PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC/SP MARIA CONCEIÇÃO BORGES DANTAS A PRÁTICA PEDAGÓGICA DO ASSISTENTE SOCIAL DOCENTE: CONTRADIÇÕES E POSSIBILIDADES MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL São Paulo 2012 MARIA CONCEIÇÃO BORGES DANTAS A PRÁTICA PEDAGÓGICA DO ASSISTENTE SOCIAL DOCENTE: CONTRADIÇÕES E POSSIBILIDADES MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL SÃO PAULO 2012 MARIA CONCEIÇÃO BORGES DANTAS A PRÁTICA PEDAGÓGICA DO ASSISTENTE SOCIAL DOCENTE: CONTRADIÇÕES E POSSIBILIDADES Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Serviço Social, sob a orientação do Prof. Dr. Ademir Alves da Silva. São Paulo 2012 BANCA EXAMINADORA _____________________________________________ _____________________________________________ _____________________________________________ Dedico esta dissertação aos alunos do curso de Serviço Social da Unicastelo, em especial às turmas do 8º, 7º, 6º e 5º semestres noturno, as primeiras turmas para quem lecionei e que me motivaram, incentivaram, colaboraram para a construção de minha prática pedagógica como assistente social docente e influenciaram a escolha dessa temática como objeto de meu estudo. À vocês, muito obrigada! AGRADECIMENTOS A Miguel, meu filho, que está por chegar, mas que já tem me ensinado tanto, sendo com certeza o maior incentivador para que eu concluísse este trabalho. A Alexandre, companheiro que tem dividido comigo meus sonhos e projetos. Obrigada pelo apoio e incentivo! A meu Pai, que apesar das dificuldades que tem enfrentado, demonstra o quanto confia em mim e me lembra todos os dias do quanto eu sou capaz de lidar com as adversidades da vida. À minha mãe (in memoriam), que infelizmente não acompanhou em vida esse processo, mas é uma das grandes responsáveis pela realização desse sonho, pois foi ela quem plantou a sementinha da importância da educação em minha vida. À minha família, que sempre me apoia em meus projetos e me incentiva a realizá-los, em especial à Ivone – cunhada, irmã, amiga, cúmplice, que durante todo esse processo me acalmou quando necessário, mas também me animou quando pensei em desistir. Aos meus colegas docentes da Unicastelo, instituição privada de ensino superior , com quem durante esses três anos tenho vivenciado as contradições e possibilidades da prática pedagógica do docente. Em especial, fica meu carinho e agradecimento à: Vânia Noeli, Tânia, Silvana, Patrícia, Ronaldo, Zilmar, Rodnei, Clécio, Danilo e Daniele. Obrigada por tudo que me ensinaram e por terem compartilhado comigo o projeto de uma educação crítica. Lamento que alguns de vocês não estejam mais na instituição. Aos professores do curso de Serviço Social que junto comigo acreditaram na construção de um Projeto Pedagógico no qual fosse possível articular uma concepção crítica de educação e a defesa do projeto profissional do Serviço Social, mesmo em uma instituição privada. Durante esse percurso, vocês colaboraram para o meu amadurecimento intelectual e crescimento profissional. Em especial, agradeço à Fernanda, Rodrigo, Solange e Daniela, que iniciaram esse projeto e hoje não fazem mais parte desse grupo, mas me mostraram a importância de fazermos escolhas éticas, políticas e teóricas de acordo com a profissão, mesmo que isso signifique uma demissão. Agradeço imensamente a Camila e Fran, pessoas amáveis que ainda hoje compartilham comigo as possibilidades da docência. Obrigada por tudo, meninas! À Solange, amiga que ganhei ao longo dessa caminhada. Obrigada por tudo que me ensinou, pelas conversas infindáveis, pelas reflexões, pela “paciência pedagógica” e por todo apoio, carinho, amizade, respeito que me ofereceu nesse caminho. Às colegas da pós-graduação, em especial à Toninha, Luciana e Viviane, mulheres de garra, fibra e coragem que junto comigo vivenciaram esse processo do mestrado, e me mostraram durante esse caminhar que quando temos a oportunidade de compartilhar as dificuldades e facilidades com pessoas que gostamos, respeitamos e admiramos tudo fica mais fácil. Parabéns para nós, meninas! Aos professores do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social, que com toda humildade, conhecimento e respeito foram essenciais para que eu pudesse concluir este trabalho. Cada reflexão feita, cada texto lido, cada conversa em sala de aula foram decisivos na construção do produto final de minha dissertação. Em especial, fica meu respeito, admiração e agradecimento à Professora Drª Maria Carmelita Yasbek, à Professora Drª Maria Lúcia Martinelli, ao Professor José Paulo Netto, ao Professor Dr. Lúcio Flávio e à Professora Drª Maria Lucia de Carvalho. Ao Professor Ademir, meu orientador, que ao longo do processo possibilitou com TODA sabedoria, respeito, diálogo e ética que eu pudesse me desenvolver, crescer e amadurecer intelectualmente, mesmo que por vezes nem eu acreditasse que seria capaz. Obrigada, por tudo, mestre! Á Capes, agência de fomento, pela concessão da bolsa de estudo, imprescindível para a concretização do mestrado. “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros”. Che Guevara RESUMO Este trabalho busca refletir sobre a prática pedagógica do assistente social docente. O tema de estudo foi escolhido devido à trajetória da pesquisadora, cuja aproximação com a temática da educação na graduação foi potencializada devido à sua inserção na docência no ano de 2010. O objetivo do estudo é compreender a construção da prática pedagógica do assistente social docente e sua relação com os elementos teóricos, políticos e éticos inerentes à formação do Serviço Social. Para a realização do estudo optou-se pela metodologia da pesquisa qualitativa, visto que essa possibilita analisar o fenômeno a partir de seu movimento na realidade e na interação com o sujeito. A pesquisa foi efetuada por meio de um estudo bibliográfico das temáticas educação, ensino superior, formação em Serviço Social e projeto ético-político da profissão somado à realização de uma pesquisa de campo realizada através da técnica de entrevista semiestruturada com seis assistentes sociais que trabalham como docentes no curso de Serviço Social. Optou-se por entrevistar assistentes sociais que tiveram sua inserção na docência em diversos espaços de tempo e em diferentes locais de trabalho, objetivando, desta forma, contemplar a heterogeneidade do universo pesquisado. Os dados colhidos e analisados estão apresentados em três categorias: educação, ensino superior e prática pedagógica do assistente social docente. Constatou-se que os sujeitos da pesquisa defendem uma perspectiva crítica de educação, que está associada à defesa do projeto profissional do Serviço Social e a um modelo societário emancipador. Porém, realmente pensar a defesa desses projetos, assim como sua articulação no atual cenário do ensino superior no Brasil tem sido uma das grandes dificuldades devido à expansão desenfreada do ensino superior no campo privado, que tem fortalecido a tendência mercantilizante da educação, sendo exatamente essa disputa de projetos responsável pelo acirramento das contradições presentes na construção da prática pedagógica do assistente social docente, que, de acordo com a pesquisa, tem sido pautada por um permanente processo de construção e qualificação, em que os princípios norteadores do projeto ético-político são considerados elementos centrais, assim como a participação nas entidades organizativas da categoria, como a ABEPSS, e a necessidade de organização coletiva desses docentes, aspectos esses que são vistos como alternativas de enfrentamento ao processo de precarização das condições de trabalho e formação. Destarte, a particularidade do assistente social docente reside na defesa do projeto ético-político da profissão, que não é feita pela totalidade dos profissionais, mas que em nossa pesquisa foi destacada e enfatizada pelos sujeitos. Palavras-chave: prática pedagógica do assistente social docente; projeto ético-político; formação em Serviço Social. ABSTRACT This work studies the pedagogical practice of the social worker and college professor. The theme was chosen because of the researcher’s career. The objective of the study is to understand the construction of pedagogical practice of the social worker and college professor, and his relationship with the theoretical elements, political and ethical issues inherent in the formation of social work. The methodology is qualitative research, because this methodology allows us to analyze the phenomenon from the reality and the interaction with the subject. The research was done through literature research of the themes: education, higher education, vocational training in social work and ethical-political project of profession. Also was done through field research with interviews with six social workers and college professors. The data were presented in three categories: education, higher education and pedagogical practice of the social worker and college professor. It was found that the research subjects defend a critical perspective of education, the professional project of social work, and an emancipatory model of society. However, in Brazil, in actuality, has occurred the expansion of private higher education and the strengthening of the commodifying of education. This dispute is responsible for the intensification of the contradictions in the construction of pedagogical practice of the social worker and college professor. According to the research, the pedagogical practice has been guided by the ongoing construction process and qualification. Therefore, the particularity of the social worker and college professor is defending the ethical-political project of the profession. Keywords: pedagogical practice of the social worker and college professor; ethical-political project; vocational training in social work. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ANL – Aliança Nacional Libertadora ABAS – Associação Brasileira de Assistentes Sociais ABEPSS – Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social ABESS – Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social ANAS – Associação Nacional de Assistentes Sociais ALAEITS – Associación Latinoamericana de Enseñanza e Investigácion em Trabajo Social BM – Banco Mundial CUT – Central Única dos Trabalhadores CEAS – Centro de Estudos e Ação Social CENEAS – Comissão Executiva Nacional de Entidades Sindicais de Assistentes Sociais CFESS – Conselho Federal de Serviço Social CNE – Conselho Nacional de Educação CRESS – Conselho Regional de Serviço Social DC – Desenvolvimento de Comunidade EAD – Ensino à Distância ESS – Escola de Serviço Social ESSs – Escolas de Serviço Social EUA – Estados Unidos da América ENESSO – Executiva Nacional de Serviço Social FHC – Fernando Henrique Cardoso IES – Instituição de Ensino Superior ISS – Instituto de Serviço Social FITS – Internacional Federation of Social Work LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação MEC – Ministério da Educação e Cultura OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura OMC – Organização Mundial do Comércio ONGs – Organizações Não Governamentais PAIUB – Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras PROUNI – Programa Universidade para Todos REUNI – Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais SINAES – Sistema de Avaliação Nacional do Ensino Superior UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro SUMÁRIO INTRODUÇÃO .................................................................................................. 14 1. ENSINO SUPERIOR NO BRASIL .............................................................. 18 1.1 Antecedentes históricos do ensino superior no Brasil ............... 19 1.2 As tendências do ensino superior na atualidade ........................ 33 2. EDUCAÇÃO, FORMAÇÃO E DOCÊNCIA NO CURSO DE SERVIÇO SOCIAL .............................................................................................................. 42 2.1 A concepção de educação e o Serviço Social ............................... 43 2.2 Aspectos históricos do surgimento e consolidação do Serviço Social no Brasil ................................................................................................. 52 2.3 O processo de construção do projeto de formação em Serviço Social .................................................................................................................. 70 2.4 A prática pedagógica do assistente social docente no curso de Serviço Social .................................................................................................... 79 3. O ASSISTENTE SOCIAL DOCENTE E O PEDAGÓGICO NA DOCÊNCIA: IDENTIDADE E UNIDADE, LIMITES E POSSIBILIDADES. ............................................................................................................................. 88 3.1 Educação ........................................................................................... 92 3.1.1 A concepção de educação ............................................................ 92 3.1.2 Referências teóricas da educação .............................................. 96 3.1.3 Relação com a temática da educação ...................................... 100 3.2 Política de educação superior ...................................................... 102 3.2.1 Avaliação da política de educação no ensino superior ......... 102 3.2.2 Dificuldades e possibilidades na efetivação da política educacional do ensino superior .................................................................... 107 3.3 Prática pedagógica do assistente social docente ....................... 109 3.3.1 Formação para o exercício da docência .................................. 110 3.3.2 Caminho percorrido para chegar ao exercício da docência 111 3.3.3 Inserção na docência .................................................................. 114 3.3.4 Construção da prática pedagógica .......................................... 117 3.3.5 Competências e habilidades para o exercício da docência .. 126 3.3.6 Dificuldades e possibilidades da prática pedagógica ............ 130 3.3.7 Relação entre a prática profissional do assistente social e a prática pedagógica do assistente social docente ........................................ 132 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................... 146 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................ 151 ANEXOS .......................................................................................................... 155 14 INTRODUÇÃO O interesse por pesquisar a prática pedagógica do assistente social docente deu-se a partir de minha inserção na docência, aprofundando experiência que já vivenciara na graduação em Serviço Social por meio de uma prática de extensão em que pude formar-me como educadora de alfabetização de jovens e adultos. Tal vivência despertou meu interesse pela temática da educação, que se fez presente durante todo o meu percurso como graduanda em Serviço Social, inclusive através do Trabalho de Conclusão de Curso. É importante destacar que durante a realização da pós-graduação, iniciada no segundo semestre de 2010, tive uma vivência intensa da docência, a qual desde a minha inserção, no 1º semestre de 2010, tem se constituído como minha única atividade laborativa. Nesse período do mestrado, a universidade na qual leciono passou por um processo de extrema precarização das condições de trabalho do docente, assim como do projeto pedagógico do curso de Serviço Social. Inicialmente, a instituição atravessou um período de greve de docentes, em 2010, devido à falta de pagamento de salários, que durou quase dois meses e terminou quando acertaram os pagamentos atrasados. Após a greve, houve perseguição política aos professores mais diretamente envolvidos no processo de mobilização e organização dos docentes, o que veio somado a um intenso processo de precarização do ensino e do trabalho docente, como estratégia de reestruturação da instituição. No caso do curso de Serviço Social, a intensificação do processo de precarização iniciou-se com a demissão da coordenadora do curso no final de 2011, prosseguiu com a demissão de outros colegas no 1º semestre de 2012 e tem sido reafirmada pela mudança na direção teórica e política do projeto pedagógico do curso, que hoje prima pela eliminação de qualquer conflito e/ou disputa de projetos no interior do colegiado do curso. Destarte, foi nesse cenário imbricado de contradições que realizei o projeto do mestrado, estando este imerso em reflexões teóricas que realizei nesse período, mas também refletindo essa intensa vivência de precarização da educação no ensino superior a qual tenho presenciado. 15 O projeto de pesquisa teve por objeto a prática pedagógica do docente assistente social. Tal estudo tinha como objetivo geral compreender a construção da prática pedagógica do assistente social docente e sua relação com os elementos teóricos, políticos e éticos inerentes à formação dos assistentes sociais. Sob essa perspectiva, os objetivos específicos foram: 1) refletir sobre a relação entre a prática pedagógica do assistente social docente e o modelo de educação superior preconizado pela reforma educacional em andamento no Brasil, que vem favorecendo a mercantilização da educação; 2) estabelecer a relação entre a prática pedagógica do docente e a prática profissional do assistente social; e 3) identificar os desafios, limitações e possibilidades de construção de uma prática pedagógica do assistente social docente orientada pelos preceitos teóricos, éticos e políticos do projeto ético-político da profissão. Realizou-se o projeto a partir das seguintes hipóteses: • A tendência mercantilizante da educação no ensino superior consolida o projeto hegemônico em favor dos interesses da classe dominante e dificulta a realização de uma educação emancipatória e libertadora; • A tendência mercantilizante da educação no ensino superior brasileiro representa forte pressão contrária às diretrizes curriculares do curso de Serviço Social e aos princípios ético-políticos e teórico-metodológicos que norteiam a formação do assistente social; • A tensão entre o projeto político-pedagógico do curso de Serviço Social e as tendências da área da educação superior se expressa de modo diferente nas instituições de ensino superior públicas e privadas; • Embora se trate de práticas distintas, a docência em Serviço Social requer conhecimentos, habilidades e atitudes que são específicas do perfil e da prática profissional do assistente social; • À exemplo do que ocorre em diversas áreas acadêmicas/profissionais, no âmbito do Serviço Social, os cursos de pós-graduação stricto sensu não contemplam reflexões sobre a construção da prática pedagógica do assistente social docente. 16 No intuito de responder aos objetivos acima enunciados, assim como ratificar ou retificar as hipóteses construídas, realizamos o estudo com fundamento em uma pesquisa qualitativa a partir de referencial teórico abrangente das seguintes temáticas: concepção de educação, papel da educação na sociedade contemporânea, ensino superior no Brasil, docência em Serviço Social, prática pedagógica do docente, processo de formação em Serviço Social e projeto ético-político. Posteriormente a essas aproximações teóricas, realizou-se uma pesquisa de campo na qual optou-se por entrevistas semiestruturadas com assistentes sociais docentes. Por entendermos ser um percurso metodológico que responderia adequadamente às intenções e objetivos do estudo, optamos pela pesquisa qualitativa. A pesquisa qualitativa, “parte do fundamento de que há uma realidade dinâmica entre o mundo real e o sujeito” (CHIZZOTTI, 1988, p.79), possibilitando uma compreensão do objeto de forma dinâmica, a fim de garantir uma leitura do objetivo de forma a compreender seu movimento dialético na realidade. As entrevistas foram previamente agendadas, todas gravadas, posteriormente transcritas e analisadas. Optou-se por entrevistar 6 (seis) profissionais de Serviço Social que atualmente tem a docência no curso de Serviço Social como atividade laborativa. Os sujeitos foram escolhidos de acordo com os seguintes critérios; • Dois profissionais que exercem há mais de 25 anos a prática da docência no curso de Serviço Social, sendo um de instituição pública e outro de instituição privada; • Dois profissionais que exercem há mais de 10 anos e menos de 25 anos a prática da docência no curso de Serviço Social, sendo um de instituição pública e outro de instituição privada; • Dois profissionais que exercem há menos de 5 anos a prática da docência no curso de Serviço Social, sendo um de instituição pública e outro de instituição privada. A opção por profissionais que desenvolvem há mais e menos tempo a prática da docência, assim como a diferença do seu lócus de trabalho, está relacionada com a intenção de dispor de uma amostra representativa da heterogeneidade do universo em questão, no que diz respeito às percepções e vivências das questões a serem refletidas. A dissertação está estruturada da seguinte forma: 17 O Capítulo 1 consiste em uma aproximação dos antecedentes históricos da educação de ensino superior no Brasil e enfatiza o debate sobre as atuais tendências para o ensino superior. O Capítulo 2 contém uma reflexão sobre as diversas concepções de educação e seu alinhamento com o Serviço Social, assim como resgata um breve histórico do surgimento do Serviço Social, destacando a construção do atual projeto profissional e seus reflexos para pensar a prática pedagógica do assistente social docente. O Capítulo 3 apresenta o desenvolvimento da pesquisa e a análise dos dados a partir de três categorias: educação, ensino superior e prática pedagógica do assistente social docente. Esperamos que este trabalho colabore para o debate crítico, sério e comprometido sobre o exercício da docência no curso de Serviço Social de modo a contribuir com o processo de qualificação dos professores, sejam assistentes sociais ou não. 18 Capítulo I - Ensino superior no Brasil “Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence”. Bertolt Brecht 19 Capítulo I - Ensino superior no Brasil 1.1 Antecedentes históricos do ensino superior no Brasil Segundo Cunha (2007), comparando o Brasil aos demais países da América Latina, tivemos uma inserção tardia da universidade em nosso território, que só ocorreu após a independência do País. No período colonial (1572-1808), de acordo com o autor, o que se tinha, possível de equiparar ao ensino superior, eram as escolas jesuítas que ministravam cursos de Filosofia e Teologia. Os primeiros cursos das escolas jesuítas foram criados no findar no século XVI. Nesse momento a Igreja estava integrada ao aparelho estatal e os jesuítas eram os responsáveis pela educação, desde a catequese dos índios até o ensino dos filhos da classe dominante. Sua atividade educacional principal era a catequese dos indígenas [...] os jesuítas mantinham, nos centros urbanos mais importantes da faixa litorânea, colégios para o ensino das primeiras letras, para o ensino secundário e superior. Eles se destinavam a cumprir tripla função: de um lado, formar padres para a atividade missionária; de outro, formar quadros para o aparelho repressivo; de outro, ainda ilustrar as classes dominantes no local, fossem filhos dos proprietários de terra e de minas, fossem os filhos dos mercadores metropolitanos aqui residentes (CUNHA, 2007, p. 25). Naquele período, os cursos oferecidos pelas escolas dos jesuítas eram: elementar, humanidades, artes e teologia. No século XVII, houve a expansão dessas escolas jesuítas, assim como também a expansão dos cursos oferecidos. Com a expulsão dos jesuítas do território brasileiro no final do século XVIII, houve alterações no que se refere ao modelo educacional até então vigente, uma vez que esses monopolizavam o ensino. Tal expulsão, de acordo com Cunha (2007), significou a destruição do modelo educacional jesuítico. Daí em diante, as reformas educacionais foram direcionadas pelo Marques de Pombal, que elaborou novos métodos de ensino e novos currículos. A direção seria dada pelo Estado e não seria mais monopolizada pela Igreja, como até então vinha acontecendo. 20 No período do Império (1808-1889), ocorreram alterações no modelo do ensino superior, pois os integrantes da Coroa Portuguesa passaram a residir no país. Isso trouxe a necessidade de alteração nesse modelo educacional que precisou criar cursos e academias para formar os burocratas do Estado e os especialistas na produção de bens simbólicos. A educação superior no Estado de São Paulo surge oficialmente cinco anos após a Proclamação da Independência, quando da criação, por lei do Império, de 11 de agosto de 1827, da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, na capital. Essa lei, que também cria a Faculdade de Direito de Olinda, será a certidão de nascimento do ensino humanístico-jurídico no País e da educação superior em São Paulo; o ato original da educação superior no Brasil deve ser atribuído à criação das Faculdades de Medicina de Salvador e Rio de Janeiro, logo após a chegada de D. João VI e da corte portuguesa, em 1808, em fuga das tropas napoleônicas invasoras da metrópole colonial (GIOLO; RISTOFF, 2006, p. 22). Conforme Cunha (2007), a teoria positivista se constituiu como uma influência na construção e elaboração desses novos cursos e academias devido ao retorno de intelectuais brasileiros que estavam estudando em Paris sob a influência de Augusto Comte. De acordo com Cunha (2007, p. 79), “após a independência formaram-se dois setores, o do ensino estatal (laico) e o do ensino particular (religioso)”. Neste período, para ingressar no ensino superior passou-se a exigir os exames de habilitação, que deveriam ser prestados tanto pelos alunos do ensino estatal como do particular. Houve um processo de equivalência entre o poder do ensino estatal e o poder do ensino particular, o que demonstra como o Estado, desde tempos remotos, incentivou o desenvolvimento do setor privado na educação, como forma de se desresponsabilizar dessa função, já numa perspectiva liberalizante da educação. O consenso geral já consagrara a liberdade do ensino particular primário e médio. Aclamavam-se os homens de ideias liberais de ambos os partidos políticos, muitos do quais desejavam não apenas a libertação da iniciativa privada, mas, ao longo prazo, a própria exclusão do Estado da tarefa educativa (CUNHA apud HAIDAR, 2007, p. 81). Na República Velha (1889-1930), surgiram as primeiras escolas superiores livres, que não tinham vínculo com o Estado, inaugurando neste nível educacional o setor privado. Ocorreu também neste período o surgimento das primeiras instituições de nível superior denominadas Universidades, sendo as primeiras no Rio de Janeiro (1920) e Minas Gerais 21 (1927). Assim, vários foram os fatores que colaboraram para o nascimento das primeiras universidades, dentre eles podemos destacar: Mas serão a Revolução de Trinta, a aprovação do Estatuto das Universidades Brasileiras, por Decreto Federal nº 19.851, de 11 de abril de 1931, determinando a forma de criação e modos de organização das instituições de ensino superior, universidades ou não, e, principalmente, no caso de São Paulo, a derrota da Revolução de 32 que irão desencadear as energias represadas e conduzir, não somente à criação da USP, em 1934, mas também à de outras importantes instituições como a Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 27 de maio de 1933, e a Escola Paulista de Medicina (EPM), em 1º de julho de 1933 (GIOLO; RISTOFF, 2006, p. 28). Neste período, as escolas de ensino superior se multiplicaram, havendo também a diversificação dos cursos, o que acarretou uma expansão no acesso. Essa expansão deve ser entendida pelas novas configurações econômicas, políticas e sociais do período. Percebe-se, nesse período, um embrião da organização dos estudantes, que nesse momento começam a aumentar sua participação política na sociedade. De acordo com Neves (2000), no Brasil do início do século XX, a burguesia industrial emergiu das contradições internas da burguesia cafeeira e das contradições dessa fração de classe com os demais setores agroexportadores. Nasce, portanto, frágil e dependente. O proletariado urbano, por sua vez, também não tinha uma organização expressiva. No meio rural, havia predominância de relações clientelistas, sem um movimento campesino relevante. Os setores médios tinham interesses difusos e não se constituíam em força social capaz de tornar hegemônico um projeto de sociedade. Assim, desde o início do processo de modernização do Brasil, o Estado interveio decisivamente no processo de valorização do capital. Na área da educação, o Estado instituiu um sistema nacional de educação, absorvendo a rede escolar confessional e incorporando os empresários na sua execução. As ações voltadas para o trato das expressões da questão social tinham um cunho de controle e desmobilização da classe trabalhadora, que no início do século estava em processo de mobilização e organização, mesmo que incipiente. As ações do Estado no campo social, por sua vez, destinaram-se não apenas à reprodução da força de trabalho exigida pela industrialização nascente, mas também – e principalmente – à desmobilização dos grupos sociais urbanos 22 emergentes, especialmente daqueles com maior poder de barganha (NEVES, 2000, p. 35). O Estado Varguista estruturou um novo padrão produtivo brasileiro, mesmo que tardia e lentamente. No primeiro período de Vargas (1930-1937), houve uma tensão entre as forças dominantes: de um lado os tenentes que defendiam uma ditadura e de outro os industriários insatisfeitos com as medidas protecionistas do Governo Vargas. Nesse cenário constituiu-se, no início do século XX, uma força expressiva na luta por poder, representada pela Igreja Católica, que deu início ao seu expressivo Movimento de Reação Católica1, com o objetivo de recuperar privilégios perdidos no século anterior. Quanto aos outros sujeitos envolvidos nessa disputa pela hegemonia, podemos destacar a organização de partidos políticos: em 1932, a Ação Integralista Brasileira (AIB), de cunho fascista; e, em 1935, a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Em novembro de 1937, Getúlio Vargas, alegando ameaça de conspirações comunistas, liderou um golpe de Estado. Esse novo período, conhecido como Estado Novo propiciou um processo maciço de substituição de importações e industrialização no país, com intervencionismo estatal e apoio estadunidense. No primeiro período do governo Vargas, houve a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública, a introdução do ensino facultativo religioso nas escolas públicas, a criação do Conselho Nacional de Educação (CNE) e as reformas do ensino secundário e universitário. Nesse período, também foi criado o Estatuto das Universidades Brasileiras, em 1931, que vigorou por trinta anos. A Igreja também reivindicava o espaço do ensino universitário, que foi conquistado na década de 1940, quando o CNE autorizou o funcionamento das Faculdades Católicas. No segundo governo de Vargas, o foco do ensino superior foi a formação dos intelectuais orgânicos2, necessários ao processo de modernização do capitalismo. 1 Ver: IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul de. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil. São Paulo: Cortez, 2000. 2 “[...] dirá que ‘cada grupo social [...], surgindo na história a partir da estrutura econômica anterior e como expressão do desenvolvimento dessa estrutura, encontrou – pelo menos na história que se desenvolveu até nossos dias – categorias preexistentes de intelectuais, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas’. [...] Esses novos intelectuais diferenciam-se dos primeiros, chamados por Gramsci de intelectuais ‘tradicionais’, ou seja, intelectuais que sobreviveram ao desaparecimento do modo de produção anterior e que não se acham atualmente ligados organicamente a nenhuma das classes fundamentais. [...] Assim, ‘cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção 23 A lógica científica que se espraiou paulatinamente no cotidiano dos centros urbanos passou a exigir do sistema educacional a sua expansão, dentro dos limites impostos pela especificidade do nosso desenvolvimento econômico e político-social (...). De fato, o período 1946-64 foi marcado por um crescimento da matrícula escolar em todos os níveis de ensino e, também, pelo maior investimento do Estado na expansão de sua própria rede (...). Essa expansão quantitativa se fez mantendo o dualismo existente no sistema educacional implantado no decorrer dos anos 1930-45 (NEVES, 2000, p. 4041). O cenário pós 1945 foi marcado pelo retorno dos direitos políticos com significativa participação da população na política. A política populista foi marcada por um viés de mais convencimento e menos coerção/repressão. A questão conflitante que perpassa todo o período é a disputa entre a direção entreguista (ênfase numa política dependente em relação ao cenário internacional) e a direção nacionalista (ênfase na busca da autonomia do país frente ao cenário internacional) no campo político, isto é a entrada ou não do capital estrangeiro, mais a alternativa socialista, que nunca teve uma real possibilidade de ascensão ao poder. A novidade no campo da política educacional refere-se à promulgação da nova Constituição Federal de 1946, que colocou como função da União fixar as diretrizes e bases da educação nacional. Na constituição de 1946, a educação apareceu como direito de todos e o ensino primário tornou-se obrigatório. No que diz respeito ao ensino superior, houve em 1945 uma remodelação no que se refere aos requisitos para a criação de uma universidade: a partir de então, diminui-se as exigências para a constituição de uma universidade, o que acarreta uma expansão do ensino superior. Segundo Cunha (apud PEREIRA, 2008): as universidades, no sentido estrito, passaram de 5, em 1945, para 37, em 1964. O número de estabelecimentos isolados subiu de 293 para 564, nesse período. Enquanto o número de universidades foi multiplicado por 7, o de escolas isoladas não chegou a dobrar (CUNHA apud PEREIRA, 2008, p. 93). econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e político’. Isso significa que o intelectual orgânico não é aquele que se justapõe a uma classe, a um grupo ou a uma empresa; a empresa, o grupo, a classe é que criam os seus intelectuais, isto é, esses grupos, essas instituições vivem situações, se defrontam com realidades que exigem o desempenho de atividades intelectuais” (GRAMSCI apud SIMIONATO, 2011, p. 57-62). 24 No governo Dutra, percebe-se uma tendência para a política entreguista, já o retorno de Getúlio Vargas ao poder fez novamente pender para o lado do nacionalismo. De acordo com Giolo e Ristoff (2006), tem-se, nesse período, um processo de interiorização e expansão do ensino superior no Estado de São Paulo, devido ao processo acirrado de industrialização que ocorrera após a II Segunda Guerra Mundial. Com Juscelino Kubitschek, retomou-se o projeto entreguista: o papel desenvolvido pelo Estado foi fundamental para o desenvolvimento e abertura para o capital estrangeiro. Esse governo colocou a educação em um lugar de destaque e a mesma passou a ser vista como um passaporte para o desenvolvimento, exigindo a expansão do sistema educacional. Assim, a primeira onda de expansão do ensino superior se deu, mundialmente, entre os anos de 1945 e 1970, quando esse tipo de educação passou a representar a chance de uma melhor renda e do alcance de um status social mais elevado. Nos países periféricos, esse tipo de política educacional foi direcionado pelos organismos estrangeiros, que propugnavam a política desenvolvimentista. No Brasil, a educação foi encarada como um instrumento primordial para a passagem da condição de subdesenvolvido para desenvolvido. A política desenvolvimentista foi uma forma de lidar com as tensões da Guerra Fria, estava voltada para os países periféricos e tinha como premissa o desenvolvimento dentro da ordem. Segundo Pereira (2008), a política desenvolvimentista penetrou nos países periféricos principalmente após a Segunda Guerra Mundial sob a liderança dos EUA e por meio do seu grande intelectual orgânico – o Banco Mundial (BM). De acordo com Pereira (2008), a expansão da educação no período em questão consolidou o projeto desenvolvimentista, mas também possibilitou a formação de aliados da classe trabalhadora, que iniciaram um movimento pela educação nacional baseada nos interesses da classe trabalhadora. Segundo Neves (2000), o acirramento das contradições, provocado em parte pelo avanço da organização popular e pelo surgimento de um sindicalismo autônomo, orientada pelas forças da esquerda e pela fração progressista da Igreja Católica, fortaleceu a proposta alternativa de educação como instrumento de transformação social. Nos países avançados, a educação no pós Guerra representou avanços, pois conquistou o patamar de direito social. Já nos países periféricos, os sistemas educacionais se 25 desenvolveram com base na política desenvolvimentista como forma de propaganda anticomunista. Ainda segundo a autora, a educação foi estruturada a partir de uma pirâmide, cuja base (a maioria da população) passa a ter acesso a uma educação fundamental – para o trabalho, enquanto o topo da pirâmide (minoria da população) tem acesso ao ensino superior. Esse quadro só foi reconfigurado devido à crise do capital na década de 70, quando ocorreu a crise dos Estados de Bem-Estar no mundo, a exaustão da política desenvolvimentista e o avanço dos preceitos neoliberais, indicando uma nova direção para a educação, que passou a ter uma ênfase em seu aspecto mercadológico. Todo o processo de luta pela democratização da educação e por outras bandeiras de luta foi freado com a instituição da ditadura em 1964. Nesse período, a ênfase foi em uma educação tecnicista, de reprodução das relações sociais de produção vigente. Valendo-se de seus sócios tradicionais – a Igreja Católica, a CNI e a CNC – e de seu sócio novo – o empresariado leigo da educação – o Estado promoveu na área educacional uma redistribuição de tarefas, de modo que ficasse assegurado o acesso diferenciado de diferentes segmentos sociais aos diferentes níveis, ramos e modalidades de ensino, reproduzindo, em outro patamar, a seletividade preexistente. Ao Estado e à Igreja Católica (só na região Sudeste) coube a formação dos quadros altamente especializados para os setores monopolistas da economia e para a burocracia estatal racionalizada, através da diversificação e ampliação de vagas no ensino superior de ensino, particularmente nas universidades. Ao empresariado leigo de ensino e à Igreja Católica (no restante do país), através da expressiva ampliação de cursos de nível superior da rede privada de ensino couberam, em grande parte, as tarefas de viabilizar o consenso passivo de segmentos das camadas médias, de repassar a ideologia da eficiência e da neutralidade científica, além de formar quadros para o terciário moderno e setores tradicionais da economia (NEVES, 2000, p. 47). Durante o período da ditadura militar, o domínio foi assegurado por meio da coerção, isto é, a partir do uso dos aparelhos repressivos do Estado para manter a hegemonia3. Identifica-se, nesse período, algumas concessões que tinham por objetivo manter a classe subalterna sem nenhuma interferência ou poder de participação, ou seja, eram mecanismos usados na tentativa de criação e manutenção do consenso. 3 Segundo Simionato (2011, p. 47), “A concepção de hegemonia remete, ainda, ao esclarecimento das relações entre infraestrutura e superestrutura, à forma como as classes sociais se relacionam e exercem as suas funções no interior do bloco histórico”. 26 Segundo Pereira (2008), a política educacional no período da ditadura militar pode ser analisada em dois momentos: • no primeiro momento, houve o crescimento da demanda pela educação e, em contrapartida, a contenção de gastos, o que gerou uma crise no sistema educacional. Nesse período, ocorreu a crise dos excedentes (pessoas que passavam nos vestibulares, mas não podiam fazer matrícula, pois não havia vagas). Essa crise justificou os convênios feitos com os EUA e o acordo MECUSAID4. • no segundo momento, houve a efetivação de medidas que visavam adequar o sistema educacional ao modelo de desenvolvimento econômico. Tem-se, então, o nascimento de uma proposta para a Reforma Universitária, em que a universidade assume vieses empresariais. De acordo com Minto (2005), nesse período ocorreu a promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) – Lei n° 4.024/61 –, que, apesar de representar os conflitos de interesses entre os defensores do ensino privado e os defensores do ensino público, laico e de qualidade, acabou por privilegiar os interesses privatistas. No ensino de segundo grau, tem-se a inserção do ensino profissionalizante. Esse tipo de ensino não estava estruturado de modo que os estudantes, após a conclusão do curso, ingressassem em universidades públicas, o que os levava para o ensino privado. Na escolaridade básica, houve a ampliação do tempo de formação para oito anos, com a priorização das últimas séries. No ensino superior, a ampla expansão do setor privado ocorreu devido à defesa do projeto de acumulação de capital, cujo objetivo era a contenção dos gastos com investimentos nas áreas sociais, entre elas a educação. Assim, não houve outro caminho senão a expansão do setor privado do ensino superior. Essa direção dada à política educacional atendeu à crescente demanda e ao mesmo tempo abriu um mercado lucrativo para expansão do capital. A expansão deu-se principalmente pelo crescimento das Instituições de Ensino Superior (IES) isoladas, que não tinham por obrigação cumprir o tripé: ensino-pesquisa4 Este acordo entre o MEC e o USAID representava uma ajuda financeira para o desenvolvimento e expansão do ensino no Brasil. A função desta “ajuda”, segundo Arapiraca apud Minto (2005, p. 95), “seria a de fazer com que os países subdesenvolvidos passassem a orbitar dentro das esferas de influência direta dos países centrais, cujos organismos internacionais – FMI, Bird, USAID e etc. – faziam o papel de mediadores. Além do que, tais organismos, pretensamente multilaterais, amenizavam as flutuações cíclicas do capitalismo, garantindo assim maior estabilidade ao sistema global de acumulação”. 27 extensão. Além disso, houve uma forte repressão a professores e estudantes nas universidades públicas, onde antes havia forte participação estudantil e reflexão crítica docente. Isso foi normatizado através do Decreto-lei nº 477, de 1969, e pelas Portarias Ministeriais nº 149-A e nº 3.524, que suprimiram a contestação, por meio da coibição de qualquer manifestação e/ou protesto no interior da universidade. Assim, é possível afirmar que, até a eclosão do golpe de 64, o ensino superior vinculava-se às bandeiras do nacional-desenvolvimentismo e do populismo, de aspiração de um capitalismo autônomo (...) a partir do golpe militar de 64, abandonaram-se aquelas bandeiras, substituindo-as por um projeto de desenvolvimento “associado” e dependente dos países capitalistas centrais. Isto deu um novo sentido ao ensino superior – e às políticas sociais de forma ampla -, que deveria sofrer um processo de despolitização e, ao mesmo tempo, preparar pessoal qualificado para as demandas do modelo de desenvolvimento associado e dependente. Abriram-se, então, as portas para a exploração mercadológica do ensino superior, como uma clara divisão de tarefas: ao Estado coube a criação de pós-graduações nas universidades públicas federais a partir da década de 1970, como parte daquele projeto de desenvolvimento, ainda com colorações nacionalistas, ao mesmo tempo em que ele se desobrigava paulatinamente do nível da graduação, desgastando-o com parcos recursos (PEREIRA, 2008, p. 119-120). Com a crise de 1970 sofrida pelo capitalismo, houve a necessidade de reorganização do projeto burguês de sociabilidade. Tal rearranjo passou, de acordo com Lima (2007), pela reestruturação produtiva, pelo reordenamento do papel dos Estados nacionais e pela difusão de um novo projeto de sociabilidade; tais reconfigurações constituem a base de fundamentação do projeto hegemônico de globalização. A reforma na educação pela qual passou o mundo globalizado, em especial os países periféricos, estava intrinsecamente relacionada ao novo projeto hegemônico burguês. A reforma, em especial a reforma do ensino superior, foi alicerçada nessa ideia de que a adaptação a pacotes tecnológicos produzidos nos países centrais, assim como a habilidade com o manuseio das tecnologias da informação e comunicação, seriam o passaporte para a superação do atraso nos países periféricos. De acordo com Lima (2007): a educação escolar, tem-se inscrito, na última década do século passado e no início deste século, como uma eficaz estratégia de alívio da pobreza que se amplia e aprofunda nos países da periferia do capitalismo (LIMA, 2007, p. 22). 