EM NOME DA ORDEM: AS ESCOLAS MUNICIPAIS DE PRIMEIRO GRAU NA CIDADE DE SÃO PAULO NA ÉPOCA DA DITADURA MILITAR (1964-1985) Helenice Ciampi (PUC-SP – [email protected]) Alexandre Pianelli Godoy (UNIFESP – [email protected]) Palavras-chave: modelo escolar paulistano; ditadura militar; comemorações cívicas. 1. Introdução: A pesquisa empírica intitulada “Em nome da ordem: as escolas municipais de primeiro grau na cidade de São Paulo no período da ditadura militar (1964-1985)” foi desenvolvida em parceria interinstitucional entre PUC-SP e UNIFESP no período de agosto de 2010 a agosto de 2012. A pergunta principal que nos levou a outras problematizações foi: qual o significado histórico das renomeações de escolas por patronos militares em substituição aos nomes dos bairros/localidades que antes as designavam? O objetivo inicial foi o de levantar e analisar a documentação de oito escolas de ensino municipal da cidade de São Paulo durante o regime militar para interpretar historicamente o conjunto institucional do qual faziam parte e de suas práticas educativas. As escolas selecionadas para esta pesquisa são representativas das diferentes regiões (subprefeituras) da cidade de São Paulo.1 O volume da documentação encontrada foi substancioso e podemos dividi-lo em três blocos: a) documentos da/sobre a rede/sistema municipal (decretos, leis e pareceres do Diário Oficial do Município e do Estado de São Paulo, relatórios de gestão municipal, projetos educativos para a rede, revistas pedagógicas e impressos escolares, fotografias de desfiles, fanfarras e comemorações cívicas e plantas aéreas, baixas e topográficas das escolas selecionadas); b) documentos das oito escolas selecionadas (projetos e trabalhos escolares, fotografias, livro de termo de visitas, atas de reuniões de conselho de classe e de reuniões pedagógicas, livros de ponto e de matrículas das escolas; além de livros sobre a história de alguns bairros onde se localizam as escolas produzidos por membros da comunidade ou de monografias de pesquisadores interessados pela história dos bairros de São Paulo); c) documentos orais: transcrição de seis entrevistas com uma ex-aluna, uma professora realocada como funcionária do Departamento de Orientação Técnica do Sistema Municipal de Ensino e de quatro ex-professoras de nível I (primário) e/ou II (ginásio) durante o período militar. A análise preliminar do conjunto da documentação se desenvolveu em três eixos: a) a relação entre arquitetura escolar e currículos que corresponde ao item dois desse artigo que tratará sobre a “memória arquitetada”: o modelo escolar paulistano; b) a relação entre disciplinas escolares e as comemorações cívicas que corresponde ao item três desse artigo que versará sobre a “arquitetura encenada”: o civismo cínico; c) a relação entre as entrevistas orais e os itens anteriores que não será desenvolvido em tópico específico, pois a documentação oral ainda será analisada mais atentamente em um futuro artigo. Os resultados dessa análise preliminar indicaram: a) a existência de um “modelo escolar paulistano” com características administrativas baseado na “gestão para o ensinar” e menos calcado em métodos e saberes pedagógicos pré-fixados ou em compromissos com a ideologia militar. Havia mais uma preocupação com a expansão, funcionamento, controle e construção dos lugares/edificações escolares e na perpetuação de uma “memória presentista” da instituição, isto é, sem passado e em constante reforma. Por isso, o caráter “moderno” e “nacionalista” do modelo significava um desprezo pela historicidade das localizações das escolas, dos seus sujeitos e práticas, bem como obnubilava seu caráter administrativo e presentista; b) As disciplinas das humanidades e as comemorações cívicas atendiam às exigências de gestão administrativa da rede/sistema escolar sem uma vinculação pedagógica específica substituindo o estudo disciplinar pelas comemorações disciplinadas, isto é, a visível perda da importância e centralidade das disciplinas escolares pelas práticas de socialização disciplinadas por meio de atividades cívicas que supostamente controlariam a sociedade. Cabe esclarecer que não será possível explorar nesse artigo toda a documentação coletada na pesquisa, bem como todos os desdobramentos que foram elaborados e registrados em quatro relatórios semestrais. Procuraremos descrever e analisar em linhas mais gerais os aspectos que julgamos pertinentes na aferição pública dos resultados. 2. A memória arquitetada: o modelo escolar paulistano A relação entre arquitetura e memória foi definidora das políticas curriculares do município de São Paulo no período de institucionalização e consolidação da sua rede/sistema de ensino por dois motivos: a proposta de construção das escolas de alvenaria definiu aos poucos que o ensino municipal paulistano, ainda caracterizado pela funcionalidade do espaço escolar da arquitetura moderna (CALDEIRA, 2005, p. 44), mas distanciando-se dos pressupostos teóricos da pedagogia da Escola Nova que antes embasavam os projetos (BUFFA & PINTO, 2002, p. 141), se constituía de forma independente do sistema Estadual de ensino a partir dos anos 1960; a revista Escola Municipal criada em 1968 instaurou/acompanhou não só o processo de montagem da rede e de construção das escolas municipais como definiu que tipo de memória institucional singularizaria a prefeitura da cidade atribuindo um lugar próprio (CERTEAU, 1996, p. 201) ao sistema de ensino municipal baseado no controle do espaço educativo e na organização burocrática e administrativa coesa e racional que permitiria que seus currículos fossem aplicados de forma aberta e flexível de modo que não travassem as engrenagens da máquina pública. Os saberes específicos (disciplinares), métodos pedagógicos e finalidades educativas ficariam em segundo