UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO INSTITUTO DE LINGUAGENS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE LINGUAGEM VIVIANE LETÍCIA SILVA CARRIJO ATIVIDADES REFLEXIVAS PARA A REESCRITA: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA BAKHTINIANA CUIABÁ-MT 2012 ii VIVIANE LETÍCIA SILVA CARRIJO ATIVIDADES REFLEXIVAS PARA A REESCRITA: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA BAKHTINIANA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso como exigência parcial para a obtenção do título de mestre em Estudos da Linguagem. Área de Concentração: Paradigmas do Ensino de Línguas. Orientadora: Professora Dra. Simone de Jesus Padilha. CUIABÁ-MT 2012 Dados Internacionais de Catalogação na Fonte C316a Carrijo, Viviane Letícia Silva. Atividades reflexivas para a reescrita : contribuições da teoria bakhtiniana / Viviane Letícia Silva Carrijo. – 2012. 166 f. ; 30 cm. Orientadora: Simone de Jesus Padilha. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Linguagens, Programa de PósGraduação em Estudos de Linguagem, 2012. Inclui bibliografia. 1. Reescrita – Análise do discurso. 2. Língua escrita – Ensino-aprendizagem. 3. Língua portuguesa – Ensino. 4. Produção de textos – Alunos. 5. Dialogismo. I. Título. CDU 81’42:372.45 Ficha Catalográfica elaborada pelo Bibliotecário Jordan Antonio de Souza - CRB1/2099 Permitida a reprodução parcial ou total desde que citada a fonte iii iv Dedico à minha família pelo apoio constante. Especialmente à minha mãe, Erenita, e meus irmãos, Marcos e Karla, por sempre acreditarem em mim, mesmo quando eu não acredito. v AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por sempre segurar minha mão e me conduzir pelo caminho que deveria ser seguido. Mesmo quando eu me sentia fraca, Ele sempre me dizia: Seja forte e corajoso! Não se apavore, nem desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar (Josué 1.9). Sou grata por sua eterna presença! À professora Dra. Simone de Jesus Padilha, por ter me aceito como sua orientanda, pela gentileza de me dar a oportunidade de aprender com o seu conhecimento e sabedoria de vida. À professora Dra. Maria Rosa Petroni, por me acompanhar nos meus primeiros passos, sendo a “minha mãe de pesquisa”, e por ter estado sempre presente no meu mestrado, inclusive no fim! Ao professor Dr. Sandoval Nonato Gomes Santos, pela leitura do meu trabalho que muito contribuiu em minhas reflexões sobre a pesquisa. À Capes pelo apoio financeiro; Aos professores do Programa de Mestrado em Estudos de Linguagem — Cláudia Ana Antonia, Sérgio Flores, Solange Papa, Maria Inês, Elias, Danie, Franceli, Rhina e Célia, pelas contribuições teóricas e pelo apoio demonstrado em sorrisos, conselhos e abraços; Aos amigos bakhtinianos de todas as horas – Shirlei, Lezinete, Rute, Leni, Iara, Angélica, Thiago, Eliana, Jefferson pelos momentos de aprendizagem da teoria e da vida. Aos amigos também bakhtinianos, mas “simonetes” no mesmo ano – Anderson e Leila, pela cumplicidade e por caminharem sempre ao meu lado. vi Aos amigos do meu 1º ano de Pós-Graduação – Ana Regina, Ana Raquel, Ana Maria, Juliana, Everton, Perla, Fernando, Graziane, Miriã, Verônica e Cleonice, pela torcida e pelo companheirismo. Aos amigos “calouros” da Pós – Camila, Dinaura, Kênia, Maria Antônia, Josilene, Neila, Sheila, Alexandre e Jean pelos sorrisos e torcida. Aos amigos e irmãos em Cristo – Elisa, dona Sônia, Luciana, Rodrigo, Marileuza, Yuri, Jéssica, Natália, Priscila, companheira Márcia e dona Neuci pelas orações e apoio constante. Aos meus familiares - avós, tias, tio e primos, pela confiança e palavras de conforto. À minha mãe e meus irmãos – presentes em todas as etapas da minha vida – por responderem ao meu estresse com palavras carinhosas e animadoras, vocês fazem toda diferença! Aos aqui não nomeados, mas que contribuíram, de alguma maneira, para a construção deste trabalho, muito obrigada! vii Elogio do aprendizado Aprende o que é mais simples! Para aqueles cujo momento chegou, nunca é tarde demais. Aprende o ABC: não basta, mas aprende-o! Não desanimes! Tens de assumir o comando! Aprende, homem no refúgio! Aprende, homem na prisão! Mulher na cozinha, aprende! Aprende, sexagenário! Tens de assumir o comando! Procura a escola, tu que não tens casa! Cobre-te de saber, tu que tens frio! Tu, que tens fome, agarra o livro: é uma arma! Tens de assumir o comando! Não tenhas medo de fazer perguntas: não te deixes levar por convencido, vê com teus próprios olhos! O que não sabes por experiência própria, a bem dizer, não sabes. Tira a prova da conta: és tu quem vai pagar! Aponta o dedo sobre cada item, Pergunta: como foi parar aí? Tens de assumir o comando! Bertold Brecht viii RESUMO Carrijo, Viviane Letícia Silva Atividades reflexivas para a reescrita: contribuições da teoria bakhtiniana Nesta pesquisa, refletimos sobre a relevância da reescrita para o ensino-aprendizagem da língua escrita. Para que o aluno desenvolva o reescrever efetivamente, consideramos que seja preciso um trabalho anterior a isso, baseado nos aspectos da escrita que os alunos ainda necessitam melhorar. A esse momento denominamos de atividades reflexivas, cujo objetivo é a preparação do aluno para a retomada do texto, ou seja, a reescrita. Disso decorre a pertinência desta pesquisa, pois trataremos de apresentar um percurso de análise e criação de atividades, a fim de mostrar a possibilidade de um ensino reflexivo e discursivo da linguagem. Para realização da pesquisa, utilizamos 20 (vinte) produções de textos para analisarmos e criarmos atividades a partir das necessidades discursivas. Ancoramos nossas reflexões e análises na teoria enunciativo-discursiva de abordagem sócio-histórico do Círculo de Bakhtin e utilizamos o conceito de ZPD (Vigotski, 1934) para a busca das necessidades. Antes de criarmos as atividades, verificamos na obra bibliográfica do Círculo quais os aportes teóricos estão presentes na prática processual da reescrita. Dentre eles escolhemos alguns como: a interação e o dialogismo – principais componentes constitutivos da linguagem; a formação do sujeito agente responsivo – ligado a questão da compreensão ativa e a atitude criadora do autor; a exotopia – relacionada ao excedente de visão do autor sobre sua produção escrita e também sobre o dizer do outro; o ato estético – no processo de formação do discurso e os gêneros discursivos. Para criarmos as atividades reflexivas utilizamos a abordagem interativa e dialógica, porque compreendemos que a construção de sentidos se dá nesses aspectos, sendo nas relações sociais que o sujeito se constitui e constrói os discursos. Nessa perspectiva, criamos atividades que exigiam do aluno constantemente o diálogo com o outro. A nosso ver, esses momentos de dialogismo e interação são os que mais proporcionam o desenvolvimento da atitude criadora dos sujeitos, ocorrendo, assim, a formação da autoria. Neste estudo, isso significa a necessidade do aluno posicionar-se criticamente frente às questões sociais. Palavras-chave: reescrita, atividades reflexivas, dialogismo. ix ABSTRACT Carrijo, Viviane Letícia Silva Rewriting reflexive activities: bakhtinian theory contributions This study it is a reflexive work on the importance of rewriting to teaching-learning writing process. For the development of effective rewriting, we consider the importance of a before work, based on the aspects of writing that students still need to improve. This moment we call reflective activities, whose aim is preparing students for the return of text productions, in other words, rewriting. This is the main contribution of the present study: to try to present a way of analysis as well as the creation of activities in order to show the possibility of a reflexive and discursive language teaching. For this study, we used twenty (20) texts productions to analyze and create activities based on the discursive needs. This study was done under the lights of the social-historical discursive approach by Bakhtin Circle and the concept of ZPD (Vygotsky, 1934) to search needs. Before we create activities, we verified on the bibliographic work of the Circle which theoretical concepts are present in the procedural rewriting practice. Among them we chose: the interaction and dialogism - which are the main language constitutive components; the formation of a responsive agent subject – in regard to the question of author’s active understanding and creative attitude; the exotopy – related to the surplus of author’s vision in his written production and also about the other say; the aesthetic act - in process of discourse and genres formation. To create the reflective activities we used the interactive and dialogical approach, because we realize that the construction of meaning occurs under these aspects, in other words, in the social relations the subject constitutes himself and constructs the discourses. In this perspective, we create activities that required constantly dialogue between students. In our point of view, these moments of dialogism and interaction are the ones that provide the development of the subjects’ creative attitude, occurring thus the formation of authorship. In this study, it means the student‘s need to position himself critically on the social issues. Key words: rewriting, reflective activities, dialogism. x SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS.................................................................................... 12 CAPÍTULO 1 ............................................................................................................. 20 Construtos teóricos bakhtinianos presentes no processo social da reescrita ........... 20 1.1 Interação e Dialogismo: aspectos constitutivos da linguagem .................... 21 1.2 O sujeito em Bakhtin: atitude responsiva ativa ........................................... 25 1.3 Autor em Bakhtin: atitude responsiva criadora sobre os discursos já existentes .......................................................................................................... 33 1.4 Excedente de visão: a exotopia, um olhar de fora sobre o discurso do outro .......................................................................................................................... 37 1.5 Atividade Estética em Bakhtin: aspecto formador do discurso.................... 39 1.6 Gêneros do discurso: prática das relações sociais ..................................... 42 CAPÍTULO 2 ............................................................................................................. 51 Influências teóricas no ensino de Língua Portuguesa: caminhos para mudanças .... 51 2.1 Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa: proposta para um ensino de língua materna contextualizado .................................................. 52 2.2 Vigotski: aprendizado social da língua materna .......................................... 60 2.3 A noção de gênero para o Grupo de Genebra e outros apontamentos ..... 67 2.4 O ensino reflexivo da escrita: a reescrita em questão ................................ 75 2.5 Definição da reescrita sob perspectiva bakhtiniana .................................... 83 CAPÍTULO 3 ............................................................................................................. 88 Metodologia de pesquisa: o caminho até os dados ................................................... 88 3.1 Trajetória metodológica: da reflexão para os objetivos ............................... 88 3.2 A pesquisa no âmbito enunciativo-discursivo do Círculo de Bakhtin .......... 92 3.3 Metodologia de geração e análise de dados: E o corpus era difícil ............ 96 CAPÍTULO 4 ........................................................................................................... 102 Análise de dados: implicações da reescrita dialógica e criação das atividades reflexivas ................................................................................................................. 102 4.1 Análise reflexiva e discursiva das produções............................................ 103 xi 4.1.1 Atividade estética e gênero do discurso................................................. 103 4.1.2 Atitude responsiva e Compreensão ativa............................................... 111 4.1.3 Autoria.................................................................................................... 116 4.2 Atividades reflexivas para a reescrita por categoria discursiva bakhtiniana ........................................................................................................................ 118 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 133 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 138 ANEXOS ................................................................................................................. 146 12 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A justificativa para desenvolvermos um estudo sobre a prática reflexiva da reescrita advém de uma época anterior ao Mestrado, quando, depois da graduação, assumimos a posição de professora articuladora1. Nessa função, tivemos a oportunidade de trabalhar com alunos que apresentavam dificuldades referentes à leitura e escrita, como se fossem aulas de reforço, as quais aconteciam em horário diferente daquele já frequentado pelos alunos. Quando nos foi oferecida essa oportunidade, ficamos empolgados, afinal, poderíamos trabalhar individualmente com os alunos, fato que não acontecia muito em uma turma de 35 ou 40 alunos, já na articulação, a média era de seis alunos por hora. Assim, iniciamos o trabalho com a prática da escrita como processo, considerando os seus procedimentos: planejamento, escrita, revisão e reescrita. A princípio, esse foi um trabalho árduo, pois os alunos não estavam interessados em “escrever de novo” o que custara tanto para criar, ainda mais porque não havia a possibilidade de nota que pudesse ser acrescentada em suas médias. Com o tempo, conseguimos convencê-los de que a reescrita dos textos serviria para consolidar o conhecimento que discutíamos nas aulas, como um momento mais profundo de reflexão sobre sua própria escrita e, logo, eles veriam a diferença, quando, então, melhorassem na disciplina. Em outra época, anterior a essa, na prática de regência de Língua Portuguesa2 da graduação, tivemos a oportunidade de trabalhar da mesma forma com alunos do 7º ano. Fizemos um projeto de ensino da escrita de fábulas, do qual os estudantes participaram com grande interesse durante as discussões e refizeram os textos mediante os comentários feitos por nós ao fim das produções. Nesses dois momentos, na articulação e na prática de regência, os alunos alcançaram resultados que surpreenderam as professoras titulares. Elas não acreditavam, quando mostrávamos as produções dos alunos “problemáticos” – como A articulação é um dos componentes da escola ciclada e, de acordo com a portaria 453/11/GS/SEDUC/MT, uma das funções do professor articulador é: Atender, conforme projeto de articulação construído pela escola, os alunos com desafios de aprendizagem, utilizando estratégias pedagógicas complementares, proporcionando vivências formativas cidadãs integradas às atividades desenvolvidas pelo Professor Regente. No nosso caso, o projeto consistia na prática de leitura e escrita. 1 2 Doravante LP. 13 elas os chamavam – que eles tivessem escrito com qualidade, pois, até então, eles “não sabiam escrever português” (conforme disse uma professora da prática de regência). Recordamos que, na época de regência, em 2008, observamos as aulas da professora titular e verificamos que ela as dava com grande preocupação sobre os aspectos gramaticais da língua, de maneira que as aulas consistiam apenas em um ensino prescritivo e descritivo. A única prática de escrita que seus alunos conheciam era a cópia de textos clássicos apresentados pelo livro didático, a professora acreditava que quanto mais eles copiassem textos “corretamente gramaticais”, mais os alunos melhorariam na escrita do “português certo”. Devido a essas práticas, não nos impressionamos quando as crianças ficaram felizes com a ideia de usarem a própria imaginação para a escrita de fábulas. No ano seguinte, em uma escola diferente e na articulação, verificamos os cadernos de LP dos alunos e o conteúdo consistia em prescrição das regras da gramática, em detrimento do que era exigido no momento da avaliação, pois nessa era considerada a interpretação e produção de textos. Sem essa prática em sala de aula, a tendência era o aluno não alcançar a média e, assim, passava a frequentar a aulas na articulação. Agora, ao traçarmos esse panorama do nosso passado, concluímos que o trabalho reflexivo com a linguagem, tendo como ponto de partida o que os alunos escreviam, produziu resultados relevantes, pois, em ambos os momentos, o desempenho da escrita das crianças, paulatinamente, melhorava. Através dessas nossas experiências, criamos a noção de que o ensinoaprendizagem da escrita, considerando-a um processo, é mais eficiente que um ensino que a caracterize como produto, ou seja, um resultado apenas para a obtenção de nota. Consideramos que esse tipo de objetivo não alcança a meta maior da educação atualmente, ou seja, a formação de um sujeito aluno crítico que atue eficazmente no exercício da cidadania. Ganhamos essa consciência à medida que, em nossos estudos, tínhamos o contato com as teorias enunciativas e discursivas sobre o ensino da escrita como processo, considerando a prática reflexiva do aluno sobre seu próprio texto e líamos também nos Parâmetros Curriculares de Língua Portuguesa3 sobre o ensino de LP 3 Doravante PCNLP e sempre nos referiremos aos de 3º e 4º Ciclos (6º a 9º anos). 