O percurso do sentido no conto “o gato preto”, de Edgar Allan Poe
Karin Adriane Henschel Pobbe RAMOS1
Rodrigo Vieria LOPES2
Resumo:
O objetivo deste trabalho é, a partir da teoria semiótica greimasiana, analisar o percurso do sentido
no conto “O gato preto”, publicado por Edgar Allan Poe, pela primeira vez, em uma das edições do
United States Saturday Post, em 1843, em meio a toda a revolução filosófica do romantismo. A
semiótica é uma ciência da significação que tem por objetivo traçar o percurso gerativo do sentido,
com base na análise do texto desde a superfície até as camadas profundas, descrevendo as
estruturas discursivas, o nível narrativo e articulando o quadrado semiótico. O propósito desta
investigação é a observação dos valores axiológicos depositados sobre a figura do gato preto e a
conseqüente influência dessa perspectiva no modo de agir do sujeito narrador. Para que possamos
constatar essa influência, analisaremos, principalmente, os programas narrativos do nível
semionarrativo e a articulação do quadrado semiótico.
Palavras-chave: Semiótica; Percurso do sentido; Edgar Allan Poe; O Gato Preto.
Dra. Karin Adriane Henschel Pobbe Ramos (UNIP/Assis/SP e UNIMAR/ Marília/SP) Membro ativo dos grupos
SECOMLIN (Semiótica, Comunicação e Linguagens) e AESS (Altos Estudos em Semiótica Sincrética), sediados na
UNIMAR – Marília/SP.
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Rodrigo Vieria LOPES (UNIP/Campus de Assis)
Introdução
Edgar Allan Poe é um dos mais celebres representantes do romantismo norte-americano no
século XIX. Aclamado como mestre do terror, suas obras são alvo de diversas pesquisas nas
ciências humanas, sendo objeto de estudo da psicologia e filosofia além da sociologia.
Poe não cultiva o gênero de forma crua, mas propõe discussões morais, filosóficas e
religiosas, expondo suas personagens a conflitos pessoais. A complexidade da personalidade
poesca, faz com que os contos conduzam a uma reflexão dos valores sociais vigentes da sua época
e que estão presentes até os dias de hoje, quase dois séculos a frente do seu tempo. O interesse
que sua obra gerou ao redor do mundo fez de Poe uma das figuras mais respeitadas no campo das
letras. Burgess (2006, p.206) ressalta o alcance de seu trabalho na literatura européia:
A América deu uma contribuição considerável ao movimento romântico com a
prosa e o verso de Edgar Allan Poe (1809-1849). Suas histórias permaneceram
como modelo do mistério [...] e Poe pode ser considerado o pai de todo o
movimento literário do século XIX na França.
O objetivo deste trabalho é a análise, à luz da teoria semiótica greimasiana, do conto “O gato
preto”, publicado por Poe, pela primeira vez, em uma das edições do United States Saturday Post,
no ano de 1843. O propósito desta investigação é a observação dos fatores que interferem na
mudança psicológica e comportamental do narrador-personagem desenvolvida ao longo da
narrativa e que é desencadeada pelo seu relacionamento com um animal doméstico comum: um
gato preto.
A cultura popular tem atribuído a esse animal uma significação ligada ao ocultismo e ao
mistério. O gato, ao longo de vários séculos, sempre foi objeto de mitos e superstições, atribuindose a ele características obscuras como o fato de ser o condutor da alma dos mortos, devido à sua
espantosa capacidade de sobrevivência e à sua suposta personalidade vingativa. Poe não poderia
ter sido mais cuidadoso na escolha de um ícone para representar as forças que a cultura exercia
sobre o homem de sua época.
Envolto por um manto de mudanças no cenário político, econômico e social, o homem
romântico viu-se desiludido do mundo, mostrando-se descontente com a realidade que apreende,
buscando refúgios na subjetividade e em um eu poético que partilhe uma valorização dos
sentimentos e da imaginação.
