Agência Nacional de Vigilância Sanitária www.anvisa.gov.br Consulta Pública nº 37, de 20 de maio de 2004. D.O.U de 21/05/2004 A Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, no uso das atribuições que lhe confere o art. 11, inciso IV, do Regulamento da ANVISA aprovado pelo Decreto nº 3.029, de 16 de abril de 1999, c/c o art. 111, inciso I, alínea “e” do Regimento Interno aprovado pela Portaria nº 593, de 25 de agosto de 2000, publicada no DOU de 22 de dezembro de 2000, em reunião realizada em 17 de maio de 2004, adota a seguinte Consulta Pública e eu, Diretor-Presidente, determino a sua publicação: Art. 1º Fica aberto, a contar da data de publicação desta Consulta Pública, o prazo de 30 (trinta) dias para que sejam apresentadas críticas e sugestões relativas à proposta de Resolução que aprova as Diretrizes para a Transfusão de Hemácias, em anexo. Art. 2º O texto da proposta de Resolução de que trata o art. 1º estará disponível na íntegra, durante o período de consulta, no endereço eletrônico www.anvisa.gov.br, e as sugestões deverão ser encaminhadas por escrito para o seguinte endereço: Agência Nacional de Vigilância Sanitária/Gerência-Geral de Sangue, outros Tecidos, Células e Órgãos, SEPN 515, Bloco "B" Ed. Ômega, Asa Norte, Brasília-DF, CEP 70.770.502, por Fax: (61) 448-1355 ou E-mail: [email protected]. Art. 3º Findo o prazo estipulado no Art. 1º ,a Agência Nacional de Vigilância Sanitária articular-se-á com os órgãos e entidades envolvidos e aqueles que tenham manifestado interesse na matéria, para que indiquem representantes nas discussões posteriores, visando a consolidação do texto final. CLAUDIO MAIEROVITCH PESSANHA HENRIQUES Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº , de de de ......... A Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, no uso de sua atribuição que lhe confere o art. 11, inciso IV, do Regulamento da ANVISA aprovado pelo Decreto 3.029, de 16 de abril de 1999, c/c o art. 111, inciso I, alínea “b”, §1º do Regimento Interno aprovado pela Portaria nº 593, de 25 de agosto de 2000, republicada no DOU de 22 de dezembro de 2000, em reunião realizada em de de 2004, adota a seguinte Resolução da Diretoria Colegiada e eu, Diretor-Presidente determino a sua publicação: Art. 1º Aprovar as Diretrizes para a Transfusão de Hemácias. Art. 2º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação. CLAUDIO MAIEROVITCH PESSANHA HENRIQUES ANEXO DIRETRIZES PARA A TRANSFUSÃO DE HEMÁCIAS 1. DEFINIÇÃO A transfusão de hemácias pode ser feita utilizando-se dois tipos de produtos: o sangue total e o concentrado de hemácias. O sangue total resulta de uma doação de sangue; é armazenado em bolsas plásticas que contêm uma solução anticoagulante e preservante (geralmente CPDA). O concentrado de hemácias é obtido a partir da centrifugação de uma bolsa de sangue total; após a centrifugação, a maior parte do plasma é extraída, restando na bolsa as hemácias e uma pequena quantidade de plasma. Os concentrados de hemácias podem também ser obtidos por aférese. 2. CARACTERÍSTICAS DOS COMPONENTES ERITROCITÁRIOS 2.1 SANGUE TOTAL o O volume de uma bolsa de sangue total varia entre 400 e 500 ml. Deve ser mantido a temperaturas entre 2 e 6 C, e sua validade é de 35 dias. Contém todos os componentes do sangue – além das hemácias, leucócitos, plaquetas e proteínas plasmáticas, incluindo os fatores da coagulação- mas a maior parte destes componentes não é viável. 