14 contextualizado, com o uso do texto como unidade de ensino e as necessidades dos alunos como referência para o que ensinar. Esse tipo de ensino mostra a possibilidade da formação da proficiência do aluno na prática de escrita, não somente pelo uso das estruturas gramaticais adequadas, mas também das discursivas, de maneira que essas junto com aquelas dão sentido ao que se pretende dizer. O que acontece tradicionalmente no ensino de LP é a separação dessas partes, delimitando a linguagem somente à aprendizagem da gramática normativa. O resultado disso são alunos que não conseguem escrever de maneira crítica, posicionando-se frente às questões sociais. Se analisarmos a trajetória das pesquisas sobre o ensino da língua portuguesa, veremos que as considerações feitas até agora não são novidades, pois há muito se tem discutido sobre a necessidade de ampliar o ensino da língua para além da gramática. Segundo Agnolini (2007), na segunda metade da década de 80, a Teoria do Texto começou a ser conhecida aqui no Brasil pelos professores e nos anos 90 entra em cena a concepção interacionista da linguagem. Nesse âmbito temos pesquisas tais como: FRANCHI (1987), GERALDI (1991), GRILLO (1995), JESUS (1995), as quais estudaram sobre o ensino da escrita em uma perspectiva social. Há também nessa época uma forte influência das teorias de Mikhail Bakhtin, Vigotski e da escola de Genebra sobre as pesquisas da produção escrita, culminando, então, na criação dos documentos oficiais de LP, os PCNLP. Em todo caso, apesar de todas essas influências e pesquisas, o ensino de tradição parece persistir e os alunos continuam sem avançarem satisfatoriamente na prática da escrita, podemos verificar isso, por exemplo, ao analisarmos o resultado do desempenho da escrita do aluno em avaliações nacionais. Rojo (2009) apresenta dados do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2001, nos quais os alunos demonstram maior desempenho na competência linguística ligada ao domínio das normas e formas da língua padrão e obtêm médias abaixo das notas de corte (50) nas competências discursivas. A autora apresenta parte do relatório de 2005, da 8ª edição do Exame, para a prova de redação: Na competência I (domínio da norma culta da língua escrita), a média nacional foi de 64,29. Nas competências II, III e IV, as médias nacionais foram bem próximas: 57,36, 54,97 e 55,87, respectivamente. Isso demonstra que os concluintes e egressos do 15 ensino médio têm dificuldade para aplicar conceitos de várias áreas de conhecimento ao desenvolverem um tema (competência II), bem como para relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista (competência III). Constata-se, também, que são deficientes os conhecimentos dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação (competência IV). Mas a competência V – elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, demonstrando respeito aos direitos humanos – foi a que registrou média nacional mais baixa (47,32), o que sugere que os participantes do Enem não estão suficientemente preparados para discutir respostas aos problemas sociais congruentes com o respeito e a promoção dos direitos humanos (ROJO, 2009, p. 33). Verificamos também nos relatórios de 2006 e 2007, os últimos a serem publicados4, que os resultados não apresentam grandes mudanças, como mostram os quadros abaixo das distribuições das notas gerais e por competências: MEC/INEP - 2006 MEC/INEP - 2007 4 Esses dois foram, até o momento, os últimos relatórios disponibilizados na WEB, no site do INEP. 16 Ao compararmos os dados apresentados nos relatórios de 2001, 2005 a 2007, confirmamos e repetimos aqui a conclusão que Rojo (2009) apresenta após o relatório de 2005: Isso vem demonstrar que a escola – tanto pública como privada, neste caso – parece estar ensinando mais regras, norma e obediência a padrões linguísticos que o uso flexível e relacional de conceitos, a interpretação crítica e posicionada sobre fatos e opiniões, a capacidade de defender posições e de protagonizar soluções, apesar de a “nova” LDB já ter doze anos (ROJO, 2009, p. 33). Esses dados justificam o que as pesquisas e as novas políticas pedagógicas para o ensino da língua materna defendem, ou seja, a necessidade de ampliação dos conteúdos da LP para além das normas gramaticais, pois, como mostram as evidências – as redações dos alunos – o ensino prescritivo é insuficiente para a formação de um cidadão crítico que saiba se posicionar mediante o domínio da escrita. Atualmente está em voga um ensino reflexivo e social da língua, porém, esse não é um trabalho fácil e podemos pensar em fatores que dificultam esse ensino, tais como: o forte enraizamento do ensino tradicional – alunos e professores foram formados nele, de modo que não conhecem ou aceitam outra maneira de ensino – some-se a isso, então, a má formação do professor de ensino da língua materna que só trabalha de forma prescritiva, porque essa é a maneira mais fácil para dar aula; e temos também o desânimo e resistência dos alunos em relação a propostas de ensino e letramento oferecidas pelas práticas escolares. Em meio a esse quadro constantemente nos perguntamos: Como fazer um ensino reflexivo e social? Afinal, lemos muitas críticas contra o ensino apenas tradicional e apoio por um ensino que preze o trabalho com o texto, mas o que fazer de fato? Quais métodos usar? A problemática recai sobre os métodos porque, embora existam muitas teorias, o que importa é o como aplicá-las na prática de ensino-aprendizagem da LP, por outro lado, há pesquisas que revelam métodos que produzem bons resultados, porém nem sempre funcionam em qualquer realidade escolar, assim, fica descartada a hipótese de encontrar métodos 100% prontos ou “receitas”, como dizem alguns críticos. 17 Às vezes, será preciso adequar os métodos ao contexto de sala de aula que se quer trabalhar, isso acontece não somente por causa da diferença de escola, de professor ou de estudantes, porém, em se tratando do ensino de LP, das necessidades dos alunos. Logo, no ensino-aprendizagem da escrita, o professor também não escapa ao movimento de reflexão sobre a própria prática e a do aluno, para compreender quais modificações serão feitas no método escolhido. De tal forma, o que apresentaremos com esta pesquisa é o desenrolar de nossas reflexões sobre a prática da reescrita, a busca para respostas de nossos questionamentos referentes ao como fazer, ou melhor, como levar o aluno a essa prática mediante uma teoria, ou seja, como aplicar uma teoria sem tornar os estudantes de ensino fundamental ou médio peritos no assunto teórico? Acreditamos que seja possível mediante ao trabalho reflexivo do professor que pode criar estratégias para esse ensino. Como mostra a nossa experiência relatada alhures, a nossa preocupação quando se trata de ensinar a escrever na escola recai sobre a prática da reescrita 5, por considerarmos esse o momento de maior reflexão, no qual o aluno voltará para o texto já-escrito com outro posicionamento, respaldado pelas considerações do professor e atento para as suas necessidades. Temos em mente aqui o ensino de LP que considere “a produção de textos como ponto de partida (e ponto de chegada) de todo o processo de ensino/aprendizagem da língua” (GERALDI, 1997, p. 135). Essa prática consiste em uma mudança no modo de se trabalhar a língua materna em sala de aula, a partir da perspectiva de linguagem como processo de interação. Isso casa com o objetivo de formação de cidadão crítico, visto que o aluno usa textos em suas relações sociais e o trabalho com a escrita prepara para vida em sociedade. Por isso, para atender às demandas sociais da escola e para a tentativa de ampliar a proficiência do aluno em suas práticas discursivas, parece-nos relevante o trabalho com a concepção de linguagem interativa, pois a aprendizagem dos usos da língua tem um movimento do social para o individual, ou seja, forma-se nas interações sociais, para em seguida internalizar-se ou ser apropriada pelo sujeito. É pertinente explicarmos que o fato de nos atermos mais ao momento de reescrita, não significa que desconsideramos os outros procedimentos da escrita, pois, atribuímos a escrita caráter processual, indissociável, portanto, do escrever, planejar, revisar e reescrever. Mesmo que foquemos nesse último, ele ainda não estará isento dos outros momentos, porque para a reescrita é necessário o planejar sobre como melhorar o texto, depois a escrita do percebido, a revisão após e se preciso novamente a reescrita. 5 18 Nessa temática, a prática de reescrita consiste inicialmente em momento de interação entre o professor e o aluno, de modo que não depende apenas do aluno, mas o docente também tem sua parte nisso, pois o professor verifica o que o aluno precisa melhorar para, então, oferecer o insumo necessário para suprir o que ele ainda não sabe. Concordamos com Garcez (1998) que a prática de reescrita dá ao aluno a oportunidade de explicitar seus conhecimentos e dúvidas, procurar soluções, raciocinar sobre o funcionamento da língua e, assim, desenvolver a aprendizagem de questões linguísticas, textuais e discursivas mais complexas referentes à modalidade escrita. A nosso ver essa aprendizagem é possível no momento da reescrita por causa das atividades desenvolvidas com os alunos antes da retomada das produções, pois, por meio delas, os estudantes terão a oportunidade de trabalhar o que precisarão melhorar em seus textos. Assim, nesta pesquisa, apresentaremos atividades reflexivas que servirão de preparo para o momento da reescrita. Escolhemos para nos auxiliar na criação das atividades a teoria bakhtiniana, devido a sua essência: a prática discursiva interativa da linguagem. Acreditamos que o ato dialógico da linguagem, fator inerente à interação, pode levar o aluno a uma prática reflexiva sobre a sua escrita, à medida que busca adequá-la ao seu interlocutor e procura meios de usar o dizer do outro para formular o seu próprio dizer, buscaremos, assim, mediante as atividades, aplicar essas considerações na formação autora dos alunos. Nosso objetivo, bem como um dos objetivos do ensino de LP atualmente, é a formação de um cidadão, em outras palavras, um sujeito crítico capaz de posicionarse frente às questões sociais e temos visto que a teoria bakhtiniana dá conta de auxiliar nessa temática por causa de seu caráter social e dialógico. Nessa perspectiva, as atividades que serão propostas terão a função de ocasionar reflexões ativas, pois a reflexão dos alunos será seguida de uma ação para construção de sentidos, nesse caso, a prática da reescrita. Assim, pareceu-nos relevante compreender e verificar os construtos teóricos da teoria bakhtiniana presentes nessa prática, pois isso poderia ampliar nosso olhar para criação das atividades reflexivas. Sendo assim, propomos as seguintes questões de pesquisa: 1. Quais os aspectos da teoria bakhtiniana estão visíveis na prática de reescrita?; 2. Como seria 19 uma análise reflexiva sobre a produção de texto dos alunos, considerando a perspectiva bakhtiniana?; e 3. Quais atividades reflexivas para a preparação do momento de reescrita a análise suscitaria? Postas as justificativas e questões, no capítulo 1, faremos um passeio pelos construtos teóricos da teoria bakhtiniana, fazendo o casamento entre eles e a prática de reescrita, para depois os utilizarmos em nossa análise. No capítulo 2, trataremos inicialmente da escrita nos PCNLP, para depois discorrermos sobre a teoria de ensino e aprendizagem genebrina, que influencia os documentos oficiais. Falaremos também sobre a teoria vigotskiana com foco no conceito de ZPD, que será importante para nossa análise. Apresentaremos, ainda nesse segundo capítulo, algumas pesquisas que se ocuparam da reescrita, para em seguida apresentarmos a nossa definição para a reescrita na perspectiva bakhtiniana. No capítulo 3, delinearemos o percurso metodológico traçado por nós na realização desta pesquisa. No capítulo 4, apresentaremos uma análise reflexiva das produções de alunos, a fim de averiguarmos as necessidades para, então, criarmos as atividades reflexivas, as quais estarão nesse capítulo também. Por fim, apresentaremos as nossas conclusões. 20 CAPÍTULO 1 Construtos teóricos bakhtinianos presentes no processo social da reescrita Neste capítulo, explanaremos sobre alguns aspectos da filosofia de linguagem de Mikhail Bakhtin e seu Círculo6, os quais sustentarão nossa reflexão sobre a prática de reescrita e nos guiarão em nossa proposta de atividades que preparem os alunos para esse processo. Esperamos mostrar que os conceitos de Bakhtin estão presentes na prática de reescrita e que esta pode ser trabalhada discursivamente com os alunos. Assim como Bakhtin e o Círculo consideram o contexto sócio-histórico dos sujeitos e concebem a linguagem como prática interativa, da mesma forma consideraremos as produções escritas pelos alunos, ou seja, elas são como práticas de interação propensas a um diálogo conosco. Por causa disso, seremos capazes de perceber as necessidades discursivas e, então, criarmos atividades reflexivas, a serem trabalhadas antes do momento de reescrita, a fim de que os alunos consigam suporte para a retomada das produções. Para criação das atividades faremos, então, uso de alguns construtos bakhtinianos que constituem a nossa visão sobre a reescrita. 6 Tomamos aqui a explicação de Santos (2011): “O pensamento bakhtiniano é fruto das produções/discussões realizadas em conjunto por Bakhtin e um grupo de intelectuais russos que se dedicavam às mais variadas áreas das Ciências Humanas, no período que compreende os anos de 1920 a 1970 — na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), atual Rússia — conhecido como o Círculo de Bakhtin, entre eles V. N. Volochinov (1895-1936) e P. Medvedev (1892-1938) com os quais as autorias de algumas obras são disputadas. Por exemplo, no original russo e na tradução inglesa, as obras Discurso na vida e discurso na arte (1926) e Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929) levam apenas a assinatura de Volochinov; já na tradução brasileira a partir da francesa, elas recebem dupla assinatura — de Volochinov e de Bakhtin”. Sobre a questão de autoria, conforme Santos (2011), citaremos o nome dos dois autores, separados por uma barra. Quanto àquelas que receberam apenas a assinatura de Bakhtin serão citadas com seu nome somente. 21 1.1 Interação e Dialogismo: aspectos constitutivos da linguagem A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. BAKHTIN/VOLOSHINOV (1997[1929], p. 113) Em Marxismo e Filosofia da Linguagem (1997[1929]), Bakhtin/Voloshinov defendem a natureza social da linguagem, contrapondo-se aos principais estudos da época sobre a linguagem, denominados pelos autores como Objetivismo Abstrato e Subjetivismo Idealista. Cada uma dessas tendências concebe o objeto de estudo da linguagem à sua maneira. O Objetivismo Abstrato acredita que para compreender os fenômenos da linguagem basta levar em consideração o sistema linguístico 7, pois esse é o constituinte da língua. Considerando, então, a concepção de língua regida pelas normas, essa tendência rejeita a criação da língua pelo sujeito falante, pois, segundo ela, o sistema linguístico sempre existiu e apresenta-se como produto acabado, dando um caráter finito e normativo à língua. Portanto, não há como o falante modificá-lo. Sobre esse aspecto regulador da língua na comunicação, Bakhtin/Voloshinov (1997[1929]) explicam a idéia do Objetivismo Abstrato: “A língua opõe-se ao indivíduo enquanto norma, indestrutível, peremptória que o indivíduo só pode aceitar como tal” (p.78). Logo, o falante tem que assimilar o sistema linguístico como ele é, caso faça diferenciado, estará errado. Nesse viés, “não há lugar para quaisquer distinções ideológicas, de caráter apreciativo: é pior, é melhor, belo ou repugnante, etc” (idem, p. 79), de maneira que, na visão objetivista, não há consideração do social ou mesmo das possíveis variações da língua para o entendimento dos fenômenos da linguagem. Há apenas um critério linguístico: “está certo ou errado”, sendo isso avaliado de acordo com uma dada norma do sistema. O outro estudo – o Subjetivismo Idealista – rejeita essa concepção da língua, pois considera que se a língua fosse um sistema de normas, alheio a mudanças, ela seria morta. Para o subjetivismo, a língua é uma evolução ininterrupta, criação contínua, pois assim o é o psiquismo humano e esse é o constituinte da língua. Bakhtin/Voloshinov (1997[1929]) explicam que o sistema linguístico é o sistema das formas fonéticas, gramaticais e lexicais da língua. 7 22 Entretanto, não pensemos que pelo fato desse estudo considerar a evolução da língua, ele considera o social da linguagem. Pelo contrário, Bakhtin/Voloshinov demonstram que o Subjetivismo Idealista acredita no ato de fala de criação individual como fundamento da língua, descartando, portanto, o social. Bakhtin/Voloshinov (1997[1929]) apresentam essa análise dos dois estudos da Linguística a fim de mostrar que o tratamento dado por eles à compreensão dos fenômenos da linguagem é insuficiente, pois consistem em “isolar e delimitar a linguagem”. Para os autores, não se pode delimitar a linguagem em atos de fala individuais, nem tampouco isolá-la em um sistema linguístico, porque o “ato de fala, ou, mais exatamente, seu produto, a enunciação é de natureza social” (idem, p. 109). Por tais explicações, verificamos que o Círculo de Bakhtin defende que a língua não se faz apenas por sistema linguístico (muito embora esse aspecto faça parte de sua constituição), muito menos pela criação individual, “solitária”, de um falante. Para Bakhtin (2000[1952-53]): A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados8 (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas [...] (BAKHTIN, 2000[1952-53], p. 279). Brait e Melo (2005, p.72) sintetizam a abordagem do enunciado em Bakhtin destacando os seguintes elementos: o interlocutor a quem o enunciado se dirige, a percepção que o locutor tem do interlocutor e a influência do interlocutor sobre o enunciado. Nessa direção, entrevemos, conforme Bakhtin/Voloshinov (1997[1929]), o aspecto indispensável à prática social: a interação. Qualquer que seja o aspecto da expressão-enunciação considerado, ele será determinado pelas condições reais da enunciação em questão, isto é, antes de tudo pela situação social mais imediata [...] a enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados [...] (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1997[1929], p.112). 8 Conforme Sobral (2009), o “enunciado” pode ser substituído nas obras do Círculo, sem alteração de sentido, por “enunciação”, o que reforça isso é o fato de que em russo “enunciado” e “enunciação” são designados por uma única palavra: vyskazyvanie. Por isso, usaremos neste trabalho tanto um quanto outro. 23 Tomando por base tal citação, podemos concluir que a interação não consiste somente na existência dos interlocutores, mas também na relação entre eles, na situação social na qual se inserem. Bakhtin/Voloshinov, em 1926, já falavam sobre isso em Discurso na Vida e Discurso na Arte9. Ali ele apresenta a situação social como contexto extraverbal e alega que para compreensão das enunciações há de se considerar o contexto, mesmo porque é a partir do contexto que a linguagem se moldará. Na vida, o discurso verbal é claramente não auto-suficiente. Ele nasce de uma situação pragmática extraverbal e mantém a conexão mais próxima possível com esta situação. Além disso, tal discurso é diretamente vinculado à vida em si e não pode ser divorciado dela sem perder sua significação (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1926). Essa citação só confirma a natureza social da linguagem defendida pelo Círculo e reforça a ideia de Bakhtin/Voloshinov (1997[1929]) quando falam sobre o centro organizador da enunciação estar “situado no meio social que envolve o indivíduo” (p. 121). Tomando emprestada essa temática analisaremos, mais adiante, as produções em um diálogo com o contexto nelas implícito, nesse caso será evidente também a necessidade da relação professor e aluno no momento antes e no decorrer da reescrita. Por hora, deixamos claro que a concepção de linguagem bakhtiniana enquadra-se perfeitamente a nossa ideia de reescrita: prática processual e social. Continuemos, então, a refletir sobre a relação entre a interação social e a constituição da língua. Ao abordar o enunciado como produto da interação, o Círculo de Bakhtin insere na comunicação verbal a ação dos participantes – os interlocutores – na produção dos sentidos10. Até então, os interlocutores não eram considerados Neste trabalho, utilizamos algumas obras de Bakhtin e seu Círculo que ainda não possuem tradução oficial para o português. Tivemos acesso a elas através de traduções feitas por pesquisadores brasileiros apenas para fins acadêmicos. Este é o caso, por exemplo, de Discurso na Vida e Discurso na Arte (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1926), traduzida por Faraco e Tezza, e um excerto, intitulado Os Elementos da Construção Artística (O problema do gênero), pertencente à obra O método Formal nos Estudos dos Gêneros (BAKHTIN/MEDVEDVEV, 1928). Esse excerto foi traduzido pela professora Simone Padilha apenas para uso restrito nas aulas de uma disciplina ministrada por ela na Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da UFMT, no ano de 2009, denominada Gêneros Discursivos. Por isso, ao fazermos referência a essas obras no corpo do texto, deste trabalho, ou em citações recuadas, informaremos apenas autores e data em que se tem conhecimento da sua produção. 9 10 Note-se que a preocupação dessa concepção interativa não será compreender a norma da forma utilizada, mas focar na significação que essa forma adquire na interação. 