plano dentro do que designamos “modelo escolar paulistano” (GODOY, 2013). A categoria de “modelo escolar” foi emprestada da historiadora da educação Marta Maria Chagas de Carvalho que em sua extensa produção sobre a história da escola em São Paulo o utilizou para descrever e analisar as relações de “pluralidade e à historicidade dos dispositivos científicos, religiosos, políticos e pedagógicos, em cuja intersecção se produziu, na modernidade, uma modalidade escolar de educação” (CARVALHO, 2011, p. 188). A partir da materialidade dos impressos pedagógicos e educativos (manuais, revistas e coleções de livros para a formação de professores), a autora distinguiu dois modelos escolares que se tornaram hegemônicos nas cinco primeiras décadas republicanas. O primeiro é o do modelo escolar paulista (mais regional) que foi vigente entre 1890 a 1920, baseado na imitação de “boas” práticas de ensino a serem seguidas a partir de métodos intuitivos que deveriam levar em consideração o tempo de aprendizagem das crianças, de um currículo seriado/linear para a execução desses objetivos e na visibilidade de suas construções escolares marcadas pela grandiosidade de seus prédios em estilo neoclássico localizados em partes centrais das cidades do interior ou da capital para os filhos das elites republicanas paulistas. Era uma “arte de ensinar” (IDEM) ancorada no tempo e na duração do ensino. O segundo é a pedagogia da Escola Nova (internacionalizada) que foi vigente entre 1925 e perdurou até o final dos anos 1970, baseada nas modernas disciplinas científicas da Educação (Psicologia, Filosofia e Sociologia) que sustentariam as práticas pedagógicas em sala de aula com métodos ativos de ensino para o desenvolvimento do aprendizado das crianças e um currículo que garantisse tal processo de ensino. Além disso, as construções dos prédios escolares deveriam seguir os preceitos da arquitetura moderna não somente preocupadas com a funcionalidade dos espaços, mas, sobretudo, com as propostas pedagógicas científicas que favorecessem a relação entre ensino e o aprendizado. Era uma “ciência do ensinar” (IDEM) ancorada na temporalidade e no processo de ensino. O modelo escolar paulistano (com pretensões nacionais) inaugurado pela Prefeitura de São Paulo a partir da década de 1960 baseava-se numa preocupação com a administração e a burocratização do ensino mais coesa e racional para que pudesse incluir o maior número possível de crianças pobres que nunca tiveram acesso à escola pública primária em locais periféricos da cidade. Os saberes pedagógicos eram emprestados de diversas matrizes. Percebe-se na documentação escolar e nos relatórios de gestão municipal tanto a permanência de métodos intuitivos provenientes da “arte de ensinar” do modelo escolar paulista como a de métodos ativos da pedagogia científica da Escola Nova, porém, destituídos do contexto político-pedagógico de sua elaboração e sem possibilidades claras de desenvolvimento nas práticas de sala de aula. Por isso, muitas práticas escolares ocultavam a debilidade do trabalho com as disciplinas escolares e suas especificidades formativas internas com a força das comemorações cívicas disciplinadas e socializadoras com o mundo externo, como veremos adiante. Tais saberes justificavam mais a existência da rede primária recém-criada do que resultavam em propostas de ensino-aprendizado efetivas. Favoreciam a mudança constante de currículos e programas (reformas) a serem executados de forma mais aberta e flexível para que não travassem os objetivos administrativos. Por sua vez, a arquitetura moderna, ainda vigente no período, deixava aos poucos de ser baseada nos saberes pedagógicos, como pudemos observar nas plantas e projetos das escolas, para justificar a funcionalidade e o controle do espaço educativo. Era uma “arte de administrar” (GODOY, 2013) ancorada na gestão e no controle do lugar de ensino. As lutas e demandas populares das periferias da cidade marcaram as propostas de criação de uma escola mais democrática e pluralista nos anos 1950 na cidade de São Paulo e deram um impulso para a continuação dos Convênios Escolares2 e, posteriormente, para criação do ensino municipal primário em 1956. Tais propostas, porém, foram cooptadas por sucessivos governos municipais do período cujas políticas populistas enfraqueceram as lutas democráticas, fortaleceram o assistencialismo e reformaram os ideais da pedagogia da Escola Nova em nome de uma formação para o mercado de trabalho subalternizado para as classes populares (SPOSITO, 2002). Era uma gestão administrativa “desconcentrada”, ou seja, ainda dependente dos órgãos de poder centrais (Estado e União), o que difere da proposta de municipalização que pressupõe a “descentralização” de poderes garantidos apenas na Constituição de 1988 e tornando-se realidade somente a partir da Lei de Diretrizes de Bases da Educação de 1996 (LATTOUF, 2001). Porém, as políticas populistas não explicam de todo as modificações históricas que se processaram na formação de um modelo escolar paulistano e que foi implantado na cidade a partir dos anos 1960. Neste período, observa-se a transição entre as sociedades disciplinares e as sociedades de controle (DELEUZE, 1990) e que atingiram várias sociedades metropolitanas do pós Segunda Guerra Mundial e, particularmente, o ensino municipal de São Paulo. Se as sociedades disciplinares foram marcadas por dispositivos de confinamento institucional e de discursos científicos que justificavam tais práticas de reclusão no início do século XIX até a primeira metade do século XX: É certo que entramos em sociedades de ‘controle’, que já não são exatamente disciplinares. Foucault é com freqüência considerado como o pensador das sociedades de disciplina, e de sua técnica principal, o confinamento (não só o hospital e a prisão, mas