A SATISFAÇÃO DO MÉDICO CLÍNICO NO EXERCÍCIO DE SUA
FUNÇÃO EM PRONTO ATENDIMENTO
Rozeli de Fátima Dutra1
RESUMO: A área de saúde tem sido influenciada por diversos fatores: crescimento
demográfico exagerado da população mundial, revolução nos costumes advinda da
globalização, enorme avanço da tecnologia na prevenção, no diagnóstico e no
tratamento de doenças, aumento da expectativa de vida, dentre outros fatores. Essa
realidade afeta a população em geral, os profissionais de saúde e os médicos, em
particular, especificamente sua satisfação com o trabalho exercido. Neste sentido,
analisar o grau de satisfação no trabalho do médico clínico pode ser um passo
necessário no resgate da humanização relação médico-paciente, e este é o objetivo
deste artigo. O presente estudo pode ser caracterizado como uma pesquisa
qualitativa, na qual por meio de entrevista semi-estrutura, foram analisadas e
diagnosticadas certas características do trabalho médico e levantados dados sobre a
satisfação do médico clínico no exercício de sua função em Pronto Atendimento, por
meio de cooperativa. Foram utilizados documentos para caracterização da
organização pesquisada e aprofundamento no entendimento da estruturação do
serviço. Participou dessa pesquisa uma amostra de nove médicos clínicos,
considerando o universo da pesquisa composto por doze médicos clínicos, atingiuse um percentual de 75% de entrevistados. Este estudo possibilitou identificar
diversos aspectos relacionados à prática médica nos dias atuais por meio de
cooperativa, com evidência de aspectos relacionados as fontes de satisfação e
insatisfação no trabalho percebidas pelo médico clínico no desempenho de suas
funções em Pronto Atendimento, por meio de cooperativa. Os dados aqui obtidos
permitiram uma significativa reflexão no que se refere ao profissional médico clínico
em específico, bem como cria perspectivas para um olhar diferenciado ao negócio
saúde no Brasil. Ficou claro que mesmo com as cooperativas médicas, continuam os
desafios no setor saúde e no exercício da profissão médica. E acredita-se que,
desenvolver estratégias visando a maior valorização do médico pode representar
uma diminuição do custo no serviço prestado, obter maior satisfação destes
profissionais e, sobretudo resgatar o verdadeiro propósito da medicina.
PALAVRAS CHAVES: Trabalho médico, cooperativa, satisfação no trabalho,
tecnologia, atendimento ao paciente.
1 INTRODUÇÃO
1
Mestrado em Administração.
Especialização em Coaching em Programação Neurolinguística.
Especialização em Gerência e Tecnologia da Qualidade.
Graduação em Administração Hospitalar.
5
A área de saúde tem sido influenciada por diversos fatores: crescimento
demográfico exagerado da população mundial, revolução nos costumes advinda da
globalização, enorme avanço da tecnologia na prevenção, no diagnóstico e no
tratamento de doenças, aumento da expectativa de vida, dentre outros fatores.
A despeito de ser considerada por muitos que nela atuam, uma atividade geradora
de orgulho, o trabalho na área de saúde é árduo, desenvolvido em regime de turnos
e plantões, abrindo perspectivas de duplos empregos e de jornadas de trabalho
prolongadas, sobretudo em meio a um cenário de constantes paradoxos: vida,
morte, alegrias, dores, sofrimento, perdas. Essa realidade afeta a população em
geral, os profissionais de saúde e os médicos, em particular, especificamente sua
satisfação com o trabalho exercido.
Segundo Maestro Filho (2004) os diversos enfoques adotados para o estudo do
tema satisfação no trabalho envolvem desde a sua relação com o ambiente
organizacional, até a questão da remuneração e do comportamento no trabalho,
sem deixar de considerar a influência do ambiente externo. Os aspectos
mencionados sobre a satisfação no trabalho mencionados por Maestro Filho (2004)
parecem convergir com a situação de trabalho a que está submetida os médicos e
os profissionais de saúde do Brasil.
Ao pretender-se estudar a satisfação no trabalho na área de saúde é importante
destacar que a prática médica tem sido realizada em um contexto que envolve
multivariados desafios, o que conseqüentemente implica em um gerenciamento
estratégico, profissional e eficaz, no que tange a consultórios médicos ou hospitais
de grande porte.
No tocante aos desafios enfrentados é possível citar que no passado o médico, ao
concluir o curso de medicina, tinha um espaço garantido de trabalho, em uma
estrutura bem menos complexa que nos dias atuais. Com o aumento da
complexidade e a caracterização do serviço como um negócio, o médico precisa
encontrar alguma alternativa para exercer a sua profissão de forma segura e
rentável.
