 38 Mas uma outra parte do significado da oração é a estrutura Sujeito^Verbo Finito juntamente com o Predicado^Complemento, que nos dá a idéia de ‘declarativa’, um passar de informação. Aqui, para essa autora, a oração contrasta com variantes como João está comendo ovos pochê? (uma pergunta, pedindo por informação), ou Coma ovos pochê, João (uma ordem, que demanda a execução de uma ação). Um terceiro tipo de significado que percebemos na mesma oração, comenta Eggins, é que ‘esta é uma informação a respeito de João’ – João é o Tema ou ponto de partida desta informação, que se realiza através da organização estrutural de colocar João na primeira posição da oração. Este é o significado textual da oração. Com relação a isto, a oração contrasta com Ovos pochê come o João, em que o foco seria em o que estava sendo comido, ao invés de em quem estava comendo. Nesta única oração, portanto, estamos, na verdade, realizando três tipos de significado simultaneamente. É possível fazer isto porque há três tipos de estruturas gramaticais simultâneas. Podemos separar cada tipo de significado, ao variar a oração em apenas um item de cada vez. Assim, comparada à nossa oração inicial João come ovos pochê, podemos perceber que: Ovos pochê são comidos por João, tem o mesmo significado experiencial (ainda estamos falando de qual ação João realizou com os ovos), o mesmo significado interpessoal (ainda é uma declarativa, um repassar de informação) mas agora há uma mensagem SOBRE OS OVOS – nós mudamos a organização temática da mensagem e, portanto, mudamos seu significado textual. Já em O João comeu ovos pochê?, temos o mesmo significado experiencial, e o mesmo significado textual (que esta é uma mensagem a respeito de João), mas desta vez com um significado interpessoal diferente: agora não se está mais dando informação, mas pedindo esta informação. Por outro lado, com João, coma ovos pochê, nós mudamos o significado interpessoal da oração. A oração ainda é experiencialmente a respeito de João, comendo, e ovos; e ainda, textualmente, tem a ver com João; mas agora é um imperativo – não está dando, nem pedindo informação, mas é uma ordem para a realização de uma ação. Isto se consegue pela estrutura em que João é um elemento vocativo, tendo o verbo Finito e apenas um elemento Predicativo. Finalmente, com Pedro, leia seus livros, o significado experiencial foi mudado, embora textualmente e interpessoalmente, os significados continuem os mesmos, como no exemplo imediatamente anterior. 39 Estas sentenças demonstram, no dizer de Eggins, que a léxico-gramática permite à língua criar significados para fornecer um potencial criativo ilimitado, e também para significar várias coisas ao mesmo tempo. Isto é possível porque a léxico-gramática permite à língua ter várias camadas simultâneas de estrutura. 2. A Metafunção Interpessoal Para Halliday (1985), a metafunção interpessoal se volta para outro aspecto do significado da oração: seu significado como uma troca. A oração é organizada como um evento interativo envolvendo o falante ou escritor, e audiência. O termo ‘falante’ é usado como um termo de cobertura para se referir tanto ao falante quanto ao escritor. No ato de falar, o falante adota para si um papel de fala particular e, assim fazendo, designa ao ouvinte uma função complementar a qual ele deseja que o ouvinte adote. Por exemplo, ao fazer uma pergunta, está assumindo a função de buscador de informação e exigindo, do ouvinte, que ele assuma a função de fornecedor da informação requerida. Os tipos mais básicos de papéis de fala, discutidos por ele, os quais estão por trás dos tipos mais específicos, são dois: (i) oferecer e (ii) pedir. Ou o falante oferece algo ao ouvinte (uma informação) ou pede algo dele. Mesmo essas categorias envolvem noções complexas: oferecer significa ‘convidado a receber’ e pedir ‘convidado a dar’. O falante não está somente fazendo algo para si, mas também, exigindo algo do ouvinte. Portanto, um ‘ato’ de fala é algo que deveria mais apropriadamente ser chamado um ‘interato’: é uma troca na qual dar implica receber e pedir implica dar algo como resposta. Além da distinção entre oferecer e pedir, o autor explica que há a troca de bens e serviços – que demanda um objeto ou uma ação – ou de informação – a troca de informações. Essas duas variáveis, quando tomadas junto, definem as quatro funções discursivas de oferta, comando, declaração e pergunta. Diz Halliday (1985) que quando a língua é usada para trocar informações, a oração assume a forma de uma PROPOSIÇÃO. Ela se torna algo a respeito do qual se pode discutir – alguma coisa que pode ser afirmada ou negada, e também posta em dúvida, contradita, reafirmada, aceita com reserva, e assim por diante. Não se pode, para ele, usar o 40 termo ‘proposição’ para se referir a todas as funções da oração como um evento interativo, porque isto excluiria a troca de bens e serviços, a extensão completa de ofertas e comandos. De modo diferente, as declarações e as perguntas não são proposições, pois não podem ser afirmadas ou negadas. Nesse sentido, introduz um termo paralelo para se referir a ofertas e ordens, que é o de PROPOSTA. Ou melhor, a função semântica de uma oração na troca de informação é uma proposição; já a função semântica de uma oração, na troca de bens e serviços, é uma proposta. Nesta função, como nos fala Halliday (1985), o sistema que ativa a oração como um todo é o MODO ORACIONAL que consiste de duas partes: (1) o Sujeito, o qual é um grupo nominal, e (2) o elemento Finito, o qual é parte de um grupo verbal. Assim, em pode ser que ele, ele é Sujeito e pode ser que é Finito. O elemento Finito é um dentre um pequeno número de operadores verbais, expressando tempo (por exemplo é, tem) ou modalidade (por exemplo pode, tem que). O Sujeito e o Finito, para esse autor, estão intimamente ligados e combinam-se para formar um constituinte, o qual se chama Modo Oracional. O Modo Oracional é, segundo ele, o elemento que realiza a seleção de modo verbal na oração. Este tem, algumas vezes, sido chamado o elemento ‘Modal’, mas a dificuldade com isto é que o termo Modal é ambíguo, pois corresponde tanto a modo como a modalidade. Quanto ao elemento Finito (Operador Verbal), observa que este, como seu nome implica, tem a função de fazer a proposição finita. O que corresponde a dizer que ele circunscreve; ele traz a proposição prática de que isto é algo que pode ser discutido. Um bom modo para fazer algo argumentável, diz Halliday, é dar-lhe um ponto de referência no aqui e agora; e isto é o que o Finito faz. Ele relaciona a proposição com seu contexto no evento discursivo. Isto pode ser feito por referência ao tempo de fala estava em um velho estava atravessando a rua; e por referência ao julgamento do falante não pode em não pode ser verdade. Nos termos gramaticais, o primeiro é TEMPO PRIMÁRIO, o segundo é MODALIDADE. O Tempo Primário significa passado, presente ou futuro para o momento da fala; é o tempo relativo ao ‘agora’. Já a Modalidade significa o julgamento do falante das probabilidades, ou das obrigações envolvidas no que está sendo dito. 41 A Finitude, argumenta Halliday, é então expressa por meios de um operador verbal, o qual é tanto temporal (passado / presente / futuro) ou modal (alto / médio / baixo). Ao mesmo tempo, há uma característica semântica que é um concomitante essencial da Finitude, que é a polaridade. Para algo ser argumentável, ele tem que ser especificado como sendo ou positivo ou negativo. Para esse autor, a Finitude combina a especificação da polaridade com a especificação de cada um, na referência temporal ou modal, para o evento discursivo. Ela constitui o componente verbal no Modo Oracional. Mas há também um componente nominal e esta é a função do Sujeito. O Sujeito complementa a falta daquilo que ele tem para formar a proposição: a saber, algo por referência àquilo que a proposição pode afirmar ou negar. Por exemplo, em o duque tem dado aquele bule de chá, não tem?, o Finito tem especifica referência à polaridade negativa e ao tempo presente, enquanto o Sujeito o duque especifica a entidade sobre a qual a afirmação é considerada válida. É o duque, em outras palavras, a quem é atribuído o sucesso ou o fracasso da proposição. Ele é aquilo, por assim dizer, responsável pelo funcionamento da oração como um evento interativo. O falante apoia seu caso sobre o duque + tem, e isto é o que o ouvinte é chamado a compreender. Segundo o autor, é mais fácil ver esse princípio da responsabilidade em uma proposta (uma oração de ‘bens e serviços’) em que o Sujeito especifica aquele que é, atualmente, responsável por realizar a oferta ou o comando. Por exemplo, em eu abrirei a porta, posso? (oferta) a abertura depende do eu; em pare de gritar você aí deste lado! (comando) cabe a você desistir ou não. Daí, diz ele, o Sujeito típico de uma oferta é o falante, e aquele de um comando é a pessoa endereçada. O Sujeito, em tais orações, usualmente é aquele que é também o Ator, mas não necessariamente; então, ambos, a oferta e o comando podem ser passivos, como por exemplo eu serei guiado pelos seus desejos, serei?, dê um jeito de ser convidado para esta reunião, certo?. Aqui, acrescenta, o Sujeito está dissociado do Ator; mas o Sujeito ainda especifica aquele que é responsável pelo sucesso da proposta; mas, em uma proposição, isto significa aquele sobre o qual a validade da informação repousa. 42 2.1. A Modalidade A Modalidade, no dizer de Halliday (1985: 335), “refere-se à área do significado que repousa entre o sim e o não − o espaço intermediário entre a polaridade positiva e negativa”. Mas há mais de um caminho para se obter um ‘sim ou não’. Para dar conta disto, refere-se à distinção entre (1) proposições (afirmações e perguntas – congruentemente realizados como indicativo) e (2) propostas (oferecimentos e comandos – os quais não têm forma congruente real na gramática, mas que, por falta, pode-se caracterizá-las como imperativo). Refere-se ao tipo (1) como MODALIZAÇÃO e ao tipo (2) como MODULAÇÃO, conforme Figura 11: ( i ) probabilidade (‘pode ser’) (1) modalização (tipo ‘indicativo’) ( ii ) freqüência (‘algumas vezes’) MODALIDADE TIPO ( i ) obrigação (‘é desejado’) (2) modulação (tipo ‘imperativo’) ( ii ) inclinação (‘deseja’) FIGURA 11: Sistema de tipos de modalidade (Halliday (1985: 335) Em uma proposição, para esse autor, há dois tipos de possibilidades intermediárias: os graus de probabilidade (‘possivelmente / provavelmente / certamente’); e os graus de freqüência (‘algumas vezes/usualmente/sempre’). Os primeiros, argumenta, são equivalentes a ‘sim ou não’; por exemplo: talvez sim, talvez não, com diferentes graus de probabilidade ligados. Os últimos são equivalentes tanto a ‘sim e a não’; por exemplo: algumas vezes sim, algumas vezes não, com diferentes graus de freqüência ligados. É a essas escalas de probabilidade e freqüência que o termo ‘modalidade’ se estende. Para ele, tanto a probabilidade como a freqüência podem ser expressas em três modos: (a) por um operador modal finito no grupo verbal, por exemplo deve ser o John, ele fica sentado lá todo dia; (b) por um adjunto modal de (i) probabilidade ou (ii) freqüência, por exemplo, provavelmente é o John, ele normalmente senta lá o dia todo; (c) 43 por ambos ao mesmo tempo, por exemplo, provavelmente é o John, ele fica sentado lá normalmente o dia todo. Probabilidade e freqüência são tipos de MODALIZAÇÃO. Em uma proposta, diz Halliday, o significado dos pólos positivo e negativo é prescrito e proscrito: positivo ‘faça isto’, negativo ‘não faça isto’. Há, também, dois tipos de possibilidade intermediária, dependendo da função discursiva, se comando ou oferta. (i) Em um comando, observa, os pontos intermediários representam graus de obrigação (‘ter permissão para supor-se que, exigir-se que’); (ii) em uma oferta, representam graus de inclinação (‘disposto a, ansioso para, determinado a’). Halliday refere-se às escalas de obrigação e inclinação como MODULAÇÃO, para distingui-las da modalidade acima. Tanto a obrigação e a inclinação podem ser expressas por dois modos: (a) por um operador modal finito, por exemplo, você deveria saber disto, eu os ajudarei; (b) por uma expansão do Predicador, (i) tipicamente por um verbo passivo era para você saber disto, (i) tipicamente por um adjetivo eu estou ansioso para ajudá-los. As propostas, as quais são claramente positivas ou negativas, são trocas de bens e serviços entre falante e ouvinte, nas quais o falante está (i) oferecendo algo, por exemplo, é melhor eu ir para casa?, (ii) exigindo que o ouvinte faça algo, por exemplo, para casa ou (iii) sugerindo que ambos façam algo, por exemplo, vamos para casa!. Os quatro tipos de modalidade são dispostos na forma diagramática na Figura 12. MODALIZAÇÃO MODULAÇÃO tipo ‘indicativo’ tipo ‘imperativo’ [probabilidade] [freqüência] Positivo [obrigação] é certamente deve ser provavelmente será possivelmente pode ser que seja [inclinação] faça! sempre exige-se tem qu fazer usualmente supõe-se fará ansioso permitido pode ser que faça disposto algumas vezes não é determinado não faça! negativo FIGURA 12: Diagrama mostrando a relação da modalidade à polaridade e ao modo (Halliday,1985: 335). 44 Com relação aos tipos de modalidade, como nos fala Halliday (1985:336), auxiliares modais como (poder; poderia; pode ser que; futuro do presente; futuro do pretérito; dever; auxiliar futuro do presente; ter que; precisar; dever; é para; ter que) podem ocorrer em todos os tipos, sendo o uso mais restrito nas categorias de freqüência e inclinação do que nas outras duas. Mas como uma categoria, eles extrapolam tais sentidos; e já que a função geral dos auxiliares modais é expressar graus de polaridade, isto dá uma idéia de como as quatro escalas de modalidade são semanticamente relacionadas. Ao mesmo tempo, cada um dos quatro tipos pode ser expresso de outras formas, além dessas. A distinção básica, proposta por Halliday, que determina como a modalidade será expressa é a distinção entre modalidade subjetiva e objetiva, que possui um sistema de quatro possíveis orientações, conforme Figura 13. explícita Subjetiva→ implícita ORIENTAÇÃO implícita Objetiva → explícita FIGURA 13: Sistema de orientações na modalidade (Halliday,1985:336) Tal sistema, para esse autor, combina-se livremente com os tipos de modalidade, com exceção daqueles que não possuem formas sistemáticas de realizar a orientação subjetiva explícita no caso da freqüência (eu reconheço que seja normal que...) e inclinação (eu ofereço em prol de...) − há limites para a intromissão explícita do falante. Exemplos são dados na Tabela 5. 45 TABELA 6: ‘Tipo’ e ‘Orientação’: exemplos (Halliday, 1985: 336) Subjetiva: Subjetiva: Objetiva: Objetiva: explícita implícita Eu acho [na minha opinião] Maria sabe. Maria saberá. implícita Maria provavelmente sabe. [com toda probabilidade] Modalidade: Freqüência Fred senta quieto Fred normalmente senta bem quietinho. explícita É provável que Maria saiba. [é possível que Maria sabe] É normal que Fred fique sentado quietinho. Modulação: Obrigação Eu quero que João vá. João deve ir. Acredita-se que João vá. Espera-se que João vá. Modulação: Inclinação (Eu me responsabilizo pela ajuda de Jane) Jane ajudará. Jane está ansiosa para ajudar. Será um prazer para Jane ajudar Modalidade: probabilidade Há na modalidade, também, Halliday (1985, 1994), um sistema de valores que é intensificado no julgamento modal: alto, médio ou baixo, como demonstrado na Figura 14. mediano (provável / usual / supor-se que /ansioso) MODALIDADE alto (certo / sempre / requer-se que / determinado) VALOR externo baixo(possível / algumas vezes / permitido / disposto) FIGURA 14: Sistema de valores na modalidade (Halliday, 1985: 337) Diz ele que esses valores são classificados, considerando-se também as quatro escalas de modalidade, como sumarizado na Tabela 7. TABELA 7: Valores da Modalidade (Halliday, 1985: 337) Probabilidade Freqüência Obrigação Inclinação Alta certo sempre requer-se que determinado Média provável usualmente supõe-se que ansioso Baixa possível algumas vezes permitido disposto O termo modalidade, que Hodge e Kress (1988) tomam da lingüística, refere-se ao status, autoridade e confiabilidade de uma mensagem, ao seu status ontológico e ao seu 46 valor como verdade ou fato. A abordagem deles deve muito ao trabalho de Halliday (1976), que (i) estendeu o uso do termo modalidade além dos chamados verbos auxiliares como poder e poderia/podia, para incluir todos aqueles elementos com função semelhante, seja como nomes há um elemento de dúvida que... ; como verbos eu duvido que... ; como adjetivos é duvidoso que... ou alguma outra forma: talvez, certo, tipo e etc. A outra contribuição fundamental de Halliday para a teoria da modalidade foi sua insistência em que (ii) a modalidade é parte do componente interpessoal da sua gramática funcional. Fairclough (1992, 2001) aceita também a extensão do termo modalidade além dos chamados verbos auxiliares e ao considerá-lo como parte do componente interpessoal da gramática funcional. Nesse sentido, para esse autor, dada uma proposição sobre o mundo, como a terra é plana, pode-se categoricamente afirmá-la (a terra é plana) ou negá-la (a terra não é plana), mas também estão disponíveis vários graus de comprometimento menos categóricos e menos determinados a favor ou contra: a terra pode ser / provavelmente é / possivelmente é / é mais ou menos plana, por exemplo. Essa é, segundo esse autor, a esfera da modalidade, a dimensão da gramática da oração que corresponde à função ‘interpessoal’ da linguagem. Em qualquer enunciado proposicional, o produtor deve indicar o que Hodge e Kress (1988) chamam de um grau de ‘afinidade’, com a proposição; portanto, qualquer enunciado desse tipo tem a propriedade da modalidade, ou é ‘modalizada’. A modalidade na gramática, segundo Fairclough (1992, 2001), era tradicionalmente associada a ‘verbos auxiliares modais’ (‘dever’ – obrigação moral; ‘poder’ – permissão, possibilidade; ‘poder’ – capacidade, etc.) que são um meio importante de realizar a modalidade. Entretanto, a abordagem - ‘sistêmica’ - da gramática a que Hodge e Kress (1988) recorrem enfatiza que os auxiliares modais são apenas um aspecto da modalidade entre muitos. O tempo verbal é outro: como demonstra o exemplo do último parágrafo, o presente do indicativo (‘é’) realiza uma modalidade categórica. Outro aspecto é o conjunto de advérbios modais, como ‘provavelmente’, ‘possivelmente’, ‘obviamente’ e ‘definitivamente’, com seus adjetivos equivalentes (por exemplo, é provável / possível que a terra seja plana). Além dessas possibilidades, existe ainda uma gama um tanto difusa de formas de manifestação de vários graus de afinidade: indeterminações como ‘uma espécie de’, ‘um pouco’, ‘ou uma coisa assim’, e assim por diante. 47 3. A Metafunção Textual Para Halliday (1985, 1994), das várias estruturas que constróem uma oração, a estrutura Temática é aquela que dá à oração o seu caráter de mensagem A oração é organizada como uma mensagem porque tem um status especial atribuído a uma de suas partes: um elemento da oração é enunciado como tema; este, então, combina-se com o resto da oração de tal modo, que as duas partes juntas constituem uma mensagem. Tema é o elemento que serve como ponto de partida da mensagem; é aquilo de que trata a oração. O resto da mensagem, a parte na qual o Tema é desenvolvido, é chamado de Rema. Nessa configuração, para esse autor, o Tema é o ponto-de-partida para a mensagem; é o solo de onde a oração decola. Assim, parte do significado de qualquer oração depende do elemento que é escolhido como Tema. Há uma diferença de significado entre um meio pêni é a menor moeda inglesa, em que meio pêni é o Tema, e a menor moeda inglesa é o meio pêni, em que a menor moeda é o Tema. A diferença pode ser caracterizada como ‘temática’; as duas orações diferem na escolha do tema. Glosando-as assim, como ‘Vou lhe falar a respeito de...’, podemos sentir que elas são mensagens diferentes, pois primeira posição na oração não é o que define o Tema; é o meio pelo qual a função de Tema é realizada. 3.1. O Método de Desenvolvimento Fries (1995a) propõe o que ele denomina Método de Desenvolvimento, doravante (MD), do texto, explorando a relação entre tema e texto. Para ele, o tema orienta o ouvinte sobre aquilo que deve ser percebido como o objetivo da mensagem e fornece o enquadre5 para a interpretação da mensagem. Diz ele que, se o tema é um elemento significativo no nível da sentença (simples ou complexa), então é de se esperar que os significados que são feitos temáticos variarão de acordo com os objetivos da mensagem. Se o MD se reflete no conteúdo do 5 Framework 48 tema, a mudança de tema deve mudar a percepção do leitor sobre o MD. O MD é semântico e não é estrutural, segundo Fries. Fries (1995b), com a finalidade de averiguar se é possível ligar o conteúdo temático a algum aspecto do significado dos textos, trabalha com o período composto. Apoia-se, para isso, nas palavras de Thompson (1985), sobre a ocorrência de orações causais iniciais na qual sugere que uma oração de propósito inicial oferece uma estrutura dentro da qual a oração principal pode ser interpretada, fazendo isto pelo seu papel como elo na cadeia de expectativa. Ela sugere, então que é possível manipular a reação do leitor através do controle da informação que é colocada no tema. Ou seja, o estatuto temático é significante. Princípio6 Geral: O tema de uma oração fornece o quadro dentro do qual o rema da CC é interpretado. Princípio 1: Fornece a informação que é requerida para interpretar a mensagem principal. Princípio 2: Cancela a suposição que foi estabelecida no contexto prévio. Princípio 3: Evita erro de interpretação referente a lugar e tempo. Princípio 4: Salienta o ponto de elaboração. Os princípios 1, 2 e 3, em geral, envolvem temas-marcados (porque se referem, em geral, a circunstâncias) e o 4 envolve tema não-marcado (porque a elaboração de um item referido anteriormente é feita através do sujeito da oração em curso). 4. As Metáforas Gramaticais Para Halliday (1985: 320), “a metáfora é descrita usualmente como variação no uso das palavras: uma palavra é comumente usada com um significado transferido”. 6 Princípio (ou estratégia) e, não, regra, porque não se pode predizer o conteúdo temático através de regras, e também porque esses princípios não devem ser interpretados como mutuamente exclusivos. 