2.2 CONCENTRADO DE HEMÁCIAS o Seu volume varia entre 220 e 350 ml. Deve ser mantido a temperaturas entre 2 e 6 C, e sua validade varia de 35 a 42 dias, dependendo da solução preservativa utilizada. As soluções tradicionais de CPDA conservam os concentrados de hemácias por 35 dias; as soluções aditivas, que geralmente contêm manitol, preservam as hemácias por 42 dias. Os concentrados de hemácias obtidos por aférese possuem as mesmas características dos concentrados de hemácias tradicionais. Quase sempre são conservados em solução aditiva. 3- ESPECIFICAÇÕES DOS COMPONENTES ERITROCITÁRIOS O quadro I mostra as especificações que cada tipo de componente eritrocitário deve apresentar. Quadro I: Especificações dos Componentes Eritrocitários ESPECIFICAÇÃO VOLUME VALIDADE 400 a 500 ml 35 dias 200 a 280 ml * 42 dias, se conservado em solução aditiva * 35 dias, se conservado em CPDA HEMÁCIAS 180 a 300 ml * 42 dias, se conservado em solução aditiva * 35 dias, se conservado em CPDA TIPO DE HEMOCOMPONENTE SANGUE TOTAL CONCENTRADO DE HEMÀCIAS CONCENTRADO DE AFÉRESE DE 5 - INDICAÇÕES PARA A TRANSFUSÃO DE HEMÁCIAS A função primordial das hemácias é transportar Oxigênio. A transfusão de hemácias estaria por conseguinte indicada naquelas situações em que há necessidade de restaurar rapidamente o transporte de oxigênio, comprometido pela diminuição no teor de hemoglobina, isto é, comprometido por anemia. Entretanto, nem toda anemia exige a transfusão de hemácias. Diante de uma anemia, o organismo lança mão de mecanismos compensatórios, como o aumento do débito cardíaco, que conseguem reduzir a hipóxia. Além disto, a oferta de oxigênio para os tecidos excede em muito a capacidade tisssular para extraí-lo. A capacidade de transporte de oxigênio, conhecida como VO2, é, em um adulto médio, de 600 ml/minuto. Já a capacidade de extrair o oxigênio (DO2) é de cerca de 150 ml/minuto, ou seja, um quarto da oferta. Isto, em parte, explica porque graus mais ou menos acentuados de anemia podem ser tolerados sem comprometimento das funções vitais. Mas além disto, há que se salientar que outros mecanismos compensatórios também são muito importantes para aumentar a tolerância à anemia. A capacidade de transporte de oxigênio de um indivíduo pode ser determinada pela fórmula: T = Q X CaO2 , onde Q= índice cardíaco CaO2= Concentração arterial de oxigênio A concentração arterial de oxigênio, por seu turno, é determinada pela fórmula: CaO2 = SaO2 X Dosagem de hemoglobina X 1,33, onde SaO2 representa a saturação arterial de oxigênio, e 1,39 é uma constante. Assim, o teor de hemoglobina é um componente da concentração arterial de oxigênio que, por sua vez, é um componente da capacidade de transporte de oxigênio. É fácil depreender-se que, em caso de anemia, outras variáveis intervêm para a redução do risco de hipóxia. De um modo geral, considera-se que as anemias em que a dosagem de hemoglobina é superior a 10g/dl (ou hematócrito superior a 30%) são bem toleradas e, só excepcionalmente, requerem transfusão de hemácias. Inversamente, é geralmente aceito que em situações nas quais a hemoglobina é inferior a 6g% exista grande risco de hipóxia tissular e comprometimento das funções vitais, já que abaixo deste limite os mecanismos compensatórios já não seriam eficazes para prevenir o dano tecidual. Evidentemente, estes limites não são rígidos, havendo muitas exceções a esta regra geral, exceções estas que serão detalhadas mais à frente. Entre 6 e 10g/dl de hemoglobina, a anemia pode ou não exigir transfusão, ficando a indicação na dependência da avaliação do estado clínico do paciente, da doença de base, da causa da anemia, da rapidez com que esta pode ser corrigida por outros meios que não a transfusão, da eficácia dos mecanismos de compensação. Aqui, cumpre ressaltar que as anemias de instalação crônica, que cursam com normovolemia, são muito melhor toleradas do que as anemias em que existe hipovolemia associada. As principais indicações e contra-indicações para a transfusão de hemácias serão detalhadas a seguir. 