UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE Faculdade de Letras e Ciências Sociais ____________________________________________________________ 'Açúcar nem sempre doce': dinâmicas e contradições da política portuguesa de povoamento, c.1890-1974 Autor: José-Cláudio Mandlate Fonte: Cadernos de História de Moçambique, 1, 2011, pp. 53-63 http://www.flcs.uem/files/chistoria/jcMandlateCdeM2011.pdf ___________________________________________________________________________ Os Cadernos de História de Moçambique é a Revista Científica produzida pelo Departamento de História, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, da Universidade Eduardo Mondlane. O objectivo dos Cadernos de História de Moçambique é difundir artigos científicos originais ou de divulgação, documentos comentados, apreciações de livros e outras informações em relação às diversas problemáticas da pesquisa e docência da História em – mas não apenas sobre – Moçambique. Artigos e informações para publicação devem ser enviados aos coordenadores em format digital. As opiniões expressas pelo coordenador e colaboradores são opiniões próprias e não necessariamente do Departamento. Publicado por: Departamento de História Faculdade de Letras e Ciências Sociais Universidade Eduardo Mondlane Maputo 'Açúcar nem sempre doce': dinâmicas e contradições da política portuguesa de povoamento, c.1890-1974 José Cláudio Mandlate Resumo O artigo analisa a participação de duas empresas açucareiras de capitais portugueses (a Companhia do Buzi e a Açucareira de Moçambique) na colonização do interior de Moçambique, especificamente da província de Sofala. A política portuguesa de povoamento variou ao longo do tempo, ora defendendo o gasto de fundos públicos com o transporte e a instalação de colonos em África, ora rejeitando-o terminantemente. A Companhia do Buzi e a Açucareira de Moçambique foram fundadas em momentos distintos (respectivamente em 1898 e em 1964), mas tiveram em comum o facto de terem sido fundadas em contextos em que Portugal precisava de instalar colonos no interior de Moçambique. Os tais colonos, todos eles portugueses, tinham por missão produzir cana e vendê-la às açucareiras, num esquema que se esperava que traria grandes vantagens para eles e para as açucareiras. Todavaia, a relação entre os colonos e as açucareiras foi caracterizada por conflitos de interesse nos quais o Estado Colonial recusou-se a intervir. Introdução A fixação de cidadãos portugueses no interior de Moçambique foi um dos mecanismos através dos quais Portugal procurou estender e consolidar a sua administração sobre o território. Condicionada por eventos que se sucediam tanto dentro como fora das fronteiras de Portugal, a fixação foi feita em duas fases. A primeira foi levada a cabo na esteira das 'campanhas de pacificação' (1886-1910s) que se seguiram à Conferência de Berlim (18841885) e visava levar a presença portuguesa para zonas disputadas por potências coloniais rivais, com vista a dissuadí-las das suas ambições expansionistas. A segunda corresponde ao último quartel do período colonial (1950s-1974) e era essencialmente direccionada contra o movimento anti-colonial que se desenvolvia tanto dentro como fora das fronteiras do Estado Colonial português. A fixação era, por regra, custeada pelo próprio Estado Colonial português, mas através de propaganda e de pressões, ele conseguiu que parte dos custos fosse suportada por empresas privadas com interesses em Moçambique. Como é que se caracterizou a participação das empresas privadas no processo de colonização de Moçambique? O presente ensaio, que se baseará nos casos da Companhia do Buzi e da Açucareira de Moçambique – duas açucareiras portuguesas localizadas na província de Sofala – tem como objectivo geral mostrar as características e as dinâmicas da participação de empresas privadas portuguesas na fixação de colonos-agricultores no interior de Moçambique. O ensaio foi elaborado no contexto dos estudos que o autor tem desenvolvido sobre a indústria açucareira moçambicana. 54 Cadernos de História de Moçambique, 1, 2011 A economia política do povoamento, 1890s-1950s Desde o fim da Conferência de Berlim de 1884-1885 até à década de 1950, o posicionamento do Estado Colonial português em relação à fixação de cidadãos portugueses nos territórios já ocupados e/ou em territórios ambicionados, mudou por várias vezes, num movimento condicionado ora por eventos exteriores ora por eventos interiores às suas fronteiras. Assim, depois de, durante as três décadas que se seguiram à supracitada Conferência ter desenvolvido esforços com vista a fixar colonos em África, durante as duas décadas que se seguiram ao golpe de Estado militar de 28 de Maio de 1926, que instaurou um regime fascista, a filosofia do