A INTERPRETA~Ko PSICANALITICA: UM LIMITE PARA
A
ANALISE DO DISCURSO?
Sirio Possenti
IEL - UNICAMP
e
A rela~ao da lingQlstica com outras disciplinas
hoje bastante institucionalizada. No entanto, parece
que
urnadestas rela~oes resiste a avan~os mais consistentes: a
rela~ao entre a lingQlstica e a psicanalise. A questao que
este trabalho quer levantar e para a qual ensaia urnesbo~o
de resposta
de
e:
por que nao
e
salida a interdisciplinaried~
entre a ling61stica e a psicanalise?
. Restringindo-me,
neste trabalho, exclusivamente
a
urndos escritos de Freud, pre tendo mostrar, em seguida,po~
slveis lugares da confluencia e espa~os nos quais a perme~
bilidade entre as duas disciplinas ainda nao se verifica.
No livro 08 chistes e sua rela~ao com
te
0
inconscien
(Freud, 1905), Freud aborda de varios pontos de
este tipo (chamemo-lo provisoriamente
vista
assim) de discurso •
Elabora, por exemplo, ulna tipologia. De urnponto de
vista
por assi~ dizer lexical, conclui que seus mecanismos
gQlsticos',basicos sao a condensa~ao
bete),
0
(familion.!r, tete-ii-
mUltiplo uso do mesmo material
buona parte) e
0
duplo sentido
frances, 'vao' e 'roubo') de
Iin
(non tutti,
ma
(c'est Ie premier vol
(em
I'aigle). Outros tipos
de
chistes poderlam sar conslderados mals especificamente
re
taricos ou discurslvos, produzldos baslcamente pelos meca-
nismos do deslocamento
do-silogismos
to normal",
e do abslH'do
e textos nonsense)
( sao, em geral, pse~
i.~, "desvio do pensamen-
(Freud, 1905: 77) •
Examinando
grosseiramente,
material
0
que
0
chistoso, pademos
saber do lingUista nao
0
dizer
autoriza
fazer com este tipo de discurso mais do que uma
a
analise
com resultados muito semelhantes aos que acabamos de
suma
riar.
Vejamos
chiste,
para
os limites da lingUistica a partir de
0
qual
a
um
lingUlstica dispoe de bons instru
mentos de analise. Abreviarei
a narra~ao de Freud, por eco
namia: dois hornens de negocio nao rnuito escrupulosos
con
seguiram acumular grande fortuna e procuravam urna rnaneira
para introduzir-se'na
boa sociedade. Urndos rneios que lhes
pareceu dos melhores foi ter seus retratos pintados
par
famoso artista da cidade. As telas foram exibidas pela pr!
rneira vez num sarau para
0
qual foi convidado urn influente
crltico de arte, a quem os preprios anfitrioes rnostrararn
os quadros que pendiam da parede, para ouvir dele seu
jul
zo, que esperavam
Ion
gamente,
0
crltico balan~ou a cabe~a, como se algo faltas-
se e, indicando
onde esta
favoravel. Apes estudar os trabalhos
0
0
espa~o vazio entre os dois quadros:
Salvador?"
"Mas
(Freud, 1905: 92-36 e Freud: 1910 :
18) .
A analise
nada fica devendo
'pragmatica' que Freud faz deste
a
chiste
que urn lingUista poderia fazer:
"Partindo da r~presenta~io
dada no chiste, recons-
titulrnos 0 trajeto inverso de uma serie de associa~oes e inferencias facilrnente estabeleclveis.
(•••) ••• a visao dos dois quadros recordou ao 10
cutor uma visao semelhante, familiar a ele, que
inclula entretanto urn,
elernento ora ornitido a
figura do Salvador entre duas outras. Ha apenas
uma situa~ao ~esse tipo: Cristo cru;ificado
e~
tre dois ladroes. A sirnilaridade apoia-se na informa~ao transrnitida pelo chiste, as figuras pre
sentes a direita e a esquerda do Salvador.
Pode
consistir apenas no fate de que os quadros penden
tessao imagens de ladrOes. 0 que 0 crltico
pre
tendia dizer era simplesmente: "Voces sac urn par
de patifes" (Freud, 1905: 93).