5.1. TRANSFUSÃO DE SANGUE TOTAL Praticamente não há mais nenhuma indicação, na prática médica, para a transfusão de sangue total. Este produto não tem nenhuma vantagem sobre o concentrado de hemácias: o aumento pós-transfusional do hematócrito é idêntico àquele obtido com os concentrados de hemácias, o risco de sobrecarga volêmica é maior, assim como o risco de reações transfusionais, já que o sangue total contém muito mais proteínas e células não viáveis – plaquetas – do que o concentrado de hemácias. Existe uma única indicação para a transfusão de sangue total: a exsanguineotransfusão em recém-nascidos, feita para o tratamento da Doença Hemolítica Peri-Natal. Neste caso, em que é feita uma troca completa do sangue do recém-nascido por um sangue alogênico, é preciso transfundir-se sangue total. O plasma, porém, precisa ser compatível com as hemácias da criança, o que muitas vezes exige que se faça uma reconstituição do sangue total, usando-se concentrado de hemácias O e plasma AB, por exemplo. 5.2 INDICAÇÕES PARA A TRANSFUSÃO DE CONCENTRADO DE HEMÁCIAS 5.2.1 - Transfusão em Cirurgias 5.2.1.1 Transfusão no pré-operatório Uma das situações em que mais freqüentemente se transfunde sangue são as cirurgias (pré, per e pósoperatório). Durante muito tempo, as transfusões no pré-operatório de cirurgias eletivas eram feitas para respeitar a chamada regra dos 10/30, uma regra que estabelecia que não se deve operar eletivamente pacientes com hematócrito inferior a 30% e/ou dosagem de hemoglobina menor que 10g%. Os defensores desta regra achavam que pacientes anêmicos tinham a cicatrização dificultada no pós-operatório, apresentavam risco de doença cardiovascular ou cerebrovascular aguda no per-operatório, estavam mais expostos a infecções e tinham risco aumentado de hemorragias. Nas duas últimas décadas, porém, esta regra foi radicalmente contestada, com base em diversos estudos que mostraram, entre outras coisas: a) A relação entre anemia e cicatrização pós-cirúrgica só existe nas anemias intensas (hematócrito inferior a 15% ou hemoglobina menor que 5g/dl). b) O risco de isquemia coronariana ou cerebral per-operatória só está presente nas anemias intensas (hematócrito inferior a 18%, ou dosagem de hemoglobina menor que 6g/dl), ou em pacientes com doença cardíaca ou aterosclerose cerebral prévia e hematócrito inferior a 30% (hemoglobina menor que 10g/dl). c) A associação entre anemia pré-operatória e risco de infecção pós-operatória nunca foi demonstrada; ao contrário, existem hoje diversos estudos que sugerem uma relação entre transfusão peri-operatória (per?) e infecção. d) Também não há estudo demonstrando correlação entre anemia e hemorragia peri-operatória, exceto em pacientes com trombocitopenia, em que a anemia é um fator de risco para a presença de sangramento. Com base nestas publicações, diversas guidelines, publicadas por associações de especialistas americanos, europeus ou australianos, têm sido publicadas, propondo novos cânones para a transfusão pré-operatória em cirurgias eletivas. Todo este corpo de evidências conduz às seguintes recomendações quanto à transfusão de hemácias no préoperatório de cirurgias eletivas: 1. A dosagem de hemoglobina nunca deve ser o único parâmetro a ser avaliado e nem pode ter um valor decisório absoluto. As condições clínicas do paciente devem ser analisadas cuidadosamente, e a dosagem de hemoglobina (ou o hematócrito) é mais um dos critérios a serem levados em conta. 