HISTÓRIA DE VIDA DE PROFESSORAS MIGRANTES NA FRONTEIRA. CAMPOS, Maria das Graças/UERJ/PPFH. RESUMO Este trabalho apresenta um recorte dos resultados de uma pesquisa de mestrado, que desenvolveu um estudo do percurso vivido por professoras migrantes que atuam em escolas públicas no município de Campo Verde, interior do estado de Mato Grosso. Na investigação foram entrevistadas 20 professoras efetivas que atuam na Educação Básica e que migraram para esse município a partir da década de 1970. Como estratégia metodológica adotou-se a História Oral, que permitiu a obtenção de fontes para uma leitura do passado e compreensão de como elas experimentaram e interpretaram acontecimentos, situações e modos de vida diante do grupo ou da sociedade em geral, para a qual estavam migrando. Em seus percursos, essas professoras enfrentaram desafios e transformações sociais, bem como reconceituaram linguagens e procedimentos frente às exigências do novo lugar. Nesse espaço geográfico e de sociabilidade, também considerado fronteira humana, são reproduzidas formas de convivências pacíficas e solidárias, mas ainda são lugares segregadores, onde estereótipos, preconceitos e discriminação permeiam as relações de tal forma, que a cidade se encontra dividida em três “ilhas”, cada uma representando uma determinada classe social. A partir da reflexão acerca da forma de organização dessa cidade, e das relações de poder existentes busco respostas para as questões étnico-raciais que permeiam as relações sociais e educativas, muitas vezes conflituosas no cotidiano de alunos, pais e professores. Para melhor compreensão de como se dá a convivência das professoras migrantes nessa nova sociedade propomos nesta investigação, uma reflexão sobre como foram construídos conceitos e opiniões, bem como preservados seus valores, apesar das diferenças e contradições inerentes ao encontro com o outro, nesse caso, o diferente. As reflexões a respeito do processo migratório das professoras de Campo Verde levam-nos a revisitar os estudos realizados por Nóvoa (1991) sobre a vida dos professores. Em sua obra, ele registra que, a partir da publicação do livro de Ada Abraham, em 1984, intitulado “O Professor é uma Pessoa”, a literatura pedagógica foi invadida por inúmeras obras e estudos que tratam da vida dos professores, carreira e percursos profissionais, de biografias e autobiografias docentes ou do desenvolvimento pessoal dos professores, que recolocaram os professores no centro dos debates educativos e das problemáticas da investigação. Outra questão que norteia esta pesquisa é a identificação dos motivos que levaram essas mulheres migrantes fazer opção pela carreira do magistério. Tendo como referência a memória educativa dessas migrantes que pretendo contribuir para análise de um material riquíssimo,na tentativa de subsidiar reflexões a respeito da vida e identidade dessas professoras. Palavras-chave: Professoras migrantes; percursos e opções; encontro com o inesperado. INTRODUÇÃO Este trabalho de pesquisa insere-se no campo dos estudos do fenômeno migratório, objetivando compreender a vida de professoras provenientes de outros estados, que atuam em escolas públicas do município de Campo Verde, no interior do estado de Mato Grosso (MT). Considera-se que os resultados desta pesquisa poderão subsidiar leituras e reflexões a respeito dos elementos impulsionadores do processo migratório vivenciado por essas educadoras. No estudo em pauta, de modo a responder a três indagações fundamentais – Por que migrou? Como foi o encontro na fronteira? Por que se tornou professora? Procede-se a uma leitura do processo de ocupação do município de Campo Verde, a partir de um referencial teórico específico e com base na interlocução com as professoras migrantes. A pesquisa procurou ainda, privilegiar os aspectos relevantes das relações interpessoais, mais especificamente procurando compreender como se dá o encontro com o outro: seja no ambiente social, de trabalho ou nas relações de convivência escolar. Depreende-se, da análise desse material, que a ideia de fronteira transcende os limites geográficos, as paisagens, as formas de exploração e manutenção das áreas ocupadas e que os movimentos históricos, econômicos e sociais influenciam de maneira significativa o rumo das movimentações humanas ocorridas nessas frentes. Acerca do conceito de fronteira, assim se expressa Martins (1997, p. 13): Ela é fronteira da civilização (demarcada pela barbárie que nela se oculta), fronteira espacial, fronteira de culturas