"Por que
que nosso crltico nao lhes falou clara
mente? ••• Nao deixa de ser perigoso desfeitar pessoas de que somos hospedes e que dispoem
de
criadagem numerosa, de pulsos vigorosos. (••.)
Por tal razao 0 crltico atirou indiretarnente
a
o~ensa que estava ruminando, transfigurando-a numa "alusao com desabafo"" (Freud, 1909: 18).
e
A nao ser que recuse qualquer lnstrurnento de analise buscado na pragmatica, urn lingQista
tratada par Ducrot
poderia chegar
(Ducrot, 1972: 15-33), a no~ao de im -
plicatura, como descrita par Grice (Grice, 1968), e ainda
conceitos da analise do discurso. Utilizando a no~ao de
imagem (Pecheux, 1969, 16-23 e Osakabe, 1979: 48-9),
capazes de lembrar
p~
da cena da crucifica~ao. Ou, mats pr~
cisamente, pade imaginar que a conhe~am, e serao
zes, em vista desse conhecimento, de estabelecer por
cap~
si
Ate aqui, ,nenhum.problema para os ling6istas,
vo; eventualmente,
sal
a extrema simplifica¥ao da analise aci
a
"E, a nosso ver, devido
mesma constela~ao que 0
paciente produz uma ideia de 8ubstitui~ao. mais
ou menos dlstorcida, em lugar do elemento escond!.
do que procuramos" (Freud, 19091 19).
que alinguagem
dos'sonhos
(ver tambem Freud, 1905: 183-
205) e que se trata, entao, da linguagem do inconsciente.
Evidentemente,
a linga!~tica nada terna dizer sobre a lin
guagem dos sonhos em particular,
e do inconsclente
geral, e nao seria de estranhar,
se dissesse algo,que ofe
recesse ju!zo~ tao suspeitos quanta os que ofereceu
em
so
bre a linquagem do.s afasicos ou ,durante urncerto tempo ,
sobre a linguaqem das crian~as. Incorporam-se distin~ees
entre locutor e enunciador,entre
eloGutarl0 e destinata-
divisees entre consciente e inconsciente. Eis, pois,
reqiao'ainda
uma
sem intercambio possIvel.
Esta aihda mais fora dos propositos atuais
ling6Istica desvendar 0 discurso
da
como maquina de produ¥ao
de prazer. Os chistes sac urna dessas maquinas, segundo
Freud: Em rela~aoao
que esta emquestao,
se trata de urn caso "onde se opee
a
Freud diz
que
satisfa~ao do propos!.
to algum obstaculo externo que e contornado pelo chlste".
A satisfa~ao provem de "enunciar urn insulto ao inves do
tributo que era solicitado"
o
(Freud; 1905: 139).
chiste analisado e urndos casas em que 0 pra-
zer consiste na supera~ao de urnobstacul0 externo
a
ge-
ra~ao do prazer, que e superado por urn substituto
que 0 locutor gostaria de dizer. Outros chistes
do
geram
prazer pela supera~ao de obstac~los internos, e destes,
ha tres tipos fundamentals, todos.baseados
na H~espesa
pslquica que
e
economizada"
Mas,
e
num outro aspecto que a questao se torna
(Freud, 1905: 140-47).
ainda mais exterior-a lingftIstica. Este aspecto
e
rior mesmo para a analise do discurso, apesar de .
exte
urna
de suas marcas fundamentais ser a assun~ao da presen~a
da sUbjetividade no discurso
(~bora
seja ainda diflcLl
determinar de que sujeito se trata).
VeJamos explica~oes
tentadas por Freud (1905)
no capItulo wOs motivos dos chistes: os chistes 'como pr~
cesso socialw•
A proposito do chiste com familion8r,
urnpersonagem teatral de Heine, analisandQ
de
com mais deta
lhes as con~i~oes de sua emergencia, Freud conclui
que
pode muito bem ser fruto de graves complexos. 0 personagem poderia ter tido urnavida mais facil se tivesse sido
aceito como marido par uma prima rica. 0 fundamento
chiste seria, pois, urna "grave amargura".
do
E acrescenta
"nao ha pouca evidencia do sofrimento de Heine devido
a
sua rejei~ao par parte de parentes ricos ... " (Freud
1905: 165). (Seriam Heine e seu personagem
e
0
"locutor" do
chiste?). Considere-se
0
"enunciador"
ainda:
"Temos a impressao de que os determinantes subj~
tivGS da e1abora<;ao.do chiste com freqQencia nao
se situam muito 10nge daque1es determinantes das
doen<;as neuroticas - basta considerarmos,
por
exemp10, Lichtemberg, homem gravemente hipocondrIaco, com toda 'especie de exentricidade" (Lichtemberg e urngrande produtor de chistes, muitos
dos quais citados por Freud. N. do A.) (Freud
1905:
165).
