O Serviço Social na área da Habitação- da tutela a mediação Maria de Fatima Cabral Marques Gomes** Introdução Na história do Serviço Social é consenso o reconhecimento da vinculação da emergência da profissão à questão social. No entanto, conforme assinala Netto (1992), as particularidades em relação ao surgimento da profissão não podem ser apanhadas sem uma contextualização da questão social de modo a identificar suas peculiaridades no âmbito da sociedade burguesa fundada na organização dos monopólios. Desde sua emergência no Brasil nos anos 30, no contexto do capitalismo monopolista, o Serviço Social vem delineando sua intervenção através das diferentes configurações que a questão social tem assumido no país. Assim, as distintas formas de práticas dos assistentes sociais encontradas em cada período histórico estão relacionadas aos novos contornos e às formas de percepção da questão social, numa expressão que reflete a correlação de forças entre atores diversos que disputam a hegemonia de tal percepção, entre os quais julgamos merecer destaque aqueles diretamente envolvidos nas elaborações das políticas de assistência, a população usuária e a própria categoria dos assistentes sociais. A atuação destes últimos se expressa em projetos, programas e práticas institucionalizadas, reconhecendo-se o assistente social como o profissional da ajuda, do auxílio, da assistência, que desenvolve ação pedagógica, distribui recursos materiais, atesta carências, realiza triagens, confere méritos, orienta e esclarece a população quanto aos seus direitos, aos serviços, aos benefícios disponíveis, que administra recursos institucionais destinados às classes mais desfavorecidas da sociedade (YAZBECK, 1999). * Doutora em Serviço Social, professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Favela e Cidadania www.ts.ucr.ac.cr 1 Dessa forma, o assistente social desenvolve, na divisão sócio-tecnica do trabalho coletivo atividades relacionadas à prestação de serviços e à ação educativa (político/ideológica). A dimensão educativa pode se realizar em duas perspectivas: 1) enquadramento disciplinador destinado a moldar o cliente em sua inserção institucional e na vida social;2) fortalecimento dos projetos e lutas das classes subalternizadas na sociedade. Criando condições materiais e espirituais para a sobrevivência das classes populares o assistente social junto com outros profissionais participa do processo de reprodução social (YAZBECK, 1999). Neste trabalho, a partir desse contexto mais geral onde se insere o Serviço Social no Brasil, temos como objetivo configurar historicamente a prática do Serviço Social na área da habitação, especialmente a que se desenvolveu junto as favelas do Rio de Janeiro, através de uma pesquisa bibliográfica e documental, destacando três inflexões fundamentais. A primeira se desenvolve no contexto do capitalismo monopolista orientado pelo modo de regulação keynesiano-fordista. O período do segundo pósguerra assinala a instalação da Guerra Fria onde a ameaça comunista pairava sob as favelas cariocas. Nesse momento, a prática profissional na área da habitação no contexto das favelas cariocas é caracterizada pela tutela exercida através da viabilização de serviços concretos e da ação educativa na perspectiva de enquadramento disciplinador. A segunda inflexão observada se conforma substituição de importações e com com o esgotamento do modelo de agravamento da questão social, na década de 60, na América Latina, através do movimento de renovação do serviço social quando essa prática passa a se articular aos dos movimentos sociais visando o fortalecimento dos projetos e lutas das classes populares na sociedade tendo como referência a transformação social e os direitos de cidadania. No atual momento, configura-se a terceira inflexão na prática do serviço social na área da habitação com a reestruturação produtiva, a globalização da economia e a orientação neoliberal do Estado brasileiro que leva a uma restrição dos direitos sociais. Novos desafios são postos pela www.ts.ucr.ac.cr 2 crescente exclusão social. As alternativas de atuação profissional precisam ser conectadas às possibilidades de aprofundamento da democracia, onde se destacam os movimentos sociais que devem ter como prioridade a distribuição prévia de renda já que o processo de assalariamento em massa não se coloca mais como instrumento de integração cidadã. O Serviço Social na área da habitação- o exercício da tutela No Brasil, o Serviço Social “surge da iniciativa particular de grupos e frações de classe que se manifestam principalmente, por intermédio da Igreja Católica” (Iamamoto & Carvalho, 1993: 129). A influência da Igreja Católica vai ser marcante no que diz respeito a formação e a prática profissional do assistente social, nesse primeiro momento. A intervenção do Serviço Social em relação à questão social é marcada pela ótica da Igreja Católica e se caracteriza por uma visão moralista sobre a questão social1. Nessa perspectiva coloca-se sob a responsabilidade individual o conjunto de problemas vivenciados pelos sujeitos tanto aqueles evidenciados através de problemas psicológicos como aqueles que se revelam por meio de condutas morais inadequadas. Essa Vasconcelos (2000) movimento higienista influência da Igreja, conforme observa incorpora as abordagens e a ação política do 2 numa relação de complementariedade e de demarcação de áreas de competência3. “O Serviço Social doutrinário católico brasileiro, inspirado diretamente no serviço social belga e francês, além de 1 O discurso de Mancini é bastante revelador sobre essa concepção de questão social enquanto questão moral. (...) A questão social é fundamentalmente uma questão moral (...)A crise que sofre o mundo moderno (...)não é em primeiro lugar, de natureza econômica e política; é uma crise profunda da vida espiritual...”( Mancini apud Vasconcelos, 2000:166) 2 O movimento higienista que tem suas origens ligadas à medicina social no século IXX e a psiquiatria na França, reflete uma mudança substantiva no campo da psiquiatria que até então se centrava no estudo e descrição dos sintomas e sinais visíveis da doença para sua etiologia: suas causas e sua gênese. A profilaxia compreende a partir daí o combate das causas dessas doenças. Esse combate não deve ser realizado apenas pelo médico, mas também por todos os que possam Ter uma ação junto às massas. 3 Segundo Jurandir Freire Costa, (...) o moralismo católico (...) parece, de longe o fator decisivo na elaboração da ideologia moral da LBHM (Liga Brasileira de Higiene Mental)” (Costa, apud Vasconcelos, 2000). www.ts.ucr.ac.cr 3 ter embutida um influência higienista indireta em suas bases conceituais e metodológicas, abriu espaço para uma formação higienista explícita e direta no currículo de suas escolas” (Vasconcelos, 2000: 152). Essa influência no currículo das escolas4 só vai ser revertida com a reforma curricular em 1970, já que mesmo após os anos 40, com a incorporação das formulações norte americanas as marcas do higienismo permanecem. O higienismo, portanto, perpassou tanto o Serviço Social de cariz franco-belga como o norte americano. Na área de habitação a influência da perspectiva franco-belga e norteamericana, na prática dos assistentes sociais em favelas, se revela a partir dos anos 40 com o aumento da favelização5 decorrente da intensificação do processo de industrialização que atraiu um grande número de migrantes das regiões mais pobres do país afetadas pela seca. Os assistentes sociais são chamados a participar na solução desse “problema” desenvolvendo uma prática de caráter tutelar exercida através da ação educativa e da viabilização da assistência e de outros serviços concretos. Essas requisições profissionais tradicionais faziam do assistente social um agente útil no disciplinamento dos cidadãos, exercendo a tutela ou o paternalismo para que as pessoas se enquadrassem e se integrassem no circuito constituído. Nesse trabalho educativo realizado pelo Serviço Social a forma inapropriada de utilização dos recursos da casa justificavam, de alguma maneira, a utilização das idéias do movimento higienista, ao mesmo tempo que justificavam a manutenção de certas populações à margem do parque imobiliário. Assim, essas populações eram consideradas inadaptadas, incapazes, dependentes, o que exigia uma intervenção social. Essa interve nção profissional era fragmentada constituída de ações pontuais e localizadas, fora de um contexto de políticas sociais mais amplas 4 Vasconcelos (2000) observa que as disciplinas de higiene geral, do trabalho e higiene mental só forma retiradas do currículo após a reforma curricular de 1970. 5 Ainda que as primeiras favelas no Rio de Janeiro datem do final do século XIX, após a Guerra de Canudos através de seus ex-combatentes que não foram atendidos pela promessa do governo de construir casas para eles, o processo de favelização se consolida com a reforma Urbana de Pereira Passos no início do século XX e acentua-se nos anos 30. www.ts.ucr.ac.cr 4 que ampliassem os direitos de cidadania e garantissem aos habitantes das favelas o mesmo estatuto de cidadania dos habita ntes da cidade formal. Essa prática tradicional incrementava a dependência de grupos cada vez maiores da população em relação aos serviços sociais públicos para o atendimento de suas necessidades, particularmente no que se refere às condições de vida no espaço urbano. No Rio de Janeiro, os assistentes sociais desenvolveram suas ações na interior de instituições criadas pela Igreja Católica como Fundação Leão XIII, instituição que tinha como objetivo maior o controle político da população favelada, apesar de no seu discurso recorrer a idéia de democracia e de promoção da vida associativa nas favelas e a Cruzada São Sebastião (BURGOS, 1999). A ação do Serviço Social, no interior dessas instituições na perspectiva tradicional, se organiza de forma a colocar essa população favelada fora das regras estabelecidas na cidade formal no que diz respeito à propriedade do imóvel. No que diz respeito à utilização da moradia o acompanhamento tradicional repousa sob o postulado de uma relativa incompetência do morador de favela em habitar uma casa por sua incapacidade de gerir corretamente os encargos financeiros referentes a sua moradia ou pela forma de habitá-la. Trata-se, então, de assistí-lo para que ele aprenda ou reaprenda as normas de conduta necessárias para utilizar de maneira “adequada” sua moradia. Esse trabalho se intensificou com a ação dos assistentes sociais nos programas de remoção de favelas, promovidas durante o regime militar, desenvolvidos sobretudo na segunda metade da década de 60, através da Coordenação da Habitação de Interesse de Classe Social da Área Metropolitana do Grande Rio (Chisam). Cabia à Chisam a tarefa de garantir eliminar as favelas no Rio de Janeiro. Para isto, essa instituição optou por uma política de remoção de favelas para lugares afastados do perímetro urbano em lugar de melhorar e urbanizar as favelas. O trabalho dos assistentes sociais nos programas de remoção de favelas se realizava www.ts.ucr.ac.cr 5 através da formação de um consenso em torno destes programas que atendia a fortes interesses econômicos dado que liberava lotes em áreas valorizadas no centro da cidade para usos mais lucrativos como hotéis, edifícios de apartamentos. Por outro lado, essa política habitacional estimulava a indústria privada da construção civil. Essa prática tradicional partia de um pressuposto equivocado já que não se tratava de acompanhar pessoas que estavam privadas de uma moradia porque seriam incapazes de obter uma habitação ou de utilizá-la. Na realidade, a favela constitui a principal alternativa de sobrevivência das classes populares que, mesmo quando inseridas no mercado formal de trabalho, recebem salários insuficientes para suprir suas necessidades básicas. Na medida em que foram se multiplicando, perderam sua marca de “anomalia” urbana, tornaram-se uma alternativa de moradia “normal” para as populações de baixa renda, inscrita na lógica do capitalismo dependente (BASTOS & GOMES, 1994). Ainda que a favela se inscreva na lógica do capitalismo dependente é considerada como parte informal da cidade informal, pois não se conforma às normas legais de apropriação do solo urbano referentes à cidade formal, e seus moradores, por conseguinte, não gozam dos direitos de cidadania garantidos aos habitantes da cidade formal. Estudos críticos sobre as favelas refutam a condição marginal de seus moradores, ressaltando o processo de marginalização ao qual são submetidos pela sociedade6. Afinal, a industrialização no Brasil acarretou um processo de urbanização veloz e radical que, atraindo as pessoas do meio rural para o meio urbano, fez com que essas populações incorporassem rapidamente os padrões de conforto urbano da sociedade moderna. O questionamento sobre essa prática profissional tradicional inicia-se com o movimento de Economia e Humanismo liderado pelo padre dominicano Luis Joseph Lebret que encontra terreno fértil para a formação em urbanismo de jovens militantes católicos onde se combina 6 a um Ver a esse respeito: (PERLMAN, 1977: 235) www.ts.ucr.ac.cr 6 pensamento reformador, formulado a partir do conceito de solidariedade e o desenvolvimento de uma metodologia de pesquisa empírica vinculada à ação. Sua vinda, em 1947, ao Brasil gerou anos mais tarde uma nova possibilidade de trabalho profissional numa perspectiva de transformação social. Após haver fundado no período da guerra o movimento o movimento Economia e Humanismo o padre Lebret participa das Nouvelles équipes internationales que lutavam pela edificação de uma Europa democrata-cristã, ao mesmo tempo em que engaja seu movimento no diálogo com o marxismo. O contato de Lebret com a América Latina imprime nova direção aos estudos do Movimento Economia e Humanismo na medida que inclui a temática do subdesenvolvimento, sob a influência de Josué de Castro (LEME, M.C.S.& LAMPARELLI, C.M., 2001). A influência de Lebret no Serviço Social se realiza através de José Arthur Rios que desenvolve os primeiros trabalhos de pesquisa, em 1952, na recém criada fundação Getúlio Vargas. Membro da equipe de Economia Humana Rios tornara -se em 1952 coordenador da campanha nacional de educação rural no quadro do Serviço Social fundado por Vargas em junho deste mesmo ano. O trabalho de Rios também se destaca no âmbito governamental através do Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações Anti-Higiênicas- SERFHA. Sob o comando de José Arthur Rios, o Serfha procurou, entre 1961 e 1962, a aproximação com as favelas, estimulando inclusive a formação de Associações de Moradores – até maio de 1962, criaram-se mais 75 associações. Para Perlman (1977), a política oficial em relação às favelas, nesse período, por um breve espaço de tempo, humanizou-se. Em relação aos métodos de pesquisa de Lebret, pode-se dizer que ainda que estes continuassem marcados por um forte conteúdo moralizador relativo à ordem social cristã eram construídos de modelos científicos para o conhecimento da sociedade transpostos das ciências naturais, preocupandose com a ação imediata. No entanto, esse conteúdo em contato com a realidade brasileira vai se transformando. Exemplo dessa transformação é a www.ts.ucr.ac.cr 7 construção de um novo conceito de periferia entendido não mais como área resultante de uma centro em contínua expansão, mas como parte e resultado de um processo desigual de urbanização. Outra mudança importante está diretamente vinculada a estas primeiras é a formação de um profissional engajado tanto no conhecimento profundo de cada situação urbana como também comprometido com a sua transformação. A filosofia de padre Lebret é a de que não se pode separar ciência e técnica e nem pesquisa do engajamento político. A pesquisa deve ser parte da ação de quem vai executar o plano. A passagem de uma metodologia de pesquisa para uma proposta de intervenção é feita pela caracterização precisa das necessidades, possibilidades e prioridades de todo o tecido urbano e toda a população enquanto modo de vida e condições de existência. Assim, o padre Lebret constroi uma nova vertente do urbanismo em termos políticos e ideológicos cuja influência chega até aos assistentes sociais (LEME, M.C.S.& LAMPARELLI, C.M., 2001). A conformação de uma nova prática a partir do Movimento de Renovação do Serviço Social na América Latina. Embora as experiências inspiradas em Lebret já sinalizassem uma mudança na prática profissional é com o agravamento da questão social produzido pelo padrão de desenvolvimento dependente e associado que na década de 60, na América Latina se redefine, sob a égide do movimento de renovação do serviço social, a prática profissional na área de habitação. Neste contexto observa-se um avanço no processo de favelização realizado fundamentalmente pelo deslocamento dos moradores da cidade formal para essas áreas. O movimento de renovação no Brasil, conforme observa Netto (1994) compreende três direções: a modernizadora, a de reatualização do www.ts.ucr.ac.cr 8 conservadorismo e a de intenção de ruptura. Embora muitos trabalhos 7 tenham sido realizados na perspectiva modernizadora no contexto do Regime Militar é a perspectiva de intenção de ruptura que vai gradativamente se colocando como hegemônica. No Movimento de Reconceituação na América Latina, bem como no primeiro momento relativo a renovação do Serviço Social na perspectiva de ruptura, o Serviço Social contesta a inserção institucional como um espaço para uma prática transformadora, buscando práticas alternativas em comunidades. No segundo momento do processo de renovação o assistente social como mediador, obtendo legitimidade vai se inserir nesse processo no conjunto de mecanismos reguladores no âmbito das políticas sócio-assistenciais, desenvolvendo atividades e cumprindo objetivos que lhes são atribuídos socialmente e que ultrapassam sua vontade e intencionalidade. Ainda que o movimento de renovação comporte diferentes tendências, os assistentes sociais redimensionam sua prática no sentido de uma atuação mais ampla e, na perspectiva de intenção de ruptura, essa prática possui um sentido político definido na direção de uma transformação social que atenda os interesses dos segmentos espoliados da sociedade. Neste sentido, observa-se, na área da habitação, e especialmente no trabalho que os assistentes sociais desenvolvem em favelas, uma inflexão dessa prática que passa a se articular com as lutas dos movimentos sociais tendo como referência, em alguns casos, os direitos de cidadania, em outros, a organização da classe trabalhadora com vista à revolução socialista. No bojo do processo de redemocratização da sociedade brasileira, a partir da segunda metade da década de 70, o Código de ética do assistente social, a democratização do debate profissional impulsionado por suas entidades representativas e os resultantes da revisão currricular dos anos 80 contribuíram para construir um projeto profissional em uma outra direção 7 Ver a esse respeito trabalho do Congresso Brasileiro de Serviço Social realizado no Rio de Janeiro em 1965: Experiências de bem-estar social para promoção de elementos à margem do processo de desenvolvimento. São Paulo, MUD, 1965. www.ts.ucr.ac.cr 9 social, contraposta a anteriormente mencionada abrindo novas alternativas para a prática profissional inclusive na área de habitação. A participação dos assistentes sociais no Movimento Nacional pela Reforma Urbana 8 - MNRU e em outros fóruns que tomaram parte da formulação da Constituição de 88, contribuiu para consolidação de uma prática do serviço social numa perspectiva mais ampla, na medida em que com a garantia de universalização dos direitos de cidadania na carta constitucional alargaram-se os espaços de prática profissional com a incorporação de modificações importantes pleiteadas pelo movimento popular no aparato legal do país delineando-se novos contornos para a gestão pública e a participação popular. Esses novos contornos implicaram na democratização do Estado e na descentralização da gestão com o objetivo de incorporar a participação da sociedade no planejamento e nas decisões governamentais. Nessa conjuntura, a política de investimento urbano não pode mais se isentar às necessidades coletivas de consumo das classes populares e deve criar espaços formais para a participação dos movimentos organizados. Nessa perspectiva, no Rio de Janeiro surge o Programa Favela-Bairro materializando uma proposta de urbanização que apesar de suas limitações representa um avanço em termos da incorporação dos interesses populares na perspectiva de democratização da cidade. O trabalho formalmente previsto para o assistente social no programa visava garantir a participação popular. É importante ressaltar que essa participação não foi assegurada em todos as favelas onde o Programa foi implementado. No entanto, algumas experiências foram feitas articuladas aos movimentos sociais no sentido de fortalecer a luta dos moradores de favelas pela cidadania. 8 O MNRU foi responsável pela elaboração da emenda popular ao projeto constitucional onde o eixo principal dado foi construir novos princípios e instrumentos de planejamento e gestão das cidades. www.ts.ucr.ac.cr 10 Nas favelas de Praia da Rosa e Sapucaia na Ilha do Governador, Rio de Janeiro o trabalho dos assistentes sociais se fez com a perspectiva de superar as limitações do Programa 9, tendo em vista que suas ações na prática possuem um escopo reduzido na medida em que se restringem às intervenções físicas, descuidando de aspectos econômicos e sociais importantes. Durante a execução do Programa nas favelas citadas engajaram-se, inclusive na solução de conflitos durante a intervenção física do projeto, não apenas moradores locais, mas também membros/representantes do Partido dos Trabalhadores e do Movimento Verde que se colocaram como atores importantes nos momentos de negociação do projeto com a Secretaria Municipal de Habitação. Trabalhos nessa direção demonstram as novas possibilidades de prática a partir do movimento de renovação do Serviço Social, prática essa que encontra-se ameaçada face à nova conjuntura que atravessa o país hoje. Alternativas de ação profissional na área da habitação na contemporaneidade. A crise sem precedentes acarretada pela reestruturação produtiva e pela globalização da economia, que se reflete na retração do Estado de Bem-Estar Social e se materializa através dos fenômenos de precariedade e de pobreza, assinala exaustão do padrão capitalista monopolista fundado num regime de acumulação regido pelo modelo conhecido como fordistakeynesiano. No capitalismo monopolista contemporâneo, a acumulação toma como modelo a acumulação flexível. Esse quadro de questões agravam-se com o neoliberalismo, pela restrição dos direitos sociais. Novos desafios são postos pela crescente exclusão social sendo acompanhada, pelos críticos, de uma discussão sobre 9 Ver a esse respeito: BASTOS, M. D. F. ; GOMES, M. F. C. M. & www.ts.ucr.ac.cr 11 as metamorfoses no processo de trabalho e os novos sujeitos revolucionários. Essas novas mudanças colocam a necessidade de se reafirmar a direção da prática conformada pelo movimento de renovação do Serviço Social, na direção de intenção de ruptura na perspectiva dos interesses dos segmentos populares. As alternativas de atuação profissional passam a ser determinadas por novos processos econômicos e políticos devendo, portanto, ser conectadas às possibilidades de radicalização da democracia, do ponto de vista político e do ponto de vista das condições materiais de trabalho e de vida. Os movimentos sociais, a partir das conquistas dos direitos de cidadania, mesmo no quadro da democracia burguesa, colocam como prioridade a reinserção produtiva do trabalhador e a luta por sua autonomia crescente do capital, que pode passar pela redistribuição prévia da renda (saláriodesemprego, bolsa-escola, renda-mínima, em níveis moralmente aceitos pela sociedade10), ampliando as oportunidades de acesso universal à educação, à saúde, à habitação e ao trabalho relativame nte autônomo, já que a crise da relação salarial parece que não será jamais equacionada com o retorno da relação salarial universal, própria dos 30 gloriosos anos, vividos sob o fordismo. Acrescenta -se ainda o fato de que esta universalização do assalariamento, inerente a este regime de produção, e o Welfare State não foram plenamente efetivados na América Latina. Na medida em que extrapolam a dimensão classista identificada como a de atuação dos movimentos sociais mais antigos, os novos movimentos sociais (NMSs) politizam outros espaços da vida cotidiana, até então pouco enfocados. Lojkine (2000), com relação aos movimentos sociais contemporâneos, aponta sua originalidade como novas formas de luta de classe que se colocam como possibilidade de desenbocarem em novas FERNANDES, L. L. (1999) 10 Fazendo, através de uma batalha da opinião pública, uma forte crítica a programas que mais indignificam o país, tal qual o recentemente aprovado “bolsa-escola federal”, com o aporte de R$15, 00 (quinze reais) por aluno matriculado na Escola, perfazendo não mais de 3 crianças por famíla, ou seja, o aporte máximo de R$45,00 (quarenta e cinco reais), quantia que não é suficiente para seu proponente, o Presidente da República, ou seus assessores diretos, pagarem sequer uma refeição. www.ts.ucr.ac.cr 12 alternativas ao capitalismo. Essas novas formas de luta, ainda que partam do mundo do trabalho, implicam na conquista da opinião pública, no estabelecimento de coalizões com setores organizados da sociedade civil para atender os interesses de toda a sociedade. Novos desafios são postos à intervenção profissional que se deseja mais sintonizada com os reais problemas dos extratos mais espoliados da população. Com a globalização e a restrição dos direitos sociais impostas pelo neoliberalismo trata-se de garantir aos “excluídos” o acesso à habitação na atual conjuntura, em que a focalização das políticas sociais aponta para uma oferta cada vez mais restrita em termos de programas habitacionais, onde devem ser contemplados os mais carentes. Assim, o desafio consiste em construir as condições de acesso a habitação em situações de precariedade, dispondo de recursos limitados e instáveis. No fordismo a garantia dos direitos de cidadania foi fortemente vinculada à integração na relação salarial. Na medida em que a inserção produtiva no pós-fordismo tem se realizado através do mercado informal sem garantias de direitos de cidadania é necessário pensar em novas formas de assegurar direitos a essa população moradora de favelas. Nesse contexto, a importância ao acesso a direitos de cidadania, conforme observa Cocco (2000), reside no fato desta agora se colocar como sine qua non da integração produtiva.” (Cocco, 2000: 16). A partir dos processos de reestruturação produtiva e globalização, um novo estatuto de cidadania deve ser buscado através de uma regulação democrática da economia e da sociedade que posa permitir a universalização dos direitos, dos padrões de consumo e sobretudo da integração produtiva, daí a importância dos programas de redistribuição prévia de renda que podem contar com a participação do assistente social tanto na sua formulação como na sua execução. Não se trata apenas de oferecer soluções técnicas já que essa perspectiva de trabalho para o assistente social exige um posicionamento político. Implica em catalizar tensões, conflitos entre os diferentes interesses www.ts.ucr.ac.cr 13 em jogo de forma a esquematizá-los, sob a forma de um projeto ou uma proposta, incorporando o pensar coletivo sobre uma determinada problemática. Esse trabalho que envolve discussões com a população requer, por parte do assistente social, uma contribuição especifica no que diz respeito ao desvendamento de uma série de contradições presentes nos processos sociais. O engajamento político não se realiza no sentido de substituir o papel dos movimentos sociais ou de outros profissionais. Com esta postura o assistente social tem clareza que as mudanças se operam, sobretudo a partir dos sujeitos políticos coletivos e a regulação das disfunções sociais e dos desequilíbrios entre oferta e demanda de habitação, não são tarefas específicas dos assistentes sociais, mas de muitos outros profissionais. A ação do serviço social nessa perspectiva contempla não somente a assessoria aos movimentos organizados da população e suas entidades representativas, mas pode ainda ter como referência famílias e indivíduos envolvidos no processo. No trabalho com indivíduos ou grupos o assistente social não pode perder de vista o encaminhamento ou orientação que possibilite avanços na luta pela garantia de direitos de cidadania das populações mais espoliadas. Assim, no seu trabalho cotidiano junto a populações de favela o assistente social acolhe as pessoas ou famílias em processos de vulnerabilidade social, apreendendo suas dificuldades e procurando acompanhá-las na procura de soluções num processo que, mesmo que se inicie de forma individualizada, deve ser articulado aos movimentos sociais. Esse trabalho cotidiano possibilita a aproximação dos técnicos com o cotidiano dos moradores, aprofundando o conhecimento do assistente social sobre a realidade social. Essa aproximação se revela muitas vezes estratégica para o encaminhamento do processo de discussão coletiva e de articulação dos interesses particulares a interesses coletivos. Parte-se do princípio que as soluções de natureza individual não podem ferir aos interesses coletivos. www.ts.ucr.ac.cr 14 Assim, o papel central do serviço social é o de mediador dos interesses da população com a qual trabalha, que exerce sua prática de forma crítica, criativa e politizante (Iamamoto, 1999). Nessa perspectiva o serviço social não deve perder de vista a história de nossa formação social de tipo patrimonial caracterizada pela centralização absoluta do poder do Estado, que conseguiu impedir o fortalecimento da sociedade civil colocando obstáculos ao aparecimento de canais de representação dos interesses autônomos da sociedade. Mesmo após o processo de descentralização política desencadeado pela Constituição de 88, constata-se uma dificuldade de incorporar as aspirações e interesses das classes populares através de canais formais de participação junto ao poder público, daí a importância da mediação que se realiza através do trabalho do assistente social com o objetivo construir uma sociedade democrática em que se amplie e consolide a cidadania. Esta mediação comporta muitas dimensões, destacando-se a tarefa educativa, desta feita voltada para a socialização de informação como instrumento de questionamento da realidade social no sentido de possibilitar mudanças efetivas nessa realidade. O aspecto educativo que prioriza o trabalho com grupos sociais ou um trabalho coletivo, e direcionado para a transformação das condições geradoras de problemas sociais e culturais, que rebatem na área da habitação (VASCONCELOS, 1997). Nesse processo, a população com a qual se trabalha é solicitada para fornecer informações, ao mesmo tempo em que se trata de questionar, avaliar, correlacionar, analisar, interpretar, investigar, decidir sobre o seu cotidiano. Estão entre as funções do serviço social desburo cratizar o processo de implementação das políticas sociais, particularmente da política de habitação, possibilitar a reflexão, subsidiar a análise com novas informações no sentido de politizar as demandas. Dessa forma, ainda que não vivenciando a situação da população com que trabalha, pode auxiliá-la com o seu saber técnico, possibilitando, por parte da população incluída nesse processo, uma reflexão crítica e um posicionamento frente ao seu cotidiano. A busca de desvelamento das questões colocadas nesse trabalho envolve a população, não como um objeto a ser transformado, mas enquanto sujeito interessado, consciente, participante, ultrapassando práticas de www.ts.ucr.ac.cr 15 dominação e controle. O papel do assistente social nessa perspectiva é o de criar canais de participação para que as reivindicações da população possam ser encaminhadas. Embora trabalhosa, essa estratégia, pois supõe a organização da população em um processo que compreende avanços e recuos, alguns deles recuperados após discussões exaustivas, essa participação facilita a proposição de soluções alternativas em relação aos problemas relacionados a habitação e aos programas de urbanização planejados pelo Estado, enseja alianças e acordos de modo a legitimá-los. A experiência do processo participativo, na conquista de uma moradia, permite a construção de uma base de novos valores e posicionamentos frente à questão da habitação e da infra-estrutura urbana, essenciais à consolidação do direito a habitação. Essa proposta de trabalho exige, portanto, que se redimensione a participação para que ela ultrapasse sua perspectiva conservadora de processo de cooptação da organização e de mobilização das classes populares. Nesse sentido, a participação deve compreender estratégias cotidianas das populações com as quais trabalha cujo objetivo é ampliar seu espaço social, cultural e político no cenário da sociedade (IAMAMOTO, 1992). Não se trata de entender a participação numa perspectiva dualista em que ora é entendida como elemento de reprodução da ordem e ora e entendida como instrumento de transformação social. Segundo Iamamoto (1992), a participação popular contém elementos simultaneamente reprodutores e superadores da ordem independentemente dos agentes implicados no processo. Isso confere à participação e aos programas sociais um caráter ambíguo, tenso que incorpora as contradições próprias da vida social, configurando um novo processo. O novo também se revela em apropriar-se teórica e praticamente –e portanto, politicamente –das possibilidades reais e efetivas apresentadas em conjunturas nacionais particulares, resultantes do movimento social concreto. Essa apropriação se traduz em respostas profissionais criativas e críticas, dentro dos limites postos pela realidade (IAMAMOTO, 1992: 112). www.ts.ucr.ac.cr 16 A participação ativa da população, inclusive junto aos novos movimentos sociais, que se realiza no interior de espaços públicos, dá suporte às reivindicações coletivas e à condução de um projeto de sociedade mais igualitária, neutralizando inclusive os interesses contrários que podem interferir nesse processo. Sem descuidar de suas funções técnicas que devem ser reformuladas a partir da análise dessa nova conjuntura o assistente social deve explicitar seu posicionamento político quer na direção do trabalho educativo que realiza junto a população quer pela articulação desse trabalho aos movimentos sociais contemporâneos. www.ts.ucr.ac.cr 17 Bibliografia BASTOS, M. D. F. & GOMES, M. F. C. M. “Sobre o caráter Político das Associações de Moradores em Favelas”. In. 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