24 conjuntamente participantes em suas práticas sociais: havia sempre o que emitia a fala para o que a receberia. Já na concepção social, a participação dos interlocutores é constitutiva do próprio enunciado, pois a relação entre eles determina o “como” e o “porquê” do querer-dizer. Nesse âmbito, o locutor dirige a sua fala para o ouvinte, que não será ouvinte passivo, mas responderá ao outro, que logo lhe dará nova resposta e, assim, nesse diálogo, os sentidos serão construídos. Nessa perspectiva, não há espaço para uma “enunciação monológica”. Bakhtin/Voloshinov (1997[1929]) dizem que toda palavra dirige-se a um interlocutor e, mais que isso, espera-se uma resposta do outro participante e essa constitui um dos aspectos da atitude dialógica presente em qualquer prática de interação. Bakhtin e seu Círculo chamam esse fenômeno inerente às relações sociais de dialogismo, sendo indispensável para a formação da linguagem. Tal termo em Bakhtin tem seu significado ampliado em se tratando da linguagem enquanto prática social. Ao invés de ser estudado como uma forma composicional do discurso11, Bakhtin e seu Círculo demonstram que o diálogo é mais que uma comunicação entre duas pessoas. Ao considerar a constituição social da linguagem, Bakhtin aponta para o fato de que, em uma relação interativa, os interlocutores não dialogam somente entre eles, mas verifica-se em seus discursos um diálogo com o contexto imediato, pode-se pensar em um diálogo não de troca de informações, porém de encontro com os discursos já existentes. O enunciado existente, surgido de maneira significativa num determinado momento social e histórico, não pode deixar de tocar os milhares de fios dialógicos existentes, tecidos pela consciência ideológica em torno de um dado objeto de enunciação, não pode deixar de ser participante ativo do diálogo social (BAKHTIN, 2002[1934-35], p. 86). Por essa colocação, verificamos que o encontro com os discursos já existentes é inevitável. Para a formulação do seu dizer o sujeito precisa dos dizeres dos outros para, então, formar o próprio. Bakhtin (2002[1934-35]) ainda diz que “o discurso se encontra com o discurso de outrem e não pode deixar de participar, com ele, de uma interação viva” (p. 88). O dialogismo, então, é evidente não somente como troca de ideias ou como concordar ou refutar a fala do interlocutor, mas Ao abordar apenas a questão composicional do discurso, considerava-se somente a estrutura das enunciações e a definição de diálogo como o ato de comunicação entre interlocutores, quando um fala e o outro escuta. 11 25 envolve construir o discurso com os discursos dos outros. Através disso, que se constroem os sentidos da comunicação. Como vimos desenvolvendo, a enunciação é de natureza social por ocorrer em meio à interação e apresenta um caráter dialógico. Desse modo, podemos concluir que o dialogismo é constitutivo da linguagem e aparece na linguagem em qualquer situação. Sobre isso, Bakhtin (idem) pontua que “a orientação dialógica é naturalmente um fenômeno próprio a todo discurso. Trata-se da orientação natural de qualquer discurso vivo” (p. 88). Nesse aspecto, a escrita, enquanto prática social, também apresenta natureza dialógica. Assim, veremos mais adiante que o discurso do aluno em sua produção textual não está distante dessa orientação, pois o dialogismo está presente ali também. O interessante é notar que essa prática interativa e dialógica da linguagem é inerente ao ser humano, o qual se constitui mediante a linguagem. Percebemos que a teoria bakhtiniana de linguagem não se contenta em estudar somente os fenômenos da língua, em sua estrutura acabada, tampouco entender como esses se dão individualmente, pois a relação social culminará tanto na constituição da linguagem quanto na constituição do sujeito. 1.2 O sujeito em Bakhtin: atitude responsiva ativa O “eu” pode realizar-se verbalmente apenas sobre a base do “nós”. BAKHTIN/VOLOSHINOV (1926) Como desenvolvido anteriormente, a filosofia de linguagem em Bakhtin apresenta a enunciação advinda da prática social e essa se dá por meio da interação, a qual possui como componente constitutivo o dialogismo. Logo, verificamos a diferente abordagem dada à língua por Bakhtin e seu Círculo, pois, enquanto as demais orientações da linguagem buscam o estudo do sistema linguístico e do psiquismo individual para entendimento dos fenômenos da língua, Bakhtin pensa que o importante são os sentidos produzidos em meio às práticas sociais e que essas relações são a base para a produção das enunciações. Nessa perspectiva, por conta de a linguagem ser construída nas relações sociais, os interlocutores são participantes em suas práticas comunicativas. Desse 26 modo, não existem sujeitos passivos e, de fato, não há como se ter alguém que não dialogue, pois esse é um aspecto intrínseco ao discurso, como já dissemos. Bakhtin e o Círculo perceberam que não bastaria apenas um estudo da linguagem em si, mas seria necessário verificar também o agir humano12, pois é por meio dele que ela acontece ao mesmo tempo em que os sujeitos da ação se constituem. Voloshinov (apud SOBRAL, 2009, p. 47) diz que o sujeito é pensado em termos de uma interação constitutiva com a sociedade: assim como precisa da sociedade para existir como tal, o sujeito constitui, em suas relações com outros sujeitos, essa mesma sociedade. Tal colocação evidencia, mais uma vez, a afirmação de Bakhtin/Voloshinov (1997[1929]) que o centro organizador da linguagem é o meio social e, aqui, notamos que o social está representado na pessoa dos interlocutores. Quando há uma relação entre duas pessoas, é uma relação social e histórica que envolve toda a sociedade, pois o sujeito locutor e o sujeito interlocutor fazem parte dela. Como Sobral (2009), afirmamos que nessa relação há o encontro das relações sociais que ambos, interlocutores, já vivenciaram, provocando o encontro dialógico com os enunciados de outrem. Verificaremos, em nossa análise, que professor e aluno também fazem parte de relações sociais, nas quais eles constituem um ao outro. A própria prática de produção textual já evidencia essa relação e o encontro de vários enunciados. Portanto, na reescrita, o aluno poderá refletir, enquanto sujeito participativo, sobre sua prática e o diálogo traçado em sua produção mediante os comentários do professor e as atividades reflexivas feitas antes da reescrita. Percebemos, então, na filosofia de linguagem bakhtiniana, a importância dada à relação entre o eu e o outro (os interlocutores da enunciação em uma situação) devido à necessidade dialógica da linguagem. Bakhtin acredita que somente no dialogismo é que há possibilidade da constituição alteritária do sujeito. Na relação com o outro, o eu se formará. É pertinente dizer que, quando Bakhtin e seu Círculo falam sobre o outro, não o reduzem a uma pessoa, pois não se trata apenas de um diálogo entre duas Sobral (2009), em explicação das características do sujeito para o Círculo de Bakhtin, afirma que o sujeito “age sempre (o que inclui todos os atos: cognitivos, verbais etc.) segundo uma avaliação/valoração daquilo que faz ao agir/falar, e pela qual se responsabiliza, e o faz a partir tanto da identidade que forma e vê reconhecida como das coerções que suas relações sociais lhe impõem ao longo da vida e que vão alterando essa identidade que ele veio a formar” (SOBRAL, 2009, p.51). Essa característica acentua a construção de sentidos por meio da linguagem, a qual é constituída por elementos sociais, históricos etc. 12 27 pessoas e nem mesmo a constituição do eu e do outro se dá unicamente mediante esse tipo de diálogo. Em acordo com a visão bakhtiniana, Figueiredo (2005) explica: O outro é tudo o que circunda o eu: o meio social em que vive, a história do indivíduo e a história de seu meio, os textos com os quais este indivíduo já teve contato, as várias vozes trazidas por esses textos, os textos com os quais ele ainda terá contato. Ao mesmo tempo, este outro é constitutivo do eu, pois, segundo essa perspectiva, somos resultado desse confronto entre nossa individualidade, o meio social em que nos inserimos e a história (FIGUEREIDO, 2005, p. 12). Ponzio (2010), também partindo de Bakhtin, explica: O outro não é somente o outro em relação a você, mas é também outro você, o outro de cada um. E você o pode encontrar no momento em que sai do papel, sai do gênero, sai da identidade, sai do padrão, sai das emboscadas mortais das oposições, dos conflitos. Ali se encontra a sua palavra (PONZIO, 2010, p. 10). De tais citações, concluímos que o outro não se encontra necessariamente frente ao eu, em um diálogo face a face, mas pode estar em um texto, em um livro ou ainda na mente do eu13. Suponhamos que um aluno esteja sozinho reescrevendo seu texto (isso depois de uma discussão com o professor e, talvez, com colegas sobre o seu dizer). Nesse momento não há professor, o único diálogo que o aluno trava é com as opiniões expostas em sala de aula, que constituíram sua consciência sobre o que dizer. Em qualquer prática social os enunciados dos outros estão presentes para dialogar com as nossas palavras e construir novos sentidos. Não há como escapar disso. Bakhtin (2000[1970-71] afirma: [...] todas as palavras, com exceção de minhas próprias palavras, são palavras do outro. E toda minha vida consiste em conduzir-me nesse universo, em reagir às palavras dos outros [...] a palavra do outro impõe ao homem a tarefa de compreender essa palavra (BAKHTIN, 2000[1970-71], p. 383). Comumente pensamos em destinatário ao tratarmos sobre o outro. Porém Bakhtin e o Círculo ampliam essa noção ao atribuir à linguagem um caráter dialógico, isso significa que, em qualquer momento de construção de sentidos e apreciações valorativas, o sujeito se vale das valorações outras para constituição da própria, mesmo que essa seja resposta a outro, destinatário. Logo, verificamos a existência inevitável do outro ao qual se destina o enunciado e do outro ou ainda outros que constituem a resposta ao destinatário. Neste trabalho, as menções que faremos sobre a preocupação do aluno com o seu outro significarão a preocupação do aluno com o seu destinatário, ao qual ele busca responder. 13 28 Nessa direção, podemos verificar outra característica do sujeito bakhtiniano: alguém que, a partir da constituição com o outro14, apresenta-se como sujeito agente. O contato com o outro, na relação dialógica, exige que o eu responda e participe da criação de sentidos. Bakhtin (1997[1929]) já dizia que “toda enunciação é uma resposta a alguma coisa e é construída como tal” (p. 98), assim, não há comunicação sem propósito, não se fala por nada ou para nada. O discurso é endereçado a alguém em resposta a outros e daquele que o recebe exige-se uma atitude responsiva, a qual ele dará, pois, como respondente ativo, ele participa nas práticas sociais e somente dessa forma é capaz de constituirse, bem como de construir os sentidos que movimentam a linguagem. Essa participação do sujeito evidencia-se na escrita, pois, considerando-a uma prática social, podemos afirmar que ela é a resposta do autor a alguma coisa, a alguém, à sociedade, e no caso da escrita escolar não é diferente. De acordo com o que foi discutido em sala de aula, o aluno responderá mediante sua produção textual ao professor, aos colegas ou aos discursos trazidos à turma no momento de debate sobre o tema proposto. O momento de reescrita seria o ponto auge da produção, no qual o aluno poderia refletir sobre sua resposta, escolhendo a melhor maneira de dizer o que pretende, tendo em consideração o seu outro15. Quanto ao tipo de resposta que se espera do sujeito, Bakhtin/Voloshinov (1997[1929]) afirmam que não se exige do interlocutor apenas respostas de concordância, mas elas podem constituir-se em refutações, polêmicas, controvérsias, variando conforme a individualidade de cada um, pois, embora o sujeito seja constituído socialmente, ele apresentará uma forma peculiar quanto ao estilo de sua resposta. Na teoria bakhtiniana, o que determinará o nível da resposta será o tipo de compreensão. O sujeito em Bakhtin não somente é constituído, mas também constitui sendo também outro para o seu interlocutor ao mesmo tempo em que é um eu-para-si é um eu-para-outro. 14 15 Poderíamos pensar que o outro da escrita do aluno seria somente o professor, afinal, ele é quem lerá a produção do aluno para avaliação. Nesse caso, o aluno buscaria adequar a sua escrita de maneira que agrade ao professor a fim de obter uma boa nota. Entretanto, considerando a filosofia de linguagem bakhtiniana, não poderíamos ficar somente nesse pensamento, sabendo que na escrita o aluno dialoga com enunciados de outros e cria respostas a esses enunciados, não significando apenas o que o professor pensou sobre o tema a ser desenvolvido, mas também o que os colegas disseram, o que a sociedade pensa. Em todo caso, a escolha do outro também dependerá do gênero discursivo a ser produzido. Falaremos mais sobre gênero discursivo mais tarde e, então, retomaremos essa questão. 29 Assim, como todo discurso exige uma resposta, é inevitável uma compreensão e Bakhtin fala sobre dois tipos: a ativa e a passiva16. Vale ressaltar que, apesar de diferirem em seus conceitos, compreensão e atitude responsiva 17 estão interligadas na interação e constituem também aspectos inerentes à linguagem. Podemos pensar em compreensão ativa como entendimento refratário18, ou seja, o interlocutor entende o que o outro disse, assimila o conhecimento do outro, mas o modifica conforme seu conhecimento de mundo; dá um novo sentido ao discurso, por vezes, criando um novo discurso. Bakhtin (2002[1934-35]) aponta: [...] a compreensão ativa , somando-se àquilo que é compreendido no novo círculo do que se compreende, determina uma série de interrelações complexas, de consonâncias e multissonâncias com o compreendido, enriquece-os de novos elementos (BAKHTIN, 2002[1934-35], p. 91). Bakhtin (idem) diz que é com essa compreensão que o falante conta, pois somente com ela será possível dar sentido à interação. Essas considerações diferem da compreensão passiva que significa um não entendimento, nesse caso o interlocutor apenas reproduz o discurso conforme dado, sem nada acrescentar. Sobre ela Bakhtin (idem) afirma: Permanecendo puramente passiva, receptiva, não trazendo nada de novo para a compreensão do discurso, ela apenas o dubla, visando, no máximo, a reprodução completa daquilo que foi dado de antemão num discurso já compreendido: ela não vai além do limite do seu contexto e não enriquece aquilo que foi compreendido (BAKHTIN, 2002[1934-35], p. 90). Nesse caso, poderíamos pensar que essa compreensão passiva acontece quando o aluno não entende algo que lê e, se interrogado sobre o que leu, ele apenas repete as palavras tal como estão no texto. Esse fato pode ocorrer em uma Nesse ponto precisamos tomar cuidado ao dizer sobre compreensão ativa ou passiva, pois o fato de existir esses dois tipos poderia nos levar a considerar dois tipos de linguagem ou dois tipos de sujeitos. Porém, quando Bakhtin pensa em compreensão ativa ou passiva não significa duvidar da dinâmica da língua ou mesmo da consciência ativa do sujeito. Sobre esse conceito, ele elucida o fator dialógico de uma relação que se fará de entendimento ou não. 16 É pertinente dizer que embora haja compreensão passiva, ainda assim o interlocutor é um respondente ativo, afinal, seja um entendimento ativo, seja passivo, o ser humano sempre responderá ao outro, isso devido ao seu lugar único no mundo e também à natureza dialógica das interações. 17 18 O sujeito refratário entra na questão de que, em Bakhtin, o sujeito reflete e refrata os enunciados do outro, ou seja, não se trata apenas de reprodução do dizer do outro, mas de construção de novos sentidos, em um processo que envolve o eu e o outro. 30 primeira leitura, mas com informações necessárias ou mesmo em uma segunda leitura o aluno poderá ter uma compreensão ativa, pois, embora haja compreensão passiva, Bakhtin a trata como um momento abstrato que logo dará lugar à ativa. Bakhtin afirma que “a compreensão amadurece apenas na resposta. A compreensão e a resposta estão fundidas dialeticamente e reciprocamente condicionadas, sendo impossível uma sem a outra” (BAKHTIN, 2002[1934-35], p.90), por isso há a possibilidade de uma compreensão passiva transformar-se em ativa. Bakhtin e seu Círculo defendem que o sujeito não se quer passivo, pois a natureza dialógica da linguagem exige que ele seja refratador dos dizeres alheios e de seus próprios dizeres, que não se conforme com um breve momento de “abstração passiva”, mas busque a compreensão ativa, não se conformando apenas em se deixar constituir pelo outro sem nada contribuir com a constituição do outro. Bakhtin (2009[1952-53]) complementa: [...] toda compreensão plena real é ativamente responsiva e não é senão uma fase inicial preparatória da resposta (seja qual for a forma em que ela se dê). O próprio falante está determinado precisamente a essa compreensão ativamente responsiva: ele não espera uma compreensão passiva, por assim dizer, que apenas duble o seu pensamento em voz alheia, mas uma resposta, uma concordância, uma participação, uma objeção, uma execução, etc (BAKHTIN, 2009, p. 272). A própria prática da linguagem, como já dissemos, exige uma atitude responsiva ativa do sujeito e, nesses termos, a palavra do outro impõe ao eu a tarefa de responder refratariamente a essa palavra. Quando pensamos a reescrita, vemos claramente a busca do eu em encontrar uma palavra19 refratária singular, que responda ao outro, levando consigo seus valores. Ponzio (2010) fala sobre a necessidade de procurarmos uma palavra outra: [...] uma palavra “outra” no sentido de “alteridade”, não de “alternativa”; uma palavra de uma diferença que faz diferença, de uma diferença não indiferente; palavra singular, não intercambiável, insubstituível na sua própria relação com o outro único, responsavelmente, responsivamente, única para o outro. (PONZIO, 2010, p.14) E o encontro com a “palavra própria” será facilitada pela consciência do aluno sobre o que melhorar em sua produção depois das atividades reflexivas baseadas em suas necessidades. 19 31 Bakhtin (2000[1970-71]) mesmo diz sobre o desejo do sujeito de “não ficar na tangente”, porém “mergulhar na vida, tornar-se um homem entre os outros. Rejeitar as restrições, rejeitar a ironia. (...) convencer (instruir), e, por conseguinte, ficar por sua vez convencido” (p. 338). Essa colocação aponta para um sujeito agente ativo na comunicação, capaz de ser crítico sendo consciente dos sentidos produzidos na interação. Podemos pensar que esse é o tipo de escritor esperado nas produções de textos dos alunos, ou seja, um aluno crítico, capaz de posicionar-se frente às questões surgidas nas práticas sociais. Essa atitude responsiva não engloba apenas uma das partes das relações sociais, mas inclui tanto o sujeito locutor quanto o sujeito interlocutor, ambos buscando encontrar seu jeito próprio de dizer o que pretendem e isso só conseguirão a partir do outro. Neste ponto, podemos banir a ideia de domínio sobre a palavra, porque na filosofia de linguagem bakhtiniana não há um sujeito arbitrário (por mais que muitos se queiram assim, mas, ainda assim, em algum momento, isso se torna insustentável). Afinal, o sujeito é constitutivo de outros. Clark e Holquist (2004[1984]) dialogam com Bakhtin sobre essa questão: [...] o self não é um presença na qual se aloja o privilégio supremo do real, a fonte de soberania intenção e o garantir da significação unificada. O self bakhtiniano nunca é completo, uma vez que só pode existir dialogicamente [...] existe apenas num relacionamento tenso com tudo que é outro e, isto é o mais importante, com outros selves (CLARK&HOLQUIST, 2004[1984], p. 91). Por tal citação, afirmamos que o outro está presente na fala e na escrita do eu, de maneira que, na formação dos discursos, não há autoritarismo. Logo, não há o domínio de um discurso sobre o outro, mas a partir do relacionamento tenso entre eles serão construídos os sentidos da linguagem. Santos (2011) lembra-nos de que as relações dialógicas são confrontos de vozes que povoam os domínios culturais de uma dada sociedade, comunidade ou grupo social, de modo que o discurso, para Bakhtin e o Círculo, é apresentado como a arena de enfrentamento entre os diferentes enunciados, como o lugar da presença inerente do outro. Assim, nessa relação dialógica de construção de sentidos há um entrelaçamento de vozes que constituirá uma voz singular e, então, teremos a formação de um sujeito-autor, o qual é um agente participativo e responsivo nas 32 relações sociais e constitui-se “dono”20 do seu próprio dizer, de maneira que ele mesmo formula o que quer dizer, como quer agir de acordo com as suas intenções ou com os seus valores. Nessa direção, no que tange à formação do sujeito em Bakhtin, verificamos que a autoria na filosofia bakhtiniana da linguagem não abarcará somente a definição daquele que escreve obras literárias, porém aquele que cria discursos. Sobral (2009) afirma que pensar em autor na teoria bakhtiniana implica também pensar nas ações do sujeito. Pode-se dizer que por autor o Círculo designa não somente o autor de obras, literárias ou não, mas também o autor de enunciados, o que se justifica se pensarmos que, embora reconhecendo a especificidade dos discursos aos quais se costuma atribuir um autor, o Círculo considera os atos de discurso parte do conjunto dos atos humanos em geral – e todo agente de um ato humano é, nesse sentido, “autor” de seus atos (SOBRAL, 2009, p.61). Por tal colocação, refletimos que, em qualquer relação social, o sujeito terá oportunidade de ser autor de seu discurso, seja em uma atividade oral ou escrita. Já discorremos aqui sobre o fato de a alteridade se constituir nas práticas sociais e atribuímos à escrita essa característica; por isso, trouxemos a reflexão da relação entre eu e o outro de Bakhtin e seu Círculo, pois acreditamos que a constituição da alteridade e, consequentemente, a formação de autor se dá também na escrita. Ao que se refere a essa prática, veremos na obra de Bakhtin algumas peculiaridades do conceito autoral. Dito isso, refletiremos adiante um pouco mais sobre o autor em Bakhtin, visando mais à frente nossa análise. Esse termo é colocado entre aspas não para remetê-lo à ideia de domínio do sujeito sobre o discurso, mas para significar o ato responsável do sujeito sobre suas valorações, acentuando que o sujeito ocupa um lugar único nas relações sociais, o que o torna responsável pelas suas construções valorativas, derivando, assim, um posicionamento singular e crítico sobre os discursos. Portanto, mesmo que o sujeito não seja dono do discurso, pois esse é constituído por muitas vozes, ainda assim é o sujeito quem decide como essas vozes influenciarão a constituição do seu dizer, o que o torna de certo modo “dono”, ou seja, responsável pelo seu dizer. 