Estado em relação à matéria mudou, passando este a opôr-se encarniçadamente a tal. O primeiro posicionamento do Estado Colonial, isto é, o apoio à colonização, era ditado pelo contexto da época, caracterizado por disputas territorias em África, envolvendo Portugal e outros países europeus. A fixação de cidadãos portugueses visava, assim, consolidar a administração portuguesa no interior de Moçambique e dissuadir as potências coloniais rivais que ambicionavam o território. Foi nesse contexto que, durante a década de 1890, Portugal tentou, através da Companhia de Moçambique, fixar agricultores portugueses no interior da província de Manica, mas os esforços fracassaram, por causa da falta de infra-estruturas para acolher os recém-chegados.1 Depois do golpe de Estado de Maio de 1926, o posicionamento do Estado Colonial em relação à colonização mudou. O novo regime, que defendia a valorização dos recursos de Moçambique e das demais colónias portuguesas através da exploração directa e mais intensa da população africana, era contrário ao gasto de fundos públicos com o transporte de colonos e com a criação de infra-estruturas para recebê-los.2 Dessa política resultou que durante as duas décadas seguintes, não se visse nenhum esforço sistemático do Estado com vista à instalação de colonos em Moçambique.3 Este posicionamento viria, entretanto, a ser abandonado depois da II Guerra Mundial. O primeiro acto de rotura com a anterior filosofia foi a aprovação do Decreto-Lei nº 34 464 de 27 de Março de 1945, que autorizava o Ministério das Colónias a, '(...) com recursos financeiros provenientes do erário metropolitano, (...) tomar certas providências úteis à intensificação do povoamento dos territórios ultramarinos, nomeadamente de Angola e de Moçambique (...),4 ao que se seguiu a criação dum fundo anual para o financiamento das viagens de colonos para África, pelo Decreto-Lei nº 38 200 de 10 de Março de 1951.5 Foi nesse contexto que em 1952 foram aprovados e a partir de 1953 implementados Planos de Fomento que incluíam a transferência de milhares de cidadãos portugueses e a sua instalação no interior de Moçambique6 e das demais colónias portuguesas. A maior parte desses cidadãos foi recrutada entre camponeses pobres ou desempregados em Portugal,7 mas a partir dos anos 60 começaram a ser recrutados intenamente, dentre militares desmobilizados e de outros grupos sócio-profissionais portugueses e dentre africanos.8 O transporte e a instalação dos colonos eram organizados e custeados pelo Estado, através de organismos especializados e criados para o efeito, nomeadamente, a Junta Provincial de 1 Cruz; 2000, p. 326-7 Hedges & Rocha; 1999, p. 41 3 Vide, a propósito, os números apresentados por Hedges & Rocha; 1999, p. 165 4 BO, n.º 21, I Série, 1945. Decreto-Lei nº 34 464 de 27 de Março 5 BO, n.º 16, I Série, 1951. Decreto-Lei nº 38 200 de 10 de Março 6 Filipe; 2000, p. 15-17. Sobre outras medidas, vide Wuyts; 11980,p. 21-22 7 Hedges & Rocha; 1999, p.164 8 Vide, a propósito, Hermele; 1986, p. 58 e Filipe; 2000, p. 54 2 José Cláudio Mandlate Açucar e a política portuguesa de povoamento 55 Povoamento (JPP), a Brigada Técnica de Fomento e Povoamento do Limpopo (BTFPL) e a Brigada Técnica de Fomento e Povoamento do Révuè (BTFPR).9 As zonas de instalação dos colonos – os colonatos – eram preferencialmente implantados nos vales dos rios, onde as terras eram mais férteis, pois, aqueles deviam, em princípio, dedicar-se à agricultura. Os principais colonatos, instalados a partir dos meados da década de 1950, localizavam-se nos vales dos rios Limpopo (Gaza), Sábie (Maputo) e Révuè (Manica) e nas terras altas das províncias do Niassa e de Cabo Delgado.10 Os colonos instalados produziam algodão, arroz, tabaco e horto-frutícolas, que eram na maior parte destinados ao abastecimento do mercado interno.11 O maior colonato era o do Limpopo, o qual chegou a ser habitado por cerca de 1 150 colonos nos finais da década de 1960.12 A implantação dos colonatos significava, não raras vezes, conflitos de terras, pois era quase sempre precedida por expropriações das terras dos camponeses africanos, os quais eram afastados para áreas marginais, com terras menos produtivas.13 Apesar das elevadas somas gastas com a sua criação,14 os colonatos revelaram-se social e economicamente um fracasso, pois não foram capazes de assegurar a fixação dos colonos à terra nem a produção de alimentos e/ou outros produtos agrícolas necessários para suprir as necessidades da população urbana, que crescia a um ritmo acelerado. O facto deveu-se ao efeito conjunto da inexperiência dos colonos, da deficiente assistência técnica e da inexistência duma rede de estradas e outras vias de acesso eficaz.15 'O açúcar na portugalização de Moçambique': a Companhia do