2. Em pacientes hígidos, isto é, sem doença cardíaca, cerebral ou pulmonar pré-existente, não há indicação para elevar o hematócrito a 30% no pré-operatório. Hematócritos de 20 a 24% são seguros e aceitáveis nestas circunstâncias. 3. Em pacientes com doença cardíaca, pulmonar ou cerebrovascular pré-existente, deve-se elevar o hematócrito para 30% no pré-operatório de cirurgias eletivas. A mesma recomendação deve ser feita em pacientes idosos (idade superior a 70 anos), pelo risco de doença coronariana ou cerebrovascular silenciosa. 4. Em pacientes com trombocitopenias intensas (contagem de plaquetas inferiores a 50.000/ µL), o hematócrito pré-operatório deve ser elevado para 30%. 5. Sempre que possível, deve-se evitar a transfusão eletiva nas 24 horas que antecedem a cirurgia, para atenuar as conseqüências de possível hiperviscosidade sangüínea durante o ato cirúrgico. 5.2.1.2 – Transfusão de Hemácias no pré-operatório A transfusão de hemácias está indicada durante o ato cirúrgico quando a perda sangüínea é maior que 500 ml, ou quando houver sinais de hipóxia decorrente de aguda de sangue. Uma observação importante a respeito da transfusão de hemácias no per-operatório é de que é absolutamente desnecessário aquecer o sangue. 5.2.1.3 – Transfusão de Hemácias no pós-operatório No pós-operatório, a indicação de transfusão de hemácias deve seguir as mesmas regras utilizadas para a transfusão em Clínica Médica ou em Terapia Intensiva, quando os pacientes são internados nestas unidades após a cirurgia. 5.2.2 - Transfusão de Hemácias em Clínica Médica Apesar de todas as ressalvas que possam ser feitas à utilização dos chamados gatilhos transfusionais, isto é, da escolha de determinados níveis de hematócrito ou hemoglobina a partir dos quais deve-se ou não indicar uma transfusão, a transfusão de pacientes clínicos e anêmicos raramente está indicada com hemoglobina superior a 10g/dl, e quase sempre está indicada quando a hemoglobina é menor que 6 a 7g/dl. Entre estes dois limites, a decisão de transfundir o paciente deve ser tomada com base na análise individual de cada caso. É importante destacar que em pacientes com doenças pulmonares obstrutivas crônicas (DPOC), os níveis de hemoglobina podem ser bastante elevados (16-18g/dl, por exemplo) e que diminuições destes níveis para, por exemplo, 13g/dl, podem ser mal tolerados e exigir a transfusão de hemácias. De maneira geral, em pacientes com DPOC sintomáticos deve-se manter a hemoglobina acima de 10g/dl. Do mesmo modo, pacientes com cardiopatias, sobretudo isquêmicas, também toleram muito mal a anemia ou as quedas relativamente brandas do hematócrito. Nestes casos, a transfusão de hemácias deve ser feita para manter os níveis de hemoglobina acima de 9-10g/dl. 5.2.3 Transfusão de Hemácias em Terapia Intensiva Há uma tendência, em pacientes internados em unidades de terapia intensiva, a manter o hematócrito mais elevado, tendo em vista que possíveis mecanismos compensatórios para a anemia estão geralmente comprometidos neste grupo de indivíduos. Entretanto, um estudo multicêntrico canadense, realizado em 1998, mostrou que uma política transfusional restritiva (só transfundir com hemoglobina inferior a 7g/dl) não só não resultava em aumento da morbi-mortalidade, em relação a uma política mais liberal (transfundir sempre que o hematócrito caísse abaixo de 10g/dl), como estava associada a um melhor prognóstico para os pacientes. Desde então, tem