a escola, a fábrica, a caserna). Porém, de fato, ele é um dos primeiros a dizer que as sociedades disciplinares são aquilo que estamos deixando para trás, o que já não somos. Estamos entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea. (...) certamente, não se deixou de falar da prisão, da escola, do hospital: essas instituições estão em crise. Mas se estão em crise, é precisamente em combates de retaguarda. O que está sendo implantado, às cegas, são novos tipos de sanções, de educação, de tratamento. Os hospitais abertos, o atendimento a domicílio, etc., já surgiram há muito tempo. Pode-se prever que a educação será cada vez menos um meio fechado, distinto do meio profissional – um outro meio fechado – , mas que os dois desaparecerão em favor de uma terrível formação permanente, de um controle contínuo se exercendo sobre o operário-aluno ou o executivo-universitário. Tentam nos fazer acreditar numa reforma da escola, quando se trata de uma liquidação. Num regime de controle nunca se termina nada (IDEM, 1990: 215-216 [entrevista à Toni Negri]). Do ponto de vista social e educativo, a cidade de São Paulo não se enquadrava propriamente na proposição teórica de Deleuze para os anos 1960, pois aqui permaneciam dentro das escolas municipais práticas de confinamento, disciplina e ordenamento vigilante do tempo e espaço próprios da forma escolar (VICENT; THIN; LAHIRE, 2001) enquanto um modo hegemônico de socialização. Além disso, a maioria dos alunos dessas escolas pertencia às camadas pobres da população como pudemos atestar em vários livros de matrículas das escolas selecionadas cuja profissão dos pais sugeria terem tido pouco ou nenhum acesso anterior ao sistema público de ensino3. Isto é, ainda era um público que viria a ser transformado em “operário-aluno” e não como parte de um processo já em andamento como se verificava em países europeus com uma classe média já consolidada socialmente e que poderia se tornar um “executivo-universitário”. No entanto, a arquitetura das escolas selecionadas demonstra a existência do modelo escolar paulistano preocupado com o maior controle e gestão do lugar de ensino por meio das constantes vicissitudes administrativas e reformas curriculares que esvaziavam os propósitos pedagógicos das escolas construídas entre as décadas de 1950-60 e entre as décadas 1960-70. A arquitetura escolar dos anos 1950-60 seguia ainda os preceitos da arquitetura escolar moderna inaugurada nos anos 1930 no Brasil. As plantas baixas, aéreas e topográficas das escolas de alvenaria construídas entre as décadas de 1950-60 (Comandante Garcia D’Ávila, Marechal Eurico Gaspar Dutra, Tenente Aviador Frederico Gustavo dos Santos e General Othelo Franco) indicam um padrão semelhante com um bloco de recreação, bloco do ensino e bloco administrativo como áreas bem delimitadas para que cada espaço fosse utilizado de maneira funcional favorecendo a relação entre as atividades pedagógicas e de recreação, seguindo os preceitos da pedagogia da Escola Nova, e com notável separação das atividades de administração e gestão escolar. Todavia, a Prefeitura criou o “Ensino Complementar” em 1966. A despeito da data de criação oficial do “Ensino Complementar”, as construções escolares já estavam adaptadas para seu funcionamento e faziam parte da “arquitetura curricular” com as salas de aulas específicas e oficinas práticas, também denominadas de “Ensino Vocacional”, porém, a revista “Escola Municipal” tratou prontamente de institucionalizar em suas páginas mais um “rigoroso empreendimento” da rede: (...) através do Decreto n. 6403, de fevereiro de 1966, lançou-se a Prefeitura Municipal de S. Paulo à obra de montar e de pôr em funcionamento as classes do 5º e 6º anos, em suas escolas de ensino primário, com o fim de contribuir para a solução do problema do hiato nocivo [trabalho manual x trabalho intelectual] e possibilitar condições para que o menor se ocupe seu tempo de modo útil. As referidas classes não têm por fim habilitar o aluno para uma profissão, mas iniciá-lo no seu exercício, procurando eliminar o sentimento de aversão para certas profissões, sentimento este provocado pela aceitação, como reais, das chamadas castas profissionais. (...) Em suma, o Ensino Complementar, como é hoje designado, visa auxiliar os jovens para que se integrem harmoniosamente na sociedade através de uma Educação Integral, que procure desenvolver-lhes a personalidade em seu todo. Não se deve pensar que o trabalho feito nas Classes de Ensino Complementar tenha por único objetivo as habilidades manuais e se descuide das atividades intelectuais, mesmo porque, sendo o homem um ser total e indivisível, não poderia executar tarefa manual, por mínima que fosse, sem o concurso do intelecto. (ESCOLA MUNICIPAL, n.2, 1969: 23-24). A ideia de “Educação Integral” própria da Escola Nova foi apropriada/reformada em função da formação para o mercado de trabalho das classes pobres com a inserção de mais dois anos na escola primária de iniciação ao trabalho, embora a literatura acadêmica já tenha criticado o caráter inócuo dessas medidas ao enfatizar que tal integração não ocorreu e os trabalhos manuais (artesanais) pouco contribuía para inserção em uma sociedade que se industrializava. Além disso, os livros de termo de visitas de algumas escolas atestavam que nos anos 1970 o “Ensino Complementar” logo foi extinto para a implantação da escola de oito anos e as escolas tinham que dispensar os materiais utilizados e fazer novas adaptações em sua arquitetura escolar para o aproveitamento de salas de aula para outras turmas e turnos4. Por sua vez, nas plantas das escolas construídas entre as décadas de 1960-70, (Comandante Gastão Moutinho,General Euclydes de Oliveira Figueiredo,General Alcides Gonçalves Etchegoyen e General Álvaro da Silva Braga) com