e visões de mundo, de etnias, fronteira da história e da historicidade do homem. E, sobretudo, fronteira do humano. Neste sentido, a fronteira tem caráter litúrgico sacrifical, porque nela o outro é desgarrado, para, desse modo, viabilizar a existência de quem o domina, subjuga e explora. Considerando, também, que o estado de Mato Grosso vem recebendo nas últimas décadas um contingente significativo de migrantes, acreditamos que em Campo Verde encontraremos campo fértil para refletir também a respeito da segregação social, tentando compreender como se dá o processo de aceitação e/ou exclusão das pessoas que para lá se dirigem, dispostas a ampliar suas possibilidades de vida e de opção de trabalho. Para melhor compreensão de como se dá a convivência das professoras migrantes nessa nova sociedade, propomos nesta investigação uma reflexão sobre como foram construídos conceitos e opiniões, bem como preservados seus valores, apesar das diferenças e contradições inerentes ao encontro com o outro, nesse caso, o diferente. Secchi (2004, p. 10), a respeito do tema, afirma que “o diferente é sempre o outro, isto é, a criança, o idoso, o índio, o estrangeiro, ou qualquer outra pessoa ou grupo cuja característica difere do meu grupo de pertencimento”. Outra questão que norteia esta pesquisa é a identificação dos motivos que levaram essas mulheres migrantes a optar pela carreira do magistério. Algumas já exerciam essa atividade em seus locais de origem; outras abraçaram a profissão premida pelas circunstâncias; enquanto outras admitem paixão e orgulho pela docência, acreditando-se talhadas para o ofício de ensinar. As reflexões a respeito do processo migratório das professoras de Campo Verde levam-nos a revisitar os estudos realizados por Nóvoa (1991) sobre a vida dos professores. Em sua obra, ele registra que, a partir da publicação do livro de Ada Abraham, em 1984, intitulado “O Professor é uma Pessoa”, a literatura pedagógica foi invadida por inúmeras obras e estudos que tratam da vida dos professores, carreira e percursos profissionais, de biografias e autobiografias docentes ou do desenvolvimento pessoal dos professores, que recolocaram os professores no centro dos debates educativos e das problemáticas da investigação. E é baseando-me na memória educativa dessas migrantes que pretendo contribuir para análise de um material riquíssimo na tentativa de subsidiar reflexões a respeito da vida e identidade dessas professoras. A escolha do local (município de Campo Verde, Mato Grosso) para realização da pesquisa deveu-se a três fatores: (i) conhecimento da região, por lá ter residido; (ii) distância do município à capital do estado (120 km); (iii) por considerar o local um campo propício para estudos do fenômeno migratório, que evoluiu sensivelmente na região a partir da década de 1970. Devo reconhecer que, como filha de migrantes, a temática para o meu trabalho de pesquisa estava ligada à própria história de vida. Por diversas vezes, nas entrevistas, tive memórias da infância e da vida de professora na região. Minha família é oriunda do estado de Minas Gerais. Atraídos pela fertilidade das terras e possibilidades de ampliação de espaços para o cultivo, chegamos ao então município de Jaciara (hoje, Juscimeira), localizado a 60 km de Campo Verde, na região sudoeste do estado de Mato Grosso, em 11 de março de 1964. Construímos uma das primeiras casas de alvenaria à beira da Rodovia BR-364, na localidade a princípio denominada Juscelândia (homenagem a Juscelino Kubitschek). O fundador do povoado, João Mateus Barbosa, era um agricultor mineiro que veio para a região em 1954, proveniente da cidade de Diamantina. Era um negro altivo, sábio, que eu costumava ouvir, por longas horas, dialogar com meu pai na sala de estar de nossa casa. Quando da emancipação do município, seu filho, Daniel Barbosa, foi um dos primeiros prefeitos de Juscimeira. No local, ainda com muita mata, as estradas eram de difícil acesso, de barro batido, que levantava bastante poeira. Não havia comércio, farmácia nem médico na localidade. As roupas e calçados eram comprados em Rondonópolis, que, já naquela época, dispunha de um bom centro comercial. A carne era comprada em charque e provinha de outros estados. Literalmente, sentíamos na pele o desafio de conviver com problemas e situações adversos, pois os ataques dos mosquitos, que proliferavam em virtude dos desmatamentos, causavam-me feridas por toda a perna. Enfrentamos febres e diversas endemias que não eram comuns em nossa região de