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ALÉM DO QUE SE VÊ: A ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DO
INSTITUTO MÉDICO-LEGAL (IML)¹
BEYOND WHAT IS SEEN: THE PERFORMANCE OF THE
INSTITUTE OF MEDICAL-LEGAL’S PROFESSIONALS (IML)
Chancarlyne Vivian²
Amanda Saraiva Angonese³
“Quando acabamos de fazer tudo o que viemos fazer aqui na Terra
podemos sair de nosso corpo, que aprisiona nossa alma como um casulo
aprisiona a borboleta. E, na hora certa, podemos deixá-lo para trás, e não
sentimos mais dor, nem medo, nem preocupações. Estamos livres como uma
linda borboleta voltando para casa.” (ROSS, 2008 p.4)
RESUMO: Este artigo tem o objetivo de compreender como os profissionais de
Institutos Médicos Legais se posicionam frente ao exercício que realizam em
prol da justiça; verificar a saúde mental e as condições gerais de trabalho,
bem como conhecer as estratégias de resiliência utilizadas pelos colaboradores
para lidar com situações de violências e mortes sem carregar fatos que
causem algum dano psíquico. A pesquisa foi realizada por meio de roteiro
semi-estruturado com cinco profissionais, dois médicos legistas e três
auxiliaries, que atuam nos Institutos Médico-Legais (IMLs), das cidades do
extremo oeste catarinense e da região central do Rio Grande do Sul. O
método utilizado para explanar os dados foi o qualitativo, que busca
compreender os significados e características situacionais. A partir da análise
dos relatos percebeu-se que o cuidado, a coerência e o profissionalismo são
os pontos fundamentais que permeiam suas atuações na instituição. As
situações e o enfrentamento exigem trabalhadores resilientes que adquiram
estratégias de minimização dos fatos para que suas atividades profissionais
não tragam agravos futuros. Por meio desta pesquisa compreendeu-se que é
fundamental que esses colaboradores vivam em equilíbrio para que possam
desenvolver seu trabalho eticamente a fim de garantir a integridade e
segurança dos indivíduos. Assim, constata-se a importância da atuação do
profissional da Psicologia para facilitar o processo de compreensão desses
profissionais acerca da importância de suas atuações diante da busca pela
justiça mútua.
Palavras-chave: Instituto Médico-Legal. Profissionais. Sentimentos.
1Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado como pré-requisito para a obtenção do Título
de Graduação em Psicologia, da Universidade do Oeste de Santa Catarina –UNOESC,
Unidadede Pinhalzinho.
² Acadêmica do 10. período do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa
Catarina – Unidade de Pinhalzinho. E-mail:[email protected].
³ Orientadora. Psicóloga. Professora do curso de graduação em Psicologia da UNOESC.
Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre/UFRGS, PósGraduanda em Saúde Mental Coletiva pela UNOESC. E-mail: [email protected]
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ABSTRACT: This article has the objetive to understand how these
professionals position themselves to the exercise they perform towards justice;
checking the mental health and general working conditions, as well as knowing
the resilience strategies used by collaborators to deal with situations of
violence and deaths without carrying facts that cause any psychic damage. The
research was conducted through semi-structured interviews with five
professionals, two coroners and three auxiliaries who work in institutes
Medico-legal (IMLs) from the cities of the west of Santa Catarina and the
central region of Rio Grande do Sul. The method used to explain the data was
qualitative, which seeks to understand the meanings and situational
characteristics. From the analysis of the reports can be realized that the care,
the coherence and the professionalism are the key points, that permeate their
performances in institution. The situations witnessed and the coping require
workers resilient that acquire minimization strategies about the facts so so their
professional activities do not bring future aggravations. Through thisresearch it
was understoodthat it iscrucial that thesecollaboratorslivein balance, that they
can developtheir work ethically to ensurethe integrity and securityof the
individual. Thus, there is the importance of the professional practice of
psychology to facilitate the process of understanding these professionals about
the importance of their actions on the quest for mutual justice.
Keywords: Institute Medico-Legal. Professional. Feelings.
1 INTRODUÇÃO
Visto pela sociedade como sinônimo de repulsa e evitação, o Instituto
Médico-Legal (IML) ou Posto Médico-Legal (PML) é uma instituição que tem a
função de manter a ordem pública garantindo o bem-estar da sociedade de
maneira geral. A busca pela justiça, o trabalho coerente e a conduta prezando
pelo ser humano na sua singularidade, são características que permeiam o
cotidiano dessa instituição e de seus profissionais.
Por tratar da violência em seus múltiplos âmbitos e adjuntamente, ao
trabalhar com a morte é que a maioria das pessoas evitam falar sobre esse
assunto a fim de não se aproximar de algo que causa medo, tristeza, ou
angústia, características visíveis na vivência de todo o ser humano.
