Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura QUARENTA ANOS DE MINHA SENHORA DE MIM Ana Maria Domingues de Oliveira1 Quando se fala sobre a postura ousada e atrevida da obra de Maria Teresa Horta, o caminho mais frequente é associá-la à publicação coletiva de Novas cartas portuguesas, em 1972, livro que, ao desafiar o moralismo da ditadura portuguesa, lançou as três autoras na prisão, com o imediato recolhimento da obra. Pouca gente faz referência, entretanto, a um gesto mais solitário e anterior de Maria Teresa Horta, ao publicar, um ano antes, o livro de poemas Minha senhora de mim. Considerado pela autora como a “obra de viragem” em sua carreira, o livro marca a abertura de novos rumos para sua produção literária em geral e, mais especificamente, alimentou as primeiras conversas com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa a propósito da criação das Novas cartas portuguesas. A própria autora, em depoimento a Manuela Tavares2, afirma que Novas Cartas Portuguesas surgiram como reação à apreensão do livro Minha Senhora de mim. As circunstâncias relacionadas à publicação de Minha senhora de mim foram muito turbulentas, e sobre elas a autora já se manifestou diversas vezes. Narra a mesma Manuela Tavares: Nessa altura, em 1971, tinha saído o seu livro Minha Senhora de mim e a polícia política apareceu a apreender o livro. O Secretário de Estado da Informação Moreira Baptista ameaçou Snu Abecassis, da editora D. Quixote, de que se tornasse a publicar esse livro ou qualquer outro assinado por Maria Teresa Horta encerraria a editora. Maria Teresa 1 Doutora Em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. UNESP/Assis. [email protected]. 2 TAVARES, Manuela. Feminismos. Lisboa: Texto/Leya, 2011. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Horta confessa que andava muito desmoralizada com os telefonemas e as cartas que recebia a insultá-la, a marcar encontros. A própria Maria Teresa Horta, em muitas ocasiões, já teve oportunidade de manifestar-se sobre os acontecimentos relacionados à publicação de Minha senhora de mim, como, por exemplo, em depoimento dado durante o XXI Encontro de Professores Paulistas de Literatura Portuguesa, em São Paulo, em 2007, conta o que se seguiu à proibição do livro: Na mesma altura começaram os telefonemas e as cartas anónimas, com ameaças e grosserias, quer para casa quer para “A Capital”, o jornal onde trabalhava. Tudo isto num crescendo, que culminou com o meu espancamento, uma noite em plena rua: três homens atiraram-me ao chão e sem pararem de me bater, por entre palavrões e obscenidades, gritavam: “isto é para aprenderes a não escreveres como escreves”. 3 Em outra entrevista, mais detalhes sobre os acontecimentos: Para além da proibição da PIDE e das ameaças políticas, criou-se uma efervescente celeuma em torno de “Minha Senhora de Mim”. As ameaças e os telefonemas insultuosos para minha casa sucederam-se, a ponto de ter de mandar tirar o meu nome da lista telefónica. Houve, também, bilhetinhos, convites insidiosos para sair à noite, para jantar, etc., enviados por homens que não conhecia. Enfim, gerou-se todo um clima de mal- estar à minha volta, que, insidiosamente, mais parecia pretender atemorizar-me, castigar-me... Pior do que isso: envergonhar-me! Afinal, como me chegaram a dizer, “uma mulher de respeito não escrevia daquele modo, não dizia 3 Original inédito. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura aquelas coisas...” 4 Em outro depoimento, a propósito da mesma circunstância, diz ainda Maria Teresa Horta: O escândalo de que falas só surge em 1971, quando da publicação de Minha senhora de mim. E é sobretudo um escândalo que parte do puritanismo, do machismo, do marialvismo, que então minava e destruía a sociedade portuguesa. Produto de uma mentalidade formada, moldada pelo Fascismo e pela igreja católica, portanto pela falta de liberdade, pelo moralismo, pela hipocrisia; uma sociedade onde as mulheres não tinham sequer direito a possuir uma sexualidade própria. Então, um livro como Minha senhora de mim, onde não só canto o corpo do homem amado e desejado, como claramente falo do meu próprio corpo e menciono o meu próprio desejo e prazer, só poderia escandalizar e ser proibido, como aliás aconteceu. É a partir, portanto, dessas terríveis ocorrências posteriores ao lançamento de Minha senhora de mim que se abre o caminho para o surgimento das Novas cartas portuguesas: [A ideia das Novas Cartas Portuguesas] surgiu quando o meu livro Minha Senhora de Mim foi proibido pela PIDE, e escandalizou meio mundo, desde os anónimos que me descompunham pelo telefone e me mandavam cartas não assinadas, àqueles que me ameaçavam todos os dias. Foram meses de violência inconcebível, que me deixaram desanimada. Nós as três [Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta] já éramos amigas, encontrávamo-nos muitas vezes, almoçávamos juntas 4 http://www.storm-magazine.com/novodb/arqmais.php?id=261&sec=&secn Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura uma vez por semana. Num desses almoços, a Maria Velho da Costa levantou a questão: se uma escritora levanta tanta indignação, o que aconteceria se três escritoras escrevessem um livro juntas, a falar de tudo aquilo e muito mais, do que eu tratava nos meus poemas... 