origem. Entretanto, embora a luta pela sobrevivência fosse árdua, o que mais nos fazia sofrer era a saudade do convívio com os familiares que permaneceram em Minas Gerais. Como no local ainda não havia escola, improvisamos uma sala de aula construída com folhas de babaçu e pau-a-pique e chão batido às margens do rio Areia. Diante da precariedade da situação, as famílias dos pioneiros do lugar mobilizaram-se e construíram as primeiras salas de aula de alvenaria, convidando duas professoras primárias – D. Geni e sua filha Geneci – para ministrar as aulas. Entretanto, cumpre esclarecer que a minha opção pela temática de estudos da vida de professoras migrantes não se deveu apenas ao fato de ser filha de migrantes, uma vez que, ao ingressar no mestrado em 1998, identifiquei-me com o grupo de pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (NEPRE). O NEPRE desenvolve pesquisas sobre a temática “Relações Raciais e Educação”, objetivando compreender os diferentes processos que envolvem as relações étnico-raciais no contexto escolar. Em uma de suas linhas de pesquisa, o NEPRE estuda a trajetória e os encontros de professoras migrantes, urbanas, camponesas, que atuam em espaços públicos e privados, visando a revelar, por meio de depoimentos individuais, um conjunto de condições históricas de vida particular e vida social na comunidade em que vivem e trabalham. Além do aporte efetivo do NEPRE, destaco a expressiva contribuição da agenda que tive oportunidade de cumprir durante a realização do curso de mestrado. Por exemplo, no período de 24 de julho a 10 de agosto de 2009, participei da missão de estudos e intercâmbio no Rio de Janeiro, promovida pelo Projeto Integrado de Parceria Acadêmica e Científica em Educação: UFMT/USP/UFF. Participei, também, do XIV Congresso Brasileiro de Sociologia e do Encontro Nacional sobre Ensino de Sociologia na Educação Básica, realizados na cidade do Rio de Janeiro (RJ). No mesmo período, cumprimos uma agenda de estudos e reuniões cuidadosamente elaborada pela orientadora Profª.Drª Maria Lúcia Rodrigues Müller. Constou da programação uma reunião com a ProfªDrª Moema de Poli Teixeira, que nos orientou a respeito do acesso e da utilização das fontes estatísticas como ferramentas para qualificar o trabalho de pesquisa. Na Universidade Federal Fluminense (UFF), especificamente no Programa de PósGraduação em Educação, tivemos oportunidade de nos reunir com a equipe do Laboratório de Estudos sobre a Relação Escola-Família, formada por doutorandos e mestrandos coordenados pela ProfªDrª Lea Pinheiro Paixão. Consideramos aquele encontro uma préqualificação para o mestrado, uma vez que as orientações dali emanadas nortearam sobremaneira o nosso processo de pesquisa. A questão teórica também foi ampliada com a minha participação no Seminário Temático “A Sociologia de Pierre Bourdieu”, promovido pelo NEPRE, sob a égide do intercâmbio retromencionado. No período de uma semana, tivemos uma iniciação aos estudos de Pierre Bourdieu, seguida das leituras do pesquisador francês Bernard Lahire e de outros autores que leem Bourdieu no campo da Educação, a exemplo de PraticeBonnewitz, Maria Alice Nogueira, Afrânio Catani e Maria das Graças Jacinto Setton. Esse trabalho, de excelente empenho didático, foi ministrado também pela ProfªDrª Lea Pinheiro Paixão. Essas participações e reflexões me fizeram aprimorar a ideia inicial que concebi ainda na fase de pesquisa de campo em torno das “ilhas humanas” que se formaram nos últimos anos, para distinguir as pessoas em Campo Verde. No que se refere à apresentação do trabalho, de forma a melhor discorrer sobre o assunto da pesquisa, seus resultados e considerações, estruturei a dissertação em seis capítulos, além da presente Introdução e das Referências. Inicialmente trabalho a cidade de Campo Verde: Processo de Ocupação e Contextualização –, apresento um breve histórico do processo de migração no país e os fatores que impulsionaram a ocupação da Região Centro-Oeste. Focando especificamente a ocupação no município de Campo Verde, descrevo, em linhas gerais, o perfil do município, levando em consideração as implicações ambientais e de convivência com os primeiros donos das terras, os indígenas, no local representado pelo povo Bororo, que ocupou a região por muitas décadas. Também apresento para discussão os estereótipos, preconceitos raciais, sociais étnicos e outros tipos de discriminação aflorados no processo de sociabilidade entre migrantes e moradores antigos estabelecidos na localidade. Percursos