XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS E CRIMES PASSIONAIS: UM ESTUDO DA COMARCA DE TOLEDO/PR (1954-2000) Fernanda Pamplona Ramão Bacharel em Ciências Sociais. Bolsista PIBIC – UNIOESTE/CNPq Membro do Grupo de Pesquisa Cultura, Relações de Gênero e Memória – UNIOESTE / Campus de Toledo. Rua Rafael Picoli, 221. CEP: 85.812-181 – Cascavel / PR E-mail: [email protected] Yonissa Marmitt Wadi Doutora em História Social. Professora dos Cursos de Ciências Sociais e Mestrado em Desenvolvimento Regional e Agronegócios. Líder do Grupo de Pesquisa Cultura, Relações de Gênero e Memória – UNIOESTE / Campus de Toledo. Rua da Faculdade, 645. CEP: 85.903-000. Toledo, PR. E-mail: [email protected] Jefferson Andronio Ramundo Staduto Doutor em Economia Aplicada e dos Cursos de Ciências Econômicas e do Mestrado em Desenvolvimento Regional e Agronegócio – UNIOESTE / Campus de Toledo. Membro do GEPEC – UNIOESTE / Campus de Toledo. Rua da Faculdade, 645. CEP: 85.903-000. Toledo, PR. E-mail: [email protected] 8- Instituições e Organizações na Agricultura Apresentação com presidente da sessão e sem a presença de debatedor 1 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS E CRIMES PASSIONAIS: UM ESTUDO DA COMARCA DE TOLEDO/PR (1954-2000) Resumo Este artigo propõe-se a apresentar e analisar os padrões dos homicídios tentados ou consumados entre parceiros afetivos e/ou sexuais, os chamados “crimes da paixão”, ocorridos na jurisdição da Comarca de Toledo/PR (1954-2000). Trata-se de um texto de caráter exploratório a respeito da incidência desses crimes na temporalidade histórica delimitada, objetivando a compreensão do fenômeno dos “crimes da paixão”, a partir da literatura sobre a temática proposta, das características gerais dos crimes e de dados sóciobiográficos dos atores sociais envolvidos (como acusados e vítimas), considerando suas transformações e permanências num cenário marcado por alterações de natureza sócioeconômicas que modificaram os padrões da região. PALAVRAS-CHAVE: homicídios, atores sociais, transformações sócio-econômicas, Comarca de Toledo/PR. 2 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS E CRIMES PASSIONAIS: UM ESTUDO DA COMARCA DE TOLEDO/PR (1954-2000) 1 1. Introdução Este artigo propõe-se a apresentar e examinar os padrões dos homicídios tentados ou consumados entre parceiros afetivos e/ou sexuais, os chamados “crimes da paixão”, ocorridos na jurisdição da Comarca de Toledo/PR, entre os anos 1954 e 2000. Trata-se de uma discussão a respeito da incidência desses crimes na temporalidade histórica delimitada, paralelamente ao desenvolvimento social, cultural e econômico da região de abrangência da Comarca de Toledo/PR. Visa-se identificar alguns aspectos das transformações sócio-econômicas regionais, que possivelmente alteraram os padrões do tipo de crime em análise. Por se tratar de um crime que envolve, necessariamente, parceiros afetivos e/ou sexuais, não se pode deixar de considerar as mudanças nos papéis sociais de gênero ocorridas no âmbito regional, decorrentes, entre outros fatores, da conversão acelerada de um espaço predominantemente rural para um espaço urbano, e em crescente estado de modernização. Embora a ocorrência desse tipo de crime ultrapasse regionalismos, fronteiras de etnia, geração e de classes sociais, o referido fenômeno apresenta algumas particularidades locais, que se entrelaçam com alguns aspectos da historiografia regional, que serão apresentados posteriormente. De uma região com características predominantemente rurais, a região da Comarca de Toledo/PR, enfrentou um processo acelerado de modernização agrícola, especialmente a partir da década de 1970, e subseqüentemente um intenso processo de urbanização, configurando novas formas de organização social e imprimindo um novo perfil econômico e produtivo na região. Alterações ocorridas na base de uma dada sociedade geram mudanças também na organização das relações interpessoais em seu interior, que acabam se refletindo na formação de novas mentalidades e comportamentos sociais considerados adequados a uma certa coletividade. Objetiva-se a compreensão do fenômeno dos “crimes da paixão”, a partir da literatura específica sobre a temática proposta, bem como através de características gerais dos crimes e de dados sócio-biográficos dos atores sociais (acusados e vítimas), considerando suas transformações e permanências num cenário marcado por alterações de natureza sócioeconômicas que modificaram os padrões da cidade de Toledo/PR, assim como de todo o território da jurisdição da Comarca local. É importante frisar que a bibliografia sobre o tema trabalhado é bastante ausente. Sendo assim, este texto possui um caráter exploratório. O contraponto entre os chamados crimes passionais e as transformações ocorridas no panorama regional, foi realizado com base nos dados colhidos diretamente nos processos criminais, somadas as características do desenvolvimento regional. Entende-se que as variadas formas de consumação dos chamados “crimes passionais” dependem, em alguma medida, do grau de desenvolvimento tecnológico, político, social, econômico e cultural de uma determinada sociedade ou fração desta. Com base nesse fundamento é que o presente texto foi construído. 1 O texto ora apresentado foi construído com base no trabalho de conclusão de curso, porém com algumas inovações na abordagem. 3 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” 2. Procedimentos Metodológicos A pesquisa aborda todos os homicídios “passionais” tentados ou consumados ocorridos na jurisdição da Comarca de Toledo/PR entre os anos 1954 e 2000, independentemente do sexo do agente do delito. A opção de considerar todos os crimes foi adotada por permitir evidenciar as diferenças existentes entre os casos femininos e masculinos, especialmente no que se refere aos agentes desencadeadores do crime. Neste trabalho, optamos por trabalhar com o conceito Comarca, justamente devido a escolha dos processos criminais como fonte de análise. A definição Comarca denota o âmbito territorial, isto é, o limite espacial da jurisdição. Neste sentido, é imprescindível destacar os limites da região estudada. A Comarca de Toledo/PR foi instituída em 1954 e abrangia os municípios de Toledo, Marechal Cândido Rondon, Palotina, Terra Roxa e Guaíra. Por volta dos anos 1960/62, ocorreu o desmembramento das cidades de Guaíra e Terra Roxa, que passaram a constituir outra Comarca. Pouco tempo depois, em 1966, foi criada a Comarca de Marechal Cândido Rondon. Por fim, em 1978 o município de Palotina também foi desmembrado. Assim, contemporaneamente, a Comarca de Toledo abrange, além da cidade de Toledo, os municípios de Nova Santa Rosa, Ouro Verde do Oeste e São Pedro do Iguaçu. A tabela I, abaixo, demonstra a população da Comarca local, por município de sua jurisdição. Em conformidade com as informações acima descritas, é possível perceber que apenas os valores em negrito faziam parte da composição da Comarca em cada década de sua existência. A partir do momento em que deixam de ser destacados, significa que passaram a pertencer à outra Comarca. As décadas onde os municípios não foram recenseados, justifica-se pelo fato de ainda não se encontrarem emancipados. TABELA I – POPULAÇÃO DA COMARCA DE TOLEDO/PR POPULAÇÃO 1950 1960 1970 1980 1991 1996 Toledo 24.959 68.885 81.282 94.879 90.417 Guaíra 21.486 32.876 29.169 30.000 29.282 Marechal Cândido Rondon 43.776 56.210 49.430 37.608 Palotina 43.005 28.248 30.705 24.783 Terra Roxa do Oeste 38.237 25.215 19.820 16.885 Nova Santa Rosa 6.900 7.042 7.069 Ouro Verde 6.330 5.950 São Pedro 7.332 Pop. total da Comarca 46.445 111.890 88.182 108.251 110.768 2000 98.189 28.663 