5 É, portanto, a publicação de Minha senhora de mim e sua consequente proibição e perseguições à autora que vão ensejar a proposta de escrever Novas cartas portuguesas, obra que será publicada no ano seguinte (1972) e que desencadeará diversos acontecimentos relevantes em Portugal, estando, de alguma maneira, associada até mesmo à Revolução dos cravos, já que a ampla repercussão internacional do episódio certamente colaborou para o enfraquecimento da ditadura. A respeito desse livro, muito já se falou e ainda se falará, mas julgo que é preciso também voltar os olhos para Minha senhora de mim, que surgiu um ano antes e que já tem, em seu bojo, a semente que fará surgir não apenas as Novas cartas portuguesas como também irá inaugurar uma inflexão que determinará toda a obra posterior de Maria Teresa Horta. Diz a autora, no mesmo depoimento (infelizmente ainda inédito) que apresentou durante o XXI Encontro de Professores Paulistas de Literatura Portuguesa, em 2007: Minha Senhora de Mim foi, pois, um livro determinante, quer na minha obra, quer na minha vida pessoal. Depois de o publicar, fiquei só na planície ardente. E até a aragem que me fazia mover os cabelos, era de brasa. Em seus 59 poemas, Minha senhora de mim propõe uma releitura do Trovadorismo português, sobretudo no que se refere às cantigas de amigo. Segundo Anna M. Klobucka, seria “Uma retomada da tradição literária portuguesa que, ao contrário do que propunha o Estado Novo português, olhava para o passado literário com olhos críticos, paródicos, renovadores.” 6. Ao tomar as cantigas de amigo a partir de uma perspectiva 5 “Conversa com Maria Teresa Horta,” text and interview by Ana Raquel Fernandes, Cláudia 6 KLOBUCKA, 2009, p. 230. Coutinho and Sara Ramos Pinto, Textos e Pretextos, 3 (Inverno 2003): 61. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura crítica e paródica, portanto, Maria Teresa Horta acabava por atingir de modo igualmente crítico a identidade nacional, em razão sobreposição entre os conceitos de identidade literária e identidade nacional. Reler as cantigas de amigo em chave crítica, com um componente erótico muito evidente certamente teria o ofeito de chamar sobre a autora de tal atrevimento a fúria da censura e da polícia política a serviço da ditadura portuguesa. Uma ousadia de tal natureza teria de ser punida com rigor. Essa postura desafiadora, portanto, está na raiz da proibição do livro e contribuiu para o silêncio em torno de seu lançamento. A recensão de Nelson de Matos 7 é uma exceção, mas em nada contribui para uma recepção favorável do livro, já que o autor manifesta opiniões desabonadoras tanto dos poemas quanto de sua autora. O texto inicia-se assim: Trata-se de uma poesia que claramente se joga na utilização de uns quantos processos que, parecendo de desenvoltura, são apenas de facilidade. Bastante limitada ao nível do que diz e das palavras em que pretende dizer- se, não será difícil, portanto, enumerar e exemplificar alguns desses processos. Após percorrer 5 tópicos de análise dos poemas do livro (utilização da estrutura formal da cantiga de amigo; rimas em infinito, gerúndio e particípio passado; tentativa de arcaísmos lexicais; repetição de uma mesma palavra em início de verso e um erotismo que se auto-nomeia), conclui Nelson de Matos: “Parece no entanto ter ficado evidente a total ausência de rigor que nos manifestam os malabarismos verbais em que esta escrita se arquitecta. Rigor – tal não será talvez de exigir a quem por completo o já perdeu.” Fica claro, sobretudo nessas palavras finais, que o alvo do ataque não é apenas o livro, mas também a própria poetisa. Nelson de Matos, sob 7 MATOS, Nelson de. A leitura e a crítica. Lisboa: Estampa, 1971, p. 226-236. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura a aparência de uma análise rigorosa da forma dos poemas, está, desde o início, fazendo um julgamento de ordem moral sobre a obra e, principalmente, sobre a autora, como fica evidente no trecho citado acima. Quando voltamos nossos olhos para os poemas do livro, entretanto, observa-se que se trata de uma obra de muitas faces, sendo que a mais evidente é a de uma releitura da poesia do Trovadorismo português, sobretudo no que concerne às cantigas de amigo. Os poemas seriam, segundo este ponto de vista, reescrituras daquela modalidade poética, tendo agora, de fato, uma mulher como autora, reivindicando seu direito à escritura, à sua própria voz. Das cantigas de amigo, os poemas guardam muitas características, como a sonoridade, o paralelismo, o refrão e, no âmbito mais temático, as referências à realização física do amor entre a mulher e seu amigo. Do ponto de vista formal, nota-se um movimento ora de aproximação ora de distanciamento das marcas características das cantigas. A título de exemplo, tomarei três poemas do livro que mostram diferentes graus de proximidade com as cantigas. Inicialmente, cito o