"Se, como medico, tem-se ocasiao de travar conhe
cimento com uma dessas pessoas que, nao sendo no
taveis sob outros aspectos, sao bem conhecidas como piadistas ou inventores de muitos chistes
viaveis, pode ser surpreendente descobrir'
que
o piadista e uma persona1idade dividida, propensa a doen<;as neuroticas" (Freud, 1905: 165).
A analise do discurso
nao se autoriza ainda a en
politico), enquanto que no campo da possIvel colabora~ao
com a psicanalise, juizos de mesma natureza ainda
sao
algo como uma pBicanalingQ{Btica
aqul de etica.
) e razao que chamarel
Por alguma razao,que nao sera multo dif.!.
cil de descobrlr, sentimo-nos menos comprometidos
em r~
tular, p. ex., alguem de comunista do que de histerlco.
A analise do dlscurso autorlza
(pelas suas pro-
prias raizes) a classificar discursos politicos
ou yea
como
x
sociolingdlstica pode tentar explicar a dife -
ren~a de linguagem de homens e mulheres com base em ex_
plica~oes sociologicas.
a
Talvez seja porque estas questoes pertencem
esfera pUblica, enquanto que as questOes tIpicas da ps!
canalise pertencem, tradicionalmente
A
a
esfera privada.
segunda razao responsavel pela pouca colabor~
~ao entre a ling6Istica e a psicanalise chamarei
metodoZogica.
de
Parece obvio que as conexoes entre
fato
res sociais e lingOisticos sao mais facilmente comprov~
veis. Isto
e,
existem procedimentos oriundos do mesmo
estilo de racionalidade para medir a influencia
res sociais ou polIticos no discurso
de fato
(enunciar determi-
nados enunciados de certa maneira e inscrever-se
em de-
terminado grupo ou comprometer-se com determinada
dou -
trina). O£a, nao se pode, parece, efetuar pesquisas ps!
calIticas como se realizarn pesquisas polIticas,
soclol~
gicas, etc. Os casos descritos pelos pslcanallstas
cernmulto particulares
as outras disciplinas
par~
(ver Gran-
ger, 1967: cap. VII). Os problemas do pequeno Hans
nao
se manlfestam pelo meamos sioals que os problemas do Ho
mem dos Ratos, que os problemas de Dora, etc. Isto
e,
'a sensa~ao de que cada caso
e
urncaso
e
muito forte. Pa
ra uma disciplina que se quer cientIfica,
e
tradicional, esta caracterIstica
ve
a
no sentido
certamente
urnentra-
colabora~ao.
Em poucas palavras, e,para retomar
ta comunica~ao, qualquer lingQista,
discursos de analisandos,
0
tItulo des
se se deparar
com
podera efetuar suas analises,
mas nao se sente autorizado a tentar sua interpreta~ao.
DUCROT, O. 1972. Principios de semantica
ZingUistica(d!
zer e nao dizer). Sao Paulo, Cu1trix.
DUCROT, O. 1980. Les mots du discours. Paris, Minuit.
FREUD, S. 1905. Os chistes e sua reZa~ao com
cient~. Rio de Janeiro,
Sao Paulo,
(05 Pensadores).
GRANGER, G.G. 1967. Pensee formeZZe
me.
incons-
Imago.
FREUD, D. 1905. Cinco Zi~oes de psicanaZise.
Abril Cultural
0
Paris, Aubier
et sciences de Z'hom
- Montalgne.
GRICE, H.P. 1968. "Logica e conversa~ao".
Fundamentos metodoZogicos
In: Dascal, M.
da ZingUistica.Vol.IV.
Campinas, UNICAMP.
OSAKABE, H. 1979. Argu~enta~ao e discurso politico. Sao
Paulo, Kayros.
P~CHEUX, M. 1969. Analyse automatique du discours. Paris,
Dunod.
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