6
Sabe-se que tem sido muito comum, no setor privado, ocorrer a prestação de
serviços por meio de cooperativas ou empresas médicas, enquanto no setor público
predomina a contratação de médicos de forma assalariada. Há de se notar que
independente da forma que se organiza o trabalho de um modo geral, a tendência
da atividade médica nos últimos tempos é muito peculiar.
Outro desafio importante a ser considerado está relacionado ao uso da tecnologia
médica. Na concepção de Pitta (2003), o hospital tem sido o local preferencial, onde
o avanço científico e tecnológico exibe maiores marcas, através da sofisticação de
técnicas e requintes de equipamentos, insumos e outros.
Dupas (2006) chama de medicalização, a dependência tecnológica da medicina.
Para ele o imperativo da medicalização está ligado estreitamente à lógica de retorno
do investimento da indústria do setor saúde, que ele considera como sendo: a
indústria farmacêutica e de equipamentos médicos, os complexos hospitalares e as
áreas afins.
Além do trabalho médico mostrar-se organizado de forma capitalista, valorizando a
tecnologia e a especialização das funções, ainda expõe este profissional à dor, ao
sofrimento, à doença e à morte do outro. Assim sendo, é possível acreditar que
atuar nessas condições pode desencadear sofrimento e insatisfação no exercício da
profissão.
Acredita-se que todos estes desafios podem representar conseqüentemente uma
ameaça ao médico clínico que necessariamente terá que buscar meios diversos
para exercer sua função com dignidade, remuneração justa e quiçá obter satisfação
por meio da realização deste trabalho. E esta simples discussão pode abrir espaço
para questionarmos o grau de satisfação no trabalho destes profissionais.
Outro aspecto fundamental é que o sistema de saúde no Brasil passa por uma
profunda crise, levando a crer que estudar aspectos relacionados ao trabalho dos
7
principais atores desse cenário contribuirá para um melhor entendimento das
condições de trabalho destes profissionais. Neste sentido, analisar o grau de
satisfação no trabalho do médico clínico pode ser um passo necessário no resgate
da humanização relação médico-paciente, e este é o objetivo deste artigo.
A escolha do médico clínico pode ser justificada devido ao fato de que a tecnologia
na área de saúde vem tornando a prática médica bastante especializada, levando os
pacientes a optarem por médicos com maior especialização e domínio de tecnologia.
Assim, o trabalho do médico clínico parece ser especialmente impactado por uma
limitação de área de atuação, uma vez que a sua função é generalista por natureza.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
O principal objetivo dessa seção é apresentar considerações sobre a satisfação no
trabalho e o trabalho médico. Esses dois pólos serão desdobrados com abordagem
de aspectos concernentes a cada um.
2.1 A satisfação no trabalho
O tema satisfação no trabalho ganha atenção em diversas áreas de atuação e
muitos o consideram como fator determinante de sucesso para uma organização.
Quando se fala em satisfação no trabalho cria-se perspectivas para a análise das
condições de trabalho, relações de trabalho, remuneração, enfim, a forma que o
trabalho está organizado e o quanto isto pode impactar na felicidade e dignidade
humana.
Na perspectiva de Graça (1999) a satisfação no trabalho resulta da avaliação
periódica que um indivíduo faz de forma instantânea e empírica do grau de
realização
dos
seus
valores,
necessidades,
preferências
e
expectativas
profissionais. Este mesmo autor menciona que o grau de satisfação é resultante da
discrepância existente entre as expectativas (E) e os resultados (R). Assim então é
8
possível medir o grau de satisfação, devendo considerar-se que quanto maior for a
discrepância E e R (medida pela diferença entre essas duas variáveis), maior será o
grau de satisfação. E por outro lado, quanto maior for a discrepância (E > R), menor
será o grau de satisfação, já que as expectativas estão em nível superior à
capacidade de realização do trabalhador. E isto poderá gerar uma certa cobrança
por parte da organização, influenciando negativamente no grau de satisfação.
Sobre este aspecto Sant`Anna (2002) considera que a satisfação no trabalho tende
a ter potenciais implicações e/ou impactos sobre a saúde e bem-estar dos
funcionários, principalmente no que se refere aos níveis de estresse ocupacional e
qualidade de vida no trabalho. Este autor observa que as organizações têm atentado
para as conseqüências da satisfação no trabalho, que se constitui num elemento
determinante da avaliação da qualidade, além de ter implicações, também sobre a
eficiência,
produtividade,
qualidade
das
relações
de
trabalho,
níveis
de
absenteísmo/turnover, comprometimento organizacional, etc.