O trabalho foi desenvolvido com o intuito de buscar, analisar e transmitir
em que é pautado o exercício desenvolvido nos IMLs; qual é a importância que
eles têm diante da comunidade; como os colaboradores avaliam suas
atividades e quais as condições de trabalho e de saúde desses profissionais.
Contudo, a sublime atividade desenvolvida pelos profissionais do IML
para a comunidade é pautada na busca pela segurança, justiça e cuidado
pleno para todas as pessoas que o procuram. Bem como suas condutas de
zelarem pelos corpos, garantindo que as histórias e identidades sejam
mantidas sob sigilo e cuidado a fim de garantir a integridade de cada ser
humano.
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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 CONCEPÇÕES GERAIS SOBRE A COMPREENSÃO DO TRABALHO
REALIZADO NO INSTITUTO MÉDICO-LEGAL (IML)
O Instituto Médico-Legal (IML) é o órgão da Polícia Civil responsável pela
realização de perícias médicas e pela emissão de laudos para subsidiar as
investigações e o julgamento de processos criminais sobre agressões físicas,
acidentes, estupros, atentados violentos ao pudor, tentativas de homicídio,
homicídios consumados e suicídios. (ALDÉ, 2003).
Os IMLs não trabalham somente com situações já decorrentes de
mortes, mas, com um número cada vez maior de lesões e outras
agressões que não provocam a letalidade.
De acordo com Francalacci (2011), noventa e cinco por cento das
perícias são realizadas em pessoas vivas que se dirigem aos órgãos do IML.
O serviço realizado pelo Instituto Médico-Legal (IML) é o de pronto
atendimento, ou seja, tem que estar à disposição da população 24
horas por dia. O problema com a falta de profissionais também se faz
presente nessa área. Há necessidade de incremento efetivo de
Peritos, Médicos Legistas para adequar a demanda de serviço e
agilizar o atendimento. (FRANCALACCI, 2011, p.15).
De acordo com o Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba-Paraná, as
áreas técnicas do IML estão divididas em Clínica Médico-Legal que oferece
a realização de exames de conjunção carnal, ato libidinoso, lesão corporal,
verificação de aborto, verificação de idade, sanidade física, sanidade mental,
identificação de sexo somático, psiquiátrico, emitindo seus laudos em
Laboratórios,
que
executam
serviços
de exames anatomopatológicos,
toxicológicos e de química legal.
2.2 A HUMANIZAÇÃO DO AMBIENTE DE ATENDIMENTO
Aldé (2003) salienta que o ambiente do Instituto Médico-Legal (IML)
causa medo, nojo, e incômodo. É interessante observar a reação das pessoas
quando retratam como alguém pode se interessar em estudar esse ambiente
que é desagradável, execrado e excluído da sociedade.
Para Francalacci (2011), melhorar a imagem do IML é um desafio. A
sociedade precisa ser mais bem atendida e tomar conhecimento de que o IML
não é sinônimo de “morte”, mas sim, de justiça. É necessário lutar para que
o cidadão não tenha medo de procurá-lo quando necessário e instruí-lo sobre a
real função do IML. A autora destaca que as vítimas de violência precisam de
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um atendimento diferenciado, ágil e de qualidade, que possa ao menos, aliviar
a dor das pessoas atendidas e dar suporte aos familiares que perderam seus
entes queridos. Por esse motivo, precisa-se humanizar os ambientes de
atendimento, tornando-os mais confortáveis e reservados. Afinal, são situações
de extrema delicadeza que ali são tratadas.
De acordo com Barros e Silva (2004), o trabalho realizado pelos
profissionais que atuam no Instituto Médico-Legal (IML), ainda é pouco
compreendido pela sociedade. As atividades que desempenham têm uma
grande dimensão, surtindo situações de trabalho saturadas de sofrimento
mental. Conforme relatos de profissionais, as primeiras experiências nesse
local de trabalho foram de sentimento de certo mal-estar, deixado pelo cheiro e
pela visão de corpos para necropsiar.
Francalacci (2011) pontua que as atividades desenvolvidas no âmbito
dos IMLs buscam compreender o efeito patogênico do trabalho executado
nesses ambientes, trazendo a melhoria das condições por meio do efetivo
pessoal necessário, bem como dos equipamentos e instalações físicas
adequadas. São, em grande parte, atividades cuja natureza implica contato
com conteúdos repugnantes, dejetos e/ou cadáveres que impregnam o sujeito
e a sua atividade com significados estigmatizantes, podendo levar o
trabalhador a se incorporar e a se identificar com esses conteúdos.
Para os profissionais, após algum tempo, o cheiro torna-se passível de
adaptação. No entanto, segundo eles, a sensação de repulsa persiste mesmo
depois da higienização do necrotério. Há um “ranço” que permanece no ar: o
cheiro torna-se não só um tipo de “delimitação” do necrotério, mas tambem, do
espaço onde suscita tristes sentimentos: a perda de entes queridos e a
violência, em todas as suas formas. A verdade é que os corpos chegam e saem
e os trabalhadores ficam nesses ambientes, em contatos decorrentes, uma
vida inteira. (FRANCALACCI , 2011).