o fim da “Escola Complementar”, desaparecem do pavimento térreo qualquer espaço destinado às oficinas ou salas de aula específicas para o vocacional, no entanto, permanece o grande galpão coberto de recreação junto com o palco e a parte administrativa da escola (diretoria e secretaria). A sala dos professores, por sua vez, passa estar de frente com a da administração, o que parece ser um indício de que os novos profissionais do ensino de primeiro grau devessem ser controlados pela disposição da arquitetura e não apenas pela imposição do diretor. O galpão tornava-se área de recreação, de circulação e de administração. As salas de aula ficavam isoladas nos pavimentos superiores e sem conexão direta com os outros blocos de socialização escolar. Tal redução da mobilidade e das especificações dos espaços visava não apenas à economia, ao aumento do número de alunos, mas também uma simplificação das funções que permitissem maior controle e menor vigilância dos sujeitos escolares. A “Educação Integral” da Escola Nova sofre uma nova apropriação/reforma nos anos 1960-1970, mas para funcionar como uma “Escola Integrada de oito anos”. A arquitetura dessas escolas revelava que tal integração correspondeu ao apagamento artificial das fronteiras entre o ensino primário e o ensino ginasial e, fundamentalmente, diluiu as propostas de trabalho intelectual e trabalho manual a um currículo meramente formal, portanto, não é surpreendente que as salas do vocacional tenham desaparecido como também a funcionalidade pedagógica dos espaços e que se refletiria no modo como as disciplinas escolares perderiam sua especificidade disciplinar no currículo e suas finalidades educativas fossem transferidas às comemorações cívicas. O modelo escolar paulistano conseguiria com isto justificar e apagar seu caráter presentista/reformista cujo nome das escolas com patronos militares simbolizava essa encenação de funcionalidade, racionalidade e coesão administrativas integradoras e socializadoras do Município com a Nação. 3. A arquitetura encenada: o civismo cínico Tendo em vista o exposto, qual a relação entre as disciplinas escolares, na área de humanidades, e as comemorações cívicas no ensino municipal paulistano do período? Dois aspectos nos ajudam documentar esse movimento. O primeiro aspecto é a avaliação das dificuldades indicadas no relatório de gestão do ano de 1971 para a implantação da escola integrada de oito anos. Nesse relatório, os problemas identificados no sistema municipal foram agrupados em três ordens de fatores: 1) dificuldades do trabalho docente ligados aos alunos: indisciplina; falta de base anterior; falta de compreensão verbal e escrita; falta de concentração; classes muito heterogêneas; baixa freqüência às aulas; falta de hábito de estudo, desconhecimento de métodos e técnicas utilizadas; 2) dificuldades relacionadas à organização da escola: falta de material para o trabalho com os alunos; interrupção de aulas para avisos; acúmulo de documentação do trimestre; falta de alunos por não estarem uniformizados; 3) dificuldades ligadas à própria atuação docente: dificuldades com relação aos instrumentos para medir operações mentais e dificuldades de diversificar técnicas de aprendizagem. No documento supracitado a referência às classes heterogêneas revelava a diversidade de procedência do alunado na cidade que crescia e recebia pessoas de todos os estados da federação, como também do interior de São Paulo. Outro ponto dissonante é a falta de hábito de estudos, comuns nas 4ª, 5ª e 6ª séries que nos faz questionar sobre o ensino nas séries iniciais. A estrutura do sistema/rede municipal revelava ainda sua fragilidade com relação à falta de material para o trabalho com os alunos e a de uniformes que provocava ausência nas aulas. E, finalmente, as dificuldades com a prática pedagógica, revelavam a inconsistência na formação dos professores, e uma transmissão mecânica de conteúdos, pelas dificuldades do professor “em diversificar técnicas de aprendizagem”, sobretudo nas 5ª e 6ª séries. O segundo aspecto, no relatório de gestão de 1985, intitulado “Política Educacional a meio a travessia”, diagnosticava que a desatenção da escola para com seus problemas “tem servido para retardar o afloramento de ações que possam materializar o melhor das energias, da fantasia e do pensamento consciente da Juventude” (p. 88), e acrescentava que a “tutela” nas relações tinha sido uma das formas de manifestação do autoritarismo na escola. Passados mais de quinze anos, entre os dois relatórios de gestão, o de 1985 ainda registrava entraves para o pleno funcionamento do modelo escolar paulistano de ensino. As disciplinas escolares, bem como a estruturação do sistema municipal de ensino careciam da organização pretendida e transformavam o ensino em tutela de crianças e adolescentes. Nessa perspectiva, podemos entender o espaço privilegiado ocupado pelas comemorações cívicas no período, pois as finalidades educativas das disciplinas foram diluídas no currículo apesar da criação da disciplina de Educação Moral e Cívica em 1969 e com a implantação das escolas integradas de oito anos de 1969 a 1971 por meio do Instituto Municipal de Ensino e Pesquisa (IMEP), e que deu origem a primeira escola de ensino de primeiro grau do município “Celso Leite Ribeiro Filho”. No processo de elaboração do imaginário da república, a escola primária exerceu, para José Murilo de Carvalho, um papel fundamental, o de “formar almas” (1990), não só por transmitir uma cultura comum, mas como por difundir valores morais e cívicos, em várias instâncias na formação do imaginário social. O fato de a escola deter, naquela época, a credibilidade social, escolarizou práticas como, por exemplo, as festas cívicas (FARIA FILHO, 2005). As festas escolares permitiam a interação não apenas dos