28 A ideia da necessidade de um capitalismo globalizado após a crise de 1970 foi uma estratégia política para manutenção da hegemonia estadunidense. Nessa nova sociedade, o conhecimento, entendido como exclusivamente informação, tornou-se um produtor de capital, pois colocava-se a contínua necessidade de qualificação para garantir a empregabilidade e a inserção no mercado de trabalho, sendo aparentemente valorizado aquele indivíduo que busca incessantemente sua permanente qualificação, como uma forma de se manter informado das mudanças e avanços tecnológicos. Essa lógica faz com que ideologicamente a centralidade do trabalho como análise do real seja substituída pelo conhecimento/informação. Por isso, nessa perspectiva, a educação tornou-se, a partir do final do século XX, um grande mercado investidor, com possibilidade de altos lucros, pois, nessa tendência, a procura pela educação e em especial pelo ensino superior cresceu vultosamente. Temos o início de uma era em que a educação, em geral, passou a significar treinamento, ou seja, absorção de técnicas. Cabe destacar que a mudança do cenário no pós 1970 não significa a substituição da produção pela informação. De acordo com Lima (2007), o que ocorre é uma interpenetração das mesmas. Nessa tendência, o desemprego é justificado, única e exclusivamente, pela falta de qualificação e de preparo para o trabalho, pela falta de capacidade de tornar-se empregável no mercado competitivo e excludente. Nesse contexto, os trabalhadores que não se qualificam, de acordo com as novas tecnologias da informação e da comunição, não se encontram nem mesmo no exército de reserva: a esses será reservada a exclusão do mercado formal de trabalho. Justificam-se, então, as reformas educacionais, como um projeto de inclusão da classe trabalhadora em oportunidades de qualificação para o mercado de trabalho. apresenta-se na imediaticidade, a noção de que o acesso à capacitação, particularmente a capacitação tecnológica – concebida como compra e adaptação de pacotes tecnológicos produzidos nos países centrais e treinamento para o uso da TIC -, será o passaporte de cada indivíduo para a empregabilidade, omitindo duas questões centrais: o processo de certificação em larga escala, que se vem configurando especialmente nos países 29 periféricos, e que o mercado de trabalho não absorverá todos os trabalhadores (LIMA, 2007, p. 37). Essas reformas educacionais que aconteceram nos países periféricos no pós 1970, sob o signo do neoliberalismo, e que tem se estendido para demais países, em geral estão inseridas no reordenamento do próprio capitalismo e são direcionadas pelos organismos internacionais, tais como: Banco Mundial (BM), Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e Organização Mundial do Comércio (OMC). O projeto de educação defendido por esses organismos internacionais submete a mesma à lógica da lucratividade, descaracterizando-a como um bem público, tornando-a um promissor campo de exploração. Sabe-se que a tendência neoliberal que surgiu no final da década de 1970 e início da década de 1980 nos países avançados do capitalismo configurou-se de forma mais violenta nos países periféricos do capitalismo. Em geral, na América Latina esse projeto esteve associado ao: esgotamento do desenvolvimentismo, a crise da dívida que atravessou a década (perdida) de 1980 (a redução dos gastos sociais já fazia parte da pauta política dos organismos internacionais do capital para renegociação das dívidas dos países periféricos) e a nossa histórica inserção subordinada no sistema capitalista mundial (LIMA, 2007, p. 54-55). Nos anos 1980, devido aos princípios do neoliberalismo, houve um retrocesso no que se refere ao papel do Estado, que passou a ser mínimo para o campo dos direitos sociais e máximo para o desenvolvimento do capital. Nesse período, o dinheiro público voltou-se para o financiamento do capital e os direitos sociais conquistados passaram por um processo de mercantilização. No mundo do trabalho tivemos a passagem do modelo fordista para o padrão toyotista de acumulação flexível5. Assim, pode-se dizer que a resposta para a crise da segunda metade da década de 1970 foi o projeto neoliberal. se o liberalismo lutava contra as poderosas forças da velha ordem feudal e pela constituição de uma nova sociedade, caracterizando-se, à época, como 5 Para maiores informações sobre o tema, consultar: HARVEY, David. Do Fordismo à Acumulação Flexível. In: ___________. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2005. p. 135-176. 30 um projeto revolucionário, o neoliberalismo defende a restauração do velho liberalismo do século XIX, ignorando as conquistas social-democratas desenvolvidas ao longo do século XX (PEREIRA, 2008, p. 55). O projeto neoliberal defende um “Estado Mínimo” e uma refilantropização do social6. A assistência social passou a ser tratada a partir de uma dupla articulação entre assistência focalizada e repressão. Tem-se um processo de criminalização da pobreza. Na América Latina, a reação burguesa à crise de acumulação capitalista significou um verdadeiro desastre social para a população. Soares (2001) observa que as preocupações expostas em documentos de diversos organismos internacionais não passaram do plano do discurso, pois associaram o financiamento de programas e projetos sociais a exigências de ajustes macroeconômicos, o que resultou num “desajuste social” sem precedentes no continente latino-americano: em 1990, 270 milhões de latinoamericanos estavam em situação de pobreza, o que equivale a 62% da população total da América Latina (PEREIRA, 2008, p. 58). A reestruturação produtiva gerou uma nova relação entre ciência e trabalho, fazendo emergir o conceito de “sociedade do conhecimento”, que estimula a formação acadêmica do trabalhador através do desenvolvimento de habilidades e competências. A educação apareceu nesse momento como a “salvadora da pátria”, camuflando a luta de classes e deslocando a mesma para um campo individual. Essa perspectiva difundiu a ideia de que seria possível resolver os problemas sociais de forma individualizada e focalizada, como se a garantia da qualificação para o trabalho fosse resolver questões que, como sabemos, são de ordem macroestrutural. Já na década de 1980, o BM direcionou sua defesa ao ensino fundamental, enfatizando a privatização do ensino médio e colocando a universidade pública como lócus dos privilegiados. Para o BM, a educação deveria estar voltada para o trabalho, através da propagação de valores favoráveis ao mercado. Porém, com o acirramento da pobreza e da miséria, fez-se necessário pensar políticas de alívio à pobreza que garantissem a governabilidade nos países periféricos. Segundo Neves (2000), no processo da Constituinte houve conflitos de interesses no que se refere à elaboração da política educacional. O bloco Católico insurgiu-se contra a 6 Para maiores subsídios sobre a refilantropização do social, consultar: YAZBEK, Maria Carmelita. A Política Social brasileira nos anos 90: a refilantropização da "Questão Social". Cadernos ABONG, Série Especial, Subsídios à Conferência Nacional de Assistência Social, n. 3, out. 1995. 31 mercantilização do ensino e fez uma proposta na qual resgatava seus privilégios e pedia subvenções financeiras para manutenção de sua rede de ensino. Os empresários leigos defendiam a privatização do ensino e a livre concorrência. E um bloco formado por entidades nacionais e dirigentes educacionais apoiava as propostas do Fórum de Educação em defesa do ensino público e gratuito. Nessa disputa de projetos, a Constituição de 1988 representou uma mistura de interesses e não conseguiu apresentar uma proposta homogênea para a política educacional. As universidades públicas e algumas confessionais, obedecendo ao princípio da indissociabilidade existente entre ensino, pesquisa e extensão, formariam “os recursos humanos nas áreas de ciência, pesquisa e tecnologia”, enquanto as demais instituições de ensino superior, na grande maioria particulares, sem que lhes fosse exigido o cumprimento do princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, preparariam a força de trabalho necessária às atividades produtivas não prioritárias, no que se referisse à modernização capitalista em processo no país (NEVES, 2000, p. 63). A mudança ocorreu em alguns aspectos, mas não representou a alteração do projeto hegemônico, e, ao final da década de 1980, a direção foi dada pelo projeto da classe dominante. a Constituição de 1988, de um modo geral, manteve a mesma divisão de trabalho educacional preexistente. Embora a ampliação das oportunidades educacionais de camadas mais amplas da população, em especial, do segmento responsável pela execução do trabalho simples na produção e nas instâncias superestruturais da sociedade tenha-se configurado em uma vitória da proposta educacional democrática de massas, no que se refere à democratização do acesso das massas populares à escola, já tomava forma, mesmo que não explicitamente, a necessidade de elevação do patamar mínimo de escolaridade dessa parcela da força de trabalho, com vistas ao aumento da produtividade e da competitividade produtivas, tendência que se aprofundaria e se consolidaria no decorrer da primeira metade dos anos 90 (NEVES, 2000, p. 67). Segundo Pereira (2008), no final da década de 1980 dois projetos se formaram: o liberal corporativo e o de democracia de massas. O primeiro era voltado para o ideário neoliberal, que maximiza o mercado, necessita transformar tudo em mercadoria, além de privatizar o patrimônio público e reduzir ações estatais na área social. Soma-se a isso a necessidade de despolitizar-se a sociedade. 32 Já o projeto de democracia de massas caracterizou-se pela ampliação da participação popular e pela democratização do Estado. A tensão entre esses dois projetos foi representada pelas eleições de 1989, quando o projeto neoliberal saiu vitorioso, com a eleição de Fernando Collor. Os anos 1990 caracterizaram-se como profundamente regressivos no que se refere aos direitos conquistados na Constituição de 1988. Iniciou-se uma contrarreforma em relação às conquistas apontadas pela Constituição. Essa contrarreforma foi responsável pela mercantilização de serviços como educação, saúde e previdência. Na década de 1990, a direção do BM continuou dando ênfase à educação básica, e passou a exigir reformas educacionais e a privatização do ensino superior. No discurso do BM, a educação aparece como a saída para resolver o atraso dos países subdesenvolvidos e uma forma de inseri-los no processo de globalização. a década de 1990 foi palco de um verdadeiro apartheid educacional: aos países periféricos, o BM recomendou o ensino fundamental como forma de “aliviar” a pobreza e como política de “coesão social”; aos países do centro capitalista, eram reservados o ensino superior e a pesquisa. Aprofundou-se a polarização também no âmbito educacional, com a indústria periférica importando pacotes tecnológicos, o que consolidou o setor educacional como importante espaço de mercantilização para o capital (PEREIRA, 2008, p. 63). No início da década de 1990, na Conferência Mundial de Educação Para Todos, começa a se desenhar a nova perspectiva de educação para o fim do século XX e início do XXI, em que a falsa ideia de democratização da educação aparece como bandeira, trazendo por trás a intenção de focalizar os investimentos nos níveis mais baixos e de que essa expansão seja financiada pela ampliação dos setores privados. De acordo com Lima (2007, p. 66), esse processo de privatização dos serviços públicos, incluindo a educação, com ênfase no ensino superior, seria orientado por dois eixos: “a diversificação das Instituições de Ensino Superior e dos cursos e a diversificação das fontes de financiamento da educação superior”. A diversificação das instituições significa a ampliação tanto de universidades públicas como privadas e de instituições não universitárias, assim como a ampliação do Ensino à Distância (EAD), sendo que para parcelas menos favorecidas da sociedade estas duas últimas 33 opções seriam mais viáveis e acessíveis economicamente, mostrando claramente uma diferenciação entre educação para a classe trabalhadora e educação para a classe burguesa. Quando se aponta a diversificação das fontes de financiamento observa-se um interesse em mobilizar recursos privados para o ensino superior. No final do século XX, a UNESCO apontava no documento Política de Mudança e Desenvolvimento7 do ensino superior elementos que indicavam uma crise da educação superior, colocando como alternativa para esse enfrentamento o estabelecimento de parcerias público-privado. Também como propostas de direcionamento desses debates tem-se, no final da década de 1990, nos países europeus, a elaboração da Declaração de Bolonha8, que foi assinada por vinte e nove países europeus e tinha o “objetivo central de uniformizar o sistema de ensino superior europeu” (LIMA, 2007, p. 69). Tal uniformização, que deveria ocorrer a partir de algumas estratégias, fundamentavase na mesma base dos documentos do BM e da UNESCO, em que a globalização econômica indica a necessidade de um reordenamento no mercado de trabalho e concomitantemente na formação e qualificação dos trabalhos. Tem-se aqui uma ênfase na educação para a empregabilidade, uma formação voltada exclusivamente para os interesses do mercado, ocasionando diversas alterações no ensino superior, como o crescimento dos cursos de curta duração e a expansão dos cursos à distância, entre outras. Com essa tendência, reforçou-se a concepção instrumentalista e utilitária de educação e acirrou-se o processo de empresariamento da educação. 1.2 As tendências do ensino superior na atualidade Com base nos antecedentes históricos, pode-se perceber que os projetos para a educação e para o ensino superior sempre se encontram em disputa e em conflitos de 7 Pode-se encontrar o documento na íntegra no site: <http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001297/129768porb.pdf>. Acesso em: 19.08.2012. 8 A Declaração de Bolonha é um documento assinado pelos ministros da educação europeus em 19 de junho de 1999 que firmou um acordo no qual todos os países signatários se comprometiam a alcançar objetivos e metas referentes ao ensino superior, criando um espaço europeu de ensino superior que prevê a homogeneização do ensino superior europeu, caracterizando um processo de precarização deste. Informações disponíveis em: <http://paco.ua.pt/common/bin/Bolonha/Bolonha_Declaracao%20de%20Bolonha.pdf>. Acesso em: 14.06.2012. 34 interesses, sendo que o direcionamento para o setor privado e mercadológico foi ganhando força e notoriedade. Nesse contexto, temos uma tendência mundial de trato da educação como mercadoria e serviço, reforçada pelos organismos internacionais. o papel destes organismos internacionais nestes países , no sentido de aprofundar a desnacionalização/privatização da educação, especialmente da educação superior, tem sido fundamental, com as seguintes evidências: em primeiro lugar, via formação de parcerias entre empresas educacionais, com sede nos EUA e Europa e polos espalhados por várias regiões de interesse do capital. Estas parcerias viabilizam a venda de modelos pedagógicos, a comercialização de programas de ensino e de livros didáticos, especialmente para formação e treinamento de professores, objetivando a consolidação de um caldo ideológico e político que legitime e reproduza o projeto burguês de sociabilidade (LIMA, 2007, p. 75). O aprofundamento da reforma do ensino superior no Brasil deu-se na década de 1990, com a implantação de políticas neoliberais. Sabe-se que foi nesse período, através dos governos Collor e Itamar, que tivemos a adesão do país ao projeto neoliberal. Pode-se dizer que os governos Fernando Collor de Melo (1990-1992) e Itamar Franco (1993-1994) imprimiram ações e políticas de adequação ao Consenso de Washington9, que previa um pacote de reformas estruturais e institucionais, as quais, de acordo com Fiori (apud LIMA, 2007, p. 89), eram “destinadas a ajustar as economias e as sociedades do continente à nova realidade mundial, criada pela hegemonia das políticas neoliberais”. Tem-se, nesse período, uma regressão na organização dos movimentos sociais e no movimento sindical, reduzindo drasticamente a capacidade organizativa da classe trabalhadora. O coroamento do projeto neoliberal veio no governo Itamar, por meio de ações como o lançamento do Plano Real, que estabilizou a economia, e a ampliação das relações do governo com sua base de apoio. 9 O consenso de Washington é um documento resultado de reunião ocorrida em novembro de 1989 “entre os organismos de financiamento internacional de Bretton Woods (FMI, BID, Banco Mundial), funcionários do governo americano e economistas latino-americanos, para avaliar as reformas econômicas da América Latina [....] as recomendações desta reunião abarcaram dez áreas: disciplina fiscal, priorização dos gastos públicos, reforma tributária, liberalização financeira, regime cambial, liberalização comercial, investimento direto estrangeiro, privatização, desregulação e propriedade intelectual” (MONTAÑO, 2008, p. 29). 35 Historicamente, o Brasil vive um processo de subordinação ao capital internacional, não só devido a imposições externas, mas também devido à própria burguesia brasileira, que viu nessa relação uma possibilidade de atender a seus interesses. Esse movimento permite-nos compreender o processo incessante de controle da classe trabalhadora por parte da burguesia através de ações de caráter antidemocrático e autoritário. Esse padrão de desenvolvimento capitalista dependente se expressa em todos os níveis da ordem social, desde o controle de natalidade até o desenvolvimento de uma concepção de educação voltada para a formação da força de trabalho. Segundo Pereira (2008), Fernando Collor propôs readequações no ensino superior, criando novos critérios para distribuição de recursos nas instituições federais, critérios voltados para a lógica do mercado. Itamar Franco assumiu o poder e deu continuidade ao projeto neoliberal. Na educação superior, Itamar Franco assinou um Protocolo de Intenções entre Ministério da Educação e Cultura (MEC) e Ministério da Comunicação, visando à criação de um sistema de educação à distância. Além disso, criou o Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (PAIUB). De acordo com Neves (2000), as iniciativas para uma política educacional de perspectiva neoliberal empreendidas nos governos Collor e Itamar, foram consolidadas no governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Esse foi um período caracterizado pela convivência de projetos educacionais ambivalentes: o governo FHC tinha por função dar legitimidade ao projeto neoliberal iniciado nos governos anteriores. Nesse período, tem-se o aprofundamento da relação de dependência econômica com o capital internacional e a reconfiguração da luta de classes, ou seja, das relações entre capital e trabalho, levando a uma alteração do papel do Estado e da sociedade civil. No que se refere à reconfiguração do Estado, Lima (2007) aponta as principais mudanças: O Estado deixaria de ser o responsável direto pelo desenvolvimento econômico e social, pela produção de bens e serviços, para exercer a função de regulador desse desenvolvimento, transferindo a responsabilidade pela sua execução para o setor privado, por meio da política de privatização, e para o setor público não-estatal, um setor parcialmente subsidiado pelo Estado e que executaria serviços não-exclusivos do Estado (LIMA, 2007, p. 98). 36 Os empresários industriais implantaram através da proposta de educação à distância programas de formação em curto prazo, com o objetivo de qualificar a mão de obra de acordo com as necessidades da nova reestruturação produtiva – a acumulação flexível. Os empresários leigos do ensino lutam pelo aprofundamento da privatização e não medem esforços para se integrarem à proposta neoliberal de educação para a “qualidade total”. Os trabalhadores, por meio de suas entidades representativas, reiteram a defesa de uma escola pública, gratuita, laica e universal. Devido às mudanças estruturais da sociedade e às novas exigências, os trabalhadores organizados na Central Única dos Trabalhadores (CUT) afetados pelo problema do desemprego estrutural, passaram também a dar ênfase a uma perspectiva educacional que requalifique a mão de obra, o que foi provocado pela difusão do paradigma da acumulação flexível. Mas, apesar da defesa desse tipo compensatório de educação, a CUT reivindica que tal proposta seja efetivada pelo Estado. o sistema educacional, no governo FHC, superando a ambigüidade que persistia nos períodos Collor e Itamar Franco, assume com exclusividade, a tarefa de preparar mão de obra com vistas a atender às demandas empresariais de modernidade (NEVES, 2000, p.78). Segundo Pereira (2008, p. 148), com FHC consolidou-se a ofensiva neoliberal, perspectiva segundo a qual o desemprego e as mazelas sociais não estão relacionados a questões estruturais, mas sim à inadaptação dos indivíduos: “se há indivíduos na pobreza, é porque não desenvolveram as habilidades necessárias para o alcance do sucesso. O que deve ser oferecido não é um igualitarismo sem medidas, mas somente igualdade de oportunidades”. Neves (2000) demonstra que, nesse governo, o MEC ampliou as estratégias de privatização do ensino superior, simplificando as exigências burocráticas para reconhecimento de cursos e credenciamento de instituições, reorganizando o crédito educativo e valorizando as instituições que apresentassem melhor relação custo-benefício. Na realidade, a política governamental para as próximas gerações da nossa massa trabalhadora direciona seus componentes curriculares à aquisição de conteúdos mínimos de natureza científico-tecnológica, que capacitem essa parcela da força de trabalho a operar com produtividade as inovações tecnológicas e organizacionais inerentes ao novo paradigma da acumulação 37 flexível e acatar, como alternativa universalmente válida, a lógica neoliberal de organização societal (NEVES, 2000, p. 90). A própria construção da nova LDB demonstra os conflitos de interesses e projetos presentes no campo da educação. A elaboração da Lei se deu através da disputa de projetos que indicavam rumos, princípios e concepções diferentes para a educação e para o ensino superior. Segundo Lima (2007), o projeto de Lei elaborado pelo Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública estava pautado por uma concepção de educação vinculada ao mundo do trabalho e à prática social, defendia a educação como direito de todos e reafirmava o dever do Estado. Já o projeto de Lei apresentado pelo Deputado Darcy Ribeiro se fundava numa concepção de educação limitada à aquisição de conhecimento, como um direito subjetivo, e o papel do Estado é reduzido. De acordo com Giolo e Ristoff (2006), a LDB – Lei nº 9.394, de 20.12.1996 – indica o enquadramento da educação nas regras do mercado, sendo influenciada pelas tendências neoliberais, tais como: internacionalização da economia, privatização do patrimônio estatal e reformas, como a da previdência. Esse contexto gerou uma insegurança no mundo do trabalho, levando os trabalhadores da classe média baixa e das classes populares a irem em busca de qualificação como forma de se manterem interessantes para o mercado de trabalho. Esse movimento foi o elemento que faltava para impulsionar a expansão desenfreada do ensino superior privado. As instituições privadas que, em 1996, eram 711, passaram a ser, em 2004, 1.789, um crescimento de 151,6%. As instituições privadas detinham, em 1996, 3.666 cursos e 1.133.102 matrículas e passaram a deter, em 2004, 12.282 cursos e 2.985.405 matrículas. O crescimento dos cursos foi de 237,8% e o das matrículas foi de 163,5% (GIOLO; RISTOFF, 2006, p. 14). Essa expansão do setor privado, de acordo com Giolo e Ristoff (2006, p. 16), não se deu apenas por uma ampliação geográfica, mas também social, visto que atraiu principalmente sujeitos da classe trabalhadora, já que essas “instituições privadas passaram a lhes oferecer cursos mais breves, mais baratos e, em tese, mais afinados com a sua destinação profissional”. 38 Porém, percebe-se que esse processo de expansão do ensino superior privado no Brasil não necessariamente significou ampliação do acesso igualitário a esse nível de ensino, visto que nossa taxa de escolarização superior ainda é muito baixa. De acordo com Giolo e Ristoff (2006): De acordo com os dados da Pnad/IBGE, a taxa de escolarização bruta, em 2004, era de 18,6% e a líquida de, apenas, 10,5%. Isso quer dizer que, no primeiro caso, todos os alunos matriculados na educação superior equivalem a 18,6% dos brasileiros que estão na faixa etária de 18 a 24 anos. No segundo caso, ou taxa líquida, tem-se que os jovens entre 18 e 24 anos que freqüentam a educação superior equivalem a apenas 10,5% de todos os brasileiros que estão nessa faixa etária (18-24 anos) (GIOLO; RISTOFF, 2006, p. 19). No segundo governo FHC, além de serem mantidos os esforços pela permanência do ajuste estrutural e da estabilidade econômica, deu-se ênfase na ampliação da participação política da sociedade civil, mas esta se configurando como um espaço sem antagonismos e sem luta de classes, em especial justificada pelo crescimento do terceiro setor, onde as lutas de classe são encobertas e aparecem como um problema de todos, indiferentemente da classe social a que os indivíduos pertençam, clamando que todos se unam por uma mesma causa, seja por meio de Organizações Não Governamentais (ONGs), responsabilidade empresarial, trabalho voluntário, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), entre outras modalidades, que indiretamente colaboram para o esvaziamento da luta de classes. A partir de 2001, temos um novo direcionamento governamental, em nível federal, da política educacional de nível superior. Porém, ainda percebe-se a prevalência de uma perspectiva mercadológica para a educação. Podemos dizer que os anos iniciais do século XXI foram marcados pelo fortalecimento e liberação do capital financeiro, com enfoque nas privatizações e flexibilizações dos direitos trabalhistas, apesar de também indicar lutas e avanços deste setor. Ao final do governo FHC, temos um cenário devastador que Lesbaupin (2000) denomina desmonte da nação, com ênfase na desnacionalização e na privatização, que acarretaram um processo de intensificação da desigualdade e de concentração de renda. Temos como resultado desse período também uma desregulamentação dos direitos sociais e trabalhistas. 39 No governo Luiz Inácio Lula da Silva, pode-se perceber uma manutenção no direcionamento da política de ensino superior no que se refere ao seu processo de empresariamento sob a aparência da democratização do acesso à educação. De acordo com Lima (2007), no primeiro governo Lula há uma ênfase no estabelecimento de parcerias público-privadas, sendo que cada vez torna-se mais naturalizado o deslocamento de verbas públicas para instituições privadas e o financiamento privado em instituições públicas. Nesse governo, ocorre um maior incentivo ao desenvolvimento do ensino à distância nos mais diversos níveis de educação como “aparente” forma de democratização do acesso à educação. Tal modalidade de educação, segundo Lima (2007), estaria voltada para os setores mais empobrecidos da população e para a formação de professores, reforçando a dicotomia histórica entre a educação oferecida para a classe trabalhadora e para a classe burguesa. Destaca-se, no governo Lula, através do ministro Cristovam Buarque, o debate sobre o papel da universidade pública e o processo de exclusão que a mesma referenda ao não se tornar acessível à classe trabalhadora, justificando-se, assim, a proposta de cobrar taxas nas universidades públicas, desconsiderando que a dificuldade desse acesso por parte da classe trabalhadora está diretamente relacionada à abertura de vagas e à existência de uma política de permanência do estudante na universidade. Pode-se perceber nesse governo uma política de continuidade dos princípios do neoliberalismo para o ensino superior, tendência essa que vem se expressando desde a década de 1990, sendo há duas décadas fortalecida e consolidada como projeto hegemônico na sociedade. Tem-se nesse governo também a reformulação do sistema de avaliação nacional do ensino superior (SINAES) que, apesar de suas mudanças, mantém um direcionamento para o “ranqueamento” das IES, de modo a enfatizar a mercantilização da educação no ensino superior. Outro programa de destaque no governo Lula é o Programa Universidade para Todos (ProUni), que reforça a tendência da parceria público-privado no ensino superior, pois se constitui numa estratégia para diminuir as vagas ociosas no ensino superior privado, oferecendo bolsas de estudo para alunos pobres em universidades privadas em troca de isenções tributárias para essas instituições. 40 O ProUni constitui-se em mais uma modalidade de parceria público-privado que objetiva resolver a crise de inadimplência vivenciada pelo setor privado diante do aumento dos valores da mensalidade ou anuidades das instituições privadas de ensino superior e do nível de empobrecimento progressivo dos trabalhadores brasileiros. Assim como a política de cotas conduzida pelo governo, o ProUni possui o papel estratégico de garantir a aparência de um projeto democrático-popular (LIMA , 2007, p. 173). Selando esse processo de privatização do ensino superior, tem-se, em 2004, o lançamento do anteprojeto de lei da reforma da educação superior, que torna evidente a direção assumida pelo governo no que se refere ao ensino superior. De acordo com Lima (2007), nesse anteprojeto opta-se pelo incentivo à diversificação das instituições de ensino, pela submissão às demandas do mercado, pela manutenção de um parco financiamento público para o ensino superior e pela ampliação dos cursos à distância, consolidando a tendência do empresariamento do ensino superior no Brasil. Destarte, o ensino superior vem sofrendo intensos processos de precarização, que, segundo Pereira (2008), tem se configurado nas seguintes tendências para o ensino superior: aumento da participação do setor privado no surgimento das instituições de ensino superior; e várias modalidades de ensino – cursos de curta duração, ensino à distância e o aumento da procura pelo ensino superior. Tais reconfigurações do ensino superior são justificadas pelo processo de globalização, competição no mercado de trabalho, exigências de qualificação. Porém, como o Estado não consegue dar resposta a essa demanda, deixa a cargo do setor privado, principalmente em países mais pobres, onde a maior preocupação do Estado em relação à educação ainda está nos níveis básicos. Assim, o processo de privatização e precarização do ensino superior deve-se às reconfigurações do capitalismo e apresenta-se como a solução para os problemas da educação, como se estivesse defendendo a qualidade e excelência da política educacional para o ensino superior. Cabe pensar quais as consequências e os reflexos dessas reconfigurações no campo do ensino superior. A forma como esse processo ocorre, em linhas gerais, enfatiza uma concepção de educação mercadológica, voltada exclusivamente para uma qualificação para o mercado de trabalho, uma vez que o fenômeno da globalização mostra-se como necessário e irreversível, e coloca a necessidade de ações que garantam sua manutenção. 41 Nessa perspectiva, a educação torna-se também um dos instrumentos para a consolidação de valores “globalizantes”: competição, individualismo e necessidade de qualificação para a empregabilidade. Para uma sociedade onde não há interesse na emancipação e na transformação das relações sociais, as universidades privadas tornam-se “shopping centers”, que em sua grande maioria são funcionais à lógica do mercado. Essas instituições privadas de ensino superior colocam um desafio para docentes, discentes e direção: como manter, dentro dessa lógica mercadológica, uma contra-direção, um projeto que prime pela educação como direito e como possibilidade de construção de uma formação crítica e da efetivação de um processo de ensino-aprendizagem? Assim, pode-se dizer que vivemos hoje, de acordo com Giolo e Ristoff (2006), um esgotamento da expansão do ensino superior privado, visto que atualmente temos um alto índice de vagas ociosas nessas instituições, o que tem acirrado a competição e a briga para atrair os “consumidores da educação”. Essa disputa por mercado não tem indicado uma melhoria na qualidade do ensino, muito pelo contrário, aponta para um processo de maior precarização do ensino e das condições de trabalho do docente. Na tentativa de se manter “vivo e competitivo” nessa disputa, o mercado tem recorrido a três estratégias, no atual cenário do ensino superior privado: O primeiro consiste na fusão entre IES. O segundo, na compra, por instituições maiores, de IES médias e pequenas, e das que resultaram das fusões aludidas no primeiro caso. O terceiro – dada a tendência à internacionalização da educação superior, na condição de prestadora de serviços ou fornecedora de uma quase-mercadoria e não garantidora de um direito social e subjetivo de todo cidadão (GIOLO; RISTOFF, 2006, p. 71). O atual cenário da política para o ensino superior revela a defesa de uma concepção de educação relacionada mais aos interesses do mercado e da classe burguesa, que prima pela formação para o mercado de trabalho, tornando a educação um serviço a ser comprado e usufruído, perdendo seu caráter de direito social. Tal perspectiva causa rebatimentos diretos nos mais diversos cursos de graduação, na prática pedagógica do docente e no próprio processo de ensino aprendizagem, pois evidencia em algumas situações a existência da disputa entre projetos antagônicos de educação, como analisaremos a seguir. 42 Capítulo II – Educação, Formação e Docência no curso de Serviço Social “Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda”. Paulo Freire 43 Capítulo II – Educação, Formação e Docência no curso de Serviço Social Para tratar da temática da docência, entendemos ser necessário dissertar, preliminarmente, a respeito da concepção de educação sobre a qual este trabalho está ancorado, assim como apresentar os antecedentes históricos da formação em Serviço Social, de modo que ambos os temas levem-nos a adensar o debate quanto à prática pedagógica do assistente social docente no curso de Serviço Social. 2.1 A concepção de educação e o Serviço Social Numa perspectiva crítica dialética de análise da realidade, compreende-se que a educação e as instituições que a representam (entre elas: as escolas, as universidades e as faculdades), por meio de seus projetos pedagógicos, reproduzem ou problematizam o projeto de sociedade e são permeadas pelas contradições inerentes ao sistema capitalista. Assim, refletir sobre o conceito de educação impõe analisar as próprias contradições do capitalismo e o modo como a educação é assumida ao longo do processo histórico: os interesses políticos, econômicos e sociais que a educação representa e os conflitos que se gestam em seu interior. Como nos apontam Marx e Engels (1978), um dos debates travados no campo da educação, assinalando uma de suas problemáticas, é a separação que se dá no interior do modo de produção capitalista entre pensar e fazer. Nesse modelo societário, a aquisição do saber, assim como a sua utilização, sinalizam uma divisão de classes, pois não é incentivado nem oportunizado ao trabalhador operário, inicialmente, o desenvolvimento de suas habilidades intelectuais, uma vez que sua atividade laborativa, logo sua condição de classe, geralmente não exige esse amplo desenvolvimento intelectual. Com o capital, a arte e o pensamento degradam-se, tornando-se transaccionáveis (sic) por dinheiro. Ora, desde o alvorecer das sociedades de classe, os pensadores e os artistas eram indivíduos fora do comum, porque, na época em que o escravo ou o servo estava ligado ao trabalho produtivo e era desprezado por isso, o trabalho do pensamento e da arte surgia como a actividade (sic) nobre e desinteressada de um demiurgo que exprimia um facto sublime (MARX; ENGELS, 1978, p. 27-28). 44 Essa perspectiva reforça a separação entre homo faber e homo sapiens10, sendo que, para a classe dominante é oportunizado o amplo desenvolvimento do homo sapiens, e para a classe trabalhadora fica relegado o desenvolvimento do homo faber. Gramsci (2004) coloca que essa divisão cinde o ser humano, impossibilitando-lhe o desenvolvimento amplo e genérico, na acepção marxista. Tendo em vista que o desenvolvimento genérico do humano possibilita seu reconhecimento enquanto sujeito histórico da sociedade e possível agente da transformação, essa divisão entre os saberes reforça e mantém a divisão de classes como algo natural. Segundo Freire (2006), essa perspectiva de educação que aliena o sujeito é entendida como uma perspectiva de educação bancária, em que o aluno é visto como objeto e o professor como o dono do saber, relação esta que reforça a absolutização da ignorância e que considera o processo de ensino aprendizagem como estático e imutável. Nessa concepção de educação, a aprendizagem se configura como um processo de transferência de saberes, de coisificação do aluno e de adequação deste ao meio. Sendo assim, essa educação colabora para que a classe trabalhadora adapte-se à realidade social sem estimular questionamentos ou criticidade a respeito do contexto social. Aqui está posta a grande contradição do campo da educação: a cisão entre formação para o trabalho intelectual e a formação para o trabalho manual. A divisão social do trabalho faz com que a atividade intelectual e material, o prazer e o trabalho caibam em partilha a indivíduos diferentes, e tem, entre outras consequências nefastas para o trabalhador, a oposição entre riqueza e pobreza, depois entre saber e trabalho (MARX; ENGELS, 1978, p. 11). Segundo Freire (2006), historicamente percebe-se que os homens travaram lutas na busca por sua humanização, esta entendida como a possibilidade de se constituir como um ser criador, não somente que está no mundo, mas que está com o mundo. A busca por essa humanização incide diretamente no processo de conscientização dos homens, que possibilita se reconhecerem como sujeitos e interventores nessa realidade. Assim, há necessidade de pensar formas de superação dessa separação entre pensar e fazer. 10 Ver: GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais. O princípio educativo. v. 2. In: ________. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. 45 O enfretamento dessa separação significa o combate à própria sociedade capitalista e ao seu modo de organização. A junção entre pensar e fazer acarretaria outra forma de produção e distribuição da riqueza, afetando diretamente a própria divisão sócio-técnica do trabalho. A faculdade de saber e compreender é um dom geral da natureza. Contudo ela só é desenvolvida pela instrução. Se as faculdades fossem iguais, cada um trabalharia moderadamente, e cada um saberia um pouco, porque ficaria para cada um uma porção de tempo para se entregar ao estudo e ao pensamento (MARX; ENGELS, 1978, p. 11). Nesse quadro a educação tem sido apontada como um instrumento que reforça a dominação e a divisão de classes, que colabora para a manutenção do projeto hegemônico de sociedade e mantém as desigualdades sociais. A escola inculca nas crianças preconceitos, sendo as suas verdades falsas para os pais operários, porque lhes ensinam os pensamentos da classe dominante (...). Tem tendência para dar aos jovens uma educação que os torna leais e resignados ao sistema actual, e os impede de descobrir as suas contradições internas (MARX; ENGELS, 1978, p. 36-37). Direcionada pelo projeto hegemônico capitalista, a educação destinada à classe trabalhadora enfatiza a qualificação para o trabalho, com o intuito de adequar os trabalhadores ao modo de produção, além de reforçar os valores dominantes de uma determinada época. A educação que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança, tornouse instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista: fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes (MÉSZÁROS, 2008, p. 15). As diversas práticas educativas que foram se constituindo no decorrer do processo histórico, assumiram hegemonicamente formas de controlar e reproduzir um sentimento de resignação e naturalização das relações de opressão e exploração. De fato, da maneira como estão as coisas hoje, a principal função da educação formal é agir como um cão-de-guarda ex-officio e autoritário para 46 induzir um conformismo generalizado em determinados modos de internalização, de forma a subordiná-los às exigências da ordem estabelecida (MÉSZÁROS, 2008, p. 55). Essa perspectiva de educação colabora para a desumanização e alienação do homem, que não se reconhece como sujeito e passa a ter uma postura passiva diante do contexto histórico, não conseguindo ver-se como agente de mudança dessa situação. Esta nos parecia uma das grandes características de nossa educação – a de vir enfatizando cada vez mais em nós posições ingênuas, que nos deixam sempre na periferia de tudo o que tratamos. Pouco ou quase nada, que nos leve a posições mais indagadoras, mais inquietas, mais criadoras. (...) nos levando, pelo contrário, à passividade, ao “conhecimento” memorizado apenas, que, não exigindo de nós elaboração ou reelaboração, nos deixa em posição de inautêntica sabedoria (FREIRE, 2006, p. 104). Nesse modelo societário, segundo Mészáros (2008), a concepção de educação que prevalece é a que defende a internalização dos mecanismos de exploração e subordinação da classe trabalhadora aos interesses capitalistas. Podemos dizer, então, que pensar a educação em um modelo capitalista é analisá-la como instrumento de reprodução das relações objetivas e subjetivas da sociedade. Cabe pensar, de acordo com Freire (2006), sobre qual educação reivindicaremos: uma educação para a “domesticação” ou uma educação para a liberdade; educação para o homemobjeto ou educação para o homem-sujeito. Como o modo de produção capitalista é permeado de contradições, faz-se necessário identificar no campo da educação, mesmo com essa direção hegemônica de reprodução, as possibilidades de luta e de construção de contra tendências frente ao projeto capitalista. Assim, educar não se resume à transferência de conhecimento, mas deve ser um processo que propicie o reconhecimento da história como um campo de possibilidades, não só de limitações, que reconheça as próprias contradições vivenciadas no cotidiano. A educação numa perspectiva libertadora colaboraria para o processo de reconhecimento do trabalhador como um agente político, que pensa, age e usa a palavra como arma para transformar o mundo. 47 Romper com a lógica do capital na área da educação equivale, portanto, a substituir as formas onipresentes e profundamente enraizadas de internalização mistificadora por uma alternativa concreta abrangente (MÉSZÁROS, 2008, p. 47). Nessa direção, a educação torna-se mais um instrumento de luta da classe trabalhadora, que passa a utiliza-la para defesa de seus interesses e na construção de alternativas frente ao que está posto. Assim, a educação torna-se possibilidade de luta emancipatória e campo de conquista de direitos. Para tal, faz-se necessário pensar um projeto de educação que se sustente e se torne viável mesmo no interior do sistema capitalista. Necessitamos, então, urgentemente, de uma atividade de “contrainternalização”, coerente e sustentada, que não se esgote na negação – não importando quão necessário isso seja como uma fase nesse empreendimento – e que defina seus objetivos fundamentais, como a criação de uma alternativa abrangente concretamente sustentável ao que já existe (MÉSZÁROS, 2008, p. 56). Nessa perspectiva, a educação pode ser um instrumento de luta contra hegemônica11 à ordem burguesa. O ensino permitirá aos jovens acompanhar o sistema total de produção, colocando-os em condições de se alternarem de um ramo da produção a outro, segundo os motivos postos pelas necessidades da sociedade ou por suas inclinações. Eliminará dos jovens aquele caráter unilateral imposto a todo indivíduo pela atual divisão do trabalho. Deste modo, a sociedade organizada pelo comunismo oferecerá aos seus membros a oportunidade de aplicar, de forma onilateral, atitudes desenvolvidas onilateralmente (MANACORDA, 1991, p. 18). Na perspectiva da educação libertadora, segundo Freire (2006), faz-se necessário construir um processo de ensino e aprendizagem que oportunize ao sujeito fazer a relação entre pensar e fazer, pensando a educação de modo integrado às questões objetivas de sua vida, de modo que pensar e fazer não tenham aparência dicotomizada. A educação libertadora não pode se pautar pelo ato de depositar conhecimentos, mas sim por um processo de permanente construção de saberes, que se dará numa relação em que 11 Gramsci (2004) considera contra hegemonia a luta da classe trabalhadora em construir um projeto societário que defenda os seus interesses e elimine a exploração de classes. A contra hegemonia, assim como a hegemonia, será constituída de elementos de consenso, tais como a educação e os meios de comunicação, e de elementos de coerção, tais como o aparato cívico-militar. 