Maestro Filho (2004), defende a idéia de que os estudos e pesquisas sobre a
satisfação no e com trabalho depende simultaneamente de fatores contextuais e de
variáveis de conteúdo. Na visão deste autor o que se tem observado em relação aos
estudos mais recentes sobre a satisfação no trabalho é uma concentração em torno
da análise de suas implicações sobre variáveis consideradas periféricas como, por
exemplo, o comprometimento organizacional, estresse ocupacional, motivação,
entre outros.
Vários modelos propostos para a mensuração da satisfação no trabalho apresentam
lacunas conceituais, já que excluem do seu contexto de análise variáveis que afetam
significativamente o conjunto de características da tarefa. (MAESTRO FILHO 2004)
Apresenta-se abaixo parte da visão sinóptica dos principais trabalhos realizados
sobre o tema satisfação no e com o trabalho no Brasil conforme Maestro Filho
(2004).
QUADRO 1 – Alguns dos principais estudos e pesquisas sobre satisfação
realizados no Brasil
9
Autores
Objetivos – Metodologia do trabalho
Resultados obtidos
Compreender junto a profissionais
médicos, os significados do desejo de
ser médico e sua satisfação com o
trabalho. Pesquisa qualitativa, estudo
de multicasos com entrevistas semiestruturadas em profundidade. Amostra
de 25 médicos que atuam em Santa
Catarina nas áreas de pediatria, clínica
médica, cirurgia, ginecologia/obstetrícia
e saúde pública.
Emergiram fatores limitantes de
satisfação com o trabalho: a dificuldade
em lidar com o paciente, a
desvalorização profissional, a
disseminação do saber médico, as
dificuldades em selecionar informações,
o excesso de carga de trabalho e
prejuízo da qualidade de vida.
Levantar quais são os fatores que
causam satisfação e insatisfação no
trabalho dos professores em estágio
intermediário de carreira (seis a doze
anos) e como esses fatores interferem
em suas práticas pedagógicas.
Pesquisa qualitativa de natureza
interpretativa. Amostra intencional de
14 participantes. Utilização de
entrevistas semi-estruturadas.
Os resultados apontaram os fatores de
trabalho em si e progresso como os
principais responsáveis pela satisfação
no trabalho. O fator salário seguido do
fator participação são aqueles que mais
contribuem para a insatisfação dos
professores.
Santos Júnior,
Aldo A. e
Zimmermann
Raquel (2002)
Diagnosticar a QVT e o grau de
satisfação no e como o trabalho dos
funcionários da Empresa Brasileira de
Correios e Telégrafos (Região
operacional 08 – Santa Catarina).
Pesquisa exploratória, análise
qualitativa.
Os resultados indicaram que as
agências da ECT apresentam
funcionários insatisfeitos com relação ao
indicador econômico.
As agências de Itajaí e Jaraguá do Sul
apresentaram baixa satisfação quanto
aos indicadores político e sociológico e
uma delas apresentou baixa satisfação
em todos os indicadores de QVT.
Maciel,
Ticiana R.
Santos (2002)
Estudar o grau de satisfação no
trabalho, opinião sobre as condições de
trabalho e seus impactos no sentimento
de satisfação de funcionários de uma
unidade de alimentação e nutrição
hospitalar.
Verificou-se que o grau de satisfação no
trabalho da amostra é médio se for
considerado como uma perspectiva
positiva. Verificou-se, também, que as
condições de trabalho na unidade fato
interferem no sentimento de satisfação
de seus funcionários.
Analisar o grau de satisfação dos
operadores de uma empresa de
telemarketing como filial no Rio Grande
do Sul, enfatizando o sistema de
pausas para descanso no trabalho.
Utilização da observação direta,
entrevista e questionários aplicados em
17 teleoperadores dos três turnos de
trabalho.
Constatou-se que o sistema de pausas
utilizado pela empresa (pausa particular
de cinco minutos) não satisfaz as
necessidades dos funcionários, não é
compatível com a natureza da sua
atividade e não atende os dispositivos do
Ministério do Trabalho e não contribui
para a satisfação no trabalho.
Grosseman,
Suely
e
Patrício,
Zuléika Maria
(2001)
Regiani, Maria
Cláudia (2002)
Peres, Cláudio
Cezar (2003)
Fonte: Maestro Filho (2004)
...continua
Araldi, Dane
Estudar questões ergonômicas,
qualidade de vida no trabalho e o grau
Os resultados revelaram que o item de
maior insatisfação dos funcionários dos
10
Block (2004)
de satisfação com o trabalho. Estudo
quali-quantitativo. Pesquisa de campo
com 19 funcionários do setor de lavoura
e estiva de São Sepé (SP). Utilização
de entrevistas, observações e
questionários.
dois setores foi a questão da saúde. A
QVT foi o item de maior satisfação.