Buzi, a Açucareira de Moçambique e a fixação de portugueses nos vales dos rios Buzi e Púngoè Enquanto a política oficial de povoamento variava, condicionada por eventos que se sucediam quer dentro quer fora das fronteiras do Estado Colonial português, a Companhia do Buzi e a Açucareira de Moçambique desenvolviam programas paralelos de colonização, instalando agricultores portugueses nas suas concessões, respectivamente sitas nos vales dos rios Buzi e Púngoè. Nesta secção, vamos mostrar as vicissitudes do envolvimento daquelas açucareiras na colonização das respectivas concessões. Para tal, vamos procurar responder às duas questões que se seguem: 'Como é que se caracterizou a participação da Companhia do Buzi e da Açucareira de Moçambique?' e 'Como é que se caracterizava o relacionamento entre as açucareiras e os colonos?' A Companhia do Buzi e a colonização do vale do rio Buzi, 1927-1950s A Companhia do Buzi (originariamente Companhia Colonial do Buzi) foi fundada em 1898, por contrato entre a firma portuguesa Arriaga e Comandita e a Companhia de Moçambique, que na altura tinha poderes majestáticos sobre o território de Manica e Sofala. Para além da agro-indústria do açúcar, a Companhia do Buzi tinha interesses nas áreas da agro-indústria do algodão, da pecuária, da exploração madereira, da construção naval e do fabrico de cal.16 O envolvimento da Companhia do Buzi na colonização foi estipulado pelo artigo 10 da sua carta constitutiva, o qual a obrigava a desenvolver '(...) os seus melhores esforços para promover, por meio de medidas protectoras, a colonização de famílias portuguesas de raça 9 Sobre as acções destes organismos, vide, por exemplo, BTFPL. Relatório de Junho de 1953; JPP. Projecto do parcelamento da região do Sábiè ou os relatórios sectoriais dos Planos de Fomento 10 Hedges & Rocha; 1999, p. 165-167 11 Filipe; 2000, p. 53 12 Hermele; 1986, p. 61 13 Hermele; 1986, p. 56; Filipe; 2000, p. 44 et seq 14 Hedges & Rocha; 1999, p. 163 15 Figueira; 1970, p. 107-111 16 Graça; 1942, p. 3-4 56 Cadernos de História de Moçambique, 1, 2011 branca (...)' na sua concessão, o distrito do Buzi. O artigo estipulava ainda que até 1942, ano do término da concessão majestática da Companhia de Moçambique, o número de portugueses instalados devia situar-se acima de 60.17 Seria, porém, a partir de 1927 que a Companhia do Buzi começaria a implementar as disposições do artigo 10. O primeiro grupo de colonos, em número de seis, foi instalado em Grudja e em Estaquinha, e dedicava-se à produção de milho, tabaco, rícino, batata e cana sacarina.18 Em 1930 a Companhia já tinha instalado oito famílias, as quais exploravam uma área de 1 248 ha, 322 dos quais eram de cana sacarina.19 O número de famílias portuguesas e da área por elas explorada continuou a crescer. Em 1933 já havia 22 núcleos de colonização, os quais ocupavam uma área de mais de 6 000 ha de terra.20 Os primeiros produtores de cana, os canavieiros, foram recrutados dentre os funcionários da Companhia e beneficiavam de subvenções como alocação de maquinaria agrícola e respectiva assistência técnica e pagamento dos salários dos seus trabalhadores. Em contrapartida, os canavieiros deviam vender toda a produção à Companhia.21 A ligação entre a Companhia e os canavieiros sofreu alterações a partir da década de 1940, quando estes passaram a ser responsáveis pela angariação de mão-de-obra e pelo pagamento dos respectivos salários.22 Imposto pela carta de concessão, a qual reflectia, por sua vez, as preocupações políticomilitares de Portugal nos finais do século XIX, a instalação de colonos-agricultores no Buzi visava também reduzir a dependência da Companhia do Buzi em relação à mão-de-obra agrícola africana, a qual era, aliás, rara e muito pouco motivada para o trabalho nas plantações da empresa.23 Ora, estes objectivos não foram plenamente atingidos, na medida em que, tal como nos referímos, os canavieiros empregavam mão-de-obra africana. Ademais, o seu número não cresceu muito, pois, até aos princípios dos anos 60 situava-se nos dez.24 O crescimento do sistema canavieiro nos anos 60 Durante a década de 1960, mais concretamente durante o triénio 1963/1965, o número de canavieiros da Companhia do Buzi triplicou. O rápido crescimento não foi casual, mas resultou da combinação de vários factores, que a seguir indicamos. O primeiro foi a mudança da política africana de Portugal, adoptada no contexto da resposta ao movimento anti-colonial. Iniciada em 1961, com o banimento do trabalho forçado e do indigenato,25 a mudança provocou uma grande onda de migração de africanos para as cidades, as quais estavam, aliás, a conhecer um franco desenvolvimento industrial,26 e agudizou a crónica crise de mão-de-obra agrícola da Companhia do Buzi.27 O segundo foi