48 o educando é educador e o educador é educando, demonstrando claramente um movimento dialético do saber que o significa e resignifica através do processo de ensino e aprendizagem. Desta forma, de acordo com Freire, ambos tornam-se sujeitos do processo. Nos dizeres de Freire (2006), a educação problematizadora tem um caráter eminentemente reflexivo e de desvelamento do mundo. A educação como prática da liberdade, ao contrário daquela que é prática da dominação, implica a negação do homem abstrato, isolado, solto, desligado do mundo, assim como também a negação do mundo como uma realidade ausente dos homens (FREIRE, 2006, p. 98). Assim, essa concepção de educação funda-se numa perspectiva histórica do mundo e dos homens, reconhecendo que nesse mundo e nesses homens estão encerradas possibilidades e inconclusões. Uma concepção de educação libertadora tem como horizonte a luta pela alteração do modelo societário, luta esta que se dá no interior das contradições do sistema capitalista, e almeja a construção de novas relações sociais, sem exploração e desigualdade. Fala de libertação do homem na base de um mundo material, completamente revolucionado para socializar e desenvolver o homem em todos os sentidos, após ter operado a fusão da cidade e do campo, do ensino e da produção, do trabalho manual e do trabalho intelectual, de tal forma que o homem deixará de ser uma pessoa privada, mas um homem social – se o comunismo tem um sentido (MARX; ENGELS, 1978, p. 31-32). Assim, compreender o processo de educação leva-nos a pensar os estreitos vínculos entre educação e trabalho, pois a forma como se estrutura o modo de produção numa sociedade indica algumas necessidades que deverão ser atendidas no campo da educação. Com esse intuito, duas questões tornam-se fundamentais no capitalismo: a universalização da educação e a universalização do trabalho como atividade humana auto realizadora. A questão seguinte, porém, é: qual educação será universalizada? Qual concepção de educação será defendida nesse projeto de sociedade? Percebe-se que, historicamente, a ênfase vem sendo dada à educação para a manutenção e reprodução das relações sociais, transferindo a educação do campo dos direitos sociais para o campo da mercadoria. 49 Segundo Frigotto (1993), a educação tem um vínculo direto com a esfera produtiva. Assim, o acesso à escola não se torna um obstáculo para o desenvolvimento do capitalismo, mas sim uma necessidade, o que se altera é a forma dessa inserção, que se dá, em geral, em escolas de baixa qualidade e limitadas. De acordo com a lógica apresentada, o capital – na busca incessante por sua sobrevivência e sob forma de grandes monopólios – joga-se constantemente numa luta feroz por mercados, cria necessidades e avança em todas as esferas ainda não atravessadas pela lógica mercantil, como aquela dos direitos sociais (PEREIRA, 2008, p. 28). Nesse modelo, a educação é usada como parte do processo de convencimento que a ideologia dominante procura exercer sobre a classe trabalhadora, pois, segundo Pereira (2008, p. 30) “a hegemonia de uma classe sobre a outra exige fundamentalmente a educação para a construção dos consensos”. Desse modo, a luta por outra concepção de educação está diretamente relacionada à junção entre ciência e trabalho, de forma que o desenvolvimento destes seja articulado, proporcionando as mesmas condições para todos os indivíduos. Isto significa que a escola não pode deixar de se configurar a não ser como um processo educativo em que coincidem a ciência e o trabalho; uma ciência não meramente especulativa, mas operativa, porque, sendo operativa, reflete a essência do homem, sua capacidade de domínio sobre a natureza; um trabalho não destinado a adquirir habilidades parciais do tipo artesanal, porém o mais articulado possível, pelo menos em perspectiva, à tecnologia da fábrica, a mais moderna forma de produção (MANACORDA, 1991, p. 65, grifo nosso). Eis um dos atuais desafios da educação: pensar uma prática educativa que colabore para a não separação do ser humano em esferas distintas, de forma que ciência e trabalho se articulem em um processo de ensino-aprendizagem, estimulando a apreensão da perspectiva de totalidade. práxis educativa que, ligando-se ao desenvolvimento real da sociedade, realize a não-separação dos homens em esferas alheias, estranhas à outras e contrastantes, ou seja, uma práxis educativa que se funde sobre um modo de ser que seja o mais possível associativo e coletivo no seu interior e, ao 50 mesmo tempo, unido à sociedade real que o circunda (MANACORDA, 1991, p. 75). Essa prática educativa exige uma relação intrínseca entre conhecimento prático e teórico, a apropriação do conhecimento se dá de forma profunda, articulando cérebro e mãos, efetivando, com essa prática, o pleno desenvolvimento do ser humano, já que a cisão ciência e trabalho reforça a alienação e a unilateralidade das habilidades humanas. Ora, exatamente no momento em que a atividade vital humana, do homem como “ser genérico”, do gênero humano em seu conjunto, se apresenta dividida e dominada pela espontaneidade, pela naturalidade e pela casualidade, todo homem, subsumido pela divisão do trabalho aparece unilateral e incompleto. Essa divisão se torna real quando se apresenta como divisão entre o trabalho manual e o trabalho mental, porque aí, se dá a possibilidade, ou melhor, a realidade de que a atividade espiritual e a atividade material, o prazer e o trabalho, a produção e o consumo se apliquem a indivíduos distintos (MANACORDA, 1991, p. 46). Na indústria capitalista, em geral, ciência e trabalho se separam; a ciência aparece como uma entidade em si e não é mais parte integrante do trabalho desenvolvido pelo operário, configurando-se como uma força alienada, que o domina e por isso colabora para sua desumanização. enquanto no processo de trabalho artesanal a relação consciente entre conhecimento científico e execução prática era imediata, na grande fábrica industrial, as duas funções se separam claramente e o operário fica despojado, inclusive, de toda possibilidade teórica. A ciência se coloca diante dele de modo estranho: é uma parte do processo da sua desumanização (MANACORDA, 1991, p. 108). Segundo Neves (2000), quando se prioriza a educação para o trabalho, atende-se aos interesses empresarias de um mínimo de qualificação para o trabalho e ratifica-se a exclusão educacional da maioria da classe trabalhadora, reproduzindo no âmbito educacional a estrutura de classes vigente no país. Cabe ressaltar que o ser humano nasce com todas as potencialidades. Porém, a forma como as mesmas são desenvolvidas, as oportunidades e condições que lhe são apresentadas ao longo da vida estão diretamente relacionadas ao lugar que ocupa na sociedade. Assim, um membro da classe trabalhadora provavelmente terá condições diferentes de desenvolvimento 51 de suas potencialidades do que um membro da classe dominante, pois a relação entre educação e trabalho se faz presente nesse modelo societário. Portanto, entende-se que a condição objetiva de trabalho indica a qual educação esse sujeito terá acesso. E o inverso também se faz verdadeiro. O acesso a esses tipos de ensino, de um modo geral, reproduz a nossa estrutura de classes: às elites e seus intelectuais é permitido o ingresso às reduzidas vagas nos ramos e níveis de ensino destinados à conformação técnico-científica da força de trabalho. Aos representantes das classes populares e seus aliados, quando entram na escola, é reservado, na grande maioria dos casos, o acesso à base do sistema escolar de natureza, ainda, predominantemente dogmática e aos ramos de ensino profissionalizante (NEVES, 2000, p. 21). De acordo com Pereira (2008), a escola, nesse contexto, constituiu-se como uma instituição funcional à reprodução do capital e representativa da ideologia dominante. Porém, no seu interior, verificam-se as contradições do sistema capitalista, configurando-se a escola também como um espaço da luta de classes. Destarte, a expansão do sistema educacional está diretamente relacionada à expansão do capitalismo. A massificação da educação se deu no século XX, devido à intensificação do processo de industrialização, que necessitava do avanço da ciência, no que se refere à difusão tecnológica e à introdução de novas maquinarias, passando a exigir um novo homem, um novo trabalhador. Na contemporaneidade, a educação formal dá ênfase à formação para o mercado de trabalho, numa perspectiva de inserção e adequação ao modelo vigente, não necessariamente estimulando nesse trabalhador o senso crítico e questionador a respeito de sua condição de vida. Por escola, entende-se aqui, aquela instituição que, no mundo contemporâneo, destina-se à formação técnico-política do cidadãotrabalhador, em face das exigências crescentes de racionalização do trabalho e do conjunto das relações sociais, a partir do momento em que a ciência vaise transformando na principal força produtiva do capitalismo monopolista (NEVES, 2000, p. 19). Nesse sentido, a formação profissional também tem tido uma direção prioritariamente voltada para o desenvolvimento de habilidades puramente técnicas, reforçando a cisão entre 52 pensar e fazer, já que, na atualidade, o estímulo a maior tempo de escolarização não significa necessariamente ascensão social, ou alteração na condição estruturante de classe trabalhadora. Hoje, o estímulo à escolarização possibilita, no máximo, uma ascensão horizontal dentro da própria classe, ou seja, uma mobilidade de poder aquisitivo, não enquanto mudança de sua função e papel nessa estrutura, ou seja, de classe. Apresentar o ensino como um meio que se oferece a todos, como uma oportunidade de subida social, oferecida no alvorecer da vida, independentemente da origem social dos indivíduos, é típico da abstrata e oca democracia burguesa e procede de uma dupla mistificação, que só tem influência sobre os pequeno-burgueses que oscilam entre as classes exploradoras e a classe explorada (MARX; ENGELS, 1978, p. 38). Assim, faz-se necessário refletir a respeito de como fortalecer essa perspectiva de educação libertadora no interior dos aparelhos privados de poder, sendo estes as escolas, as faculdades e/ou as universidades. Destarte, entendemos que essa direção dada para a educação reflete-se em seus mais diversos níveis e das mais diversas formas. Assim, apresentaremos a seguir o modo pelo qual determinada concepção de educação vai se definindo no interior de um curso e de uma profissão, no caso o Serviço Social. 2.2 Aspectos históricos do surgimento e consolidação do Serviço Social no Brasil De acordo com Yasbek (et al., 2008), para compreender o surgimento, desenvolvimento e consolidação de uma profissão, é necessário pensar a realidade social, uma vez que as profissões são construções históricas e só podem ser compreendidas e analisadas no interior do movimento das sociedades em que estão inseridas. Esse engendramento da profissão na trama das relações sociais permite-nos compreender de forma mais ampla as particularidades e peculiaridades presentes em seu processo de constituição e desenvolvimento. Historicamente, o Serviço Social no Brasil constituiu-se como uma profissão que contribuiu para a amenização dos conflitos sociais e manutenção do status quo. A forma como 53 essa profissão vem sendo organizada ao longo do processo histórico, demonstra que sua caracterização sofre influência de fatores sócio-históricos, políticos, culturais e econômicos. De acordo com Iamamoto e Carvalho (2000), o surgimento do Serviço Social no Brasil está relacionado ao processo de industrialização no país, que acarretou o acirramento das expressões da questão social e foi marcado por um momento político no qual vários segmentos da classe dominante estavam disputando a preservação dos seus interesses12. O aparecimento da profissão no Brasil está associado ao crescimento da intervenção do Estado na produção e reprodução das relações sociais. O surgimento do Serviço Social no Brasil está vinculado ao processo de industrialização e desenvolvimento econômico, permeado pelo aumento da classe trabalhadora e pelo acirramento dos conflitos de classe. Assim, em meados da década de 1930 e início da de 1940, o Serviço Social tornou-se um recurso para o enfrentamento da questão social13, uma vez que as intervenções de cunho assistencial, religioso e filantrópico mostraram-se insuficientes no trato das expressões da questão social. Nesse período, devido ao acirramento da luta de classes, o Estado passa a ser um regulador dessas relações de classe: por um lado, reconhecia as expressões da questão social e, por outro, buscava enquadrar e desmobilizar a classe trabalhadora através de ações que visavam ao controle das tensões sociais. No início, o Serviço Social sofreu influência da doutrina social da Igreja Católica, responsável direta pela constituição das primeiras ações sociais e pela institucionalização do curso. Tal constituição acabou por responder, num primeiro momento, aos interesses da Igreja e das frações da classe dominante. No surgimento da profissão no Brasil, a Igreja Católica teve um papel central na estruturação do Serviço Social como profissão, seja através da influência da doutrina social da Igreja, dos seus valores morais, seja pela estruturação do processo de formação, que inicialmente foi majoritariamente comandado por mulheres do movimento católico leigo14. 12 Ver: IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no Brasil. Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2000. 13 Entende-se questão social de acordo com Iamamoto e Carvalho (2000, p. 126-127): “a questão social deixa de ser apenas contradição entre abençoados e desabençoados pela fortuna, pobres e ricos, ou entre dominantes e dominados, para constituir-se, essencialmente, na contradição antagônica entre burguesia e proletariado, independentemente do pleno amadurecimento das condições necessárias à sua superação”. 14 O movimento católico leigo era um movimento formado por homens e mulheres intelectuais da sociedade. Tinha por objetivo difundir a doutrina social da Igreja Católica de modo a ampliar seus adeptos. A 54 De acordo com Iamamoto e Carvalho (2000), a Igreja estava buscando recuperar privilégios perdidos frente ao Estado e, para isso, articulou diferentes ações para a reconquista desses interesses particulares. Como os problemas sociais eram gritantes, e no momento tínhamos uma classe dominante frágil e fragmentada, a Igreja pensou estratégias para lidar com a questão social. Representando ao mesmo tempo uma luta contra os ideais liberais e comunistas, a Igreja elaborou uma alternativa para harmonizar as relações entre as classes sociais através de sua doutrina social: o humanismo cristão, que tinha como um de seus aportes as encíclicas papais Rerum Novarum e Quadragesimo Anno15. De acordo com Yasbek (et al., 2008), a primeira escola de Serviço Social, criada em 1936, teve como instituição mantenedora e fundadora o Centro de Estudos e Ação Social (CEAS), que surgiu em 1932, após a realização de um curso intensivo de formação social, ocorrido sob a direção de Melle. Àdele de Luneux, professora da Escola de Serviço Social da Bélgica. Tal curso contou com uma boa aceitação por parte de jovens católicas que, após o concluírem, optaram por criar o CEAS com o objetivo de manterem seus estudos e realizarem atividades de ação social. Inicialmente, o CEAS teve por objetivo divulgar a doutrina e a ação social da Igreja Católica através de cursos e ações sociais, sendo financiado pelas mensalidades das sócias. Em 1934, o CEAS assumiu a responsabilidade de implantação da Ação católica16 em São Paulo e organizou a primeira Semana de Ação Católica, ação esta que tinha por objetivo defender os princípios religiosos e morais católicos. Segundo Yasbek (1977), as ações do CEAS não se restringiam ao campo dos estudos, também promoviam visitas às instituições e obras sociais e a criação de Centros Operários em São Paulo, onde os membros do CEAS por meio de palestras e cursos poderiam se aproximar, principalmente, das mulheres da classe trabalhadora, buscando conhecer suas necessidades e o ambiente em que viviam. esse respeito, consultar: IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no Brasil. Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2000. 15 Para maiores informações sobre esses documentos e a proposta de harmonização de classes, consultar: CASTRO, Manuel Manrique. História do Serviço Social na América Latina. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2008. 16 A ação católica é um movimento da Igreja Católica organizado por leigos que tinha por objetivo difundir a doutrina social da Igreja Católica. Para maiores informações sobre o assunto, consultar: AGUIAR, Antônio Geraldo de. Serviço Social e Filosofia: das origens a Araxá. São Paulo: Cortez, 1995. 55 Ainda segundo a autora, a atuação, nesse momento, se dava através do método ver, julgar e agir, que pretendia despertar nas operárias senso de responsabilidade frente a seus problemas, assim como incutir em seu modo de vida os valores da doutrina social da Igreja Católica. Em 15 de fevereiro de 1936 inaugurou-se a Escola de Serviço Social de São Paulo, que inicialmente mesclava as visões francesa e belga na elaboração da formação profissional. Tal proposta de Serviço Social está associada à ideia de “adaptação do indivíduo ao meio e do meio ao indivíduo” (YASBEK et al., 2008, p. 11). Conforme Iamamoto e Carvalho (2000), a relação intrínseca do Serviço Social com a Igreja Católica nesse momento garantiu um caráter de apostolado à profissão, associado a uma visão moral da questão social, sob enfoque psicologizante e moralizador, centrado no indivíduo e na família. O Serviço Social teve como horizonte de sua ação a integração do indivíduo à sociedade de modo harmônico. Esse direcionamento da profissão também foi garantido, de acordo com Abreu (2004), pela influência do americanismo, a principal referência sociocultural presente na gênese do Serviço Social norte-americano. O americanismo17 constituiu-se como uma nova base material e ideológica que se firmou como uma tendência hegemônica nas primeiras décadas do século XX. A influência do americanismo na gênese do Serviço Social brasileiro, de acordo com Abreu (2004, p. 50), colaborou para que “o Serviço Social desenvolva-se como profissão de cunho eminentemente educativo, sustentada, principalmente, nas influências pedagógicas do taylorismo e da filosofia neotomista”. É com base nessas influências que a questão social passa a ser tratada de forma moralizante, prevendo mudanças no âmbito individual e criando, então, no interior da profissão, estratégias educativas subalternizantes, que dão base para o desenvolvimento do que Abreu (2004) chama de pedagogia da ajuda e da participação. 17 “O americanismo, segundo a análise gramsciana, caracterizou uma modalidade de hegemonia do capital, como uma forma histórica de concreção de uma revolução passiva (...). O americanismo ‘transforma-se, pois no conteúdo de socialização da fase imperialista do desenvolvimento capitalista, isto é, a tradução de um projeto de hegemonia – mais afinado com o objetivo progressista, para as classes dominantes tradicionais, de contrarrestar a queda tendencial da taxa de lucro a partir da multiplicação das variáveis nas condições do aumento regulado do capital constante.’ Desenvolve-se, ao mesmo tempo, um complexo de novas superestruturas na medida em que viabiliza a expansão generalizada da nova sociedade civil, revelando-se, deste modo, uma ‘ideologia constituidora do real’, que se objetiva em uma forma peculiar de pensar, de agir e de sentir a vida” (ABREU, 2004, p. 35). 56 Essas perspectivas pedagógicas reforçam uma visão psicologizante da questão social e as intervenções individuais para o enfrentamento da questão social, enfraquecendo as possibilidades de luta da classe trabalhadora. De acordo com Abreu (2004), a pedagogia da ajuda estaria traduzida na ajuda psicossocial individualizada e agrega componentes morais em seu atendimento, no sentido de culpabilizar e responsabilizar unicamente o indivíduo frente a sua situação, colocando-o também como único responsável pela resolução de seus problemas. Conforme Yasbek (et al., 2008), no início da institucionalização da profissão não houve dificuldade na criação de estágios e inserção no mercado de trabalho, visto que o Estado começou a criar os primeiros departamentos e instituições, que receberiam esses profissionais antes mesmo do término da formação. Em 1938, tem-se a criação da primeira turma masculina, como demanda de órgãos estatais que, para algumas ações, preferiam o trabalho masculino. Após a formação da primeira turma masculina, criou-se o Instituto de Serviço Social (ISS), limitado à formação de rapazes. Em 1937, tem-se o surgimento da segunda escola de Serviço Social, localizada no Rio de Janeiro. Segundo Iamamoto e Carvalho (2000), com a institucionalização da profissão através do surgimento das primeiras escolas, colocou-se como pressuposto para a efetivação da ação social a necessidade de uma formação técnica. Esta formação era pautada pelos interesses da Igreja e das frações da classe dominante, que interpelavam os profissionais de Serviço Social a intensificarem suas ações sociais junto à classe trabalhadora, colaborando – conscientemente ou não – para a formação de um consenso em favor do projeto societário da emergente burguesia industrial. A necessidade de formação técnica especializada estará no centro dos debates (...). Será reconhecido que as “atividades precederam a formação”, e que as obras até aquele momento mantidas se ressentem de “certa falta de informação doutrinária e técnica”, que a intuição e o senso das necessidades não foi capaz de acudir. (...) Por outro lado se vê que “crescem diariamente as necessidades do meio social católico”, cujo desenvolvimento estará intimamente relacionado à existência de colaboradores eficazes, propagandistas, dirigentes especializados (...). A necessidade de formação técnica especializada para a prática da assistência é vista não apenas como uma necessidade particular ao movimento católico. Tem-se presente essa necessidade, enquanto necessidade social que não apenas envolve o aparato 57 religioso, mas também o Estado e o empresariado (IAMAMOTO; CARVALHO, 2000, p. 184, grifo nosso). Essa proposta de formação atendia aos interesses econômicos, sociais e políticos da época, legitimando uma prática social assistencialista, paternalista e autoritária. O Serviço Social defendia um projeto de integração e ajustamento do indivíduo na sociedade, de forma que este não representasse perigo para os interesses do projeto hegemônico. A formação foi organizada com base em conceitos e conhecimentos que justificassem e reforçassem tal perspectiva de ação. A mesma foi pensada de tal maneira que respondesse aos interesses do período, com a necessidade de oferecer uma formação técnica e científica, mas, ao mesmo tempo, reiterar os valores da doutrina social da Igreja Católica. a formação do Assistente Social se dividiria, geralmente, em quatro aspectos principais: científica, técnica, moral e doutrinária. A primeira, a partir de noções muito variadas, se compunha de conhecimentos sobre o Homem na sua vida física, psicológica, econômica, moral, social e jurídica, estado normal e perturbações a que está sujeito (...). A preparação técnica ensinaria como combater os males sociais e a imprimir ao trabalho do Assistente Social um caráter inteiramente diverso do desenvolvido pelas demais formas de assistência (...). A formação moral seria o coroamento do trabalho de preparação do Assistente Social, pois, na falta de uma formação moral solidamente edificada sobre uma base de princípios cristãos, a ação seria falha, devido à ausência dos elementos que garantem uma ação educativa, que é visada pelo Serviço Social. (...) Por fim, e tendo em vista que o Serviço Social supõe uma filosofia de vida e, consequentemente, a impossibilidade de ser neutro ou eclético, a formação doutrinária. Esta seria a base, o elemento vivificador de todos os outros aspectos da formação do Assistente Social. Uma posição em face da vida que ofereceria a garantia da unidade e execução do programa de formação. Deveria impregnar a personalidade do Assistente Social, o qual deve estar convicto dos princípios que deve defender (IAMAMOTO; CARVALHO, 2000, p. 223-224). Desta forma, o curso de Serviço Social nasceu como uma necessidade para o enfrentamento das mazelas sociais, associado claramente à Igreja Católica. Assim, as primeiras instituições de ensino superior que tiveram o curso de Serviço Social foram instituições privadas. De acordo com Yasbek (apud PEREIRA, 2008), entre 1936 e 1945 a formação dos assistentes sociais apresentava as seguintes características: 58 a) Influência do ideário franco-belga, presente, sobretudo nas preocupações com a situação da classe operária e com a ação social. Ensino inspirado em currículo de escolas européias; b) Concepção de ação social e trabalho social marcado pela filosofia católica, expressa em documentos pontifícios comprometidos com a justiça social e com a reforma da sociedade capitalista. Crença de que pela reforma social seria possível superar os problemas sociais gerados pela Revolução Industrial e combater a influência comunista (posição antiliberal e anticomunista); c) Abordagem individualizada dos problemas sociais por meio do Serviço Social de Casos Individuais. Atenção especial à família, instituição social em que se constatam e expressam mais nitidamente os problemas sociais. d) Perspectiva de adaptação do indivíduo ao meio e do meio ao indivíduo (...). e) Trabalho baseado em precária instrumentação técnica (visitas domiciliares, entrevistas, documentação), porém marcado pelo idealismo da ação social católica junto às classes menos favorecidas. f) Contribuição para a racionalização da assistência prestada por obras sociais do município (organização da assistência social particular e governamental); g) Influência do pensamento positivista (YASBEK apud PEREIRA, 2008, p. 85-86). Conforme Pereira (2008), entre 1930 e 1945 foram criadas catorze Escolas de Serviço Social (ESSs) em todo o país. A grande maioria dessas ESSs surgiu de forma isolada e só foram incorporadas às universidades nas décadas de 1960 e 1970. A única Escola de Serviço Social (ESS) que já nasceu vinculada a uma universidade foi, no Rio de Janeiro, o curso localizado na Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Associada a esse processo, havia a crescente demanda por parte da classe trabalhadora por serviços e bens, o que forçou o Estado a ampliar suas funções como regulador dessas ações, tanto para viabilizar o processo de acumulação como para atender as necessidades sociais da população. Essa reconfiguração aproxima o Serviço Social brasileiro da matriz positivista, ampliando os referenciais técnicos da profissão. Tem-se, nesse momento, o que Iamamoto e Carvalho (2000) chamam de arranjo teórico doutrinário que expressa a associação da doutrina social da Igreja Católica a um suporte técnico-científico de inspiração positivista. Assim, nessa nova conjuntura, amplia-se o mercado de trabalho do assistente social para além das instituições filantrópicas, crescendo as ações no setor estatal, assim como no privado. De acordo com Yasbek (et al., 2008): 59 A profissão amplia suas áreas de ação, assume um lugar na execução das políticas sociais públicas e, a partir daí, tem seu desenvolvimento vinculado às requisições de um Estado que passa a intervir nas relações sociais pela mediação de políticas no campo social (YASBEK et al., 2008, p. 14). Com base nessas informações percebe-se que houve um movimento do Estado impulsionando a profissionalização do assistente social, devido às reconfigurações deste e ao aumento de campos de atuação para esse profissional, o que foi viabilizado, em geral, pela ampliação das ações de política social. Segundo Yasbek (et al., 2008), o Serviço Social foi reconhecido como profissão em 1949 através da portaria nº 35, de 19.04.1949, tendo como principais empregadores as instituições públicas e privadas. Nesse momento, o Serviço Social foi reconhecido como uma profissão liberal, assumindo tal prerrogativa devido a sua relativa autonomia técnica para o exercício de sua função, mesmo que essa, em geral, estivesse vinculada a um empregador formal e a um contrato de trabalho. Conforme Iamamoto e Carvalho (2000), outra característica marcante no processo histórico de construção e consolidação do Serviço Social foi a realização de encontros nacionais, o que denota, desde o início da profissão, uma preocupação em criar espaços que garantissem a promoção de debates sobre aspectos relevantes da profissão. O I Congresso Brasileiro de Serviço Social ocorreu em 1947, fortalecendo desde então uma tendência de valorização do aprimoramento e do debate no interior da profissão. Esse processo de implantação do curso de Serviço Social representou a formalização da prática da docência no curso, que se constituiu a partir dos aspectos da formação, mas também sofreu influência do próprio processo de educação formal, que, ao longo dos tempos, se apresenta como um movimento dialético, em que a contradição manutenção/ transformação se faz presente. Nesse momento, apesar da pouca literatura sobre o tema, podemos deduzir que o exercício da docência estava vinculado aos intelectuais da época, que tinham um forte vínculo com a Igreja Católica – até para que fosse garantida a efetivação da proposta de formação construída para o curso de Serviço Social –, o que colaborava para a manutenção dos interesses da classe dominante. 60 Porém, por outro lado, não podemos deixar de pontuar que a institucionalização do ensino em Serviço Social também se mostrou progressista em alguns aspectos, posto que o surgimento dessa profissão ampliou as possibilidades de intervenção da mulher na sociedade, mesmo que inicialmente essas mulheres estivessem vinculadas à classe dominante. Também cabe ressaltar que o fato de o curso historicamente se constituir de mulheres acarretou um protagonismo destas no enfretamento das expressões da questão social. De acordo com os interesses de classe e com a reconfiguração dos determinantes políticos, econômicos, sociais e culturais, a formação do profissional de Serviço Social também foi se modificando no decorrer do período histórico. Percebe-se no Serviço Social um processo contínuo de pensar/ repensar a formação profissional de acordo com o que é esperado e colocado para esses profissionais, assim como pelo próprio pensamento dos profissionais, que passam a questionar e refletir acerca dos objetivos e intencionalidade de sua atuação. Na década de 1950, a política desenvolvimentista acarretou mudanças na formação profissional. Foi neste período que tivemos a legalização da profissão: a Lei nº 1.889, de 13.06. 1953, que normatizou o ensino de Serviço Social; e a Lei nº 3.252, de 27.08.1957, que regulamentou o exercício profissional18. A educação nesse período assumiu a função de colaborar para o desenvolvimento econômico e para o avanço do país, através de um movimento de ampliação do acesso ao ensino que tinha por objetivo qualificar a mão-de-obra e adequar o projeto de sociedade brasileiro aos princípios do liberalismo econômico19. Associado à política desenvolvimentista, de acordo com Abreu (2004), no interior do Serviço Social, surgiu a tendência de uma prática profissional voltada para a perspectiva da pedagogia da participação (que começava a se fortalecer na década de 1950 na América Latina), segundo a qual a participação da classe trabalhadora no crescimento econômico do país se fazia imprescindível, este sendo entendido como um dos elementos do desenvolvimento social. A participação se colocava como uma estratégia pedagógica na organização da cultura e repercutiu diretamente no Serviço Social, já que um dos seus objetivos era o de contribuir para a construção do bem-estar social. 18 Ver: NETTO, José Paulo. A Renovação do Serviço Social sob a autocracia burguesa. In: Ditadura e Serviço Social. Uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2009. 19 Ver: CUNHA, Luiz Antonio. Educação e Desenvolvimento Social no Brasil. 6.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. 61 Cabe destacar que é nesse período que nascem as primeiras práticas de educação popular – turmas de alfabetização no nordeste brasileiro – que se apresentaram, também, como forma de colaborar para o desenvolvimento econômico e social do país. A diferença dessa proposta foi o fato de identificar na educação uma prática emancipatória. Nesse período, tinha-se um alto índice de analfabetismo e era necessária a escolarização desses trabalhadores. Porém, na perspectiva da educação popular, esse preparo não visaria, única e exclusivamente, a qualificação para o trabalho, mas também a inserção desses sujeitos no cenário político20. Segundo Abreu (2004), até a década de 1950 existia uma relativa homogeneidade no Serviço Social da influência franco-belga. Entre os anos de 1941 e 1957, várias assistentes sociais foram estudar nos Estados Unidos da América (EUA), através da concessão de bolsas. Tal estratégia fazia parte da política de hegemonização da América Latina. Essas profissionais trouxeram como influência dos EUA a perspectiva funcionalista e as técnicas do Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade, que representaram o fortalecimento da inspiração positivista no interior da profissão. Tais abordagens foram entendidas como uma forma de correção das disfuncionalidades causadas pelo sistema capitalista. A segunda metade da década de 1940 e a década de 1950 caracterizaram-se como um momento de institucionalização profissional, com a organização das entidades da categoria profissional dos assistentes sociais e a luta por uma legislação que regulasse o ensino e a profissão. Em 1946 tem-se o surgimento da Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social (ABESS) e da Associação Brasileira de Assistentes Sociais (ABAS). Em 1947, temos a criação do primeiro Código de Ética dos Assistentes Sociais. De acordo com Iamamoto e Carvalho (2000), a ABESS, desde a sua gênese, tinha uma preocupação em garantir certo padrão de ensino à formação profissional e, inicialmente, sofreu forte influência da doutrina social da Igreja Católica. De acordo com Pereira (2008), no período entre 1946 e 1963 foram criados vinte novos cursos de Serviço Social, a maioria em instituições privadas. Nesse período, a criação dos cursos estava concentrada ainda nas mãos da Igreja, que passou de 57,2% dos cursos criados para 70%. Já em relação ao Estado, houve uma redução, passando de 35,7% para 10%. 20 2006. Ver: FREIRE, Paulo. A educação como prática da liberdade. 29ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 62 Das 15 ESSs criadas pela Igreja, 9 se inseriram posteriormente em instituições universitárias, laicas e públicas e duas (Fini e Unilins) deixaram de ser confessionais, transformando-se em cursos privados particulares laicos. Portanto desse período a Igreja Católica continua controlando somente quatro ESSs nos dias de hoje.(...) De quatro escolas abertas de forma empresarial no período 1946 a 1963, duas inseriram-se nos anos de 1960 em ambientes universitários públicos e laicos, uma se manteve como IES privada particular e a outra foi extinta no anos 90. (...) A maior participação direta da Igreja e do empresariado na criação de ESSs expressa a preocupação destes segmentos com o acirramento da “questão social” e a necessidade de mantê-lo sob o devido controle (PEREIRA, 2008, p. 100101). Nesse período ocorreu também: a promulgação da Lei nº 1.889, de 1953, que regulamentava o ensino em Serviço Social; a instituição do Decreto-lei nº 35.311, de 1954, que regulamentava a lei citada, definindo o curso de Serviço Social como um curso de nível superior; a promulgação da Lei nº 3.252, de 1957, regulamentada pelo Decreto-lei nº 994, de 1962, que definia requisitos, atributos e prerrogativas dos profissionais de Serviço Social; e a promulgação da Portaria Ministerial de 4 de Dezembro de 1962, que fixou o primeiro currículo mínimo para o curso. Desse currículo não constava qualquer conteúdo que apontasse para uma orientação católica do Serviço Social, o que dá indícios da laicização da profissão, reafirmados no movimento de renovação do Serviço Social brasileiro. Segundo Netto (1996), na década de 1960, fatores extraprofissionais dinamizaram o processo renovador do Serviço Social, tais como: a emersão dos católicos progressistas e de uma esquerda católica, a emergência do movimento estudantil em Serviço Social, e a influência de uma parte crítica das Ciências Sociais no Serviço Social. Devido às exigências do período (crescimento dos campos de atuação profissional, necessidade de colaborar para o crescimento e expansão da política econômica), fez-se necessário para o Serviço Social o desenvolvimento técnico/teórico da profissão, com o objetivo de garantir uma prática qualificada e que respondesse a essas necessidades. Cabe ressaltar que durante o período da ditadura a educação, em especial, sofreu mudanças significativas. De acordo com Netto (2009), num primeiro momento tentou-se conter as experiências democratizantes iniciadas na década anterior e, posteriormente, houve um processo de adequação do modelo educacional ao projeto modernizador vigente. Nesse sentido, a educação, desde meados da década de 1950, vem assumindo uma centralidade no processo de desenvolvimento e modernização do país, o que faz, conforme Netto (2009), com que a universidade se torne uma possibilidade de ascensão social. 63 Porém, vivenciou-se nesse período um estrangulamento do sistema educacional que, associado ao papel do movimento estudantil no período em questão, fez com que a educação se tornasse uma das prioridades do governo ditatorial. Segundo Netto (2009), iniciou-se a partir de 1969 a instauração de um modelo educacional condizente com os interesses da autocracia burguesa. No que se refere ao ensino superior, ocorreu a primeira reforma universitária, que iniciou uma franca expansão do ensino superior, porém no campo privado, o que fortaleceu o processo de mercantilização da educação que desde tempos remotos vigorava no país, como apontado no 1º capítulo. Conforme Pereira (2008), no período da ditadura militar ocorreu a criação de trinta e duas ESSs. Nesse período, o maior responsável pela abertura de ESSs foi o empresariado, responsável por 61,3% dos cursos criados. Atrás dele veio o Estado, com 22,6% e as instituições confessionais, com 16,1%. No que se refere às instituições confessionais, a inovação se deu na participação de outras ordens religiosas não católicas: foi criado um curso por uma ordem evangélica e outro por uma ordem espírita. O crescimento do empresariado na implantação dos cursos demonstra o avanço do processo de laicização e representa a tendência de privatização do ensino superior no Brasil. Das ESSs criadas, a grande maioria nasceu em Instituições de Ensino Superior (IES) não universitárias; do contingente total, 73,3% nasceram em IES isoladas, que não tinham por princípio a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. O Serviço Social vivenciou uma franca expansão com a abertura de novas faculdades e instituições de ensino. Esta expansão proporcionou a aproximação do curso com o universo acadêmico e com as ideias que ali estavam sendo discutidas. Por um lado, esse movimento representou um avanço no processo de construção teórica da profissão, por outro, manteve uma articulação aos interesses do projeto societário em questão, devido aos limites que o próprio capitalismo imprime às lutas emancipatórias. Tais refuncionalização e expansão (na verdade, os dois processos são indissociáveis, no caso do Serviço Social) foram alcançadas praticamente no mesmo lapso em que se consolidou o mercado nacional de trabalho. Em pouco mais de uma dezena de anos, o sistema de ensino superior (público e privado) passou a oferecer, em todo o país, cursos de Serviço Social numa escala impensável uma década antes – se, em 1960, havia 1.289 estudantes de Serviço Social, em 1971 o seu número chegava a 6.352 (NETTO, 2009, p. 124). 64 Esse momento significa a solidificação do curso de Serviço Social no campo universitário e tem relação direta com o repensar do referencial teórico da profissão. Assim, não é casualmente que nesse mesmo período ocorreu o que conhecemos por movimento de renovação21, que proporcionou a aproximação com diferentes correntes filosóficas e teorias sociais. Esse movimento, associado à ampliação das políticas sociais no período da ditadura, favoreceram avanços nas esferas acadêmica, organizativa e institucional da profissão. Segundo Netto (2009), foi na década de 1970, ainda como reflexo do movimento de renovação do Serviço Social, que os primeiros programas de pós-graduação foram criados, com o intuito de consolidar a área e a profissão no meio acadêmico, visto que até então havia um frágil reconhecimento científico. Os cursos de pós-graduação, de acordo com Yasbek (et al., 2008), estavam voltados para a formação de docentes e de pesquisadores, o que trouxe mudanças significativas na atuação do assistente social docente, visto que, a partir de então, tal possibilidade de atuação também passou por um processo de qualificação e amadurecimento teórico e intelectual. Assim, o período da ditadura militar constituiu-se como um momento importante para a prática pedagógica do assistente social docente, visto que nesse período ocorreu a abertura dos primeiros programas de pós-graduação, o que rebateu diretamente na prática docente. Pode-se dizer que esse período demarca uma maior preocupação com o exercício da docência em Serviço Social. Teve-se, nesse período, devido à expansão do ensino superior, o crescimento do mercado de trabalho docente, além de um favorecimento da qualificação teórica por causa da intencionalidade do movimento de renovação. Pode-se dizer que este período impôs profundas mudanças no que se refere à formação e prática profissional e acarretou o adensamento dos debates no campo teórico e o aprimoramento intelectual dos profissionais. Nesse contexto, o Serviço Social desencadeou em toda a América Latina um movimento de renovação profissional. Tal movimento suscitou à categoria profissional a necessidade de construir um novo projeto profissional, que estivesse de acordo com os interesses dos trabalhadores. 21 Ver: NETTO, José Paulo. A Renovação do Serviço Social sob a autocracia burguesa. In: Ditadura e Serviço Social. Uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2009. 65 Tal movimento se expressou através de várias tendências teórico-metodológicas. Para Netto (2001), as principais tendências que emergiram foram: 1. A vertente modernizadora: tinha por objetivo construir um projeto profissional que se adequasse às necessidades do desenvolvimento econômico. Orientou-se, em sua elaboração, pela teoria social estrutural-funcionalista, que visava a integração do homem ao meio; 2. A vertente da reatualização do conservadorismo: inspirada pela corrente filosófica da fenomenologia visava um processo de conscientização do individuo a partir do conhecimento do vivido humano, calcado em princípios como diálogo, consciência e transformação dos sujeitos. 