41.014 25.765 16.291 7.121 5.472 7.275 118.057 Fonte: IBGE – Censos Demográficos 1950, 1960, 1970, 1980, 1991, 1996, 2000. As fontes dessa pesquisa são os autos criminais decorrentes do tipo de crime, período e região anteriormente delimitados. Foram localizados 39 processos criminais referentes a tais crimes no intervalo 1954-2000. Parte desses autos, especificamente os datados até o ano de 1979, encontra-se sob guarda do Núcleo de Documentação, Informação e Pesquisa – NDP, da UNIOESTE / Campus de Toledo. A outra parte da documentação analisada encontra-se nas dependências do Fórum da Comarca de Toledo/PR. Concomitantemente à leitura de autores clássicos sobre a temática, foi realizado o levantamento das fontes, primeiramente entre os autos criminais sob guarda do NDP da UNIOESTE / Campus de Toledo e, em seguida, entre os demais autos criminais sob guarda do Fórum da Comarca local. Na seqüência, a pesquisa consistiu no fichamento desses 4 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” processos criminais, através de fichas de identificação circunstanciada dos casos, que foram construídas especialmente para a pesquisa. As reflexões teórico-metodológicas guiaram o trabalho junto às fontes. As variáveis fundamentais contidas nessas fichas (como relação entre vítima e acusado, situação econômica, faixa etária, instrumento do crime, naturalidade, tema do crime, escolaridade, profissão, tipo de advogado, etc.), foram construídas com base nas obras de Corrêa (1983), Fausto (1984) e Ardaillon e Debert (1987). Após terem sido concluídos todos os fichamentos, os dados coletados foram armazenados em um banco de dados, computados e devidamente avaliados, servindo de base para a realização de uma análise mais qualitativa. Com esta tarefa, procuramos construir o perfil dos “crimes da paixão” no local e período anteriormente delimitados, verificando quais os aspectos que se apresentaram como relevantes e que possivelmente influenciaram a forma de ocorrência desses crimes. As variáveis foram construídas com base em categorias encontradas nos próprios autos judiciais ou conforme os padrões do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. O recorte justifica-se, além da série histórica significativa que representa, pelo fácil acesso a grande parte dessa documentação, possibilitado pelo NDP, da UNIOESTE – Campus de Toledo. Ao se estudar os chamados “crimes passionais” através de processos judiciais, tenta-se aproximar amplas estruturas e processos sociais de um lado, e de outro as experiências e práticas do cotidiano (FAUSTO, 1984). O uso de processos judiciais como fonte de pesquisa é um método já legitimado no meio acadêmico, devido à riqueza de possibilidades analíticas que propicia ao pesquisador. De modo geral, pode-se ler o processo judicial tanto sob uma ótica técnica – considerando-se as normas, os prazos, etc., quanto por uma leitura social. Aqui, optamos por esta última possibilidade. Ribeiro (1997) afirma a possibilidade de se discutir, através dos processos judiciais, aspectos culturais, econômicos e sociais de uma dada sociedade ou fração desta, as normas, a moral, enfim, possibilita o estudo das representações e das práticas sociais. Por opção metodológica, o intervalo pesquisado (1954-2000) foi dividido em dois períodos, de acordo com o critério da maior homogeneidade das características dos crimes. O primeiro abrange o período entre os anos 1954 e 1979. Este primeiro momento refere-se a um período histórico que antecede a eclosão de uma série de transformações no cenário local. Certamente, essas mudanças não ocorreram de forma abrupta, pois grandes transformações sociais, culturais e econômicas precisam de um certo tempo para acontecer. Contudo, é partir desse momento que essas transformações passam a ser percebidas e/ou incorporadas com maior intensidade nas práticas dos sujeitos sociais que integram a região estudada. Desse modo, o período 1954-1979 pode ser considerado até certo ponto uniforme. O segundo momento histórico (1980-2000), da mesma forma, apresenta características diferenciadas com relação ao primeiro período. Essas diferenças podem ser entendidas, em larga medida, como reflexos das mudanças ocorridas na estrutura econômica e social da região da Comarca de Toledo/PR. 3. “Crimes da Paixão”: uma breve revisão bibliográfica Proveniente do latim homicidium (morte violenta), a designação da palavra homicídio no sentido penal exprime a destruição da vida de um ente humano, provocada por ato voluntário (ação ou omissão) de outro ser humano. Segundo as circunstâncias em que o homicídio é praticado ele é considerado como: homicídio simples, quando se destrói a vida de alguém através de um ato voluntário, sem qualquer agravante que altere sua natureza comum; homicídio qualificado, quando possui maior gravidade, tendo em vista a intensidade do dolo e o grau de perversidade do agente; 5 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” e homicídio culposo, no qual não há intenção criminosa, isto é, quando não houve a intenção de matar e cujo ato não foi previsto pelo agente, como os acidentes de trânsito. Conforme visualiza-se nos processos estudados, os chamados “crimes da paixão” são enquadrados, em sua maioria, como homicídio qualificado, isso devido às circunstâncias do fato. A gradação da pena depende dos motivos desencadeadores do crime, bem como dos modos e dos meios empregados para sua consumação. O rompimento máximo das relações de sociabilidade – o atentado contra a vida de alguém – é a ação humana mais constantemente criminalizada nas diferentes sociedades. Nas palavras de Fausto (1985, p. 92): “o alcance da definição, a maior ou menor reprovação social do ato, de acordo com as circunstancias ou contra quem se dirija, podem variar, porém a regra básica é a da cominação de pena a quem suprime uma vida”. A pesquisa aborda os homicídios tentados ou consumados entre parceiros afetivos e/ou sexuais, os chamados “crimes da paixão”. Entende-se por homicídio consumado aquele no qual o ato de destruição pretendido pelo agente, ou os meios por ele empregados realizaram a sua intenção criminosa de matar a pessoa por ele visada. Esse termo é empregado em oposição ao sentido de homicídio tentado, que denota o fato que não se cumpriu em face de atos ou circunstâncias alheias à vontade do agente (PLÁCIDO e SILVA, 2000). É fundamental ressaltar que não é qualquer delito envolvendo um homem e uma mulher, mesmo que possuam um relacionamento amoroso, que é denominado passional em linguagem jurídica. São considerados passionais apenas aqueles crimes nos quais os motivos que levaram o agente à prática do crime foram resultantes do “amor” excessivo, como ciúme, traição, abandono, etc. Esses assassinatos deflagram uma crise num certo nível de valores e são reflexos da quebra do sistema normativo e dos estereótipos do masculino e do feminino aceitos como ideais pela nossa sociedade. Embora nem todos os casos estudados sejam de cunho passional, na acepção jurídica do termo, em todos os casos os sujeitos estão envoltos em uma relação afetiva e/ou sexual que, necessariamente, os coloca na trama dos papéis sociais e sexuais construídos historicamente. Por se tratar de uma modalidade criminosa que obrigatoriamente envolve um homem e uma mulher, inseridos em uma relação afetiva e/ou sexual, não se pode deixar de tecer algumas considerações sobre determinadas mudanças no papel social de gênero durante a temporalidade histórica estudada. O conceito gênero é utilizado para designar um sistema de relações entre homens e mulheres que é determinado por contextos sociais, culturais, políticos e econômicos, e não por características naturais ou