FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A ESTRATÉGIA GERAL DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA FEDERAL SOB A ÓTICA DE SEUS GESTORES DISSERTAÇÃO APRESENTADA À ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE DANIELE MICHEL SOARES NEVES Rio de Janeiro - 2011 3 Ficha cataIogrifica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique SimonsenIFGV Neves, Daniele Michel Soares A estratégia geral de tecnologia da informação da administração pública federal sob a ótica de seus gestores I Daniele Michel Soares Neves. - 2011. 97 f. Dissertação (mestrado) -. Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas, Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa. Orientadora: Fátima Bayma de Oliveira. Inclui bibliografia. 1. Tecnologia da informação. 2. Administração pública. 3. Desenvolvimento organizacional. 1 Oliveira, Fátima Bayma de. fi. Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas. Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa. In. Título. CDD-353 FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS CENTRO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PESQUISA CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO A ESTRATÉGIA GERAL DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA FEDERAL SOB A ÓTICA DE SEUS GESTORES APRESENTADA POR: DANIELE MICHEL SOARES NEVES E APROVADO EM: PELA BANCA EXAMINADORA Fátima Bayma e Ohvelra Doutora em Educação zk~lhO Doutor em Administração ~alderez F/rfcira Fraga Doutora em Educação Anto?oMoreira de Carvalho Neto Doutor em Administração Meredith A. Newman Ph.D., Policy Studies 4 Esta dissertação é dedicada ao meu amado filho, luz da minha vida, que desde seu nascimento tem me tornado um ser humano melhor. 5 AGRADECIMENTOS Ao meu querido marido Takeshi, pela compreensão de minhas ausências e pelo apolO incondicional nos momentos mais difíceis. Aos meus paIs, João Luiz e Mariana, por proporcIOnarem os exemplos de coragem e perseverança que me acompanham diariamente. À minha orientadora, Prof. Ora. Fátima Bayma de Oliveira, pela paciência, amizade, encorajamento e pelos profundos conhecimentos transmitidos. Aos meus colegas de mestrado, em especial Raposo e Abner, pelos conselhos e incentivos. Aos entrevistados, pela disponibilização de seu tempo e sinceridade de suas respostas. Aos prezados Jorge Jardineiro e Jorge Toledo, por proporcionarem as condições materiais para que este mestrado fosse cursado. À Nádia Pinto, por sua amizade e por me fazer crer que existe vida acadêmica após a maternidade. 6 RESUMO o estudo tem por escopo analisar a percepção dos gestores públicos sobre a estratégia geral de tecnologia da informação (TI) formulada pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG) para a Administração Pública Federal, e que mudanças foram por esta determinada na estrutura das organizações públicas. A investigação compreendeu a análise de dados qualitativos, mediante a realização de entrevistas junto aos gestores públicos que atuam em órgãos setoriais na implantação direta das ações de TI. O foco principal foi a avaliação do aprimoramento quali-quantitativo dos recursos humanos na área de TI, considerando uma gestão democrática, participativa, transparente e ética, com base em processos de discussão e na promoção da cidadania. Constatou-se que, mesmo após mais de 02 (dois) anos de sua criação, a estratégia geral de TI foi insuficiente em promover um modelo de descentralização, com delegação de poderes, atribuições e responsabilidades para os escalões inferiores, não tendo sido possível perceber qualquer flexibilização organizacional orientada pelo comprometimento da gestão pública com processos democráticos vinculados ao interesse social. Palavras-chave: TI, controle, poder, flexibilidade organizacional. 7 ABSTRACT The scope of this study is to analyze the perception of public administrators on the general IT strategy formulated by the Ministry of Planning, Budget and Management (MPOG) for the Federal Public Administration, and what changes were determined in the structure of public organizations. The investigation included analysis of qualitative data by conducting interviews with the managers who work in public sector agencies in directly implementing the actions of IT. The main focus was the evaluation of qualitative and quantitative improvement of human resources in IT, while at the same time being democratic, participatory, transparent and ethical in manner, based on processes of discussion and promotion of citizenship. It was found that even after more than two years of its establishment, the general IT strategy was insufficient to promote a model of decentralization, delegation of powers, duties and responsibilities to lower leveis, and it was not possible to see any organizational flexibility by the involvement of public management to democratic processes linked to social interests. Keywords: IT, control, power, organizational flexibility. 8 SUMÁRIO 1. O PROBLEMA 1. 1 Introdução.. .. .... .. .. .... .. . .. .. .... .. .......... .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .... .. .. .. .. ................................. 10 1.2 Objetivos .............................................................................................................. 12 1.2.1 Objetivo Geral .......................................................................................... 12 1.2.2 Objetivos Específicos ............................................................................... 12 1.3 Suposições ........................................................................................................... 13 1.4 Delimitação do Estudo........................................................................................ 13 1.5 Relevância do Estudo.......................................................................................... 15 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 O Papel da Tecnologia nas Organizações .......................................................... 17 2.1.1 A Terceira Revolução Industrial .............................................................. 18 2.1.2 Poder, Controle e Autoridade .................................................................. 21 2.2 Recursos Humanos ............................................................................................ 26 2.2.1 Administração Pública Brasileira ............................................................ 26 2.2.2 Aspectos Relevantes da Estratégia Geral de TI ....................................... 31 2.2.3 Flexibilização Organizacional ................................................................. 34 2.2.4 Alienação ................................................................................................. 37 3. METODOLOGIA 3.1 O Método ............................................................................................................. 40 3.2 Tipo de Pesquisa .................................................................................................. 41 3.3 Seleção dos Sujeitos ............................................................................................. 42 3.4 Coleta de Dados ................................................................................................... 43 3.5 Tratamento dos Dados ......................................................................................... 45 3.6 Limitações do Método ......................................................................................... 47 4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS 4.1 Instituição A .......................................................................................................... 49 4.1.1 Qualificação da Instituição .......................................................................... 49 4.1.2 Qualificação dos Sujeitos ............................................................................ 50 4.1.3 Participação ................................................................................................. 51 4.1.4 Poder, Controle e Autoridade ..................................................................... 55 9 4.1.5 Impacto na Gestão Pública ...................................................... .................... 61 4.2 Instituição B .......................................................................................................... 66 4.2.1 Qualificação da Instituição .......................................................................... 66 4.2.2 Qualificação dos Sujeitos ............................................................................ 67 4.2.3 Participação ........................................................................ ......................... 67 4.2.4 Poder, Controle e Autoridade ..................................................................... 73 4.2.5 Impacto na Gestão Pública .......................................................................... 78 5. CONCLUSÕES E SUGESTÕES ........................................................................... 82 6. REFERÊNCIAS ............................................................................... ........................ 89 APÊNDICE I (Roteiro das Entrevistas) ...................................................... .............. 95 10 1. O PROBLEMA 1.1 Introdução Para Garcez (2009), os últimos 10 anos foram marcados pelas contradições entre os avanços da tecnologia da informação (TI) e os desperdícios relacionados às suas vantagens. Estudar tais aspectos é essencial para melhorar o desempenho de qualquer tipo de organização na conquista dos seus objetivos de negócio. Cumpre ressaltar que, somente após a constatação de inúmeras impropriedades pelo Tribunal de Contas da União (TCU), e por recomendação expressa deste, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG) publicou a Portaria n° 11, de 30 de dezembro de 2008, aprovando a estratégia geral de TI (EGTI) para a Administração Pública Federal. O MPOG foi considerado órgão central do Sistema de Administração dos Recursos de Informação e Informática (SISP), atuando por meio de sua Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação (SL TI). As Unidades de Modernização e Informática dos diversos Ministérios, e equivalentes nas Secretarias da Presidência da República, atuam como órgãos setoriais do SISP na implantação direta das ações, colaborando com a coordenação e desenvolvimento das políticas, normas e diretrizes do sistema. A discussão sobre processos, métodos e aplicações da TI nas organizações privadas tem sido objeto de diversos estudos no campo da administração. É reconhecido seu papel na neutralização de ameaças, aproveitamento de oportunidades, eficiência da gestão e viabilização de projetos que agregam valor ao negócio. Contudo, o pensar estratégico da TI nas organizações públicas ainda não alcançou o grau de maturidade do setor privado. As políticas, procedimentos, práticas e estruturas organizacionais desenhadas para garantir o efetivo alinhamento da TI na Administração Pública Federal não devem se restringir ao atingimento de melhor desempenho, mas também a prevenção, detecção e correção de práticas lesivas ao patrimônio público e a moralidade administrativa. Neste sentido, as deficiências relacionadas aos processos de TI têm sido objeto de diversos pronunciamentos de órgãos de controle interno e externo da Administração Pública ao longo dos anos, com a identificação de consideráveis falhas praticadas no âmbito da Administração Pública Federal. 11 A relevância do tema foi reconhecida pelo Tribunal de Contas da União em 2006, com a criação da Secretaria de Fiscalização de TI - SEFTI. Esta Secretaria tem por atuação o controle externo da governança de TI, visando assegurar maior eficiência da TI na Administração Pública em beneficio da sociedade. Segundo o TCU (2008), foram identificados problemas de governança de TI na Administração Pública Federal nas seguintes áreas: planejamento estratégico institucional e de TI; estrutura de pessoal de TI; segurança da informação; desenvolvimento de sistemas de informação; gestão de acordos de níveis de serviço; processo de contratação de bens e serviços de TI; processo de gestão de contratos de TI; processo orçamentário de TI e auditoria de TI. Como elemento principal dessa estratégia, é desenhado um novo modelo de gestão pública, alinhado às diretrizes da flexibilidade organizacional, da cidadania e a princípios, substituindo o modelo burocrático que caracteriza as organizações públicas. Diante do ineditismo do tema e da inexistência de pesquisa ou literatura abordando qualquer aspecto sobre a transformação qualitativa e quantitativa dos recursos humanos citada na estratégia geral de TI, torna-se imprescindível averiguar a perspectiva dos gestores responsáveis pela sua implementação, visando a melhor e mais adequada compreensão do fenômeno, já que os estudo mais recentes compreendem apenas o eixo de contratação de bens e serviços de TI. Portanto, a pesquisa pretende responder a seguinte questão: "Qual é a percepção dos gestores públicos sobre a estratégia geral de TI formulada pelo MPOG para a Administração Pública Federal e que mudanças foram por esta determinada na estrutura das organizações públicas? 12 1.2 Objetivos 1.2.1 Objetivo Geral o objetivo geral desta pesquisa é investigar a percepção dos gestores públicos sobre a estratégia geral de TI formulada pelo governo para a Administração Pública Federal e verificar as mudanças ocorridas na estrutura das organizações públicas, considerando as perspectivas teóricas existentes sobre poder, controle e autoridade orientadas para a promoção da cidadania, em um modelo de flexibilidade organizacional. 1.2.2 Objetivos Específicos Como objetivos específicos foram definidas as seguintes questões de estudo: a) discutir, na percepção dos gestores, qual o papel e o que se espera da tecnologia da informação nas organizações públicas e privadas, bem como as relações de poder, autoridade e controle dela decorrentes; b) analisar as políticas, procedimentos, práticas e estruturas organizacionais ligadas à gestão tradicional da estratégia de TI da Administração Pública Federal; c) avaliar a participação, envolvimento e integração dos servidores de TI no processo de escolha, julgamento e decisão, determinados pela Portaria nO 11, de 30 de dezembro de 2008; d) mapear as competências exigidas dos gestores públicos para o desempenho de funções na área de TI da Administração Pública Federal, bem como a existência de quantitativo suficiente para gerir os processos sob sua responsabilidade; e) discorrer sobre o papel dos gestores na eficiência/excelência dos serviços públicos; e f) refletir sobre avanços, sucessos, fracassos e limitações da estratégia geral de TI proposta pelo MPOG, sob a ótica da flexibilidade organizacional. 13 1.3 Suposições o presente estudo tem por objeto a análise de dados qualitativos, mediante a realização de entrevistas junto aos gestores públicos que atuam como órgãos setoriais da Administração Pública Federal na implantação direta das ações de TI, colaborando com a coordenação e desenvolvimento das políticas, normas e diretrizes do sistema. Inicialmente, tendo em vista que a EGTI foi desenvolvida com o objetivo de estabelecer as bases para a transição entre a situação atual de gestão dos ambientes de informática do Executivo Federal - heterogênea e em geral vulnerável - para um o modelo de Govemança, com critérios para alocação de recursos e definição de prioridades, uma das possíveis suposições seria a de que a EGTI teria sido recebida positivamente pelos gestores públicos responsáveis pela sua execução, com a elevação do grau de maturidade e eficiência nos processos relacionados à TI. Contudo, como os únicos estudos existentes apontam exclusivamente para os resultados positivos da EGTI no processo de contratação de bens e serviços de TI, em especial a economia de recursos públicos com o uso do pregão eletrônico nessas contratações, não seria pertinente propor tal suposição. De acordo com Lakatos e Marconi (1982) a hipótese seria uma proposição inicial, que se faz na tentativa de verificar a validade de resposta existente para um problema. Contudo, ante o caráter exploratório da presente pesquisa, não foi possível a formulação de qualquer hipótese ou suposição sobre o tema, ante a impossibilidade de atrelar tal suposição à algum referencial teórico. 1.4 Delimitação do Estudo Alinhado as orientações do TCU, a EGTI determinou expressamente o monitoramento dos seguintes grupos de práticas relacionados ao aperfeiçoamento da gestão de TI: a) Alinhamento com o planejamento institucional do órgão; b) Aprimoramento qual i-quantitativo dos Recursos Humanos; c) Melhoria do Processo de Contratação de TI; 14 d) Construção e Adoção de Padrões e Modelos de Apoio à Gestão e à Tecnologia; e e) Segurança da Informação. Lakatos e Marconi (1982) apontam que delimitar a pesquisa é estabelecer limites para a investigação em relação ao assunto, extensão e fatores. Ante a complexidade de cada um dos grupos de práticas acima listados, esta pesquisa é limitada ao estudo dos aspectos envolvendo apenas o aprimoramento qual i-quantitativo dos recursos humanos na área de TI, em quantidade suficiente, capacitado para acompanhar e gerir seus processos de trabalho. Estes recursos humanos englobam ocupantes de cargos gerenciais e servidores efetivos em exercício direto na área de TI, excluindo-se, portanto, empregados terceirizados e estagiários, ainda que executem atividades em TI, além do restante do quadro de pessoal de cada órgão, considerados usuários para fins desta pesquisa. Tendo em vista que o modelo de estratégia geral de TI proposto pelo MPOG não se aplica aos Estados, Distrito Federal (DF) e Municípios, estes entes também foram excluídos do escopo da pesquisa. Também, em razão de natureza jurídica diferenciada dos demais entes da Administração Pública Federal, serão excluídas de análise as empresas públicas e sociedades de economia mista. Não foram incluídos no estudo pesquisa de satisfação ou análise da EGTI pelos usuários externos dos serviços das instituições consultadas eis que a pesquisa limita-se ao aprimoramento qual i-quantitativo dos recursos humanos de TI, em quantidade suficiente, capacitado para acompanhar e gerir os processos de contratação, um dos eixos da EGTI. Face a abordagem qualitativa da pesquisa, com a realização de entrevistas junto aos gestores de TI da Administração Pública Federal, tomou-se inviável sua realização em outros Estados da Federação além do Rio de Janeiro, ante as limitações econômicas para despesas com passagens e hospedagem. Portanto, a amostra da pesquisa compreendeu órgãos sediados ou com representação no Estado do Rio de Janeiro, desde que a estrutura organizacional responsável pela gestão dos processos de TI também estivesse situada nesta área territorial. Por fim, a compreensão e análise da estratégia proposta pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão foram realizadas considerando as perspectivas de poder, 15 controle e autoridade orientadas para a promoção da cidadania, em um modelo de flexibilidade organizacional, razão pela qual não se encontram descritos no referencial teórico proposto literatura específica sobre modelos de estratégias aplicadas à TI. 1.5 Relevância deste Estudo Diante da edição da Portaria n° 11, de 30 de dezembro de 2008, ainda não existem estudos consolidados na literatura nacional visando a compreensão do modelo de estratégia geral de TI na Administração Pública Federal, relacionado diretamente com a prestação de serviços públicos de cada um de seus órgãos. o comprometimento da Administração Pública com a melhoria da qualidade dos serviços prestados aos cidadãos e o aumento da competitividade do país foi estipulado pelo Decreto nO 5.378, de 23 de fevereiro de 2005, que instituiu o Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização - GESPÚBLICA, propondo, dentre outras providências, à aplicação de instrumentos e abordagens gerenciais, que objetivem: a) eliminação do déficit institucional, visando o integral atendimento das competências constitucionais do Poder Executivo Federal; b) promoção da governança, aumentando a capacidade de formulação, implementação e avaliação das políticas públicas; c) promoção da eficiência, por meio de melhor aproveitamento dos recursos, relativamente aos resultados da ação pública; d) assegurar a eficácia e efetividade da ação governamental, promovendo a adequação entre meios, ações, impactos e resultados; e e) promover a gestão democrática, participativa, transparente e ética. Não se pode perder de vista, ainda, a edição do Decreto n° 6.932/2009, tendo por escopo a fixação de diretrizes nas relações entre os órgãos e entidades do Poder Executivo Federal e o cidadão, consubstanciado, dentre outros aspectos, na melhoria de serviços públicos, redução da burocracia, modernização e melhora da gestão pública, melhor desempenho, eficiência, efetividade e controle na qualidade dos gastos, além do trabalho, de forma coordenada, no âmbito dos governos. Neste contexto, é reconhecida a TI como ferramenta indispensável em qualquer organização, que dela cada vez se toma mais dependente, seja na melhoria de desempenho e alocação de recursos, quanto na qualidade e continuidade dos serviços prestados pelas 16 instituições públicas e privadas. A TI deve ser considerada como um ativo, um bem patrimonial, com custos significativos de implantação, operação e manutenção. Em relação aos custos, os gastos com TI realizados pelo Governo Federal vêm crescendo consideravelmente nos últimos anos. De acordo com o TCU (2006): "Embora não seja fácil precisar qual o montante desses valores, levantamentos no Sistema Integrado de Administração e Finanças SIAFI realizados no ano de 2005 indicam que, em 2000, o gasto na sub-função' 126 - Tecnologia da Informação' foi de 2,675 bilhões de reais. Esse valor subiu para 3,75 bilhões em 2004, apresentando um incremento de 40% em cinco anos. Deve-se salientar, ainda, que nesses valores não estão incluídos os gastos das entidades que não integram o orçamento fiscal e da seguridade social, tais como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás, Correios e outros, que consomem grande parte dos seus recursos na aquisição desses bens e serviços." Portanto, em razão da considerável quantia de recursos públicos envolvidos e seu papel na melhoria do desempenho e qualidade dos serviços prestados pela Administração Púbica Federal, torna-se relevante estudar avanços, sucessos, fracassos e limitações da estratégia geral de TI proposta pelo MPOG sob a ótica daqueles que a executam, seus gestores. 