2.3 ASPECTOS PSICOLÓGICOS UTILIZADOS COMO RECURSO PARA O
EXERCÍCIO DA ATIVIDADE
Os profissionais que trabalham nas áreas em que a morte ocorre
frequentemente, devem compartilhar sentimentos e reações com os outros. A
vivência desses colaboradores que trabalham no Instituto Médico-Legal (IML),
por vezes, desperta sentimentos de angústia, aflição, desconforto emocional e
dor que precisam ser analisadas e cuidadas. (MUCCILLO, 2006).
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Quando se fala sobre a forma como as pessoas respondem ao
estresse, utilizamos a palavra enfrentamento, que se refere às formas
cognitivas, comportamentais e emocionais como as pessoas
administram situações estressantes. Ele envolve qualquer tentativa
de preservar a saúde mental e física mesmo que tenha valor limitado.
(STRAUB, 2005, p. 276).
Francalacci (2011) destaca que aspecto digno de nota é o elevado
desgaste psicológico dos profissionais que atuam no IML, tendo em vista o
contato direto com cenas de crimes graves que exigem do profissional um
grande preparo emocional. Também é produzido sobre o trabalhador um alto
grau de pressão institucional, onde os prazos processuais são curtos, e devido
à escassez de recursos e profissionais, esses prazos, por vezes, não são
cumpridos, surgindo então, a pressão do judiciário, ameaçando o perito com a
instauração de procedimentos para apurar crime de desobediência.
Por vezes, a rotina desses profissionais se dá de forma árdua, onde a
carga horária de trabalho excede ao estabelecido, fazendo com que os
colaboradores desempenhem suas funções acompanhadas de esgotamento e
cansaço. Partindo de tal pressuposto, é importante que eles desenvolvam a
autoeficácia, que segundo Bandura (1977), são as crenças individuais na
capacidade de organizar e executar os cursos de ação necessários para lidar
com situações potencialmente estressantes, mantendo o equilíbrio mental.
De acordo com Straub (2005), as pessoas que possuem forte sensação
de controle pessoal têm mais probabilidade de utilizar formas adaptativas e
focalizadas nos problemas para lidar com eles. Aumentos na percepção de
estresse estão, em geral, acompanhados por aumento no enfrentamento
focalizado na emoção, mas, em um grau menor do que em pessoas que
percebiam ter bastante controle pessoal sobre suas vidas.
3 MÉTODO
Esta pesquisa, de caráter qualitativo, se deu a partir da coleta de dados,
obtidos por meio de roteiros semi-estruturados com cinco participantes, dois
médicos legistas e três auxiliares, que atuam nos Institutos Médico-Legais
(IMLs), de uma cidade do oeste catarinense e outra, da região central do
Rio Grande do Sul. Buscou-se entrevistar profissionais que trabalham
nessas
cidades, pois, tais municípios são referências em atendimentos em suas
regiões.
As entrevistas foram gravadas, mediante a assinatura de um Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, garantindo a fidedignidade dos dados e o
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sigilo. Posteriormente, e l e s
foram estudados na íntegra, através do
método da análise de conteúdo de Bardin (2009), que se caracteriza como um
conjunto de técnicas de análise das comunicações e que utiliza procedimentos
sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens.
Através de instrumentos qualitativos (entrevistas e observação dos
participantes) de coleta de dados, o estudo apresentou relatos e percepções
dos profissionais a respeito dos aspectos envolvidos no processo de trabalho e
da saúde.
4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Ao acompanhar o dia-a-dia dos profissionais no Instituto Médico-Legal
(IML) nota-se que suas condutas diante dos corpos, tanto de cadáveres quanto
de pessoas que foram violentadas, são dignas de muito respeito e admiração.
Para mensurar a grandiosidade do exercício dessas profissões, usou-se o
nome de pedras preciosas para nomear cada um dos cinco participantes:
Esmeralda, Alexandrita, Ametista, Safira e Rubi.
4.1 PROFISSIONAIS
EM
RELAÇÃO
AO
COMPROMISSO
DE
UM
TRABALHO AUTÊNTICO
Ao avaliar o trabalho realizado pelos profissionais que atuam no IML,
como de imensa responsabilidade, coerência e ética, observou-se como os
colaboradores se posicionam frente ao seu exercício:
Eu encaro com muita responsabilidade. Eu dou muito valor pra isso.
Eu fiquei cinco anos na pediatria. E eu simplesmente não quis mais.
E aí eu só me dedico a isso. Quando os próprios chefes falam em
dedicação exclusiva, eu acho que eu sou a única no estado. Então por
aí você pode avaliar como eu encaro. Entendeu? (Esmeralda).
Com muito orgulho e satisfação, sabendo que serei a última
chance de uma pessoa se defender após a sua morte. (Alexandrita).
