Mudanças recentes na educação do trabalhador: a voz em movimento Urânia Flores da Cruz Freitas * Domingos Leite Lima Filho ** Resumo: O intuito desse trabalho é pontuar as ações de educação profissional no Brasil, em especial, o Programa de Educação Profissional Integrada à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – (PROEJA). Dentre as diversas discussões que pontuamos pretendemos focar na necessidade atual de verificar a relação entre os discursos oficiais e os anseios dos jovens que freqüentam os cursos, pois é preciso conceder o poder de voz aos atores envolvidos no programa. O objetivo é despertar o debate sobre as possíveis contradições e convergências dos discursos atuais referentes à formação integral dos jovens no Brasil. Palavras-chave: Estado; educação profissional integrada, inovações tecnológicas, juventude e cidadania. Abstract: The intention of this work is to disclose the actions of professional education in Brasil, in special, the Program of Integrated Professional Education to the Basic Education in the Modality of Young Education of Adult - (PROEJA). Among the various discussions that we want to focus on the need to check the current relationship between the official speeches and the aspirations of young people who attend the courses, therefore is necessary to grant the power of voice to the involved actors in the program. The objective is to stimulate debate on the possible contradictions and convergence of current discourse concerning education of young people in Brazil. Key words: State, Integrated Professional Education, Technological Innovations, Youth and Citizenship Introdução No Brasil as atuais mudanças propostas para a educação profissional estão inseridas em um conjunto de estratégias políticas e sociais que carecem de discussão aprofundada pela sociedade como um todo. No entanto, para compreender as reformas propostas e realizadas pelo Estado e, principalmente, descortinar o possível processo de participação dos atores na proposta atual de formação dos cursos do Programa de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na modalidade da Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) - realizados na rede federal de educação profissional e tecnológica sob a coordenação da (SETEC) Secretaria de Educação Tecnológica do Ministério da Educação, e também realizados em algumas redes estaduais de educação. 1 * Mestre em Educação pela UnB, membro do grupo de pesquisa de História do Trabalho (UNICAMP), membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Trabalho, Educação e Tecnologia (GETET), pesquisadora voluntária do PROEJA – UTFPR. End. eletrônico: [email protected] ** Doutor em Educação pela UFSC, coord. do Grupo de Estudos e Pesquisas em Trabalho, Educação e Tecnologia (GETET), professor do PPGTE-UTFPR. End. eletrônico: [email protected] 1 Este é o caso da Rede Estadual de Educação do Paraná. A SEED-PR iniciou em 2008 a oferta de cursos do programa PROEJA. Para o desenvolvimento deste programa as instituições executoras contam com o apoio das Universidades Públicas no tocante a formação de professores para atuarem nessa modalidade.2 Nesse sentido, é providencial compreender as relações que estabelecem os atores entre estado, educação profissional integrada a educação de jovens e adultos, inovações tecnológicas e cidadania. A transição do modelo taylorista/fordista de produção – baseado no uso intensivo de força de trabalho semi-qualificada e com habilidades específicas, para o que se exigia pouco conhecimento teórico – para a fase da produção flexível, em que este mesmo uso dá-se com um trabalhador qualificado, polivalente e cooperativo advém, em parte, da reestruturação produtiva, inovação tecnológica e organizacional ocorridas desde a década de 70. Para garantir competitividade e produtividade a solução encontrada, pelos diversos países e setores sociais foi, segundo FLORES (2006) entre outras ações, adequar a educação profissional da força de trabalho às demandas das novas bases técnicas e organizacionais da acumulação flexível. Dessa forma, as mudanças se efetivaram em função da demanda por competitividade e produtividade dos Estados Nacionais e das Empresas. Há um consenso entre ambos, e majoritário na