A SATISFAÇÃO DO MÉDICO CLÍNICO NO EXERCÍCIO DE SUA FUNÇÃO EM PRONTO ATENDIMENTO Rozeli de Fátima Dutra1 RESUMO: A área de saúde tem sido influenciada por diversos fatores: crescimento demográfico exagerado da população mundial, revolução nos costumes advinda da globalização, enorme avanço da tecnologia na prevenção, no diagnóstico e no tratamento de doenças, aumento da expectativa de vida, dentre outros fatores. Essa realidade afeta a população em geral, os profissionais de saúde e os médicos, em particular, especificamente sua satisfação com o trabalho exercido. Neste sentido, analisar o grau de satisfação no trabalho do médico clínico pode ser um passo necessário no resgate da humanização relação médico-paciente, e este é o objetivo deste artigo. O presente estudo pode ser caracterizado como uma pesquisa qualitativa, na qual por meio de entrevista semi-estrutura, foram analisadas e diagnosticadas certas características do trabalho médico e levantados dados sobre a satisfação do médico clínico no exercício de sua função em Pronto Atendimento, por meio de cooperativa. Foram utilizados documentos para caracterização da organização pesquisada e aprofundamento no entendimento da estruturação do serviço. Participou dessa pesquisa uma amostra de nove médicos clínicos, considerando o universo da pesquisa composto por doze médicos clínicos, atingiuse um percentual de 75% de entrevistados. Este estudo possibilitou identificar diversos aspectos relacionados à prática médica nos dias atuais por meio de cooperativa, com evidência de aspectos relacionados as fontes de satisfação e insatisfação no trabalho percebidas pelo médico clínico no desempenho de suas funções em Pronto Atendimento, por meio de cooperativa. Os dados aqui obtidos permitiram uma significativa reflexão no que se refere ao profissional médico clínico em específico, bem como cria perspectivas para um olhar diferenciado ao negócio saúde no Brasil. Ficou claro que mesmo com as cooperativas médicas, continuam os desafios no setor saúde e no exercício da profissão médica. E acredita-se que, desenvolver estratégias visando a maior valorização do médico pode representar uma diminuição do custo no serviço prestado, obter maior satisfação destes profissionais e, sobretudo resgatar o verdadeiro propósito da medicina. PALAVRAS CHAVES: Trabalho médico, cooperativa, satisfação no trabalho, tecnologia, atendimento ao paciente. 1 INTRODUÇÃO 1 Mestrado em Administração. Especialização em Coaching em Programação Neurolinguística. Especialização em Gerência e Tecnologia da Qualidade. Graduação em Administração Hospitalar. 5 A área de saúde tem sido influenciada por diversos fatores: crescimento demográfico exagerado da população mundial, revolução nos costumes advinda da globalização, enorme avanço da tecnologia na prevenção, no diagnóstico e no tratamento de doenças, aumento da expectativa de vida, dentre outros fatores. A despeito de ser considerada por muitos que nela atuam, uma atividade geradora de orgulho, o trabalho na área de saúde é árduo, desenvolvido em regime de turnos e plantões, abrindo perspectivas de duplos empregos e de jornadas de trabalho prolongadas, sobretudo em meio a um cenário de constantes paradoxos: vida, morte, alegrias, dores, sofrimento, perdas. Essa realidade afeta a população em geral, os profissionais de saúde e os médicos, em particular, especificamente sua satisfação com o trabalho exercido. Segundo Maestro Filho (2004) os diversos enfoques adotados para o estudo do tema satisfação no trabalho envolvem desde a sua relação com o ambiente organizacional, até a questão da remuneração e do comportamento no trabalho, sem deixar de considerar a influência do ambiente externo. Os aspectos mencionados sobre a satisfação no trabalho mencionados por Maestro Filho (2004) parecem convergir com a situação de trabalho a que está submetida os médicos e os profissionais de saúde do Brasil. Ao pretender-se estudar a satisfação no trabalho na área de saúde é importante destacar que a prática médica tem sido realizada em um contexto que envolve multivariados desafios, o que conseqüentemente implica em um gerenciamento estratégico, profissional e eficaz, no que tange a consultórios médicos ou hospitais de grande porte. No tocante aos desafios enfrentados é possível citar que no passado o médico, ao concluir o curso de medicina, tinha um espaço garantido de trabalho, em uma estrutura bem menos complexa que nos dias atuais. Com o aumento da complexidade e a caracterização do serviço como um negócio, o médico precisa encontrar alguma alternativa para exercer a sua profissão de forma segura e rentável. 