O percurso do sentido no conto “o gato preto”, de Edgar Allan Poe Karin Adriane Henschel Pobbe RAMOS1 Rodrigo Vieria LOPES2 Resumo: O objetivo deste trabalho é, a partir da teoria semiótica greimasiana, analisar o percurso do sentido no conto “O gato preto”, publicado por Edgar Allan Poe, pela primeira vez, em uma das edições do United States Saturday Post, em 1843, em meio a toda a revolução filosófica do romantismo. A semiótica é uma ciência da significação que tem por objetivo traçar o percurso gerativo do sentido, com base na análise do texto desde a superfície até as camadas profundas, descrevendo as estruturas discursivas, o nível narrativo e articulando o quadrado semiótico. O propósito desta investigação é a observação dos valores axiológicos depositados sobre a figura do gato preto e a conseqüente influência dessa perspectiva no modo de agir do sujeito narrador. Para que possamos constatar essa influência, analisaremos, principalmente, os programas narrativos do nível semionarrativo e a articulação do quadrado semiótico. Palavras-chave: Semiótica; Percurso do sentido; Edgar Allan Poe; O Gato Preto. Dra. Karin Adriane Henschel Pobbe Ramos (UNIP/Assis/SP e UNIMAR/ Marília/SP) Membro ativo dos grupos SECOMLIN (Semiótica, Comunicação e Linguagens) e AESS (Altos Estudos em Semiótica Sincrética), sediados na UNIMAR – Marília/SP. 1 2 Rodrigo Vieria LOPES (UNIP/Campus de Assis) Introdução Edgar Allan Poe é um dos mais celebres representantes do romantismo norte-americano no século XIX. Aclamado como mestre do terror, suas obras são alvo de diversas pesquisas nas ciências humanas, sendo objeto de estudo da psicologia e filosofia além da sociologia. Poe não cultiva o gênero de forma crua, mas propõe discussões morais, filosóficas e religiosas, expondo suas personagens a conflitos pessoais. A complexidade da personalidade poesca, faz com que os contos conduzam a uma reflexão dos valores sociais vigentes da sua época e que estão presentes até os dias de hoje, quase dois séculos a frente do seu tempo. O interesse que sua obra gerou ao redor do mundo fez de Poe uma das figuras mais respeitadas no campo das letras. Burgess (2006, p.206) ressalta o alcance de seu trabalho na literatura européia: A América deu uma contribuição considerável ao movimento romântico com a prosa e o verso de Edgar Allan Poe (1809-1849). Suas histórias permaneceram como modelo do mistério [...] e Poe pode ser considerado o pai de todo o movimento literário do século XIX na França. O objetivo deste trabalho é a análise, à luz da teoria semiótica greimasiana, do conto “O gato preto”, publicado por Poe, pela primeira vez, em uma das edições do United States Saturday Post, no ano de 1843. O propósito desta investigação é a observação dos fatores que interferem na mudança psicológica e comportamental do narrador-personagem desenvolvida ao longo da narrativa e que é desencadeada pelo seu relacionamento com um animal doméstico comum: um gato preto. A cultura popular tem atribuído a esse animal uma significação ligada ao ocultismo e ao mistério. O gato, ao longo de vários séculos, sempre foi objeto de mitos e superstições, atribuindose a ele características obscuras como o fato de ser o condutor da alma dos mortos, devido à sua espantosa capacidade de sobrevivência e à sua suposta personalidade vingativa. Poe não poderia ter sido mais cuidadoso na escolha de um ícone para representar as forças que a cultura exercia sobre o homem de sua época. Envolto por um manto de mudanças no cenário político, econômico e social, o homem romântico viu-se desiludido do mundo, mostrando-se descontente com a realidade que apreende, buscando refúgios na subjetividade e em um eu poético que partilhe uma valorização dos sentimentos e da imaginação. O romantismo, segundo Bosi (2006, p.91), “expressa os sentimentos dos descontentes com as novas estruturas”, predominando uma visão existencial em que o centro do mundo é o