UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE EDUCAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA ANA LÍCIA DE MELO SILVA CARREIRA ILUSTRADA, CIÊNCIA QUÍMICA E AÇÕES HIGIENISTAS: A TRAJETÓRIA DE JOSÉ VIEIRA DE FARIA ARAGÃO ATALIBA, PORTUGALCOIMBRA, BRASIL-SALVADOR (1820-1853) FORTALEZA 2014 ANA LÍCIA DE MELO SILVA CARREIRA ILUSTRADA, CIÊNCIA QUÍMICA E AÇÕES HIGIENISTAS: A TRAJETÓRIA DE JOSÉ VIEIRA DE FARIA ARAGÃO ATALIBA, PORTUGALCOIMBRA, BRASIL-SALVADOR (1820-1853) Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação Brasileira da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação. Área de Concentração: História da Educação Comparada. Orientador: Prof. Dr. Almir Leal de Oliveira. FORTALEZA 2014 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará Biblioteca de Ciências Humanas S578c Silva, Ana Lícia de Melo. Carreira ilustrada, ciência química e ações higienistas : a trajetória de José Vieira de Faria Aragão Ataliba, Portugal-Coimbra, Brasil-Salvador (1820-1853) / Ana Lícia de Melo Silva. – 2014. 122 f. : il. color., enc. ; 30 cm. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Fortaleza, 2014. Área de Concentração: História da educação comparada. Orientação: Prof. Dr. Almir Leal de Oliveira. 1.Ataliba,José Vieira de Faria Aragão,1804– 1853. 2.Sanitaristas – Bahia – Biografia. 3.Professores de química – Estudo e ensino(Superior) – Bahia – 1820-1853. 4.Intelectuais – Bahia – 1820-1853. 5.Educação comparada. I. Título. CDD 926.109814209034 ANA LÍCIA DE MELO SILVA CARREIRA ILUSTRADA, CIÊNCIA QUÍMICA E AÇÕES HIGIENISTAS: A TRAJETÓRIA DE JOSÉ VIEIRA DE FARIA ARAGÃO ATALIBA, PORTUGALCOIMBRA, BRASIL-SALVADOR (1820-1853) Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação Brasileira da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação. Área de Concentração: História da Educação Comparada. Aprovada em: ___/___/_____ BANCA EXAMINADORA _______________________________________ Prof.o Dr. Almir Leal de Oliveira (Orientador) Universidade Federal do Ceará (UFC) _______________________________________ Prof.o Dr. Gisafran Nazareno Mota Jucá Universidade Federal do Ceará (UFC) _______________________________________ Prof.o Dr. José Albio Moreira de Sales (Examinador Externo) Universidade Estadual do Ceará (UECE) À minha mãe, Ana Celma, pela presença constante. Ao meu pai, Cícero Aparecido, pelos conselhos. Ao meu irmão, Cristiano de Melo, pelas brincadeiras. Aos meus avós, pela sabedoria. Aos amigos, pela fraternidade. AGRADECIMENTOS A realização desta pesquisa não seria possível sem a colaboração direta ou indireta de algumas pessoas... Agradeço, em primeiro lugar, a minha família pelo incentivo, amor e compreensão de minha ausência em muitos momentos importantes de suas vidas e das palavras de conforto quando eu não os tinha aqui pertinho de mim. Ao orientador, Prof. Dr. Almir Leal Oliveira, pela orientação competente, dedicação e paciência para me ensinar cada etapa do processo de construção desta pesquisa. Às professoras Maria Juraci Cavalcante Maia e Zuleide Fernandes Queiroz que participaram da minha banca de qualificação e das críticas e sugestões apresentadas. Aos professores Gisafran Jucá e José Albio, por aceitarem examinar o meu trabalho de dissertação, terem apresentado críticas construtivas e sugestões para aprofundamento da temática. Aos colegas e professores que fazem parte da Linha História da Educação Comparada, pelas tardes de estudos, experiência de trabalho em congresso científico e companheirismo. A Cícero Edinaldo dos Santos pela solidariedade durante estes dois anos de estudos, sorrisos, brincadeiras, conversas e reflexões sobre a vida. Simplesmente, nós construímos uma amizade. Aos colegas Ana Cláudia, Cristina Mandau, Fabiane Elipídio, Luciana Moura, Maria Norma, Phelipe Bezerra, Robson Alves, Simone Mesquita, Vanessa Pinto e Wagner José, pelas boas conversas, brincadeiras e fraternidade. Aos funcionários do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira e dos alunos voluntários da comissão de bolsa, pelas orientações e atenção. Aos colegas da turma de Mestrado 2012, pela tardes e manhãs produtivas em cada aula e seminários. Aos funcionários, secretários, coordenadores, diretores e estágios das instituições e arquivos pesquisados, em Salvador, Coimbra e Lisboa, pela atenção e auxilio no desenvolvimento da pesquisa documental. Aos professores Fernando Catroga e Ana Cristina Araújo pelas produtivas conversas sobre a minha pesquisa e do convite para participar de aulas no Programa de Doutoramento em História da Universidade de Coimbra que me fizeram entender melhor o campo da História. A Eudes Gomes, Débora Macambira e Maria Lúcia, pela atenção e solidariedade com que me receberam no período em que passei pesquisando em Portugal. De modo especial, à Maria Bertolina que gentilmente me recebeu para uma conversa sobre a minha pesquisa que foi, sem dúvidas, essencial para o andamento da minha pesquisa documental. Às amigas Silvia Caroline, Thatiana Santana, Natali Carvalho e Mari D’Ávila, pela amizade, apoio e palavras de conforto em cada momento deste período de pesquisa que realizei em Fortaleza. Aos colegas das redes sociais, em especial, ao grupo Babado, Papoco e Confusão, pelas longas conversas sobre educação, sociedade, religião e sexualidade. Às professoras Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas e Maria José Dantas, pela orientação competente nos estudos sobre História da Educação e Cultura Material Escolar. À professora Claudete Sales Sampaio, pelos ensinamentos sobre o campo da Psicologia e conversas de apoio e motivação. Aos colegas da turma de mestrado em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Federal de Sergipe (2012), pelo incentivo no momento em que decidi seguir por outros estudos. À professora Marlene Rios, pelas boas conversas e pelos conselhos sobre a vida e projetos profissionais. Às professoras Silvia Wasse e Maria Helena Mendes Ferraz, pelas conversas sobre o campo da História da Ciência. À Fracisca Claudinete, pelo carinho e apoio com que me recebeu em Fortaleza na época de seleção de mestrado. Ao casal Pedro Nunes e Francisca Moraes que juntamente com suas filhas, Lia e Léa, por me auxilio e acolhimento em sua residência nas minhas primeiras semanas em Fortaleza. Ao CNPq, pelo apoio financeiro. Encerro os meus agradecimentos com os dois pesquisadores que me incentivaram aos estudos em História da Educação. Aos professores Evelyn Orlando e Jorge Carvalho do Nascimento pelo incentivo aos estudos sobre a História da Química. Ao decidir seguir na pesquisa científica, em História da Educação, vocês, em momento algum, disseram que seria fácil. E logo aprendi com os seus ensinamentos que o melhor caminho seria a dedicação aos estudos, respeitar o próximo e ser humilde para reconhecer os próprios erros. Obrigada, sinceramente! RESUMO O presente estudo trata do processo de ilustração de José Vieira de Faria Aragão Ataliba (1804 – 1853). A escolha pelo referido sujeito deu-se diante da informação que o mesmo foi o professor da cadeira de Química no período de 1833-1837, na Faculdade de Medicina da Bahia.Nestas circunstâncias e tendo por base as atividades assumidas por ele, três objetivos foram propostos. O primeiro, conhecer o processo de ilustração de José Viera de Faria Aragão Ataliba, em Portugal, situando-o como estudante na Universidade de Coimbra; o segundo, conhecer a formação do mencionado sujeito em medicina e as experiências conimbricenses; o terceiro, compreender o seu percurso de atuação profissional, identificando a Ciência Química como interface nas suas atividades higienistas. O recorte temporal da pesquisa inicia-se em1820, quando José Vieira de Faria Aragão Ataliba começou seus estudos acadêmicos na Universidade de Coimbra. O ano de 1853 finaliza o recorte temporal, pois representa o ano de morte do sujeito citado. A investigação é resultado de pesquisas em arquivos e bibliotecas das cidades de Salvador, Coimbra e Lisboa, além de leitura de periódicos. A tipologia dos registros empíricos (fragmentados e não seriais) da trajetória do sujeito foi constituída, essencialmente, por periódicos, registros escolares, memórias, tratados de higiene e outras informações secundárias que permitiram compreender como determinados costumes e hábitos culturais foram adquiridos pelas instruções dadas ao sujeito ilustrado do período. Os vestígios encontrados sobre a experiência cultural de José Vieira de Faria Aragão Ataliba nos conduziram às reflexões sobre os planos de estudos médicos de 1772 e 1812 da Universidade de Coimbra, aos debates teóricos sobre o ensino de Química na mesma instituição e ao processo de ilustração em Portugal. Por intermédio dessas postulações, foi possível compreender a postura profissional de José Vieira de Faria Aragão Ataliba ao realizar ações higienistas, na realidade baiana, ancoradas nos pressupostos químicos. PALAVRAS-CHAVE: História da Educação Comparada. Ilustração. Ciência Química. Ações Higienista. ABSTRACT This study is base don the process of illustration by José Vieira de Faria Aragão Ataliba (1804- 1853). I have made such a choice because this person used to be a chemistry professor at the medical school in Bahia from 1833 to 1837. This way, considering the activitie shehad, I proposed three main goals. First, tok now how his process was developed in Portugal as still a student at the Coimbra University; second, tounder stand his major in general, as well as his experiences in that country and, third, to get to know his path towards this carrer, identifying chemistry as an interface in his hygene activities. This part of theres earch starts back in 1820, when José Vieira Ataliba entered the university. It finishes in 1853, due to his death. This investigation is a result of various earches in files and libraries in Salvador, Coimbra and Lisbon, be sides reading lots of news papers. The registers, built essencially through news papers, school record sandh is memoirs, were, unfortunately, fragmented and not cronological. Despite this, all the information all owed us to see how certain cultural habits have been acquired by him. His cultural experience has conducted us to reflect about the medical study plans from 1772 to 1812, the theoretical debates on the chemistry teachin gat that university, and also the illustration process in Portugal. Through all these postulations, it has been possible tounder stant José Vieira Ataliba’s professional attitude, when executing hygeneactions in Bahia, based in chemical pretexts. KEY WORDS: History of compared education. Illustration. Chemical Science. Hygeneaction. LISTA DE TABELAS E FIGURA Tabelas Tabela 01 – Sessões de exames letivos de José Vieira Ataliba no curso de Medicina....................................................................................................................................58 Tabela 02 – Relação de endereços de José Vieira Ataliba na cidade de Coimbra....................71 Figura Figura 01 - Pintura – Retrato de José Vieira de Faria Aragão Ataliba.................................... 83 Figura 02 – Planta baixa da Prisão Fortaleza do Barbalho/BA ..............................................102 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ................................................................................................................ 10 1. O PROCESSO DE ILUSTRAÇÃO EM PORTUGAL: VIAGENS MARÍTIMAS, UNIVERSIDADE DE COIMBRA E FORMAÇÃO MÉDICA 1.1 A Ilustração e as Viagens Marítimas .................................................................................. 18 1.2 A Reforma da Universidade de Coimbra e as Contribuições Pedagógicas de Antonio Verney e Ribeiro Sanches......................................................................................................... 31 1.3 A Formação Ilustrada em Medicina e os Planos de Estudos Reformados de 1772 e 1812 .................................................................................................................................................. 41 2. JOSÉ VIEIRA DE FARIA ARAGÃO ATALIBA, UM MÉDICO ILUSTRADO: O PERCURSO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA, OS ESTUDOS DA CIÊNCIA QUÍMICA E AS EXPERIÊNCIAS CONIMBRICENSES 2.1 A Formação Acadêmica ..................................................................................................... 53 2.2 Os Estudos Químicos na Universidade de Coimbra ........................................................... 59 2.3 As Experiências Conimbricenses ....................................................................................... 69 3. A CARREIRA PROFISSIONAL DO ILUSTRADO DR. ATALIBA: A CIÊNCIA QUÍMICA NA INTERFACE DE SUAS AÇÕES HIGIENISTAS 3.1 A Carreira profissional do Médico Ilustrado ...................................................................... 81 3.2 A Construção de um Espaço de Práticas Experimentais para o Ensino e Análise Química.................................................................................................................................... 90 3.3 As ações Higienistas do Dr. José Vieira Ataliba ............................................................... 97 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 105 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 109 FONTES DE PESQUISA .................................................................................................... 118 ANEXO .................................................................................................................................. 122 10 APRESENTAÇÃO O meu interesse em pesquisar a atuação profissional de intelectuais no ensino de Química, na primeira metade do século XIX, teve origem no último semestre de minha formação acadêmica em Química Licenciatura, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), em 2008 e na minha inserção no Grupo de Pesquisa em História da Educação: intelectuais, instituições e práticas escolares. Desde então, fiquei a pensar como foi à formação acadêmica dos professores de química no início do século XIX e como eram as suas atuações profissionais. Em março de 2011, eu comecei a participar da disciplina Cultura Material e Práticas Educativas do Programa de Pós-Graduação em Educação/UFS. As leituras daquela disciplina ajudaram a compreender o campo da História da Educação e a instigar a minha curiosidade sobre a história dos intelectuais da Química, situados na Faculdade de Medicina da Bahia. Paralelamente as atividades daquela disciplina, a dedicação ao trabalho de leitura e fichamentos, me levaram ao conhecimento do livroA indústria química e o desenvolvimento do Brasil: dos primórdios da alquimia ao Brasil imperial (1500-1889). O referido livro, escrito por Carrara Jr. e Meirelles (1996), é dividido em dois tomos. O primeiro, Dos primórdios da alquimia ao Brasil Imperial (1500-1844) e o segundo, De Pedro II à República (1844-1889). A partir de uma investigação histórica, os autores apresentaram, em cada capítulo, um conjunto de documentos que situam a Química no setor da indústria, pesquisa e ensino. No que se refere a esse último ponto, o livro informa que a cadeira de Química foi criada na Academia Médico-Cirúrgica da Bahia por Carta-Régia de 28 de janeiro de 1817 (p.218). O item O ensino e a pesquisa Química situado no capítulo O desenvolvimento Industrial apresentou José Viera de Faria Aragão Ataliba como primeiro professor da cadeira de Química da Faculdade de Medicina da Bahia, no ano de 1833. Essa informação chamou a minha atenção. Até o momento, eu não tinha conhecimento de histórias dos intelectuais da cadeira de Química daquela instituição. Diante disso, comecei a investigar e colecionar informações sobre o intelectual José Vieira Ataliba. Os primeiros registros que tive conhecimento foram lidos no livro de Atas da Congregação da Faculdade de Medicina da Bahia (1816-1855), no qual pude ter noção do cotidiano da instituição e da participação daquele professor. A dificuldade de encontrar outros vestígios foi evidenciada, mas não foi suficiente para encerrar as minhas investigações em trabalhos acadêmicos e memórias de José Vieira Ataliba. 11 Com a leitura dos traços biográficos do citado professor de Química, no periódico Gazeta Médica da Bahia, conheci um pouco de sua história. Descobri que o mesmo era filho do comerciante Francisco Vieira de Faria e de Antonia Florinda de Aragão. Ao completar seus 16 anos de idade, José Vieira Ataliba embarcou para Portugal a fim de estudar medicina na Universidade de Coimbra entre os anos de 1820-1827. Com a obra Memória histórica da Faculdade de Medicina da Bahia – concernente ao ano de 1942, eu tive o conhecimento das atividades profissionais exercidas por José Vieira Ataliba na cidade de Salvador após retornar de seus estudos médicos. Ele foi eleito Vereador (1833-1834), Fiscal da Comissão da Saúde (1835), Juiz de Paz (1836), Deputado da Província (1844), Presidente da Câmara Municipal (1845), Presidente do Conselho de Instrução Pública (1852) e, Secretário e Presidente do Conselho de Salubridade da Província da Bahia (1843). A partir do conjunto de informações sobre o seu percurso de vida e das leituras sobre História da Educação e da Ciência, eu comecei a elaborar o meu projeto de mestrado para o campo da História da Educação Comparada, cujo título foi “A formação e atuação profissional de José Vieira de Faria Aragão Ataliba: lente da cadeira de Química da Faculdade de Medicina da Bahia (1804-1853)”. A proposta era compreender a formação e atuação profissional do intelectual; identificar a rede de sua sociabilidade; relacionar os conhecimentos científicos adquiridos no curso médico com sua atuação profissional na Bahia. As primeiras orientações deste projeto de pesquisa tiveram início em 2013. A partir desse período, eu tive conhecimento sobre as reflexões acerca do processo de ilustração. Esse tipo de abordagem logo foi tratado na pesquisa como o caminho viável para estudar os percursos de formação acadêmica e profissional de José Vieira Ataliba. O entendimento sobre a ilustração é construído através da relação entre o saber e o poder. O intelectual que detêm a sua atenção à construção do conhecimento científico passou a ter uma estreita relação com aqueles que monopolizavam os recursos materiais. Dessa forma, as produções científicas tornaram uma espécie de moeda de troca que, por um lado, fortalecia a economia e a política de uma metrópole e, do outro, os cientistas acumulavam vantagens sociais além de exercerem cargos políticos (RAMINELLI, 2008). O processo de ilustração foi uma instrução cultural científica voltada para a elite, no século XVIII. Dessa forma, o intelectual ilustrado passava a adquirir gostos e atitudes que os distinguia das outras pessoas de sua sociedade, ou seja, a sua civilidade ao mesmo tempo em que o destacava em sociedade, também servia de exemplo a ser seguido por indivíduos que não eram escolhidos para terem a devida instrução (NEVES, 1984). 12 Em Portugal, os ecos da ilustração tiveram os seus vestígios nas propostas pedagógicas de alguns ilustrados, a exemplo de António Ribeiro Sanches e Luis António Verney que tomaram como base de seus escritos as suas experiências de formação cultural científica. Entres os exemplos de ações ilustradas esteve a Universidade de Coimbra que se tornou, após a sua reforma de 1772, um centro de formação de bacharéis que assumiriam os cargos políticos na metrópole e em suas colônias (VARELA, 2006). O quadro conceitual desta pesquisa destaca os estudos historiográficos de Raminelli (2008), Varela (2006) e Neves (1984).Apresenta reflexões dos pesquisadores Boto (2010), Dias (2005) e Falcon (1988), os quais norteiam o entendimento do sujeito social em processo de ilustração a partir da compreensão de civilidade. A ideia de civilidade foi empregada nesta pesquisa através dos estudos do sociólogo Norbert Elias (1994). O referido termo é uma categoria que nos permitiu conhecer os sinais do sujeito ilustrado, em particular José Vieira de Faria Aragão Ataliba, como um indivíduo social civilizado. Embora, o conceito de civilidade tenha sido construído pelo referido autor a partir da análise da sociedade francesa, as suas observações são profícuas para outros tempos e espaços. [...] O conceito de civilização indica clareza,em seu uso no século XIX, que o processo de civilização – ou, em termos mais rigorosos, uma fase desse processo – foram completado e esquecido. As pessoas querem apenas que esse processo se realize em outras nações, e também, durante um período, nas classes mais baixas de sua própria sociedade. Para as classes alta e média da sociedade, civilização parece firmemente enraizada. Querem, acima de tudo, difundi-la e, no máximo, ampliá-la dentro do padrão já conhecido (Idem, p. 113). Nesse sentido, o intelectual baiano, José Vieira de Faria Aragão Ataliba, obteve instrução ilustrada na Universidade de Coimbra entre os anos 1820-1827. Nesse ambiente acadêmico, ele passou a adquirir um comportamento médico e político, razão pela qual conseguiu uma ascensão social, prestígio e vantagens políticas na sociedade baiana e, ao mesmo tempo, esteve empenhado em realizar ações higienistas. Diante disso, configuramos o nosso objeto de analise: significar estes dois contextos sociais – Coimbra/Portugal e Bahia/Salvador para compreender as traduções culturais de civilidade que ele aplicou em sua atuação profissional através de ações higienistas, as quais estiveram embasadas nos pressupostos da Ciência Química. Com esta intenção de pesquisa, as disciplinas do curso de mestrado, as reuniões da Linha de História da Educação Comparada, os eventos científicos e o contato com pesquisadores contribuíram para o conhecimento de referências bibliográficas. As orientações 13 e discussões em torno do projeto de pesquisa foram fundamentais para a organização do trabalho de dissertação. A qualificação deste projeto de pesquisa, realizado no final do mês de julho de 2013, me trouxe críticas e considerações sobre a metodologia utilizada, os locais de fontes, recorte temporal e o sujeito da pesquisa. Além disso, as avaliadoras observaram, como importante para a minha formação de pesquisadora e dos objetivos desta pesquisa, que parte das investigações fossem realizadas em Portugal. O limite cronológico desta pesquisa foi definido tendo em vista o início da formação acadêmica em medicina de José Vieira Ataliba, na Universidade de Coimbra – 1820, ao ano de seu falecimento, 1853 na cidade de Salvador. Dessa forma, a pesquisa trata do período em que José Vieira de Faria Aragão Ataliba viveu na cidade de Coimbra de 1820 – 1828, por ocasião de seus estudos médicos e dos anos em que viveu na cidade de Salvador de 1833-1853, por tratar do período de seu exercício profissional. O nosso trabalho de investigação está inserido numa abordagem da micro-história por nos permitir compreender as relações culturais que José Vieira de Faria Aragão Ataliba estabeleceu com sua rede de sociabilidade no percurso de sua formação acadêmica e atuação profissional. Na sua condição de ilustrado, ele passou a ser compreendido nesta pesquisa como um sujeito histórico da razão, da lógica, da experimentação e da ciência. Segundo os estudos de Boto (2010), o sujeito ilustrado era formado a partir dos alicerces do iluminismo e da modernidade e, desta forma, trazia em si os emblemas de uma racionalidade e da civilização dos costumes. Com isso, o estudo foi estabelecido no campo da História da Ciência por contemplar os sujeitos ilustrados que contribuíram na construção do conhecimento científico, os quais ficaram “apagados pela aparente continuidade do progresso científico”. Nessa perspectiva, o estudo passou a reconhecer José Vieira de Faria Aragão Ataliba como intelectual que ao adquirir um conhecimento científico na área da medicina conseguiu propor ações de civilidade através de suas atividades higienistas embasadas nos pressupostos químicos (ALFONSO-GOLDFARB, 1994, p. 6). Seguindo a perspectiva de situar historicamente José Vieira de Faria Aragão Ataliba como ilustrado da primeira metade do século XIX, em dois contextos sociais – Coimbra/Portugal e Salvador/Bahia, buscamos contribuições da História da Educação. Essa área de pesquisa propõe o desenvolvimento de pesquisas na forma de uma história-problema, ou seja, as produções de trabalhos históricos devem questionar os fatos que expressam as atividades humanas. 14 Para isto, a produção do conhecimento histórico deve estar norteada a reinterpretar o passado. A leitura dos documentos que tratam de José Vieira de Faria Aragão Ataliba nos permitiu repensar os seus percursos de formação e atuação numa inter-relação com outros sujeitos históricos, campos científicos e realidades sociais. Desta forma, conduzimos a nossa pesquisa nas reflexões do historiador Jacques Le Goff (1990, p.31). O mesmo, ao tratar do campo da História, considerou que os fatos históricos são fabricados pelo historiador e, por isso, “só há fato ou fato histórico no interior de uma história-problema”. No andamento desta pesquisa alguns questionamentos foram levantados. Qual o plano de estudos José Vieira de Faria Aragão Ataliba seguiu entre os anos de 1820-1828? Como foram os seus anos de experiência estudantil na cidade de Coimbra? José Vieira de Faria Aragão Ataliba teve uma ascensão social como prevê a sua condição de ilustrado? Qual a importância dada a Ciência Química pelos sujeitos ilustrados da Faculdade de Medicina da Bahia? Quais as atividades higienistas realizadas por José Vieira de Faria Aragão Ataliba que traduzem em ações de civilidade? Os questionamentos apresentados partiram do entendimento de que os percursos de formação e atuação profissional de José Vieira de Faria Aragão Ataliba só conseguiriam sentido na medida em que fossem relacionados com o contexto social. O gênero biográfico do tipo modal possibilitou situar o sujeito nas tessituras sociais, educacionais e culturais com a finalidade de compreender os fatores históricos que contribuíram e influenciaram as suas decisões e escolhas, além das características que integram os diferentes grupos que o sujeito histórico participou (LEVI, 2002). O fluxo de eventos ou ações desenvolvidas por um sujeito histórico, um ilustrado, intelectual, civilizado deve ser entendida como um processo de recolha de elementos dos processos formativos institucionais e experiências culturais em outras realidades sociais e por contato com outros sujeitos.Essa perspectiva adotada para conhecer e compreender a formação e atuação profissional de José Vieira de Faria Aragão Ataliba conduz a filiação desta pesquisa a uma abordagem em Educação Comparada por considerar que “a educação não funciona de forma isolada; se inter-relaciona com outras instituições sociais e políticas e que é melhor compreendida quando examinada em seu contexto social” (KAZAMIAS, 2012, p. 181). A pesquisa documental foi realizada em duas etapas. A primeira na cidade de Salvador/BA, na qual a recolha de fontes foi desenvolvida nas seguintes instituições: Arquivo da Fundação Gregório de Matos, Arquivo Público do Estado da Bahia e no Arquivo da Faculdade de Medicina da Bahia. A segunda etapa foi realizada nas cidades de Coimbra e 15 Lisboa/Portugal no Arquivo da Universidade de Coimbra, Biblioteca da Universidade de Coimbra e Torre do Tombo. Em cada uma dessas instituições buscamos realizar um levantamento de fontes diversas, tais como atas, almanaque, estatutos, jornais, matrículas, memórias, ofícios, pareceres, revistas, termos de posse, teses e tratados. Todos os documentos foram selecionados seguindo o recorte temporal e o sujeito investigado. A dedicação e a paciência empreendida foram importantes para o alcance dos documentos, assim como, os funcionários, estagiários e professores de cada acervo documental que estiveram à disposição para orientar, explicar e localizar os vestígios acerca do percurso de formação e atuação profissional de José Vieira de Faria Aragão Ataliba. A partir das indicações recebidas daquelas pessoas foi possível ter conhecimento de jornais da época investigada que estavam na forma eletrônica.A leitura dos jornais Correio Mercantil, Guaycuru e Correio Sergipense possibilitaram o conhecimento do percurso profissional de José Vieira de Faria Aragão Ataliba na sociedade baiana. As fontes, após serem localizadas, receberam tratamentos diferentes. Para aquelas que foram encontradas nos arquivos das instituições baianas tivemos a autorização para fotografá-las. Para aquelas que foram encontradas nos acervos da cidade de Coimbra, algumas foram digitalizadas e outras transcritas. Em seguida, os dados foram selecionados e organizados por tema e período a fim de serem feitos inventários descritivos. Na sequência, foi realizada a interpretação dos documentos a partir de um acompanhamento de bibliografia correspondente ao contexto social. No Arquivo da Fundação Gregório de Matos foi encontrado o Livro de Atas de Posse Juramento dos Juízes e os documentos avulsos do Conselho de Salubridade e Instrução Pública, os quais permitiram o conhecimento das atividades profissionais exercidas por José Vieira de Faria Aragão Ataliba como juiz de paz da Freguesia da Sé da cidade de Salvador, secretário e presidente do Conselho de Salubridade da Província da Bahia e, presidente da Instrução Pública. No Arquivo Público do Estado da Bahia, as correspondências recebidas da Escola de Medicina da Bahia permitiram entender como os professores dessa instituição de ensino solicitavam recursos para a construção de um laboratório para práticas químicas com vista ao ensino médico e prestação de serviço de análises químicas. O Livro de Atas Instrução Pública e o Almanach do ano de 1845 apresentaram informações importantes sobre José Vieira Ataliba em seu percurso na Instrução Pública na Província da Bahia e o seu endereço residencial, respectivamente. 16 No Arquivo da Faculdade de Medicina da Bahia, a tese do aluno de medicina, José Antonio de Freitas Júnior, e a memória sobre os traços biográficos do Dr. Ataliba escrito pelo professor da Faculdade de Medicina da Bahia, Alexandre José de Queiroz, possibilitaram o conhecimento do percurso acadêmico e profissional de José Vieira de Faria Aragão Ataliba, assim como conhecer a repercussão positiva de suas atividades na Província da Bahia. A leitura do Livro de Ata da Congregação de Medicina de 1816-1855 da mesma instituição de ensino contribuiu para conhecer e entender o cotidiano do curso de medicina e das cadeiras que o ilustrado baiano desta pesquisa assumiu de 1833-1854. No Arquivo da Universidade de Coimbra, a leitura do livro Brasilia e Relação e índice Alphabetico dos Estudantes permitiu identificar as matrículas de cada ano letivo de José Vieira de Faria Aragão Ataliba e seus endereços residenciais durante o período de estudos médicos. A leitura dos Novos Estatutos da Universidade de Coimbra (1772) referente ao curso de medicina possibilitou o conhecimento da organização dos estudos universitário. A leitura dos seguintes documentos: Carta de Curso, Certidão de Idade e os Livros de Atas de Medicina Actos e Graus, Acta e Pontos possibilitaram o conhecimento dos documentos apresentados por José Vieira de Faria Aragão Ataliba em cada matrícula, dos conteúdos, examinadores e presidentes de sessão de exames letivos, o seu plano estudos e seu diploma de bacharel em medicina.Com a leitura de documentos avulsos relacionados à Congregação da Faculdade de Filosofia do período de 1773-1879 foi possível conhecer as atividades dos professores acadêmicos na Universidade de Coimbra. Na Biblioteca da Universidade de Coimbra, a leitura de memórias históricas que tratavam sobre a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e dos prejuízos das sepulturas nos templos católicos apresentou informações importantes acerca do contexto social português. Além desses documentos, a leitura de tratados higienistas possibilitou o entendimento do comportamento de um médico político. No Arquivo da Torre do Tombo, a leitura de ofícios que se referiam a Universidade de Coimbra possibilitou a compreensão do ensino de química e das repreensões que os estudantes recebiam. Na Hemeroteca Digital, o acesso aos exemplares dos jornais Correio Mercantil, Guaycuru, Correio Sergipense e O Crepúsculo permitiram localizar os vestígios de José Vieira de Faria Aragão Ataliba em suas atividades profissionais na Província da Bahia, tais como: notas de candidaturas políticas e falecimento e pareceres na Instrução Pública e do Conselho de Salubridade. A pesquisa está organizada numa divisão de três capítulos. O primeiro intitulado O processo de ilustração em Portuga: viagens marítimas, Universidade de Coimbra e 17 formação médica teve por objetivo apresentar o processo de ilustração português através de três itens. No primeiro, aborda o processo de ilustração nas viagens marítimas. No segundo, situamos o processo de ilustração português na Universidade de Coimbra a partir da reforma dos seus Estatutos de 1772 e a importância das ideias pedagógicas de Ribeiro Sanches e AntonioVerney na formação acadêmica. No último item do capítulo, tratamos da formação médica na Universidade de Coimbra e de seus planos de estudos reformados, o primeiro de 1772 e, o segundo de 1812 que teve a finalidade de adequar os estudos da formação em Medicina com vista nos problemas da realidade social. O segundo capítulo, José Vieira de Faria Aragão Ataliba, um médico ilustrado: o percurso de formação acadêmica, os estudos da Ciência Química e as experiências conimbricenses foi dividido em três itens. O primeiro apresenta os anos de sua formação acadêmica em medicina na Universidade de Coimbra, no período de 1820 – 1827. Nesse contexto, destacamos a organização do curso de Medicina em duas etapas: a primeira chamada de preparatório, com duração de três anos e o curso médico, em cinco anos; o plano de estudos (re) configurado que foi implantado em 1812; o calendário acadêmico: período de férias, matrículas e exames letivos. O segundo reflete sobre os pressupostos teóricos dos estudos químicos ensinados na Universidade de Coimbra que ocasionaram debates entre os professores acadêmicos. O último aborda as experiências culturais que José Vieira Ataliba adquiriu ao conviver com outros estudantes na cidade de Coimbra. O terceiro capítulo, Carreira profissional do ilustrado Dr. José Vieira Ataliba: a ciência química na interface de suas ações higienistas, trata de compreender como determinada cultura científica, social e cultural foram adquiridos por Dr. José Vieira Ataliba no seu processo de ilustração deram sentido a seu empenho em ações higienistas na sociedade baiana, identificando como interface a Ciência Química. Deste modo, o primeiro item apresenta o percurso profissional do Dr. José Vieira de Faria Aragão Ataliba entre o contexto de ensino acadêmico na Faculdade de Medicina da Bahia e nos cargos políticos da administração da Província da Bahia. O segundo apresenta o empenho dos professores do curso médico em construir um espaço de práticas experimentais para o ensino e análise químicas. O último item apresenta as ações higienistas do médico ilustrado Dr. José Vieira Ataliba na realidade baiana. 18 1. O PROCESSO DE ILUSTRAÇÃO EM PORTUGAL: VIAGENS MARÍTIMAS, UNIVERSIDADE DE COIMBRA E FORMAÇÃO MÉDICA 1.1 A Ilustração e as Viagens Marítimas A Europa, no século XVIII, passou por constantes oscilações econômicas, políticas e culturais que, diferentemente de séculos anteriores, contribuíram para confrontos e interfaces de debates ideológicos entre as sociedades. O campo científico contribuiu para ampliar as concepções sobre o mundo e suas relações com os sujeitos sociais a partir da razão. Neste contexto, o Iluminismo se apresentou como um movimento intelectual e filosófico, não limitado a sua época, o qual tinha como base a razão para tratar da felicidade, da ordem e da liberdade. Para a pesquisadora Boto (2010, p. 282), o movimento das ‘Luzes’pode ser compreendido como: [...] um fenômeno intelectual que teve lugar na Europa em meados do século XVIII. Tinha como principal baliza a referência crítica; compreendendo o mesmo conceito de crítico como reconhecimento de possibilidades, mas também dos limites da capacidade humana de conhecer. Mais do que isso, os iluministas compreendiam que a instrução conduziria não apenas a um acréscimo de conhecimento do sujeito, mas também a um aprimoramento do individuo que instruiu [...] A educação passou a ser um instrumento que permitiu ao intelectual moderno tratar de questões que envolviam a ciência, a organização da sociedade e o saber. Nesse campo dos processos formativos, o historiador Falcon (1989) ao refletir sobre o Iluminismo, identificou a formação de outro movimento - a Ilustração: [...] A Ilustração foi uma realização ou concretização histórica do Iluminismo, talvez a mais famosa, mas não necessariamente a primeira, nem tão pouco a última [...] Nossas referências mais gerais à Ilustração terão, portanto, como pressuposto implícito, a ideia de um vasto movimento de ideias, marcadas pela secularização e pelo racionalismo, concretizando-se formas variadas, de cultura para cultura [...](idem, p.54) O movimento de Ilustração revelou o intelectual como sujeito histórico que soube mediar o saber e o poder para assumir uma postura sociopolítica em uma determinada realidade social. Nos estudos sobre a história da pedagogia no século XVIII, o pedagogo Cambi (1999) definiu este intelectual moderno como um ‘iluminado’ que inspirou uma política de reformas sociais. Neste contexto social e político, mas também econômico e jurídico, deve ser sublinhada ainda e com força a nova fisionomia assumida pelo intelectual: o seu 19 papel sociopolítico, a sua identidade cultural, a sua função pública, que o delinearão como uma figura central nos séculos seguintes e o caracterizarão cada vez mais no sentido educativo. [...] O intelectual torna-se mediador entre sociedade e poder, adquire maior autonomia, sua presença é ativa no âmbito social, muito ativa até, ele se põe como consciência crítica de toda a vida social e sua produção cultural adquire uma função de guia em toda a sociedade civil e até mesmo em relação ao Estado, nos momentos mais favoráveis [...] (idem, p.324-325) O processo de ilustração que tratou de formar o intelectual moderno o conduziu a uma nova perspectiva de produção do conhecimento científico a partir das viagens marítimas que marcaram o século XVIII. A riqueza natural que contribuiu para o aprimoramento dos estudos, construções de textos científicos e coleções com elementos naturais da flora, fauna e minerais explorados são considerações que a historiadora Domingues (2012) identificou como possibilidades de formação do sujeito ilustrado. O século das Luzes, ao trazer consigo uma nova concepção de ciência, acompanhada por um racionalismo cada vez mais notório, lançou as bases para a exploração científica da natureza selvagem dos trópicos [...]