17 2 REFERENCIAL TEÓRICO Neste capítulo, são realizadas considerações sobre o papel da tecnologia na sociedade pós-industrial, com enfoque em sua natureza e nas relações de poder, controle, legitimação e alienação que dela são decorrentes. o aprimoramento quali-quantitativo dos recursos humanos terá como eixo principal seu papel na gestão democrática, participativa, transparente e ética proposta pelo Decreto nO 5.378, de 23 de fevereiro de 2005, que instituiu o Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização - GESPÚBUCA e, na promoção da cidadania, exigência contida tanto na Constituição Federal quanto na Portaria n° 11, de 30 de dezembro de 2008, que institui a estratégia geral de TI a ser adotada no âmbito da Administração Pública Federal. Também será realizada análise sobre a estrutura, gestão e qualidade dos gastos da Administração Pública Federal. 2.1 O Papel da Tecnologia nas Organizações Etzioni (1972, p.8) aponta que as sociedades modernas são marcadas por atribuir "um elevado valor moral ao racionalismo, à eficiência e à competência". O racionalismo das organizações produz um preço social e humano, na medida em que a maioria dos trabalhadores se sente frustrado e alienado em suas atividades laborativas. As teorias clássicas no campo da administração analisam as organizações sob os seguintes aspectos: trabalhadores motivados por recompensas econômicas, divisão de trabalho claramente definida, especialização da mão-de-obra e pronunciada hierarquização. Tragtenberg (1977, p. 21) considera que a transição entre o capitalismo monopolista e o capitalismo industrial propiciou o surgimento e a emergência da burocracia como um poder funcional e político, utilizando os vários modelos da Teoria Geral da Administração. o processo de desenvolvimento industrial foi o responsável pela criação das condições necessárias ao surgimento da administração científica, ante a grande divisão do trabalho entre os que pensam e os que executam. O taylorismo, portanto, é oriundo de um 18 esquema empírico, onde o conhecimento "surge de evidência sensível e não da abstração". Seu foco principal é no planejamento e desempenho, onde a qualificação e a especialização do operário teriam um valor secundário, ante a alta divisão do trabalho e a constante troca de indivíduos. A substituição da energia a vapor pela eletricidade, e a industrialização extensiva inerente ao esquema de Taylor, resultaram na proliferação do trabalho desqualificado, coexistindo com uma "estrutura administrativa monocrática, alienante, onde a principal virtude é a obediência a ordens" (TRAGTENBERG, 1997, p.194). Etzioni (I972) aponta que a administração científica, iniciada por Taylor, engloba um estudo das capacidades fisicas do homem e sua interação com as características da máquina, gerando maior produtividade dentro do fisicamente possível, divisão do trabalho equilibrada por unidade de controle, necessidade de supervisão e um único centro de autoridade e controle nas organizações. Estas características também foram adotadas por Henry Ford na introdução de um modelo de produção em massa fundamentado em uma linha de montagem. Contudo, segundo Albuquerque (1999, p. 219), a crítica ao modelo taylorista é amparada em suas contradições, onde "a estrutura rígida, excessivamente especializada e com funções rotineiras e pouco desafiantes" não seria compatível com um ambiente em constante mutação, concorrentes eficientes e agressivos, rápida evolução tecnológica e transformações sociais, dentre outros. Após a segunda guerra mundial, a introdução de novas tecnologias no processo produtivo determina significativa substituição da mão de obra humana por máquinas e computadores. Essa terceira revolução industrial impõe o surgimento de um novo modelo, flexível, baseado na inovação, criatividade, produtividade e qualidade dos produtos e serviços, humanização da empresa e aumento da qualidade de vida no trabalho. 2.1.1 A Terceira Revolução Industrial Com a crise do padrão de acumulação capitalista firmado no binômio taylorismofordismo a partir da década de 70 e a introdução de novas tecnologias, houve a sua substituição por formas produtivas flexibilizadas e desregulamentadas. Para enfrentar novos 19 desafios e garantir sua sobrevivência, as empresas passaram a investir em modernas tecnologias e adotaram concepções organizacionais com ênfase na formação e na gestão de recursos humanos, com o objetivo de atender aos requisitos do processo de trabalho (MELLO e AMÂNCIO FILHO, 2010). Nas organizações, práticas como o downsizing e produção enxuta geram um melhor desempenho em um mundo de capital globalizado e, consequentemente, maior lucro. Contudo, muitos conflitos estão sendo atualmente deflagrados em razão da redução dos beneficios originários do Estado de bem-estar social, que não consegue absorver o impacto da redução no número de postos de trabalho. De acordo com Tenório (2007), como caracteristicas da sociedade pós-industrial devem ser citadas a descentralização das decisões e diversificação dos processos de trabalhos gerados pela TI nas organizações. Nesta mesma linha, Castells (2001) sustenta que a tecnologia e as relações de técnicas de produção difundem-se por todo o conjunto de relações e estruturas sociais, penetrando no poder e na experiência, modificando-os. As novas tecnologias estão integrando o mundo em redes globais de instrumentalidade. Isto por que a sociedade pós-industrial iniciada com a TI sena, na verdade, uma sociedade irracional, destruidora do livre desenvolvimento das necessidades humanas, cujos valores estão diretamente relacionados à eficiência. Como características principais, Marcuse (1967) aponta a perda da autonomia; supressão da individualidade na mecanização de desempenhos socialmente necessários, mais penosos; concentração de empreendimentos industriais em organizações mais eficazes e produtivas; regulamentação da livre competição entre sujeitos econômicos desigualmente equipados; redução de prerrogativas e soberanias nacionais, impedindo a organização internacional dos recursos; racionalidade tecnológica e criação de falsas necessidades (comportamentos, consumo, amor e ódio, gerando indivíduos doutrinados e manipulados). O pensamento unidimensional desta sociedade pós-industrial faz com que os indivíduos se reconheçam como mercadorias e induz a alienação, quando há a identificação 20 do indivíduo com a realidade que lhe é imposta e têm nela seu próprio desenvolvimento e satisfação. O padrão de comportamento, segundo Marcuse (1967) é o bom estilo de vida. A identificação do que Marcuse (1967, p.92) considerou como "consciência feliz", ou seja, conformismo, caráter contraditório e racionalidades na gestão de TI, são incompatíveis com os princípios constitucionais aplicáveis à Administração Pública, em especial, o da moralidade, e a promoção da cidadania, também prevista na Constituição Federal: "O poder sobre o homem, adquirido por esta sociedade, é diariamente absorvido por sua eficácia e produtividade. Se ela assimila tudo o que toca, se absorve a oposição, se brinca com a contradição, demonstra sua superioridade cultural. E, do mesmo modo, a destruição de recursos e a proliferação do desperdício demonstram sua opulência e o "alto nível de bem-estar". O prImeIro passo para ruptura das racionalidades da sociedade pós-industrial é a conscientização de sua filosofia unidimensional. Isto encontra estreita relação com a privação de poder, processo em que os indivíduos alienados se encontram excluídos, privados dos meios de decisão e, assim, não podem determinar o curso dos acontecimentos conforme desejam (MARCUSE, 1967). Prestes Motta (apud Thompson, 2001, p. 86) di scorre que toda a tecnologia que possibilitou a construção da sociedade industrial estaria a serviço de uma forma de dominação econômica e política, mesmo que alguns sustentem a existência de "uma nova fase do capitalismo, com amenização do controle, flexibilidade estrutural, cultura organizacional da tolerância, liberdade no trato da incerteza e a segurança psicológica". Na verdade, ela seria menos igualitária do que nunca, pois a tecnologia proporciona uma maior concentração de poder. Portanto, deve-se considerar que tecnologia relaciona-se à racionalização da não liberdade do homem, demonstrando a impossibilidade "técnica" de a criatura ser autônoma, de determinar a sua própria vida. A transformação quali-quantitativa dos recursos humanos, nos termos propostos pela estratégia geral de TI da Administração Pública Federal somente será possível com a criação de um novo sujeito histórico nas instituições, autônomo e instruído, complementando a racionalidade tecnológica. 21 2.1.2 Poder, Controle e Autoridade o senso comum já estabeleceu a ligação entre tecnologia e estrutura das organizações, sobre a definição de organizações como construções sociais, com o objetivo de transformar matéria prima em um produto final, através de atividades coordenadas e planejadas, estas moldadas pela natureza da tecnologia que a organização emprega (CLEGG; DUNKERLEY, 1980). Contudo a definição da tecnologia não se restringe a esta visão tradicional, também envolve discussões sobre sua natureza, seja como ferramenta, conhecimento, artefato ou controle. Clegg e Dunkeriey (1980) sustentam que a racionalidade tecnológica determina os limites do trabalho da organização, sendo significativa, quando avaliada em conjunto com outras variáveis na estrutura das organizações, em especial com o controle e a incerteza. A escolha por determinada tecnologia não está adstrita ao aumento da eficiência organizacional, mas também ao controle sobre o indivíduo e o produto de seu trabalho. O aumento da eficiência estaria relacionado à introdução de um maior número de tarefas de trabalho fragmentadas, negando ao indivíduo qualquer processo de escolha, julgamento e decisão. A ordem deve ser mantida; estamos acostumados a assumir que a tecnologia é boa, eis que ligada à noção de progresso, maior eficiência e desempenho. Mas isso é importante? De que forma ela afeta as organizações') Ela não é neutra, serve ao capital, sendo um elemento político de controle sobre outros. Prestes Motta (2001, p.42) aponta que existem diversas perspectivas de análise sobre o fenômeno do poder: "a) na perspectiva marxista, como um fenômeno de alienação econômica; b) em um nível psicanalítico, como um fenômeno psicológico de alienação, dependência, projeção e introjeção, formação de sistemas de defesa e outros; c) como um fenômeno político, de imposição e controle sobre decisões e sobre a organização de trabalho;e d) em nível ideológico, como um fenômeno de apropriação do significado e dos valores. 22 A distribuição do poder entre as posições da organização burocrática e a análise da capacidade de legitimação de seu exercício constituiu tema central dos estudos de Max Weber. Etzioni (1972, p.82) discorre que as organizações, a que Weber denominou burocracias, "estabelecem normas e precisam impô-las; tem regras e regulamentos; dão ordens que devem ser obedecidas, a fim de que a organização funcione com eficiência". O efeito da aplicação destas normas e regulamentos é a alienação, quando o dependente se conforma. De outro lado, a utilização de regras/ordens baseadas em valores respeitados pelos subordinados legitima o exercício do poder, gerando o aumento da submissão e alienação aos que a elas são subordinados. Para o exercício do controle, faz-se necessário o estabelecimento de uma relação de autoridade considerada legítima pelos dominados. Etzioni (1972, p.83) descreve os 3 (três) tipos de autoridade possíveis, de acordo com Max Weber. A autoridade racional, legal ou burocrática existiria "quando os subordinados aceitam ordens dos superiores como justificadas, porque concordam com um conjunto de preceitos mais abstratos que consideram legítimos, e dos quais "deriva" o governo (e neste sentido, é racional)". Já autoridade tradicional seria caracterizada pela aceitação de ordens dos superiores como justificadas, porque essa sempre teria sido a maneira pela qual as coisas foram feitas. Por fim, a autoridade carismática, em que o poder é exercido por qualidades excepcionais que conferem poder de mando aos superiores. Ainda de acordo com Etzioni (1972), para que uma estrutura moderna de organização seja eficiente e competente, como instrumento da organização, Weber considera necessária autoridade racional-burocrática para que se exerça a racionalidade do processo produtivo ou administrativo. Portanto, as organizações se diferenciam apenas pelos tipos de controle que adotam, pela alienação ou dedicação que provocam e os pelos aspectos significativos de sua estrutura. Sobre a racionalidade instrumental, Prestes Motta (2001, p.105) aduz que: " A ausência de conteúdo critico é inerente ao produtivismo e à dominação a que dá lugar. Produtivismo e dominação burocrática assentam-se na razão instrumental e não na razão substantiva. A crítica dos fins por si só envolve valores. A razão substantiva implica percepções inteligentes de como os acontecimentos relacionam-se em determinada situação. Essas percepções indicam a ausência de um fim exterior ao ato de pensar como ocorre na razão instrumental." 23 Tragtenberg (1977, p. 76), aponta que a burocracia seria "emergente das condições técnicas de trabalho, pela separação entre as funções de execução e planejamento, predominando a organização sobre o homem, acentuando como fator motivador único, o monetário". Portanto, a burocracia representa um processo de impessoalização, um tipo de poder, um sistema racional onde a divisão do trabalho tem um fim determinado, onde o formalismo, a existência de normas escritas, estrutura hierárquica, divisão horizontal e vertical do trabalho e impessoalidade no recrutamento dos quadros são suas caracteristicas . . . pnnClpalS. Carvalho e Vieira (2007, p.2) consideram como determinantes no exercício de poder organizacional a autoridade formal, o controle de recursos escassos, o uso da estrutura organizacional mediante normas e regulamentos, o controle do poder decisório, do conhecimento e da informação, de fronteiras e da tecnologia. O capitalismo se traduziria no desencanto do mundo, e a burocracia o meio tradicional pelo qual o sistema pretende controlar o processo de trabalho e os indivíduos, já que, segundo Weber os princípios da meritocracia e da previsibilidade econômica se constituem em elementos decisivos para atestar a superioriade técnica das organizações burocráticas. Sua capacidade para alcançar os objetivos do sistema sena fundamentada na racionalidade e na disciplina, aspectos que constituem seus sinais de identidade perante outros modelos de organizações sociais (CARVALHO e VIEIRA, 2007). Neste sentido, o estudo da variável poder, bem como das novas formas de controle, é crucial nas organizações. Carvalho e Vieira (2007, p.69) discorrem sobre o novo papel da TI nas organizações: "A chamada terceira revolução do sistema capitalista já não é uma revolução industrial, senão que decorre do domínio da comunicação e transmissão da informação: é a era da informática e da robótica. O conhecimento e o saber nunca haviam tido tanta importância estratégica no mundo do trabalho. As organizações burocráticas modernas que conformam a atual sociedade informatizada e midiática foram invadidas pelas inovações que vão aparecendo na sociedade". Em substituição do controle burocrático, fundamentado na orientação às normas e em sistemas tecnológicos que permitem conformidade de comportamento e invisibilidade das 24 normas, com extensiva estratificação hierárquica e fragmentação de tarefas, com a TI tem-se uma nova orientação, com foco nas idéias, tarefas de concepção e execução estruturadas, ajuste flexível, grupos multidisciplinares, controle do planejamento, orçamentos e da investigação operativa (CARVALHO e VIEIRA, 2007). Desta forma, os mecamsmos de controle das organizações sobre os indivíduos tomaram-se mais sofisticados, indo além dos limites fisicos das organizações. Carvalho e Vieira (2007, p.89) demonstram a existência de um poder sem face, já que não há determinação direta sobre as pessoas ante ao alto poder de conectividade, velocidade, fluxo e armazenamento de dados apresentados pelas novas tecnologias. Ao contrário da autocracia, que significa o tipo de poder absoluto e freqüentemente ditatorial associado ao exercício de comando por parte de alguém, nas burocracias a forma de regulamentação estaria associada ao uso de palavra escrita e "seria exercida pelos burocratas que se sentam atrás de seus bllreallx ou mesas, fazendo e administrando as regras que são o guia da atividade organizacional" (MORGAN, 1996, p. 148). O poder e a responsabilidade das organizações burocráticas estariam ligados com ao conhecimento e uso das regras por parte de alguém, e com a forma praticamente legal de administração que isso implica. Morgan (1996, p. 282) sustenta, de acordo com Weber, que estes três tipos de dominação raramente são encontrados nas suas formas puras, havendo tensão e mal-estar quando estes diferentes tipos de autoridade se misturam entre si. Pagés et alli (1993), ao estudar os fenômenos de poder nas organizações onde a centralização do controle é mantida, encontrarm contradições econômicas, políticas, ideológicas e psicológicas, bem como atitudes bivalentes, quando da análise das restrições (coerções) da empresa e os privilégios oferecidos aos indivíduos, onde a centralização do controle é mantida. Segundo Pagés et alli (1993, p. 33), deve-se levar em consideração que o poder dos gerentes teria explicação considerando "o fundo negativo das contradições SOCIaiS, 25 consistindo justamente em colocar seus conhecimentos a serviço de uma ação mediadora de redução das contradições da sociedade capitalista em desenvolvimento." Nesta concepção, as organizações hipermodemas senam modelos de solitude, segredo e manipulação, tendo como uma de suas características "o desenvolvimento de um sistema decisório de autonomia controlada, assegurando a administração à distância de conjuntos vastos e complexos" (Pagés et alli, 1993, p.35). Ao invés de regras, regulamentos ou ordens, são interiorizados princípios conforme a lógica da organização. Para a garantia do controle, é realizada sua mediação com a autonomia, de forma estrítamente limitada. Pagés et alli (1993, p.35 e 59) discorrem que essa gestão da contradição autonomia versus controle seria decisiva, sendo essencialmente nos modos de aplicação das regras o campo de autonomia dos indivíduos: "A contradição entre liberdade e submissão aparece quando o indivíduo percebe que está submetido ao jogo. Estar submetido ao jogo provoca temor não só de perda, mas de perder-se, perdição esta que é a consciência angustiada da alienação." A conclusão lógica seria a de que a delegação de poder proporcIOna a despersonalização das formas de dominação, funcionando o sistema de regras como um sistema de regulação da autoridade. O sistema de regras, enquanto sistema de controle não é vivenciado como coercitivo, mas protetor. Ele instaura um quadro que permite canalizar a angústia, assimilável a um sistema de defesas (P AGES et alli, 1993). Impõe-se, portanto, analisar a interação entre as estruturas de poder e controle no novo modelo determinado pela terceira revolução industrial no tocante aos recursos humanos das organizações. 26 2.2 Recursos Humanos Dessler (2003) discorre sobre a extrema importância de se contratar as pessoas certas, treiná-las e motivá-las efetivamente. E isso, por sua vez, demandaria um sistema de recursos humanos mais efetivo. Contudo, a administração de recursos humanos vai muito além visão tradicional contemplando seleção, treinamento, avaliação de seu desempenho, remuneração de seus funcionários, etc. Ela requer um compartilhamento maior de informações entre funcionários e a gerência, construído sobre uma base que enxerga as pessoas como fonte de vantagem competitiva. Isto porque o pensamento estratégico não deveria ficar concentrado em um único centro, os responsáveis pela execução devem participar do processo de formulação de estratégias, levando em consideração um processo de desenvolvimento coletivo abrangendo as organizações em geral, sendo integrativo, informado e responsivo (MINTZBERG, 2004). Albuquerque (1999, p.236) ilustra uma nova concepção e papel para a gestão de recursos humanos da empresa competitiva, localizada na cúpula das organizações e caracterizada, principalmente, pela "gestão planejada e proativa, descentralizada e compartilhada (cada gerente deve gerir sua equipe); transparente; flexível; integrada; adulta (sem paternalismos); orientada para resultados; estimuladora da inovação e da criatividade". 