49 Contrário a isso, as metáforas são vistas com outra finalidade: a metáfora é variação na expressão dos significados. Se se olhar para as metáforas deste modo, para esse autor, contudo, reconhece-se que a seleção lexical é exatamente um aspecto da seleção léxicogramática e que a variação metafórica é preferencialmente léxico-gramatical e não simplesmente lexical. Muitas metáforas podem, segundo ele, ser localizadas nas expressões lexicais, mas há, freqüentemente, variação gramatical acompanhando-as. Por exemplo em os protestos chegaram aos montes, pode-se dizer os protestos chegavam em grande quantidade, ou os protestos eram recebidos em grande quantidade, ou mesmo muitas pessoas protestavam. Para esse autor, há um forte elemento gramatical na retórica de transferência; e, uma vez reconhecido isto, descobre-se que há também a mesma coisa como metáfora gramatical, em que a variação está essencialmente nas formas gramaticais, apesar de freqüentemente requererem, também, alguma variação lexical. Se algo é dito metafórico, segundo Halliday (1985), lá deve também estar alguma coisa que não o é; e a suposição é de que para qualquer expressão metafórica há outra correspondente, ou talvez mais do que uma, que é literal – ou, como esse autor prefere chamá-la, CONGRUENTE. Em outras palavras, para qualquer configuração semântica dada há, pelos menos, uma realização congruente na léxico-gramática. Isto, para Halliday (1985:321), “não é para dizer que a realização congruente é melhor, ou que ela é a mais freqüente, ou mesmo que ela funciona como uma norma. Há muitos exemplos em que uma representação metafórica tem se tornado a norma e isto é, de fato, um processo natural de mudança lingüística”. Tampouco é para sugerir que um conjunto de variantes desse tipo será totalmente sinônimo; a seleção da metáfora é, ela mesma, uma escolha significativa, e a metáfora particular selecionada acrescenta outras características semânticas. Mas elas serão sistematicamente relacionadas no significado e, portanto, sinônimas, sob certos aspectos. Há dois tipos principais de metáfora gramatical na oração propostos por Halliday: metáforas de modo (incluindo modalidade) e metáforas de transitividade. Nos termos do modelo de funções semânticas estas são, respectivamente, metáforas interpessoais e metáforas ideacionais. 50 4.1. Metáforas Ideacionais Com base em Halliday (1985, 1994), foi apresentada, anteriormente, neste trabalho, uma estrutura para interpretar a oração na sua função ideacional, como a representação ideacional. Nesta há três passos envolvidos propostos por ele : (i) a seleção do tipo do processo: material, mental, relacional, com seus vários tipos intermediários e secundários, atualizado como (ii) configuração de funções transitivas: Ator, Meta, Experienciador etc, representando o processo, seus participantes, e quaisquer elementos circunstantes; estes concretizados em ordem seguida como (iii) seqüência do grupo de orações: grupo verbal, grupo nominal, grupo adverbial, frase preposicional e suas várias sub-classes. Quando se usa tal estrutura, segundo o autor, como um modo de aquisição de significado para as palavras, fazem-se suposições de que há meios típicos de dizer as coisas: que há uma relação sistemática entre os passos (i), (ii) e (iii) tal que para qualquer seleção no significado, haverá uma seqüência natural de passos guiando em relação à sua realização. Por exemplo, se se quer falar sobre o que Maria viu, representa-se este (i) como um processo material de percepção, tendo (ii) uma estrutura de Processo + Experienciador + Fenômeno, isto sendo (iii) concretizado como grupo nominal (ser consciente) + grupo verbal (percepção) + grupo nominal (qualquer coisa ou fato); por exemplo Maria viu algo maravilhoso. Halliday explica ainda que há um importante sentido no qual esta suposição é verdadeira. Não se sabe se a língua evoluiu inicialmente a partir dessas suposições, começando com modos congruentes de representação, elaborando-os gradualmente – ou somente se iniciou nestes como ‘congruentes’, naturalmente, quando incongruentes se desenvolvem ao lado deles. É perfeitamente possível que as metáforas tenham sido inerentes à natureza da língua desde sempre. Mas, por outro lado, é possível reconhecer as formas congruentes por aquilo que elas são. 51 4.2. Metáforas de Transitividade No exemplo acima, proposto por Halliday (1985,1994), em vez de Maria viu algo maravilhoso, pode-se escolher dizer Maria chegou a uma vista maravilhosa, em que o processo tem sido representado como um processo material chegou a e a percepção tornou-se um ‘participante’, a vista, ou pode-se dizer uma vista maravilhosa encontrou o olhar de Maria, com o processo de percepção dividido em Ator uma vista, processo material encontrou e Meta olhos; Maria é representada simplesmente como a possuidora dos olhos. Essas, para esse autor, são todas representações plausíveis de um e do mesmo ‘estado-de-coisas’ não-lingüístico. Eles não são sinônimos; todos os diferentes códigos contribuem, de alguma forma, para o significado total. Mas elas são potencialmente corepresentacionais e, desta maneira, formam um conjunto de variações metafóricas de um tipo ideacional. Como outro exemplo, proposto por esse autor, se se está reportando o sucesso de uma expedição alpinista, em vez de escrever eles chegaram ao topo no quinto dia, pode-se escolher a expressão o quinto dia viu os no topo. Aqui o circunstante de tempo o quinto dia foi disfarçado para parecer um participante, um espectador ‘vendo’ os escaladores quando eles chegaram. Para demonstrar a representação das formas metafóricas, Halliday (1985, 1994), podem-se tratar as expressões metafóricas de dois modos: (1) tomando-as por seu valor literal, ou (2) interpretando-as na sua forma congruente. Dado o exemplo o quinto dia viu os no topo pode-se analisá-lo tanto como na Figura 15, ou na Figura 16. O quinto dia viu os no topo. Experienciador Mental: Percepção Fenômeno Lugar FIGURA 15: Análise da forma metafórica (Halliday, 1985: 324) Eles chegaram ao topo no quinto dia. Ator Material Lugar Tempo FIGURA 16: Análise da reformulação congruente (Halliday, 1985: 324) 52 Nenhum desses dois modos é, para ele, satisfatório por si mesmo. O primeiro ignora o fato de que, por exemplo, o quinto dia viu os é decididamente incongruente; ele não é um processo mental comum como Maria viu alguma coisa, e um dia não é um ser consciente. O segundo ignora o fato de que isto não é o que o falante ou escritor disse. Na verdade, ele não disse eles chegaram ao topo no quinto dia, o que poderia ter escolhido fazer, se o quisesse. É possível combinar os dois em uma única representação, como na Figura 17. No quinto dia — eles ao topo chegaram. Circunstância de Tempo — Participante Ator Circunstância de Lugar Processo Material O quinto dia viu os no topo — Participante Experienciador Processo Mental: Percepção Participante Fenômeno Circunstância de Lugar — FIGURA 17: As duas análises combinadas (Halliday, 1985:325) A técnica, apresentada por ele, aqui, é combinar elementos verticalmente tão próximos quanto possíveis por três razões: (1) mostrar contrastes nas funções gramaticais; (2) mostrar onde há também metáfora lexical; (3) sugerir razões para a escolha de uma forma metafórica. Aqui, por exemplo, pode-se observar que (a) o quinto dia é, congruentemente, um circunstante de Tempo e metaforicamente um Experienciador; (b) viu deve ser uma metáfora lexical, visto que ela não aparece na versão congruente; e (c) uma razão para escolher o modo metafórico deve ser para tornar o elemento tempo um tema não marcado. Não há outro meio de fazer isto. Não é necessário, naturalmente, escrever literalmente ‘processo, participante, circunstante’ já que estão claramente implícitos na descrição de suas funções. 53 A LINGÜÍSTICA CRÍTICA A Análise Crítica do Discurso, doravante (ACD) teve seus princípios teóricos definidos em Fairclough (1989), Fowler (1991), Fairclough (1992, 2001), Fairclough (1995), Fairclough e Wodak (1997), Chouliaraki e Fairclough (1999) entre outros, fundamentados em princípios originados de estudos filosóficos, sociológicos e lingüísticos. Uma dentre as diversas influências teóricas que se pode descortinar no projeto da abordagem crítica, que não propriamente lingüística, está, segundo Gouveia7 em Foucault. Uma outra linha de influência recua aos trabalhos do filósofo italiano, Antônio Gramsci ou aos seus seguidores na França e na Grã-Bretanha, com especial destaque no último país referido, para o Centro de Estudos Culturais Contemporâneos (Centre for Contemporary Cultural Studies) da Universidade de Birmingham. Por outro lado, a própria idéia de uma lingüística crítica, por exemplo, é fortemente influenciada por trabalhos da teoria social, nomeadamente da teoria crítica, ligada aos membros da Escola de Frankfurt (Adorno, Benjamim e outros) – de onde surge o termo crítico, segundo Fairclough e Wodak (1997) – ou aos seus herdeiros, em especial Jürgen Habermas, a partir dos anos 60. Além dessas diferentes concepções teóricas que deram suporte para a abordagem crítica do discurso, para Chouliaraki e Fairclough (1999), a Análise Crítica do Discurso tem se desenvolvido em uma íntima relação com a Gramática SistêmicoFuncional (GSF), em especial na Inglaterra e Austrália. A ‘Lingüística Crítica’ que se desenvolveu na década de 70, na Universidade de East Anglia, Fowler et al. (1979), Hodge e Kress (1983), foi especificamente baseada na GSF, e a versão de Análise Crítica do Discurso tem usado a GSF como sua principal fonte para análise textual. A Gramática Sistêmico-Funcional, conforme Chouliaraki e Fairclough (1999:139), “vê a língua como um sistema semiótico, que é estruturado em termos de estratos”. A língua, dizem eles, conecta significados (o estrato semântico) com suas expressões faladas e escritas (o estrato da fonologia e da grafologia). Ambos significados e expressões se relacionam com o extra-lingüístico - significados com a vida social. A organização estratal da língua significa que o elo entre significado e estratos de expressão é 7 Artigo disponibilizado no site http://www.fl.ul.pt/pessoais/cgouveia/index.htm e visitado em 16/12/01 54 mediado por um estrato o qual por si só não se relaciona diretamente com o extralingüístico – o léxico-gramático. Esse estrato, para esses autores, é visto como funcionalmente fundamentado, moldado pelas funções sociais que ele cumpre e, em particular, em torno da interseção das ‘macrofunções’ da língua – a função ideacional (a língua na construção e representação da experiência do mundo); a função interpessoal (linguagem na interpretação das relações sociais e a construção das identidades sociais); e a função textual (linguagem na forma textual semiótica específica de práticas produtivas). A gramática é estruturada, segundo eles, como três ‘redes’ de sistemas gramaticais (transitividade, modo e modalidade, e informação), correspondendo a estas três macrofunções; e toda oração em um texto é vista como gramaticalmente constituída simultaneamente como produção semiótica (função textual) a qual constrói o mundo (função ideacional) enquanto interpreta as relações sociais entre seus produtores e outros que habitam aquele mundo (função relacional). Então, dizem eles, o social é construído no tecido gramatical da língua. A gradual incorporação de diferentes contribuições exteriores à lingüística com o intuito de formular uma teoria geral dos processos discursivos, da construção e circulação do significado, diz Gouveia, marca, aliás, momentos de crescimento e de desenvolvimento da lingüística crítica, ou, mais corretamente, a passagem da Lingüística Crítica para a Análise Crítica do Discurso. 1. Análise Crítica do Discurso : A Contribuição de Fairclough A ‘Lingüística Crítica’ foi, segundo Fairclough (1992, 2001), uma abordagem desenvolvida por um grupo da Universidade de East Anglia na década de 1970 (Fowler et al., 1979; Hodge e Kress, 1979). Para Fairclough (1992, 2001:46), “eles tentaram associar um método de análise lingüística textual com uma teoria social do funcionamento da linguagem em processos políticos e ideológicos, recorrendo à teoria lingüística funcionalista de Halliday (1978,1985), conhecida como ‘Gramática Sistêmico-Funcional’". Diz Fairclough que são rejeitados dois “dualismos predominantes e relacionados” na teoria lingüística: (1) o tratamento dos sistemas lingüísticos como 55 autônomos e independentes do ‘uso’ da língua; (2) a separação entre ‘significado’ e ‘estilo’ ou ‘expressão’ (ou entre ‘conteúdo’ e ‘forma’). Contra o primeiro dualismo, a lingüística crítica afirma com Halliday (1973: 65) que “a linguagem é como é por causa de sua função na estrutura social” e argumenta que a linguagem à qual as pessoas têm acesso depende de sua posição no sistema social. Contra o segundo dualismo, a lingüística crítica apóia a concepção de Halliday da gramática de uma língua como sistema, de ‘opções’, entre as quais os falantes fazem ‘seleções’ segundo as circunstâncias sociais, assumindo que opções formais têm significados contrastantes e que as escolhas de formas são sempre significativas. A sociolingüística é criticada porque meramente estabelece correlações entre linguagem e sociedade, em vez de buscar relações causais mais profundas, incluindo os efeitos da linguagem na sociedade: “a linguagem serve para confirmar e consolidar as organizações que a moldam”, diz Fowler et al.(1979:190). A citação de Halliday, para Fairclough, no último parágrafo diz mais: “A linguagem é como é por causa de sua função na estrutura social, e a organização dos sentidos comportamentais deve propiciar percepção de suas fundações sociais”, (Halliday, 1973:65). Kress (1989:445), citado por Fairclough (1992, 2001), sugere que a lingüística crítica desenvolveu a afirmação contida na segunda parte da citação, mas na verdade não aquela contida na primeira: ela “tentou ‘compreender’ estruturações das ‘fundações sociais’ da ‘organização dos sentidos comportamentais’” nos textos. A lingüística crítica novamente toma uma posição, conforme Halliday, em oposição à prática da lingüística regular e da sociolingüística, ao tomar textos completos (falados ou escritos) como objetos de análise. Amplia-se a ‘hipótese Sapir-Whorf’ de que a linguagem incorpora visões de mundo particulares a variedades da mesma língua; os textos particulares incorporam ideologias ou teorias particulares, e o propósito é a ‘interpretação crítica’ de textos: “a recuperação dos sentidos sociais expressos no discurso pela análise das estruturas lingüísticas à luz dos contextos interacionais e sociais mais amplos”, (Fowler et al., 1979:195-196). Para a análise textual, diz Fairclough, os lingüistas críticos baseiam-se muito no trabalho de Halliday (1985, 1994), mas também em conceitos de outras teorias, como ‘transformação’. A lingüística crítica difere de outras abordagens na atenção que dedica à 56 gramática e ao vocabulário dos textos. Há muita referência à ‘transitividade’, o aspecto da gramática da oração ou da frase relacionado ao seu significado ideacional, isto é, o modo como representa a realidade. A gramática fornece diferentes ‘tipos de processo’ e ‘participantes’ associados como opções, e a seleção sistemática de um tipo de processo particular pode ser ideologicamente significativa. Um outro foco relacionado, como nos fala Fairclough (1992, 2001), é sobre os processos gramaticais da ‘transformação’, por exemplo, onde o que poderia ter sido formulado como oração (‘x criticou bastante y’) é realmente formulado de modo transformado como ‘nominalização’ (“houve muita crítica”). A nominalização, para esse autor, é a conversão de uma oração em um grupo nominal ou nome, aqui ‘crítica’ de “x criticou y”. Outra transformação, proposta por ele, é a ‘apassivação’, a conversão de uma oração ativa em uma oração passiva (por exemplo, a manchete Manifestantes são mortos (pela polícia), em lugar de Polícia mata manifestantes). Tais transformações podem ser associadas a aspectos do texto ideologicamente significativos, tal como a mistificação sistemática da agência: ambas permitem que o agente de uma oração seja omitido. Um foco adicional, para esse autor, é sobre aspectos da gramática da oração que dizem respeito a seus significados interpessoais, ou seja, um foco sobre o modo como as relações sociais são marcadas na oração. Trata-se da gramática da ‘modalidade’. A abordagem do vocabulário baseia-se no pressuposto de que diferentes modos de ‘lexicalizar’ domínios de significado podem envolver sistemas de classificação ideologicamente diferentes; assim, há interesses em como as áreas da experiência podem vir a ser ‘relexicalizadas’ em princípios classificatórios diferentes. Na lingüística crítica, diz Fairclough (1992, 2001:49), “há uma tendência a enfatizar demais o texto como produto e a relegar a segundo plano os processos de produção e interpretação de textos”. Mas os textos, diz ele, podem estar abertos a diferentes interpretações, dependendo do contexto e do(a) intérprete, o que significa que os sentidos sociais do discurso (bem como ideologias) não podem ser simplesmente extraídos do texto. É necessária, assim, uma teoria social do discurso baseada em uma reavaliação desses dualismos tomados como pólos em relações de tensão, em vez de optar-se por um membro de cada par e rejeitar o outro como se fossem mutuamente exclusivos. 57 Se os significados e as expressões lingüísticas interagem com o extralingüístico, com o social, como já supramencionado, na ACD, segundo Pedro (1997:21), “encontra-se um processo analítico que julga os seres humanos a partir da sua socialização, e as subjetividades humanas e o uso lingüístico como expressão de uma produção realizada em contextos sociais, orientados por formas ideológicas e desigualdades humanas”. Daí, Pedro (1997:15) observa que “as escolhas lingüísticas que se faz, em cada ato comunicativo, resultem da consciência que se tem, como falantes de uma língua particular e como sujeitos sociais, daquilo que se pode fazer e dizer. Isto é, daquilo que, em função da competência lingüística e comunicativa, se é capaz de dizer (ou escrever) e daquilo que é permitido dizer (e escrever) como resultado do conjunto de convenções sociais institucionalizadas no seio do qual se vive”. Na tentativa de se observar a inserção da linguagem em contextos sociais, orientada por formas ideológicas e desigualdades sociais, Fairclough (1992, 2001) foi levado a argumentar que o discurso, numa abordagem crítica, é linguagem como prática social – (econômica, política, cultural, ideológica) – e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais. Fairclough (1992, 2001), ao usar o termo discurso, observa que isto tem várias implicações. Primeiro, implica ser o discurso um modo de ação, uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e, especialmente, sobre os outros, como também um modo de representação. Segundo, implica uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social, existindo mais geralmente tal relação entre a prática social e a estrutura social: a última é tanto uma condição como um efeito da primeira. Por outro lado, diz ele ainda, o discurso é moldado e restringido pela estrutura social no sentido mais amplo e em todos os níveis: pela classe e por outras relações sociais em um nível societário, pelas relações específicas em instituições particulares, por sistemas de classificação, por várias normas e convenções, e assim por diante. Por outro lado, mostra que o discurso é socialmente constitutivo, pois contribui para a construção de todas as dimensões da estrutura social que, direta ou indiretamente, o moldam e o restringem: suas próprias normas e convenções, como também relações, identidades e instituições que lhe são subjacentes. O discurso é uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado. É nesse sentido que Fairclough, (1992, 2001) distingue três aspectos dos efeitos construtivos do discurso. O discurso contribui, (1) para a construção do que 58 variavelmente é referido como ‘identidades sociais’; (2) para construir as relações sociais entre as pessoas e, (3) para a construção de sistemas de conhecimento e crença. Esses três efeitos, diz esse autor, correspondem, respectivamente, a três funções da linguagem, de Halliday (1985,1994), referidas anteriormente, e a dimensões de sentido que coexistem e interagem em todo discurso – o que denomina as funções da linguagem ‘identitária’, ‘relacional’ e ‘ideacional’. A função identitária relaciona-se aos modos pelos quais as identidades sociais são estabelecidas no discurso; a função relacional a como as relações sociais entre os participantes do discurso são representadas e negociadas; a função ideacional aos modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações. A abordagem crítica adotada por Fairclough (1995), baseia-se numa concepção tridimensional do discurso e, portanto, num processo tridimensional de análise do discurso. O discurso e qualquer exemplo concreto da prática discursiva é visto como sendo simultaneamente (1) um texto lingüístico, oral ou escrito, (2) prática discursiva (produção e interpretação de texto) e (3) prática sociocultural. Um fragmento discursivo está enraizado na prática sociocultural a diversos níveis: na situação imediata, no âmbito mais alargado de uma instituição ou organização a um nível societal. Diz ele que do método de análise do discurso faz parte: (1) a descrição lingüística do texto, (2) a interpretação das relações entre os processos discursivos (produtivos e interpretativos) e o texto e, por fim, (3) a explicação da relação entre os processos discursivos e os processos sociais. Esta abordagem, segundo o autor, tem uma característica especial: a ligação entre a prática sociocultural e os textos é mediada pela prática discursiva. A forma como um texto é produzido e interpretado – ou seja, que práticas e convenções discursivas têm origem em que ordem (ou ordens) do discurso e como se articulam – depende da natureza da prática sociocultural que o discurso integra; a natureza da prática discursiva da produção textual molda o texto, deixando ‘vestígios’ nas suas características superficiais; por fim, a natureza da prática discursiva da interpretação textual determina a forma como serão interpretados os traços superficiais de um texto. Esta abordagem, para esse autor, pode ser representada sob a forma de uma Figura (Figura 18). 59 Processo de Produção Texto Processo de Interpretação Descrição (análise textual) Interpretação (análise processual) Prática Discursiva Prática Sociocultural (situacional, institucional, societal) Explicação (análise social) FIGURA 18: Dimensões do Discurso (Fairclough, 1995: 98) Nesse sentido, Fairclough (1995:132) argumenta que “a Análise Crítica do Discurso tem como objetivo tornar visíveis aspectos opacos, densos e sombrios entre as práticas discursivas e entre estruturas sociais e culturais, que resultam de diferentes combinações, a saber: conhecimento, posição social, crenças e valores”. O elo entre essas diferentes combinações, diz ele, “permite verificar como tais práticas surgem e são ideologicamente moldadas por relações de poder e lutas sobre o poder, assim como para observar como a opacidade destas relações entre discurso e sociedade é asseguradora de poder”. Ao se referir a essa opacidade, mostra como os participantes das práticas discursivas exercem controle sobre outros, colocando em estreita evidência a relação existente entre discurso, ideologia e poder. Caldas – Coulthard (1994), ao falar das relações de poder e ideologia codificadas pela linguagem, ressalta que o efeito das relações de poder sobre a prática social e, portanto, o relacionamento entre interação e ideologia são a principal preocupação da Análise do Discurso. O interesse pela função social da linguagem se deve ao fato de o código lingüístico ser considerado como parte integrante do processo social. Todo texto tem, em sua forma discursiva, determinadas implicações políticas e ideológicas, as quais refletem posições do/a produtor/a textual, assim como das instituições 60 às quais essa pessoa está ligada. Tais implicações ideológicas podem vir à tona quando, como é o caso deste trabalho, busca-se identificar e discutir, de modo crítico, as escolhas léxico-gramaticais na prática ideológica de representação do discurso do MST(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, e do discurso sobre o MST, no jornal Folha de S. Paulo. 