indivíduo. Para Russel (1957, p.227), esse período é marcado por uma “revolta contra as normas éticas e estéticas estabelecidas”, uma vez que o cerne do movimento é a descrença dos valores propostos e dos ideais de progresso sem limites por meio da razão, gerando o desejo de escapismo. O homem é levado a priorizar os sentimentos do presente apelando para as paixões desmedidas e para subjetividade, já que o real não lhe é ap ropriado. Nessa introspecção, a expressão do desgosto surge com perspectivas exacerbadas como a corrente que segue as idéias de Byron, levando o individualismo ao extremo, com tédio e ceticismo diante da existência pela incompatibilidade de princípios sociais. É o mal do século, afirmado como condição de vida do homem romântico. A negação da vida é postulada por vários autores, entre eles Schopenhauer, filósofo que concebia a felicidade como a ausência de conflitos, o que só era possível, segundo essa visão, por meio da morte. A busca do eu poético sempre vem atrelada a uma morbidez que revela a dor de existir do homem. Para Schopenhauer (apud COUTINHO, s/d, p.08) “a verdade é que a existência é uma pena, é um mal, e a salvação consiste na renúncia, na auto-renúncia ou negação da vontade”. Na temática dos contos de Poe, há um anseio em tentar responder os mistérios da condição humana. Em suas obras ele costuma expor suas personagens aos extremos das sensações, decorrentes de seus modos de percepção e inserção no mundo. As personagens de Poe são verdadeiros tratados psicanalíticos, que Baudelaire (2001, p.52) define como: O homem de faculdades superagudas, o homem de nervos relaxados, o homem cuja vontade ardente e paciente lança um desafio às dificuldades, àquele cujo olhar está ajustado com a rigidez de uma espada sobre objetos que crescem à medida que ele os contempla. Com um universo ficcional amplo e multifacetado, Poe tenta conjeturar a estranheza do mundo, retratando o homem em busca de identidade diante de fatos que não consegue conceber por meio da razão. Essa estranheza decorre de um terror psicológico em que os fatos representam, para as personagens, um delírio psicótico fazendo com que oscilem entre a lucidez e a loucura, cometendo atos irrefletidos. A identidade almejada pelo homem descrito por Poe pode, muitas vezes, se apresentar de maneira infrutífera e pouco agradável, levando esse homem ao desespero e ao questionamento sobre o valor da vida face à morte. Por meio do terror doentio, de acordo com Matta (1973, p. 93-94), Poe leva o leitor a penetrar “num universo transcendental (o submundo dos sonhos, do sono, da morte e do inconsciente) onde as regras do ‘aqui e agora’ eram subvertidas ou simplesmente deixavam de operar”. As narrativas de Poe apresentam uma extrema independência no tempo e no espaço, pois, segundo Paleólogo (1950, p.17), “a ação dos personagens sempre se desenrola num ambiente vago e impreciso, onde o insondável mistério das almas é a única realidade”. Sua prosa é marcada pela recorrência de símbolos dos quais se utiliza para estabelecer algum tipo de relação entre o homem e os conceitos pré-moldados histórica e culturalmente, em uma relação de representação simbólica. As perspectivas são sempre exacerbadas, representando o alcance da imaginação criadora do ser humano. Diante de um mesmo objeto, Poe consegue enfocar diferentes pontos de análise, que estão diretamente relacionados aos tipos de relação existente entre o homem e seu meio. Para Baudelaire (2001, p.50), a peculiaridade de Poe está no fato de que: Nenhum homem jamais contou com maior magia as exceções da vida humana e da natureza [...] em que os olhos se enchem de lágrimas, que não vem do coração; a alucinação deixando, a princípio, lugar à dúvida [...] o absurdo se instalando na inteligência e governando-a com uma lógica espantosa [...] e o homem descontrolado a ponto de exprimir a dor por meio do riso. Na percepção de Poe, conceber o horror é retratar o absurdo da condição humana que luta pela vida ciente que o destino final é a morte. Esse conceito formula a existência de uma morte acalentadora que o extraia dos conflitos da vida. O tom sério que impõe a sua obra e as gradativas nuances do enredo fazem com que os fatos abordados por Poe não cheguem ao leitor de forma agressiva, ajudando a concretizar a verdade de seu pensar, afirmando o viver como um sofrer. 