2.2.1 Administração Pública Brasileira Os crescentes investimentos em áreas estratégicas como educação, pesquIsa e desenvolvimento tecnológico impõem uma concepção renovada e revitalizada da gestão do setor público (MELLO e AMÂNCIO FILHO, 2010). Segundo Oliveira (2009), desde sua formação, o Estado moderno não parou de crescer, evoluindo para a extensão de seu domínio e ampliação de controle sobre a sociedade civil em todos os campos da vida econômica e social. Em se tratando da economia brasileira, Reis et AIIi (2010) destacam a evolução do gasto público pelos componentes da despesa primária do governo federal, estados e municípios compreendendo o periodo de 1900-1999, cujos dados apontam para o crescimento 27 substancial da importância de bens e serviços públicos no Produto Interno Bruto - PIB. Estas despesas mais que triplicaram, passando de 10% do PIB em 1900, para 36% do PIB, em 1999. As razões para tal aumento foram justificadas pelas despesas com previdência social e dos estados e municípios, que refletem os avanços do Estado de bem-estar social e do federalismo fiscal. De acordo com Rezende e Cunha (2005), os desafios apresentados ao governo federal exigem uma transformação qualitativa, com substancial melhoria do desempenho do setor público e de suas organizações, visando a efetividade das políticas e programas concebidos. Cunha (2007) lista alguns desafios do Estado para tal transformação, caracterizados pela incompetência de gestão, visão de curto prazo, preocupação corporativista, imprevisibilidade, incapacidade de resposta à sociedade, inabilidade para lidar com crises, desperdício de recursos e tantos outros. Como algumas causas dos problemas aCima citados, existe a formulação e/ou implementação de políticas públicas inadequadas, omissão dos cidadãos, corrupção e falta de espírito público ente políticos, dirigentes, servidores públicos e agentes do mercado fornecedor de bens e serviços ao setor público. Impõe-se, portanto, a formulação de uma política de gestão pública. Tal política diz respeito "às regras institucionais e às práticas de caráter administrativo que vão influenciar transversalmente todo o setor público no desempenho de funções essenciais" (CUNHA apud BARZELA Y, 2001, p.4), e se estenda não somente às necessidades coletivas, como por exemplo, assistência à saúde, mas incluindo planejamento e gestão do orçamento e das finanças; organização e métodos de trabalho; forma de aquisição de bens e serviços junto ao mercado fornecedor; o caráter e as práticas de auditoria e avaliação do desempenho das organizações governamentais. De acordo com Abrúcio e Loureiro (2004), o Brasil perde mais pela incompetência da gestão pública do que pela corrupção, o que nos faz entender necessária maior atenção com a qualidade da gestão e os resultados derivados da aplicação dos recursos públicos. Em conseqüência, as organizações governamentais não podem pensar somente em planejamento 28 de curto prazo; o esforço de planejamento não pode ser mera formalidade, devendo as ações serem alvo de análise de impacto. Em um contexto de globalização, as pessoas deixam de ser o recurso organizacional mais importante, para se tornar o parceiro principal do negócio, são os elementos impulsionadores da organização, capazes de conduzi-la à excelência e ao sucesso. Nas organizações públicas e privadas têm-se discutido a gestão por competência, que propõe alinhar esforços para que as competências humanas possam gerar e sustentar as competências necessárias à consecução dos objetivos estratégicos de uma organização, envolvendo planejamento, avaliação de desempenho, educação corporativa, identificação e alocação de talentos e orientação ao trabalhador, visando sua ascensão profissional, melhoria da remuneração e obtenção de beneficios, bem como a excelência e a qualidade do trabalho. Há a proposição de uma mudança cultural, propiciando mais flexibilidade, adaptabilidade e espírito corporativo nas instituições (MELLO e AMANCIO FILHO, 2010). Nos órgãos públicos, seu objetivo principal sena a melhoria da qualidade e eficiência dos serviços. Segundo Matias-Pereira (2009), o Estado existe fundamentalmente para realizar o bem comum. Em relação ao Brasil, a decisão política adotada para estruturar o Estado teve características autoritárias e centralizadoras, com a implantação de uma burocracia nos moldes weberianos. ° capital humano, a infraestrutura e a tecnologia têm sido citados como processos permanentes e necessários para a modernização e o fortalecimento da Administração Pública nos debates relacionados à reforma do Estado, contudo ligados não só ao modelo de eficiência da gestão privada, mas também ao interesse público (MATIASPEREIRA, 2009, p. 5): "Mesmo que a administração pública se inspire no modelo de gestão privada, deve-se ressaltar que nunca se deve perder a perspectiva de que o setor privado visa o lucro, enquanto a administração pública busca realizar sua função social. Essa função social deve ser alcançada com a maior qualidade e eficiência possível na sua prestação de serviços. Assim, não se pode ignorar as questões relacionadas à eficácia e à eficiência no setor público, embora subordinadas ao critério da efetividade, no que se refere à sua função social. " 29 Portanto, embora a Administração Pública gerencial tenha ênfase em resultados, deve afastar o patrimonialismo e a burocracia, fundamentando-se em um novo modelo com foco na descentralização, com delegação de poderes, e atribuições e responsabilidades para os escalões inferiores. As novas formas flexíveis de gestão, com horizontalização de estruturas, descentralização de funções, incentivo à criatividade e inovação também não podem deixar de considerar seu alinhamento aos princípios da moralidade, impessoalidade e probidade administrativa (MATIAS-PERElRA, 2009). Ao estudar a conversão de burocracias tradicionais, orientadas para o status pessoal, em formas modernas de organização governamental, para que os ideais de eficiência e eficácia possam se tomar princípios operacionais, Riggs (1968, p.19) propõe que quanto maior a formalidade da situação administrativa, menor seria o efeito que a alteração das normas prescritas teria no comportamento dos indivíduos, ao contrário de um sistema altamente realístico. A Administração gerencial, nesta situação prismática, não consegue realizar a separação entre política e administração, ante a ausência de uma diferenciação substantiva, que reflita o caráter dos próprios processos políticos, mesmo que esta separação tenha se constituído objeto de uma diretriz de governo, permanecendo então seu caráter centralizador (RIGGS, 1968). A Administração Pública gerencial se aproximaria das organizações orgânicas, com estrutura e hierarquia flexíveis, sem muita divisão ou fragmentação de funções, com descentralização das decisões e equalização de poder e democratização. Contudo, a Administração Pública tem tratado frequentemente de temas como padronização, objetivos de negócio, recursos, qualidade e controle, não priorizando seus recursos humanos. Ainda permanece uma estrutura centralizadora, que não propicia a transparência de sua gestão, bem como a participação dos servidores públicos nos processos de escolha, julgamento e decisão. 30 Em se tratando da TI, transparência e accountability são fatores centrais ante a intangibilidade de resultados gerados, eis que na maioria dos casos ela reduz custos, o que na Administração Pública seria essencial (JOIA, 2007). É evidente o enfraquecimento do setor público nos últimos anos. Ritkin (2001) discorre que os gastos crescentes do governo têm sido o único meio viável para resolver o problema da demanda ineficaz da economia. Contudo, esta estratégia de gastar além da arrecadação para criar empregos, visando estimular o poder aquisitivo e fomentar o crescimento econômico seria uma justificativa para a "reengenharia no governo", utilizando muitas das mesmas práticas gerenciais e das novas tecnologias de informação que aumentam acentuadamente a produtividade no setor privado. Permanece, portanto, o culto à eficiência proposto pelo modelo fordismo-taylorismo, onde se utiliza cada vez mais recursos públicos para financiar programas sociais, cujos cortes geram tensões e conflitos que afetam a legitimidade dos Estados. Neste sentido, um novo modelo de gestão pública é necessário, com base em processo democrático, cooperativo, e educativo, que possa influenciar em todos os âmbitos decisórios, desde o planejamento, passando pela execução até a avaliação, sendo solidária no empenho para a realização dos objetivos propostos (TENÓRIO, 2007b). ° conceito base existente no processo democrático é a cidadania, não a partir de um modelo liberal, com respeito aos direitos de todos, e nem em uma concepção republicana, com direitos vinculados a sua liberdade e deveres, mas com uma característica deliberativa, onde a legitimidade das decisões políticas tenha origem em processos de discussão (TENÓRIO, 2007b). Portanto, não há vinculação ou subordinação entre democracia e direitos individuais, mas sim conciliação fundada em uma rede de debates e de negociações, a qual deve possibilitar a solução de questões pragmáticas, éticas e morais. Fica evidente que o processo de discussão e a promoção da cidadania são incompatíveis com a ideologia das leis de mercado, fundada na eficiência, desempenho e lucro, baseadas em uma racionalidade instrumental, já que o indivíduo não é visto como um sujeito capaz de ação, com cidadania, mas sim um "cliente", com poder de comprar ou vender (TENÓRIO, 2007b). 31 A gestão pública deve estar comprometida com os processos democráticos vinculados ao interesse social, envolvendo tanto os cidadãos quanto os servidores responsáveis pela implementação de políticas públicas. 2.2.2 Aspectos Relevantes da Estratégia Geral de TI Sobre a adoção de uma nova estratégia, Mintzberg (2006, p. 151) discorre que: "Tecnicamente, estratégia é sobre mudança e não sobre continuidade: afinal está relacionada à imposição de padrões estruturados de comportamento em uma organização, sejam padrões em forma de intenções antecipadas que se tornam estratégias deliberadas, sejam de ações após o fato que se enquadram nos padrões consistentes de estratégias emergentes. Mas administrar estratégia, hoje em dia, freqüentemente, é administrar mudança - reconhecer quando uma mudança de curso de natureza estratégica é possível, desejável e necessária e, então agir - possivelmente colocando em ação mecanismos para mudança contínua". As mudanças estratégicas são fruto de um ambiente altamente competitivo, configurando-se não como "um fenômeno excepcional, mas como rotina, muitas vezes de dificil assimilação, no universo organizacional" (SILVA, 1999, p. 102). De acordo com Porter (2004), a essência da formulação de uma estratégia competitiva consiste em relacionar uma organização ao seu ambiente, mesmo que este seja muito amplo, abrangendo tanto forças sociais como econômicas, sendo seu aspecto principal a competição existente, criando e implementando ações para lidar com processos de mudanças nas organizações. Como princípios norteadores da nova estratégia instituída pela Portaria nO 11, de 30 de dezembro de 2008, há o objetivo de busca da aderência equilibrada e harmônica em relação aos princípios constitucionais aplicáveis à Administração Pública, em especial à legalidade, à impessoalidade, à publicidade, à eficiência e à motivação, fixando como finalidade da aplicação dos recursos de TI o cumprimento da missão institucional do governo brasileiro, planejada em consonância com metas institucionais. 32 o exercício de atividades de TI contemplaria basicamente a gestão, mantendo a previsão de contratação de terceiros para atividades de execução, preservando os casos em que condições especiais exijam execução por servidores públicos e pelos órgãos que possuam carreira com quadros específicos para área de TI. o papel da TI na Administração Pública foi reconhecido na busca de modelos de aplicação, alinhado à simplificação de processos - redução de esforços dos cidadãos e empresas para interagir com o Estado - e, ainda, pela incorporação qualificada de inovações tecnológicas que confluam para o fortalecimento da renda. Há grande destaque para o uso de TI voltado à promoção da cidadania e ao desenvolvimento social, tecnológico e econômico da sociedade brasileira, estipulados com base em diretrizes, e não em normas e regulamentos: a) Promoção da cidadania como prioridade; b) A inclusão digital é indissociável do governo eletrônico; c) O sofnt/are livre é um recurso estratégico para a implementação do governo eletrônico; d) Gestão do conhecimento como instrumento estratégico de articulação e gestão das políticas públicas; e) O governo eletrônico deve racionalizar os recursos; f) O governo eletrônico deve contar com um arcabouço integrado de políticas, sistemas, padrões e normas;e g) A integração das ações de governo eletrônico com outras esferas e poderes. A EGTI da Administração Pública Federal contemplou a importância do quadro de pessoal de TI com servidores permanentes e capacitados na gestão de TI, conforme posicionamento dos Acórdãos TeU nOs 78612006 e 1603/2008 - Plenário. O foco principal é o aprimoramento quali-quantitativo dos recursos humanos, em quantidade suficiente, capacitado para acompanhar e gerir os processos de contratação. Além do treinamento a cargo de cada instituição, adicionalmente foram previstas ações em conjunto com a Escola Nacional de Administração Pública - ENAP na realização de 4 (quatro) cursos 33 regulares focados em Gestão de TI, com a finalidade de auxiliar os servidores lotados nos órgãos da Administração Pública Federal. Os cursos regulares serão afetos à elaboração do Plano Diretor de Tecnologia da Informação - PDTI, planejamento da contratação de TI, avaliação técnica das propostas de contratação e gestão de contratos. A EGTI também apresentou preocupação com o treinamento de conteúdo técnico específico aos servidores, tais como contagem de pontos de função e estimativas, uso e administração de comunidades no ambiente. Entre os elementos da governança de TI, foi priorizada a melhoria do processo de contratação, uma vez que este é estruturante de um novo modelo de gestão voltado para a maior eficiência e efetividade. O aumento da capacidade de gestão sobre as aquisições de TI teria ampla ressonância na melhoria dos serviços prestados pelas áreas e somente será incrementado a partir dos servidores. Por servidores, a EGTI não se restringiu apenas àqueles lotados nas áreas responsáveis pela TI. Através da constituição de Comitês de TI, há a necessidade de interação interorganizacional de forma matricial e a sistematização do conhecimento estratégico com as outras áreas de cada órgão. Esses comitês institucionais deverão ser compostos por representantes da Secretaria Executiva do órgão ou da Subsecretaria de Planejamento, Orçamento e Administração ou área co-relata no órgão, pela Coordenação Geral de Modernização e Informática (CGMI), por outras eventuais áreas de tecnologia, e se necessário, por unidades que apresentem relação direta com as CGMls. Dentre as ações esperadas, caberia aos comitês desenvolver ações estruturantes e de controle para a plena implantação da estratégia. O quadro permanente de pessoal deveria ser suficiente para realizar, de forma independente das empresas prestadoras de serviços, o planejamento, a definição, a coordenação, a supervisão e o controle das atividades de informática, com a finalidade de garantir a autoridade e o controle da Administração sobre o funcionamento daqueles setores, conforme Acórdãos TCU Plenário nOs 140/2005, 667/2005, 2023/2005 e 1603/2008. Estas determinações motivaram a indelegabilidade do planejamento, definição, especificação, supervisão e controle. 34 Um importante retrato das deficiências qual i-quantitativas do quadro de pessoal de TI na Administração Pública Federal foi apresentado em TCU (2008), identificando que, um total de 29% dos 255 órgãos/entidades pesquisados possuía menos de 1/3 de seu quadro de TI composto por servidores, o que poderia acarretar risco de dependência em indivíduos sem vínculo com o órgão/entidade para a execução de atividades críticas ao negócio, além de perda do conhecimento organizacional. Segundo as informações levantadas no questionário da pesquisa do TCU, somente 37% dos servidores do quadro das áreas de TI dos órgãos/entidades possuíam formação específica em TI (incluindo aqui doutorado, mestrado, pós-graduação lato senslI e nível superior). Além disso, somente 43% dos órgãos/entidades possuíam carreiras específicas para a área. Esse resultado preocupa em função do aumento da importância estratégica da TI para as organizações, que correm o risco de não terem pessoal qualificado suficiente nem para executar as atividades básicas, nem para fiscalizar eventuais contratados. De acordo com as respostas ao questionário da pesqUisa do TCU, 60% dos pesquisados não consideram competências gerenciais, técnicas e resultados produzidos anteriormente na seleção de gerentes de TI. Com esse resultado, não se pode verificar se a escolha de chefias nos órgãos/entidades participantes seria objetiva e baseada no mérito. Diante de todos os problemas de gestão relativos à área de TI, fica claro que as mudanças organizacionais exigidas devem ser fundadas em valores e crenças substantivas. 2.2.3 Flexibilização Organizacional De acordo com Rifkin (2001, p. 23), o acesso instantâneo à informação significa que "o controle e a coordenação da atividade podem ser exercidos rapidamente e em níveis mais baixos de comando, permitindo que a informação seja processada horizontalmente ao invés de verticalmente", substituindo a tradicional pirâmide corporativa por redes, operando ao longo de um plano comum. Tenório (2000) destaca que a ótica do mercado, com predomínio quase que exclusivo da razão instrumental, inibe a emancipação do homem. Somente com a participação 35 dos empregados na mudança tecnológica, poderia surgir a flexibilização, permitindo um agir comunicativo. Um dos paradigmas da TI é a flexibilidade organizacional. CasteIls (2000) propõe a reversibilidade e alteração dos processos, organizações e instituições para a reorganização de seus membros. Isso não implicaria na total ausência de regras, mas que sua criação e mudança seriam orientadas por ações deliberadas e interações exclusivas. A flexibilidade não teria força libertadora se os redefinidores das regras sempre forem os poderes constituídos. Importante questão apresentada por Tenório (2007) seria a compatibilidade entre flexibilização organizacional e autonomia. Sem autonomia, prevaleceria a razão instrumental e o trabalho burocratizado e conformista. Para que não haja esta contradição faz-se necessária uma interação consensual adotando um novo modelo de gestão e cidadania, promovendo de maneira consciente o envolvimento do empregado no processo produtivo. Nesta perspectiva, além da consciência de seu papel como sujeito, conhecedor do conteúdo de suas ações, haveria participação no processo de tomada de decisão dentro da organização. ° empregado deve ser encarado como cidadão, exigindo qualidade dos recursos humanos envolvidos nos processos produtivos e na gestão das empresas em matérias de sua qualificação, capacitação e grau de iniciativa (TENÓRIO, 2007). Mais uma vez, nào se trata da inexistência de regras e de supervisão hierárquica, mas redução destes instrumentos de controle e sua substituição por uma estrutura horizontal relativa à gestão dos processos de trabalho, baseada em uma concepção dialógica. Alvesson e Deetz (2007, p.240) discorrem sobre o conceito de cidadania deliberativa proposto por Habermas, essencial para um novo modelo de gestão dialógica: "Habermas rastreou a emergência histórico-social da racionalidade técnica sobre as formas correntes de razão, descrevendo a racionalidade técnica como instrumental, tendendo a ser governada pelo teórico e o hipotético, com enfoque no controle por meio de desenvolvimento de cadeias de meios e fins. (. ... ) O mundo vivido pode ser considerado como completamente racional, em vez de instrumentalizado ou planejado, à medida em que permite interações que são guiadas por entendimento comunicativo alcançado, em vez dos imperativos do mundo do sistema, tais como aqueles dependentes do código do dinheiro ou do poder formal - ou pela reprodução não reflexiva de valores culturais tradicionais." 