. Gerou um processo que tornou os homens donos de terras, objetos e mundos, com vontade de conhecer e dominar a natureza por meio da construção de registros: textos, coleções, herbários, imagens, pinturas, mapas. Nesse movimento de apropriação de novos lugares e de redescobrimento do mundo, os viajantes são figuras ímpares. “Homens do seu tempo” – cultos, interessados, curiosos -, contribuíram para que a Europa ilustrada arquitetasse imagens que tornavam mais compreensíveis e familiares mundos desconhecidos e exóticos e sociedades consideradas inferiores àquela da antiga e ilustrada Europa [...] (idem, p.251) A intenção de formar o sujeito ilustrado empenhado em projetos de viagens marítimas, em Portugal, teve suas iniciativas no reinado de D. José I. O mesmo compreendeu o período de 1750-1777. Nesta conjuntura, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782) foi escolhido pelo rei para desempenhar o cargo de ministro do reino. Nessa condição, através das ideais do iluminismo, planejou e operou as reformas que o reino necessitava. Para o historiador Maxwell (1996), a trajetória de vida do referido ministro apresenta elementos que permitem compreender como ele recebeu o título de nobreza e conquistou a preferência do monarca D. José I para assumir o cargo do reino. Sebastião José de Carvalho e Melo, natural de Lisboa, provinha de uma família modesta de pequenos fidalgos que serviram como soldados, sacerdotes e funcionários públicos dentro dos confins de Portugal e,ocasionalmente, no ainda extenso império português ultramarino. [...] Na verdade, as origens de Pombal pareciam-se muito com as de muitos ministros que os monarcas absolutistas escolhiam para fortalecer o próprio poder e intensificar o do Estado. [...] Após a morte de seu pai,com a família enfrentado dificuldades financeiras severas e dependendo de seu tio arcipreste, Pombal deixou a capital e passou sete anos administrando a propriedade rural pertencente à sua família em Gramela, ao norte da cidade de Pombal, na região central de Portugal. [...] Durante esse período (1723) 20 ele fugiu para se casar com uma viúva, sobrinha do conde dos Arcos, Dona Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, um acerto que o ligou à alta nobreza. [...] Foi uma união sem filhos e, após a morte da esposa, Pombal casou-se segunda vez (1746), quando ocupava o cargo de enviado português em Viena. Sua segunda esposa, com a qual teve cinco filhos, foi Maria Leonor Ernestina Daun. [...] O segundo casamento de Pombal recebeu as bênçãos pessoais da imperatriz Maria Tereza. [...] O casamento de Pombal foi bem recebido também em Lisboa pela esposa austríaca de Dom João V (1707-1750), Maria Ana da Áustria. O enviado português em Roma observou, acidamente, que foi o casamento com a condessa de Daun que garantiu a Pombal a posição de ministro em Lisboa. Foi Maria Ana da Áustria, na verdade, a rainha regente de Portugal durante a enfermidade fatal de seu marido, que chamou para voltar de Viena em 1749 e ocupar o Ministério em Lisboa. Pombal contava na época 50 anos de idade. Sua peeminência e poder coincidiram exatamente com o reinado de Dom José I (1750-1777),monarca que preferiu a ópera e a caça ao governo. Após o terremoto de Lisboa, em 1755, ele deu autoridade virtualmente completa ao ministro [...] (idem, p.2-4) A habilidade com que o Marquês de Pombal desenvolvia as suas atividades como representante do governo português na Áustria, em 1745, possibilitou a sua ascensão na carreira política em anos posteriores. O Marquês de Pombal parece ter sido um importante vetor de influência para a sua política reformista. Em Viena passou a ter contato com pessoas ilustres, a exemplo do reformista católico holandês Gerhard van Swieten e da imperatriz Maria Teresa, a qual desempenhou medidas reformistas nos sistemas de censura e ensino universitário, ambos dirigidos diretamente contra o monopólio virtual dos jesuítas (MAXWELL, 1996, p. 9). O Marquês de Pombal, com as experiências que adquiriu no exterior, objetivou modernizar o reino português seguindo uma tendência secularizada que, segundo a pesquisadora Boto (2010), tratou de ser uma característica da ilustração portuguesa. Dessa forma, a igreja passou a conviver com a posição de um Estado condutor dos assuntos sociais, culturais, políticos e econômicos. O posicionamento secular do Estado português no período de manifestação do processo de ilustração seguiu exemplos de outras nações européias, a exemplo da Áustria. Esse reconhecimento indicado nos estudos históricos de Falcon (1989) permite considerar a influência que o processo de ilustração austríaco exerceu no planejamento das reformas política, econômica e educacional promovidas pelo Marquês de Pombal a partir de 1750. Para o autor mencionado, o absolutismo ilustrado tinha como eixo a secularização por compreender que não era objetivo das ideias iluminadas promoverem uma reforma religiosa. O reformismo com pretensões modernizantes dos chamados “déspotas esclarecidos’, embora secular em sua essência, não era propriamente laicizante. A racionalização pretendida visava a dotar o Estado de um poder ampliado sobre os súditos do príncipe através da maior eficiência administrativa. Não existe, realmente, um espaço público aberto à participação dos cidadãos; na verdade, não há cidadãos, 21 apenas súditos. A concepção de uma esfera de liberdade, ainda que restrita a vida privada, apareceria como algo estranho a esse ‘governo iluminado’. Por outro lado, seria temerário atribuir às práticas reformistas dos governos ilustrados um caráter laico, no sentido de rejeição da fé religiosa, ou, nos estados católicos, de ruptura entre ‘o trono e o altar’. As Luzes deviam se constituir um meio, não um fim em si mesmas. A fé religiosa, assim como a estrutura tradicional da sociedade não podiam ser objetos de tais reformas [...] (idem, p. 55-56) A secularização empreendida na governança pombalina foi estudada também pelo historiador Neves (1984) que identificou atitudes pragmáticas nos planos econômicos, administrativos, culturais e religiosos, cujo objetivo era aumentar o poder do Estado e torná-lo eficiente para mudar a situação de crise em que vivia o país no século XVIII. Essas medidas do Marquês de Pombal permitem considerar que o processo de ilustração tinha como característica principal o utilitarismo. A atitude pragmática da governação pombalina, no plano econômico e administrativo, visando a aumentar o poder e a eficiência do Estado, correspondeu a um relacionamento mais aberto com a sociedade, embora isto deva ser entendido em relação ao século XVIII e a Portugal, em particular. Não se tratava de democratizar a sociedade ou de concebê-la como fiadora do governo. Significava, sim, torná-la mais permeável àqueles indivíduos que pudessem contribuir para o objetivo proposto. [...] Por fim, a atitude secularizadora que norteou a política de Pombal implicou, [...] um novo relacionamento do Estado com a Igreja, mas também uma postura diferente em relação à cultura. A transformação do Santo Ofício em tribunal régio (1769) e a criação da Real Mesa Cesória (1768) colocaram a religião sob à tutela do Estado [...]. Ao mesmo tempo, a reforma dos estudos e a reestruturação da Universidade de Coimbra estenderam à educação a preocupação secular e pragmática (idem, p. 194-195). A leitura da secularização que remete a atitude do Marquês de Pombal no reino português esteve inserida no regime do absolutismo ilustrado. Essa expressão que indica um regime de governo centralizador baseado na ideia de que o conhecimento científico garantia o poder deve ser compreendido, segundo Neves (1984), como uma categoria histórica que traduz um determinado contexto. Na realidade, categorias como ilustração e absolutismo ilustrado são categorias históricas, construídas a partir de experiências concretas e não podem, por conseguinte, encaixar com precisão em cada caso examinado. É provável que, em função da situação particularmente defasada de Portugal, a governação pombalina tenha incorporado mais elementos ilustrados do que qualquer outra iniciativa semelhante, mas, mesmo assim, distingue-se do período que a seguiu, na medida que revestiu-se de um caráter brutal de intervenção do Estado, a qual, em seguida, tendeu a converter-se numa ação mais organizada e temperada. Em compensação, se culminou o longo processo de maturação do Estado português moderno, absolutista no sentido pleno, anunciada ambiguamente por D. João V, rompeu definitivamente com a tradição cultural seiscentista e estabeleceu as condições para o ingresso das Luzes, também de uma forma peculiar, no universo mental luso [...] (idem, p. 198199). 22 A defasagem cultural portuguesa resultou na reforma da Universidade de Coimbra, isto é, numa estruturação do ensino por meio dos Novos Estatutos de 1772. As medidas pombalinas que estavam em sintonia com as ideias ilustradas, as quais remetiam a uma racionalidade científica, foram introduzidas através dos conhecimentos de Química, Física, Matemática e Ciências Médicas, além do plano de estudos em História Natural. A formação de naturalistas do reino português indica uma fecunda medida do Estado para estimular os projetos de viagens marítimas por parte de uma clientela ilustrada. Em estudos sobre a História Natural, de Portugal, no século XVIII, o pesquisador Carvalho (1987) observou que: A reforma pombalina do ensino superior criou uma Faculdade expressamente destinada ao ensino das Ciências Naturais e das Ciências Físico-Químicas. Chamouse-lhe Faculdade de Filosofia, pois as matérias leccionadas nessas disciplinas consideravam-se como pertencendo ao que então se designava por Filosofia Natural ou seja o conhecimento da Natureza nos seus diversos aspectos. O curso Filosófico tinha a duração de quatro anos compunha-se de quatro disciplinas, uma em cada ano: Filosofia Racional e Moral, História Natural, Física Experimental e Química [...] (idem, p.40). A estrutura do curso de Filosofia após a reforma da Universidade de Coimbra, em 1772, não só formava os estudantes de filosofia em naturalista, como também os alunos de Medicina podiam estar habilitados a desenvolver atividades investigativas do mundo natural, pois o curso possuía cadeiras obrigatórias no campo filosófico. Esse tipo de formação naturalista era orientado pelo italiano Domingos Vandelli (1730-1816) que aceitou o convite do Marquês de Pombal para assumir a cadeira de Química e História Natural. Para o historiador Munteal Filho (1993), a atuação do referido professor nas atividades naturalistas com vista às viagens ultramarinas só começaram após o período pombalino. [...] A orientação pragmática foi dominante durante os períodos mariano e joanino. Nesse sentido, a Universidade de Coimbra teve um papel decisivo na difusão de um novo saber no período pós-pombalino. Este novo saber contemplaria o estudo e os ensinamentos advindos das ciências físico-químicas e naturais. Seria constituída de um conjunto de cursos dedicados a investigação da natureza, os Teatros, como eram chamados os centros de atividades práticas de dissecação, classificação de plantas úteis, isolamento de substâncias e invenção de artefatos mecânicos. A reforma da Universidade deveria articular esses centros de geração de conhecimento [...] (idem, p. 60). As atividades naturalistas passaram a ser ainda mais pragmáticas e tinham como finalidade o conhecimento da nação e de suas possessões. Essa possibilidade que se apresentou com o fim do período de governança pombalina, pareceu garantir ao Estado 23 português a noção de utilidade dos seus recursos naturais do Ultramar. Com a orientação do professor Domingos Vandelli nas viagens marítimas, o império português começou a chamar a atenção de outras nações européias. Segundo o historiador Brigola (2012), aquele filósofo naturalista passou a manter contato com intelectuais de onze nacionalidades diferentes a fim de divulgar o conhecimento natural lusitano. A produção do conhecimento científico sob a forma de textos, memórias científicas, pareceres, notícias de espécies naturais e exóticas e entre outros trabalhos de divulgação naturalista dos lusitanos pode ser considerada como um ponto importante do processo de ilustração português por promover o intercâmbio de informações científicas. Nesse sentido, o pesquisador Varela (2006) ao tratar dos avanços da produção científica lusitana concordou que as viagens marítimas tinham o foco utilitarista que garantiam retornos a Coroa. [...] o centro de assimilação das luzes e de sua adaptação e irradiação a sociedade portuguesa no governo mariano foi a Academia Real das Ciências de Lisboa. A Academia assumiu o papel de centro de difusão de uma cultura Ilustrada a partir da elaboração de um profundo inventário do Novo Mundo, ou melhor, a elaboração de um projeto de confecção de uma História Natural das colônias, uma vez que o projeto de reformas pragmático orientado para a recuperação econômica do Reino tinha como fonte a natureza física dos domínios ultramarinos. [...] Neste projeto, os estabelecimentos científicos, como o Gabinete de História Natural da Universidade de Coimbra, juntamente com o Jardim Botânico, assim como o Jardim Botânico da Ajuda e o Gabinete de História Natural da Academia Real das Ciências de Lisboa, transformaram-se em espaços que recebiam e aclimatavam as produções naturais das colônias (remessas de animais, vegetais e minerais), e, tinham a função de preparálos e analisá-las. Ou seja, esses estabelecimentos científicos organizavam e estudavam cientificamente as remessas de produtos naturais vindas do mundo colonial. Eles tinham a função de transformar os estudos e os produtos das viagens dos Ilustrados-naturalistas em retornos imediatos para a Coroa [...] (idem, p. 65). A coleção de materiais exóticos ou inventários de espécies naturais sejam elas da fauna, flora e minerais, recolhidos e processados por naturalistas eram viabilizados por viagens marítimas. Por essa via, os viajantes tinham a finalidade de aprimorar os conhecimentos científicos e mapear os recursos naturais das colônias. Com isso, os ilustrados naturalistas parecem não reduzir as viagens para uma perspectiva apenas exploratória dos recursos naturais. Talvez, esse período de maturação das ideais ilustradas, ou seja, de cunho científico e utilitarista, estivessem a tratar as viagens para um sentido filosófico, cuja denominação foi abordada pelo historiador Raminelli (2008) ao estudar as viagens ultramarinas. 24 [...] Se a coleta das espécies e uma rápida descrição realizavam-se durante as viagens, a análise e a classificação dependiam de recursos disponíveis nos museus europeus, onde encontravam-se instrumentos e bibliotecas especializadas. Ao executar essas tarefas, eles deveriam dominar os vários ramos da ciência setencentista, sabedoria que o diferenciava dos leigos. Procuravam ainda encontrar na natureza leis e, portanto, não se contentavam com a mera descrição. Para ser filosófica, uma viagem deveria promover o avanço da ciência, descobrir leis [...] (idem, p.97). O recolhimento e análise de espécies naturais foram procedimentos de produção do conhecimento científico que foram viabilizados por viagens do tipo filosóficas que, em Portugal, tiveram ênfase no reinado de D. Maria I. Através dessas atividades naturalistas consideramos que o processo de ilustração português passou a ser orientado por uma concepção ainda mais filosófica do que foi no período de governança pombalina. Nessa situação, o historiador Neves (1984) atribuiu o caráter histórico do termo ilustração como critério de compreensão do desenvolvimento científico no império português. [...] a governação pombalina, pelo impacto que causou, pode dar a ideia de ilustrada, se entendida a Ilustração como um movimento de secularização do pensamento, aplicado ao ato de governar. No entanto, se entendida como um conjunto de práticas, preconizadas pelos philosofos e adotadas em maior ou menos grau por alguns soberanos [...], a Ilustração em Portugal realmente só se manifesta após 1777 [...] Dessa forma, a “Viradeira” reduz-se à oportunidade, propiciada pela troca do soberano, para que certos indivíduos, marginalizados durante a governação pombalina, adquirissem influência, sob o pretexto de se oporem ao despotismo ou às atrocidades realizadas por Carvalho e Melo. [...]. A naturalização das Luzes, que promoveu, só permitia caminhar num sentido de melhor aproveitá-las para assegurar a manutenção da monarquia e dos valores que representava. E isto significava tornar o Estado absolutista menos centralizador e mais ilustrado [...] (idem, p. 209-210). O empreendimento das viagens filosóficas portuguesas em agregar as finalidades científicas e administrativas acentuou a própria secularização do pensamento científico para tornar o conhecimento das ciências naturais em um recurso econômico para o reino. Esse interesse do Estado português começou a partir das viagens realizadas nas últimas décadas do século XVIII, a exemplo das viagens de luso-brasileiros a partir do ano de 1783, as quais foram identificadas por Raminelli (2008) como uma dos pontos de partida para as reformas econômicas. [...] Desde a preparação, as expedições promovidas pelo Estado português, a partir de 1783, possuíam um sentido norteador, ou sentidos, capaz de guiar os indivíduos a um fim, ou melhor, à execução de tarefas. [...] Os naturalistas e sua equipe executavam, por certo, tarefas planejadas em Lisboa e destinadas a manter a posse e a exploração dos territórios ultramarinos. [...] Se as viagens de exploração nos sertões americanos buscavam demarcar fronteiras e identificar povos, as viagens filosóficas tiveram atribuições mais diversificadas. A ruptura na produção do conhecimento aconteceu a partir de 1783, quando as viagens priorizaram temas 25 muito além da cartografia e da etnografia, pois pretendiam compilar uma verdadeira enciclopédia sobre as possessões americanas e africanas. Encarregado da expedição ao Pará, o doutor luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira escreveu sobre conflitos diplomáticos, história, povos, medicina, agricultura e reinos da natureza. Como Ferreira e sob os auspícios do secretário Martinho de Melo e Castro, partiram de Lisboa outras expedições destinadas às demais possessões ultramarinas. Os naturalistas desbravariam Cabo Verde, Angola, Goa e Moçambique, percorrendo as partes do império ainda pouco conhecidas [...] (idem, p. 101). Os diversos temas que os viajantes naturalistas escreviam eram organizados em diários que serviam para caracterizar no tempo e no espaço as espécies naturais e assuntos que relacionavam ao cotidiano de comunidades indígenas, como por exemplo, doenças e agricultura. A construção destes diários permite entender que os naturalistas eram instruídos em conhecimento natural e administrativo por escrever sobre os problemas decorrentes quanto ao uso da terra e da riqueza natural. Ao analisar as atividades do professor da Universidade de Coimbra, o italiano Domingos Vandelli, na preparação dos viajantes naturalistas, o historiador Rómulo de Carvalho (1987) considerou que o referido ilustrado escreveu uma dissertação, em 1779, na qual ressalta a importância do diário de viagem como um material útil para as viagens filosóficas, por desacreditar que um viajante ou qualquer outra pessoa tenha a capacidade de memorizar tudo o que pudesse observar em suas peregrinações naturalísticas. Vandelli, [...] redigiu, em 1779, uma longa dissertação, [...] para o auxílio dos viajantes naturalistas. Intitula-se Viagens filosóficas ou Dissertação sobre as importantes regras que o filósofo naturalista, nas suas peregrinações, deve principalmente observar. Nas suas 109 páginas Vandelli trata minuciosamente do assunto, iniciando- pela afirmação da importância de um Diário das viagens [...]. O que é um Diário? O Diário é um livro de papel, com divisões por anos, meses, dias e horas, onde tudo deve ser registrado. Esse mesmo papel deve ter uma preparação especial para não se deteriorar com as chuvas e as umidades, as suas folhas devem ser de determinado tamanho, devem estar divididas em colunas a cada uma das quais competirá determinado título e aí o viajante anotará tudo, escrupulosamente [...] (idem, p.89). Com as descrições dos viajantes em diários, essas produções passavam a ser identificadas como memórias que, segundo Raminelli (2008), desempenhavam um papel importante para profundas análises de caráter utilitarista e econômico. Essas memórias também podem ser consideradas como um instrumento de construção do conhecimento científico útil e de um saber prático. Nesse sentido, o referido historiador exemplificou a partir da viagem filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira – um baiano que recebeu o título de bacharel pela Universidade de Coimbra, em 1778, à América do Sul, no período de 1783- 26 1792 – o papel que as memórias exerceram ao revelar a capacidade científica do ilustrado viajante e como os seus escritos contribuíram para o crescimento econômico do império. As memórias, por conseguinte, dedicam-se a temas mais específicos, com interesse de aprofundar a análise e indicar soluções para os problemas. Os grupos indígenas foram particularmente descritos nesse tipo de documento, onde eram inventariados os costumes, a capacidade técnica de produzir roupas, armas, barcos, casas, cerâmicas, e tecidos. Como agente demarcador de terras, Ferreira teve a preocupação de mencionar a posição geográfica das aldeias e comentar sobre possíveis relações entre nativos e agentes da colonização provenientes de áreas espanholas e holandesas. As memórias dedicadas à flora e à fauna possuem igualmente caráter utilitarista, realizando, inventários sobre suas potencialidades econômicas. Em relação ao reino mineral, o naturalista poucas vezes teceu comentários. Em Mato Grosso teve, inicialmente, dificuldades em percorrer as minas. Depois de observar amostras de ouro, indicou sete problemas, muitos deles relacionados aos investimentos e à mão-de-obra escrava. [...] Apesar de recorrer a nomeações variadas como “demarcação”, “participação”, “notícia”, “mapas”, “extratos”, “prospecto”, “tratados”, “memórias” e “relação”, o viajante tinha como meta traçar um panorama das potencialidades econômicas, da posse e da colonização portuguesa (item, p.103). As viagens filosóficas além de promoverem a produção do conhecimento científico necessitavam de financiamentos para cumprirem a finalidade de produzir o conhecimento científico de cunho pragmático e útil. Essa perspectiva foi observada nos estudos de Domingues (2001), ao investigar as questões relacionadas à constituição de redes de informação a partir das viagens marítimas. Segundo esta pesquisadora, a tendência de financiamento esteve na pauta dos assuntos do Estado português que, ao mesmo tempo, repassou a responsabilidade para as autoridades locais de suas possessões no além mar. Esta característica de financiamento das viagens marítimas foi uma política de Estado dedicada a incentivar os naturalistas a produzir memórias que contribuíssem não apenas para o conhecimento da História Natural, mas para a formação de uma mentalidade elitista capaz de oferecer subsídios para os avanços da economia do reino. Dessa forma, o patrocínio da Coroa para estas atividades, segundo Dias (2005), foi uma política bem determinada que a exemplo das viagens filosóficas para o Brasil, os interesses eram por matéria-prima que pudesse promover a industrialização do setor agrícola. [...] A publicação de memórias patrocinadas pela Coroa, sobretudo a partir de 1770, é fruto de uma política consciente e preocupada em fomentar a produção de matérias-primas para a industrialização de Portugal, em promover um renascimento da agricultura para compensar as oscilações dos rendimentos do “quinto”, os inconvenientes de um sistema fiscal sobrecarregado e a baixa do preço do açúcar, em virtude da concorrência estrangeira e, sobretudo, a partir do último quartel do século em aproveitar as novas perspectivas que a conjuntura internacional parecia apresentar para o Brasil em razão de desajustes ocasionados pela Revolução Francesa e pelas guerras napoleônicas [...] (idem, p. 49). 27 O retorno econômico que a produção do conhecimento científico fornecia através das viagens marítimas pode ser compreendido como um sistema de patronagem que envolvia o saber e os interesses políticos. No contexto português, o historiador Raminelli (2008) considerou que este sistema também foi uma espécie de jogo que captava sábios às tramas de um poder central que os tornava agentes do Estado ao invés de críticos. Nesse sentido, o saber tornou-se para os naturalistas um produto simbólico que garantia uma ascensão social e ao Estado informações para as suas estratégias de defesa e desenvolvimento econômico. O estabelecimento entre as partes que compõem o sistema de patronagem, Estado e ilustrados, eram necessários financiamentos oriundo não só da Coroa portuguesa, mas dos governos locais do território ultramarino. Os patrocínios regionais, necessariamente, não eram de origem monetária, mas de recursos humanos que pudessem facilitar as atividades naturalistas. Nessa medida, o historiador Raminelli (2008), em análise das atividades naturalistas de Alexandre Rodrigues Ferreira, considerou que as viagens filosóficas não eram dependentes apenas dos ilustrados, mas de uma interdependência com governos locais e o Secretário da Marinha e dos Negócios Ultramarinos. Em 1787, no diário da viagem ao Grão-Pará, o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira reconheceu a importância do suporte estatal para formar bacharéis e doutores em filosofia natural, financiar e organizar viagens filosóficas, reunir equipe de apoio, enviar remessas e solucionar adversidades ao longo do percurso. Os administradores responsáveis pela Viagem Filosófica receberam do naturalista a nomeação de “patronos da expedição”. Seriam eles o secretário de Estado da Marinha e Negócios Ultramarinos Martinho de Melo e Castro, Martinho de Sousa e Albuquerque,governador da capitania do Pará, e João Pereira Caldas, governador do Estado do Grão-Pará e encarregado da execução do “Tratado Preliminar de Limites e Demarcação dos Reais Domínios”. Dessa forma, o naturalista traçou a complexa relação de poderes, de interdependências, que envolvia a jornada. As instâncias do poder metropolitano se uniam aos poderes locais para tornar viável a expedição. As despesas com a equipe corriam por conta da Real Fazenda, enquanto os governadores forneciam mantimentos, embarcações, índios remeiros e auxiliares. O conhecimento local também era disponibilizado pela autoridade máxima da capitania que concedia livre acesso aos territórios, rios e minas, sobretudo aos espaços ricos em recursos naturais e estratégicos para a preservação das fronteiras. As Câmaras, capitães, cirurgiões, padres e diretores de índios forneciam, igualmente, dados indispensáveis à composição de diários, participações e memórias. Por meio desses agentes locais era possível avaliar a dinâmica da população, os três reinos da natureza, a produção agrícola, o comércio, a circulação de gentes e mercadorias, os danos provocados por etnias não pacificadas e as ameaças às fronteiras ainda indefinidas entre os impérios [...] (idem, p. 138-139). O Estado português passou a ser dependente das atividades ilustradas de muitos naturalistas que estiveram à frente das viagens filosóficas. Além do exemplo do naturalista Alexandre Rodrigues Pereira, o historiador Neves (1984) cita os nomes de José Bonifácio de Andrade e Silva, João Manso Pereira e entre outros brasileiros que tiveram presença nos 28 sistemas de patronagem. Para compreender este fato, o referido historiador relacionou a importância crescente que o território brasileiro exercia naquele período para a economia portuguesa. [...] característica importante do ambiente cultural português, a partir do período pombalino, e que se torna evidente nos últimos anos do século XVIII: a presença cada vez maior de intelectuais, nascidos na colônia do Brasil, desempenhando funções no aparelho de estado metropolitano. Naturalmente, essa tendência acompanhava a crescente dependência de Portugal em relação aos produtos brasileiros, num momento de conjuntura particularmente favorável para a colocação de produtos coloniais no mercado internacional [...] (idem, p. 220). As evidências do aumento expressivo de brasileiros participando das expedições de viagens marítimas do tipo filosófica podem ser relacionadas aos dados quantitativos de matriculados na Universidade de Coimbra que foram apresentados pela historiadora Dias (2005, p. 54) em suas pesquisas sobre os aspectos da ilustração no Brasil. Nos primeiros dez anos da reforma pombalina, 238 brasileiros diplomaram-se em Matemática, Ciências Naturais e Medicina e, na década seguinte, 192 estudantes receberam diploma de cursos na área de ciências naturais. Além desses dados, a pesquisadora destaca a preferência dos estudantes brasileiros em frequentar as aulas do curso de Ciências Naturais, 84 alunos, do que as aulas de Matemática, 75 estudantes e o de Medicina com 10 estudantes. Este contexto permite considerar que o processo de ilustração a que brasileiros e portugueses estavam submetidos lhes conferiam equidade para ocupar cargos políticos nos domínios do império lusitano. Em torno dessa possibilidade, segundo a historiadora Dias (2005), a ideia de razão, natureza e prática como subsídios para o bem social foi reforçado pelo empenho do novo secretário da Marinha e dos Negócios Ultramarinos, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, no período de 1796 a 1801. Em 1796, D. Rodrigo de Souza Coutinho, absolutista ilustrado, incansável, homem de projetos e reformas, tornou-se ministro de D. Maria I, e toda uma equipe de bacharéis e cientistas brasileiros passou a se agitar em torno dele, em razão de uma política de renovação da agricultura e da introdução de novas técnicas rurais. [...] A melhoria da produção subentendia uma política de ilustração e de incentivo ao progresso. A tipografia do Arco do Cego foi fundada em 1798 com a finalidade de divulgar conhecimento de ciências naturais e de agricultura, uma vez que razão, natureza e prática deveriam compor forças para o bem da sociedade [...] (idem, p. 55-59). As intenções políticas do secretário D. Rodrigo para o bem estar da sociedade podem ter desencadeado a ideia de um império luso-brasileiro, ou ainda, luso-brasileiroafricano. Para que essa medida fosse implantada, o historiador Neves (1984) entendeu que era 29 necessário um modelo político que atendesse a conjuntura portuguesa em que o foco fosse o império ultramarino por questão de ser nele a base da sustentação econômica. Sobre esta análise, o autor apresenta as seguintes considerações: [...] foi sob este aspecto que o absolutismo ilustrado de D. Rodrigo revelou-se mais típico e, ao mesmo tempo, mais original. Como pombal imitara as práticas absolutistas típicas de Luís XIV, o reinado de D. Maria I assistiu à tendência a abrandá-las, com a adoção das medidas ilustradas em voga, naquele tempo. Carecia, no entanto, de um elemento pessoal, de uma marca individual, como a do marquês, no período anterior, capaz de conferir coerência e unidade ao programa, para inserirse, em sua plenitude, na corrente do absolutismo ilustrado. Foi D. Rodrigo [...] que imprimiu-lhe esta distinção [...] à nova conjuntura da década de 1790, as diretrizes, ao mesmo tempo, absolutistas e ilustradas. Ao contrário de Pombal, a retórica agora identificava-se com a prática, embora esta conservasse sobretons maus marcadamente absolutistas [...] A originalidade do programa político de D. Rodrigo está ligada à concepção de um império luso-brasileiro, e até mesmo luso-brasileiroafricano. Conjugava a preocupação absolutista de integrar o território, colocando-o sob o controle rigoroso do Estado, com a peculiar situação portuguesa, em que a maior parte do potencial econômico encontrava-se no ultramar [...] (idem, p. 236). O absolutismo ilustrado proposto por D. Rodrigo que reforçou o caráter prático das ideias ilustradas e o pragmatismo da ciência permite evidências de certo alinhamento com o período anterior, reinado pombalino, que impede de considerar que o reinado mariano seja denominado de ‘viradeira’. Para Oliveira (2009, p. 43), o governo de D. Maria I era influenciado por uma cultura regalista em que no seu gabinete ministerial participavam sujeitos que se beneficiaram deste tipo de política na época do Marquês de Pombal. Também o historiador Varela (2006) concordou com a concepção de que não existiu de fato uma ‘viradeira’ no reinado mariano e, justificou que essa expressão deve ser compreendida como uma dupla forma de se conceber a política. [...] De um lado, observamos uma maneira de conceber a política fundada na reforma do aparelho de Estado, no domínio fiscal, militar ou da administração da justiça. Por outro lado, uma outra maneira baseada em dádivas liberais, mercês e na formação de laços pessoais ou clientelares, política esta bem característica das sociedades do Antigo Regime. Seguindo essa perspectiva de se fazer política, o Estado era visto na lógica de uma série de nomeações, capazes de alimentar clientelas ou redes de interesses pessoais. Os cargos eram obtidos não em função das qualidades da pessoa, mas das amizades que ele construía e Ra capaz de cultivar. Havia um forte vínculo entre as competências técnicas e as relações de confiança (idem, p. 63). A noção de um império homogêneo entre a metrópole e suas colônias, a exemplo do Brasil, foi uma medida governista de D. Rodrigo embasada nas ideias iluminadas, a qual tinha como instrumento a ciência moderna para promover a prosperidade, a satisfação e a tranquilidade do império através do conhecimento da ciência moderna. Segundo o historiador 30 Neves (1984, p.245), a base da governança de D. Rodrigo na ciência moderna revelava o seu caráter ilustrado e a estratégia de unidade de império que a dinamização da vida cultural e a difusão do conhecimento que ele acreditava serem os veículos que um sujeito social tinha para programar uma política que ele próprio escolhia, segundo os seus interesses. Por esta perspectiva de unidade de império norteada pelo conhecimento científico, a vinda da família real ao Brasil, em 1808, promoveu a renovação cultural e científica a partir da criação de instituições, como por exemplo, o Museu Real e, principalmente, com a participação de ilustrados brasileiros e de estrangeiros. Nos estudos sobre as atividades científicas na capital de São Paulo na transição entre os séculos XVIII e XIX, Varela (2009) apresentou informações sobre as medidas reformistas de D. João VI e considerou que essas iniciativas contribuíram na inserção da colônia brasileira na atmosfera da ilustração e consolidação das ciências. [...] Criaram-se também as primeiras Escolas Anatômicas, Médicas e Cirúrgica no Rio de Janeiro e na Bahia, as primeiras instituições de ensino superior na área médica, a Real Biblioteca na Corte e a Biblioteca Pública da Bahia, o Instituto Acadêmico e a Academia de Belas Artes. Foi criada a primeira Junta Vacínica da Corte (1811) com o objetivo de divulgar a prática de vacinação humanizada na América Portuguesa [...]. Em janeiro de 1812 foi criado o Laboratório QuímicoPrático da Corte, primeiro laboratório em que a química não estava vinculada ao ensino, tendo como premissa básica a análise de materiais oriundos das diversas colônias portuguesas que pudessem ser utilizados no comércio [...]. Foram também criados cursos avulsos, como a cadeira de Ciências Econômicas; a cadeira de Teologia, Dogmática e Moral; a cadeira de Cálculo Integral, Mecânica e Hidrodinâmica, instalada em Pernambuco; a cadeira de Aritmética, Geometria, Francês e Inglês; um curso de Agricultura na Bahia;a cadeira de Botânica e Agricultura; a cadeira de Química e a de Mineralogia instalada na Academia Real Militar [...] Estimulou-se a criação de espaços associativos com o intuito de promover a sociabilidade intelectual e a discussão e a pesquisa científica no âmbito das ciências naturais. Em 1810, foi criada na Bahia a Real Sociedade Baiense dos Homens de Letras, que possuiria um Horto, uma biblioteca, um jornal científico, e promoveria aulas de história universal, de história do Brasil, de ciências naturais e de línguas [...] (idem, p. 88). Os incentivos a cultura científica no reinado de D. João VI no período em que esteve no Brasil também repercutiu nas viagens marítimas a ideia de unidade de império com a sua colônia na América. Com as instituições de ensino e pesquisa científica criadas no início do século XIX os ilustrados concordaram com a noção de grande império, estendendo suas influências para a América. Sobre a preservação da unidade do império a partir do ano de 1808, o historiador Raminelli (2008) fez as seguintes observações: Ao deixar Lisboa, para evitar o confronto com as tropas napoleônicas, o soberano e a Corte levavam consigo o gládio do império que se deslocava rumo à América. As embarcações não conduziam apenas a nobreza titulada e com grandeza, mas a 31 cabeça do império, o nexo entre os domínios reais. Lisboa perdera, portanto, a capacidade de promover a unidade enquanto o Rio de Janeiro ganhara o papel de capital do Novo Império Lusitano. O evento, então, alterava, de forma inequívoca, o equilíbrio entre metrópole e colônias tão decantado por D. Rodrigo [...] (idem, p. 276). Neste contexto político, as medidas de incentivo a formação ilustrada de brasileiros em Portugal ou em outra nação continuaram. Como destacou Dias (2005, p. 74), o rei D. João VI, por decreto de 1810, conferia bolsas de estudos para alunos de Medicina. Além disso, já passava de 800 o número de brasileiros que se diplomava na Universidade de Coimbra. Estes, em sua maioria, dedicavam-se aos cursos de Ciências Naturais, como por exemplo, a Medicina. Este campo de atuação registrou 65 alunos, entre eles José Vieira de Faria Aragão Ataliba. 