biológicas. A definição do conceito de papéis de gênero é apresentada como: “modos de ser e de interagir como mulheres e homens, que são moldados pela história, ideologia, cultura, religião e pelo desenvolvimento econômico. Os papéis de gênero são aprendidos” [grifo da autora] (INSTRAW, 1995, p. 15). Esses papéis de gênero ou os estereótipos do masculino e do feminino considerados como ideais em nossa sociedade são construídos coletivamente e podem variar de acordo com o lugar e com a época. Na organização social de gênero vigente na sociedade brasileira no primeiro período estudado (1954-1979) ainda estava muito arraigado no imaginário coletivo padrões fixos de comportamentos para mulheres e homens. Essas imagens idealizadas do masculino e do feminino “... só ganham forma e têm tanta eficácia em situações vividas porque partem de um substrato de representações profundamente ancorado na consciência coletiva” (FAUSTO, 1984, p. 113). Ao homem competia a atuação na esfera pública (o trabalho), enquanto a área de atuação feminina se limitava ao âmbito privado. Essa relação concedia ao homem um status de 6 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” superioridade, uma certa ‘autoridade’ enquanto provedor do lar e chefe de família, que era legitimada socialmente. Assim, o sistema normativo dominante “sanciona uma estrutura de relações entre marido e mulher que, por sua natureza desigual, necessariamente gera violência” (CORRÊA, 1983, p. 11). Há certas formas de violência que são, em alguma medida, legitimadas em nossa sociedade, a exemplo da agressão física às mulheres. Segundo Fausto essa é uma prática “tida como receita pedagógica eficaz na sociedade brasileira e não apenas nela” (1985, p. 93-94). Esse tipo de violência é, até certo ponto, tolerada pela coletividade e faz parte do processo de socialização dominante. Entretanto, esse quadro de violência nas relações pessoais, especialmente entre companheiros afetivos e/ou sexuais, pode evoluir e chegar ao caso limite da agressividade física: o ato do homicídio. O segundo período analisado (1980-2000), além de ser caracterizado pela emergência de um padrão de organização social e econômico diferenciado na região da Comarca de Toledo/PR, apresenta um novo modelo histórico de organização social de gênero: a promoção de um referencial mais igualitário entre homens e mulheres. Para Lypovetsky (2000), as mulheres conquistaram o direito a uma maior independência econômica, a exercer empregos variados, etc. Conquistas sociais sem dúvida irreversíveis. Na verdade, nenhuma atividade está, a princípio, fechada para as mulheres. Assim como os homens, estas encontram-se entregues ao imperativo moderno de definir e inventar inteiramente sua própria vida. Esse modelo conhecido como o período da terceira mulher marca uma grande ruptura histórica, entretanto, Lypovetsky (2000) destaca que esse modelo de organização da estrutura social de gênero não significa o desaparecimento das desigualdades entre os sexos, mas apenas a não-diretividade dos modelos sociais de gênero. As mulheres são vistas, assim como os homens, como “promotoras dinâmicas de transformações sociais que podem alterar a vida das mulheres e dos homens” (Sem, 2000, p. 221), e conseqüentemente, do conjunto social ou de uma fração deste. Especialmente nesse segundo período histórico (1980-2000), há mais visibilidade das mulheres no cenário regional. Essas se deslocaram do ambiente exclusivamente doméstico e passaram a se projetar mais socialmente, participando mais da esfera da vida pública. 4. Características gerais dos “Crimes da Paixão” - Comarca de Toledo/PR (19542000) O universo pesquisado foi dividido em dois grupos. No primeiro, considera-se todos os casos registrados no período entre os anos 1954 e 1979 e, no segundo grupo considera-se os crimes ocorridos entre 1980 e 2000. Verifica-se que cada um desses agrupamentos possui uma certa uniformidade, tanto no que diz respeito aos perfis dos protagonistas dos crimes, bem como na forma de sua consumação. Na seqüência, os dados levantados serão apresentados de acordo com os períodos e servirão de subsídio para a análise que será realizada no próximo tópico, relacionando as permanências e transformações ocorridas no intervalo 1954-2000, e suas inter-relações com as mudanças no desenvolvimento da região de Toledo/PR. A ilustração a seguir permite visualizar o universo dos crimes passionais transformados em processos criminais na Comarca de Toledo/PR durante todo o intervalo pesquisado (1954-2000): 7 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” Gráfico I - Crimes Passionais registrados na jurisdição da Comarca de Toledo/PR (1954-2000) 4 3 2 1 0 54 56 58 60 62 64 66 68 70 72 74 76 78 80 82 84 86 88 90 92 94 96 98 0.0 Homicídios tentados ou consumados entre parceiros afetivos e/ou sexuais Fonte: Livro de Registro de Ações Penais. Comarca de Toledo (1954-2000). 4.1. Padrões dos Crimes da Paixão registrados na jurisdição da Comarca de Toledo/PR (1954-1979) No primeiro momento histórico (1954-1979), foram encontrados 19 crimes decorrentes dos chamados homicídios passionais. Nota-se claramente, a predominância da vida rural no cotidiano dos sujeitos envolvidos nesse tipo de conflito na jurisdição da Comarca de Toledo/PR durante esse primeiro período. A maioria dos homicidas, 15 exatamente, são do sexo masculino, contra 4 do sexo feminino. O tipo de união predominante entre réus e vítimas nos processos analisados, o casamento - seja este civil ou religioso, ou ambos -, corresponde a 47% do total, seguido respectivamente por 37% de amásios e 16% de amantes. Isso significa que 84% dos crimes ocorreram entre parceiros estáveis, que compartilhavam a mesma residência e tinham suas vidas cotidianas em comum. Por meio da variável tempo de relacionamento, verifica-se que além da predominância de uxoricídios, ou seja, de assassinatos entre cônjuges 2 , esses crimes são também típicos de relações duradouras. Cerca de 26% do total refere-se a relações constituídas entre dez e quinze anos, e outros 26% correspondem a relações com um ano ou menos de duração. Conviviam há mais de cinco anos 57% dos protagonistas e aproximadamente 42% dos envolvidos possuíam uma relação constituída há mais de dez anos. Para reforçar essa proposição, referente ao vínculo entre os envolvidos, verificamos que 74% dos dezenove parceiros afetivos e/ou sexuais analisados, possuíam filhos em comum. A maior incidência aparece na faixa referente a até cinco filhos (47%). Na seqüência nota-se que 26% possuíam entre cinco e dez filhos. A respeito da informação sobre a condição econômica dos envolvidos foram encontradas algumas dificuldades, pois esse dado não aparece de modo objetivo em grande parte dos processos. Assim, a variável referente à situação econômica de acusados e vítimas foi coletada de modo indireto, através de pistas e indícios presentes nos autos, como: a 2 Aqui, utilizamos a denominação cônjuge para designar os envolvidos que possuíam uma relação institucionalizada, o casamento. Contudo, conforme demonstram as categorias utilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, na atualidade a denominação cônjuge faz referência também a indivíduos amasiados. 