O romantismo, segundo Bosi (2006, p.91), “expressa os sentimentos dos descontentes com
as novas estruturas”, predominando uma visão existencial em que o centro do mundo é o indivíduo.
Para Russel (1957, p.227), esse período é marcado por uma “revolta contra as normas éticas e
estéticas estabelecidas”, uma vez que o cerne do movimento é a descrença dos valores propostos e
dos ideais de progresso sem limites por meio da razão, gerando o desejo de escapismo. O homem
é levado a priorizar os sentimentos do presente apelando para as paixões desmedidas e para
subjetividade, já que o real não lhe é ap ropriado.
Nessa introspecção, a expressão do desgosto surge com perspectivas exacerbadas como a
corrente que segue as idéias de Byron, levando o individualismo ao extremo, com tédio e ceticismo
diante da existência pela incompatibilidade de princípios sociais. É o mal do século, afirmado como
condição de vida do homem romântico.
A negação da vida é postulada por vários autores, entre eles Schopenhauer, filósofo que
concebia a felicidade como a ausência de conflitos, o que só era possível, segundo essa visão, por
meio da morte. A busca do eu poético sempre vem atrelada a uma morbidez que revela a dor de
existir do homem. Para Schopenhauer (apud COUTINHO, s/d, p.08) “a verdade é que a existência é
uma pena, é um mal, e a salvação consiste na renúncia, na auto-renúncia ou negação da vontade”.
Na temática dos contos de Poe, há um anseio em tentar responder os mistérios da condição
humana. Em suas obras ele costuma expor suas personagens aos extremos das sensações,
decorrentes de seus modos de percepção e inserção no mundo. As personagens de Poe são
verdadeiros tratados psicanalíticos, que Baudelaire (2001, p.52) define como:
O homem de faculdades superagudas, o homem de nervos relaxados, o homem
cuja vontade ardente e paciente lança um desafio às dificuldades, àquele cujo
olhar está ajustado com a rigidez de uma espada sobre objetos que crescem à
medida que ele os contempla.
Com um universo ficcional amplo e multifacetado, Poe tenta conjeturar a estranheza do
mundo, retratando o homem em busca de identidade diante de fatos que não consegue conceber
por meio da razão. Essa estranheza decorre de um terror psicológico em que os fatos representam,
para as personagens, um delírio psicótico fazendo com que oscilem entre a lucidez e a loucura,
cometendo atos irrefletidos. A identidade almejada pelo homem descrito por Poe pode, muitas
vezes, se apresentar de maneira infrutífera e pouco agradável, levando esse homem ao desespero
e ao questionamento sobre o valor da vida face à morte.
Por meio do terror doentio, de acordo com Matta (1973, p. 93-94), Poe leva o leitor a penetrar
“num universo transcendental (o submundo dos sonhos, do sono, da morte e do inconsciente) onde
as regras do ‘aqui e agora’ eram subvertidas ou simplesmente deixavam de operar”.
As narrativas de Poe apresentam uma extrema independência no tempo e no espaço, pois,
segundo Paleólogo (1950, p.17), “a ação dos personagens sempre se desenrola num ambiente
vago e impreciso, onde o insondável mistério das almas é a única realidade”.
Sua prosa é marcada pela recorrência de símbolos dos quais se utiliza para estabelecer
algum tipo de relação entre o homem e os conceitos pré-moldados histórica e culturalmente, em
uma relação de representação simbólica. As perspectivas são sempre exacerbadas, representando
o alcance da imaginação criadora do ser humano. Diante de um mesmo objeto, Poe consegue
enfocar diferentes pontos de análise, que estão diretamente relacionados aos tipos de relação
existente entre o homem e seu meio.
Para Baudelaire (2001, p.50), a peculiaridade de Poe está no fato de que:
Nenhum homem jamais contou com maior magia as exceções da vida humana e
da natureza [...] em que os olhos se enchem de lágrimas, que não vem do
coração; a alucinação deixando, a princípio, lugar à dúvida [...] o absurdo se
instalando na inteligência e governando-a com uma lógica espantosa [...] e o
homem descontrolado a ponto de exprimir a dor por meio do riso.