1. O percurso do sentido no conto “O gato preto” Propomos, portanto, uma análise da significação suscitada no conto “O gato preto”3, de Edgar Allan Poe, por meio da aplicação do percurso gerativo do sentido postulado pela teoria semiótica. Para a análise, serão considerados os aspectos semionarrativos e o desdobramento de um quadrado semiótico que se fundamenta na noção de dor existencial e propõe a morte como uma dêixis positiva em oposição à vida como uma dêixis negativa. Os programas narrativos (PNs) do conto revelam as mudanças de estados que ocorrem, evidenciando os atores responsáveis pelas ações transformadoras. Foram postulados dez PNs secundários delegados por um PN principal, formulados a partir da relação do narrador com seu gato preto. Em “O gato preto”, segundo Matta (1996, p.167): Quem faz a narrativa é um homem nas vésperas de sua execução [...] ele é prisioneiro e seu intuito é fazer uma catarse e colocar diante do público certos fatos que o impressionaram e poderiam possuir um caráter sobrenatural. É sob esse conceito de narrador que se formula o primeiro PN da narrativa, que é o programa narrativo de base: PN1 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ Ov) → (S2 ∩ Ov)]4 S1 = alívio para a alma; S2 = narrador; O = contar tudo O PN principal é aquele que alicerça todo o fazer do sujeito e que, no caso do conto analisado, representa a própria enunciação. No começo da narrativa em que se vê na véspera de sua execução, o narrador exprime seu maior desejo diante da morte iminente. A primeira ação do conto ocorre quando o narrador se predispõe a contar os fatos ocorridos com ele. Assim S1, o destinador-manipulador, é o desejo que ele possui de aliviar sua alma dos desgostos causados pelas ações que praticara e que agora deseja revelar; S2, o sujeitomanipulado, é o próprio narrador que permanece como sujeito de estado apto a receber as modalidades necessárias para se tornar conjunto com Ov, o objeto-valor, que é o alívio de sua alma, que será conseguido por meio do objeto modal (Om) que é contar a história. A versão utilizada para a análise é a tradução feita por Clarice Lispector. PN = Programa Narrativo; F = Função; S1 = Destinador; S2 = Sujeito; Ov = Objeto valor; Om = Objeto modal; ∪ = disjunto; ∩ = conjunto; [ ] = Enunciado de fazer; ( ) = Enunciado de estado; ⇒ = fazer transformador; → = transformação. 3 4 O narrador deixa transparecer, em suas declarações iniciais, a necessidade que ele tem de narrar e mostra que essa busca é a intenção geradora do conto. Em: Amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma. Por essa razão vou lhes contar tudo. (POE, 1998, p.10) pode-se notar o valor atribuído ao processo da narração, que para ele é um objeto modal (Om) que o tornará conjunto com seu objeto valor (Ov) que é o alívio da alma, do qual está disjunto desde que praticara os atos que agora abomina, configurando, assim, um programa de aquisição. Após revelar suas intenções de contar tudo, o narrador passa a narrar sua infância, evidenciando seu lado humano e cheio de ternura para com os animais. Sempre tivera um contato muito próximo com os bichos, os quais seus pais o deixavam possuir em grande número. Ele possui uma incredulidade diante das relações humanas e mostra preferir o trato com seus animas. Ao afirmar: Alguma coisa, no amor sem egoísmo e abnegado de um animal, atinge a alma dos que já experimentaram o erro, a fragilidade, e a fidelidade da afeição do simples homem. (POE, 1998, p.10) ele exalta os defeitos