o fracasso da resposta da Companhia à referida crise de mão-de-obra. Confrontada com a escassez de trabalhadores agrícolas, que estava, inclusive, a comprometer o desempenho das plantações, a Companhia tinha investido na melhoria das condições de trabalho e na mecanização da produção agrícola, mas fracassara, vencida pela relutância dos 17 Companhia Colonial do Buzi; 1898, p. 1, 10. Arriaga; 1928, p. 28; AHM-Secção Especial. Companhia Colonial do Buzi; 1934, p. 6 19 Mandava & Muzimpua; 1987, p. 7 20 AHM-Secção Especial. Companhia Colonial do Buzi; 1934, p. 6 21 INA; 1989, p. 25 22 Florêncio; 1994, p. 93 23 Baptista; 1961, p. 272-273 24 AHM-Inspecção dos Serviços Administrativos e dos Negócios Indígenas. Caixa. 47. António A. S. Borges. Relatório da inspecção ordinária ao Concelho do Buzi., 10/09/69, p. 56 25 BO, n.º 21, I Série, 1961. Decreto 43 637 de 2 de Maio; BO, n.º 36, I Série, 1961. Decreto n.º 43 893 de 6 de Setembro 26 Schaedel; 1984, p. 3 et seq 27 Mandlate; 2004, p. 13 18 José Cláudio Mandlate Açucar e a política portuguesa de povoamento 57 camponeses africanos em se empregarem nas plantações e pela incapacidade de mecanizar todas as etapas do processo produtivo agrícola.28 O terceiro foi a subida dos custos de produção, causada pelo aumento do custo dos factores de produção29 e pelas constantes subidas de salários.30 As subidas de custos estavam a sufocar o orçamento da Companhia, que estava legalmente impossibilitada de aumentar os preços do açucar (esta prerrogrativa pertencia ao Estado colonial). O quarto foi o efeito duma campanha propagandística sobre as perspectivas de ganhos que a produção de cana sacarina oferecia. Nos princípios da década, vários artigos circularam nas imprensas moçambicana e portuguesa, incentivando camponeses portugueses a se envolverem na produção de cana, que consideravam uma óptima oportunidade para uma rápida acumulação de capital e para a perpetuação da situação colonial em Moçambique.31 Foi nesse contexto que entre 1963 e 1965 o número de canavieiros da Companhia passou de 10 para 30, depois de a empresa ter mobilizado funcionários seus e farmeiros do distrito do Buzi a se tornarem agricultores de cana.32 Em consequência da mobilização de novos canavieiros, a área explorada por estes passou a ser de 5 385 ha enquanto a directamente explorada pela Companhia caiu para 1 880 ha. 33 Os canavieiros passaram ainda a produzir perto de dois terços da cana processada pela fábrica da Companhia, como, aliás, se pode ver no Anexo II. A Açucareira de Moçambique e a colonização do vale do rio Púngoè A Açucareira de Moçambique foi formalmente constituída a 7 de Abril de 1966.34 O projecto de constituição desta açucareira fora apresentado em 1964 e parecia procurar responder à crise de mão-de-obr agrícola e enquadrar-se na ideologia colonial da época, pois, previa que aquela não teria plantações próprias, mas compraria toda a cana de agricultores portugueses independentes.35 A Açucareira de Moçambique começou a produzir açúcar em 1970, com cana comprada de 79 agricultores, 28 dos quais eram totalmente financiados.36 Pouco depois, o número de agricultores tinha duplicado, situando-se nos 152.37 A relação que unia a Açucareira de Moçambique aos agricultores independentes era, em muitos aspectos, semelhante à que unia a Companhia do Buzi aos seus. No acto da instalação, o canavieiro da Açucareira recebia uma casa38 equipada com geleira e ar condicionado, uma propriedade agrícola já cultivada com uma área que variava entre os 50 e os 100 ha, um jeep, um tractor e alfaias agrícolas e passava a ter direito a um abono mensal que variava entre os 8 28 Head; 1980, p. 70; Mandlate; 2004, p. 18; Baptista; 1964, p. 12 'As empresas açucareiras vão pedir ao Governo a revisão dos preços de venda do açúcar'. In: Diário de Moçambique, 03/07/63, p. 3 30 Sobre os aumentos salariais decretados pelo Estado Colonial, vide Ria-Ferreira, A. Evolução da mão-de-obra e das remunerações no sector privado em Moçambique, desde 1950 a 1970. Lourenço Marques, 1971 31 Vide, a propósito, Baptista; 1964, p. 28-30; Couceiro, M. de Paiva. 'O açúcar na portugalização de Moçambique'. In: Diário de Moçambique, 13/05/61, p. 3, 4; Couceiro, M. de Paiva. 'A cultura da cana e o povoamento'. In: Diário de Moçambique, 11/02/65, p.6 32 AHM-Inspecção dos Serviços Administrativos e dos Negócios Indígenas. Caixa. 47. António A. S. Borges. 'Relatório da inspecção...', p. 55. Para os funcionários, a Companhia cedeu os seus próprios terrenos. 