2. A Lingüística Crítica: A Contribuição de Fowler Fowler (1991), escrevendo da perspectiva de um lingüista crítico para analisar os traços lingüísticos que atuam subliminarmente nas práticas ideológicas da representação dos jornais, esclarece que deve ser justificável praticar um tipo de lingüística direcionada para a compreensão dos valores implicados no uso da língua. Esse é o ramo que se tornou conhecido como lingüística crítica. A Lingüística Crítica, para Fowler (1991:5), está interessada “no questionamento das relações entre signo, significado e o contexto sóciohistórico que governam a estrutura semiótica do discurso, usando um tipo particular de análise lingüística”. Ela procura, diz ele, “estudando detalhes diminutivos da estrutura lingüística, à luz da situação social e histórica de um texto, trazer para o nível da consciência os padrões de crenças e valores que estão codificados na língua – e que estão subjacentes à notícia, para quem aceita o discurso como ‘natural’”, (Fowler, 1991:64). Esse autor se confessa essencialmente eclético em relação à sua atitude frente aos instrumentos de análise da lingüística crítica. Mas, para ele, o melhor modelo para examinar a conexão entre estrutura lingüística e valores sociais é o modelo funcional desenvolvido por Halliday e seus pesquisadores. Porém, segundo ele, Halliday escreve como se o uso da língua fosse uma questão de exercício individual de livre escolha: o falante ‘expressa sua experiência’, ‘estabelece relações’, ‘produz um texto’, etc. Para a análise crítica, a dinâmica da interação, através da língua, está sujeita à determinação social: o conteúdo, o produtor e o receptor são amplamente construídos pela língua, sem muito controle voluntário. Para Fowler, as metafunções ideacional, interpessoal e textual, de Halliday, são conjuntos de opções sociais, e não áreas de escolha pessoal privilegiada. 61 As três funções fornecem um esquema para classificar as estruturas lingüísticas de acordo com seus papéis comunicativos. A conseqüência positiva de uma classificação funcional, segundo o autor, é que todos os detalhes da sintaxe, do vocabulário, são concebidos de funcionalidade: não meramente como tipos formalmente diferentes de estrutura, mas como tipos de estrutura os quais são como eles são porque possuem empregos particulares. As funções também fornecem, diz ele, uma facilidade : a predição pela teoria dos tipos de construções lingüísticas que serão particularmente reveladoras para a lingüística crítica e de interesse particular no estudo crítico da Imprensa. 2.1. Elementos Ideacionais na ACD: A Transitividade Para Fowler (1991:70), “a transitividade, parte da função ideacional, é um conceito semântico poderoso e fundamental em Halliday (1985), uma ferramenta essencial na análise da representação, que já se comprovou extremamente elucidativa na lingüística crítica”. Quando olhamos para a metafunção ideacional, estamos olhando para a gramática da oração como – representação (a língua como representação do mundo). Uma oração baseia-se num núcleo semântico constituído por um verbo obrigatório, que pode ser de : ação (sob controle de agente), processo (nem intencional, nem controlado) ou estado (nem mudança, nem desenvolvimento). Há aqui um sistema de escolhas gramaticais: o sistema de transitividade (ou tipos de processos). Para analisar a estrutura transitiva da oração, explica Fowler, deve-se considerar uma terminologia para os papéis exercidos pelos participantes e pela circunstância na estrutura de transitividade de uma oração: • Agente – o fazedor de uma ação, como por exemplo O Policial atirou no menino de nove polegadas. • Afetado – pessoas e objetos que têm coisas feitas ou acontecidas a eles. O participante afetado mais neutro é o objeto, em que alguém ou alguma coisa é afetado em um modo material por uma ação ou processo, e é considerado como uma entidade física; por exemplo O noivo de Karen encontrou o corpo dela em seu (dela) apartamento em Church Street, 62 Southwell. Em A parte superior do reator foi arrancada por uma enorme explosão, o objeto participante ocorre na posição de sujeito sintático, no começo da sentença; não está restrito à posição de objeto sintático (após o verbo), como concebem as funções sintáticas tradicionais. • Paciente - é geralmente usado para se referir à função de um participante afetado que / o qual é humano, ou pelo menos animado, por exemplo Ferret ataca criança. • Resultado – é um outro tipo de participante afetado. Ele acaba se tornando o resultado de uma ação ou processo, mais do que sendo transformado por uma ação ou processo, por exemplo Os mineiros estão produzindo mais carvão com menos homens e estão ganhando bônus maior. • Circunstantes – são expressões que indicam o tempo e o lugar do evento descrito na oração; por exemplo Um policial atirador de primeira atirou em um garoto de cinco anos no coração (lugar) a uma distância de nove polegadas (lugar) em uma invasão (time) a sua casa (lugar) foi dito a um júri ontem (tempo). A transitividade, de acordo com Fowler (1991), é a base da representação: é o modo pelo qual a oração é usada para analisar eventos e situações como sendo de certo tipo. A transitividade, para ele, tem a facilidade de analisar o mesmo evento sob ângulos diferentes, o que é de grande interesse na análise dos jornais. A análise transitiva, para esse autor, é uma perspectiva semântica sobre as idéias expressas por uma oração. Aborda-se isto como uma proposição sobre o mundo, no qual um evento, situação, relação ou atributo é predicado de algum(s) participante(s). Mas uma oração é também uma unidade sintática básica, uma ordenação padronizada de palavras e frases. Aqui, introduz-se a noção de transformação para se referir à variação sintática de interesse para a análise crítica, a saber: a passivização e a nominalização. Diz ele que as construções passivas reorientam as estórias. A passiva enfoca o paciente e permite suprimir o agente, por exemplo O filho de um ladrão, de cinco anos, foi morto em sua cama, o que é de particular interesse em relatos de natureza oficial ou burocrática. 63 Já pela transformação de nominalização, argumenta, verbos e adjetivos podem ser realizados sintaticamente como nomes; ao lado desses nominais derivados, há os nomes não derivados que designam ações e processos e, não, objetos. O uso tanto de um quanto de outro, diz ele, é endêmico em linguagem formal, e tem conseqüências estruturais extensas, oferecendo oportunidades ideológicas substanciais. Numa nominalização como ‘alegação’ podem-se omitir os participantes (quem fez o que? para quem?), a indicação de tempo (não há verbo para essa indicação), a indicação de modalidade (o posicionamento do escritor em relação à proposição). Para Hodge e Kress (1979) o apagamento das participantes é útil, uma vez que o produtor se protege de qualquer envolvimento pelas transformações que aplicou. O apagamento do ator e do afetado não é uma eliminação completa; há dois efeitos associados com essa transformação: o primeiro se refere ao fato de que embora sabendo que há um ator e um afetado, as identidades específicas de ambos são apagadas. Pode-se pensar sobre a identidade deles, mas talvez não se estará certo a respeito de quem realmente são. O segundo, porque o único vestígio que se encontra é a versão verbal da ação. A atenção é dirigida para o que é apresentado, pois o foco da expressão foi alterado pelo produtor e, consequentemente, a visão do receptor foi canalizada e estreitada. A nominalização parece ser uma forma de manipulação do discurso, uma vez que reduz a complexidade de um argumento, e limita os termos possíveis de estarem nele contidos. Assim, mostrando-se menos, significa que alguém está vendo menos e, consequentemente, pensando menos. Em Language and Control (Fowler, Hodge, Kress, Trew, 1979), a nominalização é considerada potencialmente mistificadora, permitindo o ocultamento, especialmente nas relações de poder, bem como do posicionamento do escritor. Ao lado da mistificação, pode-se apontar a reificação como outra conseqüência da nominalização. Processos e qualidades tomam o status de coisa impessoal, inanimada, Além dessas transformações, Fowler (1991:82) alega que “o vocabulário também pode ser considerado como uma representação do mundo para uma cultura; o mundo como é percebido de acordo com as necessidades ideológicas de uma cultura”. O uso de cada termo, para esse autor, “cristaliza e normatiza as fatias essencialmente 64 artificiais, cortadas do bolo do mundo. É uma tarefa elementar, mas fundamental, que o analista crítico anote, no discurso em estudo, os termos de ocorrência mais freqüente, e o segmento da sociedade que desfruta de constante atenção discursiva”. Mesmo as palavras mais gerais, observa, são coloridas pelo contexto, de tal modo que, cumulativamente, elas contribuem para consolidar o registro. É parte do conhecimento cumulativo reconhecer um determinado registro e ser consciente de que ele marca social e ideologicamente áreas da experiência: elas têm uma função categorizadora. O vocabulário, diz ele, não somente classifica a experiência em termos gerais, mas faz uma distinção detalhada entre classes de conceitos. A categorização pelo vocabulário é uma parte integral da reprodução da ideologia. A categorização é, para Fowler, um fenômeno que inclui pessoas. Tendo estabelecido uma pessoa através de uma escolha lexical como um exemplo de um tipo, a relação com aquela pessoa é simplificada: pensa-se sobre a pessoa em termos das qualidades atribuídas à categoria já preexistente nas mentes dos indivíduos. A categoria de pessoa como atributos ou comportamentos exibidos pode fortalecer um estereótipo – um modelo mental extremamente simplificado o qual fracassa em ver as características individuais; somente os valores que se acredita serem apropriados ao tipo. Este é, segundo ele, naturalmente, um processo ideológico básico em construção. Um modelo socialmente construído do mundo é projetado sobre os objetos de percepção e cognição, de forma que as coisas que se vêem e se pensam são construídas de acordo com um esquema8 de valores, não entidades diretamente percebidas. Diz ele que a categorização é a base discursiva para práticas de discriminação. A discriminação é uma prática que afeta sujeitos individuais, conferindo formas desiguais de atenção pela polícia, dinheiro e punição pelas cortes, aplicando desigualmente processos de estima e ou consideração. Embora seja a pessoa como indivíduo que é o alvo de práticas discriminatórias, a ‘justificação’ para tais práticas, quando oferecida, não é apresentada em termos dos indivíduos, mas em termos de algum 8 Para Fowler (1991:43), “esquema é um conceito fundamental na psicologia cognitiva contemporânea. É uma porção de conhecimento inconsciente, partilhado por um grupo de pessoas, descarregado no processo de compreensão do mundo. Tem havido muitas propostas a respeito dos tipos de esquemas empregados no processamento lingüístico: os estereótipos, já citados, são um tipo de esquema; outros tipos são os ‘frames’, ‘scripts’ e ‘protótipos’ ”. 65 ‘grupo’ assumido, ao qual a pessoa alegadamente pertence; é um estereótipo que a cultura tem convencionalmente destinado ao ‘grupo’ e aplicado prejudicialmente ao indivíduo. Na análise da categorização dos participantes, Fowler (1991) sugere que três questões são particularmente interessantes para a transitividade: • o tipo de participante que ocorre na posição de sujeito e de objeto – caracteristicamente, pessoas com autoridade são tratadas como sujeitos (semanticamente, ‘agentes’), enquanto aquelas com menor poder ocorrem como objetos (‘pacientes’, ‘beneficiários’). • o tipo de verbo a que as várias categorias de participantes se associam. Aqui, novamente, o discurso distingue o poderoso do desfavorecido. Somente pessoas com grande autoridade constitucional podem repetir leis. Aqueles que são desfavorecidos e discriminados são associados a verbos e adjetivos pejorativos ou, pelo menos, de baixo status. • o tipo de expressão (nome, nível ocupacional) que é usada para se referir aos participantes. A proposta de Fowler discutida acima, aliada ao modelo de Halliday (1985,1994) são especialmente valiosas para o objetivo deste trabalho, pois abrem caminhos para que se possa analisar e discutir, de modo crítico, as escolhas-léxicogramaticais na prática ideológica de representação do discurso do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, e do discurso sobre o MST, no jornal Folha de S. Paulo. 3. Ideologia Para Fairclough (1992, 2001), a teoria de ideologia que tem sido muito influente no debate sobre discurso e ideologia é certamente a de Althusser (1971). De fato, pode-se considerar que Althusser forneceu as bases teóricas para o debate. 66 Diz ele que as bases teóricas que se tem em mente são três importantes asserções sobre ideologia: (1) a asserção de que ela tem existência material nas práticas das instituições, que abrem o caminho para investigar as práticas discursivas como formas materiais de ideologia. (2) a asserção de que a ideologia ‘interpela os sujeitos’; que conduz à concepção de que um dos mais significativos ‘efeitos ideológicos’ que os lingüistas ignoram no discurso, é a constituição dos sujeitos. (3) a asserção de que os ‘aparelhos ideológicos de estado’ (instituições tais como a mídia) são marcos delimitadores na luta de classe, que apontam para a luta no discurso e subjacente a ele como foco para uma análise de discurso orientada ideologicamente. Para ele, se o debate sobre a ideologia e o discurso tem sido fortemente influenciado por essas posições, também tem sido prejudicado pelas limitações amplamente reconhecidas da teoria de Althusser. Particularmente, diz ele, o trabalho de Althusser contém uma contradição não-resolvida entre uma visão de dominação que é imposição unilateral e de reprodução de uma ideologia dominante, em que a ideologia figura como um cimento social universal, e sua insistência nos aparelhos como local e marco delimitador de uma constante luta de classe, cujo resultado está sempre em equilíbrio. Com efeito, é a visão anterior que é predominante, havendo marginalização da luta, da contradição e da transformação. Fairclough entende que as ideologias são significações/construções da realidade (o mundo físico, as relações sociais, as identidades sociais) que são construídas em várias dimensões das formas / sentidos das práticas discursivas e que contribuem para a produção, a reprodução ou a transformação das relações de dominação. Tal posição é semelhante à de Thompson (1984, 1990), de que determinados usos da linguagem e de outras formas simbólicas são ideológicos, isto é, os que servem, em circunstâncias específicas, para estabelecer relações de dominação. As ideologias embutidas nas práticas discursivas, segundo Fairclough (1992, 2001:117), “são muito eficazes quando se tornam naturalizadas e atingem o status de ‘senso comum’; mas essa propriedade estável e estabelecida das ideologias não deve ser muito enfatizada, porque ‘a transformação’ aponta a luta ideológica como dimensão da prática discursiva, uma luta para remoldar as práticas discursivas e as ideologias nelas construídas”. 67 Há também, como explica esse autor, uma concepção textual da localização da ideologia, que se encontra na lingüística crítica que mereceria ser repensada: de que as ideologias estejam nos textos. Alegações de descoberta dos processos ideológicos, diz ele, unicamente mediante a análise textual têm o problema, agora familiar na sociologia da mídia, de que os ‘consumidores’ de textos (leitores e telespectadores) parecem, às vezes, bastante imunes aos efeitos das ideologias que estão, supostamente, ‘nos’ textos. Fairclough prefere a concepção de que a ideologia está localizada tanto nas estruturas (isto é, ordem de discurso) que constituem o resultado de eventos passados como nas condições para os eventos atuais e nos próprios eventos, quando reproduzem e transformam as estruturas condicionadoras. Outra questão importante sobre a ideologia, para ele, diz respeito aos aspectos ou níveis do texto e do discurso que podem ser investigados ideologicamente. Os sentidos das palavras são importantes, naturalmente, mas também o são outros aspectos semânticos, tais como as metáforas. Essa é uma razão, diz ele, para se defender uma modalidade de educação lingüística que enfatize a consciência crítica dos processos ideológicos do discurso, para que as pessoas possam tornar-se mais conscientes de sua própria prática e mais críticos dos discursos investidos ideologicamente a que são submetidas. Ao questionar se todo discurso é ideológico, diz que as ideologias surgem nas sociedades caracterizadas por relações de dominação com base na classe, no gênero social, no grupo cultural, e assim por diante, e, à medida que os seres humanos são capazes de transcender tais sociedades, são capazes de transcender a ideologia. Já numa concepção que procura ser de teor meramente descritivo, a ideologia, segundo Gouveia9, refere-se a sistema de pensamento, de valores e crenças, por exemplo, que denotam um ponto de vista particular sobre o real, uma construção social da realidade, independentemente de aspirarem ou não à preservação ou à mudança da ordem social. Diz ele que a ideologia é, nesta acepção, mais facilmente entendida, não como uma imagem distorcida do real, uma ilusão, mas como parte do real social, um elemento criativo e constitutivo das vidas enquanto seres sociais. Como defende Thompson (1984), reconhecendo que a ideologia opera por intermédio da linguagem e que esta é um 9 Artigo disponibilizado no site http://www.fl.ul.pt/pessoais/cgouveia/index.htm e visitado em 16/12/01. 68 instrumento de ação social, deve-se também reconhecer que a ideologia é parcialmente constitutiva daquilo que nas sociedades é real. O fato de se trabalhar com uma concepção crítica da ideologia, como nos diz Gouveia, ligando-a a processos de manutenção (mas também de contestação) de relações de poder assimétricas, a sistemas de dominação, não altera, em nada, o pressuposto veiculado por Thompson; trabalhar com uma concepção crítica de ideologia apenas denota uma preocupação com o modo como os sujeitos se envolvem em processos de transformação, destruição ou reforço das suas relações com os outros e com o real social. Nesta acepção, argumenta ainda Gouveia, a ideologia não é, portanto, uma ofuscação da verdade que leva a uma falsa consciência, mas uma verdade particular com implicações na ordem e no real sociais e na consciência que deles têm os sujeitos. Gouveia explica que a ausência de uma dimensão crítica no conceito de ideologia, que explicitamente associe o conceito à noção de dominação, é, aliás, uma das críticas que se pode levantar ao modelo inicial da lingüística crítica. É essa, por exemplo, a posição de Thompson (1984), para quem o uso de certos termos, para além, inclusive, do de ideologia, por parte dos proponentes do modelo, carece de uma definição clara e de uma inserção no seio de uma teoria social sistemática: “o que está se perdendo da obra de Fowler et al., assim como da obra de alguns teóricos recentes da ideologia, é o reconhecimento da afinidade entre ideologia e dominação”, diz Gouveia. Pelo que ficou enunciado, diz Gouveia, parece incontestável que o conceito de ideologia, requer alguns cuidados na sua utilização. O leque dos seus significados é tão vasto que muitos deles são por vezes incompatíveis entre si, como provado por Eagleton (1991, 1997) com a sua listagem de dezesseis definições possíveis do conceito. O que Eagleton retém de fundamental deste seu exercício, diz ele, é que, primeiro, as dezesseis definições não são todas compatíveis entre si; segundo, algumas delas são pejorativas, outras não o são e outras ficam por uma zona de indeterminação e ambigüidade e, terceiro, algumas envolvem questões de índole epistemológica, enquanto outras nada têm de epistemológico. Clarificadas as diferenças e as semelhanças entre as dezesseis definições, esse autor alega que, Eagleton avança na linha de Thompson (1984), citando algumas características importantes associadas à noção de ideologia. Dessa síntese, retém-se como princípio definidor o fato de o termo fazer referência não só a sistemas de crença, mas também a questões de poder, e acrescenta-se o de dominação. 69 Estudar a ideologia corresponde, diz Gouveia, nesta acepção, portanto, a estudar os modos como a significação serve para manter relações de dominação, Thompson (1984:4) e Eagleton (1991, 1997:5). Dentro desta lógica, um poder dominante pode legitimar-se a si próprio por promoção de crenças e valores que lhe são congênitos, por naturalização e universalização dessas crenças e valores, de modo a torná-los autoevidentes e aparentemente inevitáveis, por denegrição das idéias que o questionam, por exclusão de formas de pensamento rivais e por obscuração do real social. Um problema há, porém, que se levanta a uma definição deste gênero. É que, apesar de estar intimamente ligada a questões de dominação e de manutenção do poder e de se referir, normalmente, a casos reportáveis de formas dominantes de pensamento social, a ideologia não diz respeito apenas a tais casos e apela, por isso, a uma definição mais geral. De acordo com essa definição, a ideologia diz respeito a qualquer intersecção entre sistemas de crenças e poder, independentemente de a intersecção contestar ou confirmar uma ordem social particular, conforme Eagleton (1991, 1997). Posto que a ideologia é para Thompson (1990, 2000) o modo como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação, a análise da ideologia está primeiramente interessada com as maneiras como as formas simbólicas (ações, imagens e textos) se entrecruzam com relações de poder. Ela está interessada nas maneiras como o sentido é mobilizado, no mundo social, e serve, por isso, para reforçar pessoas e grupos que ocupam posições de poder. Aqui, para Thompson, pode ser útil identificar um dos ‘modos de operações’ gerais da ideologia, como a ‘reificação’. Diz ele que a ideologia como ‘reificação’ pode ser expressa através de vários recursos gramaticais e sintáticos, tais como a nominalização e a passivização, como já apresentado anteriormente. A nominalização e a passivização, conforme Thompson, concentram a atenção do ouvinte ou leitor em certos temas, com prejuízos de outros. Elas apagam os atores e a ação e tendem a representar processos como coisas ou acontecimentos que ocorrem na ausência de um sujeito que produza essas coisas. Elas também tendem a eliminar referências a contextos espaciais e temporais específicos, através da eliminação de construções verbais. Esses recursos gramaticais ou sintáticos podem, em circunstâncias particulares – como na análise das escolhas léxico-gramaticais - observar as práticas 70 ideológicas de representação do discurso . Diz, então, Thompson, representando processos como coisas, diluindo atores e ações, apresentando o tempo como uma extensão eterna do tempo presente são algumas maneiras de restabelecer a dimensão da sociedade ‘sem história’, no coração da sociedade histórica. 