das relações sociais justificando seu amor e dedicação aos animais, já que é desprovido, desde a infância, de um convívio social. Esse distanciamento das relações humanas continua em sua vida adulta reafirmada pelo caráter de sua esposa, que ele descreve como compatível ao seu, o que propicia a ele as mesmas condições de vida de sua infância continuando sua trajetória de introspecção e de relacionamento com os animais. É justamente essa predileção que o narrador tem pelos animais que faz emergir a figura de um outro ator: o gato preto, que era o animal que nele despertava maior interesse e amor. O PN a seguir ilustra como se dá a aquisição do gato pelo narrador, fato esse que desempenha papel fundamental para o desenvolvimento do enredo. PN2 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ O) → (S2 ∩ O)] S1 = apego aos animais; S2 = narrador; O = Plutão (primeiro gato preto) O apego aos animas (S1) é o que move de o narrador (S2) a querer a conjunção com o objeto (O) que é o gato (Plutão), que ele descreve como sendo seu “preferido e companheiro” (POE, 1998, p.11). Percebe-se que o gato aparece para suprir uma falta no narrador. Assim, ele realiza mais um programa de aquisição. Em meio a uma vida familiar mecânica e sem conflitos, rodeado pelos animais e com um cômodo casamento, uma alteração significante passa a ocorrer no narrador: Uma transformação geral se operou em mim, por força do álcool. Depois de adquirir o vício, mudei minha maneira de agir, de pensar, de ser. (POE, 1998, p.11) Esse desvio de comportamento do narrador mostra a fragilidade das relações que ele estava habituado a manter, pois, a partir de seu vício, suas relações que já eram restritas ao convívio com sua esposa e com os animais ficam ainda mais fechadas. PN3 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ O) → (S2 ∩ O)] S1 = álcool; S2 = narrador; O = agressividade O álcool (S1) é descrito pelo próprio narrador como o responsável pela sua mudança de personalidade. O narrador (S2) é modalizado pela manipulação do vício, ficando conjunto da agressividade (O) que abala seu temperamento. A mudança de temperamento do narrador vai aumentando gradualmente, afetando cada vez mais suas relações. Todo aquele espírito humano e dócil que o narrador descreveu como pertencente à sua infância desaparecera, ele agora é um homem bruto e introspectivo, que maltrata a mulher e os bichos. Esse temperamento explosivo por algum tempo não atingiu Plutão, o gato de sua estima, mas com o agravo de seu estado de espírito maléfico, o animal acabou experimentando os efeitos dessa personalidade pervertida. O PN4 representa a fórmula de uma das grandes ações que o narrador pratica contra seu estimado gato Plutão. Movido por seus ideais deturpados e com motivos irrisórios, certo dia, o narrador entra em conflito com animal por acreditar que este o evitava. Essa simples repulsão que o gato poderia estar sentindo pelo seu dono, faz com que o narrador, agora insensível e perverso, em um ato de crueldade, arranque um dos olhos do animal. PN4 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ O) → (S2 ∩ O)] S1 = álcool; S2 = narrador; O = arrancar o olho do gato A força do álcool (S1), que na verdade, é o gerador dessa nova personalidade do narrador é responsável pelos atos insanos que ele vem praticando, e no momento da execução do ato, ele estava sob seus efeitos. O narrador (S2) se deixa influenciar pelo álcool e arranca o olho do gato (O). Essa ação desencadeia uma série de mudanças na percepção que o narrador fazia do animal, agravando seu estado pessoal e também a repulsão que agora ele sente pelo gato. A raiva que ele sentia pelo animal, passa a ser caracterizada pela falta de motivos que ele acredita ter para senti-la. A raiva e o domínio do álcool o fazem cometer o ato que dá novos rumos à narrativa. Com uma incontrolável fúria pelo animal o narrador enforca-o: Certa manhã, a sangue frio, enforquei-o