sociedade, da necessidade de uma força de trabalho mais qualificada diante das inovações ocorridas em que o conhecimento, as competências e as habilidades do trabalhador passam a ser a moeda de troca e de valor. As mudanças ocorridas na educação profissional de nível médio técnico ressaltam, também, em nosso entender, uma série de mudanças no discurso político brasileiro; nas ações referentes às políticas públicas educacionais; nas relações sociais; bem como na incorporação de experiências e saberes produzidos em nível nacional e internacional no tocante a educação do trabalhador. Nesse contexto, apresenta-se como relevante verificar o discurso, as ações e políticas efetivas que perpassam as mudanças propostas para a educação profissional e os atores envolvidos, em especial, os jovens trabalhadores. O caso brasileiro merece, portanto, uma cuidadosa análise tendo em vista que está em seu processo de construção/implementação e é possível, ainda, tentar compreender e pontuar os mecanismos que serão criados para garantir a participação efetiva da parcela excluída da discussão. Essa parcela a qual nos referimos são os jovens 2 Fundamentalmente em Cursos de Especialização lato senso ofertados pelos CEFETs e UTFPR, mediante convênios assinados com o MEC/SETEC. e adultos desempregados que participam do PROEJA e de outros programas governamentais e fazem parte da População em Idade Ativa (PIA). Para educar o trabalhador, o desempregado, o jovem, o negro, o índio e todos os excluídos da educação é preciso gostar deles e reinventar os modelos de inclusão, as formulas determinadas. Com esse argumento em favor da reconstrução do processo de ensino, afirmamos que educar significa forjar um sujeito capaz de construir história própria, ou seja, um sujeito capaz de emancipação política. Historicidade das políticas de qualificação e certificação por competência No período pós-guerra, os países de capitalismo avançado vivenciaram uma situação de quase pleno emprego, no entanto, o mesmo não ocorreu com os de capitalismo tardio, entre eles, o Brasil. No atual processo de desenvolvimento do sistema capitalista a desregulamentação e flexibilização das relações de trabalho e a demanda por uma força de trabalho qualificada ocupam cada vez mais espaço no cenário mundial (MATTOSO, 1994). As transformações nas relações econômicas, políticas e sociais que ocorrem em nível mundial têm destacado a centralidade da Educação Profissional por potencializar, segundo CARNOY (2004) e DELUIZ (1996), a empregabilidade de uma enorme quantidade de trabalhadores que estão à margem do mercado de trabalho; possibilitar o aumento da produtividade e da competitividade e promover a cidadania. Diante da necessidade de novas respostas, os países de capitalismo central começam a implantar mudanças em suas políticas econômicas e sociais, como também em seus sistemas de educação profissional. A partir da década de 1960 os países de capitalismo central passaram a incentivar a educação profissional de sua força de trabalho e recentemente, segundo FIDALGO (1999) começaram a criar programas de certificação de competências. Os debates realizados sobre a necessidade de avançar na construção de sistemas e marcos de qualificação necessários para adquirir, reconhecer, avaliar e certificar competências profissionais partiram, nos mais diversos países, das conclusões sobre a formação e o desenvolvimento das pessoas, adotadas pela Conferência Internacional do Trabalho em sua 88ª reunião, do ano de 2000. As conclusões afirmavam que: el desarrolo de un marco nacional de cualificacionaes sirve a los intereses de las empresas y de los trabajadores por que facilita la educación permanente, ayuda a las empresas y agencias de empleo a armonizar la demanda con la oferta y orienta a las personas en la elección de una formação y una carrera (párrafo 17) 3 (Ministério de Trabalho y Assuntos Sociales. MADRID. s/d. p.5). Como se pode notar, a certificação de competências vem tomando largo espaço de debates e ações em todo o mundo. Ao analisar os sistemas europeus e dos países de capitalismo tardio BERTRAND (2005) apresenta alguns questionamentos que os mais diversos países se fazem ao implantar os sistemas: a certificação deve ter caráter