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A Interpretação na
Psicanálise Lacaniana
Interpretation in
Lacanian Psychoanalysis
RESUMO – O artigo apresenta, em uma visão lacaniana, as transformações ocorridas com alguns conceitos psicanalíticos, a partir de Freud, relacionados ao processo analítico e à interpretação. Discute a função do analista enquanto intérprete.
Faz distinção entre psicoterapia e psicanálise, apontando algumas de suas diferenças.
Palavras-chave: Lacan – psicanálise – interpretação – processo analítico.
ABSTRACT – This article presents a Lacanian perspective on the changes that have
occurred since Freud’s statement of principles in some psychoanalytical concepts
related to both the analytical process and interpretation. It also discusses the function of the analyst as an interpreter, distinguishing psychotherapy from psychoanalysis.
Keywords: Lacan – psychoanalysis – interpretation – analytical process.
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REGINA CLÁUDIA MELGES PUGLIA
Psicóloga formada pelo Instituto
de Psicologia (USP). Psicanalista,
membro-correspondente da
Escola Brasileira de Psicanálise-SP
[email protected]
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A
INTRODUÇÃO
psicanálise hoje em dia é bem diferente daquela que Freud
exercia em seu tempo. Tanto a prática como o contexto mudaram. Lacan, porém, nunca deixou de recorrer a Freud e a
seus ensinamentos, sempre deles partindo para então propor algo novo. Atualmente, nós, analistas, temos de fazer movimentos duplos e
até triplos para que a psicanálise se mantenha e seja eficaz, isto é, precisamos recorrer a Freud, a Lacan, a teóricos e a psicanalistas de nossa
época, para daí propormos alguma modificação em nossa prática analítica, que os tempos presentes exigem.
O que se percebe com freqüência é que os sujeitos que sofrem
procuram encontrar um Outro que lhes dê respostas para o seu sofrimento. Em nossa sociedade não faltam alternativas e práticas que se
propõem a fornecer respostas prontas. Para Lacan, entretanto, o analista é o único que tem a oportunidade de “responder”. E aqui se vê
como Lacan é cauteloso: “não é certeza, não é garantido, mas o analista é o único que tem a chance de ser intérprete”. Mas o que é ser
intérprete, como o analista interpreta, a partir do quê?
ENTREVISTAS PRELIMINARES E ANÁLISE
Um sujeito dirige-se ao consultório do analista numa posição demandante e espera, num primeiro momento, que este lhe dê soluções
imediatas, que eliminem seu mal-estar. Chega numa posição de questionamento por estar chocado com algo do Real com que se defrontou, quer se trate de um acontecimento quer da insistência de um sintoma. Deseja saber o que a psicanálise pode oferecer contra aquilo que
está lhe ocorrendo, contra o seu sofrimento. Pergunta ao analista: “Você sabe o que eu tenho?”; ao que o analista responde: “Sim”. De alguma forma existe aí uma promessa, e o analista só “promete” por saber que a resposta é anterior à pergunta.
Ele propõe ao analisando a regra fundamental da psicanálise:
“diga o que lhe vier à mente, fale sem restrições”. E essa regra é fundamental porque é daí que a resposta emergirá.
O que se busca nas entrevistas preliminares, com a introdução da
regra fundamental, é identificar a consistência da demanda e qual a estrutura do sujeito. O texto do analisando não traz a resposta completa,
de modo linear, mas, os elementos da resposta que o analista saberá
pescar. O analista escuta na fala do sujeito o que ele não pede e nem
pode pedir, o que ele deseja, o peso de seu gozo, o peso pulsional que
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está em jogo, e visa deslocar o sujeito da posição na qual tinha certeza
sobre o objeto.
O diagnóstico estrutural é fundamental, nesse momento, e só
será possível estabelecê-lo na relação transferencial. As considerações
que faço neste texto são aplicáveis apenas à neurose. Tanto a psicose
quanto a perversão requerem que manejos na transferência sejam feitos, com modificações importantes, para que as análises de sujeitos
com essas estruturas se tornem possíveis. Todos os atos do analista levarão em conta a singularidade de cada caso. Os casos de depressão,
toxicomania, anorexia, bulimia e alcoolismo serão considerados a partir da estrutura do sujeito em questão.