1.2 A Reforma da Universidade de Coimbra e as Contribuições Pedagógicas de Antonio Verney e Ribeiro Sanches A reforma da Universidade de Coimbra, em 1772, representou uma ação de modernização cultural e científica em Portugal promovida pelo ministro Marquês de Pombal. Para tanto, a publicação do Compêndio histórico da Universidade de Coimbra no tempo da invasão dos denominados jesuítas e dos estragos feitos nas ciências e nos professores e diretores que regiam, pelas maquinações e publicações dos novos estatutos por eles fabricados, em 1771, elaborado pela Junta da Providência Literária, caracterizou um estudo prévio da situação do ensino da referida instituição. Nos estudos de Varela (2006, p.56) sobre a caracterização da ilustração portuguesa, o citado compêndio serviu como base para a construção dos Novos Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772. Ainda segundo o autor, o Compêndio histórico tinha como objetivo apresentar um diagnóstico da defasagem cultural e científica em que se encontrava a Universidade de Coimbra, resultado da ação dos jesuítas. Para isso, o Marquês de Pombal contou com o auxílio do Dr. Francisco de Lemos (reitor da universidade), com o Cardeal da Cunha, D. Fr. Manuel de Cenáculo (bispo de Beja), dentre outros. A questão sobre a culpa dos jesuítas pela situação de decadência cultural e científica apresentada no Compêndio histórico da Universidade de Coimbra talvez não tivesse fundamento em argumentar que tais religiosos conduziam os estudos superiores num baixo 32 nível científico. Essa perspectiva que predominou como argumento para a reforma da universidade, em 1772, pode ser compreendida através da análise de Araújo (2008) sobre o Compêndio histórico. [...] a política reformista pombalina emerge, de forma bem patente, esta dimensão pedagógica, que visa doutrinar os destinatários na perspectiva de que se estava a construir um novo projectosócio-antropológico: o homem iluminado e uma sociedade refundada pelas luzes harmonizadoras da razão. Mas Pombal foi incapaz de promover esse projecto antropopedagogico apenas pela sua afirmação positiva. Precisou eleger um inimigo, o negativo dessa sociedade nova para melhor exaltar contrastivamente a grandeza e a utilidade de sua utopia. Daí que a política pombalina tenha explorado intensivamente, de forma inédita na história políticoideológica portuguesa, a propaganda contra um adversário singularizado e mitificado. Fê-lo de forma intensiva e generalizada para potencializar a eficácia política de suas reformas e ampliar as suas virtualidades pedagógicas de formação, ou melhor, de mudança de mentalidade, tentando assim realizar uma espécie de “lavagem cerebral” colectiva de uma figurada mentalidade, que se queira destruir para refundar uma nação” (idem, p.23). A ideia de uma relação de poder entre o Estado português e seus súditos ou vassalos comportou a proposta de renovação pedagógica coordenada pelo Marquês de Pombal. Dessa forma, o processo de ilustração português, no âmbito da educação superior, tinha como referência o desenvolvimento científico de outras nações européias, como por exemplo, a França. Segundo José Eduardo Franco (2008) que analisou a reforma da Universidade de Coimbra no quadro anti-jesuítico observou que: Duas palavras-chave e os dois imaginários que elas encerram estão omnipresentes no discurso pombalino, que seja de caráter legislativo, historiográfico, tratadístico ou panfletário: Jesuítas e Europa. Jesuítas ou jesuitismo encerram um conceito/visão de carga negativa, pessimista. Representam todo um passado cultural, educativo, mental que urgia repudiar e abolir. O termo Europa situa-se conceptualmente no pólo oposto. Expressa uma visão de carga altamente positiva, um conceito luminoso de dimensão utópica, encerra no fundo, um ideal, um modelo a seguir, uma utopia de aproximação e de imitação. A estas palavras-chave associam-se outros termos subsidiários, termos afins caracterizadores do que a palavra-chave pretende conceptualmente englobar. Jesuítas ou jesuitismo na propaganda pombalina de reforma e combate significam obscurantismo, ostracismo, trevas, ignorância, infantilismo, imobilismo, mau gosto, decadência, degenerescência, ruína. À segunda palavra-chave, Europa, associam-se, no campo semântico que ela delimita, conceitos subsidiários que incorporam uma ideologia de acção e que são expressões por excelência do Iluminismo: progresso, luzes, razão, bom gosto, inteligência, felicidade, conhecimento, ordem, clareza, abertura de espírito, liberdade, universalidade (idem, p.19). O pesquisador Neves (1984) ao estudar a educação e o poder no século XVIII, considerou que o poder da educação nos tempos modernos foi capaz de formar as elites através de um processo de ilustração. Por essa compreensão, seja possível reconhecer na 33 reforma do ensino superior realizada pelo Marquês de Pombal a mesma intenção, o ministro português objetivava formar um tipo de grupo social – a elite intelectualizada. A reforma da Universidade de Coimbra, na ótica educacional do Marquês de Pombal, foi oficializada em 1772 com a perspectiva de nortear os estudos das ciências naturais, exatas e médicas nas proximidades do ensino ministrado na Europa. Para Varela (2006, p.60), a reforma pombalina tinha o objetivo de “criar um novo corpo de funcionários Ilustrados para fornecer pessoal à burocracia estatal e à hierarquia das Igrejas reformadas”, os quais estivessem interessados “na natureza e no homem, em função do programa de exploração científica, sistemática e metodológica das colônias, relacionada com aspectos geográficos”. Por esta concepção de formação intelectual da elite talvez seja possível entender que a mesma passou a absorver um novo comportamento de civilidade e, dessa forma, considerá-lo como exemplo a ser seguido na sociedade portuguesa. No entanto, os hábitos e costumes que tornaram os sujeitos da elite intelectualizada civilizados não eram os únicos atributos incorporados da Europa tida, à época, como referência. Nos estudos de Neves (1984, p. 202) sobre as mudanças educacionais no século XVIII em Portugal, foi possível compreender que a elite adota novos valores, entre os quais se destaca o da utilidade, o da racionalidade e o da realidade. “Realidade para constatar o atraso do reino e, portanto, sua vulnerabilidade face às potências que se definiam no cenário internacional”. O andamento do processo de ilustração da elite portuguesa organizado pela política educacional pombalina identificou na Universidade de Coimbra a carência de professores que pudessem assumir o ensino acadêmico. Esse problema de defasagem cultural científica denominado de ‘atraso’ do reino, que o Marquês de Pombal associou, por uma questão política, aos inacianos, foi resolvido naquele período com a contratação de estrangeiros. O pesquisador Maxwell (1996), ao realizar um estudo sobre a atuação de Sebastião José de Carvalho e Melo no período de suas reformas educacionais e econômicas em Portugal, fez a seguinte consideração: [...] Não menos crucial era o problema de encontrar indivíduos convenientemente qualificados para levar avante a transformação das estruturas educacionais e administrativas do país. A criação do capital humano era na verdade um processo mais lento do que o de acumular riquezas pela manipulação de tarifas ou da concessão de monopólios lucrativos. Na área da reforma educacional, Pombal tentou utilizar estrangeiros, em especial italianos, e ir revezando de instituição para instituição aos poucos indivíduos de mentalidade moderna que tinha à disposição [...] (idem, p. 114). 34 Os estrangeiros italianos contribuíram com atividades científicas e assumiram cargos na administração portuguesa no período da reforma cultural e científica promovida pelo Marquês de Pombal. Domingos Vandelli, Michele Franzini, Giovanni Antonio Dalla Bella, Michel Ciera, Giovani AngeloBrunelli e Luigi Cicchiforam alguns dos ilustrados italianos que o historiador Muntreal Filho (1993) exemplificou em seus estudos sobre a cultura científica portuguesa entre 1779-1808. Para este autor, o grupo dos estrangeiros, em Portugal, representou: [...] grande importância na renovação dos estudos científicos em Portugal. O saber deles difundido tornou-se um aspecto fundamental nas investigações sobre a presença de cientistas e ilustrados naturalistas na península Ibérica [...] A atuação de Vandelli, Ciera, Franzini e Dalla Bella marcaram um período de contato mais estreito com a ilustração italiana [...] (idem, p.13). Além desses estrangeiros, outros ilustrados que tiveram a sua formação acadêmica na Europa também foram trazidos pelo Marquês de Pombal para ocupar importantes cargos estatais, assim como, no ensino universitário. Para Varela (2006), o Estado português também mandou buscar em seu império ultramarino e na América Portuguesa intelectuais que tiveram a sua formação acadêmica na cidade de Coimbra, a exemplo de José Bonifácio de Andrade e Silva. Além deste intelectual e dos mencionados italianos, o Marquês de Pombal recebeu para o seu projeto de reforma da Universidade de Coimbra contribuições de estrangeirados. Segundo Boto (2010), este tipo de grupo que vivia fora de Portugal colaborou através de um olhar científico com a situação social do país. Para a pesquisadora, que tratou de analisar a dimensão das ideias iluministas da reforma pombalina, a condição dos sujeitos se comportarem como estrangeirados poderia ser proveniente de uma observação da realidade estrangeira. A comparação com outros países parecerá, nesse caso, irresistível e inevitável. Os estrangeirados portugueses do século XVIII [...] consideravam que a situação do seu Portugal contemporâneo era de decadência: perante os países mais avançados da Europa; à luz dos rumos tomados pela colonização; diante do poder que um dia o país acreditou possuir (idem, p. 284). A presença do estrangeiro ou das suas ideias ilustradas – portugueses que realizavam seus estudos no exterior e construíam os seus fundamentos científicos em vista da situação cultural portuguesa – passou a marcar o processo de ilustração da sociedade portuguesa. Através desta situação, o intelectual António Verney e Ribeiro Sanches foram 35 exemplos da chamada mentalidade estrangeirada que contribuiu para os avanços da educação do reino de Portugal. O ilustrado Luis Antonio Verney (1713/Lisboa – 1792/Roma) era filho do francês Dionísio Verney e da portuguesa Maria Arnaut. Ele iniciou os seus estudos filosóficos na Congregação do Oratório de Lisboa e prosseguiu para a cidade de Évora a fim de obter a formação em Artes e Teologia na Universidade de Évora. Antonio Verney viajou para Roma, em 1736, para estudar Teologia Dogmática e Jurisprudência e, neste período de formação acadêmica, passou a ter contato com muitos intelectuais que tratavam da ciência moderna, como por exemplo, Ludovico Antônio Muratori e António Genovesi (CARVALHO JÚNIOR, 2008). Luis António Verney, após o contato com os discursos da ciência moderna, começou a postular sobre a educação do reino de Portugal tendo como base teórica os seguintes estudiosos: Aristóteles, Galeno e Hipócrates. Os seus primeiros escritos educacionais foram publicados, primeiramente, na cidade de Nápoles no ano de 1746, cujo título era Verdadeiro método de estudar, para ser útil à República, e à igreja: proporcionando ao estilo, e a necessidade de Portugal. Segundo Boto (2010, p.290), o texto de Antonio Verney era um manual escrito na forma de cartas que tratou de diversos temas, tais como: lógica, gramática, ortografia, metafísica, os quais abrangiam os estudos menores, ou seja, as escolas de primeiras letras e colégios secundários, além dos estudos maiores, isto é, a universidade. Para Silva (2008), a obra de Antonio Verney, Verdadeiro método de estudar, apresentava a seguinte estruturação: [...] volume I Estudos Lingüísticos com as cartas I a IV, com uma introdução (1ª carta) reúne suas idéias referentes ao estudo da Gramática Latina (2ª carta), proposta de uso da língua portuguesa nos estudos, o uso da Geografia e da História (3ª carta) e das línguas eruditas como o grego e o hebraico (4ª carta); volume II Estudos Literários com as cartas V a VII, nas quais apresenta a questão da Retórica (5ª e 6ª cartas) e da Poesia no reino português (7ª carta); volume III Estudos Filosóficos com as cartas VIII a XI, sobre a lógica (8ª carta), Metafísica (9ª carta), Física (10ª carta) e Ética (11ª carta); volume IV Estudos Médicos, Jurídicos e Teológicos com as cartas XII a XIV, acerca da Medicina (12ª carta), do Direito Civil (13ª carta) e da Teologia (14ª carta); por fim, volume V Estudos Canônicos com as cartas XV e XVI, versando sobre o Direito Canônico (15ª carta) e um resumo de suas propostas com um adentro sobre o estudo para as mulheres (16ª carta) [...] (p. 35). A partir das análises realizadas por Iverson Geraldo da Silva (2008), a obra Verdadeiro método para estudar criticava a forma como o ensino era praticado em Portugal e indicava o trabalho dos jesuítas e o ensino da Filosofia neoescolásticas como responsáveis pela situação crítica da educação portuguesa. A contraproposta de Antonio Verney foi: 36 [...] conjugar algumas ideias da base ilustrada, no racionalismo, com as ideias religiosas, já que não criava um anticlericalismo, ou uma forte crítica a Igreja, à qual pertencia. Ao mesmo tempo, se apropriou do conhecimento estabelecido – no caso da escolástica – no que se refere a contribuição das leis, não abdicando da contribuição do pensamento jesuítico ao entender o mundo de forma ordenada hierarquicamente através das leis (idem, p.37-38). O ilustrado Antonio Verney ao propor novos olhares para a situação educacional no reino de Portugal não descaracterizou o ensino tradicional, chamado de eclesiástico, tão pouco resolveu aplicar uma ruptura quanto à forma com que os jesuítas estavam desenvolvendo o ensino. Ou seja, a proposta educacional tratada em o Verdadeiro método para estudar apresentava outra perspectiva de ensino que estivesse próxima aos centros de educação de outras nações européias, a exemplo da França e Itália. A proposta pedagógica de Antonio Verney tinha a intenção de reformar a educação do reino de Portugal. Segundos os estudos de Maciel e Shigunov Neto (2006), o estrangeirado português apresentou em sua obra, Verdadeiro Método de estudar, as seguintes indicações para a reforma: [...] secularização do ensino; valorização da língua portuguesa; papel e importância do estudo do latim, realizado por intermédio da língua portuguesa [...]; redução do número de ingressos nos cursos superiores; apresentação de um plano de estudos para todos os níveis de ensino, do fundamental (que se inicia a partir dos sete anos de idade) até os níveis superiores de ensino; disciplinas que compõem sua proposta pedagógica são, em sua maioria, literárias, tais como: português, latim, retórica, poética e filosófica (lógica, moral, ética, metafísica e teologia), direito (direito civil e direito canônico), medicina (anatomia), grego, hebreu, francês, italiano, anatomia, física (aritmética e geometria); proposta de escola pública e gratuita para toda a população portuguesa, como medida de reduzir o analfabetismo da sociedade portuguesa [...] (idem, p. 473-474). A partir desta caracterização da obra de Verdadeiro método de estudar, podemos considerar que Antonio Verney, assim como o Marquês de Pombal, reconhecia o distanciamento com que o reino de Portugal vivia dos avanços educacionais à luz da ciência moderna de sua época. Talvez a preocupação do ilustrado Antonio Verney estivesse em construir uma consciência cultural no reino por entender que dessa forma pudesse obter o progresso da sociedade portuguesa em termos políticos e econômicos. O ilustrado Antonio Verney fundamentou a sua proposta pedagógica nas ideias de lockianas e newtonianas, nas quais ele pretendeu dar ênfase ao campo da física, da lógica e da ética natural. Essa consideração sobre as bases científicas de António Verney aliou-se as orientações das ciências humanas e naturais para guiar textos pedagógicos. 37 [...] As ciências da natureza e as ciências humanas começavam a ter um lugar ao sol na cultura portuguesa. E, era uma ruptura que pretendia, ao mesmo tempo, preservar o essencial, a fé católica, desvencilhando-a das teias da filosofia peripatética e escolástica. Assim, trata-se de um ecletismo, de uma tentativa de firmar em bases sólidas a própria teologia [...] (VARELA, 2006, p. 54). Outro estrangeirado português que contribuiu com o processo de ilustração no reino de Portugal foi Antonio Nunes Ribeiro Sanches (1699/Penamacor – 1783/Paris). O mesmo iniciou os estudos no Colégio das Artes, em Coimbra e, em seguida, ingressou no curso de medicina da Universidade de Salamanca/Espanha, em 1720. Ao concluir os estudos universitários no ano de 1724, retornou para Portugal onde começou a trabalhar na área médica (RAMOS JÚNIOR, 2013, p. 45-46). Segundo os estudos de Abreu (2006), Ribeiro Sanches passou um curto período trabalhando como médico em Portugal. De acordo com o autor, a origem judaica da família – a qual sofria perseguições da Inquisição – e o intuito de aprofundar nos estudos médicos levaram Ribeiro Sanches a deixar Portugal, em 1826. Conforme os estudos realizados por Araújo (1984), Ribeiro Sanches, ao sair de Portugal, passou a ter contato com muitos intelectuais europeus. O seu conhecimento no campo científico contribuiu para ele escrever propostas educacionais, as quais vieram a renovar a cultura científica do reino português. Muitos livros adquiridos na Holanda para a recém-criada biblioteca Joanina, de medicina, filosofia moderna, jurisprudência e história eclesiástica foram objecto de indicação de Ribeiro Sanches. Autores como Descartes, Gassendi, Torricelli, Kepler, Bayle, Capasso e Heinecio, chegaram à Universidade antes mesmo da reforma pombalina de 1772. E mais obras de caráter filosófico e científico de autores modernos teriam tido entrada em Coimbra, não fora a censura exercida sobre as listas sanchesianas [...] (idem, p. 378). O estudo sobre a biblioteca de Ribeiro Sanches realizado por Rodrigues (1986) informou que o acervo era rico em livros sobre Medicina, Teologia, Jurisprudência (Direito Canônico e Direito Civil), Filosofia, Ética, Moral, História Natural, Química, Matemática e Física. Segundo o autor, a biblioteca de Ribeiro Sanches contava com 1113 títulos, na qual a maior parte dos livros estava relacionada à Medicina. As obras de Medicina abrangem 304 títulos, distribuídos por vários grupos: desde introduções, cursos, dicionários, etc, passando por médicos gregos e latinos [...] Os nomes mais conhecidos da Medicina estão representados desde os antigos, como Hipócrates e Galeno, até Harvei, Boerhaave, Van Swieten, Haller, Albinus, Gaubius, etc. [..] tratados de fisiologia e dos diferentes temperamentos, usos, etc, do corpo humano, tratados dietéticos e higiênicos do regime da vida, matéria médica, 38 medicina prática, tratado de doenças dos nervos, e sobre outros males (idem, p.11;13). O ilustrado Ribeiro Sanches conseguiu aprimorar seus estudos teóricos e práticos nas muitas viagens que fez a França, Holanda e Rússia. Dessa forma conseguiu elaborar propostas pedagógicas voltadas para a educação do reino de Portugal. Dos seus primeiros trabalhos, o Tratado da Conservação da Saúde dos Povos publicado, em 1756 (Paris) e 1757 (Portugal), o pesquisador Abreu (2006) considerou que este tratado foi uma proposta de reforma da saúde pública que tinha por base a perspectiva iluminista de uma medicina preventiva. Essa ideia de prevenção da saúde esteve ancorada na teoria dos miasmas, a qual era explicada pela teoria Química dos gases desenvolvida pelo grupo de pesquisadores coordenados por Lavoisier. Segundo Araújo (1984), Ribeiro Sanches ao escrever sobre a educação em Portugal recomendava aos jovens universitários que tivessem a sua formação científica em outras faculdades para que pudessem contribuir na educação de seu país. Os escritos sobre a educação universitária de Ribeiro Sanches levavam em consideração à própria experiência acadêmica no exterior. Sobre essa postura do ilustrado português, a referida autora observou que: [...] nos planos de reforma que expressamente redigiu pensando na Universidade de Coimbra, sempre preferiu que a renovação dos programas e métodos de ensino das diversas Faculdades fossem realizados não por estrangeiros mas por bolseiros portugueses que tivessem feito a sua aprendizagem em escolas estrangeiras inovadas e de crédito científico [...] (idem, p. 383). Outra produção intelectual de Ribeiro Sanches que merece destaque por ter contribuído para a formação acadêmica do reino português e, em especial ao curso de medicina, foi o livro Método para aprender e estudar Medicina, publicado no ano de 1763. Esta produção científica de Ribeiro Sanches orientava uma formação médica pautada na observação, prática e questionamento para investigar as possíveis causas de doenças e a prevenção das mesmas no corpo humano. O livro de Ribeiro Sanches indicava a: [...] necessidade de estudos preparatórios: o conhecimento da física geral e experimental, da química, da anatomia, e da historia da medicina. Indicava ainda a necessidade da construção de estabelecimentos científicos, como um teatro anatômico, um laboratório químico e uma botica. Além disso, conferia atenção especial à clínica médica e à cirurgia. Na parte dedicada ao estudo da anatomia, considerava-a a porta de entrada para o médico penetrar o corpo são e enfermo. Daí a necessidade de conhecer o corpo humano, a partir da observação e do contato com as mãos (ABREU, 2006, p. 61). 39 Para o projeto de reforma da Universidade de Coimbra estas orientações foram importantes, assim como as indicações de livros científicos que expressavam a importância da investigação, experimentação e reflexões pedagógicas em livros publicados por Antonio Verney. Embora, o Marquês de Pombal não tenha utilizado todas as indicações dos dois ilustrados estrangeirados, é possível considerar que, os norteamentos dos estudos superiores que foram impostos tendo em vista as questões políticas e a medida de força por parte do citado ministro do governo de D. José I, foram características do processo de ilustração português. Segundo Varela (2006), os Novos Estatutos da Universidade de Coimbra foram publicados em 1772 como um símbolo de uma pedagogia que regulamentava europeizar os estudantes. Isso significou apresentar novos modelos de planos de estudos e de estruturação dos cursos para o desenvolvimento de atividades científicas. Com isso, o Marquês de Pombal assumiu a condição de Reformador e Visitador da Universidade a partir de Carta-Régia de 28 de agosto daquele ano. O ensino universitário conimbricense orientado por seus novos estatutos tinha a intenção de modernizar os cursos existentes: Leis, Cânones, Medicina e Teologia. As novas características eram o aumento no número de disciplinas que estivessem relacionadas à história e interpretação de textos. Essa perspectiva de ensino acadêmico foi observada pelo pesquisador Neves (1984) que apresentou a seguinte explanação em seus estudos sobre a educação portuguesa: [...] Na teologia, a maior novidade foi à valorização da chamada teologia positiva, calcada na exegese das Escrituras e da tradição, conforme preconizava Verney [...] Essa proposta exigiu a criação de novas disciplinas, ligadas à história e à interpretação de textos, como hermenêutica, a história eclesiástica – da Igreja em geral, como da lusitana, em particular – além do grego e do hebraico. [...] Na Faculdade de Leis, foram criadas as cadeiras de Direito Pátrio, de História Civil do Povo Romano e de História Nacional, assim como, na de Cânones, estabeleceram-se a de História da Igreja Universal e Portuguesa e a de Direito Canônico Português. Na Faculdade de Medicina, a reforma ainda foi mais drástica [...] Ao invés de um estudo puramente livresco, que reduzia as noções de autonomia à dissecação de nove carneiros por ano, introduziu-se um currículo completamente reformulado, baseado na escola de Boerhaave e Albert Von Haller, em que se valorizavam as ciências experimentais e os exercícios práticos [...] (idem, p. 292-293). A proposta de renovação educacional do Marquês de Pombal também incluía a criação dos cursos de Matemática e Filosofia. Por esses dois cursos, os estudantes tiveram o conhecimento das ciências naturais e de raciocínio, além da experimentação e observação, as 40 quais também puderam ser vistas no curso de Medicina. Esse curso, segundo Varela (2006), passou a incorporar do curso filosófico as cadeiras de Filosofia Natural, História Natural, Física Experimental e Química e, do curso de Matemática as cadeiras de Lógica e Moral para formar o seu curso preparatório com duração de três anos. Com a proposta pombalina de reforma universitária, a qual tinha a intenção de promover um ensino utilitarista, foi adotado como medida a construção de edifícios que servissem para o desenvolvimento de aulas experimentais. [...] As plantas elaboradas para a universidade incluíam uma série de novos e esplêndidos edifícios projetados, segundo um estilo neoclássico, pelo arquiteto militar inglês coronel William Elsden, que acompanhara o conde Lippe a Portugal, onde permaneceu, tornando-se intendente-geral do Exército português em 1771. Essas plantas incluíam uma série de laboratórios, um observatório, uma editora para a universidade e um jardim botânico. O laboratório de física estava equipado com os aparelhos mais atualizados.O novo currículo e a existência de laboratórios eram inovações excepcionalmente avançadas para a época. Pombal, como ocorrera com as plantas para a reconstrução de Lisboa, tomou um interesse pessoal por todas as fases desse planejamento. Em outubro de 1773, por exemplo, ele criticou os primeiros projetos para o jardim botânico, que lhe pareceram demasiado ostentatórios (MAXWELL, 1996, p. 111). Aos cursos de Matemática, Medicina e Filosofia ficaram as responsabilidades dos novos edifícios por assim compreender que os estudos teóricos não deveriam estar desconectados das atividades de prática experimental. Segundo Varela (2006, p.58), o Museu da História Natural, o Jardim Botânico, o Laboratório de Química e o Gabinete de Física Experimental estavam coordenados pelo curso de Filosofia; o Observatório Anatômico direcionado para o curso de Matemática; e o Hospital, o Teatro Anatômico e o Dispensatório Farmacêutico para o curso de Medicina. A organização do ensino acadêmico que o Marquês de Pombal instituiu ao escrever os Novos Estatutos da Universidade Coimbra de 1772 teve o efeito de formar os ilustrados do reino português. A formação básica para que o estudante se tornasse um profissional capacitado para assumir os cargos oferecidos na administração pública foi necessária à construção de espaços destinados ao ensino experimental, de prática hospitalar e estudos teóricos com perspectiva na ciência moderna. Essas decisões tomadas na governança pombalina possibilitaram a formação de uma elite intelectualizada, ou ainda, de fiéis vassalos que desenvolvessem atividades políticas nos cargos administrativos do reino português. 41 1.3 A Formação Ilustrada em Medicina e os Planos de Estudos Reformados de 1772 e 1812 As reformas educacionais promovidas pelo ministro dos Negócios do Reino e da Guerra do reinado de D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, na Universidade de Coimbra, em 1772, promoveram mudanças no ensino que objetivaram situar Portugal nas proximidades dos estudos da ciência moderna desenvolvida na Europa. O Marquês de Pombal ao formar uma elite intelectualizada tinha o propósito de capacitar os estudantes acadêmicos para assumirem os cargos da administração pública, ou seja, tornar o ensino utilitarista, ou ainda, uma ciência a serviço do Estado português. O governo pombalino considerou necessária a reforma dos estudos da Universidade de Coimbra para tornar um ensino útil e, com isso, concretizou o processo de ilustração português. Segundo o historiador Crenivaldo (2013), que investigou a trajetória de Francisco Freire-Alemão como via de compreensão sobre intelectuais brasileiros, considerou que os estudos médicos antes da reforma de 1772 eram, predominantemente, baseados no ensino livresco. [...] A formação em medicina de Portugal até então minimizava as operações práticas, manuais, por intermédio de dissecações, abertura e estudo de corpos [...] O médico formado em Coimbra estava afastado dos estudos cirúrgicos e anatômicos, da formação nos hospitais, considerados saberes menores. Baseava-se nos compêndios antigos para determinar as causas das enfermidades [...] (idem, p. 36). A crítica de um ensino médico defasado tinha como principal culpado os religiosos jesuítas, os quais foram apontados, em 1771, no Compêndio histórico da Universidade de Coimbra no tempo da invasão dos denominados jesuítas e dos estragos feitos nas ciências e nos professores e diretores que regiam, pelas maquinações e publicações dos novos estatutos por eles fabricados. A partir desse documento, o Marquês de Pombal pode apresentar o seu repúdio às atividades desenvolvidas pelos inacianos. Segundo este Compêndio Histórico, o curso de Medicina apresentou os seguintes pontos críticos: [...] ver-se-á que em nenhuma parte se recomenda ao Médico o conhecimento da Língua Grega, das Humanidades e da Matemática. Estabelecem-se sim Cadeiras para estes Estudos [...] Mas quanto ao ponto de inculcar a necessidade e utilidade deles para a Medicina, tudo se cala, tudo se omite, e só se julga necessária a notícia da Língua Latina e da Filosofia Peripatética. [...] Os conhecimentos Físicos são essencialmente necessários a um Médico, [...], mas se estes conhecimentos não se adquirirem com uma aplicação séria a indagar a natureza, longe de serem úteis, serão antes prejudiciais à Medicina, perder-se-á de vista a estrada direita da observação e da experiência [...]. Em segundo lugar observamos o mesmo afectado 42 silencio sobre o estudo da Química, sendo ela necessário e útil à Medicina. A Química é a Arte de separar os corpos naturais uns dos outros e as suas partes, de purificá-las, compô-las e fazê-las próprias para os usos da Medicina e das necessidades da vida.Ela ou é Filosófica, ou Farmacêutica, e de ambos estes modos considerada oferece ao Médico um rico fundo de conhecimentos naturais, porque indagando a natureza particular dos corpos por meio das separações e uniões dos seus princípios, faz descobrir as qualidades e propriedades dos mesmos corpos e dos produtos, dá à Medicina abundante cópia de medicamentos, saudáveis e úteis. [...] Em terceiro lugar observamos a falta de um bom Regulamento sobre o estudo Botânico. Depois de o Médico ser instruído na Matemática, na Física e na Química, pede a ordem, pede a ordem, diz Boerhaave, que ele aprenda aquelas coisas que pertencem à notícia dos medicamentos símplices. A Botânica conduz o Médico a estes conhecimentos, instruindo-o na História Natural do reino vegetal, donde a Medicina tira grandes socorros para formar os remédios ou medicamentos. Em quarto lugar observamos a mesma falta de um bom Regulamento sobre o Estudo Anatômico. A Anatomia é uma artificial divisão do corpo humano morto nas suas partes, tanto internas como externas, para nos dar um conhecimento distinto dos diferentes órgãos que entram na sua composição [...] (idem, p. 341-343;346). O curso de Medicina, segundo o Compêndio Histórico, não apresentava um ensino pautado na utilidade. Os estudos de língua estrangeira, da Matemática, da Física, da Química, da Botânica, da Anatomia e entre outros foram observados pelo Marquês de Pombal como essenciais para a formação do profissional que pudesse servir ao Estado português. Aliado ao diagnóstico do Compêndio Histórico, o curso de Medicina também recebeu contribuições de portugueses que tiveram grande parte de sua formação científica fora de seu país e, por isso foram chamados de estrangeirados. Entre eles estavam Ribeiro Sanches (16991783) e Antonio Verney (1713-1792) que, segundo o historiador Abreu (2006) ao tratar da reforma dos estudos médicos na Universidade de Coimbra, comentou que eles defendiam um ensino teórico e prático, ao mesmo tempo em que se posicionavam a favor dos estudos cirúrgicos. Ainda por aquele autor, o médico Ribeiro Sanches, por estar em concordância com os estudos médicos do teórico Boerhaave, observou ser importante que o estudante de medicina tivesse estudos preparatórios antes de iniciar as cadeiras próprias do curso de Medicina. Nas reflexões de Abreu (2006, p.61), Ribeiro Sanches ao publicar o livro Método para aprender e estudar a Medicina tornou público um modelo de ensino preparatório médico, no qual pudesse agregar conhecimentos sobre a Física, Química, Anatomia e História da Medicina. O livro de Boerhaave contribuiu para a formação médica após a Universidade de Coimbra ter sido reformada em 1772. A indicação daquela literatura científica foi decidida pela Junta da Providência Literária que também tinha sido encarregada de elaborar o Compêndio Histórico de 1771, o qual tratou de relatar a situação do ensino superior da citada universidade. 43 Quando a Junta de Providência Literária foi encarregada de decidir sobre as doutrinas e os livros mais importantes na formação dos médicos, não foi fácil, perante a multiplicidade das teorias existentes no mundo, proceder à escolha mais ajustada à realidade portuguesa. A opção viria a fazer-se, no entanto, por Boerhaave, que tinha a seu favor, para além do caráter inovador das suas propostas, uma grande preponderância nos meios científicos da época. Mas a sua orientação teórica oferecia outra vantagem substancial, em particular numa comunidade científica em crise, que não podia suportar os custos da investigação – tratava-se de uma teoria, cujo ecletismo dava garantia de universalidade e oferecia a segurança de nela se encontrarem integradas as inovações mais recentes da época (CRESPO, 1990, p. 68). O ecletismo teórico existente no livro de Boerhaave devia a apresentação de estudos sobre a Química, Física e Matemática, as quais garantiram a cientificidade dos estudos médicos. Os professores do curso de Medicina, ao considerarem a importância destes três campos científicos, conseguiram encaminhar o ensino a um nível elevado em termos racionais para tratarem das doenças. Nesse entendimento, concordamos com Crespo (1990) ao considerar que os fundamentos daquelas três ciências valorizaram o estatuto profissional e social do médico que reforçava a sua posição na classe elitizada que o Marquês de Pombal pensou em formar. A importância de um curso Preparatório para a formação em Medicina atribuído por Ribeiro Sanches foi considerado pelo Marquês de Pombal e incorporado nos Novos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772 um plano de estudos. Este documento apresentou um capítulo que tratou Da preparação do curso médicoe justifica a obrigatoriedade do aluno no curso médico a realizar o curso preparatório: “não pode o Médico fazer progresso algum na sua Profissão sem entrar nella plenamente instruído nos conhecimento prévios, que nella suppõe; os quaes faltando, se tornariam inúteis todos os esforços de estudo que na mesma Medicina se empregassem” (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol. III, p. 8). O estudo dos idiomas Latim e Grego passaram a ser exigidos no ato da matrícula do aluno antes dele iniciar o curso Preparatório, composto por estudos filosóficos e matemáticos com duração de três anos. Dessa forma, os Estatutos estabeleceram as seguintes cadeiras, respectivamente, para a Faculdade de Filosofia e Matemática: no primeiro ano – História Natural e Geometria, no segundo ano – Cálculo e Física Experimental e no terceiro ano – Química Geral e Foronomia (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol.III, p. 10). O curso Preparatório em Filosofia e Matemática tinham o objetivo de iniciar os alunos do curso de Medicina em atividades de prática laboratorial e estudos teóricos. Para que 44 fosse possível promover uma educação experimental, os estudos de Pires e Pereira (2010) apontaram a importância da construção do Laboratório Químico, Gabinete de Física Experimental e Museu de História Natural. Os citados pesquisadores ao refletirem sobre questões relacionadas à valorização do patrimônio científico português reconheceram que: Os Estatutos de 1772 são elucidativos a respeito desta estreita relação entre programas e equipamentos, pois determinam claramente o plano dos cursos e a criação obrigatória dos espaços para reunir as colecções necessárias ao estudo da Filosofia, da Matemática e da Medicina. Assim, para o ensino da Filosofia seria a nova Faculdade provida com um Museu de História Natural e um Jardim Botânico, um Gabinete de Física e um Laboratório e um Laboratório Químico, estruturas que deviam responder às necessidades do programa do curso [...]. Por sua vez, para completar o ensino na nova Faculdade de Matemática seria construído um Observatório Astronômico [...] (idem, p. 187). A formação de médicos por uma educação experimental, anunciada no ano de 1772, só começou a ser desenvolvida no ano de 1779. Conforme Abreu (2006), os motivos foram ocasionados por um atraso nas obras da reforma do antigo colégio dos Jesuítas, no qual passou a ser o local dos laboratórios. Após terem sido realizadas as adaptações necessárias do antigo colégio dos Jesuítas para receber as aulas experimentais da formação profissional não só médica, mas filosófica e matemática, os professores das Congregações de Filosofia e Medicina realizavam visitas para inspecionar o andamento das atividades de ensino. Uma destas ações dos professores foi registrada, em 11 de julho de 1783, tendo a presença do Vice-Reitor Dr. Carlos Maria de Figueiredo Pimentel e dos professores: Dr. Domingos Vandelli (cadeira de Química e Laboratório de História Natural), Dr. João Antonio Dalla Bela (Gabinete de Física Experimental). Aos 11 dias do mês de Julho de 1783 tendo prezente o Sr. Vice R or D. Carlos Maria de Figdo Pimentel, com os Lentes da mesma FaculdeVandelo, Dalla Bela, Monteiro da Rocha como adjunto [...] Faculdena forma das ordens do S. Mag se procedeo a Vizita dos estabelecimentos da mesma Faculde a saber o LaboratorioChimico, o Gabinete de Fizica Experimental, e o Muzeo de Historia Natural: praticandose tudo o que ordenavão os Estatutos no Exame que determina se faça nestes vizitas se achou tudo conforme deve estar [...] (Documento Avulso – Congregação da Faculdade de Filosofia, 1777-1783)1. O andamento das atividades laboratoriais aponta que a formação profissional em Medicina formou os ilustrados do reino conforme o projeto de reforma educacional pombalina. Outro ambiente privilegiado para a formação dos ilustres profissionais da Arquivo da Universidade de Coimbra. Documento Avulso – Congregação da Faculdade de Filosofia, 17771783. Cota: IV-1ª D-3-1-103. 