Na percepção de Poe, conceber o horror é retratar o absurdo da condição humana que luta
pela vida ciente que o destino final é a morte. Esse conceito formula a existência de uma morte
acalentadora que o extraia dos conflitos da vida. O tom sério que impõe a sua obra e as gradativas
nuances do enredo fazem com que os fatos abordados por Poe não cheguem ao leitor de forma
agressiva, ajudando a concretizar a verdade de seu pensar, afirmando o viver como um sofrer.
1. O percurso do sentido no conto “O gato preto”
Propomos, portanto, uma análise da significação suscitada no conto “O gato preto”3, de Edgar
Allan Poe, por meio da aplicação do percurso gerativo do sentido postulado pela teoria semiótica.
Para a análise, serão considerados os aspectos semionarrativos e o desdobramento de um
quadrado semiótico que se fundamenta na noção de dor existencial e propõe a morte como uma
dêixis positiva em oposição à vida como uma dêixis negativa.
Os programas narrativos (PNs) do conto revelam as mudanças de estados que ocorrem,
evidenciando os atores responsáveis pelas ações transformadoras. Foram postulados dez PNs
secundários delegados por um PN principal, formulados a partir da relação do narrador com seu
gato preto.
Em “O gato preto”, segundo Matta (1996, p.167):
Quem faz a narrativa é um homem nas vésperas de sua execução [...] ele é
prisioneiro e seu intuito é fazer uma catarse e colocar diante do público certos
fatos que o impressionaram e poderiam possuir um caráter sobrenatural.
É sob esse conceito de narrador que se formula o primeiro PN da narrativa, que é o programa
narrativo de base:
PN1 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ Ov) → (S2 ∩ Ov)]4
S1 = alívio para a alma; S2 = narrador; O = contar tudo
O PN principal é aquele que alicerça todo o fazer do sujeito e que, no caso do conto
analisado, representa a própria enunciação. No começo da narrativa em que se vê na véspera de
sua execução, o narrador exprime seu maior desejo diante da morte iminente.
A primeira ação do conto ocorre quando o narrador se predispõe a contar os fatos ocorridos
com ele. Assim S1, o destinador-manipulador, é o desejo que ele possui de aliviar sua alma dos
desgostos causados pelas ações que praticara e que agora deseja revelar; S2, o sujeitomanipulado, é o próprio narrador que permanece como sujeito de estado apto a receber as
modalidades necessárias para se tornar conjunto com Ov, o objeto-valor, que é o alívio de sua
alma, que será conseguido por meio do objeto modal (Om) que é contar a história.
A versão utilizada para a análise é a tradução feita por Clarice Lispector.
PN = Programa Narrativo; F = Função; S1 = Destinador; S2 = Sujeito; Ov = Objeto valor; Om = Objeto modal; ∪ =
disjunto; ∩ = conjunto; [ ] = Enunciado de fazer; ( ) = Enunciado de estado; ⇒ = fazer transformador; → =
transformação.
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O narrador deixa transparecer, em suas declarações iniciais, a necessidade que ele tem de
narrar e mostra que essa busca é a intenção geradora do conto.
Em:
Amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma. Por essa razão vou lhes
contar tudo. (POE, 1998, p.10)
pode-se notar o valor atribuído ao processo da narração, que para ele é um objeto modal (Om) que
o tornará conjunto com seu objeto valor (Ov) que é o alívio da alma, do qual está disjunto desde que
praticara os atos que agora abomina, configurando, assim, um programa de aquisição.