4. Hegemonia Para Fairclough (1992, 2001:122), “hegemonia é liderança tanto quanto dominação nos domínios econômico, político, cultural e ideológico de uma sociedade. É o poder de uma das classes economicamente definidas (em aliança com outras forças sociais), sobre a sociedade como um todo, mas nunca é realizada mais do que parcialmente e temporariamente como um ‘equilíbrio instável’”. É um foco de constante luta sobre pontos de maior instabilidade entre classes e blocos para construir, manter ou romper alianças e relações de dominação / subordinação, que assume formas econômicas, políticas e ideológicas. Diz ele que enquanto a interpelação dos sujeitos é uma elaboração althusseriana, há em Gramsci uma concepção de sujeitos estruturados por diversas ideologias implícitas em sua prática, que lhes atribui um caráter ‘estranhamente composto’ e uma visão de ‘senso comum’, tanto como repositório dos diversos efeitos de lutas ideológicas passadas, como alvo constante para a reestruturação nas lutas atuais. Além disso, Gramsci concebia “o campo das ideologias em termos de correntes ou formações conflitantes, sobrepostas ou cruzadas”, a que se referiu como “um complexo ideológico”. Isso sugere um foco sobre os processos por meio dos quais os complexos ideológicos são estruturados e reestruturados, articulados e rearticulados. Entretanto, Fairclough (1992, 2001) admite que a maior parte do discurso se sustenta na luta hegemônica em instituições particulares (família, escolas, tribunais de justiça, etc.) e não no nível da política nacional: os protagonistas não são classes ou forças políticas ligadas de forma relativamente direta a classes ou a blocos, mas professores e alunos, a política e o público ou mulheres e homens. 71 Diz ele que apesar da hegemonia se parecer com a forma organizacional de poder predominante na sociedade contemporânea, não é a única. Há também os resíduos de uma forma anteriormente mais evidente em que se atinge a dominação pela imposição inflexível de regras, normas e convenções. Isso, para ele, parece corresponder a um modelo ‘código’ de discurso, que considera o discurso em termos da concretização de códigos com molduras e classificações fortes, e a uma prática normativa altamente arregimentada. Tal modelo, para esse autor, contrasta com o que poderíamos chamar o modelo ‘articulação’ de discurso, que corresponde à forma organizacional hegemônica. Os modelos ‘código’ são altamente orientados para a instituição, enquanto os modelos ‘articulação’ são os mais orientados para o cliente/público. Por outro lado, diz ele, autores do pós-modernismo sugerem uma forma organizacional emergente de poder que é bastante difícil de apontar, mas que representa outra mudança na orientação institucional, associada a uma descentralização de poder explicitada e parece ligar-se a um modelo ‘mosaico’ de discurso que caracteriza a prática discursiva como uma constante rearticulação de elementos minimamente restringidos. Para resumir, argumenta ainda Fairclough, no quadro tridimensional para a análise de discurso introduzido anteriormente, identifica-se como preocupação principal a descrição, para exemplos particulares de discurso, como o jornalístico, de conexão explanatória entre a natureza das práticas sociais de que fazem parte e a natureza de sua prática discursiva, incluindo os aspectos sociocognitivos de sua produção e interpretação. Diz ele que o conceito de hegemonia auxilia tal tarefa, fornecendo para o discurso tanto uma matriz – uma forma de analisar a prática social à qual pertence o discurso em termos de relações de poder, isto é, se essas relações de poder reproduzem, reestruturam ou desafiam as hegemonias existentes – como um modelo – uma forma de analisar a própria prática discursiva como um modo de luta hegemônica, que reproduz, reestrutura ou desafia as ordens de discurso existentes. CAPÍTULO II ASPECTOS METODOLÓGICOS A descrição da metodologia utilizada neste trabalho está dividida em três subseções. Na primeira, explica-se a abordagem metodológica aplicada para a análise dos dados. Na segunda subseção, faz-se a caracterização dos documentos portadores dos textos investigados, o modo de coleta e a descrição do corpus. Já na terceira, apresentam-se os procedimentos de análise para responder às perguntas da pesquisa mencionadas na introdução. 1. Natureza do Método para a Análise dos Dados Com base em Silverman (1993), esta é uma pesquisa qualitativa que usa o método de análise textual. Qualitativa porque um pequeno número de textos e documentos podem ser analisados para diferentes propósitos. O objetivo é entender as categorias e observar como estas são usadas em atividades concretas, Silverman (1993); neste caso, a ênfase na discussão das escolhas léxico-gramaticais. Para ele, não há uma aproximação entre pesquisadores qualitativos para definir o que é pesquisa qualitativa, mas todos compartilham um compromisso em relação a dados que ocorrem naturalmente. Todos pressupõem que uma indagação sistemática possa ocorrer em um contexto natural, ao invés de uma indagação artificialmente prévia tal como um experimento, o que o faz apresentar a sua própria versão de pesquisa qualitativa: "A pesquisa qualitativa é uma tradição particular na ciência social que fundamentalmente depende de observar as pessoas no seu próprio território", Silverman (1993:29). Num 73 estudo lingüístico como este, segundo a metodologia de Nunan (1992) os dados são colhidos em situação natural, obtidos em campo - são textos autênticos produzidos por uma determinada população. No dizer de Chizzotti (2001), a abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, ou seja, uma recíproca entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito. O conhecimento não se reduz a uma lista de dados isolados, conectados por uma teoria explicativa; o sujeito-observador integrante o processo de conhecimento e interpreta os fenômenos, atribuindo-lhes um significado. O objeto não é um dado inerte e neutro; está possuído de significados e relações que sujeitos concretos criam em suas ações. Nesse sentido, a ênfase no processo qualitativo da análise se justifica por um dos pilares teóricos que sustenta este trabalho - a Análise Crítica do Discurso - (Fairclough, 1992, 2001), Fairclough (1995), Fairclough e Wodak (1997) e Chouliaraki e Fairclough (1999) que, por sua vez, sustenta-se na Gramática Sistêmico-Funcional (Halliday, 1985, 1994)10 que, como um modelo teórico metodológico, permite uma análise lexical (léxicogramática) do ponto de vista (1) Ideacional - um meio de representar padrões de experiência através de processos, participantes e circunstâncias; (2) Interpessoal - um evento interativo envolvendo o produtor e o receptor, e que envolve a modalidade; (3) Textual - a estruturação da informação. O modelo metodológico de Halliday será complementado pelas sugestões da análise textual da Lingüística Crítica, Fowler (1991). 2. Caracterização, Coleta e Descrição do Corpus de Estudo A Folha de S. Paulo fundada em 1921, 82 anos de existência, é um jornal de circulação nacional da chamada Grande Imprensa, com uma credibilidade pública e um poder de repercussão que o caracteriza como o principal diário. Sua tiragem é de aproximadamente 340 mil exemplares/dia, publicados e distribuídos, diariamente, nas 10 Em pesquisas qualitativas a consistência pode ser checada por meio de exame detalhado da literatura e comparando os achados ou observações com aqueles da literatura (Glazier & Powell, 1992). 74 casas dos assinantes, assim como nas lojas de conveniência e representantes de venda do jornal, para não assinantes. Segundo o Manual da Redação: Folha de S. Paulo (2001), a Folha cristalizou uma concepção de jornalismo que se define como crítico, pluralista e apartidário, mas os repórteres deste jornal são orientados a seguir um guia para nortear os procedimentos internos e também as aspirações dos jornalistas, a fim de que a Folha possa firmar sua singularidade e relevância na era da informação. Entre os acontecimentos e a sua exposição diária nas páginas do jornal há um longo caminho. Embora ele seja percorrido velozmente, como diz este manual, o trabalho dos jornalistas deve ser meticuloso e refletido, para oferecer ao seu leitor o relato verdadeiro dos fatos. Na Folha, esse percurso envolve a observação e a investigação detalhada dos acontecimentos, a redação clara e precisa, a atitude de independência, a edição pluralista e criativa, mas, sobretudo, a organização crítica e hierárquica das notícias. A fim de oferecer ao leitor não só uma visão atual, crítica e útil, mas também clara, complexa e original dos fatos, a Folha valoriza o planejamento do trabalho jornalístico e a discussão em equipe dos acontecimentos. Essas são atitudes fundamentais que antecedem a elaboração da pauta, que é a seleção refletida dos fatos que serão investigados pelos jornalistas, efetivamente publicados como notícia no jornal e transmitidos ao leitor. Já o Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra 11 , fundado 60 anos depois, tem uma tiragem de apenas 40.000 exemplares/mês publicados pela Direção Nacional do MST. Na tentativa de ser um interlocutor para a concretização de uma política de Reforma Agrária para o país e não um movimento organizado para fazer oposição ao governo, dirige-se a um leitor-consumidor específico, que são todos assinantes, bem como simpatizantes ou comprometidos com a causa social do movimento. Divulga notícias e idéias para registrar a tradição do movimento; denunciar as perseguições sofridas pelos 11 Os dados referentes ao Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra procedem de uma entrevista com, Nilton Viana, o editor responsável do citado jornal, bem como de GOHN, M. da G. (2000) Mídia, Terceiro Setor e MST: impactos sobre o futuro das cidades e do campo. Petrópolis: Vozes. 75 trabalhadores; mostrar os efeitos positivos da Reforma Agrária. Também ressaltar a luta do movimento por terra, Reforma Agrária e mudanças sociais. A tentativa de entender que representações os sem-terra12 constroem por intermédio da mídia e aquelas que a Folha constrói sobre eles levou-nos à escolha destes jornais, pela intenção de comparar como se dão as escolhas léxico-gramaticais, na prática ideológica de representação do discurso do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), no JST e do discurso sobre o MST, na FSP. Para a coleta do material de estudo, foi solicitado, por telefone, ao Banco de Dados da Folha de S. Paulo, o envio, pela Internet, de todos os textos referentes ao período de 01.03.00 a 30.06.00 que tivessem como assunto principal o MST. Quanto aos textos do Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, foram solicitados, pessoalmente, pela pesquisadora, os exemplares dos meses de março, abril, maio e junho de 2000, na Secretaria Nacional do MST, com sede na cidade de São Paulo. Das duzentas e vinte matérias publicadas pela Folha de S. Paulo e das cento e três publicadas pelo Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que têm como assunto principal o MST, no período supramencionado, optamos pela escolha de dez textos, sendo cinco do JST e cinco da FSP, pelo critério da aleatoriedade e centramos a análise em um número reduzido de textos, para obtermos recortes representativos, embora não repetitivos. Feita a escolha aleatória dos textos, os do JST e aqueles da FSP, foram colados e digitados, respectivamente, no arquivo Dissertação I, compondo os seus anexos. Todos os textos têm como assuntos principais questões que envolvem o movimento popular dos sem-terra, MST, correspondendo ao objetivo que suscita a análise e apresentam, em média, uma página. Os textos escolhidos aleatoriamente do JST são escritos por membros e/ou colaboradores do movimento, sendo apenas os textos (2A) e (5A) matérias assinados, respectivamente, por Ademar Bogo (membro da Coordenação Nacional do MST) e pela Direção Nacional do MST. Já no Jornal FSP, os textos (1B) e (5B) são assinados por Edmilson Zanetti, o texto (2B) por Marta Salomon e o texto (3B) por Fábio Guibu. Como os textos foram selecionados aleatoriamente, o fato de serem assinados ou não, não foi levado em consideração. 12 Optamos por grafar o grupo nominal ‘sem-terra’ com hífen, segundo o Manual da Redação da Folha de S. Paulo, embora, no JST, este apareça sem hífen. 76 O Quadro 1 e o Quadro 2 a seguir mostram a relação dos textos que compõem o corpus de estudo comparativo, respectivamente do JST e da FSP. QUADRO 1: Textos selecionados aleatoriamente do Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Textos Mês/ano Título do texto (1A) JST Março / 2000 Falta de vistoria causa violência e mortes (2A) JST Maio / 2000 As portas de vidro (3A) JST Junho / 2000 UDR ameaça matar e Justiça pede prisão de dirigentes do MST no Pontal (4A) JST Maio / 2000 Jornada de lutas : Mobilização Nacional contra o Modelo Econômico de FHC (5A) JST Abril / 2000 MST: Preparando o 4º Congresso Nacional QUADRO 2: Textos selecionados aleatoriamente da Folha de S. Paulo. Textos Dia/mês/ano Título do texto (1B) FSP 08/03/00 Governo e UDR temem novos confrontos (2B) FSP 06/05/00 Iniciativa cabe ao MST, diz governo (3B) FSP 03/06/00 Sem-terra saqueia depósito em PE (4B) FSP 06/05/00 MST deixa prédios, mas ameaça voltar (5B) FSP 29/04/00 Novo presidente da UDR vê "guerra civil "no Pontal 2.1. Procedimentos para a Análise de Dados Conforme a proposta desta pesquisa, vamos comparar os textos sobre o Movimento Sem Terra publicados no JST e na FSP. A análise examinará as metafunções da Gramática Sistêmico-Funcional, na transitividade e nas escolhas lexicais da função experiencial, que nos levará a examinar a relação dessa metafunção com a interpessoal e sua complementação através das metáforas gramaticais. Por outro lado, a metafunção 77 textual será examinada através do Método de Desenvolvimento (MD), proposto por Fries (1995a). Tivemos inicialmente um problema que dizia respeito à visualização dos dois textos durante a sua comparação quando enfocados sob determinada categoria. Decidimos, então, primeiro, como já supramencionado, escolhê-los aleatoriamente, dois a dois : um texto do JST, seguido de outro da FSP. Em seguida, as duplas foram numeradas também aleatoriamente de 1 a 5, seguidas da identificação (A), para os textos do JST, e (B), para aqueles da FSP. Após, reduzimos a quantidade de palavras, em um dos textos, de cada dupla, porque alguns eram grandes e outros pequenos demais. Para fazer esta redução, usamos o comando ‘Ferramentas’ e ‘Contar palavras’ na ‘Barra de Ferramentas Padrão do Word, versão 2000’. Feita a contagem das palavras em cada texto, optamos em cada dupla, reduzir aqueles de maior ocorrência de palavras pela menor correspondência, da respectiva dupla, até o ponto final mais próximo, conforme demonstra o Quadro 3. QUADRO 3: Quadro demonstrativo, referente ao número de palavras em cada texto. Textos (JST) Número de palavras Textos (FSP) Número de palavras Texto (1A) 612 Texto (1B) 227 Texto (2A) 539 Texto (2B) 444 Texto (3A) 285 Texto (3B) 345 Texto (4A) 1734 Texto (4B) 371 Texto (5A) 333 Texto (5B) 492 Para a visualização dos textos a cada comparação, colocamos dois quadros, um contendo uma matéria sobre os sem-terra, segundo o (JST) e, a seguir, outro contendo uma matéria, segundo a (FSP) e assim com os demais textos, dois a dois, para facilitar a visualização a cada comparação. As categorias escolhidas para análise são cinco e se aplicam a todos os textos, mas cada uma delas será apresentada em relação a cada dupla mencionada anteriormente, como apresentado no Quadro 4. 78 QUADRO 4: Categorias escolhidas para análise Textos 1 metafunção ideacional : os processos Textos 2 metafunção ideacional : os participantes Textos 3 metafunção ideacional : as passivas Textos 4 metafunção ideacional : a seleção lexical Textos 5 metafunção textual : o tema. Para facilitar o exame das categorias selecionadas para análise, para cada um dos textos das duplas (1A)/(1B), (2A)/(2B) e (3A)/(3B), fizemos uma coluna para mostrar a divisão dos parágrafos, em suas orações constituintes. Em seguida, na dupla (1A)/(1B), fizemos mais duas colunas: uma identifica o participante da oração e outra, classifica o processo em cada uma das orações. A dupla (2A)/(2B), apresenta, por outro lado, outras três colunas, sendo que uma classifica os principais participantes - sem-terra (MST) e governo; outra, seus respectivos papéis nos processos encontrados nas orações e outra, que classifica os processos em cada oração. Aqui, os participantes foram negritados e os processos sublinhados. Na dupla (3A)/(3B), além daquela que apresenta a divisão em parágrafos em suas orações constituintes, foi feita uma segunda para apontar as construções na forma passiva, recorrentes no texto. Já as duplas (4A)/4B) e(5A)/(5B) foram tomados integralmente sem a divisão em parágrafos. Na dupla (4A)/(4B), sublinhamos apenas as situações em que o vocabulário dicotomiza grupos sociais. Por fim, do mesmo modo, na dupla (5A)/(5B), sublinhamos os temas na estruturação da informação, para posterior análise. CAPÍTULO III ANÁLISE DOS DADOS Conforme a proposta desta pesquisa, vamos comparar os textos sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra publicados no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e na Folha de S. Paulo. Iniciamos a análise dos dois jornais – o JST e a FSP – tendo em mente a lingüística crítica (ACD) para a qual a dinâmica da interação através da língua é sujeita à determinação social : o conteúdo, o produtor, o receptor são amplamente construídos pela língua, sem muito controle voluntário, pois o significado do discurso deriva somente da interação entre a estrutura lingüística e o contexto em que ela é usada. Como já nos referimos, a ACD procura, estudando detalhes da estrutura lingüística à luz da situação social e histórica de um texto, trazer para o nível de consciência os padrões de crenças e valores que estão codificados na língua – e que estão subjacentes à mensagem, para quem aceita o discurso como algo ‘natural’. Para Halliday (1973:65), “a linguagem é como é por causa de sua função na estrutura social”, e ele argumenta que a língua à qual as pessoas têm acesso depende de sua posição no sistema social. Por outro lado, o autor vê a gramática de uma língua como constituída de sistema de ‘opções’ formais, entre as quais os falantes fazem ‘escolhas’. Tais opções têm significados contrastantes, na medida em que a seleção de uma forma inviabiliza a de outra – que poderia ter sido escolhida, mas não o foi – devido a coerções de natureza ideológica, genérica e de registro, segundo a teoria. Essa concepção está na 80 base das palavras de Fowler et al (1979:190), “a língua serve para confirmar e consolidar as organizações que a moldam”. Diante do exposto, consideraremos, inicialmente o texto (1A) do JST e o texto (1B) da FSP para analisá-los sob o ponto de vista da metafunção ideacional, detendo-nos na função experiencial, e nesta enfocaremos a transitividade e as escolhas lexicais. Isto nos levará a examinar a relação dessa metafunção com a interpessoal e sua complementação através das metáforas gramaticais. Colocaremos a seguir dois quadros, um contendo uma matéria sobre os semterra, segundo o (JST) e a seguir uma matéria segundo a (FSP). METAFUNÇÃO IDEACIONAL 1. Os Processos Quadros (5A e 5B): Levantamento dos processos no texto (1A) (Falta de vistoria causa violência e mortes), do JST, e no texto (1B) (Governo e UDR temem novos confrontos), da FSP. Para o exame da transitividade, dividimos o texto em suas orações constituintes e classificamos o processo, na forma ativa, de cada uma delas. Quadro (5A) Texto (1A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - (Março 2000) Falta de vistoria causa violência e mortes Participantes Processo Pistoleiros Pistoleiros (Pistoleiros)13 Os conflitos 13 Pistoleiros atacam os trabalhadores acampados e matam Manoel Severino da Silva e José Heleno dos Santos e deixam vários feridos no Estado. Os conflitos vêm acontecendo devido à não realização de vistorias pelo Incra nas áreas ocupadas pelos sem terra. ( ) sinalização usada para indicar sujeito oculto. Material Material Material Comportamental 81 Texto (1A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - (Março 2000) Falta de vistoria causa violência e mortes Participantes Processo Que (a Jornada pela paz) Sujeito indeterminado O autor do crime (O autor do crime) Poucos dias antes de iniciar a "Jornada pela paz" no município de Água Preta, que teve início em 27 de março, Material o companheiro acampado José Heleno dos Santos, de 59 anos, foi brutalmente assassinado em uma emboscada, próximo ao acampamento no Engenho Barra do D’Ouro. Comenta-se na cidade Verbal que o autor do crime seria um ex-acampado Relacional que foi expulso por fazer parte da segurança do deputado estadual Eudo Magalhães (PFL), conhecido por perseguir trabalhadores sem terra. No mesmo dia do assassinato, o companheiro Moisés, coordenador da micro-região de Água Preta, foi ameaçado de morte por telefone. Seis dias depois, a Polícia Militar, através de liminar de reintegração de posse, despejou as 60 famílias que estavam no Engenho Barra do D’Ouro, acampamento ao qual pertencia o companheiro que foi assassinado. O local foi ocupado Material Oração sem sujeito há mais de três anos e até o momento não havia sido vistoriado. Existencial Outros atos de violência Outros atos de violência aconteceram na região. No início da tarde de 20 de março, polícias militares e pistoleiros da Usina Catende chegaram ao acampamento no engenho Granito/São João da Prata, localizado no município de Catende, portando uma liminar de despejo falsa. Material Gritando Material e humilhando os trabalhadores, Material eles incendiaram barracos e pertences pessoais e atiraram ao fogo alguns animais de criação doméstica. Revoltados durante a realização do despejo, as famílias tentaram impedir alguns desses atos de barbárie quando os policiais disparam tiros contra os trabalhadores, ferindo um jovem. José Berto da Silva, de 16 anos, está internado gravemente no Hospital da Restauração. Material Material (Deputado Estadual Eudo Magalhães ) A polícia Militar Que (as famílias) O companheiro Policiais militares e pistoleiros Acampamento (Policiais militares e pistoleiros) (Policiais militares e pistoleiros) (Policiais militares e pistoleiros) Eles (Eles) As famílias Os policiais (Os policiais) José Berto da Silva Material Material Relacional Relacional Material Relacional Comportamental Material Material Material Relacional 82 Quadro (5B) Texto (1B) / Folha de S. Paulo (08.03.02) Governo e UDR temem novos confrontos Autor: EDMILSON ZANETTI - Editora: Brasil / Página: 1-8 Da Agência Folha, em Teodoro Sampaio Participante A UDR e o governo paulista Os conflitos (A presidente do Itesp) (A presidente do Itesp) Oração sem sujeito (A presidente do Itesp) Uma expectativa de acirramento dos conflitos A presidente da UDR Os fazendeiros Muitos associados Seguranças O fazendeiro (O fazendeiro) (O fazendeiro) (O delegado) O MST As famílias assentadas (As famílias assentadas) O crime O MST Processo A UDR e o governo paulista acham Mental que os conflitos podem voltar a qualquer momento ao Pontal do Paranapanema. A presidente do Itesp (Instituto de terras do Estado de São Paulo), Tânia Andrade, ao mesmo tempo que comemora o clima de paz na região teme radicalizações, se o processo de novos assentamentos for retardado. No ano passado, não houve assentamentos na região. De sete acordos para arrecadação de terras anunciados, só dois foram firmados. “A solução de