3. A vertente da intenção de ruptura: direcionada pela inspiração marxista. Trouxe para o debate da profissão discussões como a configuração de uma sociedade de classe. Inicialmente, tal debate não será feito sem equívocos e reducionismos devido a uma aproximação com o marxismo sem recorrer ao pensamento de Marx. Essas tendências, que configuram linhas diferenciadas de pensamento e intervenção, se fazem presentes até os dias atuais na profissão, mesmo que com as devidas alterações de acordo com as reconfigurações conjunturais. Segundo Netto (2009), ao final do movimento de Renovação, a vertente da intenção de ruptura iniciou um processo de construção como a direção hegemônica no interior da profissão, o que não significou a supressão das demais vertentes no âmbito da profissão, mas sim seu enfraquecimento. A definição por essa vertente pautou-se por fatos e acontecimentos que favoreceram tal tendência, sendo estes: a criação das primeiras pós-graduações; a reforma curricular de 1982; o reconhecimento, na década de 1980, do Serviço Social como área de conhecimento; a retomada das entidades organizativas – Associação Nacional de Assistentes Sociais (ANAS), Comissão Executiva Nacional de Entidades Sindicais de Assistentes Sociais (CENEAS), Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), Conselho Regional de Serviço Social (CRESS), Executiva Nacional de Serviço Social (ENESSO); realização do III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, conhecido como o Congresso da Virada; e a formulação de um novo Código de Ética em 1986. Tal referencial teórico tornou-se a direção hegemônica da profissão no início da década de 1980 e consolidou-se na década de 1990. A inspiração marxista esteve presente na 66 formação e prática profissional, nos eventos acadêmicos e de organização da categoria profissional, assim como na lei que regulamentou a profissão e no Código de Ética. Tal hegemonia foi construída através de um plural e amplo debate no meio acadêmico e organizativo da categoria profissional. Destaca-se, nesse período, o papel do Serviço Social brasileiro em nível internacional. De acordo com Yasbek (et al., 2008), houve a ampliação da influência dos programas de pósgraduação brasileiros através do estabelecimento dos primeiros convênios com a América Latina e a Europa. Sua participação em nível internacional não esteve restrita ao campo da formação, mas também foi percebida pela participação das entidades da categoria profissional, como a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) e o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), em espaços de debates internacionais, tais como: a construção da Associación Latinoamericana de Enseñanza e Investigácion em Trabajo Social (ALAEITS) e a participação na Internacional Federation of Social Work (FITS). o quadro que se observa no Serviço Social brasileiro na passagem dos anos 1980 para 1990 é de maturação (...) maturação que se expressa pela democratização da convivência com diferentes posicionamentos teóricometodológicos e ideopolíticos no final da década. Maturação que ganhou visibilidade na sociedade brasileira pela intervenção dos assistentes sociais nos consideráveis avanços na proteção social, garantidos na Constituição Federal de 1988 e expressos, por exemplo, no ECA, na Loas, no SUS (YASBEK et al., 2008, p. 121-122). A década de 1980 possibilitou novas articulações nesse processo de construção da prática da docência, que reflete a relação entre formação e prática profissional. Tem-se a aproximação e a identificação com a teoria de inspiração marxista, o que acarreta a reflexão acerca de questões que até então não tinham sido debatidas. Esse momento suscita diversos questionamentos no interior da profissão, que tiveram reflexos nos aspectos teórico-metodológicos, técnico-operativos e ético-políticos. Se a proposta era construir uma nova possibilidade de prática profissional comprometida com os interesses da classe dominada, que tivesse como valores a democracia e a justiça social, mais uma vez se fazia necessário o repensar da formação profissional. 67 A preocupação que move tais reflexões é de construir, no âmbito do Serviço Social, uma proposta de formação profissional conciliada com os novos tempos, radicalmente comprometida com os valores democráticos e com a prática de construção de uma nova cidadania na vida social, isto é, de um novo ordenamento das relações sociais (IAMAMOTO, 2000, p. 168). De acordo com a ABESS (1996, p. 144), a preocupação com a revisão dos currículos dos cursos de Serviço Social sempre foi algo presente. Historicamente, essas discussões vêm sendo encampadas pela ABESS. No início da década de 1990, iniciou-se um processo de revisão curricular que tinha por objetivo “a preservação dos avanços do currículo de 82, bem como do Código de Ética aprovado em 93”. Nessa revisão curricular, almejava-se preservar a direção teórico-metodológica e éticopolítica construída em sua trajetória, assim como garantir a pluralidade entre as diferentes concepções teóricas. Nesse sentido, a ABESS teve o papel central de reunir, articular e sistematizar as propostas e criar espaços de debates para a construção de uma proposta única. Os debates tiveram como ponto de partida o projeto de formação profissional elaborado na década de 1980. Esse projeto foi marcado pelo processo de renovação profissional e teve ampla repercussão na categoria profissional, assim como delineou os rumos assumidos pela formação profissional a partir de então. O debate sobre o novo projeto de formação profissional foi tratado a partir de alguns eixos considerados centrais para sua definição. De acordo com a ABESS (1996, p. 145), os eixos foram: “a direção social, os eixos fundamentais, a perspectiva teórico-metodológica, a formação do mercado de trabalho e o tratamento dispensado à análise da realidade social brasileira”. O projeto curricular de 1982 representa de forma significativa o processo de renovação da formação profissional. Tal projeto curricular deu-se no bojo de uma crise econômica associada a uma rearticulação política da sociedade civil, colocando como uma necessidade histórica a revisão do currículo e da formação profissional. Era necessário, nesse momento, tratar da formação profissional de modo que se articulasse a mesma à dinâmica da sociedade brasileira dos anos 1980. Ganhou força a ideia de construir uma formação profissional que defendesse uma prática crítica e que se desse nas contradições do sistema capitalista e das relações de classe. Desta forma, o Serviço Social é: 68 situado historicamente como atividade inscrita na divisão social do trabalho (...) historicamente determinada pela maneira como se organiza a sociedade e, ao mesmo tempo, como resultado da atuação da categoria profissional, isto é, dos posicionamentos e respostas por ela imprimidos às demandas sociais dos diferentes grupos e classes sociais (ABESS. 1996, p. 145-146). Assim, o elemento central da formação profissional passou a ser a compreensão da realidade e de seus movimentos contraditórios. Tal compreensão devia ser feita de modo crítico e articulado aos diversos elementos componentes dessa realidade. No que se refere à direção social de tal projeto de formação, essa era dada pelas demandas da sociedade, objetivando a defesa de um projeto social em prol das classes subalternas, o que representa um compromisso com os interesses coletivos da classe trabalhadora. Tal direção foi explicitada nos princípios norteadores do Código de Ética de 1993, que reafirmam o projeto profissional comprometido com a classe trabalhadora, colocando no horizonte um projeto de superação da ordem burguesa. Assim, o Código de Ética propõe a ampliação da liberdade, concebida como autonomia, emancipação e pleno desenvolvimento dos indivíduos sociais; a consolidação da democracia, enquanto socialização da política e da riqueza socialmente produzida e a defesa da equidade e justiça social enquanto universalização do acesso a bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais e à sua gestão democrática (ABESS, 1996, p. 147). Esses princípios se materializam na prática profissional através da viabilização dos direitos sociais e da cidadania. Tal materialização torna-se possível através de uma formação comprometida em qualificar profissionais com habilidades teórico-práticas, técnicas e éticopolíticas que, associadas, sejam capazes de, por meio do agir profissional, consolidar tal projeto de formação. Conforme ABESS (1996), outro elemento inovador desse projeto de formação construído ao longo da década de 1980 foi a centralidade dada à profissão, uma vez que se tornou fundamental a análise histórica do significado da profissão para compreensão do Serviço Social na contemporaneidade. Nesse processo, incorporaram-se elementos fundamentais do pensamento marxiano para a construção do projeto de formação profissional. Iniciou-se um aprofundamento dos 69 debates sobre a vertente marxista e sobre possíveis equívocos e insuficiências teóricometodólogicas que estavam sendo cometidos. Foi a partir de 1995 que se adensaram as discussões sobre os eixos que norteariam a formação profissional. O eixo da formação, entendido a partir dos elementos que dão concretude ao Serviço Social, pressupõe a apreensão da vinculação entre a profissão e as novas configurações da questão social, apreendida no interior do processo de reprodução da relação entre capital e trabalho (ABESS, 1996, p. 149). Toda essa reflexão leva-nos a entender a profissão como um processo, que está em constante mudança, de acordo com as mudanças conjunturais e com a correlação de forças existentes. Na década de 1990, ocorreu a intensificação da privatização do ensino superior no Brasil, influenciada pelos ajustes neoliberais. No interior da profissão tem-se a marca de diversas conquistas, entre elas a elaboração da Lei nº 8.662/93, que regulamenta a profissão, a Resolução CFESS nº 273/93, que institui o Código de Ética Profissional, e as Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social definidas pela ABEPSS22. Esses documentos constituem o tripé que compõem o Projeto Ético-Político da profissão e representam a consolidação da vertente intenção de ruptura como hegemônica na profissão. Neste cenário, de acordo com Yasbek (et al., 2008), cabe ao Serviço Social um esforço para avançar na construção do seu projeto ético-político numa perspectiva de defesa de direitos e de construção de uma sociabilidade justa e igualitária. Pode-se apontar, segundo a autora, que os principais elementos que impulsionaram a criação deste projeto foram: • a busca pela ruptura com o histórico conservadorismo presente na gênese da profissão, com a intenção de comprometer a profissão com os interesses da classe trabalhadora; • o crescimento das suas produções acadêmicas, impulsionado, principalmente, pelo surgimento dos programas de pós-graduação; • o amplo debate sobre formação e reforma curricular encampado pela ABEPSS, que se iniciou com a revisão curricular de 1982 culminando nas Diretrizes 22 Documento elaborado pela ABEPSS (Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social) que indica base comum para o curso de Serviço Social e é fruto de um projeto de formação profissional elaborado ao longo das décadas de 1980 e 1990 (Cf. Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social – ABEPSS. In: Legislação Brasileira para o Serviço Social. 2. ed. São Paulo: CRESS/SP, 2006). 70 Curriculares de 1996, que apontam como direção da formação profissional a capacitação de um aluno capaz de: apreender criticamente o processo histórico, realizar investigação sobre a formação histórica e sobre os processos sociais contemporâneos, compreender o significado social da profissão, apreender as demandas, novas e velhas, apresentadas ao assistente social e exercer a profissão de acordo com as competências e atribuições previstas na legislação profissional; • a lei que regulamenta a profissão e os espaços que objetivam disciplinar e defender o exercício da profissão; • o Código de Ética, que tem como princípios centrais: a liberdade, a defesa dos direitos humanos, a equidade e a justiça social. Assim, percebe-se que a construção do atual projeto de formação profissional se fez de forma dinâmica e com o intuito de delimitar determinada direção social, trazendo rebatimentos na prática profissional e acarretando a necessidade de um constante repensar da profissão, assim como a criação de constantes estratégias teóricas, políticas, éticas para manutenção da hegemonia. 2.3 O processo de construção do projeto de formação em Serviço Social As Diretrizes Curriculares Gerais para o Curso de Serviço Social foram resultado de um longo debate no interior da categoria profissional sobre o processo de formação do assistente social, como visto anteriormente. Essa preocupação com a formação profissional vem desde a gênese da profissão, visto que, em 1946, quando havia apenas três escolas de Serviço Social no país, surgiu a ABESS, que desde então tem tido o papel de agregar todas as escolas de Serviço Social no debate em torno da formação profissional e na construção de um projeto de formação, além de garantir uma direção intelectual e político-pedagógica para a formação em Serviço Social. Após o início desse debate na década de 1980, tivemos, no começo dos anos de 1990, um intenso processo de revisão curricular, que culminou com as Diretrizes Curriculares de 1996. De acordo com Frois (2009), tal proposta foi apreciada na II Oficina Nacional de 71 Formação Profissional e aprovada em Assembleia Geral da ABESS, ambas realizadas no Rio de Janeiro em 7 e 8 de novembro de 1996. Segundo Frois (2009), a nova proposta curricular é composta por alguns pressupostos que devem nortear a formação profissional, ancorados em pilares como: o entendimento do Serviço Social como uma profissão eminentemente interventiva; a necessidade de conhecer os processos sócio-históricos e teórico-metodológicos que constituem a profissão; a condição de uma profissão que está inserida na divisão sócio-técnica do trabalho; os rebatimentos do neoliberalismo para a atuação profissional e seus avanços na atual conjuntura. Além dos pressupostos, estão contidos nessa proposta os princípios que regem a formação, sendo estes: 1)flexibilidade de organização dos currículos plenos, expressa na possibilidade de definição de disciplinas e ou outros componentes curriculares – tais como oficinas, seminários temáticos, atividades complementares – como forma de favorecer a dinamicidade do currículo; 2) rigoroso trato teórico, histórico e metodológico da realidade social e do Serviço Social que possibilite a compreensão dos problemas e desafios com os quais o profissional se defronta no universo da produção e reprodução da vida social; 3) adoção de uma teoria social crítica que possibilite a apreensão da totalidade social em suas dimensões de universalidade, particularidade e singularidade; 4) superação da fragmentação de conteúdos na organização curricular, evitando a dispersão e pulverização de disciplinas e outros componentes curriculares; 5) estabelecimento das dimensões investigativa e interventiva como princípios formativos e condição central da formação profissional e da relação teoria e realidade; 6) padrões de desempenho e qualidade idênticos para cursos diurnos e noturnos, com um máximo de quatro horas/aula diárias de atividades nestes últimos; 7) caráter interdisciplinar nas várias dimensões do projeto de formação profissional; 8) indissociabilidade nas dimensões de ensino, pesquisa e extensão; 9) exercício do pluralismo como elemento próprio da natureza da vida acadêmica e profissional, impondo-se o necessário debate sobre as várias tendências teóricas, em luta pela direção social da formação profissional, que compõem a produção das ciências humanas e sociais; 10) ética, como princípio formativo, perpassando a formação curricular; 11) indissociabilidade entre estágio e supervisão acadêmica e profissional (CADERNO ABESS, 1997, p. 61-62). A concepção de ensino-aprendizagem que permeia essa proposta está fundamentada no conhecimento da vida em sociedade, entendendo o ser humano numa perspectiva de totalidade e não fragmentando o saber. Nessa proposta também se recupera o trabalho como eixo central do ser social, por ser a atividade pela qual o individuo se produz e reproduz socialmente. 72 O objetivo central das diretrizes é a permanente (e contínua) construção (e revisão) dos conteúdos (teóricos, éticos, políticos e culturais) que permitam uma intervenção profissional na sociedade de forma dinâmica, flexível, assegurando uma formação de elevado padrão (FROIS, 2009, p. 17). Nesse sentido, percebe-se que o objetivo do projeto de formação profissional do Serviço Social vai para além de uma formação meramente para o mercado de trabalho, estando ancorado numa concepção de educação que, de acordo com Freire (1996), componha uma formação para a vida, uma formação que potencialize as possibilidades do cidadão em se tornar sujeito de sua história através de sua inserção crítica nesse processo histórico. Tal concepção de educação fica evidente nas diretrizes curriculares quando propõe “uma lógica curricular inovadora, que supere a fragmentação do processo de ensinoaprendizagem e permita uma intensa convivência acadêmica entre professores, alunos e sociedade” (CADERNO ABESS, 1997, p. 63). Na década de 1990, a profissão sofreu transformações devido à reestruturação produtiva, à reforma do Estado e às alterações na forma de enfrentamento da questão social. Com o estabelecimento das diretrizes curriculares, o projeto de formação profissional defende a perspectiva de uma formação fundada na concepção de que a profissão tem um significado sócio-histórico e ídeo-político e está relacionada ao conjunto de práticas sociais que são acionadas pelas classes e mediadas pelo Estado. De acordo com Netto (1996), viveu-se, na década de 1990, uma reconfiguração do padrão de acumulação capitalista, dando novos contornos ao Estado, à relação entre público e privado, aos movimentos sociais, assim como à configuração da exclusão e da pobreza. Essas alterações conjunturais na década de 1990 construíram novas bases para a preservação da hegemonia burguesa. Frente à crise da década de 1970, vimos chegar ao fim o pacto do Welfare State que durante três longas décadas foi responsável pelas ondas longas expansivas do capitalismo, acarretando que, durante a crise do capital que se instalou nesse período, passassem a ocorrer ondas longas recessivas. De acordo com Netto (1996), saiu-se de um padrão rígido de acumulação, dirigido até então pelo pacto fordista-keynesiano, e iniciou-se um regime de acumulação flexível. Na esfera produtiva, ocorreu a “revolução tecnológica” que afetou diretamente as forças 73 produtivas, pois houve a substituição da eletromecânica para a eletrônica, além da crescente informatização dos processos de trabalho. Também houve a inclusão de novas modalidades de contrato de trabalho (parcial, temporário) que, em geral, precarizam as relações de trabalho, assim como novas estratificações e novas discriminações entre os que trabalham. Do trabalhador passa a ser cobrada uma qualificação crescente e contínua de modo a se apresentar nas atuais configurações do mundo do trabalho como o funcionário polivalente. Já no âmbito social, Netto (1996) diz ter havido uma reconfiguração de classes, seja no plano econômico-objetivo, de produção ou reprodução das classes, seja no plano ídeosubjetivo, relacionado ao reconhecimento de pertencimento de classe. Além disso, percebemse alterações no perfil demográfico das populações tanto pela expansão urbana e pelo crescimento das atividades de serviço como pela difusão da educação formal. Tais alterações rebatem diretamente nos padrões de sociabilidade. Percebe-se que tais reconfigurações fazem com que exista, nesse capitalismo tardio, concentrador, excludente e restritivo, uma grande quantidade de segmentos desprotegidos, segmentos situados na periferia da sociedade e vistos, em geral, como não-sociedade. Nesse período, devido à reestruturação produtiva, ocorre o aumento do nível de desemprego e a precarização das relações de trabalho, percebida pelo aumento do trabalho informal, temporário, pela superespecialização do trabalho, pela perda dos direitos trabalhistas e pela recriação do trabalho familiar e doméstico. Destarte, tomar a questão social como central no processo de formação profissional é uma forma de articular a profissão com a realidade. Essa centralidade da questão social na formação profissional recupera a dimensão contraditória das demandas sociais do Serviço Social, que, ao mesmo tempo, representam o avanço do capital e as conquistas da classe trabalhadora. E é exatamente essa força contraditória que se constitui numa possibilidade dentro da dinâmica do processo social, inclusive para a prática profissional do assistente social. Conforme Netto (1996), no âmbito do grande capital, percebe-se como tendência a constituição de grandes grupos econômicos estruturando uma oligarquia financeira global, aumentando sua influência econômica e diminuindo a competição. No campo da cultura, temos a incorporação da lógica da mercadoria, que se constituirá na cultura do consumo. Ainda segundo Netto (1996), no plano político, temos a modificação do Estado e da sociedade civil. No que se refere à sociedade civil, percebe-se um processo de crise na forma 74 de organização e representação das classes subalternas. Quanto ao Estado, este sofre um redimensionamento, em que diminui sua dimensão reguladora e encolhe suas funções, ocorrendo uma redução do Estado. Tal contexto faz necessário um repensar da formação profissional, para que seus princípios e diretrizes possam ser efetivados nessa conjuntura. Assim, de acordo com ABESS (1996) é imprescindível retomar as seguintes questões para análise: • a perspectiva do serviço social como uma atividade profissional que se realiza através do assalariamento; • o significado social da profissão estar vinculado ao tratamento da questão social e imbricado de contradições na ação profissional. Retomar tais questões de análise leva-nos a repensar as competências profissionais e exige uma revisitação na própria formação profissional. Porém, tal aspecto não pode ser compreendido de modo descolado da política nacional de educação, que trará rebatimentos consideráveis para esse processo de revisitação da formação profissional, fazendo com que não recaia somente sobre profissionais docentes de Serviço Social a responsabilidade por tal questão. Cabe ressaltar que nesse período temos, no ensino público, a tendência ao sucateamento das condições de trabalho, e, no ensino privado, a tendência mercantilizante. De acordo com Netto (1996), nesse quesito da formação, também cabe levar em consideração o perfil do alunado, que vem se transformando ao longo das décadas. Hoje temos um aluno com perfil socioeconômico proveniente dos estratos médio-baixos e baixos e com visível empobrecimento do universo cultural, o que se torna um elemento fundamental para pensar a formação. Segundo Netto (1996), no espaço da prática profissional também se percebem impasses: apesar da existência de um considerável mercado de trabalho, nota-se uma diversificação dos campos sócio ocupacionais, trazendo novas necessidades/exigências para a profissão. Questão essa que também será refletida na formação, visto que essas novas exigências criam a necessidade de estabelecer novas conexões entre a formação e esses novos campos de intervenção. Essa realidade também traz novas demandas profissionais e sociais para a profissão, que, em um primeiro momento, serão enfrentadas com certa insegurança e despreparo por parte dos profissionais. 75 De acordo com Netto (1996), na década de 1990 a tradição marxista sofreu rebatimentos, tanto devido ao cenário da conjuntura, que se alterou, como pelas reconfigurações no cenário acadêmico, com o fortalecimento da pós-modernidade. Assim, na década de 1990, frente ao quadro de transformações econômicas, políticas e sociais configurado, o Serviço Social enfrentou conflitos de ordem teórica, ideológica e política na tentativa de construir estratégias para manter a direção social da profissão, de modo a garantir um Serviço Social crítico, propositivo e interventivo. Ocorre um movimento de manutenção pela hegemonia23do projeto profissional, o que em nenhum momento significa monopólio ou supressão de outras direções. Tal hegemonia, em constante construção, colide com a hegemonia do grande capital e cria núcleos de conflito e enfrentamento para que seja possível sua manutenção no interior da profissão. A prática do assistente social deve imprimir mudanças nas condições de vida materiais e culturais da população usuária. Tal prática profissional coloca como necessidade da formação a ênfase numa dimensão formativa e não meramente informativa, de modo a colaborar para a constituição de um profissional de Serviço Social que se insira no mercado de trabalho com possibilidades de realização como um sujeito social. a prática profissional se configura como uma forma de trabalho e a formação profissional como um processo de qualificação teórico-metodológico, técnico e ético-político para o exercício dessa especialização do trabalho coletivo (ABESS, 1996, p. 163). Desta forma, o projeto de formação profissional deverá dar conta de munir os futuros profissionais de uma capacidade analítica e propositiva, numa vertente crítica da realidade social e da profissão, de modo a reinventar as possibilidades dentro da contradição que é criada pelo modo de produção capitalista. Conforme ABESS (1996), esse cenário exige o fortalecimento dos princípios das diretrizes curriculares para a formação profissional, sendo esses: capacitação teóricometodólogica, capacitação investigativa, capacitação teórica, capacitação investigativa 23 De acordo com Netto (1996, p. 116), a busca pela hegemonia configura-se como um “conjunto diferenciado e em movimento”. De acordo com Gramsci (apud ABREU, 2004), hegemonia refere-se não apenas à função de domínio, mas, fundamentalmente, à função de direção intelectual e moral que uma classe ou frações de classe imprime ao conjunto da sociedade, mediante processos coercitivos e persuasivos, em que a ideologia é elemento central. 76 articulada à intervenção profissional, capacitação ético-política, capacitação para apreender as demandas, capacitação para apreender as novas mediações e injunções nos campos tradicionais da prática profissional, capacitação técnico-política. Ainda, de acordo com ABESS (1996), para que tais diretrizes e metas sejam realizadas, faz-se imprescindível um corpo docente que busque por uma formação permanente, defenda esse projeto profissional como direção hegemônica da profissão, garanta o exercício do pluralismo na vida acadêmica e universitária, colabore para a definição de uma política de pesquisa e de áreas temáticas prioritárias, assegure o caráter interdisciplinar no ensino, pesquisa e extensão e considere a dimensão formativa e informativa no processo de ensino-aprendizagem. Assim, o projeto de formação profissional se traduz num conjunto de conhecimentos que devem estar indissociados e que se traduzem em núcleos de fundamentação, sendo estes: núcleo de fundamentação teórico-histórica das configurações socioeconômicas, culturais, políticas e teóricas do ser social; núcleo de fundamentos da particularidade da formação sócio-histórica da sociedade brasileira inserida na divisão internacional do trabalho; e núcleo de fundamentação do trabalho profissional. Para Netto (1996, p. 117), nesse cenário se constitui um desafio para o Serviço Social, sendo que o debate adensado na década em questão será sobre a polêmica “de manter, consolidar e aprofundar a atual direção estratégica ou contê-la, modificá-la e revertê-la”. Nesse contexto, necessita-se retomar uma questão central para a formação profissional: esta será responsável pela formação de um técnico “bem adestrado” que saberá como fazer adequadamente as técnicas que lhe foram ensinadas ou pela formação de um intelectual com formação técnico-operativa, mas que irá intervir na realidade a partir de sua compreensão teórico-crítica? Conforme Pereira (2008), de 1995 a 2002 foram criadas cinquenta e duas novas ESSs em todo o território brasileiro, sendo que destas 90,38% são privadas e somente 9,62% públicas. Desse total, trinta e cinco se configuram como IES não universitário e dezessete como IES universitário e destas 50% se encontram na região Sudeste. Tais informações demonstram que a expansão do curso de Serviço Social seguiu a tendência do projeto de mercantilização do ensino superior. 77 Temos, no início do século XXI, em nível de ensino superior, a queda na qualidade de ensino e o aumento assustador de cursos, em especial de Serviço Social, principalmente na modalidade à distância. Tal expansão recoloca o papel da universidade na sociedade, visto que essa passa a ser uma grande máquina de produzir profissionais, que não necessariamente saem aptos e qualificados para o exercício profissional de acordo com a proposta das Diretrizes Curriculares. Esse processo expansivo, em vez de possibilitar a democratização do ensino superior, vem massificando o mesmo, o que significa uma ampliação de acesso, mas, em geral, pelo viés privatizante, sem preocupação com a efetivação do tripé ensino, pesquisa e extensão, e com prejuízos na qualidade da formação profissional. Hoje continua ocorrendo a implantação de novos cursos de Serviço Social, a grande maioria em IES privadas e em polos de educação à distância. Essa expansão se justifica pelo Serviço Social ser considerado um curso que pode ser oferecido a baixos custos e que tem tido aumento da procura. No início do século XXI enfrentamos os impactos causados pelo projeto neoliberal que, em linhas gerais, acirra as desigualdades e camufla a luta de classes. O desafio do Serviço Social é reafirmar a profissão e suas particularidades frente aos novos contornos da questão social e dos novos padrões de regulação. Neste atual cenário, são inúmeros os desafios colocados ao assistente social, de acordo com Yasbek (et al., 2008) são alguns: • a reafirmação do projeto ético-político profissional do Serviço Social, de modo a permanentemente recriar formas e estratégias de garantir sua concretização no cotidiano profissional. Tal luta deve se dar de forma coletiva; • o segundo desafio se inscreve no campo da formação profissional e no permanente processo de qualificação profissional, em nível de graduação, pósgraduação, especialização ou capacitação continuada. Nesse item, são três as principais questões: 1) a mercantilização e a precarização do ensino, pois significa uma perda de qualidade; 2) o ensino à distância estendido indiscriminadamente para todos os níveis, que afeta diretamente o perfil dos futuros profissionais de Serviço Social e 3) o exame de proficiência a ser aplicado aos recém-formados em Serviço Social, que tem gerado polêmica e opiniões diversas no interior da categoria; 78 • o terceiro desafio consiste na luta pela ampliação dos postos de trabalho, que deve combinar-se com a defesa das condições de trabalho e com a regulamentação dos vínculos contratuais; • o quarto desafio está relacionado à importância que o trabalho com famílias vem adquirindo e o cuidado nesse campo para que não se reproduzam práticas conservadoras e incoerentes com a direção da prática profissional do assistente social; • e, um último desafio, mas não menos importante, refere-se à busca de inserção da profissão nos processos de construção de uma sociedade democrática e participativa. Nesse cenário, percebe-se o movimento da categoria profissional, através de suas entidades organizativas (CFESS-CRESS/ABEPSS/ENESSO), de criar estratégias de resistência e luta a esse processo de precarização do ensino superior, que traz rebatimentos negativos para a formação e prática profissional. Atualmente, percebe-se uma incoerência entre as propostas das IES para a educação e a proposta do curso de Serviço Social, visto que essas propostas estão fundamentadas em diferentes concepções de educação, uma que enfatiza o viés privatizante e mercadológico e outra que tenta se expressar como um processo de ensino-aprendizagem para a vida em sociedade. Assim, a educação coloca-se como um processo contraditório, visto que pode tanto favorecer a manutenção de uma determinada concepção de mundo que privilegia o projeto hegemônico dos interesses capitalistas, como apresentar-se como um instrumento de desvendamento das desigualdades e dos processos de exploração de modo a colaborar para a construção de um projeto hegemônico que defenda os interesses das classes subalternas. Há que se pensar a educação como o espaço de construção conjunta do processo de ensino-aprendizagem, onde todos os envolvidos (docentes e discentes) são sujeitos de sua história e por isso capazes de interferirem nesse processo. Nesse contexto, percebe-se que determinada concepção de educação refere-se à defesa de um determinado projeto societário, porém também cabe ressaltar que a concretização desse projeto societário é maior do que a concretização do projeto de uma categoria profissional ou de um projeto de educação crítica e transformadora. Ambos podem potencializar o fortalecimento de um projeto societário mais justo e igualitário, que vise eliminar as diversas 79 formas de preconceito e exclusão, mas por si só não garantem a sua efetivação. Para que um projeto societário seja viável é preciso que haja adesão pela maior parte da sociedade. Assim, identifica-se que existe uma contradição entre o projeto ético-político do Serviço Social e o projeto societário vigente, visto que esse último não tem criado condições para a efetivação do primeiro, mas, ao contrário, enfraquece e dificulta a sua concretização conforme avança com os ditames do neoliberalismo. Cabe, portanto, ao docente pensar sua prática pedagógica numa direção que não só contribua para o processo de aprendizagem do aluno como para sua formação enquanto ser humano e social. Para isso, o docente deve ser incentivado a pensar sua prática pedagógica e ter espaços coletivos onde tal questão possa ser debatida e aprofundada, pois, no caso específico do Serviço Social, como em outras profissões, a graduação em Serviço Social não conta com disciplinas de licenciatura, assim como, em geral, os programas de pós-graduação em Serviço Social não possuem disciplinas e/ou outras atividades que lidem com a questão do ser docente em Serviço Social. 2.4 A prática pedagógica do assistente social docente no curso de Serviço Social De acordo com Abreu (2004), o projeto profissional do Serviço Social que vem sendo construído desde a década de 1980 está vinculado às lutas sociais da classe trabalhadora e esse projeto está inscrito em processos de organização/reorganização/afirmação da cultura dominante, tendo, desta forma, que criar estratégias para estabelecer alternativas de resistência e enfrentamento frente ao projeto societário hegemônico. Assim, é nesse espaço contraditório que se colocam as possibilidades de afirmação e consolidação da direção hegemônica da profissão, já que, conforme Abreu (2004, p. 45), numa premissa gramsciana “toda relação de hegemonia é eminentemente pedagógica”. Com base nessa premissa entende-se que as relações pedagógicas estão presentes na articulação entre a racionalização da produção e do trabalho e a organização da cultura e se relacionam com os interesses econômicos, políticos e ideológicos, criando, assim, os elementos necessários para a base de uma sociabilidade. 80 Historicamente, o capital tem a necessidade de manter a sua hegemonia, alicerçado numa visão de mundo mistificadora da realidade que, a cada crise econômica, tenta recompor suas bases políticas visando eliminar as resistências e os dissensos. Paralelo a esse movimento, temos a classe trabalhadora numa permanente busca pela construção de uma hegemonia a partir de seus interesses. Esses processos contraditórios de luta pela hegemonia na sociedade brasileira incidem diretamente na prática profissional do assistente social, acarretando mudanças em suas funções pedagógicas. A prática pedagógica do assistente social docente, nessa perspectiva, é permeada de possibilidades e desafios, podendo colaborar para a manutenção de um projeto hegemônico do capital ou colaborar para a construção de um projeto hegemônico das classes subalternas, que será determinado por elementos como: a conjuntura nacional, a política do ensino superior, a clareza e defesa do projeto profissional de Serviço Social, assim como a opção teóricometodológica e ético-política do profissional. Assim, conforme Abreu (2001), compreende-se que a dimensão pedagógica do Serviço Social está relacionada aos efeitos da ação profissional sobre a maneira de pensar e agir dos sujeitos, contribuindo para a formação de padrões individuais e coletivos do modo de vida. Essa maneira de pensar e agir está adequada à racionalização da produção e do trabalho, compondo, desta forma, uma das dimensões das relações de hegemonia na sociedade. Percebe-se, ao longo do processo histórico, a existência das mais diversas funções pedagógicas na prática profissional do assistente social, que, de acordo com as associações entre conjuntura, mercado de trabalho e projeto profissional do Serviço Social, tem preconizado um determinado perfil pedagógico em sua prática. Tal perfil pedagógico é visualizado na prática profissional do assistente desde sua gênese até os dias atuais. Pode-se considerar que tal perfil se expressa também na prática pedagógica do assistente social docente, que, desde o início de suas atividades, tem expressado diversos perfis pedagógicos. De acordo com Abreu (2001), em sua gênese o Serviço Social tinha um perfil pedagógico persuasivo e coercitivo, cuja função pedagógica era buscar a adesão da classe trabalhadora à direção da ordem do capital. 81 Segundo Abreu (2001, p. 74), o início da profissão caracteriza-se por um perfil da “pedagogia da ajuda”, com a psicologização no trato da questão social, encaminhada de forma individual e, em geral, através de um processo de “reforma moral e reintegração social”. Assim, a “ajuda” psicossocial individualizada norteada por princípios éticoreligiosos consubstanciados na filosofia neotomista, como o anteriormente mencionado, harmonizados com valores éticos e políticos da democracia liberal, tais como: respeito à pessoa e à sua autonomia, convicção de que o homem é capaz de progredir e de cada um possui os meios da própria promoção, (...) centra-se no desenvolvimento da personalidade. Por isso, prioriza os componentes individuais e subjetivos da questão social em detrimento de suas expressões materiais e coletivas. Em consequência, desloca para o campo psicológico o que é expressão dos antagonismos de classe, reforçando o fetiche do colaboracionismo entre capital e trabalho, cerne da racionalização taylorista (ABREU, 2001, p. 77). Essa perspectiva de ação pedagógica reforça uma tendência de naturalização da vida social, imprimindo à ação do assistente social um caráter autoritário, moralista e mistificador das relações sociais. Tal aspecto pedagógico visualizado na prática profissional do assistente social é refletido no exercício da docência, instituído a partir da gênese da profissão, quando então se fez necessário pensar, quem iria formar os outros profissionais. De acordo com Rodrigues (1994), a primeira geração24 de docentes do curso de Serviço Social foi influenciada pela formação social e ideológica dada à profissão, além de, em geral, passarem por um processo de indicação para exercício da docência, estando impressa nesta atividade também, assim como no exercício da própria profissão, um caráter de vocação e dever associado aos princípios e valores da doutrina social da Igreja Católica. Desde os primórdios da profissão, verifica-se uma preocupação com a relação entre formação e prática profissional, indicando que o perfil pedagógico esperado para a prática profissional foi construído durante o processo de formação, apontando que tais docentes expressavam tal perfil na prática pedagógica. Segundo Rodrigues (1994), nesse cenário era possível reconhecer uma concepção de educação que se preocupava com a formação do aluno, em que o aluno fosse estimulado a pensar e a se interessar pelas questões da profissão, mas sob a orientação de uma doutrina 24 Quando Rodrigues (1994) refere-se aos docentes da primeira geração, está fazendo referência a assistentes socias que iniciaram o exercício da docência na década de 1950, ainda nos primórdios do curso. 82 cristã, o que já denota uma preocupação dos docentes com os processo de ensinoaprendizagem. Nesse momento constata-se, através de Rodrigues (1994), que existia uma preocupação por parte dos docentes em articular o ensino à prática profissional, visto que se identifica a prática profissional como um espaço privilegiado para fundamentar a atividade da docência. No período retratado por Rodrigues (1994), localizado entre as décadas de 1950 e 1960, percebe-se uma influência inicial do pensamento de Paulo Freire no Serviço Social, principalmente no que se refere a pensar os elementos pedagógicos da prática docente. Em geral, esses primeiros professores, conforme Rodrigues (1994), já tinham tido outras experiências com a prática docente antes de ingressarem na docência do curso de Serviço Social, em especial relacionadas à conclusão dos cursos “normais” e às experiências da ação católica. Assim, nos dizeres de Rodrigues (1994): A militância na Ação Católica e a experiência nos círculos de Estudos constituíam-se nos recursos pedagógicos de que dispunham para a prática docente, uma vez que as exigências que se faziam não se alicerçavam na necessidade de uma formação específica, científica ou técnica. É certo que estes professores foram “chamados” ao ensino também porque acumulavam uma formação complementar (em filosofia, direito) mas, o argumento determinante, para esta “convocação” era a formação moral e ética de vertente tomista originada das orientações estabelecidas pela Igreja Católica (RODRIGUES, 1994, p. 32). Nas décadas de 1950 e 1960, desenvolve-se no seio da profissão o que Abreu (2001) chama de pedagogia da participação, que, influenciada principalmente pelas propostas de Desenvolvimento de Comunidade (DC) e pela Política Desenvolvimentista25 reconfiguraram alguns aspectos do perfil pedagógico do assistente social. 25 “A ideologia desenvolvimentista modernizador vincula-se a uma concepção de desenvolvimento fundado na chamada teoria da modernização. Esta teoria explica o subdesenvolvimento como um estágio de transição entre tempos históricos distintos, correspondentes a padrões sócio-culturais constitutivos de polos atrasados e modernos presentes em uma sociedade. Consubstancia-se numa visão etapista em que ‘a história a percorrer pelos países em desenvolvimento assemelha-se àquela trilhada pelas sociedades industrialmente avançadas’ (Kovarick, 1977, p. 46), indo de uma sociedade tradicional a uma sociedade moderna, num continuum equilibrado” (LIMA apud ABREU, 2004, p. 95). 83 Nesse contexto, a ideia de participação passou por um redirecionamento, saindo do campo da ajuda individual e estimulando a participação popular em diversos espaços do governo, como peças fundamentais para o alcance do projeto desenvolvimentista. Tal política participacionista, conforme Abreu (2004), altera as formas pedagógicas de controle e de responsabilização dos sujeitos. Nesse cenário, o sujeito, de forma coletiva, como povo, é visto como um ator imprescindível para a colaboração no processo de desenvolvimento e crescimento do país, incentivando a “participação” destes em projetos e programas que almejem tal objetivo. Em geral, tal proposta de Serviço Social era executada através das ações de DC: Esta ideologia, ao tempo em que funda a participação popular e o apoio técnico governamental para tornar eficazes os programas de ajuda mútua, como ingredientes básicos do DC (Ammann, 1980, p. 32), oferece sustentação para o entendimento de que estes mesmos elementos constituemse componentes do processo pedagógico de organização e desenvolvimento locais, em que o DC é um importante instrumento desse processo (ABREU, 2001, p. 98). A perspectiva da ajuda transfere-se do campo individual para a “ajuda mútua”. Tal reconfiguração do perfil pedagógico do assistente social não se configura como um rompimento com nossa herança conservadora, mas denota elementos que podem indicar uma superação. No campo da docência veremos também o reflexo dessas alterações. Conforme Rodrigues (1994), a segunda geração de docentes26 foi fortemente influenciada pelas experiências de DC e pelas alterações que isso causou no perfil pedagógico. Em geral, esses assistentes sociais eram inseridos na docência através do convite de antigos professores, que viam nessa prática uma forma de preparar seus “futuros” substitutos. Tal prática denota uma preocupação com o exercício da prática docente. Os assistentes sociais convidados, em geral, tinham uma visibilidade na atuação como assistentes sociais, o que os tornava “aptos” para inserção na docência. Conforme Abreu (2001), a alteração do perfil pedagógico nas décadas de 1950 e 1960 traz elementos de continuidade e descontinuidade na profissão. 26 Segundo Rodrigues (1994) assistentes socias que iniciaram a docência na década de 60. 