8 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” contratação de advogado próprio ou a indicação de um advogado dativo 3 ; através da profissão dos envolvidos; através do documento de qualificação do indiciado, presente em alguns processos, onde aparece menção à “condição econômica”, encontrando-se informações como “precária”, “regular”, etc. Por opção metodológica, foram criadas as categorias: baixa, média e alta. São categorias bastante abrangentes, porém constituem-se como o meio considerado capaz de operacionalizar esses dados. Dentre os dezenove casos encontrados, dez envolveram parceiros de situação econômica baixa, o que corresponde a 53%. Oito crimes ocorreram entre indivíduos de situação econômica média e apenas um caso foi registrado no período estudado envolvendo pessoas de situação econômica considerada alta. A discussão sobre os agentes desencadeadores do crime é essencial para esta pesquisa, na medida em que é “indicativa das normas sociais de comportamento vigentes, das expectativas de conduta que estabelecem uma gradação do ato homicida, considerado ‘torpe’ em um extremo e ‘justificado’, no outro” (FAUSTO, 1984, p. 103). Por meio dos dados sobre o ensejo do assassinato entre parceiros afetivos e/ou sexuais, é possível visualizar, em alguma medida, os valores morais de uma dada sociedade, assim como os pretextos que podem servir de justificativa para a consumação desse tipo de crime. Contudo, como aponta Fausto (1984, p. 103), a expressão ‘motivo’ “denota uma linearidade causal, que não dá conta do complexo de desejos, impulsos, racionalizações capazes de gerar uma conduta agressiva”. Dessa forma, a exemplo de Fausto (1984) e Corrêa (1983) optamos por trabalhar com a terminologia ‘tema’ ao invés de ‘motivo’. O ato extremo de tentar contra a vida humana, supostamente do ser amado, foi desencadeado, em grande parte dos crimes, por questões de “ciúmes” – correspondente a 37% dos casos encontrados. Logo em seguida, aparecem os temas “brigas” (21%), “traição” (16%) e “maus tratos” (11%). As outras categorias (abandono, negativa de autoria e ignorado) representam 5% do universo cada uma. Apenas onze crimes podem ser classificados verdadeiramente como passionais, isto é, 57% do total. Nessa categoria foram incluídos os crimes desencadeados por ciúmes, abandono ou traição. Para a categorização dos outros crimes, foram considerados os delitos motivados por brigas e maus tratos. O local predominante para a consumação do crime foi a própria residência dos protagonistas, o que ocorreu em 10 crimes. Em segundo lugar, constatou-se que o delito ocorreu nas proximidades da residência da vítima, em 5 crimes. Se agregadas essas duas categorias, encontra-se o percentual de 78% dos crimes ocorridos no espaço de vida em comum ou muito próximo a ele, o que é altamente significativo. Na seqüência, em dois crimes aparece a casa de parentes e, em dois outros delitos, aparecem outros lugares, especificamente um crime ocorrido em um mamonal e outro em um matagal. Confirmando a literatura existente (como IZUMINO, 1997), os dados comprovam, com 32% das ocorrências, o dia preferencial da agressão ocorrida no espaço doméstico como sendo o domingo. Se considerarmos todos os delitos ocorridos em finais de semana (sábado e domingo), momento em que a maioria dos protagonistas do caso passavam mais tempo juntos, o índice sobe para 42%. Na seqüência, aparecem respectivamente a segundafeira, com 26%, a quinta-feira com 21% e o sábado e a terça-feira, ambos com 10,5%. O período do dia predominante do acontecimento dos crimes foi a madrugada, isto é, a partir da meia-noite, quando ocorreram 26% dos casos. Manhã e tarde tiveram 21% das ocorrências cada uma. A categoria ignorada engloba os crimes que foram descobertos alguns dias depois ou processos que não registraram essa informação, ou seja, 32%. 3 A definição advogado dativo refere-se à categoria dos defensores que foram designados pelo juiz para atuar no caso, visto a impossibilidade do próprio acusado contratar um defensor próprio. 9 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” Os instrumentos utilizados na prática do crime podem ser considerados reflexos dos padrões da atividade cultural, econômica, de uma política de Estado ou do estágio de desenvolvimento tecnológico de uma dada sociedade (FAUSTO, 1984, p. 95). Pelo fato da região abrangida pela Comarca de Toledo entre os anos 1954 e 1979 possuir ainda raízes e características fortemente rurais, tem-se uma maior utilização de armas brancas, com destaque para facas e foices, seguidas de machados. As chamadas armas brancas foram responsáveis por 47% dos delitos. Nessa variável foram agregados facas, punhais, machados e foices. Em seguida, aparece a categoria armas de fogo (37%), que inclui revólveres, pistolas e garruchas. Se desagregadas ambas as categorias, armas brancas e armas de fogo, temos um número maior de crimes cometidos com garruchas. Em apenas sete casos, dos dezenove que compõem o universo estudado nesse primeiro período, o(a) acusado(a) foi preso em flagrante delito. Três mulheres, o equivalente a 75% do total do universo feminino, foram presas imediatamente após a consumação do crime, contra quatro homens, o que corresponde a cerca de 27% do universo masculino. Uma diferença bastante significativa. Do mesmo modo como os homens constituíram a maior parte do universo dos homicidas passionais na região e período estudados, os representantes do sexo masculino também predominaram na composição do Júri Popular. Nos oito processos decorrentes dos “crimes da paixão” que chegaram ao Tribunal do Júri na Comarca de Toledo/PR, entre 1954 e 1979, apenas cinco mulheres participaram do Conselho de Sentença, contra 51 homens. Dentre os dezenove casos de homicídios ou tentativas de homicídios registrados no período, apenas 12 réus foram levados a julgamento, pois uma parcela dos acusados faleceu antes do julgamento, outra parcela foi absolvida sumariamente pelo juiz, e outra nunca foi encontrada pela justiça. O gráfico abaixo ilustra o desfecho dos processos julgados: Gráfico II - Desfechos processuais (1954-1979) 25% Absolvição 50% 25% Condenação Absolvição, mas com internamento como medida de segurança Fonte: Processos Criminais da Comarca de Toledo/PR (1954-1979) Foi verificado que, em 50% dos casos a sentença foi a favor do acusado do sexo masculino (cinco casos) e, em um caso, beneficiou uma mulher. Verifica-se 25% de condenação, onde todos os acusados eram homens. Dentre os casos de absolvição, mas com internamento como medida de segurança, têm-se duas mulheres e um homem, identificado como indígena. Dentre os casos julgados, sete réus (seis homens e uma mulher) contaram com o apoio de um defensor próprio e os outros cinco (duas mulheres e três homens), conseqüentemente, com a ajuda de um defensor dativo. A relação entre o tipo de advogado e a sentença evidencia que nos processos onde atuaram advogados dativos ocorreu uma proporção maior de condenações (40%), em oposição aos casos onde a defesa foi realizada por um 10 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” defensor próprio (14%). Nos processos onde os réus foram defendidos por advogados dativos, não houve absolvições “totais”, por assim dizer, mas apenas absolvições com internamento como medida de segurança, o que corresponde à 60% dos casos, com duas mulheres e um homem, um indígena. Em casos onde atuaram defensores próprios, sete no total, apenas um réu do sexo masculino foi condenado, contra seis absolvições, mais propriamente cinco homens e uma mulher. Em julgamentos onde a defesa foi realizada por um defensor constituído pelo próprio acusado, o índice de absolvição foi de 86%. Os crimes cometidos por mulheres foram todos consumados, enquanto que os cometidos por indivíduos do sexo masculino foram consumados em nove (60%), dos quinze casos. Verifica-se que os indiciados do sexo masculino eram, em geral, um pouco mais novos do que as acusadas. As faixas etárias predominantes no caso masculino ficam entre 30 a 34 e 35 a 39 anos, com quatro casos cada uma (27%). Se agregadas essas duas categorias temos um percentual de 53% do universo masculino