20 33 1.3 Autor em Bakhtin: atitude responsiva criadora sobre os discursos já existentes [...] viver significa ocupar uma posição axiológica em cada momento da vida, significa firmar-se axiologicamente. BAKHTIN (2009[1922-24], p.174) Bakhtin e seu Círculo se estenderam sobre a noção de autoria no discurso literário, porém sua teoria abrange outras modalidades discursivas (FARACO, 2005). Por isso, é possível vislumbrarmos essa noção na prática social da escrita. Em todo caso, há algumas diferenças entre o autor no discurso literário e o autor em outros discursos, porém, mesmo que eles apresentem suas particularidades, os sujeitos do discurso, enquanto agentes responsivos ativos, têm o mesmo estatuto em todo discurso. A autoria, na filosofia bakhtiniana da linguagem, está vinculada à concepção dialógica e representa a atitude criadora do sujeito. Logo, entrevemos que no processo de formação de um autor há a participação do outro e também a necessidade do sujeito-autor responder de maneira particular, a fim de construir novos sentidos. Clark e Holquist (2004[1984]) dialogam com Bakhtin sobre a participação do outro na formação do autor: A vida, enquanto acontecimento, pressupõe selves que são “performadores”. Para ser bem sucedida, a relação entre mim e o outro precisa ser moldada em performance coerente e, assim sendo, a atividade arquitetônica da autoria, que é a construção de um texto, corre em paralelo com a atividade da existência humana, que é a construção de um self [...] a proliferação ocorre não apenas em palavras ou textos, como ainda em pensamentos e atos (CLARK&HOLQUIST, 2004[1984], p. 90). Essa citação evidencia o caráter performador do outro que molda a construção do querer dizer e do como dizer do autor, o que demonstra mais uma vez a necessidade do autor responder aos enunciados outros, a partir de sua compreensão ativa que contribui para o caráter singular do autor. O aspecto singular da resposta do autor, apesar de estar impregnada do discurso alheio, ocorre a partir do que Bakhtin (2009[1922-24]) denomina ação axiológica sobre o viver. E o que vem a ser essa ação? Significa que, na vida, os sujeitos atribuem juízo de valor aos acontecimentos e, por isso, apresentam uma 34 compreensão ativa. Esse caráter é, em Bakhtin (idem), inerente à linguagem e constrói os sentidos das enunciações, porque não há como o autor não apresentar essa atitude, pois “viver significa ocupar uma posição axiológica em cada momento da vida, significa firmar-se axiologicamente” (BAKHTIN, 2009[1922-24], p. 174). Em toda relação social, o autor é convidado a expressar sua valoração sobre o discurso do outro, o qual não se encontra vazio, mas apresenta o juízo de valor de outros. Logo, para a construção de seu aspecto valorativo, o autor dialoga com vários discursos que, embora envolvam o mesmo objeto discursivo, apresentam juízos de valores diferentes. Sobre isso Bakhtin (2002[1934-35]) afirma: (...) todo discurso existente não se contrapõe da mesma maneira ao seu objeto: entre o discurso e o objeto, entre ele e a personalidade do falante interpõe-se um meio flexível, frequentemente difícil de ser penetrado, de discurso de outrem, de discursos “alheios” sobre o mesmo objeto, sobre o mesmo tema (BAKHTIN, 2002[1934-35], p. 86). Como vimos desenvolvendo, a linguagem apresenta uma natureza dialógica, então, é inevitável o encontro com os discursos de outros, mesmo porque é a partir deles que o sujeito irá formar o seu dizer. Afinal, Bakhtin (2002[1934-35]) diz que somente o Adão mítico que chegou com a primeira palavra a um mundo virgem podia evitar por completo a orientação dialógica do discurso do outro para o objeto. No entanto, isso não é possível em um mundo concreto e histórico, Ponzio (2010) dialoga com Bakhtin nessa temática sobre a palavra: [a palavra] é sempre réplica de um diálogo explícito ou implícito, e não pertence nunca a uma só consciência, a uma só voz [...] cada falante recebe a palavra de uma voz alheia, e a intenção pessoal que ele posteriormente confere encontra a palavra “já habitada”, como diz Bakhtin, por uma intenção alheia (PONZIO, 2010, p. 37). Bakhtin (2002[1934-1935]) reforça a ideia de que, no processo da interação, o discurso do autor pode adquirir aspectos valorativos diferentes daqueles com os quais dialoga: E é particularmente no processo da mútua-interação existente com este meio específico que o discurso pode individualizar-se e elaborar-se estilisticamente [...] Orientado para o seu objeto, o discurso penetra neste meio dialogicamente perturbado e tenso de discursos de outrem, de julgamentos e de entonações. Ele se entrelaça com eles em interações complexas, fundindo-se com uns, isolando-se de outros, cruzando com terceiros; tudo isso pode formar 35 substancialmente o discurso, penetrar em todos os seus estratos semânticos, tornar complexa a sua expressão, influenciar todo o seu aspecto estilísticos (BAKHTIN, 2002[1934-35], p. 86). Na produção de um texto, o autor perceberá que o seu objeto já apresenta a atitude valorativa dos outros, entretanto isso não significa que a sua valoração necessite ser a mesma ou que seu texto se desenvolva da mesma forma, pois, como dito alhures, na relação interativa e dialógica a palavra outra exige do autor uma resposta carregada de compreensão ativa, a fim de criar novos sentidos e, dessa forma, há criação de um discurso que evidencia a posição singular do autor. No viés bakhtiniano da linguagem, a posição do autor precisa ser compreendida no mundo em relação a seus valores, pois o que se conclui em um enunciado não são as palavras, nem o material, mas os sentidos construídos a partir das relações sociais conjuntamente vivenciadas. Ainda na produção textual, o aspecto valorativo do autor sobre o objeto evidencia sua atitude criadora, a qual Bakhtin (2009[1922-24]) denomina como ação do autor-criador. Faraco (2005), em estudo para entender o autor-criador, define-o com base em Bakhtin (1922-24): O autor-criador é [...] uma posição refratada e refratante. Refratada porque se trata de uma posição axiológica conforme recortada pelo viés valorativo do autor-pessoa; e refratante porque é a partir dela que se recorta e se reordena esteticamente os eventos da vida (FARACO, 2005, p.39). Por tal explicação, verificamos no processo de autoria que o autor-criador representa a compreensão ativa criadora do autor, nesse caso denominado por Bakhtin (2009[1922-24]) de autor-pessoa. Segundo o russo, para que o autor-criador entre em ação é necessário que o autor se distancie de si21 para, então, refratar e responder, diferenciadamente, a outrem. O autor-pessoa dá voz às suas atitudes valorativas através do autor-criador, o qual surge das práticas empáticas do autor e se mostra em sua intenção discursiva, seu estilo e na forma composicional, aspectos usados para expressão do que o autor pretende dizer. Sobre isso, Faraco (2005) afirma: O autor-criador é, assim, quem dá forma ao conteúdo: ele não apenas registra passivamente os eventos da vida (ele não é um 21 Abordaremos em tópico especifico a questão do distanciamento em Bakhtin. 36 estenógrafo desses eventos), mas, a partir de uma certa posição axiológica, recorta-os e reorganiza-os esteticamente (FARACO, 2005, p. 39). Nesses termos, Bakhtin (2009[1922-24]) trata o autor-criador como refração de certa voz social, construída a partir de outras vozes e sendo direcionada como resposta a outros. Veremos, em nossa análise sobre a reescrita, que a posição de autor-criador participa da reflexão do autor para adequar seu texto pensando em seu leitor. Logo, o autor-criador é influenciado pelas ações valorativas dos interlocutores. Bakhtin (2000[1959-61/1979]) afirma que o texto sempre acontece nas fronteiras de duas consciências, de dois sujeitos: O estenograma do pensamento humano é sempre o estenograma de um diálogo de tipo especial: a complexa interdependência que se estabelece entre o texto (objeto de análise e de reflexão) e o contexto que o elabora e o envolve (contexto interrogativo, contestatório, etc.) através do qual se realiza o pensamento do sujeito que pratica ato de cognição e de juízo. Há encontro de dois textos, do que está concluído e do que está sendo elaborado em relação ao primeiro. Há, portanto, encontro de dois sujeitos, de dois autores (BAKHTIN, 2000[1959-61/1979], p. 333). O autor-criador, enquanto voz criadora do autor, dá acabamento a esse encontro de vozes, caracterizando-se, conforme Bakhtin (2000[1959-61/1979]), como segunda voz do autor. E, nessa direção, o pensador russo acredita que a ação do autor-criador encontrará êxito, caso o autor alcance um distanciamento de seu texto. Para Bakhtin e seu círculo, a distância que o autor alcança de seu texto é possível por conta do excedente de visão que os sujeitos têm de suas relações sociais, bem como de seu outro nessas relações. E Bakhtin cunha esse distanciamento como exotopia. A seguir, veremos que essa prática é também inerente à linguagem e, portanto, presente na construção de sentidos. 37 1.4 Excedente de visão: a exotopia, um olhar de fora sobre o discurso do outro Quando nos olhamos, dois diferentes mundos se refletem na pupila de nossos olhos. BAKHTIN (2009[1922-24], p. 21) Como vimos desenvolvendo, a filosofia de linguagem bakhtiniana apresenta a díade eu-outro como requisito para a compreensão dos fenômenos da enunciação e consequente constituição dos sujeitos. Afinal, é na relação entre o eu e outro que a linguagem e o sujeito se constituem. Bakhtin e seu Círculo mostram que a presença do outro na constituição do sujeito é imprescindível, não somente por causa da natureza dialógica da linguagem, mas por causa do olhar exotópico (olhar de fora) que o excedente de visão favorece ao outro sobre o eu. Por mais perto de mim que possa estar esse outro, sempre verei e saberei algo que ele próprio, na posição que ocupa, e que o situa fora de mim e à minha frente, não pode ver [...] o mundo ao qual ele dá as costas, toda uma série de objetos e de relações que, em função da respectiva relação em que podemos situar-nos, são acessíveis a mim e inaccessíveis a ele (BAKHTIN, 2000[1922-24], p. 43). O sujeito para o Círculo de Bakhtin ocupa um lugar único no mundo e por conta disso contempla o outro de um lugar em que o outro não pode estar, pois esse também ocupa um lugar que é só seu. Podemos entender esse lugar como o espaço em que o corpo está e também como o lugar na história em um aspecto temporal, ou seja, os sujeitos viveram relações sociais diferentes, as quais os constituíram. Cada sujeito apresenta conhecimentos apreendidos em outras relações que o outro não vivenciou. Nesse aspecto, verificamos um excedente de visão que torna acessível ao sujeito o necessário para se constituir e construir novos sentidos. O olhar exotópico dos interlocutores torna possível a compreensão ativa criadora, porque, do lugar que ocupa, o eu vê o outro em sua totalidade e vice-versa. Assim, ambos podem dar acabamento ao discurso e têm a noção de como direcionar sua atitude valorativa. Logo, o eu e o outro dependem um do outro para a compreensão. O importante no ato de compreensão é a exotopia do compreendente no tempo, no espaço, na cultura, a respeito do que ele quer compreender. O mesmo não ocorre com o simples aspecto externo do homem, que este não pode ver nem pensar em sua totalidade, e 38 não há espelho, nem fotografia que possa ajudá-lo; seu aspecto externo, apenas o outro pode captá-lo e compreendê-lo, em virtude de sua exotopia e do fato de ser outro (BAKHTIN, 2000[1970], p. 368). Dessa forma, é o olhar do eu sobre o outro e o olhar do outro sobre o eu essencial na interação, pois o eu pode dar acabamento ao outro e, também, ao enunciado outro e, assim, pode completá-lo de maneira concludente. Para afirmar isso, Bakhtin (2000[1922-24]) conclui que “a inter-relação eu-outro é concretamente irreversível” (p. 43). Além da constituição dos sujeitos e construção de sentidos, a exotopia também aparece na obra de Bakhtin e seu Círculo como um conceito da atividade estética relacionado ao ato criador do autor em termos de distanciamento. Para dar acabamento a sua obra, o autor precisa distanciar-se de seu autor-criador para então completá-lo. Em termos de reescrita, o autor-aluno precisa desse olhar exotópico para fazer as mudanças necessárias em sua produção. Acreditamos que no momento das atividades reflexivas o aluno adquirirá os conhecimentos necessários para melhorar a escrita, ampliando o seu excedente de visão com os novos sentidos construídos durante as atividades. Nesse aspecto, o seu texto já não representa o seu texto enquanto eu, mas como outro, reconstruído em um tempo diferente daquele em que fora escrito. Bakhtin (2009[1922-24] afirma que “o autor deve tornar-se outro em relação a si mesmo, olhar para si mesmo com os olhos do outro” (p.13), dessa forma, será possível o acabamento adequado de seu dizer. A exotopia é, nessa direção, um aspecto primordial para que a atividade estética do autor sobre o discurso alcance o êxito de construção de sentidos. 39 1.5 Atividade Estética em Bakhtin: aspecto formador do discurso [...] a bondade singular da estética, sua benevolência: a estética como que nada seleciona, divide, abole, nada repele, de nada se desvia. BAKHTIN (2002[1924], p. 33) A atividade estética na concepção bakhtiniana não se define apenas pela arte em si ou por estruturas lexicais e gramaticais de um texto, Bakhtin (2002[1924]) diz que “[...] para se definir de forma segura e precisa esse conceito, há necessidade de uma definição recíproca com os outros domínios, na unidade da cultura humana” (p. 16). Tal citação faz parte da crítica de Bakhtin ao conceito do estético na obra de arte, porque havia, então, a supervalorização do material, do artefato em si, para compreensão do estético, porém Bakhtin (1924) defende que há de se considerar os aspectos culturais, em outras palavras, o contexto extraverbal para compreensão axiológica da obra de arte. Sobre isso, Faraco (2009), em leitura de Bakhtin (2002[1924]), explica: O estético – como qualquer outro valor cultural – não pode ser localizado no plano do mero dado, ou seja, o estético não está no artefato em si; ele só faz sentido e só tem valor em correlação com o conjunto da cultura, entendida como uma totalidade de significados (FARACO, 2009, p. 102). Essa perspectiva caracteriza a obra de arte22 como um ato do agir humano23 e, portanto, em análise de tal não bastará apenas o conhecimento estrutural, visto que o agir humano dá-se, conforme discorrido alhures, em meio social. Dessa maneira, entrevemos que, mesmo quando a estética está voltada para a arte, ela apresenta relações dialógicas, assim como no discurso não literário, porque ambos os aspectos nascem das relações humanas. O ato estético isola, a partir de certa valoração, os enunciados concretos cotidianos e os desloca para o interior de outro enunciado, assim, podemos concluir que o estético, para Bakhtin, representa a organização das ideias axiológicas do 22 23 Por obra de arte compreendemos os objetos comumente conhecidos, tais como esculturas, pinturas, obras literárias etc. Acrescentamos a isso as palavras de Sobral (2008) que bem explicam a ideia de Bakhtin de relacionar a obra de arte aos acontecimentos concretos do sujeito: “Assim, em meio a todos os percalços, variações, reestruturações e fragmentações, a obra como um todo, ainda que não exiba uma elaboração sistemática, é marcada por uma unidade de sentido, não um mundo material puro e simples, um mundo relacional, não um mundo de indivíduos autárquicos, um mundo de processos que envolvem sujeitos ímpares em interação e, portanto, um mundo que passa constantes mudanças, mundo a que não se poderia aplicar as leis da física, que são naturais, não humanas” (SOBRAL, 2008, p.222). 40 autor sobre determinado assunto e é a partir dos valores que o estético precisa ser compreendido, pois o que se conclui das práticas sociais “não são palavras, nem o material, mas o conjunto amplamente vivenciado do existir” (Bakhtin 2009[1922-24], p. 176). Esse fator axiológico do estético está relacionado à construção de sentidos da enunciação na concepção bakhtiniana da linguagem, logo, podemos encontrá-lo em qualquer relação social, pois, essas são dirigidas pelas posições axiológicas. Faraco (2009) explica que para Bakhtin “a grande força que move o universo das práticas culturais são precisamente as posições socioavaliativas postas numa dinâmica de múltiplas inter-relações responsivas” (p. 38). Nesse sentido, verificaremos como os alunos organizaram o querer-dizer na construção de sentidos e expressão das suas apreciações valorativas. Compreendemos que a atividade estética envolve a compreensão do eu sobre o juízo de valor do outro, originando, assim, uma resposta de característica ativa, pois somente assim o sujeito-aluno posiciona-se e apresenta suas valorações. Bakhtin (2002[1924]) apresenta três componentes da atividade estética: o conteúdo, o material e a forma. Todos eles, juntos, dão acabamento ao discurso do autor, ou seja, constituem a unidade do texto por meio do agir avaliativo do autor. Veremos em tópico específico o que resulta dessa atividade: os gêneros discursivos, os quais variam conforme as relações sociais. O conteúdo na atividade estética não pode ser entendido como uma ideia, um tema (FARACO, 2009), pois, em Bakhtin (2002[1924]), ele representa como são ordenados pelo autor-criador os constituintes dos aspectos valorativos escolhidos e consumados numa nova unidade de sentidos. O autor russo afirma: [...] a forma estética transfere essa realidade conhecida e avaliada para um outro plano axiológico, submete-a a uma nova unidade, ordena-a de modo novo: individualiza-a, concretiza-a, isola-a, arremata-a, mas não recusa a sua identificação nem a sua valoração: é justamente sobre elas que se orienta a forma estética realizante (BAKHTIN, 2002[1924], p. 33). Tal citação pode ser exemplificada quando a relacionamos à prática de escrita, principalmente, ao que diz respeito à reflexão do autor sobre como escrever sua apreciação axiológica em determinado gênero. Cada gênero apresenta uma forma estética, que está relacionada à estrutura, aos interlocutores, à situação comunicativa, aspectos esses que o escritor precisará considerar para o seu fazer. 