no galho de uma árvore. Enforquei-o porque sabia que ele me havia amando e porque sentia que não me dera razão para ofendê-lo. Enforquei-o porque sabia que, assim fazendo, estava cometendo um pecado mortal. (POE, 1998, p. 12) PN5 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ O) → (S2 ∩ O)] S1 = inocência do gato; S2 = narrador; O = enforcar o gato (pecado mortal) No PN5, o destinador (S1) é a inocência que o narrador (S2) atribui ao gato. Essa inocência é a geradora do desconforto que faz o narrador querer se livrar do animal (O), pois ao maltratá-lo ele tem a consciência de que o gato não lhe dera motivos para isso, sendo mais fácil, em sua concepção, se livrar do desconforto como um todo, encontrando como solução matar o gato. O objeto almejado pelo narrador é o seu pecado mortal, uma vez que ele sabe das possíveis conseqüências que seu ato geraria, pois afirma: Esse pecado mortal iria por em perigo a minha alma imortal. (POE, 1998, p.12) É a partir desse ato irrefletido do narrador que o conto apresenta novos rumos. Após enfocar o gato, o narrador apresenta seu primeiro programa narrativo de disjunção: PN6 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)] S1 = pecado mortal; S2 = narrador; O = fortuna O PN6 é representado pela disjunção do narrador (S2) com sua fortuna (O), por causa do incêndio que consome sua casa na noite do enforcamento do gato. O destinador (S1) é representado pelo pecado mortal que ele cometera, pois pelo narrador não é descartada a hipótese de relação entre os dois acontecimentos: Não quero pensar se essa desgraça teve alguma relação com as atrocidades cometidas por mim. Mas também não quero deixar que seja esquecido nem um elo dessa cadeia. (POE, 1998, p.12) Essa representação corrobora com o caráter sobrenatural que Poe dissemina na obra. A partir da disjunção com o animal, o narrador também se vê disjunto de outros objetos a que ele agregava valor, deixando subjacente uma ligação com a morte do animal. Disjunto do animal e de seus bens, o narrador entrega-se cada vez mais ao vício e, dominado por sensações por ele indescritíveis, parte para um novo programa de aquisição, buscando um outro gato com as mesmas características de Plutão. PN7 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)] S1 = lembrança de Plutão; S2 = narrador; O = segundo gato preto Nesse programa narrativo, a indisposição que a lembrança do gato (S1) gera no narrador (S2) é definida por ele como “fantasma do gato” (POE, 1998, p.12). Esse sentimento, que ele insiste em não considerar como remorso, é o manipulador que sela com ele o contrato em busca de um novo gato (O), para que fossem supridas as carências deixadas por Plutão. Mais uma vez, as ações do sujeito são para reparar uma falta. Sanada essa carência com um gato semelhante a Plutão que encontrara na taverna onde habituara freqüentar, um novo conflito se instala. Embora tenha almejado um novo gato, com as alterações de percepção do animal que o narrador teve, esse gato passa a investir-se de valores negativos, e a sua conjunção com o narrador é causadora de um sentimento de indisposição. Em um primeiro momento pode ser representado pelo seguinte PN: PN8 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)] S1 = gato preto; S2 = narrador; O = angústia O destinador passa a ser incorporado pelo novo gato preto (S1), que tem imediata influência sobre o narrador (S2), tornando-o conjunto com o sentimento de angústia (O). Nessa etapa, o narrador se incomoda com a imagem do animal que o remete ao crime que ele praticou contra Plutão. A semelhança entre os dois animais, inclusive a falta de um olho também no segundo gato, faz com que o narrador o associe à última imagem que ele moldara de Plutão, gerando ódio contra o animal. O amor que o animal demonstrara por ele causa-lhe vergonha mais uma vez, pela falta de merecimento que o bicho demonstrava pelos sentimentos que o narrador lhe