estudantes, mas de toda a comunidade a partir e de dentro da escola como centro formativo à vida pública. Cabe a indagação: qual a diferença entre o civismo e as práticas esportivas que ocorriam de forma paralela, mas integradas às disciplinas escolares, na primeira metade do período republicano das que foram verificadas no período da ditadura militar entre os anos 1964-1985? Marcus Aurélio Taborda de Oliveira comentou que: O esporte, pensam alguns, seria capaz de amainar os ânimos, arrefecer os impulsos contestatórios, canalizar a energia juvenil que pretendesse questionar a ordem vigente. Além disso, o esporte também seria uma escola de disciplina para o trabalho, pois teria a capacidade de energizar a nação para o crescimento econômico, o que também, não era novo no contexto brasileiro (2009, p.390). Mas a questão permanece: o que era novo neste contexto? A grande diferença que observamos no período de 1964-1985 no ensino municipal é o da socialização do local com o nacional, ou seja, da sociedade mais urbana e massificada da cidade de São Paulo com a diversidade populacional do país. Esse processo enfatizou os espetáculos cívicos, a formação das fanfarras, a criação dos centros cívicos e para o esmero com a preparação das semanas cívicas no calendário anual em detrimento da “socialização” que antes ocorria a partir e de dentro do espaço escolar articulado com as disciplinas escolares. Integrar, socializar e construir uma memória de pertencimento à nação para a rede municipal por meio de dispositivos de controle mais abertos e flexíveis cumpriam um duplo objetivo: manter a tradição das comemorações escolares, mas sem as amarras curriculares e disciplinares que travavam a administração do sistema e impediam seu crescimento e expansão. Nesse sentido, é ilustrativa a justificativa de criação do Departamento Social e Cívico da Secretaria Municipal de Educação: O Departamento Social e Cívico é um setor novo, que surgiu da necessidade da Escola contribuir para maior sociabilidade dos educandos no seu relacionamento entre si, com o pessoal administrativo, docente, funcionários e com a família. Isto será feito através de Campanhas Educativas, Excursões Culturais, Festas cívicas, sociais e recreativas, possibilitando aos educandos um maior conhecimento da comunidade em que vivem e na qual devem atuar. Todas as atividades do Departamento Social e Cívico são planejadas em conjunto com os demais setores visando à educação integral dos educandos (grifo nosso, 1971, p.119). A Programação do Departamento Social e Cívico de 1971 explicita, inclusive, a diversidade de campanhas educativas, festas cívicas e atividades sociais para dar conta da concretização de seus objetivos de socialização ao longo do ano letivo 5, transformando, mais uma vez, a ideia de “Educação Integral” em simulacro. Nessa mesma direção, destacamos também, o II Plano Setorial de Educação e Cultura (1975/1979), publicado pelo MEC, em 1976. Dentre os objetivos específicos com relação à Educação Física e Desportos, podemos citar: o incremento das atividades desportivas de massa, estendendo-as a indivíduos de todas as regiões e camadas sociais. E ainda, dentro das metas: aumentar e melhorar as instalações e equipamentos para os níveis de 1º e 2º graus. Na área de desportos de massa, contribuir para a motivação das práticas desportivas e recreativas nos centros sociais urbanos; estimular o desenvolvimento das práticas desportivas, recreativas e de utilização do lazer, com ênfase nas cidades com populações entre 5 e 20 mil habitantes. Desaparecia, portanto, qualquer justificativa pedagógica e disciplinar específica para as atividades cívicas e esportivas nos propósitos municipais e nacionais para dar ênfase à socialização entre as esferas de poder. Independente da especificidade de cada escola, os livros de visitas registram com certa regularidade a atuação dos centros cívicos e as comemorações cívicas, com destaque para o “31 de março” e “Semana da Pátria” 6, significando que o currículo deveria mais socializar o Município com a União do que buscar uma integração entre comemorações cívicas e disciplinas escolares. Aliás, a palavra “disciplina” era utilizada como sinônimo de “ordem” e “organização” escolar e não no sentido de “disciplinas escolares” com saberes específicos, métodos pedagógicos e finalidades educativas que definiram seu aparecimento na história da escolarização dos saberes (CHERVEL, 1990). Paralelamente, à valorização dessas atividades, a documentação escolar nos possibilita acompanhar o cotidiano dentro das escolas revelando os problemas da subalternização das questões pedagógicas em relação às festividades cívicas.7 A rede municipal de ensino, situada em bairros pobres e periféricos, oferecia verdadeiras aulas cívicas nacionais in loco, durante os ensaios de desfiles cívicos, sobretudo o do “7 de Setembro”. Era uma pré-estréia do espetáculo maior, alimentando na população local o orgulho paulistano de “conduzir” os destinos da nação “sem ser conduzido” moldando-os pela “disciplina” como socialização cívica, ou seja, sem uma formação disciplinar que de fato os inserisse no mercado de trabalho competitivo e intelectual. O novo, portanto, era essa amálgama de cidadãos-cívicos pobres que marchavam pelas ruas periféricas da cidade de São Paulo, sincopados ao som de suas fanfarras sob os olhares atentos e admirados da população do bairro. Era, de fato, um espetáculo de substituição do estudo disciplinar pela comemoração disciplinada.O que expressava sentimentos da comunidade local pela união nacional cujos objetivos eram reproduzidos na área de Estudos Sociais e, especialmente, da disciplina Educação Moral e Cívica. A partir de 1983, na fase de abertura democrática, o tema das discussões da SME é a democratização do acesso à escola e ao