nacional? Um mesmo sistema pode responder às necessidades dos jovens e às dos adultos; às do sistema escolar e às do mercado de trabalho e sob quais condições? Que dispositivos institucionais e que métodos se adaptam às necessidades? Nesse estudo o autor analisa os diferentes atores e mostra, na visão de cada um, os limites e as possibilidades dos referidos sistemas, como também analisa os diferentes modelos e suas relações e lógicas. Em outro estudo sobre competência realizado pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) apresenta-se uma análise das experiências comparadas das competências. Os países estudados foram: Austrália, Canadá, França, Grã Bretanha, México. O estudo é importante porque ao fazer a comparação se observa as diferenças entre os sistemas, como também suas relações. No Brasil essas mudanças começam a ocorrer efetivamente em meados da década de 1990 com o PLANFOR (Plano Nacional de Formação Profissional, do Ministério do Trabalho e Emprego). No entanto, diferente da experiência internacional, como é o caso da Alemanha e o Japão, o PLANFOR não se articulou com a educação formal, na perspectiva da elevação de escolaridade, e nem mesmo com a elevação da qualificação da força de trabalho. A centralidade das ações do PLANFOR esteve vinculada a processos de capacitação e treinamento em cursos aligeirados, com carga horária na maioria dos casos inferior a 100 horas, para ocupação em postos de trabalho precários. Ou seja, o plano não visou desenvolver a educação integral do trabalhador e não minimizou os impactos do desemprego estrutural (POCHMANN, 1999). Com o processo de abertura baseado no modelo neoliberal o que se conseguiu, em nosso entender, foi o aumento das desigualdades sociais e econômicas com o conseqüente aumento da pobreza. 3 Esse estudo traz a análise do contexto econômico e social que ajuda a entender os diferentes sistemas nacionais de certificação profissional baseado em competências. 1- Analisa os países com sistemas regulados pelos governos: Reino Unido, Nova Zelândia, Austrália, África do Sul. 2- Países com sistema impulsionados pelos setores econômicos e profissionais: Estados Unidos. 3- Países com sistemas promovidos pelos agentes sociais: Alemanha, França, Canadá, Espanha. Os dados do IBGE (2000) referentes à América Latina revelam que o Brasil tem o pior índice, 13,63%, de população analfabeta com mais de 15 anos, seguido da Colômbia, com 8%, a Venezuela, com 7%, o Chile, 4%, e a Argentina, com 3%. Mais de um terço (34,7%) dos responsáveis pelas famílias no Brasil não completaram quatro anos de estudo. No caso dos jovens, Barbosa, citado por POCHMANN (2005, p. 31), afirma que “no Brasil, 35% dos jovens de 15 a 17 anos estão matriculados no ensino médio, o Chile tem 85% de seus jovens matriculados”. Os dados revelam que o nível de escolaridade dos trabalhadores continua baixo, fazendo-se necessária uma atitude mais arrojada para enfrentar o atraso educacional num menor espaço de tempo. A sociedade contemporânea está passando por um processo de grandes transformações que resultam em um processo de inovações tecnológicas nas organizações. O impacto dessas inovações materializa-se por intermédio de processos de racionalização organizacional e técnica que incorporam nas empresas novas tecnologias e novos modelos de gestão. Configura-se como desafio o desenvolvimento de uma política social que garanta maior nível de competitividade atual e futura. Segundo HIRATA (1993, p. 13), (...) as mudanças aconteceram simultaneamente tanto com a introdução e difusão da automação microeletrônica na indústria, quanto na divisão social do trabalho, na organização e gestão da mão-de-obra e nos requisitos da qualificação, fortemente ligadas à produção flexível baseada no “modelo japonês” que se apresenta como o paradigma alternativo ao modelo taylorista/fordista. Portanto é preciso também que se busque a educação integral do trabalhador e que haja a elevação da qualidade de vida com a certificação de seus conhecimentos e o respeito ao seu pensamento, a sua experiência no trabalho e seus anseios em relação à educação que deseja e precisa ter. Ao conceber a educação profissional como modalidade integrada à educação básica e como elemento de