41 Bakhtin (2002[1924]) explica a forma: [...] a forma é a expressão da relação axiológica ativa do autorcriador e do indivíduo que percebe (co-criador da forma) com o conteúdo: todos os momentos da obra, nos quais podemos sentir a nossa presença, a nossa atividade relacionada axiologicamente com o conteúdo, e que são superados na sua materialidade por essa atividade, devem ser relacionados com a forma (BAKHTIN, 2002[1924], p. 59). A partir da compreensão ativa que o sujeito tem do conteúdo, ele enforma a sua avaliação conforme a situação social. Esse aspecto ficará mais claro quando discutirmos sobre os gêneros discursivos, pois veremos que cada relação social apresenta um tipo de gênero e cada qual com formas diferentes. Assim como os gêneros variam conforme as relações sociais, as formas também, o que implica uma reflexão por parte do sujeito sobre como dizer o que pretende dizer, pois, para cada gênero, ele terá uma maneira para expressar-se axiologicamente. Em todo caso, embora o conteúdo e forma estejam interligados, Bakhtin (2002[1924]) esclarece que, ao expressar a relação axiológica com o conteúdo, o autor não visa às palavras, aos fonemas, mas com esses aspectos, visa ativamente a um conteúdo diferente do que é dado, ou seja, o autor visa à compreensão ativa, já discutida anteriormente: Eu me torno ativo na forma e por meio dela ocupo uma posição axiológica fora do conteúdo e isto torna possível pela primeira vez o acabamento e em geral a realização de todas as funções estéticas da forma no que tange ao conteúdo (BAKHTIN, 2002[1924], p.59). Dessa maneira, o sujeito responsivo ativo não supervaloriza o material, pelo contrário o supera, dando lugar à construção axiológica de sentido, assim, podemos concluir que mesmo ao contemplador de uma obra ou leitor ou interlocutor não é viável compreender a obra ou o texto ou a conversa apenas pela composição linguística, mas o sujeito precisa superar o material, transpô-lo para a compreensão de sentidos, de maneira que ele não signifique apenas aspectos linguísticos coesivamente escritos, mas que evidencie o estilo do autor. Vale lembrar que a visão bakhtiniana para o estético não desconsidera a forma e nem mesmo o material, ou seja, os aspectos estruturais. Como vimos desenvolvendo, a estrutura é relevante para a construção do discurso, mas não para ser analisada isoladamente para se compreender algum fenômeno da linguagem, 42 pois essa é social e como tal traz em si aspectos sócio-históricos necessários para sua compreensão. Logo conteúdo, forma e material estão correlacionados, onde existe um, existem os outros. Bakhtin (2009[1922-24]) complementa esse nosso diálogo: [...] precisamos compreender não o dispositivo técnico, mas a lógica imanente da criação, e antes de tudo precisamos compreender a estrutura dos valores e do sentido em que a criação transcorre e toma consciência de si mesma por via axiológica, compreender o contexto em que se assimila o ato criador (p.179). A citação esclarece e confirma a nossa discussão até aqui: a lógica imanente da criação significa os aspectos axiológicos que são inerentes à linguagem. Assim, as relações sociais serão sempre guiadas por esses, os quais Bakhtin também chama de série semântica, ou seja, as construções de sentidos. De tal modo, a superação do material e da forma é possível por causa da natureza valorativa da linguagem. Assim, verificamos na atividade estética três sistemas de valores em interação axiológica: o recorte, aquilo que é apreendido dos juízos de valor das relações sociais – o conteúdo; a transposição, como os enunciados dos outros são transformados a partir das ações axiológicas do eu – a forma; e o acabamento do conteúdo, o estilo do autor – o material. Esses aspectos corporificam, conforme Faraco (2009), a forma composicional e o trabalho com a linguagem. Nessa atividade estética, com os elementos axiológicos necessários, teremos a formação dos gêneros do discurso. 1.6 Gêneros do discurso: prática das relações sociais O gênero joga luz sobre a realidade; a realidade ilumina o gênero. BAKHTIN/MEDVEDEV (1928) Vimos nos tópicos precedentes que a linguagem é, para o Círculo de Bakhtin, um sistema axiológico aberto que se sustenta pelas relações sociais e tem como centro organizador a interação entre sujeitos concretos. Nesses termos, verificamos que cada ação interativa apresenta diferentes formas de apropriação do mundo. Isso ocorre tanto por causa do “lugar único” que cada participante ocupa, refletindo suas particularidades nas construções de sentidos, quanto por causa das variadas 43 relações sociais, e essas exigem determinadas formas, ou seja, cada relação social produz enunciados em determinados gêneros do discurso. Para Bakhtin e seu Círculo, os gêneros do discurso são aspectos normativos da linguagem, pois, quando o sujeito fala ou ainda se relaciona através da língua escrita, fala através de determinados gêneros do discurso e é por meio deles que o sujeito passa a conhecer a sua língua materna: Esses gêneros do discurso nos são dados quase da mesma forma que nos é dada a língua materna, a qual dominamos livremente [...]. A língua materna – sua composição vocabular e sua estrutura gramatical – não chega ao nosso conhecimento a partir de dicionários e gramáticas, mas de enunciações concretas que nós mesmos ouvimos e nós mesmos reproduzimos na comunicação discursiva viva com as pessoas que nos rodeiam (BAKHTIN, 2009[1952-53], p. 282). Nessa perspectiva, retomamos mais uma vez a natureza social da linguagem para a filosofia bakhtiniana: a linguagem não acontece por frases isoladas ou enunciados aleatórios, mas ocorre na relação entre os sujeitos e nisso tem-se a construção de sentidos. Esse aspecto da linguagem traz para os sujeitos o desejo de participar da construção de sentidos, mesmo porque ele é alguém respondente, Bakhtin (2009[1952-53]) chama esse desejo de vontade discursiva. Essa vontade nasce por causa da atitude responsiva do sujeito e se realiza no uso de um gênero do discurso. Bakhtin (idem) diz que a determinação de qual gênero usar deriva da particularidade da relação social da comunicação discursiva, ou seja, podemos concluir que a situação determina os gêneros discursivos. Bakhtin mesmo afirma: Em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado campo (...). Uma determinada função (científica, técnica, publicística, oficial, cotidiana) e determinadas condições de comunicação discursiva, específicas de cada campo, geram determinados gêneros, isto é, determinados tipos de enunciados estilísticos, temáticos e composicionais (BAKHTIN, 2009 [1952-53], p. 266). Assim, pode-se pensar que cada gênero reflete as condições e as finalidades do campo24 social em que circula. Cabe aqui uma ressalva: quando se pensa em campo podemos criar o equívoco de pensar que esse corresponde ao espaço no 24 Algumas traduções de Bakhtin (1952-53) trazem o termo esfera, ao invés de campo. Aqui usaremos os dois termos sem distinção. 44 qual se fala ou se escreve. Entretanto, não podemos entender o campo dessa forma, já que na verdade ele circunscreve lugares e tempos específicos e práticas sociais específicas. Padilha (2009) complementa que das práticas, das atividades humanas, nascem as práticas de linguagem, e daí os enunciados tipificados, os gêneros. Sobral (2009) reflete sobre isso e define as esferas como “lugar de relações específicas entre sujeitos” (p. 121), por isso: [...] esfera tem um caráter mais amplo do que definições de instituição que se restringem àquilo que o Estado inclui em seu aparato. Para o Círculo, o simples fato do encontro casual de duas pessoas já é um evento institucional, uma relação social e histórica que envolve toda a sociedade, do ponto de vista de seus diferentes recortes possíveis num dado momento histórico. A relação entre duas pessoas traz à cena a soma total das relações sociais dessas pessoas, envolvendo no mínimo um espectro que vai da família ao Estado. Isso ocorre porque a sociedade não pode existir independentemente das relações entre os sujeitos que dela fazem parte: são precisamente essas relações que a constituem, seja qual for o ambiente e o grau específico de “formalização” desse ambiente (SOBRAL, 2009, p. 121). Nesses termos, o número de gêneros do discurso é infinito, pois “as possibilidades da multiforme atividade humana são inesgotáveis e em cada esfera dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso” (BAKHTIN, 2009[1952-53], p 262). Além disso, no decorrer da relação social, os interlocutores adequam as suas vontades discursivas, com toda a sua individualidade e subjetividade, ao gênero inerente à esfera. O gênero do discurso, para Bakhtin e seu Círculo, é composto por três elementos indispensáveis: o conteúdo temático, o estilo e a construção composicional. A construção composicional, também mencionada por Bakhtin como ponto de vista composicional, unidades composicionais, recursos composicionais, formas típicas de estruturação (BARBOSA, 2001), é a organização geral dos tipos de enunciados. Bakhtin (2009[1952-53]) ressalta: As formas de gêneros, nas quais moldamos o nosso discurso, diferem substancialmente, é claro, das formas da língua no sentido da estabilidade e da sua coerção (normatividade) para o falante. Em linhas gerais, elas são bem mais flexíveis, plásticas e livres que as formas da língua. (BAKHTIN, 2009[1952-53], p. 283) 45 Cada gênero possui em si formas composicionais mais ou menos estabelecidas, recorrentes das situações de comunicação e elas determinam as possibilidades estilísticas do gênero. O estilo representa a seleção dos recursos da língua e aponta para a individualidade do falante, ou seja, o aspecto criador do autor. Em todo caso, Bakhtin (idem) chama a atenção para fatores que determinam a criação individual do autor: O estilo é indissociável de determinadas unidades temáticas e – o que é de especial importância – de determinadas unidades composicionais: de determinados tipos de construção do conjunto, de tipos do seu acabamento, de tipos da relação do falante com outros participantes da comunicação discursiva – com os ouvintes, os leitores, os parceiros, os parceiros, o discurso do outro, etc (BAKHTIN, 2009[1952-53], p. 266). Por tal colocação, verificamos que o estilo é prefigurado e determinado pela construção composicional e também pelos participantes da interação, de maneira que o sujeito precisa adequar o seu querer-dizer ao seu interlocutor. Barbosa (2001) diz que a interação entre os participantes está intimamente relacionada ao estilo, já que essa relação é um dos determinantes das escolhas dos elementos da língua, algo que indiscutivelmente diz respeito ao estilo. Nesses termos, ela se refere ao estilo individual que cada sujeito – participante ativo da relação social – imprime ao gênero utilizado. Como já exposto, cada pessoa ocupa um lugar único no tempo e espaço e essa característica traz em si a questão da singularidade e particularidade de cada sujeito. Daí o fato de as pessoas utilizarem a linguagem cada qual a sua maneira, em outras palavras, ao seu estilo. Em muitos gêneros do discurso, o estilo individual é um dos objetivos primordiais, principalmente, em gêneros literários, nos quais “são diferentes as possibilidades para a expressão da individualidade da linguagem através de diferentes aspectos da individualidade” (BAKHTIN, 2009[1952-53], p. 265). Contudo, nem sempre há condições propícias para essa expressão. Há gêneros nos quais a forma composicional é padronizada e não requerem o uso do estilo individual, como os gêneros jurídicos e burocráticos25. Nesses gêneros Aqui cabe uma observação sobre o uso de estilo individual em gêneros que não o pedem, pois já possuem uma padronização do mesmo. Assim, caso o individualismo apareça nesses gêneros pode ocasionar a mudança e criação de outro gênero. Por exemplo, temos o caso do delegado Reinaldo Lobo que mudou o estilo do Boletim de Ocorrência, escrevendo, então, um poema. 25 46 o estilo é geral, ou seja, o estilo do gênero é o suficiente para auxiliar na construção de sentidos. Em todo caso, Bakhtin diz que mesmo que o estilo individual não faça parte do plano do enunciado, ele acontece como elemento indispensável para complementá-lo. Em se tratando desses gêneros formatados, ele pode acontecer em um nível quase imperceptível. Tanto o estilo geral quanto o estilo individual serão formulados mediante as formas composicionais. Barbosa (2001) afirma que a relação entre forma e estilo não é unidirecional, dessa forma, mudanças no estilo podem alterar a forma composicional de um determinado gênero, o que pode, eventualmente, originar outro gênero. Isso porque há uma “mútua determinação” entre os elementos do gênero e, por isso, verificamos na filosofia bakhtiniana a insistência para a investigação conjunta dos aspectos do gênero, pois eles acontecem indissociavelmente. Nesses termos, temos o conteúdo temático adequando-se à forma e ao estilo. Segundo Barbosa (2001), o conteúdo é o conjunto de temáticas que podem ser abarcadas em certo gênero e é determinado sócio-historicamente. Bakhtin apresenta em seus textos outras designações para esse termo, tais como: conteúdo semântico-objetal e temas típicos: [...] cada enunciado se caracteriza, antes de tudo, por um determinado conteúdo semântico-objetal. A escolha dos meios linguísticos e dos gêneros de discurso é determinada, antes de tudo, pelas tarefas (pela idéia) do sujeito do discurso (ou autor) centradas no objeto e no sentido (BAKHTIN, 2009[1952-53], p. 289). O gênero do discurso não é uma forma da língua, mas uma forma típica do enunciado; como tal forma, o gênero inclui certa expressão típica a ele inerente [...]. Os gêneros correspondem a situações típicas da comunicação discursiva, a temas típicos, por conseguinte, a alguns contatos típicos dos significados das palavras com a realidade concreta em circunstâncias típicas (idem, p.293). Por tais colocações, verificamos a reciprocidade entre gênero e conteúdo temático. Barbosa (2001) reflete sobre isso e diz que, no romance, temos temáticas recursivas, como: o amor, a morte, a solidão, a guerrilha etc. Em outros casos, não se pode fazer uma declaração de amor em um ofício ou em qualquer outro gênero jurídico26, nem se pode falar de um experimento científico no gênero receita de bolo, por exemplo. Dessa maneira, percebemos que cada gênero – por estar Isso serve também para a poesis. Não dá para fazer poesia, por exemplo, em um BO, como no caso do delegado que quis dar uma inovada no gênero BO e escreveu um poema. 26 47 intrinsecamente ligado às diferentes esferas de atuação humana – apresenta uma linguagem diferenciada e específica. Para Bakhtin e seu Círculo, conteúdo temático diferencia-se de tema, pois enquanto o primeiro significa aquilo que se pode dizer em um gênero, o segundo representa o sentido construído pelos interlocutores, a partir daquilo que pode ser dito. É essa conclusão temática que dá acabamento completo ao gênero e, consequentemente, constrói novos discursos. Bakhtin/Medvedev (1928) expõem que, para existir a conclusão temática ou criação de sentidos, precisa-se dos interlocutores inseridos na prática social, pois: [...] em todas as esferas da criação ideológica é possível somente oferecer o acabamento na composição do enunciado, mas é impossível sua verdadeira conclusão temática. [...] Na realidade, não existem obras substancialmente e exaustivamente concluídas. [...] A conclusão não se pode confundir com o fim (BAKHTIN/MEDVEDEV, 1928). Esse inacabamento do gênero é por causa da cumplicidade entre os interlocutores, afinal, fala-se para alguém e espera-se uma resposta, escreve-se para muitos e espera-se a resposta dos leitores, ou seja, esperam-se compreensões, complementos, adições ao que foi exposto, tanto na fala quanto no escrito. Nessa perspectiva, mesmo o gênero proposto na sala de aula tem esse direcionamento. Bakhtin/Medvedev (1928) elucidam que Uma obra está orientada, em primeiro lugar, em direção aos ouvintes e receptores, e em direção a condições determinadas de execução e percepção. Em segundo lugar, uma obra está orientada na vida, desde o interior, por assim dizer, mediante seu conteúdo temático. Ao seu modo, cada gênero orienta-se tematicamente em direção à vida, aos seus sucessos, problemas, etc (BAKHTIN/MEDVEDEV, 1928). É por isso que o tratamento dado à produção do aluno precisa ir além das preocupações gramaticais e estruturais. Ainda que o aluno pense que escreve somente para obter nota e o professor considere que o aluno produz apenas para ser avaliado, independentemente das motivações, a vontade discursiva existe e o interlocutor endereçado também é considerado. Bakhtin (2009[1952-53]), apesar de considerar que os gêneros discursivos constituem-se no social, em nenhum momento descarta a gramática, dissociando-a 48 da língua. Pelo contrário, ele assevera que os aspectos gramaticais e discursivos, em um fenômeno concreto da língua, “não devem ser mutuamente impenetráveis nem simplesmente substituir mecanicamente um ao outro, devendo, porém, combinar-se organicamente com base na unidade real do fenômeno da língua” (BAKHTIN, 2009[1952-53], p.269). Aqui não se trata de considerar apenas uma parte da língua, mas o seu todo, composto tanto dos aspectos gramaticais quanto dos discursivos, pois os gêneros do discurso organizam ambos os aspectos: Aprender a falar significa aprender a construir enunciados (porque falamos por enunciados e não por orações isoladas e evidentemente, não por palavras isoladas). Os gêneros do discurso organizam o nosso discurso quase da mesma forma que o organizam as formas gramaticais (sintáticas) (BAKHTIN, 2009[1952-53], p. 283). Considerando essas peculiaridades, Bakhtin (2009[1952-1953]) já dizia que “(...) o estudo do enunciado como unidade real da comunicação discursiva permitirá compreender de modo mais correto também a natureza das unidades da língua (enquanto sistema) – as palavras e as orações” (p. 269). Bakhtin e seu Círculo defendem que os enunciados aleatórios, fragmentados, não constituem nenhum significado, pois para se ter o sentido das coisas, é necessária a valorização de seu todo. Assim, somente a partir da totalidade do gênero é que os interlocutores poderão responder ao que se queira, pois haverá compreensão. Essa possibilidade de resposta fica mais evidente, quando o sujeito domina o gênero: Quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos, tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade (onde isso é possível e necessário), refletimos de modo mais flexível e sutil a situação singular da comunicação; em suma, realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso (BAKHTIN, 2009[1952-53], p. 285). Por tal citação, concluímos que o sujeito precisa dominar os diferentes gêneros que circulam nas mais variadas esferas, do contrário ele não será capaz de interagir adequadamente (FIGUEIREDO, 2005). Bakhtin (idem) mesmo diz sobre a existência de pessoas que dominam a língua, mas, ainda assim, se sentem desamparadas em certas esferas de comunicação verbal, precisamente pelo fato de não dominarem, na prática, as formas do gênero de uma dada esfera. 