36 Depreende-se que, somente através de uma comunicação não distorcida, da presença da discussão livre, baseada na boa vontade, argumentação e diálogo, é possível atingir o entendimento comunicativo. A busca de um consenso e de racionalidade comunicativa relaciona-se a uma tomada de decisão baseada na força do bom e do bem, com fundamento no foco aberto, em lugar da autoridade, tradição, ideologia ou exclusão de participantes (ALVESSON; DEETZ, 2007). A cidadania deliberativa tem lugar na participação no processo de tomada de decisão, e não em função dos direitos estabelecidos pela lei ou orientação por interesses comunitários e, assim, as políticas salariais devem se preocupar com o desempenho da equipe e não do cargo; treinamento e reciclagem; incentivo à participação de todos em grupos de trabalho. comissões, visando a solução conjunta dos problemas e conflitos (TENÓRIO, 2007). A flexibilização organizacional deve ser medida, portanto, em função da gestão dialógica e circulação de informações com efetivo impacto no nível de autonomia, participação e qualidade de vida. Tenório (2000) discorre que a flexibilização organizacional deve ser voltada para o entendimento (dialógico), não existindo hegemonia decisória daqueles que ocupam cargos de direção, mas sim uma esfera pública na qual todos os agentes envolvidos têm participação ativa no processo de tomada de decisão. Em se tratando da Administração Pública, ante aos princípios constitucionais existentes, a tecnoburocracia, como a ação estratégica, seria por sua natureza anti democrática, pelo seu distanciamento entre o pensar e o agir (TENÓRIO, 2000, p. 187). Diante de um trabalhador com entendimento mais amplo e integrado da instituição e de seus objetivos, propiciado pelo processo de discussão, há maior circulação de informações, participação coletiva, delegação de responsabilidades e descentralização das decisões, elementos fundamentais para a melhor gestão pública. 37 A implantação do modelo de flexibilização organizacional proposto pela Administração Pública à gestão de TI apresenta um grande desafio já que, segundo Tragtenberg (1977, p.216): "A teoria da Administração até hoje, reproduz as condições de opressão do homem pelo homem; seu discurso muda em função das determinações sociais. Apresenta seus enunciados parciais (restritos a um momento dado do processo capitalista de produção) tomando absolutas as formas hierárquicas de burocracia da empresa capitalista ou coletivista burocrática onde capital é encarado como bem de produção" . 2.2.4 Alienação Guerreiro Ramos (1983, p. 43) aponta que o exercício de qualquer cargo, função ou carreira requer a auto-racionalização da conduta de seu ocupante ou titular: "O indivíduo está orientado, em seu comportamento, por valores, isto é, estimações e avaliações, das quais decorre a sua concepção de mundo, e seu ideal de realização própria e social, e que consubstanciam sua ética da convicção. A observância mínima desta ética, indispensável para a segurança e integridade interna do indivíduo, ocasionalmente o toma polêmico, envolvido em situações conflitantes. ( .... ) Nas situações administrativas ou organizacionais, o indivíduo se encontra ordinariamente em tensão." Porém, conforme as qualificações estruturais de cada organização, existem graus e conteúdo diferenciados de tensão, mais ou menos deteriorantes, do ponto de vista humano. Segundo Guerreiro Ramos (1983) existiriam 3 (três) sentidos de alienação: a auto-alienação, a reificação e a privação de poder. Quando tratado como uma unidade abstrata, instrumento passivo ou mera força de trabalho, em troca de pagamento de salários para executar determinadas tarefas, o indivíduo se sente estranho a si mesmo. A auto-alienação seria o resultado de perniciosa articulação do indivíduo ao trabalho, quando a organização se conduz com nula ou restrita tolerância às convicções e preferências dos indivíduos (GUERREIRO RAMOS, 1983, p.59). Em um segundo sentido, na medida em que há a equiparação das relações humanas e sociais à relação entre coisas, substituindo-se o quantitativo pelo qualitativo, e o concreto pelo 38 abstrato, ocorre a reificação. Neste caso, "a organização assume diante do indivíduo o aspecto de realidade cega, objetiva, exterior". Guerreiro Ramos (1983, p.61) discorre que "o processo de alienação depende em larga escala do processo decisório" e, assim, somente compreender a alienação já representa, de algum modo, desalienação. Contudo, esse elemento subjetivo terá escassa eficiência se não elude a condição passiva dos indivíduos nas relações de poder e formulação de decisões. A proposta de Guerreiro Ramos (1989, p.150) é uma nova ciência das organizações, tendo a isonomia como um de seus elementos fundamentais, permitindo a atualização dos indivíduos, independentemente das prescrições impostas. Isto não significaria a inexistência de prescrições, normas e regulamentos, mas estas seriam minimizadas e, quando inevitáveis, devem ser estabelecidas por consenso. Institui-se um sistema de tomada de decisão e de fixação de diretrizes políticas totalmente abrangente, sem diferenciação entre a liderança, gerência e subordinados, onde a autoridade "é atribuída por deliberação de todos, passada continuamente de pessoa para pessoa, de acordo com a natureza dos assuntos, com os problemas em foco e com a qualificação dos indivíduos para lidar com eles". A alienação radical é o resultado de décadas de treinamento e tay/orização dos processos de trabalho, onde o homem é privado da consciência de si e de decisão autônoma, gerando uma conduta de aceitação e conformidade ao sistema, anulação da individualidade, valores instrumentais creditados como valores e sacrificio da capacidade de critica. A intelectualização e a percepção a respeito dos objetivos globais da organização, necessárias ao trabalhador contemporâneo, são incompatíveis com o fordismo e taylorismo clássicos, na concepção de Thiry-Cheques (2004, p.15), onde ceder ao sistema é aceitar a desumanização, é transformar-se em engrenagem: "As competências da informatização diferem das competências da produção especializada por serem idênticas entre si e comuns a muitos setores e corporações. Essa convergência dos oficios desqualifica o trabalho no que ele tem de mais precioso e ligado à vida: sua individualidade. A autonomia não dispensa a vinculação, isto é, não prescinde das relações, inclusive de ordem ética, que o profissional mantém com a organização para a qual trabalha". 39 Além da alienação, outro processo organizacional de neutralização de conflitos por excelência é a cooptação, que atribui à alguns trabalhadores, seja através de aparente delegação de poder ou por compensação financeira, a ilusão de autonomia e/ou superioridade frente aos demais. Cumpre ressaltar que estes processos, de acordo com Prestes Motta (2001, p.112) confirmam a dominação exercida pelas organizações e a absorção desta racionalidade pela sociedade moderna já que a escola, para os dominados, busca incultar a disciplina e a conformidade. 40 3 METODOLOGIA 3.10 Método Um dos focos da estratégia geral de TI (EGTI) é o aprimoramento quali-quantitativo dos recursos humanos, em quantidade suficiente, capacitado para acompanhar e gerir os processos relacionados às suas atividades. A compreensão e operacionalização desta estratégia pelos gestores públicos responsáveis por sua execução e a verificação do grau comprometimento das organizações públicas em sua implantação tomam-se relevantes para entender este novo fenômeno, sendo impossível estipular um modelo de pesquisa quantitativo ante a subjetividade existente. O resultado da pesquisa, portanto, não pode ser traduzido em números. É de se verificar que não existem dados ou literatura específica sobre a natureza e a implantação da EGTI nas organizações públicas, o que atribui à presente pesquisa um caráter eminentemente exploratório e descritivo, não sendo possível o estabelecimento de hipóteses ou suposições, bem como quantificação objetiva e sistemática a priori. O fenômeno está presente no mundo da vida, sendo que as situações, contradições e paradoxos dele decorrentes, bem como seus valores e práticas devem ser descritos na visão de seus próprios sujeitos. O método de pesquisa utilizado é a análise de conteúdo, que visa identificar o que está sendo dito sobre determinado tema, mediante a extração de estruturas traduzíveis em modelos. Trata-se de um método empírico, uma hermenêutica controlada baseada na inferência, onde, segundo Bardin (2002, p. 34): "A descrição analítica funciona segundo procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. ( ... ) onde a intenção da análise é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção (ou, eventualmente, de recepção), inferência esta que recorre a indicadores (quantitativos ou não)." 41 Para este fim, foram definidas grades de análise abertas, considerando o referencial teórico proposto e o caráter exploratório da pesquisa. Tal flexibilidade possibilitou a inclusão de novas categorias ao longo da pesquisa. Este método proporcIonou a compreensão de significados e a leitura crítica das informações obtidas nas entrevistas, tendo sido extraídos diversos elementos de reflexão relevantes. Evitou-se a realização de uma análise dirigida e interpretativa ante ao risco de perda de elementos relevantes. 3.2 Tipo de Pesquisa Quanto aos fins, trata-se de uma pesquisa de caráter exploratório, na medida em que propõe a compreender a percepção do modelo de estratégia geral de TI pelos gestores públicos responsáveis por sua execução e implantação no âmbito da Administração Pública. Existe ainda um componente descritivo, eis que serão expostas as características do fenômeno e sua natureza, com a sua classificação em variáveis de observação. A pesqUIsa exploratória procura levantar características inéditas, possibilitando estabelecer prioridades para futuros estudos, tendo como objetivo o desenvolvimento de hipóteses e preposições que irão redundar em pesquisas complementares. Desta forma, ante o objeto de estudo apresentado, a pesquisa exploratória se esforça em melhor definir novos conceitos, apontando também para a melhor maneira de medi-los (PINSONNEAULT; KRAEMER, 1993). Quanto aos meios, a pesquisa foi realizada através de entrevistas semi-estruturadas relaizadas junto aos gestores públicos, sobre sua percepção quanto à estratégia geral de TI da Administração Pública Federal, objetivando não só compreender a estrutura da Administração Pública Federal no tocante à gestão de TI, mas também de que forma foram realizadas eventuais mudanças organizacionais na implementação dessa estratégia, sendo possível o diagnóstico de imprecisões, falhas internas e externas, sucessos e fracassos. Seus resultados podem contribuir para o melhor desempenho e eficiência das organizações públicas em geral. 42 3.3 Seleção dos Sujeitos A seleção dos órgãos da Administração Pública Federal foi realizada através de amostra não probabilística, intencional e por acessibilidade, ante a notória dificuldade de acesso à informações e aos seus servidores nesse tipo de organização. Como restrição geográfica, em razão dos recursos financeiros necessários para a realização das entrevistas em outros Estados da Federação, a pesquisa limitou-se à órgãos com localização no Estado do Rio de Janeiro. As questões abordadas nas entrevistas semiabertas foram idênticas para gerentes (denominação utilizada para o posto de nível intermediário nas organizações pesquisadas) e servidores efetivos integrantes do quadro de TI, visando identificar eventual dissonância cognitiva e congruência de percepções. Em se tratando das organizações públicas federais brasileiras, os servidores públicos são selecionados mediante concurso público e detêm estabilidade no cargo ocupado após 03 (três) anos de efetivo exercício e aprovação em estágio probatório. Já gerentes, coordenadores, superintendentes, etc, não estão sujeitos à aprovação em concurso público ou detêm estabilidade, sendo considerados cargos de livre nomeação pelo nível institucional destas organizações. A seleção de sujeitos desta pesquisa foi concentrada apenas em indivíduos com vínculo estabelecido na Lei n° 8.112/90, sejam efetivos ou ocupantes de cargos comissionados, lotados nos níveis intermediário e operacional. Além da localização do Estado do Rio de Janeiro, outros 3 (três) critérios fundamentaram a escolha das instituições pesquisadas. Em primeiro lugar, como critério objetivo, para que a presente pesquisa resultasse em uma amostra relevante e representativa das organizações públicas, foi delimitado que as instituições escolhidas deveriam gerenciar orçamentos de TI em valores iguais ou superiores à R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais) e fossem dotadas de autonomia gerenciai. O quantitativo de servidores efetivos também foi considerado relevante, tendo sido pesquisadas 44 A coleta de dados relativa às entrevistas semiabertas foi realizada diretamente junto aos pesquisados, compreendendo informações quanto ao nível de liberdade e participação, ambiente de trabalho e efetividade, bem como interpretações dos diversos participantes do processo, impressões pessoais, com pontos positivos e negativos, visando identificar fatores mais relevantes. Para assegurar a confiabilidade das informações prestadas, todos os entrevistados foram informados de que sua participação não era obrigatória e que poderiam desistir e retirar a qualquer momento o seu consentimento. Além disso, através de termo de consentimento livre e esclarecido, contendo informações para contato com a entrevistadora, foi-lhes assegurado que todos os dados seriam divulgados de forma a não identificar os cargos e as organizações públicas de sua lotação. A confidencial idade e sigilo, bem como a privacidade dos locais da entrevista, foram fatores relevantes para coibir a manipulação de resultados. O roteiro das entrevistas possibilitou uma riqueza informações ante a possibilidade de que a entrevistadora formulasse questionamentos adicionais de cunho explicativo ou descritivo, sem que isso se constituísse em interferência nas respostas dos entrevistados. Como vantagem da entrevista, Lakatos e Marconi (1982) apontam sua flexibilidade, já que o entrevistador pode repetir ou esclarecer perguntas, formulá-Ias de maneira diferente, especificar significados, como garantia de estar sendo bem compreendido. Houve maior oportunidade para avaliar atitudes, condutas, reações, gestos, além da obtenção de dados que não se encontram em fontes documentais e que foram relevantes e significativos, geradores de informações mais precisas e identificação imediata das discordâncias. Outro aspecto relevante é que muitos entrevistados manifestaram maior aproximação com a entrevistadora em razão de sua condição como servidora pública federal, como se a considerassem parte do grupo, conhecedora dos problemas comuns a todos os órgãos. Em muitas entrevistas, ao descrever fenômenos, pode ser observado o estabelecimento de um grau de confiança que possibilitou a obtenção de diversos elementos para análise estrutural dos órgãos públicos pesquisados. Houve ampla disponibilidade de tempo e de fala por parte dos entrevistados, o que possibilitou a obtenção de respostas confiáveis. 45 3.5 Tratamento dos dados Os dados foram tratados de forma não estatística, mediante a leitura crítica e análise de conteúdo. Nas entrevistas foram identificados os elementos de relevância e a presença ou ausência de termos. A investigação proposta contempla diversas variáveis de interesse, como qualificação, capacitação e grau de iniciativa dos recursos humanos envolvidos na gestão de TI da Administração Pública Federal, além da identificação sobre a existência ou não de uma visão dialógica do processo decisório. Visando coibir a retirada de elementos de reflexão relevantes, não foi utilizado nenhum sojtl-mre para identificação da frequência de apresentação de termos pré-definidos. Todas as entrevistas foram gravadas em formato mp3 e transcritas ipsis verbis em arquivo word. Para assegurar o sigilo sobre o conteúdo das entrevistas, os servidores não foram identificados nominalmente nas gravações. Após cada gravação, era atribuída uma numeração específica identificando o entrevistado e sua instituição. No total, foram pesquisadas 02 (duas) instituições públicas, 02 (dois) gerentes de TI e 25 (vinte e cinco) servidores públicos, resultando em quase 8 horas de gravação. O orçamento estimado anual de TI das instituições consultadas gira em torno de R$ 46.000.000 (quarenta e seis milhões de reais). Na Instituição A foram entrevistados 10 (dez) servidores lotados na área de TI, correspondendo a 100% da força de trabalho em TI. Na Instituição B foram entrevistados 17 (dezessete) servidores lotados na área de TI, correspondendo a 88,23% da força de trabalho em TI. Apenas 02 (dois) servidores não foram entrevistados em razão de estarem gozando férias. A análise da transcrição das entrevistas possibilitou a definição das seguintes Grades de Análise: a) Qualificação da Instituição: análise de estrutura organizacional, natureza jurídica, orçamento, quadro de pessoal da área de TI, quantitativo de usuários internos e 47 A grade de impacto na gestão pública leva em consideração questões como grau de conhecimento da EGTI, com a redução de prescrições, normas e regulamentos e a instituição de um sistema de tomada de decisão e de fixação de diretrizes políticas onde os servidores são responsáveis pela gestão de TI de suas instituições. A análise qualitativa não implica em total rejeição a qualquer forma de quantificação eis que somente os índices não são retidos de maneira não seqüencial, mediante análise transversal, onde não há ênfase no vocabulário, mas aos sistemas de relações, aos esquemas diretores, às regras de encadeamento, etc, revelando a disparidade dos fenômenos e as relações ilegíveis ou diluídas que verificam alguma ordem escondida (BARDIN, 2002). 3.6 Limitações do Método Uma das principais limitações do método utilizado é que os resultados da pesquisa não são generalizáveis estatisticamente, uma vez que trabalha com amostras intencionais, sem uso de formas aleatórias de seleção. Também, exige-se um pesquisador bem treinado e experiente para a condução das entrevistas e formulação de boas questões, além de distanciamento de suas ideologias e opiniões próprias, com habilidade e flexibilidade para identificar possível parcialidade, má lembrança ou articulação pobre nos relatos. Segundo Yin (2010, p.36), "o pesquisador deve ter noção clara dos assuntos em estudo, mesmo no modo exploratório, e ser imparcial sobre as noções preconcebidas, incluindo as derivadas da teoria". Outro ponto relevante é que os estágios de implantação da estratégia geral de TI nos diversos órgãos da Administração Pública Federal podem se apresentar heterogêneos dentre os itens que a compõem, já que a estrutura de pessoal de TI está atrelada à natureza jurídica da organização. Lakatos e Marconi (1982) também apresentam outras limitações das entrevistas que podem prejudicar os resultados da pesquisa, como a confusão entre afirmações e fatos, a parcialidade dos entrevistados, parcialidade inconsciente do entrevistador e a falta de 48 imaginação. A imaginação, a intuição e a criatividade podem auxiliar o pesquisador quando bem treinado, propiciando a descoberta de dados significativos. Outra limitação do método de análise de conteúdo é a perda de informações relativas a informações ausentes ou raras nas entrevistas quando do estabelecimento das categorias. Tendo em vista que estas informações são relevantes principalmente em se tratando de uma pesquisa exploratória, foi adotada uma grade aberta, flexível, onde a identificação das categorias de análise foi estabelecida ao longo da coleta de dados. 49 4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS 4.1 Instituição A 4.1.1 Qualificação da Instituição A Instituição A, criada por lei, é uma autarquia sob o regime especial, com sede e foro na cidade do Rio de Janeiro - RJ, prazo de duração indeterminado e atuação em todo o território nacional. Para exercício de suas funções de regulação, normatização, controle e fiscalização, foi-lhe conferida autonomia administrativa, financeira, patrimonial e de gestão de recursos humanos, bem como autonomia nas suas decisões técnicas e mandato fixo de seus dirigentes. Segundo Aragão (2005, p.208), ante a tecnização dos meios necessários à sua satisfação e a exigência de que os interesses do Estado fossem tratados com imparcialidade frente ao jogo político partidário, houve a necessidade de transformação dos modelos de administração pública: "As estruturas político-administrativas tradicionais, centralhierquizadas, morosas e inspiradas por critérios preponderantemente políticos, revelaram-se, neste contexto, inadequadas para os desafios colocados ao Estado". No Brasil, instituições como a investigada surgIram a partir da década de 90 e receberam a denominação de "agências reguladoras", inspiradas no modelo norte-americano, cuja função não seria restrita à regulação de serviços públicos desestatizados, mas também englobariam as atividades que, em geral, possuíssem "uma especial sensibilidade para a coletividade, atividades a respeito das quais os interesses são fortes, múltiplos e conflitantes, notadamente as que possuem elevado potencial de comoção da opinião pública, entre as quais se incluem, obviamente, os serviços públicos" (ARAGÃO, 2005, p.268) A autonomia atribuída a estas instituições também se reflete na sua forma de direção, através de colegiado, cujos membros possuem mandato fixo e são nomeados pelo Presidente da República, após prévia aprovação pelo Senado Federal. 50 Seu caráter técnico, segundo Aragão (2005) revela-se não somente ante os requisitos de formação técnica que a lei impõe aos seus dirigentes, mas também pelo fato de que seus atos e normas demandam conhecimento técnico e científico especializado para que possam ser emanados, aplicados e fiscalizados. Sua atuação é controlada através de contrato de gestão, cujo objeto é a fixação de metas de desempenho para cada gestão, firmado entre a instituição e seu ministério vinculado. De acordo com as informações obtidas junto ao gerente de TI, a Instituição A conta com um orçamento de TI em torno de R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais), para o exercício de 2011, 10 (dez) servidores responsáveis pela gestão dessas atividades e aproximadamente 1500 (mil e quinhentos) usuários internos. A facilidade de acesso da entrevistadora possibilitou que, além do gerente, fossem entrevistados todos os servidores efetivos da área de TI, o que resultou em aproximadamente 2 (duas) horas e meia de gravação. 