Após revelar suas intenções de contar tudo, o narrador passa a narrar sua infância,
evidenciando seu lado humano e cheio de ternura para com os animais. Sempre tivera um contato
muito próximo com os bichos, os quais seus pais o deixavam possuir em grande número. Ele possui
uma incredulidade diante das relações humanas e mostra preferir o trato com seus animas. Ao
afirmar:
Alguma coisa, no amor sem egoísmo e abnegado de um animal, atinge a alma
dos que já experimentaram o erro, a fragilidade, e a fidelidade da afeição do
simples homem. (POE, 1998, p.10)
ele exalta os defeitos das relações sociais justificando seu amor e dedicação aos animais, já que é
desprovido, desde a infância, de um convívio social. Esse distanciamento das relações humanas
continua em sua vida adulta reafirmada pelo caráter de sua esposa, que ele descreve como
compatível ao seu, o que propicia a ele as mesmas condições de vida de sua infância continuando
sua trajetória de introspecção e de relacionamento com os animais.
É justamente essa predileção que o narrador tem pelos animais que faz emergir a figura de
um outro ator: o gato preto, que era o animal que nele despertava maior interesse e amor.
O PN a seguir ilustra como se dá a aquisição do gato pelo narrador, fato esse que
desempenha papel fundamental para o desenvolvimento do enredo.
PN2 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ O) → (S2 ∩ O)]
S1 = apego aos animais; S2 = narrador; O = Plutão (primeiro gato preto)
O apego aos animas (S1) é o que move de o narrador (S2) a querer a conjunção com o
objeto (O) que é o gato (Plutão), que ele descreve como sendo seu “preferido e companheiro” (POE,
1998, p.11). Percebe-se que o gato aparece para suprir uma falta no narrador. Assim, ele realiza
mais um programa de aquisição.
Em meio a uma vida familiar mecânica e sem conflitos, rodeado pelos animais e com um
cômodo casamento, uma alteração significante passa a ocorrer no narrador:
Uma transformação geral se operou em mim, por força do álcool. Depois de
adquirir o vício, mudei minha maneira de agir, de pensar, de ser. (POE, 1998,
p.11)
Esse desvio de comportamento do narrador mostra a fragilidade das relações que ele estava
habituado a manter, pois, a partir de seu vício, suas relações que já eram restritas ao convívio com
sua esposa e com os animais ficam ainda mais fechadas.
PN3 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ O) → (S2 ∩ O)]
S1 = álcool; S2 = narrador; O = agressividade
O álcool (S1) é descrito pelo próprio narrador como o responsável pela sua mudança de
personalidade. O narrador (S2) é modalizado pela manipulação do vício, ficando conjunto da
agressividade (O) que abala seu temperamento.
A mudança de temperamento do narrador vai aumentando gradualmente, afetando cada vez
mais suas relações. Todo aquele espírito humano e dócil que o narrador descreveu como
pertencente à sua infância desaparecera, ele agora é um homem bruto e introspectivo, que maltrata
a mulher e os bichos. Esse temperamento explosivo por algum tempo não atingiu Plutão, o gato de
sua estima, mas com o agravo de seu estado de espírito maléfico, o animal acabou experimentando
os efeitos dessa personalidade pervertida.
O PN4 representa a fórmula de uma das grandes ações que o narrador pratica contra seu
estimado gato Plutão. Movido por seus ideais deturpados e com motivos irrisórios, certo dia, o
narrador entra em conflito com animal por acreditar que este o evitava. Essa simples repulsão que o
gato poderia estar sentindo pelo seu dono, faz com que o narrador, agora insensível e perverso, em
um ato de crueldade, arranque um dos olhos do animal.
PN4 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ O) → (S2 ∩ O)]
S1 = álcool; S2 = narrador; O = arrancar o olho do gato
A força do álcool (S1), que na verdade, é o gerador dessa nova personalidade do narrador é
responsável pelos atos insanos que ele vem praticando, e no momento da execução do ato, ele
estava sob seus efeitos. O narrador (S2) se deixa influenciar pelo álcool e arranca o olho do gato
(O). Essa ação desencadeia uma série de mudanças na percepção que o narrador fazia do animal,
agravando seu estado pessoal e também a repulsão que agora ele sente pelo gato. A raiva que ele
sentia pelo animal, passa a ser caracterizada pela falta de motivos que ele acredita ter para senti-la.