confiava, impondo uma vida coagida com o incômodo da presença do gato. Novamente o narrador está disposto a praticar programas de disjunção. O valor que ele almeja é livrar-se do gato. Certo dia, no momento em que desciam para adega o narrador e sua esposa, o gato os acompanha e entrelaça-se nas pernas do narrador quase o levando ao chão. Possesso pelo ocorrido e já dominado pela ira, como estava portando um machado, o narrador profere um golpe contra o animal, mas é impedido por sua esposa de machucá-lo. Em uma ação irrefletida, o narrador dá origem ao PN9. Dominado pela fúria, enterra o machado no crânio de sua mulher matando-a de imediato. Aqui, o destinador, sujeito do fazer-fazer novamente é o gato, pois foi a interferência da mulher em salvar o animal que lhe custou a vida. O narrador se manteve como sujeito do fazer, manipulado pelo gato, ficando em conjunção com seu objeto (O) que era matar a esposa. PN9 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)] S1 = gato preto; S2 = narrador; O = matar a esposa O grande desfecho do gato como sujeito do fazer-fazer ocorre no PN10. Após matar a mulher e tomadas as devidas providências para ocultar o corpo na parede da adega de sua casa, o estado do sujeito é melhorado pela ausência do animal desde o incidente não aparecera: Com uma sensação de alívio, passei resto do dia. Assim por uma noite, pelo menos, desde que ele havia entrado na casa dormi profunda e tranqüilamente. Sim, dormi, mesmo com o peso de uma morte na alma. (POE, 1998, p. 15) A última frase do narrador comprova seu objeto valor dentro de um micro PN. Embora tivesse praticado um terrível crime contra a própria esposa, ele sente-se aliviado pela disjunção do gato. Cumprindo as práxis de investigação, policiais vão visitar a casa do narrador para averiguar o desaparecimento de sua esposa. Nesse momento, o gato afirma-se como sujeito do fazer-fazer: PN10 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)] S1 = gato preto; S2 = policiais; O = encontrar a esposa O gato desempenha um papel fundamental para desvendar a morte da esposa do narrador. Quando o narrador passa a bater nas paredes da adega em um ato de soberba diante dos policiais, o gato (S1) revela ao grupo, por meio de gritos, onde se encontrava o cadáver da mulher. Os policiais (S2) encontrar a esposa do narrador (O). Eles ficam conjuntos com o objeto de sua busca devido às modalizações que o gato, no papel de manipulador, forneceu pelo contrato estabelecido entre ele. O desenrolar do esquema narrativo do conto se dá pela apreensão das quatro estruturas fundamentais que o compõem e que representam, segundo Bertrand (2003, p.294), “um quadro formal em que se inscreve o sentido da vida”. São eles: manipulação, competência, performance e sanção. A observação dessas estruturas instala uma seqüência racional no desenvolvimento dos fatos narrados delimitando os atores responsáveis por cada seguimento do enredo. Todas as ações do narrador no conto foram realizadas sob a manipulação que o gato preto lhe impunha, ora pela sua figura concreta, ora pela abstração suscitada pela perspectiva cultural que adquire. Na composição do enredo psicológico em que narra sua vida desde a infância, o narrador demonstra se deixar manipular por Plutão, seu primeiro gato a quem ele dedicava grande afeto. Nessa manipulação, o gato exerce uma influência pragmática. É por meio da sedução que Plutão desperta afeto fazendo com que seja considerado “preferido e companheiro” (POE, 1998, p.10) pelo narrador, sendo digno de seus cuidados e proteção. Por força das mudanças geradas pelo alcoolismo, nas quais o narrador se distancia das relações com a esposa e com o próprio gato, ocorre uma mudança no ponto vista sobre o animal. Com novas perspectivas de observação, o narrador rompe o contrato com Plutão por não acreditar mais na veridicção dos valores oferecidos pelo contrato entre ambos, cometendo assim o assassinato do