33 Mandlate; 2004, p. 23 34 INA; 1989, p. 8 35 'Moçambique será num futuro próximo um dos grandes na produção de açúcar em Africa a concretizarem-se os três projectos em curso de instalação'. In: Economia de Moçambique, n 1, Vol. II (Jan.), 1965, p. 12 36 AHM-Fundo dos Serviços do Comércio e Indústria. Caixa 515. Recortes do jornal 'Notícias da Beira' (Relatório e Contas da Açucareira de Moçambique referente ao exercício de 1969), 11 de Maio de 1970 37 David; 17/3/1974, p. 48 38 AHM-Secção Especial. Açucareira de Moçambique. Gerência de 1974. folha 3. Em 1973, por exemplo, a Açucareira construiu 29 casas para os agricultores 29 58 Cadernos de História de Moçambique, 1, 2011 e os 10 000 escudos, para além de outras regalias. Os montantes que a Açucareira gastava com a instalação convertiam-se em dívida que os canavieiros deviam amortizar entregando toda a cana àquela.39 'Desilusão na terra prometida': os conflitos entre os canavireiros e as açucareiras Conforme indicámos acima, o sistema canavieiro conheceu um grande impulso durante a década de 1960, na sequência da entrada dum grande número de pequenos e descapitalizados agricultores portugueses no esquema. Depois do entusiasmo inicial, os agricultores e as açucareiras entraram em conflito aberto, pois a distância entre as expectativas e a realidade era enorme. Ao contrário do dinheiro fácil que esperavam ganhar,40 os canavieiros depararam-se com os preços baixos que as açucareiras pagavam pela cana e, talvez mais importante ainda, com o carácter injusto do mecanismo usado para a fixação dos tais preços. Conforme observou o inspector António Borges, durante uma visita de trabalho feita à Companhia do Buzi em 1969, (...) 'O princípio básico em que se baseia o cálculo do valor da cana é que 10 toneladas de cana deviam produzir uma tonelada de açúcar. A análise dos laboratórios da fábrica determina o teor de sacarose obtida pela cana da Companhia por períodos semanais ou quinzenais e se o teor da cana apresentada pelos canavieiros, no mesmo período, for superior à da Companhia, ser-lhe-á creditada, na sua contacorrente, uma bonificação e, no caso contrário, uma penalização. 41 O inspector observou ainda que, entre as campanhas 1963/1964 e 1966/1967, o teor de sacarose da cana produzida pelos canavieiros esteve, de forma 'milagrosa', sempre abaixo do da produzida pelas plantações directamente exploradas pela Companhia, o que resultou em penalizações estimadas em 35 222 398 de escudos.42 Ademais, os prejuízos resultantes das perdas e derrames do açúcar durante o transporte marítimo do açúcar da vila do Buzi até Lisboa e as multas por insuficiência do grau polarimétrico mínimo de 99.5%, eram debitadas sobre as contas dos canavieiros'.43 Quer dizer, ao invés de lucros, os canavieiros só somavam prejuízos pelo exercício da actividade. Para além dos mecanismos de fixação de preços, os interesses dos canavieiros e das açucareiras conflituavam por causa da sua incapacidade em cumprir a totalidade das disposições dos contratos qu os ligavam. Durante a campanha 1965/1966, os canavieiros da Companhia do Buzi acumularam avultados prejuízos, quando aquela não conseguiu comprar nem laborar cerca de um terço das 224 279 toneladas de cana por eles produzida. Esta contrariedade, que chocava frontalmente com os contratos assinados com os canavieiros,44 deveu-se à combinação de vários factores, nomeadamente, o já citado rápido crescimento do número daqueles, a reduzida capacidade de moenda diária da fábrica de açúcar da Companhia (tinha capacidade para laborar 2 640 toneladas de cana por dia) e a inexistência de quotas de produção por agricultor.45 Confrontados com as 'injustiças' praticadas pela Companhia e com o encarecimento dos 39 'Açúcar nem sempre doce: Açucareira diz de sua justiça'. In: Tempo, 21/07/74, p. 48 David; 17/71974, p. 53 41 AHM-Inspecção dos Serviços Administrativos e dos Negócios Indígenas. Caixa 47. António A. S. Borges. Relatório da inspecção... p. 57 42 Idem 43 Ibidem 44 Couceiro; 13/10/66, p. 3 Couceiro; 14/10/66, p. 3. Pelos contratos, a Companhia obrigava-se a receber e laborar toda a cana produzida pelos canavieiros. 45 'Começaram já a lavrar-se terras com cana por colher'. In: Diário de Moçambique, 3/10/66, p. 3; Couceiro; 13/10/66, p. 3; Couceiro; 13/10/66, p. 3. A Açucareira de Moçambique impunha quotas de produção aos seus canavieiros, as quais se situavam em 3 000 toneladas por agricultor 40 José Cláudio Mandlate Açucar e a política portuguesa de povoamento 59 custos de produção,46 os canavieiros enviaram, em Agosto de 1969, um abaixo-assinado à empresa, pedindo a revisão dos descontos que sofriam.47 Na resposta, a Companhia passou a pagar-lhes 180 escudos por tonelada de cana, valor que consideravam irrisório.48 Na vizinha Açucareira de Moçambique, a situação não era, pelo menos na perspectiva de alguns canavieiros, muito diferente da que se verificava na Companhia do Buzi. É que, apesar das 'vantagens' e das regalias que a Açucareira lhes oferecia, alguns canavieiros queixavam-se da