4.1.2 Qualificação dos Sujeitos Todos os servidores efetivos apresentaram nível supenor completo, sendo que apenas 40% (quarenta por cento) destes na área de TI. Cumpre notar que 60% (sessenta por cento) dos entrevistados apresentaram, ao menos, algum tipo de pós-graduação Lato ou Sfricto senSll, o que reflete o alto grau de qualificação dos servidores da Instituição A Em relação à experiência na Administração Pública Federal, metade dos servidores apresentaram tempo de serviço entre 4 e 6 anos, 10% (dez por cento) entre 7 e 10 anos e o restante, 40% (quarenta por cento), superior a 10 anos. Na instituição A, 50% (cinqüenta por cento) dos servidores estão na área de TI há mais de 4 (quatro) anos. Os demais estão em exercício por período inferior a 3 (três) meses, em razão de uma política de seleção de recursos humanos para a área de TI, tendo sido deslocados de outras gerências, coordenações e diretorias da Instituição A para aumentar o quantitativo de pessoal efetivo na respectiva área. 51 o gerente de TI não é originário do quadro da Instituição A, possuindo nível superior na área de TI com, pelo menos algum tipo de pós-graduação Lato ou Stricto senslI. Seu tempo de serviço na Administração Pública Federal é superior a 10 (dez) anos e, na área de TI da Instituição A, encontra-se há apenas 3(três) meses. 4.1.3 Participação Para verificar a participação dos servidores no processo de escolha, julgamento e decisão, foi perguntado aos entrevistados sobre seu grau de participação no planejamento estratégico institucional e no de TI da Instituição A. Neste sentido, 90% (noventa por cento) dos servidores afirmaram que não participam do planejamento estratégico da instituição, nem no de TI. O gerente responsável pela área de TI informou que sua participação limitava-se ao planejamento estratégico de TI, mas que pretendia futuramente participar do da instituição. Um ponto de interesse é que muitos servidores questionam a existência de algum tipo de planejamento estratégico na instituição: Feminino: "( ... ) agora, como você faz isso em uma casa que não tem planejamento, ela própria não tem planejamento, a maior prova de que ela não tem planejamento ... você mesmo, olha o contrato de gestão, o contrato de gestão dela, para quem sabe, para quem olha, para quem já estudou contrato de gestão, e vem acompanhando, é falho, tem falhas, tem índices ali que não representam nada, então, eu acho que, assim, se a casa não sabe para onde vai, a TI não vai saber para onde vai, ( .... )". Quando ao planejamento estratégico de TI, foi indicada a existência de um Plano Diretor de Tecnologia da Informação - PDTI, instrumento de diagnóstico, planejamento e gestão dos recursos e processos de Tecnologia da Informação, cuja elaboração não teria contado com a participação dos servidores: Masculino: "Na verdade existe até um PDTI que foi feito há anos atrás, mas sequer houve participação dos servidores da área. Foi uma coisa feita por terceirizados e aprovado pelos gestores, o é que é muito inócuo." 52 Alguns servidores destacaram o caráter político da formulação e implantação dos instrumentos de planejamento estratégico e de TI, além da falta de comunicação entre as demais áreas da Instituição A: Feminino: "Eu não participo do da instituição, e o de TI nunca teve um planejamento estratégico antes. (. ... ) os políticos querem uma coisa, os cargos políticos querem uma coisa, e o agente técnico vê outra, vê outras prioridades. " Masculino: "Não, essa coisa é feita em gabinete. É uma outra questão a ser revista na casa, planejamento em estanque das necessidades. normalmente os servidores não são ouvidos." Masculino: "E tudo muito político, né? É tudo muito, não sei se eu vou conseguir me expressar. E... na Instituição A, então, essas coisas são meio que apagando incêndio, você não tem... pelo menos eu penso dessa forma, você parece que é bombeiro, não tem um planejamento. Isso em todas as áreas, não só na TI. ( ... ) Então, em TI, então ... Nem se fala." A execução de atividades de gestão pressupõe um conhecimento prévio dos valores disponíveis, bem como das ações e priorizações de investimentos e despesas. Neste sentido, embora apenas 2 (dois) servidores apontassem desconhecimento sobre os valores anuais estimados para a sua execução, nenhum deles demonstrou conhecer qualquer tipo de critério, além do político, que orientasse a priorização das ações e gastos com TI: Masculino: "Aqui, o critério ainda é o "quem chora mais", né? O diretor que tem mais poder na época e necessidades externas, né?" Masculino: "Então, assim, se uma diretoria tem cinco sistemas, é a diretoria que vai dizer o que tem que vir antes, não tem nenhuma atribuição de gastos, e os cronogramas também não são amplamente divulgados e não são acompanhados como projetos, então, assim, de fato é um pouco uma caixa preta que a gente está tentando desvendar agora." 53 Masculino: "Até bem pouco tempo atrás, isso era negociação com o próprio gerente de informática, (. .. ) ainda não tem justamente um comitê, né, diretivo da TI, não tem isso." A subjetividade das decisões que envolvem a priorização das ações e gastos em TI geraram controvérsias sobre sua suficiência para o bom desempenho da Instituição A, não sendo possível uma padronização entre as respostas daqueles servidores que não souberam responder sobre o assunto, os que o consideram suficiente ou insuficiente, dependendo de algum grau de eficiência e planejamento em sua aplicação: Feminino: "Olha, eu poderia te dizer que sim, se fossem bem utilizados, o problema é que não são, se eu tivesse um planejamento, seu eu tivesse uma fiscalização, sabe, se eu tiver uma fiscalização bem feita, se eu tiver um planejamento bem feito, se eu tiver prioridades definidas, se eu tiver a coisa funcionando bem, eu acredito até que seja, e mesmo que não seja, eu tendo isso tudo, eu consigo saber quanto precisaria, hoje eu tenho 35 milhões, que eu acho, na minha opinião particular são mal utilizados, e eu não sei te precisar nem de quanto mais eu preciso." Feminino: "Bom, isso é dificil, porque pra você dizer se isso é suficiente ou é pouco, você teria que fazer um levantamento de necessidade de TI na instituição. Isso não foi feito. Existe muita demanda de sistemas, de aplicativos que está sendo reprimida. Então, teria que se fazer um levantamento de toda a necessidade de TI, e até de órgãos que não puderam se manifestar até agora, né'? E se priorizar isso através de um comitê de TI multidisciplinar... E aí sim, vendo a necessidade, vai levantar se o orçamento é suficiente ou não." Masculino: "Se fosse utilizado corretamente a meu ver seria suficiente. Mas ele não tem se mostrado como suficiente, que a meu ver é exatamente pela bagunça da instituição." 54 Esta posição de incerteza também foi manifestada pelo gerente de TI, ao afirmar que, se todas as demandas da Instituição A fossem avaliadas, este orçamento não seria suficiente. Contudo, não soube precisar que demandas deveriam fazer parte do processo de priorização. Quanto a processos formais de transferência do conhecimento, todos os servidores entrevistados, inclusive o gerente de TI, apontaram sua inexistência e a importância de sua implantação para a Instituição A não só como um mecanismo de controle, mas também pelo alto grau de terceirização da área de TI, como um importante instrumento de gestão: Masculino: "Bom, se você formaliza como deve ser passado o conhecimento tanto da empresa terceirizada, que detém hoje o conhecimento por estar há anos fazendo esse serviço, como da própria instituição para as empresas que vierem a fazer o serviço de novas contratações, você tem o mecanismo de controle e de melhor gestão e tudo. Você passa a ter o controle realmente da gestão da informação que hoje você não tem porque o terceirizado que sai leva o conhecimento com ele. O servidor que está aqui às vezes não tem esse conhecimento. " Feminino: "Não, não tem, com certeza não tem, e eu acho que existem atitudes ou ações que as pessoas tomam para manter esse conhecimento, para tentar armazenar isso, mas dizer que tem uma política, não tem política de absolutamente nada, (. ..... ) hoje, não tem política nenhuma, não tem uma política de segurança, não tem uma política de passagem de conhecimento, sequer uma política de, em uma emergência fazer de continuidade, nada, absolutamente nada, eu tenho simplesmente isso, ações que as pessoas tomam, orientações que são dadas nesses casos de emergência, mas dizer que existe algum normativo, nenhum." Masculino: "Eu não vou estar aqUI eternamente e mesmo os outros servidores ... (. .. ) As pessoas são transferidas, ou passam em concurso ou mudam de áreas por algum motivo, então eu acho que tem que ter pra ter essa continuidade, né?" 55 Masculino: "Não, ainda não... Isso também ainda é insuficiente. Seriam necessárias algumas atitudes: A primeira é uma documentação ampla e atualizada de TI, de modo que internamente, qualquer um ... alguém pode estar acompanhando isso com mais transparência. ( .... ) Isso permite uma transparência pra todo mundo em TI. Isso ainda não é feito, né? Ainda é um mistério. " 4.1.4 Poder, Controle e Autoridade Os dados relativos a esta categoria foram obtidos pela percepção de pontos negativos ou positivos do gerente e de seus servidores quanto à estratégia geral de TI (EGTI) e a análise de comprometimento de sua chefia imediata em relação às suas diretrizes. Contudo, as relações de poder, controle e autoridade também foram descritas em outros pontos da entrevista e serão abaixo transcritas. Um primeiro aspecto consiste no fato de que todos os entrevistados, em maior ou menor grau, tomaram ciência da EGTI e manifestaram um visão positiva desta iniciativa do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Contudo, apesar da EGTI conter diretrizes, estas foram percebidas como regra e/ou regulamento pela quase totalidade dos entrevistados, na tentativa de padronizar e/ou normatizar as atividades da área de TI: Feminino: "Eu acho muito positivo porque estava precisando mesmo ter um alinhamento estratégico no governo federal sobre isso, cada órgão tinha uma estrutura, cada órgão tinha um procedimento,( .... ) e isso é muito complicado quando você está falando de recursos públicos, você tem uma iniquidade muito grande, não é, você não tem equidade entre as instituições." Feminino: "Eu achei positiva, dado que tem um deserto de planejamento e organização do ponto de vista de TI, e outros também, mas no caso de TI, nas organizações públicas eu achei que foi um avanço, é uma tentativa, pelo menos, de se padronizar alguma coisa." 56 Masculino: "Eu acho ela importantíssima. Eu acho que ela chega a ser estratégica para a Administração Pública. Finalmente percebeu-se o que o mundo todo sabe: hoje em dia, os ativos das empresas são suas informações, são a sua segurança, a sua disponibilidade e a sua integridade. Se eu falar isso em termos de setor público, aí, nós estamos engatinhando." Feminino: "Positivos ela tem... Eu não posso dizer os negativos, mas positivos tem, porque você tem que dar um norte, dar um direcionamento pra um negócio que é novo, teoricamente, vamos dizer que é novo dentro do serviço público federal, que até então estava ou está ainda meio bagunçado ... " Masculino: "Hoje nós tentamos mostrar para a administração exatamente as normas, as instruções normativas. Mas a instituição não procura seguir um modelo, não tem uma metodologia e é muito dificil você conseguir que a instituição compre algum tipo de medida, mesmo mostrando que outras instituições tem se beneficiado, exatamente por divergências de interesses de áreas. Às vezes a instituição, nas suas diversas áreas, não se conversa e aí fica dificil você definir prioridades pra instituição como um todo." Um dos entrevistados considera que a EGTI sena um pnmelro passo de aproximação a um modelo de mercado, o que poderia melhorar a gestão pública: Feminino:"Sim, ela tem pontos positivos, mas eu acho que ainda tá ... tá em construção, né'.> Toda a normatização que existe hoje é visivelmente um processo de melhoria e de consolidação disso. Ainda não tá pronto e tá longe de estar pronto, mas está evoluindo. O que eu vejo ... O setor público, tá ... ele fica sempre atrás do que no mercado do setor privado já funciona, já estabelece, mas ele está consolidado. Acho que tem essa iniciativa pra melhorar. " 58 de entender que descentralizou, o poder não é mais deles, entendeu, na verdade, você está ali empossado, e foi empossado para fazer alguma coisa que seja boa para a administração, e não necessariamente para ele, e eu estou sentindo uma forte resistência em relação à isso." Por outro lado, grande parte dos servidores manifestou que a principal dificuldade de implantação da EGTI, além dos recursos humanos e financeiros, seria o grau de interferência política nas decisões administrativas, eis que não haveria, inclusive, o reconhecimento da TI como um instrumento estratégico das instituições públicas: Feminino: "Eles querem que seja feita, que a demanda seja atendida e não existe essa priorização por preocupação por gasto, priorização por gasto. Existe a autorização daquilo que tem de ser feito porque tem que ser feito, entendeu?" Masculino: "Eu considero aSSim, que hoje em dia o governo federal em termos teóricos na área de TI, ele avançou bastante. E que a estratégia e tudo que a SL TI tem feito, é bem concreta para aquelas instituições que conseguem segUir a f1sca sem deixarem levar pela pressão política, que sempre tem na área pública." Masculino: "No nosso caso específico, o tempo todo mudanças de gerente, de diretor. Cada hora chega uma pessoa e você não tem direcionamento. A visão da pessoa é outra, existe muita ingerência por parte dos outros órgãos ... Vamos dizer, das outras gerências internas, a nossa, né? Falta de comunicação." Mudanças estruturais, como por exemplo, a criação do Comitê Diretivo de TI e nova disposição da gerência de informática no organograma da Instituição A, foram apontadas como indispensáveis por alguns servidores, para assegurar alguma autonomia e menor ingerência em suas decisões. Outro servidor manifestou a ocorrência de atitudes coercitivas em relação às atividades desempenhadas por trabalhadores terceirizados: 59 Feminino: " ... as pessoas simplesmente delegam aos terceirizados um poder que não deveria ser delegado, eu acho que, não só em desrespeito às regras da administração, mas em desrespeito ao próprio terceirizado, porque faz ele colocar nome em algumas coisa, e meio naquela forma de ameaça, então você coloca o seu nome aqui porque eu quero que você coloque, se você não coloca você é demitido, algumas pessoas se sujeitam à isso, então, tem algum tipo de relação que a gente sabe que existe, e que é muito mal feita, é muito mal feita, .. " Embora a totalidade dos servidores e o gerente reconheçam um grau de comprometimento de sua chefia imediata com as diretrizes da EGTI, foram apontados dois elementos que poderiam dificultar sua implementação pela Instituição A O primeiro refere-se à falta de informação sobre suas diretrizes e, o segundo, comprometimento político junto à escalão superior: Feminino: "A minha chefia imediata') C.. ) Eu acho que ela conhece assim por alto, mas ela me dá todo apoio que eu precisar implementar, entendeu, se eu precisar que a gente saia para curso, tranquilo, não tem problema, se a gente precisar fazer chamada de novos servidores para compor o quadro, ajuda passar o chapéu ( ... ) tanto a chefia imediata, quanto a direção, eles estão sensíveis à isso, dado o tamanho do desafio, dada a precariedade das condições, e eles estão nos dando apoio, espero que todo apoio que eles têm dado seja suficiente." Feminino: " .... e aí eu estou falando da minha chefia imediata, então, assim, eu acho que ela vem com alguns certos comprometimentos políticos, talvez, com as pessoas que a trouxeram, eu acho que ela é muito competente, a gente já conseguiu ver que ela tem competência, pelo menos competência técnica, ela tem, mas tem esses comprometimentos que eu acho que atrapalham." Quanto a definição de ocupantes para os cargos comissionados/funções gratificadas, apenas 3 (três) servidores manifestaram-se sobre o aparentemente critério de antiguidade, conhecimento técnico em TI ou desempenho. Os demais, mesmo que ocupantes de algum 60 cargo comissionado/função gratificada, não souberam identificar algum tipo de critério para provimento dos mesmos. Segundo o gerente de TI, esta questão será reavaliada futuramente: Feminino: "Olha, como foram definidas, eu não sei exatamente te dizer, o que eu sei te dizer é o seguinte, hoje eu tenho um cargo (. ... ) porque a gente trabalhava mais, entendeu, a gente estava embrenhado em outras coisas, mas eu acho que essa coisa ocorria muito mais por vontade da gente, de tentar correr atrás do que propriamente pela gestão ou pela área possibilitar isso, a gente se metia, no fundo, no fundo, é aquela velha história, de intrometida, a gente se metia onde não era chamado, e ia fazendo uma coisa ou outra e ia puxando para cima uma certa responsabilidade, porque a área não favorecia isso. C... ) qual o critério que eles utilizam para fazer isso, qual o critério que utilizam para fazer os cargos nomeados, eu não sei, eu desconheço." Masculino: "É um critério misto, né? É visto tanto do ponto de vista de conhecimento específico de TI, como conhecimento da sua própria área de negócios, né? No sentido de que você vai poder ser um analista de negócios. Não precisa ser um especialista em informação, mas entendendo a necessidade de informação da sua área, você também ajuda o desenvolvimento da TI." Masculino: "Eu acho que ... São poucos cargos lá, né? Eu ocupo um que .. .(. .. ) Vamos pensar assim. São poucos cargos na realidade. Por enquanto eu vejo mais como antiguidade, não vejo como técnico. Não vejo como técnico. Nem político também. Por enquanto não." Feminino: "Olha na verdade, eu não sei te falar isso, porque eu tenho um cargo comissionado e eu sinceramente não sei o que levou a pessoa que me deu o cargo a me dar o cargo." Contudo, outro servidor sustenta que o critério de preenchimento destes cargos seria individual, subjetivo, com possível componente político: 61 Feminino: "Não, não tem critério, na minha opinião não tem critério, é o critério individual mesmo, de conhecimento, e de atendimento à determinados padrões de comportamento da organização, quem se encaixa em um determinado padrão de conduta, no caso, se a pessoa é servidora, se a pessoa é servidora e ocupa esses cargos é porque tem algum grau de compatibilidade com a forma como a instituição é gerida, e quem não é, é porque veio por indicação política, acho que não existe um padrão." A EGTI discorre sobre a necessidade de um quadro de servidores efetivos treinados e capacitados para o exercício da gestão de TI nos órgão da Administração Pública Federal. Neste aspecto, 70% (setenta por cento) dos servidores se manifestaram pela ausência de qualquer tipo de política de capacitação ou treinamento de gestores de TI na Instituição A. Apenas 03 (três) servidores identificaram a existência de algum tipo de política ou treinamento na área em foco, havendo indeterminação, todavia, sobre de quem seria a sua iniciativa (da instituição, do servidor ou de ambos): Feminino:"Que eu saiba, não. Se ela vai ser construída, está sendo construída agora. Mas não prévia. Não sei, esse mês que eu estou aqui a gente tem tido treinamento, mas não sei se faz parte de uma política, a política para mim é algo que está aberto, e as pessoas sabem que existe." 