1 45 medicina foi o hospital que passou a funcionar, em 1779, no antigo colégio dos Jesuítas. Segundo o cientista social Crespo (1990), o hospital representou um lugar privilegiado para aperfeiçoar a sensibilidade médica e o exercício de uma ação prática. [...] o hospital revelava-se como o lugar privilegiado da aquisição da experiência médica científica, o espaço onde surgia a oportunidade mais fecunda da aproximação com a diversidade das doenças e das misérias da comunidade. No hospital, aprendia-se a compreender os desfavorecidos, tomava-se contacto directo com a morte, despertava-se para as virtudes que deviam constituir os grandes princípios da acção do médico. A experiência hospitalar era um momento fundamental para os que se iniciavam na profissão. Os hospitais apresentavam outra vantagem importante para os médicos que viviam no temos constante de eventuais falhas cometidas na aplicação de novas terapêuticas [...] (idem, p. 99). Neste período, as aulas hospitalares tiveram a perspectiva de unir os estudos em Medicina e de Cirurgia, pois aqueles estudos eram tratados separadamente antes da reforma educacional da Universidade de Coimbra, em 1772. A divisão destes conhecimentos, segundo o diagnóstico apresentado no Compêndio Histórico de 1771, previa prejuízos na formação médica. Dessa forma, os Estatutos de 1772 consideraram que tais estudos deviam ser associados a fim de beneficiar a preparação do médico. [...] o divórcio entre a Medicina, e Cirurgia, tem sido mais do que todas as outras causas prejudicial aos Progressos da Arte de curar, e funesto á vida dos homens; não sendo possível que seja bom Médico, que não for ao mesmo tempo Cirurgião, e reciprocamente: Ordeno outro fim, que o Estudo da Cirurgia prática, e especulativa acompanhe sempre o da Medicina; e que daqui por diante sejam todos Médicos ao mesmo tempo Cirurgiões, passando-se-lhes as suas Cartas com a declaração de huma, e outra cousa, sobre os Actos, e Exames, que dellas hão de fazer [...] (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol. III, p. 20). A formação dos estudantes de Medicina não se restringia aos conhecimentos científicos, mais ao modo como tratar e conversar com o paciente. Nessa fase de contato com o sujeito doente era pertinente outro momento de formação para o médico: as experiências com medicamentos. Sobre isso, as reflexões de Pereira e Pita (2011, p.205) acerca da cadeira de Farmácia e da saúde em Portugal, nos anos finais do século XVIII, identificaram outro ambiente de formação dos estudos em Medicina – o Dispensatório Farmacêutico do Hospital, no qual se produziam os medicamentos e local destinado para o curso de boticários. Os espaços físicos construídos no antigo colégio dos religiosos inacianos serviram para as atividades experimentais e de prática hospitalar, além de servir como suporte aos cinco anos de estudos de Medicina na Universidade de Coimbra. Nos Novos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772, o curso médico era composto por cinco anos de estudos, além dos três anos do curso Preparatório que o aluno era submetido logo que chegava à 46 Universidade de Coimbra. Os estudantes eram submetidos a cada final de ano letivo a um exame que avaliava seus conhecimentos sobre os conteúdos estudados no mesmo ano. Na presença de um presidente e três a quatro examinadores, as sessões de exames podem ser consideradas como de decisão no percurso acadêmico do aluno. O primeiro ano de estudos médicos era reservado às lições da cadeira de Matéria Médica que compreendia os conhecimentos da história da Medicina e de atividades experimentais no Laboratório Químico, Gabinete de História Natural, Jardim Botânico, lições de Física e, teoria e prática farmacêutica, as quais aconteciam uma vez por semana. O segundo ano letivo era reservado aos estudos de Anatomia e de sua história. Para a condução do ensino deste ano, os professores eram ordenados a ensinar as lições sobre as partes do corpo humano e de operações cirúrgicas, nas quais os alunos aprendiam por demonstrações práticas (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol. III). O ensino do terceiro ano letivo do curso médico tratava das lições da cadeira de Instituições Médicas, na qual eram abordados, por combinação dos conhecimentos em Física e Matemática, os estudos de Fisiologia, Patologia, Semiótica, Higiene e Terapêutica. No quarto ano os alunos estudavam os aforismos de Hipócrates e Boerhaave e, no quinto ano letivo, os estudos priorizavam a clínica e à prática no hospital (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol. III). Os cinco anos de estudos médicos da Universidade de Coimbra que seguiam os planos de estudos dispostos nos estatutos de 1772 buscavam priorizar o ensino de práticas e experiência laboratoriais. O ensino pautado apenas com o uso dos livros foi associado com aquelas atividades que permitiam os alunos compreender as lições a partir da observação, investigação, manuseio de materiais utilizados nos diversos experimentos realizados em laboratórios e contato direto com os pacientes doentes no hospital. Para o historiador Abreu (2006), a mediação dos alunos em atividades de laboratório e no hospital pode ser compreendida como uma formação médica pautada na ciência moderna. [...] depreende-se o papel primordial do experimentalismo do médico, relacionado aos laboratórios e teatros onde se aplicavam os ensinamentos da física, química e promovia-se a interação entre a medicina e a cirurgia. A concepção de ciência sustentada ao longo do texto dos Estatutos propunha romper com a tradição livresca que, conforme se acreditava, tornava em Portugal obsoleta [...] (idem, p. 72). A incorporação do conhecimento científico moderno e com ela a concepção de um ensino por experimentação norteou o ingresso das novas teorias científicas. Essa realidade que foi acentuada com os Estatutos de 1772 possibilitou a formação de um grupo de 47 professores que concordavam com as concepções da ciência moderna, ao mesmo tempo em que existiram docentes que insistiam em seguir com a sua forma de ensinar calcada na experiência adquirida de seus anos de trabalho na Medicina. Para o cientista social Crespo (1990) esta situação de confronto entre as concepções de ensino entre os professores da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra pode ser compreendida com a formação de dois grupos: os ‘médicos velhos’ que só acreditavam na sua experiência de trabalho e os ‘médicos novos’ que concordavam com a visão da ciência moderna. Na análise não se poupava a nova geração de médicos, a quem se apontavam defeitos idênticos aos dos seus colegas mais antigos, ainda que em sentidos opostos. De facto, os médicos novos eram acusados de se vincularem às novas teorias de Cullen, Brown, Pinel ou Broussais, rejeitando de forma injusta o passado. A crítica apontada aos médicos antigos era, sem dúvida, mais circunstanciada, podendo significar que, em relação aos mais novos, eram aqueles que se apresentavam mais dignos de acusações, revelando freqüentemente atitudes de nítida indiferença perante os avanços científicos e preferindo manter-se numa actividade rotineira. Os médicos velhos apoiavam-se nos ensinamentos de Hipócrates, Galeno e Boerhave, desconfiando dos benefícios da vacina e das aplicações da química à medicina [...]. Os médicos velhos mostravam desconfiança perante as inovações científicas, acreditando mais na sua longa experiência do que nas promessas dos novos conhecimentos [...] (idem, p. 55). O ponto central das discussões entre os ‘médicos velhos’ e ‘médicos novos’ eram o confronto de ideias teóricas que ambos travavam por conta das inovações científicas. Talvez, a dificuldade daqueles médicos professores que não aceitavam as concepções da ciência moderna estivesse no fato de não acreditarem que as teorias científicas pudessem apresentar outras possibilidades de resolver os problemas que comprometiam a saúde. Diante dessa situação que fazia parte do cotidiano de formação médica na Universidade de Coimbra, Jorge Crespo (1990), também considerou dificuldades para a Junta de Providência Literária em indicar os livros que deveriam ser utilizados em cada ano letivo. A formação médica cujo objetivo também era ilustrar sujeitos para desenvolver atividades políticas no reino português passou a ser considerado como uma referência para a Junta de Providência Literária escolher os livros de autores que desenvolviam um ecletismo teórico. Essa possibilidade correspondeu em valorizar a cura quanto à prevenção de doenças, ou seja, evidenciar as questões de cunho higienistas. De acordo com Pereira e Pita (1993), a reforma pombalina introduziu esta noção de higiene. [...] em finais do século XVIII, as noções de saúde e de doença começavam a ser entendidas em função de uma nova e complexa causalidade. Complexa porque são várias e distintas as teorias que se ocupam da questão desde Cullen, Brown e Broussais. Mas, o que importa revelar é que cada uma por si procurava impor-se 48 com a grande doutrina médica, demarcando-se das outras e remetendo para os anais de história tanto a doutrina humoral galénico-hipocrática como a síntese boerhaaviana que, por toda a Europa, começou a entrar em declínio quando nos aproximamos do fim do século XVIII. Não admira pois que no texto dos estatutos médicos da reforma pombalina não encontremos uma posição doutrinal bem definida. E, na verdade, ela não é exclusivamente boerhaaviana [...] (idem, p. 459). O ecletismo teórico dos médicos da Faculdade de Medicina parece ter sido a caracterização da dinâmica formativa de médicos na Universidade de Coimbra naquele final de século XVIII. Os livros que os ‘médicos velhos’ defendiam se completavam com aqueles utilizados pelos médicos professores que defendiam as ideias da ciência moderna. Um teórico que esteve na preferência dos médicos professores foi Cullen por apresentar em seus estudos novas descrições e interpretações de doenças, as quais permitiam aos estudantes compreendêlas e acompanhar as suas variações na complexa realidade social. Segundo Crespo (1990, p.76) [...] Em relação às influências de Cullen, não pode haver qualquer dúvida, dado que, na maior parte das contas dos médicos, são as suas doutrinas que se encontram no fundamento das descrições e das explicações realizadas. O êxito de sua teoria deviase, especialmente, às possibilidades que oferecia no sentido do esclarecimento dos mecanismos que imperavam na evolução das febres e das inflamações em geral [...]. Os estudos de Cullen estiveram na preferência dos médicos professores da Universidade de Coimbra por auxiliá-los na compreensão do contexto português e, possivelmente, justifica a indicação daquele teórico na lista de livros do curso de Medicina da citada universidade, em 1827. Dois livros de Cullen foram indicados nesta lista de livros e, possivelmente, as suas reflexões teóricas estiveram na preferência dos médicos do curso de Medicina desde a reforma dos estudos de 1772. O primeiro livro de Cullen indicado na lista de livros de 1827 foi Medic Practic, em dois volumes – no primeiro, os conteúdos abordados foram as febres e inflamações e, no segundo volume o autor tratou de hemorragias, doenças que consistem de fraquezas, dos afetos espamódicos sem febres, inchaços generalizados e hábitos de prevenção do corpo e da pele. Além destes dois volumes, a Universidade de Coimbra indicou o livro Traité de Matiere Medicale do mesmo autor, no qual foram abordados estudos sobre a ação e das diferentes formas de medicamentos (CULLEN, 1810; 1809). Os professores do curso de Medicina cada vez mais voltados para as questões que envolviam problemas de saúde da realidade social começaram a reivindicar mudança nos planos de estudos nos anos finais do século XVIII e início do século XIX. Com isso, é possível compreender que os docentes tinham a intenção de elaborar uma formação em 49 Medicina que preparasse os estudantes para os múltiplos problemas de saúde pública. Segundo Crespo (1990), o novo plano de estudos médicos publicado no Jornal de Coimbra, em 1812, modificou a sequência das cadeiras dos três primeiros anos letivos definidas nos Estatutos de 1772. [...] A mudança fizera-se no sentido de: transferir a cadeira de Anatomia do 2º ano para o 1º ano; antecipar o ensino de Instituições, fixando esta cadeira no 2º ano; avançar, do 1º para o 3º ano, a cadeira de Matéria Médica e Farmácia. Quanto aos dois últimos anos não se fez qualquer alteração [...] (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol.III, p. 81). A formação médica na Universidade de Coimbra orientada pelo plano de estudos de 1812 prosseguiu até a próxima reforma do ensino, em 1836. Os embates teóricos, durante este período, continuaram entre os professores acerca das concepções da ciência moderna, afinal de contas, o que aconteceu foi uma inversão na ordem das cadeiras do plano de estudos médicos para dar ênfase ao ensino da Higiene (CRESPO, 1990). A necessidade de dar uma resposta aos problemas que vitimavam as pessoas no reino de Portugal aumentava e com essa situação cresceu a importância de estudos voltados à área de Higiene. A sua valorização no plano de estudos médicos na reforma de 1812 passou a orientar os estudantes a uma postura de policiar a saúde pública, conforme observou Pereira e Pita (1993, p. 458): A atribuição de um lugar à higiene no quadro curricular da Faculdade de Medicina decorria diretamente da fisiologia [...] Por essa razão de ordem epistemológica, em 1772, a higiene encontrava-se inserida na cadeira de Instituições, que compreendia também a fisiologia, a patologia, a semiótica e a terapêutica. [...] A higiene associada à fisiologia é no fundo a higiene privada e, portanto, dirige-se ao corpo individual; por seu turno, a higiene ligada à polícia médica é a higiene pública e dirige-se ao corpo social globalmente considerado. [...] Mas, sendo o corpo individual também um corpo social, pois, ele é um ser com outros num meio que é partilhado por todos, compreende-se que haja uma relação muito estreita entre a vertente privada e pública da higiene. Igualmente se torna compreensível porque é que os Estatutos de 1772 insistiram mais na diferença entre a higiene científica e a higiene não científica do que em assinalar essa distinção entre o público e o privado que, de resto, só se torna ideologicamente eficaz com a ascensão do liberalismo em Portugal. Os estudos sobre a Higiene do curso de Medicina que passaram a ser tratados no segundo ano letivo mantinham como norteamento o texto dos Estatutos de 1772. Por esse documento, as causas das doenças deviam ser investigadas e a conservação da saúde uma prioridade dos médicos. Além disso, os Estatutos apresentam orientações a serem tratadas nas aulas sobre a vigilância que um médico precisa ter com questões voltadas aos hábitos de 50 beber, comer, dormir e entre outros. Talvez essas considerações mereçam ser entendidas como uma possibilidade de normatização de práticas higienistas. [...] Ordeno, que trate fundamentalmente esta matéria, como requer a sua importância; mostrando os diferentes meios, que se devem empregar para a conservação da saúde, conforme adversa compleição, temperamento, idade, sexo, e profissão das pessoas; como se devem remover, e apartar as causas das enfermidades; e como he de corrigir a influência das causas inevitáveis; e em fim como se deve proceder no uso de bebidas, dos alimentos, do movimento, do descanso, do somno, da vigia, e de tudo mais, que contribui para o mesmo fim [...] (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, vol. III, p. 53). A problemática fundamental dos estudos médicos passou a ser a conservação da saúde realizada por uma vigilância médica. Com a publicação da reforma do plano de estudos médicos da Universidade de Coimbra, em 1812, algumas iniciativas de normatização da higiene pública foram elaboradas em Portugal, como por exemplo, o Tratado de Polícia Médica, publicado, em 1818, por José Pinheiro de Freitas Soares que à época era sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa e membro da Junta da Saúde de Lisboa. Este tratado simbolizou a primeira normatização higienista de Portugal e constituiu os médicos como uma polícia médica. Esta importante publicação portuguesa foi dividida em trinta capítulos, nos quais abordam as seguintes temáticas: morte, doenças, penitenciárias, hospitais, alimentos, recipientes para armazenamento de alimentos, incêndios, habitações, casamento e celibato. Conforme o autor do referido tratado, Soares (1818) fez as seguintes considerações nas primeiras páginas do livro para tratar da higiene pública: Sem humCodigo de Policia não pode haver harmonia social, segurança publica, e boa ordem. Esta Sciencia, que traz sua origem de maduros princípios de huma sã Philosofia, Ge entre nós bem conhecida; pois temos Leis, e providências de Polícia as mais bem, e até louvadas pelas Nações Estrangeiras: esta Sciencia porém abrangendo muitos, e vários objectos, toca também aquelle de conservar a saúde do homem na sociedade, e de lhe prolongar a vida; a fim de augementar a população, que he a primeira fonte da riqueza Nacional; e d’aqui vem a necessidade de conhecimento da Hygiene Publica, cujos preceitos versando sobre a direção das faculdades physicas, e Moraes do homem, e sobre a salubridade dos differentes objectos, que tem relação com a sua existência, são da partilha immediata da Policia Medica para a sua execução [...] (idem, p. 1). A elaboração do Tratado de Polícia Médica de 1818, só tenha sido possível devido aos esforços de médicos professores da Universidade de Coimbra que defendiam a perspectiva da conservação da saúde por meio das concepções da ciência moderna, em particular da Ciência Química, em finais do século XVIII e início do século XIX, além dos sócios da Academia Real das Ciências de Lisboa. Ainda segundo Soares (1818), a publicação 51 de seu tratado reforçaria a formação de uma Junta da Saúde que atuasse em benefício da saúde dos vassalos do reino ou que estimulasse intelectuais empenhados aos princípios da higiene. [...] Não havia todavia entre nós huma corporação autorisada, como há em muitas Nações policiadas, que fizesse applicar os conhecimentos desta parte Medico Política em benefício dos Vassallos Portuguezes: e he para mais gloria do Governo do nosso Augusto REI, que foi criada a nova Junta da Saúde, huma das Instituições a mais útil, e a mais necessária; pois que a Ella devem pertencer todas as providências, que disserem respeito à segurança da Saúde Pública. [...] Finalmente se este meu trabalho não corresponder ao seu fim, e aos meus desejos; pelo menos a sua publicação servirá de estímulo, para que gênios de fértil litteratura o emprehendão de novo; pois que a matéria, sendo na maior parte princípios de Hygiene applicados aos usos e necessidades da vida do homem, assas se recomenda ao Sabios Philantrópos, e á Protecção do nosso Augusto Monarcha. (idem, p. 1-2; 4). Um exemplo de nação que, provavelmente, Soares (1818) devia estar fazendo referencia em seu Tratado de Polícia Médica tenha sido a Alemanha. No apêndice do tratado, o autor reserva em suplementar aos capítulos XVII – leite e queijo, XX – vinhos e cerveja, XXI – água ardente, XXII – vinagre e sal comum, XXIV – tabacos e XXV – inflamações espontâneas com observações do livro Polícia Judiciária da Chimica, cuja autoria era do Dr. M. H. G. Remer, formado em Medicina e professor da Universidade de Kœnisgberg e contribuições científicas publicadas na Gazeta Nacional da Alemanha. A referência dos estudos químicos germânicos para o campo da Medicina provavelmente contribuiu para Soares (1818) compor o primeiro tratado higienista português. A atenção tratada por Soares (1818) ao texto do alemão, Dr. Remer, deve-se a importância que os fundamentos da Ciência Química moderna representaram a nação germânica ao ser reduzida ao sistema a fim de auxiliar a polícia médico-judiciária. Mesmo que a obra alemã tenha sido apenas traduzida para o francês, em 1816, impedindo que o português utilizasse as suas reflexões científicas, Soares (1818) observou na parte final de seu tratado que: [...] Não devo todavia occultar em abandono do reconhecido merecimento da obra do Dr. Remer, que a sua leitura me forneceu novas ideias, as quaes aproveitarião ao meu trabalho, se a tempo me viesse ás mãos a dita obra: e porque agora já me não seja possível fazer nos competentes lugares aquelles addicionamentos, que della tenho colligido; e por outra parte muito desejasse, que a minha obra não ficasse privada desta vantagem, por se a primeira, que neste gênero se publica em nossa língua, por sisso me resolvi a extrahir neste supplemento quanto de mais encontrei na referida obra, que podesse illustrar o assumpto do meu empenho. [...] (idem, p. 388). 52 A influência de autores alemães na cultura científica portuguesa apresentou sua maior expressão após a reforma da Universidade de Coimbra, em 1772. Os estudantes acadêmicos, a partir desse fato, tiveram a oportunidade de estudar por uma literatura alemã em que alguns livros eram tipografados na imprensa da referida universidade. Segundo Rodrigues (2007), a valorização das obras germânicas em bibliotecas de Coimbra, assim como nos cursos universitários continuaram nos séculos XIX e XX. Quer no Compêndio Histórico e nos Estatutos Pombalinos, quer na introdução de livros de texto para o ensino e na aquisição de obras para as bibliotecas de Coimbra, encontramos a cada passo referência a autores de origem alemã. Nunca na história da Universidade se fizera sentir tão profundamente a influência da cultura alemã. O facto de muito desses tratados terem sido impressos na tipografia da Universidade é deveras significativo. Também são de referir as viagens científicas então empreendidas às diversas regiões da Alemanha, e a vinda a Portugal de vários cientistas e eruditos alemães, alguns dos quais escreveram sobre Coimbra e a sua Universidade, como foi o caso de Heinrich Link. Aliás, essa tendência para a valorização de autores alemães iria prosseguir nos séculos XIX e XX (idem, p. 630). Além da literatura alemã, também o médico Dr. Manoel Joaquim Henrique de Paiva foi um difusor das ideias químicas, farmacêuticas e médicas, além de traduzir livros estrangeiros sobre higiene. Essas leituras influenciaram o referido médico na elaboração de suas concepções sobre uma política higiênica: valor político da saúde e pedagogia eficaz que, segundo Pereira e Pita (1993), reforçava a ideia de uma “democratização do conhecimento da consciência pública”. Henriques de Paiva não pretendia popularizar a medicina no sentido em que todos pudessem ter acesso ao livre exercício da medicina. O que defendida era uma pedagogia da população em termos sanitários, isto é, a efectivação social do higienismo. Assim, por exemplo, dever-se-ia colocar ao alcance de todos a higiene da casa, da alimentação, das águas, do vestuário, do repouso, do trabalho, etc. Todos deviam conhecer as normas higiênicas básicas para viver um quotidiano saudável,pois só assim se garantia a sua (sobre)vivência colectiva (idem, p. 462463). A perspectiva utilitarista dos debates teóricos sobre a higiene no século XIX, a partir das iniciativas de médicos e intelectuais que embasavam as suas perspectivas na ciência moderna, a exemplo da Química, orientava as pesquisas, a observação e a experimentação sobre assuntos relacionados à conservação da saúde. A ideia de constituição de uma polícia médica pode ser considerada como a reunião de ilustrados empenhados a solucionar os problemas de saúde pública e indicando boas maneiras. Logo, ficamos a pensar que a constituição de uma polícia médica manifestou-se da união de um saber médico e político dos sujeitos ilustrados. 53 2. JOSÉ VIEIRA DE FARIA ARAGÃO ATALIBA, UM MÉDICO ILUSTRADO: O PERCURSO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA, OS ESTUDOS DA CIÊNCIA QUÍMICA E AS EXPERIÊNCIAS CONIMBRICENSES 2.1 A Formação Acadêmica A formação em Medicina de José Vieira de Faria Aragão Ataliba foi realizada na Universidade de Coimbra, no período de 1820 a 1827. O jovem baiano, tendo prestado seus estudo menores na capitania da Bahia conseguiu obter, sem apresentar nenhuma reprovação de exame letivo, o seu grau de bacharel. O período da formação acadêmica de José Vieira Ataliba coincide com o contexto da Revolução Liberal que teve início na cidade do Porto, em 1820. Esse movimento político e cultural teve suas origens nas ideias filosóficas do Iluminismo que segundo Vargues e Ribeiro (1993), pode ser compreendido como uma expressão ideológica e de afirmação social que surge em consequência de um desprendimento dos moldes de organização da sociedade medieval para determinar uma consciência política européia. No que diz respeito à caracterização do movimento Liberal, em Portugal, os citados pesquisadores observam que: O Liberalismo surgiu em Portugal na primeira metade do século XIX como uma ideologia política dominante, legitimadora da nova ordem social [...]. A evolução do liberalismo político está ligada aos vários movimentos revolucionários contra o absolutismo que ocorreram desde 1820 e que justificavam as sucessivas expressões que surgiram para designar: “vintismo” (1820-1823), “cartismo” (1826-1828), 18341836 e 1842-1910 e “setembrismo” (1836-1842) [...] (Idem, p.214). A sociedade portuguesa em meio aos problemas políticos e econômicos ainda permanecia como referência no que diz respeito à formação intelectual acadêmica. A cidade de Coimbra, por sediar a Universidade de Coimbra, continuava a atrair estudantes de várias regiões do império lusitano com a finalidade não só de obter um grau acadêmico, mas ascender posições sociais que, segundo Oliveira (2009, p. 123) trata de ser uma “possibilidade de conquistar um estatuto social que se traduzisse em situações de favorecimento econômico, político, social e cultural”. A formação acadêmica que implica no processo de ilustração também pode ser observada como um norteamento para novos sujeitos sociais alcançarem a posição de elite. A intenção de encaminhar jovens brasileiros a buscar um título acadêmico pode ter sido da família de sucedidos comerciantes de José Vieira Ataliba. Em texto memorialístico do doutor Alexandre José de Queiroz (1882), sobre José Vieira Ataliba, encontramos a informação de 54 que família do biografado era preocupada com seu futuro e por isso não descuidou de sua educação. Seu pae, negociante abastado e respeitável por suas boas qualidades, deu mais realce e distinção á sua descendência pela união conjugal com o bello ramo da família dos Aragões. O nascimento de Ataliba pouco tempo deixou seus paes na inquietação e incerteza de seu futuro; porque, apenas sua alma se vigorava com o desenvolvimento de sua organisação, sua capacidade mental,suas tendências Moraes lhe davam a mais lisongeira esperança. Dispondo de meios sifficientes, seus paes nada pouparam para dar-lhe uma desvelada educação. Depois de ter feito na Bahia os estudos preparatórios para a formatura e todos os mais que o nosso estado de colonisação e atrazo então permitia, embarcou-se para Portugal em 3 de Maio de 1820 (Idem, p. 163-164). Os cursos da Universidade de Coimbra na segunda década do século XIX ainda acompanhavam a organização prevista nos Estatutos de 1772 no que se referem ao critério de idade, comprovantes de estudos menores e curso Preparatório. No caso particular da Medicina, a idade de ingresso nas disciplinas médicas era de dezoito anos, além disso, os alunos deviam apresentar os comprovantes de estudos menores em Latim, Grego e Filosofia Moral e Racional e, três anos no curso Preparatório, o qual era composto por disciplinas do curso filosófico e matemático. Sendo manifesto, que não pode o Medico fazer progresso algum na sua Profissão sem entrar nella plenamente informado nos conhecimentos prévios, que nella suppõe; os quaes faltando, se tornariam inúteis todos os esforços de estudo, que na mesma Medicina se empregassem: Hei por bem ordenar, que não sejam admittidos á matrícula os Estudantes Médicos, sem provarem a instrucção necessária nos Estudos seguintes: Em primeiro lugar deverão ter adquirido o conhecimento necessário na Língua Latina, de sorte que a entendam, escrevam correcta, e desembaracadamente. [...] Deverão também os Estudantes Médicos ter adquiridos o conhecimento da Língua Grega, de sorte que a entendam com suficiência, e desembaraço. [...] Em segundo lugar, deverão ter previamente instruídos nos Estudos Filosoficos, e Matemáticos, necessários para entrar com sólidos princípios no Estudo da Medicina [...]. Para o que Ordeno, que alem de terem ouvido a Filosofia Racional, e Moral por espaço de hum anno, estudem três anos effectivos de Fysica, e Matematica [...] (Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, Vol. III, p. 8-9). O baiano José Vieira Ataliba cumpriu sem restrições as exigências estatutárias para ingressar no curso de Medicina da Universidade de Coimbra. No entanto, os conhecimentos prévios de língua grega e Filosofia Moral e Racional que deveriam ser estudados no curso de escolas menores na Bahia, José Vieira Ataliba passou a estudá-las na Universidade de Coimbra. Segundo os Estatutos de 1772, os alunos nestas condições tinham permissão para frequentar as aulas de língua grega até o final do segundo ano de Medicina e, os estudos de Filosofia Moral e Racional seriam realizados ao final do curso Preparatório. 55 José Vieira Ataliba iniciou suas matrículas, em 1820, com 16 anos de idade no curso Preparatório. Inicialmente, o jovem baiano cursou Filosofia Moral e Racional, no segundo ano letivo, em 1821, Geometria e História Natural, no terceiro ano letivo, em 1822,Cálculo e Física Experimental e, no quarto ano, em 1823,Foronomia e Química 2. Com o estabelecimento do rigor da idade, José Vieira Ataliba a cada matrícula apresentava o seu documento de certidão de idade, escrito em 17 de agosto de 1819 por Feliciano Gavez Pinto de Madureira que, à época, exercia a função de secretário da Câmara Arquiepiscopal da Bahia. Suas informações foram extraídas, segundo informa o secretário, através de uma consulta ao Livro de Batismo da Freguesia da Sé Catedral, na página 305. Aos oito de Junho de mil oito centos e quatro, nesta Sé Cathedral, baptizei, e puz os Santos Oleos a Jozé nascido a vinte de março deste presente anno filho legitimo de Alferes Francisco Vieira de Faria e Dona Antonia Florinda de Aragão, foi padrinho o Capitão Jozé Cardozo Marques solteiro morador na Freguesia da Conceição da Praia, de que fiz este assunto que assignei (Livro Certidão de Idade, vol. 34 (17721833), p. 42 (frente e verso). Cota: IV-1ª D- 5-2-34). Neste período de estudos iniciais, antecedentes as disciplinas do curso médico, José Vieira Ataliba conviveu com a exaltação do primeiro período da Revolução Liberal (1820-1823) que ficou conhecida como vintismo. Entre esses anos, Portugal aprovou o seu primeiro texto constitucional oitocentista, em 1822, tendo a recusa do juramento da rainha D. Carlota Joaquina de Bourbon. Esta demonstrou o seu posicionamento a favor do regime de governo absolutista e não liberal, como observou Vargues e Torgal (1993) nos estudos sobre o primeiro triênio da revolução. Em Lisboa, foi no Ramalhão que viveu a maior parte da vida e aí reuniu um núcleo importante de absolutistas, planeando a contra-revolução. Em 1822, a rainha assume já muito claramente a sua oposição à Revolução de 1820. Foi notável a coragem com que o fez, frente às cortes vintistas, recusando-se a jurar a Constituição de 1822. Foi um facto político que decididamente a catapultou para a frente do grupo dos descontentes com o governo liberal e que mereceu as honras de ter sido uma das mais empolgadas questões com que abriram as Cortes Ordinárias em Dezembro desse ano, obrigadas até a fazer uma publicação oficial do assunto para esclarecimento da opinião pública. [...] Por tal recusa, os liberais vintista, com a anuência do rei, determinaram o seu exílio de Portugal, o que só não aconteceu porque a rainha conseguiu protelar a decisão, alegando uma situação de doença, e porque a evolução dos acontecimentos não a tornou possível [...] (Idem, p.66). José Vieira Ataliba, após três anos de estudos no curso Preparatórios, recebeu permissão dos professores da Congregação da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra para realizar suas matrículas as cadeiras do curso médico. O seu primeiro registro de 2 Arquivo da Universidade de Coimbra. Relação e IndiceAlphabetico dos Estudantes Matriculados na Universidade de Coimbra 1814 a 1822. 56 matrícula para cursar as cadeiras de ciências médicas foi em 03 de outubro de 18233, ano em que cursou Anatomia: teoria e prática. A segunda matrícula foi em 06 de outubro de 18244, período em que estudou a cadeira de Instituições Médico-Cirúrgico, na qual integrava os estudos de Fisiologia, Patologia, Semiótica, Fisiologia, Higiene e Terapêutica. A terceira matrícula ocorreu em 05 de outubro de 18255, período em que estudou as cadeiras de Matéria Médica. A quarta matrícula, em 06 de outubro de 18266, ano em que estudou Aforismo, a qual abordava os métodos de cura de enfermidades. A quinta matrícula se deu em 04 de outubro de 18277, período de estudos reservados a Prática de medicina e cirurgia com estágio no hospital8. O período de cinco anos de estudos médicos de José Vieira Ataliba foi marcado por um contexto social caracterizado pelo dinamismo de grupos de adesão e resistências aos ideais liberais que pregavam a formação de um estado monárquico-constitucional. Neste cenário de tensão política da Revolução Liberal aconteceu uma série de fatos, como por exemplo, a conspiração do infante D. Miguel ao rei D. João VI na Vila-Francada, em 1823, que desencadeou outras ações de oposição e resistência aos ideais liberais. Sobre estes fatos, o historiador Ramos (1998) fez as seguintes observações: Chefe da ala apostólica absolutista, D. Miguel distinguira-se no golpe chamado Vilafrancada, que conduziu ao fim da primeira experiência liberal portuguesa, em 1823. O infante insatisfeito com a moderação do governo de seu pai, aliado à rainha sua mãe e a todos os ultras, desencadeou, em Abril de 1824, outro golpe, a Abrilada, com o intuito de eliminar das perspectivas funções D. João VI. O rei refugiou-se numa nau inglesa e recuperou a chefia do Estado, solidamente apoiado pelo corpo diplomático. D. Miguel, que traíra o chefe da dinastia, foi obrigado a exilar-se [...] (Idem, p. 531-532). Com os acontecimentos da Vila-Francanda, os grupos de resistência e oposição ao movimento liberal iniciaram um segundo momento dessas questões políticas no ano de 1826. Nesse período, a Universidade de Coimbra também passou a sentir os efeitos daquelas disputas através de manifestações partidárias entre os professores. Dessa forma, consideramos que os percursos acadêmicos dos estudantes, em particular a José Vieira Ataliba, foram prejudicados no período do governo de D. Miguel. Segundo Rodrigues (1998, p. 139), estes Arquivo da Universidade de Coimbra. Livro de Matrículas – Vol. 51 (1823-1824), fl. 214. Cota: IV – 1ª D- 2-443. 4 Idem - Vol. 52 (1824-1825), fl. 282. Cota: IV – 1ª D- 2-4-44. 5 Arquivo da Universidade de Coimbra. Livro de Matrículas – Vol. 53 (1825-1826), fl. 166. Cota: IV – 1ª D- 2-445. 6 Idem - Vol. 54 (1826-1827), fl. 222. Cota: IV – 1ª D- 2-4-46. 7 Idem - Vol. 55 (1827-1828), fl. 125. Cota: IV – 1ª D- 2-4-47. 8 Distribuição de cadeiras por ano letivo para o curso de Medicina - Medicina Acta (1822-1841), fl. 36. Cota: IV – 1ª D- 3-1-85 3 57 acontecimentos conduziram o encerramento das aulas universitárias por meio de Portaria de 30 de agosto de 1828. Isso permite considerar que José Vieira Ataliba não tenha recebido o seu título de doutor em Medicina no final do quinto ano letivo. Aliando ao fato da crise política portuguesa ter provocado o fechamento da Universidade de Coimbra e possibilitado a José Vieira Ataliba ao não recebimento do título de doutor, o livro de atas Medicina, Actos e Graus9, o qual registrava os exames e conteúdos examinados dos estudantes, nos deixam dúvidas quanto ao final dos estudos médicos do jovem baiano. Isso se deve as páginas reservadas para a turma de Medicina do ano letivo de 1827-1828 que apenas registraram o aluno Alexandre da Silva Pereira, filho de Antonio Xavier da Silva – natural de Lorvão da Comarca de Coimbra, como único submetido ao exame de formatura que esteve em conformidade aos Novos Estatutos. José Vieira Ataliba, em seus quatro anos de curso médico, foi submetido a exames a cada final de ano letivo. Os conteúdos examinados para cada exame foram registrados no livro de Medicina Pontos (1820-21 a 1839-40)10 e organizados por ano letivos. Abordaram os seguintes conteúdos: no primeiro ano: Anatomia, no segundo ano: Patologia, no terceiro ano: Matéria Médica, Química e Farmácia e no quarto ano: Aforismo de Hipócrates. As sessões de exames que avaliaram os conhecimentos de José Vieira Ataliba aconteceram no turno da manhã com uma duração por volta de uma hora e trinta minutos. Os atos de aferição de conteúdo médico eram realizados na presença de um presidente designado como titular da disciplina daquele ano letivo do aluno e da presença dos demais professores da Faculdade de Medicina, os quais representavam os titulares das demais cadeiras de ensino do curso acadêmico. Conforme o livro de atas Medicina Pontos (1820-21 a 1839-40)11 referente ao período letivo de 1820-21 a 1839-40, José Vieira Ataliba apresentou o seguinte quadro de sessões de exames médicos: 9 Medicina Actos e Graus, p. 192. Cota: IV-1ª D- 4-4-51. Medicina Pontos (1820-21 a 1839-40), sem identificação de folha. Vol. 4. Cota: IV-2ª D-8-3-115. 11 Idem. 10 58 Tabela 01 – Sessões de Exames letivos de José Vieira Ataliba no curso de Medicina. Exames dos Estudos Médicos Dia/Data Horário José Ignácio Monteiro Lopo/ Segunda-feira/ 1º Ano Presidente / Examinadores 09:30h 21/06/1824 Ângelo Ferreira Dinis, Antonio Joaquim de Campos, João Baptista de Barros João Alberto Pereira de Azevedo/ 2º Ano Sexta-feira/ 01/07/1825 09:30h José Feliciano de Castilho, Jerônimo Joaquim de Figueiredo, Ângelo Ferreira Dinis, José Ignácio Pereira Lopo Jerônimo Joaquim de Figueiredo/ Segunda-feira/ 3º Ano 08:00h 29/05/1826 João Alberto Pereira de Azevedo, José Ignácio Monteiro Lopo, João Baptista de Barros Antonio Joaquim de Campos/ Segunda-feira/ 4º Ano 08:00h 28/05/1827 Jerônimo Joaquim de Figueiredo, Ângelo Ferreira Dinis, João Alberto Pereira de Azevedo, José Ignácio Monteiro Lopo Fonte: AUC. Pontos (1820-21 a 1839-40), Livro 04. Cota: IV- 2ª D- 8-3-115. O jovem baiano José Vieira de Faria Aragão Ataliba, ano de 1827, aos 23 anos de idade, conseguiu concluir com êxito o exame do quarto ano letivo. O resultado desta sessão foi a sua obtenção do grau de Bacharel em Medicina e certificado de aprovação com todos os votos a favor de seus examinadores, resumido na expressão Nemine Discrepante12. Anexo A – Certificado do Grau de Bacharel em Medicina. Cartas de Curso (1827) Medicina – 3ª Série. Caixa: 38. Cota: 2ª D- 13- 1-16. 12 59 2.2 Os Estudos Químicos na Universidade de Coimbra Em nosso percurso de investigação, não encontramos os conteúdos de Química que José Vieira de Faria Aragão Ataliba teria estudado nos anos de sua formação ilustrada em Medicina na Universidade de Coimbra, entre os anos de 1820-1827. Entretanto, sabemos que no terceiro ano letivo o jovem baiano foi arguido com conteúdos de Química, em 1826. Não sabemos o que o jovem baiano estudou, nem qual debate teórico sobre a Química no contexto da Universidade de Coimbra. As reformas de 1772 indicaram que uma nova visão das ciências naturais, ou seja, os conhecimentos desta área eram resultados de atividades experimentais e estudos teóricos, todavia não sabemos qual a mudança teórica nos estudos químicos. Temos consciência de que alguns acontecimentos de cunho científico marcaram a sociedade portuguesa contribuindo para a caracterização dos discursos científicos químicos, por isso merecem ser identificados. Na edição comemorativa do primeiro centenário da Escola de Cirurgia do Porto, Aguiar (1925, p. 13-14) tratou de organizar o ensino de química em cinco fases: a primeira, a origem (1772-1780) que inicia na reforma da Universidade de Coimbra e marca o ingresso da química como disciplina; a segunda, a extensão (1780-1837) que corresponde com a criação da Casa da Pia e da Casa da Moeda; a terceira, disseminação (1837-1885) com a criação dos estudos químicos nas Politécnicas de Lisboa e do Porto e a organização dos Institutos industriais e agronômicos; a quarta, aperfeiçoamento e apogeu (1885-1911) que trata das atividades científicas da química no Porto e a quinta, contemporânea (1911 até os dias atuais). Na fase ‘origem’ (1772-1780), a reforma da Universidade de Coimbra inaugurou as primeiras atividades da Ciência Química em Portugal na condição de disciplina. Martins (2011) ao analisar as produções científicas de Antonio Amorim da Costa acerca dos estudos químicos em Portugal, caracterizou as mudanças naquela instituição de estudos superiores como positiva para a área da Química uma vez que, além dessa disciplina ser criada no curso de Filosofia, a construção de um Laboratório Químico foi importante para impulsionar as atividades experimentais. Foi com a Reforma Pombalina da Universidade que a Química emergiu em Portugal com um notável desenvolvimento. O ensino da Química deveria passar por um resumo abreviado da história da Ciência, mostrando a sua origem e respectivos progressos, as revoluções, sucessos e decadências que conheceu o descrédito com que a cobriram os alquimistas, e, finalmente, a restauração, para bem das artes que dela dependem. Estabelecia-se com clareza o objecto da Filosofia Química, esclareciam-se as razões da inserção da Química no Curso Filosófico e definia-se explicitamente o conteúdo programático. Para que as experiências relativas ao curso 60 das lições fossem realizadas com bom proveito dos estudantes, foi criado um laboratório, onde se pudesse trabalhar assiduamente nas preparações químicas destinadas ao uso das artes em geral e da medicina em particular (Idem, p.27-28). Segundo os Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772, a disciplina de Química do curso de Filosofia tinha os seguintes objetivos de ensino: [...] separar as diferentes substancias, que entram na composição de hum corpo; a examinar cada huma das suas partes; a indagar as propriedades, e analogias dellas; a comparallas e combinallas com outras substâncias; e a produzir por mixturas diferentemente combinadas com novos Compostos, de que na mesma Natureza se não acha modello, nem exemplo [...] (Estatutos da Universidade, 1772, vol. III, p.251). A partir desta intenção de estudos, prevista pelos Estatutos de 1722, a cadeira de Química do curso de Filosofia também era direcionada aos cursos de Medicina e Farmácia. Para orientar os alunos ao conhecimento da teoria e prática daquela ciência, o ministro do Estado Português, o Marquês de Pombal, convidou o italiano Domenico Vandelli para ocupar a cadeira de Química e História Natural. Segundo os estudos de Ferraz (1997) que tratou de analisar o percurso histórico da Química em Portugal e no Brasil no período de 1772-1822, o referido ilustrado italiano formava os estudantes a serem naturalistas a fim de participarem de viagens filosóficas. [...] análise das terras examinando seus principais constituintes para determinar a melhor conjugação planta-terreno; atenção aos bosques e minas de carvão fóssil. Estudo dos metais e minerais pensando no estabelecimento de fábricas para substituir os materiais importados; conhecimento das plantas alimentícias e medicinais e análise das águas minerais para fins de medicamentosos [...] (Idem, p. 153). Com este perfil de formação ilustrada, alguns brasileiros adquiriam orientação para participarem das viagens naturalistas. Entre os exemplos está José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838) ingresso na Universidade de Coimbra em 1780 para o curso de Direito Canônico e Filosofia Natural. Os textos memorialísticos de José Bonifácio eram, predominantemente, relacionados com estudos teóricos da Ciência Química. Para o pesquisador Varela (2006) que analisou as suas memórias científicas, tais como: o uso da droga quina para fins terapêuticos e fabricação de medicamentos (1814) e o método de desinfetar cartas (1815) e a sua atuação no ensino do curso docimástico na Casa da Moeda (1801) caracterizaram o seu perfil de químico. 