gato, embora a força da sedução que exercia sobre o narrador fez que “durante algum tempo, Plutão [...] escapara de minhas violências” (POE, 1998, p. 10). A partir desse momento, figura-se uma nova forma de manipulação que será exercida pelo novo gato que o narrador arranja para suprir as lacunas deixadas com a morte de Plutão. Ao encontrar um novo animal com as mesmas características do antigo, o narrador se vê perseguido pelas lembranças das atrocidades que cometera contra o gato que estimava. A forma de manipulação do segundo gato mantém seu caráter pragmático, mas agora se realiza por meio da intimidação, pois embora tenha mudado a composição concreta do animal, já que ele foi substituído, a temática estabelecida pelo narrador mantém-se. Todo aquele mau aspecto que passara, por força do álcool, a conceituar Plutão agora ele reveste no novo animal: Não demorou muito para que eu começasse a sentir antipatia por ele. Não sei por que, mas sua amizade por mim me desgostava e aborrecia. Aos poucos esse sentimento de desgosto se transformou na amargura do ódio [...] ele despertava em mim uma certa vergonha. (POE, 1998, p.13) A descoberta de semelhanças físicas entre Plutão e o novo gato aumentam a complexidade das contradições vividas entre o narrador e esse seu animal. Em “um fato só veio aumentar meu ódio pelo animal. Descobri que, como Plutão, também fora privado de um de seus olhos” (POE, 1998, p.13), o narrador reforça o incômodo que o gato gerava pela semelhança com o antigo. A manipulação ocorre por intimidação, pois a representação do gato exercia sobre o narrador “angustia e aflição” (POE, 1998, p.14). A simples existência do animal remetia ao narrador as atrocidades que ele cometera, fazendo surgir uma repulsa pelo gato. Nesse ponto, o animal passa a coagir o narrador pela sua simples existência, já que para ele o gato era a representação das coisas horríveis que praticara. Dessa forma, a intimidação que o novo gato exerce sobre o narrador o leva a praticar seu segundo crime, que é o assassinato de sua esposa, por força dos sentimentos desencadeados pelo animal, já que foi por ir à defesa do gato que sua esposa acaba assinando sua sentença de morte. No plano do enredo cronológico, em que o autor revela sua vontade de aliviar a alma por meio da revelação dos fatos ocorridos com ele, a manipulação que o impele é a morte iminente. Embora essa manipulação não esteja diretamente ligada ao gato, pode-se fazer alusão de uma ligação entre esse presságio de morte e o ícone, já que foi por meio da ação do gato que o narrador encontra-se encarcerado à espera de sua execução pelo crime que cometera contra sua esposa. Para estabelecer uma relação de junção com seu objeto valor que é o alivio de sua alma que será conseguido por meio da narrativa dos acontecimentos, o sujeito deve adquirir as competências necessárias para a realização desse ato. Para tanto, ele desenvolve as modalidades necessárias para compor a narrativa, que são o dever-fazer, o querer-fazer, o poder-fazer e o saber-fazer. O dever-fazer adquirido pelo narrador decorre da manipulação que o presságio de morte lhe infere. Em “amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma. Por essa razão vou lhes contar tudo” (POE, 1998, p. 9), ele expressa o motivo pelo qual deve escrever a narrativa: a morte que se aproxima. Assim, já que morrerá no dia seguinte ele tem o dever de fazer a narrativa para que assim consiga contar sua história e alcançar o alívio da alma. O querer-fazer do narrador se expressa por meio do “quero aliviar minha alma” (POE, 1998, p.9). Já que ele não se incomoda com sua morte, ele ao menos expressa um último desejo que é propagar sua história como forma de tranqüilizar seu espírito. O poder-fazer que modaliza o sujeito é justamente o repertório de situações aterrorizantes que lhe confere o direito de contar a história, pois apenas o presságio de morte (dever-fazer) e o desejo de