Globalização e Inovação Localizada: Experiências de Sistemas Locais no Âmbito do Mercosul e Proposições de Políticas de C&T SISTEMA GAÚCHO DE INOVAÇÃO: CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES E AVALIAÇÃO DE ARRANJOS LOCAIS SELECIONADOS Marco Antônio Vargas Nery dos Santos Filho Rejane Maria Alievi Nota Técnica 11/98 Rio de Janeiro, março de 1998 Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro IE/UFRJ Comissão corrdenadora: José Eduardo Cassiolato Helena Maria Martins Lastres Gustavo Lugones Judith Sut z Coordenação Geral: Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil Patrocínio: Organização dos Estados Americanos Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 2 A presente Nota Técnica faz parte do Projeto de Pesquisa Globalização e Inovação Localizada: Experiências de Sistemas Locais no Âmbito do Mercosul e Proposições de Políticas de C&T. O objetivo central desta pesquisa é o de analisar as experiências de sistemas locais selecionados no âmbito do Mercosul, visando gerar proposições de políticas de C&T aos níveis nacional, supra e subnacional. Para tal delineia-se um conjunto de objetivos subordinados, os quais podem ser divididos em dois grupos principais. O primeiro grupo inclui os objetivos mais gerais relacionados à necessidade de desenvolver mais aprofundadamente o quadro conceitual empírico e teórico que norteia a discussão proposta. Neste caso, a análise incluirá o exame de experiências internacionais (fora do Mercosul), destacando-se quatro tópicos principais de pesquisa: (i) a dimensão local do aprendizado, da capacitação e da inovação; (ii) processo de globalização e sistemas nacionais, supra e subnacionais de inovação; (iii) papel de arranjos produtivos locais e sua capacidade; e (iv) novo papel e objetivos das políticas de desenvolvimento científico e tecnológico, tendo em vista as dimensões supranacional, nacional, regional, estadual e local. Já o segundo grupo de objetivos refere-se à necessidade concreta de (a) identificar e analisar as experiências específicas com arranjos locais de inovação em países do Mercosul; e (b) discutir soluções alternativas quanto à adoção de políticas de desenvolvimento - que considerem, não apenas as questões nacionais e supranacionais de aumento da competitividade e da capacitação industrial e tecnológica no cenário crescentemente globalizado, mas também se preocupem com os desafios e oportunidades relativos ao aprendizado nas dimensões locais, estaduais e regionais e nacionais nestes países. Participam do projeto diversas instituições de pesquisa do Brasil, da Argentina e do Uruguai. O projeto é financiado pela Organização dos Estados Americanos, pelo Min istério da Ciência e Tecnologia do Brasil e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil José E. Cassiolato (IE/UFRJ-Brasil) - Coordenador Geral Helena M.M. Lastres (PPCI/IBICT/UFRJ-Brasil) - Coordenador Adjunto Judith Sutz (Universidad de la Republica - Uruguai) - Coordenador Adjunto Gustavo Lugones (Universidad de Quilmes - Argentina) -- Coordenador Adjunto Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 3 SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................................................................................ 5 1 ESTRUTURA ECONÔMICA E PADRÕES DE ESPECIALIZAÇÃO DA ECONOMIA GAÚCHA ...................................................................................... 1.1 Panorama geral ............................................................................................. 1.2 Padrões de especialização regional ................................................................ 8 8 9 2 INFRA-ESTRUTURA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA DO RIO GRANDE DO SUL .............................................................................................................. 2.1 Governo do Estado ........................................................................................ 2.1.1 Investimentos em Ciência e Tecnologia ................................................ 2.1.2 Os Principais Programas de C & T........................................................ 2.2 Outras Instituições Públicas............................................................................ 2.3 Ensino Superior ............................................................................................. 2.4 Ensino Técnico de 1º e 2º Graus .................................................................... 2.5 Setor financeiro ............................................................................................. 11 11 11 13 20 21 22 23 3 ANÁLISE DOS ARRANJOS LOCAIS SELECIONADOS .................................. 3.1 Programa de Apoio aos Pólos de Modernização tecnológica .......................... 3.2 Experiências Setoriais I: o setor de autopeças ................................................ 3.3 Experiências Setoriais II: o setor coureiro-calçadista ...................................... 25 25 28 32 4 Considerações Finais.............................................................................................. 4.1 Políticas Públicas: a dimensão normativa ........................................................ 4.2 Proposições Para Continuidade do Trabalho................................................... 38 38 42 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 45 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 4 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Taxas de Crescimento do Produto Interno Bruto, por setores de Atividade e Global, do Brasil e do Rio Grande do Sul - 1994/96 ........................................................................................................... 8 Tabela 2 Despesa Realizada em C & T em Estados Selecionados - 1991/94 12 ........................................................................................................... Tabela 3 Despesa Realizada em C & T em relação ao PIB, em Estados 13 Selecionados - 1994 .......................................................................... Tabela 4 Pólos de Modernização Tecnológica .................................................. 17 Tabela 5 Distribuição Percentual do Faturamento no Setor de Autopeças Brasil e 29 Rio Grande do Sul - 1985/1993 ....................................................... Tabela 6 Exportações de Calçados 1973/1990 .................................................. 34 Tabela 7 Projetos Contratados pela FAPERGS em 1996 .................................. 40 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Universidades Federais ........................................................................ 21 Quadro 2 Universidades Confessionais ................................................................ 21 Quadro 3 Universidades Regionais ...................................................................... 22 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 Investimentos em C & T Realizados pela SCT e Fundações Vinculadas 1991/96 ............................................................................................. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 1991/96 ............................................................................................. 5 12 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 6 SISTEMA GAÚCHO DE INOVAÇÃO: CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES E AVALIAÇÃO DE ARRANJOS LOCAIS SELECIONADOS Marco Antônio Vargas* Nery dos Santos Filho ** Rejane Maria Alievi*** INTRODUÇÃO Nas sociedades desenvolvidas, existe um amplo reconhecimento sobre a importância do processo de inovação no aumento da competitividade do setor produtivo e, por conseqüência, na sustentabilidade do crescimento econômico. Como decorrência natural dessa percepção, tanto no campo teórico como nas políticas públicas, diversos esforços têm sido feitos no sentido de compreender e atuar sobre os principais fatores que influenciam o processo de inovação. Nesta linha de esforços teóricos e políticos, já logo após a Segunda Guerra Mundial, principalmente em conseqüência da contribuição da ciência para o fim da guerra, consolida-se a concepção que colocava o processo de inovação como resultado de uma sucessão linear de atividades que iniciava com a pesquisa básica, passando pelo desenvolvimento de produtos e processos, até a sua adoção pelas empresas. Tal interpretação do processo de inovação desconhecia, entretanto, a importância das interações entre as diferentes etapas da inovação, bem como a influência de fatores sistêmicos oriundos do ambiente onde a firma esta inserida. No decorrer da década de 90, diferentes abordagens, baseadas em estudos empíricos, demonstraram a natureza sistêmica da inovação tecnológica. Tais abordagens ressaltam a importância da aprendizagem interativa como elemento fundamental no processo de criação, difusão e utilização de novos conhecimentos que determinam o desempenho dos sistemas de inovação. O processo de inovação deixa de ser encarado como um fenômeno isolado no tempo e no espaço e passa a ser considerado como o resultado de trajetórias que são cumulativas e construídas historicamente, de acordo com as especificidades institucionais e padrões de especialização econômica inerentes a uma determinada dimensão espacial (país, região ou setor industrial). A adoção de um enfoque sistêmico para o estudo da inovação implica na construção de um esquema analítico que focalize os fluxos de conhecimento e as formas de interação entre os atores que, por sua vez, são articulados espacialmente a partir de diferentes configurações institucionais e organizacionais. Neste sentido, a concepção de sistema nacional de inovação, tanto permite uma adequação da análise do processo inovativo em diferentes âmbitos espaciais como também estabelece uma contraposição às abordagens que postulam que o processo de globalização estaria levando ao crescente esvaziamento da autonomia dos países e regiões quanto à proposição de políticas científicas, tecnológicas ou industriais. Assim, ao mesmo tempo em que não nega os efeitos decorrentes da globalização sobre a dinâmica inovativa das economias nacionais, subnacionais ou supranacionais, esta concepção de sistema nacional de inovação enfatiza a importância que assume a natureza localizada da inovação e, consequentemente, do desenvolvimento industrial e * Professor de Economia da UNISC, Doutorando em Economia no IE/UFRJ Diretor Técnico da Secretaria da Ciência e Tecnologia/RS, Doutorando em Política Tecnológica pelo SPRU/Sussex - Inglaterra *** Professora de Economia da UNISC, Assessora de Planejamento da Secretaria da Ciência e Tecnologia, Mestre em Economia pela UFRGS ** Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 7 tecnológico1. Este tipo de abordagem metodológica permite tratar o processo de inovação a partir de uma perspectiva mais ampla e realista, pois logra transcender o enfoque tradicional, característico do modelo linear, que se traduz numa visão mais restrita sobre o escopo de atuação das políticas industriais e tecnológicas que ainda hoje encontra-se fortemente presente na visão tanto de acadêmicos como de policymakers. Para efeito da análise sobre o sistema de inovação do Rio Grande do Sul, bem como da dinâmica inovativa dos arranjos selecionados, propõe-se uma discussão que envolve três eixos de análise, interdependentes e complementares: os processos de aprendizagem, as configurações institucionais e organizacionais e o papel das políticas públicas. Enquanto que os dois primeiros procuram dar conta da dimensão teórica deste tipo de perspectiva, o terceiro, relacionado às políticas públicas, traduz os principais aspectos de uma visão normativa relacionada a uma nova percepção sobre o papel a ser desempenhado pelo Estado na configuração das políticas industriais, científicas e tecnológicas, com vistas ao aumento da competitividade do setor produtivo. No tocante ao estudo de caso de sistemas de inovação localizada, são selecionados três tipos de arranjos produtivos, que permitem representar diferentes lógicas de organização e inter-relação. Entretanto, é importante ressaltar que tanto a análise dos casos selecionados como do sistema gaúcho de inovação como um todo, carece ainda de uma base empírica que seja mais abrangente e consistente, de modo a permitir um aprofundamento da discussão sobre a natureza sistêmica e localizada do processo de inovação tecnológica no Rio Grande do Sul. A expectativa é a do aprofundamento dessa discussão num segundo momento, dado que este trabalho se encontra inserido no escopo de um projeto mais amplo, que se propõe a analisar a dimensão localizada da inovação frente ao contexto de globalização. Assim, nesta primeira etapa do estudo, o texto não logra esgotar a discussão sobre todos os elementos inerentes ao sistema gaúcho de inovação, à infra-estrutura de ciência e tecnologia existente e aos principais programas que vem sendo desenvolvidos na área de C&T no Estado. O trabalho encontra-se organizado em quatros seções. Na primeira é apresentada uma análise sucinta sobre o padrão de especialização da economia estadual, a partir de uma divisão do Estado em três regiões (Norte, Nordeste e Sul), procurando destacar os principais pólos econômicos e eixos industriais regionais. A segunda seção, apresenta a configuração do sistema estadual de inovação a partir de informações sobre a constituição da estrutura de C&T do Estado e dos seus principais programas relacionados, entre outros objetivos, à formação de recursos humanos, ao desenvolvimento tecnológico do setor produtivo e à interação universidade-empresa. A terceira traz uma discussão crítica sobre os arranjos locais: a experiência dos Pólos Tecnológicos inserida num dos programas da Secretaria da Ciência e Tecnologia do Estado do Rio Grande do Sul, o setor de autopeças e o setor coureiro-calçadista. A quarta e última seção resgata, inicialmente, um dos eixos de discussão referente ao papel e configuração das políticas públicas, tendo em vista uma abordagem sistêmica sobre o processo de inovação. Por fim, são apresentadas algumas proposições para continuidade e aprofundamento da 1 Para uma discussão mais ampla sobre a falsa dicotomia entre o processo de globalização e a natureza específica que assume o processo inovativo em diferentes países, ver Lastres (1997). Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 8 discussão sobre a dimensão localizada dos sistemas de inovação a partir de arranjos produtivos locais. Sinteticamente, tais proposições remetem à necessidade quanto ao estabelecimento de uma classificação ou mapeamento que permita uma identificação mais clara da função e importância que assumem as diferentes instituições, organizações e fluxos de conhecimento na constituição e operação dos sistemas locais de inovação. 1. ESTRUTURA ECONÔMICA E PADRÕES DE ESPECIALIZAÇÃO DA ECONOMIA GAÚCHA 1.1. Panorama Geral O Rio Grande do Sul, situado no extremo sul do Brasil, apresenta uma área territorial de 280.674 km2 , com uma população em torno de 9,5 milhões de habitantes. Seu sistema educacional, comparativamente a outros Estados, é bem desenvolvido, dispondo de uma extensa e bem distribuída rede de ensino de 1o, 2o e 3o graus, incluindo escolas municipais, estaduais e federais. O nível de qualificação da mão-de-obra é visto, também, como um importante capital desse Estado. Em termos de dinamismo econômico, desde 1994, quando o PIB estadual apresentou taxa de crescimento de 2,9% em relação ao ano de 1993, as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto estadual têm sido negativas. Em 1996, o PIB gaúcho apresentou uma queda de 0,1% em relação à 1995, com um desempenho inferior ao verificado pelo conjunto da economia brasileira, que obteve um crescimento de 3,0%, no mesmo período. Na tabela 1 são apresentados os dados comparativos das taxas de crescimento do PIB, por setores econômicos, para o Rio Grande do Sul e para o Brasil. Tabela 1 Taxas de crescimento do Produto Interno Bruto, por setores de atividade e global, do Brasil e do Rio Grande do Sul - 1994-96 - Em % SETORES DE ATIVIDADE 1994 1995 AGROPECUÁRIO BR 9,3 RS -4,6 Lavoura 10,5 Produção Animal 7,7 1996(1) BR 5,1 RS 5,7 BR 3,3 RS -3,7 -9,4 -0,1 4,5 -0,5 -14,6 7,4 11,9 8,2 7,8 18,2 7 8,1 2 -8,1 1,8 0,7 Ind. de Transformação 7,8 8 1,7 -9,3 0,6 0,3 Construção Civil Serv. Ind. de Utilidade. Pública 6,1 2,4 11,7 4,1 0,1 7,5 0 5,4 4,2 ND 3,4 5,3 Extrativa Mineral 4,7 7,2 3,3 1,2 ND 0,8 SERVIÇOS 4,2 1,9 6 2,7 3,5 0,5 Comércio 6 -0,4 8,5 6,1 3,9 1,2 Transportes 4,3 0,1 3,8 -1,7 4 0,4 Comunicações 13,6 11,5 24,7 10,6 ND 13,1 Adm. Pública 1,4 1,3 1,4 -3,4 ND -6,7 Aluguéis PIBcf TOTAL ND 6 3,9 2,9 ND 4,2 3,2 -0,6 ND 3 2,4 -0,1 INDÚSTRIA FONTE: FEE/Núcleo de Contas Regionais - IBGE/Departamento de Contas Nacionais (1) Estimativas preliminares FEE/NCR - Para o Brasil, IPEA Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 9 1.2. Padrões de Especialização Regional De forma sintética, a distribuição espacial da economia do Rio Grande do Sul pode ser dividida em três grandes regiões: Sul, Norte e Nordeste. Os padrões históricos de crescimento econômico das regiões tiveram claros reflexos em nível de demografia. Assim, enquanto em 1890, a Região Sul concentrava mais da metade (57,07%) da população gaúcha, pouco mais de um século depois, em 1996, havia passado a conter apenas 24,95% do total. As diferenças observadas na intensidade do crescimento da população das três grande regiões do Estado, decorrem da ação conjunta de diversos fatores, cuja influência é difícil distinguir de forma precisa. Dentre eles, os principais parecem ter sido o padrão de assentamento dos imigrantes oriundos do exterior, que entraram no Rio Grande do Sul a partir das últimas décadas do século passado, as migrações internas, e mais recentemente, a localização de distritos industriais no interior do Estado, que contribuiu para diminuir o processo de migrações excessivas para a região metropolitana e para um desenvolvimento econômico menos concentrador. Do início do século até a década de 70, o crescimento econômico do Rio Grande do Sul foi caracterizado por uma forte polarização. O município de Porto Alegre era o centro hegemônico do Estado, concentrando o escoamento da produção agrícola e industrial e cerca de 25% da Renda Interna (Bandeira & Alonso, 1988). A partir daquela década, inicia-se uma fase de despolarização da indústria gaúcha. Esse movimento deveu-se ao fato de que muitas empresas industriais, em fase de expansão, começaram a transferir suas plantas para outros municípios da Região Metropolitana em razão, entre outros fatores, da existência de terrenos mais espaçosos a custos menores em relação à Porto Alegre. Além disso, os investimentos em infra-estrutura, como transporte, energia e comunicações, tornavam viável a atração de investimentos industriais para as demais regiões do Estado. A primeira das três grandes regiões do Estado, por ordem cronológica de formação histórica, é a Região Sul, situada abaixo dos vales formados pelos rios Jacuí e Ibicuí, onde predomina a grande propriedade rural, principalmente com a exploração da pecuária e a lavoura do arroz. O baixo dinamismo que apresentam estas duas cadeias produtivas, aliadas à crise enfrentada pelo setor orizícola, em razão do elevado grau de endividamento dos produtores, tende a agravar o baixo desempenho da Região Sul, que já apresenta uma estrutura econômica deprimida. Desde os anos oitenta, a região vem passando por um processo de desindustrialização, ocasionando redução significativa no emprego e na renda. Para possibilitar a retomada do desenvolvimento da região foi implantado, em 1995, pelo Governo do Estado, o Programa Reconversul que, através de instrumentos de incentivo fiscal e linhas de financiamentos do BNDES, vem estimulando a criação de novas empresas. A Região Norte compreende, a grosso modo, o Planalto Médio e Alto do Estado. Esta região é caracterizada pela pequena e média propriedade rural (até 100 ha). Trata-se de uma região heterogênea, onde a produção, inicialmente diversificada, cedeu lugar, em muitas áreas, para as lavouras mecanizadas do trigo e da soja. Ainda que a Região Norte também esteja associada à produção agropecuária, a mesma apresenta importantes focos de industrialização. A cadeia produtiva do fumo, situada no Pólo produtivo dos Vales do Rio Pardo e Taquari, responde por cerca de 65% da produção geral de fumo em folha do Estado e concentra as maiores empresas do setor na área de processamento de fumo. Além disso, empresas como Souza Cruz e Philip Morris Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 10 têm feito volumosos investimentos na região, com vistas a consolidar sua posição no mercado. Por outro lado, a cadeia produtiva relacionada à avicultura e suinocultura tem enfrentado dificuldades no repasse de custos de produção, em razão da queda nos preços dos produtos. No pólo produtivo das regiões do Alto Uruguai e Missões, situada no noroeste do Estado, ocorre uma concentração de grande parte da produção estadual de grãos, especialmente de soja, milho e trigo. No pólo produtivo da região do Planalto, além da importância que assume a produção agropecuária, existe alguma diversificação manufatureira, onde os principais gêneros de atividade são: mecânica; produtos alimentares; couro, peles e similares; e material de transporte, com destaque para a fabricação de máquinas e implementos agrícolas. A Região Nordeste é constituída pelo eixo Porto Alegre - Caxias do Sul e por áreas no seu contorno onde, a partir do início do século, começou a implantar-se um parque industrial diversificado que rapidamente suplantou a agricultura e assumiu papel hegemônico como base da economia local. A Região Nordeste detêm cerca de três quartos do PIB industrial, concentra doze das vinte maiores cidades em termos de retorno de ICMS, e quase metade da população do Estado. Esta região apresenta importantes eixos industriais do Estado e as melhores condições em termos de infra-estrutura. No pólo produtivo da região metropolitana, que agrega uma parcela significativa do PIB estadual, destaca-se o distrito industrial coureiro-calçadista, constituído pelos municípios do Vale dos Sinos. Apesar das dificuldades que vêm sendo enfrentadas, em função da concorrência externa dos produtos chineses, esse setor tem mostrado sinais de recuperação. Por outro lado, muitas empresas do setor calçadista têm migrado para o Nordeste, em busca de incentivos fiscais oferecidos por Estados como a Bahia, Paraíba e Ceará, lançando dúvidas sobre a manutenção dos cerca de 105 mil empregos gerados neste setor, atualmente. Na Serra Gaúcha, os principais setores são: mecânica, metalurgia, material elétrico e vestuário. Neste pólo econômico, municípios como Caxias do Sul têm atraído diversos investimentos na área comercial. 2. INFRA-ESTRUTURA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA DO RIO GRANDE DO SUL 2.1. O Governo do Estado No âmbito governamental, à Secretaria da Ciência e Tecnologia – SCT/RS competem as atribuições de promover o desenvolvimento da ciência e tecnologia em todos os níveis, incentivando e apoiando o desenvolvimento de recursos humanos e projetos de pesquisa afetos à área, em colaboração com entidades públicas e privadas. Com vistas a contribuir na definição das linhas gerais de atuação da política estadual na área de C&T, foi criado, em 1995, o Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia, que conta com a representação de diferentes segmentos da comunidade cientifica e empresarial, membros do Governo e representantes de outras associações de classe. Por outro lado, cabe ponderar que vencidas as etapas formais de nomeação dos membros do Conselho e de elaboração do seu regimento interno, em vista do pouco tempo de real funcionamento deste, suas colaborações ainda apresentam um reflexo muito reduzido sobre as ações e programas que vêm sendo desenvolvidos no âmbito do Governo Estadual. Sob o aspecto estrutural, a SCT dispõe de três fundações: • A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul – FAPERGS, com a Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ • • 11 atribuição de fomentar projetos de pesquisa, individuais e institucionais, em órgãos públicos ou particulares. A Fundação de Ciência e Tecnologia – CIENTEC, com a atribuição de fornecer apoio técnico ao setor industrial do Estado, através não apenas da realização de testes, ensaios e análises em máquinas e equipamentos com aplicação industrial, como também de atividades relacionadas à otimização de processos. A Fundação de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio Grande do Sul - FEPAGRO, responsável pelo estímulo, planejamento, promoção e execução de projetos e programas de pesquisa nas áreas vegetal e animal. 2.1.1. Investimentos em Ciência e Tecnologia Os investimentos em Ciência e Tecnologia concretizados pela SCT/RS e suas Fundações vinculadas - FAPERGS, FEPAGRO e CIENTEC - têm aumentado nos últimos cinco anos. Os dados constantes no Gráfico 1 ilustram este fato. Os recursos, da ordem de aproximadamente US$ 6,2 milhões em 1991, aumentaram para cerca de US$ 39,2 milhões em 1996. GRÁFICO 1 INVESTIMENTOS EM C&T REALIZADOS PELA SCT E FUNDAÇÕES VINCULADAS - 1991/96 39,181 40,000 35,000 US$ M I H L Õ E S 30,000 27,321 25,000 20,000 19,349 22,009 1993 1994 15,000 10,000 6,197 7,018 1991 1992 5,000 1995 1996 Com base nestes dados, pode-se estabelecer uma comparação com o montante de recursos investidos em C&T por outros Estados selecionados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná). A tabela 2 apresenta os recursos realizados em moeda corrente e em dólares americanos, para o período 1991/94; e a tabela 3, mostra os investimentos realizados exclusivamente em 1994, como percentuais do PIB de cada estado. TABELA 2 Investimentos Realizados em C&T em Estados Selecionados – 1991/94 Milhões Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ Ano Estados Cr$ 1991 US$ médio 12 1992 Cr$ US$ médio Rio Grande do Sul 8.639,490 21,111 161.654,430 35,519 São Paulo 72.390,449 176,886 796.798,046 175,072 Rio de Janeiro 3.361,173 8,213 50.436,710 11,082 Minas Gerais 47.528,978 116,137 398.066,487 87,463 Paraná nd nd 121.063,792 26,600 FONTE: COOE/SUP/CNPq Obs.: Para os anos de 1995 e 1996 não há dados FONTE: Balanços Gerais dos Estados - 1994, FIBGE e CODE/SUP/CNPq. disponíveis. CR$ 1993 US$ médio 3.567,575 26.645,972 1.013,899 9.035,547 1.467,424 39,541 295,328 11,238 100,145 16,264 R$ 1994 US$ médio 37,354 170,521 12,533 89,289 21,143 57,912 264,374 19,431 138,433 32,780 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 13 TABELA 3 Investimentos Realizados em C&T em Relação ao PIB, em Estados Selecionados - 1994 UNIDADE DA FEDERAÇÃO Rio Grande do Sul São Paulo Rio de Janeiro Minas Gerais Paraná Em R$ Milhões Despesa PIB Realizada em C&T Estadual 37,354 170,521 12,533 89,289 21,143 27.407,179 125.960,385 44.138,069 35.124,792 21.642,377 C&T/PIB Em US$ Milhões Estadual (1) Despesa PIB % Realizada em C&T Estadual 0,14 0,14 0,03 0,25 0,10 57,912 264,374 19,431 138,433 32,780 42.491,750 195.287,419 68.431,115 54.457,043 33.554,074 FONTE: Balanços Gerais dos Estados - 1994, FIBGE e CCODECOOE/SUP/CNPq Obs.: (1) Os PIB's estaduais foram estimados com base na distribuição percentual calculada pelo IBGE, em 1985. Dentro da série apresentada na tabela 2, percebe-se um gradativo aumento dos investimentos em C&T no Rio Grande do Sul, que evoluíram de US$ 21,111 milhões em 1991, para US$ 57,912 milhões em 1994, representando um incremento de mais de 50% no período. Comparativamente a outras unidades da federação, observa-se que há uma tendência ascendente de investimentos no Rio Grande do Sul, com incrementos anuais crescentes, ao passo que a evolução dos investimentos neste setor em