conteúdo escolar, a dimensão política da prática pedagógica, a democratização das relações no interior da escola e o papel das instituições auxiliares da escola: APM, Conselho de Classe e Centro Cívico Escolar, este último com o slogan “a voz e a vez do aluno”. O documento, já referido, intitulado “Em meio à travessia” de 1985, enfatiza que toda e qualquer democratização e melhoria da escola era tarefa coletiva, processo de natureza cotidiana, porém, o cotidiano escolar custava a se modificar. O documento indicava a permanência da desarticulação entre as disciplinas escolares e de suas finalidades educativas, mesmo àquelas que, supostamente, garantiriam tal “coesão” ao currículo como a de Educação Moral e Cívica (EMC) e de Organização Social e Política Brasileira (OSPB): A discordância de abordagens e apresentação dos programas existentes, a falta de orientação e de material para o professor, o tratamento superficial dos conteúdos de EMC para o nível I e a ausência dos mesmos, para 6ª e 8ª series, nos Guias curriculares, além da dificuldade que se encontra ao sistematizar o programa básico, fixado pelo Parecer 94/71, forma, dentre outros fatores, o objeto de uma analise reflexiva e de uma preocupação constante, dos quais resultou a organização do conteúdo programático de EMC e de OSPB, ora apresentada (p.34). Pretende o documento ser um “roteiro básico e geral” de conteúdo a ser cumprido. A EMC seria desenvolvida em todas as séries do nível I sob a forma de atividades (práticas educativas), em conjunto com os demais componentes de Integração Social e, sob a forma de disciplinas nas 6ª e 8ª séries. Nesta, OSPB deveria ser envolvida pelos valores que a EMC propunha. A programação de Estudos Sociais para o nível II foi modificada, sem que se procedesse à alteração da grade curricular em vigor. A sugestão foi que na 5ª série a carga horária semanal, de quatro horas/aula, fosse dividida entre as disciplinas de História e Geografia; na 6ª série, com carga horária semanal de duas horas/aula, poderia ser complementada com a carga horária reservada para Educação Moral e Cívica, prometendo, no currículo prescrito, que o conteúdo desse componente seria tratado durante o desenvolvimento dos conteúdos de História e Geografia, integrando-se a eles (1981-1985, p.15). Para minimizar os problemas decorrentes dessas mudanças, a partir de 1985, foi dada oportunidade a professores efetivos de Estudos Sociais para que completassem sua formação obtendo alguma dessas habilitações, História ou Geografia. Assim, as alterações da área de Estudos Sociais tiveram desdobramentos na carreira (COMUNICADOSUPEME/DEPLAN de 31/12/1985). dos docentes envolvidos. 4. Considerações finais: Contudo, podemos afirmar que as relações entre disciplinas escolares e comemorações cívicas gestaram e possibilitaram historicamente aquilo que Maurice Tardif designou para a nossa atualidade de “saberes-meio” 8, porém, os saberes escolares no período atendiam as premissas do setor público municipal e ainda não tinham se tornado “saberes consumíveis”, mas também já não eram saberes com finalidades educativas claras para cada disciplina e que na prática foram deslocadas para as festas e comemorações cívicas para atender o modelo escolar paulistano de gestão administrativa, próprio da transição entre sociedades disciplinares e de controle.Na falta de diretrizes mais consistentes, prevaleceu a memorização de conteúdos destituídos de finalidades educativas para um civismo cínico que repunha à falta de tais finalidades com uma suposta socialização integradora entre Município e a Nação. Era um contraste com a história da escolarização republicana que colocava a escola como centro irradiador da socialização por meio das disciplinas escolares e que, ao menos, justificavam a finalidade educativa de festas e comemorações cívicas para a vida em sociedade. 5. Referências: ABREU, Ivanir Reis Neves. Convênio escolar: utopia construída. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, 2007. BUFFA, Ester & PINTO, Gelson de Almeida. Arquitetura e educação: organização do espaço e propostas pedagógicas dos grupos escolares paulistas, 1893/1971. São Carlos: Brasília: EDUFSCAR, INEP, 2002. CALDEIRA, Mário Henrique de Castro. Arquitetura para educação: escolas públicas na cidade de São Paulo (1934-1962). Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, 2005. CARVALHO, José Murilo. A formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. CARVALHO, Marta Maria Chagas. “Pedagogia moderna, pedagogia da escola nova e modelo escolar paulista”. In: CARVALHO, Marta Maria Chagas de & PINTASSILGO, Joaquim (orgs.). Modelos culturais, saberes pedagógicos, instituições educacionais: Portugal e Brasil, Histórias Conectadas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp, 2011, pp. 185-212. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano 1: artes de fazer. 2ª edição. Petrópolis: Rio de Janeiro: Vozes, 1996. CHERVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. In: Teoria & educação, 2, Porto Alegre: Pannonica, 1990, pp.177-229. COMUNICADOSUPEME/DEPLAN de 31/12/1985. DELEUZE, Gilles. Conversações, 1972-1990. Rio de janeiro: Ed. 34, 1992. FARIA FILHO, Luciano Mendes de. Cultura escolar e cultura urbana: perspectivas de pesquisa em história da educação. 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VINCENT, Guy; LAHIRE, Bernard; THIN, Daniel. “Sobre a história e a teoria da forma escolar”. In: Educação em Revista, Belo Horizonte, n.33, 2001, pp.7-47. 