61 Em cada uma destas citadas atividades em que José Bonifácio desenvolveu no início do século XIX, o seu entendimento químico estava associado aos estudos teóricos de Antonie Laurent Lavoisier (1743-1794). Ao analisar a memória referente ao método de investigação e da nomenclatura científica para o uso do composto químico Quina, Varela (2006) pontuou que: Quanto a nomenclatura química, pode-se observar a utilização dos nomes dos sais sem tradução do francês, como tartarite, sufate, acetate, oxalate. Nesta memória, a nomenclatura moderna de Lavoisier já estava sendo melhor apropriada pelos portugueses, como por exemplo sulfato de ferro, sulfato de cobre, acetato de chumbo, ácido nítrico, entre outros [...] (Idem, p.149). A perspectiva de utilizar a nomenclatura da Ciência Química moderna por José Bonifácio também foi vista na memória que tratava sobre o método de desinfetar cartas e na relação de livros comprados pela Casa da Moeda. No entanto, os estudos da cadeira de Química na Universidade de Coimbra no período de sua formação ilustrada, ministrado pelo italiano Domingos Vandelli tinham como base a teoria Flogística orientada pelo teórico alemão George E. Stah (1660-1734), o qual era contrário aos pressupostos científicos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa do francês Lavoisier. Nos estudos de Costa (1988) sobre a introdução das teorias da química em Portugal, considerou como sistema teórico e método de explicação o sistema Flogísitico desenvolvido por Stahl, o qual tornou o fundamento de compreensão dos fenômenos químicos dos estudiosos do século XVIII antes do sistema conceitual da Química Pneumática de Lavoisier. Ainda por aquele autor, a publicação do livro Historologia Médica escrito por Joseph Rodrigues Abreu, em 1733, pode ser considerado como responsável por apresentar o sistema stahliano em Portugal nos anos setecentistas. Ponderando os requisitos necessários e precisos para um Médico Prático no exercício clínico, Rodrigues de Abreu debruça-se demoradamente sobre as doutrinas dos Gregos, Árabes, Indos, Chineses, Paracelso, Severino, Crollius, Van-Helmont, Tachenius, Sylvius, Willis, Descartes, Gassendi, Hoffman, Boerhaave, Andry, Bartholomeu Moor e Leibnitz para se fixar no sistema de Stahl [...] Quase idolatricamente, ele enumera todas as obras publicadas, ano a ano, por Stahl e refere uma longa lista de 57 escritores que seguiram a sua doutrina que, segundo ele, assenta na observação e contemplação de três seguintes circunstâncias: (i) - a matéria do corpo humano e sua mixtão; (ii) – a vida ou a conservação do corpo mixto; (iii) – o modo com que se conserva o mesmo corpo tanto pelos movimentos vitais ordinários como extraordinários [...] (MENDONÇA apud AMORIM, 1988, p. 9). 62 Conforme os estudos da pesquisadora Ferraz (1997), o professor Domingos Vandelli conduzia os estudantes nas atividades químicas tanto na teoria quanto nas práticas. Essa orientação dos estudos deveu-se a divisão que, segundo os manuscritos de Vandelli sobre os aspectos de suas atividades na Universidade de Coimbra a Química ensinada era do tipo física, isto é, com a prática química era possível descobrir as causas dos efeitos físicos e, do tipo técnica que trata da aplicação da Química-Física para aperfeiçoamento da manufatura, como por exemplo, dos metais, porcelanas, pólvora, louças e etc. Com estes objetivos de ensino químico, o italiano Domingos Vandelli também indicava outras obras aos estudantes que queriam aprofundar nos estudos daquela ciência. Dessa forma, o professor da cadeira de Química além de utilizar o livro de Stahl, também recomendava leituras dos seguintes autores: Lemery, Hoffman, Boerhaave, Geoffroy, Pott, Maquer, Bomè e etc. Esse conjunto teórico que Domingos Vandelli indicava para seus alunos permite dificuldade para compreender qual seria a sua filiação teórica química ou quais seriam os pressupostos conceituais que ele uniu para organizar as atividades de ensino na cadeira de Química. [...] J.R. Spielmann seguia de perto a orientação da química flogística de Stahl, podendo-se dizer o mesmo de Friedrich Hoffmann (1660-1742) e de Johann Heinrich Pott (1692-1777). Quanto a Nicholas Lemery (1645-1715) [...] seus texto poderiam ser muito úteis como um receituário, uma vez que as explicações dos fenômenos dadas pelo pensador francês não só estavam em desacordo com as idéias do texto principal indicado por Vandelli (Spielmann), como também constituíam apenas uma pequena introdução no seu Cours de chmie e eram praticamente ausentes em outrso textos. Etienne-François Geoffroy (1672-1731), embora não fale do flogístico em seus textos é importante por seus estudos e tabelas de afinidades químicas tão enfatizadas seja nos Estatutos, seja na fala de Vandelli. Pierre Joseph Macquer (1718-1784) desenvolveu em seus trabalhos o que poderíamos chamar de uma transformação da teoria do flogístico [...]. Da mesma forma Antonie Baumé, que trabalhou elementos constituintes da matéria. Para finalizar, as ideias de Boerhaave foram, durante todo o século XVIII, um contraponto às de Stahl, não só na Química, como também na Medicina (Ferraz, 1997, p. 75-76). Como a maioria dos textos que orientavam as aulas do professor Domingos Vandelli, assim como os livros que ele indicava aos alunos, estava de acordo com a teoria Flogística do alemão Stahl. Dessa forma, seja possível compreender o poema satírico No Reino da Estupidez que José Bonifácio de Andrade e Silva escreveu em 1785. Segundo Varela (2006), este texto literário apresentou críticas aos mestres de cursos que tratavam com desleixo a aplicação das medidas reformistas do Marquês de Pombal. O referido poema de José Bonifácio informou que os mestres da Universidade de Coimbra, dignos de conhecimentos científicos, eram submetidos à estupidez de outros 63 professores que não norteavam os estudos acadêmicos em vista as novas teorias da ciência moderna. Dessa forma, o ilustrado José Bonifácio indicou que o ensino “distanciava a nação lusa daquelas como a França e Inglaterra, consideradas como os grandes centros de irradiação das “luzes”, e envergonhava ao português ser chamado ele próprio de português” (VARELA, 2006, p. 90). A corrente teórica que José Bonifácio estaria tratando para o caso dos estudos químicos era a chamada Pneumática ou dos gases construída pelo grupo de estudos do francês Lavoisier. Conforme Costa (1985) que apresentou considerações sobre o desenvolvimento dos estudos dos gases, em pesquisa sobre os experimentos com balões aerostáticos na cidade de Coimbra, em 1784, os alicerces daquela teoria provém de questionamentos acerca da natureza dos fenômenos da combustão, da calcinação e da natureza da água. Com a caracterização das críticas de José Bonifácio sobre os estudos acadêmicos que não acompanhavam os avanços da ciência moderna e dos livros da teoria Flogística que faziam parte dos títulos indicados, em sua maioria pelo catedrático Domingos Vandelli, a Faculdade de Filosofia, também tinha renomados professores que defendiam a corrente teórica dos gases, como por exemplo, Thomé Rodrigues Sobral que assumiu a cadeira de Química no ano de 1791 e Vicente Coelho da Silva Seabra Teles que foi demonstrador da citada cadeira a partir do ano de 179313. As discussões teóricas sobre os estudos químicos foi um dos objetivos da sessão do dia 30de julho de 1798, registrada no livro de Filosofia Actas (1783-1803)14da Congregação da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra. Na presença do reformador reitor, Dr. Castro e de professores15, a intenção dos ilustrados era decidir por qual compêndio os estudos químicos seria orientado enquanto o proprietário da cadeira, o Dr. Rodrigues Sobral, não terminasse de escrever o seu compêndio. [...] Já se devia ou não ensinar Chimica por outro Compendio, q não fosse Scopoli, enquanto o Proprietário da Cadeira de Chimica não acabasse o Compêndio, de q estava incumbido, e procedendo-se a votos, se determinou, q interinamente se ensinasse Chimica por Jacquin, e como até o Compendio he ainda raro entre nos, e não haveria tempo de se mandar vir em abundância; tornou-se a deliberar sobre o Compendio q se adotaria na falta de Jaquin, e houverão tantos votos a favor de Scopoli, quantos a favor de Xaptal [...] (FilisofiaActas – 1783-1803, folha 75 (verso). 13 Arquivo da Universidade de Coimbra - Livro de Acta Congregação da Faculdade de Filosofia. COTA: IV-1ª D-3-1-67, p. 34 (verso). 14 Idem. 15 Não foram referenciados os nomes dos professores que compareceram na sessão de 30 de julho de 1789. 64 Para o pesquisador português Martins (2011), o livro Fundamenta Chimica de Giovanni Scopoli que ainda era o compêndio utilizado na universidade até o ano de 1798, e o livro de Jean Antonie Chaptal, Éléments de chimie, passaram a ser alvo de discussões entre os professores da Faculdade de Filosofia por razão do proprietário da cadeira de química, Thomé Rodrigues Sobral, não ter terminado de escrever o seu compendio. Diante dessa situação, talvez, seja possível considerar que havia divergência quanto à teoria Química a ser ensina nos estudos superiores, ou seja, de um lado, a teoria Flogística tratada no livro de Scopoli, do outro, a teoria dos gases apresentada no livro de Chaptal, assim como nos textos do livro de Jacquin. Com a falta de exemplares do compêndio Jacquin suficientes para suprir a necessidade do ensino e, por sua vez, os professores dividiam opiniões sobre a preferência de livro teórico, a decisão recaiu para o diretor da Faculdade de Filosofia, o Dr. António Soares Barbosa. Em ofício enviado aos congressistas daquela faculdade, o diretor apresentou a seguinte resposta: [...] Em observância da ordem de Sua Excelência pella qual se me manda responda com o meu parecer sobre o que se produz em Congregação, e ficou empatado pello vogaes respondo o seguinte: - Sempre foi bem constante a Sua Excelência e a toda a Congregação o meu sentimento a respeito do Scopoli; e por isso sempre o regeitei, e regeito como incapaz para o ensino publico, como indigno de apparecer nas prezentes luzes da chimica, e alem disso vergonhozo para os que o apadrinhão, e infamatório para a Faculdade. Fui de parecer, que se ensinasse por Lavoisier pello crer mais conforme à chimica geral filosófica, a qual tão somente manda ensinar o Estatuto de Filosofia proibindo na mesma filosofia o ensino de chimica medica, e farmacêutica. Porém já que a Faculdade não foi ahi, voto só a fim de desterrar o Scopoli, que se ensine interinamente pelo Xaptal, enquanto não houver cópia suficiente de Jacquin, ou de outro melhor, que for mais apropriado aos fins da Faculdade segundo manda o Estatuto. (Filisofia Actas – 1783-1803, folha 75 (verso))16. A escolha do livro de Chaptal possibilitou a formação de estudantes, a partir do ano de 1798, em sintonia com os conhecimentos científicos à luz da ciência moderna enquanto os professores se empenhavam para produzir cópias suficientes do compêndio químico de Jacquin. Mesmo não sendo possível apresentar documentos históricos que informem o momento no qual os estudos químicos foram tratados pelo citado compêndio, a informação da publicação de um edital, em primeiro de junho de 1807, e um aviso de 10 de setembro de 1824 anunciados na lista de relação de livros17 a serem utilizados no ano letivos 16 Arquivo da Universidade de Coimbra - Acta Congregação da Faculdade de Filosofia. Cota: IV-1ª D-3-1-67, fl. 34. Cota: IV-1ª D-3-1-67. 17 Arquivo da Universidade de Coimbra. Livro de Matrículas (1827-1828), Vol. 55. Cota: IV-1ª D-2-4-47. 65 de 1827-1828 são indicações de que, no início do século XIX, os estudos químicos foram norteados pelo compêndio de Jacquin. A presença do compêndio de Jacquin na lista de livros da Universidade de Coimbra não indicava que a teoria Pneumática ou dos gases formulada pelo pesquisador francês Lavoisier estava sendo utilizada por outros professores e compêndios de outras cadeiras de ensino. Sobre essa última situação, a sessão de 14 de outubro de 1823, registrada no livro de Actas da Congregação da Faculdade de Medicina (1822-1841)18, foi objeto de discussão. Na presença do Vice-Reitor, Dr. José Feliciano de Castilho, e dos professores: Jeronymo Joaquim de Figueiredo, Ângelo Ferreira Diniz, Antonio Joaquim de Campos, José Ignácio Monteiro Lopo e João Baptista de Ramos, eles discutiram sobre os prejuízos causados as aulas que utilizavam o compêndio de farmácia, o qual não estava em conformidade com a teoria Química Pneumática. O Vogal o Dr. Figueiredo pediu licença para ler a seguinte proposta = O Compendio de Pharmacia, reimpresso em 1809, já então não podia ser achado digno de servir às lições [...] por não se achar conforme em os conhecimentos da Chimica, que algumas lições antes tinha tornado huma face absolutamente nova: esta sciencia desde aquellaepocha ate hoje tem achado o tal argumento de conhecimentos que huma grande parte da theoria [...] se acha interinamte sentada pela descoberta de humgde no de novas substancias, que pela maior qte devem entrar no Cathologo de Mat.med. ou em medicamentos, ou como vapores pela applicação da Eletricidade como instrumento de analise pela nova doutrina das proporções chimicas. Por taes motivos o compendio atual de Pharmacia de nada serve, senão de retornar o estudo desta parte de conhecimentos Medicos, demorando o professor a cada passo na refutação de toda a sua theoria, substituições de nova e não o ajudando a conduzir os Estudantes que tem ouvido as lições de Chimica de Seu Professor, que ensina após os conhecimentos actuaes em Seu Laboratorio provido do maior n o de maquinas e de aparelhos precários para a ruinar praticamte he finalmte causa de descrédito a Faculde de Medicina dentro de fora da Nação (Actas da Congregação da Faculdade de Medicina (1822-1841), vol. 4, fl.25(frente))19. Os professores do curso de Medicina que já reconheciam o descrédito da sua faculdade dentro e fora da nação por conta do precário estado físico do laboratório utilizado para as aulas de Química discutiam sobre o compêndio de Farmácia prevendo a possibilidade de uma desqualificação na formação dos estudantes em Medicina. A ciência Química moderna, segundo o Dr. Jeronymo Joaquim de Figueiredo, referenciado, anteriormente, na sessão de 14 de outubro de 1823, apresentava ótimos indícios de aplicabilidade seja nos estudos da disciplina de Matéria Médica, na composição de medicamentos e na sua aplicação 18 Arquivo da Universidade de Coimbra - Acta da Congregação da Faculdade de Medicina (1822-1841). Cota: IV- 1ª D-3-1-85. 19 Arquivo da Universidade de Coimbra. Actas da Congregação da Faculdade de Medicina (1822-1841), vol. 4, fl. 25(frente). Cota:IV-1ª D- 3- 1-85. 66 na eletricidade. Segundo Varela (2006), as memórias científicas de José Bonifácio, datadas de 1805 a 1816, faziam referências à utilidade da mencionada ciência. José Bonifácio, por meio das suas memórias, colocou a ciência como algo que pudesse ser útil à sociedade do Império Colonial Português. Por ciência útil devemos entender o conjunto de matérias que possibilitariam a solução ou a transformação da realidade vivida até então. Ele acreditava que o papel da ciência não se restringia ao processo de conhecimento, transcendia-o, pois tinha o poder de transformar a sociedade [...] A utilidade é a vértebra da sua concepção de ciência. A ciência encontra-se a serviço do homem, da sociedade [...] (Idem, p. 139-140). O conhecimento científico como via de utilidade social era o intuito dos professores da Faculdade de Medicina que buscavam discutir sobre os benefícios que a ciência Química traria aos estudos médicos, assim como o prestígio da formação acadêmica na Universidade de Coimbra. Ao tratar do conhecimento e da utilidade que aquele campo científico traria aos problemas sociais, os professores estiveram a mediar o processo de ilustração. Essa consideração pode ser compreendida a partir dos estudos de Neves (1984) sobre política, cultura e educação em Portugal. [...] Reconhecia-se no conhecimento um instrumento, não de uma verdade eterna, revelada ao homem, e sim de elaboração dele mesmo, destinado a implementar uma política, que ele próprio escolhia, segundo os seus interesses. Com essa perspectiva, a pedagogia transformava-se na alavanca indispensável da política: era a lógica do absolutismo ilustrado e da própria ilustração (Idem, p. 245). A preocupação com os problemas sociais ampliavam o debate teórico sobre o ensino de Química na Universidade de Coimbra. Os problemas causados pelos miasmas foi um ponto recorrente nos discursos dos professores e, ao mesmo tempo, reforçava a preferência da teoria Pneumática. Segundo Varela (2006), [...] essa preocupação em descobrir meios que pudessem combater os efeitos nocivos dos miasmas era uma preocupação recorrente no século XVIII. A teoria dos miasmas explicava não apenas as enfermidades dos pântanos, mas também as doenças produzidas por cheiros de coisas estragadas e pútridas [...]. No final dos setecentos, as ideias sobre miasmas e sobre a transmissão de enfermidades pelo ar deixaram de ser apenas hipóteses. A ideia de que o ar poderia conter substâncias maléficas ganhou bastante apoio neste momento. Começou-se, então, a descobrir novas substâncias capazes de impedir a putrefação e que deviam ser também capazes de destruir os miasmas [...] (p. 156-157). O tema sobre os prejuízos que os miasmas causavam a sociedade foi tema da memória do médico e professor substituto de zoologia, mineralogia, botânica e agricultura na Universidade de Coimbra, o Dr. Vicente Coelho de Seabra Silva Teles, cujo título foi 67 Memória sobre os prejuisos causados pelas sepulturas dos cadáveres nos templos e methodo de os prevenir” publicado em 1800. Esse texto memorialístico trata de apresentar os malefícios que as sepulturas nos templos católicos causavam a saúde e de como remediar tais danos, além disso foi organizado em cinco partes: a primeira – sobre os elementos do corpo organizado, a segunda – apresenta os tipos de substâncias formadas a partir de um corpo morto, a terceira – os efeitos dos produtos da podridão, a quarta – da podridão dos cadáveres enterrados e a quinta – dos meios de evitar ou diminuir os malefícios das sepulturas. As explicações científicas apresentadas nesta memória do Dr. Vicente Coelho de Seabra Silva Teles são norteadas nos fundamentos na Ciência Química moderna para tratar das ocorrências de doenças e epidemias que vitimavam pessoas por causa do costume social em enterrar os mortos dentro dos templos católicos. O médico considerou que a sua memória poderia ser desnecessária se o conhecimento científico moderno das Ciências Naturais tivesse sido tratado, significativamente, na sociedade portuguesa. [...] Seria desnecessária a presente Memoria, se as luzes das Sciencias Naturais estivessem assas espalhadas entre nós, porém como infelizmente assim não he, e a piedade mal entendida continua a fazer o mesmo damno, por isso, desejando concorrer, quanto posso, para o bem publico, me resolvo a publicalla, não só para mostrar evidentemente, que a sepultura nos Templos he nociva, mas para ensinar os meios de remediar os seus mãos effeitos [...] (TELES, 1800, p. 3). A memória do Dr. Vicente Coelho de Seabra Silva Teles apresenta explicações acerca dos seguintes temas: reações químicas, avaliação de terrenos para construção de cemitérios, prejuízos causados pelos costumes dos católicos em realizar sepultamentos em igrejas e exemplos de epidemias em cidades portuguesas. Ao final da memória, o seu autor considerou que parte dos problemas de saúde causados pelos miasmas na sociedade portuguesa foi consequência da não aplicação ou desconhecimentos da teoria Química moderna. Essa sua advertência foi proveniente da leitura que fez do impresso Ensaio sobre os lugares, e os perigos das sepulturas do italiano Vicq d’Azyr e publicado em 1778. O médico Dr. Vicente Coelho de Seabra Silva Teles ao comparar a sua memória com o texto de Vicq d’Azyr escreveu a seguinte conclusão: [...] Nesta excellente obra se achão desde a pag. 107 até 124 factos innumeraveis, summamente desgraçados, e horrorosos, que provão tudo, quanto referi nesta Memoria; alli se provão mortes desastradas, epidemias terríveis, Cidades despovoadas, e exércitos devorados pelas emanações pútridas de animaes mortos. Nella se referem sábias leis, e regulamentos assim civis, como ecclesiasticos, publicados na Alemanha, na França, e na Italia, para prevenir tão grandes damnos á humanidade: mostra-se, quanto os povos antigos, e Chistãos no princípio do Christianismo erão mais acautelados, e providentes, do que nós a este respeito. Em 68 fim os meios, alli propostos, para prevenir os mãos effeitos das emanações pútridas, se conformão pela maior parte, com os que proponho; e a differença he sómente filha das novas descobertas chimicas, ainda então ignoradas, e por isso em nada fica desmerecido o grande merecimento da obra referida, que aliás he summamente sábia, e instructiva (TELES, 1800, p.36). A perspectiva do cientista social Crespo (1990) em refletir sobre as divergências nas teorias médicas que existiam na Faculdade de Medicina permite considerar também para o caso dos debates teóricos químicos. Desta forma, os professores ‘velhos’ podem ser identificados como aqueles que utilizavam em suas lições a teoria Flogística pelo fato de que esses fundamentos respondiam as suas experiências de rotina em sala de aula. Ao contrário destes, os professores ‘novos’ baseavam as suas aulas através da teoria Pneumática por estarem voltados às resoluções dos problemas sociais, a exemplo das doenças e epidemias causadas por miasmas. As concepções sobre os gases tratados no campo da Ciência Química moderna foram à base para o desenvolvimento de vacinas que levaram em consideração os problemas miasmáticos que ocorriam na sociedade portuguesa. Neste contexto, Pereira e Pita (1993) consideram que o processo de titular o campo higienista como científico só foi possível pelos desdobramentos experimentais e laboratoriais químicos. O laboratório químico passava a assumir-se como um precioso auxiliar da medicina em geral e da higiene em particular. Por isso, não será de estranhar que em função das novas tecnologias e dos novos processos químicos, se tenha iniciado a longa série de descobertas de substâncias de diversos produtos da natureza. [...] Rapidamente essas substâncias activas se difundem na preparação de medicamentos aumentando assim o campo de actuação de terapêutica curativa e preventiva, compreendendo situações epidêmicas (Idem, p.448). À medida que o discurso sobre uma ciência útil e aplicada passava a ser discutida entre os professores da Universidade de Coimbra, os estudos químicos passaram a ter maior representatividade ao passo que inferia na conservação da saúde. Consequentemente, os estudos higienistas ganharam visibilidade no decorrer dos anos finais do século XVIII e início do século XIX por articular os conhecimentos químicos na produção medicamentos e vacinas capazes de tratar as doenças e epidemias. Diante disso, é possível concordar que a teoria Pneumática tenha recebido a preferência nos estudos da cadeira de Química e em outras disciplinas relacionadas com as ciências médicas, o que reforça o desuso da teoria Flogística mesmo com a possível presença de professores que defendam as ideias stahliana. 69 2.3 As Experiências Conimbricenses A vida de estudante na Universidade de Coimbra na segunda década do século XIX foi marcada pelos acontecimentos da Revolução Liberal que eclodiu na cidade do Porto, em 1820. Nesse contexto histórico português, o baiano, José Vieira de Faria Aragão Ataliba, viveu na cidade de Coimbra entre 1820-1828 como solteiro até o ano de sua formação de Bacharel em Medicina. Para o historiador português Oliveira (2009), a Universidade de Coimbra pode ser considerada como uma instituição que oferecia duas dimensões de experiências aos estudantes: acadêmica e boemia. [...] a Universidade, durante os 5 ou 6 anos que durava a formação, possibilitava dois tipos de atitudes: um, desenvolvendo a dimensão estritamente acadêmica, no verdadeiro sentido do termo e outra apelando a uma vivência de boemia, motivada pela concentração de estudantes, num espaço relativamente pequeno e quase fechado [...] (Idem, p. 124). José Vieira Ataliba aprendeu a viver longe de seus familiares e amigos e do conforto da casa dos pais. A noção de suas dificuldades nestes aspectos que ele vivenciou pode ser entendida a partir de trechos do relatório do bispo reformador, D. Francisco de Lemos Pereira Coutinho, publicado, em 1777, que tratou dos cinco anos de funcionamento da instituição após a reforma pombalina. [...] Ir para Coimbra estudar implicava: 1º, “separar os homens dos seus domicílios”; 2º, “obrigar a despesas consideráveis”; 3º, “ocupar uma parte notável do tempo da mocidade”; 4º, “necessitar grandes esforços de aplicação”. Apesar destas dificuldades, uma motivação forte poderia empurrar os jovens para os estudos universitários: “uma certa esperança de serem ocupados nos empregos, lugares e ofícios das respectivas profissões que abraçaram”. (COUTINHO apud SILVA, 1999, 16) As experiências de um estudante acadêmico na cidade de Coimbra também eram marcadas pelas dificuldades que a longa viagem trazia para os futuros ilustrados que decidiam estudar em Portugal. O percurso que portugueses e estudantes brasileiros, a exemplo de José Vieira Ataliba, faziam para chegar à Universidade de Coimbra pode ser compreendido através das pesquisas históricas de Cruz e Pereira (2009). O autor apresentou dados importantes que caracterizam os caminhos de acesso à cidade de Coimbra. [...] De qualquer parte que se viesse, não era simples alcançar a cidade. As estradas eram difíceis e constituía mesmo uma aventura a viagem até lá. Basta dizer que, para 70 vencer as 33 léguas que a separavam de Lisboa, levava-se cerca de 2 dias. Dependendo da terra de origem, mesmo os estudantes reinóis tinha que enfrentar penosas jornadas em lombos de mula, até atravessar a ponte sobre o Mondego e entrar em Coimbra. Quanto aos brasileiros, passavam não menos de 60 dias para cruzar o Atlântico até o porto de Lisboa e daí, até ao destino, mais uma difícil jornada por terra (Idem, p.211). A intenção de estudar na Universidade de Coimbra a fim de conseguir posteriormente um cargo na administração pública e ascensão social também viabilizou José Vieira Ataliba ao convívio de outros estudantes de diferentes regiões brasileiras e portuguesas. Isso pareceu ter possibilitado ao jovem estudante baiano o conhecimento das questões sociais, políticas e culturais das localidades de origem dos demais estudantes. Para os pesquisadores Cruz e Pereira (2009) que investigaram aspectos da vida cotidiana de estudantes colonos consideraram que as experiências cotidianas vivenciadas pelos estudantes eram importantes por construírem redes de sociabilidades e a identidade do sujeito. Se, por um lado, estudar em Coimbra significava para os estudantes do ultramar enfrentar as dificuldades do viver longe da casa paterna, por outro, constituía oportunidade de estreitar relações com conterrâneos, travar contacto com jovens de outras partes do Brasil e formar com eles laços de solidariedade. Esse aspecto não será irrelevante ao observarmos os desdobramentos que essa rede de solidariedades regionais propiciou, em termos de agregação dos estudantes brasileiros em torno dos novos espaços de sociabilidade que o universo acadêmico e o viver na metrópole ofereciam (Idem, p. 211). O sentido da rede de sociabilidade deve ser compreendido neste contexto histórico das experiências conimbricense de José Vieira Ataliba como um universo limitado que está contido na sua vida cotidiana, a qual expressa aspectos da vida privada, familiar, estudantil, trabalho e lazer. Esses entendimentos foram discutidos pelo historiador Cascão (1993) ao refletir sobre a vida cotidiana e sociabilidade no período do liberalismo em Portugal. [...] A vida quotidiana exprime-se através de um conjunto de vivências, de emoções, de comportamento, de reacções subjectivas e colectivas e traduz num sistema de actividades elementares, que se destinam a garantir o pleno desenvolvimento e a evolução do homem enquanto ser biológico e membro da sociedade. [...] Por sociabilidade entende-se a aptidão geral dos indivíduos (e dos grupos) para viverem de modo mais ou menos intenso as variadas relações que se estabelecem em qualquer sociedade organizada, aceitando certas regras de convivência e alienando uma parte da sua liberdade pessoal [...] (Idem, p. 517). As primeiras possibilidades de construção das redes de sociabilidade de José Vieira Ataliba foram os lugares em que morou nos anos de sua formação ilustrada. As constantes mudanças de casa pareceu ser uma marca da cultura estudantil em Coimbra. Para 71 os pesquisadores Cruz e Pereira (2009) que buscaram compreender a relação entre a origem do estudante com o local de sua residência na cidade de Coimbra consideraram que havia certa tendência dos alunos universitários residirem de acordo com suas regiões de origem e, dessa forma, eles acabavam construindo laços de solidariedade por afinidades regionais. [...] Os jovens estudantes luso-brasileiros, egressos de diferentes “províncias da América”, muitas vezes se reconheciam e eram identificados a partir da sua região de nascimento. Assim, por exemplo, um nascido em São Paulo era paulista, se reconhecia como tal e, de alguma forma, não se confundia com o mineiro das Minas Gerais ou do baiano da Bahia [...] (Idem, p.218). As informações acerca dos endereços dos estudantes foram registrados nos Livros de Matrícula da Universidade de Coimbra. Por eles, os professores ilustrados tinham o conhecimento dos endereços de cada aluno a cada ano letivo. O registro de cada endereço em que viveu José Vieira Ataliba era acompanhado com a informação de sua naturalidade e nome de seu pai. Nos seus anos de estudos no curso Preparatório e de Medicina, José Vieira Ataliba morou em pelo menos sete endereços diferentes. Tabela 02 – Relação de endereços de José Vieira Ataliba na cidade de Coimbra Ano letivo Endereço Ano letivo Endereço 1820-1821 Rua do Norte, n. 70 1824-1825 1821-1822 Rua Couraça de Lisboa, n. 22 1825-1826 Rua do Forno, n. 136 1822-1823 Rua Couraça de Lisboa, n. 22 1826-1827 Rua da Pedreira, n. 124 1823-1824 Rua da Matemática, n. 551. Rua Couraça de Lisboa, sem 1827-1828 Rua da Trindade, n. 17 identificação de número Fonte: Arquivo da Universidade de Coimbra – Relação, e Índice Alphabetico dos Estudantes Matriculados na Universidade de Coimbra 1822-1831. José Vieira Ataliba dividiu residência com seus conterrâneos baianos no ano letivo de 1823-1824, período em que correspondeu ao início do curso médico. Prudêncio José de Sousa Brito Cotegipe, filho de Manoel Joaquim de Sousa Brito e, Floriano de Figueiredo Rocha, filho de José Joaquim de Figueiredo Rocha, estudavam Medicina na mesma turma de 72 1823. Possivelmente, suas famílias, parentes e amigos estiveram juntos no embarque dos três jovens na Capitania da Bahia que seguiam em busca por melhores condições de vida20. A organização dos estudantes que residiam na cidade de Coimbra era feita por região de origem que, provavelmente, José Vieira Ataliba tinha contato direto com alunos brasileiros. Essas relações estudantis que o critério de origem norteava não era o único daquela época, o fator do poder aquisitivo também era levado em consideração. Segundo Mota (2010, p.3): [...] cidade dual, com a Alta, dominada pela Universidade e pelo estudo, onde habitavam professores, estudantes e pessoas de estatuto social elevado; e a Baixa, que é o mundo do trabalho onde se concentram os homens de negócio, os mercadores, a gente de ofícios e de serviços. Cidade dual, é verdade, mas a afirmação não exclui que na Alta existiam comerciante e muitos artesão, entre os quais, sapateiros, alfaiates, carpinteiros, barbeiros, necessários para responder às necessidade dos universitários [...]. Sobre o aspecto financeiro podemos considerar que José Vieira Ataliba, frequentou os grupos de confrarias dos estudantes com maior poder econômico e que seus endereços listados na relação de matrícula estavam localizados na região privilegiada da cidade de Coimbra, ou seja, nas proximidades da Universidade de Coimbra. A possibilidade de José Vieira Ataliba ter sido considerado um estudante de posses financeira deve-se as informações de Queiroz (1882, p.163) que o apresentou como filho de um negociante respeitável na cidade. Com esta probabilidade de José Vieira Ataliba ter participado do grupo de estudantes com maior poder financeiro é possível concordar que ele tenha sentido dificuldades para viver na condição de universitário. Entre as confrarias e os estudos superiores, os pesquisadores Cruz e Pereira (2009) consideraram que a adaptação no novo ambiente era difícil. No caso dos brasileiros, as dificuldades começavam com o impacto do próprio clima do hemisfério Norte, cujas baixas temperaturas do inverno eram inusitadas para os oriundos dos trópicos [...] Estar longe da pátria e do conforto da casa paterna onde, certamente, contavam com negros e negras para o servirem, estar em Coimbra, entregue à própria sorte, constituía sacrifício comparável ao de um exílio [...] Em Coimbra, diferentemente do Brasil, onde as famílias abastadas contavam com escravos para servi-las, o estudante tinha que pagar por tudo: moradia, comida, roupas, serviços vários (como lavagem de roupa, conserto de sapatos, etc.), livros, apostilas, móveis e utensílios de uso diário como prato, talheres, etc (Idem, p.9). Arquivo da Universidade de Coimbra – Relação, e Índice Alphabetico dos Estudantes Matriculados na Universidade de Coimbra 1822-1831. 20 73 O processo de ilustração de José Vieira Ataliba não foi, apenas, uma formação em medicina, no saber científico. As experiências vividas na condição de estudante universitário contribuíram para torná-lo civilizado, distinto das outras pessoas em sociedade. Os seus planos de estudos, a organização de suas despesas e o seu lazer convergem para tornar ações de interdependência. E como essas ações são de uma ordem particular, privada ao indivíduo, elas podem estar entrelaçadas com atividades de outros indivíduos para formar uma ordem social, a qual corresponde, segundo o sociólogo Nobert Elias (1993), ao processo civilizador. [...] o estudo desses mecanismos de integração, porém, também é relevante, de modo mais geral, para a compreensão do processo civilizador. Só se percebemos a força irresistível com a qual uma estrutura social determinada, uma forma particular de entrelaçamento social, orienta-se, impelida por suas tensões, para uma mudança específica e, assim para outras formas de entrelaçamento, é que poderemos compreender como essas mudanças surgem na mentalidade humana, na modelação do maleável aparato psicológico, como se pode observar repetidas vezes na história, desde os tempos mais remotos até o presente (p.195). Outro momento para constituição da rede de sociabilidade de José Vieira Ataliba deu-se com os alunos de sua turma do curso de Medicina. Essa classe era composta por 14 estudantes, sendo três brasileiros da Província da Bahia e onze portugueses de nove cidades diferentes. A diversidade cultural com que José Vieira Ataliba teria nesses anos acadêmicos não era restrita a este universo de sua turma de Medicina. O fato de ter sido estudante no curso Preparatório, composto por disciplinas nas faculdades de Filosofia e Matemática, aumentaria a sua rede de sociabilidade, além de ter contanto com outros portugueses que moravam naquela cidade de Coimbra (Livro de Matricula 1820-1821)21. A rede de sociabilidade de José Vieira Ataliba também estaria expressa na forma de lazer e festas que aconteceram naqueles anos de formação ilustrada. Segundo Cascão (1993), o lazer e a festa são expressões da sociabilidade e são definidas como: O lazer é um conjunto de ocupações ou funções a que o ser humano se pode dedicar voluntariamente, depois de ter cumprido toda uma série de obrigações do dia-a-dia (familiares, profissionais ou sociais), para se divertir, assegurar a sua formação ou melhorar a sua informação. A festa rompe com as normas, os ritmos e os ritos do quotidiano, subvertendo-os (ainda que particularmente) e funcionando como uma válvula de escape contra o peso, a rotina e a monotomia do dia-a-dia (Idem, p. 517). A possibilidade do jovem baiano apresentar atributos artísticos foi observada por Alexandre José de Queiroz (1882, p. 167) ao destacar que ele, na Província da Bahia, “amava 21 Arquivo da Universidade de Coimbra. Livro de Matrícula – 1820-1821. Cota: IV-1ª D-2-4-40. 