Pra nós é a busca do motivo da violência, uma prova para pegar o cara
que fez o crime. Tudo o que a gente lida é um crime. Alguém que
brigou na rua, alguém que foi assaltado, que foi estuprada, que
sofreu acidente de carro, alguém que se enforcou. Nós temos que
mostrar o sinal, achar a prova. (Rubi).
Os colaboradores expressam sentimentos de responsabilidade
e
satisfação por trabalhar em casos em que suas atuações, por vezes, são a
última chance que a pessoa tem para se defender. Os profissionais buscam
investigar as causas e fazer justiça, diante da violência que foi praticada em um
corpo para que sua integridade seja preservada.
Tavares (2001, p. 52) desenvolveu a tese de que a resiliência não deve
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ser
apenas
um
atributo
individual,
mas,
pode
estar
presente
nas
instituições/organizações, gerando uma sociedade mais resiliente. Para o autor,
uma organização resiliente é uma organização reflexiva, onde todas as
pessoas são responsáveis, competentes, e funcionam numa relação de
confiança, empatia, solidariedade. “Trata-se de organizações vivas, dialéticas e
dinâmicas cujo funcionamento tende a imitar o do próprio cérebro que é
altamente democrático e resiliente”.
Na busca cuidadosa de indagar sobre os desafios percorridos nesse
trabalho, os profissionais meticulosamente retratam:
Aqui são condições de trabalho. Porque graças a Deus não tem faltado
material. A gente já passou por gestões políticas que a gente não tinha
material né. A gente tinha que dizer para o auxiliar de perícia olha,
lava essa luva aí que você vai ter que usar ela para a outra
necropsia, entendeu. Então era diferente. Hoje assim, a gente gostaria
de estar em um lugar melhor, mas a gente está se encaminhando para
ver se a gente consegue um convênio melhor. (Esmeralda).
Na questão dos materiais, por exemplo, eu já cansei de pedir
1,2,3,4,5 vezes. Uma vez eu pedi uma serra para abrir crânio e
demorou 3 anos para ela chegar(...) sem falar nas péssimas condições
de trabalho que incluem a falta de materiais e o espaço físico. As
necropsias são feitas em uma sala dentro do hospital nossos
materiais estão vinte anos atrasados é tudo precário. Agora, por
exemplo, eles estão lá remendando a geladeira. Já comprei luvas
com o meu dinheiro, eu cansei de comprar coisas. Eu lembro que
uma vez eu estava pedindo para enviarem agulhas de procedimento e
eu pedi durante algum tempo. Como eu precisava de uma eu fiz uma
agulha com cabo de guarda-chuva. (Safira).
Compreendendo a singularidade de cada relato, nota-se que há
diferença entre os apontamentos, sendo que em um dos estados, os três
participantes não colocaram a falta de material como um desafio, pois,
atualmente, eles contam com materiais suficientes para exercer seu trabalho
com excelência. Em contrapartida, dois dos participantes que pertencem ao
outro estado, destacaram a falta de material como o principal desafio, um dos
mais difíceis de ser solucionado pelo fato de dependerem de superiores para
reverter tal situação.
Barros e Silva (2004) salientam que a falta de condições adequadas de
trabalho impossibilita a valorização do colaborador e perverte o sentido da
criatividade do homem, predominando nelas, a expropriação da dimensão
simbólica de se trabalhar, a exploração da força de trabalho e a alienação do
trabalhador.
Por ser um trabalho de imensa prudência e ética, onde os colaboradores
lidam com seres humanos que chegam à instituição em estados extremamente
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delicados, por ter sido violentados das mais variadas formas, é que os
profissionais destacam a importância de ter um espaço físico que atenda a
essas necessidades para que realizem suas atividades da maneira mais
autêntica possível.
4.2 ALÉM DO QUE SE VÊ: VIVÊNCIAS QUE DEIXARAM MARCAS EM
SUAS ATUAÇÕES
Trabalhar com a morte e com a violência é sinônimo de um trabalho
repleto de desafios diários e de vivências que demarcam a vida
dos
colaboradores. Experienciar momentos de intensa angústia, de tristeza, de
sentimentos de perdas, de injustiças e por vezes, comoção e abalo, requerem
profissionais resilientes que saibam lidar com as situações sem deixar que tais
acontecimentos despertem a sensação de incapacidade ou de recuo diante
dos fatos que ali são apresentados.
Diante disso, questiona-se, quais as vivências que marcaram suas
atuações?
Eu acredito que é a criança que mobiliza mais, sabe, as suas
sensações, as suas emoções. Quando é um bebê, quanto menor, pior
eu acho. Mas assim teve caso de uma mãe que sofreu acidente de
trânsito e o bebê morreu junto, no útero. Isso mobiliza bastante.
(Esmeralda).
[…] perda da inocência de crianças trazidas a exame pericial, que
foram abusadas de todas as formas por adultos que deveriam zelar
por elas são também situações de perplexidade e pesar.