6 Sabe-se que tem sido muito comum, no setor privado, ocorrer a prestação de serviços por meio de cooperativas ou empresas médicas, enquanto no setor público predomina a contratação de médicos de forma assalariada. Há de se notar que independente da forma que se organiza o trabalho de um modo geral, a tendência da atividade médica nos últimos tempos é muito peculiar. Outro desafio importante a ser considerado está relacionado ao uso da tecnologia médica. Na concepção de Pitta (2003), o hospital tem sido o local preferencial, onde o avanço científico e tecnológico exibe maiores marcas, através da sofisticação de técnicas e requintes de equipamentos, insumos e outros. Dupas (2006) chama de medicalização, a dependência tecnológica da medicina. Para ele o imperativo da medicalização está ligado estreitamente à lógica de retorno do investimento da indústria do setor saúde, que ele considera como sendo: a indústria farmacêutica e de equipamentos médicos, os complexos hospitalares e as áreas afins. Além do trabalho médico mostrar-se organizado de forma capitalista, valorizando a tecnologia e a especialização das funções, ainda expõe este profissional à dor, ao sofrimento, à doença e à morte do outro. Assim sendo, é possível acreditar que atuar nessas condições pode desencadear sofrimento e insatisfação no exercício da profissão. Acredita-se que todos estes desafios podem representar conseqüentemente uma ameaça ao médico clínico que necessariamente terá que buscar meios diversos para exercer sua função com dignidade, remuneração justa e quiçá obter satisfação por meio da realização deste trabalho. E esta simples discussão pode abrir espaço para questionarmos o grau de satisfação no trabalho destes profissionais. Outro aspecto fundamental é que o sistema de saúde no Brasil passa por uma profunda crise, levando a crer que estudar aspectos relacionados ao trabalho dos 7 principais atores desse cenário contribuirá para um melhor entendimento das condições de trabalho destes profissionais. Neste sentido, analisar o grau de satisfação no trabalho do médico clínico pode ser um passo necessário no resgate da humanização relação médico-paciente, e este é o objetivo deste artigo. A escolha do médico clínico pode ser justificada devido ao fato de que a tecnologia na área de saúde vem tornando a prática médica bastante especializada, levando os pacientes a optarem por médicos com maior especialização e domínio de tecnologia. Assim, o trabalho do médico clínico parece ser especialmente impactado por uma limitação de área de atuação, uma vez que a sua função é generalista por natureza. 2 REFERENCIAL TEÓRICO O principal objetivo dessa seção é apresentar considerações sobre a satisfação no trabalho e o trabalho médico. Esses dois pólos serão desdobrados com abordagem de aspectos concernentes a cada um. 2.1 A satisfação no trabalho O tema satisfação no trabalho ganha atenção em diversas áreas de atuação e muitos o consideram como fator determinante de sucesso para uma organização. Quando se fala em satisfação no trabalho cria-se perspectivas para a análise das condições de trabalho, relações de trabalho, remuneração, enfim, a forma que o trabalho está organizado e o quanto isto pode impactar na felicidade e dignidade humana. Na perspectiva de Graça (1999) a satisfação no trabalho resulta da avaliação periódica que um indivíduo faz de forma instantânea e empírica do grau de realização dos seus valores, necessidades, preferências e expectativas profissionais. Este mesmo autor menciona que o grau de satisfação é resultante da discrepância existente entre as expectativas (E) e os resultados (R). Assim então é 8 possível medir o grau de satisfação, devendo considerar-se que quanto maior for a discrepância E e R (medida pela diferença entre essas duas variáveis), maior será o grau de satisfação. E por outro lado, quanto maior for a discrepância (E > R), menor será o grau de satisfação, já que as expectativas estão em nível superior à capacidade de realização do trabalhador. E isto poderá gerar uma certa cobrança por parte da organização, influenciando negativamente no grau de satisfação. Sobre este aspecto Sant`Anna (2002) considera que a satisfação no trabalho tende a ter potenciais implicações e/ou impactos sobre a saúde e bem-estar dos funcionários, principalmente no que se refere aos níveis de estresse ocupacional e qualidade de vida no trabalho. Este autor observa que as organizações têm atentado para as conseqüências da satisfação no trabalho, que se constitui num elemento determinante da avaliação da qualidade, além de ter