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UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
FACULDADE INTEGRADA AVM
PSICOMOTRICIDADE: O CORPO E SUA EXPRESSIVIDADE
Por: Ilza Maria Pontes de Lima
Orientadora:
Profª. Ms. Fátima Alves
Rio de Janeiro
2011
2
UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
FACULDADE INTEGRADA AVM
PSICOMOTRICIDADE: O CORPO E SUA EXPRESSIVIDADE
Apresentação
de
Candido
Mendes
obtenção
do
monografia
como
grau
à
requisito
de
Psicomotricidade.
Por: Ilza Maria Pontes de Lima.
Universidade
parcial
para
especialista
em
3
AGRADECIMENTOS
A todos que contribuíram para eu
chegar até aqui, em especial, aos meus
mestres queridos: Simone e Fátima
Alves.
4
DEDICATÓRIA
Aos meus pais pelo incentivo e apoio
que sempre me deram aos estudos.
5
RESUMO
O objetivo deste estudo é refletir sobre a psicomotricidade: o corpo e
sua expressividade, com intuito de uma ação prazerosa, tendo o toque como
um dos pontos importantes da psicomotricidade para o desenvolvimento da
capacidade sensitiva. O foco é observar as diferentes formas expressivas das
mulheres na academia de ginástica localizada; e identificar como elas se
relacionam com suas expressões corporais, e também na dança, quando
convidadas a descontraírem, após as aulas, sem a pretensão de alcançar
resultados específicos. Para atingir tal objetivo, a metodologia aplicada foi à
qualitativa pautada nos fundamentos da psicomotricidade, apoiados nas áreas
básicas da imagem do corpo, aliado a um trabalho de campo, por meio de um
questionário com perguntas abertas, com alunas de uma academia, de
pequeno porte. Concluiu-se que não se pode entender a psicomotricidade, em
sua totalidade (pensamento, movimento e afetividade), se não se levar em
conta fatores de ordem emocional (experiências vividas no mundo exterior e as
que são internalizadas, gerando construção do mundo interior de cada um). E
que hoje, a prática de atividade física está ligada à perspectiva social da cultura
e qualidade de vida.
6
METODOLOGIA
A metodologia a ser utilizada para este estudo é a abordagem
qualitativa por partir do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o
mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto,
um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito. O
objeto não é um dado inerte e neutro; está possuído de significados e relações
que os sujeitos concretos criam em suas ações. (TAVARES, 2003, p.40-41).
O cenário do estudo será uma academia de pequeno porte, localizada
no município Rio de Janeiro. Possui atividades como: ginástica localizada,
aeróbica, musculação, aero-jump, alongamento, dança de salão, dança do
ventre, lutas dentre outras atividades.
Será elaborado um roteiro de perguntas contendo questões abertas
sobre o trabalho desenvolvido na academia junto a alunas que participam das
aulas de ginástica localizada e dança.
Os sujeitos do estudo são pessoas que fazem parte do cenário do
estudo: grupo de alunas da academia que fazem ginástica localizada e dança.
Observar a expressividade do corpo dessas alunas e, as respostas dos
questionamentos. O grupo escolhido será o informante-chave deste estudo,
para conseguir levantar qual a visão que esse grupo possui do tema em pauta,
e como vêm lidando com o corpo em seu cotidiano, depois de terem entrado
para o grupo de ginástica localizada, acompanhada de dança.
7
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
08
CAPÍTULO I - Conhecendo a Psicomotricidade: um breve estudo
15
CAPÍTULO II - A Psicomotricidade Relacional
22
CAPÍTULO III – Corporeidade: um novo olhar
30
CONCLUSÃO
48
ANEXOS
52
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
56
OUTROS SITES CONSULTADOS
64
ÍNDICE
65
FOLHA DE AVALIAÇÃO
66
8
INTRODUÇÃO
Se a psicomotricidade baseia-se na relação de componentes como:
pensamento, movimento e afetividade e, as academias, repletas de seres
humanos que também buscam o equilíbrio entre estes componentes, mesmo
que inconscientemente, nas aulas de ginástica localizada, musculação, dança
dentre outras. Desse modo, de que forma a psicomotricidade contribui com o
sujeito em seu processo de conhecimento corporal visando o seu equilíbrio?
A psicomotricidade chegou ao Brasil na década de 80, dando início
uma era científica, para “auxiliar e capacitar o indivíduo através do seu
desenvolvimento motor”. (ALVES, 2003, p.9).
Pensando nisso, as academias que surgiram na década de 80, como
uma febre do bem-estar físico, tornou-se mania mundial. Levou ao boom das
academias de ginástica e musculação. Parecia um modismo, persiste até hoje.
No entanto, dando ênfase com o fim de moldar o corpo. Essa ênfase produz
pessoas desequilibradas, entre o corpo e o intelecto. E assim, perde-se a
conexão com o corpo: tato e inteligência de discriminar; olfato e respiração;
visão e compreensão do mundo; audição e sentimentos sonoros; paladar e
experiência cultural (MONTAGU, 1998). Séculos de negação reduziram a
experiência corporal, toda a sua riqueza e sensualidade, a algo mecânico.
Neste estudo, a atenção estará voltada à psicomotricidade, por
apresentar um novo olhar para atividades que ocorrem em academias, como
ginástica localizada e dança, podendo obter um resultado integrado do
indivíduo. Ou seja, estimular a capacidade sensorial das pessoas adultas, que
fazem academia, uma nova prática e maneira de fazer exercícios, enquanto
corpo sensitivo, desfrutar o prazer corporal em sua relação consigo mesmo e
com o mundo, possibilitarem a se comunicarem, aprenderem e sentirem
melhores.
Apesar de
não
existirem
trabalhos
específicos
que
trate da
psicomotricidade em academias, mas ela está presente nos exercícios físicos,
9
“no toque, como forma de aproximação das pessoas” (Alves, 2003, p.137).
Aliás, encontram-se referências de trabalhos realizados em Educação Física,
Clínica (reeducação, terapia), consultoria e supervisão, além disso, a
psicomotricidade, aos poucos, está se caracterizando não apenas como um
trabalho reeducativo, mas também, técnica instrumental que dá vez à
globalidade
corporal,
dando
importância
a
relação,
a
emoção
e
a
afetividade.(ALVES, 2007).
É bom lembrar que no início a psicomotricidade era voltada para
estudo médico, mais precisamente, neurológico, para nomear as zonas do
córtex cerebral situadas mais além das regiões motoras. Mas, sua premissa
básica é a integração mente-corpo, especificamente, a integração entre
processos mentais e motricidade. Ela propõe uma forma de perceber o homem
como um todo onde mente e corpo funcionam juntos não podendo ser
compreendidos sem um o outro. (GOMES, 2008).
É nesse sentido que se pretende direcionar este estudo, para a
psicomotricidade relacional, por oferecer reflexões acerca de acontecimentos
cotidianos com questões de outras pessoas, como dificuldade de comunicação
e de contato, inibição, hiperatividade, agressividade, limite, afetividade dentre
outras. (WIKIPÉDIA, 2011).
Vale lembrar que a psicomotricidade é uma ferramenta essencial para
a compreensão do ser humano em sua globalidade. Atualmente, é um
diferencial na atuação profissional, tornando-se indispensável em vários
segmentos, dentre eles, o de academia de ginástica. É através do corpo que se
mostra os desejos, as frustrações, as necessidades, desde a mais tenra idade.
Como diz André Lapierre, “A qualidade da vida é a qualidade do ser, e não do
ter”. (TORRES, 2011).
Haja vista, que Lapierre, desde o início dos seus trabalhos, já dava
devida importância à dimensão prática, chamada de “formação pessoal”, cujo
objetivo era a preparação para a relação motora que viriam a desenvolver na
relação com o outro.
Considerando que as atividades lúdicas trazem à tona o imaginário a
partir da expressão do inconsciente, o autor alerta sobre a importância do
10
envolvimento do adulto como parceiro da criança por meio do jogo simbólico,
acompanhando-a no imaginário à medida que favorece a expressão de seus
fantasmas e dos sentimentos atrelados a estes. Daí deriva a importância da
vivência psíquica do adulto antecedendo à prática, para que não ocorra o risco
de projeção de conteúdos próprios na criança. (OLIVEIRA, 2010).
Sob
esse
aspecto,
é
interessante
lembrar
que
a
ciência
Psicomotricidade possui diferentes técnicas e é uma das ferramentas da
Educação Física, recebeu esta herança epistemológica de grandes nomes
como André Lapierre, Jean Le Boulch, Bernard Aucouturier, Victor da Fonseca,
entre outros que tiveram sua formação em Escolas de Educação Física. Há
também grandes nomes da Medicina como Ajuriaguerra, Pierre Vayer, Henry
Head e Paul Schilder cujo fascínio pela motricidade humana contribuíram com
o alicerce da Psicomotricidade.1
Dessas escolas, pretende-se eleger as obras de André Lapièrre e Le
Boulch. O primeiro, logo no início de sua carreira questionava a respeito da
forma estereotipada como os exercícios são ensinados, interessando-se pela
anatomia e fisiologia do movimento humano. Atribui relevância ao conteúdo
arraigado no inconsciente individual e coletivo, ao que é transmitido de geração
em geração. Já Le Boulch, seus ensinamentos mudaram para sempre a
avaliação da Educação Física no aprendizado. Ele chegou à conclusão de que
todo o movimento não acontece sozinho, pois toda a ação tem uma intenção
expressiva ou funcional qualquer, gesto é sustentado por um significado,
portanto, pode-se dizer que psicomotricidade é o movimento com inteligência.2
Ainda,
Le
Boulch
aponta
também
correntes
distintas
na
psicomotricidade. Enquanto uma aponta para a educação psicomotora, outra,
para a terapia e reeducação psicomotora. Estas correntes apontam não só
para diferentes intervenções, de um modo superficial, sob a perspectiva de
mercado e atuação profissional, mas, sobretudo, de diferentes olhares.
1
Psicomotricidade:
uma
ciência
a
serviço
da
vida.
Disponível
em
http://www.psicomotricidade.com.br/ Acesso em 28/3/2011.
2
A ciência do movimento humano perde Le Boulch. Fascículo 4. Jornal De Fato. 2ª
edição. Março/abril de 2002.
11
(http://interacaomentecorpo.blogspot.com/2010/psicomotricidade-historicoe.html).
Sob essa perspectiva, o objeto deste estudo está voltado para os
potenciais humanos apoiados nas áreas básicas da psicomotricidade que
valorizam o corpo, as sensações, as percepções e as emoções.
O objetivo desta monografia é refletir sobre a psicomotricidade: o corpo
e sua expressividade, com intuito de uma ação prazerosa. Tendo o toque como
um dos pontos mais importantes para o desenvolvimento da capacidade
sensitiva. O foco é observar as diferentes formas expressivas das mulheres na
academia de ginástica localizada; e identificar como elas se relacionam com
suas expressões corporais. Lembrando que o corpo diante das relações
interpessoais é um dos principais objetivos da psicomotricidade.
Para o desenvolvimento desta pesquisa, delimita a perspectiva para
definir o método de estudo, a dimensão ampla e complexa do assunto, o objeto
deste estudo será construído a partir do século XX.
Situa-se
aí
a
importância
indiscutível
de
uma
abordagem
pluridimensional da matriz teórica da psicomotricidade (Fonseca, 2008).
Portanto, este estudo não é somente relevante, do ponto de vista do
conhecimento educativo numa academia de ginástica, estará ampliando a
capacidade das pessoas se relacionarem com o mundo e de tomar consciência
de si, enquanto sujeito corporal, que vivem em comunicação com o seu
entorno.