(Alexandrita).
A única coisa que influencia muito é tratar com crianças. Criança eu
acho que é a mais chocante de tudo. É um ser sem noção né. A
recém está sendo gerado, está se desenvolvendo. Esses são os mais
chocantes. (Ametista).
O que mais mexe é criança, eu perdi uma criança. (choro). Em 1986
eu perdi uma filha e eu lutei muito para salvar ela. (choro). Desculpe
(pausa). Eu comecei a trabalhar no IML em 1994, mas eu ainda não
consegui superar isso. (Safira)
De marcar psicologicamente, só de crianças quando o cara fica assim,
não tem como não se envolver. Daí eu me identifico com o meu filho
lá também né, eu viro as costas se não eu choro. (Rubi).
Os cinco participantes trazem como vivências que marcaram de maneira
significante, o ato de necropsiar crianças ou até mesmo, de trabalhar diante de
corpos que foram abusados, os quais são trazidos como seres ingenuamente
atingidos por violências das quais não conseguiram se defender. Mais do que
isso, que foram violentados por adultos que deveriam zelar por elas. As
necrópsias e atendimentos realizados em corpos de crianças são vivências que
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deixam marcas nas psiquês desses colaboradores que se utilizam de
estratégias para vivenciar esses momentos de comoção e abalo emocional.
Barros e Silva (2004) destacam que os profissionais criam
suas
estratégias desde a primeira necrópsia. Não olhar detalhadamente o cadáver é
uma delas. Ao realizar a necrópsia, eles evitam fixar seu olhar em
detalhes que julgam desnecessários à realização de sua tarefa. O corpo
fica reduzido a órgãos e lesões.
Durante as necropsias eu assobio, canto não fico olhando no olho,
nos órgãos genitais. A gente não olha para o lado emocional do ser
vivo, porque se não, não tem como. A gente coloca a mão.(Safira).
Compreendendo a totalidade do ser humano e dando ênfase às
situações que os colocam diante de realidades que chocam
e deixam
cicatrizes, os profissionais trouxeram também as tragédias envolvendo um
maior número de pessoas, como sinônimo de vivências que marcaram suas
vidas, profissionalmente.
É um negócio que vai marcar pelo resto da vida. Marcar de que jeito?
Porque foi um grande número. Porque a situação toda, toda aquele
envolvimento e tudo mais, aquilo lá tudo foi uma coisa muito surrealista
entendeu. Foi muito do além e inesperada né. Vinte e cinco anos de
profissão e ninguém imaginou que um dia iria passar por um negócio
daqueles. A tua cidadezinha que até então tinham poucas necropsias
por mês, aí numa vez só aumenta mais de 500%.(Esmeralda).
Tragédias ocorridas no meu plantão, impressionam por várias razões,
desde a massiva presença da morte até a brutal constatação do
desleixo que é característica nacional em relação à segurança.
(Alexandrita).
As falas dos participantes, ao retratarem as vivências que marcaram
suas profissões, foram os momentos, durante as entrevistas, que mais
mexeram com os sentimentos dos colaboradores. Essa reflexão surtiu falas
carregadas de sentimentos de angústia e pesar, pois, os profissionais
sabem que está em suas mãos a missão de fazer um trabalho ético
prezando pelas identidades, pelas histórias que através de corpos, agora sem
vida fisiológica, são representados diante de suas mãos.
4.3 O LIDAR COM A MORTE: TABU CULTURAL E HISTÓRICO QUE
PERMEIA A SOCIEDADE
De acordo com Hohendorff e Melo (2009), a maneira como a morte é
compreendida é dinâmica ao longo do desenvolvimento humano. Desde a
infância, as pessoas têm contato com perdas e inúmeras são as variáveis
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relacionadas com o desenvolvimento humano. A cultura e as situações de
perda que s e vivenciam contribuem para que s e forme a visão sobre a
finitude humana. Partindo de tal pressuposto, direcionou-se aos profissionais a
indagação sobre sua conduta frente à morte.
Pra mim é normal. Quando eu vou recolher um corpo, por exemplo, eu
peço licença e digo‘agora eu vou trabalhar com você’. Pra mim é um
corpo, uma matéria. O trabalho precisa ser cuidadoso, porque do lado
de fora tem uma família ansiosa, triste. Eu fico realizado quando eu
consigo entregar o corpo logo. A gente precisa pensar na família.
(Safira).
Sem preparo, acompanhamento psicológico e de saúde ou condições de
trabalho que atenuem a crueza de sua função, são obrigados a enfrentar a
morte nua, despida de qualquer dos ritos socioculturais que protegem a todos
da incompreensão e do terror encerrados nesse tabu. (ALDÉ, 2003).
Ao exprimir tal relato, destaca-se a forma como esses profissionais se
colocam diante do seu trabalho. O fato de pedir licença para recolher um corpo
de uma pessoa sem vida só reforça a imagem de um trabalho de extremo
cuidado e respeito, de profissionais humanizados que prezam pelo corpo que
está em suas mãos.