havido uma reversão da tendência de manter hematócritos mais elevados em pacientes críticos. Todavia, há ainda poucos trabalhos publicados que dêem suporte a uma proposição de política restritiva nesta circunstância. Há, também, estudos que mostram que em pacientes de terapia intensiva que apresentam algum tipo de cardiopatia, o risco da anemia é bem maior. Considerando o atual estado de conhecimento, a recomendação é de que, em pacientes de terapia intensiva cardiopatas, a hemoglobina seja mantida acima de 10g/dl. Nos demais pacientes, as transfusões com hemoglobina acima de 10g/dl estão quase sempre contra-indicadas; abaixo de 7g/dl, as transfusões só não estão indicadas em algumas situações excepcionais. Com hemoglobina entre 7 e 10g/dl, a decisão sobre transfundir ou não deve ficar a cargo da equipe que cuida do paciente, que deve levar em conta, para tomar esta decisão, todos os parâmetros clínicos disponíveis, além da dosagem da hemoglobina. 5.2.4 Transfusão de hemácias em neonatologia As indicações para a transfusão de hemácias no período neonatal apresentam algumas características bastante peculiares. Os recém-nascidos possuem, em primeiro lugar, índices hematológicos muito diferentes daqueles observados em adultos. Em segundo lugar, a tolerância à anemia, em recém-nascidos, sobretudo nos prematuros, é geralmente muito menor do que em adultos. Além disto, os prematuros são submetidos a um grande número de flebotomias para a realização de exames de laboratório, o que acaba por ter impacto sobre a massa eritrocitária, levando a uma anemia iatrogênica. Há pouquíssimos trabalhos randomizados e controlados acerca das indicações de transfusão em recém-nascidos. A maioria das indicações para o uso de hemácias neste grupo etário foi fruto de consenso profissional ou de guidelines emitidas por experts, não se baseando em resultados de estudos. As principais indicações para o uso de hemácias em Neonatologia seriam então: - Recém-nascidos a termo ou prematuros, em prótese respiratória, e hemoglobina inferior a 13g%. - Recém-nascidos a termo ou prematuros, em prótese respiratória, com FiO2 maior que 70%, e hemoglobina inferior a 15g%. - Recém-nascidos com hemoglobina inferior a 13 g% no primeiro dia de vida - Recém-nascidos com hemoglobina inferior a 13 g% e sepsis, doença cardíaca ou enterocolite necrotizante - Recém-nascidos com hemoglobina inferior a 8 g% e taquicardia superior a 180 bpm ou bradicardia e/ou apnéia ou ganho de peso inferior a 10g/dia por mais de 4 dias na semana - Recém-nascidos com hemoglobina inferior a 10 g% e necessidade de uso de O2 - Recém-nascidos com hemoglobina inferior a 13g% e doença pulmonar, cardíaca cianótica ou ICC - Recém-nascidos com perda sangüínea inferior a 5% da volemia por flebotomias repetidas - Recém-nascidos com hemoglobina inferior a 8 g% em RN estáveis com manifestações clínicas da anemia - Recém-nascidos com perda sangüínea aguda superior a 10% da volemia Recomenda-se fortemente o uso de eritropoietina em prematuros internados em unidades de terapia intensiva neonatais. Este medicamento tem contribuído para reduzir consideravelmente as necessidades transfusionais destes pacientes. 