conflitos se faz realizando assentamentos”, disse. “Mas esse raciocínio também vale para o inverso. Se o movimento de assentamentos, de solução da questão fundiária, for retardado ou impedido, Material existe uma expectativa de acirramento dos conflitos.” A presidente da UDR (União Democrática Ruralista), Tânia Tenório de Farias, afirma que os fazendeiros “não baixaram a guarda”, apesar da aparente calmaria. Segundo ela, muitos associados mantêm seguranças para repelir invasões, especialmente em áreas próximas de acampamentos. O fazendeiro Guilherme Prata, 36, repeliu pessoalmente, à bala uma tentativa de invasão de sua propriedade em Tarabaí (610 km a oeste de São Paulo), diz que se mantém vigilante, com seguranças. O delegado Marco Antônio Scaliante Fogolin, 29, chamado de “caçador de sem-terra”, acha que o MST perdeu a base nos assentamentos. “As famílias assentadas deixaram de acompanhar o MST porque perceberam que o crime não leva a nada, e o MST é uma organização criminosa”. Existencial Comportamental Mental Existencial Verbal Verbal Material Comportamental Material Material Verbal Relacional Mental Material Material Mental Relacional Relacional 83 Com base na análise dos tipos de processos, apresentada nos quadros supramencionados, notemos inicialmente uma diferença básica entre os dois jornais. No JST, temos a voz do MST que descreve eventos, num tipo de relatório de ocorrências e atividades, em geral, em tom de denúncia, enquanto a FSP adota tipicamente um discurso indireto, do tipo relatado, tomando a voz de representantes do governo e dos fazendeiros para contar o evento. Na medida em que a língua se constitui num sistema de opções, em que cada escolha formal tem significado contrastante, a escolha desses dois discursos certamente terá conseqüências na comunicação, no sentido de que os leitores dos dois jornais serão atingidos por representações diferentes que acabarão por criar ‘realidades’ distintas. O exame da transitividade pode nos dar pistas para a compreensão desse fato discursivo. A ACD estendeu a ‘hipótese Sapir-Whorf’, Sapir (1949) e Whorf (1956) – de que a língua incorpora visões de mundo particulares, criando ‘realidades’- a variedades de uma mesma língua, com o propósito de fazer a ‘interpretação crítica’ de textos, ou seja: “a recuperação dos sentidos sociais expressos no discurso pela análise das estruturas lingüísticas à luz dos contextos interacionais e sociais mais amplos”, Fowler et al. (1979: 195-196). O conhecimento que os falantes da língua têm sobre as regras da gramática e do discurso é partilhado socialmente, de tal forma a permitir uma compreensão mútua. No texto do JST, o processo material, em todos os casos em que aparece, relata fatos do mundo real ocorridos no mundo material: (1) Pistoleiros atacam os trabalhadores acampados e matam Manoel Severino da Silva e José Heleno dos Santos e deixam vários feridos no Estado. (2) Gritando e humilhando os trabalhadores, eles incendiaram barracos e pertences pessoais e atiraram ao fogo alguns animais de criação doméstica Notemos, nos exemplos (1) e (2), que os processos materiais são de orações principais, expressando a idéia de que o fazer foi extendido aos trabalhadores em (atacar, matar, deixar, gritar, humilhar, incendiar e atirar) e para significar aquele que sofre ou se 84 submete ao processo - o Paciente Afetado. Nesse sentido, a relação entre os participantes e os processos, é percebida respondendo à pergunta: quem está fazendo o quê? e a quem? Já na FSP, o processo material tende a estar incluído num processo verbal ou mental, ou seja, o processo material descreve um evento relatado que não aconteceu no mundo material: (3) A UDR e o governo paulista acham [ que os conflitos podem voltar a Mental Material qualquer momento.] (4) A presidente da UDR (União Democrática Ruralista), Tânia Tenório de Farias, [afirma que os fazendeiros “não baixaram a guarda”, apesar da Verbal Material aparente calmaria.] Observemos aqui que temos duas orações. Tomadas separadamente, as orações principais incluem o participante Experienciador (a UDR e o governo) e o participante Dizente (A presidente da UDR) do que é mentalizado (acham) ou verbalizado (afirma). Já a subordinada ou hipotaxe inclui o que é pensado e a própria verbalização, manifestados, respectivamente, por um processo material (podem voltar e não baixaram). Portanto, estamos diante de dois fatos distintos - um real (afirmado), sem modalização), no JST, e outro (mentalizado ou verbalizado), modalizado, na FSP, embora expressos por processos idênticos, no caso, o processo material. Para a ACD, esse detalhe é importante pois mostra como valores subjacentes à mensagem estão codificados na língua, de tal forma que no processo da comunicação lingüística teriam a capacidade de influir na representação mental do receptor. Ou seja, toda essa tarefa de tentar identificar os tipos de processos procura conduzi-lo à construção de uma realidade; ou como nos explica Halliday, as atividades que constituem a nossa concepção mais poderosa de realidade. Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que, no JST, por um lado, o falante reforça, de fato, a truculência e a crueldade dos pistoleiros e, por outro, quando a FSP usa os processos materiais, como eles não estiveram diretamente envolvidos, esses processos vêm como projeção de processos mentais e verbais. Mas para o leitor desavizado que, em geral, aceita o discurso como ‘natural’, o processo material mentalizado ou verbalizado teria o mesmo significado do processo material ‘real’. Assim, o jornal que se utiliza do processo 85 material mentalizado criaria, para o receptor, uma realidade em que aqueles eventos realmente teriam acontecido. Por outro lado, há, também, nessa escolha de processos mentais e verbais, a intenção – talvez nem sempre consciente, mas com certeza adquirida através de educação formal e experiência profissional – de modalização das afirmações, que, de um lado eximem a FSP de afirmações não evidenciadas. Há, assim, uma conjugação das duas metafunções no texto jornalístico para, através da língua, no caso, os recursos de transitividade, o produtor significar a realidade e expressar seu viés ideológico, sua visão de mundo, suas atitudes e as relações sociais que estabelece entre si e com o que está sendo dito ao receptor. Concorrendo com essas formas, há também a contribuição das metáforas gramaticais ideacionais, que consistem em processos nominalizados, e que têm a mesma função dos processos materiais que estão na sua origem, com o acréscimo de estarem escamoteados em forma de nomes: (5) “A solução de conflitos se faz realizando assentamentos”, disse. “Mas esse raciocínio vale para o inverso. Se o movimento de assentamentos, de solução a questão fundiária, for retardado ou impedido, existe uma expectativa de acirramento dos conflitos.” Aqui, o que poderia ser formulado como ‘espera-se que os sem-terra acirrem Mental Material os conflitos’ é formulado de modo transformado como nominalização. Ou seja, há um Agente de um processo material metaforizado gramaticalmente (acirramento), encaixado em um processo mental metaforizado gramaticalmente (expectativa). Isto coloca o processo em segundo plano, uma vez que o tempo e a modalidade não são indicados. Além disso, esta transformação pode estar associada a aspectos ideológicos do texto, por um lado, para silenciar o Experienciador do processo mentalizado (espera-se) e, por outro, desobrigar a FSP de afirmações claras e manifestas. 86 2. Os Participantes Segundo a Gramática Sistêmico-Funcional, como já vimos, a oração é um modo de impor ordem na variação do fluxo dos eventos, e isso é alcançado pelo sistema gramatical da transitividade. Esse sistema constrói o mundo da experiência em um conjunto manipulável de tipos de processos. A realidade é feita de processos. Um processo consiste, no dizer de Halliday (1985:101), em três componentes: o próprio processo, os participantes no processo e as circunstâncias associadas com o processo. Os quadros (6A) e (6B) seguintes mostram os principais participantes: sem-terra (MST) e governo e seus papéis gramaticais nos processos encontrados nas orações dos dois textos. Quadros (6A e 6B): Levantamento dos participantes no texto (2A) (As portas de vidro), do JST, e no texto (2B) (Iniciativa cabe ao MST, diz governo), da FSP. Quadro (6A) Texto (2A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Maio 2000) As portas de vidro (Ademar Bogo*) Participante Papéis Processos MST Agente Palácio do Planalto Meta Material As mobilizações do MST no mês de maio colocaram o Palácio do Planalto em estado de Palácio do Planalto Agente Material alerta para reprimir a sua própria culpa por não fazer a Reforma Agrária. Esta repressão já havia MST Relacional Portador começado desde os festejos do descobrimento em Porto Seguro, na Bahia, onde sem terra, índios e negros, passamos a ser os principais inimigos de uma farsa montada. Mesmo tendo Presidente Comportante Comportamental sido fechada a cidade e reprimidas as manifestações, o presidente não teve coragem de (Presidente) (Presidente) Agente Agente Material Material sair às ruas e caminhar livremente entre o povo. (Presidente) Agente Material Optou por fazer as comemorações no auditório do hotel e dentro da antiga cadeia do descobrimento onde funciona atualmente um museu. Talvez tenha se reencarnado nele ali, o espírito da repressão e desencadeou dias depois. da ditadura que 87 Texto (2A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Maio 2000) As portas de vidro (Ademar Bogo*) Participante Papéis Processos Governo (Governo) Comportante Agente Comportamental Material Estado Agente Material (Governo) (Governo) Agente Agente Material Material Ministro do Latifúndio Agente Material Fernando Henrique Agente Material (Fernando Henrique) (Fernando Henrique) Agente Material Agente Material (Fernando Henrique) Agente Material Governo Dizente Verbal Governo Agente Material MST Portador Relacional governo Comportante Comportamental MST Experienciador Mental O governo não hesitou em usar a velha Lei de Segurança Nacional para proteger as portas de vidro das repartições públicas, que somente foram quebradas porque do lado de fora não se conseguia ver nada de concreto, e por isso houve a quebra para demonstrar que as únicas portas que o Estado brasileiro deixou fechadas foram as de vidro, as demais, principalmente as da soberania nacional, foram escancaradas para o capital financeiro e o imperialismo norteamericano. Agora (governo) reclamam de “depredação do patrimônio público”, mas (governo) lançam um pacote que visa conter as ocupações de terra. Afinal é o patrimônio público ou a propriedade privada que o ministro do latifúndio e não da Reforma Agrária quer preservar? O que dizer da depredação do patrimônio feita pelo presidente Fernando Henrique, que entregou quase 70 empresas estatais, minérios, petróleo, ferrovias, portos e rodovias por apenas 85 bilhões de reais? E (Fernando Henrique) aumentou a dívida externa brasileira em 87 bilhões de dólares, embora (Fernando Henrique) tenha pago 126 bilhões de dólares em seu governo? Somente com este dinheiro pago da dívida daria para (Fernando Henrique) assentar seis milhões de famílias sem terra e não teria havido nenhuma ocupação. Agora (governo) justificam que a repressão é porque o MST é político, como se isso não fizesse parte da democracia! Ora, todos os cidadãos de um país têm direito a votar e serem votados nas eleições e também de se mobilizar contra o governo se este não estiver cumprindo a Constituição. Bem, se isto levar a uma revolução popular, mesmo assim, continuamos dentro da democracia, pois é a vontade da maioria contra a minoria que deve prevalecer para determinar os destinos de uma nação. A propósito, o medo do presidente e sua “ordem de direito”, imposta contra a ordem do direito de comer e trabalhar dos pobres, não é porque o MST quer tomar o poder simplesmente é porque sua aceitação perante o povo está em 14º. * Membro da Coordenação Nacional do MST 88 Quadro (6B) Texto (2B) / Folha de S. Paulo (06.05.00) Iniciativa cabe ao MST, diz governo Autor: MARTA SALOMON - Editoria : Brasil / Página: 1-4 - Edição : Nacional Da Sucursal de Brasília Participantes Papéis Processos MST Agente Material Governo Experienciador Líderes do MST Meta Mental Assessores Dizente Verbal Ministro Meta MST Governo (Governo) Experienciador Dizente Portador Mental Verbal Relacional Ministros Dizente Verbal Assentados Governo Beneficiário Dizente Verbal Governo Dizente Verbal Governo Agente Material (Governo) Invasores (Governo) Comportante Meta Dizente Comportamental Verbal Presidente Dizente Verbal (Presidente) Dizente Verbal Planalto FHC Experienciador Agente Mental Material (FHC) Agente Material Presidência MST Experienciador Agente Mental Material Apesar de a desocupação dos prédios públicos (feita) pelos sem-terra ter aliviado a tensão dos últimos dias no Palácio do Planalto, o governo avaliou ontem que caberá aos líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) tomar a iniciativa de retomar as negociações. O caminho para retomar o diálogo, insistiam os principais assessores do presidente Fernando Henrique Cardoso, é um só: Os sem-terra têm de procurar o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann – interlocutor que já haviam recusado anteriormente. O único gesto do governo em favor da negociação ontem foi reiterar que (governo) está aberto a um entendimento. Os ministros Raul Jungmann e José Gregori as (Justiça) nem sequer comentaram reivindicações por aumento de crédito aos assentados. O governo tampouco se pronunciou sobre ameaças de novos conflitos depois de um período de trégua estimado em uma semana. O governo ditou apenas uma orientação geral para o relacionamento com os sem-terra, segundo Aloysio Nunes Ferreira, secretário geral da Presidência. “(governo)Vamos continuar tratando o movimento social pela reforma agrária como tal, (governo) queremos ouvir o que eles querem; já os invasores de prédios serão tratados como transgressores”, disse. O presidente Fernando Henrique Cardoso, por meio do porta-voz, Georges Lamazière, afirmou que não pretende combater movimentos sociais com a Polícia Federal ou o Exército, mas insistiu que “depredação de prédios públicos não é atividade típica de movimentos sociais, nem deve ser tolerada”. Essa é a fórmula do Planalto para enfrentar o que avalia ser a radicalização do movimento, traduzida ontem pela decisão de FHC de reforçar a ação da Polícia Federal na defesa do patrimônio da União e bloquear a desapropriação de terras. De acordo com a avaliação feita na Presidência, há uma clara ação coordenada nacionalmente pelos sem-terra contra o governo FHC, intensificada no ano passado e, especialmente, durante essa semana. 89 Texto (2B) / Folha de S. Paulo (06.05.00) Iniciativa cabe ao MST, diz governo Autor: MARTA SALOMON - Editoria : Brasil / Página: 1-4 - Edição : Nacional Da Sucursal de Brasília Participantes Papéis Processos MST MST Agente Agente Material Material Governo MST (Governo) Agente Meta Agente Material FHC Comportante Comportamental Porta-voz FHC Governo MST Lamazière FHC Dizente Experienciador Agente Meta Dizente Agente Verbal Mental Material Material; Verbal A desocupação ontem do último prédio público invadido pelos sem-terra em Cuiabá (MT) inspirou uma contida comemoração no governo Federal com o desfecho do caso. A comemoração tinha pelo menos um forte motivo: caso o governo tivesse esgotado todas as alternativas de negociação com os sem-terra, (governo) teria de apelar para uma intervenção das Forças Armadas e os riscos seriam altos. FHC ouviu anteontem do ministro da Defesa, Geraldo Quintão, e do comandante do Exército, Gleuber Vieira, ponderações contrárias a uma intervenção das Forças Armadas em áreas urbanas e sobretudo num conflito radicalizado. O Exército permanece como último recurso”, disse ontem o porta-voz da Presidência. Antes de apelar para as Forças armadas, FHC espera que os governos dos Estados contenham os sem-terra com suas polícias, comentou Lamazière FHC faria um balanço do episódio ontem à noite. Ele estava reunido no palácio da Alvorada com um grupo de quatro ministros. A análise dos participantes e seus papéis na transitividade corrobora o estudo que fizemos nos textos (1A) e (1B). Nos textos (2A) e (2B), também, há uma nítida diferença de processos. Por exemplo, no texto (2A) do JST, dos vinte e três participantes analisados, o MST e o governo, juntos, assumem o papel gramatical de Agente fazedor de uma ação por quinze vezes. A exceção de (sair e caminhar) em que o fazer foi limitado ao participante Ator/Agente (presidente), os demais exemplos aqui destacados e listados no texto (2A), do JST, mostram nos que existe um participante que ora é uma pessoa (Presidente, Fernando Henrique, Ministro do latifúndio); ora uma instituição (Governo, Palácio do Planalto, Estado) ou um evento (Mobilizações do MST) que faz alguma coisa a uma outra. Como o texto é um relato dos acontecimentos que envolvem o MST e o governo, os processos associados aos participantes Ator/Agente são materiais exatamente para realçar a idéia de fazedores de uma ação. Portanto, não surpreende que os papéis 90 desempenhados pelos participantes de ambos os lados sejam de Agentes das várias atividades relatadas. Já no texto (2B), da FSP, conforme vimos na análise dos participantes e dos processos, observemos que ao comparar os participantes (MST e governo), o governo mais diz do que faz. Dos 35 papéis desempenhados por eles, o papel gramatical do participante governo, por dez vezes, é de Dizente, como em : (insistir, reiterar, comentar, pronunciar, ditar, afirmar, dizer). Nesse caso, o conteúdo da mensagem na função participante daquilo que é verbalizado, a Verbiagem, é: (1) mostrar que o governo tem interesse em dialogar, mas impõe uma condição: o diálogo deverá partir dos sem-terra, em (insistiam e reiterar); (2) sinalizar a falta de vontade política para fazer a reforma agrária: não se interessa em negociar, em (comentaram, pronunciou, ditou); (3) mostrar a intolerância com o movimento, em (insistiu) ; (4) apontar que o exército aparece como complemento dado o seu papel de braço armado para a manutenção da ordem, em (disse), apesar de negar que usará tal subterfúgio, em (afirmou) e (5) mostrar que transfere o problema da questão fundiária para os governos estaduais, em (comentou). Além disso, foi observado que mesmo quando se investe de papel de Agente, este está embutido no de Experienciador (decisão de FHC em reforçar) ou o verbo material é conjugado no futuro do pretérito (faria um balanço) o que coloca o processo num espaço hipotético. Fato esse que não se observa no JST, uma vez que coloca o Agente num espaço do mundo real (colocaram, lançam, entregou, aumentou). Novamente, o exame de funções ideacionais acaba por indicar funções interpessoais. Por exemplo, a FSP, na tentativa de criar uma imagem negativa dos semterra, recorre à construções como em: (6) De acordo com a avaliação feita na Presidência há uma clara ação coordenada nacionalmente pelos sem-terra contra o governo FHC, intensificada no ano passado e, especialmente, durante essa semana. Aqui, há um agente de um processo material metaforizado gramaticalmente (ação), encaixado em um processo mental metaforizado gramaticalmente (avaliação). Isto parece ter como efeito omitir os verdadeiros participantes (quem fez o que ? para quem?), bem como o posicionamento do produtor em relação à proposição. 91 O texto dos sem-terra conta aos seus receptores os percalços por que precisam passar diante da ação do governo. Desse texto, emana um retrato real que se delineia através dos processos e dos participantes neles envolvidos. Já a FSP, por meio de afirmações, comentários, referências, traça uma imagem mais distanciada dessa realidade. Que é o que de fato acontece, já que não estão diretamente envolvidos pelo cotidiano dos MST. Mas cria um clima suficientemente ameaçador justamente por causa de certa vaguidade que emana do texto, conforme nos ensina Fowler (1991). A seguir examinaremos a construção passiva e as escolhas lexicais, ambas pertencentes à metafunção ideacional, segundo a Gramática Sistêmico-Funcional, com o objetivo de verificarmos se também realizam a metafunção interpessoal. 3. As Passivas Para Fowler (1991), a transitividade tem se provado extremamente iluminadora na lingüística crítica. Ela é a base da representação: é o modo pelo qual a oração é usada para analisar eventos e situações como sendo de certo tipo. A transitividade tem a facilidade de analisar o mesmo evento sob ângulos diferentes, o que é de interesse quando se faz análise de jornais. Quando vemos alguma coisa, diz Halliday (1985, 1994), percebêmo-la como uma peça inteira, mas se formos falar dessa mesma coisa, precisaremos analisá-la como uma representação semântica – isto é, precisamos representá-la como uma estrutura de significado. Já que a transitividade possibilita fazer escolhas (léxico-gramaticais), estaremos também omitindo algumas delas, de tal forma que a escolha que fazemos – melhor, a escolha feita pelo discurso – indica o nosso ponto de vista e é, portanto, ideologicamente significativa. Fowler (1991) introduz a noção de construção passiva para se referir à variação do tipo que é de interesse para a lingüística crítica. Analisaremos os textos (3A)/(3B) a seguir, tendo em vista o uso da passiva e sua função na linguagem jornalística: 92 Quadro (7A e 7B) : Levantamento das construções passivas no texto (3A) (UDR ameaça matar e Justiça pede prisão de dirigentes do MST no Pontal), do JST, e do texto (3B) (Sem-terra saqueia depósito em PE), da FSP. Quadro (7A) Texto (3A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Junho 2000) UDR ameaça matar e Justiça pede prisão de dirigentes do MST no Pontal Processo 14 Lideranças do MST estão sendo obrigadas a deixar suas casas Material (passiva) e se protegerem em local desconhecido devido às constantes perseguições dos grupos pára-militares espalhados por toda Material (passiva) a região mantidos por grileiros em seus latifúndios. Em 5 de junho, repetindo-se o que vem acontecendo há vários dias, as casas de dois dirigentes do MST, no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, Material (passiva) foram mantidas sob constante vigilância, até a madrugada, por seis pistoleiros em uma caminhonete Silverado e um Monza. Esses mesmos pistoleiros bebiam num bar em frente à secretaria do MST e declaravam aos presentes que sua missão “não era deixar os dirigentes aleijados, era matar mesmo”. O trânsito de pistoleiros e armamento se dá por avião, em 9 pistas clandestinas nos latifúndios da região. Isso é de conhecimento das autoridades. Enquanto a UDR livremente desfila com seu armamento ilegal, a Promotoria de Justiça, que tem o dever de zelar pela lei, articula a elaboração de mandados de prisão preventiva contra as lideranças do MST. O promotor de Teodoro Sampaio, Marcelo Creche, por exemplo, mantém 150 bois engordando em uma área de 12.000 hectares na fazenda Ponte Branca, em Euclides da Cunha Paulista; 100 bois em uma fazenda de 3.000 hectares e mais 100 em outra de 6.000 hectares, ambas em Mirante do Paranapanema. Os grileiros destas áreas são todos diretores da UDR. Inúmeras denúncias já foram feitas sobre a violência e a perseguição à lideranças Material (passiva) de sem terra no Pontal sem que nenhuma providência tenha sido tomada, Material (passiva) a não ser a prisão de dirigentes e militantes do MST. Material(passiva) Hoje as cenas se repetem com o agravante de uma UDR mais armada e que protege além de áreas improdutivas, os bois dos representantes do Ministério 14 Os negritos indicam as frases com ocorrência de construção passiva. 