A raiva e o domínio do álcool o fazem cometer o ato que dá novos rumos à narrativa. Com
uma incontrolável fúria pelo animal o narrador enforca-o:
Certa manhã, a sangue frio, enforquei-o no galho de uma árvore. Enforquei-o
porque sabia que ele me havia amando e porque sentia que não me dera razão
para ofendê-lo. Enforquei-o porque sabia que, assim fazendo, estava cometendo
um pecado mortal. (POE, 1998, p. 12)
PN5 = F S1 ⇒ [(S2 ∪ O) → (S2 ∩ O)]
S1 = inocência do gato; S2 = narrador; O = enforcar o gato (pecado mortal)
No PN5, o destinador (S1) é a inocência que o narrador (S2) atribui ao gato. Essa inocência é
a geradora do desconforto que faz o narrador querer se livrar do animal (O), pois ao maltratá-lo ele
tem a consciência de que o gato não lhe dera motivos para isso, sendo mais fácil, em sua
concepção, se livrar do desconforto como um todo, encontrando como solução matar o gato. O
objeto almejado pelo narrador é o seu pecado mortal, uma vez que ele sabe das possíveis
conseqüências que seu ato geraria, pois afirma:
Esse pecado mortal iria por em perigo a minha alma imortal. (POE, 1998, p.12)
É a partir desse ato irrefletido do narrador que o conto apresenta novos rumos. Após enfocar
o gato, o narrador apresenta seu primeiro programa narrativo de disjunção:
PN6 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)]
S1 = pecado mortal; S2 = narrador; O = fortuna
O PN6 é representado pela disjunção do narrador (S2) com sua fortuna (O), por causa do
incêndio que consome sua casa na noite do enforcamento do gato. O destinador (S1) é
representado pelo pecado mortal que ele cometera, pois pelo narrador não é descartada a hipótese
de relação entre os dois acontecimentos:
Não quero pensar se essa desgraça teve alguma relação com as atrocidades
cometidas por mim. Mas também não quero deixar que seja esquecido nem um
elo dessa cadeia. (POE, 1998, p.12)
Essa representação corrobora com o caráter sobrenatural que Poe dissemina na obra. A
partir da disjunção com o animal, o narrador também se vê disjunto de outros objetos a que ele
agregava valor, deixando subjacente uma ligação com a morte do animal.
Disjunto do animal e de seus bens, o narrador entrega-se cada vez mais ao vício e, dominado
por sensações por ele indescritíveis, parte para um novo programa de aquisição, buscando um
outro gato com as mesmas características de Plutão.
PN7 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)]
S1 = lembrança de Plutão; S2 = narrador; O = segundo gato preto
Nesse programa narrativo, a indisposição que a lembrança do gato (S1) gera no narrador
(S2) é definida por ele como “fantasma do gato” (POE, 1998, p.12). Esse sentimento, que ele insiste
em não considerar como remorso, é o manipulador que sela com ele o contrato em busca de um
novo gato (O), para que fossem supridas as carências deixadas por Plutão. Mais uma vez, as ações
do sujeito são para reparar uma falta.
Sanada essa carência com um gato semelhante a Plutão que encontrara na taverna onde
habituara freqüentar, um novo conflito se instala. Embora tenha almejado um novo gato, com as
alterações de percepção do animal que o narrador teve, esse gato passa a investir-se de valores
negativos, e a sua conjunção com o narrador é causadora de um sentimento de indisposição. Em
um primeiro momento pode ser representado pelo seguinte PN:
PN8 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)]
S1 = gato preto; S2 = narrador; O = angústia
O destinador passa a ser incorporado pelo novo gato preto (S1), que tem imediata influência
sobre o narrador (S2), tornando-o conjunto com o sentimento de angústia (O). Nessa etapa, o
narrador se incomoda com a imagem do animal que o remete ao crime que ele praticou contra
Plutão. A semelhança entre os dois animais, inclusive a falta de um olho também no segundo gato,
faz com que o narrador o associe à última imagem que ele moldara de Plutão, gerando ódio contra
o animal. O amor que o animal demonstrara por ele causa-lhe vergonha mais uma vez, pela falta de
merecimento que o bicho demonstrava pelos sentimentos que o narrador lhe confiava, impondo
uma vida coagida com o incômodo da presença do gato. Novamente o narrador está disposto a
praticar programas de disjunção. O valor que ele almeja é livrar-se do gato.