49 Levando tais ideias para o campo de ensino de LP, veremos a necessidade de oferecer aos alunos um contato maior com os gêneros das mais diversificadas esferas, com o intuito de prepará-los para a realidade social, ou seja, prepará-los para o exercício da cidadania. Conforme discorreremos mais adiante, ao falarmos sobre os Parâmetros Curriculares Nacionais de LP, na escola os alunos podem ter acesso às variadas possibilidades de gênero. Devido a essa diversidade, Bakhtin (2009[1952-53]) os divide em dois grandes grupos: os gêneros primários e os gêneros secundários. Segundo Bakhtin (idem), os gêneros primários ou simples são aqueles que surgem das condições de comunicação discursiva imediata e podem ser tanto orais quanto escritos, alguns exemplos: o diálogo oral (de salão, íntimo, familiar-cotidiano etc.), cartas intimas, familiares, bilhetes etc. Os gêneros secundários ou complexos surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo, como na arte, ciência, jornalismo etc., e podem abarcar os primários e, em grande parte, são escritos. Alguns exemplos: romances, dramas, pesquisas científicas de toda espécie, os grandes gêneros publicísticos como reportagem, artigo de opinião etc. Comumente, os alunos dominam muito mais os gêneros primários que os secundários, por isso, na escola, o trabalho com estes é maior. Durante um tempo se pensava que apenas o ensino da escrita poderia ser considerado na escola, pois os alunos já dominavam a oralidade – entendida como parte dos gêneros primários. Entretanto, com a definição de linguagem bakhtiniana, verificamos que a oralidade e a escrita estão presentes em ambos os tipos de gêneros27. Sobre isso, Figueiredo (2005) afirma que “os gêneros secundários, ao contrário dos primários, mantêm uma relação disjunta com a realidade imediata e por isso se assemelham à escrita sem, no entanto, manter com ela uma relação de identidade total” (p. 22). Isso esclarece que, tanto nos gêneros primários como nos secundários, a oralidade e a escrita estão presentes em sociedades complexas e letradas. Dessa maneira, o ensino de gêneros discursivos na escola, voltado para o desenvolvimento da cidadania, deverá enfatizar os gêneros secundários, tanto orais quanto escritos. Em nosso contexto atual, os gêneros do discurso podem ser mediados por novas tecnologias e pela sofisticação dos meios de comunicação, de maneira que já não podemos considerar a oralidade e a escrita como parâmetros seguros para definir se um gênero é primário ou secundário. Como exemplo disso, temos o email ora primário ora secundário. 27 50 Ao adotar uma posição bakhtiniana sobre a linguagem, falamos sobre a linguagem como instrumento sócio-histórico de interação e consideramos, assim, que a linguagem se dá mediante gêneros do discurso e abarca todos os aportes teóricos da filosofia bakhtiniana discutidos neste capítulo. Por isso, concordamos com Figueiredo (2005), quando ela sublinha o uso da teoria de Bakhtin e seu Círculo no ensino de língua materna: [...] a transposição didática dos conceitos bakhtinianos deve, portanto, preconizar uma análise de textos de caráter enunciativodiscursivo, ou seja, uma análise que procure (re)construir os sentidos/tema do texto considerando o diálogo entre seus elementos constituintes (estruturas sintáticas, léxico etc.) e seu contexto de produção, assim como o diálogo entre o gênero a que o texto pertence e a esfera em que circula, incluindo aspectos enunciativos (momento histórico, lugar social etc.) e discursivos (por exemplo, a relação entre interlocutores, o lugar social de cada um deles, as intenções do locutor etc.), bem como os outros enunciados com os quais o texto dialoga (FIGUEIREDO, 2005, p. 23). De tal modo, concluímos que um ensino da escrita focado na discursividade e, consequentemente, visando à formação crítica do aluno precisa nortear a reflexão do professor sobre a produção, para que ele possa elaborar atividades de reescrita com a finalidade de auxiliar o aluno no desenvolvimento proficiente da escrita, com a finalidade de preparar o aluno para uma atuação crítica e reflexiva frente às questões sociais das diversas relações sociais, as quais fazem parte do agir humano. Acreditamos que as categorias bakhtinianas poderão nos auxiliar, nesse aspecto, em nossa análise, tanto para ampliar nosso olhar sobre o sujeito aluno, quanto para criar atividades reflexivas que buscará “sanar” as necessidades discursivas dos alunos como preparação para o momento de reescrita. Verificaremos, adiante, algumas propostas pedagógicas que já influenciam o ensino de LP e pensam a concepção de língua tal como Bakhtin: a língua como prática social. Como estamos interessados na prática de reescrita, faz-se necessário discorrermos sobre como o ensino da escrita tem sido executado nas aulas de Língua Portuguesa. 51 CAPÍTULO 2 Influências teóricas no ensino de Língua Portuguesa: caminhos para mudanças Este capítulo tem como objetivo apresentar as propostas pedagógicas do ensino de língua materna que receberam influência da filosofia bakhtiniana da linguagem, tais como os Parâmetros Curriculares de Língua Portuguesa (1998) e a teoria de ensino e aprendizagem do Grupo de Genebra28. Faremos uma breve análise dessas duas por causa da relevância que possuem no ensino de Língua Portuguesa. A primeira, enquanto documento oficial – publicação do governo federal e assinada pelo MEC29 - apresenta reflexões que têm sido respaldo para a elaboração do currículo de LP, pois contém contribuições sobre os conteúdos a serem trabalhados e como devem ser abordados em sala de aula, bem como reúne discussões teóricas sobre a natureza da linguagem. A teoria de ensino e aprendizagem de Genebra respalda as ideias defendidas nos documentos, por isso discorreremos sobre ela. Ademais, essa proposta faz uso da teoria do psicólogo russo Lev S. Vigotski, no que tange à prática sócio-interativa e também didatiza a noção de gênero do discurso de Bakhtin. Por ser assim, verificaremos nos PCNLP vislumbres da teoria bakhtiniana e também aspectos vigotskianos sobre o ensino. Não usaremos a noção de gênero apresentada pelo Grupo de Genebra em nossa análise, fato que explicaremos no decorrer deste capítulo. Em contrapartida, interessa-nos discutir alguns conceitos da teoria vigotskiana, pois nos serão úteis em nossas considerações sobre o desenvolvimento da aprendizagem do aluno e a relação do professor nesse processo. Ainda neste capítulo, abordaremos pesquisas que se preocupam com o estudo da prática de reescrita, pautadas na concepção de linguagem enquanto interação. Em Rojo e Cordeiro (2004), verificamos que esse grupo faz parte da equipe de Didática de Línguas da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra. Há nessa equipe dois nomes que nos interessam: Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz, ambos são professores da universidade atuando respectivamente nos seguintes campos: desenvolvimento e ensino da linguagem oral e escrita; didática de línguas relacionadas ao ensino-aprendizagem da produção de gêneros textuais e orais. 28 29 Ministério da Educação e Cultura. 52 2.1 Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa: proposta para um ensino de língua materna contextualizado [...] língua é um sistema de signos específico, histórico e social, que possibilita a homens e mulheres significar o mundo e a sociedade. BRASIL (1998, p. 20) Os PCNLP (BRASIL, 1998) chamam a atenção para um ensino da língua materna que considere as práticas sociais, pois entende que a escola é um lugar de formação de cidadãos críticos e reflexivos, os quais possam ser capazes de participar efetivamente de qualquer situação comunicativa. Para tanto, propõem um ensino que considere as necessidades dos alunos no contexto social, principalmente no que diz respeito à prática de leitura e escrita. O panorama apresentado para justificar esse objetivo é o do nascimento de uma nova realidade social, advinda [...] da industrialização e da urbanização crescentes, da enorme ampliação da utilização da escrita, da expansão dos meios de comunicação eletrônicos e da incorporação de contingentes cada vez maiores de alunos pela escola regular [...] (BRASIL, 1998, p. 17). Esses fatores, somados à democratização da educação30, levaram à escola um público diferente daquele que ela estava acostumada, de maneira que os conteúdos e métodos escolares utilizados, até então, não eram suficientes nem para o ensino nem para a efetiva aprendizagem da escrita e da leitura. Anteriormente, quando a escola era frequentada somente por alunos da classe média alta, o ensino de LP era pautado exclusivamente na perspectiva gramatical e essa orientação parecia adequada, afinal, conforme os PCNLP, os alunos falavam uma variedade linguística bastante próxima da chamada variedade padrão e traziam representações de mundo e de língua semelhantes às que ofereciam livros e textos didáticos. 30 Ou “universalização da educação básica”, como o termo é apresentado nos PCNLP (BRASIL, 1998). Segundo Mendes (2005), como conseqüência da crescente reivindicação pelas camadas populares do direito à escolarização, democratiza-se a escola. Assim, nos anos 60, o número de alunos do Ensino Médio quase triplicou e duplicou no Ensino Primário. Alunos com nenhuma prática de letramento ou com práticas de letramento muito diferenciadas daquela reconhecida e defendida pela escola adentram os muros escolares. Geraldi (1997) afirma, com olhar de professor que vivenciou essa fase da educação, “a democratização trouxe em seu bojo outra clientela. De repente, não damos aulas só para aqueles que pertencem ao nosso grupo social. Representantes de outros grupos estão sentados nos bancos escolares. Cresceu espantosamente, de uns anos para cá, a população escolar brasileira” (GERALDI, 1997, p. 116). 53 Contudo, as transformações sociais e o alunado diferenciado colocaram novas demandas e necessidades ao ensino de LP, tornando anacrônicos os métodos e conteúdos tradicionais. Em todo caso, mesmo não havendo a democratização da escola, de maneira que o público permanecesse o mesmo, a gramática normativa não seria suficiente para a preparação dos alunos em uma sociedade cujas mudanças são constantes. Araes (2007) reflete sobre o papel que a LP ocupou no decorrer das mudanças sociais e confirma as diferenças entre o conteúdo oferecido e a demanda escolar: Até a década de 30, a língua materna era ensinada nos moldes do latim, com a valorização da gramática normativa. Para os bons conhecedores da língua, os filhos da classe dominante, esse sistema não trazia nenhum problema, pois já viviam em um meio letrado com uso fluente da norma culta, afinal de contas, para essa parcela, a educação já fazia parte do universo há mais de um século. A escola recebia gradativamente um maior número de alunos das camadas mais pobres oriundos de ambientes sem contato com as letras e que estavam muito longe de usar regras no dia-a-dia. Estes sim tiveram dificuldade de aprender a língua com os métodos utilizados, pois o que era ensinado não fazia parte de seu contexto de vida. As aulas de Português representavam a descoberta de algo novo, nunca visto ou imaginado até então, enquanto para os mais ricos, as aulas serviam apenas para identificar as regras que já usavam naturalmente (ARAES, 2007, p. 18). Tal colocação nos mostra um ensino de Português descontextualizado do social, mesmo que os alunos de classe alta estivessem acostumados com a variante padrão, ainda assim o ensino era insuficiente para eles serem proficientes em práticas de leitura e escrita, uma vez que as aulas eram prescritivas – apenas para identificar as regras que já usavam. Araes (2007) afirma que a escola, ao não considerar o conhecimento prévio do aluno ou mesmo suas necessidades sociais, passa a representar inutilidade, pois os conteúdos só são aplicáveis em contexto escolar, e se os alunos (ou pais de alunos no caso de crianças) não encontram resultados significativos, acabam por se perguntarem: Por que estudar?31 Nesses termos, temos um ensino que não acrescenta muito à formação do aluno enquanto sujeito que vive práticas sociais diferentes da construída didaticamente pela escola de então. No caso do ensino de LP, observa-se o ensino dos aparatos técnicos (tais como prescrição e ensino de nomenclaturas gramaticais) da língua que só serviam como conteúdo escolar, sem utilidade nas relações sociais. Geraldi (1997) apresenta o tipo de aluno nesse ensino normativo da língua como “o aluno, acostumado, desde as primeiras ocupações sérias da vida, a salmodiar, na escola, enunciados que não percebe, a repetir passivamente juízos alheios, a apreciar, numa linguagem que não entende [...] educado, em suma, na 31 54 Mediante essas considerações, muitas críticas foram feitas ao ensino tradicional da língua materna. Entre elas as mais frequentes, apontadas pelos PCNLP: a desconsideração da realidade e dos interesses dos alunos; a excessiva escolarização das atividades de leitura e de produção de texto; o uso do texto como expediente para ensinar valores morais e como pretexto para o tratamento de aspectos gramaticais; a excessiva valorização da gramática normativa e a insistência nas regras de exceção, com o conseqüente preconceito contra as formas de oralidade e as variedades não-padrão; o ensino descontextualizado da metalinguagem, normalmente associado a exercícios mecânicos de identificação de fragmentos lingüísticos em frases soltas; a apresentação de uma teoria gramatical inconsistente – uma espécie de gramática tradicional mitigada e facilitada (BRASIL, 1998, p. 18). Para se contrapor a esse retrato do ensino de LP, os PCNLP apresentam a concepção de linguagem que visa à prática social e propõem uma revisão do ensino da LP, a fim de ressignificar a noção de erro para admissão das variedades linguísticas próprias dos alunos e valorização das hipóteses linguísticas que eles elaboram no processo de reflexão sobre a linguagem. Há a proposta também de trabalho com textos reais, ao invés de textos construídos somente para o aprendizado da norma culta. O que se espera é que a escola não se prenda apenas ao ensino da norma, porém, considere o conhecimento linguístico que o aluno possui em sua comunidade. Afinal, a norma culta é somente uma variante da língua, ao invés de ser a linguagem em si. Não se trata de banirmos a gramática normativa dos currículos e acrescentar somente as variantes linguísticas dos alunos. Trata-se de uma proposta de ensino de acordo com o contexto social, ou seja, sem menosprezar a linguagem do dia a dia do aluno, mas que trabalhe reflexivamente, tanto a norma culta quanto a coloquial para que o aluno saiba quando usá-las. prática incessante de copiar, conservar e combinar palavras, com absoluto desprezo do seu sentido, inteira ignorância da sua origem, total indiferença aos seus fundamentos reais, o cidadão encarna em si uma segunda natureza, assinalada por hábitos de impostura, de cegueira, de superficialidade. Ao deixar a escola, descarta-se quase sempre, e para sempre, ‘dessa bagagem’” (GERALDI, 1997, p. 120). 55 Assim tem-se o ensino de língua contextualizado, pois, conforme os Parâmetros, “as práticas devem partir do uso possível aos alunos para permitir a conquista de novas habilidades linguísticas, particularmente daquelas associadas aos padrões da escrita [...]” (BRASIL, 1998, p.18). Nessa perspectiva, a escola recebe a função e a responsabilidade de garantir a todos os alunos, independentemente de classe social, o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania. Dessa maneira, os PCNLP apresentam como um dos objetivos da escola apontar “metas de qualidade que ajudem o aluno a enfrentar o mundo atual como cidadão participativo, reflexivo e autônomo” (BRASIL, 1998, p. 8). Figueiredo (2005) dialoga com os Parâmetros quando diz que a formação para a cidadania requer a criação de espaços educativos em que os alunos possam livremente questionar, pensar, assumir e criticar valores, normas e direitos, inclusive aqueles tidos como os mais democráticos e justos. Logo, a formação cidadã não implica apenas em formação da ética e moral calcada nos valores da escola ou dos professores, mas que os alunos tenham autonomia para construir seus próprios valores. [...] a escola deve se preocupar em oferecer oportunidades pedagógicas para que seus alunos e alunas possam compreender criticamente os componentes constitutivos das moralidades vigentes (...) seus elementos evidentes e suas razões ocultas, seus significados explícitos e seus silêncios, suas promessas e suas ameaças (GENTILI apud FIGUEIREDO, 2005, p. 73). Figueiredo (2005) ainda complementa: Em relação ao ensino de Língua Portuguesa, cremos que é apenas por meio de uma postura crítica diante dos fatos, das interações e, portanto, dos textos que o indivíduo pode ganhar autonomia e pôr em prática o verdadeiro sentido de liberdade e democracia, valores tão caros à cidadania (FIGUEIREDO, 2005, p. 73). Nos Parâmetros encontramos essa mesma visão, isto é, a proposta do texto como a nova unidade de ensino, usado para compreensão das práticas sociais e não como prática de reconhecimento da nomenclatura linguística. Essa nova visão está ligada a como os PCNLP entendem o funcionamento da linguagem a partir das relações sociais, dessa maneira, o aluno constrói, em todo tempo, dialeticamente a linguagem, guiando sua participação nas comunicações pelos sentidos constituídos 56 no desenvolvimento de sua competência discursiva e essa comunicação se dá não por frases soltas, mas através de textos. Em Geraldi (1997), verificamos que antes da criação dos documentos, no fim dos aos 80, o texto já estava presente nas salas de aula, porém não com a relevância adquirida nos documentos oficiais. Pelo contrário, o texto era tido como objeto de leitura vozeada (leitura oralizada), sendo a leitura feita pelo professor exemplo de como os alunos deveriam ler. Essa prática objetivava o aprendizado de produção de textos que imitassem os clássicos literários lidos em sala de aula, além disso, o sentido encontrado na leitura era único e autoritário, ou seja, somente o sentido atribuído pelo professor ou do crítico de seu gosto era considerada correta. Essas abordagens exploram principalmente as propriedades estruturais do texto, o que Rojo & Cordeiro (2004) denominam de gramaticalização dos eixos do uso32 – o texto usado como “pretexto” para o ensino da gramática normativa e da gramática textual, na crença de que “quem sabe as regras sabe proceder”. Na realidade, a escrita se define a partir da situação de interação estabelecida pela linguagem, pois falamos/escrevemos para alguém, sobre determinado tema, com algum propósito, a partir dessas condições se estruturam os modos de produzir textos (GERALDI, 2006). A língua é construída socialmente e para aprendê-la é necessário aprender “pragmaticamente seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas entendem e interpretam a realidade e a si mesmas” (BRASIL, 1998, p. 20). Isso acontece dentro de um aspecto discursivo que envolve a história dos interlocutores, a ideologia e os fatos linguísticos que, juntos, produzem essa unidade de sentido da linguagem chamada discurso. Os PCNLP entendem que o discurso se manifesta linguisticamente por meio de textos, sendo esses os produtos do discurso. Desse modo, o texto só pode ser entendido como texto dentro do universo significativo do discurso e, portanto, está presente nas práticas discursivas de qualquer aluno, visto que ele constrói discursos a todo o momento. Nessa perspectiva, não é possível tomar como unidades básicas do processo de ensino as que decorrem de uma análise de estratos – letras/fonemas, sílabas, palavras, sintagmas, frases – que descontextualizados, são normalmente tomados como exemplos de 32 Trataremos especificamente sobre os eixos do uso mais adiante. 