total. Em se tratando das mulheres, embora em número proporcionalmente menor do que os homens, verifica-se que 50% das rés possuíam mais de quarenta anos na data do crime. No que se refere à cor dos agentes dos crimes constatou-se que todas as mulheres acusadas de assassinar seus companheiros foram classificadas pelos atores jurídicos como sendo da cor branca. No caso masculino não há predominância na variável cor, sendo que tanto brancos quanto pardos representam 40% do total de casos cada. Foi registrado um caso onde o acusado era indígena e outros dois casos onde os acusados eram da cor preta. Nota-se que o universo das acusadas é mais homogêneo que o universo masculino, ainda que consubstancialmente menor. Como na variável anterior, os dados sobre o estado civil das mulheres indiciadas são totais: todas eram legalmente casadas com suas vítimas. O mesmo não se pode afirmar dos homens: dentre os quinze casos registrados, em apenas dez, ou 66% das ocorrências, os indiciados possuíam uma relação institucionalizada com a vítima, o casamento. Quatro réus (27%) eram solteiros e um amasiado (7%), incluído na categoria outros, visto que na época não era um padrão legitimado, como é atualmente. Dentre as mulheres, apenas uma das rés possuía emprego formal, o que não era muito comum na época, só o fazendo, segundo informações dos processos, por necessidade de subsistência de seus filhos. Os homicidas do sexo masculino, em sua maioria absoluta (8 casos), trabalhavam no campo, configurando 53% do universo masculino, o que não surge como surpresa visto que, no momento histórico em análise, havia uma predominância de população rural e, portanto, de ocupações ligadas a atividade rural, na região abrangida pela Comarca de Toledo. Seguem-se 13% de casos (2 casos) envolvendo comerciantes. Outras categorias, como soldado, professor, motorista, contabilista e sem definição, somam apenas 6% cada. No que se refere à escolaridade, em três casos o auto criminal não apresentava tal informação sobre os envolvidos no universo masculino, talvez por não ser uma informação fundamental do ponto de vista jurídico. Desconsiderando os três casos sem informação, tem-se dez acusados com escolaridade inferior ao ensino fundamental incompleto ou 66% dos réus. No universo feminino, duas das quatro rés possuíam o ensino básico completo. Uma era analfabeta e a outra, professora, possuía o ensino fundamental incompleto. A maior freqüência registrada nos autos de processos criminais estudados sobre a naturalidade dos envolvidos refere-se a acusados provenientes de outros estados brasileiros. No caso masculino, o percentual chega a 73% ou 11 casos ( dos estados: SC, MG, BA, SP, AL, RS), enquanto no caso feminino completa os 100% (SP, RS). Em dois processos, a informação não foi encontrada. Se agregadas as taxas de acusados do sexo feminino e do sexo masculino, temos um total de 79% de réus naturais de outros estados. O grande número de acusados provenientes de outros estados, certamente decorre do fato de 11 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” que a região da Comarca de Toledo era de colonização bastante recente no período (19541979), coincidindo o período com a vinda de correntes migratórias de várias partes do Brasil para a região Oeste do Paraná. Em se tratando de antecedentes criminais, nenhuma das mulheres acusadas possuía antecedentes criminais. Já no caso masculino levantou-se um índice de 20% de acusados com passagens pela polícia, porém nenhum chegara a ser condenado, cumprindo pena anteriormente. Na maioria dos processos analisados, os dados referentes às vítimas são mais ausentes. Dentre as vítimas do sexo masculino, quatro no total, apenas em um processo constava a idade do assassinado: 66 anos de idade. A idade das vítimas do sexo feminino não foi identificada em 33% dos autos criminais. A faixa etária mais encontrada foi de 20 a 24 anos, com o equivalente a 27%. Foram identificadas ainda duas vítimas com idade entre 15 e 19 (13%), e duas com idade entre 30 e 34 (13%). Um índice de 60% das vítimas do sexo feminino não tiveram sua cor identificada pelos técnicos judiciários. Outras 33% foram classificadas como sendo da cor branca e 6% da cor amarela. No caso masculino, foi encontrado apenas um processo com a informação, onde a cor da vítima estava registrada, e esta era branca. Quanto à profissão dos acusados, nota-se que dos quatro, dois eram agricultores, um atuava como caminhoneiro, e outro era sócio em uma firma de natureza não identificada no processo. Grande parte dos processos (32%), não informava a ocupação que as mulheres desempenhavam quando foram vítimas de seus companheiros. Foram encontrados quatro processos nos quais as vítimas foram intituladas ‘domésticas’, e quatro mulheres onde as mulheres foram tidas como ocupando-se de ‘prendas domésticas’. Contudo, há fortes indícios de que essas mulheres classificadas como domésticas eram, na verdade, donas de casa, pois nos depoimentos e demais peças dos processos não apareceu nenhuma menção ao fato de trabalharem fora. Assim, foram agregadas na mesma categoria: do lar. Conforme atestam alguns historiadores locais, no período estudado (1954-1979) a maioria das mulheres, cerca de 91%, ocupavam-se com os afazeres domésticos (Gregory, 2002), dado que pode até certo ponto respaldar essa opção metodológica. As demais profissões identificadas, com 7% cada, foram lavradora e comerciante. Em cinco casos (33%) a informação não foi registrada pelos agentes do direito. Sobre o nível de escolaridade das vítimas, dentre os dezenove casos registrados, não foi encontrada nenhuma informação a esse respeito. A informação sobre a naturalidade das vítimas homens, em concordância com dados anteriormente apresentados, aparece em apenas um processo, onde a vítima era natural de outro estado brasileiro, o Rio Grande do Sul. Em se tratando das mulheres, há um alto número de vítimas de outros estados, como Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Alagoas. Aqui o índice é de 47% ou 7 casos. Foram identificadas apenas duas vítimas naturais da região abrangida pela Comarca de Toledo. Natural de outra Comarca do Paraná têm-se 1 vítima, de Foz do Iguaçu. 4.2. Características gerais dos Crimes da Paixão registrados na jurisdição da Comarca de Toledo (1980-2000) No segundo momento histórico estudado (1980-2000), têm-se um total de 20 processos criminais do tipo de delito em análise, entretanto, por se tratar de um período recente, grande parte desses autos ainda encontram-se em andamento, o que dificulta e até mesmo impede, o acesso a essa documentação. Sendo assim, foram considerados para a análise mais qualitativa apenas os processos que já se encontram arquivados, que totaliza 9 casos. 