e Analises Descrevo as Opções Metodológicas utilizadas, como se deu o estudo do perfil das professoras migrantes e a organização sócioespacial da cidade, na qual se configuram aspectos de segregação espacial e social. É tão nítida a divisão da cidade em três grandes blocos de bairros – cada um servindo de nicho para abrigar os indivíduos classificados de acordo com o seu poder aquisitivo –, que olho para eles como se fossem “ilhas”. Assim, para melhor analisar as interações e as contradições que fazem parte da vida das professoras migrantes, adotei o conceito simbólico de “ilha”, designando para cada conjunto de bairros um nome-fantasia: Ilha I: Campo Real; Ilha II: São Lourenço; Ilha III: Recanto do Bosque. Para melhor situar as relações de poder e de sociabilidade faço uma leitura da divisão social da cidade em: (Ilha I: Campo Real), 4 (Ilha II: São Lourenço) e 5 (Ilha III: Recanto do Bosque), apresento um breve estudo da construção social doethosprofissional no magistério de Campo Verde, dadas as circunstâncias de ingresso na carreira das professoras migrantes e a interação social dessas profissionais residentes nas três partes em que, simbolicamente, dividi o município. Objetivando responder às perguntas principais da pesquisa, busco apreender, nos relatos das entrevistadas, no universo de cada “ilha”, os motivos impulsionadores da migração, como se deu o encontro com o outro na fronteira e as razões que levaram essas migrantes a optar pela carreira do magistério. Considerações Finais Saudades do cerrado, De saudade morri, nos campos da monocultura. A paisagem tomava a fumaça pulverizada, que alimentava o céu azul, com o seu veneno pálido. Fotografei o medo da terra vermelha e suas trêmulas crateras. Entorpeceu a lembrança dos campos, forrados de arbustos e pétalas. Lembrei do voo coletivo e rasante das garças seguindo em bandos sem rumo e veredas. Acenavam distante a sempre viva,o ipê, o aricá, asibipiruna, a chuva-de-ouro, o cambará. Naquele campo árido não se ouve o lamento cristalino das cachoeiras. Apenas uma ema divaga na solidão desértica. (Maria das Graças Campos. Saudades do cerrado) Campo Verde pode ser considerada a terra dos povos Bororo, expulsos de seu território, e hoje vivendo um processo de aculturação na reserva de Mururé Sangradouro, gerenciada pela Missão Salesiana. Sacrificados para dar lugar ao avanço do tão famigerado ‘progresso’ – que traz consigo suas máquinas, seus conceitos e práticas predadoras de lidar com a terra e com os recursos naturais –, a voz desses povos ainda ressoa nas narrativas das professoras, revelando-nos que, para eles, restam apenas os estereótipos e versões preconceituosas: Até hoje se vê muita crítica em relação ao índio. Eles aqui acham que os índios querem muita terra, que são preguiçosos, que não trabalham bem. Acham que a área dos índios é muito extensa (Professora Kl). Confirma-se, assim, a ausência de conhecimento quanto à verdadeira relação do índio com a terra e sua forma de cultivá-la unicamente para sua sobrevivência, o que nos faz estender o olhar para as regiões de fronteira, onde os conflitos do passado e os em curso no presente estão intimamente ligados à ocupação, e apropriação do espaço físico. Em Campo Verde, chama-nos a atenção a simbologia representada pela Rodovia BR-070 no município. Construída para ligar o estado de Mato Grosso ao estado de Goiás e ao restante do país, ironicamente ela representa um marco divisor para os moradores de Campo Verde: os que residem na parte superior esquerda da rodovia são os que detêm melhores condições econômico-financeiras, daí sendo considerados (por eles mesmos e demais habitantes do município) como os de status social superior, de maior prestígio, ocupando o andar superior na pirâmide social; já àqueles que ocupam o ‘outro lado’ da BR-070 é reservada a inclusão nas classes que detêm menor poder aquisitivo, considerados pelos “de cima” como seres “inferiores”. Entretanto, convém ressaltar que esse marco ou linha divisória não é meramente simbólica. Ela é real, tanto no sentido geográfico quanto no cotidiano das pessoas de Campo Verde. À parte de “cima” não faltam serviços de infraestrutura. Para os que residem na parte de “baixo”, são escassos tanto estruturas públicas quanto bens e serviços. Elias e Scotson (2000) argumentam que a cumplicidade e os laços mútuos resultantes de processos grupais passam como invisíveis aos recém-chegados, que, de início, percebem os antigos residentes como pessoas iguais a eles e nunca entendendo muito