O sujeito, ao ocupar uma nova posição inconsciente ao mesmo
tempo vinculada à verdade e ao gozo, promove a retificação subjetiva,
e se implica em seu dizer, assumindo a responsabilidade por suas escolhas. Suas queixas se transformam em sintoma analítico e então a
análise, efetivamente, tem início. O sujeito, estando implicado no discurso analítico, defronta-se com a verdade na qual acreditava até então, e a põe em jogo nas relações que estabelece com a ordem simbólica. A associação livre, que não é da ordem da asserção, supõe e confirma, durante este século de prática, que a resposta está escrita no inconsciente. Nos equívocos da língua surge a denúncia de um gozo
instalado. Nos lapsos, nos chistes,1 nos sonhos, no sintoma, se evidencia a dimensão da verdade e do gozo e, a partir deles, a série de significantes primordiais, o desenvolvimento da cadeia significante, tão
particular a cada sujeito, a relação do sujeito com o vazio, com o Real,
com o objeto-causa mais além das identificações.
Para o sujeito, que se dirige ao analista – sujeito suposto saber –
e que com ele estabelece uma relação transferencial, esse analista transmite uma mensagem: “É você quem detém o texto e as respostas que
procura, mas sou eu que o dirigirei a elas, pois encontra-se aqui o seu
analista”. Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”,
Lacan afirma: “(...) é pelo que o sujeito imputa de ser (ser que está em
outro lugar) para o analista que é possível o alcance da interpretação”.2
FANTASIA E SINTOMA
Freud observou como o sujeito não podia dizer nada sobre sua
fantasia, uma vez que falar sobre ela lhe causa vergonha e vai contra
seus valores ideais. Dificuldade esta que só poderia ser resolvida atra1
2
Ver também alguns comentários sobre a construção de chistes em FREUD, 1969c, p. 280s.
LACAN, 1998a, p. 591.
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vés de uma nova abordagem, que será proposta por Lacan, abordagem
fundada na diferenciação dos três registros: o Real, o Simbólico e o
Imaginário. Com a conceituação dos três registros, a fantasia se transformou também num conceito fundamental para o avanço da psicanálise.
Freud, em seus últimos textos, e em particular em Análise Terminável e Interminável, se perguntava o que fazer com a inércia frente
ao trabalho analítico. A questão da fantasia comprometia a psicanálise
quanto a seu fim e quanto a seu estatuto em relação a outras disciplinas. Lacan elaborará para a fantasia um matema fundamental. Este
matema aparece como um dos elementos que estruturam a direção do
tratamento no discurso analítico. Ao introduzir o objeto Real (a) na
fantasia ($<>a )[articulação do sujeito barrado com o objeto causa do
desejo (para sempre perdido)], Lacan dá à fantasia uma causalidade sobre o sintoma.
Lacan, durante seu ensino, fez inúmeras modificações na sua forma de pensar o funcionamento psíquico. Num primeiro momento,
pensou que a imagem, e não o significante, atraía a libido. Haveria
uma inércia da libido articulada à imagem bloqueando o funcionamento da cadeia significante. Foi o momento da predominância do
Imaginário em seu ensino.
Num segundo momento, Lacan abordou o aspecto do gozo,
vendo que havia uma conexão direta entre significante e libido. O que
atraía a libido, então, seria uma imagem significantizada, a qual chamou de identificação fálica. Existiria um significante especial, que no
Simbólico, atrairia o investimento libidinal. Lacan fez do falo esse significante investido pelo fator quantitativo da libido.
A terceira maneira que Lacan pensou essa relação significante/libido trouxe a fantasia como o lugar onde estes se juntam, pois a fantasia é uma articulação significante na qual, de um lado, está presente
o sujeito dividido ($) e, de outro, a quantidade libidinal (a), sendo a
pulsão o articulador deles ($<>a ).