12 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” O universo pesquisado nesse segundo período (1980-2000) é composto por 8 homens homicidas contra apenas 1 mulher. Diferentemente do período anterior, não há um tipo de união predominante. Cada categoria encontrada – casados, amantes e amásios – possuem o mesmo percentual: 33%. O tempo de relacionamento entre os protagonistas dos “crimes da paixão” no período mais recente também diminuiu: apenas 44% dos envolvidos conviviam entre um e cinco anos. Cerca de 22% possuíam relação com duração inferior a um ano. Outros 22% possuíam entre cinco e dez anos de relacionamento e apenas um caso foi encontrado onde os parceiros tinham mais de dez anos de envolvimento. Aproximadamente 66% dos envolvidos possuíam filhos em comum, entre uma e cinco crianças, e cerca de 33% dos protagonistas do caso não possuíam filhos. Conforme foi explicitado anteriormente, a variável situação econômica é apenas uma aproximação da situação financeira real dos envolvidos, pois trata-se de um dado que, na maioria dos casos, não aparece de modo explícito. Entretanto, esse tipo de informação já é menos ausente nos processos mais recentes. Dentre os nove casos analisados, em cinco ocorrências, ou 55% os envolvidos são apresentados como possuidores de baixa situação econômica, encontrando-se nos processos definições do tipo ‘precária’, ‘pobre’, etc. Em três casos (33%) a situação econômica dos envolvidos foi classificada como média. Nessa categoria foram enquadradas as definições do tipo ‘regular’ e ‘boa’. Em um caso não houve esse tipo de informação. Os temas desencadeadores dos delitos entre os anos 1980 e 2000, apresentam uma grande diferenciação com relação ao primeiro período estudado. Nota-se claramente que os crimes que antes eram cometidos mais por questões verdadeiramente passionais (ciúmes, traição, abandono), passaram a ser consumados por questões de desentendimentos e maus-tratos. Na categoria dos crimes passionais, têm-se apenas três casos, ou 33% dos crimes, desencadeados por abandono da parte da vítima. Dentre os crimes não passionais, exatamente 66% das ocorrências, temos os motivos de brigas (33%), maus tratos (11%), e os outros 22% foram cometidos por motivos de embriaguês e distúrbios mentais. Quanto ao local de ocorrência dos crimes, verificou-se que 33% dos delitos foram concretizados na própria residência dos envolvidos. Nota-se que nesse momento histórico predomina a vida urbana entre os atores sociais envolvidos nos crimes estudados, ou seja, 77% dos envolvidos residiam nas cidades. Um crime, ou 11% do universo aconteceu nas proximidades da residência. Dois casos, ou 22%, foram registrados na zona do baixo meretrício. Outros dois casos ocorreram em lotes baldios, e o delito restante foi consumado em plena via pública. Se agregarmos as últimas categorias, temos um total de 66% dos crimes ocorridos fora do ambiente doméstico, uma mudança significativa com relação ao primeiro momento histórico. O dia da semana preferencial para a prática do crime passional no segundo momento histórico estudado (1980-2000) se mostrou como sendo igualmente o sábado (33%) e o domingo (33%). Na terça-feira, quarta-feira e sexta-feira foram registrados um crime em cada dia ou 11%. Se agregarmos os crimes ocorridos no final de semana, temos um total de 66% dos crimes registrados no período. Verificamos um aumento significativo com relação ao primeiro período, no qual esse índice era de 42%. Os períodos do dia de maior incidência do tipo de crime aqui analisado são a noite e a madrugada, ambos com 33% dos casos. Em seguida, aparece o período da tarde, com duas ocorrências ou 22%. Por fim, têm-se apenas um crime ocorrido no período da manhã. Enquanto no primeiro período havia a predominância de armas brancas, especialmente instrumentos agrícolas, como foices, machados e facas, nesse segundo momento nos deparamos com uma diminuição intensa das chamadas armas brancas, apenas dois casos 13 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” ou 22% do total. Percebemos a predominância das chamadas armas de fogo, com cerca de 33% do universo, seguidas de dois casos de asfixia (22%) e outros dois casos de outros motivos, um exatamente por pancadas com pedras e um bloco de cimento, e o outro por um gancho de ferro de duas pontas. A faixa etária predominante dos acusados do sexo masculino, responsáveis pela ocorrência de 89%, ou 8 dentre os 9 casos de “crimes da paixão” ocorridos na jurisdição da Comarca de Toledo entre 1980 e 2000, é a compreendida entre 25 e 29 anos de idade, com 50% do universo. Dois acusados possuíam entre 20 e 24 anos no momento do crime e os outros dois possuíam entre 30 e 34 anos de idade. A única mulher homicida do período possuía 32 anos de idade e foi classificada pelos operadores do sistema jurídico como sendo da cor branca. Os acusados homens, por sua vez, foram considerados brancos e pardos, com exatamente 50% cada categoria. O estado civil dos envolvidos nos delitos estudados nesse segundo período, assim como no período anterior, não necessariamente coincide com o tipo de relação existente entre os protagonistas do delito, mas apenas refere-se a situação legal do homicida perante o estado. Seis acusados, ou 75%, eram legalmente casados, embora a metade desse percentual não coincida com o tipo de relação constituída entre os envolvidos. Os outros dois indiciados eram solteiros no momento da ocorrência do crime. A homicida do sexo feminino foi apresentada como sendo solteira, ainda que vivesse maritalmente com o seu parceiro. A profissão predominante dos homicidas nesse segundo momento estudado é a de pedreiro, com 33% dos casos. Em seguida têm-se dois indiciados ligados a atividades de lavoura, e as categorias operário, ensacador e funcionário público possuem apenas uma ocorrência cada, com 11% cada. A única acusada foi classificada como sendo do lar. No que concerne à escolaridade dos agentes dos crimes, verifica-se que nenhum indiciado possuía um grau de instrução maior do que o ensino básico completo. Têm-se 62% dos acusados com o ensino básico completo, seguidos de dois casos onde os homicidas possuíam o ensino básico incompleto no momento da ocorrência do delito, e ainda um envolvido era analfabeto, sabendo apenas escrever o próprio nome. A única acusada possuía o fundamental incompleto. A situação dos acusados de tentarem contra a vida de suas parceiras foi declarada como sendo baixa em 50% dos casos e média nos outros 50% dos casos. A indiciada se declarou como tendo uma situação econômica ruim. Coincidentemente com os dados levantados do período anterior (1954-1979), a maioria dos acusados era proveniente de outros estados brasileiros, com um percentual de 75%. Os estados registrados eram diversos: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os outros três envolvidos eram naturais de outras comarcas do Paraná, das cidades de Mangueirinha, Cruzeiro do Oeste e Laranjeiras do Sul. A homicida do sexo feminino também era proveniente de outra comarca do estado do Paraná, da cidade de Pinhal São Bento. Quanto à existência de antecedentes criminais, verificamos que exatamente 25% dos indiciados homens possuíam passagens policiais anteriores. Um dos casos era referente ao uso de entorpecentes e no outro caso o homicida já havia sido preso por desordem, embriaguês, homicídio, lesões corporais, furto e ainda estelionato. A mulher acusada de tentar contra a vida de seu amásio não possuía nenhum antecedente criminal. No que se refere ao perfil das vítimas do sexo feminino, verifica-se que uma possuía idade entre 15 e 19 anos, quatro vítimas ou 50% possuía entre 20 e 24 anos, duas vítimas tinham entre 25 e 29 anos e, em um caso, o processo criminal não registrava essa informação. A vítima do sexo masculino tinha 25 anos completos na data do crime. 