6. Notas: 1 1. Escola Mista do Imirim = criação 30/08/1956. E. M. Comandante Garcia D’Ávila = renomeação01/04/1969; 2. Escolas Agrupadas de Vila Brasilina = criação: 16/11/1956. E. M. Marechal Eurico Gaspar Dutra = renomeação02/07/1974; 3. Escolas Reunidas de Vila Nova Cachoeirinha = criação 24/01/1963. E. M. Tenente Aviador Frederico Gustavo dos Santos = renomeação08/04/1969; 4. Escolas Agrupadas Cidade Mãe do Céu = criação: 11/11/1963. E. M. General Othelo Franco = renomeação07/04/1969; 5. Escola Alto do Mandaqui = criação: 19/05/1970. E. M. Comandante Gastão Moutinho = renomeação10/06/1970; 6. E. M. General Euclydes de Oliveira Figueiredo = criação: 11/11/1970; 7. Escola Municipal Arpoador = criação: 19/01/1971. E. M. General Alcides Gonçalves Etchegoyen = renomeação16/02/1971; 8. Escola Municipal da Vila Dalva = criação: 11/02/1971. E. M. General Álvaro da Silva Braga= renomeação 16/02/1971. 2 Foram celebrados três Convênios Escolares entre 1943-1959 entre Estado e Prefeitura de São Paulo com a finalidade de reduzir o déficit de crianças no ensino primário numa cidade que já contava com quase um milhão de habitantes. Nos Convênios a Prefeitura era a responsável pelas construções das escolas e o Estado por contratar e gerir o pessoal técnico, docente e administrativo. O primeiro Convênio Escolar foi de 1943-1948 na gestão do interventor Fernando da Costa e do prefeito nomeado Francisco Prestes Maia (no cargo desde 1938). Os resultados foram considerados “pífios” com apenas três novas escolas, algumas bibliotecas e parques infantis. Nas escolas construídas já existiam princípios da arquitetura escolar moderna, mas ainda não plenamente consolidados. O segundo Convênio Escolar foi de 1949-1954 e contou com a direção do engenheiro José Amadei do departamento de Obras Públicas e para a subcomissão de planejamento Hélio Queiroz Duarte, considerado um dos expoentes da arquitetura escolar moderna, inspirado pelas ideias do educador Anísio Teixeira, com que trabalhou na Bahia. O resultado do segundo Convênio Escolar foi à construção de 52 escolas de inspiração moderna tanto na arquitetura quanto nas ideias educacionais da Escola Nova. O terceiro Convênio Escolar foi de 1954 a 1959 e no dizer de Ivanir Reis Neves ABREU (2007, p. 75): “(...) Foi promulgado através da Lei Estadual n. 2.816, de 27 de novembro de 1954, e difere dos demais por carregar consigo, desde o ano de 1951, quando foram iniciadas as negociações para a renovação do 2º Convênio, a discussão sobre a municipalização do ensino em nossa cidade. Os recursos se avolumavam ano a ano, em decorrência do crescente aumento do recolhimento de impostos e pelo fato da Comissão executiva, pelos motivos já numerados, não gastar o dinheiro reservado, continuavam a chamar atenção dos políticos que viam aí a possibilidade de o município não só construir edifícios escolares, mas gerir toda a rede de ensino municipal. (...) O 3º Convênio Escolar foi extinto em 1959, longe de alcançar a qualidade que apresentou o 2º Convênio: enquanto o 2º Convênio construiu 52 escolas em 5 anos, o 3º Convênio construiu 17 escolas ao longo de, também, 5 anos de existência. (...).” 3 Foram encontrados os livros de matrículas do período nos arquivos das escolas General Alcides Gonçalves Etchegoyen, General Álvaro Silva Braga e Comandante Gastão Moutinho, no qual podem ser observadas as profissões mais comuns dos pais como: pedreiro e motorista; e para as mães: do lar, doméstica e prendas domésticas. Porém, várias profissões liberais foram encontradas como advogados e bancários, mas em menor número. Não pudemos fazer uma estatística dessas informações dado o caráter fragmentário dos dados encontrados, entretanto, é notório que grande parte dos alunos não possuía histórico de escolarização familiar. 4 É o que se pode ler no livro de termos de visitas da escola Comandante Garcia D’Ávilla registrado pela inspetora regional da educação Maria Aurélia B. Fernandes: “(....) Constatamos que no prédio do antigo Complementar funciona uma classe, isto é, uma sala, e portanto duas classes do ensino comum. Uma sala foi cedida ao Diretor do ginásio. O material do Ensino Complementar está guardado, relacionado, esperando a sua retirada. Deixamos também “Instruções para a manutenção e conservação dos prédios municipais” (LIVRO DE VISITAS OFICIAL DAS II ESCOLAS AGRUPADAS DO IMIRIM, 23/03/1972: s/p.). 5 A titulo de exemplo apresentamos a programação do primeiro semestre: Março: Campanhas Educativas: 2/15 Integração do aluno na escola; Campanha da Vacinação Sabin. Festas Cívicas: 31 - Revolução de 1964; Abril: Campanhas educativas: 1-13- Semana da boa aparência, conservação do solo; Festas cívicas: 1-13-Semana da Democracia e Liberdade, 14-Dia Pan-Americano, 18-Dia de Monteiro Lobato, 19- Dia do Índio, 21 – Tiradentes, 22 - Descobrimento do Brasil; Atividades Sociais: Páscoa - Estudo do Meio, Eleição de monitores; Maio: Campanhas Educativas- 3-10: Como evitar a gripe, 14-20: Semana do transito; Festas Cívicas: Semana do Trabalho e Dignidade. 1º - Dia do Trabalho, 13-Libertação dos Escravos, 23- Dia do Soldado Constitucionalista; Atividades Sociais: 10 - Dia das mães; Junho: Campanhas educativas: Semana do Livro, Campanha contra incêndio, 22-29-Dia do Pescador. Festas Cívicas: 9-Dia do Anchieta, 11-Batalha do Riachuelo, 11- Dia da Marinha; Atividades Sociais: 13 - Santo Antônio, 24 - São João, 29 - São Pedro; Atividades Sociais: Santo Antonio, São João e São Pedro (1971, p.120-123). 