84 Tal aspecto é visivelmente perceptível no exercício da docência. Rodrigues (1994) aponta que os docentes da segunda geração, apesar de iniciarem a docência à convite dos professores da primeira geração, tinham a intenção de mudar alguns aspectos da formação, em especial no que dizia respeito à influência da doutrina da Igreja Católica. Não podemos deixar de lembrar, como citado no item 2.2 deste capítulo que, nesse contexto da década de 1960, iniciava-se no interior da profissão o Movimento de Renovação, que impactou diretamente o perfil desses docentes e sua prática pedagógica. Esse cenário de contestações e reformulações da profissão reforça alguns aspectos da prática docente. Segundo Rodrigues (1994), a importância da relação entre ensino e prática profissional se faz presente na prática pedagógica dos docentes como elemento central para desempenhar suas atividades pedagógicas. Também se percebe nesse período, no que se refere à docência, o crescimento da influência de Paulo Freire nos direcionamentos da prática pedagógica, interferindo diretamente na concepção de educação assumida pela categoria profissional, que, nesse momento, já delineava uma perspectiva crítica, de transformação e associação aos interesses das classes subalternas. Nesse momento, outro aspecto que merece destaque, segundo Rodrigues (1994), é o nascimento dos programas de pós-graduação, que colaboraram diretamente para a qualificação do exercício da docência. Um dos elementos considerados favoráveis à inserção na docência era a qualidade do exercício profissional desse assistente social. A formação didática em nenhum momento foi considerada como elemento fundante. Levava-se mais em consideração a prática profissional que exerciam e a possibilidade de relacioná-la à disciplina que ministravam. As experiências pedagógicas que exercitam nesse período entretanto, são bastante ricas e diversificadas tornando a atividade docente muito mais instrumentalizada para a ação profissional (RODRIGUES, 1994, p. 67-68). Assim, sob a influência do Movimento de Renovação associado às alterações conjunturais do final da década de 1970 e início da década de 1980, o perfil pedagógico do assistente social reconfigura-se novamente. Tais remodelações estavam associadas ao movimento da profissão de construção de um novo projeto profissional inspirado pela tradição marxista. 85 O novo perfil pedagógico do assistente social era pautado pela perspectiva do usuário como um sujeito de direitos. Caberia, então, ao assistente social pensar estratégias de mobilização, capacitação e organização das classes subalternas de modo que possibilite às mesmas participarem em processos de intervenção, consciente e criticamente, na sociedade. De acordo com Abreu (1994), esse princípio educativo funda o perfil pedagógico da pedagogia emancipatória no Serviço Social, objetivando a construção de novas formas de sociabilidade que vislumbram no horizonte um novo projeto societário. Tal perfil pedagógico associou-se, ao longo da década de 1980, ao novo projeto de formação do Serviço Social, identificado aos interesses da classe trabalhadora. Segundo Rodrigues (1994), a terceira geração27 de docentes do curso teve a sua inserção na docência, em geral, marcada pelas tensões do período ditatorial e pelo processo de reformulação do Serviço Social. Como nas gerações anteriores, os docentes encaminhavam-se para a docência devido ao reconhecimento de sua prática profissional como assistente social, até porque estamos nos referindo a um período em que não havia a exigência da titulação para ser docente (pois estavam se iniciando os programas de pós-graduação em Serviço Social no Brasil), tornando o bom desempenho na prática profissional um elemento de avaliação para inserção na docência. Segundo Rodrigues (1994), como nos outros períodos, a relação entre ensino e prática profissional era fundamental para o exercício da docência. Ainda segundo a autora, estes docentes estavam fundamentados numa concepção crítica de educação, entendida como um dos instrumentos de luta pela transformação da sociedade e das relações de poder e de hegemonia. Porém, cabe ressaltar que, nesse momento, o exercício da docência e a construção da prática pedagógica passaram por grandes instabilidades e transformações. Ao mesmo tempo em que essas reformulações estavam ocorrendo, a prática do ensino tinha que se efetivar, tornando-se um momento conturbado e com grandes dificultadores para o exercício da docência. A partir da década de 1990 ocorreu a tentativa de consolidação da direção dada à profissão na década de 1980. Tal efetivação se deu através da construção do projeto éticopolítico da profissão, ancorado na perspectiva da pedagogia emancipatória. 27 Segundo Rodrigues (1994), assistentes sociais que iniciaram a docência nas décadas de 1970 e 1980. 86 Assim, podemos afirmar que construir uma prática pedagógica docente nessa perspectiva exige desse profissional um permanente processo de reflexão, articulação e elaboração dos elementos críticos que compõem a profissão, de modo a reafirmá-los no exercício da docência. De acordo com Faustini (2004), para pensarmos a construção de uma prática pedagógica nessa direção são necessários alguns saberes, sendo estes: 1) Saberes formalizados; 2) Saberes da experiência; e 3) Saberes práticos docentes. Em relação aos saberes formalizados, a autora apresenta-os como sendo os conteúdos das disciplinas, o referencial teórico, as leituras atualizadas sobre a matéria a ser trabalhada em sala de aula, o conhecimento dos autores que se encontram na matriz teórico-filosóficoepistemológica do Serviço Social. Ressalta-se que esses conteúdos devem estar alicerçados em bases teóricas que defendam o projeto profissional. Tais saberes devem estar relacionados às Diretrizes Curriculares da ABEPSS, porém é necessário identificar em quais condições administrativas, políticas e pedagógicas essa relação ocorre. Segundo Faustini (2004), os saberes da experiência nascem a partir de dois vetores: a experiência como assistente social e a experiência com o ensino. Quanto à experiência com o ensino, podem-se levar em consideração os modelos de experiência traduzidos em professores e assistentes sociais que marcaram seu processo formativo. Além desse aspecto, os saberes da experiência podem ser construídos num processo de autodidatismo. Conforme Faustini (2004), no início do exercício da docência, em geral, os professores contam com a criatividade, já que normalmente não lhes é dito como agir com o aluno – o que e como fazer, elementos esses que serão buscados na sua própria vivência profissional como assistente social. No que se refere à extração dos saberes das experiências do cotidiano, deve ser feita de forma sistematizada, pois a não sistematização pode se constituir num dificultador: as referências pessoais são diversas e acabam por criar práticas diversas, o que, se por um lado pode ser enriquecedor, também possibilita o afastamento em relação ao projeto profissional. A organização desses saberes pode se constituir em um arcabouço de saberes didáticopedagógicos na área de Serviço Social. Faustini (2004) indica a importância de que o Código de Ética seja um direcionador para a prática docente, fazendo com que essa prática represente o compromisso com o projeto ético-político da profissão. Isso denota de forma clara a necessidade de migração dos valores 87 e direcionamentos da prática profissional do assistente social para a prática profissional enquanto docente. Para a autora, mesmo ocorrendo a soma dos saberes formalizados aos saberes da experiência, há lacunas na prática da docência, que seriam os saberes específicos da prática docente. A elaboração desses saberes práticos docentes deve estar alicerçada em referências da área da educação, mas não pode desconsiderar ou contradizer os saberes formais e da experiência que estão balizados nas especificidades do Serviço Social. Esses saberes específicos nascem da integração e interação entre os saberes formalizados e saberes da experiência. Nesse sentido, a revisitação à obra de Paulo Freire aparece como um indicativo para pensarmos a construção desses saberes práticos docentes. Freire (2011) aponta os elementos centrais para a construção da prática pedagógica docente, elementos esses que não se contrapõem à direção do projeto ético-político do Serviço Social, e que, muito pelo contrário, corroboram sua manutenção. Na perspectiva do autor, pensar a prática pedagógica exige levar em consideração aspectos como: rigorosidade metódica, exercício da pesquisa, criticidade, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação. Tais elementos são facilmente reconhecidos seja nas diretrizes curriculares para o curso de Serviço Social, seja no Código de Ética. Além desses elementos, também são indicativas de Freire (2011) como necessárias para pensar o ato educativo, questões como o fato de o ensino exigir reconhecimento do inacabamento, respeito à autonomia do educando, humildade, tolerância, luta em defesa dos direitos dos educadores, apreensão da realidade, além do reconhecimento do ato educativo como um compromisso político, sendo a educação uma forma de intervir no mundo, com um caráter ideológico, não podendo se dar de forma neutra e sem intencionalidade. Nesse sentido, refletir sobre a prática pedagógica do assistente social faz-nos reconhecer nesta a possibilidade de uma ação que seja comprometida com os interesses das classes subalternas, e que, de acordo com a correlação de forças vigente na sociedade e no lócus de trabalho, pode colaborar para a construção de uma hegemonia fundada sobre os anseios e lutas da classe trabalhadora, contribuindo diretamente para o fortalecimento do projeto profissional do Serviço Social. 88 Capítulo 3 – O assistente social docente e o pedagógico na docência: identidade e unidade, limites e possibilidades “Há aqueles que lutam um dia, e por isso são muito bons. Há aqueles que lutam muitos dias, e por isso são muito bons. Há aqueles que lutam anos, e são melhores ainda. Porém, há aqueles que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis”. Bertolt Brecht 89 Capítulo 3 – O assistente social docente e o pedagógico na docência: identidade e unidade, limites e possibilidades O presente projeto foi realizado através de uma pesquisa qualitativa desenvolvida em duas fases, a primeira apoiada em fontes secundárias, direcionada para o estudo das seguintes temáticas: concepção de educação, papel da educação na sociedade contemporânea, ensino superior no Brasil, docência em Serviço Social, prática pedagógica do docente, processo de formação em Serviço Social e projeto ético-político. A segunda fase do trabalho foi constituída pelas fontes primárias a partir da realização de entrevistas, registrando depoimentos que foram posteriormente categorizados e analisados. A escolha desse percurso metodológico deu-se em função da relevância de estudos qualitativos, que, associados a outras fontes, constituem caminho viável para alcançar os objetivos do projeto. A pesquisa qualitativa, “parte do fundamento de que há uma realidade dinâmica entre o mundo real e o sujeito” (CHIZZOTTI, 1988, p. 79). Nela prioriza-se a realidade dos sujeitos e os significados que são por eles atribuídos aos fenômenos pesquisados. Para obtenção dos dados, nos utilizamos do recurso da entrevista semiestruturada, que, segundo Ludke e André (1986) ocorre através do estabelecimento de um roteiro, que não deve ser aplicado de uma forma rígida. Assim, se possibilita ao entrevistador que faça as devidas adaptações. A entrevista constitui-se como um diálogo intencional entre duas ou mais pessoas, mediado por perguntas e respostas, com objetivos específicos, e que proporcionam a aproximação e reflexão dos entrevistados, bem como do entrevistador, sobre as temáticas ali apresentadas. Os dados na pesquisa qualitativa se dão em um contexto fluente de relações. São colhidos interativamente em um processo de ida e vinda e na interação com os sujeitos. Esses dados no entender de Chizzotti “são fenômenos que não se restringem às percepções sensíveis e aparentes, mas se manifestam em uma complexidade de oposições, de revelações e de ocultamentos, é preciso ultrapassar a sua aparência imediata para descobrir a sua essência” (MARTINELLI, 1999, p. 36). 90 Optou-se por entrevistar 6 (seis) profissionais de Serviço Social que atualmente tem a docência no curso de Serviço Social como atividade laborativa. Os sujeitos foram escolhidos de acordo com os seguintes critérios: • dois profissionais que exercem há mais de 25 anos a prática da docência no curso de Serviço Social, sendo um de instituição pública e outro de instituição privada; • dois profissionais que exercem há mais de 10 anos e menos de 25 anos a prática da docência no curso de Serviço Social, sendo um de instituição pública e outro de instituição privada; • dois profissionais que exerçam há menos de 5 anos a prática da docência no curso de Serviço Social, sendo um de instituição pública e outro de instituição privada. O sujeito representante da instituição pública pertencente a esse último grupo foi selecionado levando em consideração sua atual experiência na docência, uma vez que desde 2009 encontra-se na Universidade Federal da Baixada Santista, não tínhamos conhecimento de que a entrevistada já possuía uma longa trajetória na docência. Tal informação foi obtida somente na entrevista e optamos por não descartar seu depoimento e mantê-lo devido à importância de suas contribuições acerca do objeto de estudo, mesmo que, na caracterização geral ela não se enquadre nesse último grupo. A opção por escolher profissionais que desenvolvem há mais e menos tempo a prática da docência, assim como a diferença do seu lócus de trabalho, está relacionada à intenção de dispor de uma amostra representativa da heterogeneidade do universo em questão, no que diz respeito às percepções e vivências das questões a serem refletidas. Do roteiro28 da entrevista constaram questões relacionadas a: • concepção de educação; • prática pedagógica do assistente social docente; • possibilidades e dificuldades no exercício da docência; • relação entre docência e projeto de educação do ensino superior; • relação entre docência e prática profissional 28 O roteiro da entrevista consta do anexo 1. 91 As entrevistas foram previamente agendadas e todas foram gravadas, a fim de garantir a maior fidedignidade do registro dos depoimentos, depois de transcritos, foram categorizados e analisados. Observando os princípios éticos e as exigências de sigilo da pesquisa, todas as entrevistas só foram realizadas após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido29 (TCLE) onde foi explicado o teor da pesquisa, seu objeto e seus objetivos. Como garantia do sigilo em relação aos sujeitos, os mesmos passarão a ser identificados da seguinte forma: entrevistada 1, entrevistada 2, entrevistada 3, entrevistada 4, entrevistada 5 e entrevistada 6. Optou-se por analisar os depoimentos a partir de três categorias: 3.1 Educação; 3.2 Ensino Superior; 3.3 Prática Pedagógica do Assistente Social Docente. Antes de passar à análise dos dados, apresentamos o quadro abaixo que, de forma geral, caracteriza os sujeitos entrevistados: Sexo Graduação Pós-graduação Início docência Tempo de docência Entrevistada 1 Feminino Faculdade de Lins, em 1973. Mestrado e Doutorado em Serviço Social pela PUC/SP, respectivamente em 1992 e 1997. Em 1978, na Faculdade de Lins. Iniciou em 1984, na Unesp/Franca. 25 anos Entrevistada 2 Feminino PUC/SP, em 1975. Mestrado em Serviço Social pela PUC/SP, em 1986 e atualmente faz o doutorado em Serviço Social na PUC/SP Em 1976, na PUC/SP. 36 anos Privada – PUC/SP Entrevistada 3 Feminino Faculdade de Lins, em 1987. Mestrado em Ciências Sociais pela Unesp, em 1993, e doutorado em Serviço Social pela Unesp/Franca, em 1999. Em 1991, numa universidade privada na região de Rio Preto. Em 1996 iniciou na Unesp/Franca. 21 anos Pública – Unesp/Franca 29 Consta como anexo 2 o modelo do TCLE. Atual Instituição de Ensino Superior Pública – encontra-se aposentada desde 2003 92 Entrevistada 4 Feminino FAPS/SP, em 1990. Mestrado e Doutorado em Serviço Social pela PUC/SP, respectivamente em 2000 e 2006. Em 2002, na Faculdade de Mauá. 10 anos Privada – Faculdade de Mauá Entrevistada 5 Feminino Universidade Federal do Pará, em 1987. Concluiu a graduação em Pedagogia na mesma universidade em 1993. Mestrado e Doutorado em Serviço Social pela PUC/SP, respectivamente em 1999 e 2005. Em 1990, na UFPA, onde permaneceu até 1996. De 2004 a 2008 lecionou em universidades privadas de São Paulo e desde 2009 leciona na Unifesp/Baixada Santista. 14 anos Pública – Unifesp/Baixada Santista Entrevistada 6 Feminino Universidade Federal Fluminense, em 2007. Mestrado em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2010. Em 2011, numa universidade privada de São Paulo. 1 ano Privada Unicastelo Segue-se a análise das falas de acordo com as categorias elencadas: 3.1 Educação Dentro da categoria educação são abordados três aspectos: a concepção de educação, as referências teóricas da área da educação e a aproximação com a temática da educação. 3.1.1 A concepção de educação No que se refere à concepção de educação pudemos perceber que, em sua maioria, as entrevistadas estão referenciadas numa concepção crítica de educação, influenciada pelo pensamento paulofreireano, que as ajudou a construir uma concepção de educação que defenda os interesses da classe trabalhadora e que evidencia aspectos como a horizontalidade, a dialogicidade e a consciência crítica. No caso da entrevistada 1, percebe-se que tal influência também se deu através da proposta de educação popular que, no período de sua formação, tinha grande expressividade e influência na área da educação e no Serviço Social. “Logo a gente agregou a visão da educação popular, que foi então aquilo que foi dando esse direcionamento. Considerar o ‘aprendiz’ como um sujeito do 93 saber, era a questão fundamental. Já o ensino numa linha, em uma posição mais igualitária entre professor e aluno. Então isso eu tive desde o começo, porque vinha da minha formação política anterior nos movimentos sociais com essas pessoas especificamente que tinham essa formação”. Entrevistada 1 As entrevistadas 1 e 2 apontam como concepção de educação um processo mais amplo, que deve se responsabilizar pela formação do ser humano, não se restringindo à sala de aula. Isso também pode ser visualizado tanto na concepção de educação defendida por Paulo Freire e demais teóricos da educação referenciados nesse trabalho, como nas próprias Diretrizes Curriculares da ABEPSS para a formação no Curso de Serviço Social, o que mostra uma coerência teórico-prática no processo de construção de suas práticas pedagógicas, uma vez que a concepção de educação adotada é um dos elementos essenciais para o direcionamento da prática pedagógica do docente em Serviço Social, pois revela uma determinada concepção de homem e de mundo. “Uma construção coletiva. A educação é muito mais do que sala de aula. A educação é todo o processo de vida da gente. Em todas as relações existe uma formação na educação. Então eu acho que o professor ele é mais educador com a sua postura do que com o que ele fala em sala de aula. É mais educador com a ética, com a falta de ética do que com o que ele fala”. Entrevistada 1 “Primeiro, a educação não é só formal, os povos iletrados que não sabem ler nem escrever também tem educação, como é que fica o processo de socialização, como é que esse processo de socialização gera alienação, como é que esse cotidiano, eu falei pra você que eu estudo a Heller, como é que a gente tem a rotina de naturalização dos processos, quer dizer, como é que a sociedade funciona, como é que ela faz para se reproduzir (...) e aí você vai pensando se eu tomo como referência que nós vivemos numa sociedade capitalista e que os mesmos processos que geram a riqueza geram a pobreza, que polo dessa contradição eu preciso trabalhar, eu quero incentivar, eu me comprometo, com que projeto isso tudo tem a ver com perspectiva de educação, com perspectiva política”. Entrevistada 2 As entrevistadas 4 e 5 reafirmam a ideia de que a concepção de educação desvela uma determinada concepção de mundo e demonstra que, no caso do Serviço Social, que postula a defesa de um novo projeto societário, a concepção de educação deve estar associada a esses princípios, sendo assim uma educação para a mudança e transformação, o que mais uma vez deixa nítida a coerência teórica, ética e política dessas profissionais que conseguem articular a concepção de educação com um projeto societário e um projeto de profissão. 94 “Bom, em relação à concepção de educação desde a graduação em serviço social essa questão sempre esteve presente nas minhas reflexões, porque eu pensava para que educação? Educar para que sociedade? Educar para que sentido de desenvolvimento? Educar que homens e que mulheres? (...) a educação ela é intencional, a educação ela é política... a educação precisa nos educar para que a gente consiga se posicionar diante de fatos e acontecimentos que ocorrem na sociedade. Então, a educação ela tem uma dimensão que é nos assegurar o conhecimento socialmente construído, mas, também ela tem que possibilitar que a gente consiga se valer desses conhecimentos e articular com as demandas que estão postas na sociedade. Então, a educação é uma educação política, é uma educação intencional.” Entrevistada 4 “a educação em si ela implica num ato político de mudança, de transformação... a gente vai formar a primeira turma de serviço social os alunos que chegaram e os alunos como estão saindo... então, no meio do curso a gente já percebe o processo de transformação... eles chegam com uma concepção de homem e de mundo é outra geração que está aí... e aí como que a gente vai nesse processo desse ato educativo político... como que a gente vai aos poucos informando, transformando, desconstruindo alguns valores, então para mim a educação... é esse ato de desnaturalização daquilo que tá dado como verdade absoluta dentro dos status quo, então é muito desassossegar a pessoa, aí a gente entra em crise, eles entram em crise junto com a gente (...) eu me sinto fazendo educação e educação é muito mais do que dar aula... educação tem um projeto, uma concepção que tem um projeto de sociedade, que tem um projeto de profissão no caso da gente do serviço social, que é o que a gente fala do projeto ético-político, então tem projeto muito claramente definido de educação... tem que tá alinhado com o nosso projeto ético-político e também com o projeto de sociedade que a gente quer”. Entrevistada 5 As entrevistadas 3 e 5 enfatizam, na sua concepção de educação, elementos que são essenciais para que essa perspectiva crítica/transformadora se concretize na prática. A entrevistada 3 destaca a importância da troca de saberes entre discentes e docente, como um elemento que possibilita a construção do saber, desmistificando a ideia de que ao professor cabe somente ensinar e ao aluno somente aprender, o que é corroborado pela depoente 5 que também destaca nessa concepção crítica de educação a preocupação com a relação estabelecida entre docente e discentes, que não pode se dar de forma hierarquizada nem autoritária, embora a mesma destaque a dificuldade dessa construção no cotidiano da prática pedagógica. Ambas as entrevistadas demonstram que a concepção de educação deve definir uma direção político-pedagógica no cotidiano do docente, de modo a levá-lo sempre a pensar e refletir sobre sua prática pedagógica. 95 “mas para mim a educação é um processo de troca de saberes onde aquele que está na função de docência, de professor, tem uma responsabilidade diferenciada nessa troca de saberes se ele está dentro da escola, dentro da Universidade, ele tem a responsabilidade de trazer o saber acadêmico, o saber científico, porém relembrando que esse saber culto ele não é matizado por um único referencial teórico, porque quando fala assim, contrapor ora o saber cientifico ao senso comum, o senso comum como mentira e o saber cientifico como verdade isso não é minha concepção de educação embora eu parta do pressuposto que existe um saber cientifico que pode iluminar o senso comum, porque tem um acúmulo de conhecimento de gerações que pode hoje iluminar o saber diário, eu sei também que nessa ciência tem muito coisa que não é verdadeira, reprodução da própria realidade, e no saber de senso comum tem muita verdade que é desprezada (...). Educação para mim é um processo que inclui saberes que são iluminados por fontes diferentes, inclusive um saber que vem da experiência, do contato com a natureza, do contato com a realidade social, contato com elementos que não são científicos mas que vem também da ciência, e como a ciência é construção histórica vem de diferentes referências históricas que a ciência traz”. Entrevistada 3 “Educação é um processo de mudança, é um processo de transformação para manutenção ou não do status quo dependendo de quem tá nessa hegemonia, porque aí é que se dá a disputa pela educação então, para mim a educação ela é um processo de produção e de reprodução das relações sociais e nesse sentido eu acho que tá muito imbricada com o serviço social (...)a nossa prática docente ela reitera ou ela não reitera isso, a mesma coisa com relação por exemplo, a questão de uma educação crítica ou de uma educação emancipatória, então você tem outros mecanismos, outros componentes que vai fazer a tua prática pedagógica, então provavelmente com certeza você não vai colocar as cadeiras daquela forma vai fazer um círculo, o que vem com Paulo Freire o círculo da cultura, mas é um círculo do diálogo, da troca da interação, então aqui o conhecimento, a educação ela assume uma outra forma você se constrói nessa interrelação dos sujeitos que fazem a educação, não é mais daquela forma piramidal, o professor sabe, o aluno bebe esse conhecimento tábula rasa que coloca o Paulo Freire, aqui não, aqui é diferente então por isso que é muito mais trabalhoso... essa produção ela vai se dar a partir dessa interrelação do professor e do aluno, então essa relação didático pedagógica com certeza ela vai... Porque já pensou você conversar com seus alunos para uma turma de 50 alunos como que não é difícil isso pro professor para ter essa prática de emancipação, de conhecer a história do teu sujeito, então aqui o aluno ele é o sujeito do próprio conhecimento não é mais um objeto como ele era nessa concepção bancária ou nessa concepção acrítica,... tem alguns outros autores que quis colocar a concepção ... crítico reprodutivista porque também a gente pode tá criticando e a nossa prática estar reproduzindo tudo aquilo que a gente criticava, então também essa é uma outra abordagem de concepção de educação... concepção conteudista que só prima pelo conteúdo que também eu acho que deve ser um braço dessa concepção tradicional e também o cuidado nessa concepção crítica também de não jogar o conteúdo e de não ficar só na crítica mas, como fazer essa mediação do conteúdo como conhecimento nessa relação, nessa interrelação de sujeitos desse processo do aluno e de professor porque também as muitas vezes eu acho que tá dentro dessa linha crítico reprodutivista uma inversão de papéis, aí o aluno já passa a ser o professor e o professor passa a ser o aluno, então tudo tem que ser muito dosado, muito 96 pensado, por isso que é muito difícil porque a gente não experimentou isso, a gente fala de uma concepção de educação emancipatória mas o que seria isso com certeza... passa pela autonomia do sujeito, do docente, mas que autonomia é essa, aonde que é o limite dessa autonomia, desse conhecimento eu sei que o que a gente não pode é reproduzir exatamente aquilo que tá colocado como certo, então por isso que eu acho que a educação ela tem esse papel... de desestabilizar, de desnaturalizar... e que com certeza tem a ver com nosso projeto de profissão”. Entrevistada 5 Já a entrevistada 6 apresenta uma concepção de educação mais vaga, com menor clareza do referencial teórico, o que atribuímos à sua recente formação e à inserção na docência, demonstrando que, em comparação às entrevistadas que se formaram nas décadas de 1970 e 1980, denota-se uma menor influência da temática da educação cirscunscrevendo a graduação em Serviço Social. Nas décadas anteriores, de acordo com a fala das entrevistadas, havia maior aproximação, porém, percebe-se uma preocupação da entrevistada 6 de que sua concepção de educação se aproxime de uma perspectiva crítica. “eu entendo educação como ah... o mais distante possível daquela concepção burguesa, mesmo de educação de transferir conhecimento dos donos do poder, transferir conhecimento disciplinarmente, assim com disciplina rígida, como dos donos do poder. O que for mais distante disso é a minha concepção de educação. Então é uma coisa assim de formação do ser humano (...), essa construção do ser humano se tornando mais humano, menos homem inteiro, mas inteiramente humano”. Entrevistada 6 Assim, percebe-se que todas as entrevistadas compartilham da defesa de uma perspectiva de educação que prime pela formação integral do ser humano, englobando as particularidades da qualificação para a prática profissional, mas também indicando uma formação para a vida em sociedade de sujeitos que interfiram criticamente no processo histórico, de modo a fortalecer a construção de alternativas frente ao vigente modelo societário excludente e desigual. 3.1.2 Referências teóricas da educação Na tentativa de compreender a partir de que referenciais teóricos as entrevistadas construíram sua concepção de educação é que pesquisamos tal questão durante as entrevistas e pudemos perceber que as depoentes trazem uma influência muito forte das elaborações teóricas de Paulo Freire, mesmo com a clareza de suas limitações e incompletudes. Tal 97 influência é marcante na trajetória das entrevistadas e evidencia que no período em questão, décadas de 1970 e 1980, essas ideias se fizeram presentes em diversas áreas do saber, inclusive no Serviço Social. Inicialmente as entrevistadas 1, 2, 4 e 5 demarcam claramente a influência de Paulo Freire, assim como de Moacir Gadotti, Carlos Brandão, Gaudêncio Frigotto e István Mészaros nas suas formulações teóricas sobre educação, porém as entrevistadas 1 e 2 destacam a importância de Paulo Freire, o que avaliamos ser mais evidente para ambas, devido ao período em que iniciaram sua docência, ambas no final da década de 1970, quando o pensamento de Paulo Freire se fazia muito presente no meio acadêmico. “Agora, por exemplo, na área da educação, uma das referências da gente, para mim e alguns professores, era o... Como chama da UNICAMP? O Brandão, era da educação popular. Também tem isso. A concepção de educação, para nós, aí sim havia reflexão da educação popular, cujos princípios e propostas a gente incorporava na educação escolar dos alunos. Eu acho que é isso que responde a sua pergunta. Era o Brandão, era o Gadotti, era o Paulo Freire, mas mais o Paulo Freire”. Entrevistada 1 “As leituras de fundamentação eu acho que foi o Paulo Freire e depois foi para além, porque você quer entender a educação, eu me interessei muito já cheguei a ser professora de uma disciplina que foi Educação Popular, que durou só um período, me interessei muito por esse tema, porque julgava e isso é verdade... também tem uma educação que não é popular, que não defende os interesses dos usuários ou da população com a qual a gente trabalha, eu não saberia te especificar bem, mas trabalhar com educação, não só com educação formal é você discutir o processo de socialização, como é que ocorre o processo de socialização dos indivíduos na sociedade”. Entrevistada 2 “processualmente eu fui me aproximando de autores da educação como Paulo Freire, Moacir Gadotti, Gaudêncio Frigotto... eu tenho lido bastante o Moacir Gadotti, que é um filósofo da educação, Mário Sérgio Cortella, que também é um filósofo da educação, o Gaudêncio Frigotto, que discute mais as políticas educacionais e mais recentemente até por conta do livro que ele escreveu no contexto do fórum mundial da educação - István Mészáros: A educação para além do capital tem sido uma grande referência, ele escreveu esse livro em 2005 no contexto que ele esteve no Brasil em Porto Alegre e este livro tem sido uma referência para nós também brasileiros porque o Mészáros se coloca nessa perspectiva crítica analítica de pensar como é essa educação, como essa concepção de educação crítica pode transformar as pessoas e as pessoas transformarem as realidades em que vivem”. Entrevistada 4 “a gente teve a oportunidade de estudar vários autores de várias concepções de educação, Moacir Gadotti, Gaudêncio Frigotto”. Entrevistada 5 98 As respondentes 2, 3 e 4, além de destacarem a importância da influência de Paulo Freire em suas formulações sobre a educação, apontam claramente suas incompletudes enquanto teórico da área, o que evidencia sua contribuição, mas não desconsidera suas lacunas, demonstrando uma maturidade intelectual e teórica por parte das entrevistadas que souberam aproveitar de Paulo Freire o necessário e completar com outras leituras e referências o que consideraram incompletudes, numa demonstração do exercício do pluralismo, como previsto nos princípios da formação e prática profissional do assistente social. “comecei lá com Paulo Freire, a minha monografia de mestrado ela aborda um pouco disso eu trabalhei muito a questão do saber poder profissional, defendendo se é possível você defender os interesses da população quando você trabalha no Estado... era uma coisa que era muito discutida naquela época, isso me fez debruçar sobre a obra do Paulo Freire e eu acho que conheço muito bem e fazer criticas porque o Paulo Freire fala o tempo inteiro que você não pode levar o conhecimento pronto, que você tem que tirar do aluno, mas não fica muito claro, mas o tempo inteiro ele está questionando o poder, como que a educação é construída, desenvolvida e criada sabe... e se você pensar toda educação ela tem duas dimensões básicas, ela tem um saber que é veiculado, que conhecimento que você quer transmitir e tem um poder, quer dizer como é que se dão as relações entre educador e educando e o objeto alvo da sua discussão, eu tenho uma critica porque eu acho se a gente for... é lógico que o Paulo Freire ele influenciou o pensamento brasileiro, é uma pessoa incrível, é um parceiro político muito importante, admirável, ele não é um pensador marxista, ele é um humanista, mas é um parceiro de esquerda muito importante na luta pela democratização do Brasil, mas eu acho que tem um problema nele, ele deu origem se a gente quiser chamar a um pensamento que se chama basista, o povo sabe mas se você fica nisso é muito perigoso porque isso diminui seu papel”. Entrevistada 2 “então a minha leitura do Paulo Freire, era uma leitura critica também, na época eu ficava desolada que eu já identificava quando ele estava às vezes fugindo daquilo que era minha perspectiva, até quando eu fui entendendo o momento que ele escreveu aquilo e teve uma entrevista que ele fez já mais no final da vida dele que ele diz assim: ‘Não é verdade que eu sou fenomenológico, na verdade eu sempre tive uma perspectiva marxista’, e ele estava dizendo mesmo que teoricamente eu tivesse equívocos, eu entendo também que ninguém começou pronto no marxismo (...)eu acho que o Paulo Freire fazia isso, mesmo que ele não estivesse claro, o que ele conseguia ter claro, existe uma situação de opressão e a gente tem que desnaturalizar, isso não é pouco para quem trabalha com gente, a minha leitura de educação, embora eu tenha lido outros autores.... e aí acho que o Brandão para mim foi muito importante, mas eu acho que a principal referência que eu tive foi Paulo Freire mesmo na área de educação, eu li muita coisa já... teve um outro cara que me ajudou também, o José Luis, lá de Rio Preto, ele me ajudou a pensar o Hegel e o Marx mesmo eu discordando lá da finalização 99 da tese, a tese dele me ajudou muito, um cara que não tem assim uma projeção maior dentro da pedagogia”. Entrevistada 3 “Eu queria falar um pouco de Paulo Freire, porque eu vi que você teve uma vivência, em um núcleo de pesquisa da Unesp, que trabalhava Paulo Freire. E aí, como eu trabalho no Instituto Paulo Freire e eu conheci Paulo Freire presencialmente, mas não aqui no Instituto porque eu entrei em 2006, mas eu conheci muito mais pelos livros e pelas pessoas que conviveram com ele. E aí tem um traço dos seus escritos, principalmente da sua maturidade do seu clássico Pedagogia do Oprimido que vem muito ao encontro do que a gente discute no serviço social. Em que pese a tradição marxiana dizer que Paulo Freire, está bom, é um libertário, até porque esse sentido acadêmico do doutoramento, da cientificidade, até que ponto que ele construiu... Ele construiu referenciais teóricos, metodológicos que possibilitaram a ele atuar em diferentes contextos. E esse referencial é hoje muito bem apreendido pelos movimentos sociais é um referencial da educação popular que tem uma densidade teórica e metodológica que a gente desconhece no serviço social. E lendo Paulo Freire na década de 60, década de 80 e pós-exílio a gente percebe uma rigorosidade teórica que por vezes a gente parou no início do pensamento dele, em que ele tem um humanismo cristão muito presente, muito presente na fenomenologia, só que a gente não conseguiu compreender Paulo Freire na sua maturidade... Nós paramos com Paulo Freire na década de 60 quando ele faz algumas experiências em Pernambuco, ganha notoriedade em Angicos... que em quarenta horas e quarenta dias, porque não foram quarenta horas seguidas ele alfabetizou trezentas pessoas. E não é uma alfabetização do letramento, é uma alfabetização política... Lendo os autores da educação como Rui Basic da USP, que é um estudioso de Paulo Freire, foi uma educação libertadora, por isso que é libertadora, porque as pessoas, elas se aproximam das letras mas por meio das suas histórias de vida. E aí a gente pensa que isso é simples, mas é muito caro na pedagogia freireana. E assim, para conhecimento, acho que nós brasileiros e brasileiras deveríamos conhecer essa pedagogia para a gente compreender o fundamento dessa educação freireana, como que ela pode contribuir para a nossa intervenção profissional, porque nós temos uma dimensão do nosso trabalho que a Marina Maciel trabalha muito bem, essa dimensão educativa, mas que a gente poderia dialogar com outros autores de outras áreas e que por vezes por desconhecimento a gente acaba nem passando para o próximo”. Entrevistada 4 Os depoimentos coligidos são unânimes em evidenciar a forte influência das ideias de Paulo Freire na formação de diferentes gerações de Assistentes Sociais, de que as entrevistadas são representantes. Com efeito, a visão crítica da educação apresentada por Paulo Freire, que se contrapõem, como ele intitula, à educação “bancária”, somada a elementos como a importância do diálogo na relação educador e educando, a valorização do universo vocabular do educando, a possibilidade da educação como uma prática de liberdade, entres outros aspectos, constituem um legado filosófico, ético e pedagógico de inegável relevância para as ciências humanas em geral e para o Serviço Social em particular. 100 Ainda que se ressentisse, segundo alguns críticos, da insuficiência de uma formulação teórica mais consistente, a obra de Paulo Freire fomentou o pensamento crítico e insurgente que foi decisivo na formação de profissionais e docentes nas fases preliminares de suas trajetórias acadêmicas e profissionais, especialmente na graduação, como foi o caso do Serviço Social. O pensamento freireano contribuiu para forjar uma massa crítica dos modelos pedagógicos convencionais e dominantes e, consequentemente, da ordem social que os sustenta, de modo a favorecer – nas fases seguintes à graduação – a aproximação e a progressiva filiação dos referidos profissionais às correntes de uma teoria social crítica, identificando-se crescentemente – o que não quer dizer em todos os casos – com projetos societários alternativos à ordem vigente, especialmente aqueles informados por valores socialistas, reunidos em um amplo compósito de cristãos católicos, marxistas e militantes de esquerda sob diferentes orientações estratégicas quanto ao projeto revolucionário. É possível depreender, portanto, a validade e a pertinência de revisitar criticamente a obra freireana, evitando-se incidir no equivocado pragmatismo de concebê-la dispensável ou mesmo irrelevante em face dos avanços ideo-políticos e teóricos do Serviço Social nas últimas décadas. Faz-se necessário que, a partir do reconhecimento de suas lacunas, ocorra um esforço em produzir conhecimentos que venham exatamente problematizar suas incompletudes. 3.1.3 Relação com a temática da educação Na tentativa de compreender se as entrevistadas, após a inserção na docência, tinham se aproximado da temática da educação e como isso havia ocorrido é que investigamos esse aspecto e percebemos que as respondentes 3 e 5 já tinham aproximação com a temática antes mesmo de optarem pela profissão de Serviço Social, através de trabalhos que realizaram junto aos movimentos sociais. “A minha discussão sobre o tema da educação inclusive pedagógica se deu nos movimentos sociais, porque a gente tinha que pensar uma proposta educacional, uma proposta de trabalho educativo horizontal com pessoas de escolaridade muito diferente da nossa e foi lá que eu comecei a discutir o que era ensinar, e como nesse ensinar a gente aprende, eu vivenciei isso, a gente ia fazer uma discussão com os trabalhadores e voltava sabendo muito mais do que quando tinha ido, e era direta a relação, então a minha discussão sobre processo educativo é a partir de trabalhos desenvolvidos nos movimentos sociais”. Entrevistada 3 101 “é, acho que esse componente pedagógico ou essa função pedagógica que também tem o trabalho do serviço social e que para mim naquela época era muito evidente a relação com a pedagogia... é essa coisa da educação, do trabalho pedagógico porque eu trabalhava com meninos de rua, então como assistente social a gente precisava ter, digamos assim, habilidades, competências na área pedagógica do como fazer, do como operacionalizar essa relação com os meninos, que eu era educadora social de rua e a gente trabalhava muito na rua, então a gente tinha um diálogo muito grande com o pessoal da pedagogia, era arte educação é um grupo que também trabalhava na linha do Paulo Freire”. Entrevistada 5 Entendemos que tal aproximação “precoce” com a temática ajudou a refletir sobre a importância do debate da educação e sua relação com o próprio Serviço Social, como relatado pela entrevistada 5. Isso evidencia, na trajetória dessas depoentes, que as mesmas se aproximaram muito cedo da temática, podendo considerar essa uma influência importante para futuramente “optarem” pela carreira docente. Já a depoente 2, demonstra que, após sua inserção na docência, manteve sua aproximação com a temática da educação explorando-a sob diferentes prismas. Demonstra também que a preocupação com o tema se dá devido ao exercício de diferentes papéis que exigem o diálogo com a área da educação. Como docente, ela ressalta que o debate se faz presente no grupo de docentes da instituição de que faz parte, que sempre manteve estudos principalmente sobre a política de educação do ensino superior, destacando também nesse quesito o protagonismo da ABEPSS na articulação de tais discussões e o próprio processo de construção das Diretrizes Curriculares do curso de Serviço Social, em que a instituição de ensino à qual pertence teve um papel fundamental. “então eu tenho estudado um pouco a questão da educação por essas três vertentes, como professora, como Assistente Social e como uma docente que coordena uma extensão aqui na universidade que trata na área da educação. (...) a gente fez muitas leituras das políticas que permearam o ensino universitário ao longo desses anos, que deram origem depois a LDB no governo do Fernando Henrique a gente sempre acompanhou as políticas dirigidas para o ensino superior e um movimento que a ABEPSS sempre fez para qualificar o quadro docente, a PUC tem um protagonismo nas diretrizes curriculares de ABEPSS”. Entrevistada 2 É possível afirmar, portanto, que essa constante aproximação com a temática da educação, seja pelo exercício da docência ou pelo exercício da prática profissional do Serviço Social vem colaborar para uma qualificação permanente da prática pedagógica, tendo em vista que um dos princípios da formação profissional em Serviço Social é a qualificação continuada 102 que permite repensar o cotidiano profissional. Assim, o estudo sobre a temática educação se faz imprescindível para aqueles profissionais que pretendem exercer ou estão no exercício da docência em Serviço Social. A entrevistada 6 foi a única que apontou sua pouca familiaridade com a temática da educação, o que pode ocorrer devido ao seu pouco tempo de formação e inserção na prática docente, demonstrando a necessidade de voltar a preocupação para esses novos profissionais que estão iniciando a carreira docente, visto que a presença da temática da educação na formação profissional do assistente social não se faz tão presente, ao contrário do que ocorria na década de 1980. “eu não tenho nenhuma apreensão com o tema educação, foi uma coisa que nunca me ocorreu, mesmo em fazer uma pesquisa nessa área”. Entrevistada 6 Tais falas evidenciam a importância de estudos e reflexões sobre o tema da educação para o Serviço Social, em especial para aqueles profissionais que se direcionam para a carreira docente, possibilitando um aprimoramento teórico e intelectual que se faz necessário ao exercício da prática pedagógica. 