outros Estados apresenta um caráter de descontinuidade, com os montantes ora se elevando, relativamente ao ano anterior, ora decrescendo. Em relação ao PIB estadual, a Tabela 3 nos mostra que o Rio Grande do Sul investe o equivalente a 0,14% do PIB do Estado em C&T. Entretanto, ainda que em termos percentuais esse gasto seja equivalente ao do Estado de São Paulo, torna-se significativamente menor levando-se em consideração os valores absolutos, dado que o Produto Interno Bruto do Estado de São Paulo eqüivale a cerca de cinco vezes o valor do Rio Grande do Sul. 2.1.2. Os principais Programas de C&T As principais ações em C&T, desenvolvidas pelo Governo do Estado, são realizadas pela Secretaria da Ciência e Tecnologia e suas fundações vinculadas. Porém, as linhas de atuação dos investimentos são realizadas em consonância com a competência e áreas de atuação de cada instituição. No âmbito da Secretaria da Ciência e Tecnologia os programas prioritários são: - Programa de Apoio aos Pólos de Modernização Tecnológica As transformações e perspectivas da ordem econômica internacional, a partir do final da década de 80, apontam para uma economia substancialmente nova, com maior grau de abertura, sofisticação e altíssimos níveis de produtividade, onde elementos como o conteúdo tecnológico se sobrepõem ao princípio do gigantismo das plantas industriais. Este processo, em marcha irreversível em todos os países desenvolvidos, com ritmo e intensidade variados, acarreta para os países em desenvolvimento conseqüências como: • redução das vantagens comparativas ditas tradicionais, baseadas na abundância de matérias- Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ • • 14 primas e na disponibilidade de mão-de-obra desqualificada e barata; maiores dificuldades de proteção do mercado interno; maiores dificuldades na exportação de produtos manufaturados. A partir desse novo panorama econômico, o setor produtivo localizado no Rio Grande do Sul, essencialmente formado por atividades agropastoril e industriais ditas tradicionais, passa a enfrentar significativos desafios competitivos. Definida competitividade como a capacidade de desenvolver e sustentar um conjunto de fatores que permitam enfrentar a concorrência em situação vantajosa. O Governo do Estado do Rio Grande do Sul, consciente deste problema, estruturou, através da Secretaria da Ciência e Tecnologia, o Programa de Apoio aos Pólos de Modernização Tecnológica - PAPMT. Concebido em 1989, sua proposta original era a de possibilitar uma maior descentralização do ensino superior nas áreas de ciências naturais e engenharias, através do apoio financeiro à investimentos em infra-estrutura laboratorial nas universidades sediadas no interior do Estado. Ao mesmo tempo, buscava aproximar as universidades e os diversos agentes econômicos localizados na região de atuação das mesmas, visando utilizar esta nova capacitação no apoio a projetos considerados prioritários para o desenvolvimento econômico de cada região. Dessa forma, durante o período 90/93, foram apoiados projetos na parte norte do Estado envolvendo a UNIJUÍ; na Região Sul nas universidades FURG, UCPel e UFPel; e na região do planalto central, na UPF. Por outro lado, a partir de 92, o Governo Estadual dividiu o Estado em 22 regiões, e em cada uma iniciou o apoio a criação de “Conselhos Regionais de Desenvolvimento” (CRDs), cuja proposta era a de descentralizar a discussão da elaboração do orçamento de Governo, agregando projetos de interesse das regiões. Com a criação dos CRDs, no período 92/93, o Programa toma uma nova formatação. Os projetos em andamento são agregados sob o que passa a chamar-se Pólos de Modernização Tecnológica (PMT). As universidades passam a ser responsáveis por estes Pólos, passando a denominarem-se Gestoras dos Pólos. Os CRDs passam a ser os responsáveis pela definição das áreas prioritárias, a serem atendidas pelo Governo, dentro dos Pólos. Com essa nova “feição” foram constituídos 14 PMTs, envolvendo, além das universidades já mencionadas, a UCS, UNISC, UNICRUZ, PUC Campos II, URCAMP, URI e UFSM, e a faculdade UNIVATE. Em 1995, foi realizada uma nova estruturação do Programa, que adota uma sistemática operacional com forte enfoque no desenvolvimento regional. Este enfoque “econômico” possibilitou a priorização do Programa dentro das ações governamentais, e a criação de mais 2 PMTs, passando a totalizar 16 Pólos, distribuídos conforme quadros 1, 2 e 3. O objetivo central do PAPMT passa a ser propiciar o aumento da capacidade de desenvolvimento sócio-econômico das diversas regiões do Estado do Rio Grande do Sul, através do apoio técnico e financeiro a projetos de cunho tecnológico, realizados por IEPs, que visem à modernização e melhoria da competitividade dos diversos agentes econômicos voltados à produção de bens e serviços, prioritariamente agropecuário e industrial, bem como à criação de novos agentes. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 15 Ao mesmo tempo, o Programa de Apoio aos Pólos de Modernização Tecnológica estabelece um modelo institucional, capaz de valorizar a autonomia dos agentes regionais no sentido de buscarem suas próprias trajetórias de desenvolvimento, a partir da interação entre universidades, poder público municipal, governo estadual e setor produtivo. Neste sentido, foram definidas duas grandes instâncias institucionais / organizacionais em nível regional: os Conselhos Regionais de Desenvolvimento e as Unidades Executoras. a) Conselho Regional de Desenvolvimento - CRD O CRD tem por objetivo básico a promoção do desenvolvimento regional, harmônico e sustentável, através da integração dos recursos e das ações de governo na região, visando à melhoria da qualidade de vida da população, à distribuição eqüitativa da riqueza produzida, ao estímulo à permanência do homem em sua região e à preservação e recuperação do meio ambiente. Representam, portanto, a instância de articulação regional para a definição das áreas de abrangência do Pólo, bem como para a priorização dos projetos a serem encaminhados a SCT/RS. Neste contexto, seu papel principal no programa é o de buscar a utilização e integração, quando adequada, de todas as instituições de ensino e pesquisa existentes na região; priorizar, dentre os projetos apresentados pelas Unidades Executoras, aqueles de maior interesse para o desenvolvimento sócio-econômico da região; divulgar, em conjunto com as Unidades Executoras, os projetos em andamento e transferir os resultados alcançados pelos mesmos ao setor produtivo. b) Unidade Executora O gerenciamento dos 16 Pólos é realizado pelas Unidades Executoras - UE, que são instituições de ensino e pesquisa estabelecidas na região, escolhidas e referendadas, pelo CRD, como habilitadas a propor e realizar projetos de interesse regional, no âmbito do Pólo. A unidade executora possui como compromissos e competências: - propor projetos voltados a atender as necessidades de desenvolvimento sócio -econômico da região, em conformidade com as prioridades e diretrizes estabelecidas pelo CRD; dispor de infra-estrutura física e recursos humanos para execução e coordenação dos projetos sob sua responsabilidade; executar os projetos apoiados pelo Estado em conformidade com os convênios firmados; ser instrumento de transferência dos resultados dos projetos apoiados pelo Estado. Em cada unidade executora é nomeado um coordenador responsável pelo gerenciamento operacional das atividades da mesma no âmbito do Pólo. c) Sistemática Operacional Cabe ao CDR: decidir sobre a criação do Pólo de Modernização Tecnológica; definir qual(is) a(s) área(s) da atividade econômica que será(ão) prioritária(s), visando o apoio ao desenvolvimento sócio-econômico da região; e informar qual(is) a(s) instituição(ões) de ensino e pesquisa (pública ou privada, superior ou técnica de grau médio) habilitada(s) a executar projetos no âmbito do Pólo. A formalização do Pólo perante o Governo do Estado, dar-se-á através de Protocolo de Intenções firmado entre este, com a intervenção da Secretaria da Ciência e Tecnologia, o CRD e as diversas Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 16 instituições representativas da região, tais como instituições de ensino e pesquisa, Prefeituras Municipais, associações de classe, entre outras, a critério da região. Após a criação do PMT, o apoio governamental se dá através de projetos definidos como prioritários pelo CRD, encaminhados pela Unidade Executora à SCT. Aprovados os projetos pela SCT, o CRD e a UE são notificados, bem como esta última é informada das recomendações quanto a implantação dos projetos, que devem ser geridos como “unidade de negócio”, com o compromisso de alocar recursos humanos e materiais compatíveis com os mesmos. Também, que os projetos sejam divulgados por toda a UE e que tenham a participação de todo o corpo funcional, através do apoio e compreensão de todas as chefias departamentais e da gerência eficaz de um coordenador dotado de entusiasmo e dinamismo. Quanto à participação financeira do Estado, o apoio é realizado de forma parcial às necessidades demandadas pelos projetos. Em todos os casos, o Estado atua como principal parceiro, exigindo que os demais agentes apresentem como contrapartida, no mínimo 20% do valor total dos projetos. Além disso, o Estado prioriza, quanto ao apoio financeiro, os projetos elaborados de forma cooperativa entre UE de dois ou mais PMTs. TABELA 4 PÓLOS DE MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGICA REGIÕES ABRANGÊNCIA UNID. EXECUTORA ÁREA DE PRIORIDADE Alto Jacuí 18 Municípios UNICRUZ Biotecnologia em Agropecuária Campanha 6 Municípios URCAMP Carboquímica e Agropecuária Centro 28 Municípios UFSM E URI (Santiago) Agropecuária Industrial, Engenharia e Saúde Fronteira Noroeste 18 Municípios UNIJUÍ Metal-Mecânica, Informática e Tecn.Alimentos 9 Municípios PUC - Campus II Piscicultura e Agropecuária Médio-Alto-Uruguai 29 Municípios URI - Frederico Agropecuária, Agroindústria e Mineralogia Missões 22 Municípios URI - Santo Ângelo Engenharia, Energia, Agropecuária e Ecologia Noroeste Colonial 29 Municípios UNIJUÍ Agropecuária, Metal-Mecânica, Informática Norte 25 Municípios URI - Erechim Agropecuária, Alimentos, Energia e Indústria Produção 35 Municípios UPF Alimentos e Metal-Mecânica Serra 31 Municípios UCS Mecatrônica, Agroindústria, Plásticos e Móveis Sul 18 Municípios FURG Pesca Sul 18 Municípios UCPel Modernização Industrial Sul 18 Municípios UFPel Alimentos Vale do Rio Pardo 20 Municípios UNISC Alimentos, Materiais e Meio Ambiente Vale do Taquari 31 Municípios UNIVATES Produção Industrial e Alimentos Fronteira Oeste Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 17 - Programa Gaúcho de Apoio Tecnológico ao Desenvolvimento do Estado O programa foi instituído em 1995, por decreto do Governador do Estado, e incluído no Caderno de Metas Prioritárias do Estado. Neste programa, o objetivo principal tem sido concentrar os investimentos na área de biotecnologia, química e informática, buscando a excelência através de projetos mobilizadores específicos e com forte potencial de impacto na competitividade de setores econômicos gaúchos. A definição das três áreas como prioritárias partiu dos seguintes pressupostos: forte base econômica instalada no Estado, impacto no PIB estadual, efeito multiplicador sobre o conjunto da economia, áreas sensíveis ao Mercosul, e estar em consonância com prioridades a nível nacional. Na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul - FAPERGS, os principais programas são: - Bolsas para formação de recursos humanos: complementar aos dos órgãos federais como CNPq e CAPES, tem como objetivo promover a qualificação de recursos humanos nas diversas áreas do conhecimento. O programa concedeu, nos últimos 7 anos, cerca de 6.000 bolsas de iniciação científica e contribuiu significativamente para que mestres e doutores se engajassem nas universidades e instituições de pesquisa do Estado. - Interação Universidade -Empresa: visa apoiar projetos de pesquisa aplicada em parceria com o setor produtivo. Desde sua implantação, em 1991, foram financiados 200 projetos, com um valor total de R$ 7 milhões de reais, mais a participação do setor empresarial, elevando os recursos para R$ 8,75 milhões de reais. - Recuperação dos centros de pesquisa da administração estadual: iniciou em 1991 e, até julho de 1997, foram alocados R$ 7 milhões de reais para 80 projetos provenientes dos mais diversos centros de pesquisa do Estado. Além dos programas acima, a FAPERGS passou, a partir de 1992, a lançar editais específicos em áreas estabelecidas como prioritárias pelo Governo do Estado. Esta forma de atuação foi pioneira em termos de FAPs e, para os anos de 1996 e 1997, as áreas prioritárias para financiamento foram: biotecnologia, química, informática e materiais. Na Fundação de Ciência e Tecnologia - CIENTEC, os laboratórios de pesquisa e desenvolvimento atuam nas seguintes áreas: alimentos, construção civil, eletro-eletrônica, metal-mecânica, processos industriais, recursos minerais e química industrial. Em todas as áreas de atuação, a CIENTEC realiza projetos de pesquisa em conjunto com o setor privado e, além disso, atividades de prestação de serviços e desenvolvimento de produtos e processos industriais. A CIENTEC tem voltado seus esforços, a partir de 1992, dentre as inúmeras atividades que realiza, no sentido da melhoria dos seus serviços, buscando o credenciamento de seus laboratórios junto ao INMETRO como, por exemplo, com a Rede Brasileira de Calibração e Rede Brasileira de Laboratórios e Ensaios. A Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária - FEPAGRO, possui como objetivo básico a Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 18 transferência de tecnologia, e realiza suas atividades através de 17 estações de pesquisa experimental localizadas em regiões estratégicas do Estado. As principais linhas