Costa, Sílvia
Generali e
Santos,
Francisco
Araújo (2004)
Discutir a Teoria Flow (aspectos
intrínsecos da motivação) como uma
contribuição para o estudo da
satisfação no trabalho.
Contextualização teórica.
O estudo permitiu compreender as
origens da teoria Flow e buscou inseri-la
no contexto das demais teorias
motivacionais.
Fonte: Maestro Filho (2004)
O quadro 1 apresenta apenas sete das vinte pesquisas nacionais realizadas sobre o
tema satisfação no e com o trabalho no Brasil, apresentadas por Maestro Filho
(2004), todas realizadas no período de 2000 a 2004. De acordo com Maestro Filho
(2004) nestas pesquisas predominam os estudos de caráter descritivo, com ênfase
em diagnósticos específicos. A maioria destes estudos não permite generalizações
de seus resultados, isto considerando a amostragem, características específicas das
unidades de observação e análise, dentre outros aspectos, contudo é possível
perceber que os resultados sinalizam para uma discrepância entre expectativas e
resultados.
Na perspectiva de Maestro Filho (2004) a maioria dos estudiosos do tema satisfação
no trabalho e com o trabalho reconhece a impossibilidade de elaborar um modelo de
mensuração que contemple a gama completa de variáveis intervenientes na
satisfação no trabalho. Esse aspecto reforça a idéia de que estudos nesse campo
são desafiadores.
Finalmente ainda enfocando Maestro Filho (2004, p. 96)
Apesar de concordar com o fato de que a satisfação no trabalho decorre de
uma série de variáveis de contexto aliadas a influências ambientais e fatores
associados ao conteúdo do trabalho em si, vários autores reconhecem que o
principal determinante do grau de satisfação no trabalho é o seu conteúdo.
A literatura deixa claro que os estudos sobre o tema satisfação no trabalho estão
relacionados com questões internas da organização, contudo é possível acreditar
que este tema engloba também aspectos econômicos e políticos.
11
2.2 O Trabalho médico
Segundo Mendes (1984, p. 30) a medicina científica ou “o sistema médico do capital
monopolista” se institucionalizou por meio da união orgânica entre o capital, a
corporação médica e as universidades. Na visão do autor esse novo paradigma
determinou mudanças significativas nos propósitos, nos recursos e nos agentes da
medicina. Representa assim, uma configuração de um marco conceitual que passou
a referenciar a prática e a educação médica.
Na perspectiva de Mendes (1984), o novo paradigma da medicina científica ou
flexneriana expressa um conjunto de elementos estruturais que coexistem, se
complementam e se potenciam, a fim de direcionar a prática médica. Esses
elementos
são
os
seguintes:
mecanicismo,
biologismo,
individualismo,
especialização, exclusão de práticas alternativas, tecnificação do ato médico, ênfase
na medicina curativa e concentração de recursos.
O crescimento exponencial do conhecimento médico influencia a especialização,
embora este processo tenha ocorrido também por outras razões. Numa perspectiva
ideológica, em função do mecanismo que impôs a parcialização abstrata do objeto
global, e segundo um paradoxo que aprofunda o conhecimento específico e que
atenua o conhecimento holístico. Numa perspectiva econômica, a especialização
decorreu da necessidade da acumulação do capital que exigiu a fragmentação do
processo de produção e do produtor, via divisão técnica do trabalho. (MENDES,
1984).
A despeito de a medicina tecnológica criar perspectivas de que qualquer problema
de saúde pode ser resolvido, Dupas (2006 p. 177) afirma que “as vítimas não
morrem mais nas ruas, como nas epidemias antigas, mas em hospitais muito
sofisticados, tratadas por equipamentos de milhões de dólares”.
Martins (2003) alerta ainda que vive-se em um momento de ruptura entre a medicina
oficial e a medicina moderna. O autor ressalta que essa ruptura surge a partir de
fortes tensões contraditórias entre as duas principais tendências presentes, desde
12
algumas décadas. E explica que uma tendência é de desumanização/tecnização e a
outra, de reumanização dos modelos médicos. E este mesmo autor afirma,
privatização da medicina oficial promove grandes lucros para alguns, e gera custos
elevados para a sociedade como um todo.
Na visão de Ramos (1995) na sociedade capitalista há uma mercantilização da
saúde que elevada à categoria de um bem privado, tende a tornar os serviços
acessíveis somente às classes mais abastadas. Situação que pode ser observada
no contexto brasileiro, onde a saúde privada é considerada privilégio da minoria.