14 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” Tal como ocorreu no primeiro período estudado, os dados referentes as vitimas são mais escassos. Em se tratando da cor das vítimas, constata-se que 75% dos autos não registraram essa informação. Duas vítimas apenas tiveram sua cor identificada, uma como sendo da cor branca e outra da cor preta. No caso da vítima do sexo masculino, também não foi possível descobrir esse dado. Através da variável estado civil, verificamos que quatro das oito vítimas, o correspondente a 50%, eram solteiras. Cerca de 33% das vítimas eram casadas com seus agressores e uma era desquitada. No processo decorrente do crime que vitimou um homem não foi encontrada essa informação. Duas vítimas do sexo feminino foram apresentadas como empregadas domésticas, duas como sendo bailarinas de boate, e outras duas não tiveram sua ocupação identificada no processo, e ainda duas como sendo do lar. Cada categoria somou 22% do universo. A vítima do sexo masculino era fiscal de ensacadores. Por se tratar de uma informação não muito relevante para os agentes da ordem, a informação referente à escolaridade das vítimas não foi registrada em 7 processos, ou 87%. Em apenas um caso havia essa informação, onde a vítima era analfabeta. Sobre a naturalidade das vítimas, constatamos que nenhuma era proveniente da própria Comarca de Toledo/PR. 50% das vítimas eram naturais de outras comarcas do Paraná, dos municípios de Janiópolis, Assis Chateaubriand, Palmas e Curitiba. Três vítimas eram naturais de outros estados brasileiros: Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo. Em um processo, essa informação não constava. No caso que vitimizou um homem, esse dado também não foi encontrado. De modo geral, verifica-se que dos nove crimes ocorridos nesse período, em apenas quatro, ou 44% do universo, os agentes do crime foram presos em flagrante delito, sendo três homens e a única mulher. Assim como os crimes foram majoritariamente cometidos por homens, constatamos que os homicidas foram também julgados por um Conselho de Sentença predominantemente composto por representantes do sexo masculino: 74%, ou uma proporção de 2,8 homens por cada mulher. Ainda que a diferença seja grande, houve uma maior participação feminina nos júris nesse segundo momento estudado. Uma mudança interessante ocorrida do primeiro momento histórico estudado (1954-1979) com relação ao segundo período (1980-2000), é que o grau de impunidade diminuiu consideravelmente. Enquanto antes havia um índice de 16% de condenação, o percentual da segunda fase sobe para 55%. É fundamental ressaltar que nesse período, todos os processos foram julgados, em oposição ao período anterior onde em 37% dos casos os acusados entraram em óbito antes da fase de julgamento. Abaixo, procuramos demonstrar os desfechos processuais: Gráfico III - Desfechos processuais (1980-2000) 11% 33% Absolvição Condenação Absolvição, mas com internamento como medida de segurança 56% Fonte: Processos Criminais da Comarca de Toledo/PR (1980-2000) 15 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” Constatou-se que em 55% dos casos os agentes dos crimes contaram com o apoio de um defensor próprio, enquanto cerca de 45% dos acusados foram defendidos por advogados dativos, designados pelo juiz. Nos casos onde atuaram defensores dativos, quatro exatamente, percebemos que a sentença foi desfavorável ao réu em dois casos, onde os mesmos foram condenados. Nos dois outros processos, os defensores conseguiram a absolvição dos réus, ainda que em um desses casos o juiz decretou um internamento de dois anos como medida de segurança. Os casos defendidos por advogados contratados pelos próprios homicidas, cinco casos, tiveram a sentença condenatória em três processos, e conquistaram a absolvição de seus clientes em outros dois casos. Os dois casos de homicídio tentado registrados no período resultaram na absolvição dos agentes dos crimes. Já no caso dos homicídios consumados, sete no total, o percentual de absolvição foi dois acusados, contra 5 réus condenados. 4.3 Transformações sócio-econômicas e o fenômeno dos “Crimes da Paixão” Partindo-se dos dados coletados dos processos criminais a respeito dos homicídios consumados ou tentados entre parceiros afetivos e/ou sexuais, anteriormente apresentados, abrangendo um período de 46 anos, procuramos fazer emergir algumas questões sobre os fatores sociais que possivelmente influenciaram na incidência desse tipo de crime na região estudada, com base em autores que discutem a temática proposta. Alterações na estrutura de uma dada sociedade, nas suas formas produtivas, na distribuição espacial da população, etc., produzem intervenções significativas na vida social. O território pertencente à jurisdição da Comarca de Toledo foi marcado, nesses 46 anos de história, por uma série de transformações sócio-econômicas que modificaram consideravelmente o perfil da região estudada, tais como, o processo de modernização da agricultura, o êxodo rural, a expansão da população urbana, decorrente da associação desses fatores, entre outros, que afetaram principalmente a população rural, e que possuem uma inter-relação com o fenômeno dos chamados crimes passionais, e com a criminalidade de modo geral, como procuramos demonstrar. A região abrangida pela Comarca de Toledo/PR, assim como grande parte da região Oeste do Paraná, possui apenas cerca de 5 décadas de colonização mais intensa. Tratava-se de uma área com solo fértil, de clima favorável à produção agrícola, com características promissoras e com grandes possibilidades de desenvolvimento rápido. O processo de ocupação da região conhecida como Fazenda Britânia, ao qual a região da Comarca estava inserida, foi caracterizado pela estratégia de atrair trabalhadores ligados à atividades rurais, especialmente migrantes vindos da região Sul do Brasil, que ficaram conhecidos como os euro-brasileiros (Gregory, 2002). Isto porque esses trabalhadores eram, em sua maioria, descendentes de europeus, com destaque para os alemães e italianos. Embora houvesse a predominância dos chamados euro-brasileiros nos primeiros anos da consolidação da ocupação da região Oeste do Paraná, especificamente do território da Comarca de Toledo, não se pode desconsiderar a presença constante dos migrantes vindos dos mais variados estados brasileiros, conforme percebemos através da variável naturalidade dos envolvidos nos crimes estudados, que demonstra a diversidade étnico/cultural, um aspecto marcante da realidade nacional. O Oeste de Paraná, assim como todo o território nacional, possui uma vasta diversidade populacional, cultural, com diferentes tradições. A confluência de pessoas provenientes de várias regiões do país, acabou gerando algumas características peculiares a região. Alguns valores culturais se somam à outros, alguns se perdem no tempo e assim, a todo momento, 16 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” há uma reestruturação dos valores comuns a uma coletividade, que podem ser percebidos através das mudanças em suas práticas cotidianas. Até a década de 70, pode-se dizer que o perfil da região da jurisdição da Comarca de Toledo/PR era predominantemente baseado na economia agrícola, com cerca de 80% da população residente no campo. Entretanto, especialmente a partir do início da década de 80, a região estudada altera drasticamente seu perfil, de tal forma que as cidades passaram a concentrar a maioria da população. O processo de modernização agrícola expulsou muitas famílias do campo, gerou o êxodo rural e a busca por parte da população expulsa de uma vida mais promissora na cidade, etc. O deslocamento das famílias do campo para as cidades, além de consideráveis mudanças no espaço geográfico da região, desencadeou uma certa ruptura nas relações familiares tradicionais. Em 1970, a microrregião do Oeste do Paraná era constituída por 19,9% de população urbana e em 1980 essa população alcançou o índice de 50,4%. Uma situação inversa ocorreu com a população rural, que de 80,1% em 1970, decresceu para 49,6% em 1980 (SCHREINER, 1997). Desse modo, o espaço urbano se tornou estranho, pois tanto a população urbana quanto a urbanizada perdeu o seu referencial de modo de ser: “as motivações, as aspirações e as necessidades que antes derivavam da convivência comunitária passaram a verter dos desejos individuais movidos pela mágica abstrata da modernização. Perdeu-se a referencia do outro, próximo e semelhante, para, em substituição, buscar