implicações, também sobre a eficiência, produtividade, qualidade das relações de trabalho, níveis de absenteísmo/turnover, comprometimento organizacional, etc. Maestro Filho (2004), defende a idéia de que os estudos e pesquisas sobre a satisfação no e com trabalho depende simultaneamente de fatores contextuais e de variáveis de conteúdo. Na visão deste autor o que se tem observado em relação aos estudos mais recentes sobre a satisfação no trabalho é uma concentração em torno da análise de suas implicações sobre variáveis consideradas periféricas como, por exemplo, o comprometimento organizacional, estresse ocupacional, motivação, entre outros. Vários modelos propostos para a mensuração da satisfação no trabalho apresentam lacunas conceituais, já que excluem do seu contexto de análise variáveis que afetam significativamente o conjunto de características da tarefa. (MAESTRO FILHO 2004) Apresenta-se abaixo parte da visão sinóptica dos principais trabalhos realizados sobre o tema satisfação no e com o trabalho no Brasil conforme Maestro Filho (2004). QUADRO 1 – Alguns dos principais estudos e pesquisas sobre satisfação realizados no Brasil 9 Autores Objetivos – Metodologia do trabalho Resultados obtidos Compreender junto a profissionais médicos, os significados do desejo de ser médico e sua satisfação com o trabalho. Pesquisa qualitativa, estudo de multicasos com entrevistas semiestruturadas em profundidade. Amostra de 25 médicos que atuam em Santa Catarina nas áreas de pediatria, clínica médica, cirurgia, ginecologia/obstetrícia e saúde pública. Emergiram fatores limitantes de satisfação com o trabalho: a dificuldade em lidar com o paciente, a desvalorização profissional, a disseminação do saber médico, as dificuldades em selecionar informações, o excesso de carga de trabalho e prejuízo da qualidade de vida. Levantar quais são os fatores que causam satisfação e insatisfação no trabalho dos professores em estágio intermediário de carreira (seis a doze anos) e como esses fatores interferem em suas práticas pedagógicas. Pesquisa qualitativa de natureza interpretativa. Amostra intencional de 14 participantes. Utilização de entrevistas semi-estruturadas. Os resultados apontaram os fatores de trabalho em si e progresso como os principais responsáveis pela satisfação no trabalho. O fator salário seguido do fator participação são aqueles que mais contribuem para a insatisfação dos professores. Santos Júnior, Aldo A. e Zimmermann Raquel (2002) Diagnosticar a QVT e o grau de satisfação no e como o trabalho dos funcionários da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (Região operacional 08 – Santa Catarina). Pesquisa exploratória, análise qualitativa. Os resultados indicaram que as agências da ECT apresentam funcionários insatisfeitos com relação ao indicador econômico. As agências de Itajaí e Jaraguá do Sul apresentaram baixa satisfação quanto aos indicadores político e sociológico e uma delas apresentou baixa satisfação em todos os indicadores de QVT. Maciel, Ticiana R. Santos (2002) Estudar o grau de satisfação no trabalho, opinião sobre as condições de trabalho e seus impactos no sentimento de satisfação de funcionários de uma unidade de alimentação e nutrição hospitalar. Verificou-se que o grau de satisfação no trabalho da amostra é médio se for considerado como uma perspectiva positiva. Verificou-se, também, que as condições de trabalho na unidade fato interferem no sentimento de satisfação de seus funcionários. Analisar o grau de satisfação dos operadores de uma empresa de telemarketing como filial no Rio Grande do Sul, enfatizando o sistema de pausas para descanso no trabalho. Utilização da observação direta, entrevista e questionários aplicados em 17 teleoperadores dos três turnos de trabalho. Constatou-se que o sistema de pausas utilizado pela empresa (pausa particular de cinco minutos) não satisfaz as necessidades dos funcionários, não é compatível com a natureza da sua atividade e não atende os dispositivos do Ministério do Trabalho e não contribui para a satisfação no trabalho. Grosseman, Suely e Patrício, Zuléika Maria (2001) Regiani, Maria Cláudia (2002) Peres, Cláudio Cezar (2003) Fonte: Maestro Filho (2004) ...continua Araldi, Dane Estudar questões ergonômicas, qualidade de vida no trabalho e o grau Os resultados revelaram que o item de maior insatisfação dos funcionários dos 10 Block (2004) de satisfação com o trabalho. Estudo quali-quantitativo. Pesquisa de campo com 19 funcionários do setor de lavoura e estiva de São Sepé (SP). Utilização de entrevistas, observações e questionários. dois setores foi a questão da saúde. A