74 as bellas artes; freqüentava theatros e os apreciava com o discernimento de amador. Sabia música e tocava piano e flauta com apurado gosto”.A música era um dos elementos que marcava a sociabilidade profana que se difundia em Portugal. Entre cerimônias e ambientes públicos, estava presente na sociabilidade dos indivíduos e, dessa forma, conferia poder social para aqueles que as apreciavam. Essas considerações foram destacadas por Cascão (1993) ao analisar artigos em revistas portuguesas do período de 1841 que tratavam de corresponder à música a profunda necessidade dos indivíduos e necessidade social. Dessa forma, o autor ressaltou alguns pontos dos artigos de jornal que caracterizam a importância da música na sociedade e apresentou a dimensão com que ela pode estar em diversas manifestações sociais portuguesas. [...] como promotora da distração e do prazer próprios do gênero humano, é uma actividade útil, necessária e agradável; [...] sendo um remédio e um antídoto, a música exerce vigilância sobre os costumes, sociabiliza os cidadãos, acalma as paixões, tranqüiliza os ânimos, renova as forças do entendimento, combate o tédio e previne a ociosidade viciosa. [...] Com efeito, a música era omnipresente e ambivalente: aparecia nas cerimônias religiosas e nas manifestações profanas, nos actos de passagem ligados à vida e à morte, nas comemorações cívicas, nos actos de caridade e de filantropia, nos passeios públicos, praças, coretos e feiras (Idem, p. 525). O comportamento adquirido pelos indivíduos através da música vem de encontro com as postulações de Crespo (1990) sobre o corpo. Segundo ele, os gestos que expressão uma identidade individual podem interferir na vida pública, ou ainda, uma agressão a outros indivíduos de sua sociabilidade caso eles sejam considerados proibidos. [...] os gestos proibidos não tinham repercussões somente a nível individual; constituíam agressões aos outros, e nessa medida deviam ser evitados [...] O corpo valorizava-se na medida em que se tornasse silencioso e discreto. Tudo quanto contribuísse para sublinhar em relação aos outros tornava-se alvo de crítica. A tosse, o bocejo, o arroto e o gesto de assoar podiam ser lícitos a não ser que contribuíssem, pelo som, para evidenciar uma presença. No jogo ou numa sala de aula, em qualquer acto público, o gesto excessivo, pretendendo denunciar conhecimentos ou habilidades mais elevadas, era uma agressão cometida sobre os circunstantes, tal como o uso de vestuário ou de adornos inúteis, para sublinhar as partes do corpo, era um acto de ostentação e de pompa que denunciava falta de respeito pelos semelhantes. A gesticulação realizada sem causa justa era apontada como um movimento ridículo próprio de indivíduos sofrendo de perturbações mentais, ou característico de personalidades rudes [...] (CRESPO, 1990, p. 511). As possibilidades de um estudante conimbricense ter adquirido um comportamento de polidez que apresente gestos aceitos para uma convivência social podem ser identificadas em José Vieira Ataliba. Através da narrativa memorialística de Queiroz 75 (1882), o baiano, no seu percurso profissional, apresentou traços de um comportamento refinado que o distinguia dos demais contemporâneos de sua época e, ainda, considera que tal distinção pode ser prevista para os seus tempos de convívio com os portugueses. A polidez no trato, a vivacidade de espírito, a jovialidade de gênio, a modéstia e lhaneza do estudante brazileiro, desarmavam o zelo que a emulação de sua superioridade originava, de sorte que era estimado por todos os collegas, até portuguezes; e ainda hoje não há um só de seus contemporâneos, que não se lembre e não folgue em narrar um facto, ou um dicto espirituoso e engraçado do Dr. Ataliba (Idem, p. 164). A sociabilidade em Coimbra também proporcionou a José Vieira Ataliba o contato com pessoas que ameaçavam a tranquilidade da cidade não aceitas por parte das autoridades locais, sejam elas acadêmicas, religiosas e políticas. Alguns estudantes de Coimbra, nas formas de sociabilidade religiosas, apresentavam comportamentos impróprios nos ritos de procissões, nas quais professavam a fé católica. A desvalorização do caráter penitencial por parte das manifestações pagãs, segundo Cascão (1993), caiu em desuso após o ano de 1834 por ações eclesiásticas que pretendiam afastar das solenidades religiosas as cargas profanas. A intranquilidade noturna da cidade de Coimbra provocada por estudantes e outras pessoas de diferentes localidades de Portugal parece ter feito parte das experiências de sociabilidade de José Vieira Ataliba. Essas confrarias noturnas, segundo os estudos históricos de Bastos (1920) sobre a vida do estudante de Coimbra, só foram reprimidas a partir de Portaria de 14 de dezembro de 1838, período em que foi proibido o uso de toques de tambor, foguetes e alaridos noturnos que colocavam em susto os habitantes da cidade. Para fins exemplificativos, Bastos (1920) expõe e comenta algumas situações de confraria noturna apresentadas no livro Método para aprender e estudar Medicina de Ribeiro Sanches. Com estes estudantes relativamente sossegados se misturavam ociosos estranhos à academia, que se faziam passar por estudantes. Diz Ribeiro Sanches: «Também vi homens de maior idade, professarem mais que a vida de feição e galanteio virem de Lisboa e das províncias passar o inverno em Coimbra; longeados com estudantes, na intenção de se divertirem; nunca lhes faltou companhia de jogar, glosar motes, tocar instrumentos, dançar e consumir o tempo na conversação dos equívocos e dos repentes» [...] Às vezes as músicas vinham para a rua, incomodando os moradores da cidade; pelo alvará de 20 de Julho de 1530 vê-se que «alguns estudantes da Universidade, não esguardando o que cumpre ao serviço de Deus e meu (fala D. João III) e à honestidade de suas pessoas, andam de noite, com armas, fazendo músicas e outras artes não mui honestas para essa cidade, do que se segue escândalo aos cidadãos e moradores e pouca honra e autoridade à Universidade» (Idem, p. 16). 76 Também os mancebos poderiam ser locais de confrarias noturnas dos estudantes matriculados ou não na Universidade de Coimbra, além de pessoas da localidade ou de regiões próximas a cidade de Coimbra. Talvez, nestas ambientes próprios para os galanteios, José Vieira Ataliba participou destas diversões entre conhecidos e estranhos por ser considerado um “fervoroso amador do bello sexo”. Essa caracterização do estudante baiano feita por Queiroz (1882) foi associada à expressão de que “actividade de sua intelligencia não enfraquecia a sensibilidade de seu coração”. Tais informações permitem identificar aquele estudante brasileiro destacado entre os demais rapazes por ser tanto inteligente quanto um sujeito que gostava das diversões oferecidas na cidade. As observações sobre o comportamento de José Vieira Ataliba que foram tratadas no texto memorialístico de Queiroz (1882) permitem pensar que o estudante com estatuto de matriculado na Universidade de Coimbra, ao apresentar assiduidade, comprometimento aos estudos acadêmicos, causava estranheza para com outros que freqüentava mas diversões noturnas, ou ainda, que estaria acima de qualquer suspeita de envolvimento em confusões.Essas considerações podem ser compreendidas através de uma declaração do Reitor Reformador, Francisco de S. Luis, anexa ao ofício de 21 de novembro de 1821, no qual informa que o dever de seu cargo era: [...] reprimir a estranha liberdade, com que muitos Mancebos inapplicados, ociosos ou dissolutos, abusando da boa fé, ou ignorância de seus Pais e Parentes, continuão a residir em Coimbra, sem se acharem matriculados em alguma das Escolas da Universidade [...], e só para gosarem das vantagens, e talvez da impunidade, que presumem lhes affianças o habito Acadêmico; perturbando a cada passo com suas desordens o socego público, distraindo os Estudantes [...]22 Ainda por este documento anexo ao ofício de21 de novembro de 1821, o Reitor Reformador, Francisco de S. Luiz, demonstrou insatisfação por aqueles que vestiam o hábito Acadêmico e não estavam matriculados na Universidade de Coimbra. Por conta dessa situação, o reitor reformador observou que nem todo aquele que veste os ‘vestidos’ acadêmicos deve ser considerado educado ou regulado e merecem ser expulsos das casas que residem na cidade. Ao final de sua declaração, ele apresenta a última advertência: [...] ninguém das portas da cidade para dentro possa usar de vestidos tolares, não sendo pessoas do corpo Acadêmico ou Eclesiásticos [...], e pelo contrário, que as Pessoas Acadêmicas não usem dentro da cidade se não do vestido, que lhes he próprio, mostrando nelle, assim como devem fazer em tudo o mais, a sigudeza, Arquivo Torre do Tombo. ANTT – Ministério do Reino. Envelope: Universidade Contas e Propostas (18211823). Maço: 513. Caixa: 639. Classe: 5ª. Divisão: 14o. 22 77 gravidade, e modéstia que caracteriza o homem bem educado, e o verdadeiro amigo das Sciencias, e das Letras23 A diversão estudantil não era a única via de sociabilidade de José Vieira Ataliba, também naqueles anos de formação acadêmica a situação política do país estava em crise por conta das disputas ideológicas entre absolutistas e liberais. Para o pesquisador português Rodrigues (1998 p. 131), estes embates político-ideológicos estavam presentes entre os professores e estudantes da Universidade de Coimbra que, em sua maioria, defendiam as ideias absolutistas. Os estudantes que defendiam as propostas políticas do movimento Liberal e Absolutistas realizavam festejos e saraus poéticos para comemorar na Sala dos Capelos os júbilos de suas conquistas, respectivamente, em 21 de novembro de 1820 e, 23 a 25 de fevereiro de 1824. Neste contexto político em que professores e alunos estiveram presentes, a Universidade de Coimbra passou por mais um cancelamento dos estudos no ano letivo de 1828-1829, através de duas Cartas Régias, a primeira, em 26 de maio de 1828 e a segunda, em 27 de março de 1829. Além dessas indicações, Bastos (1920) também ressalta a formação de seis Batalhões Acadêmicos na primeira metade do século XIX. Por motivos da Revoltas Liberais, o segundo e o terceiro batalhão deste período histórico se expressão em boa parte no período de permanência de José Vieira Ataliba em Coimbra. O segundo (1826-1827) formou-se para defesa da causa liberal, tendo prestado grandes serviços na campanha da Beira; era composto de quatrocentos praças, formando seis companhias. [...] O terceiro (1828-1834) resultou da revolução contra D. Miguel, que rebentou em Coimbra a 22 de Maio de 1828. A 25 de Abril deste ano, no dia do anniversário de D. Carlota Joaquina, tinha-se realizado na Sé uma pomposa festa para a qual tinha subscrito duzentos e trinta e nove estudantes da Universidade e vinte e cinco do Colégio das Artes. Um batalhão acadêmico liberal, organizado quase um mês depois, tinha três companhias na força total de cento e sessenta e nove praças. Os estudantes realistas, retirando-se na direcção de Lisboa, formaram em Leiria um pequeno corpo de cinqüenta e três praças, que se bateu com as forças liberais em 24 de Junho, na Cruz dos Mouroços, onde dois acadêmicos deste corpo foram feridos e feitos prisioneiros. Depois desta batalha retirou o batalhão acadêmico para o Porto, donde seguiu para Galiza, embarcando uns estudantes para Inglaterra e outros para a França (Idem, p. 25-26). A participação de estudantes nos batalhões acadêmicos comprometia os seus estudos universitários e, consequentemente, eram notificados com faltas pelos professores de suas respectivas disciplinas. Essa situação, segundo Rodrigues (1998), gerava discussões entre professores e alunos por conta das posições políticas que eles assumiam e, dessa forma, Arquivo Torre do Tombo. ANTT – Ministério do Reino. Envelope: Universidade Contas e Propostas (18211823). Maço: 513. Caixa: 639. Classe: 5ª. Divisão: 14o. 23 78 as possibilidades de abono das faltas nem sempre eram resolvidas dentro da Universidade de Coimbra, ou seja, era necessária a intervenção do Governo e das Cortes. [...] 1827, 5 de Maio: As Congregações das diversas Faculdades, compostas por Lentes “pela maior parte adversos à causa da liberdade”, entenderam que as faltas dadas pelos estudantes que incorporaram o Batalhão Acadêmico ao serviço da causa liberal não lhes podiam ser abonadas. Estes representaram ao Governo e às Cortes contra a decisão, gerando-se uma acesa polêmica. Por fim, e depois de muitas hesitações, um Aviso desta data mandou abonar as faltas dos referidos alunos (Idem, p. 131). A questão das faltas dos alunos que faziam parte destes batalhões acadêmicos permite pensar sobre qual seria a posição política de José Vieira Ataliba neste período de suas experiências de sociabilidade. As faltas que os alunos recebiam no curso de Medicina por conta desta situação eram registradas no livro de atas Medicina Actas (1822-1841)24. As sessões da Faculdade de Medicina registradas na referida ata para os anos de 1827 e 1828 foram realizadas, respectivamente, 13 e 5 reuniões, nas quais não apresentaram nenhuma notificação de falta ou abono para José Vieira Ataliba permitindo reconhecê-lo como um estudante que não defendia as ideias liberais. No entanto, algumas atitudes dos estudantes nestas situações de defesa ou repressão dos ideais políticos, liberais ou absolutistas, necessariamente, não eram notificadas por meio de faltas nos estudos acadêmicos. Um exemplo disso foi às advertências e punições severas que os alunos recebiam em forma de processos. Entre os documentos desta natureza organizados sobre o nome de Processos de Polícia Acadêmica25(1827-1854) José Vieira Ataliba não sofreu nenhuma notificação em processo. Provavelmente, as punições severas que aconteceram na segunda década do século XIX, tenham sido por ocasião do infante D. Miguel ter assumido a posição de rei após ter jurado a Carta Constitucional. No que diz respeito ao envolvimento dos estudantes, o caso do assassinato dos professores da Universidade de Coimbra por estudantes liberais foi um fato que ocasionou grande comoção. Essa, entre outras atitudes de revolta, criou uma situação de repressão que, segundo Vargues e Torgal (1993), os miguelistas chegaram a criar tribunais para condenação à morte. A reacção Liberal contra D.Miguel em Portugal iniciava-se concomitantemente com os seus primeiros actos políticos absolutistas. As primeiras tentativas de revolta militar ocorreram em Março e Abril de 1828 em Lisboa. Em Março, tinha lugar o 24 25 Arquivo da Universidade de Coimbra. Medicina Acta (1822-1841). Cota: IV-1ª D-3-1-85. Arquivo da Universidade de Coimbra. Processos de Polícia Acadêmica (1827-1854). Cota: IV-1ª E- 10-5-6. 79 triste episódio da acção de um grupo de estudantes liberais – os «Divodignos» -, que assassinaram os professores que de Coimbra se dirigiam a Lisboa para felicitar D. Miguel em representação da universidade. Mas é no mês de Maio que ocorrem vários pronunciamentos liberais em Aveiro, Coimbra, Faro e Porto, que tiveram conseqüências assinaláveis. No Porto chegou mesmo a constituir-se um governo revolucionário – a Junta do Porto. A luta liberal contra o miguelismo desenvolvida pela junta recebe apoio de alguns exilados, que vieram da Inglaterra no navio Belfast. Mas os liberais não se entenderam, pelo que a maior parte acabou por regressar ao país de exílio. Os miguelistas venciam os liberais, obrigando-os a importante êxodo [...] A repressão exerceu-se rapidamente sobre os revolucionários, criando-se tribunais especiais - as alçadas -, onde foram julgados e condenados à morte (Idem, p. 75-76). A violenta repressão miguelista caracterizada pelos historiadores Vargues e Torgal (1993), talvez, permite compreender o autor da memória sobre os traços biográficos de José Vieira Ataliba, Queiroz (1882), tenha utilizado a expressão ‘horrorosa inquisição’ para simbolizar os atos de perseguição, tortura, condenação e morte em um tribunal criado para reprimir indivíduos que eram contra ao regime absolutista defendido pelo rei, o infante D. Miguel. A referida expressão foi usada para informar que José Vieira Ataliba havia sido preso por engano e, com ajuda de seu futuro sogro, conseguiu provar que era inocente de supostas acusações, as quais o referido autor não esclareceu. [...] Apenas formado, apaixonou-se por uma jovem portugueza, que sem nobreza e grande fortuna era entretanto honesta e de rara belleza. Pediu-a em casamento, e quando se preparava para as venturas do noivado foi preso pela horrorosa Inquisição, em conseqüência de proclamações apparecidas e que lhe imputaram. Os esforços de seu futuro sogro justificaram por fim a innocencia do peso, e alcançaram-lhe soltura; e logo depois effectuaram-se as núpcias (Queiroz, 1882, p. 164-165). As considerações de que José Vieira Ataliba tivesse sido um estudante que defendia as ideias absolutistas na vertente do rei D. Miguel podem não estar alinhadas com as informações que o citado memorialista Queiroz (1882) escreveu sobre as experiências de sociabilidade do jovem baiano. O estudante baiano, talvez, não tenha participado ativamente dos movimentos liberais ou absolutistas em Portugal. Esse posicionamento do estudante José Vieira Ataliba que apresentou indícios de ter sido um aluno inteligente e que frequentava as confrarias permite considerar que ele esteve atento às questões políticas de seu país. O fato de José Vieira Ataliba ter sido absorvido das acusações impostas no período em que Portugal vivia uma crise política – as revoltas liberais – permite considerar que ele não teve envolvimento com os grupos liberais. Por outro lado, não o consideramos um defensor da posição política absolutista, uma vez que o estudante baiano não havia sido 80 reconhecido como um dos possíveis estudantes da Universidade de Coimbra que participava do grupo ‘miguelista’. Desta forma, as experiências conimbricenses do estudante José Vieira de Faria Aragão Ataliba possibilitou compreendê-lo através das redes de sociabilidade que ele participou. Através do contato com outros estudantes de diferentes regiões e moradores da cidade de Coimbra, ele obteve o conhecimento de outras formas culturais, ideias científicas e políticas. Essas noções contribuíram no seu processo de ilustração e o tornou empenhado a solucionar os problemas sociais e desenvolver ações de civilidade. 81 3. A CARREIRA PROFISSIONAL DO ILUSTRADO DR. ATALIBA: A CIÊNCIA QUÍMICA NA INTERFACE DE SUAS AÇÕES HIGIENISTAS 3.1 A Carreira profissional do Médico Ilustrado José Vieira de Faria Aragão Ataliba após completar seus estudos médicos na Universidade de Coimbra retornou a Província da Bahia, em 15 de janeiro de 1829. Com idade de 25 anos, o recém-médico baiano, segundo Queiroz (1882, p. 165), chegou acompanhado de sua primeira esposa, a portuguesa Maria Amália Constança de Faria, com a qual foi recebido por seus parentes e amigos. A visibilidade social de Dr. José Vieira Ataliba lhe era conferida a partir da sua formação profissional. Diante dessa sua nova posição social, ele residiu em regiões nobres da capital da Província de Salvador. As informações apresentadas no Almanaque Civil e Comercial da cidade de Salvador (1845, p. 306), na sessão da lista de médicos de cirurgiões da cidade, indicam que o Dr. José Vieira Ataliba morava numa casa de número 43, na Rua Ladeira da Praça.A localização de sua residência situava na Freguesia da Sé que na época fazia parte da chamada Cidade Alta. Segundo os estudos de Reis (1991), a caracterização do espaço urbano da Cidade Alta em Salvador, poderia ser expressa da seguinte forma: Uma topografia acidentada dividia Salvador em Cidade Alta e Cidade Baixa, tal como Lisboa. [...] A Cidade Alta era mais limpa e calma. Era um bairro mais residencial e administrativo, não deixando de ter pequenas lojas dedicadas ao varejo de chapéus, tecidos, tabaco, remédios. Lá residia a maior parte dos habitantes da cidade, principalmente na populosa Freguesia da Sé, que era também o centro político e eclesiástico da cidade. Na praça do Palácio ficavam a Câmara Municipal, o Tribunal da Relação, a Casa da Moeda e o palácio do governo, este ocupado pelo governador colonial até a Independência, e a partir daí pelo presidente da provincial. A poucos metros se levantava a Santa Casa da Misericórdia, um conjunto arquitetônico que abrigava a sede desta distinta irmandade, sua igreja e hospital. Vizinha, levantava-se imponente a catedral, edifício já bastante arruinado nos anos 30 do século passado. Mais adiante, o terreiro de Jesus, a magnífica igreja dos Jesuítas, ao lado da Faculdade de Medicina,esta inaugurada nos primeiros anos da década de 1830.Outras igrejas disputavam com suas torres o céu dessa parte da cidade (Idem, p. 27; 30). A cidade de Salvador tornou-se o local para o desenvolvimento de suas atividades profissionais no setor da política, saúde e ensino. Segundo Queiroz (1882), o Dr. José Vieira Ataliba iniciou as suas atividades profissionais atendendo num consultório em Salvador. Nesta localidade, o Dr. José Vieira Ataliba passou a ter conhecimento da situação de saúde e 82 higiene das pessoas e, dessa forma, teve noção das doenças e das epidemias que, possivelmente, vitimavam muitos naquela sociedade. No entanto, a clientela do médico baiano começou a declinar e, segundo Queiroz (1882), o motivo esteve associado à morte de sua esposa. A fortuna é uma Deosa invejosa, não consente por muito tempo o goso de uma grande ventura, machina sempre contra o mérito elevado. A morte da consorte roubou-lhe todo o enlevo da vida. Pouco a pouco sua clinica se foi reduzindo a tal ponto que n’estes últimos annos curava pouco (Idem, p. 165). A situação profissional do médico ilustrado não esteve apenas voltada as atividades de consultório. O Dr. José Vieira Ataliba passou a fazer parte do quadro de docentes do curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Bahia. Essa instituição de ensino era reconhecida como um importante centro de intelectuais que contribuíam para modernizar a Província da Bahia através de atividades assumidas em cargos públicos. Segundo Pinho (2004, p. 345): Na Escola de Cirurgia, logo Colégio Médico Cirúrgico, e depois Faculdade de Medicina, ensinavam-se Anatomia, Cirurgia, Fisiologia, Patologia e Clínica, em um curso de quatro anos, pela primeira reforma (1815) dilatado para cinco cátedras e cinco anos. Outras reformas ocorreram em 1832 e 1834. Desde seus começos, a Faculdade de Medicina foi, por assim dizer, a medula intelectual da Província. Não tarda, mal chegam os prelos, a publicação de artigos, em revistas e jornais, e livros da autoria de lentes e professores; e ainda e das teses dos que, terminando o curso, se doutoravam. As traduções, resumos didáticos, compêndios, exposições e apreciação crítica, juntavam-se trabalhos de observação direta de fatos higiênicos, patológicos e terapêuticos, em conclusões ou invenções pessoais [...]. O Dr. José Vieira Ataliba iniciou suas atividades como professor da Faculdade de Medicina da Bahia na cadeira de Fisiologia, em 183326. Nessa condição, ele passou a manifestar interesse em contribuir com o ensino acadêmico em outras cadeiras de ensino. Segundo a sessão da Congregação de Medicina da Faculdade de Medicina da Bahia, em 22 de março de 1833: [...] Seguirão-se os requerimentos do Dr. João Jacinto d’ Alencastro e José Vieira de Faria Aragão Ataliba pedindo serem nomeados para substituírem interinamente aquelas Cadeiras, cujos proprietários não estivesse ou auzentes, e tomando este objecto em consideração, resolveu-se que João Antunes d’ e Azevedo Chaves substituísse a Cadeira de Fisiologia e João Baptista dos Anjos a de Pathologia externa, mandando-se então, para substituir a cadeira do Dr. Antonio Ferreira França 26 Arquivo da Faculdade de Medicina da Bahia. Acta da Faculdade de Medicina da Bahia, 1816-1855, p.61. 83 o Dr. João Jacinto d’e Alencastro tirando a sorte como Dr. José Vieira de Faria Aragão Ataliba por se conhecendo ambos igual capacidade [...]27 Figura 01 – Pintura – fotografia de José Vieira de Faria Aragão Ataliba28 Fonte: Arquivo da Faculdade de Medicina da Bahia O ilustrado Dr. José Vieira Ataliba continuou com suas atividades na cadeira de Fisiologia por um período de três meses. Isso mudou a partir da sessão de 21 de agosto de 1833, na qual foi apresentada a decisão do presidente da Província da Bahia, Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, indicando o Dr. José Vieira Ataliba para ensinar os estudos da cadeira de Química e Princípios Elementares de Mineralogia. Anteriormente a esta sessão de 21 de agosto, a referida cadeira era ensinada pelo ilustrado Dr. Antonio Policarpo Cabral desde 24 de maio de 1833 29. [...] o Officio do Exmo. Presidente da Província remettendo p. copia dos Decretos de 17 de Junho e 24 do mesmo mês, por q usa a Regencia em Nome do Imperador resolve por bem nomear par a Cadeira de Clinica Interna e Anatomia Pathologica respectiva ao Dr. Antonio Policarpo Cabral, e p a Lente da Cadeira de Chimica Medica e Principios Elementares de Mineralogia o Dr. José Vieira de Faria Aragão Ataliba, os quais se achavam presentes tomarão posse das referidas Cadeiras [...]30 Com a formalização de que tinha sido transferido para uma nova cadeira de ensino, o Dr. José Vieira Ataliba não teve condições de iniciar suas atividades nos estudos químicos. Essa situação foi informada ao ilustrado baiano numa outra sessão realizada no mesmo dia em que recebeu a transferência da cadeira, em 21 de agosto de 1833. Segundo essa 27 Arquivo da Faculdade de Medicina da Bahia. Acta da Faculdade de Medicina da Bahia, 1816-1855, p. 50-51. O quadro em óleo sobre tela de José Vieira de Faria Aragão Ataliba faz parte da galeria de professores catedráticos e titulares da sala da Congregação da Faculdade de Medicina. 29 Arquivo da Faculdade de Medicina da Bahia. Acta da Faculdade de Medicina da Bahia, 1816-1855, p.54. 30 Idem. 28 84 sessão da Congregação de Medicina, o motivo foi relacionado à falta de alunos matriculados na referida cadeira e, dessa forma, o ilustrado deveria retornar as suas atividades de ensino na cadeira de Fisiologia. A questão da ausência ou baixo número de alunos matriculados na cadeira de Química, em 1833, não significou um caso isolado. Segundo os estudos de Ferraz (1997) que tratou sobre o ensino de química no Brasil na primeira metade do século XIX, considerou que a situação do baixo índice de alunos matriculados na cadeira de química no curso de medicina da Faculdade de Medicina da Bahia já era uma ocorrência desde a criação de sua cadeira, em 1817. As sessões que seguem registradas na Acta da Faculdade de Medicina da Bahia(1816-1855)não apresentam informações detalhadas sobre a situação dos estudos Químicos no curso de medicina. Talvez, a situação da ausência de alunos matriculados tivesse sido resolvida diante da construção de um laboratório que serviu para as práticas químicas. Nesta situação, as sessões registradas no livro de Acta da Faculdade de Medicina da Bahia (1816-1855) não apresentaram nenhum registro de transferência ou pedido do Dr. José Vieira Ataliba para ser direcionado para o ensino de outra cadeira no período de 1833 a 1838. O ilustrado baiano permaneceu no ensino da cadeira de Química por cinco anos. Depois, a Congregação da Faculdade de Medicina da Bahia abriu uma sessão, em 19 de abril de 1838, para anunciar a sua transferência para a cadeira de Patologia Interna. Em Congregação da Eschola de Medicina foi prezente o officio do Presid e da Província comunicando que o Decreto de 8 de Novembro do anno próximo passado [...] resolve em transferir o Dro. José Vieira de Faria Aragão Ataliba, Lente da Cadeira de Chimica Medica da mesma Escholapa a Cadeira de Pathologia interna por Jubilação concedida ao Dr. Antonio Ferreira França [...] 31 Os encaminhamentos da sessão de 19 de abril de 1838 não indicam apenas a transferência do Dr. José Vieira Ataliba para a cadeira de Patologia Interna. Mas o reconhecimento de que este ilustrado foi o primeiro a permanecer por um maior tempo na cadeira de Química e Princípios Elementares de Mineralogia após a instituição de ensino em medicina tornar-se Faculdade através da Lei de 03 de outubro de 183232. O Dr. José Vieira Ataliba, paralelamente, a dedicação ao ensino no curso de Medicina, começou a assumir cargos políticos na sociedade baiana. Nos anos de 1833 a 1834, 31 Arquivo da Faculdade de Medicina da Bahia. Acta da Faculdade de Medicina da Bahia, 1816-1855, p. 118. Coleção de Leis do Brasil Império – 1832, p. 87, Vol.1, pt. I. 32 85 o ilustrado baiano foi eleito pela primeira vez ao cargo de Vereador da Câmara Municipal de Salvador (BOCCANERA JÚNIOR, 1928). Ao mesmo tempo em que o médico ilustrado exercia atividades no cenário político da Província da Bahia, o Dr. José Vieira Ataliba também desenvolveu atividades relacionadas à higiene. A sua primeira participação no campo higienista foi identificada na Revolta da Cementeirada. Esse movimento que chegou ao ápice no ano de 1836 se configurou através dos discursos religiosos, políticos e populares em torno da prática de sepultamento dentro dos templos católicos (REIS, 1991). A proibição de enterrar no interior das igrejas foi justificada pelo alto índice de mortandade, epidemias e doenças que esta prática ocasionava na população da Província da Bahia. Esta situação mobilizou os médicos e políticos a construir um cemitério afastado da cidade de Salvador. Por essa razão, o Dr. José Vieira Ataliba passou a integrar a Comissão da Saúde, a qual era vinculada a Câmara Municipal de Salvador. A função do médico ilustrado na referida comissão era fiscalizar a construção de um cemitério, a partir de um olhar higienista, o qual esteve sustentado na teoria Química – a Pneumática. (PEREIRA e PITA, 1993; REIS, 1991). O Dr. José Vieira Ataliba além de integrar a Comissão da Saúde da Câmara Municipal de Salvador como médico-político, também passou a ocupar o cargo de Juiz de Paz do 2º Distrito da Freguesia da Sé da cidade de Salvador33, entre os anos de 1836 e 183834. Sobre esse último ano, o jornal ‘Correio Mercantil: jornal político, commercial e litterario’noticiou a segunda candidatura política a Deputado da Província da Bahia na edição de 31 de outubro de 183835. A população baiana, através da notícia do referido jornal, ficou informada que a eleição daquele ano havia reunido cinquenta e cinco candidatos na disputa. A edição do jornal apenas referenciou os votos de uma região da Província: Pilão Arcádio. Indicou o Dr. José Vieira Ataliba com quatro votos. Com essas informações consideramos que o citado médico não tenha sido eleito para o cargo de Deputado provincial. O médico ilustrado baiano, além de estar envolvido com os assuntos dos setores da política, ensino e higiene da Província da Bahia, também esteve voltado às questões relacionadas ao Seminário dos Órfãos da cidade de Salvador. As notas do jornal Correio Mercantil dos meses de dezembro de 1838 e janeiro de 1839, referenciavam sobre sua atuação 33 Arquivo Fundação Gregório de Matos/ BA. Ata de Posse e Juramento de Juízes 1829-1877. Não encontramos fontes que tratassem da sua atuação no cargo político de Juiz de Paz do 2º Distrito da Freguesia da Sé. 35 Correio Mercantil: jornal político, commercial e litterario. Vol. III. N.586. p.1. 34 86 no cargo de tesoureiro do Seminário dos órfãos em notas de sorteios de loteria que tinham a finalidade de arrecadar fundos para a referida instituição36. A condição de ilustrado do Dr. José Vieira Ataliba lhe conferia estar apto a desenvolver diferentes atividades na sociedade baiana, por exemplo, ensino e política, nos quais ele aplicou tanto conhecimentos científicos quanto de civilidade. Sobre esse perfil de sujeito ilustrado, Queiroz (1882) apresentou a seguinte caracterização do Dr. José Vieira Ataliba: [...] em seus argumentos, suas respostas, em suas decisões brilhavam sempre essa firmeza e serenidade que só podem dar a independência de caráter, e a consciência do saber. Mais do que ninguém, elle sabia satisfazer o preceito de Horacio, unindo sempre o agradável ao útil. Fértil em anedoctas espirituosas, jovial e franco, porém discreto, noticioso, affavel sem lisonja, alegre e prazenteiro sem impostura, instruindo sem orgulho, critico sem maledicência, probo sem affectação, sua conversação a todos encantada (Idem, p. 166). A polidez do Dr. José Vieira Ataliba que foi apresentada por seu biógrafo, José Alexandre de Queiroz (1882), permite relacionar com as reflexões sobre civilidade que Elias (1994) apresentou para analisar a sociedade francesa no século XVIII. O prestígio e o status foram duas características que o referido autor pontuou como básicas para o sujeito ocidental manter a sua posição social. Para manter o seu lugar de destaque social, o sujeito, segundo Elias (1994), precisava ser diplomata para tolerar as ofensas e não humilhar as demais pessoais que não estejam no perfil de civilizado. O referido autor ao analisar os escritos de Erasmo de Roterdan, afirma: [...] “Seja tolerante com as ofensas dos demais. Esta é a principal virtude da civilitas, da cortesia. Um companheiro não lhe deve ser menos querido porque tem piores maneiras. Há pessoas que compensam a rusticidade de seu comportamento com outros talentos.” E mais adiante, acrescenta: “Se um de seus camaradas inadvertidamente o ofende... diga-lhe isso a sós e bondosamente. Isto é civilidade” (Idem, p. 92). Outra característica do perfil ilustrado do Dr. José Vieira Ataliba era a sua posição de conservador da ordem pública. Ele era um cumpridor das leis, defensor da ordem pública e dos bons costumes. Sobre esta sua postura social, um aviso publicado no jornal Correio Mercantil, em 10 de Abril de 1840, menciona o Dr. José Vieira Ataliba na seguinte situação: 36 Idem. Vol. III. N.621. p.4; Vol. III. N.624. p.4;Vol. III. N.630. p.4;Vol. III. N.634. p.4; Vol. IV.N.002. p.4. 87 No dia 16 de fevereiro do corrente ano, desappareceu á Luiz Manoel da Rocha, um escravo de nação tapa, por nome Militão, com os signaes seguintes: estrutura proporcionada, cor fula, olhos pequenos, boca grande, dentes miúdos, cara redonda, com signaes de sua terra, tendo em cada lado dous (?)37 comprindos e largos: o dito escravo heramador de saveiro, e também carrega cadeira: quem achar pode levar á casa do annunciante em Guadalupe, defronte a quitanda, ou á Ladeira da Praça, em casa do dr. Ataliba, que será recompensado do seu trabalho com 50 [...] 38 Ao mesmo tempo em que o Dr. José Vieira Ataliba tinha representatividade política na sociedade baiana, ele também possuía entre os ilustrados professores da Faculdade de Medicina da Bahia. Provavelmente, o seu posicionamento de conservador da ordem pública e o empenho com que desenvolvia as suas atividades no ensino e na modernização social foram fatores para escolher o Dr. José Vieira Ataliba como representante da referida instituição de estudos superiores, em 1840, para cumprimentar o Imperador D. Pedro II por ocasião de sua maioridade. Em ofício assinado pelo diretor da Faculdade de Medicina da Bahia, o Dr. Francisco de Paula Araújo e Almeida, em 11 de agosto de 1840, endereçada ao Presidente da Província, Tomás Xavier Garcia de Almeida, encontramos a informação que: Tendo a Faculdade de Medicina, julgado [...] mandar um dos seus Membros ao Rio de Janeiro felicitar a I.M. o Imperador pelo feliz Acontecimento do dia 23 de Julho próximo passado, e recaindo a sua escolha no Dr. José Vieira de Faria Aragão Ataliba, tem a honra de participar a V. Exa., rogando lhe servido não conceder ao dito Doutor a necessária licença, como também prover com que não seja por tal [...] prejudicado [...] nos seus vencimentos39 As eleições políticas marcaram o percurso profissional do Dr. José Vieira Ataliba. O médico baiano, segundo o jornal Correio Mercantil de 24 de Setembro de 1844 informava sobre o número de votos - 847 que recebeu da Freguesia da Sé referente à candidatura de Deputado provincial. No entanto, a notícia do jornal não apresentou indícios suficientes para considerarmos o Dr. José Vieira Ataliba como Deputado da Província da Bahia 40 . Provavelmente, ele não tenha sido eleito para Deputado Provincial da Bahia no ano de 1844, visto que no ano seguinte foi eleito ao cargo de Vereador da Câmara Municipal de Salvador e escolhido para Presidente e Procurador da referida câmara, respectivamente, 184541 e 18441845, 1846-1847 (BOCCANEIRA JÚNIOR, 1928, p. 645). 37 O sinal de interrogação foi inserido por razões de dificuldade na leitura do documento citado. Correio Mercantil: jornal político, commercial e litterario. Vol. VII. N.082. p.4. 39 Arquivo Público do Estado da Bahia. Maço: N. 4046-1, Sessão de Arquivo: Colonial e Provincial – “Governo da Província: Correspondência Recebida da Escola de Medicina da Bahia. 40 Jornal Correio Mercantil, Ano: XI. N. 203, p. 01. 41 Jornal O Guaycuru, N. 87 e 88, p. 349. 38 88 O Dr. José Vieira Ataliba no ano de 1843 esteve comprometido nos assuntos relacionados ao Conselho de Salubridade da Província da Bahia. Nessa instituição, ele assumiu os cargos de secretário, em 1843, e a partir do ano de 1845 conquistou o posto de presidente até o ano de 185342. Ainda no exercício de atividades na área da saúde, o médico ilustrado no cargo de Provedor da Saúde da Província da Bahia, em 1845, participou de um fato que envolvia uma embarcação americana que estava ancorada no Porto daquela província. A referida embarcação estava impedida de seguir para o seu destino, pois havia recebido uma multa da Alfandega e recusava-se a pagá-la. Por conta disso, a embarcação americana não recebeu do Dr. José Vieira Ataliba o despacho da repartição da Saúde que garantia a sua saída do Porto. Segundo o jornal O Guaycuru de 12 de abril de 1845, a situação foi encaminhada ao Presidente da Província da Bahia, Francisco José de Sousa Soares d’Andrea, para que fosse resolvida em discussão com o Provedor da Saúde, Dr. José Vieira Ataliba. [...] Sabem todos que o provedor da Saúde he o honrado sr. Dr. Ataliba. O sr. Ataliba recebe em sua caza, por uma ordenança, o seguinte recado: Sua excellencia ordena que V.S. lhe falle já em palácio. – e responde: Vou tomar agora um banho, depois hei de almoçar, então irei fallar ao presidente. Trez horas depois desta primeira cena o sr. Dr. Ataliba está com o presidente da província no palácio: dous americanos do navio ahi estão igualmente – os estrangeiros estão de pé, o presidente sentado. [...]43 O provedor da Saúde do Porto, o Dr. José Vieira Ataliba, mostrou não estar intimidado com o recado do presidente da Província que solicitava a sua presença no palácio. Ainda segundo o jornal Guaycuru, de 12 de abril de 1845, sobre o não pagamento da multa da embarcação americana à Alfandega da Província da Bahia, a conversa entre o Dr. José Vieira Ataliba e o Presidente da Província da Bahia, Francisco José de Sousa Soares d’Andrea, procedeu na presença de representantes da embarcação americana e de dois oficiais da secretaria do governo. Durante aquela sessão no palácio, o Provedor da Saúde justificou a sua decisão de não ter emitido o despacho para a embarcação americana e posicionou-se como um ilustrado que cumpre as leis e não se permite ser coagido por ordens de superiores. O presidente: - (em voz stentoria) Por que razão recusa despachar o navio? O provedor: - Agora responderei a vossa excelência. (arrastando uma cadeira, e sentando-se) Não o despachei porque o não permite o regulamento do porto. 42 Arquivo da Fundação Gregório de Matos/BA. Documentos avulsos, sem identificação de página. Fundo: Câmara Municipal de Salvador, Seção: Secretaria, Série: Conselho de Salubridade, Estante n. 67, Prateleira n. 05. 43 Jornal O Guaycuru. Ano:3, N. 90, p. 2. 