a expressão maior do eu, individualizado, como prova de emancipação e de competência da sua inserção num universo que ao certo não apresentava horizontes além dos resultados pragmáticos imediatos” (SCHALLENBERGER E COLOGNESE, 1993, p. 72). Do mesmo modo que o processo de modernização afetou as comunidades, as famílias e os indivíduos também foram afetados pelas transformações. As famílias vindas do campo, diante das dificuldades financeiras, acabaram por se instalar de modo precário na periferia das cidades da região. De detentores de seus próprios meios de produção, essa população passou por uma situação de oferta de mão de obra, geralmente desqualificada para os padrões urbanos de produção. Esse momento foi mais ou menos coincidente com a instalação no município de Toledo, da Frigobrás/SADIA, assim como de agroindústrias de menor porte na região, gerando novas possibilidades de emprego. Entretanto, como a maioria não possuía qualificação profissional adequada ao tipo de atividade que almejavam desempenhar, geralmente a remuneração era baixa. Esse não foi um processo fácil e causou a desagregação das antigas relações familiares e da dinâmica social, que acabaram sendo redefinidas. Com o rompimento das relações tradicionalmente rurais de solidariedade e reciprocidade, mais presentes no meio rural, houve um crescimento do individualismo paralelamente ao processo de modernização. Com isso, os laços entre os habitantes enfraqueceram e as relações interpessoais se complexificaram. Para Schreiner (1997, p. 100): “junto à emergência de um novo contexto sócio-econômico no Extremo Oeste do Paraná, forja-se a reconstrução do sistema simbólico pelo qual os atores sociais, diante das novas relações sócio-culturais produtivas, movimentar-se-ão”. Para Schallenberger e Colognese (1993, p. 75) “o processo de modernização marcou profundamente as relações interpessoais. Se por um lado a nova dinâmica favoreceu o aprimoramento da comunicação, da informação e do transporte, possibilitando a eficiência e criando oportunidades para a população, por outro, distanciou os indivíduos em função das barreiras que se estabeleceram a partir do egoísmo e da ganância das pessoas”. 17 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” Acreditam ainda, que a desestruturação do indivíduo, se reflete na desestruturação da família. Essas alterações também se refletiram nas relações sociais de gênero. As mulheres, que antes cuidavam, majoritariamente dos afazeres domésticos, criaram maior projeção social e passaram a ocupar postos de trabalho assalariado juntamente com os homens, pois além das mudanças que ocorriam no cenário regional, é importante destacar que estas foram coincidentes a uma série de conquistas de movimentos feministas em prol da igualdade de direitos entre os sexos, assegurada na Constituição Federal de 1988. Essa mudança influiu diretamente nas formas de ocorrência dos chamados crimes passionais, conforme demonstram os dados coletados. No primeiro período estudado (1954-1979), havia a predominância de relações amorosas legalmente constituídas, enquanto no segundo momento (1980-2000), conforme foi demonstrado anteriormente, esse percentual decresce. As relações se tornam mais descompromissadas e, em alguns casos, até mesmo ocasionais. Não há mais a imposição do matrimônio para a legitimação da vida em comum. De modo geral, pode-se dizer que no primeiro momento, compreendido entre os anos 1954 e 1979, a predominância da vida rural é indiscutível. Verificamos através dos dados coletados através dos processos criminais decorrentes dos chamados crimes passionais, que a profissão dos envolvidos era, na maioria dos delitos, relacionada à atividades da agropecuária. No caso das mulheres, quando não estavam envolvidas com o serviço agrícola, dedicavam-se ao cuidado do lar. Além disso, os envolvidos eram majoritariamente casados legalmente, com relações constituídas de longa data. Os crimes eram consumados através do uso de instrumentos ligados à atividade rural, as chamadas armas brancas, assim como foices, facas, machados, etc. O lócus privilegiado para a ocorrência dos delitos se mostrou como sendo a própria residência dos envolvidos e o índice de impunidade se apresentou como sendo bastante elevado. Mudanças de cunho social, econômico, cultural e geográfico alteraram a base das sociedades do Oeste do Paraná, especialmente do território da Comarca de Toledo/PR. Essas mudanças que se tornaram mais perceptíveis a partir da década de 1980, se desencadearam novas relações produtivas, mudanças na estrutura social de gênero e na consolidação de novos valores culturais e morais. No segundo momento estudado nesse texto (1980-2000), percebemos como essas mudanças se refletiram nas práticas dos sujeitos que constituíam a sociedade local. As profissões, que antes eram essencialmente rurais, passaram a se apresentar como tipicamente urbanas. Os envolvidos, em grande parte das ocorrências, não eram mais legalmente unidos, mas possuíam relações mais descompromissadas, ocasionais. Os crimes ultrapassaram o âmbito doméstico e começaram a ser concretizados mais em locais públicos e nas cidades, com a presença de testemunhas oculares. Houve também uma maior diversificação dos métodos para a prática do homicídio, conforme demonstrado na descrição dos dados realizada em etapa anterior. Entretanto, em contraposição ao primeiro período constatamos que a impunidade diminuiu e, além disso, o tempo de condenação também se tornou maior com o passar do tempo. 5. Considerações finais Foi possível perceber, ao longo desse trabalho, os limites impostos aos interessados em pesquisar a temática dos crimes passionais e suas possíveis relações com o desenvolvimento social, cultural e econômico de uma determinada sociedade ou região. Talvez essa dificuldade se justifique pelo fato de se tratar de uma região de ocupação 18 Ribeirão Preto, 24 a 27 de Julho de 2005 Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural XLIII CONGRESSO DA SOBER “Instituições, Eficiência, Gestão e Contratos no Sistema Agroindustrial” intensa recente, ainda carente de estudos sobre o fenômeno da violência, acrescido ao fato de não possuir dados sistematizados suficientes para embasar análises, tanto sobre a criminalidade em geral, quanto sobre o fenômeno dos homicídios, e especificamente sobre os chamados crimes passionais. Apesar desses fatores, acreditamos que o presente texto, de caráter exploratório, pode contribuir de algum modo para o entendimento das particularidades de desenvolvimento da região, bem como servir de incentivo para que cada vez mais estudos discutam essa problemática, relacionando desenvolvimento e criminalidade. De modo geral, podemos dizer que a ocorrência dos “crimes da paixão” parece ser uma constante nas diferentes sociedades humanas, contudo os meios empregados para sua consumação, se mostram fortemente atrelados ao estágio de desenvolvimento regional vivido pela sociedade no momento da quebra máxima das relações de sociabilidade – a conduta homicida -, bem como a sua forma de organização da vida social. Este texto buscou apresentar uma perspectiva diferenciada de análise sobre o desenvolvimento regional. Assim, a discussão levantada, além de proporcionar o debate de questões que possam futuramente fomentar políticas públicas, serve também de base para uma reflexão sobre a realidade social na qual estamos inseridos. Referências ADORNO, Sérgio. Crime, justiça penal e desigualdade jurídica: as mortes que não se contam no tribunal do júri. Revista USP, São Paulo, N. 21, p. 132-151, mar./abr./maio 1994. ARDAILLON, Danielle; DEBERT, Guita. 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