impossibilidade de amortizar as dívidas por causa da constante subida dos custos de produção.49 Vendo o acrescer das dificuldades, um grupo de dez deles enviou, em Maio de 1973, uma exposição ao Governador-Geral de Moçambique, pedindo ajuda para a solução do problema, mas ficaram sem resposta.50 Em Julho do ano seguinte, dois deles foram à imprensa denunciar a situação,51 mas viram os seus intentos gorados, pois, na resposta a Açucareira disse que não faria aumentos nenhuns, visto que ela também se ressentia da subida dos custos de produção e da estagnação dos preços do açúcar em Portugal.52 A partilha com ou a transferência da responsabilidade de produção de cana para agricultores portugueses não visava, afinal, pelo menos sob o ponto de vista ds açucareiras, a aceleração da colonização portuguesa do interior de Moçambique, mas redução dos custos de produção, pois conforme mencionámos, estes subiram durante a década de 1960. Só isso explica a relutância das açucareiras em aumentar os preços de compra da cana, conforme, aliás, os agricultores independentes exigiam. Confrontados com a relutância das açucareiras em mudar o sistema de pagamento da cana e/ou em aumentar os preços de compra e com o silêncio do Governo-Geral em relação ao assunto, alguns canavieiros começaram, a partir de 1972, a diversificar as suas actividades, passando a produzir o agora rentável algodão,53 arroz, oleaginosas e a criar gado.54 A diversificação não significou, porém, o abandono da actividade canavieira, conforme, aliás se pode observar nos Anexos II e III. Ademais, a diversificação de actividades não parece ter impressionado as açucareiras, as quais continuaram a praticar preços considerados baixos pelos canavieiros. Num último esforço para chamar a atenção das autoridades sobre o diferendo que os opunha às açucareiras, os canavieiros da Companhia do Buzi e os da Açucareira de Moçambique reuniram-se em Maio de 1975 na cidade da Beira. No encontro, aprovaram uma resolução solicitando o apoio do Governo de Transição para a sua causa.55 Depois da proclamação da independência nacional, os canavieiros começaram a abandonar o País, levando as açucareiras a se responsabilizarem pela produção de cana.56 Conclusão A história do envolvimento da Companhia do Buzi e da Açucareira de Moçambique no povoamento branco das suas concessões é a história do conflito entre aquelas empresas e os 46 Entre 1964 e 1966, por exemplo, o Estado Colonial aumentou em pouco mais de 10% os salários dos trabalhadores agrícolas africanos não especializados (Rita-Ferreira; 1971, p. 113). Os preços das máquinas subiam também. O preço dum tractor, por exemplo, subiu de 85 para 215 mil escudos entre 1964 e 1974. A isto deve acrescer-se a subida dos preços dos adubos e o aumento dos impostos (Silva, 1974, p. 43) 47 AHM-Fundo dos Serviços do Comércio e Indústria. Caixa 508. 'Exposição dos canavieiros à Companhia do Buzi, 23/08/69 48 'Comercialização de cana discutida por produtores na Beira'. In: Notícias, 8/05/75, p. 2 49 Silva; 1974, p. 42-43; David; 17/7/1974, p. 51-52 50 David; 17/7/1974, p. 52 51 Idem 52 'Açúcar nem sempre doce: Açucareira diz... p. 48, 52 53 Em 1972 um quilograma de algodão de primeira estava a 4,50 escudos 54 'Liberalização do mercado do açúcar: sugestão de um canavieiro'. In: Notícias da Beira, 8/10/73, p. 3 55 'Comercialização de cana…', p. 2 56 Mandlate; 2004, p. 32 60 Cadernos de História de Moçambique, 1, 2011 colonos-agricultores com os quais cooperavam. A cooperação, que devia trazer não apenas vantagens económicas, mas também sócio-políticas, cedo se transformou em manancial de queixas e trocas de acusações, muito por culpa do desencontro entre as expectativas dos agricultores-colonos e a realidade no terreno. Quer dizer, enquanto os colonos-agricultores, aliciados por campanhas propagandísticas, esperavam enriquecer fácil e rapidamente através da venda de cana sacarina, as açucareiras viam neles fornecedores baratos de matéria-prima. O silêncio do Estado Colonial perante o conflito entre os canavieiros e as açucareiras suscita questões sobre as suas reais intenções e sobre o seu relacionamento com o capital e com os camponeses portugueses. É que, apesar de elogiar o sistema canavieiro e considerá-lo um dos garantes da sua perpetuação em Moçambique, o Estado Colonial português não foi capaz de agir em defesa dos canavieiros quando estes se sentiam burlados pelas açucareiras. Bibliografia Documentos de arquivo Arquivo Histórico de Moçambique AHM-Fundo dos Serviços do Comércio e Indústria. Caixa 508. 'Exposição dos canavieiros à Companhia do Buzi', 23/08/1969 AHM-Fundo dos Serviços do Comércio e Indústria. Caixa 515. Recortes do jornal Notícias da Beira (Relatório e Contas da Açucareira de Moçambique referente ao exercício de 1969), 11 de Maio de 1970 AHM-Inspecção dos Serviços Administrativos e dos Negócios Indígenas. Caixa 47. António A. S. Borges. 