A única forma de fazer com que o sujeito se desembarace desse
gozo presentificado na imagem, no significante e na fantasia, é dar
condições para que, em sua análise, ele ultrapasse o Imaginário, deixando cair as identificações idealizadas, e atravesse a fantasia que construiu. É justamente na fantasia que incide o destino do investimento libidinal, e o final da análise depende do desinvestimento libidinal da
fantasia.
Lacan, no Seminário 11: os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise, não inclui a fantasia entre os quatro conceitos fundamen-
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tais da psicanálise. Paradoxalmente, é um termo muito utilizado por
ele. A fantasia se opõe às formações inconscientes. As fantasias não são
decifradas da mesma maneira: não constituem um texto organizado
pelas leis de codificação do inconsciente. A oposição entre o sonho (via
régia do inconsciente) e as fantasias conscientes permitiu a Lacan criar
esse novo conceito, ao qual deu ênfase durante todo seu ensino. Fantasia e sintonia, entretanto, têm algo em comum: ambos surgem a partir do enigma. Freud nos ensina que ao longo da infância o sexual faz
enigma para a criança. O enigma surge a partir de um gozo pulsional,
vivido no corpo e impossível de dizer. O enigma leva as crianças a
construírem teorias sexuais que têm um lugar capital na construção
das fantasias e no surgimento de sintomas. É no deciframento dos sintomas e na construção das fantasias, na análise, que encontramos restos destas teorias infantis, construídas a partir de um postulado de gozo, ainda ativas no inconsciente.
A trajetória desenvolvida por Lacan para a fantasia ilustra, de
modo exemplar, o movimento que animou seu ensino, conduzido
pela via do matema. O matema foi um artifício inventado por Lacan
bastante eficiente, pois permite que se vá do universal ao particular, do
mito à estrutura. Desse modo, do mito freudiano organizador da fantasia fundamental a partir da repressão originária, Lacan passa a uma
lógica da fantasia cujo esforço se centra em articular a castração com
o objeto-causa do desejo: objeto este necessário ao sujeito para ser –
apesar da falta-a-ser que o constitui – e a partir do qual se faz possível
um gozo para sempre parcial e a-sexual.
Na análise se pode aspirar a desmontar a fantasia, mas não a interpretá-la. A fantasia não está submetida às leis da interpretação. Não
é interpretável, mas é pivô da interpretação, não na vertente dialética
que descansa na repetição significante, mas a partir do amor de transferência, em sua vertente de enigma, portanto, que reaviva a falta no
Outro. A fantasia fornece ao analista a chave do lugar que ele ocupa
para o sujeito, o lugar do Real. A intervenção do analista no discurso
do sujeito deve responder à necessidade de atualizar na transferência
a pergunta relativa ao desejo do sujeito. Porém, essa resposta não é do
significante, pois o significante leva consigo apenas a falta-a-ser, mas do
Real: é a fantasia que responde à pergunta do desejo.
O sujeito não se satisfaz com o que é. Por outro lado, sem dúvida, o que é, o que vive, seus sintomas mesmos, lhe dão satisfação.
Freud não dizia menos do que isso. Lacan o recorda dizendo: “(...) os
pacientes não se satisfazem, como se diz, com o que são. E, no entanto,
sabe-se que tudo o que eles são, tudo o que vivem, mesmo seus sin-
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tomas, depende da satisfação. (…) eles dão satisfação a alguma coisa.