5.2.5 Transfusão de hemácias em Hematologia 5.2.5.1 Transfusão em Doença Falciforme Os falcêmicos, especialmente os que têm a forma SS da doença, cursam com hematócritos relativamente baixos (20-25%). O paciente desenvolve grande tolerância a estes níveis diminuídos de hemoglobina, até porque as hemácias falcêmicas têm uma baixa afinidade pelo oxigênio, o que faz com que a liberação de O2 para os tecidos seja feita com mais facilidade. Portanto, não há indicação para a transfusão de hemácias em falcêmicos que apresentam hematócritos baixos, desde que este seja o seu hematócritos de base. A transfusão simples de hemácias em falcêmicos está indicada apenas nas situações de perdas agudas, ou quando a dosagem de hemoglobina cair dois ou mais gramas abaixo do seu nível basal. Em determinadas circunstâncias clínicas – priapismo, síndrome torácica aguda, AVC, infecções refratárias a antibióticos, crises dolorosas persistentes e de difícil resolução – pode ser necessário baixar rapidamente os níveis de hemoglobina S. A maneira de se lograr este intento é realizando transfusões de troca em que, além de se transfundir hemácias normais (AA), faz-se, concomitantemente, a retirada de sangue do paciente, para assim reduzir o percentual de hemoglobina S. Em pacientes que apresentaram acidente vascular-cerebral, está recomendada a instalação de um programa de transfusão crônica, cujo objetivo é manter os níveis de hemoglobina S abaixo de 30-50%. Este objetivo pode geralmente ser obtido com transfusões de troca iterativas (a cada duas a três semanas) ou mesmo com a transfusão simples, também a cada duas a três semanas. Se a opção for pela transfusão simples, é essencial a utilização de quelante de Ferro, para evitar a sobrecarga de Ferro. Nos falcêmicos que vão se submeter a cirurgias eletivas, ou em gestantes falcêmicas, há quem proponha a manutenção dos níveis de hemoglobina S abaixo de 30-40%, por meio de transfusões simples ou de troca. No entanto, nos dois grandes trials multicêntricos e randomizados que compararam esta estratégia com o follow up simples dos pacientes, transfundindo apenas quando a situação clínica o exigisse, não foi observada nenhuma diferença estatisticamente significativa na evolução peri-operatória ou na freqüência de complicações maternas e neonatais no parto. Não há, portanto, base para se recomendar a adoção da estratégia de transfundir profilaticamente, para manter a hemoglobina S abaixo de 40%. 5.2.5.2 Transfusão em Talassemia A talassemia major é uma das poucas, senão a única doença em que a transfusão de hemácias não é uma terapia de suporte, mas é o próprio tratamento da doença. Há dois esquemas de transfusão recomendados para o tratamento da talassemia major: o primeiro é conhecido como supertransfusão, e consiste em transfundir o paciente a cada duas a três semanas, de modo a manter o seu hematócrito sempre acima de 11g/dl. O segundo esquema, mais clássico, é chamado de hipertransfusão, e consiste na manutenção da hemoglobina acima de 9g/dl, realizando-se para isto transfusões a cada duas a três. Recomenda-se a utilização de qualquer um dois esquemas terapêuticos, sendo fundamental e indispensável acrescentar ao regime transfusional a terapia com quelante de Ferro, sem o que a hemocromatose, uma doença gravíssima e incurável, será irreversível. 5.2.5.3 Transfusão em Transplante de Medula Óssea e nas aplasias de medula pós-quimioterapia A transfusão de hemácias está indicada para manter a hemoglobina acima de 8g/dl, sobretudo se houver trombocitopenia associada (a anemia aumenta o risco de hemorragia). Se houver complicações cardíacas ou pulmonares, é recomendável que a hemoglobina seja mantida acima de 910 g/dl. 5.2.5.4 Transfusão em anemia aplástica A transfusão está indicada para manter a hemoglobina acima de 7g/dl; aqui, porém, é preciso considerar que se o paciente for candidato a receber um transplante de medula óssea, a transfusão só deve ser feita em caso de absoluta intolerância clínica à anemia, já que há uma nítida correlação inversa entre o sucesso do transplante e o número de bolsas de hemácias transfundidas. 