'Relatório da inspecção ordinária ao Concelho do Buzi', 10/09/1969 AHM-Secção Especial. Companhia Colonial do Buzi. Relatório e contas da gerência de 1933. Lisboa: Centro Tipográfico Colonial, 1934 AHM-Secção Especial. Relatórios e contas da Açucareira de Moçambioque, gerências de 1973 e 1974 Arriaga, G. O. de. A situação da Companhia Colonial do Buzi em 1928. Lisboa: Tipografia do Comércio, 1928 Companhia Colonial do Buzi. Contractos celebrados com a Companhia de Moçambique. Lisboa: Typographia de Adolpho de Mendonça, 1898 Instituto Nacional do Açúcar Moçambique. Ministério da Agricultura. Instituto Nacional do Açúcar. A produção açucareira em Moçambique. Maputo, 1989 Legislação Boletim Oficial, n.º 21, I Série, 1945. Decreto-Lei nº 34 464 de 27 de Março Boletim Oficial, n.º 16, I Série, 1951. Decreto-Lei nº 38 200 de 10 de Março Boletim Oficial, n.º 21, I Série, 1961. Decreto nº 43 637 de 2 de Maio Boletim Oficial, n.º 36, I Série, 1961. Decreto nº 43 893 de 6 de Setembro Monografias, brochuras e teses Baptista, J. do Amparo. Moçambique: província portuguesa de ontem e de hoje. Vila Nova de Famalicão: Centro Gráfico, 1962 Baptista, J. do Amparo. Moçambique perante o problema açucareiro nacional. Vila Nova de Famalicão: Centro Gráfico, 1964 Filipe, E. Colonato do Sábiè: contexto e implicações sobre a economia camponesa, 1956-1974. 2000. Tese, Licenciatura, Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 2000 José Cláudio Mandlate Açucar e a política portuguesa de povoamento 61 Florêncio, F. Processos de transformação social no universo rural moçambicano pós -colonial: o caso do distrito do Buzi. 1994. Tese, Mestrado, Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, Lisboa, 1994 Mandlate, J. C. 'A Companhia do Buzi em transição: uma abordagem sobre as transformações dos processos de recrutamento de mão-de-obra e da estrutura de produção agrícola da empresa, 19611991. 2004. Tese, Licenciatura, Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 2004 Mandava, J., V. Muzimpua. 'Companhia do Buzi: complexo agro-industrial: análise da situação da empresa. Buzi, 1987 Rita-Ferreira, A. Evolução da mão-de-obra e das remunerações no sector privado em Moçambique, desde 1950 a 1970. Lourenço Marques, 1971 Schaedel, M. 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Rocha 'Moçambique durante o apogeu do colonialismo português, 1945-1961: a economia e a estrutura social'. In: Hedges, D. (Coord). História de Moçambique: Vol. II Moçambique no apogeu do colonialismo, 1930-1961. 2ed. Maputo: Livraria Universitária, 1999, p. 129-196 Hermele, K. 'Lutas contemporâneas pela terra no vale do Limpopo: estudo do caso do Chókwè, 19501985'. In: Estudos Moçambicanos, (5/6), 1986, p. 53-81 'Liberalização do mercado do açúcar: sugestão de um canavieiro'. In: Notícias da Beira, 8/10/73, p. 3 'Mafambisse: o milagre económico e social de Moçambique'. In: Tempo, 14/01/73, p. 41-56 'Moçambique será num futuro próximo um dos grandes na produção de açúcar em Africa a concretizarem-se os três projectos em curso de instalação'. In: Economia de Moçambique, n 1, Vol. II (Jan.), 1965, p. 11-13 'Preço do açúcar moçambicano passa apara 6 600 escudos a tonelada'. In: Tempo, 8/03/1974, p. 12 Silva, C. da. 'Os milhões que o açúcar não dá'. In: Tempo, 31/03/74, p. 44-45 Wuyts, M. 'Economia política do colonialismo português em Moçambique'. In: Estudos Moçambicanos, n.º 1, (1980), p. 9-22 62 Cadernos de História de Moçambique, 1, 2011 ANEXOS Anexo I: Cronologia: economia política do povoamento e colonização dos vales dos rios Buzi e Púngoè DATA 1898 1926 1927 1930 1932 1933 19391945 1940s 1942 1945 1951 19531968 1961 1960s 1964 1965 ACONTECIMENTO 01/04. Fundação da Companhia do Buzi (Companhia Colonial do Buzi, do seu nome original), com interesses nas áreas da agro-indústria do açúcar e do algodão, pecuária, construção naval e outras, por contrato entre a Companhia de Moçambique e a firma portuguesa Arriaga e Comandita Pelo artigo 10 do referido contrato, a Companhia do Buzi obriga-se a promover a fixação de famílias portuguesas na sua concessão 28/05. Golpe de Estado militar em Portugal que conduz à instauração duma ditadura fascista A Companhia do Buzi instala o primeiro grupo de colonos, composto por seis famílias que se dedicavam à produção de cana sacarina, rícino e outras culturas A Companhia já tem instaladas oito famílias portuguesas, as quais exploram uma área de 1 248 ha, 322 dos quais eram de cana sacarina O ministro português das colónias anuncia que o seu governo opõe-se ao gasto de fundos públicos com a transferência e instalação de colonos portugueses em África No seu