QVT foi o item de maior satisfação. Costa, Sílvia Generali e Santos, Francisco Araújo (2004) Discutir a Teoria Flow (aspectos intrínsecos da motivação) como uma contribuição para o estudo da satisfação no trabalho. Contextualização teórica. O estudo permitiu compreender as origens da teoria Flow e buscou inseri-la no contexto das demais teorias motivacionais. Fonte: Maestro Filho (2004) O quadro 1 apresenta apenas sete das vinte pesquisas nacionais realizadas sobre o tema satisfação no e com o trabalho no Brasil, apresentadas por Maestro Filho (2004), todas realizadas no período de 2000 a 2004. De acordo com Maestro Filho (2004) nestas pesquisas predominam os estudos de caráter descritivo, com ênfase em diagnósticos específicos. A maioria destes estudos não permite generalizações de seus resultados, isto considerando a amostragem, características específicas das unidades de observação e análise, dentre outros aspectos, contudo é possível perceber que os resultados sinalizam para uma discrepância entre expectativas e resultados. Na perspectiva de Maestro Filho (2004) a maioria dos estudiosos do tema satisfação no trabalho e com o trabalho reconhece a impossibilidade de elaborar um modelo de mensuração que contemple a gama completa de variáveis intervenientes na satisfação no trabalho. Esse aspecto reforça a idéia de que estudos nesse campo são desafiadores. Finalmente ainda enfocando Maestro Filho (2004, p. 96) Apesar de concordar com o fato de que a satisfação no trabalho decorre de uma série de variáveis de contexto aliadas a influências ambientais e fatores associados ao conteúdo do trabalho em si, vários autores reconhecem que o principal determinante do grau de satisfação no trabalho é o seu conteúdo. A literatura deixa claro que os estudos sobre o tema satisfação no trabalho estão relacionados com questões internas da organização, contudo é possível acreditar que este tema engloba também aspectos econômicos e políticos. 11 2.2 O Trabalho médico Segundo Mendes (1984, p. 30) a medicina científica ou “o sistema médico do capital monopolista” se institucionalizou por meio da união orgânica entre o capital, a corporação médica e as universidades. Na visão do autor esse novo paradigma determinou mudanças significativas nos propósitos, nos recursos e nos agentes da medicina. Representa assim, uma configuração de um marco conceitual que passou a referenciar a prática e a educação médica. Na perspectiva de Mendes (1984), o novo paradigma da medicina científica ou flexneriana expressa um conjunto de elementos estruturais que coexistem, se complementam e se potenciam, a fim de direcionar a prática médica. Esses elementos são os seguintes: mecanicismo, biologismo, individualismo, especialização, exclusão de práticas alternativas, tecnificação do ato médico, ênfase na medicina curativa e concentração de recursos. O crescimento exponencial do conhecimento médico influencia a especialização, embora este processo tenha ocorrido também por outras razões. Numa perspectiva ideológica, em função do mecanismo que impôs a parcialização abstrata do objeto global, e segundo um paradoxo que aprofunda o conhecimento específico e que atenua o conhecimento holístico. Numa perspectiva econômica, a especialização decorreu da necessidade da acumulação do capital que exigiu a fragmentação do processo de produção e do produtor, via divisão técnica do trabalho. (MENDES, 1984). A despeito de a medicina tecnológica criar perspectivas de que qualquer problema de saúde pode ser resolvido, Dupas (2006 p. 177) afirma que “as vítimas não morrem mais nas ruas, como nas epidemias antigas, mas em hospitais muito sofisticados, tratadas por equipamentos de milhões de dólares”. Martins (2003) alerta ainda que vive-se em um momento de ruptura entre a medicina oficial e a medicina moderna. O autor ressalta que essa ruptura surge a partir de fortes tensões contraditórias entre as duas principais tendências presentes, desde 12 algumas décadas. E explica que uma tendência é de desumanização/tecnização e a outra, de reumanização dos modelos médicos. E este mesmo autor afirma, privatização da medicina oficial promove grandes lucros para alguns, e gera custos elevados para a sociedade como um todo. Na visão de Ramos (1995) na sociedade capitalista há uma mercantilização da saúde que elevada à categoria de um bem privado, tende a tornar os serviços acessíveis somente às classes mais abastadas. Situação que pode ser observada no contexto brasileiro, onde a saúde privada é considerada privilégio da minoria. Segundo Martins (2003, p. 188): O horror do cidadão em geral – candidato em