poema “A seu amigo”: É corpo para ofertar no lençol sem abrigo a seu amigo É corpo-alva de amar no lençol sem abrigo a seu amigo É corpo justo Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura ao desejo no lençol sem abrigo a seu amigo Como se pode observar, trata-se de um poema bastante próximo da sonoridade das cantigas de amigo. Cada estrofe relaciona-se paralelisticamente com as demais, há um refrão ao final de todas elas e, além disso, as únicas palavras a rimar, em todo o poema, são “abrigo” e “amigo”, justamente as que possuem uma terminação bastante frequente nas cantigas de amigo. A associação das duas palavras, além disso, também pode estabelecer uma proximidade semântica entre ambas, o que contribui para as possibilidades expressivas do poema. Há ainda no poema referências ao corpo, ao desejo e também ao lençol, o que sugere de modo menos velado o contato sexual entre os amantes. A mulher não só assume a sua voz como também dá visibilidade à sua sexualidade, aos seus desejos. Já em “Recusa”, há um afastamento gradual da forma da cantiga de amigo, embora ainda permaneçam algumas recorrências sonoras: Não terás para me dar quotidiano contigo abrigo corpo despido Nem terás para me dar a segurança do perigo mais do que o gesto ocupado o afago o desmentido Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Não terás para me dar o espanto de estar contigo Permanecem aqui as rimas semelhantes, ainda algum paralelismo, mas já não está presente o refrão. Do ponto de vista temático, a recusa instaura também uma diferença em relação à tradição da cantiga de amigo, em que o amante não se recusa, mas é afastado da amada por circunstâncias externas à relação. No entanto, embora o que se cante aqui seja a impossibilidade da relação amorosa, é possível entrever, em versos como “corpo despido” a natureza física do amor que é recusado. Já nas páginas finais do livro aparece o “Poema ao desejo”, que se encontra ainda mais distanciado do universo da cantiga de amigo: Empurra a tua espada no meu ventre enterra-a devagar até ao cimo que eu sinta de ti a queimadura e a tua mordedura nos meus rins deixa depois que a tua boca desça e me contorne as pernas de doçura Ó meu amor a tua língua prende aquilo que desprende de loucura Aqui desaparece o paralelismo, desaparece a rima tradicional das cantigas de amigo e aparece de modo mais explícito a relação sexual entre os amantes, já que o poema se inicia com uma metáfora pouco velada da penetração. É curioso observar também que aqui a voz ativa da relação é a da mulher: os verbos no imperativo revelam que quem está no comando é ela, direcionando o parceiro para que ele a satisfaça. É ela quem deseja, é Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura ela a agente na relação sexual, insinuando inclusive práticas sexuais menos ortodoxas. Aqui não existe a noção do desejo da mulher como apenas uma resposta ao desejo do homem: ela é senhora de sua sexualidade e assim é ela quem define como quer que a relação sexual se dê. Não é difícil imaginar o que representa, para um país como Portugal no início da década de 70, ver surgir um livro que tem, em suas páginas, poemas como esse, em que fica registrada a voz de um eu lírico feminino, que é sujeito de sua própria existência, compreendendo aí sua voz poética, seu desejo, seu corpo, sua sexualidade. A mulher que ali se expressa é, enfim, senhora de si mesma. Livro de transição da carreira literária de Maria Teresa Horta, Minha senhora de mim representou a abertura de novos rumos na poesia portuguesa e de novos ares na conservadora sociedade portuguesa de então. Era a mesma sociedade que veria, logo em seguida, o surgimento da obra coletiva Novas cartas portuguesas, levando adiante a postura ousada e desafiadora que mostrara sua face em Minha senhora de mim. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Bibliografia CANTINHO, Maria João. À Conversa com Maria Teresa Horta. Disponível em: http:// www.storm-magazine.com/novodb/arqmais.php?id=261&sec=&secn. Acesso em 14 de setembro de 2011. FERNANDES, Ana Raquel et alii. Conversa com Maria Teresa Horta. Textos e Pretextos, 3 (Inverno 2003): 61. FERNANDES, Ana Raquel. Breaking with Social and Literary Conventions: Judith Teixeira and Maria Teresa Horta. Disponível em: http://congress70.library.uu.nl/ publish/articles/000025/article.pdf. Acesso em 14 de setembro de 2011. HORTA, Maria Teresa. Minha senhora de mim. Lisboa: Gótica, 2001. KLOBUCKA, Anna M. O formato mulher. Coimbra: Angelus Novus, 2009. MARTINS, Floriano. O corpo aceso da poesia de Maria Teresa Horta. Disponível em: http://www.jornaldepoesia.jor.br/BLBLmariateresahorta01.htm. Acesso em 14 de setembro de 2011. MATOS, Nelson de. A escrita e a leitura. Lisboa: Estampa, 1971. SANT’ANNA, Mônica. A censura à escrita feminina em Portugal, à maneira de ilustração: Judith Teixeira, Natália Correia e Maria Teresa Horta. Disponível em: http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/02_2009/07_artigo_monica_santaanna. pdf. Acesso em 14 de setembro de 2011. TAVARES, Manuela. Feminismos. Lisboa: Texto/Leya, 2011.