3.2 Política de educação superior A categoria da política de educação superior foi subdividida em dois aspectos: avaliação da política de educação do ensino superior na atualidade e dificuldades e possibilidades para sua efetivação. 3.2.1 Avaliação da política de educação do ensino superior na atualidade Os sujeitos da pesquisa foram unânimes em destacar nas suas avaliações sobre o ensino superior a tendência da mercantilização da educação. As entrevistadas 1 e 5 destacam nesse processo de mercantilização a primazia da quantidade em detrimento da qualidade, já a entrevistada 3 reforça que esse processo de mercantilização fortalece a concepção hegemônica de educação que tem sido defendida pelos grandes grupos econômicos, aspecto também presente na fala da entrevistada 2, que aponta que tal processo não é exclusivo do Brasil, visto que países europeus também o vivenciam. 103 A respondente 6 também destaca no processo de mercantilização da educação a primazia da quantidade, apontando que tal processo vem sendo implantado no Brasil desde a ditadura militar, mas aponta as contradições desse processo, como, por exemplo, a sua própria inserção na docência, a qual se deu devido à essa expansão desenfreada do ensino superior, que precariza as condições de ensino, mas que também populariza o acesso ao ensino superior, possibilitando que pessoas que até então não se imaginavam inseridas nesse universo pudessem de alguma forma fazê-lo. Tal questão apontada pela depoente é um dos atuais dilemas do ensino superior, pois nos convida a pensar como denunciar e resistir a esse processo de massificação do ensino superior que se apoia no discurso da democratização e ampliação de direitos. “Uma porcaria, devido ao projeto de privatização, foi feito no ensino superior o que ocorreu no ensino fundamental e médio – a democratização através da massificação, então você prima pela quantidade em detrimento da qualidade”. Entrevistada 1 “a política do ensino superior hoje consolida aquilo que os empresários da educação queriam há muito tempo, que é fazer da educação superior uma mercadoria como qualquer outra, isso tem desencadeado um caos no âmbito da formação e fortalecido ainda mais a concepção de ciência hegemônica dentro da universidade, que é aquela que se coloca à disposição dos grandes interesses do capital e hoje a política no ensino superior ela é um canal de viabilização e hegemonia dessa proposta de ciência... assim que eu vejo... desastrosa.” Entrevistada 3 “as faculdades, as universidades são lugar onde você não só consome o conhecimento, se você não produzir o conhecimento não tá legal, porque a universidade é o lugar do saber e do não saber ... onde as perguntas vão ser respondidas, então aqui é um lugar onde você já tem um lastro que é o conhecimento da humanidade que já está nas bibliotecas, internet, na nossa vida cotidiana e é também o potencial daquilo que a gente não sabe, não pode ser só essa coisa consumista, universidade que não tem pesquisa é a grande briga aqui, e na nossa área tem que ter extensão, a gente tem que fazer o aluno experimentar. (...) a disputa hoje desses grupos econômicos... alguém me falava que esse grupo Anhanguera e outro que eu não me lembro ligado a Uninove é uma coisa tão grande que são grupos internacionais, eles veem a educação como mercadoria, eles estavam pondo 2 milhões de dólares esse ano no Brasil, então não é uma coisa de São Paulo, é uma coisa do Brasil e quando eu vejo lá em Portugal o que aconteceu com o serviço social de dois cursos na década de 1970, hoje são quase 30”. Entrevistada 2 “que interessa para muitas pessoas, para o mercado é o diploma, aí nem interessa muito se vem da universidade privada se vem da universidade pública. Não interessa! O que interessa é o diploma, o final da linha ponto, isso que interessa e claro que isso afeta diretamente porque se a educação ela vira mercadoria então as pessoas vão querer ter mais lucro e investir menos”. Entrevistada 5 104 “é uma situação muito delicada e muito complexa que a gente vive como professor de universidade privada, porque por um lado, olhando criticamente a sociedade, a gente percebe que as coisas não deveriam ser assim, mas essa é a realidade na qual nós acabamos intervindo. É claro que a gente sabe que o ideal seria haver universidades públicas e gratuitas e de qualidade para toda a população, para todos. Só que por outro lado a gente não pode esquecer o detalhe que vive no Brasil e que as coisas aqui, os direitos sociais aqui se dão de uma forma diferente. Então houve historicamente e ainda há um menosprezo, uma perda de sentido na importância que é a educação, não só a educação superior, mas a educação como um todo tem na formação do ser humano (...). Desde a ditadura militar, quando iniciaram a primeira reforma universitária, aquela reforma já pensava em sucatear as universidades públicas, aquela reforma já pensava em popularizar as faculdades ao invés de democratizá-las, que é uma diferença muito grande. Fosse para democratizar as universidades, abria universidades públicas, nada mais lógico que abrir vagas de qualidade com suporte total para o aluno na universidade pública, e não foi o que aconteceu, foi muito pelo contrário, incentivando claro um mercado privado da educação (...) se tornou muito claro na última década, tornou evidente, uma coisa que a gente estava negando que era que a educação finalmente se tornou uma mercadoria no Brasil. E é um processo completamente mercadorizado, e aí quando se torna mercadoria, a margem de democracia existente dentro de uma mercadoria, fica muito pequena (...)Por outro lado, eu penso muito assim a pessoa que eu sou, do setor das classes trabalhadoras de onde eu venho... Será que eu seria professora universitária? Aí a gente para pra pensar: nossa, uma professora universitária! Isso ainda tem um status, isso ainda tem uma importância assim. Aí eu penso: será que eu seria uma professora universitária, e eu que via os professores universitários, e aquilo na minha formação parecia tão distante, se essa popularização, que não foi democratização, que a gente não pode negar que popularizou a universidade, os alunos falam “eu não passaria nem na calçada da universidade” se não fosse... e aí os alunos eles falam assim “eu não estaria aqui, se não fosse essas políticas que precarizaram o ensino, que a expansão como mercadoria, o pagamento da mercadoria educação superior, mas eu não estaria aqui se não fosse isso”. Entrevistada 6 As falas mostram que a conversão da educação em mercadoria, tem sido extremamente prejudicial às condições de trabalho do docente, assim como para o processo de formação profissional dos futuros assistentes sociais e demais profissões. Como vimos no capítulo I, através principalmente dos autores Cunha (2007), Neves (2000), Pereira (2008) e Lima (2007), tal processo de mercantilização é uma tendência mundial do ensino superior, que em países como o Brasil, vem sendo efetivada ao longo do processo de formação histórica do país, se intensificou no período da ditadura militar e se fortaleceu com o projeto neoliberal. Assim, esse tem se tornado um dos grandes desafios a serem enfrentados pelos “velhos” e “novos” docentes do curso de Serviço Social, visto que tal projeto de ensino superior traz rebatimentos diretos para o projeto de profissão, de educação e de sociedade preconizados pelo Serviço Social. 105 A constatação da tendência mercadológica no ensino superior por parte dos teóricos estudados e dos sujeitos da pesquisa confirma a hipótese do trabalho de que tal direção da educação superior consolida o projeto hegemônico em favor dos interesses da classe dominante e dificulta a realização de uma educação emancipatória e libertadora. A respondente 2 pontua a questão específica sobre os rebatimentos dessa política de ensino superior em especial para o Serviço Social e para os novos profissionais que estão se inserindo na docência. “o ensino brasileiro uma UNI em cada esquina... agora eu acho que no Serviço Social eu acho que tem tido uma expansão, tem muito alunos formados pela PUC que é gente séria que a gente encontra pelos corredores aqui que estão dando aula que vejo que é a luta, como será que eu faço isso, como será que eu faço aquilo e muitas vezes ganhando tão pouco, como é que vai sobreviver. Porque como é que você vai estudar? Porque para você estudar você tem que ter uma certa tranquilidade de saber que a sua família tá legal”. Entrevistada 2 Outro aspecto apontado pela entrevistada 2 em relação à política de ensino superior é a prevalência de financiamento para expansão no âmbito privado em detrimento do público, colocando como um desses exemplos no governo Lula, o Programa Universidade para Todos (PROUNI) “o PROUNI ele é um projeto que eu já participei de debates aqui na universidade onde eu fiquei convencida que não custaria mais caro você ampliar a Universidade Pública... ampliou então tem um braço que também é sinistro, mas é isso... tem uma pressão do governo do PROUNI para dar o dinheiro para os grupos que podem crescer e ao mesmo tempo se tem uma universidade publica eles quebram”. Entrevistada 2 Tais falas denotam que vem ocorrendo um processo de sucateamento das universidades públicas, mesmo frente às propostas do último governo de expansão das mesmas através do Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), o que se evidencia é que tal crescimento das universidades públicas tem ocorrido de forma precarizada por meio da diminuição do financiamento para concretização do tripé ensino, pesquisa e extensão. Em relação a esse aspecto, a entrevistada 4 pontua as dificuldades, principalmente no que se refere ao desenvolvimento da pesquisa e da extensão e que essa tendência tem sido 106 reforçada na modalidade do ensino à distância, prejudicando o processo de maturação dos conteúdos necessários à formação em Serviço Social. “Então a política educacional para o ensino superior, ela é uma política que precariza a formação nas suas três dimensões em particular na questão da pesquisa e extensão e além de precarizar nesse ponto de vista, tem outra precarização que é quando se assegura e se legitima o ensino a distância, e aí quando se legitima o ensino a distância a gente vai ver que a explicitação máxima de um ensino que é (...) você faz de forma aligeirada, sem tempo de maturar questões teóricas que a gente passou não sei quantos anos e vai passar tanto outros anos estudando e que o aluno não tem tempo de fazer esse distanciamento, abstrair para poder aprender esses conceitos que nos são tão caros para a gente poder efetivamente intervir de forma séria e consistente na realidade”. Entrevistada 4 Cabe ressaltar que a categoria profissional do Serviço Social, através de suas entidades organizativas – ABEPSS, conjunto CFESS/CRESS e ENESSO – tem feito debates constantes sobre o ensino à distância e tem acordado por um posicionamento ético-político contrário a essa modalidade de ensino em nível de graduação do Serviço Social30 por entender que tal proposta fere os princípios da formação profissional, porém cabe destacar que tal opinião não tem a intenção de se colocar contrária às novas tecnologias da informação e às possibilidades que essas podem vir a oferecer. Tal posicionamento refere-se à defesa de uma formação de qualidade. Em sua fala, a depoente 4 coloca uma questão importante da atual política do ensino superior, relacionada à falsa ideia de democratização, já apontada por outras entrevistadas. Ela destaca que essa atual política cria uma falsa ideia para seus “consumidores” de que a inserção na universidade será responsável por uma ascensão social, o que ela avalia como inviável, visto que a inserção no ensino superior proporciona em algumas situações a melhora da remuneração salarial, o que não significa necessariamente garantia de mobilidade social. “a política educacional para ensino superior ela vem na contramão da educação que a gente defende. É uma educação tecnicista, é uma educação reprodutivista e é uma educação que está pensada para a manutenção desse sistema. E aí quando a educação brasileira é pensada deste modo, os nossos problemas são muito maiores. Por que? Porque a gente enfrenta o dilema do 30 Para maiores informações sobre tal posicionamento, consultar o documento: Sobre a Incompatibilidade entre Graduação à Distância e Serviço Social e o Plano de Lutas Em Defesa do Trabalho e da Formação e Contra a Precarização do Ensino Superior. Disponíveis em: <http://www.abepss.org.br/documentos.php>. 107 aluno trabalhador que vai para o ensino superior buscar o diploma, porque ele acha que o diploma lhe dará acesso a uma mobilidade social e uma ascensão que não é verdadeira. Nesse sistema capitalista a gente tem percebido que tem doutores desempregados, tem mestres desempregados. Então a questão... Evidentemente que as condições de vida podem melhorar na questão da remuneração, mas com a precarização do trabalho a gente não pode nem mais oferecer”. Entrevistada 4 Tal aspecto apresentado pela entrevistada é evidente e se expressa particularmente na política de educação, que sob a perspectiva neoliberal tem sido colocada em lugar de destaque para solução de problemas coletivos que, pelo viés neoliberal, tomam contornos individuais. 3.2.2 Dificuldades e possibilidades na efetivação da política educacional de ensino superior No que se refere às dificuldades e possibilidades, as entrevistadas se detiveram em discorrer principalmente sobre os impactos prejudiciais que a atual tendência do ensino superior tem causado. As respondentes 1 e 3 destacaram como principal dificuldade a impossibilidade de se manter a qualidade do ensino numa perspectiva de formação ampla e crítica do ser humano e não somente como formação para o trabalho, de cunho tecnicista. “mercantilização da educação... a dificuldade de ensinar com qualidade”. Entrevistada 1 “No âmbito do Serviço Social é a divulgação do ensino a distância, a propagação desse ensino a distância, no âmbito dos ensinos presenciais a questão do currículo mínimo, (...) vejo... ai uma coisa mais ampla, hoje você tem formação para o mercado de trabalho e não formação para a cidadania ou para um projeto de sociedade diferente (...) mas você não tem uma formação para pensar, mas uma formação para adquirir uma profissão... então eu acho que o ensino superior hoje, com a LDB ele ganhou a possibilidade de ser isto,entendeu... a LDB criou os mecanismos que sustentam isso de forma mais aberta”. Entrevistada 3 Isso demonstra que um dos rebatimentos dessa tendência mercantilizante é o prejuízo direto para o exercício da docência e para a formação dos alunos, ambos nesse cenário se veem prejudicados e num processo de permanente precarização do ensino superior. As entrevistadas 2, 4 e 6 destacam os reflexos nas condições de trabalho dos docentes, que tem sofrido impactos severos no que refere aos próprios direitos; a entrevistada 4 destaca 108 a dificuldade de manutenção da defesa do projeto ético-político da profissão que se enfraquece na medida em que não se consegue a mobilização e a organização política dos docentes. Já os sujeitos da pesquisa 2 e 6 destacam a superexploração do trabalho docente. “(...) se tem alguém que produz riqueza na educação é o professor, tudo que nasce é ali o trabalho do professor que segura, o resto é tudo propaganda pura... o prédio tudo mais... é o trabalho do professor e ao mesmo tempo uma precarização do trabalho do professor uma super exploração do trabalho do professor, uma desvalorização da pesquisa”. Entrevistada 2 “É o maior desafio é manter na minha avaliação, é manter essa posição teórico critica, é manter uma posição de luta, é manter uma posição de entender esse problema dentro de uma realidade e compreender que as formas de enfrentamento dessa questão que a gente chama da Questão Social é a organização nossa como docente, como trabalhadores e eu penso que esse desafio ainda está para ser vencido. É porque nós não estamos organizados como docentes, a gente ainda está isolado nos nossos espaços sócio-ocupacionais e isso nos deixa mais frágeis e fica mais fácil para essa ordem atuar sobre quem não está organizado”. Entrevistada 4 “Outra coisa que é um problema grande no ensino superior privado é que... a qualidade de vida do professor é muito difícil, porque a gente tem o trabalho extremamente precarizado, e quando a gente fala precarizado parece que o termo não dá a noção exata do que isso significa no dia a dia. Então, se eu estou submetida ao contrato de trabalho que me paga por hora, não paga o tempo de preparação de aula, e claro que isso influencia nas minhas aulas não é! Não é que elas sejam ruins, elas podiam ser melhores se eu tivesse o tempo pago para preparar essas aulas. Então, esse contrato do professor horista é o grande problema na educação privada, e vem acontecendo, invadindo o campo da educação pública também. Mas o professor, ele não tem tempo mesmo remunerado para fazer as coisas necessárias para a prática docente. Então a gente se vê dentro da sala de aula, e ali é o único tempo que a gente tem. Não tem tempo para ir a ..., não tem tempo para pesquisa, não tem tempo para extensão, não tem tempo para preparação de aulas”. Entrevistada 6 Tais desafios colocados pelas entrevistadas não podem ser analisados desvinculadamente da questão da reestruturação do mercado de trabalho a partir do projeto neoliberal, em que se percebe um ataque aos direitos trabalhistas e um enfraquecimento da organização da classe trabalhadora em espaços como, por exemplo, o sindicato. As respondentes 3, 5 e 6 falam dos impactos negativos dessa política para o fortalecimento de um projeto coletivo, sendo nesse contexto mais difícil a articulação dos alunos, e do corpo docente, devido a uma reatualização do pensamento conservador, a par da tendência em conceber o aluno como “consumidor” e não como cidadão em processo de formação pelo acesso à educação como bem público. 109 “No nível de exigência da universidade para com os docentes, essa esteira de produção, na resistência dos alunos aos projetos mais coletivos e na diminuição pela busca da extensão, no pragmatismo que acompanha a própria formação, na desresponsabilização dos colegas”. Entrevistada 3 “eu acho que um dos maiores problemas da política... da política nacional é dessa reforma na educação, do PAC da educação é exatamente essa reatualização digamos assim do pensamento conservador, que passa pela fragmentação do conhecimento ou seja a gente tá retrocedendo (...) então pra mim a questão central é um projeto de sociedade de manutenção do status quo, da ordem de tudo que tá colocado e da pior qualidade possível então nós estamos aqui trabalhando com uma concepção de educação que é essa concepção digamos assim neopositivista a partir da ideologia do neoliberalismo, da globalização tudo isso... então acho que o principal problema”. Entrevistada 5 “é os próprios alunos entenderem a educação como parte dos direitos do consumidor, então eles pagam, então eles têm direito (...). Mas existe uma cobrança muito grande assim - você faltou, mas eu vim aqui eu paguei a mensalidade. Porque que você faltou? Você vai fazer reunião hoje? Mas eu estou pagando a mensalidade dessa aula”. Entrevistada 6 As falas demarcam que são diversas as dificuldades enfrentadas no exercício da docência no ensino superior, visto que há uma contradição latente entre a tendência da atual política de educação, que segue um viés privatizante e mercadológico e a tendência do projeto profissional do Serviço Social sob a perspectiva democratizante e de garantia de direitos. Para o Serviço Social percebemos que tal contradição se fez presente nos mais diversos campos sócio-ocupacionais exigindo deste profissional, seja no exercício da docência ou no exercício da prática profissional, a criação de estratégias para defesa do projeto ético-político da Profissão. Os depoimentos sobre as dificuldades da política educacional do ensino superior ratificam a hipótese de que a tendência mercantilizante da educação no ensino superior brasileiro representa forte pressão contrária às diretrizes curriculares do curso de Serviço Social e aos princípios ético-políticos e teórico-metodológicos que norteiam a formação. Porém, nesse universo pesquisado não conseguimos denotar que tal tensão de projetos educacionais tem se expressado de forma diferente nas instituições de ensino superior públicas e privadas, conforme havíamos previsto, apesar de considerar que existam as particularidades nesses lócus de trabalho. 3.3 Prática pedagógica do assistente social docente 110 No que concerne à docência, que constitui o foco de nosso trabalho, a análise foi feita a partir de sete aspectos, de modo a conseguir potencializar e adensar o debate sobre a prática pedagógica do docente assistente social. 3.3.1 Formação para o exercício da docência Quando indagamos às entrevistadas se elas haviam tido uma formação específica para ser docentes, as respondentes 1, 3, 5 e 6 relataram em suas trajetórias pessoais momentos nos quais tiveram a oportunidade de ter uma formação específica para a docência, seja cursando o antigo magistério, fazendo disciplinas em nível de pós-graduação ou vivenciando a experiência da monitoria na graduação. “eu estava no segundo ano do curso normal de formação de professores primários que foi o curso médio que eu fiz, eu fiz o normal e fiz dois anos de clássico... Hoje novamente chama curso normal, que o magistério voltou ao nome antigo. Então eu fiz o curso normal e fiz também dois anos do clássico que é o curso médio para Letras, mas eu me firmei no curso normal”. Entrevistada 1 “quando eu vim para docência eu tinha feito uma disciplina de pesquisa no mestrado e um mestrado com uma linha distante pós-moderna muito eclético, muito difícil, mas eu tinha feito uma disciplina de metodologia que tinha assim me ampliado bastante os horizontes no sentido de pensar como a leitura de realidade está necessariamente ancorada a um referencial teórico que tem uma dimensão também técnica”. Entrevistada 3 “também eu acho que a monitoria foi um dado importante para também a gente”. Entrevistada 5 “Eu fiz a monitoria, durante a graduação, eu fiz dois anos de monitoria, então era uma coisa que eu gostei muito. Comparando com a afinidade que eu tive nos campos de estágio e a experiência da monitoria... O que mais me agradou, assim a minha afinidade maior mesmo era com a experiência da monitoria”. Entrevistada 6 Tal aspecto denota que a chegada à docência não se deu de forma aleatória, e que de alguma maneira os sujeitos da pesquisa tiveram percursos nos quais havia uma indicação sobre a possibilidade do exercício da docência, mesmo que isso não aparecesse como fim dessas ações, mas provavelmente foi consequência desses percursos. A constatação de tal aspecto convalida a hipótese levantada em nosso trabalho de que, assim como em diversas áreas acadêmicas/ profissionais, no âmbito do Serviço Social, os cursos de pós-graduação stricto sensu não contemplam reflexões sobre a construção da prática 111 pedagógica do assistente social docente. No entanto, evidenciou-se que através de distintas formas os sujeitos tiveram momentos de formação que contribuíram para a construção de sua prática pedagógica, mesmo que esses em geral não tenham se dado nos cursos de pósgraduação. A entrevistada 2 destaca o fato do Serviço Social não ter uma formação específica para a docência, mas acredita que também em outras áreas isso ocorra, porém contrapõe a outras experiências como, por exemplo, a de Portugal, onde a formação em Serviço Social prevê a licenciatura, não sabendo dizer se isso resolveria as questões da docência. “eu acho que o assistente social não é formado para ser um professor, mas também tem muitas áreas que os professores também não são preparados para ser professores é por que a gente não tem licenciatura, em Portugal só é de nível superior... o serviço social para ser de nível superior é licenciatura, o bacharelado tem alguns que tem uma profissões digamos assim técnicas... que na proposta de Bolonha nivelou, depois todo mundo ajudou ai a resolver esse problema.. mas lá tem um bacharelado, a gente não tem... mas eu fico me perguntando se um bacharelado você tem um ano a mais de umas aulas de didática se resolveria”. Entrevistada 2 Essa questão leva-nos a pensar nessas diversas experiências em alguns países em que o curso de Serviço Social prevê a formação para licenciatura, aspecto que não é privilégio de países da Europa, mas também da América Latina, como é o caso da Argentina, fazendo-nos destacar esse ponto como um possível objeto de futuras pesquisas, de modo a contribuir para o debate da docência em Serviço Social, conseguindo apresentar mais elementos sobre possibilidades e limites que uma formação específica para a docência pode acarretar. 3.3.2 Caminho percorrido para chegar ao exercício da docência Percebe-se nos depoimentos que a chegada à docência não se deu de forma espontânea, todas as respondentes tiveram experiências anteriores que envolviam o processo de ensino-aprendizagem, vislumbrando o exercício da docência. As entrevistadas 1, 2 e 4 relatam experiências como educadoras em outros espaços como vivências significativas que colaboraram para um futuro direcionamento do exercício da docência em Serviço Social. “Eu tinha 16 para 17 anos, eu e uma colega na igreja onde a gente frequentava abrimos um curso de admissão ao ginásio... Era um vestibular que havia para você passar da quarta série para a quinta série. (...) Então 112 havia os cursinhos preparatórios onde o pessoal fazia o exame de admissão ao ginásio. E daí eu e essa colega nos reunimos, mas ela era mais velha do que eu, era professora a mais tempo e eu era estudante. Eu dava aula de português e estudos sociais e ela dava aula de matemática e ciências. Foi a primeira vez que eu fui professora e eu achei que deu certo, eu gostava da atividade. Depois no ano seguinte eu dei aula, aí já formada, no outro ano eu terminei o curso normal e fiquei um ano sem estudar, para depois eu fazer a faculdade, aí eu dei aula no curso de admissão contratada pela prefeitura legalmente. Então a minha primeira experiência como professora deu certo. Eu gostava da atividade, o resultado era bom, enfim”. Entrevistada 1 “e é lógico que como quase todos os Assistentes Sociais fui despertada pela questão social, via igreja, via se preocupar com o outro, via ter um olhar que extrapola sua própria vida enfim, foi com esse olhar. E também participei, morava em um bairro onde tinha padres da Teologia da Libertação então eles abriram a minha cabeça, então antes de entrar no Serviço Social eu já tinha feito uma experiência a convite de um dos padres para fazer um trabalho no bairro onde eu morava que era a alfabetização de adultos na proposta do Paulo Freire, então eu já tinha esse laço e gostei muito da experiência de ensinar as pessoas a ler e escrever e tinha alguma leitura do Paulo Freire quando eu entrei na PUC”. Entrevistada 2 “eu iniciei como docente no curso de Serviço Social da faculdade Mauá em 2002, desde 96 eu trabalhava com formação de formadores, a formação de formadores no campo dos conselhos então, eu fiz parte de um primeiro grupo aqui em São Paulo no município numa cooperativa de profissionais, uma equipe interdisciplinar que atuava na assessoria de conselhos tutelares(...) e eu fiz parte desse momento que foi em 95 desse grupo e desde então eu nunca mais sai do campo da formação, então educação e direitos humanos que era a educação que a gente foi construindo ao longo desses 20 anos é a educação que vem permeando a minha prática, então desde 95 eu atuo na docência mas não em Serviço Social, com outros sujeitos e com o Serviço Social desde 2002 e era um desejo, então, eu sempre gostei de colocar a questão do conhecimento a serviço dos grupos com os quais eu estava trabalhando”. Entrevistada 4 As depoentes 2 e 5 destacam a experiência da monitoria como um fator que as direcionou e despertou o interesse para o exercício da docência. “Eu tive o privilégio de ser convidada por vários professores para ser monitora e eu escolhi a monitoria em metodologia cientifica com uma professora muito querida a Téia ... eu participava de uma equipe também grande que a gente se reunia, então eu fiz isso acho que no segundo e no terceiro ano e no terceiro ano, não lembro muito bem, eu fui ser monitora da equipe de teoria do Serviço Social fui monitora da Professora Raquel Raycheles, então eu já tava um pouco.. então o que acontece você prepara a aula junto com o professor monitor e é um grande caminho para você se preparar, você estuda de forma especial porque tem uma atenção para você se preparar para entrar em aula, depois você acompanha o professor dando aula do planejamento a execução discute a relação, ajudava a discutição dos grupos, você faz um trabalho conjunto e ai quando eu me formei eu fui 113 convidada pela professora Arcilina Ribeiro de Serviço Social de grupo, eu comecei aqui como professora de Serviço Social de grupo”. Entrevistada 2 “digamos assim se projetava profissionalmente nessas professoras então, isso eu acho que foi o primeiro gancho, o outro a continuidade disso no curso de pedagogia porque como o curso de serviço social ele era um curso... para mim muito jovem eu entrei no serviço social com 17/18 anos, então ainda faltava um pouco mais de amadurecimento pessoal e inclusive profissional e a pedagogia para mim acho veio selar isso porque o meu relacionamento com os professores da pedagogia já se deu num outro tom tanto que eu fui monitora no curso de pedagogia e não foi no curso de serviço social e aí também eu acho que a monitoria foi um dado importante para também a gente... tinha que fazer essa opção pela docência é eu era monitora de introdução a educação tinha três professoras super dez”. Entrevistada 5 A respondente 3 destaca que sua ida para a docência estava “condicionada” à questão de onde ela poderia exercer a militância de forma mais ampla, que tivesse um alcance de um público maior. Inicialmente, ela vislumbrou na docência a possibilidade de difundir suas ideias e defender outro projeto de sociedade, podendo atrair mais pessoas para compartilhar e defender tal projeto. “e o que eu pensava – aqui eu estou restrita a um município, se eu for fazer um mestrado de repente eu posso atingir um numero maior de pessoas, por que eu via quando se desvela a situação de opressão ou de exploração às pessoas se mobilizam entendeu, foi por isso, eu vou fazer o mestrado não era pra dar aula, eu vou fazer o mestrado porque eu queria continuar estudando e eu fiquei sabendo que o governo pagava, eu descobri que com o mestrado eu dava aula depois de um ano fazendo mestrado, um ano e meio... Ai eu fui dar aula eu achava assim, quanto melhor eu me capacitasse mais meu discurso ia ser sedutor para... eu ia conseguir desvelar mais, portanto, eu ia trazer mais gente para causa, era uma coisa de militância mesmo e daí pensar que eu poderia fazer isso em sala de aula, nossa! Então eu vou estar falando com a assistente Social que vai fazer isso no município, se tiver cinco pessoas que comprem essa ideia vão estar em cinco municípios (...) acho que a minha trajetória foi uma trajetória de pensar onde dava para militar mais, então já venho com um perfil de que queria fazer do meu exercício profissional um exercício de defesa de um projeto de sociedade, não foi na formação que eu cheguei a esse, na formação eu me fortaleci para fazer essa defesa”. Entrevistada 3 O sujeito da pesquisa 6, além da experiência da monitoria, identificava em si própria habilidades para com o processo de aprendizagem que a faziam optar pelo exercício da docência. 114 “Eu fiz a monitoria, durante a graduação, eu fiz dois anos de monitoria, então era uma coisa que eu gostei muito. (...) Algumas disciplinas que as pessoas geralmente tinham muita dificuldade em entender na graduação, para mim não era uma coisa tão difícil assim. Então eu fui me aproximando mesmo do conteúdo dessas disciplinas e acho que é isso que me encanta em ser professora, o fato de que eu possa estar socializando conhecimentos que poderiam ser inexplicáveis, se as pessoas tivessem buscando sozinhas, mas que eu posso facilitar essa socialização do conhecimento”. Entrevistada 6 Assim, todas as entrevistadas indireta ou diretamente foram direcionadas para o exercício da docência, o que mostra que o início da prática pedagógica como docente não ocorreu sem intencionalidade, indicando um preparo e/ou disponibilidade para o exercício da docência e concomitantemente para a reflexão sobre sua prática pedagógica. 3.3.3 Inserção na docência No que se refere à inserção na docência, percebe-se que as entrevistadas que se formaram nas décadas de 1970 e 1980 tem sua inserção na carreira docente muito próxima ao término da graduação sem terem feito ou iniciado a pós-graduação. Para a depoente 1, o início da docência está vinculado à participação em um projeto coletivo de um novo curso de Serviço Social que estava sendo construído na Faculdade de Lins, sendo que a depoente foi convidada a participar, devido a seus posicionamentos políticos que convergiam com o grupo em questão. “Foi pela opção política... a faculdade na qual eu fiz o curso, de Lins era das Irmãs de Jesus Crucificado... veja a opção delas por escolas de serviço social elas só tinham escolas de serviço social... o curso de serviço social da PUC de Campinas era o curso delas por conta do movimento de renovação da Igreja Católica... de onde nasceu a Teologia da Libertação e que a prioridade era a opção pelos pobres, essas irmãs entraram nessa linha e fazendo a opção pelos pobres elas entenderam que a vocação delas não era mais a educação de nível superior e elas começaram a vender as faculdades de serviço social que elas tinham no estado de São Paulo inteiro, no caso da de Lins aconteceu o seguinte tinha um grupo de professores que não era da minha época... saí da faculdade em 73 como aluna e voltei em 78 como professora.... um colega meu de faculdade... eu fazia serviço social e ele fazia pedagogia, ele frequentava nossa casa porque ele também era ligado ao bispado, o Antônio Geraldo Aguiar, ele começou um movimento dentro da faculdade com mais uma professora que era a Teresinha D’Aquino é de tentar mudar o curso já com um olho na Reconceituação enfim ...isso já mais próximo.. também coincidindo com a abertura política no Brasil quer dizer tudo inserido nessa conjuntura 77/78/79 e ao mesmo tempo as irmãs com essa visão de opção pelos pobres querendo deixar, vender as faculdades... a única faculdade que elas não venderam foi a de Lins porque existia um grupo de professores que 115 queria fazer uma experiência diferente e esse grupo de professores eram dois professores, só que esses dois professores tinham ligação com a diocese, com o bispo tinham ligação com o Zé Oscar e com o Dom Pedro Paulo Koop que era o bispo, então começaram as negociações para ver as bases dessa transição não é (... ) então foi nessa conjuntura que esses dois professores com essa ligação com a diocese conseguiram que as irmãs começassem a passagem da administração financeira e pedagógica da faculdade para a congregação da faculdade, a congregação dos professores da faculdade e esse grupo contava comigo embora eu estivesse fora contavam comigo, tanto que eu comecei dar aula lá em 78, no primeiro semestre de 78 eu comecei dando aula de desenvolvimento de comunidade. (... ) Daí era a possibilidade de eu trabalhar com um grupo na mesma perspectiva teórica, metodológica e política que eu tinha”. Entrevistada 1 A respondente 2 demonstra que sua inserção na docência esteve vinculada a um processo que considera comum e saudável em seu período, que era a substituição de professores que estavam em período de se aposentar. Sendo assim, iniciavam a docência sob a supervisão desse professor para, após a sua aposentadoria, assumirem o seu posto. A entrevistada lamenta não ser possível vivenciar esse processo hoje. Tal depoimento mostra que a possibilidade de acompanhar a inserção do novo docente na carreira acadêmica colabora para a construção qualificada de sua prática pedagógica, o que hoje não é possível, acirrando as dificuldades iniciais da prática pedagógica da docência. “Me formei em 1975 e em 1976 comecei ser professora aqui na Faculdade de Serviço Social da PUC, junto com a PUC eu sempre tive... fui uma assistente social da área também.(...) E aí quando eu me formei eu fui convidada pela professora Arcilina Ribeiro de Serviço Social de grupo (...) ela pensava em se aposentar e era um pouco assim que funcionava, o curso estava se expandindo, novos professores estavam sendo contratados e ela pretendia deixar a docência e ela dizia: Eu quero te preparar para você ocupar o meu lugar, coisa que a gente pensa que é uma tristeza e a gente gostaria que acontecesse isso aqui na PUC, é poder preparar as novas gerações para ficar nos nossos lugares, mas isso não está sendo possível”. Entrevistada 2 A entrevistada 3 foi a única que não iniciou a docência no curso de Serviço Social, pois no momento de sua inserção estava começando o mestrado em Ciências Sociais, o que possibilitou que inicialmente ela pudesse dar aula em outras áreas. Sua fala evidencia que há similaridades e diferenças entre a universidade privada e pública no que concerne à autonomia e à liberdade de pensamento e expressão do professor. 116 “Em 1991, na universidade privada, como eu fiz o mestrado em Sociologia, eu comecei dando aula num curso de Serviço Social de Rio Preto e num curso de pedagogia em Votuporanga (...), lecionei de 1991 a 1994 nessa faculdade e por conta de problemas políticos eu fui mandada embora e nesse ínterim eu já tinha acabado o mestrado já estava iniciando o doutorado, aliás eu comecei o doutorado exatamente quando fui mandada embora.(...) Então, mas em 1994 quando eu fui mandada embora eu tomei a decisão que eu de fato iria lutar para entrar na universidade pública para poder ter a liberdade de pensar e de falar sobre aquilo que eu pensava, e foi por isso que eu vim para a universidade pública, hoje tenho certeza que aqui dentro a gente não pode falar o que quer porque a gente é punido inclusive do ponto de vista salarial do ponto de vista político, mas ainda aqui ninguém me demite por enquanto não chegamos nesse nível né”. Entrevistada 3 O sujeito da pesquisa 5 relata que sua inserção na docência também ocorreu muito próxima ao término da graduação e, a partir disso, demonstra como se deu sua trajetória de modo a consolidar sua vida acadêmica. Eu comecei em 1990, eu fiz concurso para ser professora substituta da Universidade Federal do Pará, então eu fiquei dois anos como substituta, em 1992 eu fiz como efetiva e aí eu passei(...) Eu fiquei na Universidade do Pará de 1990 até 1996 que foi quando eu pedi para vir para PUC/SP para fazer o mestrado(...) aí eu começo aqui em SP a participar das reuniões da ABEPSS, eu acho que em 2000 por aí, não minto, acho que 2002 por aí ou 2005, em 2004 só sei que em 2005 eu defendi a tese aí eu começo a me aproximar da ABEPSS começo a fazer essa discussão mais da formação porque então eu também já tava numa faculdade particular daqui que foi primeiro a faculdade Mauá, depois para São Francisco depois a para própria PUC fiquei como substituta na PUC e essa coisa assim foi crescendo digamos assim, voltada para formação profissional e aí a gente começou a estudar mais, reestudar as diretrizes curriculares, ver essa relação com a formação, essa coisa do contexto que a gente tá vivendo hoje, do projeto ético-político que tá na contramão desse processo de reestruturação produtiva da crise do capital e aí vieram já outras contradições e digamos assim eu fui me afastando um pouco mais da questão da criança e mergulhando... aí participei da avaliação dos dez anos das diretrizes curriculares e assumi um eixo da avaliação das diretrizes da ABEPSS, então era muito trabalho na época, a Bia que era a vice presidente da ABEPSS depois ficou a Elisa, quando a Elisa assume essa vice presidência eu já fico na coordenação de graduação só que a gente também já vinha por conta dessa coisa que eu te falei de ter sido de uma universidade pública, já vinha muito aquele desejo de aqui em SP precisa de uma universidade pública”. Entrevistada 5 As falas revelam que as entrevistadas tiveram uma rápida inserção na docência após a graduação, o que demonstra um movimento diferente do vivenciado hoje, quando a inserção na docência está vinculada à conclusão ou minimamente à inserção no mestrado. Acredito que tal aspecto tenha se alterado devido às transformações ocorridas no mundo do trabalho e no 117 interior da própria profissão. Nas décadas de 1980 e 1990, não tínhamos a expansão dos cursos como se observa no período recente, nem tampouco um número suficiente de trabalhadores disponíveis para o exercício da docência no curso de Serviço Social, pois, cabe lembrar, de acordo com Netto (2009), que os primeiros cursos de pós-graduação em Serviço Social no Brasil datam da década de 1970. Hoje visualizamos uma expansão desenfreada dos cursos, um número exorbitante de profissionais de Serviço Social sendo formados semestralmente e um maior acesso aos programas de pós-graduação. 3.3.4 Construção da prática pedagógica As entrevistadas 2, 3, 4 e 6 destacam a importância de considerar a prática pedagógica como um permanente processo de construção, permeado por diversos elementos. Ser docente é entender que a construção da prática pedagógica exige um contínuo processo de reflexão, maturado no próprio cotidiano, uma vez que não existe uma “fórmula ideal” para o exercício da docência. “e quando eu vejo a história acho que eu sou uma protagonista também desta historia. (...) eu acredito que é difícil você se formar professor a gente leva muitos anos acho que para ficar uma professora mais madura, porque houve uma vez um professor que me disse uma coisa que eu acho que é verdade: que quando a gente começa a dar aula, a gente ensina mais do que sabe, quer aparecer um pouco, depois chega numa época que você ensina tanto quanto você sabe e depois chega uma época, acho que é meu caso que agente ensina menos do que agente sabe porque o lastro é muito maior”. Entrevistada 2 “não é uma coisa que a gente já começa a docência sabendo, no começo eu sabia qual era o projeto que eu tinha que defender, mas qual a forma de defender esse projeto e dar em sala de aula, isso eu não sabia, vinte anos de profissão na docência eu posso dizer que eu acho que eu estou no ápice da maturidade profissional, não se ápice é quando não tem jeito de ir mais, se for eu não estou no ápice não porque eu quero ir muito mais ainda, mais estou num momento privilegiado.