desenvolvimento da cidadania, pretendemos enfatizar que educação profissional não é apenas um conjunto de conhecimentos técnicos e de habilidades, pois inclui também a relação dos indivíduos com seu contexto político, social, cultural e de trabalho. Dessa forma, o conhecimento é construído em certo campo de valores e representações do mundo. No entanto, Demo, (2004, p.151) nos alerta que, o fato das empresas mais modernas (inclusive públicas) reconhecerem que seus trabalhadores precisam estudar sempre, como parte de sua vida profissional (estudar, pois, durante o trabalho) não elide a possibilidade de ganhos de causa igualmente para o trabalhador. Este entra pela porta dos fundos, porque pela porta da frente entram lucro e competitividade, mas, mesmo assim, seria cabível esperar efeitos salutares para a cidadania do trabalhador. O modelo de certificação de competências discutido pelos representantes dos diversos setores sociais brasileiros, conforme avalia o Ministério da Educação, concebe a certificação como um processo negociado pelas representações dos setores sociais e regulado pelo Estado. Por esse modelo se identifica, avalia e valida formalmente os conhecimentos, saberes, competências, habilidades e aptidões profissionais desenvolvidos por programas educacionais ou na experiência no trabalho. Tem o objetivo de promover o acesso, permanência e progressão no mundo do trabalho e a educação continuada (Brasil. Mec, 2005). Os princípios que norteiam a discussão sobre a certificação/concertação, conforme descrito pela comissão tripartite são: o desenvolvimento socioeconômico com inclusão social, o diálogo tripartite, a transversalidade governamental e visam construir instrumentos que promovam: a) a aprendizagem permanente e a melhoria da força de trabalho no Brasil; b) o acesso, permanência e progressão no mundo do trabalho; c) a participação ativa de representações empresariais, sindicais, governamentais, educacionais e certificadoras; d) a adequada articulação entre os diferentes órgãos governamentais envolvidos com a certificação profissional; e) a adequada integração com o Sistema Público de Emprego e os Sistemas de Educação Nacional. Para dar rumo às propostas foi criada, pelo Governo Lula com representantes dos diversos setores sociais, a Comissão Nacional de Certificação Profissional (CNCP). (idem. 2005) De acordo com o documento elaborado pela comissão, após diversas audiências públicas e considerando as experiências dos vários atores ali representados, a CNCP tem caráter deliberativo e sua finalidade é coordenar, avaliar o Sistema Nacional de Certificação Profissional. Suas competências são: a) formular e avaliar a Política Nacional de Certificação Profissional; b) estabelecer repertório nacional de qualificações certificáveis por meio de ampla consulta pública; c) instituir comissões técnicas setoriais, de caráter multipartite; d) definir mecanismos de consulta pública e participação social. Como se pode observar o Sistema de Certificação em discussão no Brasil se pauta, ao menos nos discursos, pela articulação entre vários setores sociais e a educação profissional de qualidade. O Estado tem um papel relevante e precisa ser analisado com profundidade, pois se seguir o rumo das mudanças efetivadas na década de 90 poderá não contribuir com a emancipação. Segundo FLORES, (2006) “não há dúvida de que houve uma íntima relação entre a demanda empresarial relativa à necessidade da qualificação do novo trabalhador e a ação do Estado brasileiro na década de 90 no campo educativoprodutivo”. Na análise do processo de produção econômica e de reprodução da formação social capitalista norte-americana, GRAMSCI (1968) identificou um processo de adaptação que passava pela internalização, por parte dos trabalhadores, de determinadas formas de comportamento condizentes com as necessidades impostas por aquele modelo de produção; e que a criação do trabalhador fordista não se reduziu a um fenômeno de natureza estritamente econômica, pois se referia, também, ao campo das relações ideológico-políticas presentes na formação social americana. Mesmo considerando a importância e a necessidade de um Sistema Nacional de Certificação, o que pretendemos é compreender o sistema