4.1.5 Impacto na Gestão Pública A EGTI foi instituída através da Portaria o 11, em 30 de dezembro de 2008. Entretanto, apesar de decorridos mais de 02 (dois) anos de sua edição, os entrevistados indicaram que apenas recentemente tomaram ciência ou iniciaram o processo de sua implantação na Instituição A, sendo que um deles indicou que, à nível gerencial, isso não teria sido classificado como prioritário: Masculino: "Na verdade, lendo documentação da EGTI, mas nada ... Eu tô tomando conhecimento agora, né?" 62 Masculino: "Eu imagino que sim, eu não sei ainda, mas eu acho que sim, eu acho que nem começou, enfim, não começou, é totalmente incipiente, eu acho que a tentativa é agora, começa agora, um mês atrás, e já encontra dificuldades. " Masculino: " .... está muito incipiente, aqui realmente está muito incipiente, a gente não fez praticamente, tem muito pouco ainda, eu acho que até com as novas contratações, aí eu acho que a gente vai conseguir, e justamente com a tendência de fazer um mapeamento nos processos, definir o que cada área vai fazer, eu acho que vai facilitar mais essa implantação, mas por enquanto ... " Masculino: " .... falta entendimento mesmo da estratégia, desvinculação entre à gerência da informática e a gestão de contratos; interferência política na própria gestão de contratos e também no trabalho dos profissionais, falta de planejamento das equipes terceirizadas contratadas, canibalização da estrutura, subutilização de capacidade técnica instalada na casa, retrabalho está tendo muito também. ( ... ) Você começa a desmontar a infraestrutura preparada para poder dar conta de outros problemas, é falta de planejamento mesmo." Masculino: "Basicamente é ter tempo, é mais num amplo nível, assim, a questão de gerência mesmo, a gente realmente tomar isso como prioritário e focar nessa questão de estratégia, que hoje em dia a visão é completamente diferente, só para a gente conseguir corrigir e conseguir dar conta do que está sendo feito." Um dos motivos possíveis para esse retardo talvez tenha sido a forma de divulgação da EGTI. Todos os entrevistados tomaram conhecimento da EGTI de maneira informal, por informações esparsas obtidas junto a colegas no seu ambiente de trabalho, em cursos de capacitação realizados, através da homepage ou mala direta de entidades voltadas à gestão pública. A deficiência na divulgação dos atos do governo federal foi expressamente apontada por um dos entrevistados: 63 Feminino: "Bom, na verdade começa a cOisa melO informal, você vai ouvindo falar, você vai procurando saber e depois pela documentação do que foi passado, do que ia sendo falado, cursos que a gente vai fazendo, a coisa eu acho, que rola muito na informalidade, eu sinto falta de repente no governo federal de você ter uma grande intranet para administração federal, que anuncie esse tipo de coisa, ... " Os principais problemas relativos à deficiência da gestão de TI foram relativas à terceirização e quantitativo/formação profissional de servidores. Ficou evidente, para 90% (noventa por cento) dos servidores e o gerente de TI, que o quantitativo de servidores presente na Instituição A seria insuficiente para atender a suas demandas. Houve opiniões divergentes quanto à qualificação técnica dos profissionais desejados, se esta seria na área de TI ou originário de outras áreas de formação: Feminino: " .... acho que EGTI ela até prevê criação de cargos, na formação de profissionais, do ponto de vista da capacitação, teve investimento muito grande, mas eu acho que ainda é insuficiente, os órgãos não estão ainda recebendo os profissionais na quantidade necessária, e não estão recebendo profissionais na qualificação necessária, em alguns órgãos periféricos no país, não estão em Brasília, na mesma forma eles estão sem receber esses profissionais. " Feminino: "Primeira coisa, não é, alguma formação em uma área técnica específica, para poder conseguir dar conta das funções de informática que a gente tem aqui dentro, e segunda coisa, uma formação geral em gestão de TI, não é, aí a gente entende todos os modelos de governança, e os próprios documentos preconizados pelo SISP, então, isso para mim seria muito positivo, porque o meu técnico da equipe hoje, ele tem um papel triplo, ele tem um papel de ser administrador de alguma função de TI propriamente dita, leia - de, suporte de rede, banco de dados, desenvolvimento, mas não fazer uma parte operacional, mas sendo quem pensa, quem planeja, quem controla, quem avalia como está sendo feito o processo." 64 Feminino: "Tem quem ser multidisciplinar, com certeza, se não for, tem que se fazer, que é o que a gente está vendo, a gente está vendo que tem que se fazer ser (uma equipe) multidisciplinar." Feminino: "Com certeza, não. Agora, eu não sei se em quantitativo ou se qualitativamente, entendeu? Porque a gente pega áreas, por exemplo, que até tem uma grande quantidade de gente, existe até uma grande quantidade de demanda, mas a gente não sabe se aquele recurso está sendo alocado, que está sendo alocado, está fazendo da melhor forma possível aquelas demandas, então, eu acho que a quantidade que... Não sei dizer se falta pessoal ou se falta qualificação de pessoal." A inexistência de carreira específica nos órgãos da Administração Pública Federal foi um dos fatores determinantes para o elevado grau de terceirização na execução de atividades de TI, na forma do Decreto n° 2271, de 07 de julho de 1997. Contudo, todos os entrevistados foram categóricos quanto a necessidade de terceirização deste tipo de serviço na Administração Pública Federal, sob o argumento de renovação técnica, imprescindível em uma área de tamanha e constante introdução de novas tecnologias, novos conceitos, novos hardwares e sojfl.Vares. Os problemas relativos à terceirização estariam compreendidos em uma gestão ineficiente destes recursos, na ausência de controle, perda do conhecimento gerado pela inexistência de um processo formal de transferência de conhecimento e, principalmente, que a gestão destes recursos seja efetuada na forma da EGTI, ou seja, pelos servidores efetivos do quadro de pessoal da instituição: Masculino'. "Eu acho que não, eu acho que falta mais é gestão mesmo. Eu acho que a parte da gestão que tem que tá melhor administrada pelos servidores, para as diretrizes, acho que tá faltando mais aqui." Feminino: "Acho que o problema aí não é terceirização, é falta de planejamento, ( .... ). Eu tenho muita experiência com questão do terceirizado, não vejo terceirizado como inimigo e como problema. Eu vejo o problema da 65 falta de planejamento, falta da gestão, como um grave problema na casa. Não é o fato do setor ser terceirizado." Feminino: "( ..... ) afeta porque a terceirização, quando ela não é acompanhada por mecanismos de controle, ela é descontrolada, então você não tem nenhuma possibilidade de cobrar das pessoas efetividade de saber exatamente o que está acontecendo, não que você precise saber exatamente o que está acontecendo, mas você tem que ter mecanismos para balizar o trabalho que é contratado, e isso não existe hoje." Masculino: "A terceirização eu acho que é benéfica porque renova o conhecimento na parte técnica. Porque se a gente bota servidor, o servidor ele vai com o tempo perdendo o conhecimento técnico. Enquanto a terceirização você vai sempre trocando e podendo ter novos elementos técnicos inclusive com consultoria e tudo mais. (. .. ) Você tem no terceiro uma forma de renovar tecnologicamente, você tem a inovação junto com conhecimento do negócio eu aço isso perfeito." Feminino: "Eu não acho que afete, pelo contrário, sempre quando a gente fala nessa coisa da terceirização, eu não sou contra a terceirização, eu acho, assim, a área de TI é uma área que evolui muito rápido, em termos de software, em termos de hardware, então eu acho que você precisa ter um operacional que esteja, que esteja condizente com isso, então eu não acho ruim, a idéia da terceirização, eu acho ela excelente, você pega pessoas de mercado que estão frescas sempre, que estão sempre se atualizando, e traz ela para te dar o melhor. O problema todo é como isso é gerido, a gestão disso é que eu acho que está muito ruim, e não é só aqui, a gente vê em geral que a gestão disso é muito ruim,( .. )." Masculino: "Eu acho que é inevitável a terceirização. Como eu falei, a TI é tão complexa, que estão sempre chegando novas tecnologias, novos conceitos, novos hardwares. Então, não é finalidade da área publica se especializar em TI. Tem que ser terceirizado mesmo. O que precisa é de uma capacitação de gestores de TI, né? E que não fiquem fascinados pela 66 tecnologia, que fiquem focando as necessidades do cidadão. Ou seja: como é que a TI vai ajudar a administração pública a atender o cidadão que paga imposto." Masculino: "Na área de TI, eu acho que deve ser mantida a terceirização, mas tem que ter um certo cuidado para não se perder conhecimento e ficar refém da empresa terceirizada." 4.2 Instituição B 4.2.1 Qualificação da Instituição A Instituição B é uma autarquia federal, criada por lei, com sede e foro na cidade do Rio de Janeiro - RJ, prazo de duração indeterminado e atuação em todo o território nacional. Segundo Di Pietro (2003, p. 366), as autarquia são entidades da administração indireta (descentralização por serviço), que exerce serviço determinado, com as mesmas características e os mesmos efeitos da atividade administrativa do Estado, tendo como características principais a personalidade jurídica pública, capacidade de auto-administração, especialização dos fins ou atividades e sujeição a controle ou tutela, para a execução de serviços públicos. Mello (2007) destaca seu regime de pessoal pela Lei n° 8.112 de 11/12/1990 e sua personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada. Tais instituições se constituiriam em um instrumento de descentralização de serviço público, para que estes sejam prestados com maior eficiência e adequação ao interesse público. De acordo com as informações obtidas junto ao gerente de TI, a Instituição B conta com um orçamento estimado anual de TI em torno de R$ 16.000.000,00 (dezesseis milhões de reais), 17 (dezessete) servidores responsáveis pela aproximadamente 1500 (mil e quinhentos) usuários internos. gestão dessas atividades e 67 A facilidade de acesso da entrevistadora possibilitou que, além do gerente, fossem entrevistados 15 ( quinze) servidores efetivos da área de TI, o que resultou em aproximadamente 5 (cinco) horas e meia de gravação. 4.2.2 Qualificação dos Sujeitos Dos 15 (quinze) servidores entrevistados, apenas 4 (quatro) possuíam nível superior em TI. Dos demais servidores, 8 (oito) possuíam nível superior em outras áreas de formação, o que corresponde a 47% do total de servidores de TI da Instituição B, e 3 (três) possuíam nível médio. Daqueles com nível superior, apenas 3 (três) possuíam algum tipo de pósgradução Lato ou Stricto SenslI. Todos os servidores entrevistados apontaram que a Instituição B seria sua primeira experiência no serviço público federal sendo que, na área de TI, 9 (nove) servidores descreveram tempo de serviço compreendido entre 1 e 4 anos, 4 (quatro) por período entre 4 e 10 anos e 2 (dois) por período superior a 10 anos. Apenas 1 (um) servidor foi originalmente lotado em outro setor da Instituição B e transferido para a área de TI posteriormente em razão de seu nível superior em TI. o gerente de TI não é originário do quadro da Instituição B, possuindo nível superior em outra área de formação, com pelo menos algum tipo de pós-graduação Lato ou Stricto Sensll. Seu tempo de serviço na Administração Pública Federal é superior a 10 (dez) anos e, na área de TI da Instituição B, encontra-se há 3 (três) anos. 4.2.3 Participação Para verificar a participação dos servidores no processo de escolha, julgamento e decisão, foi perguntado aos entrevistados sobre seu grau de participação no planejamento estratégico institucional e no de TI. Neste sentido, 7 (sete) servidores afirmaram que não participam do planejamento estratégico da instituição, nem no de TI e 6 (seis) servidores afirmaram que participam apenas no de TI. Apenas 2 (dois) servidores afirmaram que participam de ambos. As entrevistas evidenciaram que a Instituição B possui um PDTI idealizado e criado por seus servidores efetivos e já instituiu um comitê diretivo de TI. 68 o gerente da área de TI enfatizou que a Instituição B tem destacado a importância do planejamento estratégico: Masculino: "Sim, existe. Isso é bem feito, a gente tem ... eu to aqui há três anos e já participei de cinco oficinas de planejamento, que é levado a sério, é uma coisa muito bem elaborada ... A Instituição B realmente planeja, faz seu planejamento estratégico com qualidade, existe um órgão de planejamento e orçamento que funciona na casa, que acompanha esses projetos. Agora mesmo foi criada uma divisão lá em que o presidente estabeleceu ... ( .... ) A gente já fez um cronograma de ações com relação a esses projetos até 2013, e eu estou acreditando que isso vai funcionar melhor. Desde 2008 que isso vem sendo implementado e tem funcionado muito bem, tem melhorado muito." Em se tratando do planejamento estratégico em TI, alguns servidores apontaram que a Instituição B ainda não considera a TI como área estratégica, sendo necessária a constante revisão de suas ações: Masculino:"Eu diria que sim, eu participei do grupo que produziu o POTI. Desde então existe o comitê de informática que a gente não tem assento, mas vem participando. C.. ) e eu acho que a TI tinha que ter outra posição no desenho dessa condução estratégica. Eu acho que a gente lutou por uma TI estratégica, quer dizer é o ponto do PDTI, tá lá TI é estratégica. A gente conseguiu uma estrutura maior, conseguiu mais gente, conseguiu deixar de tá ligado a diretoria de administração para estar ligado a presidência, foi o que a gente conseguiu. Mas parece que a visão da TI estratégica ainda não é, ninguém sabe exatamente do que se está falando." Feminino: "Existe. A gente tem um PDTI que está em vigor e a gente está fazendo um estudo junto às áreas e tudo mais pra atualizar esse PDTI. ( .... ) e a gente vai fazer uma revisão, porque tem coisas que a gente fez, tem coisas que a gente não fez... A gente está fazendo um balanço, e a gente até fez um balanço no fim do ano, mais pra apresentar resultados para o órgão de gestão, pra mostrar o que foi feito e o que não foi feito; e agora, a 69 gente está fazendo um planejamento para conversar com todas as diretorias novamente para ver das demandas que constavam no PDTI, o que é que vai continuar, o que é que sai, o que entra de novo ... " Outros servidores apontaram que se sentem excluídos do processo de planejamento estratégico de TI por estarem sobrecarregados com funções operacionais ou por estarem totalmente alienados do processo de discussão, cabendo-lhes apenas cumprir a etapa operacional: Feminino: "Não, nem no de TI. Aqui na Instituição B o que eu faço é fiscalizar os contratos (... ) que é o que me ocupa porque toda semana. Eu termino de fazer uma hoje, estou começando a fazer outra." Feminino: "Eu acho interessante (incluir os servidores nas discussões), porque, por exemplo, acho uma questão assim, eu levei muito tempo pra descobri o que a Instituição B fazia depois que eu entrei aqui. Então acho que você fica um pouco alienado, vamos dizer assim. E de um ano pra cá que (. .. ) eu fui entender qual era. Eu trabalhava na Instituição B aí as pessoas me perguntavam "E o que a Instituição B faz?" Eu não sei, (. .. ), mas eu não entendia muito bem. Eu acho que essa alienação acaba, tipo, você não se sente parte do todo. Eu acho prejudicial de várias formas, que aí você só ver aquilo como alguém definiu aquilo e você tem que seguir. Por que aqui eu tenho que seguir se eu não participei daquilo?" Embora muito servidores tenham apontado a deficiência de orçamento como uma das dificuldades de implementação da EGTI na Instituição B, tal informação pode não ser de fácil comprovação ante a inexistência de participação dos servidores nos processos de discussão relativa ao planejamento da Instituição B. Todos os servidores demonstraram não ter conhecimento sobre o orçamento de TI da Instituição B, inclusive em apontar valores próximos daquele citado pelo Gerente. Alguns se limitaram aos valores de contratos que fiscalizam, mas não detinham o conhecimento de valores globais: 71 Não adianta você pnonzar é de repente daqui algum tempo o que era prioridade já entrou como uma nova prioridade. Quer dizer, então acredito que assim as prioridades devem ser sempre avaliadas continuamente nesse sentido." Masculino: "Na área de ações? Bom, nós temos o PDTI, seguindo esse PDTI há o investimento necessário pra atingir esses objetivos. Por exemplo, nós temos hoje definições de projetos estratégicos, inclusive eu sou gestor de um projeto estratégico ( ... ) então para atender esses projetos tem que ser feito investimento. E isso já foi definido pela administração. Por exemplo, quais são os projetos estratégicos durante esse ano que nós estamos elaborando pra atingir determinadas metas') A administração já adotou esse método, existe até uma divisão hoje da nova estrutura que acompanha esses projetos especiais, esses projetos estratégicos. Exatamente para identificar se está havendo investimento necessário para atingir os objetivos desse projeto." o gerente de TI aponta a importância do comitê diretivo. Contudo, sua atuação teria sido prejudicada com a troca de seus representantes pelos diretores da Instituição B, em razão de disputas políticas e pela falta de informação sobre gestão de TI: Masculino:"Existe um comitê de informática. Como eu te falei, quando eu comecei a trabalhar aqui, a gente criou logo esse comitê. Esse comitê, ele tinha um representante de cada diretoria e de algumas coordenações, tipo coordenação de planejamento, tinha o representante da auditoria, mas eram representantes. Isso funcionava muito bem, mas tinha uma questão de que eram pessoas indicadas pelos diretores tomando decisões que talvez coubessem melhor aos diretores. Então, foi refeito esse comitê, e foi elevado de categoria, e passaram a ser os próprios diretores passaram a ser os representantes. (. ... ) Eu passei a ser um membro. Então, ficou mais adequado na medida de que as decisões são tomadas pelos próprios diretores. Em compensação, as reuniões diminuíram e as decisões são mais complicadas de serem tomadas." 70 Masculino: "Eu não tenho ideia não. Eu sei que aqui tem bastante contrato ... Eu acho que os contratos anuais devem ser mais ou menos isso. Deve ter uns, deduzo eu, que uns cinco milhões, não sei se chega a isso, não tenho idéia mesmo. Sei do meu contrato (. .. )". Masculino: "Boa pergunta, boa pergunta, eu desconheço." Feminino: "Eu até ouço pelo meu coordenador, mas nada ... Não sei dizer precisamente. Não tenho muito essa preocupação porque não depende de mim. Eu digo, quais são as nossas necessidades, mas de orçamento, eu não tenho a mínima idéia." Masculino: "Não, não tenho a mínima ideia." Masculino: Não faço nem idéia. Só sei que é alto. Aumentou principalmente nos quatro anos pra cá aumentou, nos três anos pra cá aumentou bastante, depois que eu entrei aumentou bastante. A Instituição B começou a investir mais na modernização, que aqui era muito ..... você conhece aqui ... era muito largado." Segundo o gerente de TI, o processo de priorização de gastos e ações em sua área é realizado levando em consideração o planejamento estratégico da Instituição B e o PDTI, além da discussão perante o comitê diretivo. Esta situação foi confirmada por 5 (cinco) servidores: Masculino: "Em pnmelro lugar levando em conta o planejamento estratégico. Em segundo lugar levando em conta o que está delineado no PDTI que diz respeito à modernização, disponibilização de serviços pela internet, ( ... ). A priorização de investimentos leva em conta essas diretrizes, existe uma linha mestra nisso." Feminino: "A priorização sempre buscando acompanhar o plano diretor de TI e, sempre realmente que há uma nova necessidade de re-priorizar alguns dos pontos, é feito uma revisão. Essa visão de re-priorizar ou priorizar os pontos estratégicos, assim, na minha visão é fundamental ser sempre assim. 72 A proposta do gerente de TI seria de que o comitê diretivo deva ser composto por servidores de nível intermediário e técnico, para que o comitê possa efetivamente delimitar a priorização de gastos e atividades e melhorar o desempenho da Instituição B: Masculino: "Política é maior nessas questões, e aí é mais complicado. Então, eu acho que tinha que achar um meio termo, porque não dá pra ficar com esse comitê de alto nível que se reúne muito pouco ..... ( ... ) Pra você ter uma ideia, eu estou batalhando por uma nova reunião para a aprovar a política de segurança de informação desde então. C... ) Aí, fica muito dificil. Eles não tem muito tempo e paciência pra entender exatamente o quer que significa cada meta daquelas. Quando uma pessoa com algum conhecimento de informática é indicada por eles num comitê de nível mais intermediário e mais técnico, isso é muito melhor discutido. ( .... ) Essa é uma coisa que precisa ser melhor tratada aqui, porque a ação das decisões sobre TI serem tomadas em conjunto no comitê é muito boa." Contudo, 8 (oito) servidores afirmaram desconhecer qualquer tipo de critério utilizado pela Instituição B para a priorização das ações e recursos de TI. Além disso, 2 (dois) deles afirmaram que a decisão caberia ao gerente de TI e 1 (um) servidor, que caberia aos servidores da área: Masculino:"É, em princípio segundo esse PDTI né? Mas não tenho maiores conhecimentos sobre isso não, essa informação não me chega." Feminino: "Aí, fica a parte realmente da coordenação geral com o gerente. (. .) Você, dentro do que você tem aqui, você vai terminar aqui o que é prioritário. Então o gerente, em conjunto com a gente, decidiu o que seria mais importante pra Instituição B. Não partiu da gente decidir o que fazer, nós decidimos dentro de um leque de opção você tem isso então escolhe isso. Você tem dez reais, você compra o que você puder com dez reais." Feminino: "Acho que essas decisões são feitas em nível de direção, né? Eu trabalho mais na parte operacional. Técnica e operacional. Não dessa parte ... Eu não participo dessa priorização, né? Do gasto, o que vai ser.." 73 Sobre a existência de algum tipo de processo de transferência do conhecimento, todos os servidores e o gerente apontaram sua inexistência, e alguns deles ressaltaram o risco para a Instituição B: Masculino: "Aí eu não sei se é interesse político, eu não sei. Aí é um mistério entendeu? Não vou me meter nisso, eu só acho um erro um lugar cheio de pessoas você ter sistemas estratégico da Instituição B, você não tem uma coisa documentada, entendeu? C..... ) se chegar a pessoa sair e entrar outra, essa pessoa teria condição de assumir o sistema." 