57 estudo gramatical e pouco têm a ver com a competência discursiva. Dentro desse marco, a unidade básica do ensino só pode ser o texto (BRASIL, 1998, p. 23). Em um âmbito discursivo e social, a escolha de textos para o ensino deve ser pensada a partir de textos que possam “favorecer a reflexão crítica, o exercício de formas de pensamento mais elaboradas e abstratas, bem como a fruição estética dos usos artísticos da linguagem” (idem, p. 24), aspectos considerados pelos PCNLP como vitais para a participação efetiva do aluno numa sociedade letrada. Franchi (1987) já discorria sobre isso, quando diz que um trabalho efetivo com a escrita deve “criar condições para o desenvolvimento dos recursos expressivos mais variados e exigentes que supõem a escrita, o exercício profissional, a participação na vida social e cultural” (FRANCHI, 1987, p.40). Nesse viés, os PCNLP esperam uma abordagem minuciosa do texto em sala de aula, que analise as suas particularidades conforme o contexto situacional, mesmo porque é na escola que as crianças e jovens terão a oportunidade de acesso à diversidade de textos escritos que poderão se converter em modelos de produção. Dessa maneira, o trabalho constante com texto visaria às possíveis práticas sociais e, em busca disso, os PCNLP propõem que o ensino organize atividades discursivas que consistem em [...] uma prática constante de escuta de textos orais e leitura de textos escritos e de produção de textos orais e escritos, que devem permitir, por meio da análise e reflexão sobre os múltiplos aspectos envolvidos, a expansão e construção de instrumentos que permitam ao aluno, progressivamente, ampliar sua competência discursiva (BRASIL, 1998, p.27). Esse ensino reflexivo faz parte do objetivo de formação de cidadãos críticos e acredita ser possível aprender a pensar sobre a própria linguagem. Os PCNLP não propõem um ensino passivo, em que o entendimento das convenções do tradicional não seja possível e o sujeito tenha a opção de reprodução como única escolha. Afinal, na linguagem, enquanto atividade discursiva, não há reprodução, porém produção de sentidos, pois no meio social, a todo instante, o individuo é convidado a acrescentar suas compreensões sobre as situações do momento. Desse modo, a escola pensaria atividades de análise linguística, a fim de que os alunos 58 [...] possam operar sobre a própria linguagem, construindo pouco a pouco, no curso dos vários anos de escolaridade, paradigmas próprios da fala de sua comunidade, colocando atenção sobre similaridades e diferenças de formas e de usos lingüísticos, levantando hipóteses sobre as condições contextuais e estruturais em que se dão (idem, p.28). Nessa perspectiva, o texto como unidade de ensino está inserido em uma temática reflexiva processual e, por isso, em sua prática de produção os procedimentos de planejamento, de elaboração e de reescrita serão considerados. Os PCNLP explicam que os movimentos do sujeito para reelaborar o próprio texto apagando, acrescentando, excluindo, redigindo outra vez determinadas passagens de seu texto original, para ajustá-lo à sua finalidade, significam a reescrita nesse processo de aprendizagem reflexivo. Os PCNLP defendem que a reescrita precisa ser ensinada e pode ser aprendida, pois essa prática: - permite que o aluno se distancie de seu próprio texto, de maneira a poder atuar sobre ele criticamente; - possibilita que o professor possa elaborar atividades e exercícios que forneçam os instrumentos lingüísticos para o aluno poder revisar o texto (BRASIL, 1998, p. 77). Assim, os PCNLP visualizam um aluno autônomo capaz de exercer a função de auto-corretor de sua produção, após a explicação dada pelo professor. Dessa forma, o aluno reescreveria após o direcionamento do professor sobre o que é necessário melhorar na produção. Ao escrever um texto, o aluno faria uso do conteúdo visto em sala e após refletiria sobre esse uso, o que ocasiona um novo uso pós-reflexão. Mas podemos pensar: o que envolve de fato esses usos? E que reflexão seria essa? Ora, já vimos aqui que os PCNLP contrapõem-se ao ensino tradicional, no sentido de que não é o estudo de frases fora de um contexto discursivo que fará do aluno um escritor proficiente. Para que haja a proficiência, os PCNLP apresentam dois eixos básicos para formulação do ensino da escrita. São eles: o USO da língua escrita e a REFLEXÃO sobre a língua. Nesse viés, o eixo USO acontece nos procedimentos da escrita, tais como: planejamento, escrever, revisar e reescrever. Nesses momentos, o aluno tem a oportunidade de demonstrar o que de fato apreendeu das discussões e do conteúdo dado em sala de aula. O eixo REFLEXÃO faz parte do momento de análise do que 59 foi produzido e poderíamos enquadrá-lo na etapa de revisão de um texto, quando o aluno compara o que escreveu com o que o professor propôs. Como par mais avançado33, o professor é fundamental para a percepção do aluno nessa prática reflexiva, pois é ele quem percebe as dificuldades de escrita e conhece as possibilidades de aprendizagem de cada aluno, assim, ele funciona como mediador do conhecimento. Sobre essa mediação, os PCNLP afirmam: [...] pela mediação do professor que elabora os instrumentos e organiza atividades que permitem aos alunos sair do complexo (o texto), ir ao simples (as questões lingüísticas e discursivas que estão sendo estudadas) e retornar ao complexo (o texto). [...] por meio dessas práticas mediadas, os alunos se apropriam, progressivamente, das habilidades necessárias à auto-correção (BRASIL, 1998, p. 78). Essa função do professor vem ao encontro da proposta dos Parâmetros: um ensino de LP reflexivo, com o texto como unidade de ensino discursivo. O aluno não somente refletiria sobre o texto de outros escritores, mas refletiria sobre sua própria produção, juntamente com o professor. Essa perspectiva exige do professor uma atitude reflexiva sobre a produção de texto do aluno, pois ele, enquanto o cooperador (Vigotski, 1993[1934]), orientará o estudante no desencadeamento da reflexão sobre a linguagem. Grillo (1995) diz que o professor, enquanto leitor do texto do aluno, tem um papel fundamental no processo de aquisição da escrita no contexto escolar, pois a sua interferência, através de comentários orais e escritos, permite ao autor do texto compreender o caráter social da linguagem escrita, moldando seu texto em função de um leitor real. Sobre isso, discorreremos mais adiante, relacionando a interação professor e aluno à teoria vigotskiana. Termo oriundo da teoria vigotskiana para dizer sobre aquele que em uma relação social é mais experiente sobre um assunto ou conhecimento ou ainda aquele que já apreendeu e se apropriou de determinados conceitos e que, então, pode auxiliar quem ainda está no processo de desenvolvimento desses conceitos, mais adiante voltaremos a discorrer especificamente sobre essa teoria. 33 60 2.2 Vigotski: aprendizado social da língua materna [...] o ensino tem de ser organizado de forma que a leitura e a escrita se tornem necessárias às crianças. VIGOTSKI (1996[1930], p. 155) Lev S. Vigotski (1896-1934), psicólogo russo, apresenta estudos acerca do desenvolvimento das funções psicológicas superiores e da função social e psicológica da linguagem. Além disso, também se dedicou a estudar o processo de aprendizagem escolar, pois seu interesse por temas ligados à educação era grande. Os estudos de Vigotski sobre a aprendizagem mostraram-se bastante relevantes, de maneira que qualquer pesquisa que trabalhe com o ensino e aprendizagem de língua materna faz uso dele para a compreensão desse processo. Como exemplo, temos as propostas pedagógicas dos documentos oficiais e também pesquisas do Grupo de Genebra, como veremos mais adiante. Sobre os PCNLP, terminamos o tópico precedente tratando do papel do professor no processo de aprendizagem do aluno. A importância do professor nesse processo faz parte da teoria sociointeracionista de Vigotski, afinal ela postula que a constituição do sujeito dá-se no movimento dialético entre aprendizagem e desenvolvimento. Essa perspectiva contrapõe-se às concepções34 vigentes no início do século XIX: a ambientalista e a inatista. Na concepção ambientalista35, aprendizagem e desenvolvimento se confundem, ocorrendo simultaneamente, e não estão relacionados com a constituição do sujeito, pois essa acontece pelo meio ambiente. Desse modo, as experiências são fontes de conhecimento e de formação dos hábitos do comportamento humano, logo o indivíduo não transforma ou produz as condições do meio ambiente, pelo contrário, ele é por elas passivamente transformado e construído. 34 35 Essas concepções serão comumente encontradas no campo da Psicologia. Também chamada de comportamentalista ou behaviorista e baseada na filosofia empirista, da qual os maiores expoentes são os ingleses Francis Bacon (1561-1626), Tomás Hobbes (1578-1679), Augusto Comte (1798-1857) e na psicologia, como propositor do behaviorismo radical, B. F. Skinner (1904-1990). 61 Em contrapartida, a concepção inatista36 coloca a influência do meio em segundo plano, pois postula que “a maturação é o motor da constituição humana” (ZANELLA, 2001) e que as capacidades básicas de cada indivíduo são inatas, ou seja, encontram-se prontas desde o seu nascimento e, à medida que ele se desenvolva, elas irão amadurecer. Logo, para que haja aprendizado, o sujeito precisa desenvolver-se biologicamente. Em ambas as concepções, percebemos a ruptura entre sujeito e cultura, entendidos como pólos separados que se relacionam, “predominando ora um – o sujeito, para os inatistas -, ora outro – o meio, para os ambientalistas” (ZANELLA, 2001). Essas considerações levaram Vigotski a entender o aprendizado37 e o desenvolvimento de outra forma, como já dito, em um movimento dialético. Santos (2011) explica que, para Vigotski, a aprendizagem é um processo de apropriação da cultura historicamente construída pela sociedade e ocorre na interrelação das crianças com os adultos ou com um par mais avançado 38. Nesses termos, Chauí (apud ZANELLA, 2001) classifica a cultura como “a ordem simbólica por cujo intermédio homens determinados exprimem suas relações com a natureza, entre si e com o poder, bem como a maneira pela qual interpretam essas relações” (ZANELLA, 2001, p. 95). Assumindo essa visão histórico-cultural, Vigotski (1934) define a aprendizagem como social. Da mesma forma, o desenvolvimento ganha em Vigotski caráter social, compreendendo as complexas relações sociais e os sujeitos que aí se constituem. Shuare apud Zanella apresenta a definição vigotskiana para desenvolvimento: Em contraposição à ideia de desenvolvimento como processo paulatino, de evolução progressiva, de acumulação quantitativa, Vigotski o entendeu como um complexo processo cujos pontos 36 Também conhecida como apriorista ou nativista, baseada na filosofia racionalista, cujo maior expoente é o francês Renê Descartes (1596 – 1650). Na psicologia, o maior expoente é Jean Piaget (1896-1980), que desenvolveu a teoria epistemologia genética a partir da inatista. 37 Segundo Rego (2009), o termo aprendizado precisa ser entendido num sentido mais amplo do que usado na língua portuguesa, pois, quando Vigotski fala em aprendizado – em russo obuchenie -, ele se refere tanto ao processo de ensino quanto ao de aprendizagem, isso porque ele não acha possível tratar desses dois aspectos de forma independente. 38 Zanella (2001) lembra que em vários contextos Vigotski se refere à aprendizagem em contexto escolar, nós mesmos o utilizaremos aqui nessa perspectiva. Porém, suas discussões a respeito da constituição do psiquismo levam a crer que, para ele, aprender não se resume à apropriação de conteúdos científicos em um contexto de escolarização formal, apesar da importância que a escola assume em nossa sociedade. Dessa forma, concordamos com Santos (2011) que, ao considerar a aprendizagem como um processo ininterrupto, essa pode ocorrer também entre pessoas e companheiros mais experientes. Enquanto houver vida, o ser humano sempre estará em um processo de constituição de si e do outro. 62 nodais, de virada, estão constituídos pelas crises, momentos em que se produzem saltos qualitativos que modificam toda a estrutura das funções, suas interrelações e vínculos (SHUARE apud ZANELLA, 2001, p. 95). Tal colocação aponta para o principal fator do desenvolvimento: a apropriação pelo sujeito de novos saberes. E cada transformação, que ocorre nesse processo qualitativo, cria condições para a etapa seguinte do aprendizado, à medida que é em si mesma condicionada pela etapa anterior. Em outras palavras, o indivíduo sempre utilizará os acontecimentos anteriores, que o constituiu, para somar com as novas relações sociais. Nessa perspectiva, aprendizagem e desenvolvimento dão-se na transformação do processo interpessoal para o intrapessoal: Todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e, depois, no nível individual; primeiro, entre pessoas (interpsicológica), e, depois, no interior da criança (intrapsicológica) [...] todas as funções originam-se das relações reais entre indivíduos humanos (idem, p. 75). Vigotski, em sua teoria, não anula o papel do outro na constituição do eu, mas também não anula o papel do eu sobre o seu próprio desenvolvimento. Ele afirma que os processos psicológicos são incorporados no sistema de comportamento do eu e são culturalmente reconstituídos e desenvolvidos para formar uma nova entidade psicológica, caracterizando a individualidade de cada pessoa. A partir dessa ideia de individualismo, podemos concluir que cada pessoa apresenta histórias prévias diferentes umas das outras e, nas relações sociais, o conhecimento prévio de cada interlocutor servirá para compor os sentidos das situações. Logo, na teoria vigotskiana, não cabe a ideia de que o sujeito chega “vazio” às relações, pois ele é uma pessoa sócio-histórica e, pensando na esfera escolar, consideramos o aluno dessa mesma forma. Ao adentrar o universo escolar, o aluno não representa uma “tábula rasa”, ou seja, não é como se ele fosse aprender algo pela primeira vez 39. Sobre isso, Santos A concepção de “tábula rasa” está imbuída na “pedagogia bancária” definida por Paulo Freire (1983): "Na concepção bancária (burguesa), o educador é o que sabe e os educandos, os que não sabem; o educador é o que pensa e os educandos, os pensados; o educador é o que diz a palavra e os educandos, os que escutam docilmente; o educador é o que opta e prescreve sua opção e os educandos, os que seguem a prescrição; o educador escolhe o conteúdo programático e os educandos jamais são ouvidos nessa escolha e se acomodam a ela, e, finalmente, o educador é o sujeito do processo, enquanto os educandos são meros objetos" (FREIRE, 1983, p. 67). Nesta pesquisa, consideramos que os alunos também fazem parte do processo de ensino-aprendizagem, por causa da sua condição sócio-histórica. 39 63 (2011) frisa que os alunos não começam a aprender a partir de sua entrada na escola, mas desde seu nascimento, e Vigotski (1996[1930]) mesmo afirma: [...] o aprendizado das crianças começa muito antes de elas freqüentarem a escola. Qualquer situação de aprendizado com a qual a criança se defronta na escola tem sempre uma história prévia [...] aprendizado e desenvolvimento estão interrelacionados desde o primeiro dia de vida da criança (VIGOTSKI, 1996[1930], p. 110). Daí a importância de o professor acionar o conhecimento prévio dos alunos, pois, conforme Santos (2011), a aprendizagem pré-escolar construída na interação da criança com o meio social e cultural nas atividades cotidianas subsidiará a construção dos conceitos escolares. Dessa forma, a escola é mediadora entre os conhecimentos do cotidiano e os científicos, cumprindo o papel de difundir a produção cultural da humanidade, ainda que esteja reduzida ao tipo de saber científico40. Mediante essas reflexões, podemos encaixar a temática dos PCNLP sobre o ensino da LP a partir das necessidades e possibilidades de aprendizagem do aluno, isto é, ao que tange ao ensino da escrita, o professor averigua aquilo que o aluno já sabe e o que ele seria capaz de aprender. Esse ensino é possível, se considerarmos os dois níveis do desenvolvimento humano denominados por Vigotski como o desenvolvimento real e o desenvolvimento potencial (Vigotski, 1996[1930]). O real compreende o conjunto de atividades que a criança consegue resolver sozinha, devido às funções psicológicas que já construiu até determinado momento; o potencial representa o conjunto de atividades que ela não consegue realizar sozinha. Aqui faremos uso desses termos para pensarmos especificamente na aprendizagem da escrita. Assim, nesta pesquisa, o desenvolvimento real compreende, no ensino de LP, aquilo que o aluno demonstra saber em sua produção escrita. Tomemos como exemplo alunos do Ensino Fundamental, que independentemente do ano, têm um conhecimento consolidado sobre o que é escrever, sobre o como escrever, de maneira que em suas produções há aspectos adequados (“corretos”), os quais 40 “O processo de educação escolar é qualitativamente diferente do processo de educação em sentido amplo. Na escola a criança está diante de uma tarefa particular: entender as bases dos estudos científicos, ou seja, um sistema de concepções científicas” (LEONTIÉV; LURIA apud ZANELLA, 2001, p. 96). 64 aprenderam em séries precedentes, assim, esse conhecimento já apropriado representa o desenvolvimento real. O desenvolvimento potencial representa aquilo que o aluno pode alcançar com o auxílio de um par mais avançado (o professor, um colega). O professor, sabendo o que o aluno precisa melhorar, orienta-o mediante atividades que ofereçam subsídios necessários para seu aperfeiçoamento. Daí a importância da percepção do professor sobre a necessidade dos alunos, visto cumprir ele um papel de mediação entre os educandos e o conhecimento. No decorrer dos anos escolares, os alunos apresentam esses dois níveis de desenvolvimento e um sempre dá espaço para o outro, conforme Vigotski afirma o que é desenvolvido com o auxílio do professor um dia será utilizado sem auxílio, ou seja, o potencial torna-se real. Esse fato caracteriza a aprendizagem como processo, fator que nos interessa nesta pesquisa, pois no processo é que o professor irá trabalhar as necessidades e as possibilidades de aprendizagem do aluno. Note-se que o professor não trabalha exclusivamente com o desenvolvimento real do aluno e nem tampouco com o seu potencial, pois esse ainda não existe e quando existir já será real, entretanto, o ensino se dá em caminhos que levem o aluno ao desenvolvimento potencial. Esse caminho se dá no processo de aprendizagem que nos interessa, o qual Vigotski cunha de Zona Proximal de Desenvolvimento41 e ele a define da seguinte maneira: Ela é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (VIGOTSKI, 1996[1930], p. 112). Essa distância é um indicativo das funções que ainda não amadureçam, mas que, com ajuda do outro, a criança conseguirá desenvolvê-las. Em se tratando da escrita, acreditamos que funciona como aspecto primordial para o aperfeiçoamento da produção, pois na ZPD se evidenciam quais as necessidades dos alunos e suas Doravante ZPD. Utilizaremos este conceito na forma de zona proximal de desenvolvimento e não zona de desenvolvimento proximal (ZDP), pois, conforme ROJO (2001), PAES DE BARROS (2005) e SANTOS (2011), acreditamos que a ênfase do adjetivo recai sobre a zona fronteiriça ativada pelo ensino-aprendizagem e não sobre o desenvolvimento. 41 65 possibilidades de aprendizagem, ou seja, o ensino do professor se dá mediante a ZPD do aluno. Para Vigotski (1996[1930]): O aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança (VIGOTSKI, 1996[1930], p. 118). Essa citação nos mostra que a ZPD somente é acionada no processo de ensino, quando os alunos estão engajados em atividades compartilhadas tanto com o professor quanto com os colegas. Dessa forma, não há como o professor definir previamente a zona proximal de uma sala em relação à produção escrita, sem antes os alunos fazerem um uso social da escrita, sem antes produzirem para o professor verificar o que eles já sabem e o que poderiam desenvolver com sua ajuda. Sobre isso Besson e Bronckart apud Dolz e Schneuwly (2004[1996], p. 50) afirmam: [...] a ZPD não é determinável a priori; o ensino, em sua lógica educativa própria (sobretudo, lógica dos programas), só pode propor situações de interação que julga serem eficazes; e estas somente o serão se os elementos interativos forem assimiláveis ao estado de desenvolvimento efetivo do aluno. Portanto, o sucesso na criação de uma ZPD nunca está assegurado e depende grandemente da experiência profissional do professor (BESSON; BRONCKART apud DOLZ; SCHNEUWLY, 2004[1996], p. 50). Nesse âmbito, o papel do professor como aquele que ensina é primordial, pois ele será o responsável por disponibilizar ferramentas e criar condições para que os alunos construam seu conhecimento. Rego (2009), em suas reflexões sobre a função do professor para Vigotski, afirma a necessidade de o educador estabelecer uma relação de diálogo com os alunos e criar situações em que eles possam expressar aquilo que sabem, de maneira que o docente estaria mais sensível para o reconhecimento da ZPD dos alunos. Através da consideração da zona de desenvolvimento proximal, é possível verificar não somente os ciclos já completados, como também os que estão em via de formação, o que permite o delineamento da competência da criança e de suas futuras conquistas, assim como a elaboração de estratégias pedagógicas que a auxiliem nesse processo (REGO, 2009, p.74). 