Conforme pontua Silva (2013), vida e morte são laços da existência
humana, onde, cada um desses momentos se faz representar pelos elos que,
concomitantemente se formam a partir do nó que os interpõem. Este, além de
representar a dinâmica do próprio tempo, representa também a vivência de
situações de vulnerabilidade, inerentes ao processo de existir.
4.4 A FAMÍLIA COMO SINÔNIMO DE ESCLARECIMENTO E BUSCA POR
JUSTIÇA
Ao tratar com os familiares das vítimas que morreram ou que sofreram
algum tipo de violência, observa-se a conduta de extremo esclarecimento à
família que permeia a atuação dos profissionais. A família é quem vai buscar
pela justiça e pela integridade de seu ente querido e é a partir dessa busca que
os colaboradores refletem o quão importante é seu papel diante dos corpos
que ali estão. São muitas as situações vivenciadas no IML envolvendo
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familiares, e, as que foram retratadas pelos cinco profissionais, cada uma
delas é tratada na sua singularidade, com alto grau de cuidado e presteza:
Quando chega uma pessoa que não foi identificada, eles colocam um
meio, uma publicação chamando os familiares, daí a gente deixa
entrar um familiar de primeiro grau. Chega ali, reconhece às vezes se
abraça e chora. Às vezes agarra, não quer sair. Aí a gente é obrigado
a retirar daí né. (Ametista).
De acordo com Kubler-Ross (2008), quando se perde alguém, fica-se
com raiva, zangado, desesperado, quando seria prudente extravasar essas
sensações. Os profissionais destacam que não é fácil lidar com as reações e
sentimentos que são trazidos pelos familiares, mas, é preciso sabedoria para
tentar compreender a dor da perda:
Quando o familiar quer entrar para ver o corpo, eu digo: ‘não é assim
que eu acho que a senhora deve lembrar do seu familiar. A senhora
espera, nós vamos fazer o nosso trabalho, depois a gente vai liberar.
Depois a senhora ou o senhor vão poder ficar com os entes queridos
de vocês’. Então a gente evita ao máximo, entendeu? (Esmeralda).
Eu sou irredutível. É sim, não. Familiares eu trato friamente, não
posso me envolver sentimentalmente. Se eu me envolver
sentimentalmente com eles ‘eu embarco em uma canoa furada sem
retorno’. Porque a gente lida com o sentimento das pessoas
né.(Ametista).
As vezes a gente tem que ser duro. Tem vezes que a gente diz
para as pessoas que querem entrar: ‘não, não pode’. Aconteceu
duas vezes do cara querer entrar e eu ter que aumentar o tom de
voz e dizer‘não, não pode entrar, é lei’. Tu não quer chegar a esse
ponto às vezes, mas para o bem de todo mundo, tu tem que bater o
pé e tal. Mas tem que ter uma jogada de cintura, usar da psicologia
até, tentar entrar na cabeça deles e dizer depois ‘você vai ver ele no
caixão bonitinho e tal’. ‘Ah mas eu queria ver’. Você vai querer gravar
essa imagem na tua cabeça pra que? Vai pra casa, toma um
chazinho, toma um banho, depois vocês vão se encontrar lá. Aí você
vai ver ele bonitinho, arrumadinho que é como você vai lembrar
dele’. Aí geralmente isso funciona. (Rubi).
Diante de situações que envolvem familiares de vítimas, percebe-se o
quão
é
importante
que
esses
profissionais
estejam
bem,
física
e
emocionalmente para que eles consigam lidar com essas pessoas. Pois, se
sabe que apesar de, por vezes, parecer uma maneira “fria” de tratar quem
está ali aguardando por uma resposta, os profissionais precisam manter essa
postura mais rígida e extremamente profissional, para que consigam
administrar
essas situações, sem se envolver emocionalmente. Conforme
esses profissionais, no momento da realização de necrópsias e avaliações de
pessoas que foram violentadas, o trabalho precisa ser minuciosamente
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realizado, sem que haja nenhum tipo de envolvimento, pois, tal pode
trazer pontos negativos na realização do trabalho, bem como agravos
futuros para a vida dos colaboradores.