Segundo Martins (2003, p. 188):
O horror do cidadão em geral – candidato em potencial a doente/consumidor
– de cair nas garras dos hospitais e médicos particulares constitui um bom
exemplo. A perspectiva de vivência de um sofrimento dobrado (pelo
padecimento do corpo e pelo esvaziamento do bolso, muitas vezes com o
comprometimento do patrimônio familiar) já constitui em si uma fonte de
doença.
Fica claro que a corrente da medicina moderna está contribuindo para que os
médicos sejam assalariados em função de objetivo de lucro, com busca de
estratégias que permitam ganho econômico com menos tempo de trabalho. De outro
lado, encontra-se a crescente desconfiança dos usuários destes serviços.
No tocante a outro aspecto que retrata a realidade do trabalho médico nos dias
atuais, Costa (2006) menciona uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de
Medicina (CFM) de 1999 a 2004 (levantamento nacional e por região), que
confirmou o quanto é desgastante o trabalho médico.
Os principais fatores de desgaste assinalados na pesquisa foram excesso de
atividades com multiemprego, a baixa remuneração, as más condições de trabalho,
a responsabilidade, a área de atuação (especialidade), os conflitos na relação
médico-paciente (cobrança da população) e a perda da autonomia.
13
Costa (2006) destaca que esse complexo conjunto se reflete no comportamento
ético do médico na relação médico-paciente, médico-sociedade e na relação
médico-médico, repercutindo adicionalmente em seu estilo de vida e em sua saúde.
Tais citações nos levam a crer que a prática médica faz parte de um círculo vicioso
em meio a um sistema capitalista. Trabalha-se cada vez mais pela supremacia do
capital, enquanto aspectos essenciais da profissão são deixados de lado, gerando
seqüelas para o profissional e para o paciente.
Frente a estes aspectos, o médico sente-se compelido a trabalhar arduamente, e
muitos o fazem em detrimento de relacionamento familiar, ou até mesmo perdas
(cônjuges, parceiros, etc).
Na perspectiva de Reich (2002) há um aspecto da nova economia que faz as
pessoas trabalharem mais: são as disparidades entre renda e riqueza que se
ampliaram durante as últimas décadas. Somado a isso, a sociedade ainda considera
que a profissão médica confere status ao indivíduo, contudo manter esta posição
social nos dias atuais tem custado muito caro para os profissionais médicos.
Com o passar do tempo, a prática médica e a medicina na vida do paciente sofreu
grandes transformações. Antes o médico clínico fazia diagnósticos e prognósticos,
usando o faro clínico e a experiência sem recursos adequados para confirmar-lhe ou
não sua opinião. Segundo Ismael (2005), a partir da metade do século XX, essas
mudanças são caracterizadas por diversos fatores, dentre eles a proliferação de
superespecializações na medicina, que tende a aumentar com a descoberta de
novas tecnologias.
E finalmente Dupas (2006, p. 190), expõe que
a medicina contemporânea entra com seu arsenal de “mísseis e bazucas”
muito eficientes, mas exterminadores de “bons e maus”. À custa, portanto,
sempre de efeito colaterais. Esse arsenal pode salvar muitas vidas – o que
não é pouco -, mas também pode matar com freqüência. ...no seu campo
restrito saberá muito. Mas, no campo geral do “ser”, saberá cada vez menos
por ser um não generalista.
14
Por outro lado, ao longo dos tempos percebe-se que diversas foram as iniciativas na
área da saúde a fim de garantir a dignidade dos que ali trabalham. Uma delas são as
cooperativas de trabalho médico, que surgiram como imperativo ético, partindo do
princípio que não deve haver intermediário na relação médico-paciente e que essa
relação é um vínculo único, exclusivo, que não permite interferências de qualquer
espécie.
No Brasil, o cooperativismo iniciou-se no final do século XIX, principalmente no meio
rural. Atualmente, é regulamentado por leis especiais e representado pela
Organização das Cooperativas do Brasil – OCB, que exerce o papel de
representação nacional do cooperativismo na defesa dos interesses de suas
associadas. A primeira cooperativa de trabalho médico brasileira foi fundada em
1967 e recebeu o nome UNIMED, que significa “União de Médicos”.
Nesse cenário, acredita-se que a idéia cooperativista promete a possibilidade de
uma medicina alternativa entre a socializada e a liberal, sem ferir os princípios éticos
preconizados pelas entidades médicas. Assim, a forma cooperativa oferece as
possibilidades que atendam aos anseios dos médicos e dos pacientes.
A cooperativa é ainda, uma forma de organização de trabalho que também visa
enfrentar a concorrência, aumentar a produtividade, diminuir custos, expandir o grau
de especialização, dentre outros fatores.
Assim, fica claro que o propósito principal de uma cooperativa médica é suprimir
intermediação ou negociadores do trabalho do médico, permitindo organização entre
os próprios médicos para firmar contratos de prestação de serviços e atender
diretamente os clientes. Sem finalidade lucrativa e de propriedade coletiva, o seu
principal objetivo deve ser ainda a defesa econômica e social dos médicos
cooperados, ao gerar oportunidades de trabalho e renda para seus associados.
Nesse cenário representado por uma medicina moderna, com extrema valorização
da tecnologia e especialização, com novas alternativas de trabalho é que se
investigou a satisfação no trabalho do médico clínico.
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3 METODOLOGIA
No tocante a metodologia, o presente estudo pode ser caracterizado como uma
pesquisa qualitativa, por meio de entrevista semi-estrutura, foram analisadas e
diagnosticadas certas características do trabalho médico e levantados dados sobre a
satisfação do médico clínico no exercício de sua função em Pronto Atendimento, por
meio de cooperativa médica. Para complementar a estratégia de levantamentos de
dados, foram utilizados documentos para caracterização da organização pesquisada
e aprofundamento no entendimento da estruturação do serviço. Participou dessa
pesquisa uma amostra de nove médicos clínicos, considerando o universo da
pesquisa composto por doze médicos clínicos, atingiu-se um percentual de 75% de
entrevistados.
4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Apresentam-se abaixo os dados das entrevistas realizadas que tem como objetivo o
resumo das observações coletadas, a fim de atingir a proposta deste estudo.
Cabe esclarecer que as entrevistas foram realizadas pela própria pesquisadora que
seguiu um roteiro de entrevista semi-estruturada. As entrevistas foram gravadas e
posteriormente transcritas. Todo o material das entrevistas encontra-se nos arquivos
dessa pesquisadora, digitadas textualmente em Word, bem como em sistema de
áudio MP3 e WAP.
4.1 Análise descritiva das variáveis demográficas e ocupacionais
Participou dessa pesquisa uma amostra de nove médicos clínicos, considerando o
universo da pesquisa composto por doze médicos clínicos, atingiu-se um percentual
de 75% de entrevistados.
16
Em relação ao sexo predomina o sexo masculino com 78% e apenas 22% para o
sexo feminino.
Em termos de faixa etária, a maioria dos médicos pesquisados tem de 35 a 44 anos
de idade (66,7%). Compõem o percentual restante, 11,1% de médicos com idade de
45 a 50 anos e 22,2% numa faixa etária acima dos 50 anos.
No que se refere ao tempo como cooperado, houve variação de 2 anos a 20 anos,
sendo que a média foi de 11 anos e 2 meses.
Já quanto ao tempo de serviço no Pronto Atendimento, houve variação de 1 mês a 8
anos, sendo que a média foi de 3 anos e 11 meses.
No que concerce ao número de especializações, encontrou-se o seguinte:
a) 55,6% dos médicos possuem uma especialização médica além da clínica médica;
b) 33,3% dos médicos possuem duas especialidades médicas além da clínica
médica;
c) 11,1% dos médicos possuem três especialidades médicas além da clínica médica.
Percebe-se que é grande a busca por especializações na área médica. Para a
grande maioria dos médicos entrevistados a primeira especialização foi na clínica
médica. É possível acreditar que a alta procura pela especialização esteja
relacionada a maiores oportunidades de trabalho e conseqüentemente melhor
remuneração.
No que tange ao estado civil obteve-se que 44,5% são divorciados, 33,3% são
casados e os restantes 22,2% são solteiros.
No que se refere a quantidade de inserções no mercado além do Pronto
Atendimento, todos os médicos possuem outras inserções. A maior proporção
(77,8%) possui duas outras inserções e 22, 2% alegaram possuir três outras
inserções.
17
Mediante este dado fica claro o excesso de carga de trabalho vivenciado por esses
médicos, o que poderá comprometer sua saúde física e emocional e impactar na sua
satisfação com o trabalho e na qualidade do atendimento que prestam ao paciente.
4.2 Resultados sobre a satisfação do médico clínico
A seguir apresentam-se as respostas obtidas nas entrevistas. As respostas dos
entrevistados foram organizadas de forma a permitir sua quantificação. O principal
objetivo desta organização e classificação foi facilitar a análise dos dados, que assim
podem ser vistos de forma conjunta. A partir de cada pergunta e respectiva resposta
apresentada de forma classificada, segue uma breve análise para facilitar o
entendimento do leitor, conforme abaixo.
Tabela A - Expectativa ao ingressar na cooperativa
Respostas
Maior oportunidade de atendimento
Grande número de pacientes
Ampliar mercado de trabalho
Fonte segura de pagamento
Exercer profissão de forma digna e honesta
Aumento de renda e melhor qualidade de vida
Ser dono do negócio
TOTAL
Freqüência
Absoluta
01
05
02
01
01
01
03
14
Fonte: Dados da pesquisa (2007)
Os resultados acima sugerem que apesar de o trabalho por meio de cooperativa
criar perspectivas para que o médico seja dono do próprio negócio não são todos
que se filiam a este sistema de trabalho com esta expectativa. Fica claro que a maior
expectativa do médico ao ingressar na cooperativa é ter acesso ao seu volume de
clientes, bem como maior possibilidade de obter maior remuneração, e de forma
segura.
Na Tabela A os dados numéricos são referentes apenas à freqüência absoluta, já
que neste caso existem mais de uma resposta para cada pergunta, desta forma a
freqüência relativa não fecharia em 100%, se comparada ao número de
entrevistados.
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TABELA B - Fontes de satisfação para atuar na clínica médica
Respostas
Gostar de ser clínico
Contato com o cliente
Evolução e cura do paciente
Bom volume de atendimento
Medicina vista como promoção da saúde
Isto é romantismo
TOTAL
Número
04
01
01
01
01
01
09
%
44,5
11,1
11,1
11,1
11,1
11,1
100,0
Fonte: Dados da pesquisa (2007)
Observa-se conforme Tabela B que a principal fonte de satisfação está relacionada
ao fato dos pesquisados gostarem de ser médicos clínicos. Em seguida surgiram
afirmações relacionadas ao aspecto positivo de se ter contato com cliente e obter
sua evolução e cura. Um dos médicos afirma que o bom volume de atendimento, no
caso se referiu ao fato de ter bom número de pacientes, é um fator que gera
satisfação. Outro médico afirma que fica muito satisfeito com a visão da medicina
com atuação na promoção da saúde da paciente. Contudo um médico manifestou-se
em forma de crítica a questão da satisfação ao afirmar que “isto é romantismo”. O
comentário de alguns médicos esclarecem um pouco mais sobre as fontes de
satisfação:
“Fonte de satisfação é o romantismo, não tem outra. Não tem outra,
idealismo e romantismo.”
“Bom, fontes de satisfação, eu me sinto, eu sou meio suspeito de falar,
porque eu me sinto orgulhoso de ser clínico, quando eu fiz a opção de
largar a anestesia, a princípio financeiramente foi pior no começo,
porque a anestesia é uma especialidade mais rentável, mas eu fiz a
minha opção por uma especialidade que eu gosto realmente da clínica
médica, então eu me sinto satisfeito de exercer clínica, que me dá
prazer, eu acho que quando você faz as coisas com prazer você tende
a ter mais satisfação”.
“Eu me sinto orgulhoso em dizer que eu sou clínico, eu não acho que
clínica é tão desvalorizada assim, eu acho que o bom clínico é
valorizado. Entendeu?! Aquelas pessoas que se dedicam à clínica
médica, eu acho que elas são valorizadas. E eu acho que o futuro da
medicina está em voltar para a clínica médica, e não caminhar para as
especialidades, porque o custo deste sistema baseado em
especialidade é muito maior do que se você fizer a estrutura baseada
em cima do clínico”.
19
“Ah! tem uma gama de situações que o paciente procura te agradecer,
né?! Agora mesmo por exemplo eu acabei de ganhar uma lata de doce
de leite, né?! O paciente disse: eu gostei muito da maneira que o sr.
me atendeu daquela vez, o sr. foi muito doce, e eu me lembrei do doce
de leite. Então como eu diria, são as recompensas que a gente tem
como clínico. Por que ser clínico é difícil.”
TABELA C - Fontes de insatisfação para atuar na clínica médica
Respostas
Remuneração
Limitações sociais
Desprestígio da sociedade
Não tem
TOTAL
Número
04
03
01
01
09
%
44,5
33,3
11,1
11,1
100,0
Fonte: Dados da pesquisa (2007)
Mediante a Tabela B ficou clara a insatisfação com a remuneração e as limitações
sociais que envolvem o trabalho do médico clínico. O aprofundamento dessa
questão nas entrevistas possibilitou verificar que, os médicos clínicos consideram
que a remuneração do clínico não é feita de forma justa já que recebem por
consulta, independente do tempo e de seu empenho naquela consulta. Existem
pacientes que demandam um tempo maior de atendimento, isto principalmente no
pronto atendimento. A relação feita por eles é que quanto mais tempo se dedicarem
a
um
paciente,
menor
será
a
sua
remuneração,
já
que
ganham
por
volume/quantidade de consultas. Além disso, o apontamento das limitações sociais
gera insatisfação no trabalho do médico clínico, que em certos casos se sente
limitado a conduzir o tratamento do paciente, isto por falta de estrutura na área de
saúde, bem como recursos financeiros para arcar com o tratamento, como, por
exemplo, compra de medicamentos. Além disso, outros fatores são destacados
pelos médicos no tange às fontes de insatisfação para atuar na clínica médica. Os
comentários abaixo evidenciam com clareza esta questão:
“Insatisfação é tudo. Dinheiro, remuneração, condição de trabalho,
carga horária, desrespeito, desconsideração. A perda do status que o
médico tinha, isto não é só o médico clínico, todos os médicos, né?!