89 O presidente: - Qual regulamento! Se lh’o eu ordeno? O provedor: - O regulamento he uma lei, vossa excellencia não pode ordenar o que he contrario a lei, nem eu devo cumprir ordens ilegaes. O presidente: O que diz? O provedor: - Não despacharei o navio enquanto se me não mostrar habilitado. Creio que vossa excellencia ainda não leo o regulamento do porto. O presidente: - He verdade, nunca o li. O provedor: - Aqui o tem (apresentando-lh’o). O presidente: - (Depois de ler o regulamento, moderando a voz.) Agora vejo que tem rasão. (com voz assucarada) Mas posso eu esperar que me fará vossa senhoria um obzequio? Provedor: - Sem duvida. Estou prompto a servil-o nos limites da justiça e da decência. O presidente: - Muito obrigado. Rogo-lhe pois o favor de despachar este navio; dando-lhe minha palavra de honra que amanhã muito cedo receberá a importância da mulcta:dou-lhe por testemunhas os senhores que aqui estão (estavão mais dois officiaes da secretaria do governo). O provedor: - Não precizo essa hypotheca: vossa excellencia estar servido, (tomando uma tolha de papel, que estava sobre a meza para escrever o despacho.) O presidente: - Espere... (com evidentes sinaes de confusão e desatino, levanta-se, vai ele mesmo buscar no quaderno de papel peso, póe-no sobre a meza) escreva neste papel. O provedor: - (acabando de escrever e levantando-se) Aqui tem o despacho, sr. Presidente.44 O jornal O Guaycuru apresentou um comentário que traduziu o comportamento do médico ilustrado Dr. José Vieira de Faria e, ao mesmo tempo, justificou o título daquela nota de jornal: “Um character de modelo”. A decisão de não ter recebido a importância da multa que a embarcação americana deveria pagar foi motivo para o Dr. José Vieira Ataliba elevar o seu prestígio diante do Presidente da Província ao fazê-lo compreender que a sua atitude defendia os interesses do governo e prezava pela organização social. Toda esta situação foi noticiada pelo citado jornal da seguinte maneira: O presidente recebe o despacho, fica esmagado debaixo do enorme pezo de vergonhas que chamou sobre si, o sr.Dr.Ataliba retira se, levando com sigo a admiração desses estrangeiros, que mal podem comprehender tanta bruteza, tanta covardia do tyranno, tanta dignidade n’um brasileiro, que assim vinga no nome de seu paiz, que assim vinga a honra da Bahia, que aviltão que enxovalhão essas turmas d’ escravos, que fogão de o ser, que adorão o látego da tyrannia, que lhes rompe as carnes. E bem haja Ella que os conhece, e como taes os trata!45 O caráter de ilustrado do Dr. José Vieira Ataliba pareceu estar presente em todas as suas atividades profissionais na Província da Bahia. Ao conduzir as suas ações numa perspectiva conservadora que, ao mesmo tempo foi modernizadora, o médico baiano conseguiu ser para os indivíduos da sociedade baiana um modelo a ser seguido. Com esse perfil assumido em sua carreira ilustrada, não lhe faltaram homenagens e comoção da 44 45 Jornal O Guaycuru. Ano:3, N. 90, p. 356. Idem. 90 sociedade baiana diante da notícia de seu falecimento. Segundo o jornal Correio Sergipense46, de 2 de novembro de 1853, informava que, em 16 de outubro, o médico José Vieira de Faria Aragão Ataliba teve como causa da morte complicações de moléstias intestinais. 3.2 A Construção de um Espaço de Práticas Experimentais para o Ensino e Análise Química O fato de tratarmos nesse estudo das instituições de ensino superior, as quais desenvolveram o ensino de Química, não desmerece a importante contribuição que as Academias Científicas no Brasil representaram para a circulação e difusão do conhecimento científico. Ao discursar sobre os princípios da Química, Física e Biologia, as Academias Científicas no Brasil impulsionaram um melhor tratamento sobre as questões que versavam sobre a Medicina, Cirurgia, Farmácia, Agricultura e outros setores (AZEVEDO, 1963). De forma panorâmica, algumas atividades científicas em Química puderam ser identificadas no início do século XIX. Na coleção de estudos de Carrara Jr. e Meirelles (1996), foi identificado um conjunto de cinco instituições com tal natureza de interesse. Sejam elas: Real Academia Militar (1810)/RJ; Laboratório Químico – Prático (1812)/RJ; Laboratório Químico do Conde da Barca (1813)/RJ; Laboratório Químico do Museu Nacional (1824)/RJ; Sociedade Filomática de Química (1832)/BA (p.215). Os novos olhares dos sujeitos da elite científica – os ilustrados – asseguraram os discursos dos campos científicos e colaboraram para as futuras instalações de instituições de ensino superior. Segundo Fernando de Azevedo (1963): [...] com a instalação da corte portuguesa no Brasil que se inicia propriamente a história de nossa cultura de que não se encontram, até essa época, senão manifestações esporádicas de figuras excepcionais, formadas em Portugal e sob influências estrangeiras, no século XVIII, e enviadas, algumas, ao Brasil, como funcionários da coroa, para estudos e observações de caráter científico [...] na administração de D. João VI (1808-1821) que surgiram as primeiras instituições de caráter cultural, como entre outras, a Imprensa Régia, a Biblioteca Pública, o Real Porto, mais tarde, em 1819, denominado Real Jardim Botânico, e o Museu Real [...](p. 376). 46 Jornal Correio Sergipense. Ano XVI, N. 76, p. 3. 91 As instituições de ensino superior passaram a reforçar os diálogos sobre as ciências naturais que, segundo os estudos de Márcia Helena Mendes Ferraz (1997, p.197), a chegada da Família Real Portuguesa, em 1808, “facilitou a instalação de cursos de ensino superior na colônia, onde se poderia ver contemplado o estudo das ciências naturais. As cartas régias criando os cursos – que, às vezes, se restringiam a algumas cadeiras”. Ainda por aquela autora, a criação da Escola de Cirurgia da Bahia, em 18 de fevereiro de 1808, foi oficializada por mediação do ilustrado José Correia Picanço, o qual desempenhava a função de cirurgião-mor no reino de Portugal. Dessa forma, a Capitania da Bahia recebeu antes mesmo da cidade do Rio de Janeiro (1809), um espaço que se configurou como ambiente cultural científico. O curso de Medicina na Bahia, a partir da publicação da Carta Régia de 18 de fevereiro de 1808, começou a ser ministrado no Hospital Real Militar. Essa instituição apresentava os seus espaços físicos precários e insalubres e, dessa forma tornou-se inviável a continuação dos estudos médicos naquele ambiente. Segundo o pesquisador Adailton Ferreira dos Santos (2008, p.33), a situação precária dos espaços físicos em que vivia o curso de medicina passou a ser uma reivindicação da sociedade baiana e, dessa forma, a Escola de Cirurgia de Medicina passou a ser instalado nas dependências da Santa Casa de Misericórdia. Com o funcionamento do curso médico na Santa Casa de Misericórdia, as possibilidades de iniciar o curso de Química aumentaram devido à regulamentação de agrupar o ensino em cadeiras a partir do ano de 1815. Essa situação possibilitou a criação da Cadeira de Química, em 1817, pois segundo Ferraz (1997), os estudos químicos eram tratados de forma conjunta com os conteúdos farmacêuticos. As transformações implicaram no aumento gradativo de alunos frequentando as aulas do curso de Medicina da Escola de Cirurgia da Bahia. Para atender a esse crescente número de estudantes foi necessário ampliar a infraestrutura, assim como o número de cadeiras. O aumento de disciplinas causou um problema para a instituição, pois na cidade não existia professores suficientes para assumir as aulas e, de modo particular, as aulas de química (idem). O ensino de Química passou a ser estruturado no curso de Medicina da Capitania da Bahia através de atividades experimentais e teóricas. A Química passou a ser ensinada por compilações escritas pelo professor da cadeira. Tinha como guia o Compêndio ‘La Philosophie Chimique’ escrito por Antonie François de Fourcroy. Segundo Carrara Jr. e Meirelles (1996), aquele compêndio tinha sido traduzido por um dos professores diplomados da Universidade de Coimbra, Manuel Joaquim Henriques Paiva, o qual esteve empenhado a 92 difundir ideias higienistas, químicas e farmacêuticas para a construção de uma pedagogia higienista. [...] O professor, assim como os da Real Academia Militar, foram estimulados a elaborar um compêndio próprio para o seu ensino, devendo, no interregno, utilizarse da filosofia de Fourcroy, já traduzida em linguagem popular. A obra recomendada era o livro La Philosophie Chimique, de Antoine François de Fourcroy (1755-1809), publicado em Paris e cuja tradução portuguesa publicada em 1801 havia sido feita por Manuel Joaquim Henriques de Paiva [...] (Idem, p. 219). O ensino de Química previsto pelas ‘Instruções Provisórias’ da Escola Médico Cirúrgica da Bahia informava que a lições de Química não eram restritas a compreensão da Medicina. A formação de alunos tinha a intenção de conduzi-los ao entendimento de outros setores de trabalho por entender que a Ciência Química poderia contribuir para o desenvolvimento econômico e industrial. [...] ensinará a theoria chimica em geral: depois “passará às implicações desta tão interessante sciencia às differentes artes e ramos da indústria. Fará todas as experiências e analyses que forem necessárias, procurando dar aos seus discípulos toda agilidade e perícia na prática das operações chimicas, tendo somente em vista nas suas lições theoricas e praticas tudo quanto for relativo á pharmacia, agricultura, tinturaria, manufatura de assucar, e á extração não só das substancias salinas de que se possam colher utilidade, mas também dos óleos, betumes, resina e gomma. Dará lições praticas de docimasticas, e explicará as differentes construcções dos fornos de diversas espécies, tendo particular attenção ao trabalho das minas d ferro, e de outros metaes, de que abunda o Reino do Brasil, para que possam ser ultimente aproveitados [...] (PEREIRA, 1923, p. 21). A importância da Ciência Química nos estudos médicos norteou os professores a construir um espaço de práticas experimentais. As reivindicações dos intelectuais da Faculdade de Medicina da Bahia apresentam registros por volta do ano de 1833 por meio de ofício do dia 12 de março. A finalidade do documento era oficializar a necessidade do curso médico em dispor de espaços para estruturar uma biblioteca, gabinetes e laboratórios, a exemplo do químico. Devendo a Escola de Medicina desta Cidade ser transferida da Caza da Misericórdia em que existe para outro edifício muito mais amplo e espaçoso, por não haver ali os precisos commodos para o estabelecimento das Aulas, Biblioteca, Laboratório Chimico. Gabinete de Phisica, de Anatomia, e de Materia Medica, Secretaria, e outros arranjos conforme a Lei de 3 de Outubro do anno próximo passado tendo o Governo Central concedido à Escola do Rio de Janeiro todo o edifício que servira de Hospital Militar; e existindo desocupada nesta Cidade, a casa de propriedade nacional, que outrora tivera igual emprego, e onde bem se realizão as condições do artigo 16 da mencionada Lei: a Faculdade de Medicina indigita á V.Ex a. a referida casa para o fim exposto, pedindo somente o andar de cima da Botica com a casa que 93 lhe pertence, e a Enfermaria denominada d’ Assumpção com os quatro pequenos quartos que lhe são annexos [...]47 O cômodo da Botica foi o espaço por excelência das atividades experimentais químicas. Os pedidos dos professores para organizar o referido espaço tornaram-se urgentes devido à precariedade do edifício. Essa situação tornava não só prejudicial o ensino de Química, mas comprometia o curso de Medicina. Essa situação continuou até o mês de junho, como se observa no documento dos professores ao Presidente da Província, Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, em 12 de junho de 1833. Constando, q o Hospital da Misericórdia tem de ser transferido no dia 2 de julho p a o Collegio, e sendo em conformidade da Lei de sua criação inseparável o exercício Clinico d’ aquelle Estabelecimento; a Faculdade roga a VExa se digne mandar o quanto antes empossar da Botica e parte anexas, e já pedido em offo de 18 de Maio, e concedido para VExa no de 23 do mmo, afim de q não sofra interrupção o Ensino Publico [...]48 As informações dos professores nos permitiram sinalizar o quanto era urgente à resolução do impasse no local da Botica, pois os prejuízos no ensino já se mostravam como indicativo. Com a dinâmica discursiva entre os professores que exigiam o cumprimento do Artigo 16 da Lei de 03 de Outubro de 183249, o qual estabelece que as aulas sejam ministradas dentro ou nas vizinhas dos Hospitais civis. Sobre essa questão, os professores da Faculdade de Medicina da Bahia encaminharam um ofício, em 02 de agosto de 1833, ao presidente da Província da Bahia, Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos50, exigindo o cumprimento do referido Artigo 16. Aprezentando em Congregação no dia de hoje o offo. deVExa de 31 de Julho ultimo, em que participa não haver da parte da Meza Administrativa da Caza da St a Misericórdia, embaraço algum no cumprimento do arto. 16 da Lei de 3 de Obro de 1832, comprovado com a copia a elle junto do parecer dos Facultativos d’aq le Estabelecimento a tal respeito [...]51 A construção por um espaço próprio para a cultura científica química não aconteceu imediatamente com a publicação da Lei de 03 de outubro de 1832. Os ilustrados Arquivo Público do Estado da Bahia. Maço: Governo da Província – Correspondência recebida da Escola de Medicina da Bahia (1832-1849). Sessão de arquivo: Colonial e Provincial. No. 4046-1. 48 Idem. 49 Sobre a Lei de 03 de Outubro de 1832, ver em Coleção de Leis do Império do Brasil. 1832, p. 87, Vol.1, pt.I 50 Ver lista de Presidentes da Província da Bahia entre 1824-1889 em Tavares (2008, p. 292-293). 51 Arquivo Público do Estado da Bahia. Maço: Governo da Província – ‘Correspondência recebida da Escola de Medicina da Bahia (1832-1849). Sessão de arquivo: Colonial e Provincial. No. 4046-1. 47 94 professores no ano de 1833 começaram a buscar melhores acomodações para as atividades experimentais de Química. Segundo o ofício encaminhado ao Presidente da Província, Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, em 2 de novembro de 1833, apresentava a seguinte mensagem: A Faculdade de Medicina, accuzando a recepção do offo de VExa. de 30 de Obro findo, remettendo com copia o Avizo da Secretaria d’ Estado dos Negocios do Imperio de 21 de Agosto deste anno, pelo q. ordena a Regencia em Nome do Imperador, q. o Laboratorio Chimico e Phamaceutico, e Gabinete de Phizica da Eschola, se estabeleção no local, onde existe a Botica do Collegio, pertencida praStaCaza da Misericordia, sendo esta removida para outro quarto do mesmo edifício [...]52 O espaço da Botica da Santa Casa era um dos lugares menos insalubres e mais espaçoso, capaz de fornecer as condições básicas para as práticas experimentais sejam elas de Química, Farmácia ou Física. Com a Botica na responsabilidade do Colégio, os professores tinham o direito de ordenar a saída de qualquer instalação da Santa Casa de Misericórdia. No entanto, os facultativos queriam construir um novo lugar próprio para o ensino de química. Para isso, os professores iniciaram um processo de captação de investimentos para reforma e reparações do extinto Hospital dos Jesuítas. Um dos vestígios sobre este assunto foi o ofício do diretor da Faculdade de Medicina, Francisco de Paula Araújo e Almeida, em 6 de Março de 184153, endereçado ao Presidente da Província, Paulo José de Melo Azevedo e Brito, em que dizia: Parte do edifício, em que existe a Eschola de Medicina, a esta concedida pelo Governo para o estabelecimento do seu Laboratório Chimico, achasse bastante arruinada, principalmente nos telhados, que estão em termos de vir abaixo, obstanto assim ás licçoes praticas d’aquella sciencia. De muitos outros concertos e arranjos carece a Eschola, como expuz ao Governo de I. M. o Imperador em officio de 15 do mez próximo passado; mas nenhuma é tão urgente, como o concerto da mencionada parte do edifício, e arranjo do Laboratório: e esta obra, que, feita agora, não pode importar em muito, bastante dispendiosa se tornará, se houver demora [...] A crítica situação do espaço físico destinado ao laboratório químico era agravada por uma lentidão no atendimento da reforma. A segunda parte do já citado ofício reforçou os pedidos de concertos e arranjos para o espaço destinado as práticas experimentais e, pontuou que as reivindicações datam de 1837. Arquivo Público do Estado da Bahia. Maço: Governo da Província – ‘Correspondência recebida da Escola de Medicina da Bahia (1832-1849). Sessão de arquivo: Colonial e Provincial. No. 4046-1. 53 Idem. 52 95 [...] Cumpre-me alem disto levar ao conhecimento de V.Exa., que por Aviso da Secretaria d’Estado dos Negocios do Imperio, expedido a um dos Antecessores de V.Exa. em 1837, foi o Governo da Provincia authorisado a mandar fazer os concertos e arranjos, de que carecesse a Eschola; mas apenas se deu principio a elles, ficando por fazer grande parte dos mais importantes [...] A possibilidade dos professores terem sido atendidos quanto aos pedidos de reformas e reparos do espaço de práticas experimentais pode ser considerada a partir do anexo do referido oficio de 6 de março de 1841. Com o título de ‘Orçamento do Laboratório Químico’ apresentou uma lista de materiais e valores do que iria ser utilizado na reforma. Pela administração do Sem. Instructor das Obras Públicas e em sua presença passamos a examinar, e orçar o seguinte. Dividir uma salla com frontal singela na largura de vinte e trez palmos, e dezesete de alto: rasgar uma janella em sua altura, e pôr-lhe caixilhos de vidraça. Fazer-se duas ordens de prateleiras n’uma das divisões. Desmanchar-se uma parede q divide outra salla maior, q vem a ficar com cincoenta e trez palmos de comprimento, e vinte e trez de largura; esta salla tem um cobrimto separado, o qual se acha bastante arruinado, juntamte o telhado que precisa ser arreado e feito de novo; assim como que se desacrescentar mais trez palmos na altura das paredes da mma. salla, por serem mto.. baixas: rasgar-se trez janellas para acima afim de dar maior claridade com caixilhos de vidraço. Forra-se esta salla de madeira em todo o seu comprimto., feixar-se com vidraças dois arcos da varanda e uma escada de tijolos q. vai d’esta pa o pateo, E p não poder ser de massa por ficar exposta ao tempo. Construir se o Laboratorio de pedra e cal, e de madeira. Fazeremse as fornalhas do mmoLaboratorio, e feixar-se duas portas q ficão por debaixo do Laboratorio, por innteiro, com frontal do sobrado 54. Além da descrição da reforma, o documento também apresenta uma lista com itens, quantidades e valores que foram orçados e, possivelmente, utilizados para equipar o Laboratório. A lista com os materiais solicitados são divididos em quatro categorias: materiais, condução, transporte e utensílios, os quais foram previstos um valor total de 1:938#400 mil réis e, desse valor foram gastos 285#560 réis para a compra de utensílios apropriados para as atividades experimentais química.55 A precária situação de infraestrutura não situava apenas no Laboratório Químico, mas o Anfiteatro Anfiteatro e a Biblioteca também foram contemplados com reformas. Em ofício de 28 de Julho de 1842, assinado pelo diretor da Faculdade de Medicina, endereçado ao Presidente da Província, Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, sobre questões das obras da Biblioteca e ressalta sobre a conclusão das obras do Laboratório Químico: Arquivo Público do Estado da Bahia. Maço: Governo da Província – ‘Correspondência recebida da Escola de Medicina da Bahia (1832-1849). Sessão de arquivo: Colonial e Provincial. No. 4046-1. 55 Idem. 54 96 A quantia de 386#000 reis, em que fora orçada a obra da Biblioteca da Eschola de Medicina não chegou para ella se completar, porque alem da pintura, que não foi contemplada no orçamento, acrescerão despesas com outros objectos, que não tinhão sido previstos, como seja o refazer da parte do fôrro, e do soltho. Também estar para concluir-se os arranjos necessários ao Laboratorio Chimico da mesma Eschola, como já tinha a honra de fazer ver a V.Exa no meu officio de 2 de Maio do corrente anno [...]56 A organização do ensino de práticas experimentais no Laboratório de Química da Faculdade de Medicina da Bahia começou a apresentar certa regularidade em suas atividades, a partir de compra de periódicos científicas oriundos da Europa. Segundo o ofício de 29 de dezembro de 1842, assinado pelo diretor da Faculdade de Medicina e endereçado ao Presidente da Província, Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, informava a chegada de livros franceses para a Faculdade de Medicina da Bahia. Tendo chegado de França na barca Aline um caixão [...] contendo livros e periódicos médicos para a Eschola de Medicina, vou solicitar de V.Exa. as necessárias ordens, para que sejão despachadas livres de direitos, não só estes objectos, como também a continuação dos mesmos periódicos, que tem de ser enviadas, tanto de França, como de Inglaterra e da Itália, á medida que forem semanária ou mensalmente saindo57 Além da compra de livros estrangeiros para auxiliar nas atividades experimentais químicas pode ser considerada como um incentivo para o desenvolvimento de análises químicas feitas com a água da região da província. Em ofício de 10 de setembro de 1842, apresenta indicações de peritos em conhecimento químico para realizar análise das águas minerais de Itapecurú. Tendo eu servido a Faculdade de Medicina a cerca do conteúdo no officio de VEx a, que a mesma Faculdade entende, que o melhor meio de conseguir o exame das águas mineraes de Itapecurú, he nomear VExa. dous ou três peritos em conhecimento chimicos, os quaes dirigindo-se com os necessários reactivos e apparelhos ao lugar [...] ali procedão aos necessários exames [...] 58 As análises com amostras de água mineral nos permitem considerar que existia a preocupação em ter o conhecimento acerca das concentrações de elementos químicos que poderiam causar contaminação nas pessoas. Para que essa possibilidade de atividade experimental fosse realizada, o ofício de 22 de Setembro de 1842 fez referência à água mineral de Itapecurú e indicou três professores para realizar as análises químicas. Arquivo Público do Estado da Bahia. Maço: Governo da Província – ‘Correspondência recebida da Escola de Medicina da Bahia (1832-1849). Sessão de arquivo: Colonial e Provincial. No. 4046-1. 57 Idem. 58 Idem. 56 97 Satisfazendo ao officio que VExa me dirigio em 12 do corrente, afim de eu propor as pessoas que achasse mais habilitadas para fazerem o exame das águas mineraes de Itaperucú, tenho a honra de propor para o mencionado fim o Dr. Eduardo Ferreira França, o Pharmaceutico Manoel Rodrigues da Silva e o Dr. Ignacio Moreira do Passo: o primeiro e o segundo por serem versados tanto na teoria como na pratica da Chimica a qual professão na Faculdade de Medicina desta Cidade; o terceiro porque tendo também estudado a Sciencia pode coadjuvar aos dous primeiros e facilitar lhes o trabalho principalmente pelo conhecimento que tem d’aquelles lugares de onde he filho. Cumpre porem levar ao conhecimento de VExa. que tendo tanto o Dr. Eduardo como o Pharmaceutico Rodrigues importantes funcções a desempenhar na Eschola de Medicina, não podem, sem prejuízo do ensino publico, proceder ao exame em questão antes de findarem aos exercícios do presente anno lectivo.59 O Dr. José Vieira Ataliba impediu o desenvolvimento da referida atividade analítica química da água mineral de Itaperucú. Essa situação não impede de considerar que ele esteve ao lado dos demais professores da Faculdade de Medicina da Bahia empenhado na captação de recursos materiais e financeiros, assim como nos discursos políticos a favor da construção e reforma de um espaço de práticas experimentais – Laboratório Químico. O percurso de construção de um espaço de práticas experimentais em Química para a formação médica, através dos esforços dos médicos políticos, demonstrou importantes conquistas na primeira metade do século XIX. Os professores da Faculdade de Medicina da Bahia, em contato com as ideias científicas e ilustradas, tornaram o curso médico um saber útil capaz de oferecer subsídios científicos para solucionar os problemas sociais de ordem econômica, industrial e, principalmente, de higiene com o fim de estabelecer o bem estar social. 3.3 As ações Higienistas do Dr. José Vieira Ataliba Tivemos o conhecimento, através dos itens anteriores, que o Dr. José Vieira Ataliba, em suas atividades profissionais na Província da Bahia, apresentou certa regularidade em ações higienistas nos seguintes cargos: Comissão da Saúde, Conselho de Salubridade e Instrução Pública.A relação entre o saber científico e a utilidade prática, a qual correspondeu a um dos pontos das ideias ilustradas, permite apresentar a seguinte questão: como o Dr. José Vieira Ataliba mediou às ações higienistas na realidade baiana? Arquivo Público do Estado da Bahia. Maço: Governo da Província – ‘Correspondência recebida da Escola de Medicina da Bahia (1832-1849). Sessão de arquivo: Colonial e Provincial. No. 4046-1. 59 98 Com a conclusão dos estudos acadêmicos, o Dr. José Vieira Ataliba ao desembarcar, em 1829, na capital baiana, a Medicina concentrava nas cidades de Salvador e Rio de Janeiro os pólos de ensino superior no país. Nesses locais, os professores passaram a construir um perfil de Medicina preventiva cuja finalidade era o comprometimento com a situação social. [...] O Brasil independente viu nascer entre nós a medicina preventiva – outra herança do pensamento ilustrado, especificadamente da própria Revolução Francesa – que preconizava uma intervenção abrangente na vida dos grandes aglomerados urbanos, já então vistos como problemáticos do ponto de vista sanitário. A medicina preventiva trabalhava com a ideia de “polícia da cidade”, ou seja, um conjunto de normas – e de mecanismos de imposição dessas normas – de salubridade do meio ambiente, em especial da limpeza do ar [...] (REIS, 1991, p.248). Os intelectuais das ciências médicas passaram a ser considerados como uma espécie de ‘polícia’. Essa postura assumida pelos médicos, em particular o Dr. José Vieira Ataliba, lhes permitiu fiscalizar os problemas relacionados à higiene e o direito de introduzir elementos de civilidade com o fim de diminuir os problemas sanitários da realidade baiana. Nesse contexto, o historiador Barreto (2005), esclarece que: [...] quando o assunto era higiene e salubridade pública, os médicos baianos não economizaram tinta para tratar da questão. Foi em fins do século XVIII e início do XIX que a higiene pública tornou-se o tema dominante nas esferas eruditas da sociedade, e esteve associada ao progresso e à civilização. Considerando-se que neste período as cidades apresentavam-se sujas, insalubres e impregnadas de odores nauseantes, não se coadunando, portanto,com os padrões modernos, os governantes iniciaram um processo de intervenção na urbe, que consistia na derrubada de prédios deteriorados ou que impediam a circulação do ar; no estudo da localização das casas e do material utilizado na construção; na drenagem, pavimentação, alargamento e iluminação de ruas; na melhoria no suprimento de água potável à população e na organização do sistema de esgotos, para que os dejetos não fossem atirados às ruas (Idem, p.61). As iniciativas médicas voltadas às ações higienistas tiveram a intenção de alavancar o progresso do país e a civilização da sociedade. A rotina do exercício médico instalou-se na dedicação ao combate das epidemias e mortandade. Os médicos com o perfil de ilustrado conseguiram modificar a realidade social a partir de conhecimento científico, a exemplo da Ciência Química, para melhor resolver os problemas sociais. O motivo do caos da saúde pública, segundo os médicos daquela época, era o impedimento da circulação do ar. Com a identificação do fator que ocasionava os problemas de saúde pública foram realizadas fiscalizações dos ambientes e planejamento de uma nova estrutura urbana para a circulação do ar atmosférico. Desta maneira, a ordem era ‘policiar’ e 99 manter a limpeza do ar. Todavia, as ações médicas não se reduziram apenas no olhar para o outro, mas o olhar para si também era importante, pois eles constituíam um exemplo a ser seguido. Os médicos deviam apresentar-se com “boa saúde desde o próprio nascimento, e para manter a reputação, sobretudo junto das pessoas do povo, era conveniente que o médico cuidasse de si, pois, quem cuida mal do seu corpo não parece que venha a cuidar bom dos outros”. Por conta disso, os médicos tivessem conseguido a aprovação da sociedade para desenvolver ações higienistas. (CASTRO, 2011, p. 134). Respaldado em tamanha confiança, o Dr. José Vieira Ataliba foi membro da Comissão da Saúde da Câmara de Salvador60. Nos estudos de Reis (1991), o referido médico atuou na Revolta da Cementeira. A higienização das cidades passaria a fazer parte do dia-a-dia das câmaras [...] Os médicos usaram de várias táticas para influenciar os órgãos agora responsáveis pela saúde pública, sendo uma delas “penetrar na Câmara e agir no seu interior”. A Câmara de Salvador tinha sua Comissão da Saúde, em que 1835 era formada por três membros, os vereadores José Vieira de Faria Aragão Ataliba e João Antunes de Azevedo Chaves, e o médico da Câmara, Prudêncio José de Sousa Brito Cotegipe. Pelo menos os dois primeiros eram também professores da Escola de Medicina da Bahia (idem, p. 276).61. O Dr. José Vieira Ataliba, assim como outros de sua época, foi norteado por explicações científicas baseadas na teoria Pneumática. A contribuição da Química o fez entender as reações dos gases “produzidos pela matéria orgânica em putrefação”. Portanto, o costume de enterrar nos adros das igrejas, motivo principal da revolta da Cementeirada, tornou-se, juntamente, com outras instituições – prisões, hospitais e escolas – os ambientes causadores de doenças físicas (BARRETO, 2005, p 62; REIS, 1991). Nesta perspectiva, as igrejas representaram espaços de confluência de vivos e falecidos. Transformaram-se em templos de materialização do rito: ‘da saúde à doença’. O rito não só corresponderia ao ato de sepultar, mas aos movimentos que desencadeavam situações antes e depois do referido ato de morte. 60 Não conseguimos localizar o período em que o Dr. Ataliba passou a integrar a Comissão da Saúde da Câmara de Salvador. 61 Diferentemente dos dois integrantes que o autor mencionou ser médico da Escola de Medicina da Bahia, o terceiro, o médico da Câmara, Prudêncio José de Sousa Brito Cotegipe, era secretário da instituição de ensino mencionada e, não obstante, foi estudante da mesma turma de Medicina do nosso investigado na Universidade de Coimbra, em 1820 – por ocasião do curso Preparatório e, 1823 – no curso de Medicina. 100 [...] Nos lugares em que as idades são separadas, e também as ocupações, esta passagem é acompanhada por atos especiais, que, por exemplo, constituem para os nossos ofícios, a aprendizagem, e que, entre povos, consistem em cerimônias [...] (VAN GENNEP, 2011, p. 24). As cerimônias de velórios dentro das igrejas católicas, ou seja, os rituais de sepultamento podiam identificar as classes sociais ocupadas pelos indivíduos. Conforme Telles (1800), o catolicismo demonstrou esta situação ao permitir que os enterramentos em seus templos religiosos. [...] no princípio do Christianismo os Catholicos eram mais sensatos; por quanto a Historia nos ensina, que á princípio não sepultavão os corpos nos Templos, mas em cemitérios próprios, e arejados, o que durou por muito tempo, até que em fim o luxo penetrando até o Santuário, quis também acompanhar os homens depois de mortos. Os grandes quizerão prerrogativas até no lugar da sepultura; passarão a ser enterrados nas Igrejas: e finalmente a pureza dos Templos foi manchada pelo dinheiro dos outros [...] (Idem, p. 2). Os funerais, no âmbito do catolicismo, demonstraram suas modificações ao longo do tempo. Envolvidos por crenças, os comportamentos, os gestos, as atitudes dos sujeitos tomaram a proporção de ritualizar dentro dos templos sagrados e de dar ali mesmo o lugar destinado ao descanso eterno do ente querido. Coincidiram no mesmo espaço, os louvores a uma entidade espiritual e o culto sobre aquele que passou a não existir na matéria viva, mas, de certa forma, estavam mais próximos daqueles que vivem. Para o historiador português Catroga (1999): [...] o rito seja sempre acto social de exorcização da morte e de restauração da ordem. É que também a sociedade se move por um desejo de eternidade [...] Não há sociedade sem ritos, aqui entendidos como condutas corporais mais ou menos estereotipadas, às vezes codificadas e institucionalizadas, que exigem um tempo, um espaço cênico e um certo tipo de actores: Deus (ou os antepassados), os oficiantes e os fiéis participantes do espetáculo [...] (p. 11). Com os argumentos científicos, o Dr. Ataliba seguiu suas atividades de fiscalização dos novos espaços que, possivelmente, seriam escolhidos para a construção de um cemitério público. À medida que a ciência Química se comportava como interface das atividades sanitárias, o sujeito Ilustrado materializava a Higiene como área de saber e cientificava as ações de promoção à civilidade (PEREIRA e PITA, 1993). Nesta mesma sintonia, foi criado o Conselho de Salubridade da Bahia, o qual foi instituído na Lei n. 73, de 15 de Junho de 1838. Um órgão de caráter “consultivo” e de pouca interferência na “implantação de políticas de saúde pública”. Teve como principal função a “aplicação da vacina antivaríola”. No Conselho, as funções foram divididas entre médicos, 101 cirurgiões e farmacêuticos, os quais passaram a criticar, a partir dos anos quarenta, o perfil consultivo do Conselho (BARRETO, 2005, 65; REIS, 1991). O Conselho de Salubridade continuou com sua prática consultiva e acrescentou os atributos de ‘policiar’ a higiene da cidade, dar punições e orientações aos moradores da Província da Bahia. Foi a partir desse novo perfil que o Dr. José Vieira Ataliba passou a integrar o órgão. Ele ocupou o cargo de secretário no ano de 1843 e tornou-se presidente, em 1846. Assim, a sua ascensão já demonstrava o seu perfil de habilidoso político62. O Dr. José Vieira Ataliba,nos anos quarenta, do século XIX, já demonstrava certo poder financeiro e prestígio social. Seu caráter de Ilustrado o guiava para a manutenção de certo status dentro do Conselho de Salubridade. Nessa perspectiva, as reflexivas de Nobert Elias (1993) permitem compreender que à divisão das funções entre os sujeitos em uma instituição pode gerar atitudes de competição entre si. E, nessas relações humanas podem ser tratados tanto interesses pessoais quanto coletivos. [...] Da mesma maneira, as relações entre diferentes classes sociais dentro de um domínio tornam-se, com o avanço da divisão de funções, cada vez mais ambivalentes. Nesta situação, também, num espaço mais restrito, grupos cuja existência social é mutuamente dependente, através da divisão de funções, lutam por certas oportunidades [...] as classes ligadas entre si pela divisão de funções são lançadas de um lado para outro, por seus interesses diferentes e contraditórios [...] (Idem, p.147). Submerso na competição entre o interesse pessoal e público, o Dr. José Vieira Ataliba esteve entre adversários e parceiros. Ora, a coexistência entre profissionais médicos, cirurgiões e farmacêuticos foi à representação de que, possivelmente, ele se valeu do distanciamento de certos grupos para filiar-se a outros, cujo objetivo foi a não redução e, se possível, o aumento de poder. Mediante o entendimento da representação de seu deslocamento de função, o registro de 15 de Abril de 1843, em que assina na condição de secretário,pareceu ser significativo de elementos científicos. A Comissão encarregada d’ examinar o additamento á postura n o. 1 do Sen. Desor Chefe de Policia, em que se prohibem no interior da cidade as fabricas de cozer, ou torrar tabaco, as de destilar águas ardentes, as de sabão, óleo, azeite ou qualquer outras que exalarem mephiticos vapores he de parecer, attendendo a natureza das 62 Arquivo da Fundação Gregório de Matos/BA - documentos avulsos, sem identificação de páginas, contidos na série: Conselho de Salubridade (1843-1850). Através dessas fontes não foi possível identificar os períodos em que o Dr. Ataliba esteve como secretário e presidente do Conselho de Salubridade da Bahia. Nesta pesquisa, identificaremos, através das fontes, os possíveis limites temporais sobre sua permanência nas citadas funções. 102 substancias supra mencionadas , que nenhum inconveniente pode rezultar á saúde publica da contaminação dessas fabricas no centro da cidade [...]63 Ao tratar da questão dos vapores, o Dr. José Vieira Ataliba menciona a questão de localização das fábricas – na cidade de Salvador. O fator gerou as seguintes considerações na segunda parte do documento: [...] concordando todavia na precaução, que deve haver relativamente aos tubos da chaminés, os quaes deverão sempre ser construídos de maneira a ficarem superiores ás casas vizinhas, aprezentando consequentemente um diâmetro proporcionado a sua altura, mais para o effeito do incommodo resultante da fumaça p a. os moradores vizinhos, do que pelo ser tornar se methifico.64 Na condição de presidente do Conselho de Salubridade, o Dr. José Vieira Ataliba assinou um parecer referente às condições da prisão ‘Fortaleza do Barbalho’. Esse complexo situava-se ao norte da cidade e sua estrutura física era de um quadrado perfeito, com três baluartes e uma projeção arredondada (VILHENA, 1969, p.228). Figura 02 – Planta baixa da prisão Fortaleza do Barbalho/BA. Fonte: Vilhena (1969), s/p. A Fortaleza do Barbalho recebia o “assassino, o ladrão, o pronunciado, o sentenciado, o ladrão, o infrator das dispozições policiaes, o depositário e etc”. Todavia, cada um desses sujeitos, segundo os Ilustrados do Conselho de Salubridade, eram merecedores de um lugar salubre que evitasse “as poderozas causas das moléstias”. Para os intelectuais, essa maneira era uma forma de manter aqueles agentes num espaço em que não proliferassem as moléstias e, portanto, um meio de civilizá-los 65. 63 Arquivado na Fundação Gregório de Matos/BA. Documento avulso, sem identificação de página. Caixa: Câmara Municipal de Salvador. Seção: Secretaria. Série: Conselho de Salubridade (1843-1850). Estante: 67. Prateleira: 05. 64 Idem. 65 Jornal O Crepúsculo - Parecer do Conselho de Salubridade. Dez, 1846. Ano III. N. 4. p. 51. 103 Recebi do Antecessor de V. Ex.a um officio em data de 14 do corrente, para dirigirme com os Membros do Conselho de Salubridade, que julgasse sufficientes, á Fortaleza do Barbalho, examinar as prisões della e propor as alterações, que se devão fazer, para tornarem-se mais arejadas e claras, e menos capazes de produzirem moléstias. Devolvendo a V. Ex.a o officio do Dezembargador Chefe de Policia, que assistio ao exame, fraqueando-nos as prisões, e a informação do Medico do Partido da Camara Muncipal, vou dar conta de tal incubemcia: e se V. Ex.a considerar culpável a demora, espero que me releve, por ter resultado de cauzas justas.66. A mobilização por uma ação higienista não estava restrita aos membros do Conselho de Salubridade, mas da polícia de força67 e por um médico da Câmara Municipal, o qual nos pareceu ser um reforço de saber médico e político. No caso específico das prisões da Fortaleza do Barbalho, a situação dos presos era de descaso e abandono. Dadas às precárias instalações físicas, o cotidiano e os hábitos dos presos chamaram à atenção do Dr. José Vieira Ataliba, o qual relatou da seguinte forma: [...] o pavimento é molhado, e lamozo constantemente pela água, e ourina, que os prezos espalhão por elle, mormente no lugar mais próximo a um receptáculo para esses liquidos destinado, e quase sempre obstruído: há nesta prizão uma tarimba como as outras, e os vazoz para água e dejecções [...] todas as abobadas continhão presos em numero desproporcionado a sua capacidade, e ao tamanho das tarimbas: todas immundas, baixas, humidas, quentes, escuras, sem ventilação e d’uma atmosphera viciada por exhalações mephiticas, e pela falta de renovação do ar, existindo nas mesmas constantemente as matérias das dejecções: os prezos sem aceio e a todos os respeitos mal vestidos, ociozos, e uzando de maus alimentos [...]68 Como presidente do Conselho de Salubridade, o Dr. José Vieira Ataliba continuou o seu percurso profissional com a intenção de agir em prol da civilização, por meio de atitudes higienistas. Em ofício de 18 de novembro de 1850, ainda como presidente do Conselho de Salubridade, ele assinou o documento em caráter de resposta sobre o assunto de sepultamentos. O Conselho de Salubridade recebeo o officio, em que V.V.S.I. o conselhão se pode ser prejudicial á saúde publica a pratica de se inhumarem dous cadáveres em uma sepultura, adoptada no Cemitério Campo Santo = conforme participação, que se devolves do Fiscal da Freguesia da Victoria: e o Conselho depois de ter reflectido sobre o objecto com toda ? resolveo responder a VVSI que, segundo seu parecer; tal pratica deve ser proscripta por anti-hygienica susceptível d’abusos e inconvenientes [...]69 66 Jornal O Crepúsculo - Parecer do Conselho de Salubridade. Dez, 1846. Ano III. N. 4. p. 52. A expressão ‘polícia de força’ deve ser entendida nesta pesquisa como uma polícia que utiliza armas de fogo para manter a ordem pública. 