de pesquisa são: melhoramento genético vegetal em grãos; recursos naturais renováveis; olerículas, raízes e tubérculos; plantas ornamentais, medicinais, aromáticas e condimentares; e programa de sanidade animal. Os programas de pesquisa e transferência de tecnologia realizados pela FEPAGRO envolvem a parceria de várias instituições públicas, privadas, cooperativas e ONG’s, das quais destacam-se: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA, Fundação de Experimentação e Pesquisa - FECOTRIGO, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Universidade de Caxias do Sul - UCS, Associação de Produtores Rurais, Prefeituras Municipais, Cooperativas e EMATER/ RS. 2.2 Outras Instituições Públicas Além da atuação direta da Secretaria da Ciência e Tecnologia e suas Fundações vinculadas, no Rio Grande do Sul existem outras ações relevantes em C&T, tais como as incubadoras de empresas tecnológicas. Segundo o SEBRAE-RS (1997), existem 06 incubadoras instaladas no Estado, onde encontram-se incubadas cerca de 30 empresas. Dentre as incubadoras existentes destacam-se: - Incubadora Empresarial Tecnológica - IETEC/Porto Alegre : tendo sido criada no final dos anos oitenta pela Prefeitura de Porto Alegre, a IETEC, até o ano de 1997, incubou 12 empresas de base tecnológica, envolvendo 27 empresários gaúchos. A taxa de mortalidade das empresas situase abaixo dos 20%, assegurando à IETEC ser uma das cinco principais incubadoras brasileiras. A IETEC atua nas áreas de informática/software, eletrônica e mecânica. As empresas instaladas nesta incubadora permanecem por um prazo máximo de 36 meses, no decorrer do qual recebem apoio técnico necessário ao desenvolvimento de produtos e processos. - Incubadora Tecnológica Alfredo Fockink - ITAF/ Panambi: a incubadora foi criada no final de 1995, através de iniciativa da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUÍ, Prefeitura Municipal, Associação Comercial e Industrial e Colégio Evangélico, todos de Panambi, SEBRAE e SENAI. Até meados de 1997, a incubadora tecnológica já possuía cinco empresas incubadas e sua principal linha de atuação está direcionada para as áreas de metalmecânica, software e eletrônica. A ITAF, através das instituições fundadoras mencionadas, dispõe, para as empresas incubadas, uma infra-estrutura, que abrange laboratórios de cae/cad/cam, metrologia, metalografia e análise químicas. Quanto ao período de incubação, a ITAF determina um prazo de 36 meses. - Incubadora Empresarial - Passo Fundo: a ni cubadora começou suas atividades em 1995, através da iniciativa da Escola Cecy Leite Costa e da Universidade de Passo Fundo. Até meados de 1997, a incubadora possuía uma empresa incubada, envolvendo no empreendimento cerca de 20 pessoas. A empresa incubada atua no segmento de microprocessadores com ênfase em engenharia biomédica. Segundo o SEBRAE/RS (1997), existem mais quatro empreendimentos empresariais em fase de tratativas para encubação. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 19 - Incubadora Empresarial Tecnológica de Canoas: a incubadora foi criada, no final de 1995, pelo Centro Educacional La Salle de Ensino Superior – CELES, instituição de ensino de caráter privado e sem fins lucrativos. As áreas de atuação das empresas a serem incubadas devem ser informática/software e eletrônica. A infra-estrutura disponível contempla laboratórios de informática, biblioteca, apoio em marketing e orientação empresarial. 2.3. Ensino Superior O Rio Grande do Sul dispõe de uma rede de ensino superior formada por 15 universidades e 23 faculdades independentes. Segundo dados fornecidos pela SCT/RS, com base nas estatísticas relativas ao ano de 1996, as 15 universidades possuíam cerca de 152.000 estudantes. Deste total, 93% dos estudantes eram alunos de graduação. O restante cursavam uma das três variantes dos cursos de pós-graduação disponível (especialização, mestrado e doutorado). Nas 23 faculdades menores, sem “status” de universidade, mas que também fazem parte do setor de ensino de terceiro grau, encontravam-se matriculados 17.000 estudantes. De acordo com o tipo de entidade mantenedora, as 15 universidades podem ser classificadas em três segmentos: federais, confessionais e regionais (comunitárias). QUADRO 1 Universidades Federais Nome Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Fundação Universidade do Rio Grande (FURG) Localização Porto Alegre Santa Maria Pelotas Rio Grande Status desde 1934/1950 1960 1969 1969 Estudantes 19.600 10.800 6.600 4.400 Status desde 1948 1969 1988 1960 Estudantes 22.000 22.400 14.000 6.300 Status desde 1967 1968 1985 1992 1989 1993 1993 Estudantes 13.000 8.600 7.000 5.700 5.300 3.600 2.300 QUADRO 2 Universidades Confessionais Nome Pontifícia Universidade Católica RS – PUC Universidade Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS Universidade Luterana do Brasil – ULBRA Universidade Católica de Pelotas – UCPel Localização Porto Alegre São Leopoldo Canoas Pelotas QUADRO 3 Universidades Regionais (“Comunitárias”) Nome Universidade de Caxias do Sul – UCS Universidade de Passo Fundo – UPF Universidade Regional do Noroeste Colonial – UNIJUÍ Universidade Reg. Integ. Alto Uruguai e Missões - FURI Universidade da Região da Campanha - URCAMP Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC Universidade de Cruz Alta - UNICRUZ Localização Caxias do Sul Passo Fundo Ijuí Erechim Bagé Santa Cruz do Sul Cruz Alta Pelas tabelas classificatórias, destaca-se que a “interiorização” do ensino de 3 o grau no Rio Grande do Sul é relativamente recente, havendo até a primeira metade da década de 80, uma forte Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 20 concentração de IES na região metropolitana de Porto Alegre e municípios vizinhos. Exceções ocorrem em municípios com forte ligação econômica com Porto Alegre, como Pelotas, Santa Maria e Caxias do Sul. Contudo, mesmo com o processo de interiorização iniciado na segunda metade da década de 80, a grande região metropolitana de Porto Alegre mantém a concentração de cerca de 52% do número de estudantes. Considerando-se os três municípios acima mencionados, essa concentração aumenta para cerca de 78% do total. Do mesmo modo, não modificou a concentração dos cursos técnicos, pois essas novas universidades, por motivos econômicos (custo de implantação de um curso), concentraram sua oferta de ensino em cursos no campo das ciências econômicas, sociais e humanas, enquanto que as ciências naturais e engenharias continuam concentradas na região metropolitana de Porto Alegre. 2.4. Ensino Técnico de 1º e 2º Graus A reforma do ensino brasileiro, no início da década de 70, acabou se mostrando, ao longo destas quase três décadas decorridas, inadequada no tocante ao ensino técnico de 1o e 2o graus. Até então havia uma clara distinção entre as escolas “tradicionais” e as técnicas, onde estas últimas atuavam com um forte vetor profissionalizante. A reforma acabou descaracterizando as diferenças fundamentais entre os dois tipos de escolas, fazendo com que elas fossem tratadas e administradas de forma idênticas. Tal fato gerou um déficit na oferta de profissionais da educação capacitados a atuarem na formação técnica de grau médio. A situação atual do ensino público técnico no Rio Grande do Sul está assim constituído: • Escolas Estaduais do Setor Primário (Agrícola) 1o grau - 8 escolas 1o e 2o graus - 13 escolas Centros Rurais de Ensino Supletivo - 5 escolas • Escolas Estaduais do Setor Secundário (Industriais) 2o grau - 20 escolas • Escolas Estaduais do Setor Terciário (Comerciais e de Serviços) 2o grau - 100 escolas Há uma forte preocupação do Governo do Estado, no que concerne a situação do Ensino Técnico no Rio Grande do Sul, quanto à necessidade de formação de profissionais da educação, frente às mudanças que se processam no mercado de trabalho, decorrentes da abertura econômica brasileira e da necessidade de elevação da competitividade das empresas brasileiras. 2.5. Setor Financeiro A inclusão do Setor Financeiro, dentro deste item descritivo da infra-estrutura de C&T do Rio Grande do Sul, é motivada pelo entendimento da importância de adequado suporte financeiro para a consecução do processo inovativo numa economia moderna. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 21 No Rio Grande do Sul, como nos demais estados brasileiros, as linhas de crédito voltadas ao apoio à inovação (em seu sentido mais amplo) são todas do Governo Federal, onde se destacam as linhas de crédito da Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP e do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES. Estas linhas de crédito são operacionalizadas por três tipos de instituições financeiras: bancos de desenvolvimento, bancos mistos e bancos de investimento. Dentro do primeiro grupo, o Rio Grande do Sul não possui nenhuma agência estadual, o banco que atua no Estado é o Banco Regional de Desenvolvimento Econômico - BRDE, que pertence aos três Estados do sul do país. No segundo grupo, existe o Banco do Estado do Rio Grande do Sul - Banrisul, que dispõe de um departamento de investimentos. Finalmente, no terceiro grupo, existem diversos bancos que atuam nacionalmente, como ITAÚ, BRADESCO, UNIBANCO, entre outros. Dois aspectos merecem destaque frente às estruturas de crédito e de instituições. Primeiro, como as linhas de crédito são federais, elas são desenvolvidas de forma a atender a diversidade e complexidade dos estados brasileiros. Por conseguinte, existe uma lacuna no tocante à disponibilidade de crédito para atender especificidades econômicas regionais. Em segundo lugar, as instituições que operacionalizam essas linhas não possuem uma cultura de parceria, mesmo no caso dos bancos de desenvolvimento. Isto faz com que estas instituições tratem as operações financeiras como uma simples operação comercial, buscando a minimização do risco da operação, exigindo elevada capacidade de pagamento e a existência de garantias reais, o que limita o público alvo, principalmente quanto à possibilidade de acesso das pequenas e médias empresas, ou das empresas de base tecnológica. Esta cultura faz, também, com que não exista um interesse no desenvolvimento de linhas de crédito com recursos próprios, que poderiam atender particularidades regionais. Fora o crédito bancário, existem recursos financeiros públicos a custo zero para o fomento científico e tecnológico. Os recursos do Estado do Rio Grande do Sul são operacionalizados pela FAPERGS, já mencionada anteriormente. A questão com este tipo de recurso, é que ele é basicamente direcionado à pesquisa científica, não atendendo projetos de caráter tecnológico. Além disto, por serem de origem governamental, sofrem severas restrições quanto ao atendimento de pleitos envolvendo o setor produtivo privado. Ao finalizar esta seção, cabe destacar que a discussão apresentada procurou oferecer um panorama geral sobre o sistema gaúcho de inovação a partir dos principais elementos que compõem a infraestrutura de C&T do Estado e com uma clara ênfase sobre investimentos e programas que vêm sendo desenvolvidos no âmbito do governo estadual. Existem, evidentemente, outros elementos igualmente importantes na constituição do sistema de inovação no Estado, seja no âmbito do setor privado ou em outras instâncias do poder público, e que, entretanto, não foram contemplados nesta análise, dadas as limitações de tempo e espaço. Por outro lado, considera-se que numa etapa posterior do trabalho, a introdução desses novos elementos contribuirá para composição de uma visão mais ampla do sistema gaúcho de inovação, que contemple a contribuição dos diferentes atores regionais. 3. Análise de Arranjos Locais Selecionados Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 22 Esta seção apresenta, inicialmente, uma discussão crítica do impacto da ação governamental na constituição de novas configurações institucionais e organizacionais, os Pólos de Modernização Tecnológica, com vistas à descentralização de políticas inovativas e à construção de novos vínculos de cooperação entre setor produtivo e instituições de ensino e pesquisa, num contexto regional. Em seguida, alinhava uma análise de dois arranjos produtivos locais no Estado do Rio Grande do Sul, procurando contemplar alguns aspectos relacionados aos diferentes padrões de dinamismo industrial e tecnológico. São eles o setor gaúcho de autopeças e o setor coureiro-calçadista. 3.1. Programa de Apoio aos Pólos de Modernização Tecnológica Diante das limitações que apresenta o sistema gaúcho de inovação, no sentido de criar e adequar novas configurações institucionais, o Programa de apoio aos Pólos de Modernização Tecnológica parece representar uma iniciativa relevante do poder público estadual, no sentido de descentralizar as ações e programas em C&T através da criação e valorização de agentes e instituições regionais no processo de capacitação tecnológica do setor produtivo. Nesses quase sete anos de existência, o Programa apresenta uma “contabilidade” positiva sob o aspecto operacional. Nessa proposta, três grupos de atores institucionais são pedra basilar no processo: os Conselhos Regionais de Desenvolvimento - CRD, as Instituições de Ensino e Pesquisa - IEP e o Setor Produtivo - SP. Os Conselhos Regionais de Desenvolvimento, como mencionado anteriormente, foram criados a partir de 1993 pelo Governo do Estado, com o intuito político de possibilitar um espaço institucional às diversas regiões participarem da elaboração orçamentária do Governo2. Mas somente em 1994, através da Lei no 10.283, de 17.10.94, os mesmos foram legalmente oficializados, tendo sua função ampliada, passando a ter por objetivo institucional “... a promoção do desenvolvimento regional, harmônico e sustentável, através da integração dos recursos e das ações de governo na região, visando à melhoria da qualidade de vida da população, à distribuição eqüitativa da riqueza produzida, ao estímulo à permanência do homem em sua região e à preservação e recuperação do meio ambiente”. Não obstante a sua legalização, a Lei deixou propositadamente aberto para os próprios CRDs definirem sua constituição e regimento interno, sem a exigência da implantação de uma estrutura operacional mínima. O que levou os mesmos a adotarem um formato muito semelhante, tendo como membros prefeitos municipais, reitores ou diretores de IEPs e lideranças empresariais, sem que houvesse a implantação de uma estrutura operacional mínima. Essa falta de uma estrutura operacional mínima tem restringido os CRDs a atenderem seu objetivo institucional, acima mencionado. Função esta que é central para que o programa de apoio aos pólos cumpra seu objetivo central de alavancar o desenvolvimento regional, a partir de projetos de crescimento econômico estabelecidos pelas próprias regiões. Tal deficiência, tende a ser minimizada quando as regiões dispõem de uma instituição de ensino superior e, principalmente, como ocorre com freqüência, quando o reitor é o presidente do CRD. Nessas situações, as próprias instituições de ensino disponibilizam a infra-estrutura para funcionamento dos CRDs, além de, via a atividade acadêmica de seus departamentos, poderem dispor de informações sobre a economia regional. 2 Os critérios utilizados para a determinação dessas regiões foram políticos, o que até hoje dificulta um pouco o entendido no tocante a lógica dos limites geográficos. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 23 Contudo, independente da estrutura operacional existente, os CRDs ainda não conseguiram implementar suas atividades de forma a ter uma efetiva participação da sociedade regional, em todos os seus níveis organizados, no processo de discussão e definição dos respectivos projetos de desenvolvimento sócio-econômico, que leve ao estabelecimento de demandas científicas e/ou tecnológicas para consecução destes projetos. Em parte, isso é devido à própria origem dos CRDs - participação na discussão da proposta orçamentária do governo. Assim, o “mote” de suas discussões internas continua sendo a questão do tamanho da “fatia do bolo orçamentário do Estado” que conseguirá abocanhar. Portanto, o programa dos pólos passa a ser considerado, em grande parte, como uma alternativa de “carimbar” valores no orçamento do Estado. Duas são as implicações importantes, no aspecto operacional do programa de pólos, conseqüentes desse contexto institucional dos CRDs. Em primeiro lugar, verifica-se que só surgiram Pólos de Modernização Tecnológica em regiões que dispõem de universidades. As regiões que não dispunham de instituições acadêmicas, não conseguiram desenvolver um trabalho envolvendo sua sociedade organizada, de forma a definir um programa de crescimento econômico, bem como atrair instituições de ensino e pesquisa de outras regiões que se propusessem a ser parceiras na execução desse projeto de desenvolvimento. Em segundo lugar, nas regiões que dispõem instituições de ensino e pesquisa, os pólos foram dominados por aquelas instituições, adotando um enfoque na linha do “modelo linear”, com os CRDs cumprindo um papel muito mais de chancelador dos projetos apresentados pelas IEPs, do que de gestor do pólo no sentido mais amplo desta função. Por conseqüência, perde-se grande parte da proposta do programa, que é de atuação sistêmica na região, ficando o lado da demanda (setor produtivo) significativamente alijada do processo de discussão e definição dos projetos a serem implementados. O segundo grupo de atores principais na proposta do Programa são as instituições de ensino e pesquisa. Relembrando o exposto na Seção 2, a idéia do Programa é a de utilizar instituições regionais que detenham uma capacitação mínima prévia para elaborar e desenvolver projetos de cunho tecnológico e que atendam necessidades regionais dentro de uma proposta de desenvolvimento sócio-econômico das regiões. Esta é uma das razões do porquê só surgiram pólos nas regiões que dispunham de uma IES. Entretanto, esta “pseudo regra” gerou uma disfunção entre a proposta do Programa, que é a de alavancar o desenvolvimento regional, ou no mínimo o “ritmo” deste desenvolvimento, e o que na realidade tem sido realizado, que está muito mais na linha de estruturação física (prédios e equipamentos) das IES. É que ao ser definida como a gestora de um pólo, cada IES se tornou de fato a única instituição executora de projetos do “seu” pólo. Isto somado às deficiências operacionais dos CRDs, tem permitido o predomínio dos interesses da estrutura acadêmica (oferta do conhecimento), ao invés dos interesses da sociedade (demanda por conhecimentos), quando da elaboração dos projetos. É claro que o fato das IES serem as gestoras dos pólos têm seus aspectos positivos, entre os quais se destaca o das mesmas terem garantido a continuidade operacional dos pólos em momentos de ausência do apoio financeiro do Estado. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 24 Outro ponto fraco, no tocante as IES, no Programa de Pólos, é que as mesmas, como um todo institucional, desconhecem o Programa, bem como as possibilidades de envolvimento dos seus diversos departamentos ou institutos no mesmo. Em outras palavras, ao assumir a gestão dos pólos, as universidades internalizaram o “pólo” em sua estrutura acadêmica como se fosse mais um departamento ou instituto, ou mais, às vezes colocando as ações do pólo dentro de um estrutura já existente (Departamento de Engenharia, Faculdade de Veterinária ou Faculdade de Agronomia, por exemplo). A implicação disto é que as atividades “ligadas” ao pólo passam a sofrer dificuldades, como falta de autonomia decisória e operacional, de recursos humanos em número, qualidade e disponibilidade de tempo para a realização dos projetos apoiados, todas inerentes a atividade de extensão, que ainda hoje sofre um processo de discussão e entendimento dentro das próprias universidades. Por fim, as universidades também vêem o Programa de Apoio aos Pólos, muito mais como uma fonte alternativa de recursos financeiros, do que um programa de desenvolvimento sócio-econômico regional, onde elas são partícipes centrais. E mais, não vêem também como um programa da região, onde o Estado é um dos parceiros, mas sim como um “Programa de Estado”, onde ele é o responsável por atender todas as necessidades e solucionar constrangimentos operacionais. Pelo exposto até agora, já é possível depreender-se que o Programa de Apoio aos Pólos ainda está relativamente distante deste setor produtivo, que constitui-se, justamente, no ator mais importante do processo, dado que são as empresas o principal locus de inovação no sistema. No tocante à discussão de propostas de desenvolvimento regional que ocorrem nos CRDs, embora haja a participação de lideranças empresariais, estas, historicamente, ou estão distantes das empresas que são de pequeno ou médio porte, ou representam seus próprios interesses. Já um segundo tipo de problema se reflete na própria interação do setor produtivo com as universidades, uma vez que não participando da discussão acima mencionada, os empresários desconhecem os projetos em andamento, mesmo que estes tenham o objetivo de atender suas necessidades. Soma-se a isto, o perfil dominante dos empreendedores brasileiros, que independente do setor em que atuam (primário, secundário ou terciário), possuem uma cultura essencialmente voltada a capacitação produtiva e não tecnológica. Levando-os a ver as universidades não como potenciais parceiras da suas capacidades internas, mas como instituições incapazes de entender suas necessidades, ou de atendê-los em “timing” adequado à operação de seus negócios. 3.2. Experiências Setoriais I: Setor de Autopeças Com a instalação da nova montadora da GM no Estado, diversos questionamentos são levantados em relação ao impacto dos novos investimentos da indústria automobilística sobre o perfil do setor de autopeças no Rio Grande do Sul. É importante ressaltar que a localização de novas montadoras no Rio Grande do Sul, mais do que o resultado de uma vitória na guerra fiscal que vem sendo promovida pelos diferentes Estados no país, insere-se numa estratégia mais ampla das grandes empresas do setor automobilístico: "A luta nos mercados emergentes vai ser um enorme desafio para cada uma das grandes empresas mundiais e, portanto, o que elas conseguirem no Brasil e na América do Sul será muito importante na batalha global da Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 25 indústria automobilística. O Brasil, em particular, é central não apenas pelo nível de demanda já atingido, mas também pela possibilidade de se tornar um destacado centro de projeto e produção para o Terceiro Mundo e mesmo para os países desenvolvidos, em alguns segmentos específicos." (FERRO, 1994) Neste sentido, a proximidade do Estado com os países do Mercosul constitui-se num dos elementos chaves da estratégia da GM tanto no que se refere ao mercado consumidor como em relação às suas fontes de fornecimento. Conforme declarações da empresa, a proximidade com a Argentina, por exemplo, favorecerá tanto o trânsito de automóveis prontos como o intercâmbio de peças e componentes com as outras plantas do grupo, instaladas nas províncias de Rosário e Córdoba. A montadora da GM deverá começar a produzir a partir do final de 1999 e conta com uma previsão inicial de produção de cerca de 120 mil veículos de pequeno porte por ano. A empresa deverá operar com cerca de 15 fornecedores de primeiro nível ou sistemistas, que fornecerão diferentes conjuntos e componentes já prontos para montagem e cuja seleção será feita mediante uma concorrência internacional que habilitará as empresas selecionadas a fornecerem os conjuntos e subsistemas para o novo Corsa em todos os países em que a GM produzir este modelo. Além de operar com este conceito de 'global-sourcing', a empresa pretende atrair os seus fornecedores mundiais para perto de suas instalações, seguindo as estratégias de competitividade que vêm sendo adotadas pela indústria automobilística mundial. Por um lado, a instalação de novas montadoras no Estado implica num aumento considerável do mercado para o setor de autopeças, tendo em vista que os fornecedores de primeiro nível passam a demandar peças e componentes menores para montagem dos sistemas que serão fornecidos à montadora. Por outro lado, a inserção nesta pirâmide de fornecedores, dependerá da capacitação competitiva das empresas, principalmente no que se refere ao estabelecimento de redes de subcontratação e de cooperação tecnológica. A indústria de autopeças no Rio Grande do Sul apresenta determinadas especificidades que se refletem tanto no tipo de inserção das empresas no mercado, como no perfil de interação das mesmas com seus fornecedores e clientes. Ao todo, o setor agrega cerca de 120 empresas dedicadas à fabricação de peças e componentes para diferentes tipos de veículos, onde se incluem, além dos automóveis, ônibus, caminhões e implementos agrícolas. Entre as idiossincrasias que este setor apresenta no Estado, cabe destacar, em primeiro lugar, a importância do segmento de máquinas e implementos agrícolas. O peso deste segmento na produção industrial do Estado, levou à especialização no tipo de peças e componentes produzidos por muitas das empresas do setor de autopeças. Para que se tenha noção da importância do parque industrial de máquinas e implementos agrícolas, basta dizer que o Rio Grande do Sul é responsável por cerca de 50% da fabricação nacional de tratores de pequeno e médio porte e de 65% da produção de colheitadeiras automotrizes. Por outro lado, desde 1995, este segmento vem passando por uma crise conjuntural que tem suas raízes em fatores como o aumento de restrições ao crédito agrícola, o elevado grau de endividamento dos produtores rurais e a abertura econômica do país, permitindo a importação de máquinas agrícolas. Assim, em 1996, o segmento de máquinas e implementos agrícolas apresentou o seu pior desempenho desde 1970, com um elevado nível de Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 26 ociosidade e a venda de equipamentos estagnada. Em segundo lugar, o fato das empresas gaúchas de autopeças estarem fisicamente distantes das principais montadoras do país, instaladas na Região Sudeste, tem sido fator de desvantagem competitiva para as mesmas, dificultando, em parte, a sua inserção enquanto fornecedoras de primeira linha (direto às montadoras). Além disso, diante da retração na produção de veículos que se verificou ao longo da década de 80, o setor de autopeças no Estado passou, gradativamente, a reduzir a participação percentual no faturamento oriundo do mercado das montadoras. Ao mesmo tempo, ampliou a sua participação percentual no faturamento oriundo dos mercados de reposição e de exportação. (FEE, 1996) A tabela 5 mostra a mudança na participação de cada mercado no faturamento do setor de autopeças, entre os anos de 1985 e 1993, para o Rio Grande do Sul e para o Brasil: Tabela 5 Distribuição Percentual do Faturamento no setor de autopeças Brasil e Rio Grande do Sul - 1985/1993 -% 1985 1985 1993 1993 MERCADOS BRASIL RS BRASIL RS Montadoras 60,3 34,91 61,6 30,33 Reposição 22,5 43,79 17,5 44,93 Exportação 12,7 4,12 15,7 11,88 Outras autopeças 4,5 17,17 5,2 12,85 FONTE: Elaborada a partir de dados da Sindipeças e Calandro (1996) Conforme pode ser verificado pela tabela 5, o mercado de reposição responde por quase 45% do faturamento do setor de autopeças no Estado, um percentual muito superior, portanto, à participação que este mercado representa para o setor em nível nacional. Quanto ao mercado de exportação, sua participação percentual no faturamento do setor de autopeças gaúcho mais do que dobrou entre 1985 e 1993. Tal evolução é explicada, principalmente, pelo aumento nas exportações para os países do Mercosul, onde a Argentina se destaca como um dos maiores importadores. Em terceiro lugar, o setor gaúcho de autopeças é caracterizado pelo predomínio de empresas de pequeno e médio porte, que apresentam defasagens tecnológicas tanto nos produtos como nos processos produtivos e, por conseqüência, atuam principalmente no mercado de reposição. Na medida em que vendem sua produção neste mercado, grande parte dessas empresas tem logrado escapar das pressões que vêm sendo impostas pela reestruturação da indústria automobilística, e conseguem manter um nível menor de especialização e maior liberdade na fixação de preços. Entretanto, apesar da predominância de empresas de pequeno e médio porte, o setor apresenta empresas de maior porte, com uma estrutura produtiva qualificada em relação aos produtos fabricados e ao nível de capacitação tecnológica. Desse modo, verifica-se que a natureza das relações que as empresas do setor guardam entre si, com seus fornecedores e clientes, e com os demais atores regionais do sistema de inovação, é marcada pela dicotomia entre um pequeno grupo de empresas que detém um maior nível de capacitação tecnológica e um grande número de empresas tecnologicamente defasadas. Por um lado, o grupo de empresas que se encontra num patamar de capacitação tecnológica mais elevado atua na produção de componentes centrais como, por exemplo, motores, sistemas de freio ou Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 27 transmissão. Estas empresas, na sua maior parte, vêm passando por um processo de reestruturação competitiva desde o início da década e encontram-se adaptadas às novas configurações estratégicas do setor. Por outro lado, existe um grande número de empresas que se encontram dedicadas à produção de componentes mais simples - como peças plásticas e de borracha, pequenas peças metálicas - com menor conteúdo tecnológico. Essas empresas deverão enfrentar um cenário desfavorável no futuro, caso não consigam adequar sua estrutura produtiva às novas tendências que vêm sendo impostas com a abertura comercial e com novo padrão de concorrência baseado na redução de custos, automação, formação de parcerias, desverticalização da produção, etc. (RS 2010,1997) O perfil competitivo do setor de autopeças no Rio Grande do Sul foi analisado, recentemente, no escopo do projeto sobre a competitividade da indústria gaúcha (RS2010, 1997 e Calandro, 1996). Ainda que este estudo esteja focalizado sobre a análise dos fatores de competitividade internos às empresas, permite destacar alguns elementos relacionados às formas de interação entre as empresas do setor com seus fornecedores e clientes, bem como alguns dos fluxos de informação que são relevantes no processo de capacitação tecnológica das empresas. Apesar da desverticalização da produção e da formação de redes de subcontratação constituir-se num fenômeno generalizado na indústria automobilística mundial, verifica-se que no processo de reestruturação produtiva do setor gaúcho de autopeças, esta não se constitui numa tendência predominante. No segmento de máquinas e implementos agrícolas, onde o Estado conta com algumas dos principais fabricantes de tratores e colheitadeiras - como a Iochpe-Maxion, Agrale, SLC e Semeato - as relações estabelecidas com fornecedores do setor de autopeças constituem um universo bastante heterogêneo. Existem fornecedores com os quais são mantidas relações de cooperação reais, mediante o apoio na compra de ferramental e desenvolvimento tecnológico conjunto, através da subcontratação de peças e componentes. Entretanto, muitos dos itens mais representativos dos equipamentos agrícolas, como motores, sistemas de transmissão, peças fundidas, etc., ainda são fornecidos por divisões internas das próprias empresas ou são oriundos de fornecedores de fora do Estado ou do exterior, dentro da concepção de global-sourcing que encontra-se difundida neste segmento desde o início da década (Vargas, 1994). Ao expandirmos esse tipo de análise para o universo do setor gaúcho de autopeças, verifica-se que, mesmo muitas das empresas, que vêm fornecendo sistemas e componentes para as montadoras, ainda apresentam um processo de produção verticalizado, enquanto que apenas um pequeno número de empresas pretende estender sua rede de fornecedores (Calandro, 1996). No âmbito das iniciativas dos agentes e instituições privadas, ainda que não exista um programa destinado exclusivamente ao setor de autopeças, pode-se destacar a ação do Sebrae-RS na promoção de uma feira internacional de subcontratação. O Mercopar 3, que vem sendo realizado desde o início da década de 90, visa fundamentalmente a aproximação entre pequenas e grandes empresas para constituição de parcerias através de uma bolsa de subcontratação. Ainda que seja destinada a uma gama variada de setores - como metal-mecânica, plásticos, borracha, eletroeletrônico, móveis, transporte e serviços - logra atingir diversas empresas vinculadas a cadeia produtiva do setor de autopeças. 3 Feira de Subcontratação que abrange os países do Mercosul. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 28 As pesquisas, que são desenvolvidas dentro das próprias empresas, ainda constituem a principal fonte de capacitação tecnológica do setor de autopeças no Estado. Entre as outras formas que foram citadas, encontram-se as visitas realizadas à outras empresas no país, participação em atividades promovidas por associações de classe, feiras e congressos ou a leitura de revistas especializadas. Por outro lado, e sintomaticamente, uma importância reduzida é atribuída aos vínculos com universidades e centros de pesquisa, demonstrando a necessidade de criação de mecanismos institucionais que sejam capazes de ampliar a participação da pesquisa acadêmica aplicada enquanto instrumento de capacitação tecnológica para as empresas do setor. Com relação aos fluxos de informações e de conhecimentos que são estabelecidos com os fornecedores, verifica-se que eles se encontram focalizados principalmente sobre o intercâmbio de informações tecnológicas. Entretanto, formas de interação no âmbito da assistência e cooperação tecnológica, que atestam um grau elevado de cooperação e proximidade entre as empresas e seus fornecedores, não consistem numa prática difundida no setor. Ao contrário do que ocorre no complexo calçadista, que será analisado no próximo item, o setor de autopeças gaúcho não apresenta um conjunto de instituições, cujo surgimento e evolução possa ser explicado a partir das especificidades locais. Em primeiro lugar, cabe considerar que, apesar deste setor encontrar-se distribuído ao longo de um eixo industria l situado entre Porto Alegre e Caxias, não apresenta determinadas características que se encontram presentes na experiência do arranjo produtivo no Vale do Sinos. Dentre estas características, ausentes no setor de autopeças, destacam-se a existência de identidades sócio-culturais e a existência de organizações de apoio que atendam às necessidades comuns das empresas que participam deste tipo de arranjo. Existe um elevado grau de heterogeneidade em relação ao conjunto de produtos fabricados e processos produtivos utilizados pelas empresas do setor. Dada esta diversidade em relação ao tipo de base tecnológica utilizada, por exemplo, torna-se difícil a constituição de um conjunto de organizações que possam atender a um conjunto de demandas tecnológicas que seja comum ao setor. Por outro lado, conforme foi colocado anteriormente com relação às estratégias de comercialização, iniciativas como a criação da Mercopar, por iniciativa do SEBRAE-RS, têm servido como uma forma de apoio importante para uma parte considerável das empresas do setor que encontram-se vinculadas à setores como metal- mecânica, plásticos, borrachas e eletroeletrônico. 3.3. Experiências Setoriais II: Setor Coureiro-Calçadista Foi a partir de inovações realizadas em outros países, com a introdução da máquinas de costura e para fazer o cabedal do calçado que teve início o primeiro ciclo de evolução tecnológica na Indústria de calçados no Brasil, que perdurou do final do século passado, em torno de 1860, até o início deste século, por volta de 1920. Este período, no Brasil, foi favorecido pela existência de um vasto mercado interno, anteriormente atendido pelas importações, que foi colocado a disposição das empresas brasileiras, por um política governamental de protecionismo às empresas nacionais. Neste período, o país dispunha de condições favoráveis para substituir rapidamente as importações. Havia uma oferta abundante de couro, graças a seu rebanho bovino. Além disso, chegaram numerosos imigrantes que traziam conhecimentos requeridos por essa indústria. Após esse período, segue um outro de estagnação tecnológica, onde a adoção de novas máquinas e Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 29 técnicas de administração estaciona. Os produtos também deixam de acompanhar a evolução do mercado internacional. Esse período cobre os anos que vão desde 1920 até a década de 60. O fato mais significativo nesses anos foi um deslocamento da produção de calçados, principalmente do Estado do Rio de Janeiro, para os de São Paulo e Rio Grande do Sul. Especificamente com relação ao Rio Grande do Sul, as empresas ligadas ao setor foram aos poucos concentrando suas instalações nos municípios que compõem o Vale do Rio dos Sinos, dentre os quais destacam-se: Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Sapiranga, Parobé e Taquara. Em resumo, conforme apontado, no início da década de 60, o nível tecnológico da indústria calçadista no Brasil era conseqüência de um longo período de estagnação tecnológica que teve seu início na década de 20. Os produtos fabricados eram modelos que estavam sendo abandonados pela indústria a nível internacional. O processo produtivo apresentava baixo índice de mecanização e os equipamentos em uso eram desatualizados em relação aos que eram usados internacionalmente. Mas no final da década de 60, o setor de calçados retoma seu dinamismo, que se acelera principalmente em função da exportação. De fato esse dinamismo já se manifesta no início da década. O setor estabelece suas primeiras feiras, a FENAC, em Novo Hamburgo/RS, a partir de 1963 e a FRANCAL, em Franca/SP, a partir de 1968. Ainda, em 1966, já apareciam os primeiros fornecedores de máquinas do exterior, e os primeiros importadores de calçados. No Rio Grande do Sul, a mudança significativa ocorre a partir de 1969, quando a inserção da indústria gaúcha no mercado internacional é promovida tanto pela expansão do mercado importador dos Estados Unidos, como pela situação receptiva dos produtores locais, que se organizam coletivamente para atender os volumes dos pedidos. No período de 1973 a 1984, o setor industrial calçadista gaúcho apresenta sua maior fase de crescimento. De fato, o volume exportado, que em 1973 era de 70 milhões de dólares, no ano de 1984 aumenta para 773 milhões de dólares. Dentre os fatores que impulsionaram o crescimento do setor junto ao mercado externo de 1973 a 1984, não foi um melhor nível tecnológico, mas sim os instrumentos de incentivo fiscal criados pelo Governo como, por exemplo, isenção de IPI (imposto sobre produtos industrializados) e imunidade de ICM (imposto sobre circulação de mercadorias) - que foram determinantes para consolidar o setor e aumentar a competitividade no mercado internacional. A indústria de calçados do Estado do Rio Grande do Sul passa a ter papel importante no contexto da produção nacional, respondendo por 30% da produção nacional de calçados e por cerca de 80% do volume total de calçados exportados pelo Brasil. A tabela 6 demonstra o processo de crescimento das exportações brasileiras. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 30 TABELA 6 Exportações Brasileiras de Calçados: 1973 -1990 ANO PARES US$ (mil) 1973 21.604 93.473 1974 27.786 120.274 1975 34.663 165.142 1976 31.299 175.126 1977 24.735 174.476 1978 39.699 278.840 1979 41.881 351.386 1980 49.030 386.872 1981 69.760 562.192 1982 61.020 499.688 1983 93.439 681.521 1984 144.131 1.026.003 1985 132.571 907.396 1986 141.960 958.234 1987 138.646 1.095.379 1988 151.492 1.202.881 1989 160.979 1.238.280 1990 142.900 1.106.728 FONTE: SECEX/ DECEX - Sistema Alice apud Sebrae (1997, p. 29). Essa presença, relativamente tranqüila, no mercado internacional se estende até o início dos anos 90, quando mudanças no cenário internacional4 alteram o poder de competitividade das empresas gaúchas do setor calçadista. Os produtos importados dos países asiáticos apresentam em sua composição de custo vantagens significativas no elemento mão-de-obra. Desta forma, o custo final do produto importado passa a apresentar valores mais baixos do que o produto nacional. No Brasil, o custo médio por calçado produzido é de US$ 0,94/par, enquanto que, em termos comparativos, na Indonésia o custo é de US$ 0,30. (Sebrae, 1997). Esses dois momentos, de expansão no mercado internacional calçadista e, posteriormente, de acirramento da competitividade neste mercado, tiveram repercussões diferenciadas sobre o processo inovativo das empresas gaúchas. A indústria calçadista pode ser descrita como composta por subgrupos de empresas altamente diversos. Dentro desses subgrupos a competição é forte, mas inter-grupos a competição é bem menor. Estes subgrupos representam diferenças no tipo de calç ado (masculino, feminino, infantil,...), no tipo de material (couro, plástico, tecido,...), na qualidade, no preço, etc.. Cada um destes 4 Como a forte entrada da Indústria chinesa no mercado norte-americano, a adoção crescente, por parte dos importadores, de encomendas em pequenos lotes, a redução nos prazos de entrega como mecanismo de redução dos custos de inventário e a redução dos incentivos fiscais no Brasil. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 31 subgrupos apresenta particularidades e especificidades tecnológicas. No caso da indústria gaúcha, e mais especificamente do Vale dos Sinos, trata-se de calçados femininos de couro. Neste tipo de calçado, as operações básicas necessárias para a sua fabricação não sofreram, praticamente, nenhuma modificação. São operações bastante simples e independentes uma das outras, que podem ser tratadas pontualmente e não requerem de seu operador significativa qualificação. Mais, o desenvolvimento tecnológico ocorrido no processo produtivo tem sido lento e incremental, limitando-se à mecanização e automação de operações feitas, anteriormente, de forma manual. Outra característica importante na indústria calçadista, é que as atividades que permitem os maiores ganhos financeiros não são as fabris, mas sim as de design, distribuição (marketing) e comercialização. E estas atividades, principalmente no mercado internacional, são dominadas pelos grandes “retailers”, que definem os sapatos que serão fabricados, com que material serão fabricados e a que preço máximo serão fabricados. Estabelecidos estes parâmetros, estes “retailers” praticamente fazem um “leilão”, a nível mundial, para colocarem suas ordens de compra. Por conseqüência, nesse segmento da indústria calçadista (sapatos de couro), a imitação de produtos ocorre num espaço de tempo pequeno. Dessa forma a competitividade é baseada na capacidade de fabricar os sapatos pelo menor custo - eficiência produtiva e, fundamentalmente, matéria-prima e mão-de-obra barata. Essas características da indústria calçadista, principalmente no Rio Grande do Sul, onde participar do mercado internacional, significava e, em parte, ainda significa maior lucratividade (em moeda forte!!!), levaram as empresas a adotarem uma posição inovativa passiva. Ou seja, não ficar aquém, mas também não ir além, da capacidade de produzir a preços competitivos internacionalmente. E, fundamentalmente, atender as exigências dos grandes importadores internacionais. Essas características também levaram os setor a apresentar alguns paradoxos. O interesse comum das empresas, em participar no mercado internacional, viabilizou a constituição de um arcabouço institucional bastante representativo, onde destaca-se: o próprio setor de calçados, formado pelas empresas fabricantes de sapatos; o setor de couros e peles, que abrange curtumes e empresas beneficiadoras de couro e peles; o setor de componentes, constituído por empresas fabricantes de componentes para sapatos (metálicos, pano, borracha, sintético, etc.); o setor de máquinas e equipamentos, formado por empresas fabricantes dos mais variados tipos de equipamentos para fabricação de sapatos; o setor de serviços, constituído por empresas exportadoras, transportadoras, etc. Somam-se a esta cadeia produtiva seis associações industriais, duas associações profissionais, uma organização de promoção de feiras comerciais, quatro centros tecnológicos que oferecem treinamento e serviços especializados, mais escolas técnicas de 2o grau, e até mesmo cursos de nível superior. Entretanto, no decorrer da década de 70 e até o final da década de 80, ao mesmo tempo em que o setor calçadista foi se desenvolvendo no Vale do Sinos, do ponto de vista das configurações institucionais, houve um aumento nos conflitos de interesse entre os diversos setores do “cluster”, que levaram a um processo de diminuição do grau de coesão dos agentes regionais em torno de problemas comuns, prejudicando a capacidade de crescimento do setor calçadista como um todo. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 32 O resultado final deste processo foi a crise que se estabeleceu no início dos anos 90 sobre a indústria calçadista gaúcha, com a consolidação da China como principal exportadora de calçados para os Estados Unidos. Centenas de empresas de pequeno e médio porte, e mesmo de grande porte, fecharam suas portas, levando alguns milhares de profissionais ao desemprego. Acontece que as características das relações inter-firmas nunca visaram o fortalecimento de estratégias de competição. Na prática, as relações inter-firmas expressam o que é importante para a maioria das empresas do “cluster” – produzir com preços baixos. Assim, enquanto a lógica da maioria das empresas for esta, a configuração das relações verticais estará mais associada à lógica da “otimização do abastecimento”, e não ao crescimento da competitividade via inovação, do tipo relação cliente-fornecedor. Por outro lado, esta “cultura de competitividade espúria”, também impacta as relações de cooperação horizontal, isto é, entre produtores de um mesmo bem, tornando-os extremamente refratários à troca de qualquer tipo de informação, mesmo em atividades consideradas précompetitivas. Em pesquisa realizada nas principais empresas gaúchas instaladas no Vale dos Sinos, Fensterseifer (1995), analisa as estratégias de produção adotadas com o novo padrão de competitividade internacional. A maioria das empresas pesquisadas busca a melhoria da qualidade dos seus produtos através da implantação de processos mais flexíveis ao longo da linha de produção, destacando-se a eliminação de chefias intermediárias, e utilizando um processo misto de grupo/célula/esteira de montagem. A pesquisa aponta, também, para o fato de que a grande parte das empresas adota o processo de subcontratação da produção em decorrência da sazonalidade da demanda. As empresas subcontratadas são, na sua maioria, de pequeno porte e de natureza familiar, desenvolvendo as atividades manuais na própria residência familiar. Os ateliês familiares, em especial, consideram que as relações de trabalho permitem aumentar os rendimentos da família, mesmo o trabalho sendo instável e temporário. Segundo Fensterseifer: “O tipo de ateliê mais encontrado conta com cinco ou até dez funcionários fixos, em geral, membros de uma única família, aos quais, dependendo da demanda, é agregada uma mão-de-obra temporária, às vezes, em número bastante grande” (1995, p. 72). As empresas destacam que os principais motivos de subcontratarem serviços são: a flutuação da demanda, redução do uso de máquinas e instalações, eficiência produtiva de terceiros, carência da mão-de-obra especializada e a diferenciação de produtos demandados. Por outro lado, o processo de subcontratação resulta para as empresas contratantes, redução no custo final do produto, em função da redução do número de empregados na empresa. Além dessas estratégias competitivas, algumas empresas gaúchas já iniciaram a adoção do “velho processo migratório” da Indústria Calçadista, deslocando plantas industriais do Vale dos Sinos para o Nordeste do Brasil. Os fatores que motivam a saída de empresas do sul para o nordeste são os incentivos fiscais oferecidos pelo setor público e a existência de mão-de-obra mais barata. As empresas que se deslocam para o nordeste, na grande maioria, destinam sua produção para o mercado nacional. Neste caso, os produtos são de qualidade inferior aos destinados ao mercado Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 33 externo e, portanto, a mão-de-obra não necessita ser qualificada como a existente no Vale dos Sinos. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS No decorrer deste estudo foram apresentadas diferentes informações procurando dar conta dos elementos relacionados às principais configurações institucionais e processos de aprendizagem interativa presentes no sistema gaúcho de inovação. Entretanto, apesar da crescente percepção em relação à importância de um enfoque sistêmico para análise do processo inovativo, verifica-se que, de uma maneira geral, ainda existe enorme carência de uma base empírica que permita analisar as formas de interação e fluxos de informação que se estabelecem entre os atores regionais na geração, difusão e utilização de conhecimentos. Na abordagem sistêmica do processo de inovação, as formas de interação estabelecidas entre os diferentes atores e instituições consistem num dos principais fatores que explicam o processo de inovação na economia. As alianças tecnológicas entre empresas, a interação entre o setor produtivo e centros de pesquisa ou a pesquisa cooperativa que é feita no âmbito das relações universidadeempresa, são alguns exemplos dos fluxos de conhecimento que emergem a partir dos processos de aprendizagem que têm lugar entre os atores do sistema de inovação. Nesta seção final apresenta-se, em primeiro lugar, uma breve avaliação sobre o reflexo decorrente da adoção de uma abordagem sistêmica sobre o processo inovativo, na configuração das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento científico e tecnológico no Rio Grande do Sul. Logo a seguir, são apresentadas as proposições com vistas a dar continuidade ao estudo sobre sistemas de inovação localizados através da análise de alguns arranjos produtivos locais. 4.1. Políticas Públicas: a dimensão normativa Uma melhor compreensão dos fluxos de conhecimento e das formas de interação entre os diferentes atores, inerente ao escopo de análise do sistema de inovação, permite a adoção de instrumentos mais adequados no sentido de ampliar o desempenho inovativo e a competitividade do sistema como um todo. Evidentemente, a capacidade inovativa regional somente pode ser concebida a partir da dinâmica das empresas que se encontram inseridas nesta região. Por outro lado, a capacidade inovativa das empresas não depende somente de sua dinâmica interna de inovação, mas também do ambiente regional e industrial no qual operam. O papel das políticas industriais e tecnológicas regionais, neste contexto, é o de criar condições favoráveis no ambiente inovativo, regional ou local, de modo a permitir a criação de arranjos institucionais com vistas a consolidar competências tecnológicas. Esse tipo de intervenção se distingue de medidas de cunho tradicional que buscam apoiar o desenvolvimento tecnológico localizado a partir de subsídios ou redução de impostos. (Roper, Love, Ashcroft & Dunlop, 1996). Diante deste novo quadro referencial, as políticas científicas e tecnológicas passam a contar com um novo tipo de orientação voltada para ampliação dos vínculos de interação entre agentes e Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 34 adequação do set-up institucional. Johnsson (1997), procura identificar cinco políticas inovativas que se inserem dentro de uma visão sistêmica sobre o processo de inovação e que refletem a preocupação com a criação de mecanismos que estimulem o processo de aprendizagem. Em primeiro lugar, encontram-se as políticas destinadas ao desenvolvimento e fortalecimento da infra-estrutura de conhecimento e que abrangem diferentes mecanismos de apoio às universidades, centros de pesquisa, redes de telecomunicações, e outros tipos de organizações que possuem vínculos diretos com a geração de novos conhecimentos e inovações. Em segundo lugar, destacamse as políticas para o desenvolvimento de instituições básicas que afetam o processo de aprendizagem interativa, e que se refletem em regras, leis e outras formas de regulação como, por exemplo, as leis de propriedade intelectual. O terceiro tipo de políticas abrange a criação de organizações específicas de apoio às atividades inovativas, como escritórios de patentes ou escritórios de prestação de serviços técnicos, sejam eles públicos ou privados. Em quarto lugar são colocadas as políticas de apoio direto ao desenvolvimento científico e tecnológico e que consistem na forma de apoio mais utilizada pelos governos, abrangendo o investimento público em P&D, financiamentos diretos, subsídios, etc. Por fim, o quinto tipo de política inovativa consiste na atuação, pública ou privada, no lado da demanda tecnológica, através do incentivo ao processo inovativo por intermédio de encomendas de serviços e/ou equipamentos. Todas essas polític as apoiam, em maior ou menor medida, diferentes formas de aprendizagem interativa e comportam, do mesmo modo, diferentes tipos de instrumentos. A análise da evolução da estrutura de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul e dos principais programas que vêm sendo desenvolvidos atualmente no âmbito do governo do Estado, permite uma avaliação inicial sobre o grau de adequação das políticas públicas a um enfoque sistêmico sobre o processo de inovação. A exemplo de um fenômeno que se verificou no restante do país e mesmo nos demais países da América Latina, o investimento em C&T no Rio Grande do Sul, durante muito tempo, esteve direcionado para o financiamento de P&D - no setor público e privado - com base em uma percepção que colocava a ciência e a tecnologia como atividades da mesma natureza. Isto implicou numa concentração de recursos em atividades de pesquisa desenvolvidas por universidades e centros de pesquisa sem que houvesse uma preocupação explícita com a capacitação tecnológica e competitiva do setor produtivo, dado que isso seria uma decorrência natural do investimento em atividades de P&D. Atualmente, verifica-se que existe uma preocupação crescente por parte do governo estadual com a consolidação de programas que visem a integração efetiva do setor produtivo com as universidades e centros de pesquisa existentes nas diferentes regiões. Esse tipo de preocupação fica perceptível quando analisa-se, por exemplo, o perfil que assume o repasse de recursos financeiros para área de C&T, por parte do governo estadual, através dos órgãos de fomento para esta área. Conforme pode ser observado a partir da tabela 7, do total de recursos alocados pela FAPERGS para fomento às atividades de pesquisa, no ano de 1996, cerca de 22% correspondem ao apoio à projetos que visam a interação de centros de pesquisa com o setor empresarial. Do mesmo modo, o financiamento de outros programas como o de áreas estratégicas, também encontra-se focalizado sobre a valorização desse tipo de interação. Levando-se em consideração o conjunto de projetos, que objetivam incrementar os fluxos de informação e conhecimento entre universidades e setor produtivo, verifica-se que eles respondiam por cerca de metade dos recursos contratados pela Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ FAPERGS, no período em questão. 35 Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 36 TABELA 7 Projetos Contratados pela FAPERGS em 1996 PROGRAMA SIGLA Auxílio Recém-Doutor Áreas Estratégicas Biotecnologia Informática Química Indução de Novos Programas Interação Centro de Pesquisa com Setor Empresarial ARD Prociências Recuperação de Centros de Pesquisas Rede Estadual de Informação/Pesquisa Auxílio Individual à Pesquisa Automação Industrial/Mecatrônica Organização de Eventos Participação em reuniões científicas/tecnológicas Auxílio Pesquisador Iniciante Saúde Temáticos Auxílio Pesquisador Visitante Primária e Agroindustrial Auxílio Convênio Convênio FAPERGS/SEBRAE Auxílio Especial Grupos Emergentes Auxílio Grupos de Pesquisa TEM APV AAI AC ACS AE AGE AGP Pólos e Incubadoras PIN VALOR % DO TOTAL PROJETOS (EM R$ 1,00) DE PROJETOS 661.596 7,05% 115(1) BIO INF QUI INP 802.338 654.800 775.098 161.050 8,55% 6,98% 8,26% 1,72% IUE 2.056.005 21,91% 47 PRO RCP REP AIP AME AOE APC API SAU 879.222 13.808 257.707 495.470 539.075 424.055 274.532 21.250 4.873 9,37% 0,15% 2,75% 5,28% 5,74% 4,52% 2,93% 0,23% 0,05% 31(1) 2 14 118(1) 8 127 181 8 1(1) 25.000 44.930 395.135 65.022 74.760 538.004 212.420 1.238 0,27% 0,48% 4,21% 0,69% 0,80% 5,73% 2,26% 0,01% 1(1) 26 8(1) 10 5 12 27 1(1) 1(1) 6.000 0,06% SUBTOTAL PROJETOS DE PESQUISA 9.383.388 100,00% Bolsas de Estudo 3.112.250 TOTAL DE VALORES CONTRATADOS 12 12 7 2 776 1.551 12.495.638 FONTE: Relatório FAPERGS 1996 Obs.: (1) Projetos contratados em 1996 e que foram apresentados em exercícios anteriores. Porém, se por um lado é possível constatar uma mudança no perfil dos investimentos em C&T por parte do governo estadual, por outro lado considera-se que ainda existe um hiato no sistema gaúcho de inovação com relação à adequação de novas configurações institucionais e organizacionais que permitam incrementar processos de aprendizagem interativa e os fluxos de informação em diferentes níveis: entre empresas, entre empresas e universidades, etc. Com relação ao programa de Pólos de Modernização, existem, atualmente, 16 pólos em funcionamento, abrangendo 14 micro-regiões. Como exemplo dos resultados que o Programa já proporcionou para as micro-regiões, podem ser destacadas: - a Região Fronteira Oeste: projeto em plasticultura, o qual permitiu a região passar de importadora de 100% de hortigranjeiros para auto-suficiente em alface e tomate, inclusive iniciando, por conta própria, um projeto de industrialização do tomate excedente; - Região Alto Jacuí: projeto de transferência de embriões que já está atendendo os pequenos produtores com repercussões na qualidade e produtividade da produção leiteira da região, uma das maiores do Estado; - Região da Serra: projeto na área de oleoquímica envolvendo o Instituto de Biotecnologia da Universidade de Caxias do Sul e o Município de Campestre da Serra, onde está ocorrendo uma Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 37 reconversão da economia local, na qual predominava a monocultura de minifúndios, para uma economia diversificada, fruto da introdução de plantas aromáticas essenciais e frutas, com agregação de valor à produção primária e uma melhor e maior distribuição de renda. Por outro lado, verifica-se também que a hegemonia das IES fizeram com que os projetos apresentados a SCT, tivessem um caráter predominantemente acadêmico. Isto é, que os projetos tivessem primeiro uma concepção muito maior do lado da oferta do que da demanda tecnológica. Segundo, que os investimentos solicitados para constituição de infra-estruturas tecnológicas tivessem um conteúdo dominante de necessidades inerentes as atividades acadêmicas, do que o enfoque voltado a difusão tecnológica. O que quer dizer que os investimentos, na sua maioria, se destinam a atender necessidades das regiões, visualizadas pelos pesquisadores das IESs, onde em grande parte os potenciais beneficiários dos resultados dos projetos desconhecem completamente a existência desses projetos. No tocante à análise dos arranjos produtivos locais, o papel das políticas públicas no apoio à reestruturação e modernização do setor de autopeças tem side de desenvolver programas que focalizam mecanismos tradicionais de incentivos fiscais. Dentre os instrumentos utilizados, destaca-se o Fundopen (Fundo de operação-empresa) que consiste na devolução de parcelas mensais do ICMS gerado pelas empresas. No caso da GM e dos fornecedores instalados no Estado, foi criado um programa específico denominado 'Fomentar' que visa a concessão de financiamentos proporcionais ao faturamento das empresas, com juros subsidiados e carência para amortização. O mesmo tipo de quadro relacionado à adoção de mecanismos de apoio tradicionais é verificado na indústria de calçados, onde o Governo estadual, com o objetivo de conter o fluxo migratório de empresas gaúchas para os estados do nordeste brasileiro, está promovendo investimentos em infraestrutura que beneficiam o setor. Além disso, segundo o projeto RS 2010 (1997), o Governo estadual está encaminhando ações, através do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, para financiar as exportações com o mesmo sistema adotado pelos bancos internacionais, mas com objetivo de fomentar as pequenas e médias empresas. Assim, as empresas com menor capacitação técnica e de produção passariam a ter acesso a instrumentos financeiros como hedging de moedas, entre outros. 4.2. Proposições para continuidade do trabalho No tocante à dimensão empírica do projeto, considera-se que a continuidade do estudo sobre a dimensão local do processo de inovação no Estado do Rio Grande do Sul deva levar em conta alguns aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, a escolha de arranjos produtivos para análise deve levar em conta tanto a importância que assumem as interações e vínculos locais como os efeitos decorrentes do processo de globalização sobre a dinâmica inovativa das empresas. Em segundo lugar, tendo em vista que a proposição de políticas de C&T voltadas para os países do Mercosul consiste num dos principais objetivos do projeto, e dado que o Rio Gande do Sul conta com uma inserção geográfica estratégica pela sua proximidade com países como a Argentina e Uruguai, é recomendável que a escolha dos arranjos produtivos a serem analisados também permita o estabelecimento d estudos comparativos e mesmo pesquisas cooperativas sobre um mesmo arranjo em diferentes países. Por fim, um terceiro aspecto refere-se à importância econômica dos arranjos selecionados na economia estadual. A análise de arranjos locais desenvolvida neste trabalho constituiu-se num esforço preliminar de compreender a capacidade inovativa das empresas ou setores a partir das configurações Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 38 institucionais, formas de interação e fluxos de informação ou conhecimento que encontram-se articuladas espacialmente. Neste sentido, considera-se que a próxima etapa da pesquisa poderá contemplar, inicialmente, a análise de quatro diferentes arranjos produtivos. Além do aprofundamento na discussão sobre os arranjos locais relacionados ao setor coureiro-calçadista e da focalização da discussão sobre o setor de autopeças sobre o segmento de máquinas e implementos agrícolas, propõe-se a inclusão de outros dois arranjos vinculados à agroindústria: o setores vinícola e fumicultor. A agroindústria vinícola vem passando, nos últimos anos por um processo intenso de reestruturação produtiva,motivado pela crescente abertura comercial que tornou atrativa a importação de vinhos europeus e intensificou a concorrência no setor. Assim, a crise neste setor tem levado muitos produtores e cooperativas a reduzir o cultivo de uva e intensificar a produção de outros tipos de frutas com vistas à diversificação das atividades mediante a produção de sucos, doces ou mesmo a comercialização de frutas in natura. Do mesmo modo, o elevado custo do crédito tem inviabilizado um processo mais efetivo de modernização tecnológica nas empresas,fazendo com que a estratégia de ajuste do setor concentre-se principalmente na redução de pessoal empregado e no sistema de comercialização. Em nível do Mercosul, apesar da concorrência em potencial de países como Argentina e Chile, verifica-se que, no momento, a produção destes países ainda é absorvida no próprio mercado interno ou exportada para outros países, além de não se constituir numa concorrência desleal como ocorre no caso da importação de vinhos europeus de baixa qualidade. Neste sentido, considera-se que a análise dos arranjos produtivos no setor vinícola riograndense permite também o estabelecimento de um estudo comparativo com os demais países do Mercosul como Argentina e Uruguai. Na cadeia produtiva de fumo,o processo de reestruturação produtiva se reflete no movimento de concentração do mercado através dos movimentos de fusão e incorporação promovido pelas grandes empresas do setor como,Souza Cruz, Universal Leaf e Phillip Morris. Este setor caracteriza-se por um sofisticado sistema de produção integrada (aexemplo do que ocorre em outros setores como o avícola) que envolve desde a produção das sementes até as etapas de processamento e distribuição de cigarros, cujo fluxo de inovação e conhecimento parece ser eminentemente interno às grandes empresas. Ou seja, percebe-se que a capacitação tecnológica das empresas independe da criação de sinergias, em termos de formação de redes cooperativas com os atores regionais, seja por questões estratégicas ou pela inexistência de mecanismos e/ou instituições que possibilitem a criação de vínculos mais sólidos de cooperação. Por outro lado, verifica-se também que esse processo de reestruturação do setor, em nível mundial, traz importantes reflexos para o universo dos pequenos produtores de fumo em folha que também tem enfrentado um movimento de concentração e exclusão,devido à imposição de maiores níveis de produtividade em nível das propriedades. Mediante a análise deste arranjo produtivo, objetiva-se apurar a existência de formas de interação ou fluxos de conhecimento efetivos ou potenciais,decorrentes da inserção desta cadeia produtiva no ambiente regional. Ainda que a lógica inovativa deste arranjo produtivo local encontre-se subordinada a um movimento de ajuste produtivo em nível mundial, existem importantes externalidades que se refletem no perfil e formas de capacitação dos produtores locais. Por fim, pretende-se desenvolver a análise do setor de autopeças vinculada ao segmento de máquinas e implementos agrícolas, a partir da interação que vem ocorrendo com o Programa de Apoio aos Pólos do Governo do Estado. A análise referente aos pólos, neste primeiro momento, foi apresentada de modo a enfatizar a criação e adequação de novas configurações institucionais com vistas ao estabelecimento de vínculos de cooperação entre o setor produtivo e instituições de ensino Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 39 e pesquisa, num contexto de descentralização regional. Entretanto, o desdobramento do estudo sobre este programa deve contemplar uma avaliação sobre o impacto das ações que vê sendo adotadas,no âmbito deste programa, sobre o setor produtivo,tendo como foco de análise a experiência dos Pólos situados na Região da Produção e do Noroeste Colonial, que tem desempenhado um importante papel no processo de capacitação tecnológica das empresas do segmentos de máquinas e implementos agrícolas. Assim, na medida em que se busque aprofundar a discussão sobre a dimensão localizada dos sistemas de inovação,deve -se procurar focalizar, necessariamente, os diferentes fluxos de conhecimento que são relevantes na capacitação tecnológica e competitiva de cada região. Por outro lado, é importante ter em conta, também, que tais fluxos são moldados a partir de uma configuração de instituições e organizações que são constituídas localmente. Em síntese, do ponto de vista metodológico,considera-se que a análise dos sistemas de inovação em nível regional - seja no âmbito nacional, sub nacional ou supra nacional - deve envolver, inicialmente, duas linhas de atuação. Em primeiro lugar, um mapeamento que permita identificar quais são e qual o perfil das principais organizações que compõem o arcabouço institucional dos sistemas de inovação nos diferentes âmbitos geográficos. Em segundo lugar, um levantamento com vistas a determinar quais são os fluxos de conhecimento que emergem da interação entre os atores do sistema de inovação e que determinam o perfil de capacitação tecnológica e competitiva das empresas. Este tipo de abordagem metodológica permite uma separação entre a capacitação tecnológica que é obtida pelas empresas através de seu esforço próprio de P&D e a capacitação tecnológica que é adquirida através da compra, interna ou externa, de bens de capital. Não obstante a riqueza das contribuições oriundas de estudos sobre sistemas de inovação nos países desenvolvidos, também é importante levar em consideração as especificidades que assume o processo de inovação nos países em desenvolvimento, dadas a limitações inerentes à estrutura tecnológica, produtiva e de mercados. Incorporar tais limitações no estudo dos sistemas locais de inovação possibilita, inclusive, uma nova perspectiva metodológica que procure enfatizar, por exemplo, a importância da absorção de tecnologias externa vis -à-vis o desenvolvimento de uma base tecnológica própria, no processo de capacitação tecnológica e competitiva das empresas nos países em desenvolvimento. Globalização e Inovação Localizada, IE/UFRJ 40 Referências Bibliográficas CALANDRO, M. L. (1995). O setor de autopeças no Rio Grande do Sul. In: Competitividade e Inovação na Indústria Gaúcha. Porto Alegre: FEE, mimeo. CARLSSON, B. O. (1996). Technological Ssystems and Economic Performance. 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