4.2.4 Poder, Controle e Autoridade Sobre pontos positivos ou negativos da EGTI, (9) nove servidores não souberam ou não detinham informações insuficientes para efetuar qualquer tipo de juízo de valor sobre suas diretrizes. Outros 5 (cinco) servidores consideravam que a EGTI seria a nova legislação de contratação de bens e serviços voltada para a área de TI, introduzida pela Instrução Normativa nO 04, de 12 de novembro de 2010 e, neste sentido, consideravam-na positiva na instituição de regras para coibir práticas lesivas ao patrimônio público: Masculino:"Acho que sim, a nível de controle acho que é positiva. É uma forma de você regular as atividades já existentes. Porque de uma forma geral não havia normas ou metas pra você tomar decisões, então essa portaria do ministério do planejamento eu acho que é bem-vinda. Porque vai dar uma série de parâmetros de avaliação e de desempenho de uma instituição na área de TI. Um dos entrevistados, diante da questão formulada, solicitou que a gravação fosse interrompida naquele momento e explicou que não gostaria de responder a pergunta ante possível violação de dever funcional, já que deveria saber sobre o tema. O gerente de TI e 3 (três) servidores a consideravam positiva, seja para instituir uma orientação, maior autonomia, divisão de responsabilidades e regras de atuação: 74 Feminino: "Em geral, eu acho totalmente positivo. Acho que é um trabalho que ajuda o gestor a trabalhar de forma organizada e comprometendo as áreas finalísticas da empresa com a estratégia de TI." Feminino: "Eu acho que é com a lei no final, ela acaba sendo .... a idéia é boa porque o que você vê na administração pública... eu sempre fui servidora pública só que eu era do município, que as pessoas de um modo geral não gostam de se comprometer, assinar." Masculino: " ... (autonomia) na condução do processo. Ainda talvez não tenha adquirido o nível assim, digamos, desejado de autonomia, mas na medida do possível a visão que TI deve ter, como estratégica, ela precisa ter maior autonomia. Então à medida que o processo evolui e a maturidade da tecnologia da informação, ela precisa ter avançando com maturidade autonomia. " Em relação ao comprometimento da chefia imediata com a implantação da EGTI, 13 (treze) servidores a consideraram plenamente comprometida, sendo que l(um) destes citou que este comprometimento seria originário da imposição legal. Outro servidor apontou que, embora comprometida, sua atuação estaria limitada pela falta de comunicação entre os diversos entes da Instituição B: Feminino: "Eu acho que ele tenta seguir, mas eu acho que o problema aqui é ( ... ) da Instituição B, é isso, as pessoas não trabalham em conjunto." Apenas 02 (dois) servidores manifestaram-se negativamente quanto ao comprometimento de sua chefia imediata: Masculino: "Pra te dizer de coração, todas as dificuldades que a Instituição B tem são à nível administrativo, porque as pessoas ..... Vou jogar super aberto com você, as pessoas vêm, administram, mas não tem tanto interesse que a Instituição B cresça e apareça. (. .. ) Minha chefia imediata faz parte da administração atual." 75 Masculino: " ... não é comprometido, eu vou dizer por quê. Primeiro, porque ele não utiliza, ele não usa a mão de obra especializada que deveria usar." o gerente de TI apontou que o comprometimento de sua chefia imediata foi demonstrado através de uma mudança estrutural da Instituição B, que deslocou a área de TI de uma diretoria específica para submissão direta com a presidência, o que possibilitou maior autonomia: Masculino: "Nós temos de dividir em dois momentos: Primeiro, nós estávamos ligados diretamente à diretoria de administração. Na diretoria de administração, por mais que houvesse um entendimento da importância da TI pra casa, da posição estratégica da TI, na verdade, quando que se tratava de disputar recursos, era sempre muito dificil, porque eu estava no meio de uma área que tinha que competir com a área de administração, que também sofre de carência de recursos ... Ninguém quer ceder. Então, houve uma decisão, uma mudança na estrutura da casa, em que nós fomos alçados a ficar ligados direto à presidência. O que é melhor, na medida em que eu fico mais livre no tratamento com a diretoria. Antes, para eu chegar aos diretores, ou era através do comitê, ou tinha de fazer através das diretorias por questões de respeito a hierarquia, né? ....... Autonomia é fundamental. Quando eu passei agora, desde o final do ano passado, a estar ligado à presidência, eu tenho mais espaço junto às diretorias." As entrevistas também revelaram que a Instituição B não possui uma política de treinamento, capacitação e desenvolvimento de gestores de TI, opinião também compartilhada pela gerência, no sentido em que as políticas existentes contemplavam apenas aspectos gerais de gestão. Apenas 2 (dois) servidores apontavam existir na Instituição B algum tipo de política voltada à gestão de TI. Segundo o gerente de TI, este aspecto é fundamental ante a complexidade da área: Masculino: "Acho que sim. Em função da posição cada vez mais estratégia da TI dentro da organização. Acho que deveria ter ... Principalmente agora que existe... Com essa mudança de estrutura, eu ganhei novos cargos, eu ganhei uma estrutura com coordenações, tem divisões ... (... ) e que eu 76 precisava ter gente mais bem treinada na função de gestor, o que não tem. Tem técnicos que ajudam, mas não tem a formação ideal para isso." Em relação à critérios de preenchimento de cargos comissionados/funções gratificadas, 6 (seis) servidores apontaram que seu provimento se daria em função de experiência e capacitação dos respectivos titulares: Feminino: "Eu acredito que o critério maior seja o conhecimento na área ou se aquele profissional trabalhou em algum momento da vida com TI. E, é o que a gente acredita que aconteça, o que eu vejo também. Mas eventualmente pode ser que ocorra, algum caráter mais subjetivo também, uma indicação porque a pessoa conhece o trabalho daquele servidor, sabe que ele tem capacidade, tem perfil de gestor acaba sendo indicado, mas não necessariamente trabalhou com TI. E, aí está tendo oportunidade de demonstrar capacidade." Masculino: "Ultimamente a gente sofre de um problema de falta de escolha mesmo. Não há muito critério aplicar, mas eu diria que as pessoas que estão ocupando esses cargos, pelo menos nítido é o crescimento, comprometimento, competência dessas pessoas, enfim. Não se pode se falar em processo seletivo porque é pouca gente, mas, enfim. as pessoas têm. Não é regra, pelo menos de uns tempos pra cá, nomeação política ou por outros." Feminino:"Até consIgo, por exemplo, eu fiz parte. Aqui foi dividido em várias subchefias, as pessoas tiveram que fazer uma carta de apresentação, no final de contas, passou por mim para que eu redigisse de uma forma a ficar menos problemático para qualquer pessoa ler. Eu parei, eu li, tinham pessoas realmente, na maioria, indicadas por que tinham qualificação. As grandes gerências foram ocupadas por quem tinha títulos, por quem tinha capacitação e antiguidade, e teve outras realmente políticas, mas essas são menores." Outros 4 (quatro) servidores afirmaram que os critérios de provimento seriam políticos ou por relacionamento pessoal e os demais não souberam apontar qualquer tipo de critério: 77 Feminino: "Olha isso aí é uma crítica que eu tenho desde quando eu entrei no serviço público. Tem algumas pessoas que você ver que é por merecimento, são pessoas muito capacitadas. Mas, muitas vezes no serviço público, acaba sendo uma questão de política e de relacionamento. Tipo, uma pessoa foi indicada sei lá, de até um serviço público, mas era em uma outra instituição. Aí, ele vem trazendo todos os conhecidos dele. Então pode ser que você dê a sorte de que a pessoa seja capacitada ou não. E tem aquele que é o mais puxa saco, que vai conseguir aquele cargo, muito poucas vezes ele é capacitado. Existe uma mescla aí, alguns você consegue ver conseguiram por merecimento, mas muito aqui é por conhecimento, por relacionamentos políticos, assim pessoais." Masculino:"É o QI, mas o QI no meu ponto de vista, quem indica, é assim, vai chegando, vai chegar uma pessoa nova e vai direcionar sempre, não foi assim? Sempre foi assim. Eu acho é que não vai mudar isso. Inclusive nós tínhamos você que já trabalhou, conhece, tem pessoas totalmente qualificadas ao qual tem conhecimento amplo e nunca tiveram oportunidade. Não é por ser amigo, e sim por nós sabermos que a pessoa tem um tremendo potencial. Tem uma capacidade, tem um conhecimento, mas nunca. Mas são cargos políticos, vai se fazer o que, não tem, tem que deixar." O gerente de TI aponta que atualmente possui cargos comissionados/funções gratificadas que não estão ocupados em razão da falta de formação e capacitação técnica de seu quadro de pessoal: Masculino: "Só pra você ter uma idéia, eu antes tinha só dois cargos ligados à minha coordenação. Eu hoje tenho nove. Dos nove, estou com três vagos. Não tenho quem nomear. Ou porque o quadro, que hoje são de quinze a dezesseis servidores, com formação de TI, eu tenho uns cinco, mais ou menos, e só. (. .... ) Quer dizer, a dificuldade de recursos humanos é muito grande, então eu tenho pessoas aqui que não tem como dar cargo porque não tem formação alguma." 78 4.2.5 Impacto na Gestão Pública É de se verificar que (oito) servidores afirmaram não conhecer ou ter tido qualquer tipo de contato com a EGTI, que foi instituída através da Portaria o 11, em 30 de dezembro de 2008. Os demais tiveram algum contato através de participação em cursos de capacitação, portais de gestão governamental ou troca de informações com outros servidores. O ponto de aproximação entre todos os servidores foi o reconhecimento unânime da falta de quantitativo adequado de pessoal para gerir os processos de TI. Esse quantitativo teria formação em TI para 7 (sete) servidores. Os demais propuseram que a carência de pessoal deveria ser preenchida por uma equipe multidisciplinar, composta por diversas áreas de formação: Masculino: "Então faz com seja necessário ter pessoas da área administrativa que acompanham, ter o conhecimento da área de TI e ter conhecimento da área administrativa também, de como fazer o procedimento de uma compra, procedimento de uma contratação. E tem que ter as pessoas especificamente da área de TI, que é área de negócio. O que nós temos carência aqui são gestores de conhecimento, são gestores de negócios." Masculino: "Não, não sei se é um problema só da instituição a qual eu sirvo ou se é um problema crônico ainda do serviço público, porque o quadro realmente de pessoal ainda é insuficiente." Feminino: "Aqui na Instituição B? Não. Aqui, pelo menos eu vejo por mim, eu tenho muita atribuição, eu tento fazer curso e não consigo, porque se eu fizer curso fica muito serviço acumulado, ficar uma semana fora pra mim impossível, ficar doente me deixa estressada. E muito serviço." Feminino: "Não. O servidor público tá longe, tá') ( ... ) Então, a demanda é muito grande. É muito grande e pouca gente. Acontece muitas vezes de, nesse momento a prioridade é uma, e no dia seguinte ou no mesmo dia, a prioridade é outra, então, a gente tem de interromper, voltar o nosso 79 pensamento para o que a gente estava fazendo antes, então essa interrupção constante é que prejudica. (. .. ) (Sobre a interrupção) Acredito que seja uma junção de técnico e político, o que de repente a presidência, alguém do órgão definir como prioridade do instituto, e a área de TI tenta seguir isso." Masculino:"Outra dificuldade não, mas mais uma critica que eu faço, é que por exemplo, também acho que nem é privilegio da Instituição B, acho que todos os órgãos da administração federal correm, estão correndo esse risco. Estão se vendo diante dessa situação, vamos dizer assim, que é a questão do número de pessoas." Na visão do gerente de TI, a situação do quadro quali-quantitativo de servidores seria crítica, pela própria orientação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão: Masculino: "A SL TI define, cnou uma planilha e isso está até pra ser colocado como uma resolução, que dimensiona que a gente deveria ter minimamente cinco por cento do quadro efetivo de servidores dentro da área de informática, Minimamente. E isso significa que hoje eu deveria ter por volta de uns cinquenta servidores. ( .... )E isso, com formação de TI!" Quanto a inexistência de carreira específica nos órgãos da Administração Pública F ederal, que foi um dos fatores determinantes para o elevado grau de terceirização na execução de atividades de TI, na forma do Decreto nO 2.271, de 07 de julho de 1997, todos os entrevistados se manifestaram favoráveis ao processo de terceirização, desde que as atividades de gestão fosse executadas exclusivamente por servidores. Contudo, foram apontados alguns riscos originários da terceirização, tais como: má gestão, perda do conhecimento gerado pela inexistência de um processo formal de transferência de conhecimento, dependência tecnológica e danos à gestão de segurança da informação: 80 Masculino: "Olha prejudicar não prejudica. O que eu posso responder pela minha área na parte de terceirização da Instituição B, não prejudica. O que eu vejo como gestor, eu vejo algumas dificuldades até pelo fato de segurança da informação, confiança e compromisso com o órgão." Masculino: "Não, depende de um emprego que você for dar a terceirização. Por exemplo, eu acho que esses gestores de negócios, gestores de conhecimento não podem ser terceirizados, porque isso é um negócio da Instituição B. Você não pode terceirizar isso. As pessoas que vão fazer obviamente vão fazer a parte administrativa desse processo também, ela pode ser terceirizados. ( .... ) Você não vai contratar um servidor pra fazer Help Desk ou fazer digitação." Feminino: "Olha, no sentido da manutenção do conhecimento adquirido, é claro que a terceirização é um problema nesse sentido, que você tem uma rotatividade de funcionários que não são da casa. Então, claro que prejudica realmente. A minha posição pessoal, eu sou favorável, sim, vamos dizer a terceirização, de uma certa maneira sim. Mas sou favorável a entrada realmente de servidores no órgão que é o que fortalece, que mantém e preserva o conhecimento da área de negócio que é o que vai possibilitar que a instituição tenha cada vez mais fortalecido a área estratégica, que é realmente sem tecnologia da informação nenhuma empresa consegue gerenciar projeto." Alguns entrevistados não pouparam críticas ao processo de contratação de bens e serviços de TI, instituído pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, no sentido em que as licitações hoje não estariam privilegiando a qualidade da contratação, utilizando apenas o critério menor preço como critério de julgamento: Masculino: " (.... ) O problema da empresa terceirizada é a rotatividade também. Então essa rotatividade, ela é prejudicial, quer dizer, a pessoa leva. E você não mantém a qualidade daquela mão de obra na instituição, não há como você manter. Porque uma vez a legislação obriga praticamente obriga a gente contratar pelo menor valor. A legislação ela força isso, toda instrução 81 normativa força isso, você contratar pelo menor valor. É muito dificil a gente contratar por qualidade, eu acho até hoje é uma palavra proibida no dicionário, a gente não pode usar essa palavra qualidade. Qualidade de preço isso não existe mais não, agora é só por preço. " Feminino: "O problema pra mim na terceirização é a forma como os editais são feitos. Eu acho que foi aquilo que eu falei, as pessoas ...... ou você tem pessoas que tem muito conhecimento técnico da área de TI fazendo aquele projeto básico, então a parte administrativa fica meio em aberto. Então quando você bota aquela licitação, você deixa de uma forma que você não consegue ter uma contratação interessante ao meu ver. (. .. ) Eu não sou contrária se ela fosse feita de forma, se o edital fosse bem feito." O aprimoramento quali-quantitativo dos recursos humanos de TI tem um papel fundamental na melhoria do desempenho do setor público e de suas organizações, visando a efetividade das políticas e programas concebidos principalmente em razão do elevado grau de terceirização na execução de atividades dessa área. A formulação de uma política de gestão pública de TI preocupada com a qualidade da gestão e os resultados derivados da aplicação dos recursos públicos requer servidores em quantitativo adequado para gerir as atividades desenvolvidas, com entendimento amplo e integrado da instituição e de seus objetivos, o que pela entrevistas obtidas, não tem sido uma realidade para as instituições pesquisadas. 82 5. CONCLUSÕES E SUGESTÕES As duas instituições pesquisadas indicam o insucesso da implantação da estratégia geral de TI na Administração Pública Federal como diretriz em assegurar maior autonomia e participação dos servidores públicos da área de TI sob a ótica da flexibilização organizacional. Mesmo após 02 (dois) anos de sua edição, os servidores da Instituição A somente tomaram ciência de seu conteúdo recentemente. Em pior situação, até o momento, a grande maioria dos servidores da Instituição B desconhece totalmente o assunto. O contato dos entrevistados que tiveram ciência da EGTI foi realizado informalmente, através de participação em cursos de capacitação, portais de gestão governamental ou troca de informações com outros servidores, e não por um planejamento ou diretriz do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão ou de suas instituições, considerando-a prioritária para a gestão pública. Não houve por parte do governo federal a preocupação em disseminar os termos da estratrégia geral de TI entre seus órgãos e instituições, apesar da EGTI. Além disso, não houve o cumprimento de diversas providências que deveriam ter sido diretamente tomadas pelo Governo Federal em relação ao aprimoramento quali-quantitativo dos recursos humanos na área de TI, como a criação de gratificações e cursos de capacitação em TI. Apesar do alto grau de qualificação de seus servidores de TI, foi demonstrado que os servidores da Instituição A não participam de qualquer tipo de processo de escolha, julgamento ou decisão sobre as ações de TI, sendo que estes aspectos estariam sob o comando de uma autoridade hierárquica superior, cujas decisões seriam eminentemente políticas. Esta forma de gestão é contraditória com a própria natureza da Instituição A, cuja criação foi justificada para minimizar a subjetividade originária de decisões políticas e tratamento imparcial de suas atividades institucionais. Não foi constatado nenhum tipo de gestão democrática, participativa, transparente e ética, ou a existência de relações flexibilizadas nas duas Instituições. Na Instituição A, além da ausência de participação dos servidores de TI no planejamento estratégico da instituição e no de TI, foi destacado o caráter político da formulação e implantação desses instrumentos, além da falta de comunicação entre todas as áreas internas envolvidas. O instrumento clássico de planejamento de TI, denominado PDTI, sequer foi elaborado por servidores da Instituição 83 A, o que caracteriza a total alienação destes no processo de tomada de decisão. Não há autonomia possível ante a inexistência de discussão ou qualquer tipo de critério de participação, além do político, que oriente a priorização das ações e gastos com TI. Os servidores sequer souberam opinar sobre a suficiência ou não do orçamento da Instituição A, embora conhecessem seus valores estimados. Por outro lado, embora os servidores da Instituição B, em sua malOna, não soubessem os valores anuais de seu orçamento, foi descrita a existência de um maior grau de participação no planejamento de TI, inclusive com elaboração, pelos servidores, de um PDTI. Contudo, é preocupante constatar que os servidores que deveriam ser encarregados da gestão de TI desconheçam claramente o orçamento de sua instituição e como estes recursos estão sendo despendidos. Outro ponto relevante foi a criação do comitê diretivo de TI, que inicialmente possibilitou a abertura de um canal de discussão com as demais áreas da Instituição B, cuja estrutura foi posteriormente alterada para contemplar composição política, ao invés de intermediária e técnica. Na Instituição B, a execução do orçamento estaria delimitada pelo PDTI e pelo Comitê Diretivo. Contudo, ficou evidenciada a sobrecarga de funções meramente operacionais, e não de gestão, e alienação dos servidores no processo de discussão. Mesmo assim, a intenção de proporcionar maior discussão nos processos de priorização de recursos e ações em TI foi posteriormente desvirtuada ante a troca da composição do comitê diretivo; os servidores com algum conhecimento técnico e operacional foram substituídos por superiores hierárquicos. A Instituição B, além de implementar o comitê diretivo de TI e o PDTI, também efetuou mudanças em sua estrutura, com nova disposição da gerência de informática no organograma da instituição para assegurar alguma autonomia e menor ingerência em suas decisões. Embora festejada por alguns servidores, esta alteração aparentemente ainda não foi apta para assegurar, pelo menos, uma maior autonomia dos servidores e do gerente de TI nos processos de discussão. Na verdade, a entrevista realizada junto ao gerente de TI da Instituição B demonstra a dificuldade de implantação de diversos projetos que seriam de interesse de sua instituição, em razão de confronto com algumas diretorias. Obviamente, tal confronto, se não amparado por razões de ordem técnica e pelo interesse social acarretam prejuízo para a gestão pública. 