potencial a doente/consumidor – de cair nas garras dos hospitais e médicos particulares constitui um bom exemplo. A perspectiva de vivência de um sofrimento dobrado (pelo padecimento do corpo e pelo esvaziamento do bolso, muitas vezes com o comprometimento do patrimônio familiar) já constitui em si uma fonte de doença. Fica claro que a corrente da medicina moderna está contribuindo para que os médicos sejam assalariados em função de objetivo de lucro, com busca de estratégias que permitam ganho econômico com menos tempo de trabalho. De outro lado, encontra-se a crescente desconfiança dos usuários destes serviços. No tocante a outro aspecto que retrata a realidade do trabalho médico nos dias atuais, Costa (2006) menciona uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) de 1999 a 2004 (levantamento nacional e por região), que confirmou o quanto é desgastante o trabalho médico. Os principais fatores de desgaste assinalados na pesquisa foram excesso de atividades com multiemprego, a baixa remuneração, as más condições de trabalho, a responsabilidade, a área de atuação (especialidade), os conflitos na relação médico-paciente (cobrança da população) e a perda da autonomia. 13 Costa (2006) destaca que esse complexo conjunto se reflete no comportamento ético do médico na relação médico-paciente, médico-sociedade e na relação médico-médico, repercutindo adicionalmente em seu estilo de vida e em sua saúde. Tais citações nos levam a crer que a prática médica faz parte de um círculo vicioso em meio a um sistema capitalista. Trabalha-se cada vez mais pela supremacia do capital, enquanto aspectos essenciais da profissão são deixados de lado, gerando seqüelas para o profissional e para o paciente. Frente a estes aspectos, o médico sente-se compelido a trabalhar arduamente, e muitos o fazem em detrimento de relacionamento familiar, ou até mesmo perdas (cônjuges, parceiros, etc). Na perspectiva de Reich (2002) há um aspecto da nova economia que faz as pessoas trabalharem mais: são as disparidades entre renda e riqueza que se ampliaram durante as últimas décadas. Somado a isso, a sociedade ainda considera que a profissão médica confere status ao indivíduo, contudo manter esta posição social nos dias atuais tem custado muito caro para os profissionais médicos. Com o passar do tempo, a prática médica e a medicina na vida do paciente sofreu grandes transformações. Antes o médico clínico fazia diagnósticos e prognósticos, usando o faro clínico e a experiência sem recursos adequados para confirmar-lhe ou não sua opinião. Segundo Ismael (2005), a partir da metade do século XX, essas mudanças são caracterizadas por diversos fatores, dentre eles a proliferação de superespecializações na medicina, que tende a aumentar com a descoberta de novas tecnologias. E finalmente Dupas (2006, p. 190), expõe que a medicina contemporânea entra com seu arsenal de “mísseis e bazucas” muito eficientes, mas exterminadores de “bons e maus”. À custa, portanto, sempre de efeito colaterais. Esse arsenal pode salvar muitas vidas – o que não é pouco -, mas também pode matar com freqüência. ...no seu campo restrito saberá muito. Mas, no campo geral do “ser”, saberá cada vez menos por ser um não generalista. 14 Por outro lado, ao longo dos tempos percebe-se que diversas foram as iniciativas na área da saúde a fim de garantir a dignidade dos que ali trabalham. Uma delas são as cooperativas de trabalho médico, que surgiram como imperativo ético, partindo do princípio que não deve haver intermediário na relação médico-paciente e que essa relação é um vínculo único, exclusivo, que não permite interferências de qualquer espécie. No Brasil, o cooperativismo iniciou-se no final do século XIX, principalmente no meio rural. Atualmente, é regulamentado por leis especiais e representado pela Organização das Cooperativas do Brasil – OCB, que exerce o papel de representação nacional do cooperativismo na defesa dos interesses de suas associadas. A primeira cooperativa de trabalho médico brasileira foi fundada em 1967 e recebeu o nome UNIMED, que significa “União de Médicos”. Nesse cenário, acredita-se que a idéia cooperativista promete a possibilidade de uma medicina alternativa entre a socializada e a liberal, sem ferir os princípios éticos preconizados pelas entidades médicas. Assim, a forma cooperativa oferece as possibilidades que atendam aos anseios dos médicos e dos pacientes. A cooperativa é ainda, uma forma de organização de trabalho que também visa enfrentar a concorrência, aumentar a produtividade, diminuir custos, expandir o grau de especialização, dentre outros fatores. Assim, fica claro que o propósito principal de uma cooperativa médica é suprimir intermediação ou negociadores do trabalho do médico, permitindo organização entre os próprios médicos para firmar contratos de prestação de serviços e atender diretamente os clientes. Sem finalidade lucrativa e de propriedade coletiva, o seu principal objetivo deve ser ainda a defesa econômica e social dos médicos cooperados, ao gerar oportunidades de trabalho e renda para seus associados. Nesse cenário representado por uma medicina moderna, com extrema valorização da tecnologia e especialização, com novas alternativas de trabalho é que se investigou a satisfação no trabalho do médico clínico. 