Esta a questão da indústria do processo médico, qualquer coisa que o
médico faça, ele é processado. E saí na mídia como sendo um vilão,
porque na realidade é uma estrutura social política e que estoura na
mão médico. O cliente, o paciente não vai falar com o governo, isso aí
ele vai falar com o médico. Esses que morrem em porta de SUS,
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quando chega o jornal: médico não presta atendimento, doente morre
na porta do SUS. Tenho a maior raiva disso. Tinha uma estrutura muito
maior que isso, que estoura na mão do médico”.
“Bom, acho que insatisfação é um certo desprestígio da sociedade hoje
com a figura do clínico. Há uma tendência de se achar que só os
especialistas né?! tem a primazia como a verdade, e isto é totalmente
errôneo, né?! Eu acho que essa é minha crítica né?!”.
“...Então, as pessoas hoje, diante destas mudanças todas, das
mudanças da relação de trabalho, as pessoas estão com um nível de
estresse muito alto, né?! E isso tudo se reflete na profissão médica,
né?! Então, o nível de agressividade das pessoas hoje é muito alto,
embora a grande maioria respeite o médico, a gente sabe que a
verdade hoje é que a sociedade mudou e que grande parte das
pessoas não respeitam nem pai e mãe, que o diga, médico, padre e os
demais, né?! Então hoje em dia estas relações mudaram muito, né?!
No Brasil também tem a cultura norte americana que está vindo pra cá,
que é a cultura do processo, e quando eu falo isto, não é só na área
médica não, é em qualquer área. ..... o nível de tolerância das pessoas
com relação as adversidade é muito baixo, né?! E, isso muda muito as
coisas, né?! Inclusive na profissão médica”.
“E a dificuldade que o clínico ainda é mal remunerado, né?! Ás vezes
um cirurgião ortopedista faz uma cirurgia ortopédica, uma coisa que
demanda muito menos estudo que a gente, e tudo, e ganha às vezes
um valor maior do que eu vou ganhar num plantão que eu vou atender
30 ou 40 pessoas, e vou salvar vidas, vou mandar gente para o CTI,
então assim, eu acho que é ainda é mal remunerado”.
Mediante os dados acima é possível identificar as principais fontes de satisfação e
insatisfação do médico clínico e acredita-se uma maior valorização do médico clínico
e utilização da tecnologia de forma verdadeiramente complementar cria-se
perspectivas para uma maior reconstrução de uma prática médica em linhas mais
humanísticas.
A seguir serão apresentadas as considerações finais deste estudo.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo possibilitou identificar diversos aspectos relacionados à prática médica
nos dias atuais por meio de cooperativa, com evidência de aspectos relacionados as
fontes de satisfação e insatisfação no trabalho percebidas pelo médico clínico no
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desempenho de suas funções em Pronto Atendimento, por meio de cooperativa. Os
dados aqui obtidos permitiram uma significativa reflexão no que se refere ao
profissional médico clínico em específico, bem como cria perspectivas para um olhar
diferenciado ao negócio saúde no Brasil.
Conforme apresentado, a prática médica tem sido realizada em um contexto que
envolve multivariados desafios, o que conseqüentemente implica em um
gerenciamento estratégico, profissional e eficaz, no que tange a consultórios
médicos ou hospitais de grande porte.
Enfim, permanece clara a idéia de que mesmo com as de cooperativas médicas,
continuam os desafios no setor saúde e no exercício da profissão médica. E
acredita-se que, desenvolver estratégias visando a maior valorização do médico
pode representar uma diminuição do custo no serviço prestado, obter maior
satisfação destes profissionais e, sobretudo garantir o atendimento das expectativas
de todos os envolvidos nesse serviço. E há se ressaltar que o papel do médico
clínico é determinante no resgate do verdadeiro propósito da medicina como arte e a
ciência para promover, com sabedoria e amor, a saúde humana.
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a satisfação do médico clínico no exercício de sua função em pronto