(...) aliás eu acho que o exercício da docência é o exercício dessa contínua busca dessa perspectiva teóricometodológica, por isso que eu te falei, hoje eu acho que estou num momento muito bom, mas se for ápice eu não estou, eu ainda preciso estudar muito mais”. Entrevistada 3 “eu defino a minha prática como a prática docente em construção que bom se tivesse pronta e acabada eu já podia morrer, porque não tenho síndrome de Gabriela, não nasci assim, não foi sempre assim, que bom que eu estou 118 sempre mudando, mais eu defino que é uma prática comprometida, é uma prática investigativa, é uma prática que sistematiza, então eu me preocupo muito com as respostas que os discentes emitem seja pelas posições, seja nos trabalhos, então eu sou uma docente que fico em permanente revisão do componente curricular que eu ministro, porque eu penso que cada turma nos oferece aprendizados e desafios e que a gente tem que olhar atentamente para isso para não se tornar uma prática técnico reprodutivista de planos só muda ano, semestre e que a gente fica falando aquilo há dez anos e que a gente não vê mais sentido então. (...) é eu construo junto com meus pares, eu trabalho num lugar que me possibilita isso, o que é mais rico nessa construção é a socialização do conhecimento, a gente não trabalha isolado isso nos dá uma certa segurança docente porque você reflete o tempo todo com seus pares dificuldades tanto de ordem teórica quanto de ordem metodológica e nessas discussões que são, não são espontâneas elas são pensadas, planejadas mensalmente a gente pode redimensionar nossa prática, então cotidianamente nesse espaço docente a gente tem feito isso, então essa prática ela é construída tanto em sala de aula com os estudantes que avaliam com muita seriedade, com muita coragem avaliam e a gente vai revisando vai se ressignificando essa prática pedagógica”. Entrevistada 4 “eu avalio que ela está só começando. Então como tudo, ganha muito com a experiência, como qualquer outra atividade que a gente faça na vida, e assim então eu sei que eu ainda tenho muitas coisas para aprender, mas é como eu esperava, é tão bom como eu esperava que fosse. Eu gosto tanto disso quanto eu esperava que eu gostaria”. Entrevistada 6 O entendimento da prática pedagógica como um processo em permanente construção está em consonância com as diretrizes curriculares do curso, assim como os princípios do projeto ético-político da profissão, uma vez que demonstra clareza quanto a sua incompletude e admite que tal prática não se paute por modelos rígidos e apriorísticos a serem seguidos. Tal sentido dado à prática pedagógica é visualizado em Freire (2011), que aponta a prática educativa como inacabada e inconclusa. A respondente 2 enfatiza a importância do educador e da processualidade de suas ações, recusando o reducionismo das “estratégias pedagógicas”. “eu nunca tive teoria da docência sabe... mas eu tenho uma teoria assim como é que aprende, quais as possibilidades da educação, como é que você faz uma aula e como você educa os seus alunos porque nós somos educadores, embora seja uma atribuição profissional que está na lei que regulamenta a profissão , a gente não tem uma formação especifica para dizer assim: eu sou...eu vou me preparar para a docência. (...)agora eu acho que formar professores não é só você pensar estratégias pedagógicas que isso é um engodo eu acho que na nossa profissão e no geral e tem uma coisa muito séria que eu não tenho muito respeito que é assim que vira uma coisa tarefeira”. Entrevistada 2 119 Tal fala denota a preocupação com o processo de construção e elaboração da prática pedagógica de forma a qualificar o assistente social para exercer a docência no curso, uma vez que não temos uma formação específica para isso. Esse aspecto deve ser pensado ao longo do processo de formação, por meio de ações que mobilizem a reflexão e construção da prática pedagógica, como se depreende da fala da entrevistada 1, que destaca um curso de metodologia do ensino superior que a ajudou nesse processo, reforçando também a ideia de que a técnica em si não resolve os problemas da prática pedagógica, pois esta deve estar associada a uma concepção de educação. “Olha, a visão da Nobuko em 1979, ela promoveu para os professores do curso de serviço social, um curso de metodologia no ensino superior, de prática pedagógica no curso superior. (...) Então a gente teve esse preparo, mas eu acho que teve outro aspecto que teve também a visão do que era o processo de ensino-aprendizagem. Então era uma maneira de ver esse processo que tinha muito menos a ver com técnicas de ensino do que com a concepção de saber e de como que se aprende de respeito ao saber do outro”. Entrevistada 1 A prática pedagógica, numa perspectiva crítica, que recusa o tecnicismo, denota a forte influência de Paulo Freire no Serviço Social, no que se refere a pensar inicialmente a prática pedagógica e o processo de ensino-aprendizagem, visto que podemos encontrar em sua obra, principalmente em Pedagogia do oprimido, elementos que apontam para esses referenciais. Uma vez que a prática pedagógica está em permanente construção, identificamos diversos elementos considerados importantes nesse processo. A respondente 1 relata um processo de avaliação que ocorria com a presença de discentes e docentes e que se mostrava extremamente fértil para o repensar da prática pedagógica. “Veja, eu acho que eu tenho vocação para docência. Eu me lembro lá em Lins a gente fazia uma prática que teve muita influência na formação pedagógica nossa, que era a prática de avaliação. A avaliação das nossas disciplinas era feita da seguinte maneira: o nosso trabalho na faculdade de serviço social de Lins tinha a renovação, a mudança da postura teórica, da postura metodológica e pedagógica, e a democratização da faculdade. Então, a participação dos alunos era muito forte. Todo final de semestre o que nós fazíamos, os alunos se reuniam e avaliavam cada disciplina e nós professores íamos todos juntos para aquela sala, todos os professores que davam aula para aquela sala e nós sentávamos, nos fazíamos um semicírculo em frente da lousa e os alunos faziam um semicírculo do outro lado. E os alunos iam falando para cada professor a avaliação da sua disciplina na frente de todos os outros professores e de todo os alunos. Era assim que era feita a 120 avaliação. Eu me lembro que eu era muito bem avaliada, e um colega meu, rapaz inteligentíssimo, e ele era mau avaliado pelos alunos, não era o problema da competência intelectual, mas da maneira de se relacionar, da maneira de ensinar”. Entrevistada 1 Já a entrevistada 2 pontua a sua preocupação com a organização do pensamento e em conseguir que se efetive um processo de ensino-aprendizagem no qual o aluno consiga apropriar os conhecimentos, enfatizando a importância da relação entre docente e discente nesse processo, que precisa estar pautada em princípios como: respeito, confiança e autonomia. Freire (2011) coloca esses aspectos como elementos centrais da prática pedagógica e de extrema importância para a construção de uma educação libertária e de uma formação que associe fazer e pensar. “eu acho que os recursos a gente se prepara é assim como é que você dá uma aula e você organiza o pensamento, como é que você trabalha essa questão do conhecimento que precisa ser apreendido e como é que você cria uma relação de confiança para poder descobrir, não é. Eu falo para eles assim: olha, então vocês estudam tudo isso aqui.. nós, vocês, eu trabalhamos com gente que não sabe ler e escrever, o que vocês vão fazer desse conhecimento... ai você vai trabalhando, usa metáforas você pode ter uma adequação de linguagem, discutir os conceitos, as ideias mais complexas se você conseguir dar exemplos, colocar de uma forma clara então eu acho que essa paciência... ser educador você tem que ter essa paciência, você tem que dar o tempo do aluno. (...) Então tem professores que você se encanta, eu acho que um professor... você tem que cuidar... sabe antes eu não punha muita coisa na lousa, agora eu ponho porque o aluno acompanha, você tem que ter esquemas para ele poder te acompanhar enquanto você está falando...eu acho que você tem que dar aulas teóricas, não pode também aula de sínteses”. Entrevistada 2 A depoente 3 também destaca a sua preocupação com a efetivação e compreensão por parte dos discentes do processo de ensino-aprendizagem, demonstrando a necessidade de se pensar sobre a construção e execução da aula, de tal forma que esta atinja os seus objetivos, porém a preocupação com a parte técnica está subordinada à sua concepção de educação. “quando eu vim para docência eu vim já com uma preocupação que eu conseguisse tecnicamente também começar uma aula com começo, ter desenvolvimento e finalização, não parar no meio sem o aluno entender. O que era a aula de hoje mesmo? Começou falar uns negócios interessantes, cadê o resto, o que isso tem a ver com essa disciplina essa discussão, então a leitura de educação referência para mim sempre foi o Paulo Freire, entenda bem, conheço a crítica que se faz ao Paulo Freire, reconheço inclusive nas 121 suas perspectivas um ecletismo teórico e uma fonte fenomenológica iluminando alguns de seus textos, porém eu entendo que o Paulo Freire viveu numa época de um marxismo muito dogmático e que o caminho que ele encontrou, não era um cara preocupado em discutir método, então o caminho encontrado por ele foi um caminho que eu acho que deve estar muito próximo do marxismo de hoje”. Entrevistada 3 O sujeito da pesquisa 2 aponta a importância da identificação com as disciplinas lecionadas como um elemento motivador e enriquecedor da prática pedagógica, uma vez que tal identificação pode potencializar o processo de busca, inovação e criação, necessário ao exercício da docência. “eu acho que dependendo da disciplina que você trabalha você fica mais estimulada a buscar respostas e perguntas e fazer perguntas enquanto educadora e em outras menos, eu falei para você eu comecei na disciplina de serviço social de grupo e naquela época o Serviço Social de grupo e a Arcelina no Serviço Social de caso, ela trabalhava muito com a proposta de um autor que se chamava Lauro de Oliveira Lima, então era muito fazer uma prática do aluno, aprender a trabalhar em grupos, mas tem uma coisa que eu fui formando uma critica, eu não gosto muito dessa proposta de dinâmica de grupo que é você infantilizar pessoas sabe, você fazer joguinhos para tirar lições morais sabe, sem discussão você troca um valor moral por outro, sem a pessoa participar de uma forma reflexiva eu não gosto disso na profissão, mas como a gente viu que esta proposta era reduzida... nós aqui na PUC nós começamos uma experiência de juntar caso, grupo e comunidade e trabalhar a disciplina metodologia do serviço social, que hoje ela é um pouco aquilo que se fala de oficina do trabalho profissional, ela ficou ampliada... eu venho construindo um pensamento aqui na PUC e participando desse projeto onde o trabalho básico que eu faço e tem uma característica e eu acho que sou boa nisso modestamente falando que é o de fazer a relação teoria e prática... depois de um tempo fui para área de fundamentos do Serviço Social, fiz parte da FHTM aqui, e talvez de uns 10 anos para cá eu estou em Ética Profissional, eu faço uma dobradinha com a Professora Lucia Barroco, sou uma pesquisadora lá do Núcleo de Ética e Direitos Humanos”. Entrevistada 2 As falas demonstram que a prática pedagógica é construída por uma complexidade de elementos que, associados, potencializam sua efetivação. Nesse conjunto de elementos, as entrevistadas 2, 3 e 5 destacam a importância de que a prática pedagógica traduza a defesa do projeto profissional do Serviço Social. Percebe-se que a defesa de tal projeto vai ao encontro da concepção crítica de educação defendida pelas depoentes, o que denota complementaridade entre esses projetos. 122 “Então eu acho que a especificidade é a gente agir de acordo em sala de aula com o projeto que a gente defende, com aquilo que está nas matrizes curriculares que você tenta fazer com a articulação entre a teoria e prática na sala de aula, para que todo mundo possa exercitar”. Entrevistada 2 “Tem uma coisa que é absolutamente ontológica, quando você vai para sala de aula você vai fazer a discussão da realidade a partir de um olhar que você tem para a realidade, subsidiado por autores que te dão uma determinada leitura dessa realidade, o docente no exercício profissional da docência está ali difundindo um projeto de sociedade, um projeto de profissão até quando ele não menciona isso ele está evidentemente negando ou reafirmando um ou outro, então eu vejo o exercício profissional como um espaço privilegiado para você discutir a relação do homem com o mundo, que, dependendo do seu referencial teórico vai te dar uma perspectiva no sentido de reproduzir as relações existentes ou no sentido de questiona-las com diferentes níveis de radicalidade”. Entrevistada 3 “Será que nos nossos currículos, as nossas matrizes curriculares, os nossos projetos curriculares também estão em sintonia com o que é o projeto éticopolítico do serviço social, com o que realmente demanda os usuários enfim”. Entrevistada 5 Pensando que a prática pedagógica está em contínua construção e denota a defesa de um projeto societário associada a um projeto de profissão, faz-se pertinente uma formação permanente deste docente, mantendo sua coesão teórica, política e ética. Tal formação pode ocorrer através de permanentes estudos no campo teórico, participações em congressos e eventos ou no exercício da militância nas entidades organizativas da categoria profissional, como demonstrado no discurso dos sujeitos 2 e 4. “professor tem que estudar sempre, há quantos anos que eu dou a mesma matéria, mas todo ano eu preparo aquele assunto porque eu pego as anotações que eu tenho do ano anterior, mas você sempre tem uma coisa nova que você aprende, é a pergunta de um aluno que ele te faz que eu nunca tinha pensado e que começa a fazer parte de seu acervo, então acho que você tem que se preparar porque todas essas vivências que você teve (...)se você não estuda você é pobre, e professor pobre ,ele dá aula pobre, vale isso para profissão e vale para nós entendeu...eu só consigo escrever quando eu estou saturada... então eu acho que é assim que tem que ser as aulas... e ser professor é saber que tem papeis diferenciados, tem que ter um contrato de trabalho claro, por isso eu cuido muito desse contrato de trabalho, que horas que a gente vai começar e terminar quais as exigências que eu vou fazer para eles poderem me controlar, eu dou um programa eu falo nós vamos estudar isso, isso e isso”. Entrevistada 2 123 “também eu construo minha prática pedagógica, eu na minha vida privada (...) esse semestre eu já fui a três congressos sem exagero, mas três diferentes congressos, fora a nossa formação, a nossa atuação seja na ABEPSS seja nas atividades do CRESS SP, elas nos fortalecem, elas nos acrescentam e elas reforçam”. Entrevistada 4 Outro aspecto que pode ser considerado fundamental na construção da prática pedagógica é a influência que outros docentes tiveram ao longo da trajetória dos sujeitos dessa pesquisa. Percebemos que todas as entrevistadas relataram uma influência, negativa ou positiva, de professores presentes em seu percurso escolar. As respondentes 1, 2, 5 e 6 enfatizaram essa influência no período da graduação em Serviço Social, apontando de que forma essa influência contribuiu para a prática pedagógica delas enquanto docentes. “Claro, mas não aqueles que foram os meus professores na faculdade, nenhum daqueles foi referência para mim, com exceção de um padre que foi professor de ética. (...) Agora a minha referência fundamental no Serviço Social foi a Nobuko. (...) Então ela era a nossa referência de todos nós na faculdade. E também depois ela se tornou referência nacional. Então ela foi a minha grande referência no Serviço Social”. Entrevistada 1 “Elas influenciaram como a gente influencia, a gente no cotidiano aprende por imitação e por modelo, nenhum ser humano foge disso, ninguém e a gente tem modelos positivos e negativos quando eu era estudante eu falava assim eu nunca quero ser como essa professora ou como essa profissional eu me encantava e quando eu crescer quero ser igual a ela”. Entrevistada 2 “Então, assim, quando eu fazia já a graduação a gente já tinha alguns professores digamos assim de referência acho que isso é muito importante, em qualquer carreira em qualquer área ter alguém que não que seja um ídolo, mas alguém com quem a gente tenha uma identidade com quem... alguém que a gente se aproxime e que influencie isso positivamente na formação da gente e a gente tinha na realidade duas professoras: uma era Joaquina Barata que foi do CFESS da última gestão e a professora Maria Elvira que era muito ligada aos movimentos populares.(...) eu acho também que a gente constrói as nossas referências, que não dá pra chamar de ídolos mas eu acho que é uma referência profissional, eu pelo menos eu gosto disso, por exemplo para mim o Zé Paulo, a Marilda, a própria Joaquina Barata, outras pessoas do cotidiano.... a Carmelita, eu acho super legal a gente poder tentar buscar o que tem de melhor no outro para a gente, eu acho que é uma referência acadêmica positiva, então para mim me anima, me dá alma, me alimenta eu saber que tem alguém com perfil digamos assim de uma prática pedagógica, de uma prática política, de uma prática acadêmica que eu possa me mirar que eu possa me espelhar e me dar elementos para eu poder construir, então quero com certeza tá perto dessa pessoa. Minha formação sempre foi assim, sempre alguém como minha referência no cotidiano, como também eu acho que a gente também de uma forma ou de outra é referência para outras pessoas”. Entrevistada 5 124 “Eu acho que a referência que a gente tem com os nossos professores é um dos principais elementos para construir a minha prática pedagógica, você aprende como se faz isso, eu me miro nas pessoas que fizeram isso antes de mim. Eu tomo como referência professores que, assim, independente da posição ideológica deles, professores que explicavam as disciplinas, que tanto eu quanto o resto da classe eram capazes de entender (...) professores que explicavam assuntos complicadíssimos, mas com eles falando pareciam coisas simples, pareciam inteligíveis (...) E claro, que davam aulas que fossem empolgantes, que prendessem a atenção do aluno, tudo isso... São referências para mim esses professores”. Entrevistada 6 Já as entrevistadas 3 e 4, enfatizaram situações vividas no ensino fundamental e médio que as influenciaram diretamente a pensarem hoje sua própria prática pedagógica, assim como sua concepção de educação. “tanto referências boas e ruins – boas na faculdade de Serviço Social de Lins eu tive professores que muito contribuíram para a minha formação e principalmente pela horizontalidade, pelo compromisso e porque incitavam a gente a ler (...) então eu acho que esses professores foram grandes referências para mim (...) Agora ao longo da minha formação eu posso dizer que o professor foi um alguém que mais me oprimiu do que me ajudou na formação, porque eu era pobre, estudei em escola pública, naquela época todos estudavam em escola pública até os filhos de classe média, mas eu passei várias situações de humilhação em sala de aula por eu ser pobre e responder adequadamente aquilo que a escola perguntava, então os filhos de pobre tinham o seu lugar, que não podia ser um lugar de destaque e eu tinha uma referência muito ruim de professor”. Entrevistada 3 “Olha, eu quero dizer que na educação fundamental eu não tenho nenhuma boa lembrança, porque uma vez eu fui fazer um cabeçalho de canetinha ‘sylvapen’ que eu ganhei e eu fiquei de castigo porque era para ter feito de lápis e eu fiz com a canetinha cor de abóbora que era a minha cor preferida e eu fiquei em pé durante quatro horas (...) No ensino médio eu tive sim um professor de história que aguçava a nossa criticidade, que aguçava os nossos argumentos que a gente tinha que se posicionar, então, trabalhava história muito colada à realidade social e isso esse professor de história, o Sérgio é uma pessoa que me traz boas lembranças”. Entrevistada 4 Tais falas demonstram que a construção da prática pedagógica do docente assistente social é influenciada por exemplos ou situações vivenciadas no período escolar e que suscitam reflexões importantes, quanto a relação entre educando e educador, horizontalidade ou autoritarismo, processo de ensino-aprendizagem, entre outros que colaboraram para a construção do docente assistente social. A importância desse aspecto na construção da prática pedagógica do assistente social docente pode ser evidenciado em Faustini (2004). 125 Fica evidente também, que as referências positivas de professores que passam ao longo do percurso escolar vão sendo agregadas ao processo de constituição da prática pedagógica, de modo a servirem de “modelos” para o exercício da docência. No que se refere ao papel do docente, as respondentes 2, 3 e 5 denotam a preocupação de, através dessa prática pedagógica, conseguir formar um profissional de acordo com as habilidades e competências exigidas pelo projeto de formação profissional. A entrevistada 2 aponta a importância da formação de profissionais com pensamento crítico e que não sejam meros executores, o que é reforçado pela depoente 3, que aponta a necessidade de o professor se constituir em referência positiva para o aluno, potencializando os aspectos possibilitadores do processo de aprendizagem e não os dificultadores, uma vez que cabe a esse docente pensar estratégias de como efetivar o processo de ensino-aprendizagem, como indicado pela entrevistada 5. “É, você tem que preparar o aluno para ele conseguir realizar as atribuições profissionais com competência, com seriedade, com crítica, não pode entrar em uma organização e só ser funcionário, se ele não tiver um conhecimento mais amplo... aquela criatividade, aquela atribuição específica na organização, ele precisa de um saber maior para poder fazer a crítica do que está sendo usado (...) formar um intelectual desenvolver nele o máximo que ele puder pensar para que ele possa ser sujeito. (...) se a gente quer contribuir com a formação de um aluno crítico, você tem que fazer um trabalho e para isso você não ensina o que você não sabe, eu só posso ensinar as coisas que eu já vi. Só que o que eu posso fazer? Eu falo e as pessoas escutam, o grande processo e o grande desafio são como que eu faço, os alunos verem o que eu já vi com os próprios olhos deles? (...) tinha um professor que dizia assim: que um professor, ele é que nem um jardineiro, ele tem que ver se a planta tem água, tem luz, tem sombra, tudo que uma planta precisa para viver lógico que a gente não é super... agora ele dizia assim a única coisa que o jardineiro não pode fazer pela planta é crescer por ela”. Entrevistada 2 “Então eu diria assim: o professor é muito importante na formação do aluno, tanto positivamente como negativamente, eu sempre tive isso muito claro por eu já ter vivenciado as duas experiências, quando eu vim dar aula no começo eu era muito rígida, porque eu achava que exigia muita seriedade, hoje eu consigo entender melhor que se eu defendo um projeto você tem que mostrar que esse projeto vale a pena e que eu tenho que ganhar adeptos, mais do que ficar brigando porque não leu aquele texto, eu tenho que trazer um texto que eles tenham interesse, relacionar com a realidade do estágio para que eles possam querer ler o texto até quando se trata do Karel Kosic, até quando se trata de Marx eu tenho que fazer essa relação para que eles possam se sentir motivados à leitura... eu quero ser aquela professora que vai passar muito tempo e eu tenha condição de ouvir como muito já ouvi, olha você continua sendo uma referência profissional para mim, eu quero ser a referência positiva do professor”. Entrevistada 3 126 “é porque também é muito difícil para a gente ao mesmo tempo que a gente é docente, a gente também tá acolhendo esse aluno, tá ampliando esse universo vocabular, esse universo de formação, esse cotidiano mesmo do aluno e a gente também tem que fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo porque tem que olhar para esse aluno do ponto de vista cognitivo, do ponto de vista das relações, do ponto de vista se realmente isso tá acrescentando no desenvolvimento intelectual profissional dele, se realmente está aprendendo a fazer o trabalho do serviço social, se esse momento de formação tá ligando a prática com a teoria, se esse momento de formação tá ligando o exercício profissional com a formação dele”. Entrevistada 5 Nesse quesito, verificamos que o exercício da docência requer o desenvolvimento de competências e habilidades, que devem estar alinhadas a um projeto mais amplo de educação e sociedade, demonstrando claramente a defesa de um referencial teórico que hoje é expresso pelo projeto ético-político da profissão. 3.3.5 Competências e habilidades para o exercício da docência Inicialmente, quando questionadas sobre esse aspecto da docência, as entrevistadas levantaram um ponto de reflexão interessante ao demarcarem que, apesar de todo assistente social poder ser docente, isso dependerá, de acordo com as depoentes 1, 2, 3, 5 e 6, de certa aptidão, da construção de certas competências e habilidades e de um acúmulo de conhecimento, além de uma identificação pessoal com o exercício da docência. A entrevistada 4 pontuou o aspecto pedagógico inerente à formação do assistente social, que também deve ser levado em consideração nesse processo. “Não é por ser assistente social, qualquer profissional de qualquer área, nem todo profissional pode ser professor. Professor tem que ter vocação específica. É uma aptidão. Então não é por que você tem aptidão para ser assistente social, que você automaticamente tem aptidão para ser professor”. Entrevistada 1 “Olha, potencialmente pode, mas não pode porque precisa ter algumas características... eu não sei muito te dizer... Para ser professor acho que tem que ter um pensamento articulado, tem que ter paixão, certa organização (...) eu acho que a gente precisa gostar um pouco da profissão”. Entrevistada 2 “qualquer profissional que se capacita pode... mas eu acho que tem que...eu acho que tem profissionais que estão só no exercício profissional que as vezes tem uma qualificação maior do que doutores, então não é título que eu to falando, eu to falando de um acúmulo de conhecimento necessário a esse exercício docente, como tem que ter, por exemplo se você vai trabalhar na 127 área da saúde, você tem que conhecer a legislação da área da saúde, tem que conhecer o debate da área da saúde, a mesma coisa na docência”. Entrevistada 3 “eu sei que a formação ela é generalista, mas não acho que todo assistente social tem que ter todas as práticas”. Entrevistada 5 “depende da afinidade que ele tem com esse assunto. Mas tem uma diferença disso para a docência, porque é outra dinâmica de trabalho. É outro processo de trabalho diferente, que é o do assistente social, mas em principio qualquer pessoa pode se habilitar para ser docente”. Entrevistada 6 “Eu vejo que se a gente entender que o professor, que todo profissional que atua com seres humanos numa dimensão educativa, aí está a excelência de ser professor, eu não vejo professor como aquele que está em sala de aula somente quando eu estou num grupo com as famílias, quando eu estou com uma criança num grupo de crianças e eu estou desenvolvendo uma reflexão crítica eu estou sendo professora, então eu vejo que a nossa profissão ela tem uma excelência na educação e se ela tem uma excelência na educação essa ideia de construir com as pessoas, de indicar possibilidades e ela escolher o caminho que ela vai trilhar na sua vida. (...) então tem isso não é só eu querer ser é saber se eu estou desenvolvendo essa prática”. Entrevistada 4 Tal questão merece ser destacada nessa reflexão, pois leva-nos a pensar que para o exercício da docência exige-se um determinado perfil de profissional, que perpassa pelo perfil do assistente social, mas demanda outras habilidades e competências, que, por não constituírem conteúdos da formação profissional em Serviço Social, necessitam ter espaços onde as mesmas possam ser discutidas e elaboradas, seja nos programas de pós-graduação seja em espaços de discussão, como vem se constituindo historicamente a ABEPSS. No que se refere a essas habilidades e competências específicas da docência, a entrevistada 1 destaca a importância do saber ouvir, respeitar o aluno, do gosto pelo processo de aprendizagem e pelo processo de amadurecimento dos discentes, elementos que, para ela, constituem o que chama de aptidão para a docência, aspecto este reforçado pela respondente 2 quando aponta a necessidade de uma maturidade intelectual para que consiga estimular e incentivar esse processo nos estudantes sob os princípios da autonomia e da liberdade. “E eu acho que tem a ver mesmo com isso. Talvez um jeito de falar, um jeito de pensar, talvez essa formação muito precoce, de saber ouvir, de partir da onde o aluno está, de considerar o saber do aluno, talvez isso tenha me ajudado bastante também além de toda formação. (...) Tudo você tem que ter habilidades especificas, você tem que gostar de ensinar. Você tem de gostar de repetir todo ano coisas. Uma das artes de ser professor é conseguir não repetir sempre. Mas tem algumas coisas das quais você não foge. Então você tem que gostar disso. Não é gostar de repetir, é gostar de ver o processo de ensino-aprendizagem acontecendo. É ter paixão por ver uma pessoa que não 128 sabia ou sabia menos, na verdade não era que sabia menos era que não tinha tido o contato com esse conteúdo, com essa realidade. E gostar de ver o desabrochar das pessoas. E eu gosto até hoje (...)O que é aptidão? É a habilidade para, é essa habilidade que ela tem o aspecto adquirido, mas tem o aspecto também de qualidades pessoais que cada um tem para uma coisa, eu por exemplo não tenho para desenho de jeito nenhum”. Entrevistada 1 “você precisa ter maturidade intelectual para você não se esconder atrás de determinados conceitos ou jargões, você tem que ter o domínio por dentro do conceito para depois fazer um trabalho com ele, para que ele vá para além do que repetir palavras que ele entenda... se sinta mexido porque ninguém muda a cabeça de ninguém sem mexer e desestruturar o que está posto. (...) o aluno que ele tem a competência teórico-metodológica para poder fazer análises, estudar processos, não se contentar com aquilo que tem na aparência sabe...saber ir para além da aparência, você tem que desenvolver essa capacidade ético política”. Entrevistada 2 Além disso, as respondentes 2 e 5 relacionam a essas competências específicas para o exercício da docência uma capacidade de “seduzir” o estudante, no sentido de envolvê-lo nesse processo, assim como a necessidade de saber acompanhar o tempo desse estudante, o que a entrevistada 5 chama de “paciência pedagógica”, associada a uma perspectiva crítica de educação que contribui para a transformação do ser humano. “acho que um professor ele tem que ser um pouco entusiasta, ele tem que ter um pouco de sedução, isso eu aprendi com um professor da época da Escola de Comunicação e Arte lá da USP, professor Ademir Perroti, ele dizia assim: diante do desafio de ensinar... diante da educação você tem dois jeitos de ser educador, ou você usa a dominação do seu poder ou você é um sedutor, você chama alguém para um mundo assim do prazer, uma coisa que é difícil”. Entrevistada 2 “Essa identidade... como é essa identidade de ser docente. Eu acho que tem que ter primeiro uma paciência pedagógica imensa que já falou Paulo Freire, então você tem que ter essa convicção de que você quer formar para transformar e nem todo mundo tem essa convicção essa paciência por que, por exemplo, eu não acho que eu tenho um dom digamos assim de ser docente, eu não acho que eu nasci com esse dom, mas eu acho que tem gente que tem, o Zé Paulo nossa ele é um educador de primeira, o Paulo Freire um orador super maravilhoso tudo aquilo que ele fala ele convence, mas eu acho que a gente pode desenvolver isso a partir desse compromisso, então eu me vejo nesse segundo momento desenvolvendo algumas habilidades para ser um educador ou para ter uma prática docente comprometida, porque você tem que ter essa identidade nessa perspectiva de querer formar alguém para poder investir na profissão, na formação e não é todo mundo que tem essa paciência pedagógica, que tem esse compromisso, que tem entre aspas essa vocação para poder trabalhar, para poder desenvolver porque é muito trabalho, é muito pesado a gente que tá na lida do dia a dia desse cotidiano pedagógico a gente sabe como é que é estressante porque às vezes tem pouco resultado daquilo que a gente faz, mas a gente tem muito investimento, então eu acho que é entender que tudo é muito processual, a formação ela é muito 129 processual e às vezes a gente vai conseguir perceber digamos assim o produto do nosso trabalho um ano depois que a gente saiu”. Entrevistada 5 Assim, vai se evidenciando que as competências e habilidades necessárias à docência de fato estão articuladas às competências e habilidades necessárias ao profissional de Serviço Social, ocorrendo nesse processo a adaptação e/ou adequação dessas para o exercício da docência, uma vez que as habilidades destacadas pelas entrevistadas são necessárias ao exercício de uma prática profissional vinculada ao atual projeto ético-político da profissão. Tal constatação convalida uma das hipóteses de nosso trabalho que, mesmo se tratando de práticas distintas, a docência em Serviço Social requer conhecimentos, habilidades e atitudes que são específicas do perfil e da prática profissional do assistente social. A associação com o projeto ético-político evidencia-se também como uma dessas condições imprescindíveis ao exercício da docência, conforme relatado pelos sujeitos 3, 5 e 6. “eu acho que para o exercício da docência deveria ter uma capacitação teórico-metodológica que permitisse ao docente em sala de aula trazer preceitos já fundamentais construídos e discutidos na profissão, amadurecidos na profissão que são fundamentais para a formação, de maneira que o aluno pudesse relacionar o referencial teórico com o exercícios da prática profissional, essa é a responsabilidade do docente em Serviço Social”. Entrevistada 3 “eu acho que essa prática docente ela expressa um projeto ético-político da profissão que tem a ver com a formação, que tem que expressar também um projeto de sociedade que nós queremos, que educação nós queremos, mas que essa prática docente ela na sua totalidade ela exige um conjunto articulado de questões como por exemplo o compromisso com a profissão, o projeto ético político que tá colocado um projeto de sociedade, a questão didática que didática é essa, as metodologias de ensino, o aluno como sujeito do seu próprio aprendizado (...) do planejamento pedagógico também eu acho que é fundamental enfim... então eu acho que tem realmente um conjunto da totalidade que faz com que a gente... a motivação em conhecer esse aluno. Quem é esse aluno? De onde vem esse aluno? A história e a trajetória desse aluno eu acho que também é importante, eu acho que é a questão do conteúdo também ela é importante nessa perspectiva aí do conhecimento”. Entrevistada 5 “entender o processo de formação do assistente social, as necessidades desse processo de formação. É ter um domínio mesmo de como apreender o conhecimento, ter um domínio sobre as disciplinas do Serviço Social, isto tudo é absolutamente necessário”. Entrevistada 6 130 Tais falas denotam a importância que tem para o exercício da docência a clareza por parte do docente sobre a direção teórica, política e ética do projeto profissional de Serviço Social. Tal clareza deve se materializar na prática pedagógica, cotidianamente, na defesa desse projeto profissional que hoje, está na contracorrente do projeto societário hegemônico na sociedade capitalista. Por isso, a entrevistada 5 aponta a necessidade de articular a defesa desse projeto e dessa prática pedagógica a outro projeto societário na busca pela construção de uma hegemonia que esteja pautada e alicerçada numa concepção de educação crítica e transformadora. “eu acho que o docente tá inserido numa prática maior de todos os docentes, que tem a ver com os projetos de profissão e tem a ver com a sociedade (...) esse compromisso de formar com a qualidade, com a transformação, de querer realmente alterar, de construir uma profissão, da defesa de uma profissão, da defesa de uma sociedade, então eu acho que isso deveria ser digamos assim comum na concepção de educação (...) eu acho que todas as profissões deveriam pactuar com esse projeto mais amplo de formação”. Entrevistada 5 Frente a essa contradição é que se coloca a necessidade de pensar estratégias que possibilitem a manutenção da direção ético-política deste projeto profissional em resistência ao projeto societário contrário aos seus princípios e diretrizes. Assim, teremos constituídas as dificuldades da prática pedagógica que, ao mesmo tempo em que nos colocam limites, nos impulsionam a pensar as possibilidades. 3.3.6 Dificuldades e possibilidades da prática pedagógica Como uma das dificuldades apresentadas, a entrevistada 1 assinala as contradições que nascem da convivência de ambos projetos: o hegemônico societário e o projeto profissional de Serviço Social, em que elementos conservadores se misturam a elementos críticos, reforçando a necessidade desse docente refletir sobre o cotidiano para identificar a presença de tais elementos contraditórios. “Eu me lembro que uma vez uma turma me fez uma avaliação que eu caí de quatro. Essa turma me falou: você não precisa ficar controlando presença, a gente vem na sua aula porque a gente quer a sua aula, a gente gosta, não precisa ficar controlando do jeito que você faz”. Entrevistada 1 131 “No primeiro momento, a dificuldade era mesmo de conteúdo, pela questão que eu te contei. O que existia no Brasil não era compatível com o meu posicionamento teórico, ideológico e político. Eu nunca senti muita dificuldade no pedagógico, a minha dificuldade era no conteúdo de estudar, de ter tempo de estudar. A dificuldade de me capacitar teoricamente, principalmente essa como professora. Era um desafio enorme. Não podia de jeito nenhum dar aquele conteúdo previsto, eu tinha de inovar, em uma época que essa inovação não estava... Era uma construção, um projeto de construção. A gente trocava o pneu com o carro andando e sem um grupo. (...) Era uma luta por hegemonia, mas havia liberdade. Eu podia falar o que eu quisesse dentro de sala de aula. Aí o problema era mesmo a formação da gente”. Entrevistada 1 A convivência de elementos libertários com os elementos conservadores se dá exatamente na materialização dessa contradição entre o projeto hegemônico societário e o projeto profissional do Serviço social, exigindo do docente, cada vez mais clareza teórica, política, didática e pedagógica dessas diferenças, de modo que possa repensar e recriar sua prática pedagógica pelo desvelamento e crítica dos aspectos conservadores. Outro dificultador para o exercício da docência refere-se às pressões do mercado de trabalho, contrárias às exigências da formação profissional preconizadas pelas diretrizes curriculares do curso de Serviço Social, como demonstra a entrevistada 2. “agora as dificuldades eu acho que a gente precisa bolar estratégias que a gente não sabe muito bem lidar com essa moçada que está aí da era da internet, eu acho que temos que fazer uma discussão... outra coisa que nós não falamos que eu acho que para você se qualificar você precisa pensar o que você acha da educação, mas você tem que pensar o que está acontecendo com a juventude, quais são as perspectivas com relação ao futuro, como é que é o mercado de trabalho, acho que você não pode pensar em formar... que é outra dimensão que eu podia ter colocado na outra questão... não pode só formar o aluno para o mercado de trabalho se tem que formar o assistente social”. Entrevistada 2 “que bom que a classe trabalhadora está chegando às universidades, mas eu acho que essa massificação onde os cursos são vendidos como vende uma geladeira vem estudar por 100 ou 200 reais, as pessoas estão sendo pegas lá na associação dos bairros, não precisa procurar, elas já são presas ali, então o que acontece eu acho que acontece uma... uma enganação porque o que vai acontecer... vai ter meia dúzia que pensa, que vão ser os estafes que vão pensar as políticas sociais e o resto vai ser um grupo de técnicos, executores que era o que as pessoas do ensino médio faziam”. Entrevistada 2 Na atual conjuntura, faz-se necessário pensar uma formação que atenda às diretrizes curriculares do Serviço Social, numa perspectiva de criar um diálogo crítico com o mercado de 132 trabalho, em que não se priorizem os interesses deste, que nesse sentido contrapõem os interesses do projeto profissional. A depoente 3 coloca que em determinados momentos da profissão, como no movimento de Renovação, a dificuldade se localizava também na falta de clareza teórica e estratégica sobre a defesa do projeto que estava em construção. “eu posso falar isso da minha experiência no início dos anos 1990, esse projeto profissional ainda não estava muito claro para a gente. A gente tinha direção, mas não tinha um amadurecimento para pensar às vezes aquilo que seria a direção frente a situações extremamente limitantes dadas pela instituição, então a gente sabia, tinha muito claro como fazer esse projeto, como efetivar esse projeto de profissão vamos dizer, organizando os movimentos sociais, mas como trabalhar numa creche a partir de uma demanda, de uma lista de espera de 80 pessoas – 80 crianças, metade passando fome, como é que você lida com isso (...) então isso a gente não tinha claro, aliás eu falo que tenho profunda gratidão ao José Paulo Netto (...) ele a partir da pesquisa ele mostrou e deu maior clareza, o que foi o Movimento de Reconceituação, porque naquela época tinha que se explicar isso e eu não tinha isso claro, e lendo o que a gente tinha pareciam duas perspectivas uma que eu chamava de eclética e a outra que eu chamava de marxista”. Entrevistada 3 Apesar de a respondente associar tal dificuldade a um determinado período histórico da profissão, é possível afirmar que a questão da clareza sobre os elementos que compõem a profissão se faz pertinente ainda nos dias atuais, devido às transformações sofridas pela sociedade, assim como pela profissão. Desta forma é que a entrevistada 3 também ressalta o entendimento da atual conjuntura como necessário ao exercício da docência, pois tal questão coloca-se como um grande dificultador, devido aos avanços conseguidos pelo neoliberalismo. “Olha a conjuntura política desse país eu acho que é um dos elementos de maior retrocesso e que traz um rebatimento direto na profissão, porque a vitoria ideológica do neoliberalismo traz uma influência grande na nossa potência em sala de aula, devido a maior receptividade ou menor receptividade desse aluno, esse aluno que está em sala de aula hoje, ele é filho do neoliberalismo, ele foi educado para pensar a vida dele, não para participar do movimento estudantil, não para pensar coletivamente, então eu vejo, assim a conjuntura do ponto de vista ideológico, político que é um limite”. Entrevistada 3 133 A compreensão da atual conjuntura mostra-se necessária para pensar estratégias de efetivação do processo de ensino-aprendizagem sob uma perspectiva crítica, pois o seu desconhecimento ou distanciamento interfere na prática pedagógica e pode alimentar um processo que, de acordo com o sujeito 3, vem ocorrendo na profissão de forma velada, que é o enfraquecimento da defesa do projeto ético-político e de sua direção teórico-metodológica e ético-política. “O outro retrocesso vem aí de dentro da profissão mesmo, que se a gente tem uma direção uma diretriz hegemônica, a falsa adesão a essa proposta, então assim, ele entra... entra ou sem qualificação para defesa desse projeto, que é aquilo que eu te falei, faz a defesa aqui, mas depois na leitura de homem de mundo contraria tudo que tem de proposição esse projeto ou ela tem uma falsa adesão, que é aquilo que defende os princípios, mas diz olha isso não dá para aplicar na prática, como se fosse aplicação e isso a gente vê inclusive na universidade publica é muito triste, então esse é um outro retrocesso porque antes vinha o confronto, agora não, agora se tenta desqualificar o projeto profissional essa direção, fingindo defender, é difícil combater é velado”. Entrevistada 3 A associação da falta de clareza teórica à não defesa do atual projeto profissional e à atual conjuntura impactam diretamente os rumos que a profissão pode tomar daqui para frente, uma vez que a negação do conflito ou da disputa de projetos despolitiza o debate da categoria profissional, colaborando para o fortalecimento de uma tendência de formação tecnicista e condizente com os interesses do mercado. Atualmente, constituem um grande desafio para o exercício da docência as tendências da atual política de ensino superior, como apontado pelas entrevistadas 3, 4 e 5. “outro retrocesso que eu acho para o Serviço Social é a proliferação do ensino à distância e mesmo a proposta de curso superior que a LDB vai trazer, onde a disseminação de cursos, mesmo do Serviço Social, presenciais ou a distância sem se preocupar com o mínimo de qualidade e o exercício da docência como uma mera possibilidade de inserção profissional, acho isso muito complicado porque eu acho que mesmo que você vá lá mesmo para ganhar o seu dinheiro você está numa profissão que tem um código de ética, que tem uma direção a ser pensada e quando você não faz isso você reforça ou nega essa direção”. Entrevistada 3 “no ensino privado, os principais limites era o excessivo número de alunos em sala de aula, o fato de você ser professor horista e não ter referência de ensino, pesquisa e extensão, esses eram os principais limites, além desses, o limite político que é não poder falar o que pensa em sala de aula porque isso prejudicava sobremaneira a própria formação que eu tinha que dar ao meu aluno. (...) Dentro da universidade pública eu acho eu um dos principais 134 elementos que a gente tem hoje de dificuldade, primeiro é a própria concepção de