93 Quadro (7B) Texto (3B) / Folha de S. Paulo(03/06/00) Sem-terra saqueia depósito em PE Autor: FÁBIO GUIBU – Editoria : Brasil / Página: A6 - Alimentos levados por trabalhadores são recuperados pela PM -Da Agência Folha, em Recife Processo Cerca de cem trabalhadores rurais ligados ao MST saquearam ontem um depósito de Ceagep (Companhia de Abastecimento e Armazéns Gerais de Pernambuco), em Petrolina (PE). Segundo a Polícia Civil, os lavradores retiraram do local 2.240 quilos de leite em pó e 2.060 latas de óleo. Os produtos pertenciam à prefeitura e seriam distribuídos nos postos de saúde da cidade. O saque ocorreu no início da madrugada, quando o depósito era vigiado por apenas um guarda, Roberto da Cruz Brito. Segundo ele, os sem-terra, armados com facões e foices, chegaram de “surpresa”, escondidos em caminhões e camionetes. Brito disse que foi rendido por quatro homens e que não reagiu. O depósito foi arrombado, e os alimentos levados para um acampamento montado em uma fazenda invadida em março. A Polícia Militar foi ao local, mas os lavradores se recusaram a devolver os produtos. Dois homens foram detidos, acusados de roubo. Não houve confronto. A Polícia Militar solicitou reforço e, conseguiu recuperar parte dos alimentos saqueados pelos sem-terra. Foram recolhidos nos barracos 2.006 quilos de leite em pó e 260 latas de óleo. Os agricultores detidos, Gilson Rodrigues de Souza, 34, e Carlos José de Souza Santos, 33, foram levados à delegacia de Petrolina. Interrogados, eles afirmaram que não participaram do saque. Nem sem-terra eu sou”, disse Souza, por telefone, à Agência Folha. “Fui para o acampamento levar uma bola e cheguei na hora da confusão.” O delegado, José Renivaldo da Silva, abriu inquérito para investigar o saque e liberou os dois trabalhadores rurais, sob alegação de “falta de provas”. O MST afirma que o saque ocorreu porque os lavradores não tinham outra alternativa para obter alimentos. Material (passiva) Material (passiva) Material(passiva) Material (passiva) Material (passiva) Material (passiva) Material(passiva) Material (passiva) Material (passiva) Material (passiva) Material (passiva) Material (passiva) Material (passiva) Material (passiva) 94 As construções passivas, no dizer de Fowler (1991), reorientam as estórias, pois enfoca o Paciente e permite omitir o Agente. Sendo assim, ao observar o uso da passiva, no texto (3A) do JST, o que se nota é, por um lado, (a) a omissão do Agente, deixando de especificar o responsável pela ação expressa no processo, como em: (7) Inúmeras denúncias já foram feitas sobre a violência e a perseguição a lideranças de sem terra no Pontal, sem que nenhuma providência tenha sido tomada, a não ser a prisão de dirigentes e militantes do MST. Aqui, a omissão do Ator se faz para evitar a menção da causalidade e da responsabilidade da justiça (?), da polícia (?), do governo (?). Parece que não se pretende comprometer diretamente a imagem de alguém. Por outro lado, (b) o Ator omitido, no JST, embora recuperado no contexto, encontra-se mais camuflado, como em: (8) Lideranças do MST estão sendo obrigadas a deixar suas casas e se protegerem em local desconhecido devido às constantes perseguições dos grupos pára-militares espalhados por toda a região mantidos por grileiros em seus latifúndios. Observa-se aqui que o fato de camuflar o Agente parece ter como efeito reforçar a idéia de que as lideranças são vítimas - o grupo Afetado – dos grupos páramilitares. Ou seja, receptores da ação expressa no processo (obrigar). O uso da passiva, nos exemplos supracitados, integra o relato que o jornal faz sobre os acontecimentos que envolveram a luta pela terra. De um modo geral, relata-se a vigilância em que são mantidos os sem-terra, por pistoleiros, a mando dos donos das fazendas. Já a construção passiva em (8) parece ter como efeito, num contexto de conflito como esse, manter os participantes em evidência: lideranças do MST, grupos páramilitares, grileiros. Já o exame do texto (3B), da FSP, mostra que a construção passiva não está sendo usada aqui com a finalidade citada acima de omitir o Ator/Agente, que é ou expresso ou facilmente recuperável no contexto, como em: 95 (9) O depósito foi arrombado e os alimentos levados para um acampamento montado em uma fazenda invadida em março. Este exemplo parece demonstrar a pouca preocupação de camuflar e minimizar o Ator/Agente, justamente, porque este é o sem-terra, responsabilizado como o fazedor dos atos de (arrombar, levar, montar e invadir) inputados pela FSP. Além disso, nesta construção, o agente da passiva expresso parece dar ao texto uma força assertiva maior que a do texto do MST. Comparemos este exemplo com outro do texto da FSP em que o uso da passiva se justifica para reforçar a menção de Agentes fazedores de ações violentas, reforcada pelo processo de ação (saquear): despojar alguém violentamente. (10) A Polícia Militar solicitou reforço e, conseguiu recuperar parte dos alimentos saqueados pelos sem-terra. Não há aqui nenhuma preocupação em omitir o agente. Parece um texto ‘mais à vontade’, sem o tom de queixume do texto dos sem-terra. Esse fato leva-nos a pensar que a expressão do agente é também uma marca de autoridade do produtor. Da parte do governo, o texto mostra que não há a necessidade de subentender o ator/agente, seja ele a polícia, seja ele o sem-terra. Haja o que houver, o lado mais forte sempre terá condições de atacar e de defender-se, enquanto que o outro lado precisa sujeitar-se às condições impostas pelo mais forte, a quem quer acusar, mas o faz com cautela. 4. A Seleção Lexical Aceita-se, geralmente, que as escolhas lingüísticas de um texto não são feitas de modo linear, adicional. Uma das hipóteses básicas da Gramática Sistêmico-Funcional é que a escolha de palavras pelo produtor, em qualquer ponto da interação, seja na escrita, seja no oral, estará expressando simultaneamente três tipos de significados, cada um dos quais atua numa faixa distinta de significado da oração, de tal modo que o vocabulário é escolhido para expressar as três faixas ao mesmo tempo. 96 Para a lingüística crítica (Fowler, 1991:82), “o vocabulário pode ser considerado como uma representação do mundo para uma cultura; o mundo como é percebido, de acordo com as necessidades ideológicas de uma cultura. O uso de cada termo cristaliza e normatiza as fatias essencialmente artificiais cortadas do bolo do mundo”. É uma tarefa elementar, mas fundamental, que o analista crítico anote, no discurso que estuda, que termos ocorrem freqüentemente, e que segmento da sociedade desfruta de constante atenção discursiva. É parte presumível de nossa competência comunicativa ou discursiva, para Fowler (1991: 84), reconhecer estes registros, e estar cientes de que eles marcam socialmente e ideologicamente áreas da experiência: eles têm uma função categorizadora. Diz ele que a categorização pela estrutura lexical é reconhecida por Halliday, quando fala da “organização taxonômica do vocabulário”. O vocabulário não somente classifica nossa experiência em termos gerais, mas ele apresenta distinções entre classes de conceitos. A categorização pela vocabulário é uma parte integral da reprodução da ideologia nos jornais e, particularmente, é a base de práticas discriminatórias. Isto pode ser percebido em situações nas quais o vocabulário dicotomiza grupos sociais. Analisaremos comparativamente os textos (4A) e (4B), respectivamente, do JST e da FSP. Quadro (8A e 8B): Levantamento da seleção lexical no texto (4A) (Jornada de Lutas : Mobilização Nacional contra o modelo econômico de FHC), do JST, e do texto (4B) (MST deixa prédios, mas ameaça voltar), da FSP. Quadro (8A) Texto (4A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Maio 2000) Jornada de Lutas Mobilização Nacional contra o modelo econômico de FHC Diante da gravidade da situação da agricultura, as famílias do MST, de movimentos e sindicatos de trabalhadores rurais realizaram diversas manifestações durante o mês de abril e o começo do mês de maio. Foram feitas ocupações de terra, prédios públicos e estradas, passeatas, celebrações e outros atos, denunciando as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores e exigindo que o governo negocie com os sem terra. Apesar dos movimentos e sindicatos rurais estarem denunciando o modelo agrícola que marginaliza a agricultura nacional há tempo, o governo não ouve o povo e prefere iludir a sociedade com propagandas e acusações aos trabalhadores à informar a sociedade com dados da realidade dura e crua. 97 Texto (4A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Maio 2000) Jornada de Lutas Mobilização Nacional contra o modelo econômico de FHC No entanto, o governo responde a falta de política para a Reforma Agrária com violência, parecendo até o retorno da ditadura militar. Como se não bastasse a violência do GOE (Grupo de Operações Especiais), no Paraná, que deixou centenas de trabalhadores feridos e assassinou um trabalhador, vários companheiros foram presos e outros indiciados. Fernando Henrique ameaçou aos sem terra prometendo colocar o exército nas ruas se os trabalhadores e trabalhadoras continuassem ocupando os prédios. Em recente audiência, o Diretor do Banco do Brasil, o Presidente do Incra e o diretor do Pronaf, foram unânimes em dizer que nossos pleitos eram justos, mas que nada poderiam fazer sem a decisão dos Ministérios da área econômica, que são de fato os que mandam. Por isso, a ocupação dos prédios do Ministério da Fazenda nos estados. Mas a Jornada de Lutas mostrou que os sem terra lutam por Reforma Agrária e que a sociedade apoia os trabalhadores, demonstrando a insatisfação ao governo FHC. Mais de 30 mil companheiros participaram de ocupações e vigílias em prédios públicos em 2 de maio. Antecipando ao governo, em 4 de maio o comando da mobilização anunciou a retirada dos órgãos públicos. Veja como foram as mobilizações e o avanço dos trabalhadores em alguns estados. A Jornada de lutas em Sergipe foi marcada por ocupação, caminhada e trancamento de rodovia. Mais de 1.500 sem terra de acampamentos e assentamentos de todo o Estado se mobilizaram. Em 2 de maio pela manhã, os trabalhadores rurais ocuparam a sede do Incra, em Aracaju (SE). Eles ficaram no local até 5 de maio. Quadro (8B) Texto (4B) / Folha de S. Paulo (06/05/00) MST deixa prédios, mas ameaça voltar Editoria : Brasil / Página: 1-5 - “Se não ocorrer negociação nos próximos dias, o governo sabe o que poderemos fazer”, diz sem-terra - da Sucursal de Brasília e da Sucursal do Rio O coordenador nacional do MST, Jaime Amorim disse ontem que os sem-terra voltarão a invadir fazendas e prédios públicos se o governo não designar um integrante da equipe econômica para negociar suas reivindicações. “Se não ocorrer negociação nos próximos dias, o governo sabe o que poderemos fazer”, disse. “Nós vamos continuar ocupando latifúndios e, se necessário, prédios públicos”. Apesar da ameaça, Amorim pediu a ajuda da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para tentarem mediar uma audiência com o governo. D. Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra, disse que o objetivo da igreja “é encontrar caminhos em que não haja vencedores nem vencidos”. 98 Texto (4B) / Folha de S. Paulo (06/05/00) MST deixa prédios, mas ameaça voltar Editoria : Brasil / Página: 1-5 - “Se não ocorrer negociação nos próximos dias, o governo sabe o que poderemos fazer”, diz sem-terra - da Sucursal de Brasília e da Sucursal do Rio As novas atividades do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) serão decididas na próxima semana. Está previsto que os sem-terra irão engrossar os protestos programados para a votação do novo salário mínimo no Congresso, agendada para a próxima quarta-feira. Segundo o MST, houve desmobilização dos militantes em Brasília e em 20 dos 22 Estados onde promoveram protestos nesta semana. Uma comissão de sem-terra continuará em São Paulo por causa da prisão de 20 militantes. Cerca de 450 militantes do MST cumpriram o compromisso de deixar espontaneamente o prédio da superintendência do Incra em Brasília. “Se houve danos, pagaremos”, disse Amorim. Eles fizeram acampamento em frente do Ministério da Fazenda, onde protocolaram 50 reivindicações. O MST quer aumentar o orçamento da reforma agrária de R$1,2 bilhão para R$ 4,6 bilhões. Na entrevista, Amorim classificou como “chacota” as medidas anunciadas pelo governo para conter as invasões: “Quem sabe agora vamos ocupar o latifúndio produtivo, já que não podemos fazer ocupações de terras improdutivas, como ficou proibido pelo governo. Ocuparemos os produtivos para exigir a desapropriação dos improdutivos e assim não estaremos desrespeitando a lei”. No Rio, os 300 militantes do MST que estavam desde terça-feira no saguão do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), no Rio, encerraram a invasão ontem às 8h30. Eles obedeceram à orientação da direção nacional do MST. Homens, mulheres e crianças deixaram o prédio juntos, carregando cruzes em homenagem ao sem-terra morto no Paraná, e se instalaram no gramado ao lado da sede do banco, onde ficarão acampados em barracas de lona. Ao comparar a seleção lexical nos dois textos acima, três fatos lingüísticos chamaram a nossa atenção: a) o uso de expressões para categorizar grupos de pessoas; b) a menção aos participantes sociais, com ênfase na função, no nome próprio ou na função e na pessoa; c) os tipos de verbos que as várias categorias de participantes estão associadas. 99 No texto (4A) do JST, por exemplo, a preferência pela escolha do grupo nominal trabalhadores rurais nos parece traduzir um status de nome de ação, aquele que trabalha; bem como sinalizar um valor positivo, na tentativa de talvez não passar a imagem de quaisquer pessoas, mas famílias de trabalhadores rurais. Além disso, a escolha do termo companheiros é bastante sugestiva, implicando, por um lado, fraternidade e cordialidade entre eles, e, por outro lado, talvez, uma intenção de conotação esquerdizante, já que tal termo era de uso dos socialistas. Por outro lado, no texto (4B) da FSP, o grupo nominal sem-terra tem uma função categorizadora, reforçada pelo artigo os para denunciar perda de identidade, pois não são referidos como pessoas individuais, mas por um processo de categorização: são reduzidos na sua coletividade a um tipo, sem individualidade, sem nada que os diferencie. Isso faz com que as diferenças sejam apagadas, neutralizadas, reduzidas a um estereótipo – um modelo mental que é compartilhado entre produtor e receptor, sobre os sem-terra, que fracassa em vê-los com as suas características individuais, somente com os valores que se acredita serem apropriados ao tipo. Ou seja, indivíduos que agem ilegalmente, violentos, agressivos e marginais. A categorização os sem-terra é também reconhecida na escolha militante, reforçando a idéia de sujeitos violentos, agressivos e combatentes. O fato de haver diferença entre os números levantados nos sintagmas nominais, na dupla acima, nos leva a pensar que se pode falar em uma luta pelos números, uma vez que o discurso matemático ostenta, neste contexto, uma imagem de credibilidade e de verdade. O vocabulário não somente classifica a nossa experiência em termos gerais, mas faz uma distinção detalhada entre classes de conceitos. A categorização pelo vocabulário é uma parte integrante da reprodução da ideologia. Por isso, no JST a menção aos participantes sociais se dá (i) com ênfase na função, titulados sob a forma de cargos, (o Diretor do Banco do Brasil, o Presidente do Incra, o diretor do Pronaf), sugerindo uma impessoalidade, bem como (ii) com ênfase apenas no nome próprio (Fernando Henrique) ou na ocultação do nome, quando letras passam a substituir um nome, como em (FHC), para sinalizar uma diluição da pessoalidade daquele que detém o poder. Já na FSP, pessoas com autoridade são tratadas semanticamente como agentes, dando ênfase na função e na pessoa como em (coordenador nacional do MST, Jaime Amorim; D. Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra). 100 Em se tratando ainda da categorização dos participantes, convém observar a que tipo de verbos as várias categorias de participantes estão associadas. Por exemplo, os pares opositivos ocupar e invadir. Invadir carrega semas como “tomar aquilo que não lhe pertence”15 já o lexema ocupar nos indica “estar em lugar devoluto” o que pressupõe dois pontos de vista ideológicos: invadir (existe um obstáculo) e ocupar (não há obstáculo). Na base desses confrontos, o verbo invadir, na FSP, sinaliza como elemento caracterizador junto ao leitor da ilegalidade da ação. Em contrapartida, no JST, para a escolha ocupar, entrar em terra ociosa é um gesto de justiça e reparo aos desajustes, atribuindo um sentido de legalidade à ação dos sem-terra. Outras escolhas verbais no JST têm como objetivo associar a imagem do governo a verbos de baixo status, como (não ouve, prefere iludir, ameaçou, prometeu colocar). Já na FSP, as escolhas verbais referentes aos sem-terra estão associadas a verbos que os apontam como participantes derrotados, vencidos nas suas lutas (deixaram, obedeceram, cumpriram, encerraram), bem como insufladores da ordem (irão engrossar). Da parte do JST, sendo portadores das ideologias e dos interesses do movimento, há a intenção, certamente, consciente de se mostrarem como indivíduos que buscam a terra para o trabalho, bem como a diluição da pessoalidade daqueles que ocupam grupos hegemônicos, retratados como indivíduos que se valem de ameaças e intimidação, traduzidas nas escolhas de verbos de baixo status. Da parte da FSP, é esperado, em função das organizações que representa, das suas relações externas com instituições financeiras e agências oficiais, centrar talvez a ênfase na função e na pessoa. Do mesmo modo, sinalizar para o leitor a imagem dos sem-terras associada a indivíduos violentos, marginais reduzidos a um estereótipo, sem nada que os diferencie, que é reforçada pelas escolhas de processos reveladores de participantes derrotados e insufladores da ordem Portanto, o modo como o produtor em cada jornal estrutura a seleção lexical, bem como a relação entre os seus sentidos na metafunção ideacional, leva nos a encontrar elementos pertencentes à metafunção interpessoal para refletir modos diferentes de tratar grupos dicotômicos na sociedade e, desse modo, marcar as relações sociais que procura estabelecer com o que se propõe a dizer ao seu receptor. 15 Ver CITELLI, Adilson & BACCEGA, M. A . (1989) 101 METAFUNÇÃO TEXTUAL 1. O Tema Fries (1995a) propõe o que ele denomina Método de Desenvolvimento (MD) do texto, explorando a relação entre tema e texto. Para ele, o tema orienta o ouvinte sobre aquilo que deve ser percebido como o objetivo da mensagem e fornece o enquadre16 para a interpretação da mensagem. Diz ele que, se o tema é um elemento significativo no nível da sentença (simples ou complexa), então é de se esperar que os significados que são feitos temáticos variarão de acordo com os objetivos da mensagem. Se o MD se reflete no conteúdo do tema, a mudança de tema deve mudar a percepção do leitor sobre o MD. O MD é semântico e não é estrutural, segundo Fries. Fries (1995b), com a finalidade de averiguar se é possível ligar o conteúdo temático a algum aspecto do significado dos textos, trabalha com o período composto. Apoia-se, para isso, nas palavras de Thompson (1985), sobre a ocorrência de orações causais iniciais na qual sugere que uma oração de propósito inicial oferece uma estrutura dentro da qual a oração principal pode ser interpretada, fazendo isto pelo seu papel como elo na cadeia de expectativa. Ela sugere, então que, é possível manipular a reação do leitor através do controle da informação que é colocada no tema. 16 framework 102 Quadros (9A e 9B): Levantamento dos temas no texto (5A) (MST: preparando o 4º Congresso Nacional), do JST, e do texto (5B) (Novo Presidente da UDR vê "guerra civil" na região), da FSP. Quadro (9A) Texto (5A) /Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Abril 2000) MST : preparando o 4º Congresso Nacional (Nós) Chegamos ao ano de mais um Congresso. Nesses 16 anos de história, lutas e conquistas, todos os nossos congressos desempenharam um papel fundamental e estratégico na construção da luta pela terra, pela Reforma Agrária e na perspectiva da transformação social em nosso país. Por isso, eles sempre foram massivos, com participação de entidades e organizações nacionais e internacionais. (Nós) Realizamos o nosso 1º Congresso Nacional em 1985, na cidade de Cascavel (PR). Com a presença de mais de 1.500 trabalhadores, saímos com a decisão de que a Reforma Agrária deve ser feita pelos trabalhadores. Portanto, ela seria obra dos próprios trabalhadores do campo e da cidade. Ocupar, Resistir e Produzir. Este foi o lema reafirmado em nosso 2º Congresso Nacional, realizado em Brasília, em maio de 1990. Mais de 5 mil trabalhadores participaram, além da presença de dez delegações estrangeiras. Já o nosso 3º Congresso Nacional, em 1995, aconteceu em Brasília e (ele) envolveu sem terra de todos os Estados brasileiros. Durante o evento, além de estudos e debates, houve passeatas e protestos em frente a embaixada norte-americana, Incra, Congresso Nacional e Palácio do Planalto. Na necessidade de avançarmos a luta, (nós) lançamos o lema “Reforma Agrária, uma luta de todos”. (Nós)Compreendemos que a luta pela Reforma Agrária somente será efetivada quando houver a mobilização de todos os trabalhadores deste país. Nunca (nós) acreditamos que os governos fariam a Reforma Agrária. Mesmo com a industrialização do país, o latifúndio manteve sua força política, tornando os governos submissos aos seus interesses e garantindo seus privilégios. Durante o Congresso, confraternizaremos. (nós) Vamos comemorar nossas lutas e conquistas, lançando os desafios para o novo milênio da luta pela terra, pela Reforma Agrária, pelo socialismo. (nós) Vamos protestar contra o modelo econômico das elites, pois a liberdade da classe trabalhadora somente virá com a extinção dos latifúndios. Nossa tarefa é discutir, debater as linhas políticas nos Estados e na base para que nosso 4º Congresso seja mais um marco na história do Brasil. Todos na preparação do 4º Congresso! Direção Nacional do MST 103 Quadro (9B) Texto (5B) / Folha de S. Paulo (29/04/00) Novo presidente da UDR vê “guerra civil” no Pontal Editoria: Brasil / Página 1-4 - Autor: EDMILSON ZANETTI Almir Guedes Soriano diz que pode “correr sangue “na região Da Agência Folha Na véspera de assumir a presidência da UDR, o agropecuarista Almir Guedes Soriano, 40, disse ontem que o Pontal do Paranapanema, no extremo oeste de São Paulo, vive um clima de “guerra civil” e que a entidade, sob seu comando, continuará defendendo o direito de reação dos fazendeiros, inclusive com uso de armas, diante de invasões de sem-terra. “Não tenha dúvida de que existem muitos proprietários rurais que não agüentam mais. E, se esse povo entrar na fazenda errada, vai ter confronto”, (ele) disse. “Certamente poderá correr sangue.” Em reunião na sede da entidade ruralista na quarta-feira, um grupo de fazendeiros decidiu reagir às invasões dos sem-terra, inclusive com o uso de armas. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) invadiu quatro fazendas em dez dias na região, mas não houve confronto. O dirigente disse (ele) apoiar a postura dos fazendeiros. “A orientação da UDR é que se use estritamente o que a legislação permite, para afastar o invasor. Agora, a coisa fica imprevisível.” Segundo ele, “o José Rainha (dirigente dos sem-terra) e as lideranças do MST estão querendo usar a massa mais uma vez para (eles) encontrar um mártir”. Segundo Tânia Tenório de Farias, que deixa a direção da entidade hoje, se não houve como evitar o conflito, “a reação será proporcional à agressão”. Ela diz que a UDR não tem milícias. Apenas (UDR) orienta os filiados a se defender dentro da lei. A orientação inclui observações de que, no caso de necessidade do uso de armas, elas devem estar legalizadas e (elas) respeitar a determinado calibre. A especificação do calibre não foi revelada. Segundo a atual presidente, o direito de defesa da propriedade está previsto no artigo 502 do Código Civil, que diz: “O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se, ou (ele) restituir-se por sua própria força, contando que faça logo”. O parágrafo único do artigo observa: “Os atos de defesa ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção ou restituição da posse”. Omissão Soriano responsabilizou os governos de São Paulo e federal pelo quadro de tensão na região. Examinando os Temas do JST, verificamos que é possível ligar o conteúdo temático a alguns aspectos do significado do texto. Veremos que a informação colocada nos Temas relaciona-se fortemente com o fluxo de informação do texto. Vejamos os Temas que aparecem nesse texto: 104 QUADRO 10: Recorte dos temas no texto (5A). (Nós) / Nesses 16 anos de história, lutas e conquistas / Por isso / Eles / (Nós) / Com a presença de mais de 1.500 trabalhadores / Portanto / Ela / Este / Mais de 5 mil trabalhadores / Já o nosso 3º Congresso Nacional / E (ele) / Durante o evento / Na necessidade de avançarmos a luta / (Nós) / Que a luta pela Reforma Agrária / Quando houver / Nunca (nós) / Que os governos / Mesmo com a industrialização do país / Durante o Congresso / (Nós) / Pois a liberdade da classe trabalhadora / Nossa tarefa é discutir, debater as linhas políticas nos Estados e na base para que nosso 4o. Congresso / Todos. O exame desses Temas faz concluir que o tópico do texto refere-se à luta dos trabalhadores pela Reforma Agrária e ao 4º Congresso que os MST realizarão com o comparecimento de milhares de trabalhadores. Analisaremos a seguir o texto da FSP para elencar os seus Temas: QUADRO 11: Recorte dos temas no texto (5B). Na véspera de assumir a presidência da UDR (União Democrática Ruralista) / Que o Pontal do Paranapanema / E que a entidade / E se esse povo entrar na fazenda errada / (Ele) /Certamente / Sangue / Em reunião na sede da entidade ruralista na quartafeira / MST / Mas não / dirigente / (Ele) / A orientação da UDR / Que se / Para afastar / Agora / Segundo ele / Para (eles) / Segundo Tânia Tenório de Farias / Se não houver como evitar o conflito / A reação / Ela / Que a UDR / Apenas / (UDR) / A se / A orientação / E (elas) / A especificação do calibre / Segundo a atual presidente / possuidor turbado ou esbulhado / Ou (ele) / parágrafo único do artigo / Os atos de defesa ou de desforço / Soriano. Não é difícil concluir que o texto trata da questão que envolve os sem-terra e a Reforma Agrária de um ponto de vista muito diferente daquele expresso no texto anterior. Trata-se agora da fala dos líderes da UDR, invocando a legislação para defesa das atividades do MST. 105 É possível, portanto, apenas pela comparação dos Temas dos dois textos entender em que direção segue a mensagem em cada um dos dois jornais, embora tratem da mesma questão, ou seja, a luta (a invasão?) dos trabalhadores rurais (invasores?) pela conquista (tomada?) da terra. Pode-se, então, manipular a reação do público pelo controle da informação que é colocada no Tema. Isto é, o status temático é altamente significativo. O conteúdo da oração é estruturado entre Tema e Rema, e é evidente que o significado da mensagem depende da participação de ambos, mas é evidente também que o conteúdo temático tem uma importância específica, pois pelo princípio geral, ele fornece o quadro dentro do qual o Rema é interpretado. CONCLUSÃO Neste estudo, fizemos considerações sobre a linguagem jornalística em dois jornais paulistanos, sob a perspectiva da análise crítica do discurso. Os dez textos analisados foram discutidos em relação a cinco categorias de análise: (processos, participantes, passivas, seleção lexical e tema), levando em conta princípios da teoria sócio-semiótica de linguagem de Halliday (1985,1994), fundamentais para a análise lingüística dos dados. Na tentativa de analisar e discutir, de modo crítico, as escolhas léxico-gramaticais na prática ideológica de representação do discurso sobre o MST, no jornal Folha de S. Paulo, e do discurso do MST, no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, verificamos que, para a análise das ideologias subjacentes às escolhas léxicogramaticais, através dos recursos da linguagem, deve-se levar em conta não só a língua como representação do mundo, mas também a língua como permuta entre interlocutores específicos. Com relação às diferenças entre os processos e os participantes, verificamos, por um lado, no texto do JST, que o processo material, em todos os casos em que aparece, descreve um evento realmente ocorrido no mundo material; por outro lado, na FSP, o processo material tende a estar incluído num processo verbal ou mental, e, com isso, o processo material descreve um evento que não aconteceu no mundo material. Para a ACD, esse detalhe é relevante, pois nos mostra como valores subjacentes à mensagem estão codificados na língua, de tal forma que, no processo de comunicação lingüística, teriam a capacidade de influir na representação mental do receptor. Por outro lado, há, nessa escolha de processos verbais e mentais, a intenção, talvez, nem sempre consciente, mas com certeza adquirida através da educação formal e experiência profissional – de modalização das afirmações, que exime a FSP de afirmações não evidenciadas. Quanto aos participantes, estes também corroboram com o fato de que há uma nítida diferença de 107 processos: no texto do JST, a maior parte dos papéis é de Agente. O texto é um relato dos acontecimentos que envolvem o MST e o governo. Portanto, não surpreende que os papéis desempenhados pelos participantes de ambos os lados sejam de Agentes do que é relatado. Já no texto da FSP, a maioria dos participantes desempenha o papel de Dizente. Mesmo quando se investe no papel de Agente, este está embutido no de Experienciador ou o verbo material é conjugado no futuro do pretérito, o que coloca o processo num espaço hipotético. Na base da representação também estão as construções passivas. Ao analisarmos o uso da passiva, no texto (3A), do JST, percebemos, por um lado, que é usada (a) para manter os participantes em evidência; (b) permitir a omissão do Ator/Agente, deixando sem especificar o responsável pela ação expressa no processo ou (c) para omitir o Agente, recuperável no contexto já que se encontra mais camuflado. Por outro lado, no texto (3B), da FSP, não há nenhuma preocupação em omitir o Agente (a) facilmente recuperável no contexto ou (b) claramente expresso, o que faz pensar numa marca de autoridade do produtor. Quanto à seleção lexical, percebemos que a categorização pelo vocabulário é uma parte integrante da reprodução da ideologia em situações em que o vocabulário dicotomiza representaçoes socias diferentes para os participantes sociais. Da parte do JST, sendo portadores das ideologias e dos interesses do movimento, há a intenção, certamente consciente, de se mostrarem como indivíduos que buscam a terra para o trabalho, bem como a diluição da pessoalidade daqueles que ocupam grupos hegemônicos, retratados como indivíduos que se valem de ameaças e intimidação, traduzidas nas escolhas de verbos de baixo status. Da parte da FSP, é esperado, em função das organizações que representa, das suas relações externas com instituições financeiras e agências oficiais, centrar talvez a ênfase na função e na pessoa. Do mesmo modo, sinalizar para o receptor a imagem dos sem-terra associada a indivíduos violentos, marginais, reduzidos a um estereótipo, sem nada que os diferencie, reforçada pelas escolhas de processos reveladores de participantes derrotados e insufladores da ordem. A análise da estruturação na metafunção experiencial, como os processos, os participantes, as passivas e a escolha lexical revela a estreita relação que esta metafunção mantém com a metafunção interpessoal. Há, assim, uma conjugação das duas metafunções 108 no texto jornalístico, através das quais o produtor expressa o seu viés ideológico, sua visão de mundo, suas atitudes e as relações sociais que estabelece entre si e com o que se propõe a dizer. Com relação à metafunção textual, verificamos que é possível ligar o conteúdo temático a alguns aspectos do significado do texto. Ou seja, pode-se manipular a reação do público pelo controle da informação que é colocada no Tema. Isto é, o status temático é altamente significativo. O conteúdo da oração é estruturado entre Tema e Rema, e é evidente também que o conteúdo temático tem uma importância específica pois, pelo princípio geral, "o Tema de uma oração fornece o quadro dentro do qual o Rema é interpretado". Estudos como este, portanto, têm como contribuições: (a) de um lado mostrar que as escolhas léxico-gramaticais não são neutras e inocentes, mas o lugar de manifestação de diferentes representações ideológicas; por outro lado (b) permitir que se traga à luz, através de um olhar crítico sobre os textos, os discursos nem sempre explícitos e freqüentemente contraditórios que ali se encontram. Além disso, conforme se pode observar através da análise, pode-se ainda (c) verificar como a realidade é ideologicamente representada, bem como são desigualmente distribuídos os papéis e as relações sociais entre grupos sociais dicotômicos. Portanto, achamos que ao analisar criticamente textos lidos por milhares de pessoas e ao divulgar os resultados de nossa investigação, por exemplo, na sala de aula, estaremos contribuindo para que os leitores tenham uma visão crítica da linguagem jornalística e uma consciência de como o texto jornalístico é construído, uma vez que cada uma dessas fatias de análise auxilia o analista de discurso a constatar tendências discursivas. Deixando o caminho aberto para futuras pesquisas, gostaríamos de ressaltar que há muitos outros aspectos destes artigos que poderiam ser analisados, na dimensão da ACD, como as circunstâncias do discurso (que incluírem os diferentes tipos de advérbios) dentro da categoria de transitividade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CITELLI, A. e BACCEGA, M. A . (1989) Retórica da manipulação: os Sem-Terra nos jornais. Revista Comunicações e Artes. São Paulo, Ano 14, n. 20, p.23-29. BERGER, C. (1998) Campos em Confronto: a terra e o texto. Porto Alegre: Ed. 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ANEXOS Texto (1A) Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Abril 2000) Falta de vistoria causa violência e mortes Pistoleiros atacam os trabalhadores acampados e matam Manoel Severino da Silva e José Heleno dos Santos e deixam vários feridos no Estado. Os conflitos vêm acontecendo devido à não realização de vistorias pelo Incra, nas áreas ocupadas pelos sem terra. Poucos dias antes de iniciar a “Jornada pela paz” no município de Água Preta, que teve início em 27 de março, o companheiro acampado José Heleno dos Santos, de 59 anos, foi brutalmente assassinado em uma emboscada, próximo ao acampamento no Engenho Barra do D’Ouro. Comenta-se na cidade que o autor do crime seria um ex-acampado que foi expulso por fazer parte da segurança do deputado estadual Eudo Magalhães (PFL), conhecido por perseguir trabalhadores sem terra. No mesmo dia do assassinato, o companheiro Moisés, coordenador da micro-região de Água Preta, foi ameaçado de morte por telefone. Seis dias depois, a Polícia Militar, através de liminar de reintegração de posse, despejou as 60 famílias que estavam no Engenho Barra do D’Ouro, acampamento ao qual pertencia o companheiro que foi assassinado. O local foi ocupado há mais de três anos e até o momento não havia sido vistoriado. Outros atos de violência aconteceram na região. No início da tarde de 20 de março, policiais militares e pistoleiros da Usina Catende chegaram ao acampamento no engenho Granito/São João da Prata, localizado no município de Catende, portanto uma liminar de despejo falsa. Gritando e humilhando os trabalhadores, eles incendiaram barracos e pertences pessoais e atiravam ao fogo alguns animais de criação doméstica. Revoltas durante a realização do despejo, as famílias tentaram impedir alguns desses atos de barbárie quando os policiais disparam tiros contra os trabalhadores, ferindo um jovem. José Berto da Silva, de 16 anos, está internado gravemente no Hospital da Restauração. O sem terra Manoel Severino da Silva foi assassinado com 18 tiros de espingarda calibre 12 em uma emboscada feita por pistoleiros em 8 de março. Ele estava acampado no Engenho Brilhosa, no município de Glória de Goitá. 114 Cemitério Clandestino Agricultores acampados no Engenho Pasmado, no município de Igarassu, encontram cinco ossadas humanas em uma vala comum ao lado da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem. O local é uma área de conflitos entre a Igreja Católica e a Usina São José, do grupo Votorantin. As ossadas estão sendo analisadas pelo IC (Instituto Médico Legal). Atualmente, o Engenho Pasmado é palco de uma disputa entre a Usina São José, do Grupo Petribu/Votorantim e o MST. A área foi ocupada pela primeira vez em 21 de novembro do ano passado por 600 famílias, que foram despejadas violentamente pela PM por duas vezes. Apesar disso, nenhum representante da Usina esteve no local durante as escavações para prestar qualquer esclarecimento. Jaime Amorim, da coordenação do MST no Estado, acompanhou os trabalhos do IC. Para ele, as ossadas podem pertencer a trabalhadores rurais assassinados por causa da luta pela terra. “Pasmado é um retrato da Zona da Mata Pernambucana. Aqui, a Usina São José grilou mais de 17 mil hectares de terras pertencentes à igreja e nada aconteceu. Eles espaçam, ameaçam, assassinam e fica por isso mesmo. Essas ossadas são a maior prova da violência contra os agricultores nessa região”, disse Jaime. O arqueólogo da USP, Hélio Dumont, esteve no local verificando as ossadas. Ele participou das escavações de ossadas de presos políticos encontradas em um cemitério de Perus, em São Paulo. Em entrevista ao Diário de Pernambuco, Dumont disse que é provável que as ossadas tenham sido propositalmente escondidas. “As ossadas foram simplesmente depositadas em cova rasa sem nenhum vestígio de roupa ou objetos, como era comum acontecer nos enterros de camponeses, índios ou escravos. Não se trata de um simples cemitério típico de igrejas antigas”, avaliou. Texto (1B)/ Folha de S. Paulo (08.03.02) Governo e UDR temem novos confrontos Autor: EDMILSON ZANETTI - Editora: Brasil / Página: 1-8 Da Agência Folha, em Teodoro Sampaio A UDR e o governo paulista acham que os conflitos podem voltar a qualquer momento ao Pontal de Paranapanema. A presidente do Itesp (Instituto de Terras do Estado de São Paulo), Tânia Andrade, ao mesmo tempo que comemora o clima de paz na região, teme radicalizações, se o processo de novos assentamentos for retardado. 115 No ano passado, não houve assentamentos na região. De sete acordos para arrecadação de terras anunciados, só dois foram firmados. “A solução de conflitos se faz realizando assentamentos”, disse. “Mas esse raciocínio também vale para o inverso. Se o movimento de assentamentos, de solução da questão fundiária, for retardado ou impedido, existe uma expectativa de acirramento dos conflitos.” A presidente da UDR (União Democrática Ruralista), Tânia Tenório de Farias, afirma que os fazendeiros “não baixaram a guarda”, apesar da aparente calmaria. Segundo ela, muitos associados mantêm seguranças para repelir invasões, especialmente em áreas próximas de acampamentos. O fazendeiro Guilherme Prata, 36, repeliu pessoalmente, à bala uma tentativa de invasão de sua propriedade em Tarabaí (610 km a oeste de São Paulo), diz que se mantém vigilante, com seguranças. O delegado Marco Antônio Scaliante, 29, chamado de "caçador de sem-terra", acha que o MST perdeu a base nos assentamentos. "As famílias assentadas deixaram de acompanhar o MST porque perceberam que o crime não leva à nada, e o MST é uma organização criminosa". 116 Texto (2A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Maio 2000) As portas de vidro (Ademar Bogo*) As mobilizações do MST no mês de maio colocaram o Palácio do Planalto em estado de alerta para reprimir a sua própria culpa por não fazer a Reforma Agrária. Esta repressão já havia começado desde os festejos do descobrimento em Porto Segura, na Bahia, onde sem terra, índios e negros, passamos a ser os principais inimigos de uma farsa montada. Mesmo tendo sido fechada a cidade e reprimido as manifestações, o presidente não teve coragem de sair às ruas e caminhar livremente entre o povo. Optou por fazer as comemorações no auditório do hotel e dentro da antiga cadeia do descobrimento onde funciona atualmente um museu. Talvez tenha se reencarnado nele ali, o espírito da repressão e da ditadura que desencadeou dias depois. O governo não hesitou em usar a velha Lei da Segurança Nacional para proteger as portas de vidro das repartições públicas, que somente foram quebradas porque do lado de dentro não se conseguia ver nada de concreto, e por isso houve a quebra para demonstrar que as únicas portas que o Estado brasileiro deixou fechada foram as de vidro, as demais, principalmente as da soberania nacional, foram escancaradas para o capital financeiro e o imperialismo norte-americano. Agora reclamam de “depredação do patrimônio público”, mas lançam um pacote que visa conter as ocupações de terra. Afinal é o patrimônio público ou a propriedade privada que o ministro do latifúndio e não da Reforma Agrária quer preservar? O que dizer da depredação do patrimônio feita pelo presidente Fernando Henrique, que entregou quase 70 empresas estatais, minérios, petróleo, ferrovias, portos e rodovias por apenas 85 bilhões de reais? E aumentou a dívida externa brasileira em 87 bilhões de dólares, embora tenha pago 126 bilhões de dólares em seu governo? Somente com este dinheiro pago da dívida daria para assentar seis milhões de famílias sem terra e não teria havido nenhuma ocupação. Agora justificam que a repressão é porque o MST é político, como se isso não fizesse parte da democracia! Ora, todos os cidadãos de um país tem direito a votar e ser votado nas eleições e também de se mobilizar contra o governo se este não estiver cumprindo a Constituição. Bem, se isto levar a uma revolução popular, mesmo assim, continuamos dentro da democracia pois é a vontade da maioria contra a minoria que deve prevalecer para determinar os destinos de uma nação. A propósito, o medo do presidente e sua “ordem de direito”, imposta contra a ordem do direito de comer e trabalhar dos pobres, não é porque o MST quer tomar o poder simplesmente é porque sua aceitação perante o povo está em 14%. Significa que para se 117 manter no poder com esta popularidade, somente através da repressão, porque ele sabe que na democracia a minoria não tem direito a mandar. As portas de vidro, eram as únicas coisas que ainda restavam de resistência do Estado brasileiro. Agora com este buraco institucional aberto, os cacetes vão rugir para espantar os pobres e os famintos dos palácios, não porque querem o poder simplesmente, mas porque poder e comer andam juntos. Quando o poder nega o direito de comer as portas de vidro caem e junto podem cair quem as mantinha fechada. *Membro da Coordenação Nacional do MST Texto (2B) / Folha de S. Paulo (06.05.00) Iniciativa cabe ao MST, diz governo Autor: MARTA SALOMON - Editoria : Brasil / Página: 1-4 - Edição : Nacional Da Sucursal de Brasília Apesar de a desocupação dos prédios públicos pelos sem-terra ter avaliado a tensão dos últimos dias no Palácio do Planalto, o governo avaliou ontem que caberá aos líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais SemTerra) tomar a iniciativa de retomar as negociações. O caminho para retomar o diálogo, insistiam os principais assessores do presidente Fernando Henrique Cardoso, é um só: os sem-terra têm de procurar o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann _interlocutor que já haviam recusado anteriormente. O único gesto do governo em favor da negociação ontem foi reiterar que está aberto a um entendimento. Os ministros Raul Jungmann e José Gregori (Justiça) nem sequer comentaram as reivindicações por aumento de crédito aos assentados. O governo tampouco se pronunciou sobre ameaças de novos conflitos depois de um período de trégua estimado em uma semana. O governo ditou apenas uma orientação geral para o relacionamento com os semterra, segundo Aloysio Nunes Ferreira, secretário-geral da Presidência. “Vamos continuar tratando o movimento social pela reforma agrária como tal queremos ouvir o que eles querem; já os invasores de prédios serão tratados como transgressores”, disse. O presidente Fernando Henrique, Cardoso, por meio do porta-voz, Georges Lamazière, afirmou que não pretende combater movimentos sociais com a Polícia Federal ou o Exército, mas insistiu que “depredação de prédios públicos não é atividade típica de movimentos sociais, nem deve ser tolerada”. 