- Metodologia
A metodologia a ser utilizada para este estudo é a abordagem
qualitativa por partir do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o
mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto,
um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito. O
objeto não é um dado inerte e neutro; está possuído de significados e relações
que os sujeitos concretos criam em suas ações. (TAVARES, 2003, p.40-41).
12
Acresce ainda a autora, que a delimitação do problema em pesquisa
qualitativa não resulta de uma afirmação prévia e individual, formulada pelo
pesquisador e para a qual recolhe dados comprobatórios.
Ensina Tavares (Ibidem), baseados nos resultados de uma pesquisa
qualitativa pode-se iniciar várias pesquisas quantitativas, que poderão ampliar
a compreensão de um fenômeno complexo que se está investigando. Uma
pesquisa científica pode apontar novos caminhos para a consciência do
sensível.
Sob esse aspecto, Alves (1985, p.65) traz uma contribuição, a partir da
obra C. Wright Mills, sobre A imaginação sociológica:
“A precisão não é o único critério para a escolha do método e não deve
ser confundida, como ocorre com frequência, com o “empírico” ou o
“verdadeiro”. Deveríamos ser tão precisos quanto formos capazes em nosso
trabalho sobre os problemas objetos da nossa atenção. [...].”
Segundo Alves (Ibidem), o rigor metodológico pode frequentemente,
deixar de ser um ideal científico válido e se transformar num artifício
institucional pelo qual as intuições mais criativas são bloqueadas. É necessário
que se lembre de que o rigor metodológico é apenas uma ferramenta
provisória. Lembrando que a escolha do problema é um ato anterior à
pesquisa, que tem a ver com os valores do investigador.
- Cenário do estudo
Uma academia de pequeno porte, localizada no município Rio de
Janeiro. Possui atividades como: ginástica localizada, aeróbica, musculação,
aero-jump, alongamento, dança de salão, dança do ventre, lutas dentre outras
atividades.
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- Instrumento e coleta de dados
Roteiro de perguntas contendo questões abertas sobre o trabalho
desenvolvido na academia junto a alunas que participam das aulas de ginástica
localizada e dança.( Anexos:II e III - Termo de Consentimento e Entrevista).
- Sujeitos do estudo
Os atores eleitos são pessoas que fazem parte do cenário do estudo:
grupo de alunas da academia que fazem ginástica localizada e dança.
Observar a expressividade do corpo dessas alunas e, as respostas dos
questionamentos. O grupo escolhido será o informante-chave deste estudo,
para conseguir levantar qual a visão que esse grupo possui do tema em pauta,
e como vêm lidando com o corpo em seu cotidiano, depois de terem entrado
para o grupo de ginástica localizada, acompanhada de dança.
As questões a serem aplicadas aos sujeitos deste estudo são:
Qual seu nome? Por que entrou para academia? Quantas vezes você
costuma fazer ginástica localizada na semana? Quais as aulas de ginástica
que mais gosta de fazer? E a que menos gosta, e por que? Tem encontrado
alguma dificuldade em acompanhar o ritmo de uma das ginásticas? Qual
movimento? Tem notado alguma diferença em seu estado físico e emocional?
Qual o tipo de melhora tem percebido? Que tipo de satisfação vem sentindo
depois que passou a enfrentar as aulas de ginástica localizada e a dança?
Qual a percepção e o sentimento que vem tendo de você interiormente e de
seu corpo?
- Análise dos dados
Minayo (1994) chama atenção sobre as finalidades da fase de análise,
apontando três finalidades para essa etapa: estabelecer uma compreensão dos
dados coletados, confirmar ou não os pressupostos da pesquisa e/ou
responder às questões formuladas, e ampliar o conhecimento sobre o assunto
pesquisado, articulando-o ao contexto cultural da qual faz parte.
A interpretação qualitativa de dados, que Minayo (Ibid.) destaca o
método hermêutico-dialético, isto é, a fala dos atores sociais. Essa
compreensão tem como ponto de partida, o interior da fala. A partir de então, a
14
autora destaca dois pressupostos desse método de análise: o primeiro diz
respeito à ideia de que não há consenso e nem ponto de chegada no processo
de produção do conhecimento. Já o segundo se refere ao fato de que a ciência
se constrói numa relação dinâmica entre a razão daqueles que a praticam e a
experiência que surge na realidade concreta.
A fim de atingir o objetivo proposto, está pesquisa será desenvolvida
em três capítulos. O primeiro, conhecer um pouco a psicomotricidade, seus
conceitos e definições, como também as mudanças gradativas que o culto ao
corpo foi ganhando com o tempo nas academias de ginástica. No segundo,
refletir a psicomotricidade relacional, seus conceitos e definições; e o terceiro,
discutir a corporiedade: um novo olhar. Propõe-se uma reflexão dos conteúdos
acima, e projetá-los à pesquisa de campo. (Para maiores esclarecimentos,
Anexo I – Glossário ).
15
CAPÍTULO I
CONHECENDO A PSICOMOTRICIDADE:
UM BREVE ESTUDO
“Psicomotricidade
transforma
o
é
uma
pensamento
neurociência
em
ato
que
motor
harmônico. É a sintonia fina que coordena e
organiza as ações gerenciadas pelo cérebro e
as manifesta em conhecimento e aprendizado.”
(SBP, 2003).
1.1 – Definições conceituais
A palavra psicomotricidade tem sido usada para nomear três objetos
qualitativamente distintos: um conjunto de conhecimentos (ciência), uma
função ou processo do sistema nervoso e uma prática terapêutica.
Como ciência tem por objeto de estudo o homem através do seu corpo
em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. Está relacionada
ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas,
afetivas e orgânicas. É sustentada por três movimentos básicos: o movimento,
o intelecto e o afeto.3
Na área do conhecimento visa destacar a relação existente entre a
motricidade, a mente e a afetividade e procura facilitar a abordagem global da
criança por meio de uma técnica. (DE MEUER e STAES, 1989).
Nesse sentido, De Meuer e Staes (1989) ressaltam que a
psicomotricidade foi evoluindo. Começou estudar o desenvolvimento motor,
depois a relação entre o atraso no desenvolvimento motor e o atraso intelectual
3
A psicocomotricidade. Sociedade Brasileira de Psicomotricidade. Disponível em
http://www.psicomotricidade.com.br/apsicomotricidade.htm. Acesso em 19/4/2011.
16
da criança. Mais tarde, o desenvolvimento da habilidade manual e aptidões em
função da idade para atualmente, estudar também as ligações com a
lateralidade, com a estruturação espacial e a orientação temporal e as relações
das dificuldades de aprendizagem escolares de crianças de inteligência normal.
Os autores alertam também para a tomada de consciência das
relações existentes entre o gesto e a afetividade, como por exemplo, o fato de
uma criança segura de si caminhar de forma muito diferente de uma criança
tímida.
Desse modo, a premissa básica da psicomotricidade é a integração
mente-corpo, com aponta Alves (2003, p.15), envolve toda a ação realizada
pelo indivíduo, que represente suas necessidades e permitem sua relação com
as demais. É a integração psiquismo-motricidade. A motricidade pode ser
definida como resultado da ação do sistema nervoso sobre a musculatura,
como resposta à estimulação sensorial.
Especificamente, ela é a unidade psique-corpo no que se refere ao
movimento – ação motora voluntária – do ser humano inserido no ambiente
físico e relacional. Segundo Fonseca (2004, p.33)
“a ação ou motricidade humanas só podem ser concebidas em
psicomotricidade
quando
o
componente
motor
se
inter-relaciona
dinamicamente com o componente emocional e com o componente cognitivo,
na medida em que é essa interação neuropsicomotora que lhe fornece a
característica intrínseca e única da sua totalidade adaptativa e evolutiva.”
Nessa perspectiva, os estudos sobre o sistema nervoso são
esclarecedores. Por exemplo, a proposição de Damásio (1996), segundo a qual
o eu ou a subjetividade é um estado biológico constantemente reconstituído e
não uma entidade imaterial. Não se trata de compreender a mente isolada do
organismo (corpo e entorno), mas compreender que a mente emerge do
organismo, das interações cérebro-corpo. (NÓBREGA, 2008, p.144).
Também, a psicomotricidade, constitui o estudo relativo às questões
motoras e psicoafetivas do ser humano. A mesma seria ao ponto de encontro
entre a expressão motora (o que a pessoa faz) e a caracterização pessoalemocional de cada ser humano (o que a pessoa sente). (RIBEIRO, 2005)
17
Explicita Ribeiro (Ibidem), a educação motora tem como objetivo
ampliar as possibilidades do uso significativo de gestos e posturas corporais,
demonstrando assim, também o movimento humano, pois ele é mais do que
simples deslocamento do corpo no espaço: constitui-se em uma linguagem que
permite as pessoas agirem sobre o meio físico a atuarem sobre o ambiente
humano, mobilizando as pessoas por meio de seu teor expressivo assim como
levar as expressarem sentimentos, emoções e pensamentos.
Além disso, hoje, a psicomotricidade, enquanto saber, está inserida
principalmente nos cursos de Psicologia, Educação Física e Pedagogia, tendo
já sido organizada como cursos de graduação e pós-graduação. Enquanto
prática, a psicomotricidade é utilizada como terapia na reabilitação (ou
habilitação) de pessoas com deficiências físicas ou mentais – provenientes de
patologias neurológicas ou psíquicas – e também como recurso educativo nas
escolas, seja por meio das aulas de educação física ou de atividades
desenvolvidas pelos professores, principalmente, no segmento da educação
infantil. (GOMES, 2008, p.6)
Como disciplina, a psicomotricidade além de aprimorar e desenvolver a
compreensão dos processos mente-corpo no que se refere à motricidade,
busca desenvolver técnicas e intervenção (e prevenção) que permitam não só
corrigir falhas no desenvolvimento psicomotor, mas também estimular e facilitar
esse desenvolvendo assegurando um maior aproveitamento das suas
potencialidades. (Ibidem).
“Proporciona ao indivíduo a capacidade de ser, ter, aprender a fazer e
a fazer, na medida em que se reconhece por interior, alcançando a
organização e o equilíbrio das relações com os diferentes meios e a sua
distinção. Relacionando-se com o mundo de forma equilibrada”. (ALVES, 2003,
p.136).
Lièvre e Staes (1989, citados por Nuñes e Vidal, 1994) conceituam a
psicomotriciade como a posição global do sujeito. Pode ser entendida como a
função do ser humano que sintetiza psiquismo e motricidade com o propósito
de permitir ao indivíduo adaptar-se de maneira flexível e harmoniosa ao meio
que o cerca. Pode ser entendida como um olhar globalizado que percebe a
18
relação entre motricidade e o psiquismo como entre o indivíduo global e o
mundo externo. Também ser entendida como uma técnica cuja organização de
atividade possibilite à pessoa conhecer de uma maneira concreta o seu ser e o
seu ambiente de imediato para atuar de uma maneira adaptada.
Outros
autores,
como
Pierre
Yayer
(1984)
relacionam
à
psicomotricidade a educação psicomotora dizendo ser uma ação pedagógica e
psicológica.
1.2 – A psicomotricidade e o significado do corpo
“Meu corpo não é apenas um conjunto de órgãos, nem o dócil executor
das decisões da minha vontade. Ele é o lugar onde vivo, sinto, onde existo.
Lugar de desejo, prazer e sofrimento, domicílio da minha identidade, do meu
ser.” (LAPIERRE, 2002).