relatório anual, a Companhia do Buzi anuncia que tem 22 núcleos de colonização, os quais ocupavam uma área de mais de 6 000 ha II Guerra Mundial, na sequência da qual cresce o movimento anti-colonial Os canavieiros da Companhia do Buzi passam a ser responsáveis pela angariação de mão-deobra e pelo pagamento dos respectivos salários Termina a concessão da Companhia de Moçambique sobre o território de Manica e Sofala, o qual passa para o controlo directo de Portugal O Decreto-Lei nº 34 464 de 27 de Março autoriza o Ministério das Colónias a gastar fundos públicos para a fixa,cão de cidadãos portugueses em Angola e Moçambique O Decreto-Lei nº 38 200 de 10 de Março cria um fundo anual para o financiamento das viagens de colonos para África No âmbito dos Planos de Fomento, Portugal instala milhares de colonos portugueses no interior das províncias de Gaza, Manica, Cabo Delgado e Niassa Início da emigração de milhares de Africanos para as cidades, que provoca uma grave crise de mão-de-obra agrícola nas zonas rurais No relatório de actividades referentes a este ano, a Companhia do Buzi informa que não obstante as melhorias que fez para a 'melhoria das condições sociais' dos trabalhadores, está a braços com uma grave crise de mão-de-obra agrícola Vários artigos publicados na imprensa moçambicana e portuguesa instigam camponeses portugueses a se envolverem no cultivo de cana sacarina, por o considerarem um caminho rápido para a acumulação de capital e um instrumento de perpetuação da situação colonial em Moçambique A Companhia do Buzi coopera com 20 canavieiros É apresentado o projecto de constituição da Açucareira de Moçambique, o qual prevê que esta não terá plantações próprias, mas comprará toda a cana de agricultores portugueses independentes No seu relatório anual, a Companhia do Buzi informa que está a braços com uma crise de mão-de-obra, na sequência do abandono de 'centenas' de trabalhadores eventuais recrutados no distrito do Buzi Início da luta armada de libertação nacional de Moçambique O número de canavieiros da Companhia do Buzi passa para 30 José Cláudio Mandlate 1966 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 Açucar e a política portuguesa de povoamento 63 Os canavieiros da Companhia do Buzi acumulam avultados prejuízos pelo facto de a empresa não ter comprado cerca de um terço da cana por eles produzida Escritura pública da Açucareira de Moçambique, com início da laboração previsto para a campanha 1969/1970 A Companhia do Buzi compra cana à Açucareira de Moçambique para compensar a baixa produção das suas plantações e das dos seus canavieirois Agosto. Os canavieiros da Companhia do Buzi fazem uma exposição, na qual pedem à empresa a revisão do desconto de 45% que sofriam nas vendas de cana A Companhia do Buzi passa a comprar a cana dos canavieiros por 180 escudos a tonelada A Açucareira de Moçambique inicia a laboração com 79 canavieiros A Açucareira de Moçambique tem 117 canavieiros Os canavieiros começam a diversificar as suas actividades, passando a produzir algodão, arroz e de oleaginosas, e a criar gado A Açucareira de Moçambique constrói 29 moradias para canavieiros e funcionários Um grupo de dez canavieiros da Açucareira de Moçambique faz uma exposição ao Governador-Geral de Moçambique, denunciando as 'injustiças' praticadas por esta e pedindo apoio 25/04. Um golpe de Estado militar em Portugal derruba o regime fascista 07/09. Assinatura do Acordo de Lusaka, que prevê a independência deMoçambique 20/09. Toma posse o Governo de Transição que prepara a indepenência de Moçambique Companhia do Buzi passa a comprar a cana dos canavieiros por 350 Escudos a tonelada 7/05. Os canavieiros da Companhia do Buzi e da Açucareira de Moçambique pedem protecção ao Governo de Transição Início do êxodo dos canavieiros Anexo II: Produção anual de cana sacarina da Companhia do Buzi, 1961-1974 (em toneladas) Ano Total Plantações próprias Canavieiros % da produção canavieira 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 292 006 270 806 280 628 208 912 225 727 325 497 370 898 255 576 302 035 299 573 305 569 356 570 181 701 318 163 197 320 173 891 190 845 120 939 125 219 101 218 120 226 75 957 95 105 90 905 93 466 * * * 94 686 96 915 89 783 87 973 100 508 224 279 250 672 179 619 205 930 208 668 212 103 * * * 32.4 35.8 31.9 42.1 44.5 68.9 67.5 62.7 68.7 69.7 69.4 * * * Fonte: Mandlate; 2004, Anexo II. (*): Dados desconhecidos 64 Cadernos de História de Moçambique, 1, 2011 Anexo III: Produção anual de cana sacarina da Açucareira de Moçambique, 1970-1974 Ano 1970 1971 1972 1973 1974 Quantidade (em toneladas) 349 312 476 541 566 081 668 633 757 617 Fonte: INA, 1989, p. 12 ©José Cláudio Mandlate Departamento de História – Faculdade de Letras e Ciências Sociais, UEM [email protected]