5.2.5.5 Transfusão na Anemia Hemolítica Auto-Imune Nas anemias hemolíticas auto-imunes os pacientes apresentam auto-anticorpos dirigidos contra antígenos chamados de públicos, por estarem presentes nas hemácias de todos os indivíduos. Em assim sendo, não existe sangue compatível para a transfusão destes indivíduos. A transfusão de hemácias está indicada apenas nos casos em que a anemia leva a hipóxia grave e comprometimento das funções vitais, independentemente do hematócrito. Deve-se evitar ao máximo a transfusão de hemácias na AHAI, pelos riscos que representa - de aceleração da hemólise autóloga e de hemólise rápida das hemácias transfundidas – Porém, em caso de risco de vida iminente, a transfusão deve ser feita, mesmo sabendo-se que as hemácias são incompatíveis. Recomenda-se, em casos de transfusão na AHAI, que as hemácias sejam transfundidas lentamente (máximo de 1ml/Kg/hora), com cuidadosa observação de efeitos colaterais e, também, a fim de minimizar os riscos de sobrecarga volêmica em pacientes extremamente anêmicos. 5.2.5.6 Transfusão em Insuficiência Renal Crônica (IRC) Os pacientes portadores de insuficiência renal crônica quase apresentam graus acentuados de anemia, devido à diminuição dos níveis séricos de eritropoietina; contudo, a transfusão de hemácias na IRC pode e deve ser evitada, através da reposição de eritropoietina. Esta alternativa terapêutica diminuiu drasticamente a necessidade transfusional destes pacientes. A transfusão é necessária nos pacientes que apresentam hemoglobina inferior a 6 a 7 g/dl, o que, em situação basal, só acontece naqueles que não usam eritropoietina, ou que apresentam algum tipo de problema com esta medicação. Caso os pacientes com IRC necessitem de transfusão de hemácias, estas devem ser feitas durante a diálise, para evitar o risco de sobrecarga volêmica. 5.2.5.7 Transfusão nas Hemorragias Agudas Classicamente, a transfusão de hemácias nas hemorragias agudas é recomendada a partir de uma perda volêmica superior a 25a 30% da volemia total. O hematócrito não é um bom parâmetro para guiar a decisão de transfundir ou não transfundir, devido ao fato de que só começa a diminuir uma a duas horas depois do início da hemorragia. A transfusão de hemácias está indicada nas hemorragias agudas em função dos sinais clínicos. Quando a freqüência cardíaca eleva-se acima de 100-120 bpm, há hipotensão arterial, o débito urinário cai, o enchimento capilar fica retardado (>2segundos), a freqüência respiratória aumenta e o nível de consciência se altera (ansiedade, obnubilação, síncope), é praticamente certo que a perda volêmica foi importantee que o paciente deve ser transfundido imediatamente. 6. ASPECTOS PRÁTICOS DA TRANSFUSÃO DE HEMÁCIAS 6.1 DOSES E INTERVALOS DE ADMINISTRAÇÃO Praticamente não há estudos que procurem determinar a dose ideal para as transfusões de hemácias. Existe uma velha máxima em hemoterapia que estabelecia que quem precisava de uma bolsa de sangue não precisava de nenhuma. A tendência atual vai mais no sentido oposto, que é o de transfundir uma quantidade de hemácias suficiente para a correção dos sinais/sintomas de hipóxia, ou para que a dosagem de hemoglobina atinja um nível aceitável. Considera-se geralmente que a transfusão de uma bolsa de concentrado de hemácias, normalmente, eleva o hematócrito em 3 pontos e a dosagem de hemoglobina em 1g, em um adulto médio. No entanto, estes números são aproximativos. Para determinar com precisão o efeito de uma transfusão, em