aliviar a alma (querer-fazer) não lhe conferem o poder-fazer, que só é possível pelas situações que ele tem a descrever e acha relevante para o esclarecimento da situação que se encontra. O saber-fazer é uma modalidade que aparece implícita no narrador, pois no início do conto, ele já descreve sua intenção como sujeito apto a fazê-la: “vou lhes contar tudo” (POE, 1998, p. 9). O saber-fazer a narração, que também é uma modalidade indispensável para a realização da performance, parece ser algo do qual o narrador já vem investido, pois a intenção já vem expressa no ato da narração, ou seja, é na narração já em curso que ele adquire as outras modalidades, demonstrando o saber-fazer como uma modalidade prévia. Com todos os caracteres mo dais que o tornam apto a realização da sua performance, o narrador a executa compondo uma narrativa recorrendo às suas experiências com gatos desde sua infância até o último animal que causara sua ruína entregando-lhe a morte. Aqui ele configura-se como sujeito do fazer, pois realiza a tarefa (contar a narrativa) visando à conjunção com seu objeto valor. A sanção que recaí sobre o narrador é a morte, que, no conto, aparece como uma dêixis positiva, bem ao sabor do ideário filosófico do movimento romântico. Para se interpretar essa idéia de morte, devem-se considerar os pontos de vista com relação ao narrador. Com a negação da vida, devido à sua mudança de comportamento e os conflitos aos quais ele não conseguiu gerir com racionalidade, essa sanção, para o narrador, é positiva. Assim, para ele, a morte é uma recompensa. Em “amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma” (POE, 1998, p.9), ele não demonstra preocupação com a morte, desejando apenas o alívio da alma. Segundo Schopenhauer ([19--]), essa negação do querer viver decorre do excesso de conflitos vividos, que geram uma dor de existir. Nesse conto, a existência é conturbada ainda mais pelo tom sobrenatural empregado, após a morte de Plutão. A não assimilação dos fatos gera, no narrador, sua dor de existir, sendo premiado com a sanção de morte, para, enfim, encontrar a ausência de conflitos. O quadrado semiótico, articulado por Greimas, constrói sua oposição por meio da relação entre vida e morte. Para Greimas, devido à difusão de valores, a vida aparece como elemento positivo, estabelecendo oposição à morte que é a sua negação. Nesse conto, ocorre uma inversão de valores, pois o objeto almejado e que figura como dêixis positiva é a morte, já que esta é o alvo privilegiado do narrador. Dêixis positiva Morte Não-vida Dêixis negativa Vida Não-morte Dessa forma, na articulação desse quadrado morte e não-vida são os compositores da dêixis positiva, já que a morte é revestida do status de objeto-valor pelo narrador e a não-vida é sua comp lementaridade. No outro extremo do quadrado estão os elementos da dêixis negativa: vida e não-morte. Da mesma forma, não -morte representa complementaridade de vida, pois não são termos excludentes. Os termos vida e morte são relacionados por meio da contrariedade, já que as idéias dos dois termos são contrárias, em que a existência de um nega a existência do outro. Os termos não-morte e não-vida representam uma subcontrariedade que, da mesma forma, se negam. A contradição do quadrado se dá na relação entre vida e não-vida, morte e não-morte. Entre esses termos também ocorre uma negação que exclui a existência concomitantemente de ambos que alude às intenções do narrador quanto à fúnebre preferência pela morte. Concluindo, podemos afirmar a análise do percurso do sentido no conto evidencia a tendência romântica de exaltação do sofrimento e a visão da morte como forma de solução dos conflitos. Referências bibliográficas BAUDELAIRE, C. O homem e a obra. In: Poe, E. A. Ficção completa, poesia & ensaios. Tradução de Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001. BERTRAND, Denis. 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