4.5 UTILIZAÇÃO DE ESTRATÉGIAS NA ATUAÇÃO DE PROFISSIONAIS
RESILIENTES
Ao longo da investigação sobre o trabalho realizado pelos profissionais
no Instituto Médico-Legal (IML), pontua-se a importância do equilíbrio físico e
emocional dos colaboradores para que consigam lidar com as mais variadas
situações que chegam até eles. Compreendendo que essa instituição é
sinônimo de morte e de violência, indagou-se quais as estratégias que eles
utilizam para lidar com todo o processo que enfretam nesse cotidiano repleto
de responsabilidades que exige profissionais resilientes:
Que eu saiba que eu tenho consciência, nenhuma. Talvez comer né,
talvez eu não seria tão redonda (risos). A única coisa que lá no
começo foi que um dia a gente estava fazendo necropsia de um
cadáver em putrificação. E aí eu cheguei em casa e meu pai, ele
fazia, aquelas linguiças, e daí elas estavam muito novinhas e a gente
gostava de comer aquilo cozido que não tava ainda defumado e aí
cozinharam aquele negócio. Aí eu cheguei e aquele negócio era a
mesma coisa do que um cadáver entendeu. E aí aquele negócio foi
dose sabe. Não vai dar para comer hoje, deu. A única coisa que eu
me lembro, lááá no começo quando eu sai da escola e vim pra cá
sabe. Então foi um dos poucos que sabe, que me marcou. Ou seja, e a
vida continua. (Esmeralda).
Frieza. Eu não consigo. O pessoal tem ah, quando a gente vai
almoçar, ‘como é que tu consegue comer carne’. Meu
psicológico é super bom, é excelente. Eu não consigo pensar.
Profissional, profissional, parte técnica né. Eu não consigo me envolver
com isso. Como um cara tranquilo. Às vezes eu to lá dentro com os
corpos tomando café, o pessoal fica chateado, né não sei o que, como
é que tu aguenta. Quando chega a pessoa por exemplo eu não uso
máscara não uso nada. O meu subconsciente eu acho que é muito
forte. Eu tenho que não sentir o cheiro e o resto é tranquilo né. O
embalsamento eu gosto de fazer porque eu não gosto de me envolver
com as outras pessoas né meu. (Ametista).
Eu procuro não me envolver em nada né. Não levar isso pra casa
né, porque o que acontece é luto daquela família, eu não tenho
nada a ver. Na minha casa eu vou chegar, vou fazer festa com o meu
filho, vou brincar. Fechou as portas, acabou. Coloca o papel na gaveta
e é mais uma estatística. Eu acho que assim é melhor pra mim. É
assim que eu levo para mim não me afetar. (Rubi).
A conduta dos profissionais chama a atenção pela forma como eles
administram o cenário de trabalho. Esse exercício, concebido pela sociedade
como algo sórdido, é tido pelos colaboradores como sinônimo de busca pela
justiça, de luta pelos direitos das pessoas que chegam até a instituição sem
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condições para fazer isso por si só.
Assim, essas atuações vêm
acompanhadas de sigilo e respeito mútuo buscando sempre a integridade do
corpo que está à sua frente.
É aquilo que me ensinaram na academia. Manter em sigilo morre
comigo. Só se chegar um profissional e me perguntar isso e aquilo,
vamos discutir o que que houve, aí sim. O delegado, o escrivão, a
doutora ou os peritos né, aí a gente discute, mas questão pessoal não.
(Ametista).
É fascinante analisar a postura desses colaboradores e perceber o
respeito e zelo que têm diante do ser humano. O que é sentido como
desprezível por grande parte das pessoas chama a atenção e surpreende ao
compreender que têm profissionais com alto grau de responsabilidade,
cuidado e empatia. Nesse contexto, ao lidar com os corpos, há sempre o
pensamento em relação ao sentimento dos familiares que chegam até a
instituição comovidos e se deparam com situações-limites que exigem do
ser humano um alto grau de controle.
Eu sou médico e ali estou , naquele momento, fazendo um ato médico.
Sou o profissional individualmente mais habilitado a tratar com
respeito e humanidade aquele ser maltratado que se apresenta para
um exame físico ou aquele corpo que pertenceu a alguém que existiu
e teve direitos como qualquer outra pessoa. Alguns destes ainda
existem para o cadáver, e a garantia de direitos é o que diferencia a
civilização da barbárie. (Alexandrita).
Pensar nos direitos do ser humano pauta o t r a b a l h o desses
profissionais que diariamente, investigam e traçam estratégias para amenizar
a dor de pessoas e de famílias que passam pelo IML. Eles sabem que os
seres humanos passam por vivências que os colocam em situações de
fragilidade e é pensando na plenitude da vida humana que esses
colaboradores dotam-se de estratégias para amenizar a tristeza e/ou angústia
e buscar a legitimidade de cada caso.
4.6 O SENTIMENTO ESCONDIDO NO INTERIOR DE CADA COLABORADOR
O ser humano é admirável em sua singularidade e age de tal forma que
suas atitudes podem revelar o que de mais íntimo existe em
suas
personalidades e psiques. Principalmente, ao término das entrevistas, pontos
importantes foram trazidos em cada relato. No seu transcurso, pareceu que
cada colaborador tinha uma imagem e conduta a zelar e, por esse motivo
talvez, não deixavam extravasar seus sentimentos:
14
Eu ainda acho que nós deveríamos ter um local para ficar aqui.