brasileiro, mediante contribuições originárias da análise de experiências internacionais e da análise de Programas nacionais, como o PROEJA. Pretendemos suscitar o debate sobre a importância de participação social, sobre as discordâncias e as convergências do discurso entre os atores envolvidos no PROEJA identificando as relações presentes e seus limites e possibilidades. Enfatizamos que o sujeito, o indivíduo, o ator social é construído pela cultura e pelas relações sociais que estabelecem, como também pela educação escolar que lhe é ou não ofertada ao longo da vida. As propostas da década de 1990 para educação profissional do jovem no Brasil A educação profissional no Brasil, como já dito antes, está passando por constantes reformulações. Começaremos, neste texto, pelas mudanças propostas para educação profissional pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 que apresenta a educação profissional em uma seção específica (artigos 39 a 42), portanto à parte do disposto para a educação básica e a educação superior. Mais uma vez se observa na dualidade da legislação educacional no Brasil as fortes marcas da dualidade estrutural vigente na sociedade brasileira. Essa dualidade está em consonância com o discurso paradigmático proposto para o ensino médio, de que “agora a educação é para a vida”. Tal discurso revela o caráter ideológico da política proposta para o ensino médio que se impôs a partir das mudanças no texto original da LDB e do malfadado decreto n° 2208/97 que estabeleceu modificações restritivas e regressivas à relação entre educação geral e educação profissional, sobretudo no âmbito do nível médio. Apesar de seus limites, o modelo anterior, baseado na Lei 5962/71 e modificações, permitiam ofertar em um mesmo curso e matrícula a educação geral e a formação profissional média técnica. Mesmo que tal modelo funcionasse mais como justaposição do que como integração de conteúdos, ainda assim se apresentava menos regressivo do que a separação efetivada pelas políticas neoliberais da década de 1990, das quais o Decreto 2.208/97 é um exemplo marcante. O discurso predominante na década de 1990 sobre a profissionalização como caminho para a cidadania delegou a escola essa tarefa. Essa visão de construção da cidadania, por meio da educação, está focada nas necessidades do mercado de trabalho e na formação de seres adaptados, no dizer de Gramsci, ao sistema social vigente. Tal visão reafirma o caráter economicista, utilitarista, seletivo, individualizante e excludente presente historicamente na compreensão sobre a relação educação e trabalho no Brasil. Os discursos oficiais de apologia da educação profissional como sendo capaz de possibilitar a atuação eficaz e competente e o exercício da cidadania foram questionados veementemente por professores, alunos, dirigentes, pedagogos e intelectuais. A discussão realizada por esses atores naquele momento e ainda hoje é a formação integral e não só mercadológica dos trabalhadores. Ao referir-se aos discursos oficiais da época KUENZER (2000) revela que, Essa concepção particular, apresentada como consensual, só pode se sustentar pela difusão de um discurso pronto, assimilado individualmente, mas fabricado externamente ao sujeito, isto é, que lhe seja imposto. Para que todos assumam o mesmo discurso, é preciso que ele passe a ser dominante, para o que é decisiva a estratégia comunicacional, (...) distorcida, na medida em que consiste em uma racionalização construída e difundida para atender a interesses determinados. É relevante destacar que a proposta de LDB construída pela sociedade civil brasileira foi fruto do acúmulo das lutas dos movimentos sociais. Elaborada, primeiramente, pelo movimento dos educadores em vários simpósios, fóruns, encontros regionais e nacionais4; pautava-se por mudanças que continham concepções originárias de movimentos de justiça social e democracia, relacionadas tanto às formulações de movimentos socialistas dos trabalhadores como, também, se assentavam no modelo de um Estado democrático e de “Bem Estar Social”. No entanto, os ventos neoliberais e sua hegemonia no Brasil no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995 – 2002), fizeram com que o projeto elaborado pela sociedade civil