Certo dia, no momento em que desciam para adega o narrador e sua esposa, o gato os
acompanha e entrelaça-se nas pernas do narrador quase o levando ao chão. Possesso pelo
ocorrido e já dominado pela ira, como estava portando um machado, o narrador profere um golpe
contra o animal, mas é impedido por sua esposa de machucá-lo. Em uma ação irrefletida, o
narrador dá origem ao PN9. Dominado pela fúria, enterra o machado no crânio de sua mulher
matando-a de imediato. Aqui, o destinador, sujeito do fazer-fazer novamente é o gato, pois foi a
interferência da mulher em salvar o animal que lhe custou a vida. O narrador se manteve como
sujeito do fazer, manipulado pelo gato, ficando em conjunção com seu objeto (O) que era matar a
esposa.
PN9 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)]
S1 = gato preto; S2 = narrador; O = matar a esposa
O grande desfecho do gato como sujeito do fazer-fazer ocorre no PN10. Após matar a mulher
e tomadas as devidas providências para ocultar o corpo na parede da adega de sua casa, o estado
do sujeito é melhorado pela ausência do animal desde o incidente não aparecera:
Com uma sensação de alívio, passei resto do dia. Assim por uma noite, pelo
menos, desde que ele havia entrado na casa dormi profunda e tranqüilamente.
Sim, dormi, mesmo com o peso de uma morte na alma. (POE, 1998, p. 15)
A última frase do narrador comprova seu objeto valor dentro de um micro PN. Embora tivesse
praticado um terrível crime contra a própria esposa, ele sente-se aliviado pela disjunção do gato.
Cumprindo as práxis de investigação, policiais vão visitar a casa do narrador para averiguar o
desaparecimento de sua esposa. Nesse momento, o gato afirma-se como sujeito do fazer-fazer:
PN10 = F S1 ⇒ [(S2 ∩ O) → (S2 ∪ O)]
S1 = gato preto; S2 = policiais; O = encontrar a esposa
O gato desempenha um papel fundamental para desvendar a morte da esposa do narrador.
Quando o narrador passa a bater nas paredes da adega em um ato de soberba diante dos policiais,
o gato (S1) revela ao grupo, por meio de gritos, onde se encontrava o cadáver da mulher. Os
policiais (S2) encontrar a esposa do narrador (O). Eles ficam conjuntos com o objeto de sua busca
devido às modalizações que o gato, no papel de manipulador, forneceu pelo contrato estabelecido
entre ele.
O desenrolar do esquema narrativo do conto se dá pela apreensão das quatro estruturas
fundamentais que o compõem e que representam, segundo Bertrand (2003, p.294), “um quadro
formal em que se inscreve o sentido da vida”. São eles: manipulação, competência, performance e
sanção. A observação dessas estruturas instala uma seqüência racional no desenvolvimento dos
fatos narrados delimitando os atores responsáveis por cada seguimento do enredo.
Todas as ações do narrador no conto foram realizadas sob a manipulação que o gato preto
lhe impunha, ora pela sua figura concreta, ora pela abstração suscitada pela perspectiva cultural
que adquire. Na composição do enredo psicológico em que narra sua vida desde a infância, o
narrador demonstra se deixar manipular por Plutão, seu primeiro gato a quem ele dedicava grande
afeto. Nessa manipulação, o gato exerce uma influência pragmática. É por meio da sedução que
Plutão desperta afeto fazendo com que seja considerado “preferido e companheiro” (POE, 1998,
p.10) pelo narrador, sendo digno de seus cuidados e proteção.
Por força das mudanças geradas pelo alcoolismo, nas quais o narrador se distancia das
relações com a esposa e com o próprio gato, ocorre uma mudança no ponto vista sobre o animal.