bem as razões de sua exclusão e estigmatização. Por outro lado, os antigos residentes só conseguiam explicá-las em termos de seus sentimentos imediatos, de sua sensação de pertencer a uma parte superior da vizinhança, onde contam com atividades de lazer, instituições religiosas e uma vida política local apreciada por todos, não desejando misturar sua vida particular com pessoas consideradas por eles de áreas inferiores da localidade, às quais viam como menos respeitáveis e menos cumpridoras das normas por eles instituídas. A existência na cidade um grupo de educadores que reside há mais tempo no local e a precariedade das agências públicas em normatizar e oferecer referências para o bom desempenho dos profissionais da Educação fazem com que grupos estabelecidos e que se apresentam como os que reúnem maiores competências na área acabem impondo regras e normas e até intimidem as professoras recém- chegadas ao município. Como se não bastasse a distinção espacial e social em Campo Verde, são reproduzidos comportamentos estigmatizastes e segregadores, bem como reveladores de preconceito de cor e de raça: Quando cheguei aqui, que é uma cidade formada por gaúchos e paranaenses, lembro que um colega me alertou: “Toma cuidado com os gaúchos, que os gaúchos não gostam de pretos”. Não liguei muito. Tenho uma cor diferente, mas não me considero preta. Depois, ouvi de uma professora: “Toma cuidado com os gaúchos, eles são racistas”. Quando cheguei, só ouvi esta conversa (Professora Kl). Sob essa perspectiva e admitindo os objetivos propostos neste trabalho – a pesquisa privilegia aspectos atinentes ao processo migratório –, busquei responder, com base nas análises do material empírico, às três perguntas-pilares para o resultado da pesquisa: Por que migrou? Como foi o encontro na fronteira? Por que se tornou professora? No que se refere às justificativas para a migração – Por que migrou? –, das sete professoras que residem em Ilha I: Campo Real, três migraram junto com a família, ainda na infância, para atender ao desejo dos pais de ampliar as propriedades familiares. Quatro professoras migraram já na fase adulta, sendo que, para duas delas, os motivos giraram em torno da procura por melhores oportunidades de trabalho, enquanto as outras duas migraram em busca de melhor clima que o de origem, para atender a problemas de saúde. Quanto às integrantes da Ilha II: São Lourenço, das sete professoras entrevistadas, apenas uma migrou para Campo Verde na infância, acompanhando a família. Seis migraram já na fase adulta. Destas, duas migraram em busca de melhores oportunidades de trabalho; duas, para acompanhar o marido; uma, passou em concurso público para o magistério; uma, por motivos de saúde, procurando melhor adaptação climática. Dentre as integrantes de Ilha III: Recanto do Bosque, cinco migraram para Campo Verde já na idade adulta. Destas, quatro porque passaram em concurso público para o magistério e uma para acompanhar o marido que estava à procura de trabalho. Apenas uma migrou ainda na infância, para acompanhar os pais que estavam à procura de oportunidades de trabalho. Conforme se observa, diversos motivos impulsionaram o deslocamento dessas famílias para Campo Verde, destacando-se o desejo de ampliar as propriedades familiares e a procura por melhores oportunidades de trabalho. Com relação à pergunta – Como foi o encontro na fronteira? –, para as professoras migrantes de Ilha I: Campo Real, os problemas enfrentados por elas, bem como por seus familiares, na chegada a Campo Verde, foram de ordem infraestrutural local, como ausência de asfalto e de água encanada, estradas, escolas e hospitais. Algumas sofreram bastante com o isolamento e a falta de comunicação. Já para as professoras de Ilha II: São Lourenço, os problemas se relacionaram à questão da sociabilidade e da convivência humana, quando eram moradoras de Ilha I: Campo Real. Diante da impossibilidade de uma convivência saudável e igualitária no espaço inicialmente ocupado, decidiram pela reconversão profissional, rompendo com padrões e normas estigmatizantes e segregadoras com os quais se depararam em Ilha I: Campo Real. Entretanto, pelo que observamos pela análise dos relatos, quem sofreu com posturas preconceituosas e ausência de interlocução, que impediam a inserção social na cidade, foram as professoras de Ilha III: Recanto do Bosque . Elas relatam que foram submetidas a crivos e seleções internas nas escolas em que atuam, mesmo sendo concursadas. Sofreram pressão, preconceito e discriminação, tanto