A psicomotricidade vista até aqui se referiu a percepção que o
indivíduo tem do mundo depende das suas atividades motoras. A posição e o
status do corpo irá regular a sua percepção de mundo. Convém dizer que o
sistema perceptual e motor estão sempre interagindo em grande parte das
atividades motoras.
O corpo é a referência. Ele é a primeira forma de visibilidade humana.
O sentido de sua presença invade lugares, exige entendimento, propõe
funcionamentos sociais, cria disciplina e desperta interesse de diversas áreas
do conhecimento.
Para compreensão detalhada sobre o significado que o corpo adquiriu
com o tempo, é preciso recorrer à história. A sociedade capitalista, na produção
e reprodução das relações de trabalho, marcou o corpo com seus signos de
dominação. Os modelos corporais, construídos nas escolas, difundidos pela
mídia, sempre foram um meio sutil de alienação. A medicina dividiu o corpo,
cada parte sob a ação de um “especialista” e todas estanques entre si, embora
ainda com a ideia de que a soma das partes se iguala ao todo. O corpo produz
19
alienadamente e consome alienadamente; vende-se a barra de chocolate e a
aula na academia de ginástica e o carro que transporta até lá. No início do
século XX, as pessoas viveram sob um modelo corporal que privilegiava as
formas arredondas e cheias – durante muito tempo signos de feminilidade
(fertilidade e maternidade). (FREITAS, 2004, p.58-59).
Já na década de 60, ocorreu um incremento do ingresso de mulheres
na universidade e no mercado de trabalho até então reservado aos homens,
seus corpos tornaram-se produtivos: surgiu o modelo ultramagro. As mulheres
ativas e dinâmicas de hoje têm filhas que são bombardeadas com modelos de
feminilidade como a Barbie. Essa incoerência, básica do capitalismo,
transforma o corpo em palco de luta entre desejos opostos, entre o que se quer
e o que se dever ser – tanto o desejo quanto o dever sendo socialmente
determinados. Dessa maneira, o corpo é controlado, pois, debatendo-se na
busca vã de uma solução para o conflito, torna-se incapaz de superá-lo, ou
seja, de perceber as implicações ideológicas que se armam como pano de
fundo. (Ibidem, p.59).
Se, na Idade Média, o principal aparelho de controle ideológico era a
instituição igreja (ao lado da instituição família), o capitalismo vai conferir tal
função à escola. A escola não apenas reproduz as relações de trabalho, mas
igualmente as produz. São agentes na criação e recriação da cultura
dominante.
A escola, ao cindir a teoria e prática, valorizando o trabalho
intelectual em detrimento do trabalho manual e das atividades físicas. É desse
modo que a Educação Física é relegada ao status de “disciplina” menor,
quando em confronto com outras “disciplinas”. (Ibidem, p.60).
Segundo Freitas (2004, p.60 apud Castellani Filho, 1988), no Brasil, a
Educação Física iniciou-se seguindo o modelo do corpo disciplinado e dócil.
Dela lançaram mão os higienistas que, à procura de um corpo saudável,
robusto e harmonioso organicamente com o qual pudessem identificar os ideais
burgueses, recomendavam a prática de atividades físicas. Ao ideal higienista,
veio somar-se o ideal eugênico, visando à construção racial de um tipo físico
brasileiro branco, forte, saudável. Assim foram modelados os corpos
masculinos e femininos, por meio de práticas diárias e atividades físicas
20
diferenciadas (que levassem em conta a fragilidade da mulher e sua função
primordialmente materna).
Desse modo, a Educação Física foi reproduzindo as relações sociais,
inculcando nas classes trabalhadoras um ideal de corpo burguês. Já dizia Jung
(Jung, 1989 apud Freitas, 2004, p.61), a tendência de toda postura extrema é
reverter-se em seu oposto, até o ponto de equilíbrio. Na Educação Física, que
durante tanto tempo tão bem coadunou-se ao modelo capitalista, começaram a
surgir indícios não apenas de crítica a esse modelo, mas também de sua
superação.
É em fins dos anos 70, sai de cena a ginástica localizada, uma
variação da calistenia — espécie de ginástica rítmica, sem uso de aparelhos,
para dar beleza, força e vigor ao corpo — (Houaiss, 2009) para dar lugar ao
retorno ao fisioculturismo, prática comum dos anos 50, silhueta hipertrofiada se
tornava uma obsessão para homens, incentivados pelos filmes de Sylvester
Stallone e Arnold Schwarzenegger. Enquanto a musculação em aparelhos se
desenvolvia lentamente, pistas, parques e praias eram invadidos pelos adeptos
da “corpomania”. Desde então, o número de academias crescia, mas as aulas
de ginástica aeróbica ainda atraíam mais mulheres do que homens. Quem não
tinha tempo e disposição para se exercitar, se sentia culpado. Esse sentimento
aumentava na mesma proporção em que livros de dietas milagrosas para
perder peso chegavam às livrarias. Em 1985 é lançado no Brasil o livro “A
dança aeróbica”, da professora americana Barbie Allen, cujo programa
prometia a perda de até 500 calorias por hora. (MARINHO, 2000, p.666-667).
No Rio de Janeiro, a professora Lígia Azevedo foi à pioneira na
aeróbica e sua academia se tornou uma referência da nova modalidade.
Lembrando que a ginástica leve, de movimentos leves e cadenciados e que se
preocupava com as formas corporais e a higiene mental, perdeu espaço
rapidamente. Logo, a aeróbica se transformaria na melhor alternativa para
deixar o corpo bonito e saudável.
O interesse das pessoas pela nova maneira de se exercitar cresceu
tanto que inspirou o humorista Jô Soares a criar um personagem que passava
boa parte do seu tempo numa academia. Na época, Jô Soares contracenava
21
com a Cláudia Raia, que deixava os homens excitados com seu corpo
esculpido pela dança.
No início dos anos 90, sempre seguindo a tendência americana,
surgiram outras variantes da aeróbica, como o step training, que consiste em
subir e descer de uma plataforma, seguindo a coreografia comandada pelo
professor. Inicialmente, o step servia para testar a capacidade aeróbica. Como
explica do Professor de Educação Física Jefferson da Silva Novaes, no livro
“Ginástica em academia no Rio de Janeiro”, 1991, atividade começou a chamar
a atenção quando a professora de Educação Física Gim Miller passou a aplicar
a técnica para se recuperar de uma lesão no joelho, por ironia decorrente do
alto impacto nas aulas de aeróbica. Quando subia e descia da plataforma, Gim
observou que fortalecia a musculatura da região. E verificou também que,
apesar de monótono, o treinamento no step causava menos impacto nas
articulações. Esta foi a primeira vez que se começou a ver a ginástica de forma
mais científica.
Hoje, a prática de atividades físicas está invariavelmente situada nas
perspectivas sociais da cultura e qualidade de vida. Qualidade de vida é a
percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e no
sistema de valores nos quais ele vive, em relação aos seus objetivos,
expectativas, padrões e preocupações. (FERNANDES e NOVAES, 2004, p.35).
Nessa dimensão, na psicomotricidade um olhar para o corpo, relata a
importância desta ciência e deixa claro o seu auxilio em todos os modismos de
prática de exercícios, valorizando o trabalho com o corpo. Permite à pessoa
“sentir-se bem na sua pele”, que se assuma como realidade corporal,
possibilitando a livre expressão de seu ser, de acordo com Oliveira (2001), o
indivíduo não é feito de uma só vez, mas se constrói paulatinamente, através
da interação com o meio e de suas próprias realizações e a psicomotricidade
desempenha ai um papel fundamental.
22
CAPÍTULO II
PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL
“Para entender o que o indivíduo tem
a dizer é importante que o educador
saiba fazer isto ESCUTAR.”
(ALVES, 2003, p.60).
2.1 - Definições conceituais
A linguagem falada é raciocinada, enquanto a corporal é expressa por
sentimentos nas formas de movimentar e, as reações, falam muito mais do que
a verbalização. Nessa direção, a psicomotricidade relacional trabalha uma série
de problemas nas relações interpessoais, seja em comportamentos agressivos,
inibidos ou passivos, seja em decorrência de fatores externos que dizem
respeito ao processo de aprendizagem e socialização.
Para maior entendimento do que é psicomotricidade relacional, faz-se
necessário introduzir algumas ideias de Piaget e Wallon e, o método relacional
de André Lapierre em relação às ideias de Henri Wallon e Jean Piaget.
Piaget
se
preocupou
em
estudar
a
relação
evolutiva
da
psicomotricidade com a inteligência. A educação psicomotora preconizada por
ele forma-se com a intenção de estimular as crianças de forma adequada em
cada fase do seu desenvolvimento. (MORO, MACHADO, BARRICHELLO,
WINKELER, 2007).
A concepção de Piaget se diferencia daquela adotada por Wallon,
porque este, de acordo com Fonseca (1995, p.15), há uma preocupação do
movimento humano relacionado como instrumento de construção do
psiquismo. Esta diferença permite a Wallon relacionar o movimento ao afeto, à
emoção, ao ambiente e aos hábitos do indivíduo.
23
Wallon e Piaget destacam a importância corporal no desenvolvimento
das funções cognitivas. No entanto, Wallon afirma que o pensamento nasce da
ação para retornar a ele em decorrência da experiência com a cultura. (MORO,
MACHADO, BARRICHELO, WINKELER, 2007).
Sintetizam os autores que, para Wallon a inteligência é fruto do
movimento ou da relação com o meio, com os objetos e com os outros. Ela é a
primeira expressão emocional e de comportamento. Piaget “deu uma maior
ênfase à construção da inteligência através da relação do indivíduo com os
objetos”, desprezando a relação com o meio e com as outras pessoas.
De acordo com Tavares (2003, p.80), quando se desenvolve a imagem
de um objeto, integra-se a percepções variadas desse objeto e forma-se
imagens que vão se modificando de acordo com as novas descobertas
relacionadas ao objeto. A imagem obtida corresponde a uma vivência que
engloba todos os registros referentes ao objeto sem corresponder a nenhum
deles em separado. Embora não se possa predizer a imagem final partindo das
partes, cada parte faz sentido na imagem final. O desenvolvimento da imagem
mental se faz então da integração de variados elementos perceptivos
pertinentes ao objeto.
Sob esse aspecto, para compreender a percepção, a noção de
sensação é fundamental. Em Corpo, percepção e conhecimento em MerleauPonty, Nóbrega (2008, p.142) diz que a percepção está relacionada à atitude
corpórea. Enquanto, as sensações são compreendidas em movimento. A
percepção das cores é um exemplo significativo da estesia4 apontado por
Merleau-Ponty. “A apreensão das significações se faz pelo corpo: aprender a
ver as coisas é adquirir um certo estilo de visão, um novo uso do corpo próprio,
é enriquecer e reorganizar o esquema corporal”. (NÓBREGA apud MERLEAUPONTY, 1945/1994, p.212).
Nessa linha de raciocínio, essa nova compreensão de sensação
modifica a noção de percepção proposta pelo pensamento objetivo, fundado no
empirismo e no intelectualismo, cuja descrição da percepção ocorre através da
4
É capacidade de perceber sensações; sensibilidade; capacidade de perceber o
sentimento da beleza. (HOUAIS, 2009).
24
causalidade linear estímulo-resposta. Na concepção fenomenológica da
percepção a apreensão do sentido ou dos sentidos se faz pelo corpo, tratandose de uma expressão criadora, a partir dos diferentes olhares sobre o mundo.
(NÓBREGA, 2008, p.142).