termos de elevação da hemoglobina, é preciso conhecer a volemia do paciente e o teor de hemoglobina contido em uma bolsa de concentrado de hemácias (que é, em média de 55 a 60g). A melhor fórmula para este cálculo é: CH necessários= (Volemia/100) X (Hb desejada – Hb paciente) Quantidade de Hemoglobina por bolsa Supondo-se um paciente com uma volemia de 4 litros, e uma dosagem de hemoglobina de 6 g/dl, caso se deseje aumentar a hemoglobina para 10g/dl, a quantidade de unidades de concentrado de hemácias necessária seria: CH= 4.000/100 X 4= 2,9 bolsas. 55 Em recém-nascidos, o volume a ser transfundido não deve exceder 10 a 15 ml/Kg/hora. 6.2 COMPATIBILIDADE ABO e Rh A compatibilidade ABO/Rh para a transfusão de hemácias pode ser vista na tabela 1. Em casos de urgência, é possível transfundir sangue Rh positivo para pacientes Rh negativo. Tabela 1: Compatibilidade ABO/Rh para transfusão de hemácias ABO/Rh do paciente Hemácias compatíveis O+ O+ / O Neg A+ A+ / A Neg B+ B+ / B Neg AB+ AB+ / O+ / A+ / B+ / AB Neg / O Neg / A Neg / B Neg O Neg O Neg A neg A Neg / O Neg B Neg B Neg / O Neg AB Neg AB Neg / O Neg / A Neg / B Neg Em recém-nascidos, as hemácias a serem transfundidas precisam ser compatíveis com os anticorpos do sistema ABO, transferidos passivamente pela mãe para a criança, isto é, a escolha do sangue precisa levar em conta o tipo sangüíneo da mãe. Isto ocorre porque os recém-nascidos só começam a desenvolver anticorpos contra os antígenos do sistema ABO a partir do quarto mês de vida. As regras para a compatibilidade Rh são idênticas às dos adultos. A tabela 2 mostra a compatibilidade ABO para as transfusões no período neonatal. Tabela 2: Compatibilidade ABO em recém-natos ABO Recém-Nato ABO Mãe Hemácias Compatíveis O O O A O, A, B O, B O O A A, O B B, O AB AB, A, B, O A B AB O O A A, O B B, O AB O, B, A, AB A A, O B B, O AB O, A, B, AB 6.3 ADIÇÃO DE SUBSTÂNCIAS AO CONCENTRADO DE HEMÁCIAS As hemácias não podem ser transfundidas na mesma linha venosa com nenhum outro tipo de medicamento, à exceção de soro fisiológico. É desnecessário diluir concentrado de hemácias com soro fisiológico; o hematócrito dos concentrados de hemácias permite um bom fluxo mesmo com o uso de escalpes pouco calibrosos (calibre 21 ou até 23, por exemplo). 6.4 TRANSFUSÃO DE PACIENTES FEBRIS A febre não se constitui em contra-indicação absoluta à transfusão de hemácias. É importante tentar baixar a febre, com o uso de antitérmicos, antes da transfusão, porque o surgimento da febre pode ser um sinal de hemólise ou de outro tipo de reação transfusional. Se, porém, o paciente não puder esperar, a transfusão pode ser feita mesmo em presença da febre. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Shibutani K, Frost EA. Defining the low limit of hematocrit for surgical patients. Transfus Science 1993; 14 (4B): 335-343. 2. Vallet B, Lejus C, Ozier Y et al. Peut-on definer le contenu et transport d´Oxygène adaptés aux besoins en cas d´anémie aigue? Cahier Anesthesiol 1996; 45(2): 117-122. 3. Hébert P, Qun Hu L, Biro GP. Review of physiologic mechanisms in response to anemia. Can Med Assoc J 1997; 156 (11 suppl): S27-S40. 4. Greenbrug AG. A physiologic basis for red blood cell transfusion decisions. Am J Surg 1995; 170(Suppl): 44S48S. 5. Carson JL, Hill, S, Carless P et al. Transfusion triggers: a systematic review of the literature. Transfus Med Review 2002; 16(3): 187-199. 6. Guidelines for red bllod cell and plasma transfusioin for adults and chidren. Can Med Assoc J 1997; 156 (11 Suppl): S1-S23. 7. 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