Com novas perspectivas de observação, o narrador rompe o contrato com Plutão por não acreditar
mais na veridicção dos valores oferecidos pelo contrato entre ambos, cometendo assim o
assassinato do gato, embora a força da sedução que exercia sobre o narrador fez que “durante
algum tempo, Plutão [...] escapara de minhas violências” (POE, 1998, p. 10).
A partir desse momento, figura-se uma nova forma de manipulação que será exercida pelo
novo gato que o narrador arranja para suprir as lacunas deixadas com a morte de Plutão. Ao
encontrar um novo animal com as mesmas características do antigo, o narrador se vê perseguido
pelas lembranças das atrocidades que cometera contra o gato que estimava.
A forma de manipulação do segundo gato mantém seu caráter pragmático, mas agora se
realiza por meio da intimidação, pois embora tenha mudado a composição concreta do animal, já
que ele foi substituído, a temática estabelecida pelo narrador mantém-se. Todo aquele mau aspecto
que passara, por força do álcool, a conceituar Plutão agora ele reveste no novo animal:
Não demorou muito para que eu começasse a sentir antipatia por ele. Não sei
por que, mas sua amizade por mim me desgostava e aborrecia. Aos poucos
esse sentimento de desgosto se transformou na amargura do ódio [...] ele
despertava em mim uma certa vergonha. (POE, 1998, p.13)
A descoberta de semelhanças físicas entre Plutão e o novo gato aumentam a complexidade
das contradições vividas entre o narrador e esse seu animal. Em “um fato só veio aumentar meu
ódio pelo animal. Descobri que, como Plutão, também fora privado de um de seus olhos” (POE,
1998, p.13), o narrador reforça o incômodo que o gato gerava pela semelhança com o antigo.
A manipulação ocorre por intimidação, pois a representação do gato exercia sobre o narrador
“angustia e aflição” (POE, 1998, p.14). A simples existência do animal remetia ao narrador as
atrocidades que ele cometera, fazendo surgir uma repulsa pelo gato. Nesse ponto, o animal passa a
coagir o narrador pela sua simples existência, já que para ele o gato era a representação das coisas
horríveis que praticara. Dessa forma, a intimidação que o novo gato exerce sobre o narrador o leva
a praticar seu segundo crime, que é o assassinato de sua esposa, por força dos sentimentos
desencadeados pelo animal, já que foi por ir à defesa do gato que sua esposa acaba assinando sua
sentença de morte.
No plano do enredo cronológico, em que o autor revela sua vontade de aliviar a alma por
meio da revelação dos fatos ocorridos com ele, a manipulação que o impele é a morte iminente.
Embora essa manipulação não esteja diretamente ligada ao gato, pode-se fazer alusão de uma
ligação entre esse presságio de morte e o ícone, já que foi por meio da ação do gato que o narrador
encontra-se encarcerado à espera de sua execução pelo crime que cometera contra sua esposa.
Para estabelecer uma relação de junção com seu objeto valor que é o alivio de sua alma que
será conseguido por meio da narrativa dos acontecimentos, o sujeito deve adquirir as competências
necessárias para a realização desse ato. Para tanto, ele desenvolve as modalidades necessárias
para compor a narrativa, que são o dever-fazer, o querer-fazer, o poder-fazer e o saber-fazer.
O dever-fazer adquirido pelo narrador decorre da manipulação que o presságio de morte lhe
infere. Em “amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma. Por essa razão vou lhes contar tudo”
(POE, 1998, p. 9), ele expressa o motivo pelo qual deve escrever a narrativa: a morte que se
aproxima. Assim, já que morrerá no dia seguinte ele tem o dever de fazer a narrativa para que
assim consiga contar sua história e alcançar o alívio da alma.
O querer-fazer do narrador se expressa por meio do “quero aliviar minha alma” (POE, 1998,
p.9). Já que ele não se incomoda com sua morte, ele ao menos expressa um último desejo que é
propagar sua história como forma de tranqüilizar seu espírito.