68 Jornal O Crepúsculo - Parecer do Conselho de Salubridade. Dez, 1846. Ano III. N. 4. p. 51. 69 Arquivado na Fundação Gregório de Matos/BA. Documento avulso, sem identificação de página. Fundo: Câmara Municipal de Salvador. Seção: Secretaria. Série: Conselho de Salubridade (1843-1850). Estante: 67. Prateleira: 05. 67 104 A consulta realizada ao Conselho sobre a questão de sepulturas já nos pareceu que, a figura dos Ilustrados já era consolidada para fins de promover novos costumes na sociedade baiana. Até mesmo a questão dos enterramentos que no passado foi assunto de revolta (1836), tornou-se ação mediada pelos conselheiros. A higiene dos espaços públicos e do zelo com o próprio corpo devia promover mudanças nos comportamentos. Um despertar para outros padrões de condutas instalados na estrutura social. A forma como tratou estas questões, em conjunto com aqueles com quem eram seus parceiros, conduziu o mesmo entendimento nos atestados de professores que queriam permissão para lecionar no ensino de primeiras letras na Bahia. Nos documentos do Conselho de Instrução Pública, nos anos de 1851 a 1853, foram registradas solicitações de suplicantes (professores) a fim de serem encaminhados aos três membros da Comissão da Saúde, entre eles, o nosso investigado, o Dr. Ataliba. O Dr. José Vieira Ataliba com o poder político que o saber médico lhe conferia conseguiu introduzir elementos de civilidade na realidade baiana. Além disso, agregou certo poder simbólico sobre os demais sujeitos que participavam dos mesmos grupos sociais e dessa forma acumulou títulos, prestígio, capital, benefícios e entre outros. A repercussão política, social e educacional que o Dr. José Vieira Ataliba conseguiu na sociedade baiana nos permite considerar que o seu processo de ilustração na cidade de Coimbra e Universidade de Coimbra contribuíram para que ele tivesse realizado uma interrelação entre as experiências de formação com a atuação profissional. Essa possibilidade conduz ao entendimento de um sujeito ilustrado que soube integrar o poder político com o saber médico para promover ações higienistas na Província da Bahia tendo os pressupostos da Ciência Química como interface, na primeira metade do século XIX. 105 Considerações Finais As interpretações sobre Ilustração não são recentes e as produções históricas sobre este processo situadas entre os espaços Portugal e Brasil nos permitiu estar conscientes de que há uma interdependência cultural e científica na formação de sujeitos ilustrados. Com base nisso, esta investigação do percurso de formação e atuação profissional de José Vieira de Faria Aragão Ataliba é um exemplo que contribuiu na compreensão das influências sociais, culturais e científicas dos anos finais do século XVIII, ampliação do debate que cercam os limites temporais de 1820-1853 e para além dele. Objetivamos, com as reflexões do primeiro capítulo, tecer considerações sobre a formação de ilustrados a partir das contribuições das viagens marítimas, propostas pedagógicas de Verney e Ribeiro Sanches para a reformada Universidade de Coimbra e a situação do curso médico nas reformas dos planos de estudos do ano de 1772 e 1812. Através destes três pontos foi possível conhecer as características do processo de ilustração portuguesa. Seguimos os vestígios de um sujeito histórico para identificar, conhecer, interpretar e compreender as complexas tessituras de uma formação e atuação profissional que mereceu ser verificadas à luz das conjunturas contextuais. Apesar dos dois pontos dados a estudo tenham se desenvolvido em duas sociedades: Portugal-Coimbra/ Brasil-Salvador, ficou compreendido que José Vieira de Faria Aragão Ataliba adquiriu na formação médica a capacidade de apreender conhecimentos científicos e captar da experiência vivida elementos necessário para realizar uma nova leitura sobre outros espaços sociais. Com José Vieira de Faria Aragão Ataliba, a quem denominamos um ilustre ‘desconhecido’, questionamos o seu processo de ilustração no início do século XIX e suas atitudes nas ações higienistas empregadas na realidade baiana, no período em que, a elite ilustrada se colocava a desenvolver ações de civilidade naquela sociedade. Por ele, nós identificamos a dependência com os pressupostos teóricos da Ciência Química empregada em cada ação realizada e, inclusive, na atitude de ‘policiar’ a higiene e mediá-la entre um saber médico e um político. O processo de ilustração que trazia em si os emblemas da secularização e racionalidade e, por sua vez, era filiada ao movimento iluminista, também apresentava singularidades próprias de um tempo e espaço. Em Portugal, este processo de ilustração iniciou no período da reforma dos estudos acadêmicos de 1772 e perdurou até as primeiras 106 décadas do século XIX. Com esta compreensão foi possível reconhecer um dinamismo do processo de ilustração de um século para outro. A formação de médicos ilustrados, na primeira metade do século XIX, contou com ritos, com a organização protocolar de documentos e com os conteúdos desenvolvidos em cada disciplina que fizeram o corpus da cultura acadêmica da época de sua reforma, em 1772, instituída pelo Marquês de Pombal. Em seguida, essa estrutura “pombalina” se viu obrigada a ser (re) configurada a fim de acompanhar os conhecimentos da ciência moderna que a cada momento melhorava os seus modelos científicos. Nesta situação juntamente com a decadência dos espaços da instituição de ensino, o baixo nível financeiro e o contexto das revoltas liberais, os congressistas da Faculdade de Medicina aprovaram um plano de estudos, em 1812. Foi por essa (re) configuração que José Vieira de Faria Aragão Ataliba seguiu. Diante disso, essa perspectiva se constituiu como a base de nossa investigação, pois é ponto de inflexão para a formação de um perfil de Ilustrado nas primeiras décadas do século XIX. Nesta época, a diplomação de sujeitos ainda mais voltados para as atividades de prática laboratorial e contato com o espaço hospitalar cresceram e reforçaram uma estrutura de ensino que priorizava o conhecimento histórico, as teorias da ciência e da própria Medicina. A reforma pombalina se projetou, em certa medida, no início do século seguinte. No entanto, associou novas perspectivas científicas, ou seja, contextos que propunham ilustrar o sujeito com capacidade de acompanhar ideias que melhor atendessem a realidade social em que viessem a atuar. Submetido a este tipo de instrução, José Vieira de Faria Aragão Ataliba mediou suas atividades na Bahia por este perfil. Tinha, então, a convicção e a necessidade de atender aquela região tanto no ensino quanto em ações higienistas. Efetivamente, esta sua tendência também foi acompanhada por uma pauta particular que valorizava a sua mobilidade social. De um olhar pragmático e útil às práticas científicas, José Vieira de Faria Aragão Ataliba levava em si as intenções de um grupo engajado a construir um espaço destinado ao ensino de práticas experimentais e atendimento de pedidos para análises químicas de amostra de água. Tal atividade, numa sociedade que vivia em prol de um desenvolvimento social, como uma prática de construção de civilidade, representou, nos longos anos de sua atuação profissional, uma conquista imprescindível para demarcar os postos de referência que os ilustrados conseguiam e sustentavam e, não menos importante, como uma possibilidade de fazer circular, naquele espaço, as novas ideias ilustradas. 107 Paralelamente, a posição assumida de fiscal, secretário e presidente de ordenamento voltado a policiar a higiene da cidade, combater epidemia e mortandade causada por miasma, elevou o ilustre José Vieira de Faria Aragão Ataliba à condição de ‘polícia médica’. Uma expressão que carregava a força de uma intervenção nos espaços públicos e privados que mereciam ser periciados e sentenciados por inadequadas condições de salubridade e ao estado físico de sujeitos que pediam permissão para exercer a docência no ensino de primeiras letras. A dita condição possui seus berços na instância da sociedade portuguesa. Em décadas anteriores, o primeiro código de higiene foi publicado naquele reino, em 1818. No formato de Tratado de Polícia Médica, a obra se constituiu a base norteadora para a uniformidade de um sistema que buscava aplicar os conhecimentos científicos em benefícios dos vassalos portugueses. Por esta intenção, a obra se construiu com o auxílio de outro material de semelhante caráter. Não sendo utilizado na íntegra por questões da ordem do ano de sua tradução, o livro alemão, Polícia Judiciária da Chimica, aplicado a Polícia Médico-Judiciária tornou-se referência e destaque na obra portuguesa. As interpretações das ocorrências de insalubridade precisavam ser justificadas e embasadas cientificamente para que se aplicassem de forma justa as punições que o próprio código judiciário já havia se constituído. Estas proporções da ciência Química ajudaram a materializar e sustentar as ações higienistas. Com isso, foi instituído ao sujeito Ilustrado em geral, José Vieira Ataliba, em particular, a condição de um poder político e de saber médico, a fim de realizar uma leitura da sociedade baiana e propor formas de civilidade. A lógica dos três pontos – ilustração, Ciência Química e ação higienista – encontra sentido desde que seja orientada pela ação de um sujeito. Em atenção ao processo de Ilustração português, a que foi conhecido por abordar o percurso de José Vieira de Faria Aragão Ataliba, a matriz do plano de estudos de 1812 enfatizou, categoricamente, as práticas científicas Química, a inferência dessa ciência na materialização da Higiene como campo e elevou a Medicina, em maior ênfase, à condição social. Apesar de apresentarmos estas considerações, temos consciência de que este estudo estar inacabado. Isto porque ele revela a urgência de questionar e investigar os processos de ilustração, em Portugal, no início do século XIX. Em modo, particular, a instrução que se apresentou na forma de um plano de estudo (re) formado (1812) da proposta pombalina de 1772.Requer um estudo situado e de intercâmbios, como foi o nosso caso 108 (Coimbra/Portugal – Salvador/Brasil).De certa forma é indispensável o trabalho com os documentos históricos sinalizam um suporte considerável para este fim. Diante da fragmentação de fontes, muitas vezes não seriais, ou ainda, avulsas ou sem registros de tinta (escritos) por conta das revoltas liberais e fechamento da Universidade de Coimbra, acreditamos que esta investigação poderá ter futuros desdobramentos. Os investimentos por uma investigação que apresentamos por meio do percurso de um ilustrado, ou seja, na valorização do gênero biográfico do tipo modal, foi importante para o enquadramento contextualizado da formação e atuação do sujeito. Compreender estas tessituras, não nos deixou dúvida de que, José Vieira de Faria Aragão Ataliba, do cargo de professor de Química, tornou-se um ilustrado importante da sociedade baiana. Em uma província que vivia a dualidade de classes e de paisagem (natural e urbana), os seus cargos políticos e no ensino revelaram-se momentos de sua atuação profissional mediados por uma base científica Química. Com isso, os pressupostos científicos permitiram ao ilustrado o suporte necessário para justificar os procedimentos de fiscalização, punição e normatização das ações higienistas na Província da Bahia. Essas posturas assumidas por José Vieira de Faria Aragão Ataliba foram apreendidas em seus anos de experiências conimbricenses, numa relação Brasil-Portugal. Em perspectiva semelhante, esta mesma base concretizou o primeiro código de normas higienistas de Portugal, o qual recolheu os préstimos da cultura germânica. O caminho que traçamos correspondia à relação entre as duas nações, BrasilPortugal. Ao final da investigação, nós identificamos a ocorrência da relação com a Alemanha por meio de um intercâmbio de ideias científicas. Dessa forma, defendemos o quanto é necessário o investimento em pesquisas históricas nos seguimentos da Educação e na Ciência sobre a relação entre Brasil-Portugal no que dita ao processo de Ilustração e o papel da Ciência Química que media as posturas higienistas. Nos vestígios sobre José Vieira de Faria Aragão Ataliba,encontramos indícios para reconhecê-lo com os atributos de uma ilustração portuguesa. Seus conhecimentos e experiências foram aplicados em outro espaço de forma particularizada. O sujeito desta pesquisa foi membro de grupos e agiu politicamente a favor de seus interesses pessoais, por um intercâmbio de ideias científicas enoções de civilidade. 109 REFERÊNCIAS ABREU, Jean Luiz Neves. O corpo, a doença e a saúde: o saber médico Luso-Brasileiro no século XVIII. 2006, 302fl. Tese (Doutorado em História). Programa de Pós-Graduação em História. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2006. AGUIAR, Alberto de. Notícia histórica da Química portuense nas suas relações com o ensino médico no Porto (1772-1925). Porto: Emp. Indust. Grafica do Porto Lda., 1925. ALFONSO-GOLDFARB, Ana Maria; FERRAZ, Márcia Helena Mendes; BELTRAN, Maria Helena Roxo. A historiografia contemporânea e as ciências da matéria: uma longa rota de percalços. In: ALFONSO-GOLDFARB, Ana Maria Et al (Org.). Escrevendo a história da Ciência: tendências, propostas e discussões historiográficas. São Paulo: EDUC/ Livraria Editora da Física/ Fapesp, 2004. ALFONSO-GOLDFARB, Ana Maria. Da alquimia à química. São Paulo: Landy, 2001. ____________________. O que é história da ciência. São Paulo: Brasiliense, 1994. AMARAL, Braz Hermenegildo do. Recordações históricas. Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia; Academia de Letras da Bahia, 2007. ARAÚJO, Ana Cristina. Retórica antijesuítica e legitimação da política reformista. In: PEREIRA,Sara Marques [coord.]. Compêndio Histórico da Universidade de Coimbra. Porto: Campo das Letras, 2008, p.21-23. Disponível em <http://www.lusosofia.net/textos/20111031marques_de_pombal_compendio_historico_da_universidade_de_coimbra.pdf> Acesso em 18out2013. ____________________. Ilustração, pedagogia e ciência em Antonio Nunes Ribeiro Sanches. Revista de História das Ideias. Coimbra, vol. 6, p. 377-394. 1984. Disponível em <http://rhi.fl.uc.pt/vol/06/aaraujo.pdf> Acesso em: 07 dez. 2013. ARÓSTEGUI, Júlio. A pesquisa histórica: teoria e método. Tradução Andréa Dore; revisão técnica José Jobson de Andrade Arruda. Bauru, SP: Edusc, 2006. AZEVEDO, Fernando de. A cultura científica. In:______. A cultura brasileira: introdução a cultura no Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1963. p. 367-430. BADINTER, Elisabeth. As paixões intelectuais: exigência de dignidade (1751-1762). V.2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. BARRETO, Maria Renilda Nery. A medicina luso-brasileira: instituições médicas e populações enfermas em Salvador e Lisboa (1808-1851). 2005, 257fl. Tese (Doutorado em História das Ciências da Saúde) – Casa Oswaldo Cruz - Fiocruz, Rio de Janeiro, 2005. 110 BARROS, José D’Assunção. História, Espaço e Tempo: interações necessárias. Revista Varia História. Belo Horizonte, vol. 22, n. 36 p. 460-475. Jul/Dez. 2005. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/vh/v22n36/v22n36a12.pdf>. Acesso em: 17 fev. 2013. BASTOS, H. Texeira. A vida do estudante em Coimbra: antiga e moderna. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1920. BOCCANERA JÚNIOR, Sílio. Bahia ephigrafica e iconographica. Bahia, 1928. BOTO, Carlota. A dimensão iluminista da reforma pombalina dos estudos: das primeiras letras à universidade. Revista Brasileira de Educação, n. 44, vol. 15, maio/ago, 2010. p.282408. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v15n44/v15n44a06.pdf>. Acesso em 02 jun. 2013. BOXER, Charles R. As vicissitudes do império. In:______. O império marítimo português (1415-1825). Tradução: Anna Olga de Barros Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 29- 216. BRANDÃO, Zaia. A intelligentsia educacional: um percurso com Paschoal Lemme por entre as memórias e as histórias da Escola Nova no Brasil. Bragança Paulista: BRASIL. Coleção de Leis do Império do Brasil.1832, p. 87, Vol.1, pt.I. Disponível em <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37274-3-outubro-1832-563716publicacaooriginal-87775-pl.html> Acesso em 16jun2014. BRIGOLA, João Carlos. O colecionismo científico em Portugal nos finais do antigo regime (1768-1808).In:KURY, Lorelai; GESTEIRA, Heloisa [org.].Ensaios de história das ciências no Brasil: das luzes à nação independente. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2012, p.251-263. BURGUETE, Maria Conceição; MARTINS, Décio Ruivo; FIOLHAIS, Carlos. Evolução dos Estudos Médicos em Coimbra no Século XIX: Contribuição das Ciências Físico-Químicas. In: FIOLHAIS, Carlos (Org). História da Ciência na Universidade de Coimbra (17721933). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013. p. 167-192. BURKE, Piter. Hibridismo Cultural. São Leolpodo: Editora UNISINOS, 2006. CAMBI, Franco. O século XVII: laicização educativa e racionalismo pedagógico. In:______. História da Pedagogia. Tradução: Álvaro Lorencini. São Paulo: Fundação Editora da Unesp (FEU), 1999, p. 323-376. CARMO, Manfredo Perdigão do. Ciência pura e Ciência aplicada. Revista Matemática Universitária. n. 03. Jun, 1986. Sociedade Brasileira de Matemática. Disponível em <http://matematicauniversitaria.ime.usp.br/Conteudo/n03/n03_Artigo01.pdf>. Acesso em 18 abr.2013. 111 CARRARA JÚNIOR, Ernesto; MEIRELLES, Hélio. O ensino e a pesquisa química. In:__________. A indústria química e o desenvolvimento do Brasil: dos primórdios da alquimia ao Brasil imperial (1500-1844). São Paulo: Metalivros, 1996. p. 137-176. CARVALHO, RÔMULO. A actividade pedagógica portuguesa na primeira metade do século XVIII. In:________. História do Ensino de Portugal: desde a fundação da nacionalidade até o fim do Regime de Salazar-Caetano. 3ª Ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. p. 385-422. ____________________. A história natural em Portugal no século XVIII. Lisboa. 1987. CARVALHO JÚNIOR, Eduardo Teixeira de. Verney e a questão do Iluminismo em Portugal. In: Doré, Andréa; SANTOS, Antonio Cesar de Almeida. Temas setecentistas: governos e populações no império português. Curitiba:UFPR-SCHILA/ Fundação Araucária, 2008. CASCÃO, Rui. Vida quotidiana e sociabilidade. In: MATTOSO, José. (Org.) et al. História de Portugal: o Liberalismo (1807-1890). Vol. 5 Lisboa: Estampa, 1993, p. 213- 251. CASTRO, Rodrigo de. O Médico Político ou Tratado sobre os Deveres Médico-Políticos. Lisboa: Colibri, 2011. CASTRO, Hebe. História social. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (org.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 4559. CATROGA, Fernando. O céu da memória: cemitério romântico e culto cívico dos mortos. Coimbra: Minerva, 1999. CAVALCANTE, Maria Juraci Maia [et al]. História da Educação: república, escola e religião. Fortaleza: Edições UFC, 2012. ____________________________________. História da Educação Comparada: discursos, ritos e símbolos da educação população, cívica e religiosa. Fortaleza: Edições UFC, 2011. COSTA, Antonio M. Amorim. De Stahl a Lavoisier em Portugal setecentista. Boletim da Sociedade Portuguesa de Química. N. 32/33, série II, 1988, p.8-10. Disponível em <http://periodicos.spq.pt/Boletim/BSPQ_N32%20a%2033/BSPQ_N32%20a%2033.pdf> Acesso em 01dez2013. _________________________. As experiências com ”globos volantes” realizados em Coimbra em 1874. Prelo: Revista da Imprensa Nacional/ Casa da Moeda. Lisboa, n. 6, Jan-Mar, 1985, p. 104-115. CRENIVALDO, Regis Veloso Júnior. “Os curiosos da natureza”: Freire-Allemão e as práticas etnográficas no Brasil do século XVIII. 2013, 191fl. Dissertação (Mestrado em História Social). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013. 112 CRESPO, Jorge. A história do corpo. Lisboa: Difel, 1990. CRUZ, Ana Lúcia Rocha Barbalho da; PEREIRA, Magnus Roberto de Mello. Ciência, identidade e quotidiano. Alguns aspectos da presença de estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra, na conjuntura final do período colonial. Revista de História da Sociedade e da Cultura. N. 9, 2009. p.205-228. Disponível em <http://www.uc.pt/chsc/rhsc/rhsc_9/rhsc9_205-228_abc-mml.pdf> Acesso em 12 fev.2013. DIAS, Maria Odila Leite da Silva. A interiorização da Metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2005. DOMINGUES, Ângela. Viagens e viajantes europeus e descrições do Brasil: a correspondência de Leopoldina e o paradisíaco Brasil. In: KURY, Lorelai; GESTEIRA, Heloisa [org.]. Ensaios de história das ciências no Brasil: das luzes à nação independente. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2012, p. 251-263. ___________________. Para um melhor conhecimento dos domínios coloniais:a constituição de redes de informação no império português em finais do setecentos. História, Ciências e Saúde – Manguinhos. Vol. III (suplemento), Rio de Janeiro, 2001, p. 823-838. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702001000500002&script=sci_arttext Acesso em 14 mar. 2014. ELIAS, Norbert. O processo civilizador: formação do Estado e civilização. Vol. 2, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. ______________. O processo civilizador: uma história dos costumes. Vol. 1, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994. ESTANQUE, Elísio. Cultura Acadêmica e movimento estudantil em Coimbra. Revista Teoria e Pesquisa. Vol. XVI, no2, Jul/Dez. 2007. Disponível em <http://www.amigoscoimbra70.pt/download/Trabalhos%20Sobre%20o%20Movimento%20A ssociativo/2007_07_01_A_El%C3%ADsio_Estanque__Cultura_Acad%C3%A9mica_e_Movimento_Estudantil_em_Coimbra.pdf> Acesso em 11set. 2013. FALCON, Francisco José Calanzans. Da ilustração à revolução – percursos ao longo do espaço – tempo setecentista. Acervo: Revista do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro, vol. 4, n. 1, jan.-jun., 1989,p. 53-87. Disponível em <http://www.arquivonacional.gov.br/media/v.4,%20n.1,%20jan,%20jun,%201989.pdf> Acesso em 09 set. 2013. FERRAZ, Márcia Helena Mendes. As ciências em Portugal e no Brasil (1772-1822): o texto conflituoso da química. São Paulo: EDUC, 1997. 113 FIOLHAIS, Carlos; MARTINS, Décio. A reforma da Universidade de Coimbra. In:_________. Breve história da ciência em Portugal. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2010. p.39-51. FONSECA, Thais Nívia de Lima e. Iluminismo e Reforma: civilidade, educação moral e práticas culturais dos professores régios. In: VII JORNADA SETECENTISTA. Anais... Curitiba, 2007. FONSECA, Fernando Taveira da. Scientiae thesaurus mirabilis: estudantes de origem brasileira na Universidade de Coimbra (1601-1850). Revista Portuguesa de História. T.XXXIII, 1999. Disponível em <https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/12701/1/Fernando%20Taveira%20da%20Fons eca%2033%20vol%202.PDF> Acesso em 03 dez.2013. FRANCO, José Eduardo. A reforma pombalina da Universidade Portuguesa no quadro da reforma anti-jesuítica da Educação. In: PEREIRA, Sara Marques [coord.]. Compêndio Histórico da Universidade de Coimbra. Porto: Campo das Letras, 2008, p.17-20. Disponível em <http://www.lusosofia.net/textos/20111031- marques_de_pombal_compendio_historico_da_universidade_de_coimbra.pdf> Acesso em 18out2013. KAZAMIAS, Andreas M. Educação Comparada: uma reflexão histórica. In: COWEN, Robert; KAZAMIAS, Andreas M.; ULTERHALTER, Elaine. Educação Comparada: panorama internacional e perspectivas. Vol. 1. Brasília: UNESCO, CAPES, 2012, p. 173-196. KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva S.A., 1998. LE GOFF, Jacques. História. In:______. História e memória. Tradução: Bernardo Leitão... [et al.]. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990. p. 17-146. _________________. Memória. In:______. História e memória. Tradução: Bernardo Leitão... [et al.]. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990. p. 423-477. _________________. Documento/Monumento. In:______. História e memória. Tradução: Bernardo Leitão... [et al.]. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990. p. 535-549. LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: AMADO, Janaína; FERREIRA, Marieta de Moraes [coord.]. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002, p. 167-182. _____________. Sobre a micro-história. In: BURKE, Piter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992. p.133-161. _____________. Les usages de la biographie. In: Annales. Économies, Sociétes, Civilisations. 44e. année, No 6, 1989. p.1325-1336. Disponível em 114 <http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/ahess_03952649_1989_num_44_6_283658> Acesso em 12 abr.2014. LOPES, Eliane Marta Teixeira; LOPES, Ana Maria de Oliveira Galvão. Território plural: a pesquisa em História da Educação. São Paulo: Ática, 2010. MACIEL, B.S.L.; SHIGUNOV NETO, A. A educação brasileira no período Pombalino: uma análise histórica das reformas pombalinas do ensino. Educação e Pesquisa. São Paulo, Vol.32, n. 3, p. 465-476, set/dez.2006. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/ep/v32n3/a03v32n3.pdf> Acesso em 22 abr. 2014. MADEIRA, Ana Isabel. A construção do saber comparado em educação: uma análise sócio-histórica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011. MARQUES, A. H. de Oliveira. As luzes. In:________.História de Portugal: do Renascimento às Revoluções Liberais. Vol. II, Lisboa: Presença, 1998. p. 331-359. MATHIAS, Simão. Evolução da química no Brasil. In: MOTOYAMA, Shozo (Org). História das ciências no Brasil. São Paulo: EPU, Ed. da Universidade de São Paulo, 1979. p.101-110. MARTINS, Décio Ruivo. Amorim da Costa – o historiador de química. In: FORMOSINHO, Sebastião J.; BURROWS, Hugh D. Sementes da Ciência: livro de homenagem António Marinho Amorim Costa. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011, p. 11-50. MATOS, Luis A. de Oliveiro. D. Pedro e as dificuldades externas da causa liberal (18261834). Actas do Congresso Internacional D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal: do absolutismo ao liberalismo. Porto: 1998. Disponível em <http://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/54031/2/loliveiraramosdpedro000121276.pdf> Acesso em 14 fev. 2014. MAXELL, Kenneth. Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. Trad. Antônio de Pádua Danesi. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. MENDES, Alexandre Claro. O verdadeiro método de estudar: o impasse entre o antigo e o moderno. 2006, 83fl. Dissertação (Mestrado em História da Ciência). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2006. MENDES, José Amado. O contributo da biografia para o estudo das elites locais: alguns exemplos. Análise social: Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Vol. XXVIII (116-117), 1992. p. 357-365. Disponível em <http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223054015V8hLU3da0Zq71UH1.pdf> Acesso em 14 abr. 2014. MOTA, Guilhermina. Famílias em Coimbra nos séculos XVIII e XIX. Revista de História da Sociedade e da Cultura. N. 10, Tomo II, 2010. p. 353-385. Disponível em <http://www.uc.pt/en/chsc/rhsc/rhsc_10/rhsc102_353-385_gm.pdf> Acesso em 11 set.2013. 115 MUNTEAL FILHO, Oswaldo. Domenico Vandelli no anfiteatro da natureza: a cultura científica do reformismo ilustrado português na crise do antigo regime colonial (1779-1808). 1993, 257fl. Dissertação (Mestrado em História). Departamento de Histórica. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1993. NEVES, Guilherme P. C. Pereira das. O Seminário de Olinda: educação, cultura e política nos tempos modernos. 1984, 602fl. Dissertação (Mestrado em História). Departamento de História. Universidade Federal Fluminense. Niterói, 1984. Vol. 1 e 2. OLIVEIRA, Almir Leal. As viagens científicas e narrativas naturalistas: as problemáticas evolutivas no Ceará. In: CAVALCANTE, Maria Juraci Maia [et al]. História da Educação Comparada: missões, expedições, instituições e intercâmbios. Fortaleza: Edições UFC, 2013. p. 253-272. OLIVEIRA, José António. A igreja e a instauração do liberalismo em Portugal: D. João de Magalhães e Avelar e Frei Manuel de Santa Inês (1816-1840). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009. OLIVEIRA, Eduardo de Sá. Memória História da Faculdade de Medicina da Bahia: concernente ao ano de 1942. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1992. PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui. Farmácia e saúde em Portugal: de finais do século XVIII a inícios do século XIX. In: Formosinho, Sebastião J., BURROWS, Hugh D. [org.]. Sementes de ciência: livro em homenagem a Antonio Marinho Amorim da Costa. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011, p. 205-232. ______________________________. Liturgia Higienista no Século XIX: Pistas para um Estudo. Revista de História das Ideias. Vol. 15. Coimbra, 1993. PEREIRA, António Pacífico. Memória sobre a medicina na Bahia. Bahia: Imprensa Official do Estado, 1923. PIRES, Catarina Pereira; PEREIRA, Gilberto Gonçalves. Museu da ciência da Universidade de Coimbra: valorização de um patrimônio científico secular. In: GRANATO, Marcus, LOURENÇO, Marta C. Coleções científicas luso-brasileiras: patrimônio a ser descoberto. Rio de Janeiro: MAST, 2010, p. 185-210. PINHO, Wanderley. A Bahia, 1808-1856. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira. Tomo II - Dispersão e unidade. Rio de Janeiro; Bertand Brasil, 2004, p.279-358. PROENÇA, Maria Cândida. A independência do Brasil. Lisboa: Colibri, 1999. RAMINELLI, Ronald. Viagens Ultramarinas: monarcas, vassalos e governo a distância. São Paulo, Alameda, 2008. 116 RAMOS JÚNIOR, Nelson de Campos. Mediador das luzes: concepções de progresso e ciência em António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783). 2013, 122fl. Dissertação (Mestrado em História Social). Universidade de São Paulo. São Paulo, 2013. RANKETAT JÚNIOR, César. Laicidade, laicismo e secularização: definindo e esclarecendo conceitos. Revista Sociais e Humanas, n.1, vol. 21, set/dez, 2008. p. 53-66. Disponível em <http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/sociaisehumanas/article/view/773>Acesso em12 maio 2013. REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. RIOS, Vénetia Durando Braga. Entre a vida e a morte: médicos, medicina e medicalização na cidade de Salvador (1860-1880). 2001, 179fl. Dissertação (Mestrado em História Social). Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2001. ROCHA, Clara Crabbé. Medicina e Literatura. In: VILAR, Emílio Rui (Org.). Medicina e outras Artes. Lisboa: Fundação Calouster Gulbenkian, 2007.p. 39-60. RODRIGUES, Elton. Os caminhos da institucionalização da Física Experimental em Portugal na segunda metade do século XVIII. 2007, 108fl. Dissertação (Mestrado em História da Ciência). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, São Paulo, 2007. RODRIGUES, Manuel Augusto. Chronologia Historieae Universitatis Conimbrigensis. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 1998. ____________________________. A biblioteca de António Nunes Ribeiro Sanches. Coimbra: Coimbra Editora LDA., 1986. Disponível em <https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/14449/1/A%20biblioteca%20de%20Ant%C3% B3nio%20Nunes%20Ribeiro%20Sanches.pdf> Acesso em 13 dez. 2013. SANTOS, Adailton Ferreira dos. Escola tropicalista baiana: registro de uma nova ciência na Gazeta Médica da Bahia (1866-1889). 2008, 107fl. Dissertação (Mestrado em História da Ciência). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, São Paulo, 2008. ______________________________. A Universidade de Coimbra e a influência de autores alemães no século XVIII. In.______. A Universidade de Coimbra: figuras e factos da sua história. Porto: Campo das Letras, 2007, 629-646. SANTOS, Maria Alcina R. C. Afonso dos. A vida pública de Sebastião José de Carvalho e Mello em Viena de Áustria (1744-1749). Revista de História das Idéias, vol. 4 Tomo I, 1982, p. 29 – 39. Disponível em <http://rhi.fl.uc.pt/vol/04/msantos.pdf> Acesso em 2 março 2014. 117 SILVA, Iverson Geraldo da. Verney e a Ilustração Católica: uma modernidade singular. 2008, 94fl. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal de Juiz de Fora. Juiz de Fora, 2008. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A cultura luso-brasileira: da reforma da Universidade à independência do Brasil. Lisboa: Estampa, 1999. SOUZA, Paulo César de. A sabinada: a revolta separatista da Bahia – 1837. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11ed. São Paulo: Ed. da UNESP; Salvador: EDUFBA, 2008. THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. VAN GENNEP, Arnold. Classificação dos ritos. In:________. Os Ritos de Passagem: estudo sistemático dos ritos da porta e da soleira, da hospitalidade, da adoção, gravidez e parto, nascimento, infância, puberdade, iniciação, ordenação, coroação, noivado, casamento, funerais, estações, etc. Petrópolis: Vozes, 2011. p. 23-32. VAQUINHAS, Irene. A redefinição do público e do privado (1820-1950). In: MATTOSO, José; VAQUINHAS, Irene. História da vida privada em Portugal: a época contemporânea. Círculo de leitores e temas e debates, 2011. p. 6-20. VARELA, Alex Gonçalves. “Juro-lhe pela honra de bom vassalo e bom português”: análise das memórias científicas de José Bonifácio de Andrade e Silva (1780-1819). São Paulo: Annablume, 2006. VARGUES, Isabel Nobre. O Processo de Formação do Primeiro Movimento Liberal: a Revolução de 1820. In: MATTOSO, José. (Org.) et al. História de Portugal: o Liberalismo (1807-1890). Vol. 5 Lisboa: Estampa, 1993, p. 45-64. _____________________; TORGAL, Luís Reis. Da Revolução à Contra-Revolução: vintismo, cartismo, absolutismo - O Exílio Político. In: MATTOSO, José. (Org.) et al. História de Portugal: o Liberalismo (1807-1890). Vol. 5 Lisboa: Estampa, 1993, p. 65- 87. ______________________________________. Ideologia e práticas políticas. In: MATTOSO, José. (Org.) et al. História de Portugal: o Liberalismo (1807-1890). Vol. 5 Lisboa: Estampa, 1993, p. 213- 251. VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII. Vol. I. Salvador: Itapuã, 1969. ___________________________________________. Vol.2. Salvador: Ipauã, 1969. 118 FONTES DE PESQUISA ARQUIVO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA BRASILIA: Estudantes da Universidade de Coimbra nascidos no Brasil. Suplemento ao vol. IV. Coimbra: Universidade de Coimbra – Faculdade de Letras, 1949. p.445. CARTA de Curso. Cota: IV-2º D-13-1-16. CERTIDÃO de Idade.Vol. 34 (1772-1833), p. 42 (frente e verso). Cota: IV-1ª D- 5-2-34. DOCUMENTOS Avulsos – Congregação da Faculdade de Filosofia (1777-1783). Cota: IV-1ª D- 3-1-103. LIVRO de Matrículas (1827-1828), vol. 55. Cota: IV - 1ª D –2 –4 - 47 MEDICINA Acta – 1822-1841’. Cota: IV-1ª D-3-1-85 MEDICINA Actos e Graus. Cota: IV-1ª E- 4 - 4-51. p. 58; 100; 150. MEDICINA Pontos (1820-21 a 1839-40), Livro 4. Cota: IV-2ª D-8-3-115 PROCESSO de Polícia Acadêmica (1827-1854). Cota: IV-1ª E-10-5-6 RELAÇÃO, e Índice Alphabetico dos Estudantes Matriculados na Universidade de Coimbra. 1814 a 1822; 1822 a 1831. ARQUIVO TORRE DO TOMBO OFÍCIOS e Diversos. ANTT – Ministério do Reino. Universidade Contas e Propostas (18211823). Caixa: 639, Maço: 513, Classe: 5º , Divisão 14º . OFÍCIOS e Diversos. ANTT – Ministério do Reino. Universidade Contas e Propostas (18101820). Caixa: 513, Maço: 513, Classe: 5º , Divisão 14º . BIBLIOTECA DA UNIVERSIDADE DE COIMBA CULLE, M.D. Traité de Matière Médicale. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1810. 119 __________. Elémens de medecine – Pratic II. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1810. __________. Elémens de medecine – Pratic I. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1809. MIRABEU, Bernardo Antônio Serra de. Memória Histórica e Commemorativa da Faculdade de Medicina nos Cem anos Decorridos: Desde a Reforma da Universidade de 1772 até o Presente. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1872. TELLES, Vicente Coelho de Seabra Silva. Memória sobre os prejuisos causados pelas sepulturas dos cadáveres nos templos, e methodo de os prevenir. Lisboa: Offic. Da Casa Litteraria do Arco do Cego, 1800. SANCHES, António Nunes Ribeiro. Tratado de conservação da saúde dos povos. Vol. 2. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1966. SOARES, José Pinheiro de Freitas. Tratado de polícia médica. Lisboa: Typografia da Academia Real das Sciencias, 1818. ARQUIVO FUNDAÇÃO GREGÓRIO DE MATOS POSSE Juramento dos Juízes 1829 – 1838. Fundo: Câmara Municipal de Salvador. Seção: Secretaria. Série: Juízes de Paz (1829-1877). Estante: 68. Prateleira: 04. CONSELHO de Salubridade 1843-1850. Fundo: Câmara Municipal de Salvador. Seção: Secretaria. Estante n. 67. Prateleira n. 05. INSTRUÇÃO Pública 1829-1879. Fundo: Câmara Municipal de Salvador. Seção: Secretaria. Estante: 68. Prateleira: 03 ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA ALMANAQUE Civil político e comercial da Cidade da Bahia para o ano de 1845. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1998, p.306. 120 CORRESPONDÊNCIA Recebida da Escola de Medicina da Bahia. Maço: N. 4046-1, Sessão de Arquivo: Colonial e Provincial – “Governo da Província”. INSTRUÇÃO Pública. Maço: n. 6526 – (1852-1853). ARQUIVO DA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA ACTA da Congregação da Faculdade de Medicina da Bahia – 1816- 1855. QUEIROZ, Alexandre José de. Traços biográficos do Dr. Ataliba. In: Gazeta Médica da Bahia. Publicação Mensal, n. 4, out. 1882. p. 163-169. TESE de José Antonio de Freitas Junior. “Proposições sobre a influência do estado social na produção das moléstias”. Defendida em 01 de dezembro de 1853. JORNAIS – Hemeroteca Digital Brasileira. CORREIO Mercantil: jornal político, commercial e litterario: Ano. III. N.586. p.1. Ano. III. N.621. p.4. Ano. III. N.624. p.4. Ano. III. N.630. p.4 Ano. III. N.634. p.4 Ano. IV. N.002. p.4 Ano. VII.N.082. p.4 Ano: XI. N. 203, p. 01 GUAYCURU N. 87 e 88, p. 349. N. 90, p. 2. 121 CORREIO Sergipense Ano: XVI, N. 76, p.3. O CREPÚSCULO Ano.III. N. 4. p. 51. ELETRÔNICA ESTATUTOS da Universidade de Coimbra. Lisboa: Régia Officina Typografica, 1772 – Vol.3. Disponível em <https://bdigital.sib.uc.pt/bg1/UCBG-R-44-3_3/UCBG-R-44- 3_3_master/UCBG-R-44-5/UCBG-R-44-5_item1/index.html> Acesso em 16ago2013. 122 ANEXO ANEXO A– CERTIFICADO DE GRAU DE BACHAREL EM MEDICINA DE JOSÉ VIEIRA DE FARIA ARAGÃO ATALIBA Fonte: Arquivo da Universidade de Coimbra. Cartas de Curso (1827) Medicina – 3ª Série. Caixa: 38. Cota: 2ª D- 13- 1-16.