118 Essa é a fórmula do Planalto para enfrentar o que avalia ser a radicalização do movimento, traduzida ontem pela decisão de FHC de reforçar a ação da Polícia Federal na defesa do patrimônio da União e bloquear a desapropriação de terras invadidas. De acordo com a avaliação feita na Presidência, há uma clara ação coordenada nacionalmente pelos sem-terra contra o governo FHC, intensificada no ano passado e, especialmente, durante essa semana. A desocupação ontem do último prédio público invadido pelos sem-terra em Cuiabá (MT) inspirou uma contida comemoração no governo federal com o desfecho do caso. A comemoração tinha pelo menos um forte motivo: caso o governo tivesse esgotado todas as alternativas de negociação com os sem-terra, teria de apelar para uma intervenção das Forças Armadas e os riscos seriam altos. FHC ouviu anteontem do ministro da Defesa, Geraldo Quintão, e do comandante do Exército, Gleuber Vieira, ponderações contrárias a uma intervenção das Forças Armadas em áreas urbanas e sobretudo num conflito radicalizando. “O Exército permanece como último recurso”, disse ontem o porta-voz da Presidência. Antes de apelar para as Forças Armadas, FHC espera que os governos dos Estados contenham os sem-terra com suas polícias, comentou Lamazière. FHC faria um balanço do episódio ontem à noite. Ele estava reunido no Palácio da Alvorada com um grupo de quatro ministros – Aloysio Nunes Ferreira, José Gregori, Pedro Parente (Casa Civil) e Alberto Cardoso (Segurança Institucional). Colaborou a Sucursal de Brasília 119 Texto (3A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Junho 2000) UDR ameaça matar e Justiça pede prisão de dirigentes do MST no Pontal Lideranças do MST estão sendo obrigadas a deixar suas casas e se protegerem em local desconhecido devido às constantes perseguições dos grupos para-militares espalhados por toda a região mantidos por grileiros em seus latifúndios. Em 5 de junho, repetindo o que vem acontecendo há vários dias, as casas de dois dirigentes do MST no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, foram mantidas sob constante vigilância até a madrugada, por seis pistoleiros em uma caminhonete Silverado e um Monza. Esses mesmos pistoleiros bebiam num bar em frente à secretaria do MST e declaravam aos presentes que sua missão “não era deixar os dirigentes aleijados, era matar mesmo”. O trânsito de pistoleiros e armamento se dá por avião, em nove pistas clandestinas, nos latifúndios da região. Isso é de conhecimento das autoridades. Enquanto a UDR livremente desfila com seu armamento ilegal, a Promotoria de Justiça, que tem o dever de zelar pela lei, articula a elaboração de mandados de prisão preventiva contra as lideranças do MST. O promotor de Teodoro Sampaio, Marcelo Creche, por exemplo, mantém 150 bois engordando em uma área de 12.000 hectares na fazenda Ponte Branca, em Euclides da Cunha Paulista; 100 bois em uma fazenda de 3.000 hectares e mais 100 em outra de 6.000 hectares, ambas em Mirante do Paranapanema. Os grileiros destas áreas são todos diretores da UDR. Inúmeras denúncias já foram feitas sobre a violência e a perseguição à lideranças de sem terra no Pontal sem que nenhuma providência tenha sido tomada, a não ser a prisão de dirigentes e militantes do MST. Hoje as cenas se repetem com o agravante de uma UDR mais armada, e que protege além de áreas improdutivas, os bois dos representantes do Ministério Público. Texto (3B) / Folha de S. Paulo(03/06/00) Sem-terra saqueia depósito em PE Autor: FÁBIO GUIBU- Editoria : Brasil / Página: A6 - Alimentos levados por trabalhadores são recuperados pela PM -Da Agência Folha, em Recife Cerca de cem trabalhadores rurais ligados ao MST saquearam ontem um depósito da Ceagep (Companhia de Abastecimento e Armazéns Gerais de Pernambuco), em Petrolina (PE). 120 Segundo a Polícia Civil, os lavradores retiraram do local 2.240 quilos de leite em pó e 2.060 latas de óleo. Os produtos pertenciam à prefeitura e seriam distribuídos nos postos de saúde da cidade. O saque ocorreu no início da madrugada, quando o depósito era vigiado por apenas um guarda, Roberto da Cruz Brito. Segundo ele, os sem-terra, armados com facões e foices, chegaram “de surpresa”, escondidos em caminhões e camionetes. Brito disse que foi rendido por quatro homens e que não reagiu. O depósito foi arrombado, e os alimentos levados para um acampamento montado em uma fazenda invadida em março. A Polícia Militar foi ao local, mas os lavradores se recusaram a devolver os produtos. Dois homens foram detidos, acusados de roubo. Não houve confronto. A Polícia Militar solicitou reforço e, às 9h30, conseguiu recuperar parte dos alimentos saqueados pelos sem-terra. Foram recolhidos nos barracos 2.006 quilos de leite em pó e 260 latas de óleo. Os agricultores detidos, Gilson Rodrigues de Souza, 34, e Carlos José de Souza Santos, 33, foram levados à delegacia de Petrolina. Interrogados, eles afirmaram que não participaram do saque. “Nem sem-terra eu sou”, disse Souza, por telefone, à Agência Folha. “Fui para o acampamento levar uma bola e cheguei na hora da confusão.” O delegado José Renivaldo da Silva abriu inquérito para investigar o saque e liberou os dois trabalhadores rurais, sob alegação de “falta de provas”. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) afirma que o saque ocorreu porque os lavradores não tinham outra alternativa para obter alimentos. Ainda segundo a direção do movimento em Pernambuco, a situação “tende a se agravar”: novos saques poderão ocorrer no Estado “a qualquer momento”. Em 1998, quando uma seca atingiu a região do sertão pernambucano, os sem-terra promoveram uma onda de saques no Estado. Na época, os alvos escolhidos pelo MST eram caminhões, pequenos estabelecimentos e depósitos de alimentos das prefeituras. Colaborou a Redação 121 Texto (4A) / Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Maio 2000) Jornada de Lutas Mobilização Nacional contra o modelo econômico de FHC Diante da gravidade da situação da agricultura, as famílias do MST, de movimentos e sindicatos de trabalhadores rurais realizaram diversas manifestações durante o mês de abril e o começo do mês de maio. Foram feitas ocupações de terra, prédios públicos e estradas, passeatas, celebrações e outros atos, denunciando as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores e exigindo que o governo negocie com os sem terra. Apesar dos movimentos e sindicatos rurais estarem denunciando o modelo agrícola que marginaliza a agricultura nacional há tempo, o governo não ouve o povo e prefere iludir a sociedade com propagandas e acusações aos trabalhadores à informar a sociedade com dados da realidade dura e crua. No entanto, o governo responde a falta de política para a Reforma Agrária com violência, parecendo até o retorno da ditadura militar. Como se não bastasse a violência do GOE (Grupo de Operações Especiais), no Paraná, que deixou centenas de trabalhadores feridos e assassinou um trabalhador, vários companheiros foram presos e outros indiciados. Fernando Henrique ameaçou aos sem terra prometendo colocar o exército nas ruas se os trabalhadores e trabalhadoras continuassem ocupando os prédios. Em recente audiência, o Diretor do Banco do Brasil, o Presidente do Incra e o diretor do Pronaf, foram unânimes em dizer que nossos pleitos eram justos, mas que nada poderiam fazer sem a decisão dos Ministérios da área econômica, que são de fato os que mandam. Por isso, a ocupação dos prédios do Ministério da Fazenda nos estados. Mas a Jornada de Lutas mostrou que os sem terra lutam por Reforma Agrária e que a sociedade apóia os trabalhadores, demonstrando a insatisfação ao governo FHC. Mais de 30 mil companheiros participaram de ocupações e vigílias em prédios públicos em 2 de maio. Antecipando ao governo, em 4 de maio o comando da mobilização anunciou a retirada dos órgãos públicos. Veja como foram as mobilizações e o avanço dos trabalhadores em alguns estados. Sergipe A Jornada de lutas em Sergipe foi marcada por ocupação, caminhada e trancamento de rodovia. Mais de 1.500 sem terra de acampamentos e assentamentos de todo o Estado se mobilizaram. Em 2 de maio pela manhã, os trabalhadores rurais ocuparam a sede do Incra, em Aracaju (SE). Eles ficaram no local até 5 de maio. 122 Um grupo de sem terra, em torno de 200, já estava acampado no pátio do Incra desde o dia 24 de abril – sem que houvesse avanços nas negociações. A mobilização foi em protesto contra o governo FHC, cujo projeto é o desmantelamento da agricultura, gerando a miséria no campo e o não-investimento na Reforma Agrária. Durante os dias em que os companheiros permaneceram na capital sergipana foram realizadas diversas atividades, entre elas duas passeatas pelas principais ruas do centro de Aracaju – nos dias 2 e 3 de maio. A mobilização do dia 3 foi iniciada às 16 horas, saindo da sede do Incra até o calçadão da João Pessoa. No local aconteceu um ato público, com a participação de representantes de movimentos sindicais e sociais. Além de fazer parte das atividades da mobilização nacional, a caminhada teve como proposta denunciar a morte do trabalhador rural Antônio Tavares Pereira – que ocorreu em 2 de maio durante a repressão policial no protesto do Paraná. Também exigir a liberdade dos sem terra presos. A população local foi solidária à manifestação. No dia 4, a rodovia SE-206 foi bloqueada das 10 horas até o final da tarde por cerca de 1.400 trabalhadores rurais. O trancamento ocorreu a 15 km do município de Canindé do São Francisco, sertão sergipano. Só passaram as ambulâncias. Os caminhoneiros, em greve, foram solidários à mobilização. A rodovia liga Aracaju a Paulo Afonso, na Bahia. São Paulo Na manhã de 2 de maio, cerca de 600 trabalhadores rurais sem terra ocuparam a Secretaria do Ministério da Fazenda, na capital. A Polícia Militar chegou reprimindo os trabalhadores, jogando contra eles sprays de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo. Logo depois, a Tropa de Choque, agredindo os manifestantes, fez a desocupação do prédio. Quatorze companheiros foram presos. Os trabalhadores não puderam sequer permanecer nas ruas próximas à delegacia para onde foram levados os presos. A Tropa de Choque obrigou-os a entrar nos ônibus, que foram escoltados para o Centro de Tradições Nordestinas e depois para o alojamento do MST na Barra Funda. REPÚDIO A violência contra os sem terra em São Paulo foi logo repudiada pelos trabalhadores no interior do Estado. No mesmo dia, no Pontal do Paranapanema, 800 trabalhadores do Acampamento Dorcelina Folador bloquearam a rodovia que liga Presidente Prudente ao Paraná. No dia seguinte (03/05), 200 pessoas ocuparam a sede do Itesp (Instituto de Terras do Estado de São Paulo), em Teodoro Sampaio. Em Presidente Prudente, os sem terra tentaram ocupar a sede o Itesp, mas a PM parou os ônibus na estrada. Então, os 150 trabalhadores trancaram a rodovia que liga Presidente Prudente a São Paulo por quatro horas. 123 Em repúdio a ação da polícia em Presidente Prudente, os trabalhadores do Acampamento Dorcelina Folador (Teodoro Sampaio) trancaram a rodovia próxima ao acampamento. Mais tarde, esses mesmos trabalhadores ocuparam o Itesp de Mirante do Paraná-panema. Em Euclides da Cunha Paulista, cerca de 100 pessoas ocuparam a sede do Itesp. Em Itapeva, em 5 de maio, cerca de 300 trabalhadores rurais assentados e acampados da região bloquearam a rodovia de acesso à São Paulo por cinco horas. Em Promissão, cerca de 200 trabalhadores rurais assentados e acampados na região realizaram um ato em conjunto com a CPT (Comissão Pastoral da Terra) para protestar e denunciar as diversas formas de violência cometidas contra o povo brasileiro. Rio de Janeiro As famílias de trabalhadores rurais sem terra decidiram realizar a Jornada de Lutas ocupando a sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social em 2 de maio. A ocupação foi marcada pela solidariedade do movimento sindical, estudantes, religiosos e da população em geral. Os próprios funcionários do BNDES e a Associação apoiaram todas as manifestações. Apesar do forte aparato policial militar e federal, não houve problemas sérios de conflito com a polícia. Em 3 de maio, foram realizados atos ecumênicos e políticos, lembrando o companheiro Antônio Tavares, assassinado pelo governo Jaime Lerner. As famílias vindas da região Norte e Lagos do Rio de Janeiro juntaram-se a eles. Apesar da tentativa de fechar as portas, os trabalhadores entraram no local. Com bandeiras do Brasil, do MST e de outras entidades que apoiavam a ocupação, o prédio foi desocupado às 8 horas da manhã no dia 5. Na parte da tarde, mais de 300 pessoas participaram de uma marcha pelo centro do Rio, sendo muito saudada pela população. Em 9 de maio, foi realizada uma audiência com o Incra, mas sem muitos avanços. Para finalizar as atividades na capital carioca, os sem terra participaram dos atos dos Servidores Públicos Federais, retornando à tarde para as áreas em que moram. Santa Catarina A mobilização em Santa Catarina foi cheia de atividades durante toda semana, pois além da vigília no Ministério da Fazenda, o MST realizou trabalhos com a sociedade que resultaram em mobilizações em conjunto com outros movimentos. Cerca de 700 pessoas do MST, MPA, e MAB ficaram acampadas na capital. Durante a Jornada de Lutas que iniciou em 2 de maio, foram realizadas mobilizações em Florianópolis juntamente com professores da rede estadual que estão em greve, servidores federais, motoristas e cobradores de ônibus e trabalhadores das estatais 124 reunidos no MUCAP - Movimento Unificado Contra as Privatizações. Todas as atividades da semana culminaram em um grande ato de protesto em 5 de maio, que reuniu cerca de 8 mil pessoas no centro de Florianópolis. Os militantes do MST apoiaram a greve dos caminhoneiros em diversas regiões do estado. O MST teve também audiências com o Incra e com o governador Esperidião Amin. A principal delas foi no dia 3, com o Presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Desembargador Francisco Xavier Vieira. Ele se mostrou bastante sensibilizado com a causa da Reforma Agrária e manifestou seu apoio ao MST. O desembargador afirmou que vai nomear um juiz especial para dirimir a questão dos conflitos agrários no Estados e que escolherá uma pessoa com sensibilidade humana para desempenhar esta função. Paraíba Após desocuparem a sede do Ministério da Fazenda, em 4 de maio, cerca de 150 sem terra solidarizam-se com os professores da rede pública estadual e permanecem acampados na praça Três Poderes, em João Pessoa. Os professores já estavam acampados no local há 45 dias. Durante o período em que estavam acampados, foi realizada uma jornada de embelezamento da praça e em 8 de maio os professores começaram a alfabetizar os adultos. As famílias de trabalhadores só saem do local quando as negociações acontecerem em Brasília. A sede do Ministério da Fazenda foi ocupada em 2 de maio por aproximadamente 800 famílias de trabalhadores sem terra. Apesar da pressão policial e da ordem de despejo, os trabalhadores fizeram um acordo e continuaram no prédio até às 12 horas de 4 de maio, totalizando 52 horas de ocupação. Em seguida, os trabalhadores marcharam em direção à Praça Três Poderes, juntamente com professores, estudantes secundaristas, funcionários públicos federais, trabalhadores em transportes alternativos e a CPT. Para o ato público, que aconteceu às 14 horas, estavam reunidas 2 mil pessoas. Neste dia, também aconteceu um paralisação em todos os órgãos públicos federais no estado. Pernambuco Acampamento só de mulheres Durante a semana de 17 a 24 de abril, mais de 150 latifúndios improdutivos foram ocupados no país envolvendo cerca de 20 mil famílias. Na Zona da Mata Norte aconteceu um fato inédito na história do MST em Pernambuco. Pela primeira vez foi feita uma ocupação só com mulheres. Isto é uma resposta das camponesas aos 500 anos de exploração, fome, miséria, concentração de terra e submissão forçada das mulheres. O Engenho Gutimba, de propriedade da Usina Matari, foi ocupado por 70 trabalhadoras sem terra e logo foi batizado de Dorcelina Flador. De acordo 125 com Luíza, uma das coordenadoras do acampamento, a maior parte das mulheres que participou da ação é assentada. “As companheiras que já têm o seu canto não abandonam as que ainda não têm. Decidimos ocupar só com mulheres para homenagear Dorcelina (exprefeita de Mundo Novo – MS, assassinada em outubro/99) e depois para provar aos homens, especialmente aos poderosos desse país, que a agricultora brasileira não tem medo de ameaças”, explicou. “Precisamos libertar as terras das mãos dos opressores e libertar as mulheres camponeses da escravidão”, complementou. Texto (4B) / Folha de S. Paulo (06/05/00) MST deixa prédios, mas ameaça voltar Editoria : Brasil / Página: 1-5 “Se não ocorrer negociação nos próximos dias, o governo sabe o que poderemos fazer”, diz semterra - da Sucursal de Brasília e da Sucursal do Rio O coordenador nacional do MST Jaime Amorim disse ontem que os sem-terra voltarão a invadir fazendas e prédios públicos se o governo não designar um integrante da equipe econômica para negociar suas reivindicações. “Se não ocorrer negociação nos próximos dias, o governo sabe o que poderemos fazer”, disse. “Nós vamos continuar ocupando latifúndios e, se necessário, prédios públicos.” Apesar da ameaça, Amorim pediu a ajuda da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para tentarem mediar uma audiência com o governo. D. Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra, disse que o objetivo da igreja “é encontrar caminhos em que não haja vencedores nem vencidos”. As novas atividades do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) serão decididas na próxima semana. Está previsto que os sem-terra irão engrossar os protestos programados para a votação do novo salário mínimo no Congresso, agendada para a próxima quarta-feira. Segundo o MST, houve desmobilização dos militantes em Brasília e em 20 dos 22 Estados onde promoveram protestos nesta semana. Uma comissão de sem-terra continuará em São Paulo por causa da prisão de 20 militantes. Cerca de 450 militantes do MST cumpriram o compromisso de deixar espontaneamente o prédio da superintendência do Incra em Brasília. “Se houve danos, pagaremos”, disse Amorim. Eles fizeram acampamento em frente do Ministério da Fazenda, onde protocolaram 50 reivindicações. 126 O MST quer aumentar o orçamento da reforma agrária de R$1,2 bilhão para R$ 4,6 bilhões. Na entrevista, Amorim classificou como “chacota” as medidas anunciadas pelo governo para conter as invasões: “Quem sabe agora vamos ocupar o latifúndio produtivo, já que não podemos fazer ocupações de terras improdutivas, como ficou proibido pelo governo. Ocuparemos os produtivos para exigir a desapropriação dos improdutivos e assim não estaremos desrespeitando a lei.” No Rio, os 300 militantes do MST que estavam desde terça-feira no saguão do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), no Rio, encerram a invasão ontem às 8h30. Eles obedeceram à orientação da direção nacional do MST. Homens, mulheres e crianças deixaram o prédio juntos, carregando cruzes em homenagem ao semterra morto no Paraná, e se instalaram no gramado ao lado da sede do banco, onde ficarão acampados em barracas de lona. 127 Texto (5A) /Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Abril 2000) MST : preparando o 4º Congresso Nacional Chegamos ao ano de mais um Congresso. Nesses 16 anos de história, lutas e conquistas, todos os nossos congressos desempenharam um papel fundamental e estratégico na construção da luta pela terra, pela Reforma Agrária e na perspectiva da transformação social em nosso país. Por isso, eles sempre foram massivos, com participação de entidades e organizações nacionais e internacionais. Realizamos o nosso 1º Congresso Nacional em 1985, na cidade de Cascavel (PR). Com a presença de mais de 1.500 trabalhadores, saímos com a decisão de que a Reforma Agrária deve ser feita pelos trabalhadores. Portanto, ela seria obra dos próprios trabalhadores do campo e da cidade. Ocupar, Resistir e Produzir. Este foi o lema reafirmado em nosso 2º Congresso Nacional, realizado em Brasília, em maio de 1990. Mais de 5 mil trabalhadores participaram, além da presença de dez delegações estrangeiras. Já o nosso 3º Congresso Nacional, em 1995, aconteceu em Brasília e envolveu sem terra de todos os Estados brasileiros. Durante o evento, além de estudos e debates, houve passeatas e protestos em frente a embaixada norte-americana, Incra, Congresso Nacional e Palácio do Planalto. Na necessidade de avançarmos a luta, lançamos o lema “Reforma Agrária, uma luta de todos”. Compreendemos que a luta pela Reforma Agrária somente será efetivada quando houver a mobilização de todos os trabalhadores deste país. Nunca acreditamos que os governos fariam a Reforma Agrária. Mesmo com a industrialização do país, o latifúndio manteve sua força política, tornando os governos submissos aos seus interesses e garantindo seus privilégios. Durante o Congresso, confraternizaremos. Vamos comemorar nossas lutas e conquistas, lançando os desafios para o novo milênio da luta pela terra, pela Reforma Agrária, pelo socialismo. Vamos protestar contra o modelo econômico das elites, pois a liberdade da classe trabalhadora somente virá com a extinção dos latifúndios. Nossa tarefa é discutir, debater as linhas políticas nos Estados e na base para que nosso 4º Congresso seja mais um marco na história do Brasil. Todos na preparação do 4º Congresso! Direção Nacional do MST 128 Texto (5B)/ Folha de S. Paulo (29/04/00) Novo presidente da UDR vê “guerra civil” no Pontal Editoria: Brasil / Página 1-4 Autor: EDMILSON ZANETTI - Almir Guedes Soriano diz que pode “correr sangue “na região Da Agência Folha Na véspera de assumir a presidência da UDR, o agropecuarista Almir Guedes Soriano, 40, disse ontem que o Pontal do Paranapanema, no extremo oeste de São Paulo, vive um clima de “guerra civil” e que a entidade, sob seu comando, continuará defendendo o direito de reação dos fazendeiros, inclusive com uso de armas, diante de invasões de semterra. “Não tenha dúvida de que existem muitos proprietários rurais que não agüentam mais. E, se esse povo entrar na fazenda errada, vai ter confronto”, disse. “Certamente poderá ocorrer sangue.” Em reunião na sede da entidade ruralista na quarta-feira, um grupo de fazendeiros decidiu reagir às invasões dos sem-terra, inclusive com o uso de armas. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) invadiu quatro fazendas em dez dias na região, mas não houve confronto. O dirigente disse apoiar a postura dos fazendeiros. “A orientação da UDR é que se use estritamente o que a legislação permite, para afastar o invasor. Agora, a coisa fica imprevisível.” Segundo ele, “o José Rainha (dirigente dos sem-terra) e as lideranças do MST estão querendo usar a massa mais uma vez para encontrar um mártir”. Segundo Tânia Tenório de Farias, que deixa a direção da entidade hoje, se não houve como evitar o conflito, “a reação será proporcional à agressão”. Ela diz que a UDR não tem milícias. Apenas orienta os filiados a se defender dentro da lei. A orientação inclui observações de que, no caso de necessidade do uso de armas, elas devem estar legalizadas e respeitar a determinado calibre. A especificação do calibre não foi revelada. Segundo a atual presidente, o direito de defesa da propriedade está previsto no artigo 502 do Código Civil, que diz: “O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se, ou restituir-se por sua própria força, contando que faça logo”. O parágrafo único do artigo observa: “Os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção ou restituição da posse”. Omissão Soriano responsabilizou os governos de São Paulo e federal pelo quadro de tensão na região. 129 Ontem, ele encaminhou ao governador Mário Covas (PSDB) um telegrama em que acusa seu governo de “omissão” diante do risco de um “confronto de conseqüências imprevisíveis” entre fazendeiros e sem-terra. “Será de sua responsabilidade tudo o que vier a ocorrer”, assinala no texto. O futuro dirigente da UDR criticou também o presidente Fernando Henrique Cardoso. Diz que ele governa por medidas provisórias e que permitiu pressões externas sobre o Judiciário no julgamento de José Rainha Júnior em Vitória, no início do mês. “Isso aqui é uma ditadura. O Fernando Henrique é um ditador fantasiado de democrata”, disse. Ele também ataca a política do Ministério do Desenvolvimento Agrário. “O Raul Jungmann quer a favelização do campo”, disse, referindo-se à implementação da agricultura familiar. Segundo José Rainha Jr., o aparente clima de tranqüilidade vivido no Pontal do Paranapanema nos últimos dois anos se deveu a um “crédito de confiança” dado ao governo para fazer assentamentos. Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação por processos de fotocopiadoras ou eletrônicos. Assinatura:___________________________Local e Data:_________________________