O poder-fazer que modaliza o sujeito é justamente o repertório de situações aterrorizantes
que lhe confere o direito de contar a história, pois apenas o presságio de morte (dever-fazer) e o
desejo de aliviar a alma (querer-fazer) não lhe conferem o poder-fazer, que só é possível pelas
situações que ele tem a descrever e acha relevante para o esclarecimento da situação que se
encontra.
O saber-fazer é uma modalidade que aparece implícita no narrador, pois no início do conto,
ele já descreve sua intenção como sujeito apto a fazê-la: “vou lhes contar tudo” (POE, 1998, p. 9). O
saber-fazer a narração, que também é uma modalidade indispensável para a realização da
performance, parece ser algo do qual o narrador já vem investido, pois a intenção já vem expressa
no ato da narração, ou seja, é na narração já em curso que ele adquire as outras modalidades,
demonstrando o saber-fazer como uma modalidade prévia.
Com todos os caracteres mo dais que o tornam apto a realização da sua performance, o
narrador a executa compondo uma narrativa recorrendo às suas experiências com gatos desde sua
infância até o último animal que causara sua ruína entregando-lhe a morte. Aqui ele configura-se
como sujeito do fazer, pois realiza a tarefa (contar a narrativa) visando à conjunção com seu objeto
valor.
A sanção que recaí sobre o narrador é a morte, que, no conto, aparece como uma dêixis
positiva, bem ao sabor do ideário filosófico do movimento romântico. Para se interpretar essa idéia
de morte, devem-se considerar os pontos de vista com relação ao narrador. Com a negação da
vida, devido à sua mudança de comportamento e os conflitos aos quais ele não conseguiu gerir com
racionalidade, essa sanção, para o narrador, é positiva. Assim, para ele, a morte é uma
recompensa. Em “amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma” (POE, 1998, p.9), ele não
demonstra preocupação com a morte, desejando apenas o alívio da alma. Segundo Schopenhauer
([19--]), essa negação do querer viver decorre do excesso de conflitos vividos, que geram uma dor
de existir. Nesse conto, a existência é conturbada ainda mais pelo tom sobrenatural empregado,
após a morte de Plutão. A não assimilação dos fatos gera, no narrador, sua dor de existir, sendo
premiado com a sanção de morte, para, enfim, encontrar a ausência de conflitos.
O quadrado semiótico, articulado por Greimas, constrói sua oposição por meio da relação
entre vida e morte. Para Greimas, devido à difusão de valores, a vida aparece como elemento
positivo, estabelecendo oposição à morte que é a sua negação.
Nesse conto, ocorre uma inversão de valores, pois o objeto almejado e que figura como
dêixis positiva é a morte, já que esta é o alvo privilegiado do narrador.
Dêixis positiva
Morte
Não-vida
Dêixis negativa
Vida
Não-morte
Dessa forma, na articulação desse quadrado morte e não-vida são os compositores da dêixis
positiva, já que a morte é revestida do status de objeto-valor pelo narrador e a não-vida é sua
comp lementaridade.
No outro extremo do quadrado estão os elementos da dêixis negativa: vida e não-morte. Da
mesma forma, não -morte representa complementaridade de vida, pois não são termos excludentes.
Os termos vida e morte são relacionados por meio da contrariedade, já que as idéias dos dois
termos são contrárias, em que a existência de um nega a existência do outro. Os termos não-morte
e não-vida representam uma subcontrariedade que, da mesma forma, se negam.
A contradição do quadrado se dá na relação entre vida e não-vida, morte e não-morte. Entre
esses termos também ocorre uma negação que exclui a existência concomitantemente de ambos
que alude às intenções do narrador quanto à fúnebre preferência pela morte.
Concluindo, podemos afirmar a análise do percurso do sentido no conto evidencia a
tendência romântica de exaltação do sofrimento e a visão da morte como forma de solução dos
conflitos.
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TEXTO O PERCURSO DO SENTIDO NO CONTO