6 No Livro de visitas da E.M. Comandante Garcia D’ Ávila são registradas orientações para as festividades da Semana da Pátria (22/08/ e 04/09/1974). E, para o coquetel de encerramento do 20º aniversário do Ensino Municipal que seria no dia 05/11/1976, “a escola enviou representantes nas comemorações da Semana da Pátria e ao desfile cívico ‘arrancando do público aplausos pela conduta irrepreensível dos educandos. Os professores desenvolveram palestras sobre o grande feito da Independência e ao amor e respeito que deve existir pelos símbolos nacionais. Parabéns a todos pelo brilhantismo da Semana da Pátria” (06/09/1977). Livro da E.M.Tenente Aviador: O Centro Cívico “Estudantes Unidos”, da escola Tenente Aviador, teve o início de suas atividades em 13 de maio de 1972 e, como patrono, Alberto Santos Dumont. Constituiu um grupo de alunos que “representa a escola em todas as ocasiões e que auxilia os professores e demais funcionários a manter a ordem e a disciplina dentro do nosso estabelecimento”, afirma o jornal “O Tenente”, no nº 1 de sua publicação, em 15 de outubro de 1975, juntamente com a inauguração do retrato do Patrono da escola, Tenente Aviador Frederico Gustavo dos Santos. O centro cívico foi formado, inicialmente, por alunos das 3ª e 4ª séries, e posteriormente, a partir de 1976, por alunos das 3ª séries a 8ª séries. Funcionava sob a orientação do Srº diretor Prof.Carlos Valli Filho e da Professora Lucélia Bello Djrdjran. A primeira diretoria eleita do CCE, em 23/5/1972, tomou posse na cerimônia em Homenagem ao Dia do Soldado Constitucionalista. Esta tradição se firmou passando a posse da diretoria a ser marcada para o dia de Tiradentes e, finalmente, para o dia 13 de abril, aniversário de morte do patrono da escola. Havia um código de honra que os alunos pertencentes ao grêmio deveriam seguir: exemplo de conduta, disciplina e ordem. Eram encarregados da divulgação e participação de Campanhas, as mais diversas, e da organização e realização de Comemorações Cívicas, assim como de um jornal Mural fixado no pátio da escola para exposição das atividades desenvolvidas. 7 No livro de Ocorrências da E. M. Comandante Gastão Moutinho, embora criada em 1970, somente a partir de 1976 passa a registrar o tema das reuniões, antes só mencionando as datas das reuniões. Parece-nos um indicativo do significado atribuído às mesmas pelos responsáveis da escrituração. Na E. M. General Euclydes de Oliveira Figueiredo, seja na sua criação em 09/12/1970, como ao longo da década, inclusive nas comemorações dos 10 anos de existência, são exaustivos os elogios para com as celebrações. Encontramos, inclusive, plantas com o roteiro dos ensaios pelas ruas do bairro Butantã em diversos anos. No livro de visitas da E. M. Comandante Garcia D’Ávila, podemos ler comentários de trabalhos sobre Caxias, Descobrimento do Brasil, Abolição dos Escravos e Tiradentes, recomendando que fossem encaminhados à SME (27/04/1966). Ao mesmo tempo são registrados os resultados insatisfatórios nos exames, em maio de 1967, com instruções da diretora para aulas de recuperação, com a justificativa “que os alunos teriam vindo de outro bairro” (22/09/1967). Estes registros podem ser considerados possíveis indícios da diversidade de procedência social e cultural dos alunos, não havendo, entretanto, encaminhamento do problema pedagógico. Ao longo do ano de 1970 são mencionados os objetivos da renovação do ensino municipal. Mas os registros referem-se, apenas “a orientações da execução, organização e objetivos dos planejamentos de todos os graus da unidade escolar” (02/03/1970). Não há nenhuma menção à discussão pedagógica. Encontramos somente orientações pedagógicas especificas para os professores de 1º Grau com o tema: Disciplina na escola primaria (27/08/1970). Na reunião pedagógica de 26/10/1970, com suspensão das aulas são detalhados os assuntos tratados: festividades realizadas no mês de setembro, esclarecimentos sobre a comemoração do Dia da Criança com a seguinte sugestão: doação de uma escova de dente para cada aluno e prelação sobre a higiene bucal, realizada pelo dentista da unidade escolar para os professores repassarem aos seus alunos. A preocupação parece ser com a questão da mera socialização e não exatamente sua função educativa, pedagógica e disciplinar. Outra constante preocupação é para com as avaliações, mas enfatizando a elaboração e correção, segundo os objetivos da renovação do ensino municipal e não com os princípios que o embasam. Nos registros da década de 1970 percebe-se que as reuniões de orientação específica restringem-se às séries iniciais centradas nas questões da alfabetização e redação. Em 1980 são registradas as primeiras sínteses de avaliação do nível II, constatando alta retenção em Ciências e Estudos Sociais. A direção solicita o levantamento das causas para melhor atuação, sugerindo reunião semanal da equipe técnica para alcançar a integração das disciplinas. Percebe-se na mudança da década uma alteração no registro das práticas, mas não propriamente uma alteração das práticas de ensino e uma discussão disciplinar de suas finalidades educativas. 8 “A escolarização, enquanto estratégia global que possibilita o acesso a funções sociais cobiçadas, não seria mais suficiente. Surge então a necessidade de micro estratégias cujo desafio consistiria em determinar quais são os saberes socialmente pertinentes dentro os saberes escolares. Tal situação poderia conduzir (se isso já não ocorreu) ao desenvolvimento de uma lógica de consumo dos saberes escolares. A instituição escolar deixaria de ser um lugar de formação para tornar-se um mercado onde seriam oferecidos, aos consumidores (alunos e pais, adultos em processo de reciclagem, educação permanente), saberes instrumentos, saberes meios, um capital de informações mais ou menos úteis para o seu futuro” posicionamento” no mercado de trabalho e sua adaptação à vida social. As clientelas escolares se transformariam em clientes.A definição e a seleção dos saberes escolares dependeriam então das pressões dos consumidores e da evolução mais ou menos tortuosa do mercados dos saberes sociais.A função dos professores não consistiria mais em formar indivíduos, mas em equipá-los tendo em vista a concorrência implacável que rege o mercado de trabalho.Ao invés de formadores ,eles seriam muito mais informadores ou transmissores de informações potencialmente utilizáveis pelos clientes escolares”. (TARDIF, 2002 p.48-49).