Eles não se contentam com seu estado, mas, estando esse estado tão
pouco contentador, eles se contentam assim mesmo”.3 Sendo tão pouco contentáveis, se contentam. Lacan introduz nessa satisfação paradoxal a categoria do impossível e, opondo o Real ao possível, define
precisamente o Real como esse impossível. Para Freud o Real aparecia
como obstáculo ao princípio do prazer: o Real estava ali, mas as coisas
não se ajustavam de imediato, mesmo tendo-as à mão. Lacan considera demasiado restritiva essa concepção de Real e, indo além do princípio do prazer, insiste na separação do conceito de Real do campo
desse princípio: por sua dessexualização, pelo fato de que sua economia admite algo novo que é da ordem do impossível, que concerne
também à relação sexual. De acordo com o aforismo lacaniano “não
há relação sexual”, isto é, não há, no inconsciente, a inscrição de significantes capazes de fazer uma elaboração de saber sobre a relação entre um homem e uma mulher. Isso quer dizer que não há complementariedade, falta um significante no Outro. O Outro como lugar da sincronia significante é um lugar com uma fenda, um vazio, uma incompletude. Não se pode representá-lo por um círculo que se fecha, pois
haverá sempre um espaço aberto, um buraco. Disso, aliás, Freud já falava em relação ao recalque original. Portanto, um significante falta no
Outro. Lacan o disse de muitas maneiras. É o que ele escreve com o
seu S(A/), é o que ele diz com sua fórmula “não há Outro do Outro”,
é o que ele expressa com sua proposição “a mulher não existe”. Falta
pois um significante (e o significante é o que representa o sujeito para
outro significante) que permitiria fundar uma relação entre dois significantes. Não há gozo senão do um, gozo fálico.
O sintoma aparece como a tentativa realizada para invalidar a
proposição: “não há relação sexual”. O sintoma indica que há algo
que não funciona no Real, tanto que o neurótico encontra seu gozo no
sintoma, por pouca satisfação que exista nele.
Para Freud, somente poder-se-ia formar uma idéia da importância da descoberta que a interpretação dos sonhos teria para o funcionamento da vida mental ao se perceber que a construção onírica é “o
modelo segundo o qual os sintomas neuróticos se formam”.4 Num
primeiro tempo para Lacan, a concepção do sintoma como formação
inconsciente – num estatuto comparável ao do sonho, o lapsus ou o
chiste (em que o deciframento interpretaria a realização do desejo) –, é
3
4
LACAN, 1988, p. 158.
FREUD, 1976, p. 138.
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contemporânea às suas elaborações sobre a constituição do Eu através
do estádio do espelho. O sintoma se fazia palavra de uma verdade, de
um sentido reprimido (uma forma desviada de satisfação sexual).
Em 1953, em Função e Campo da Palavra e da Linguagem, Lacan já assenta o inconsciente do lado da linguagem (ele já havia desenvolvido o conceito de inconsciente estruturado como uma linguagem) e a palavra ali articulada já não se sustenta no Imaginário, mas
sobre um sistema Simbólico. Lacan não reduzirá o sintoma exclusivamente ao campo Simbólico. O laço mantido pelo sintoma com o Imaginário, pelo menos através do corpo, e com o Real, enquanto impossível de dizer, continuará sendo considerado, mas existirá uma supremacia do Simbólico na abordagem do sintoma.
Em RSI, Lacan define sintoma como “a maneira como cada um
goza do inconsciente”5 e afirma que o sintoma surge como resposta a
um gozo que o princípio do prazer não conseguiu assimilar. O gozo,
termo conceituado por Lacan, está do lado do objeto e se distingue do
desejo.
Para Lacan os sintomas têm constância, estabilidade e resistência,
e alguma relação com as funções do corpo. Ressalta que, em Freud,
Simbólico, Imaginário e Real são independentes e que justamente o
sintoma seria capaz de atar em nó essas três estruturas. Nos três registros encontram-se: ex-sistência, consistência e buraco. O sintoma,
como o quarto elemento, seria responsável pela amarração e diferenciação dos três registros. O sintoma é a forma que o sujeito encontra
para “lidar” com a incompletude do significante, com o não poder dizer tudo.