fosse descartado e em seu lugar aprovada uma outra LDB, a final a Lei 9394/96. Segundo SAVIANI (1997), uma lei minimalista, que em certos aspectos nada regulamentava e permitia ao governo executar políticas de reformas pontuais e de adequação aos interesses dominantes. Nesse sentido, as reformas que se agregaram à LDB, como as reformas do ensino médio, superior e profissional, favoreceram a lógica do mercado e desconsideraram o acúmulo até então conquistado com a formulação e discussão do projeto de lei apresentado pela sociedade civil. Assim, embora a discussão da LDB tenha começado com uma estratégia democrática e de participação social, do seu início em 1988 até a sua promulgação em 1996 sofreu os impactos das políticas neoliberais advindas das influências exógenas da política internacional, consorciados aos interesses das elites dominantes nacionais. Nesse sentido, ensejou o fortalecimento da iniciativa privada em detrimento do fortalecimento da oferta educacional pública e de qualidade e no desenvolvimento da democracia no país. As proposições originárias da sociedade civil, à medida que não se encaixavam nas mudanças, foram desconsideradas e os discursos oficiais e as políticas correspondentes se pautaram por um viés fortemente mercadológico e privatista, em que se localizam valores como gestão pela qualidade total na educação, flexibilidade, eficiência e competências profissionais, próprios do mundo dos negócios. Além da gestão norteada por esses princípios5, a participação da comunidade na gestão escolar (garantida pela LDB) teve o discurso ressignificado pelas teses liberais, que orientavam a transferência da responsabilidade de gestão e de sustentação financeira para a “sociedade”, e que na realidade se adequavam às concepções de desregulamentação e estado social mínimo, abrindo o campo educacional para a iniciativa privada. 4 Podemos citar como exemplo o XI Encontro da ANPED e a V Conferência Brasileira de Educação, em julho e agosto de 1988. 5 A escola foi absorvendo do discurso empresarial, a idéia de gerência, planejamento e rentabilidade, inserida na lógica da lei da oferta e da procura. A política neoliberal do governo na década de 90 revelou a sua face excludente e antidemocrática. Em relação à ação do Estado, no campo educativo, ficou evidente que os espaços de participação social e a voz dos atores sociais inseridos no ambiente escolar foram intencionalmente desarticulados e rearticulados para seus interesses. O que se impôs foi uma forma única de pensar, uma hegemonia e nesse campo a ideologia exerceu o papel central. (MARX; ENGELS, 1984). Os prenúncios do século XXI Com a eleição de um novo governo em 2002, originário de uma articulação histórica de lutas populares e sociais e de uma liderança vinda da classe trabalhadora, a esperança da sociedade e dos educadores é novamente acesa. No entanto, a esperada revogação do decreto n° 2208/97, principal regulador das políticas de educação profissional do governo anterior, e o discurso favorável à integração da educação geral com a qualificação profissional foi, na realidade, um momento de forte embate de forças progressistas e conservadoras. O desenlace deste embate, materializado no Decreto 5154/04, representou, entretanto, uma medida de concessão e conciliação, pois o novo governo restabelece a possibilidade de oferta integrada do ensino médio e educação profissional, porém mantém as formas anteriores, de oferta concomitante e subseqüente. Além disso, contraditoriamente ao que esperavam os educadores e os movimentos sociais, a discussão em torno da LDB não é retomada e o governo opta por fazer políticas focais e compensatórias. A educação profissional não se insere como política pública e opera com programas tais como: Escola de Fábrica, Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e adultos (PROEJA) e o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (PROJOVEM). Segundo FRIGOTTO; CIAVATTA e RAMOS (2005) tomou-se esse caminho, pois, a opção por um novo decreto que revogasse o 2.208/97, em vez da simples regulamentação pelo Conselho Nacional de Educação dos artigos 36 e 39 a 42 da LDB, ou de uma lei específica para a educação profissional, teve, entre outras razões, a consciência de