Cita Nóbrega (Ibidem) que na obra O visível e o invisível (MerleauPonty, 1964/1992) encontra-se a concepção de percepção compreendida como
ação do corpo:
“Antes da ciência do corpo – que implica a relação com outrem -, a
experiência de minha carne como ganga de minha percepção ensinou-me que
a percepção não nasce em qualquer outro lugar, mas emerge no recesso de
um corpo.”
Relacionada ao corpo em movimento, a percepção remete às
incertezas, ao indeterminado, delineando assim o processo de comunicação
entre o dado e o evocado. A fé perceptiva é uma adesão ao mundo, à realidade
tal como se vê. No entanto, a percepção exige o exame radical da existência
por meio do corpo e da imputação de sentidos. Merleau-Ponty (1964/1992)
afirma que o sentido dos acontecimentos está na corporiedade.
“É pela corporiedade que o homem diz que é carne e osso. Ela é a
testemunha carnal de nossa existência. A corporiedade integra tudo o que o
homem é e pode manifestar neste mundo; espírito, alma, sangue, ossos,
nervos, cérebro, etc”. (SILVA, 1991, p.63 apud FREITAS, 1999, p.62).
“O corpo é a entrada da alma, a dor e o prazer os fundamentos do
pensamento”. (Alves, 1985, p.33). Uma ação instintiva implica experiência
perceptiva, movimento do corpo com significado de transformação e ponto de
conexão para outras percepções, movimentos e transformações do corpo.
(TAVARES, 2003, p.88).
Este aporte é interessante para entender como os teóricos conceituam
a Psicomotricidade Relacional:
“A Psicomotricidade Relacional visa desenvolver e aprimorar os
conceitos relacionados ao enfoque da Globalidade Humana. Busca superar o
dualismo cartesiano corpo/mente, enfatizando a importância da comunicação
corporal,
não
apenas
pela
compreensão
da
organicidade
de
suas
25
manifestações, mas essencialmente, pelas relações psicofísicas e sócioemocionais do sujeito. Preza por uma abordagem preventiva, com uma
perspectiva qualitativa e, portanto, com ênfase na saúde, não na doença.”
(VIEIRA; BATISTA e LAPIERRE, 2005, p. 39).
Ainda Vieira; Batista e Lapierre (2005, p.39-40) afirmam que o método
de trabalho da Psicomotricidade Relacional
“[...] proporciona um espaço de legitimação dos desejos e dos
sentimentos no qual o indivíduo pode se mostrar na sua inteireza, com seus
medos, desejos, fantasias e ambivalências, na relação consigo mesmo, com o
outro
e
com
o
meio,
potencializando
o
desenvolvimento
global,
a
aprendizagem, o equilíbrio da personalidade, facilitando as relações afetivas e
sociais”.
Chama a atenção Lapierre (2005), que a psicomotricidade relacional
não é uma técnica que se possa aprender intelectualmente nos livros. É mais
um método, uma maneira de atuar, uma possibilidade de se estabelecer uma
comunicação mais humana, mais verdadeira com qualquer pessoa, até mesmo
com as crianças.” LAPIERRE, 2005).
Talvez tenha sido nesse sentido que Lapierre fez a inclusão do adjetivo
“relacional” ao termo “psicomotricidade”
“ [...] para diferenciar suas concepções e sua prática em relação a
outras técnicas que também têm o nome de psicomotricidade, que mais se
diferenciam, pois consideram o corpo da criança prioritariamente sob seus
aspectos cognitivos. Ele se refere à Psicomotricidade Relacional, acreditando
que o corpo não é essencialmente cognição, mas também o lugar de toda
sensibilidade, afetividade, emoção da relação consigo e com o outro. É visto
como lugar de prazer, de desejo, de frustração e de angústia. Lugar de
lembranças de todas as emoções positivas e negativas vividas pela criança em
relação com os outros, particularmente, com as figuras parentais. (LAPIERRE,,
2005, p. 27).
O próprio Lapierre (2002, p.34) afirma que foram todas as experiências
vivenciadas anteriormente por ele que o levaram a essa nova terminologia: “O
meu caminho conduziu-me àquilo que chamei de ‘psicomotricidade relacional’,
26
colocando a ênfase sobre a primazia da relação com o outro, com seus
conteúdos projetivos, simbólicos e fantasmáticos”.
Para Vieira (2009, p.65), a psicomotricidade relacional é o ser humano,
criança, adolescente ou adulto nas suas dimensões psicossociais e afetivas,
ressaltando as diversas formas relacionais estabelecidas em seus diferentes
grupos de pertinências. Pretende compreender os diversos níveis de
comunicação corporal estabelecida a partir do jogo espontâneo, para daí
proporcionar os meios de codificação das nuances expressas nas relações,
levando em consideração seu desenvolvimento psicomotor e sócio-histórico,
com a finalidade de atender às necessidades de seres em formação, nos
aspectos psíquicos, motores e emocionais que, em conjunto, influem
diretamente na construção e desenvolvimento da personalidade.
2.2 - Aplicação e atuação da psicomotricidade relacional em
academia de ginástica
O principal objetivo da psicomotricidade relacional é promover o
desenvolvimento integral do indivíduo nas várias etapas de crescimento, nos
seus aspectos neurológicos de maturação, nos planos rítmico e espacial; no
plano da palavra e no plano corporal. Envolvendo o intelecto (cognitivo), o
emocional (querer), o mental (intenção), o movimento e o gesto (ALVES, 2003,
p.133).
Nessa perspectiva, a teoria e a prática da psicomotricidade relacional
estão presentes o tempo todo nas academias de ginástica, seja em aulas de
natação para bebês, para crianças, seja em aulas de pilates, em aulas de
ginástica localizada, aulas de dança, dentre tantas outras atividades físicas.
As atividades físicas, esportivas e de lazer são potencializadoras
de experiências capazes de oportunizar o encontro do ser humano consigo e
com seu próximo de forma sensível, espontânea e lúdica, o que é de inegável
importância para os indivíduos que têm como objetivo fugir de suas rotinas
27
diárias ou se livrarem do estresse que o seu cotidiano de trabalho proporciona
(DE GÁSPARI; SCHWARTZ, 2007).
A dança pode se tornar um meio de extravasar as tensões emocionais,
assim como uma fonte de lazer. Estes aspectos são, justamente, o que
justificam a inserção de atividades lúdicas no contexto de academia de
ginástica, uma vez que, estes elementos, por primarem pela criatividade,
espontaneidade e menos rigidez, podem abrir espaço para a manifestação
pessoal mais autêntica, promovendo, inclusive, ressonâncias significativas em
todos os contextos.(NANNI, 1995 p.75-79).
A concepção de corpo na qual o saber psicomotor focaliza seu objeto
de estudo, caminha em direção de uma imagem corporal em constante
processo de atualização, onde o corpo percebido apresenta-se como fruto de
sensações e vivências individuais, provenientes das zonas sensoriais do
organismo, somados a uma complexa rede de estruturação libidinal que se
constrói em torno das zonas erógenas, concretizando desta maneira, e
elaboração de uma imagem espacial do corpo, verificando-se assim, uma
pluralidade de sujeitos juntamente com uma pluralidade de representações
corpóreas, denotando a cada ser humano um ritmo e uma vivência corporal
singulares. (PONTES, 2006).
Sob essa perspectiva, para aplicar a psicomotricidade relacional em
academia basta uma sala ou quadra, um espaço seguro para que o movimento
flua. Facilita a integração social, eleva a capacidade das pessoas de enfrentar
as novas situações e criar estratégias positivas para suas relações.
Em aulas de ginástica localizada, um dos seus aspectos mais
importantes é a musicalidade. É fundamental o conhecimento dos conceitos
básicos de frase musical para uma boa harmonia da atividade e da música.
Este conceito foi inserido mais enfaticamente com o começo da Ginástica
Aeróbica nos anos 1980. As coreografias eram elaboradas e encaixadas dentro
das músicas de maneira a sugerir um entrosamento dela com os exercícios
propostos. Após a diminuição desta atividade, o conceito continua sendo
utilizado por muitos profissionais da área, que tornaram suas rotinas mais
atraentes com a utilização deste recurso. (DE APOLI, s/d).
28
Como também na dança, move-se de acordo com o tempo e espaço,
desde os tempos imemoriais e, ao longo da história, vem sofrendo
modificações, especialmente quando incluída nos diversos contextos sociais,
como em academia de ginástica, para descontração depois de uma aula de
ginástica localizada.
A dança é uma das manifestações humanas que mais engloba
componentes lúdicos da cultura e, a não ser para o dançarino profissional, a
prática de dançar fundamenta-se essencialmente no lazer. O prazer e a
espontaneidade são elementos importantes ao desenvolvimento da parte
técnica, porém, torna-se importante que todos os recursos didáticos e
pedagógicos sejam explorados, inclusive com a inserção do elemento lúdico, o
qual, pode ser um excelente coadjuvante no processo motivacional.
(MATVÉIEV, 1986, p. 17-28 apud TREVISAN et. al.).
“O corpo é ao mesmo tempo instrumento de manifestação (relação
meio-ambiente) e ao mesmo tempo reflexo da estrutura social (contexto
determina padrões). As questões sociais vitais de prazer (sexualidade), energia
(agressividade), alegria (lúdico), fazem parte da essência do homem são
fomentadas pela sociedade através de valores racionalizados. Os movimentos
retirados das práticas racionais onde estes fenômenos ocorrem, são
manipulados através do corpo em função de facilitar a possibilidade de
comunicação com o mundo exterior. O corpo age – interfere nos padrões de
relações sociais. O corpo recebe – influências da sociedade.” (MINELLO,
2006).
Por razões óbvias, não se pode pensar nestas atividades ginástica
localizada ou dança divorciadas da psicomotricidade, porque sua história
nasceu com a história do corpo. Um corpo que não é dado, ele é construído e
inscrito por intermédio do desejo do outro. Já não se apresenta como uma
totalidade, mas agora se permite descobrir-se como fração, como parte, como
faltoso. Um corpo que é moldado e dividido, e se estrutura a partir do
enodamento das instâncias real, simbólico e imaginário, elaborado num
processo contínuo que tem como aporte primeiro, o desejo. (PONTES, 2006).
29
Para isso, Vierra, Batista e Lapierre (2005) chamam a atenção para a
formação do psicomotricista relacional, é impossível, sob o risco de se
prejudicar alguém, conduzir uma sessão de Psicomotricidade Relacional, com
crianças, jovens ou adultos sem que se cumpra um processo de formação
pessoal ordenado e de supervisão regular. Isso por que
“ser Psicomotricista Relacional é, pois, desenvolver um modo de ser
que envolve um processo de autoconhecimento e conhecimento do outro que
não termina jamais, na medida em que, como pessoas, vamos nos
modificando, conhecendo e reconhecendo ao longo de nossa vida. O
Psicomotricista Relacional é, portanto, uma pessoa aberta e respeitadora, que
busca a compreensão do Ser, que se coloca à escuta e à comunicação com o
outro, aberto a novas experiências e conhecimentos que possam enriquecer
sua vivência pessoal e profissional.” (VIEIRA, BATISTA e LAPIERRE, 2005,
p.134).
Enfatiza Vieira, et al (2005), que é por meio da formação pessoal que
se adquire a experiência do saber vivido. Esse processo permite superar
problemas pessoais, descobrir as projeções inconscientes, reestruturar a vida e
aumentar a capacidade de compreensão de certos conceitos teóricos.
“[...] O educador..., habita um mundo em que a interioridade faz uma
diferença, em que as pessoas se definem por suas visões, paixões,
esperanças e horizontes utópicos. [...] São atos de amor e paixão que se
encontram nos momentos fundadores de mundos, momentos em que se
encontram os revolucionários, os poetas, os profetas, os videntes [...]. (ALVES,
1985, p.19).
Para
a
psicomotricidade
relacional
a
aprendizagem
e
o
desenvolvimento se produzem pelas formas de relação afetiva com o outro, de
acordo com as possibilidades e limites de cada um, em comum acordo. A
comunicação
humana
e
comportamentos
afetivo-emocionais
são
indispensáveis à conquista do conhecimento e ao bem-estar pessoal e social
com função preventiva. (VIEIRA, 2005, p.66).
Não é o corpo o centro absoluto, de onde tudo se irradia?
30
“[...] Minhas palavras são extensões do meu corpo, meus membros se
apóiam nelas – daí que elas não são nunca, para o sujeito que sangra, meros
reflexos ideais, sublimados, inversões óticas da realidade. Quando a realidade
está em jogo, quem toca em uma das minhas palavras é como se tocasse na
menina dos meus olhos... As palavras podem matar”.(ALVES, 1985, p.30-31).
Portanto, a psicomotricidade relacional, Juntamente com a expressão
corporal, atua como uma modalidade de intervenção da aprendizagem, seja
criança ou adulto, proporciona possibilidades de conhecer e experimentar seu
corpo, vivenciar ludicamente suas emoções e desenvolver-se de maneira
global nas relações intra e inter-pessoais.(MORO, MACHADO, BARRICHELO
e WINKELER, 2007, p.18).
Relembrando o que disse Piaget e Wallon sobre a importância corporal
nas funções cognitivas, presumi-se a conexão do indivíduo com o seu corpo.
Para que o corpo se apresente como uma imagem na mente, é preciso que ele
exista para si mesmo como um objeto concreto, significativo, que cause
impacto e se distinga entre tantos outros objetos que se apresentam ao
indivíduo produzindo imagens. Esse significado especial do corpo se constrói
baseado nas primeiras relações objetais, remetendo à relação mãe-bebê. O
desenvolvimento da identidade corporal está intimamente ligado ao processo
de vivenciar sensações dimensionadas à singularidade de cada um as pulsões
e da existência desde a mais tenra idade. (TAVARES, 2003, p.83)
31
CAPÍTULO III
CORPOREIDADE: UM NOVO OLHAR
‘[...] o que caracteriza o homem não é a existência
exclusiva desse espírito ou centelha divina que
nos faria imortais, [...] o que marca o humano são
as relações dialéticas entre esse corpo, essa alma
e o mundo no qual se manifestam, relações que
transformam o corpo humano numa corporiedade,
ou seja, numa unidade expressiva da existência.”
(FREITAS, 1999, p.52).
Vayer & Toulousse (1985) citado por Bueno (1998, p.63), afirmam que
não existe ação que seja corporal. A corporeidade é a vivência do corpo na
relação com o outro e com o mundo, condição básica para a qualidade de vida
do indivíduo. É um dos canais mais importantes para facilitar essa relação.
Para se construir a noção de corporeidade, a melhor forma para
desenvolvê-la é por meio dos movimentos. E essa construção se dá pela
estruturação da imagem do corpo.
Neste capítulo serão analisados e interpretados os dados levantados
durante o trabalho de campo e, que emerge do objetivo deste estudo - as
diferentes formas expressivas das mulheres na academia de ginástica
localizada; e identificar como elas se relacionam com suas expressões
corporais.
Desse modo, o intuito é apresentar uma análise sobre como a
psicomotricidade está presente em Academia de Ginástica, à luz da literatura.
Foram feitas 09 (nove) entrevistas junto às candidatas que frequentam
à academia de ginástica, sendo o perfil destas, por faixa etária e tempo que
frequentam a academia:
§
20 e 30 anos: 5 (cinco) frequentam entre 2 meses há 10 anos;
32
§
30 e 40 anos: 1 (uma) que frequenta há 19 anos.
§
40 e 50 anos: 1 (uma) que frequenta há 3 anos.
§
50 a 60 anos: 2 (duas) frequentam há 8 anos.
As entrevistas foram elaboradas em forma de questionário. As
candidatas responderam 09 (nove) questões. E estas, organizadas a partir das
seguintes categorias:
q FINALIDADE DE EXERCITAR
q FREQUÊNCIA
q EXERCÍCIOS MAIS GOSTAM
q EXERCÍCIOS MENOS GOSTAM
q
DIFICULDADES EM ACOMPANHAR RITMOS
q QUAL MOVIMENTO
q
ENTENDIMENTO DA DIFERENÇA ENTRE ESTADO FÍSICO E EMOCIONAL
q
PERCEPÇÃO E SATISFAÇÃO CORPÓREA
q
PERCEPÇÃO E SENTIMENTO
Para identificar as candidatas na entrevista, substituiu-se os nomes por
termos da psicomotricidade como: sensório-motor, cognição, hipercinesia,
psicomotora, visomotora, psicomotricidade, motricidade, corporeidade e
cinestesia.
A maioria das entrevistadas se insere na faixa etária de 20 a 30 anos.
O que pode ser explicado por Castro (1998): ocorre que a Academia de
Ginástica, além de ser um local em que os corpos são expostos, caracteriza-se
por ser um local frequentado por boa parte de jovens, o que leva a pensar que
o corpo assume, de fato, lugar de centralidade na vida das pessoas, fato que
pode ser pensado não somente para a juventude, mas também para todas as
faixas etárias.
Outra razão pode ser pensada com relação ao texto televisivo, que
através do “fluxo” (Castro, 1998), transmite imagens de corpos perfeitos e
formas para alcançá-lo, através dos mais variados formatos (peças
publicitárias, programas de auditório, novelas, filmes, etc....). Por exemplo, a
novela Malhação, no ar há mais de 10 anos, mostra o interior de uma
33
Academia, dentre os diversos ambientes, corpos que estão em evidência em
termos de imagens, coxas, torsos, umbigos e bumbuns perfeitamente
esculpidos.
Isso leva a pensar que a imagem da juventude, associada ao corpo
perfeito e ideal – envolve noções de saúde, vitalidade, dinamismo e, acima de
tudo, beleza – atravessa, contemporaneamente, os diferentes gêneros, todas
as faixas etárias e classes sociais, perpassando e compondo, de maneira
diferenciada, diversos estilos de vida.
1ª CATEGORIA: FINALIDADE DE EXERCITAR
“Para ganhar massa muscular.” (Sensório-motor).
“No objetivo de emagrecer.”(Cognição).
“Para ter condicionamento físico”. (Hipercinesia).
“Objetivo principal cuidar da mente, pois com ela bem cuidada o corpo
funciona bem melhor.” (Psicomotora).
“Para
melhorar
meu
condicionamento
físico
e
emagrecer”.
(Visomotora).
“Para uma melhora física e mental.”(Psicomotricidade).
“Dentre outros motivos melhorar a qualidade de vida.”(Motricidade).
“Buscar qualidade de vida e prevenção de doenças que a vida
sedentária traz”. (Corporeidade).
“Sempre fiz ginástica, é próxima à minha residência e os professores
são ótimos.” (Cinestesia).
A busca por um belo corpo ainda é o que mais atrai as pessoas para as
academias, como se pode observar nestas respostas: “Para ganhar massa
muscular” (Sensório-motor). “Para melhorar meu condicionamento físico e
emagrecer”. (Visomotora).
Essas e as outras respostas conduzem a reflexão para esquema
corporal e imagem corporal. Se o esquema corporal é, em princípio, o mesmo
para todos os indivíduos, a imagem corporal é peculiar a cada um, porque está
34
ligada ao sujeito e à sua história; pode ser considerada como a encarnação
simbólica inconsciente do sujeito desejante; é específica de um tipo de relação
libidinal. (FERREIRA E ABREU, 2007).
A imagem não está imbuída de sensações, mas é o símbolo das
percepções e dos sentimentos. A imagem corporal, no dizer de Françoise Dolto
(1984), é a cada momento, memória inconsciente das vivencias relacionadas e,
ao mesmo tempo, ela é atual, viva, em situação dinâmica [...], camuflável ou
atualizável na relação aqui e agora. (Ibidem).
Nessa perspectiva, Ferreira e Abreu (2007) sinalizam, no que diz
Winnicott, da imagem refletida no espelho, ou seja: “sou visto, logo existo”.
Para que alguém se veja, é preciso que antes tenha sido visto pelo outro.
Quando o existir é visto e compreendido por alguém, é devolvida, como uma
face refletida em um espelho, evidencia de ter sido percebido como existente,
sobressai o que tanto necessito.
Para autores como Paul Shilder, Merleau-Ponty, Le Boulch e Lapierre,
a imagem corporal está vinculada à identidade da pessoa e que se desenvolve
de forma indissociável dos aspectos fisiológicos, sociais e psicológicos.
(TAVARES, 2003, p.47).
Sendo assim o desenvolvimento psicomotor é caracterizado pelo
processo de desenvolvimento do ser humano integrando seu movimento, sua
construção espacial, seu reconhecimento de objetos, suas posições, sua
imagem corporal, seu ritmo e sua linguagem.
Quando se pensa numa sociedade atrelada ao consumo, como a
brasileira, à publicidade e aos meios de comunicação de massa, é quase
inevitável pensar na dissolução da identidade do sujeito. Para existir
socialmente, é necessário ser reconhecido, ser visto por alguém.
2ª CATEGORIA: FREQUÊNCIA
“5 vezes”. (sensório-motor).
“3 vezes”. (cognição).
“3 a 4 vezes por semana.” (hipercinesia).
35
“3”. (psicomotora).
“três vezes”. (visomotora).
“5 vezes”. (psicomotricidade).
“Todos os dias (2ª a 6ª feira)”. (motricidade).
“3 x semana”. (corporeidade).
“4 à 5 vezes”. (cinestesia).
Essa categoria leva a pensar que o uso hábil do corpo foi importante na
história da espécie humana durante milhares de anos, atingindo seu apogeu na
cultura grega e no ocidente durante a era clássica. Desde então, a beleza da
forma humana foi ressaltada através da arte, do atletismo.
Mas foi no século XX, que o narcisismo e o individualismo
exacerbaram-se com o capitalismo, que deslocou o foco das atenções da
Europa para os EUA, a beleza do corpo foi enaltecida. Havia preocupação nas
atividades físicas em desenvolver um corpo perfeito, proporcional e gracioso
em todos os seus movimentos, no seu equilíbrio e na sua tonicidade.
(FREITAS, 2004, p.48-49).
Para isso, só mesmo uma prática regular e consciente da atividade
física pode contribuir para a promoção da saúde das pessoas, seja ela de
qualquer faixa etária.
3ª CATEGORIA: EXERCÍCIOS MAIS GOSTAM
“Localizada”. (sensório-motor).
“Localizada”. (cognição).
“Local; Tae Bo; Spinning; Step; em suma todas”. (hipercinesia).
“Localizada”. (psicomotora).
“Localizada e step”. (visomotora).
“Localizada, Tae Bo, Spinning”. (psicomotricidade).
“Localizada”. (motricidade).
“Tae bo, spinning e localizada”. (corporeidade).
“Da Ilza e do Luciano”. (cinestesia).
36
Esta preferência tem história. A ginástica localizada vem de longe. Nos
fins dos anos 70, praticamente a única atividade praticada pela maioria das
frequentadoras de academia de ginástica, era a ginástica localizada e, continua
até hoje, pois, a ginástica localizada, geralmente, proporciona muito prazer
para as mulheres por ser em grupo e garante bastante resistência física e
melhora o tônus. Além das aulas serem, quase todos os dias, diferentes porque
muda o exercício, a coreografia e não se torna rotineira. E também porque a
localizada é beneficia à socialização, ao fortalecimento muscular e ao
emagrecimento, por isso, que as mulheres a prefere, também, por apresentar
resultados mais rápidos.
4ª CATEGORIA: EXERCÍCIOS MENOS GOSTAM
“Jump, não consigo acompanhar o ritmo”. (Cognição).
“Musculação”. (Hipercinesia).
“Musculação, quase não há interação”. (Psicomotora).
“Spinning, pois fico muito cansada.” (Visomotora).
“Musculação, não motiva”. (Psicomotricidade).
“Musculação nunca me atraiu, acho monótono”. (Motricidade).
“Musculação, esteira. Acho monótono.”. (Corporeidade).
Apesar da musculação ser benéfica para as mulheres, é comprovado
que ajuda a combater osteoporose, melhorar a força física e aumenta sua
autoestima, ainda assim, as mulheres gostam menos, como se pode notar nas
respostas “musculação, quase não há interação” (psicomotora). “Musculação,
não
motiva”.
monótono”.
(psicomotricidade).
(motricidade).
“Musculação
“Musculação,
nunca
esteira.
me
Acho
atraiu,
acho
monótono.”.
(corporeidade).
Há uma lei da Física que afirma: “o modo de observar, muda o objeto
observado.” Esta máxima é apenas constatação. O indivíduo tem a
oportunidade de ver que ele pode fazer e o fazer torna-se prazeroso. Talvez, as
37
mulheres não se identificam tanto com a musculação, porque o uso de
aparelho é absorvido pelo ato, a inteligência não está disponível para aprender.
É necessário criar vínculos sensoriomotores, mais precisos, organizando
sinergias que liberem o gesto.
Assim, como a psicomotricidade, consiste unidade dinâmica das
atividades, dos gestos, das atitudes e posturas, enquanto sistema expressivo,
realizador e representativo do “ser-em-ação” e da “coexistência” com outrem”.
(Apud ALVES, 2003, p.15, Jacques Chazaud, 1976).
E também como destaca Kamper (2004, p. 5, apud Fontanari e
Nascimento, 2006) considera a “atenção pública” um grande problema
presente na era das transformações eletrônicas, pois nesse tempo, nada pior
do que ser-explorado e não ser observado [reconhecido]. Ou, nas palavras de
Baitello (2005, p. 03 apud Fontanari e Nascimento, 2006):
“Quanto mais vemos, menos vivemos, quanto menos vivemos, mais
necessitamos de visibilidade. E quanto mais visibilidade, tanto mais,
invisibilidade e tanto menos capacidade de olhar. Assim, o primeiro sacrifício
desse círculo vicioso termina por ser o próprio corpo, em sua complexidade
multifacetada, tátil, olfativa, auditiva performática e proprioceptiva.”
O mesmo pode ser pensado das mulheres por gostarem menos de
musculação, por não dá à visibilidade que as aulas de ginástica localizada.
5ª CATEGORIA: DIFICULDADES DE ACOMPANHAR RITMOS
“Nenhuma”. (Sensório -motor).
“Sim, Step.” (Cognição).
“Não.” (hipercinesia).
“Não”. (Psicomotora).
“Não”. (Visomotora).
“Não tem um movimento específico.” (Psicomotricidade).
“Consigo acompanhar o ritmo de todos”. (Motricidade).
38
“Nenhum”. (Corporeidade).
Dessas respostas, infere-se o gosto das pessoas em se movimentar,
pois, a maioria não sente dificuldade alguma em acompanhar os ritmos. Isso
também se deve ao professor, ter consciência da sua situação estratégica de
estar a serviço de quem o procura. “[...] a educação pelo movimento é uma
peça mestra da área pedagógica.... que permite.... desenvolver formas de
atenção, pondo em jogo certos aspectos da inteligência”. (ALVES, 2003,
p.138). Daí vale destacar uma reflexão o sobre o educador:
“Por que se tornar um educador? Esta pergunta parece, de saída,
impertinente. Não há coisa mais nobre que educar. Sou educador porque sou
apaixonado pelo homem. Desejo criar condições para que cada indivíduo
atualize todas as suas potencialidades”. (ALVES, 1985, p.75).
A dificuldade de coordenação motora que uma das entrevistadas
apresenta no “... step”. Faz lembrar os ensinamentos do Dr. Rubens Wajnsztejn
– neuropediatra – que procura colocar em prática no dia a dia, como médico,
neuropediatra, professor e indivíduo. “Coloco-me sempre no lugar do outro.
Fico imaginando o que eu gostaria de receber, enquanto aluno ou paciente, se
estivesse no lugar da pessoa com a qual estou me relacionando.”5
Essa veia didática do Rubens toca o âmago, em especial quando se
atua em aulas de ginástica localizada, no relacionamento com as alunas,
pensando como ajudá-las a aumentar a qualidade do trabalho que elas
desenvolvem ou que pretendem desenvolver.
Neste caso específico da aluna sentir dificuldade no step, também
chama a atenção os ensinamentos de Cavallari (2002) quando começou a
lecionar para professores que lidam com a educação infantil, percebeu a
dificuldade deles em compreender como as crianças aprendem, assim também
sou eu, desde que comecei a trabalhar em academia de ginástica, com aulas
5
Mecanismos cerebrais. Jornal DE FATO. Março/abril de 2002. Disponível em
http://www.ispegae-oipr.com.br/jornal/pdf/2ed.PDF acesso 24/5/2011.
39
de ginástica localizada, senti a necessidade de me aperfeiçoar e fui em busca
do conhecimento, curso de especialização em psicomotricidade.
Com as orientações recebidas, somadas a experiência como
professora de ginástica localizada, estou conseguindo ajudar melhor. Segundo
Cavallari (2002), se começar a refletir sobre o movimento humano, chega-se à
conclusão de que todo movimento não acontece sozinho, pois toda a ação tem
uma intenção expressiva ou funcional. Qualquer gesto é sustentado por um
significado, portanto, pode-se dizer que: psicomotricidade é o movimento com
inteligência.
Apesar da dificuldade que uma e outra tem em acompanhar o ritmo da
ginástica localizada, deve-se também, às vezes, a disfunção do cérebro.
Segundo as pesquisas da atualidade, os cientistas analisaram as metades do
cérebro e chegaram à conclusão de que cada uma tem funções, capacidades
em suas respectivas áreas, onde atuam as diferentes responsabilidades da
psique humana. O lado esquerdo cuida da lógica, da linguagem, da leitura, da
escrita, dos cálculos, do tempo, do pensamento digital e linear e do lado direito
do corpo; entre outras coisas, enquanto que o direito se prende às percepções
da forma, da sensação do espaço, da intuição, do simbolismo, da
atemporalidade, da música, do olfato e do lado esquerdo do corpo, entre outras
funções.
Nesse sentido, o psicomotricista, atento à dificuldade do aluno, pode
ajudar com o conhecimento da psicomotricidade, a superar.
6ª CATEGORIA: QUAL MOVIMENTO
“As sequências”. (Cognição).
“Não tem um movimento específico”. (Psicomotricidade).
“Consigo acompanhar o ritmo de todos”. (Motricidade).
“Nenhum”. (Corporeidade).
Essa categoria remete à Psicomotricidade Geral por englobar as linhas
de psicomotricidade educativa, reeducativa e terapêutica. Geralmente,
40
sustenta-se em diagnósticos do perfil psicomotriz e na prescrição de exercícios
para sanar possíveis descompassos do desenvolvimento motor.
O profissional psicomotrista pode analisar a dificuldade que o aluno
apresenta nos movimentos a partir do emocional, que são expressas de modo
verbal ou corporal. Técnicas de avaliação e exame psicomotor permitirão
identificar e avaliar a natureza desta dificuldade, lançando mão da
psicomotricidade.
A lateralidade é uma dimensão da atividade motora humana marcada
pela dominância de um lado corporal sobre o outro. Um lado do corpo, e
consequentemente uma parte do cérebro assume uma ascendência nas
variadas
atividades
motoras
e
perceptivas.
A
lateralidade
pode
ser
compreendida como a bússola do esquema corporal. (SCHAPKE, 2010).
A psicomotricidade educa o movimento, e ao mesmo tempo coloca em
jogo as funções da inteligência. O movimento humano é a parte mais ampla e
significativa do comportamento humano. É obtido através de três fatores
básicos: os músculos, a emoção e os nervos, formados por um sistema de
sinalizações que lhes permitem atuar de forma coordenada.
Normalmente, o movimento dos exercícios nas aulas de ginástica
localizada é adaptado a necessidade anatômica do grupo. Os exercícios mais
comumente utilizados hoje na Ginástica Localizada são coincidentemente os
utilizados nas séries de musculação, apenas com a diferença do descanso
ativo, mais largamente utilizado nesta atividade.
E o número de série e de subsérie deverá estar de acordo com o que
se pretende trabalhar. Se a pessoa quer uma série de força, ela deverá ter
poucas repetições com maior carga. Quando quer resistência, maior número de
repetições e pouca carga. Por essa razão, a importância do planejamento para
que seja alcançado o objetivo de cada aula.
7ª
CATEGORIA:
ENTENDIMENTO
EMOCIONAL
“Sim”. (Sensório-motor).
DA DIFERENÇA ENTRE ESTADO FÍSICO E
41
“Sim, emagreci 26 kg, minha autoestima mudou, sou bem mais
feliz”. (Cognição).
“Sim”. (Hipercinesia).
“Nossa!!! Resumindo, não paro nunca mais, rs!”. (Psicomotora).
“Sim”. (Visomotora).
“Muita.” (Psicomotricidade).
“Sim”. (Motricidade).
“Bastante. Sinto-me mais disposta física e emocionalmente.”
(Corporiedade).
“Ai de mim se não fosse à ginástica”. (Cinestesia).
O exercício físico pode estar relacionado com a síntese de dopamina,
devido a um aumento nos níveis de cálcio no cérebro. A dopamina está
relacionada com o desempenho motor, a motivação locomotora e a modulação
emocional (INGRAM, 2000 apud HORTENCIO, et. al.).
A prática regular de exercícios físicos também apresentaria efeitos
ligados à secreção e liberação da beta-endorfina. Isso acontece a partir da
transmissão do impulso simpatoadrenal, que facilita a atividade simpática,
aumenta o débito cardíaco, regula os vasos sanguíneos, aumenta o
catabolismo do glicogênio e a liberação de ácidos graxos. As concentrações
elevadas
de
catecolaminas,
juntamente
com
o
ACTH
(hormônio
adrenocorticotrófico), irão por sua vez, estimular a produção de beta-endorfina,
um opiáceo natural. A beta-endorfina é uma substância endógena, similar à
morfina, que interage com receptores nas áreas cerebrais envolvidas na maior
tolerância à dor, melhor controle do apetite, do sono, da temperatura corporal e
dos estados de raiva, tensão e ansiedade. A beta-endorfina desencadeia a
denominada “alegria do exercício”, – um estado, descrito por alguns, como
euforia e jovialidade à medida que progride a duração do exercício aeróbico, de
moderado a intenso (POWERS; HOWLEY, 2000, p. 74-75).
O corpo é um universo particular. Nele se move, sente, age, percebe e
descobre novos universos. Tudo esta devidamente gravado nesse corpo, e é
na infância que se determina a quem será bem gravado e a quem nem tanto.
42
Aprender, movimentar, sentir esse universo e partilhar com outros, será
determinante na estruturação desse sujeito que se forma, assim respeitando as
limitações de cada individuo, pois o processo de desenvolvimento pode não ser
igual a todos. A psicomotricidade auxilia este universo em formação a se
descobrir por inteiro, através de estimulação e exploração concreta do mundo
(SILVA 2005, p.44).
Considerando que todo conhecimento – inclusive o de si mesmo –
passa pelo corpo. É o corpo que está envolvido no processo de compreender,
de recordar, de se individuar. O corpo traz as marcas de sua história; sonha-se
com corpos, projetam-se em corpos, os arquétipos manifestam-se como
corpos. Os deuses têm corpos, e ainda hoje se imagina um Cristo cabeludo e
um Deus de barbas brancas. (FREITAS, 2004, p.74).
Como se viu no capítulo anterior, o corpo foi e continua sendo
manipulado pelo modo de produção capitalista e como o corpo produtivo se
tornou também corpo consumível e consumidor. (Ibidem).
8ª CATEGORIA: PERCEPÇÃO FÍSICA E SATISFAÇÃO PSÍQUICA
“Tenho me sentido mais disposta e menos cansada.” (sensório-motor).
“A perda de peso e o enrijecimento que a localizada me ajuda a
manter”. (Cognição).
“Tenho mais resistência física, além da perda de peso e tanto de
massa magra. Me sinto bem hoje em dia com o meu corpo.” (Hipercinesia).
“Disposição e bom humor. Acredito cegamente que a ginástica
localizada está intimamente ligada à beleza interior”. (Psicomotora).
“Fiquei com mais disposição.” (Visomotora).
“Muitas, meu corpo voltou a mudar, e tenho me sentindo mais
desinibida.” (Psicomotricidade).
“Além da perda de peso, maior disposição pro dia a dia, menos cólicas
menstruais e queda de cabelo”. (Motricidade).
43
“A dança traz equilíbrio e postura mais correta, e ainda aumenta
minha autoestima.” (Corporeidade).
“Saúde em geral. Não tomo remédios, bom astral e satisfação
com o meu corpo.” (Cinestesia).
A corporiedade refere-se à qualidade do que é corpóreo. No dizer da
(Cognição): “A perda de peso e o enrijecimento que a localizada me ajuda a
manter”.
As atividades de raciocínio e físicas foram tradicionalmente percebidas
na cultura brasileira de formas distintas e estanques. A valorização das
atividades mentais em detrimento das atividades físicas. Diz a (Psicomotora):
“Disposição e bom humor. Acredito cegamente que a ginástica localizada está
intimamente ligada à beleza interior”.
A percepção que o indivíduo tem do mundo depende das suas
atividades motora. A posição e o status do próprio corpo irão regular a sua
percepção de mundo. Pode-se dizer que o sistema perceptual e motor estão
sempre interagindo em grande parte das atividades motoras. (Schapke, 2010).
Como relata a (Corporeidade): “A dança traz equilíbrio e postura mais correta,
e ainda aumenta minha autoestima.”.
Como já mencionado, a imagem e esquema corporal são componentes
do desenvolvimento psicomotor que se distingue em sua estruturação, pois
está ligado às experiências relacionais e o outro, as experiências corporais
funcionais que o indivíduo tem ao longo de sua vida. De acordo com a
(Psicomotricidade): “Muitas, meu corpo voltou a mudar, e tenho me sentindo
mais desinibida.”
Vários autores têm assumido uma diferenciação acerca dos termos
esquema e imagem corporal. De forma geral, para eles, esquema corporal
estaria ligado à estrutura neurológica e a imagem corporal, ligada à vivência
44
afetiva do próprio corpo de cada um. Mas é interessante destacar a posição de
Le Boulch:
“[...] consideramos o esquema corporal ou imagem do corpo como
intuição de conjunto ou um conhecimento imediato que temos de nosso corpo
no estado estático ou em movimento, na relação de suas diferentes partes
entre si e em suas relações com o espaço circundante dos objetos e das
pessoas. Esta noção acha-se no centro de maior ou menor disponibilidade que
temos de nosso corpo e no centro de relação vivida, universo-sujeito, sentida
efetivamente e às vezes de modo simbólico.” (LE BOULCH, 1988, p.188).
Quando muito jovens, surpreende-se muitas vezes com algumas
imagens do corpo. A imagem corporal expande, encolhe, fragmenta e se
reestrutura frequentemente. Com o tempo, à medida que se reconhece e
familiariza-se com representações mentais do corpo sob várias perspectivas, a
imagem corporal alcança maior “estabilidade”. (Tavares, 2003, p.136-137).
Assim demonstra (Cinestesia): “Saúde em geral. Não tomo remédios, bom
astral e satisfação com o meu corpo.”
Segundo Castro (1998), a temática corpo ganha cada vez mais espaço
desde os anos oitenta, quando nascem as duas maiores revistas voltadas ao
tema: BOA FORMA (1984) e CORPO a CORPO (1987), as quais abriram o
caminho para um filão que vem sendo habilmente explorado pelas indústrias
editoriais.
Ainda acrescenta, que
a
percepção do
corpo na
sociedade
contemporânea é dominada pela existência de um vasto arsenal de imagens
visuais. Featherstone chama a atenção para o fato de que "a lógica secreta da
cultura de consumo depende do cultivo de um insaciável apetite para o
consumo de imagens." (FEATHERSTONE, 1993, p. 178 apud CASTRO, 1998).
45
9ª CATEGORIA: PERCEPÇÃO E SENTIMENTO
“Tenho notado uma melhora na minha postura e a minha autoestima
aumentou em relação ao corpo”. (Sensório-motor).
“De felicidade, pois perder 26k há 2 anos e, conseguir manter a mesma
forma até hoje é muito bom.” (Cognição).
“Me sinto mais bonita, atraente e confiante. O meu corpo está mais
bonito e firme.” (Hipercinesia).
“A cada dia que passa mais me admiro, sem narcisimo, rs. E ao
mesmo tempo a percepção de que estou no caminho certo aumenta.”
(Psicomotora).
“Maior satisfação em me exercitar. Minha postura melhorou. Venho me
sentindo melhor com meu corpo.” (Visomotora).
“Muito boa, nos trás a sensação de que podemos fazer o que
quisermos.” (Psicomotricidade).
“Me sinto muito mais bonita e feliz! Indiscutivelmente exercício físico é
essencial!” (Motricidade).
“Sinto-me feliz em comprar uma roupa e saber que cairá bem. Aumenta
meu
metabolismo
e
sinto-me
mais
ereta
e
com
postura
melhor.”
(Corporeidade).
“Proporcionalidade corporal e autoestima elevada.” (Cinestesia).
Esses depoimentos direcionam a reflexão sobre o papel do movimento
na percepção. Muitos psicólogos cognitivos e filósofos de diversas escolas,
sustentam a tese de que, ao transitar pelo mundo, as pessoas criam um
modelo mental de como o mundo funciona (paradigma. Ou seja, elas sentem o
mundo real, mas o mapa sensorial que isso provoca na mente é provisório, da
mesma forma que uma hipótese científica é provisória até ser comprovada ou
refutada ou novas informações serem acrescentadas ao modelo.6
6
Percepção. Disponível
acesso em 24/5/2011.
em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Percep%C3%A7%C3%A3o
46
“Tenho notado uma melhora na minha postura e a minha autoestima
aumentou em relação ao corpo”. (Sensório-motor).
Da percepção e controle do próprio corpo, ou seja, da interiorização
das sensações relativas a esta ou aquela parte do corpo e a sensação do
corpo como um todo, como se observa nas respostas: “De felicidade, pois
perder 26k há 2 anos e, conseguir manter a mesma forma até hoje é muito
bom.” (Cognição). “Muito boa, nos trás a sensação de que podemos fazer o
que quisermos.” (Psicomotricidade).
O homem considera que tem um corpo, considera que pode dispor dele
como bem lhe aprouver, aliená-lo de si mesmo, vendê-lo como força de
trabalho, privá-lo de prazeres para que sua alma imortal possa ser salva. Tal
controle narcísico dos ritmos corporais conduz ao stress e à desintegração:
horas excessivas de trabalho, compensadas com aulas “relaxantes” em
academias de ginástica; enquadramento do corpo no padrão estético vigente;
sedentarismo; atividades físicas de fim de semana; dietas; cirurgias plásticas.
O indivíduo tem um corpo não é consciente dele, como também não pode ser
consciente de um objeto – a relação que se estabelece é de posse e não de
conhecimento íntimo. “Ter” um corpo é pretender que ele se cale e se submeta
ao domínio daquele que o possui. Porém, é o homem quem se encontra nos
“domínios” do corpo, sua condição é corporal e ele só se comunica com os
outros porque tem um corpo que se expressa. (FREITAS, 1999, p.52-53).
“A cada dia que passa mais me admiro, sem narcisimo, rs. E ao
mesmo tempo a percepção de que estou no caminho certo aumenta.”
(Psicomotora).
“Maior satisfação em me exercitar. Minha postura melhorou. Venho me
sentindo melhor com meu corpo.” (Visomotora).
Trazer os sentimentos para a consciência para conhecê-los e melhor
lidar com eles é um trabalho para a vida toda. No adulto, há predomínio do
sentimento sobre a emoção, mas o corpo acompanha a verbalização do
sentimento, portanto a emoção sempre está presente, mesmo quando não
predomina,
assim
como
presentes.(ARRUDA, 2005).
o
motor
e
o
cognitivo,
sempre
estão
47
“Me sinto muito mais bonita e feliz! Indiscutivelmente exercício físico é
essencial!” (Motricidade).
“Sinto-me feliz em comprar uma roupa e saber que cairá bem. Aumenta
meu
metabolismo
e
sinto-me
mais
ereta
e
com
postura
melhor.”
(Corporeidade).
“Proporcionalidade corporal e autoestima elevada.” (Cinestesia).
Ao considerar o indivíduo como um todo e não partes conjugadas ou
somadas, a psicomotricidade une, a mente e a motricidade e acessa a
totalidade do ser.
48
CONCLUSÃO
Valendo-se do pensamento de Alves (1985, p.66), não há dúvidas de
que uma das marcas da ciência é o método de que lança mão. Mas o uso
rigoroso de um método não pode ser o critério inicial e final na determinação da
pesquisa, e sim, a relevância do problema. Sabe-se que as questões realmente
importantes, no campo das ciências humanas, são extremamente complicadas.
Em cada problema se encontra a conjunção de uma série de fatores
heterogêneos. Por exemplo, pensar na questão que motivou este estudo: de
que forma a psicomotricidade contribui com o sujeito em seu processo de
conhecimento corporal visando o seu equilíbrio.
Nunca se pode prever com exatidão a dimensão exata desse
questionamento, seu efeito em cada pessoa a curto e a longo prazo. Como
professora de ginástica localizada, lidar com essa subjetividade exige
consciência dessa complexidade que é atuar sem enveredar por caminhos
lineares, reducionistas, que só serão prejudicais a manifestação da
singularidade do aluno.
Neste estudo “A psicomotricidade: o corpo e sua expressividade”,
depois da análise dos depoimentos sobre as diferentes formas expressivas das
mulheres na academia de ginástica localizada e, como se relacionam com suas
expressões corporais, pôde-se concluir que não se pode entender a
psicomotricidade, em sua totalidade (pensamento, movimento e afetividade), se
não se levar em conta fatores de ordem emocional (experiências vividas no
mundo exterior e as que são internalizadas, gerando construção do mundo
interior de cada um). Para Alves (1985, p.67), qualquer análise interdisciplinar,
empreendida por um pesquisador, tem, necessariamente, de ser frouxa do
ponto de vista metodológico. Pois, de que maneira avaliar individualmente o
desempenho de uma pessoa, se o trabalho é coletivo?
O corpo participa com todas as suas dimensões representativas
inserido em uma complexa rede de inter-relações, onde estão presentes
conteúdos biológicos, psicólogos, somáticos, vivenciais, históricos e sociais.
49
“A subjetividade do ser humano está sempre vinculada às forças
internas. As percepções, movimentos e relações afetivas emergem da
confluência de forças internas e externas sobre o nosso corpo, transformandoo sem cessar. Ao representar um objeto tão dinâmico, tão instável, construímos
imagens também dinâmicas e naturalmente mutáveis. Nosso corpo, assim,
apresenta numerosas nuanças, conforme variam as interações das forças
internas e externas sobre o nosso ser.”(TAVARES, 2003, p,131).
Sob essa perspectiva, a psicomotricidade relacional pode oferecer
reflexões significativas diariamente a cada um em relação a si mesmo,
enquanto sujeito corporal, que vive em comunicação com o seu entorno.
Por ser a corporeidade uma lógica corporal que cada pessoa vai
adquirindo ao longo do processo. Depois de cada aluna sistematizar a
corporeidade, procede-se ao trabalho de improvisações de ações, por exemplo,
convidar as alunas para dançarem no intuito de descontraírem. Utiliza-se dessa
ação para brincar como elemento motivador para provocar a exteriorização
corporal da pessoa. Possibilita assim, um tempo e um espaço onde a pessoa,
de forma espontânea e criativa, expressar sua liberdade e autenticidade todo o
seu potencial motor, cognitivo, afetivo, social e relacional. Percebe-se que
melhora o desenvolvimento global da pessoa, além da capacidade de
adaptação social e afetiva. Nessa mediação, provoca-se, escuta-se, interagese com a pessoa como parceira no seu jogo simbólico.
Essa intervenção pode abrir novos caminhos na existência das
pessoas a partir dos contextos emocionais vividos, que vão se chocando com
os sentimentos, emoções e valores, fazendo novas associações simbólicas e
imagens, criando, assim, um novo corpo representativo. Esse processo de
transformação da imagem poderá ser auxiliado pela psicomotricidade a
qualquer tempo.
Conforme citou Alves (1985), o ponto inicial e final de uma pesquisa
não pode e não deve ser a metodologia, mas antes a relevância do problema.
É nesse sentido que a abordagem científica da psicomotricidade
evidencia a necessidade de ajustar as inteligências múltiplas para se obter
como resultado final o valor integrado do indivíduo (COSTALLAT, 2001).
50
CORPO
EMOÇÃO
INTELIGÊNCIA
Instrumento
Tom
Melodia/Letras
Potencial motor
Afetivo relacional
Cognitivo
Motricidade humana
Harmonia
Adaptabilidade social
Equilibração
Modificabilidade do processo
de informação
Portanto, este estudo constatou, por meio de um trabalho de campo,
junto a alunas de academia de ginástica, que os exercícios preferenciais, os
rejeitados, os desejos, vão sendo configurados por meio da estrutura subjetiva
na qual correlacionam-se o tempo, o corpo, o mundo, as coisas e os outros.
51
ANEXOS
Índice de anexos
Anexo 1 >> Glossário;
Anexo 2 >> Termo de consentimento res.196/96;
Anexo 3 >> Entrevistas.
52
ANEXO I
GLOSSÁRIO
Cinestesia – sensações internas (dos músculos, dos ligamentos) que informam sobre os
deslocamentos no espaço dos diferentes elementos corporais. Modalidade de sensibilidade
proprioceptiva que informa o cérebro sobre os movimentos dos segmentos corporais. Participam
nessa informação os fusos neuromusculares, os corpúsculos de Golgi e os corpúsculos de Ruffini.
Cognição – o ato ou o processo de conhecimento. As várias aptidções do processo de
conhecimento são sinônimos de aptidões cognitivas.
Comportamento – maneira de ser habitual de um indivíduo diante das coisas, dos acontecimentos
do outro.
Comunicações – conjunto de trocas entre o ser e o mundo.
Corporeidade – corpo vivido na sua totalidade, na sua unidade.
Criatividade – função inventiva de imaginação, criadora, dissociada da inteligência (H. Pieron).
Esquema corporal – organização das sensações relativas a seu próprio corpo, relacionadas com
os dados do mundo exterior (utilização da imagem do corpo).
Estímulo – conjunto de acontecimentos físicos, químicos, biológicos e sociais que atuam no
indivíduo e provoca uma ação determinada em forma de resposta.
Estrutura – disposição de elementos que constituem uma unidade.
Estruturação espaço-temporal – apreensão das estruturas espaciais e temporais.
Hipercinesia – movimento e atividade motora e constante e excessiva. Também designada por
hiperatividade.
Imagem do corpo – conjunto das sensações conscientes ao próprio corpo relacionados aos
aspectos emocionais e psicoafetivos.
Intelecto – inteligência, comunicação. Nas funções mentais designa pensamento abstrato e lógico.
Labilidade – escorregadio, transitório.
Lateralidade – dominância funcional, direita ou esquerda, da mão, do olho ou do pé. Implica
conhecimento dos dois lados do corpo e a capacidade de os identificar como direita e como
esquerda.
Motricidade - conjunto de funções nervosas e musculares que permite os movimentos voluntários
ou automáticos do corpo.
Músculos – partes carnudas do corpo que puxam ou se contraem para que o corpo e os membros
possam mover-se.
Narcisismo – atenção exclusiva dirigida para si próprio.
Nervomusculares – relativo a nervos e músculos.
Neuromotricidade - aspectos da motricidade relacionados com o sistema nervoso, sua maturação
e suas perturbações. Educação das sensações e das percepções que levam ao conhecimento dos
objetos e dar relações entre eles.
53
Organização espacial – desenvolvimento das capacidades ligadas ao esquema corporal e à
organização perceptiva para o domínio progressivo das relações espaciais.
Percepção - Processo de organização e interpretação dos dados que são obtidos através dos
sentidos.
Perceptivo-motora (adaptação) – harmonia entre as percepções (auditivas, visuais...) e ações
sucessivas. Sinônimo de sincronização sensório-motora.
Praxia – movimento intencional, organizado, tendo em vista a obtenção de um fim ou de um
resultado determinado. Não é um movimento reflexo nem automatizado, é um movimento voluntário,
consciente, intencional, organizado, humanizado.
Proprioceptivo – sistema sensorial resultante da atividade de receptores localizados ao nível do
músculo (fuso neuromuscular) do tendão (corpúsculo de Golgi) e do labirinto, e que fornecem
informações referentes à posição e ao movimento dos membros do corpo.
Psicocinética – “método geral de educação que utiliza como material pedagógico o movimento
humano, em todas as suas formas”. (Le Boulch).
Psicomotricidade – interação das diferentes funções motoras e psíquicas e afetivas.
Psicomotor - próprio ou referente a qualquer resposta que envolva aspectos motores e psíquicos,
tais como os movimentos corporais governados pela mente.
Raciocínio – ato de avaliar ideias ou coisas para conhecê-las e estabelecer uma relação entre elas.
O encadeamento, aparentemente lógico, de juízos ou pensamentos.
Relacionamento – conjunto de laços entre os indivíduos, entre indivíduos e objetos, entre
indivíduos através de objetos.
Sensibilidade proprioceptiva – informações reconhecidas pelos órgãos dos sentidos sobre as
atitudes, os movimentos que permitem a postura e o ajustamento dos atos.
Sensório-motor – termo aplicado para explicar a natureza dos atos que se encontram dependentes
da combinação ou da função integrativa entre os sistemas sensoriais e as estruturas motoras.
Social – relativo a ações, valores, decisões e relações dentro de grupo de pessoas.
Tempo – ritmo próprio de um sujeito.
Terapia -
tratamento para a reabilitação da pessoa.
Tônico (diálogo) -
compreensão (aceitação e confiança do outro, proporcionada pelo contato
ou pela mobilização corporal.
Tônus muscular -
estado de tensão ativa e involuntária do músculo. É o tônus muscular que
permite manter a postura ereta.
Visomotor – ato guiado essencialmente pela vista.
Vivido (corporal) – consciência das sensações ligadas ao próprio corpo, com ou sem deslocamento
segmentares, experimentadas por um sujeito em qualquer situação
.
54
ANEXO II
TERMO DE CONSENTIMENTO RES.196/96
55
ANEXO III
ENTREVISTAS
PARTE I:
Nome:
__________________________________________________________
Faixa etária:( )20 a 30 anos( ) 30 a 40 anos( )40 a 50 anos( ) 50 a 60 anos
Tempo que frequenta a academia:_______________________________
PARTE II:
Por que entrou para academia?
__________________________________________________________
Quantas vezes você costuma fazer ginástica localizada na semana?
__________________________________________________________
Quais as aulas de ginástica que mais gosta de fazer?
__________________________________________________________
E a que menos gosta, e por que?
__________________________________________________________
Tem encontrado alguma dificuldade em acompanhar o ritmo de uma das
ginásticas?
__________________________________________________________
Qual movimento?
__________________________________________________________
Tem notado alguma diferença em seu estado físico e emocional?
__________________________________________________________
Qual o tipo de melhora tem percebido? Que tipo de satisfação vem
sentindo depois que passou a enfrentar as aulas de ginástica localizada
e a dança?
56
BIBLIOGRAFIAS CONSULTADAS
ALVES, Fátima. Psicomotricidade: corpo, ação e emoção. Rio de Janeiro:
Wak, 2003.
ALVES,
Ricardo
C.S.
Psicomotricidade
I.
RJ-2007.
http://www.psicomotricialves.com/PSICOMOTRICIDADEI.pdf.
Disponível
em
Acesso
em
28/3/2011.
ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. Coleção Polêmicas
do Nosso Tempo. Cortez Editora. Autores Associados. 13ª ed. São Paulo,
1985.
ARRUDA, Heloisa Paes de Barros. Percepção de sentimentos e emoções na
videoconferência: um estudo com alunas do PEC-Municípios. PUC-SP, 2005.
Disponível
em:
http://weblab.tk/sites/default/files/bibliografia/HeloisaArruda-
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65
ÍNDICE
FOLHA DE ROSTO
2
AGRADECIMENTO
3
DEDICATÓRIA
4
RESUMO
5
METODOLOGIA
6
SUMÁRIO
7
INTRODUÇÃO
8
CAPÍTULO I
CONHECENDO A PSICOMOTRICIDADE: UM BREVE ESTUDO
15
1.1 – Definições conceituais
15
1.2 – A psicomotricidade e o significado do corpo
18
CAPÍTULO II
A PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL (PR)
22
2.1 – Definições conceituais
22
2.2 – Aplicação e atuação da PR em academia de Ginástica
26
CAPÍTULO III
CORPOREIDADE: UM NOVO OLHAR
31
CONCLUSÃO
48
ANEXOS
52
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
56
OUTROS SITES CONSULTADOS
64
ÍNDICE
65
FOLHA DE AVALIAÇÃO
66
66
FOLHA DE AVALIAÇÃO
Nome da Instituição:
Título da Monografia:
Autor:
Data da entrega:
Avaliado por:
Conceito:
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