A questão que se coloca na conclusão da análise é: como o sujeito pode se haver com o fator pulsional? E o que está em questão é
ainda a pergunta formulada por Lacan desde 1964, sobre o destino da
pulsão no final da análise: “como o sujeito, que atravessou a fantasia
radical, pode viver a pulsão?”.6 O sintoma, para Lacan dos anos 70,
toma o lugar da pulsão (em Freud o sintoma está entre o psíquico e
o somático), aparecendo como uma fixação significante da pulsão. No
sintoma, a pulsão aparece como cativa e aí apreende sua função simbólica de falo. O sintoma vai além da fantasia e se refere ao corpo vivificado pelo significante. O sintoma, após a travessia da fantasia, coloca-se como resto irredutível de gozo. Porém, não basta dizer que ao
sujeito resta seu modo de gozo. O que importa é a economia libidinal
5
6
LACAN, aula de 17/12/74.
Idem, p. 174.
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do sujeito, ou seja, a melhor maneira que o sujeito encontra para se haver com esse resto irredutível de gozo – é o que Lacan chamou de
identificação ao sintoma, o “saber fazer” com o sintoma, o Synthome,
do qual o sujeito não pode se livrar, e com o qual ele terá de conviver.
No final da análise ocorrerá a destituição subjetiva e o sujeito
passará a ocupar uma nova posição em relação ao Outro, haverá o
desvanecimento do Outro, desvanecimento da demanda: não há Outro que possa satisfazer a demanda, há uma falta originária que jamais
será suprida. O sujeito viverá com responsabilidade, encarregando-se
do que produz. A pulsão não cessará jamais de dividir o sujeito: é impossível separar-se disso, mas é perfeitamente possível viver como sujeito desidealizado, porém responsável pelo seu modo de gozo.
A INTERPRETAÇÃO
Freud, no início de suas descobertas, concebia a interpretação
dos sonhos e das formações inconscientes como a busca de um significado, obtido apenas pelo próprio sonhador através das associações
que fizesse, que proporcionariam acesso a algum conteúdo recalcado,
oculto. O sujeito, com certeza, estabeleceria essas associações com o
que originasse diretamente de sua vida mental, de fontes que lhe eram
desconhecidas, derivadas provavelmente de algum complexo. Todo
trabalho interpretativo considerava que as lembranças que acometidas
ao sujeito a partir do sonho trazido para a análise eram dependentes
de idéias e de emoções inconscientes. O trabalho interpretativo visava
tornar consciente o inconsciente. Para Freud, a elaboração onírica7 é
o trabalho que o sujeito faz para transformar o sonho latente em sonho manifesto. Para tanto, lança mão de condensações, deslocamentos
e transformações regressivas de pensamentos em imagens. O trabalho
que opera em sentido oposto e que é realizado numa sessão de análise,
em que a transferência está instalada, é o trabalho interpretativo. Freud
nos alerta, entretanto, que, “quanto mais o sujeito adquire conhecimento neste campo, tanto mais obscuros serão seus sonhos”.8 A censura leva em conta o saber adquirido com a interpretação dos sonhos.
O trabalho de elaboração do sonho incorpora esse saber, o que provoca um fechamento do inconsciente, ou uma alienação do sujeito no
significante.
Lacan, em “Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise”, retoma uma afirmação feita por Freud na Traumdeutung: “o
7 A totalidade do cap. VI de A Interpretação dos Sonhos (mais de um terço de todo o livro) dedica-se ao
estudo da elaboração onírica (FREUD, 1969a, p. 297s).
8 FREUD, 1969b.
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sonho tem a estrutura de uma frase, ou melhor, atendo-nos à sua letra,
de um rébus (enigma)”.9
Esse enigma está instalado no inconsciente e o inconsciente precisa de tempo para se manifestar, necessitando, para tanto, ser provocado. Ele não tem hora marcada. O inconsciente nem sempre fala, às
vezes também descansa. Lacan considera que ocorre um processo de
abertura e fechamento do inconsciente. Assim, não há de se trabalhar
com o tempo cronológico nas sessões de análise, e sim com o tempo
lógico do sujeito, que leva em conta momentos fecundos do inconsciente desse sujeito. Ao analista cabe o ato analítico, desvinculado do
tempo standartizado, definido a priori.