84 Nenhuma das instituições consultadas apresentou um processo formal de transferência de conhecimento ou uma política de treinamento e capacitação de gestores de TI, embora a maioria dos entrevistados, inclusive os gerentes, tenham se manifestado por sua importância. Portanto, observa-se que não houve preocupação do governo federal ou das instituições em cumprir um dos principais itens descritos na EGTI. É possível inferir que tais ausências são contraditórias ao modelo de transformação quali-quantitativa de recursos humanos proposto pela EGTI. Além disso, compromete a gestão pública eficiente não só pela importância estratégica das informações, mas também pelo alto grau de terceirização da área de TI e pela dependência tecnológica. Contudo, apesar da EGTI conter diretrizes, estas foram percebidas como regra e/ou regulamento pela quase totalidade dos entrevistados que dela tiveram conhecimento, na tentativa de padronizar e/ou normatizar as atividades da área de TI, coibir práticas históricas lesivas interesse público, limitar à ação política, sendo sugerido, inclusive, que sua efetividade dependeria de um maior grau de coerção aos gestores públicos. Esta perspectiva dos gestores confirma o referencial teórico proposto, na medida em que a constituição de regras ou ordens estabelecidas legitima o exercício do poder aos que a ela são submetidos, tomando a submissão mais profunda e eficiente, onde o efeito da aplicação destas normas e regulamentos é o conformismo e a alienação, além do menor grau de conflitos. Contudo, depreende-se das entrevistas junto aos servidores da Instituição A o predomínio de autoridade tradicional, com a aceitação de ordens dos superiores como justificadas, porque essa sempre teria sido a maneira pela qual as coisas foram feitas. E possível vislumbrar um alto grau de conflitos em razão da total ausência de normas na Instituição. Já em relação a Instituição B, haveria o predomínio da autoridade racional, legal ou burocrática, ante maior racionalidade do processo produtivo ou administrativo. Por esta razão, na Instituição B evidenciou-se menor grau de conflito, tensão ou mal-estar quando analisada a questão relativa ao provimento de cargos ou funções comissionadas, cuja seleção dos titulares teria sido realizada com base em princípios da meritocracia, pela maioria dos servidores 85 entrevistados. Portanto, o sistema de regras, enquanto sistema de controle, não é vivenciado como coercitivo, mas protetor nas duas instituições pesquisadas. A forma de provimento dos cargos comissionados/funções gratificadas também foi considerada por alguns servidores entrevistados com um mecanismo de cooptação, já que seu preenchimento seria determinado pelo enquadramento determinados padrões impostos pela chefia imediata. Na visão do referencial teórico adotado, está presente seu caráter de mediação econômica, que sustenta a contradição entre a autonomia e controle, existentes nas organizações. A predominância da racionalidade instrumental foi evidenciada na medida em que alguns entrevistados consideram o modelo de mercado um padrão a ser seguido pela Administração Pública Federal. Esta visão também é incompatível com a promoção da cidadania, pois leva em consideração critérios baseado na eficiência, desempenho e lucro, não em valores e o interesse público. Os canais de discussões e a gestão pública devem ser pautados em soluções de questões pragmáticas, éticas e morais, o que não se vislumbrou nesta pesqUIsa. Embora a grande maioria dos servidores pesquisados tenha apontado a existência de algum comprometimento de sua chefia imediata com a implantação da EGTI nas duas instituições, a falta de informação sobre suas diretrizes pelo nível institucional das organizações e as ingerências políticas seriam fatores impeditivos ao seu sucesso. Infere-se que não houve por parte do governo federal uma preocupação em acompanhar os resultados desse novo modelo de gestão de TI junto ao nível institucional das organizações. Cumpre notar que as instituições estudadas apresentaram problemas comuns em relação ao quantitativo de pessoal para gerir os processos de TI e a gestão destes. Este fato sustenta o argumento de que, embora a EGTI tenha instituído como diretriz o aprimoramento quali-quantitativo dos recursos humanos, capacitado para acompanhar e gerir os processos de contratação, não foram ultimadas ações de preenchimento de cargos ou de treinamento. Inclusive, o próprio gerente da Instituição B aponta o cancelamento do concurso previsto para este exercício em razão de contingenciamento orçamentário. 86 Mais uma vez, o governo federal foi omisso em atender as diretrizes por ele fixadas. Coube a cada uma das Instituições verificarem em seu corpo funcional a existência de servidores que pudessem suprir tal carência, independente de possuírem ou não experiência ou conhecimento em TI. Mesmo assim, as instituições estão bem distantes de alcançar os parâmetros fixados pelo governo federal. Todos os entrevistados foram categóricos quanto à necessidade de terceirização das atividades materiais acessórias, instrumentais ou complementares aos assuntos que constituem área de TI de sua instituição, sob o argumento de renovação técnica, imprescindível em uma área de tamanha e constante introdução de novas tecnologias, novos conceitos, novos hardwares e softwares. Contudo, esta visão positiva sobre a terceirização encontrou limites bem específicos. Em primeiro lugar, que a gestão destes serviços fosse realizada por servidores efetivos do quadro de pessoal de cada Instituição e, que nem todos os tipos de serviços deveriam ser terceirizados, o que em particular é a opinião da entrevistadora, ante ao risco para a segurança das informações pertinentes a cada instituição pública. Os problemas encontrados na gestão ineficiente destes serviços residem na ausência de controle, gerando perda do conhecimento ante a inexistência de processo formal de transferência de conhecimento, dependência tecnológica e danos à gestão de segurança da informação. A análise da implantação da EGTI nas duas instituições pesquisadas levou em consideração o aspecto político da variável poder nas organizações, mediante o estudo dos mecanismos de controle e autoridade. Neste sentido, a tecnologia não está sendo um fator de melhor desempenho e eficácia da gestão pública. Não houve, com a EGTI, qualquer transformação qual i-quantitativa dos recursos humanos, e nem mesmo a criação de um novo sujeito histórico nas instituições, autônomo e instruído nas instituições pesquisadas. 87 Verifica-se que algumas organizações da Administração Pública ainda estão estruturadas sob caracteristicas autoritárias e centralizadoras, onde a inferência política é um obstáculo ao interesse público, de acordo com informações obtidas junto aos entrevistados. Especialmente na Instituição A, ordens são obedecidas pois esta é a maneira como "as coisas seriam feitas". Aparentemente, os servidores foram destituídos de qualquer juízo de valor, de sua racionalidade substantiva no exercício de suas funções. Esta situação é incompatível com a própria Constituição Federal na medida em que a Administração Pública deve submeter-se a princípios que foram por ela expressamente definidos. o modelo de descentralização, com delegação de poderes, atribuições e responsabilidades para os escalões inferiores, orientado pela flexibilização organizacional, bem como o comprometimento da gestão pública a processos democráticos vinculados ao interesse social, não foi observada, mesmo após mais de 2 (dois) anos da criação da EGTI. Os servidores das duas instituições pesquisadas, em sua maioria, não participam do planejamento estratégico institucional, nem no de TI, não sabem como os gastos e ações de sua área são priorizados e desconhecem todo e qualquer tipo processo relacionado à transferência de conhecimento. Prevalece a ótica de mercado como um modelo de eficiência e desempenho para os servidores públicos, que inibe a autonomia e não permite o agir comunicativo, que não significa a prescrição total de regras, mas uma nova forma de gestão, baseada em uma concepção dialógica. Como sugestão para próxima pesquisa, entende-se pertinente analisar os conflitos psicológicos dos servidores ante decisões e interferências políticas que foram exaustivamente citadas nesta pesquisa, e em até que ponto tais interferências resultam em prejuízo ao interesse público e a gestão pública, neste modelo centralizador de poder, sob a ótica do cooptação, alienação e eventuais desvios de conduta ética ou legalmente repreensíveis. Também, seria importante pesquisar a existência de alguma relação entre o aumento da autonomia e a satisfação no ambiente de trabalho em se tratando de organizações públicas. Outra questão relevante seria verificar o papel das políticas de recursos humanos na mediação de conflitos decorrentes da variável poder, e do fatalismo que aparentemente toma forma no serviço público federal, caracterizado por um dos servidores entrevistados na 88 Instituição B, que de maneira cristalina, ao ser perguntado sobre possível desestímulo em suas funções ante provisão política de cargos/funções gratificadas: Feminino: "Sim, porque eu acho que dificilmente quem tem merecimento consegue um cargo; é dificil, mas tem exceções, mas eu acho isso muito dificil acontecer no serviço público." A posição da entrevistada apresenta a descrença, a impossibilidade de se pensar em uma Administração Pública que, embora preocupada com o seu desempenho e eficiência, tenha sua conduta voltada à valores como a legalidade, impessoalidade e ética, e consiga promover a autonomia e a conscientização de seus servidores. o desafio da Administração Pública reside em transformar tais princípios em práxis e nos faz refletir sobre a importância de que o Estado produza novas verdades, afaste as formas autocráticas relacionadas ao poder absoluto e compatibilize seu modelo de gestão com a autonomia. Somente através da autonomia, há a possibilidade do predomínio da razão substantiva e a promoção da cidadania, que se lOlCla com seus próprios servidores, responsáveis pela implementação das políticas públicas. Neste sentido, embora a Estratégia Geral de TI (EGTI) proposta pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão se constitua em uma diretriz clara, aplicável a todos os níveis hierárquicos organizacionais, ainda não foi possível realizar a separação entre política e administração, permanecendo o caráter centralizador nas organizações públicas, cujos efeitos na gestão pública devem ser investigados. 89 6 REFERÊNCIAS ABRUCIO, Fernando Luiz, LOUREIRO, Maria Rita. Finanças Públicas, Democracia e ACCOUNTABILITY. In: BIDERMAN, c.; ARVATE, P. (Org.). Economia do setor público no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. ALBUQUERQUE, Lindolfo. Estratégias de recursos humanos e competitividade. IN: OLIVEIRA, Lúcia; VIEIRA, Marcelo (Orgs). Administração Contemporânea: perspectivas estratégicas. São Paulo: Atlas, 1999. ARAGÃO, Alexandre. Agências Reguladoras e a evolução do Direito Administrativo Econômico. Rio de Janeiro: Forense, 2005. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Trad. Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 2002. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:http://www.planalto.gov.br/cciviI03/Constituicao.htm. Acesso em: 15 dez. 2010. BRASIL. Decreto n° 2.271, de 07 de julho de 1997. Dispõe sobre a contratação de serviços pela Administração Pública Federal direta, autárquica e fundacional e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D2271.htm. Acesso em: 06 de abril de 2011. BRASIL. Decreto n° 5.378, de 23 de fevereiro de 2005. Institui o Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização - GESPUBLICA e o Comitê Gestor do Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cciviI03/At02004-2006/2005/Decreto/D5378.htm. Acesso em: 06 de abril de 2011. 90 BRASIL. Decreto nO 6.932, de 11 de agosto de 2009. Dispõe sobre a simplificação do atendimento público prestado ao cidadão, ratifica a dispensa do reconhecimento de firma em documentos produzidos no Brasil, institui a "Carta de Serviços ao Cidadão" e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil 03/ At02007- 201 0/2009/Decreto/D693 2. htm. Acesso em: 06 de abril de 2011. BRASIL. Decreto-Lei n° 200, de 25 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre a organização da Administração Federal, estabelece diretrizes para a Reforma Administrativa e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cciviI03/Decreto-LeilDeI0200.htm. Acesso em: 06 de abril de 2011. BRASIL. Instrução Normativa n° 04, de 12 de novembro de 2008. Dispõe sobre o processo de contratação de Soluções de Tecnologia da Informação pelos órgãos integrantes do Sistema de Administração dos Recursos de Informação e Informática (SISP) do Poder Executivo Federal. Disponível em: http://www.comprasnet.gov.brl. Acesso em 06 de abril de 2011. BRASIL. Portaria n° 11, de 30 de dezembro de 2008. Aprova a Estratégia Geral de Tecnologia da Informação (EGTI) no âmbito do Sistema de Administração dos Recursos de Informação e Informática - SISP na versão de 2008. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 31 dez 2008. Seçãol, p. 207. Disponível em: http://www.governoeletronico.gov.br/sisp-conteudo/normas. Acesso em 20 de dezembro de 2010. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão 140/2005 - TeU - Plenário. Disponível em: http://contas.tcu.gov.br/portaltextual/MostraDocumento?qn=3&doc=3&dpp=20&p=0. Acesso em 15 dez. 2010. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão 667/2005 - TeU - Plenário. Disponível em: http://contas.tcu.gov.br/portaltextual/MostraDocumento?qn=3&doc=3&dpp=20&p=0. Acesso em 15 dez. 2010. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão 2023/2005 - TeU - Plenário. Disponível em: http://contas.tcu.gov.br/portaltextual/MostraDocumento?qn=5&doc= 1&dpp=20&p=0. Acesso em 15 dez. 2010. 91 BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão 786/2006 - TCU - Plenário. Disponível em: http://contas.tcu.gov.br/portaltextuallListaDocumentos?qn=l&p=0&di=l&dpp=20. Acesso em 15 dez. 2010. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão 1603/2008 - TCU - Plenário. Disponível em: http://contas.tcu.gov.br/portaltextual/MostraDocumento?qn=2&doc= 1&dpp=20&p=0. Acesso em 15 dez. 2010. CARVALHO, C. A, VIEIRA, M.M.F. O poder nas organizações. São Paulo: Thomson Learning,2007. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 3° ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000. CLEGG,S., DUNKERLEY, D. Organization, c1ass and control. London: Routledge, 1980. CUNHA, Armando. O Ciclo Orçamentário: Comentários sobre alguns aspectos cruciais. EBAPEIFGV/CIPAD, 1994. _ _ _ o Os Desafios do Estado, da governança e a gestão orçamental. Síntese da intervenção durante o Seminário "Diálogo Brasil/Argentina sobre Gestão Pública Contemporânea" realizado em março de 2007, na sede da EBAPEIFGV, em cooperação com a Subsecretaria e La Gestión Pública da Jefatura de Ministros, República Argentina. DESSLER, Gary. Administração de Recursos Humanos. 2° ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. DI PIETRO, M.S.Z. Direito Administrativo. 15° ed. São Paulo: Atlas, 2003. ETZIONI, Amitai. Organizações Modernas. 2° ed. São Paulo: Pioneira Editora., 1972. GARCEZ, Cícero. Tecnologia da Informação: Paradoxos, Perplexidades e Paradigmas. IN: OLIVEIRA, Fátima (Org). Tecnologia da Informação e da Comunicação articulando Processos, Métodos e Aplicações. 1° edição, Rio de Janeiro:FGV, 2009. 92 GUERREIRO RAMOS, Alberto. Administração e Contexto Brasileiro: Esboço de uma Teoria Geral da Administração. 2° ed. Rio de Janeiro: FGV, 1983. _ _ _ _ _ _ _ _ _ . A Nova Ciência das Organizações: Uma Reconceituação da Riqueza das Nações. 2° ed. Rio de Janeiro: FGV, 1989. JOIA, L.A. Retomo dos Investimentos em TI - Uma visão Crítica. IN: OLIVEIRA, Fátima (Org). Tecnologia da Informação e da Comunicação: a busca de uma visão ampla e estruturada. Rio de Janeiro: Pearson Prentice Hall , 2007. LAKATOS, Eva; MARCONI, M. Técnicas de Pesquisa. São Paulo: Atlas, 1982. MATIAS-PEREIRA, 1. Curso de Administração Pública. 2° ed. São Paulo: Atlas, 2009. MARCUSE, Herbert. Ideologia da Sociedade Industrial. 1° ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967. MEIRELLES, Helly. Direito Administrativo Brasileiro.22° ed. São Paulo: Malheiros, 1997. MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo Brasileiro. 15° ed. São Paulo: Malheiros, 2003. MELLO, M; AMÂNCIO FILHO, A. A gestão de Recursos Humanos em uma instituição pública brasileira de ciência e tecnologia em saúde: o Caso FIOCRUZ. IN: Revista de Administração Pública, v. 44, maio/junho, 2010. Rio de Janeiro: Editora FGV. MINTZBERG, H. Ascensão e queda do planejamento estratégico. São Paulo: Bookman, 2004. et alli. O processo da estratégia: conceitos, contextos e casos selecionados. 4° ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. MORGAN, Gareth. Imagens da Organização. São Paulo: Atlas, 1996. 93 OLIVEIRA, Fabrício Augusto de. Economia e Política das Finanças Públicas no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2009. PAGÉS, Max et alli.O poder das Organizações. São Paulo: Atlas, 1993. PINSONNEAULT, A; KRAEMER K.L, Survey Research methodology in manegement information systems: an assessment. Jornal of Manegement Information Systems, Autumm, v.l0, n.2, p. 75-105,1993. PORTER Michel. Estratégia competitiva. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. PRESTES MOTTA, F. Teoria das Organizações: evolução e crítica. 20 ed. São Paulo: Pioneira Thompson Learnig, 2001. REIS, Eustáquio et alli. Século XX nas Contas Nacionais. In: IBGE, Estatísticas do Século, excerto: de 504 510, disponível http://www.ibge.gov.br/seculoxx/economialcontas nacionais/contas nacionais.shtm. em: Acesso em: 04/0612010. REZENDE, Fernando e CUNHA, Armando. (org) Disciplina Fiscal e Qualidade do Gasto Público: fundamentos da reforma orçamentária. 10 ed. Rio de Janeiro: FGV, 2005. RIFKIN, Jeremy. O fim dos empregos. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2007. RIGGS, Fred. Administração nos Países em Desenvolvimento: a teoria da sociedade prismática. 10 Ed. Rio de Janeiro: FGV, 1968. SIL VA, Clovis et alli. Mudança e estratégia nas organizações: perspectiva cognitiva e institucional. IN: OLIVEIRA, Lúcia; VIEIRA, Marcelo (Orgs). Administração Contemporânea: perspectivas estratégicas. São Paulo: Atlas, 1999. TENORIO, Fernando. Flexibilização Organizacional: mito ou realidade? Rio de Janeiro: FGV, 2000. 94 _ _ _ _o Tecnologia da Informação transformando as organizações e o trabalho. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007a. _ _ _ _o Cidadania e Desenvolvimento Local. Rio de Janeiro: FGV, Ijuí, 2007b. THIRY-CHERQUES, Hennano. Sobreviver ao Trabalho. Rio de Janeiro: FGV, 2004. TCU Sumário Executivo de Levantamento acerca da Governança de Tecnologia da Informação na Administração Pública Federal. Brasília:2008. Disponível em : http://portal2.tcu.gov.br/portal/pagelportal/TCU/comunidades/tecnologia infonnacao/sumarios/ Sumario Goveman%C3%A7a%20em%20TI miolo.pdf Acesso em: 10 de maio de 2010. TRAGTENBERG, Maurício. Burocracia e Ideologia. São Paulo: Ática, 1977. VERGARA, Sylvia Constant. Métodos de Coleta de Dados no Campo. São Paulo: Atlas S.A,2009. _ _ _ _o Métodos de Pesquisa em Administração. São Paulo: Atlas S.A, 2008. _____ . Projetos e Relatórios de Pesquisa em Administração. São Paulo: Atlas S.A,1998. YIN, Robert K. Case Study Research - Design and Methods. Sage Publications Inc., USA, 1989. 95 APÊNDICE I (Roteiro das Entrevistas) 96 Data da entrevista: ------------------------------------------- Cargo Ocupado da Organização: _________________ 01. Cite sua formação profissional: ( ) Doutorado ( ) Mestrado ( ) Especialização Completo ( ) Especialização Incompleto ( ) Superior Completo ( ) Superior Incompleto ( ) Tecnólogo ( ) Ensino Técnico ( ) Ensino Médio 02. Há quantos anos trabalha vinculado à Administração Pública Federal? E na área de TI da sua instituição? 03. De que forma tomou ciência da EGTI da Administração Pública Federal? 04. Como você avalia, quais os pontos positivos e negativos da EGTI da Administração Pública Federal? 05. Sua instituição encontrou alguma dificuldade na implantação da EGTI? Quais? Houve melhorias da gestão? Como se dá a sua participação neste processo? 06. Qual o grau de comprometimento que sua chefia imediata possui em relação à EGTI? 07. Houve alguma política de desenvolvimento ou treinamento de gestores de TI por parte da sua organização? De quem é a iniciativa? 08. Como são definidos os cargos comissionados/funções gratificadas na área de TI de sua instituição? 09. Você participa do planejamento estratégico institucional e de TI da sua instituição? Em caso positivo, em que grau? 10. Por quem são tomadas as decisões sobre priorização das ações e gastos de TI na sua instituição? 11. O quadro de pessoal existente na sua organização é o necessário para o total de demandas existentes? É necessário uma equipe multidisciplinar? 97 12. Sua organização possui processo formal de transferência de conhecimento na área de gestão de TI? 13. Quantos servidores atuam na área de TI de sua instituição? E quantos usuários internos? 14. Quais os valores anuais estimados de gastos com TI de sua instituição? É suficiente? 15. O grau de terceirização da área de TI da Administração Pública Federal afeta o desempenho de sua instituição? Em que aspectos? 16. O que você acha relevante que eu não perguntei?