De sobre aviso, de plantão. Entendeu? Porque às vezes o auxiliar
nos telefona, a gente também tem direito a almoço, tem direito a
tomar banho, né. E às vezes num tempo pequeno já é motivo para
falatória. Então assim, se o nosso serviço dispusesse de um local
adequado, você vê que aqui é tudo (pausa), tudo. Só que médico
nenhum vai ficar aqui nessas condições e com esse tipo de
remuneração né. Então por isso que, eu faço o possível aí,
entendeu.(Esmeralda).
É como eu te falei, a realidade é essa né. Se eu pudesse, nós
ficaríamos sentados assim. Mais histórias para te contar. Várias. Eu
quando estou sentado lá fora no sol sentado na minha cadeira
tomando um chimarrão, às vezes eu sinto vontade de escrever um
livro né. Eu teria condições de escrever um “Best Seller”. Eu como
é que eu vou te dizer. Eu não sei como que eu estou aqui
conversando contigo. Não sou de me abrir, sou até estúpido as
vezes com as pessoas. As vezes vem o pessoal da TV, do jornal.
Não falo, é só bom dia, boa tarde, maiores informações só lá na
delegacia. (Ametista).
Os profissionais sabem que têm um trabalho a prezar e a
esclarecer diante da sociedade, por conseguinte, o que trouxeram durante as
entrevistas prova o quanto o profissionalismo é importante nas situações que
vivenciam. Foi visível a sensação de um espaço exclusivo, onde os
colaboradores se sentiram à vontade para dividir o que de mais íntimo
estava presente em suas vidas. Também, foi extraordinária a conduta de
transparência e de quanto é importante manter em sigilo e atuar eticamente
em relação a tudo que passa pelo Instituto Médico-Legal (IML).
Tu não pode ficar gravando rosto, eu sempre digo para os
meus amigos ‘o que acontece em Las Vegas fica em Las
Vegas’, (risos). Fechou as portas tchau, eu esqueço. Se
guardar tudo lá dentro da cabeça vai começar a ocupar
espaço e não é saudável né. Tu faz o teu trabalho certinho,
bonitinho, mas sem ligação nenhuma. Para a sua própria
saúde mental, você não pode ter ligação nenhuma. (Rubi).
O
desgaste,
uma
resultante
do
trabalho
que
afeta
tanto
o
organismo quanto a saúde mental dos profissionais que trabalham nessas
condições, gera intensos graus de fadiga física e psicológica, podendo levá-los
à alienação. Segundo Seligmann-Silva (1994, p. 292) “corrói a identidade, ao
atingir valores e crenças, podendo inclusive ferir a dignidade e a esperança”.
Os
prejuízos
à
identidade
do
trabalhador
correspondem,
aos
empobrecimentos de personalidade, e em consequência, de sociabilidade.
Diante de tais falas, observa-se que sem a resiliência e a auto
eficácia, dificilmente esses colaboradores, trabalhariam tão zelosamente em
cada caso, pois, são essas duas condutas que permitem ao trabalhador
15
estar por inteiro quando lida com cada procedimento que chega até ele.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A busca constante pela justiça, que os faz profissionais de corpo e
alma, vai muito além do que se vê e do que a sociedade conceitua como
verdade quando se trata de Instituto Médico-Legal (IML).
Cada
relato
trouxe
vivências
íntimas
que
demarcaram
fatos
consideráveis na vida profissional e pessoal de cada colaborador, o que aponta
a importância do papel da Psicologia nessa instituição. Não em relação à cura
da dor, mas de trabalhar os sentimentos experienciados por eles diante de
constantes violências e perdas que são vivenciadas, com o intuito de fazer
uma escuta cuidadosa, fonte de acolhimento para essas pessoas.
Estar constantemente em contato com situações de violências e mortes
deixam marcas que podem ser irreparáveis se não lhes forem destinados
cuidados necessários para que não se tornem maléficas para a vida dos
profissionais.
Ao considerar o ser humano responsável, por ser protagonista de
uma história, por ter uma identidade, por ser digno de respeito mútuo e de
cuidado até a sua finitude, é que se pontua a importância desses
colaboradores disporem de uma pessoa que os escute sem julgar, sem os
criticar e sem amenizar suas dores, pois, o que acontece, de fato, em suas
vidas, precisa ser trabalhado a fim de resgatar em cada um deles, suas
potencialidades, permitindo-lhes o direito de uma vida digna.
Os relatos apresentados são apenas algumas pedras, pedras verdes,
pedras azuis, pedras vermelhas... Eles foram escritos para indicar um lugar
ou um caminho pelos quais essas raridades podem dividir com sabedoria, o
que de fato está presente em suas psiques. O trabalho de buscar lá dentro,
no fundo de cada relato, o diamante que está escondido, é tarefa de cada
um. Esmeralda, Alexandrita, Ametista, Safira e Rubi, são seres que tocaram
sem encostar e que permitiram fazer mágica com tudo o que foi trazido.
Dedica-se este trabalho a vocês, que são os protagonistas desse cenário.
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