universidade hoje existente, de ensino superior hoje existente, que traz diversos limites ao exercício profissional, por exemplo, hoje você tem a busca da excelência mesmo dentro da universidade pública e uma pressão sobre publicação, sobre o desenvolvimento de atividades, principalmente de pesquisa que são incompatíveis com um processo de amadurecimento dos alunos”. Entrevistada 3 “as dificuldades que eu encontro são os limites institucionais, há muitos limites institucionais que a gente faz enfrentamentos mas a gente sabe que um corpo docente no meio de... um grupo de vinte no meio de cento e vinte é minoritário, então é uma resistência dentro dos limites que nos são possíveis de fazê-lo, mas que eu percebo que é o limite da instituição seja de natureza de recursos financeiros, de recursos tecnológicos, é são limites que dificultam, mas não determinam”. Entrevistada 4 “de reatualização do pensamento conservador que passa pela política de educação (...) eu acho que nesse contexto que a gente tá de precarização da formação mesmo como uma política do MEC em que faz o curso, o aligeiramento da formação, a precarização da formação as diretrizes curriculares flexibilizou bastante não que eu seja contra a flexibilização, mas ela tem que ser flexibilização não pode ser comparada com precarização e me parece que é isso que as pessoas estão fazendo hoje. (...) tem essa questão estrutural da política de ensino, tem essa questão do trabalho dos docentes a educação como mercantilização, o trabalho dos docentes com certeza é um entrave assim da pior qualidade porque já pensou o docente tem que carregar tudo não só mais a prática pedagógica, mas também tem que carregar a instituição tem que fazer trabalho de secretário, tem que fazer trabalho de coordenador de curso, coordenador pedagógico tem que fazer tudo ao mesmo tempo ainda tem que ir para sala de aula ficar sorridente... os alunos da privada eles acham que o professor tem que ser babá deles... também não tô generalizando... não tem essa coisa do respeito como nas públicas a gente já tem mais autonomia para poder... então é outra relação também a relação docente - aluno é uma relação de comércio, de negócio porque eles querem passar, não interessa”. Entrevistada 5 Sabe-se que a atual política do ensino superior tem enfatizado uma educação mercadológica, que, em geral, precariza as condições de trabalho dos docentes, impactando diretamente na efetivação do projeto profissional do Serviço Social. Tal tendência, de acordo com os teóricos, privilegia a quantidade em detrimento da qualidade e aumenta a exploração da força de trabalho do docente, visando o aumento do lucro o que, de forma indireta, prejudica a qualidade da formação desses futuros profissionais. Tal aspecto se associa ao apontado pelas depoentes 5 e 6, que colocam a formação para a docência como uma dificuldade, pois quanto piores as condições de trabalho também piores se colocam as possibilidades de formação para o exercício da docência visto que, como indicado em diversos momentos da dissertação, não há uma formação específica para a 135 docência, causando inicialmente lacunas nessa prática, incompletudes que deverão ser preenchidas através do processo de formação e qualificação desses profissionais. “assim um dos grandes desafios que eu tive na minha prática, a primeira coisa eu acho que é tem que estudar bastante e tem que às vezes exemplificar o que a gente fala de uma forma assim teórica e aí esse é o limite meu digamos assim são os exemplos porque eu acho que os exemplos eles ilustram mais que do que falar só de uma teoria entre aspas abstrata que talvez não tenha ressonância não bata com o cotidiano dos alunos, então eu acho e aí eu acho que a prática pedagógica ela vai te enveredando, vai te ensinando algumas outras estratégias alguns outros recursos que a gente nem tem consciência deles como por exemplo, os trabalhos de grupos por exemplo como fazer um trabalho de grupo pra que esse trabalho de grupo ele não seja meramente cada um no seu quadrado, digamos assim”. Entrevistada 5 “eu acho que é essa falta de preparação mesmo para docência. Tem algumas coisas que a gente faz e a gente percebe que deu errado e muda de caminho, por exemplo, você colocou texto demais na disciplina, tem que sentar com a classe e conversar, que tem texto demais, é muito gasto, não dá conta de ler ou a maneira como o professor está explicando você percebe que eles não estão entendendo, eles não respondem, não interagem. Então você percebe que tem que mudar a maneira de dar aula, tem que fazer outras dinâmicas na sala de aula. Mas o principal desafio é não saber como lidar com isso, até o que está errado aparecer”. Entrevistada 6 Quanto às possibilidades frente a essas dificuldades, as entrevistadas 3, 5 e 6 destacaram a necessidade de constante aprofundamento teórico sobre as questões pertinentes ao Serviço Social, assim como a busca por processos de qualificação, seja através de cursos ou de um processo de autocrítica que possibilite avançar na direção proposta pela profissão. “eu acho que o José Paulo foi fundamental, para a gente pensar a nossa profissão, então esse foi um avanço a produção teórica porque depois disso veio a discussão da política pública, a própria percepção de como ela é sistêmica, do limite sem deixar de mostrar os avanços, nós fomos construindo isso que a gente chama hoje de projeto ético-político da profissão que na realidade são elementos mais objetivos para a gente pensar aquela direção que a gente já tinha”. Entrevistada 3 “fazer cursos de especialização na área de metodologia do ensino superior, por exemplo, de práticas docentes eu acho que uma estratégia como que a gente pode tá fazendo isso porque aí seria uma especialização”. Entrevistada 5 136 “tentando no cotidiano, a gente vive a prática docente no cotidiano e seguindo uma coisa até que no Serviço Social apreendeu bem, a gente para em um determinado momento, suspende o cotidiano e tenta fazer uma autocrítica mesmo, o que está dando certo aqui, o que está dando errado, o que é preciso mudar”. Entrevistada 6 Isso demonstra que a qualificação permanente defendida pelo projeto profissional de Serviço Social se faz necessária nos mais diversos campos sócio-ocupacionais, pois possibilita um constante repensar da prática profissional. Tal processo de formação permanente para o exercício da docência não deve se limitar a um nível individual, mas também deve ocorrer entre o corpo docente, como relatado pela entrevistada 5, que destaca a importância desses debates ocorrerem de forma coletiva pois potencializam a construção de possibilidades frente às adversidades da atual conjuntura, tendo em vista, entre outros aspectos, o perfil dos jovens estudantes da era digital. “Eu acho também que a gente nos nossos espaços pedagógicos, os nossos colegiados a gente tem esse pacto digamos assim de cumplicidade pedagógica pela qualidade do ensino, pelo fortalecimento da profissão discutindo, por exemplo, esses instrumentos didáticos, pedagógicos... todos os professores daquele termo reúnem para ver que estratégias didáticopedagógicas, conteúdo, bibliografia e criar coisas para a gente se vincular para que de fato também esse ensino não seja um ensino maçante um ensino repetido para esse aluno, porque esse aluno ele é um aluno que ele tem esse perfil mais digital digamos assim, esse aluno não tem mais aquele perfil que era o meu perfil de caderno, de caneta e que anotava que registrava, esse aluno não, esse aluno ele já tem ele já nasce com uma outra forma cultural de ser”. Entrevistada 5 Cabe ressaltar que o âmbito coletivo desse debate deve extrapolar os muros da universidade, refletindo-se nos debates e discussões liderados pelas entidades organizativas da profissão, de modo a coletivizar as questões, tirando-as de um âmbito meramente individual e propondo ações de cunho político e coletivo. Tal possibilidade foi vislumbrada pela maioria das entrevistadas que entendem que a participação nas entidades da categoria se faz imprescindível para pensar as dificuldades e os limites impostos à prática pedagógica. “Estudando, estudando, participando dos eventos da categoria. Eu sempre desde o começo quando tudo era conservador, eu sempre participei, tinha uma reunião do CRAS, era CRAS na época, eu ia”. Entrevistada 1 137 “eu acho que a ABEPSS, o CRESS... acho que a gente precisa estar articulado para enfrentar esses desafios”. Entrevistada 2 “Quais são as possibilidades que eu vejo nesse âmbito, eu acho que pensar possibilidades para mim me fez ir para a ABEPSS porque eu acho que é um fórum da nossa profissão que tem colocado em pauta o ensino superior e a formação em serviço social, essa foi uma das possibilidades que eu vislumbrei, a outra é fazer a discussão com os alunos que são aqueles que desenvolvem práticas de resistência dentro da universidade, é isso... aonde eu tentei uma maior aliança com os alunos e a militância na ABEPSS”. Entrevistada 3 “ mas a gente com muita lucidez vai tentando refletir, não se alienar diante de tudo isso para a gente encontrar saídas coletivas, eu acho que a gente tem conseguido ter mais... vislumbrar mais utopias do que barbárie. (... ) Nos organizando, é colocando de forma muito transparente essas dificuldades nos espaços coletivos, seja no âmbito da instituição, seja nos âmbitos de organização política da categoria nós temos nos fortalecido nos últimos anos porque eu vejo que a gente tem conseguido colocar essas dificuldades de modo que a gente se fortaleça, não se exclua”. Entrevistada 4 “por isso que eu acho que a ABEPSS no momento e sempre... eu acho que ela ocupou um papel de destaque muito grande porque a gente precisa de encontros, acho que foi um pouco disso que eu falei na última reunião nossa da ABEPSS que nos fortalece, que nos mostre o caminho a seguir, que nos articule enquanto docentes, enquanto categoria profissional porque senão a gente acaba perdendo o chão porque o que a gente tá nesse momento todo é fazendo a resistência, nós estamos fazendo a resistência a esse projeto de formação que tá colocado aí pelo MEC, a ABEPSS também ela recria também as suas estratégias, então isso eu acho que é assim, são possibilidades que recria estratégias de poder tá enfrentando o mercado, de poder tá nesse processo de diálogo com as universidades”. Entrevistada 5 “a gente fica criando e recriando esses mecanismos de resistência e de possibilidade de continuar junto, de continuar unidos e que pese toda contradição que possa ser isso, mas eu acho a gente enquanto categoria profissional acho que a gente tem bancado isso, tem um grupo que tá a frente que ainda é hegemônico ainda bem que é hegemônico desse projeto que tá aí que a gente tá em construção mas eu acho que tem possibilidade sim, eu acho que uma possibilidade é essas organizações de fortalecimento das entidades da categoria no caso da ENESSO, da ABEPSS do conjunto CFESS/CRESS”. Entrevistada 5 Tais falas enfatizam a importância das entidades organizativas da categoria profissional, destacando, na área da docência em Serviço Social, o papel da ABEPSS, que pioneiramente, desde 1946, vem encampando os debates sobre a formação profissional. Cabe ressaltar que contar com uma entidade responsável pela direção nas reflexões sobre a formação profissional colabora para qualificar os debates pertinentes à docência. A ABEPSS tem influenciado decisivamente a organização das unidades de formação (UFAs) e dos docentes assistentes sociais fomentando as reflexões sobre prática e formação profissional. 138 3.3.7 Relação entre a prática profissional do assistente social e a prática pedagógica do assistente social docente Um primeiro aspecto da relação entre o exercício da prática profissional e o exercício da docência apontado pela entrevistada 1 foi a questão de ambas as práticas se constituírem em trabalho assalariado, que sofre os rebatimentos e imposições do mercado. “ambos tem rebatimentos das necessidades e imposições do mercado de trabalho. Porém sabemos que na docência esses rebatimentos são mais do campo privado e da prática profissional são mais do campo público. Mas ambos esses rebatimentos são guiados pelo mercado”. Entrevistada 1 Tal aspecto deve-se à inserção dos assistentes sociais no mercado de trabalho como mão de obra assalariada que cotidianamente sofre os impactos das transformações desse mercado, tendo que pensar/ criar as mediações necessárias para possibilitar a efetivação de sua ação profissional ao mesmo tempo em que garante sua reprodução como “classe que vive do trabalho”, na expressão de Antunes (2009, p. 101-117). A respondente 2 pontua que ambas as práticas são constitutivas da identidade de um profissional – assistente social e professor – e, somadas, vão compor a totalidade deste ser. O que as difere são as dimensões que ganham maior ou menor relevância no exercício de cada uma. “se eu sou assistente social e sou professora, eu não sou dez pessoas, eu sou uma única pessoa que tenho dimensões em mim que são aguçadas, então a mesma postura que eu tenho quando eu atendo um individuo quando eu sou assistente social lá na pratica das organizações que me contratam para fazer um trabalho são as mesmas dimensões que eu tenho com meus alunos só que numa outra dimensão”. Entrevistada 2 Apesar de tais práticas aguçarem dimensões distintas do mesmo ser, para o seu exercício os sujeitos da pesquisa 2, 3, 4, 5, e 6 enfatizam o fato de uma alimentar o exercício da outra, colocando claramente que para a execução de uma se faz necessária a outra, mesmo que aquele profissional não esteja atuando em ambas as frentes. Fica evidente que o exercício da docência tem que ser construído com um olhar no exercício da prática profissional, uma vez que estamos formando novos profissionais. Aqui se justifica a necessidade de não dissociar os debates sobre formação e prática profissional nos diversos espaços da categoria profissional do Serviço Social. 139 “então a prática é uma prática refletida, comprometida, agora a relação ela é muito direta com a universidade, se ele é professor tem que estar antenado com o que está acontecendo na profissão para resolver as lacunas, um professor só consegue fazer isso se ele tiver um braço na pesquisa (...) a relação entre academia eu preferia colocar a questão assim, a relação entre academia e prática profissional é quem tem papéis diferenciados, academia tem que dar respostas e estar pensando nas demandas que a sociedade está posta (...) agora o serviço social tem que responder a essas demandas se responder a essa demanda amplia, melhora, se não responde fecha restringe. (...) Eu sempre tive um diálogo entre ser professora e ser uma assistente social que está na prática e isso me enriqueceu e me fez ser uma professora inquieta e muito preocupada como você ensinar e como você dar respostas para a prática ao mesmo tempo procurando um avanço teórico da profissão”. Entrevistada 2 “Eu vou falar a verdade, eu sou docente porque eu sou assistente social, eu me considero assistente social, porque eu sou formada em serviço social e por isso dou aula para o Serviço Social sobre o exercício profissional inclusive, então eu tenho que pensar como assistente social. Eu acho que a prática profissional é fundamental, eu acho que eu até já abordei um pouco esse assunto lá trás, eu diria assim eu não me distancio do exercício profissional para em sala de aula conseguir evidenciar os limites institucionais e poder dizer para o aluno olha o projeto institucional é uma coisa, o projeto profissional é outro”. Entrevistada 3 “até porque a gente tem que sistematizar a prática seja no campo socioocupacional ou seja na sala de aula nós temos que planejar nosso trabalho, nós temos que ir aos grupos de atendimento de forma muito organizada, nós temos que fazer leituras teóricas em cada campo de atuação, então se a gente olhar pra esse lado nós vamos verificar que há muitas semelhanças com a atuação do assistente social e a atuação do professor”. Entrevistada 4 “Eu acho que há sim uma relação, exatamente com coisas diferentes que se complementam a experiência de quem tá no exercício profissional ela enriquece extremamente quem tá na docência, e também eu acho que essa liga que traz as diretrizes curriculares no sentido de que a formação ela só tem sentido de ser formação se ela estiver voltada para o exercício profissional”. Entrevistada 5 “há uma total relação, assim, porque eu não sou professora de outro curso, eu não sou professora de sociologia, eu não sou professora de filosofia, eu sou professora do curso de Serviço Social, porque eu sou assistente social, não é porque eu sou outra coisa. Eu só estou aqui porque eu sou assistente social, não tem outro motivo no meu caso específico, se fosse para falar de outra profissão, se fosse para formar outro profissional, eu nem sei se eu estaria na sala de aula, eu só estou aqui, porque eu sou assistente social mesmo”. Entrevistada 6 A relação intrínseca entre exercício da prática profissional e exercício da docência coloca-os como dimensões distintas de uma mesma prática profissional, que é a prática profissional do assistente social, traçando diferenças e semelhanças entre as mesmas. 140 Uma das semelhanças atribuídas a ambas as práticas é a dimensão pedagógica que as constitui, conforme indicado pelas respondentes 4 e 5. “há uma relação de exercício na docência e na prática profissional quando eu percebo a dimensão educativa do meu trabalho na assistência, na habitação, na educação com política, na dimensão da política, na modalidade da política do ensino fundamental, na creche. Agora a gente está lutando como que os assistentes sociais vão intervir nessa política pública da educação. Então a minha compreensão é que há uma relação de docente quando eu assistente social percebo na minha prática, uma prática que imprime um traço de transformação, quando imprime na minha prática um rigoroso planejamento junto com a população que eu vou atender. Quando eu sistematizo aquilo que eu faço, quando eu registro e quando eu produzo conhecimento com a minha prática. Então se eu consigo... evidentemente tanto a docência quanto os espaços sócios ocupacionais estão precarizados. Ah, mas eu não tenho tempo de escrever porque eu atendo vinte pessoas por dia, bom do mesmo modo, na docência também a gente tem desafios... são alunos que vem com demandas diversas, são dificuldades talvez em níveis diferentes, mas tão difíceis tanto em um espaço quanto no outro. Então há uma representação social que o docente é um trabalho que não dá trabalho”. Entrevistada 4 “são diretamente ligadas o exercício profissional o trabalho mais técnico voltado para a defesa dos direitos tal, a docência.. a gente viu que tem um documento que fala que a prática da docência ela é uma prática profissional também.. e não sei se é na regulamentação, na lei de regulamentação tem todo esse debate pelo menos por isso também as pessoas tem que pagar o CRESS, os docentes também tem que pagar o CRESS porque a docência ela é uma regulamentação também (...) então eu acho que a liga exatamente é essa, o perfil pedagógico porque essa habilidade em saber trabalhar com as relações sociais de saber trabalhar e a docência ela te exige muito isso mas eu acho que a liga fundamental eu acho que ambos desenvolvem esse perfil essa coisa pedagógica muito do conhecer, do fazer de tá muito presente na defesa dos direitos, de tá voltado pra essa intervenção social”. Entrevistada 5 Para tratar desse aspecto, cabe recorrer ao trabalho de Abreu (2001), que discute a dimensão educativa da prática profissional, identificando que o elemento educativo está presente na profissão desde sua gênese, porém o mesmo foi se alterando de acordo com a direção político-ideológica e teórico-metodólogica assumida pela profissão ao longo do processo histórico. Em seu trabalho, a autora evidencia três perfis pedagógicos no interior da profissão: a pedagogia da ajuda, a pedagogia da participação e a pedagogia emancipatória, sendo este último o que está associado à direção hegemônica da profissão. Na perspectiva das entrevistadas 5 e 6, ambas as práticas também se relacionam através do projeto ético-político da profissão, que, em qualquer campo sócio-ocupacional do assistente social, deve servir de direção para a prática profissional. 141 “outro ponto comum também que eu vejo é a questão do projeto éticopolítico que ambos tanto a prática pedagógica quanto a prática profissional quanto a prática da docência e aí entendendo a prática da docência como um dos braços da prática profissional... é o nosso projeto ético-político da profissão... a docência é tem um perfil pedagógico e o perfil pedagógico está alinhado com essa prática profissional, com esse exercício profissional porque ele também é um exercício profissional e está alinhado na perspectiva do projeto ético-político do serviço social”. Entrevistada 5 “Quando a gente está na sala de aula, por exemplo, a gente tem que defender os valores do projeto ético-político, porque isso faz parte da minha formação, se eu estou formando novos profissionais, é necessário que seja também dentro desse projeto. Além disso, as coisas que estão no projeto ético-político mesmo, então a defesa da democracia, da autonomia do usuário, então vamos pensar, o aluno tem autonomia também, eu não preciso tutelá-lo, tem coisa que ele tem autonomia. Tem várias coisas, vários elementos, que vem da prática profissional e podem fazer parte também da prática docente, essa que é a riqueza de ter assistentes sociais dando aula”. Entrevistada 6 Tal aspecto reafirma a ideia de que o exercício da prática profissional do assistente social e o exercício da docência fazem parte de uma mesma identidade profissional, visto que os princípios que norteiam esse projeto direcionam tanto os elementos da formação quanto da prática profissional. De acordo com as entrevistadas, é possível perceber na prática pedagógica do assistente social docente tanto elementos da formação quanto da prática profissional. No que diz respeito à prática profissional, aparece a relação com a realidade social que lhe é própria e necessária, relação esta que deve ajudar na construção de mediações que deem respostas às demandas sociais. Tal elemento se faz fundamental na construção da prática pedagógica, para que o processo de ensino-aprendizagem não esteja desvinculado da realidade social. Esse aspecto foi enfatizado pelas entrevistadas 1, 2, 3 e 6. “A luz da realidade que na docência nos falta, antes não aceitava a crítica de que o professor estava distante da realidade, hoje acho que essa crítica é procedente, pois o professor vai muito longe na sala de aula, faz muitas reflexões, mas precisa se manter antenado a realidade, acho que todo docente teria que ter uma experiência da prática profissional para depois ser docente”. Entrevistada 1 “agora eu acho que o grande desafio é como você vê as coisas na totalidade como você está atendendo um indivíduo como é que você não se perde... essa questão é muito complexa como se poder pensar algumas coisas, a nossa profissão tem um caráter eminentemente político, eu acho que esse eminente político ele está em constante análise o tempo inteiro, os fundamentos para poder entender a realidade para a gente encontrar caminhos e abrir possibilidades, porque tem possibilidades e limites 142 dependendo da correlação de forças presente as possibilidades se ampliam ou se restringem”. Entrevistada 2 “acho que um elemento fundamental foi, aí que eu te falei que não foi só da assistente social mas foi da minha própria trajetória, foi conhecer melhor a realidade do povo, conhecer não a partir da ciência mas a partir do próprio povo, conviver com o povo, por exemplo, eu sei que um trabalhador rural se você falar, falar, falar e ele só te responder aquilo que você perguntou provavelmente ele não concordou com nada que você falou. (...) outra coisa que eu aprendi no exercício profissional além de entender melhor a vida do povo, isso porque eu também sempre fui de uma classe social economicamente muito desfavorecida... eu sei o que é a discriminação por conta da origem de classe, foi depois no exercício profissional que eu fui me dando conta da discriminação advinda de outros mecanismos de opressão”. Entrevistada 3 “entender a realidade mesmo para depois conseguir intervir nela, isso é da prática profissional e isso está na prática docente também”. Entrevistada 6 O aspecto abordado pelas entrevistadas deixa clara a defesa da direção da profissão, que, apostando numa perspectiva crítica como alicerce para análise da realidade, justifica a necessidade de manter a articulação do singular com o universal no que diz respeito às determinações da questão social, de forma a colaborar para uma leitura da totalidade da vida social, mas sem perder de vista a dimensão particular. A entrevistada 4 aponta que os elementos que trouxe da prática profissional estão relacionados ao compromisso ético, à defesa dos direitos sociais e à distinção entre os limites institucionais e os limites profissionais. “A rigorosidade metódica do planejamento, o compromisso com a população atendida (...) então são elementos desse compromisso ético, dessa defesa intransigente dos direitos humanos, desse não deixar as pessoas sem resposta, é saber o que é possível que a instituição tem que oferecer e o que é possível que o profissional pode oferecer. Então eu sempre tive, sempre fiquei muito atenta quais são os limites da instituição e os meus limites e dentro deles trabalhar com máximas possibilidades que o campo me oferecia para atuar”. Entrevistada 4 Nesse sentido, a depoente 6 aponta a relação entre os elementos constitutivos da prática profissional com elementos da prática pedagógica, dando destaque para a autonomia dos usuários, a defesa dos direitos e os valores democráticos. “mesmo que o assistente social seja só professor, tenha escolhido como eu ser só professor, não tenha uma prática profissional ativa, a gente sempre 143 está em contato com isso. E na própria formação a gente apreendeu coisas da prática profissional que pode sim fazer parte da prática docente. (...) Autonomia dos usuários que faz parte da prática profissional e é muito importante para o aluno e é uma ligação clara, direta. Essa defesa da prática profissional por direitos sociais, a defesa da ampliação do direito à educação, isso é uma coisa tem que vir para prática docente. Que os alunos entendam o que eles estão reivindicando aqui é um direito à educação. Educação de qualidade e não é porque eles pagam que eles têm direito a uma educação de qualidade. Eles têm direito a uma educação de qualidade porque eles vivem em um país democrático, que tem leis em que isso é assegurado (...). Assim, valores democráticos, o aprofundamento da democracia, a gente entender realmente o que é democracia e a participação que é uma questão necessária para o processo de aprendizagem mesmo. Então essa coisa de ouvir os alunos, tem alguém que fala: ouvir o que o usuário traz e devolver para ele de uma maneira organizada. Então isso tem a ver, também tem uma semelhança com a prática profissional. Agora o que eu acho que é central mesmo que é muito importante para mim é uma perspectiva crítica sobre o mundo que vem da prática profissional e que o Serviço Social tem que admitir que está... que hegemonicamente como profissão é uma das únicas profissões que ainda defendem uma perspectiva crítica do homem”. Entrevistada 6 Podemos perceber nesse depoimento que os elementos que a mesma destaca representam a defesa dos princípios do projeto ético-político da profissão que hoje é normatizado pelo Código de Ética, de 1993, pela Lei que regulamenta a profissão, de 1993, e pelas Diretrizes Curriculares, de 1996, o que evidencia que o elemento central que une tais práticas deve ser o projeto profissional coletivamente preconizado pelas organizações político-representativas dos assistentes sociais. Tal eixo de ligação também aparece na fala da entrevistada 1, que o aponta como sendo um elemento trazido não só da prática profissional, mas também da formação. “Na minha época para hoje a formação não era muito referência para a docência, acho que o único elemento que trouxe foi a ética. Da formação atual penso que é importante levar para a docência os elementos do projeto ético-político, projeto este que está em constante luta e disputa”. Entrevistada 1 Desta forma, temos hoje o projeto ético-político operando como o grande eixo articulador do exercício da prática profissional do assistente social e do exercício da prática pedagógica do docente, uma vez que ambas são dimensões constitutivas e indissociáveis da mesma área profissional. 144 Nesse sentido, todas as entrevistadas sentem-se assistentes sociais e docentes ao mesmo tempo, apesar de algumas reconhecerem que, de acordo com o momento profissional que vivenciam, uma ou outra dimensão passa ser enfatizada. “As duas coisas, pois sou uma por causa da outra, não sou docente do curso de letras, história, geografia, dei aula no curso de Serviço Social”. Entrevistada 1 “Eu me enxergo como ambos, hoje predomina como eu não estou na prática profissional eu me enxergo mais como uma docente e como pesquisadora, esses dois lados eles estão mais aguçados, mas eles são inseparáveis é mais ou menos assim”. Entrevistada 2 “Eu vou falar a verdade eu sou docente porque eu sou assistente social”. Entrevistada 3 “Ai, sou os dois. Sou assistente social e docente. Assistente social porque é a formação que me oportunizou ser docente. Mas quando eu percebi que ser assistente social tinha algumas exigências para além do atendimento, eu percebi que a prática docente estava muito presente também no atendimento”. Entrevistada 4 “As duas coisas... porque a minha trajetória é um pouco disso de docente e assistente social, então eu acho que a minha prática profissional é que nutre a minha docência e vice versa”. Entrevistada 5 “Assistente social, sem dúvida. Eu acho mesmo que eu não seria professora de outra disciplina, eu não me vejo como professora de outra disciplina que não seja de Serviço Social, pensando em formar assistentes sociais. Porque eu sou assistente social, é a minha profissão, é a minha maneira de ver o mundo. Com esse projeto que eu me identifico, é dele que eu faço parte, não de outro”. Entrevistada 6 Isso denota que o assistente social tem que ter clareza sobre os direcionamentos dados tanto à prática profissional, como à formação. Cabe a esse profissional que está no exercício da docência promover uma prática pedagógica que articule a formação e a prática profissional de forma a não dicotomizar as questões pertinentes ao Serviço Social, o que só será possível através da defesa intransigente dos princípios do projeto ético-político e da permanente organização coletiva da categoria profissional, visto que tal projeto tem sofrido graves rebatimentos do projeto societário dominante. Assim, ser assistente social docente possui uma particularidade que se concretiza exatamente na defesa do projeto ético-político, sob uma determinada direção teórica, política e ideológica para o Serviço Social, constituindo-se em um diferencial da profissão, que busca 145 constantemente articular a defesa de uma concepção crítica de educação a um outro projeto societário, articulado a um projeto hegemônico de profissão. 146 CONSIDERAÇÕES FINAIS A realização da pesquisa permitiu consolidar alguns aspectos já estudados no que se refere à prática pedagógica, assim como também agregar novos saberes e conhecimentos, confirmando o processo da pós-graduação como um momento de amadurecimento intelectual. Consegui com este trabalho reforçar alguns posicionamentos teóricos e rever outros que se faziam necessários, assim como aprofundar o debate sobre a prática pedagógica do assistente social docente, não de forma a equacioná-lo, mas a fim de propiciar elementos para a continuidade do debate acerca da temática em diferentes espaços de discussão, não somente da categoria profissional dos assistentes sociais. Foi possível com o estudo apontar alguns aspectos importantes sobre a educação, o ensino superior e em especial sobre a prática pedagógica do docente assistente social. Um primeiro aspecto a ser destacado neste trabalho diz respeito à importância de que se tenha como direção para a construção da prática pedagógica uma concepção de educação crítica e transformadora, que, nesse sentido, irá confirmar a defesa do projeto hegemônico da profissão, assim como a defesa de um projeto societário emancipador. Nesse sentido, foi possível verificar que a associação a uma concepção de educação contribui para definir a direção político-pedagógica da prática docente, e mostra-se fundamental para a defesa ou não do projeto ético-político da profissão. Constatou-se, em geral, a defesa de uma concepção crítica de educação e que prime pela formação integral do ser humano, sob forte influência do pensamento paulofreireano. Isso demonstra a atualidade das formulações teóricas de Paulo Freire para o debate da prática pedagógica, porém, sem desconsiderar suas incompletudes e lacunas, exigindo estudos que se debrucem sobre construção de novos elementos teóricos que nem desconsiderem esses saberes, nem se limitem aos mesmos. O legado de Paulo Freire no Serviço Social foi recorrentemente apontado pelos sujeitos da pesquisa e demonstra sua importância para avanços no interior dos debates da categoria profissional, exercendo influência, inclusive, no que se refere à elaboração, na categoria profissional, de uma perspectiva progressista e crítica da profissão. Fica evidente também em nossos estudos que a atual tendência mercantilizante da educação, em especial no ensino superior, apresenta-se como um grande dificultador da 147 efetivação de uma prática pedagógica emancipatória. Tal tendência fortalece o projeto societário hegemônico, em que os avanços neoliberais se fazem recorrentes e devastadores. A perspectiva mercadológica do ensino prioriza a quantidade em detrimento da qualidade, precariza as condições de trabalho e formação e, no Serviço Social, tal perspectiva atua diretamente no enfraquecimento do projeto ético-político da profissão, na medida em que cria condições adversas para sua materialização. Essa conjuntura tem exigido dos docentes a permanente construção de estratégias pedagógicas para a efetivação das diretrizes curriculares do curso de Serviço Social construídas pela ABEPSS e pela manutenção dos princípios éticopolíticos e teórico-metodológicos que norteiam a formação, tensão essa que tem se expressado tanto em instituições públicas quanto privadas de ensino superior. Constatou-se, no universo pesquisado, que há um preparo, mesmo que de forma indireta, para o exercício da docência, apesar de esse preparo não estar, em geral, relacionado a atividades desenvolvidas nos cursos de pós-graduação stricto sensu, mas, sim, estar relacionado a experiências na condição de educador ou a atividades da graduação, como, por exemplo, a bolsa monitoria. Como não era nossa proposta aprofundar o debate sobre esse objeto, acreditamos ser imprescindível e relevante que o tema seja retomado em outras pesquisas acadêmicas. Outro aspecto que merece destaque na pesquisa refere-se à forma como se deu a inserção na docência. No grupo de profissionais formados há mais de vinte anos a inserção na docência ocorreu em seguida ao término da graduação. O mesmo não acontece, geralmente, com os profissionais com menos tempo de formação, que primeiramente concluem os cursos de pós-graduação para depois buscarem sua inserção na carreira acadêmica. Entendemos que tal diferenciação se dá exatamente pelas transformações ocorridas no ensino superior e no interior da própria profissão. Verificou-se que a prática pedagógica do assistente social docente é um processo em permanente construção, indo ao encontro do que está previsto tanto nas Diretrizes Curriculares da ABEPSS, quanto no projeto ético-político da categoria profissional. O fato de a prática pedagógica docente do assistente social estar em permanente construção coloca a necessidade de adoção de princípios direcionadores do processo. Assim, pode-se perceber, como elementos fundantes dessa prática, a importância do respeito entre docentes e discentes, a defesa da autonomia dos alunos, a negação do tecnicismo como elemento central da prática 148 pedagógica, a preocupação com o planejamento e com a concretização do processo de ensinoaprendizagem e a primazia de uma relação de horizontalidade entre os sujeitos envolvidos. Destarte, essa prática pedagógica representará a defesa do projeto ético-político hegemônico do Serviço Social e está associada a uma concepção crítica de educação, o que não a impede de sofrer severos impactos da histórica conjuntura, expressando nessa tensão suas contradições e limitações. Tensão que reforça a necessidade de os docentes manterem-se em um processo de permanente qualificação e organização coletiva com o intuito de minimizar tais impactos. Pensar a construção de uma prática pedagógica que se alicerce numa concepção crítica de educação, na defesa de um projeto societário emancipador e na manutenção de um projeto profissional exige do docente o desenvolvimento de habilidades específicas que colaborem para reforçar essa perspectiva. Pudemos verificar como tais habilidades: a identificação com o exercício da docência, a necessidade de acúmulo de conhecimento, o gosto pelo processo de ensino-aprendizagem, a “paciência pedagógica” para que esse processo ocorra, assim como a maturidade intelectual para perceber a processualidade do ensino-aprendizagem, além da capacidade de envolver o aluno no processo. Assim, nota-se que as habilidades exigidas para o exercício da docência em Serviço Social, em geral, também se expressam na prática profissional do assistente social, constituindo-se em diferentes dimensões de uma mesma prática profissional. Nesse sentido, a docência em Serviço Social requer conhecimentos e elementos do perfil e da prática profissional do assistente social. Entre os pontos de convergência de ambas as dimensões, destaca-se a condição de trabalho assalariado em que se encontram esses profissionais e os rebatimentos que sofrem com as transformações do mundo do trabalho. Além disso, ambas as possibilidades de exercício da profissão colaboram de formas distintas mas complementares para a construção da identidade profissional do assistente social, uma vez que essas práticas são constituídas por uma dimensão pedagógica e educativa. Também nesse aspecto constatou-se que ambas as práticas se inter-relacionam e são interdependentes entre si, já que a construção de uma se fundamenta na outra. Isso denota a importância e a necessidade de não dicotomizar os debates sobre formação e prática profissional nos diversos espaços da categoria profissional do Serviço Social. Porém, o exercício da prática pedagógica sob a perspectiva crítica encontra dificuldades para o seu desenvolvimento e consolidação. Atualmente, os principais desafios 149 colocados a esta prática são a tendência mercantilizante do ensino superior, que tem acirrado a precarização das condições de trabalho docente e do processo de formação do Serviço Social. Além disso, há que se pensar novas formas de enfrentar as contradições provenientes da relação entre as exigências da formação para o mercado de trabalho e as exigências da formação preconizadas pelas Diretrizes Curriculares, de modo a estabelecer um diálogo crítico com o mercado à luz do projeto ético-político profissional. Tais evidências enfatizam a importância e a necessidade da prática pedagógica estar alinhada ao projeto ético-político profissional, de forma a garantir sua hegemonia no interior da profissão, pois se vivencia na categoria profissional de Serviço Social, como na sociedade, uma permanente disputa entre projetos oponentes. A garantia de tal direção ética, política e teórica corrobora o fortalecimento e ampliação de uma concepção crítica de educação e a construção de um projeto societário que se coloca na contracorrente do projeto societário hegemônico. A disputa entre os diferentes projetos societários que se expressa no interior da profissão através de diferentes projetos profissionais gera permanentes contradições a essa prática pedagógica e exige desse docente um constante processo de reflexão sobre suas ações pedagógicas de modo a desmistificar e combater o conservadorismo. Isso denota a importância de uma compreensão crítica da realidade no atual contexto societário visando colaborar na elaboração de estratégias para a efetivação do processo de ensino-aprendizagem sob uma perspectiva crítica, uma vez que sua não compreensão pode acarretar uma mistificação sobre esses conflitos, ocasionando, de forma indireta, o enfraquecimento do projeto ético-político da profissão. Destarte, coloca-se a necessidade de que a prática pedagógica seja construída por meio de um processo de constante aprimoramento intelectual associado a um processo de organização coletiva enquanto docentes e assistentes sociais, destacando, no âmbito da formação, a participação na ABEPSS e seu fortalecimento como entidade organizativa da categoria profissional de Serviço Social. Com esse estudo foi possível, portanto, constatar que a particularidade do assistente social docente reside exatamente na defesa do projeto ético-político da profissão, que, com certeza, não será assumido pela totalidade dos profissionais, mas que entre os sujeitos entrevistados apareceu como unanimidade. Não dispomos de informações sobre outras áreas profissionais, mas no caso do Serviço Social são notáveis os avanços que a defesa da articulação entre uma concepção crítica de educação, outro projeto societário e um projeto 150 hegemônico de profissão tem acarretado para o desenvolvimento, crescimento e amadurecimento do Serviço Social. 151 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABESS/CEDEPSS. Proposta básica para o Projeto de Formação Profissional, Revista Serviço Social e Sociedade, n. 50, ano XVII, abr. 1996, p. 143-171. ABREU, Marina Maciel. 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Eixo 2 – Concepção de educação 1. Qual é a sua concepção de educação? 2. A partir de quais referenciais teóricos? 3. Você já fez leituras da área da educação? Quais? Por quê? Eixo 3 – A prática pedagógica do assistente social docente 1. Como iniciou a docência no curso de Serviço Social? Era um desejo seu? 2. Como define sua prática docente? 3. Todo assistente social pode ser professor? 4. Você referencia sua prática em professores que teve ao longo de sua vida? 5. Como constrói sua prática pedagógica? Eixo 4 – Possibilidades e dificuldades no exercício da docência 1. Quais as dificuldades que encontra no exercício da docência? 2. Como pensa as possibilidades frente a essas dificuldades? Eixo 5 – Relação entre docência e projeto de educação do ensino superior 157 1. Como avalia a atual política educacional para o nível superior? 2. Quais seus maiores problemas? 3. Quais os maiores desafios do exercício da docência frente a essa política educacional do ensino superior? Eixo 6 – Relação entre docência e prática profissional 1. Que relação estabelece entre o exercício da docência e o exercício da prática profissional do assistente social? 2. Você trouxe elementos da prática profissional do assistente social para compor sua prática docente? Quais? 3. E da formação profissional do assistente social, que referências trouxe para a prática docente? 4. Você se considera docente ou assistente social? Por quê? 158 Anexo 2 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC/SP TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Você está sendo convidado (a) para participar, como voluntário, em uma pesquisa. Após ser esclarecido (a) sobre as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, assine ao final deste documento que está em duas vias. Uma delas é sua e a outra e do pesquisador responsável. Em caso de dúvida você pode procurar o Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – Campus Perdizes – telefone (11) 3670-4000. Informações sobre a Pesquisa: Título do Projeto: A prática pedagógica do assistente social docente: contradições e possibilidades. Pesquisadora Responsável: Maria Conceição Borges Dantas – CRESS 33.767 – SP, RG: 33.726.325-5 e CPF: 282.031.738-37. Fones para Contato: (11) 26498025 (residencial) e (11) 9-95741901 (celular) Eu,_________________________________________________, RG,___________________, CPF:_____________________ abaixo assinado concordo em participar da referente pesquisa como sujeito. Fui devidamente informado e esclarecido pelo responsável pela pesquisa sobre o projeto, os procedimentos nela envolvidos, assim como a importância da minha participação. Foi-me garantido que posso retirar meu consentimento a qualquer momento, sem que isto leve a qualquer penalidade. Local e Data: Nome: Assinatura: