guia Vinho&Cia Ano 8 - Número 67 - R$ 10,00 ConVisão Peru nas Rotas do Vinho Onde Beber Melhor Perto das Atrações 10 Tops Sulamericanos entre 100 e 300 reais Champagne e o Luxo África do Sul e Cape Wine Entendendo Pratos Harmonizados ISSN 1982-8381 0067 O Guia para o Dia a Dia com Vinho aprecie com moderação Os Primeiros exploradores abriram mares, florestas e continentes Para você é mais fácil: só estamos convidando a abrir nossas garrafas A maior Equipe Especializada em Vinhos no País Vinho&Cia Regis Gehlen Oliveira Denise Cavalcante Didú Russo Editor Jornalista Confraria dos Sommeliers Adriana Bonilha Andréa Pio Euclides Penedo Borges Jairo Monson Colunista Jornalista e editora do guia Uai Diretor da ABS-Rio Médico e Escritor Álvaro Cézar Galvão Beto Acherboim João Lombardo Maria Amélia Flores Colunista Colunista Jornalista e sommelier Enóloga Carlos Arruda Custódio Sérgio Inglez de Souza Walter Tommasi Academia do Vinho Cartunista Escritor e consultor Consultor e Palestrante [email protected] São Paulo [email protected] São Paulo [email protected] São Paulo [email protected] Belo Horizonte [email protected] Belo Horizonte [email protected] São Paulo [email protected] São Paulo [email protected] São Paulo [email protected] Rio de Janeiro [email protected] Florianópolis [email protected] São Paulo [email protected] São Paulo [email protected] Garibaldi, RS [email protected] Porto Alegre [email protected] São Paulo Conteúdo Líquido Nas páginas Vinho&Cia desta edição... 14 Ano 8 - Número 67 www.jornalvinhoecia.com.br Presenteie com Sucesso! Editor Regis Gehlen Oliveira Publicação ConVisão Al. Araguaia, 933, 8o. andar Alphaville 06455-000, Barueri, SP Colaboradores 10- O Que Ler 12- O Que Faz o Sucesso 14- Que Vinhos Valem Ouro! 18- Nas Rotas do Vinho 18 Aprecie esTe livro sem moderação Adriana Bonilha / Álvaro C. Galvão Andréa Pio / Beto Acherboim Carlos Arruda / Custódio Denise Cavalcante / Didú Russo Euclides Penedo Borges / Jairo Monson João Lombardo / Maria Amélia Sérgio Inglez / Walter Tommasi Assinaturas e Propaganda (11) 4192-2120 [email protected] 34- Conhecendo o Brasil 36- Conhecendo o Novo Mundo 40- Conhecendo o Velho Mundo 44- Vinho na Academia 46- Beabá 48- Vinho É Arte 50- Faz Bem à Saúde? 52- O Que Harmoniza 56- O Que Há de Novo? 60- Nos Velhos Tempos 61- Vinho Tinta 40 8 Vinho & Cia é publicação da ConVisão referente ao mercado de vinhos e suas companhias naturais, como gastronomia, restaurantes, prazer, conhecimento, viagens e outras. Circula principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, nos principais restaurantes e lojas especializadas. Pode ser adquirido por assinaturas ou em bancas selecionadas. Os artigos e comentários assinados não refletem necessariamente a opinião da editoria. A menção de qualquer nome neste veículo não significa relação trabalhista ou vínculo contratual remunerado. Nas Festas de Fim de Ano Dê Este Livro • Como beber com moderação? • Como escolher? • Como e onde comprar? • Como agir nos restaurantes? • Como presentear? • Como receber em casa? • Como agir em coquetéis e eventos? • Como fazer networking? Associado à Vinho&Cia Descontos para Brindes de Empresas Pedidos: (11) 4192-2120, [email protected] 6 O Que Ler Livros Whisky de A a Y Helen Arthur Ed. Autêntica/Gutemberg 160 págs, R$35 Se o seu xodó é o velho elixir, convém ler esse Guia Perfeito para o bom apreciador. Um verdadeiro “armazém” que reúne escoceses, irlandeses, canadenses e americanos, até os destilados celtas do País de Gales e do... Japão! Além da história de cada espécie e suas propriedades gustativas, aromáticas e olfativas, a autora acompanha a viagem do leitor às centenas de destilarias. (Andréa Pio) 1000 Grandes Vinhos Que Não Custam uma Fortuna Jin Gordon Ed. Globo 352 págs, R$90 Tintos californianos tentadores; varietais menos festejados da Alemanha; heróis menos celebrados de Bordeaux; empolgantes brancos austríacos... eis apenas um aperitivo da recente obra, escrita por 19 especialistas e organizada por Jim Gordon, ex-diretor editorial da revista Wine Spectator, hoje editor da Wines & Vines. (Andréa Pio) O Livro da Cerveja Tim Hampson Ed. Globo, selo Estilo 362 págs, R$60 Parece escrito para o “cervejeiro nosso de cada dia”, do Oiapoque ao Chuí. Uns e outros se encantarão com o estudo cuidadoso sobre as mais de 800 cervejarias e os 1.700 rótulos que circulam nos cinco continentes, bem como as peculiaridades de cada um. Obra prima para estudiosos; roteiro seguro para simples apreciadores dessa bebida universal. Então, tim-tim! (Andréa Pio) 100 Receitas Sem Leite e Derivados Sabrina Sedlmayer Ed. Autêntica/Gutemberg 144 págs, R$32 Depois de aprender a lidar com severas restrições alimentares, a autora foi a fundo na memória culinária do Brasil e de outras culturas para oferecer um novo estilo mesmo para quem apresente a pré-disposição a lácteos. O livro se divide em quatro partes: “bolos e outras cias., comidinhas leves, pratos substanciosos e sobremesas para arrematar” (Andréa Pio) Vinho para o Sucesso Profissional Minidicionário de Enologia Regis Gehlen Oliveira e Didú Russo Ed. Vinho&Cia 128 págs, R$45,00 Traz dicas de como usar a bebida da moda no mundo dos negócios, na carreira e na política. É uma ferramenta indispensável para empresários, funcionários e executivos de todos os setores da economia. Explica de modo fácil como agir em coquetéis e eventos, receber em casa, escolher e dar vinhos de presente, entre outros assuntos do dia a dia. Roberta Malta Saldanha Ed. Senac Rio 184 págs, R$35 Não são apenas mais de 700 verbetes com o significado léxico específico de cada um, mas também suas correspondências em Inglês, Espanhol, Francês, Italiano e Alemão. Uma pequena enciclopédia, mais que fundamental. “Dá os mapas” para o claro entendimento da terminologia enológica e para o traquejo do apreciador nas boas rodas de “vinhaça”. (AP) 10 Vinho&Cia No. 67 11 O Que Faz o Sucesso Profissional 5 Vinho & Pizza é na Prestíssimo! Dicas para de 1 2 3 4 5 Dar um Vinho Presente Veja se a empresa do profissional para o qual você pretende dar um vinho de presente possui algum código de ética que vede ou restrinja o recebimento de brindes pelos funcionários Sonde a personalidade do presenteado. Há profissionais que podem não se sentir confortáveis ao receber um brinde. Para levantar isso, uma conversa informal pode ser suficiente. Não vá para o lado de vinhos inadequados. É quase regra geral que os rótulos para iniciação ou dia a dia, bens comuns em lojas e restaurantes, devem ser evitados para presentes. Lembre-se de que o seu gosto pode ser muito diferente do gosto do presenteado. Pense no dele e não no seu. Um tinto bem encorpado pode ser uma delícia para você, mas pode não ser agradável a ele. Se você não tem conhecimento suficiente sobre vinho para dar de presente, não hesite em pensar em uma consultoria especializada ou pegar dicas com sommeliers de lojas ou importadoras. Leia mais no livro Vinho para o Sucesso Profissional, de Regis Gehlen Oliveira e Didú Russo, com ilustrações do Custódio. Pedidos: [email protected], (11) 4192-2120 12 Vinho&Cia Wine Bar - Carta Variada - Taças especiais Local de Degustação do Vinho&Cia Al. Joaquim Eugênio de Lima, 1135, (11) 3885-4356, Jardins, São Paulo Que Vinhos Valem Ouro! R$ 1 R$ 175 10 Tops Sulamericanos entre 100 e 300 reais 100 Fabre Montmayou Grand Vin Garage Lot #21 Cabernet Franc Tipo: Tinto Fornecedor: Expand Produtor: Fabre Montmayou Uva: Não informado Safra: 2007 Origem: Argentina Região: Luján de Cuyo Tipo: Tinto Fornecedor: Premium Produtor: Garage Wine Co. Uva: Cabernet Franc Safra: 2009 Origem: Chile Região: Maipo Alto R$ 3 R$ 100 Polkura Block G+I Syrah ara dar a dica de bons vinhos sulamericanos de categoria top, com preços entre 100 a 300 reais, a equipe do Vinho&Cia provou 30 exemplares, encaminhados por importadoras e vinícolas brasileiras a convite do guia. O editor Regis Gehlen Oliveira e os colunistas Beto Acherboim e Denise Cavalcante, além dos convidados Alexandre Levy, Eliete Fernandes, Flávio Lantelme, Jane Levy, Jô Barros, Henrique Levy e Miguel Lopes, provaram tudo às cegas, sem conhecimento dos rótulos. Eles selecionaram 10 vinhos do total, que valem ouro! Acompanhe na sequência, por ordem de preferência. Tipo: Tinto Fornecedor: Magnum Produtor: Lagar de Bezana Uva: Syrah Cabernet Sauvignon Safra: 2007 Origem: Chile Região: Cachapoal Tipo: Tinto Fornecedor: Premium Produtor: Polkura Uva: Syrah Safra: 2007 Origem: Chile Região: Colchagua 14 No. 67 Vinho&Cia 4 130 Aluvion Gran Reserva P 2 15 Que Vinhos Valem Ouro! R$ 5 R$ 250 6 R$ 275 House Of Morandé Erasmo Tipo: Tinto Fornecedor: Max Brands Produtor: Sottano Uva: Malbec Safra: 2007 Origem: Argentina Região: Mendoza Tipo: Tinto Fornecedor: Expand Produtor: Morandé Uva: Cabernet, Franc, Merlot Safra: 2006 Origem: Chile Região: Maipo Tipo: Tinto Fornecedor: Franco Suissa Produtor: Caliboro Uva: Cabernet, Franc, Merlot Safra: 2010 Origem: Chile Região: Maule 7 R$ 110 10 135 De Lucca Rio Colorado Reserve Tipo: Tinto Fornecedor: Premium Produtor: De Lucca Uva: Não informado Safra: 2006 Origem: Uruguai Região: Canelones 8 260 Garage Lot #27 Carignan Las Almas Carmenère Tipo: Tinto Fornecedor: Premium Produtor: Garage Wine Co. Uva: Carignan Safra: 2010 Origem: Chile Região: Maule Tipo: Tinto Fornecedor: Max Brands Produtor: Chilcas Uva: Carmenère Safra: 2009 Origem: Chile Região: Maule 16 R$ 100 Judas Malbec R$ 9 Vinho&Cia No. 67 17 Nas Rotas do Vinho Peru Machu Picchu P ara você beber melhor e degustar uma bela viagem, o editor do guia Vinho&Cia foi ao Peru. Lá conferiu as principais atrações turísticas na rota dos incas e pesquisou os seus entornos. Agora traz aqui as melhores dicas sobre a região e uma seleção de locais onde aproveitar a bebida de Baco nas proximidades dos passeios. Cotações Onde Beber Excepcional local Muito bom local Bom local Local com atrativo Local onde beber Considera a carta, o serviço e o sobrepreço dos vinhos, além do nível de ambiente e cozinha 12 Serviço de vinhos a variedade vinhos baratos vinhos ícones taças e adega climatizada orientado por sommelier carta orientativa a sobrepreço Plazoleta Nazarenas, em Cusco lugares Onde Beber Melhor Perto das Atrações 18 Vinho&Cia No. 67 19 Nas Rotas do Vinho Quais as principais atrações do Peru? Se você pensou em primeiro lugar na cidade histórica de Machu Picchu... Acertou! É, sem dúvida, o principal ponto de atração para nós turistas do mundo todo, e está na denominada Rota dos Incas. Para chegar lá, é preciso passar por Lima e Cusco, onde descobrimos outras atrações, embora sem o mesmo impacto, e nos deparamos com várias surpresas. 1 Destino de mochileiros?... Acertou de novo! Há cerca de cinco horas de voo de São Paulo ou Rio de Janeiro, o Peru por muitos anos foi associado como destino de mochileiros, e continua sendo. Por outro lado, há nele hoje pontos de interesse para o gosto e o bolso mais refinado. Porém é bom saber que é um país de contrastes, onde o arrumado é exceção. Como é Lima? Nos bairros nobres de San Isidro e Miraflores há bons restaurantes com vinhos, hotéis, parques e museus de padrão internacional. Se você tem espírito histórico, duas pirâmides do tempo dos incas, bem conservadas, merecem ser visitadas: Huaca Huallamarca e Huaca Pucllana. Mas imagine esses dois bairros como sendo oásis cercados por casebres e edifícios mal acabados e conservados, em geral sem revestimentos e com as instalações elétricas com ninhos de fios aparentes, onde a poluição visual é total. Pensou? Pois é assim a maioria dos demais lugares de Lima, a capital do Peru, com cerca de 9 milhões de habitantes, quase do tamanho do Rio de Janeiro. Saindo do aeroporto em direção a San Isidro e Miraflores você entende bem como é: algo similar aos locais mais pobres da zona leste de São Paulo ou da Baixada Fluminense. São os contrastes da nossa América Latina. Onde Beber - Maras - Westin - San Isidro, Lima No moderníssimo e transado hotel 5 estrelas Westin, um restaurante classudo, com excelente cozinha e adega estupenda, com grande variedade do mundo todo. O ambiente traz diversas garrafas como decoração, de variados rótulos, algumas grandes com rolhas dentro. Os pratos são muito bem trabalhados e apresentados. Os preços dos vinhos são de 7 estrelas... Calle Las Begonias, 450, San Isidro, Lima Parque linear Bosque El Olivar, em Lima 2 Onde Beber - Astrid y Gastón - Miraflores, Lima O mais renomado restaurante do Peru, listado entre os melhores do mundo, tem carta extensa. Porém parece que toda essa fama vem do passado. Hoje ambientes têm cheiro de mofo, a maioria dos vinhos não está climatizada, o couvert chega junto com o prato e o menu não é inventivo. É bom, mas está longe dos bons de São Paulo e Rio. Mas como o Vinho&Cia não é Deus, você tem de conhecer. Calle Cantuarias, 175, Miraflores, Lima 20 Vinho&Cia No. 67 21 Nas Rotas do Vinho 3 4 Onde Beber - Tanta - San Isidro, Lima Onde Beber - La Bodega de La Trattoria - Lima Um bom local para vinhos em taça e comida descontraída no almoço, em San Isidro. Do mesmo grupo do renomado Astrid y Gastón, mas com proposta que prescinde do famoso chef, tem boa cozinha ítalo peruana e sanduíches caprichados, bem apresentados e em grandes porções. Adega climatizada e boas opções de sulamericanos, inclusive peruanos. Ao visitar uma das principais atrações de Lima, as ruínas da pirâmide de adobe de Huaca Pucllana, do tempo dos Incas, pode dar aquela vontade enorme de beber um vinho. E atravessando a rua você encontra essa agradável bodega, com decoração charmosa em madeiras. A carta é bem enxuta, com opções de argentinos e chilenos, que podem ser acompanhados de petiscos bem feitos. Av. Pancho Fierro, 117, San Isidro, ao lado do Bosque El Olivar Calle General Borgono, 784, San Isidro, ao lado da Huaca Pucllana Pirâmide de adobe Huaca Pucllana, San Isidro, Lima Como é o tempo no Peru? Por influência da corrente marítima polar de Humbolt, o céu em Lima está quase todo o ano cinzento, mas não chove, e a temperatura varia muito pouco, em torno dos 20 graus. No verão o sol em Lima aparece, e a população aproveita a praia no Oceano Pacífico, extremamente gelada, com a orla de pedras ou barro, sem areia. E que tal um cheirinho de enxofre ou curtume sempre no ar? Pois é, assim é em Lima, e você já sente ao descer do avião. Efeito de poluição? Ou da névoa que não deixa o ar dispersar? Certo é que não mata, está presente e com o tempo a gente se acostuma. Em Cusco, na altitude de 3.800 metros, faz frio pela ma- 22 nhã e à noite, chegando quase a zero graus, mas não neva. Próximo da hora do almoço faz calor, e você pode ficar em manga de camisa, mas deve tomar cuidado com o sol, que queima bastante. Costuma chover bastante na região fora do inverno. Em Cusco todo mundo sente o impacto do "soroche", ou mal de altitude, que pode dar dor de cabeça, enjoos ou falta de ar, conforme a pessoa. Contra ele pode-se tomar algumas pílulas ou chá de coca, ou mesmo mascar folhas de coca. De qualquer forma exercícios físicos não são recomendados até se acostumar. Mesmo caminhando em passo normal, a maioria das pessoas perde o fôlego em determinados momentos. Lá as coisas devem ser feitas devagar. Vinho&Cia No. 67 23 Nas Rotas do Vinho Como é Cusco? 5 Se você tem certa idade, se lembra do Zorro? Pois é, o centro histórico de Cusco remete a cenas do seriado, é do tempo colonial espanhol, já que a civilização anterior inca foi toda destruída. A cidade está entre montanhas a 3.800 metros acima do mar. É muito alta! O seu centro é patrimônio mundial da Unesco e possui praças floridas, construções bem restauradas e outras sem conservação. As edificações em geral têm pátios internos cercados por arcos, no estilo tipicamente espanhol. O interior das construções normalmente é mais bonito do que a fachada, e no piso superior dos prédios de dois andares é onde fica a maioria dos restaurantes. No térreo alternamse lojas bem decoradas com outras no melhor estilo paraguaio, simples e com grande poluição visual. Estando no ponto central, na Plaza de Armas, olhando para cima, você acha que está envolto pela favela da Rocinha do Rio de Janeiro. A maioria absoluta da população, de aproximadamente 300 mil habitantes, vive nos morros ou nas cercanias, em casebres e casas mal conservadas. Mas para o turista, Cusco é uma delícia. No centro histórico, fácil de andar a pé, há muitas atrações, igrejas, museus, restaurantes, lojas e hotéis. Se você é do estilo fuçador, pode camelar pelas suas ruelas e descobrir vários lugares gostosos e charmosos, além de procurar peças de artesanato e roupas feitas das especialíssimas e sedosas lãs de vicunha, baby alpaca, merino ou lhama. Cusco é o local de passagem para Machu Picchu. Onde Beber - Monasterio Hotel - Centro, Cusco Vale a pena no almoço curtir o pátio interno do hotel 5 estrelas da rede Orient Express, em uma das mesas do restaurante no jardim. Na tranquilidade, ao som de canto gregoriano, dá para apreciar bem um dos rótulos da extensa carta, com várias opções em taça, enquanto se acompanha com algum petisco ou prato. Você nem vai se preocupar com os sobrepreços altíssimos dos vinhos. Calle Palacio, 136, Plazoleta Nazarenas, Centro, Cusco Plaza de Armas, ponto central de Cusco Onde Beber - Le Soleil - Centro, Cusco Totalmente francês, atendido pelo simpático dono Arthur, traz pratos muito bem compostos e apresentados. Ambiente clean, moderno, com foto de uma ponte de Paris ocupando uma parede inteira. Ao som de música clássica ou popular de bom gosto, é uma delícia acompanhar o menu com opções de vinhos somente franceses a sobrepreços mais razoáveis do que a maioria no Peru. Calle San Agustin, 275, Centro, Cusco 6 24 Vinho&Cia No. 67 25 Nas Rotas do Vinho Onde Beber - MAP Café - Centro, Cusco 9 Surpreende positivamente em tudo, até no nome. É muito mais do que um simples café, serve uma cozinha sofisticadíssima, muito bem preparada, saborosa, fantástica. É todo de vidro com decoração moderna dentro do colonial Museu de Arte Precolombina. A carta não muito extensa é balanceada, enfatizando chilenos, argentinos e italianos, com preços altos mas com conjunto imperdível. Plazoleta Nazarenas, 231, Centro, Cusco, no ponto mais chic da cidade 7 Onde Beber - Chicha - Centro, Cusco Cozinha ítalo peruana, mais uma do chef Gastón Acurio, a uma quadra da Plaza de Armas. É indicado por nativos como o melhor de Cusco, mas na realidade é uma cantina em ambiente que mescla toques sofisticados, clássicos e de fast food. Carta variada, boas taças e sobrepreços na altura de Cusco. O pão de batata do couvert é ótimo. Se chegar mais tarde, pode não ter alguma sobremesa e café. Plaza Regocijo, 261, 2o nivel, Centro, Cusco 8 Onde Beber - Baco - Centro, Cusco O nome já diz, dá boa ênfase aos vinhos, com carta variada de sulamericanos e alguns europeus, servidos em temperatura correta. Em ambiente que mescla decoração colonial com pinturas modernas de temas andinos, traz cozinha ítalo peruana com pizzas, massas e pratos típicos locais. Comida a preço bom, vinhos a preços altos. Calle Ruinas, 465, Centro, Cusco 26 Vinho&Cia Como chegar? Você tem o espírito de correr riscos e deixar a adrenalina a mil? Se sim, um ótimo programa é alugar um carro sem seguro total e enfrentar o trânsito de Lima. É verdadeiramente caótico: os carros buzinam a todo instante como as motos em São Paulo, poucos respeitam as faixas de pedestres e a sinalização, há muitos veículos caindo aos pedaços, nos ônibus, soltando muita fumaça, vai gritando um "chamador de passageiros" com a porta ou a janela aberta e o corpo para fora, os motoristas vão maldizendo uns aos outros, e assim tudo vai... Mas vale a pena conhecer e se divertir com a situação. De táxi, claro. E, cuidado! Melhor chamar um rádio táxi confiável, que não tenha carros do tempo dos incas, sujos ou com os bancos rasgados. De Lima a Cusco, a 1.100km de distância, o melhor é ir de avião. No. 67 Ir de carro pela cordilheira não é uma boa ideia, pelas condições de infraestrutura, de segurança e das estradas. Para chegar a Machu Picchu, pega-se um trem de Cusco até o vilarejo de Águas Calientes. A viagem leva cerca de três horas e meia. Há opções de vagões de luxo ou bem envidraçados, para curtir a linda paisagem, pelos vales em meio às altas montanhas. Em Águas Calientes pega-se um ônibus local, meia boca, a preço de táxi de luxo, até o topo da montanha de Machu Picchu. É emocionante. Se você é devoto, pode rezar bastante até chegar ao topo, torcendo para o motorista em alta velocidade não escorregar para o precipício ou bater de frente com outro que vem descendo pela pista pela qual normalmente só passa um veículo. No final, não se sabe por que, a gente chega. 27 Nas Rotas do Vinho 10 Onde Beber - Inkazuela - Centro, Cusco Agradável e moderno em ambiente pequeno, na praça mais chic de Cusco, em frente ao museu MAP, com paredes na cor terracota e quadros incas. O cardápio peruano e a carta com cerca de 10 boas opções de vinhos ficam em quadros. No salão atende a simpática dona e na cozinha comanda o seu marido. Serve Inkazuela, cozidos com opções de carnes ou pescados, e snacks. Plazoleta Nazarenas, 167, Centro, Cusco 12 Onde Beber - Incanto - Centro, Cusco Há alguns passos da Plaza de Armas, ponto central de Cusco. Local descontraído, com decoração agradável e despojada. Bom para apreciar no almoço a carta com opções de rótulos sulamericanos em garrafa e alguns em taça, acompanhando com pratos rápidos, que vão desde pizzas, sanduíches, massas de receitas tradicionais e pratos peruanos. Calle Santa Catalina Angosta, 135, Centro, Cusco 11 É uma viagem barata? Apesar de ser um destino conhecido como de mochileiros, a rota dos incas no Peru hoje não é barata para o turismo de melhor padrão. A soma gasta com as passagens de avião e trem é considerável, mas, para consolo, os táxis fora dos trechos de aeroportos e estações de trem são em conta. Os hotéis estão na média internacional e o preço da comida em bons restaurantes não é alto. Porém para quem acha caro o vinho em restaurante no Brasil vai ficar estarrecido com os preços no Peru. Guarde muitos dólares ou reais para isso. E aproveite, apesar dos preços e contrastes, é uma viagem que vale a pena! Onde Beber - Divina Comedia - Centro, Cusco A poucos metros do Palacio Nazarenas, tem decoração sofisticada tipicamente espanhola e um belo piano no meio do salão. A música clássica está sempre ao fundo, e há dias em que traz apresentação ao vivo. A cozinha é internacional, com adaptações peruanas e pratos bem apresentados. A carta é bem enxuta, com cerca de 10 rótulos, a preços altos de Cusco. Calle Pumacurco, 406, Centro, Cusco 28 Vinho&Cia No. 67 29 Nas Rotas do Vinho Como é Machu Picchu? Trem a caminho de Machu Picchu e detalhe das construções da cidade Fascinante? Sim! A cidade perdida dos incas, praticamente intacta desde os anos 1.500, é de tirar o fôlego e vale a visita ao Peru. Toda de pedra no alto de uma montanha, a 2.400 metros de altitude, chama a atenção pelas avançadas técnicas de construção para a época. Dela, a vista ao redor é deslumbrante. Em Machu Picchu você perde o fôlego não somente no sentido figurado, também no literal, subindo e descendo suas íngremes trilhas. Na área da cidade em si só há as ruínas, sem infraestrutura turística. Na entrada existe um restaurante bandejão em estilo fast food, pequeno para o grande número de visitantes, colado ao prédio do Sanctuary Lodge, hotel da rede Orient Express. Ficar nele para visitar? É uma boa ideia desde que você esteja disposto a pagar a bagatela de 2 mil reais a diária de casal, para um estabelecimento que nos padrões internacionais deveria cobrar em torno de 300. Tomar um vinho e almoçar no seu restaurante gourmet? Boa pedida desde que no dia os porteiros possam ir com a sua cara e deixem você entrar sem falar que é exclusivo para hóspedes. Ah! Então, já que em Machu Picchu não tem nada gastronômico e milhares de turistas de bom padrão econômico a visitam durante todo o ano, deve ter perto, em algum lugar, bons restaurantes e bares, certo? Errado! Ao pé da montanha, ao lado do rio Urubamba, está o vilarejo de Águas Calientes. Conhece Pirapora do Bom Jesus às margens do rio Tietê? Ou Aparecida do Norte fora da Basílica Nacional? Se sim, então pensando no padrão dessas cidades você pode imaginar o que é Águas Calientes, onde parece não haver construção bem acabada e qualquer lugar charmoso. Se o espírito não for de um verdadeiro programa de índio, o jeito é levar numa mochila um kit de vinho e taças, e, lá no alto, no Templo do Sol, brindar ao deus Baco, ou a um deus Inca! Machu Picchu 30 Vinho&Cia No. 67 31 Vinho está na moda ente eag faz o est ilo Truta andina do Le Soleil em Cusco, Peru, acompanhada de Chardonnay-Viognier Vinho&Cia Conhecendo o Brasil explorar as vantagens de uma grande amplitude térmica num inverno seco e sem contato com os verões chuvosos. Um pioneiro empreendedor já meteu as caras e abriu caminho para o restante. Trata-se do médico Marcelo de Souza, que formou vinhedos exclusivos de viníferas desde 2005, e elaborou os primeiros vinhos finos premium goianos em 2008, nas versões varietais das castas Barbera e Syrah. A pequena quantidade produzida foi reflexo de uma elaboração experimental para sondar sinais das potencialidades. Somou cerca de 800 garrafas rotuladas sob o nome forte de Intrépido. Vinhos de Cerrado do Planalto Central O Planalto Central brasileiro não abriga somente as pérolas que brilham no cenário político em Brasília. Há coisas muito mais interessantes para se visitar, ver, conhecer e, porque não, até vinho local para se apreciar com satisfação. Na parte goiana deste Planalto, uma pequena região de topografia ondulada abriga terras da pequena cidade de Cocalzinho de Goiás, que estão balizadas pelo paralelo 15,5°, mais ou menos a meio caminho entre Brasília e Goiânia, tempo de estrada sem pressa, uma hora e meia. Com seus mais de 900 metros de altitude, clima seco, épocas de chuva acompanhadas sempre de ventilação natural que evita o acúmulo exagerado de umidade, caracteriza um macro terroir para se desenvolver a 34 vitivinicultura tropical dos cerrados centrais brasileiros. Obviamente que não vamos encontrar uma febre de pessoas indo e vindo, viveiros de mudas e grandes extensões de vinhedo em formação. Graças a Deus! Não há corrida para banalizar o produto local, mas acontecem os primeiros passos conscientes para que essa região venha a se tornar uma província vinícola brasileira com características próprias e vinhos de qualidade. Estive visitando a vinícola Vinhos Finos do Planalto, nas suas instalações ainda provisórias, com elaboração artesanal porém sob técnicas enológicas apuradas, ocasião em que pude degustar os vinhos engarrafados da safra de 2008 e os embarricados de 2010. Esses vinhos de primeira safra deveriam mostrar uma rusticidade marcante das uvas de videiras novas mas, ao contrário, me surpreenderam. O Syrah 2008 tem cor escura profunda, 13,5 % de álcool, exerce um primeiro ataque com toques de Sérgio Inglez de Souza Escritor e consultor [email protected] São Paulo casca seca de laranja e baunilha, depois, evolui com passagem pelos tons tostados delicados, até finalizar em interessante complexidade, reunindo frutas maduras, chocolate, tabaco e pimenta preta. Final de boca agradável e longo. Por sua vez, o Barbera 2008, acolhe a participação minoritária de 10% de Tempranillo, exibe cor bem escura, forte potência alcoólica de 15% bem equilibrada, traz um caráter complexo que mescla torta de nozes com caramelo e baunilha, pontas de frutas vermelhas sobre toques minerais bem interessantes. A acidez está corretamente saliente e se equilibra com o robusto teor alcoólico e a carga de taninos redondos. Agradavelmente persistente. Estou aguardando o engarrafamento e liberação da safra de 2010 a fim de fazer uma degustação comparando a evolução de produção de qualidade das videira e seu resultado nos vinhos elaborados. Na vitivinicultura tropícal de altitude do cerrado, o ciclo anual de produção se estende para até 165 dias, desde a poda no início de março (aproveitando as últimas chuvas de verão) até a colheita em meados de agosto (ainda não sofrendo a ação das temperaturas mais altas) . Esta calibração do ciclo possibilita Vinho&Cia No. 67 35 Conhecendo o Novo Mundo Bodegas Norton A Zona Alta S do eja em Beijing, Quingdao ou Shanghai, se alguma razão inesperada lhe levou à China, você há de encontrar na carta de um restaurante de estilo ocidental um Norton Torrontés ou um Norton Malbec argentino elaborado pelas Bodegas Norton. Pois desde que o magnata austríaco Gernot LangesSwarowsky comprou a Norton, em 1989, mudanças drásticas aconteceram na vinícola, centenária em termos comerciais. Afinal de contas, vinhos da Norton e cristais Swarowsky encontram-se em todo o mundo. O engenheiro Jean Pierre Thibaud, portenho de ascendência francesa, tem um currículo notável que inclui uma passagem pelo Banco Mundial, em Washington, e a posição de CEO da Chandon Argentina. No fim dos anos 1990, já aposentado, fundou (com Jacques de Montalambert) uma “bodega” com o nome inicial de Bacchus. Encantado, porém, com a lenda indígena de 36 Rio Mendoza uma moça araucana que se atrevera a mirar nos olhos de um deus, deu a seus vinhos a marca “Ruca Malén” (a casa da moça), mais tarde também o nome da vinícola. Pois se algo lhe fez chegar ao Canadá ou à Irlanda, você há de encontrar por lá também um Malbec da Bodega Ruca Malén, com licença da rima. E por falar em Chandon Argentina, é bem possível que em sua próxima passagem pelo Caribe lhe seja servido na piscina do hotel um Chandon Brut Nature elaborado em Mendoza. Não sei se a presidente da Chandon Argentina ainda é Margareth Henriquez (Maggie). Mas sei que essa venezuelana formada em Harvard, alta e graciosa, incorporou em Mendoza a elegância associada ao nome Chandon. E com ela a abrangência na América Latina e no Caribe. ou em Bruxelas você encontrará em restaurantes, lojas e supermercados um Malbec ou um Cabernet Sauvignon da vinícola Otaviano Bodega y Viñedos com a marca Penedo Borges. Empreendimento de cinco brasileiros em Luján de Cuyo (pela marca, está claro que estou incluído), com o apoio do sócio administrador mendocino Jorge Cahiza, a Otaviano vem se distinguindo nos seus oito anos de existência pelos prêmios de qualidade e referências elogiosas recebidos, em lugares tão diferentes e distantes como Londres, Finger Lakes, Mendoza e Cidade do México. Mas, afinal, o que há de comum entre Norton, Ruca Malén, Chandon Argentina e Otaviano? Todos são localizados na chamada Zona Alta do Rio Mendoza, na província de Mendoza, Argentina, entre a autoestrada que sai da capital para o sul (Ruta 40) e a Cordilheira dos Andes. Claro está que não estão sozinhas, mas uma lista seria infindável: Bodega Séptima, Viña Cobos, Las Perdices, Melipal, Decero e assim por diante, todos querendo usufruir desse extraordinário terroir, habitat ideal da Malbec, ali implantada há mais de um século, e origem de alguns dos melhores Cabernet Suvignon, Syrah, Chardonnay e Euclides Penedo Borges Diretor da ABS-Rio [email protected] Rio de Janeiro Sauvignon Blanc argentinos, alguns com posição consolidada e outros em plena ascensão no mercado vinícola internacional. Deleite para os olhos tendo a Cordilheira como pano de fundo, a área inclui as denominações Vistalba, Perdriel e Agrelo, à altitude de 1000 metros acima do nível do mar. Lá os terrenos são de aluvião, pedregosos, pouco férteis. Pouquíssima chuva (200 mm/ano), verões quentes e secos, amplitude térmica elevada (que chega a 20 graus centígrados no verão) completam o quadro favorável ao desenvolvimento de viníferas de alta qualidade. Mas não é só uva e vinho. Turismo de aventura, canoagem, esqui, montanhismo subida ao alto das montanhas até 4.000 metros com visita às incríveis barragens, incluindo a vista do Aconcágua, fazem da Zona Alta do Rio Mendoza uma festa para os visitantes. Será que estou exagerando? Bem, é ver para crer. Vinícola Otaviano Do Rio de Janeiro a Natal, RN, passando por Belo Horizonte, Vitória e Salvador, mas também na Cidade do México, em New York Vinho&Cia No. 67 37 Conhecendo o Novo Mundo Novo Mundo mas P Velho na Essência oucos sabem, mas a Califórnia produz vinhos desde 1769, entretanto seus vinhos de qualidade só começaram a ser vistos no início do século XIX, já elaborados com varietais francesas. Seus exemplares de alta gama nasceram com o objetivo de ter o mesmo padrão dos vinhos franceses, em especial os de Bordeaux e da Borgonha, e por isso seus proprietários e enólogos sempre buscaram localizações geográficas que tivessem características climáticas similares às francesas. Suas castas tintas favoritas seguiram as varietais de Bordeaux (Cabernet Sauvignon e Merlot) e a branca seguiu a da Borgonha (Chardonnay). Toda a formação técnica e enológica foi obtida na França. Como consequência, os vinhos da Califórnia sempre foram muito similares aos que serviram de inspiração, com elaboração seguindo os padrões daquela romântica época. Mas na vida nem tudo são flores, e o final do século XIX foi catas- 38 trófico para a região, com diversos anos prejudicados por geadas, pelo aparecimento da Phylloxera e, finalmente, com a contestada “National Prohibition” que durou de 1920 a 1933. Quando tudo passou, a indústria vitivinífera americana estava em frangalhos, com vinhedos abandonados ou replantados com variedades produtivas mas de baixa qualidade, seus principais enólogos já estavam falecidos, enfim, estava tudo para ser refeito. E foi assim, com o apoio da Universidade Davis da Califórnia, que pouco a pouco a nova geração percebeu o potencial do mercado e buscou reerguer o antigo modelo. Tanto é verdade que em 1976, no Julgamento de Paris, os vinhos californianos foram reconhecidos mundialmente após baterem seus inspiradores (Borgonha e Bordeaux). Mas, cá entre nós, aqueles vinhos pouco tinham a ver com os californianos que estamos acostumados a tomar hoje em dia: eles eram verdadeiramente Vinho&Cia muito parecidos com os franceses, e por isso se tornaram novos ícones, como Stag’s Leap, Ridge, Clos Du Val e Chateau Montelena, que encheram de orgulho seus proprietários e os consumidores especializados americanos. O processo porém também trouxe uma gigantesca leva de novos consumidores de classe média alta emergente, que anos após, capitaneada pelo gosto de críticos como Robert Parker, fez explodir o consumo de vinhos elaborados com frutas sobremaduras, chamados por ele como “Fruit Bombs”. Surgiram então os encorpados, alcoólicos e amadeirados vinhos californianos, que acabaram criando o “estilo americano”. Claro que, devido ao potencial de compra deste país, a moda acabou modificando também a elaboração de vinhos de outros países do Novo Mundo, e até mesmo de alguns do Velho Mundo, entre eles de alguns produtores de Bordeaux, que no No. 67 passado lhes serviram de inspiração e referência. Mas o mundo gira, os gostos mudam e a elegância pouco a pouco volta às terras americanas, mesmo que alguns produtores, nunca tenham abandonado esse “velho estilo”, entre esses os acima mencionados, os quais tivemos a oportunidade de visitar em recente viagem aos EUA, quando constatamos, in locu, sua superior qualidade e elegância. Confira e se surpreenda. Walter Tommasi Consultor e Palestrante [email protected] São Paulo 39 Conhecendo o Velho Mundo Champagne O luxo se vende por ser luxo, ou é luxo por que se vende mais? E isto é chique? Falar de luxo e do luxo requer um cuidadoso exame de consciência, pois o termo luxo vem descrito em alguns dicionários como “o modo de vida caracterizado por grandes despesas supérfluas e pelo gosto da ostentação e do prazer; fausto; caráter do que é custoso e suntuoso”. A conotação da palavra luxo para nós brasileiros tem dois aspectos. O lado intelectual é meio “avesso” ao termo, e o povo, ao contrário, é “ávido”, como já expressava o carnavalesco Joãozinho Trinta. Por muitas vezes, o olhar sob este ângulo leva ao consumo só pelo fato do artigo ser de luxo. Comprar artigos considerados de luxo ou chiques é expressão de vontade própria de quem os consome. Luxo e Champagne Ao se falar de uma bebida ícone do luxo, o Champagne, há de se destacar – e bem definir – que o considerado luxuoso e requintado sempre é mais caro, ou pelo processo de fabricação, ou pelo emblemático. No caso dos vinhos temos exemplos de que a imagem, o marketing e o desequilíbrio entre os fatores regu- 40 eo Luxo ladores – que são a oferta e a procura – os torna tão valiosos quanto se queira pagar por eles. Lendo a matéria “Os desafios de produzir a bebida mais chique do mundo” – e traduzindo o termo chique como sinônimo de luxo (o dicionário traduz como “algo de bom gosto, elegante, esmerado”) –, vemos que a impressão passada àqueles que conhecem vários vinhateiros e enólogos é a mesma: parece ser ainda mais árdua a tarefa de vinificar uma bebida considerada luxuosa, chique. Essa matéria é do livro “O Negócio do Champanhe: um delicado equilíbrio”, de Steve Charters, PhD pela Universidade Edith Cowan da Austrália. Nela o autor traça uma radiografia da região de Champagne e mostra porque a indústria do vinho de luxo requer tanto esforço. O vinho, de modo geral, já é considerado por muitos como artigo de luxo, mais em virtude do desconhecimento sobre esta bebida do que pelos preços praticados, pois sempre houve e haverá vinhos muito caros e outros de preços mais palatáveis, de grande apelo, e nem por isso os mais caros são melhores e os mais baratos piores, em se tratando exclusivamente de qualidade. Vinho&Cia No caso particular do Champagne, seus preços são regulados pelo apelo que têm, dividindo-se entre os globalmente conhecidos e desejados – talvez aí um dos fatores de majoração dos seus preços – e os nem tanto. Também advêm da quantidade engarrafada: claro que quanto menos garrafas são produzidas, menos possibilidades de diluição de custos haverá, tanto na compra de insumos, quanto na produção propriamente dita. Quem sabe os preços já se iniciem com o emblemático direito ao nome “Champagne”, já que sua situação e sua localização geográfica são bem definidas, assim como suas técnicas de vinificação, com rigorosas regras de utilização de cepas viníferas específicas. Champagne e Marketing Como em todos os negócios, no caso do Champagne os grandes conglomerados existem, com grande poder de fogo em marketing, eventos esportivos e patrocínios. Levam seus rótulos ao conhecimento e desejo de todos, elevando suas vendas ao redor do globo. Assistimos há várias décadas o Champagne alimentando o sonho de consumo de todos, por exemplo, por meio de um laureado atleta abrindo a bebida na vitória, ou em brindes em eventos importantes ou datas festivas e comemorativas. Agora, com os efeitos recessivos mundiais, há que se pensar em uma nova maneira de organizar as ideias, expô-las e vendê-las, pois com a globalização em todas as áreas mesmo aqueles que não tinham acesso aos meios de vinificação hoje os têm. Isto possibilita a entrada de novos conceitos e estratégias de vendas, mesmo que pulverizadas, que tiram, é óbvio, fatias substanciais de algumas marcas já consagradas, ou ao menos, fazem que elas gastem mais em marketing para vender a mesma quantidade. E se gastarem mais, o preço tenderá a subir. Quem sabe No. 67 os instrumentos de compra e venda na web sejam soluções, eliminando papel e etapas de comercialização, e, portanto, gerando custos e preços finais menores, mesmo que ainda não tão generalizados para as marcas mais emblemáticas. A indústria do Champagne, que emprega milhares de pessoas e faz girar a economia, nos lembra de que não podemos pensar que para se vendê-lo, como qualquer outro artigo chique, não se gaste, e na mesma proporção chique do termo. Novas ideias e propostas deverão ser lançadas para se vencerem as barreiras que o termo luxo ou chique impõem, tanto em preços como em novos produtos mais diferenciados, justificando os termos e os preços. Vimos recentemente uma quebra de paradigma, com o lançamento do Moët Chandon Ice Imperial, um Champagne que foi elaborado para ser degustado com gelo, um horror aos olhos dos mais puristas, mas no entender de muitos, um caminho muito interessante, uma nova proposta, assim como há alguns anos como lançamento do vinho do Porto Croft Rosé. 41 Conhecendo o Velho Mundo Números da Região de Champagne Na geoeconomia local de Champagne, a área plantada é de 33 mil hetares, onde 30 mil famílias aproximadamente vivem deste negócio vitivinícola. Deste total, 15 mil vinicultores e cooperados utilizam 10 mil funcionários e cerca de 80 maisons e suas grandes marcas atuam em apenas 3 mil ha com 4 mil funcionários. Hoje vemos que o consumo e as vendas externas e internas na França, que totalizam 320 milhões de garrafas, quase se equivalem, sendo a venda interna 58% do total, que já foi maior e vem caindo. Em dinheiro, representa mais de 4 bilhões de Euros, sendo que as maisons e suas grandes marcas são responsáveis por dois terços da produção, e três quartos das vendas e dos valores. Deste total, cerca de 55% da produção é exportada. Daí vemos a importância e o tamanho do investimento em ex- Luxo e Custos portações, marketing, imagem gráfica, garrafas, rolhas e tudo o mais. Garantia de vendas só pelo apelo desta bebida emblemática, com estes números tão expressivos, é temerário, e a cada dia mais investimentos deverão ser feitos para cativar novos e manter antigos clientes, além de cuidar da máquina girando, sem, contudo, ter aumento significativo de preços. Principais Cuvées Especiais de Champagne (ordenadas por data de fundação) CRISTAL de LOUIS ROEDERER DOM PERIGNON de MOËT & CHANDON COMTES DE CHAMPAGNE de TAITTINGER GRAND SIECLE de LAURENT-PERRIER R. LALOU de MUMM DOM RUINART de RUINART BELLE EPOQUE de PERRIER-JOUËT LA GRANDE DAME de VEUVE CLICQUOT CHARLIE de CHARLES HEIDSIECK NOBLE CUVEE de LANZÓN WINSTON CHURCHILL de POL ROGER LA GRANDE ANNEE de BOLLINGER LOUISE de POMMERY RARE de PIPER HEIDSIECK CHARLES VII de CANARD DUCHENE CELEBRIS de GOSSET AMOUR de DEUTZ NEC PLUS ULTRA de BRUNO PAILLARD JOSEPHINE de JOSEPH PERRIER FEMME DE CHAMPAGNE de DUVAL LEROY 42 Vinho&Cia A dura realidade do produtor – aquele que trata a terra onde planta suas uvas –, mesmo na região demarcada de Champagne, não difere muito da de outras indicações geográficas menos conhecidas, onde o valor do metro de solo não é tão arrasador. Os insumos, via de regra, são os mesmos, mas os valores cobrados é que mudam. Fazer vinhos aqui ou acolá terá preços mais ou menos iguais, divergindo um tanto quando as condições locais não são favoráveis, ou pelas distâncias dos centros fornecedores dos insumos, ou até pelas dificuldades geográficas de se aportar. Claro que os preços variam dependendo do peso das garrafas de vidro – e os Champagnes usam garrafas reforçadas em virtude do poderoso gás ali contido –, do tamanho e da qualidade das rolhas, dos rótulos desenhados por artistas, do transporte, das caixas e dos barris de qualidade. Alguns fatores, os climáticos principalmente, mais do que há al- Casa ou Maison e Grande Marca Casa ou Maison de Champagne é uma empresa agrícola ou industrial e comercial que controla os meios necessários para elaboração e distribuição mundial de uma Grande Marca de Champagne. Grande Marca de Champagne é a elaborada por uma Maison de Champagne e requer alguns critérios bem definidos, como estratégia global na elaboração, comercialização e comunicação, defesa e valorização da Indicação Geográfica de Procedência (IGP-Champagne) e do processo de elaboração, participação ativa em estudos nas melhorias vinícolas e enológicas do Champagne, entre outros. No. 67 guns anos, já afetam sobremaneira a produção e consequentemente os preços. O aquecimento global, por exemplo, já faz executar estranhos calendários da produção vitivinícola em casas centenárias. Outros vários fatores podem majorar a composição do custo. Então por que achar que o artigo de luxo, o Champagne, se venda sozinho, quando sabemos que o preço final do produto é também um fator do sucesso da venda? E os pequenos produtores, com produtos de alta qualidade, com pouco ou quase nenhum recurso de marketing, como fazem para vender seus produtos e anualmente repor suas despesas, já que em toda a indústria agrícola gasta-se antes para receber depois? Basta ser considerada uma bebida de luxo para atrair os compradores? Quem compra está mais ou menos interessado na definição do termo “chique” ou “luxo”? Em ostentação ou elegância?... Álvaro Cézar Galvão Colunista [email protected] São Paulo 43 Vinho na Academia As Uvas África do Sul e P or ocasião da feira Cape Wine, tivemos oportunidade de visitar vinícolas em algumas regiões do Western Cape, África do Sul. As descobertas não poderiam ser melhores. A indústria vinícola da África do Sul vem se reinventando desde a instauração da democracia no país, há quase 20 anos. Apesar da atividade vitivinícola sulafricana ser bastante antiga, as últimas décadas foram de forte estagnação. A atividade principal era a de plantadores de uvas, todas vendidas para as cooperativas estatais, que não chegavam a 80. O vinho produzido era apenas básico e sem personalidade, não fazendo mérito à grande diversidade de terroirs disponíveis, nem à consequente diferença de qualidade nas uvas ali produzidas. Com os ventos da liberdade, a grande maioria dos viticultores, muitos de famílias tradicionais na atividade, decidiu fazer seu próprio vinho, investindo em suas propriedades, adotando técnicas 44 Cape Wine modernas de elaboração e, principalmente, mudando o foco de cultivo da quantidade para a qualidade. Neste panorama atual as mais de 600 vinícolas em operação têm entre 8 e 15 anos de atuação. Os vinhos hoje produzidos são criações recentes, muitos em sua terceira ou quarta safra, produto de novos vinhedos e de novas concepções. As regiões produtoras – algumas tradicionais, como Stellenbosch, outras emergentes, como Tulbagh – compartilham um clima ameno com fortes influências dos gelados oceanos Atlântico e Índico nas áreas costeiras do Western Cape e também um clima mediterrâneo nas regiões interiores. As estações são bem marcadas, com invernos que podem ficar rigorosos e verões quentes e secos, que obrigam ao uso de irrigação. Açudes são comuns em todas as áreas de plantio, onde também se cultivam muitas frutas para exportação. A água não é abundante, obrigando a investimentos para sua obtenção. Vinho&Cia Sempre se comentou a uva Pinotage, criada por um pesquisador a partir de um cruzamento entre Pinot Noir e Cinsault. Com técnicas de cultivo inadequadas, essa uva nacional criou conceitos negativos devido a seus aromas típicos de petróleo. Hoje o manejo correto de vinhedos e o aprendizado refinado fizeram desaparecer por completo esse estilo indesejado, mostrando uma Pinotage de vinhos saborosos, elegantes e ricos, que inclusive variam de estilo conforme os microclimas e solos disponíveis: a elegância de Pinot Noir nos microclimas mais frios e a estrutura da Cinsault nos mais quentes. Os rosés sul-africanos são quase sempre feitos com a Pinotage, explorando a delicadeza e elegância de seu estilo Pinot Noir. Porém, outras variedades pontuam o cenário vinícola sul-africano com qualidade, principalmente as francesas do Rhône, Borgonha, Bordeaux e Val de Loire. Syrah / Shiraz – Talvez a maior vedete da atualidade, produz vinhos elegantes, poderosos, ricos e sofisticados, no melhor estilo do Rhône superior. Grenache, Mourvèdre – Essas companheiras da Syrah se mostram muito típicas e equilibradas, seja em vinhos varietais ou no tradicional corte GSM do Rhône (GrenacheSyrah-Mourvèdre) Chenin Blanc – Muito difundida, essa elegante uva branca do Loire detém aqui a supremacia entre brancas, seja em vinhos básicos saborosos ou em elegantes criações barricadas, envolventes e ricas. Surgem também alguns vinhos de sobremesa. Chardonnay – Essa uva tão versátil mostra aqui todo seu potencial, seja em vinhos básicos jovens ou em nobres caldos fermentados em barrica, intensos e untuosos. Sauvignon Blanc – A aromática vedete neozelandesa se revela aqui mais elegante e equilibrada, não tão No. 67 Carlos Arruda Academia do Vinho [email protected] Belo Horizonte explosiva, com vinhos agradáveis que não beiram o enjoativo. Merlot – Esta elegante dama francesa se mostra aqui em todo seu estilo, com vinhos varietais sedosos e ricos, ou em cortes, onde aporta elegância e maciez. Cabernet Sauvignon – A deusa de Bordeaux mantém sua realeza, em vinhos potentes, elegantes e intensos, com notas especiadas menos marcantes que no Médoc. Cape Blend – O corte típico do Cabo (Pinotage - Cabernet – Merlot) é um vinho agradável, equilibrado, saboroso e de ótima personalidade, marcando esse território com um estilo único, definitivamente cativante. Minha convicção é que a áfrica do Sul é a mais europeia das regiões vinícolas do Novo Mundo, encontrando-se hoje a um passo de surpreender o mercado internacional com vinhos autênticos, elegantes e únicos. Minha dica é experimentálos com urgência, atenção e informalidade, fazendo jus ao alegre povo daquele país. 45 Be-A-Bá Quanto mais velho Melhor? “ Agora, que a velhice começa, preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo e, sobretudo, escapar do perigo terrível de, envelhecendo, virar vinagre” (Dom Helder Câmara) G ourmand por excelência, Eça de Queirós (1945, Póvoa do Varzim - 1900, Paris), talvez seja o único escritor que soube retratar a enogastronomia com tanto entusiasmo. Nas suas obras, algumas em e-book, traduzidas em cerca de 20 línguas, na maioria delas (ainda hei de ler todas...) há cenas que fazem salivar. Foi um dos mais importantes romancistas do século XIX, e não foi à toa que o advogado, embaixador, jornalista e escritor português de prosa hábil, compunha em prosa e verso suas histórias plenas de realismo, nas quais desancava com ironia e humor a sociedade portuguesa do seu tempo. Da pena de Eça foram escritos 29 livros, e os mais conhecidos são “Os Maias”, “O Crime do Padre Amaro”, “A Cidade e as Serras” e “O Primo Basílio”. Interessante, depois que comecei a redigir sobre a associação Eça e Vinho, há uns três anos, começaram a pipocar nas Alterosas diversos eventos relacionados ao mesmo tema. 46 Em “A Ilustre Casa de Ramires", 1900, há uma cena hilária em que o autor fala do vinho em uma conversa familiar com seu cunhado rico, mas de pouco conhecimento histórico. CENA: No palacete dos Cunhais, Gonçalo Ramires e José Barrolo discutem os preparativos para a ceia em homenagem a André Cavaleiro, governador civil de Oliveira. Barrolo diz: - Que pena! Que pena não ter em Oliveira, para o brinde, um famoso vinho do Porto, da garrafeira da mamã, preciosíssimo, velhíssimo, do tempo de D. João II... - D. João II? – rosna Gonçalo. – Está estragado! Este trecho do genial Eça, ilustra bem o mito do vinho que quanto mais velho melhor fica. Pudera. Foi Dom João II de Portugal quem assinou com o Reino de Espanha o Tratado de Tordesilhas... Que vinho resistiria desde os finais do Século XV? Nenhum, certamente. Vinho&Cia Não se deve perder de vista que o vinho é, digamos, um organismo vivo, que apenas dorme na garrafa. E neste nosso mundo terreno nada é para sempre: não há vida que não tenha início, duração e... morte; como não há substância orgânica a salvo do derranco – vem do verbo “derrancar”, muito comum no interior de Minas Gerais, que significa estragar, deteriorar, ficar rançoso. Portanto, quando se diz que quanto mais velho melhor o vinho, a coisa deve ser entendida... em termos. Ou, segundo o dito de Horácio, poeta romano, “est modus in rebus” – há uma justa medida em todas as coisas. Não exageremos. A verdade é que existem vinhos de linhagem excepcional, verdadeiros néctares dos Deuses (e como são caros, eles...), que podem, sim, permanecer anos a fio na adega e se valorizar, em todos os sentidos, a cada ano. No entanto, mesmo um grande vinho depende, para a sua excelência, de vários fatores, como localização, manejo, temperatura, luz, umidade, capacidade de vedação da rolha, sem contar a qualidade das parreiras, as técnicas de vinificação, o “faro” do enólogo, o clima do ano da safra... Ora, são tantos os fatores que é melhor não ir além. Enfim, há muito a ser levado em conta para a boa guarda do vinho. É claro que não estamos falando de vinhos com “pedigree”, somente; estamos falando daquele que, como os santos, tem um halo dourado sobre a cabeça. Vinhos razoáveis, mesmo os apenas bons, não se mantêm através dos tempos. Para isso é preciso que se trate de um vinho perfeitamente excepcional. Como é notório, o branco dura pouco e o rosé menos ainda. O famoso verde (o antigo que tinha agulhas e colares e agora os modernos, sem essa tipicidade) não se qualifica como “de guarda”. Os espumantes safrados de Champagne podem ficar na adega até por uma década. Recentemente, encontraram Champagnes, conta que ainda perfeitos, nos porões No. 67 Andréa Pio Jornalista e editora do guia Uai [email protected] Belo Horizonte do Titanic, que afundou em 1912. Provavelmente, além da alta linhagem da bebida, a baixa temperatura e a pouca luminosidade contribuíram para sua integridade. Espumantes nacionais, Cavas, Proseccos daqui e de lá, não resistem a mais de três anos. Sabe-se que na ilha de Chipre há um vinho de sobremesa, o Commandaria, com elevados níveis de álcool e açúcar, que pode durar 100 anos. Há tintos que conseguem essa façanha, a depender, claro, dos muitos fatores incidentes no processo de conserva. Um Porto daqueles de “ver Deus” pode ficar bem por meio século e mais. Fortificado, com cerca de quase 80% de aguardente vínica, ele sabe como rir dos anos. Só não consegue resistir aos séculos, como o da mãe do Barrolo, que é do tempo de Dom João II. Àquela época ainda não se faziam os magníficos Portos, os quais, segundo os entendidos, remontam aos meados do Século XVII. Quase 200 anos depois daquele tal “da garrafeira da mamã”... “ ... a cozinha e a adega exercem uma larga e directa influência sobre os homens e a sociedade” (Eça de Queirós em seu texto em prosa, Cozinha Arqueológica) 47 Vinho É Arte Foto: Maria Amélia Além do Porto, surgiram também os poderosos Madeiras. Com forte acidez, eram vinhos difíceis, cujas condições de navegação – balanço do barco, aquecimento, mescla de destilado e açúcar residual – o transformaram em um produto único. A influência destes vinhos se espalhou pelo mundo, principalmente para as regiões onde os portugueses "aportaram". Dentre elas, o sul do Brasil, para a distante cidade de Rio Grande, que é uma das regiões mais antigas de cultivo da uva no Brasil, riquíssima em tradições portuguesas. A colonização açoriana aconteceu em Rio Grande em meados de 1700. Hoje é potência econômica gaúcha, com um dos portos mais importantes do Brasil. Maria Amélia Flores Enóloga [email protected] Porto Alegre Vinhos no Tempo e C onservar os alimentos sempre foi um grande desafio da humanidade: os avanços tecnológicos, sabores e estilos, muito do que hoje sentimos na gastronomia, devem-se à eterna busca de como fazer resistir ao tempo e extremos de temperaturas as frutas, os peixes e as bebidas. A partir das tentativas, houve a criação de novas texturas, a adaptação das receitas. O saboroso funghi secchi é um exemplo, assim como o bacalhau; frutas passas, como uva, tâmara, damascos; a salmoura, que conserva as azeitonas; a carne de sol; as compotas; os queijos curados e embutidos; o foie grãs... E assim a história da gastronomia vai se construindo. O mesmo valeu para o vinho. Os frágeis vinhos elaborados há milhares de anos mal arrancavam a fermentação; aliás, nem se sabia direito o que era a fermentação. Sabiase que depois de esmagadas as uvas, o suco se transformava. Os aromas 48 Rio Grande acéticos sempre acompanharam os vinhos da antiguidade. Colocá-los em ânforas elaboradas com argilas ricas em enxofre era luxo que nem a própria "enologia" da época bem conhecia. O jeito era proteger de outras formas: ou deixar o líquido muito doce (afinal, o açúcar é um grande conservante) ou usar o poder antisséptico do álcool. Resumidamente, foi assim que surgiram então os grandes vinhos "fortificados". Portugal tornou-se uma referência no tema; não só com o comércio, que fez com que o vinho do Porto se consolidasse e conquistasse sua reputação mundial: o vinho acompanhava os navegadores. Mais do que uma bebida, substituía a água que facilmente apodrecia nos porões dos navios. Era fonte de vitaminas (impedindo o desenvolvimento de doenças como escorbuto), era companheiro nos dias mais frios; não importava a qualidade, mas o vinho tinha que estar presente. Vinho&Cia “Vinho” na Ilha dos Marinheiros O legado português está no tipo físico, na arquitetura, nos hábitos do cotidiano. Na Ilha dos Marinheiros, a maior do Estado, ainda restam pequenos produtores que mantêm tradição de elaborar Jeropiga ou Jurupiga. É mosto de uvas abafado com adição de álcool. A precariedade do processo de elaboração já o deixa totalmente oxidado, lembrando vinhos antigos da Ilha da Madeira. Ainda No. 67 há vinhedos na Ilha, porém das amplas áreas que já existiram, hoje há apenas dois viticultores. É elaborado com uvas comuns, como Niágara, a maioria em cultivo orgânico. A venda de Jeropiga dá-se quase na totalidade pelo turismo local, na casa do agricultor ou nas lojas de artesanato. Fadado ao desaparecimento, é histórico, único, autenticidade viva dos primórdios do Vinho Brasileiro. 49 O Que Harmoniza Salada Radiquin Ingredientes: radicchio, endívias, agrião, manga, kiwi e molho de manjericão 2 Pratos Harmonizados E xplicamos aqui, tim-tim por tim-tim, como analisar um prato e escolher os tipos de vinhos mais adequados para a melhor combinação entre eles, ou seja, como deixar em harmonia a comida e a bebida. Fomos ao Bracia Parrilla, restaurante típico argentino estabelecido desde 2000 no bairro do Tatuapé, em São Paulo, para nosso “exercício” de “O Que Harmoniza”. Destacamos seu amplo espaço, seus cortes corretos, no ponto pedido, e a bonita adega, que pode ser vista da entrada do restaurante. Vejam na sequência os pratos escolhidos e os vinhos para harmonizar. Onde experimentar Bracia Parrilla Rua Azevedo Soares, 1008 Tatuapé, (11) 2295-0099 São Paulo 50 Beto Acherboim Enófilo [email protected] Vinho&Cia Corinto Chardonnay 2012 Branco, Vale Central, Chile Importadora Vip Wines Salton Volpi Chardonnay 09 Branco, Serra Gaúcha, Brasil Importadora Max Brands Casa Valduga Espumante 130 Vale dos Vinhedos, Brasil Produtora Casa Valduga O Que Harmoniza A Salada Radiquin foi um prato desafiador para compatibilização, com sabores e texturas distintos. Ela tem o amargor das folhas de radicchio e endívias, a picância do agrião, o dulçor da manga, a acidez do kiwi, tudo isso coroado com azeite de manjericão, bastante discreto. Um prato que, a despeito da multiplicidade de sabores, primava pelo frescor dos ingredientes e pela leveza. Logicamente que a compatibilização depende do seu “bocado”, da sua “garfada”, podendo ficar mais doce, mais ácido, mais picante ou mais amargo. Os brancos servidos têm características olfativas e gustativas um pouco diferentes, como floral, frutas frescas, compotadas e secas, mineral, amanteigado, certo defumado e ligeiro amargor final. O espumante 130 era uma “mousse”. Todos, porém, tinham médio corpo, muito boa acidez, com boa estrutura. Assim, conseguiram harmonizar bem com a salada. A decisão foi dividida entre os 3 vinhos, evidenciando a boa harmonização. No. 67 51 O Que Harmoniza degustadores Participaram da degustação os colunistas Beto Acherboim e Denise Cavalcante, três convidados e o editor, Regis Gehlen Oliveira. Baby Ancho Ingredientes: carne baby ancho, arroz Biro-Biro e cebolinhas caramelizadas Volpi Cabernet Sauvignon 2010 Tinto, Serra Gaúcha, Brasil Produtora Salton Suzin Cabernet Sauvignon 2007 Tinto, São Joaquim, Brasil Produtora Suzin The Winemakers Recipe CS 2011 Tinto, Vale Central, Chile Importadora Vip Wines O Que Harmoniza No prato principal, onde o centro das atenções era a carne executada com maestria no ponto solicitado por cada comensal (o meu, “boi berrando”, ótimo), destacavam-se a maciez, suculência e o ótimo sabor da carne. Os acompanhamentos, entretanto, faziam um jogo de empurra-empurra, entre o salgado do Arroz Biro-Biro (seria o bacon ?) com a doçura das cebolinhas caramelizadas. Os vinhos degustados tinham aromas variados, entre a fruta fresca e madura ou compotada, especiarias (pimenta, canela, baunilha), tostado, ervas, pimentão, algo de reduzido, melaço, toque de dulçor. Em boca, houve um pouco mais de diferenças. Boa acidez, bom balanço de corpo e álcool, alguns exemplares com ligeiro dulçor final, sem comprometer. Vinhos gostosos, que equilibraram muito bem com o prato, embora dependesse de qual seria seu “bocado”. Quando a cebolinha sobressaía, o resultado era um. Quando o destaque ficava com o arroz, outro. No cômputo geral, o equilíbrio entre corpo, álcool e acidez dos vinhos provados tiveram boa “aceitação” pelos pratos – e pelos degustadores. 52 Vinho&Cia No. 67 53 Faz Bem à Saúde? É verdade que... Sulfitos no Vinho os Prejudicam a Saúde condição de vinho. Por isso ele é universalmente utilizado na elaboração dessa bebida. O s sulfitos são usados na elaboração de vinhos desde o final do século XVIII. Só isso já responde a questão acima. Se o seu uso causasse dano orgânico relevante, seria amplamente conhecido e o seu uso banido das práticas enológicas. O destino natural do suco de uva é se tornar vinagre. O vinho é um estágio intermediário na natureza entre o suco de uva e o vinagre. 54 Se quisermos usufruir de todas as benesses do vinho é necessário interromper este processo natural e mantê-lo estável enquanto é vinho. O dióxido de enxofre, ou anidrido sulforoso, ou SO2, é extremamente competente em realizar essa tarefa. Pois, além de um potente antioxidante, inibe a atividade das bactérias e leveduras e destrói algumas enzimas que degradam o vinho. Reúne, portanto, as propriedades ideais para estabilizar o fermentado de uvas na Vinho&Cia O SO2 é normalmente formado durante a fermentação do suco de uva. Cada litro de mosto fermentado produz até 30mg de anidrido sulforoso. Isto é insuficiente para estabilizar o vinho. É preciso mais. Quanto mais doce o vinho maior a necessidade de dióxido de enxofre para estabilizá-lo. Várias entidades regulamentam isso. A mais severa é a União Europeia, que permite até 160mg/l nos vinhos tintos, 260mg/l nos vinhos brancos, 300mg/l nos vinhos licorosos e 400mg/l nos vinhos com Botrytis. No Brasil é permitido até 350mg/L, conforme a Portaria 229 de 1988 do Ministério da Agricultura. A organização Mundial de Saúde (OMS) considera seguro a ingestão de até 0,7mg de SO2 por quilograma de peso corporal. É preciso considerar que outros alimentos como queijos e frutas secas também usam esse conservante. Historicamente a segurança desses aditivos nos vinhos e outros alimentos é questionada. Recentemente o Agence Nationale de Sécurité Sanitaire (Anses) da França publicou documento em que estima que 3% da população adulta desse país consumam doses acima das recomendadas pela OMS de sulfitos. Não existe uma doença ou manifestações clíNo. 67 ? nicas bem definidas da overdose de anidrido sulforoso. As autoridades sanitárias só chamam a atenção para o ‘risco de intoxicação’. O consumo dessas substâncias já foi relacionado à urticária, asma e outras manifestações alérgicas, além de irritabilidade na pele, cefaleia, diarreia, coriza e sensação de ressaca. Mas todas essas manifestações dependem de sensibilidade individual e não da dose de sulfitos consumidos. A tendência hoje é de se produzir vinhos com menos aditivos sulforosos. Isso, embora não tenha se mostrado um problema de saúde pública, agradaria a todos. Jairo Monson Médico e Escritor [email protected] Garibaldi, RS 55 O Que Há de Novo? vinhos oferecidos. Os produtos são escolhidos pela equipe levando em conta três critérios básicos: qualidade, relação custo x benefício e a resposta positiva para a pergunta “Eu teria esse produto em minha casa?”. "Hoje o crescimento de consumo de vinho no Brasil é impressionante," conta Alykhan. "O Sonoma quer ajudar a ambos, novato e conhecedor, a navegar neste mundo”, completa. Para realizar este desafio, além das boas ofertas, o Sonoma também cria conteúdo de alta qualidade, escrito por jornalistas experientes, em estilo diferente das mídias especializadas, simples e claro, com uma linguagem lúdica e divertida. “Escrevemos como se fôssemos um amigo descrevendo um vinho”, comenta Jô Barros. “Os amigos costumam passar confiança e credibilidade nas suas dicas, e é exatamente isso que queremos ser para nossos clientes”. Site ou Amigos de S ite de venda de vinhos já tem aos montes na internet, mas o www.sonoma.com.br criou uma proposta com algumas novidades, que certamente vão agradar. O Sonoma oferece seleções semanais de vinhos e produtos gourmet negociados direto com os produtores, em quantidades limitadas, para chegar a preços até 60% abaixo do mercado. As ofertas duram por pouco tempo, mas o Sonoma sempre tem de 8 a 10 vinhos disponíveis para compra ao mesmo tempo. O fundador do Sonoma é o americano Alykhan Karim, que mora no Brasil há dois anos e trabalhou em empresas de e-commerce. Californiano e apaixonado por vinhos, conviveu com a vinicultura da região. No Brasil impressionou-se 56 A programação visual do site é de muito bom gosto, num espaço atraente e fácil de navegar. Vale a pena conferir! Denise Cavalcante Jornalista [email protected] São Paulo Alykhan Karim, Jô Barros e Edson Barbosa Vinhos? com a diferença entre os preços dos vinhos em comparação aos Estados Unidos. Por já ter trabalhado com e-commerce, resolveu trazer um novo modelo de comércio, a "venda privada" para esse mercado, visando baixar as margens praticadas e oferecer uma excelente seleção de produtos. Participam também da equipe Edson Barbosa, que foi responsável pela loja virtual Estação do Vinho, e Jô Barros, que atuou no D.O.M. e Dui e foi votada como a melhor sommelière do Brasil em 2011 pela revista Prazeres da Mesa. “No Brasil existem produtos incríveis, porém são de difícil acesso ao público em geral," explica Jô Barros. Juntos prometem ser extremamente rigorosos na seleção dos Vinho&Cia No. 67 57 O Que Há de Novo? Bravo Bistrô 2 Dicas Fora do Coração de Sampa, Mas Para Conquistar o Seu Vieira Vinhos Uma pequena e graciosa loja no bairro da Vila São Francisco, o Vieira Vinhos oferece vinhos diferenciados, variedade, preço justo e, segundo Luciana Freire, “algo exclusivo e de excelente qualidade”. Luciana, proprietária da loja desde 2008, se diz apaixonada pela história do vinho e por rótulos de pequenos ou novos produtores. Afirma que 90% dos rótulos da loja são degustados e avaliados por ela, que é sommelière formada pela Associação Brasileira de Sommeliers e cursou módulos no Master Sommelier do Ritz de Paris, Mr. Frederic Cornaton. Luciana foi degustadora da extinta Cave de Amadeu, hoje Vinícola 58 Geisse, sommelier da Importadora Vinhos do Mundo e supervisora da Malbec do Brasil, até decidir, junto com seu marido Francisco, pela aquisição da loja e a aposta na união do prazer, independência financeira e realização profissional. A proposta do Vieira é a atender os clientes como amigos, respeitando a individualidade e a privacidade. Mensalmente promove degustações temáticas, em ambiente que combina com a proposta da loja: com descontração e clima intimista. No tradicional bairro da Mooca, o bistrô tem cardápio franco italiano cheio de surpresas. Todos os pratos têm um toque diferenciado, com o jeito e a garra do jovem chef Victor Pires. Para começar, sobre uma das opções de entrada, Victor fala que é brincadeira com suculência de um camembert, o agridoce de geleia de vinho malbec e de maçã, a crocância de torradas e o toque camponês de cogumelos. São assim os pratos da casa, todos com jogos de texturas e sabores, seja um agridoce, uma crocância, ou algo para tornar única a sua visita: um entrecôte com fondant de gorgonzola, um lombo com purê de abóbora e um risoto de compotas de maçã com lascas de pato. Todas as carnes são marinadas, cada uma no seu caldo ou vinho, para realçar o sabor e a maciez; e a farinha de empanados é produzida na própria cozinha. O Bravo surgiu do sonho de dois jovens: Eduardo Silva Jorge, de deixar o mercado financeiro; e Victor, de ter suas próprias panelas. Victor cresceu em meio a cozinhas e salões, já que é filho de dona de buffet. Chegou a trabalhar com a mãe, mas já com 15 anos decidiu que Adriana Bonilha Colunista [email protected] São Paulo queria restaurantes. Iniciou na rede Mercure, na “pia”, como ele definiu. Mas foi lá mesmo que o destino lhe deu a oportunidade de mostrar seu talento, quando o promoveram. Trabalhou em diversos restaurantes, mas foi numa pequena tentativa de voo solo que fez um evento para o Eduardo e daí nasceu a amizade e parceria, que resultou no Bravo. Ao visitar o restaurante, não deixe de pedir para a cozinha vir até você. O quê? É que não dá para sair sem bater um papo com o carismático Victor! O Bistrô completa um ano de vida em dezembro, e deverá comemorar com a ampliação da casa e a abertura de uma sala para eventos e degustação. Bravo Bistrô Rua dos Campineiros, 501, Mooca (11) 4306-8560, São Paulo http://www.bravobistro.com.br Vieira Vinhos Rua Professor Herbert Baldus, 209 Vila São Francisco (11) 3714-4358, São Paulo http://www.vieiravinhos.com Vinho&Cia No. 67 59 O Que Há de Novo? Rio Douro, em Portugal Portugal em Copos e Pratos P aís com história de descobertas e desbravamentos, Portugal vive hoje uma fase inversa. O país está sendo, literalmente e a cada dia mais, descoberto pelos apreciadores da boa mesa e dos bons vinhos. Rico e diversificado na culinária e na vitivinicultura, Portugal tem revelado ao mundo suas receitas, sua hospitalidade e seus vinhos. Uma vitivinicultura em movimento, com forte base na tradição e em franco processo de modernização. Uma vitivinicultura que surpreende, nos vários estilos de vinhos que produz. Entidades como a Viniportugal têm trabalhado para mostrar a profissionais e comunicadores a diversidade dos vinhos portugueses. A Touriga Nacional foi elevada, em 2010, durante a Wines of Portugal International Conference, à condição de uva emblemática do país. Uma casta que pode ser comparada a uma moldura, por emprestar um pouco de seu caráter frutado e floral a vinhos 60 feitos em várias regiões. Agora, Portugal quer mostrar ao mundo a riqueza de sua coleção de castas, dentro das tipicidades regionais. Vinhos monovarietais e de corte, produtos para todos os tipos de bolsos, gostos e pratos. com controle de temperatura. No lugar dos pés, as uvas estão sendo amassadas com robôs. E as castas estão sendo plantadas e vinificadas separadamente. Os estilos dos vinhos também revelam novidades, em algumas vinícolas. “Estamos fazendo vinhos mais leves. Acreditamos mais em leveza que em potência”, afirma João Roseira, da Quinta do Infantado. Também os níveis de açúcar estão menores, nos vinhos do Porto da Quinta do Infantado. “Estamos buscando mais equilíbrio”, afirma o produtor. Maciez e longevidade são características dos vinhos do Dão. Ali, a Touriga Nacional mostra sua grande expressão, ao lado da Alfrocheiro e Jaen, principalmente. Os brancos de Encruzado revelam frescor, fruta, maciez e mineralidade. E uma capacidade impressionante de harmonizar com a culinária do mar e com pratos mais leves de bacalhau. Outras uvas brancas locais são a Cerceal, Bical e Malvasia. Os vinhos do Dão, tintos e brancos, são excelentes companheiros para pratos com bacalhau. São combinações Foto: João Lombardo João Lombardo Jornalista e sommelier [email protected] Florianópolis certas. A escolha do vinho, branco ou tinto, dependerá da estrutura da receita com o bacalhau. A cada dia Portugal revela mais ao mundo a sua diversidade. Um país com vitivinicultura rica e regional, com fôlego para competir e brilhar no universo internacional do vinho. E onde o bacalhau, as sardinhas, açordas, chanfanas, os cozidos com feijões, as espetadas, os pratos com arroz, os pescados e frutos do mar, as carnes, de um modo geral, e os doces encontram parceiros sinérgicos nos vinhos produzidos de norte a sul do país. Um país onde a enogastronomia acontece de maneira simples e natural. E que tem vinhos para combinar com pratos do mundo inteiro. Lagar de inox no Douro O Douro é uma área de grande prestígio. A região se notabilizou pelos vinhedos mistos, que geram os vinhos do Porto e os grandes vinhos DOC Douro. Ali, as castas tintas mais vinificadas são a Tinta Amarela, Tinta Barroca, Tinto Cão, Tinta Roriz, Touriga Francesa e Touriga Nacional. Entre as brancas destacam-se a Malvasia Fina, Viosinho, Gouveio, Rabigato, Esgana Cão e Donzelinho. O sistema de vinificação típico é o lagar. O Douro está em movimento. A modernidade ganha terreno em vinícolas locais, ao lado da tradição. O lagar continua sendo o sistema típico de vinificação. Mas no lugar da pedra, entram os lagares de inox, Vinho&Cia No. 67 61 Nos Velhos Tempos Vinho Tinta Você Escolhe... Wyborowa e N a década de 70 havia em São Paulo um American Bar, como chamavam um bar bem pequeno e apertado com música ao vivo, o Chez Regine, que ficava na Rua Santa Isabel, quase esquina com a Rua Amaral Gurgel. O bar abria seus trabalhos por volta das 17h30, e embalava a noite toda. Eu já namorava a minha esposa Nazira nessa época, e esse lugar era o nosso "esquenta" da época, quando saíamos direto da Secretaria de Cultura Esportes e Turismo do Estado de São Paulo diretamente para a noite. Parávamos lá e pedíamos uma garrafa de vodka Wyborowa. Eu não sei quem foi que teve a ideia mentirosa, mas genial, de espalhar que a vodka não deixava bafo. Mentira deslavada, mas pegou. Me lembro do Pedro Padilha que me apadrinhara, me dizendo: “Didú, não beba whisky, não, que deixa aquele bafo de tigre. Mulher nenhuma gosta disso. Beba vodka, que não deixa bafo...” Bem, você, caro leitor, pode não acreditar, mas ao menos duas vezes por semana sentávamos na primeira mesinha perto do piano, com nossa Wyborowa (que não deixava bafo...) e ouvíamos e asssitíamos a dois metros do nosso nariz o Dick Farney em pessoa. "... Menina da praia... não pode ser minha, nem tua também..." Era tudo muito diferente, e nós éramos jovens, com a vida colorida, as possibilidades inúmeras, a preo- 62 Dick Farney cupação a menos dez, as calças boca de sino, o carro um karmann ghia, os sapatos do Busso, o paletó da Elle et Lui, a violência de ladrão de galinhas apenas, o trânsito fácil, a educação comum, a atenção idem, o sorvete do Bologna, o Chá do Yara (a larica com misto quente no Croissant), a Rua Augusta acarpetada, o corvete do Arnaldo Gasparian, a missa da Santa Terezinha aos domingos, o Ricky, as Mil Milhas em Interlagos, os bailes de gala, as despesas reembolsadas na verba de gabinete, os escargots do Hilton, os espetos flamejantes da Terrine de Foie da La maison Basque, o Flag, a Fondue do Noubar, as Vernissages elegantes, os discos do Ray Connif, o jantar no Patacão do Embu, as noites do Cave ou do Tom Tom, as brigas no Dobrão, os jantares no Terracinho no Guarujá, os discos do Glen Miller... E tudo parece que está lá, na mesinha de Bar do Chez Regine. Didú Russo Confraria dos Sommeliers [email protected] São Paulo Vinho&Cia No. 67 63