na cidade quanto no ambiente escolar. As docentes migrantes argumentam que vêm superando essas barreiras pela competência demonstrada no trabalho educativo. Em Campo Verde, há distinção entre antigos e novos moradores. As barreiras humanas também existem, já que são demarcados lugares e posições superiores e inferiores e as pessoas que ali chegam são consideradas “eles”, como se não fizessem parte do lugar. Quanto aos motivos que influenciaram a escolha da profissão docente, respondendo, assim, à terceira e última questão da pesquisa – Por que se tornou professora? –, das sete professoras entrevistadas em Ilha I: Campo Real, três admitem ter sido influenciadas pela família, uma abraçou a profissão para resolver uma situação de emergência e três optaram pela carreira do magistério apenas em um segundo momento de suas vidas, em vista de falta de alternativa. Nesse grupo encontramos as professoras pioneiras da cidade, que impõem certo ethosprofissional às professoras novatas e recémchegadas. Diferentemente das demais docentes, exercem suas funções nas escolas situadas no centro da cidade, atuando nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio Das sete integrantes de Ilha II: São Lourenço, duas optaram pela carreira docente para garantir autonomia financeira; duas, por admiração a pessoas da família, duas por admiração a professores e uma que, desde pequena, já demonstrava gosto e habilidade para exercer a profissão. Nesse grupo, além da incidência de um maior número de professores na família, houve o estímulo dos pais no decorrer da escolaridade. Ressalta-se, também, o fato de a maioria das professoras desse grupo ter optado pelo magistério ainda na juventude. Analisando as integrantes de Ilha III: Recanto do Bosque, onde encontramos a totalidade das professoras que atuam na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, verificamos que das seis professoras entrevistadas, quatro optaram ainda na infância pela carreira do magistério, objetivando autonomia financeira para contribuir com a renda familiar; uma decidiu ser professora em virtude de uma reprovação sofrida nas séries iniciais da escolarização; uma outra admite que foi a admiração por seus professores que a levou ao magistério. Um dos grandes desafios deste trabalho foi buscar compreender as razões que movem uma escolha profissional. Talvez tenha sido a pergunta mais subjetiva da pesquisa: por que as professoras de Campo Verde se tornaram o que é? Antes de responder a essa pergunta, outra a antecede: o que é o professor? Nóvoa (1991) salienta que, em tempos atuais, a expressão “O professor é a pessoa” merece de novo ser ouvida, acrescentando que “uma parte importante da pessoa é o professor”. Ele enfatiza: “Estamos no cerne do processo identitário da profissão docente que, mesmo nos tempos áureos da racionalização e da uniformização, cada um continuou a produzir no mais íntimo da sua maneira de ser” (p. 15). Os relatos das professoras migrantes de Campo Verde me permitiram compreender a singularidade na convivência social. Ouvindo a história de vida dessas professoras, encontrei a versão da história que não foi narrada pelos meios oficiais. Quando a história oral nos acena para a natureza do fascínio, [...] nos dá a chance, ou ilusão, de surpreendermos, um pouco que seja, a impossibilidade de assistir a um filme do passado. Quando isso acontece, é porque nela encontramos a vivacidade do passado, a possibilidade de revivê-lo pela experiência do entrevistado. Não é à toa que a isso muitos dão o nome de história (ou memória) viva (ALBERTI, 2007, p. 14). Em síntese, seria pertinente ressaltar o entendimento de Fonseca (1997), quando afirma que, no Brasil, as pesquisas e os estudos sobre os professores são incipientes. Observa-se que estão muitas vezes focados em áreas específicas e categorias da atuação docente, necessitando estudar a vida dos professores e as suas interações no cotidiano escolar. Tais iniciativas poderiam melhorar a compreensão dos fenômenos educativos e levar ao questionamento do currículo, de suas invisibilidades e, às vezes, de suas verticalidades. Estudar percursos de professores poderia colaborar, ainda, para refletir posições hierarquizadas fortalecidas pela organização escolar alimentando as relações de poder eivadas de idiossincrasias que, na concepção de Bordignom e Gracindo (2008), dizem respeito à maneira peculiar, singular, própria de cada um ver, sentir e interpretar os fatos e o mundo. 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