A interpretação, numa visão lacaniana, pode visar três pontos: o
significado; fazer aparecer significantes que estavam ocultos; e a interpretação do “dizer”, e não dos “ditos”. Lacan acaba considerando que
a interpretação fundamental, aquela que incide, provocando efeitos na
estrutura do sujeito, só deve ocorrer no nível “do dizer”. Com Lacan
fica evidente que a interpretação deve ir além “do que se diz”. O que
cabe ser interpretado não são os ditos do sujeito, mas “o dizer”.
Para que fique bem claro a qual interpretação se está aqui referindo, talvez seja preciso diferenciar psicanálise de psicoterapia. Podese até afirmar que com a psicanálise se consegue efeitos terapêuticos,
mas com finalidades bem distintas.
A psicoterapia tem como meta restaurar a “base abalada” do sujeito, restaurar seu ego. Se um sujeito busca uma psicoterapia ou uma
análise é porque sua divisão subjetiva está afetada, e o psicanalista precisa estar advertido disso. Com a psicoterapia o sujeito conseguirá apenas que sua fantasia seja substituída por outra, o que permitirá que sua
divisão e castração sejam acobertadas por novas fantasias carregadas
de significações.
Para Lacan, assim como para Freud, a clínica é soberana e sempre antecede a teoria. Se assim não fosse, a psicanálise estaria estagnada. Se a teoria fosse anterior à clínica, a psicanálise se orientaria pelo
logos, pelo conhecimento teórico inferido a priori. A psicanálise lacaniana se orienta pelo Real em jogo na posição que cada sujeito, a seu
modo, ocupa.
No texto L’Étourdit Lacan afirma que a psicanálise tem meta
oposta à da psicoterapia. O objetivo da psicanálise não é eliminar a
angústia, nem fortalecer o ego do sujeito, tampouco adaptar o sujeito
à realidade. A psicanálise visa, justamente, que o sujeito se separe do
9
LACAN, 1998b, p. 238.
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objeto que sustentava sua “verdade” e com o qual tamponava a falta.
A análise busca que o sujeito investigue, no atravessamento ou na desconstrução de sua fantasia, o gozo e a inconsistência do Outro, distanciando-se da fantasia por ele construída, e que passe a conviver com
o seu modo de gozo, conquistando, no final de sua análise, um saber
sobre a verdade.
Durante este século de existência, a psicanálise ficou, e ainda está, à mercê das respostas que os psicanalistas possam dar. Os psicanalistas são responsáveis não apenas pela posição do inconsciente, mas
sobretudo pela existência e pela manutenção do discurso analítico. O
analisando não é responsável pelo discurso analítico. Evidentemente
ele tem um trabalho a fazer: manter a existência mesma desse discurso.
Porém, cabe ao analista sustentar o laço analítico (suportando a transferência) e a função da análise (fazer o sujeito se defrontar com a castração, com sua divisão subjetiva e com a posição estrutural que ocupa
em seu inconsciente). O analista só consegue realizar essa tarefa levando em conta sua análise pessoal e seu desejo decidido, onde a Ética do
bem-dizer da psicanálise está evidenciada.
Se formos rigorosos com as definições de Lacan, a interpretação
é do dizer sem dito, em que não se faz o uso da palavra, e sim da letra,
e esse dizer se conecta ao próprio dizer do analisando. Para Lacan o
analista se auto-elimina, se subtrai em seu discurso, apesar de pagar
com seu ser. Em L’Étourdit, Lacan chegou a expressar que a interpretação deveria ser exclusivamente um equívoco, mantendo essa tese até
o final de seu ensino. Com a interpretação como equívoco, conseguese que uma via fique aberta para diversos sentidos. O equívoco é um
instrumento não sugestivo, que deixa aberta a escolha do sentido que
o analisando queira dar. No nível da prática psicanalítica, pode-se considerar que essa forma de interpretar evitaria o discurso do mestre e
que a maneira de ver do analista não seria imposta. A afirmação que
Lacan faz é: “nada opera [no inconsciente] a não ser o equívoco significante”.10 É possivel enumerar três tipos de equívocos: equívoco
por homofonia, equívoco gramatical e equívoco dos paradoxos.