15 3 METODOLOGIA No tocante a metodologia, o presente estudo pode ser caracterizado como uma pesquisa qualitativa, por meio de entrevista semi-estrutura, foram analisadas e diagnosticadas certas características do trabalho médico e levantados dados sobre a satisfação do médico clínico no exercício de sua função em Pronto Atendimento, por meio de cooperativa médica. Para complementar a estratégia de levantamentos de dados, foram utilizados documentos para caracterização da organização pesquisada e aprofundamento no entendimento da estruturação do serviço. Participou dessa pesquisa uma amostra de nove médicos clínicos, considerando o universo da pesquisa composto por doze médicos clínicos, atingiu-se um percentual de 75% de entrevistados. 4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Apresentam-se abaixo os dados das entrevistas realizadas que tem como objetivo o resumo das observações coletadas, a fim de atingir a proposta deste estudo. Cabe esclarecer que as entrevistas foram realizadas pela própria pesquisadora que seguiu um roteiro de entrevista semi-estruturada. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas. Todo o material das entrevistas encontra-se nos arquivos dessa pesquisadora, digitadas textualmente em Word, bem como em sistema de áudio MP3 e WAP. 4.1 Análise descritiva das variáveis demográficas e ocupacionais Participou dessa pesquisa uma amostra de nove médicos clínicos, considerando o universo da pesquisa composto por doze médicos clínicos, atingiu-se um percentual de 75% de entrevistados. 16 Em relação ao sexo predomina o sexo masculino com 78% e apenas 22% para o sexo feminino. Em termos de faixa etária, a maioria dos médicos pesquisados tem de 35 a 44 anos de idade (66,7%). Compõem o percentual restante, 11,1% de médicos com idade de 45 a 50 anos e 22,2% numa faixa etária acima dos 50 anos. No que se refere ao tempo como cooperado, houve variação de 2 anos a 20 anos, sendo que a média foi de 11 anos e 2 meses. Já quanto ao tempo de serviço no Pronto Atendimento, houve variação de 1 mês a 8 anos, sendo que a média foi de 3 anos e 11 meses. No que concerce ao número de especializações, encontrou-se o seguinte: a) 55,6% dos médicos possuem uma especialização médica além da clínica médica; b) 33,3% dos médicos possuem duas especialidades médicas além da clínica médica; c) 11,1% dos médicos possuem três especialidades médicas além da clínica médica. Percebe-se que é grande a busca por especializações na área médica. Para a grande maioria dos médicos entrevistados a primeira especialização foi na clínica médica. É possível acreditar que a alta procura pela especialização esteja relacionada a maiores oportunidades de trabalho e conseqüentemente melhor remuneração. No que tange ao estado civil obteve-se que 44,5% são divorciados, 33,3% são casados e os restantes 22,2% são solteiros. No que se refere a quantidade de inserções no mercado além do Pronto Atendimento, todos os médicos possuem outras inserções. A maior proporção (77,8%) possui duas outras inserções e 22, 2% alegaram possuir três outras inserções. 17 Mediante este dado fica claro o excesso de carga de trabalho vivenciado por esses médicos, o que poderá comprometer sua saúde física e emocional e impactar na sua satisfação com o trabalho e na qualidade do atendimento que prestam ao paciente. 4.2 Resultados sobre a satisfação do médico clínico A seguir apresentam-se as respostas obtidas nas entrevistas. As respostas dos entrevistados foram organizadas de forma a permitir sua quantificação. O principal objetivo desta organização e classificação foi facilitar a análise dos dados, que assim podem ser vistos de forma conjunta. A partir de cada pergunta e respectiva resposta apresentada de forma classificada, segue uma breve análise para facilitar o entendimento do leitor, conforme abaixo. Tabela A - Expectativa ao ingressar na cooperativa Respostas Maior oportunidade de atendimento Grande número de pacientes Ampliar mercado de trabalho Fonte segura de pagamento Exercer profissão de forma digna e honesta Aumento de renda e melhor qualidade de vida Ser dono do negócio TOTAL Freqüência Absoluta 01 05 02 01 01 01 03 14 Fonte: Dados da pesquisa (2007) Os resultados acima sugerem que apesar de o trabalho por meio de cooperativa criar perspectivas para que o médico seja dono do próprio negócio não são todos que se filiam a este sistema de trabalho com esta expectativa. Fica claro que a maior expectativa do médico ao ingressar na cooperativa é ter acesso ao seu volume de clientes, bem como maior possibilidade de obter maior remuneração, e de forma segura. Na Tabela A os dados numéricos são referentes apenas à freqüência absoluta, já que neste caso existem mais de uma resposta para cada pergunta, desta forma a freqüência relativa não fecharia em 100%, se comparada ao número de entrevistados. 18 TABELA B - Fontes de satisfação para atuar na clínica médica Respostas Gostar de ser clínico Contato com o cliente Evolução e cura do paciente Bom volume de atendimento Medicina vista como promoção da saúde Isto é romantismo TOTAL Número 04 01 01 01 01 01 09 % 44,5 11,1 11,1 11,1 11,1 11,1 100,0 Fonte: Dados da pesquisa (2007) Observa-se conforme Tabela B que a principal fonte de satisfação está relacionada ao fato dos pesquisados gostarem de ser médicos clínicos. Em seguida surgiram afirmações relacionadas ao aspecto positivo de se ter contato com cliente e obter sua evolução e cura. Um dos médicos afirma que o bom volume de atendimento, no caso se referiu ao fato de ter bom número de pacientes, é um fator que gera satisfação. Outro médico afirma que fica muito satisfeito com a visão da medicina com atuação na promoção da saúde da paciente. Contudo um médico manifestou-se em forma de crítica a questão da satisfação ao afirmar que “isto é romantismo”. O comentário de alguns médicos esclarecem um pouco mais sobre as fontes de satisfação: “Fonte de satisfação é o romantismo, não tem outra. Não tem outra, idealismo e romantismo.” “Bom, fontes de satisfação, eu me sinto, eu sou meio suspeito de falar, porque eu me sinto orgulhoso de ser clínico, quando eu fiz a opção de largar a anestesia, a princípio financeiramente foi pior no começo, porque a anestesia é uma especialidade mais rentável, mas eu fiz a minha opção por uma especialidade que eu gosto realmente da clínica médica, então eu me sinto satisfeito de exercer clínica, que me dá prazer, eu acho que quando você faz as coisas com prazer você tende a ter mais satisfação”. “Eu me sinto orgulhoso em dizer que eu sou clínico, eu não acho que clínica é tão desvalorizada assim, eu acho que o bom clínico é valorizado. Entendeu?! Aquelas pessoas que se dedicam à clínica médica, eu acho que elas são valorizadas. E eu acho que o futuro da medicina está em voltar para a clínica médica, e não caminhar para as especialidades, porque o custo deste sistema baseado em especialidade é muito maior do que se você fizer a estrutura baseada em cima do clínico”. 19 “Ah! tem uma gama de situações que o paciente procura te agradecer, né?! Agora mesmo por exemplo eu acabei de ganhar uma lata de doce de leite, né?! O paciente disse: eu gostei muito da maneira que o sr. me atendeu daquela vez, o sr. foi muito doce, e eu me lembrei do doce de leite. Então como eu diria, são as recompensas que a gente tem como clínico. Por que ser clínico é difícil.” TABELA C - Fontes de insatisfação para atuar na clínica médica Respostas Remuneração Limitações sociais Desprestígio da sociedade Não tem TOTAL Número 04 03 01 01 09 % 44,5 33,3 11,1 11,1 100,0 Fonte: Dados da pesquisa (2007) Mediante a Tabela B ficou clara a insatisfação com a remuneração e as limitações sociais que envolvem o trabalho do médico clínico. O aprofundamento dessa questão nas entrevistas possibilitou verificar que, os médicos clínicos consideram que a remuneração do clínico não é feita de forma justa já que recebem por consulta, independente do tempo e de seu empenho naquela consulta. Existem pacientes que demandam um tempo maior de atendimento, isto principalmente no pronto atendimento. A relação feita por eles é que quanto mais tempo se dedicarem a um paciente, menor será a sua remuneração, já que ganham por volume/quantidade de consultas. Além disso, o apontamento das limitações sociais gera insatisfação no trabalho do médico clínico, que em certos casos se sente limitado a conduzir o tratamento do paciente, isto por falta de estrutura na área de saúde, bem como recursos financeiros para arcar com o tratamento, como, por exemplo, compra de medicamentos. Além disso, outros fatores são destacados pelos médicos no tange às fontes de insatisfação para atuar na clínica médica. Os comentários abaixo evidenciam com clareza esta questão: “Insatisfação é tudo. Dinheiro, remuneração, condição de trabalho, carga horária, desrespeito, desconsideração. A perda do status que o médico tinha, isto não é só o médico clínico, todos os médicos, né?! Esta a questão da indústria do processo médico, qualquer coisa que o médico faça, ele é processado. E saí na mídia como sendo um vilão, porque na realidade é uma estrutura social política e que estoura na mão médico. O cliente, o paciente não vai falar com o governo, isso aí ele vai falar com o médico. Esses que morrem em porta de SUS, 20 quando chega o jornal: médico não presta atendimento, doente morre na porta do SUS. Tenho a maior raiva disso. Tinha uma estrutura muito maior que isso, que estoura na mão do médico”. “Bom, acho que insatisfação é um certo desprestígio da sociedade hoje com a figura do clínico. Há uma tendência de se achar que só os especialistas né?! tem a primazia como a verdade, e isto é totalmente errôneo, né?! Eu acho que essa é minha crítica né?!”. “...Então, as pessoas hoje, diante destas mudanças todas, das mudanças da relação de trabalho, as pessoas estão com um nível de estresse muito alto, né?! E isso tudo se reflete na profissão médica, né?! Então, o nível de agressividade das pessoas hoje é muito alto, embora a grande maioria respeite o médico, a gente sabe que a verdade hoje é que a sociedade mudou e que grande parte das pessoas não respeitam nem pai e mãe, que o diga, médico, padre e os demais, né?! Então hoje em dia estas relações mudaram muito, né?! No Brasil também tem a cultura norte americana que está vindo pra cá, que é a cultura do processo, e quando eu falo isto, não é só na área médica não, é em qualquer área. ..... o nível de tolerância das pessoas com relação as adversidade é muito baixo, né?! E, isso muda muito as coisas, né?! Inclusive na profissão médica”. “E a dificuldade que o clínico ainda é mal remunerado, né?! Ás vezes um cirurgião ortopedista faz uma cirurgia ortopédica, uma coisa que demanda muito menos estudo que a gente, e tudo, e ganha às vezes um valor maior do que eu vou ganhar num plantão que eu vou atender 30 ou 40 pessoas, e vou salvar vidas, vou mandar gente para o CTI, então assim, eu acho que é ainda é mal remunerado”. Mediante os dados acima é possível identificar as principais fontes de satisfação e insatisfação do médico clínico e acredita-se uma maior valorização do médico clínico e utilização da tecnologia de forma verdadeiramente complementar cria-se perspectivas para uma maior reconstrução de uma prática médica em linhas mais humanísticas. A seguir serão apresentadas as considerações finais deste estudo. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo possibilitou identificar diversos aspectos relacionados à prática médica nos dias atuais por meio de cooperativa, com evidência de aspectos relacionados as fontes de satisfação e insatisfação no trabalho percebidas pelo médico clínico no 21 desempenho de suas funções em Pronto Atendimento, por meio de cooperativa. Os dados aqui obtidos permitiram uma significativa reflexão no que se refere ao profissional médico clínico em específico, bem como cria perspectivas para um olhar diferenciado ao negócio saúde no Brasil. Conforme apresentado, a prática médica tem sido realizada em um contexto que envolve multivariados desafios, o que conseqüentemente implica em um gerenciamento estratégico, profissional e eficaz, no que tange a consultórios médicos ou hospitais de grande porte. Enfim, permanece clara a idéia de que mesmo com as de cooperativas médicas, continuam os desafios no setor saúde e no exercício da profissão médica. E acredita-se que, desenvolver estratégias visando a maior valorização do médico pode representar uma diminuição do custo no serviço prestado, obter maior satisfação destes profissionais e, sobretudo garantir o atendimento das expectativas de todos os envolvidos nesse serviço. E há se ressaltar que o papel do médico clínico é determinante no resgate do verdadeiro propósito da medicina como arte e a ciência para promover, com sabedoria e amor, a saúde humana. REFERÊNCIAS COSTA, Augusto César de Farias. O médico, seu trabalho e sua saúde mental. Brasília: Conselho Federal de Medicina, Revista Ética, 2006. 22 DUPAS, Gilberto. O Mito do progresso: ou progresso como ideologia. São Paulo: Unesp, 2006. GRAÇA, Luiz. Satisfação profissional: o melhor do SNS somos nós. 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