que as forças conservadoras ocupariam espaço para fazerem valer seus interesses, tanto no Conselho Nacional de Educação quanto no Congresso. A avaliação que faziam, segundo os autores, era que com a instituição de um novo decreto (Decreto n. 5.154/04) de caráter transitório, se garantisse a pluralidade de ações a sistemas e instituições de ensino, mobilizasse a Sociedade Civil em torno do assunto. O que se pretendia era a (re)construção de princípios e fundamentos da formação dos trabalhadores para uma concepção emancipatória dessa classe. Acreditava-se que a mobilização da sociedade pela defesa do ensino médio unitário e politécnico, a qual conquanto admitisse a profissionalização, integraria em si os princípios da ciência, do trabalho e da cultura, promoveria um fortalecimento das forças progressistas para a disputa por uma transformação mais estrutural da educação brasileira. Como podemos observar as intenções relativas à mobilização da sociedade não se cumpriu. As políticas de educação profissional implantadas e em curso no Brasil ainda estão longe de transformar-se em políticas públicas, se consideramos como referenciais das políticas públicas conceitos como o controle social e a perenidade, universalidade e qualidade das políticas. Para que seja possível essa transformação a mobilização da sociedade é fundamental, portanto a criação de espaços em que se possa exercitar a participação nos parece cada vez mais inevitáveis. A escola pode ser um espaço, ao lado de outros, em que esse exercício poderá se dar. Assim faz-se necessário descortinar os discursos que pulsam do ambiente escolar para verificar as contradições e convergências entre os discursos oficiais e os anseios dos jovens e da comunidade. A perspectiva de suscitar o debate sobre a participação efetiva, com poder de voz, dos atores envolvidos no PROEJA vem no sentido de que esse programa governamental visa firmar-se como política pública. Está sendo desenvolvido, conforme enunciado pelos documentos do MEC, para buscar melhorar as condições de inclusão social dos trabalhadores; produtividade e competitividade das empresas nacionais e crescimento econômico do Estado diante do processo de inovações tecnológicas recentes no mundo do trabalho e das demandas por educação (MEC/SETEC, 2004). Debater sobre as políticas públicas propostas recentemente para a educação profissional é um desafio, na medida em que é preciso cuidado redobrado no momento do debate tendo em vista que se pretende realizar a discussão baseada nos discursos, e, estes, muitas vezes, parecem distantes do poder da verdade. Ao discutir a relação da verdade e poder FOUCAULT (2005) destaca que a verdade não existe fora do poder ou sem poder e que cada sociedade tem sua política geral de verdade, ou seja, “os tipos de discursos que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros”. A grande contribuição do autor ao descrever a microfísica do poder reside em afirmar que o poder não está no Estado e em nenhum ponto definido na sociedade. Dessa forma o autor apresenta o poder como uma prática social e que pode estar e se dá em qualquer lugar, tempo e espaço. Concluímos destacando a necessidade e importância dessa discussão, com a qual buscamos contribuir com o presente texto, mediante o estímulo ao debate e a realização de pesquisas sobre as políticas de educação profissional, sob a perspectiva dos atores envolvidos no processo, em especial, os jovens que participam dos programas governamentais. Referências: BERTRAND, Olivier. Avaliação e certificação de competências e qualificações profissionais. Brasília: UNESCO/ IIPE, 2005. BRASIL, MINISTÉRIO DO TRABALHO E MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Políticas para a Educação Profissional. Cooperação MEC/MTb. Brasília: MTb, 1995. BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Proposta Governamental para o Sistema Nacional de Certificação Profissional. Mimeo, 2005. CARNOY, Martin. A educação da América Latina está preparando sua força de trabalho para as economias do século XXI? Brasília: UNESCO, Brasil, 2004. DELUIZ, N. A globalização econômica e os desafios à formação profissional. B. T. SENAC, Rio de Janeiro, 1996. 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