Colette Soler cita diferentes maneiras de interpretar no decorrer
de uma análise.11 Remete a Lacan, que fala em interpretação despercebida e também em interpretação involuntária, uma vez que o analista pode interpretar até com o seu humor, com sua expressão, com
a cara que tem, com a maneira como se veste etc.
10
11
LACAN, 1973, pp. 11-12.
SOLER, 1995, p. 28.
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O que faz com que uma intervenção seja interpretação? Toda interpretação provoca efeitos, é operante. Mas somente “no depois”
(après-coup) se saberá quais serão esses efeitos.
Lacan não é diretamente contra a interpretação significativa.
Apenas afirma não ser ela capaz de resolver de modo algum o enigma
do sujeito: ela apenas o desloca. O que não quer dizer que seja proibida ou de todo descartada. Ela pode ser útil. Para Lacan (Seminário
11), o que uma interpretação como significação possui de mais interessante não é a significação por ela produzida, mas os significantes pelos quais é formulada. Sua conclusão é a seguinte: “o interesse da interpretação significativa é o decifrar, fazer aparecer um significante que
estava faltando ao sujeito, mas que se encontrava latente em seu discurso”.12
Lacan evoca a pontuação como um modo de interpretação. A
pontuação garante a significação, marcando uma enunciação do sujeito em particular.
O corte da sessão, como oposto à pontuação, recorta as significações, entalha-as, esculpe-as. Interromper o sujeito no meio de uma
frase impedindo que as significações, que as explicações proliferem,
causa um efeito de perplexidade e até de desagrado. Para lançar mão
desse modo de interpretação é preciso levar em conta as diferenças individuais. Num sujeito que tem dificuldade em falar ou naquele que
está muito aderido à significação, pode não provocar os efeitos desejados. O intuito é provocar um efeito non sense. O não-senso possui
a sua fecundidade.
Outra maneira de intervir é por alusão, um enunciado que participa do silêncio, que deixa a entender sem formular, que designa, que
mostra. Lacan também fala em recorrer à polissemia, à pluralidade de
sentidos.
Em seu Seminário 17: o avesso da psicanálise, Lacan fala em citação, que consiste em sublinhar algo enunciado pelo sujeito, como se se
colocasse aspas em seu dizer; e também em enigma: um enunciado
sem mensagem, um dizer sem proposição.
O que esses modos de interpretar têm em comum é um “dizer
nada”. O que não significa que eles nada profiram. O dizer do analista,
na interpretação, deve ser esquecido na medida em que é silencioso.
Lacan afirma que o discurso do analista é um discurso sem palavras.
Pela interpretação, conduz-se o sujeito, no percurso da experiência
12
LACAN, 1988, p. 231.
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analítica, em direção ao limite da palavra, ao impossível de dizer. A interpretação aponta para a divisão do sujeito, para sua falta-a-ser.
Se quiséssemos inventar uma fórmula para o dizer da interpretação, segundo Collete Soler, ela seria: “Você fala sozinho, você está só
com seu gozo; portanto, exatamente o contrário de uma promessa de
diálogo”.13
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1969b, v. 23.
_________. Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1969c, v. 8.
_________. O Uso da Interpretação dos Sonhos na Psicanálise. Edição Standart
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Janeiro: Imago, 1969d, v. 5.
_________. Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise, Sonhos. Livro 21,
Pequena Coleção das Obras de Freud (extraída da edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro:
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LACAN, J. O Seminário, Livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge
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_________. A direção do tratamento e os princípios de seu Poder. In: Escritos. Rio
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_________. L’Etourdit. Scilicet, nº 4. Paris: Seuil, 1973.
_________. RSI (Real, Simbólico e Imaginário). Aula de 17/12/74. Paris. [Seminário inédito]
SOLER, C. Interpretação: as respostas do analista. Opção Lacaniana, São Paulo,
(13), 1995.
13
SOLER, 1995, p. 34.
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