66 Por se tratar de uma perspectiva histórico-cultural, o ensino focado no processo de desenvolvimento do aluno (leia-se ZPD) não pode ser visto como avaliação de ações isoladas ou atividades de reprodução sem nenhuma reflexão por parte do estudante, pois um dos objetivos desse ensino precisa ser a autonomia do aluno para pensar e agir. Nesse sentido, as práticas pedagógicas serão elaboradas visando ao aperfeiçoamento de um aluno que é agente de sua própria história e, portanto, desempenha um papel importante no seu próprio desenvolvimento. Logo, verificamos que o trabalho na ZPD não serve somente para a reflexão do professor sobre o processo do aluno, mas para o próprio aluno refletir sobre sua aprendizagem no decorrer do processo. Na aprendizagem da escrita, essa zona pode ser trabalhada principalmente no processo da reescrita. Esse momento constitui-se de reflexão sobre o que é necessário aperfeiçoar de acordo com as propostas do professor. Em uma situação de ensino ideal, o aluno produz um texto escrito e o entrega ao professor, esse analisa, verificando o que o aluno já sabe e o que é necessário melhorar. Diagnosticados os problemas, o professor preparará atividades nas quais o aluno possa aprender os instrumentos necessários para sua produção. Depois dessas atividades, o aluno pode voltar para o seu texto, agora com novos conhecimentos que o auxiliarão na prática de reescrita. É importante lembrar que os conhecimentos apropriados nesse processo da ZPD não equivalem apenas ao objetivo de “saber fazer”, ligado à ideia de reprodução de conceitos, sem entendê-los. Pelo contrário, conforme Zanella (2001), a apropriação das atividades necessariamente envolve o “compreender e saber fazer”, ou seja, a leitura do aluno sobre todo o processo e o estabelecimento de múltiplas relações, o que lhe permite tanto a execução de ações quanto a criação de novas possibilidades. Essas reflexões têm norteado pesquisas que propõem um ensino de LP voltado para as práticas sociais, mesmo porque a concepção de linguagem permeia a interação e, já vimos aqui neste capítulo, que a teoria vigotskiana está presente nos documentos oficiais – PCNLP, principalmente no que diz respeito ao conceito de ZPD. Vigotski acredita que o desenvolvimento humano se dá nas relações sociais tal como o Círculo de Bakhtin, de maneira que um “casamento” entre eles seria 67 possível, embora Vigotski proponha uma teoria de ensino-aprendizagem, pensando nas situações escolares, enquanto Bakhtin não fez tal proposta. Em todo caso, alguns pesquisadores já promoveram tal aproximação, como Freitas (1994), Garcez (1998), Rojo (2003), Ponzio (2010). De fato, segundo Santos (2011), o grupo de Genebra relê as teorias de Vigotski e Bakhtin na proposição de uma metodologia didática para o ensinoaprendizagem de língua materna, neste caso, o francês. Eles fazem aproximação de alguns conceitos-chaves desses dois autores como os de discurso, linguagem, interação e o papel do outro (ROJO, 2003). Inclusive podemos verificar nos PCNLP forte influência da didática desse grupo nas propostas para o ensino de LP, principalmente quanto ao uso dos gêneros. Mencionamos anteriormente que não usaremos a noção de gênero desse grupo, mesmo sabendo que essa é uma releitura da teoria bakhtiniana, justificaremos a seguir o porquê dessa nossa decisão. 2.3 A noção de gênero para o Grupo de Genebra e outros apontamentos [...] a consciência de si a construção das funções superiores são estreitamente dependentes da história de relações do indivíduo com sua sociedade e da utilização na linguagem. DOLZ&SCHNEUWLY (2004[1996], p. 46) A noção de gênero trabalhada pelo Grupo de Genebra advém da corrente teórica denominada Interacionismo Sócio-Discursivo, doravante ISD, que tem como campo propulsor a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra, sendo Bronckart – ao lado de Schneuwly e Dolz – o principal divulgador dos estudos ali feitos. Com base na teoria bakhtiniana e na ideia marxista de instrumento, o ISD define a linguagem como instrumento semiótico que nasce a partir da diversidade das práticas sociais. Dessa maneira, a “cada novo ou diferente contexto, as ações da linguagem sofrem adaptações originando diferentes espécies de textos” (BRONCKART apud FIGUEIREDO, p. 24). Esses textos ocorrem repetidamente em um ou mais contextos que são similares entre si, de modo que servem de modelos, ou seja, toda vez, que determinado contexto se repete, os sujeitos usam a estrutura do texto que ali é 68 recorrente. O ISD denomina esses modelos de gêneros de textos. Sobre eles Bronckart (1997) afirma: [...] como qualquer atividade humana, os gêneros são objetos permanentes de avaliações sociais, o que lhes confere o caráter de modelos nos quais o agente de uma ação de linguagem se baseia para produzir um texto (BRONCKART, 1997, p. 149). Bronckart (idem) assevera que, apesar dessa característica modelar, os gêneros estão sujeitos a mudanças, pois à medida que as configurações do contexto de enunciação se modificam, eles também mudam, assim, os textos produzidos dentro da forma modelar de um gênero resultam diferentes. Em todo caso, os textos sempre serão produzidos, ao contrário dos gêneros que sofrem influências dos processos sócio-históricos. De modo que certas modificações no contexto podem determinar o desaparecimento de alguns gêneros, pois já não são mais usados, ou provocam, ainda, o surgimento de novos gêneros, Bronckart acredita que esse é um dos motivos dos gêneros serem considerados relativamente estáveis. Para ele essa instabilidade e a diversidade dos gêneros dificultam “qualquer esforço classificatório dos gêneros”, por causa disso a unidade de análise, para o ISD, passa a ser os textos, especificamente o que Bronckart denomina de texto empírico. Texto empírico é definido como uma unidade concreta de produção de linguagem, que pertence necessariamente a um gênero, composta por vários tipos de discurso42, e que também apresenta traços das decisões tomadas pelo produtor individual em função da sua situação de comunicação particular (BRONCKART, 1997, p. 77). A análise desses textos é suficiente para o objetivo do ISD de descrever os processos cognitivos e linguísticos envolvidos na produção da linguagem. Agora, podemos compreender porque os autores embasados no ISD usam a expressão “gênero de texto” em vez de “gênero de discurso”, diferindo da terminologia criada por Bakhtin. Para Bronckart (1997), os tipos discursivos são as formas de organização linguísticas, com as quais são compostos, em diferentes modalidades, todos os gêneros textuais. Comumente pensamos em narração, descrição e argumentação para falar desses tipos. Entretanto, neste caso, Bronckart se refere à narração, relato interativo, discurso teórico e discurso interativo, sendo eles os únicos aspectos com estabilidade na formação do gênero textual. 42 69 Quanto à aplicabilidade do ISD nas práticas didáticas, teremos como representantes principais Schneuwly e Dolz. Acontece que Bronckart (1997, p. 88), mais preocupado com a elaboração de um modelo geral das condições de produção do texto, reconhece que talvez o seu tipo de análise não possa ser usado para procedimentos de ensino. Assim, os seus colegas, interessados em desenvolver metodologias didáticas para o ensino de línguas, apropriaram-se de teorias acerca do texto e da linguagem do ISD e as adequaram para aplicá-las ao ensino de língua materna. Schneuwly (1994) apresenta, então, uma noção de gênero, que retoma e amplia a noção conforme Bronckart, ligada à visão vigotskiana de instrumento. Os instrumentos encontram-se entre o individuo que age e o objeto sobre o qual ou a situação na qual ele age: eles determinam seu comportamento, guiam-no, afinam e diferenciam sua percepção da situação na qual ele é levado a agir. A intervenção do instrumento – objeto socialmente elaborado – nessa estrutura diferenciada dá à atividade certa forma; a transformação do instrumento transforma evidentemente as maneiras de nos comportarmos numa situação (SCHNEUWLY, 1994, p. 23). Concluímos com tal citação que os gêneros textuais são ferramentas para a participação dos indivíduos nas atividades sociais e para o desenvolvimento psicológico. Schneuwly (1994) sublinha que a escolha de gênero acontece mediante os parâmetros da situação comunicativa. Leva-se em conta que na ação social há “um sujeito, o locutor-enunciador, que age discursivamente [...] com a ajuda de um instrumento que aqui é um gênero, um instrumento semiótico complexo” (SCHNEUWLY, 1994, p.27). Daí temos a justificativa de Schneuwly para o uso dos gêneros textuais como objeto de ensino da língua materna, afinal, esses instrumentos fazem parte de cada ação de linguagem dos alunos, de maneira que eles sempre têm que escolher qual gênero usar, para melhor se expressarem. Devido ao fato de os gêneros serem os organizadores globais da situação, definindo o tratamento do conteúdo, do aspecto comunicativo e do linguístico, Schneuwly (1994) defende a necessidade de considerar o gênero como um megainstrumento, ou seja, “como uma configuração estabilizada de vários subsistemas semióticos (sobretudo linguístico, mas não paralinguísticos), permitindo 70 agir eficazmente numa classe bem definida de definições” (SCHNEUWLY, 1994, p. 28). Barbosa (2001) afirma que, “embora o autor [Schneuwly] não detalhe quais seriam exatamente esses vários subsistemas semióticos, poderíamos considerar que seriam elementos de ordem enunciativa, textual e gramatical, necessários à produção e à compreensão de textos” (BARBOSA, 2001, p.84). Dessa forma, o domínio dos gêneros dependerá também do conhecimento do indivíduo sobre esses subsistemas. E seriam essas formas de outros níveis linguísticos que possibilitariam um tratamento didático dos gêneros (FIGUEREIDO, 2005). Um método criado pelo Grupo de Genebra para ensino do gênero de texto é sequência didática (SD), aliada a ferramenta didático-metodológica de intervenção em textos denominada lista de constatação. A SD é o conjunto de atividades organizado de maneira sistemática em torno de um gênero oral ou escrito, uma sequência de módulos de ensino, organizados para melhorar uma determinada prática da linguagem; é um método criado pelo Grupo de Genebra, logo, trata-se de um trabalho mediante os gêneros textuais. O objetivo da sequência é auxiliar o aluno na apropriação efetiva do gênero. Para tanto, ela apresenta em seu bojo a maior parte dos aspectos inerentes a ele. Segundo Dolz & Schneuwly (1996), “as sequências didáticas instauram uma primeira relação entre um projeto de apropriação de uma prática de linguagem e os instrumentos que facilitam essa apropriação” (p. 51). A ideia, com essa estratégia, é trabalhar as possibilidades e necessidades dos alunos em relação ao gênero; é claro que, em um primeiro momento, quando o professor faz a sequência com o intuito de contextualizar o aluno em relação ao gênero proposto, ele o faz em nível de conhecimento das estruturas do gênero, que o aluno, talvez, nunca tenha escrito ou tido contato com. Contudo, passado esse primeiro contato, o professor poderá elaborar atividades relacionadas ao que o aluno ainda precisa desenvolver. Nesse aspecto, as sequências constituem uma oportunidade de o aluno trabalhar em sua ZPD e, assim, alcançar a apropriação efetiva do gênero. Gonçalves (2009), assim como o Grupo, acredita que seja necessária uma sistematização do que se ensinar, referente ao gênero proposto, por isso propõe o uso da SD, pois acredita que ela possa ajudar o estudante a dominar um gênero de texto, permitindo-lhe adequá-lo a uma determinada situação de comunicação. 71 Portanto, a SD consistiria em um modelo do que seguir para o desenvolvimento da aprendizagem: O modelo didático do gênero nos fornece objetos potenciais para o ensino. Isso porque selecionamos atividades em função das capacidades dos aprendizes, ao mesmo tempo em que colocamos em cena certos elementos no processo de transposição didática. Dito de outro modo, o modelo permite, para um mesmo público-alvo, construir atividades de ensino/aprendizagem diversos. Permite ainda construir sequências de complexidade crescente, seguindo o desenvolvimento dos aprendizes (GONÇALVES, 2009, p. 229). Assim, além de apontamentos específicos no texto do aluno, Gonçalves (idem) defende o desenvolvimento de uma série de atividades que podem possibilitar o conhecimento necessário dos gêneros. O professor usaria a sequência como intervenção e auxílio na aprendizagem de escrita, quando, após a produção inicial de um gênero, mapearia as capacidades de linguagem dominadas pelos alunos. As atividades seriam propostas a partir do que o professor sabe a respeito das necessidades dos alunos. Então, depois de passar pela sequência, o aluno voltaria para a sua produção inicial, agora com conhecimentos suficientes para compreender os apontamentos feitos pelo professor. Após isso, o aluno ainda teria o acompanhamento do docente, através da correção interativa. Essa correção difere da proposta por Ruiz (2001), na qual o professor escreve comentário em forma de bilhetes, que não tratariam somente dos problemas do texto, mas também conteriam elogios do professor às passagens do texto ou cobranças do que o aluno fez. Ao abordar a correção interativa, Gonçalves (2009) refere-se ao que Dolz & Schneuwly (2004) chamam de intervenção de lista de controle/ constatações: O termo “lista de constatações/controle” refere-se, simplesmente, às categorias que serão utilizadas, após a aplicação da SD. São, em suma, uma série de itens que caracterizam os gêneros em análise. Assim, defendemos, primeiramente, a utilização das SDs e, em seguida, “a lista de controle/constatações” como instrumento regulador da aprendizagem. (GONÇALVES, 2009, p. 19) Nesse aspecto, essa correção, mediante a lista de constatação, possibilita ao professor intervir sobre o gênero produzido e, num processo dialógico, construir uma (res)significação para o texto do estudante. Através dela, o professor faria 72 apontamentos resumindo os módulos da SD e o aluno poderia refletir sobre e adequar melhor seu texto. Gonçalves (2009) argumenta que o exercício dialógico da linguagem, por meio da lista de constatação, exige a capacidade de o docente interagir, quer por escrito, quer oralmente, com os textos dos alunos. Isso nos leva a pensar que essa lista seria feita não apenas a partir do que o gênero precisa ter, mas também poderia ser montada após a leitura da primeira versão do texto dos alunos, pois, assim, o professor teria observado o que eles precisariam revisar, ou seja, quais suas reais necessidades. A lista é constituída de elementos ensinados na SD e representa um diálogo entre aluno e professor, por isso, em alguns casos, ao invés de apenas o docente criar uma lista, ela pode ser feita em conjunto com os alunos, em um momento de reflexão sobre o que precisa ser melhorado no texto. Segue, para observação, uma lista apresentada por Gonçalves (2009, p. 239): 1) Você está no papel social de enunciador durante a interação. Por isso, conseguiu passar a ideia de alguém que leu e compreendeu a coletânea de textos apresentada na SD? 2) Seu texto pode ser considerado um exemplar do gênero? 3) Está adequado ao professor e, posteriormente, ao veículo a ser publicado, isto é, o jornal da escola, ou seja, a destinatários múltiplos? 4) Você conseguiu passar a ideia para seu leitor de alguém que defende suas próprias ideias e as defende por meio de argumentos fundamentados? Ou seja, conseguiu mobilizar “esquema argumentativo”: premissa/ tese, argumentos e conclusão? Você consegue antecipar e refutar teses opostas, isto é, elaborar contra- argumentos? 5) Os argumentos utilizados são coerentes com o tema? Eles são convincentes e suficientes para conseguir a adesão do leitor? Estão organizados hierarquicamente, isto é, do mais importante para o menos importante ou vice-versa, a depender do efeito de sentido pretendido? De outro modo, como eles foram hierarquizados? 6) A progressão temática é obtida a partir de um raciocínio lógico/ encadeamento de ideias. Seu artigo apresenta progressão temática, isto é, você se preocupou em apresentar a cada parágrafo uma nova informação relacionada ao tema? 7) Você conseguiu expressar sua subjetividade sem utilizar-se de expressões em 1ª pessoa com “eu acho”, “eu acredito”, de tal forma que garanta maior veracidade ao discurso e, consequentemente, demonstre não uma opinião particular? 8) Seu texto apresenta os organizadores lógicos (conjunções, por exemplo) que guiam o leitor organizando o discurso e estabelecendo relações entre as frases e entre os parágrafos? Ou seja, há elementos identificando relações sintático-semânticas de causa, consequência, conclusão, concessão, etc.? Ou a sua ausência favorece o mesmo tipo de relações lógico-argumentativas? 73 9) Você conseguiu evitar repetições desnecessárias usando elementos de coesão nominal (anáforas nominais e pronominais, referenciação dêitica por meio de este, esse, etc.)? 10) Não existem desvios gramaticais tais como pontuação, frases truncadas/ incompletas, erros ortográficos, etc.? Quadro 1 – Lista de constatação do gênero artigo de opinião Para Gonçalves (2009), as questões feitas na lista são a voz do professor. Como não é possível conversar com cada aluno sobre seu texto, a lista faz esse papel. Desse modo, a lista de constatação ajuda a antecipar e compreender melhor os critérios pelos quais o texto do estudante será avaliado e deixa o aluno consciente do que realmente se espera dele na produção. Nesse tipo de correção, a lista é vista como instrumento mediador do diálogo entre aluno e professor. E a intervenção do professor no processo de reescrita é sistematizada, propondo um diálogo prescritivo do gênero. No fim, teríamos que pensar se realmente o aluno se constituiria em um sujeito crítico, com um posicionamento próprio diante dos pontos de vistas outros – incluindo o do professor. Percebemos que a lista não mostra ao aluno o que precisa ser melhorado, mas apenas o leva a refletir sobre o seu texto, analisando cada uma das perguntas. Nesse aspecto, o professor acha que isso já é o suficiente, pois a lista foi feita depois da sequência didática, a qual foi criada após o docente ter lido a produção dos alunos, quando verificou quais eram as necessidades que deviam ser trabalhadas na SD e depois pontuadas na lista. Assim, por mais que o vocabulário na lista sejam termos técnicos e científicos, é de se supor que não seja estranho para o aluno, pois o professor já teria trabalhado isso na SD. Muito embora haja uma preocupação que vise a uma aprendizagem interativa, ainda assim a lista de constatação pontua aspectos mais linguísticos que discursivos, ou seja, é um instrumento que trabalha apenas uma parte do gênero, que leva à reflexão sobre a estrutura da língua. Essa característica é normal a um trabalho pautado nos gêneros de textos. Figueiredo (2005) afirma que o aproveitamento da teoria do ISD promove um ensino de língua materna que privilegia aspectos da ordem do texto e da enunciação, porém há pouco relevo às questões discursivas que vão além do contexto mais imediato de produção, diferentemente da noção bakhtiniana de gênero do discurso. 74 Rojo (2005) apresenta de forma detalhada uma distinção entre as noções de gêneros textuais e gêneros do discurso. A partir disso é possível verificar como a diferença teórica se reflete tanto nos trabalhos dos autores que se adequam a essa ou àquela noção e quais as implicações didáticas dessas teorias. Figueiredo (2005, p. 46) apresenta essa diferenciação no quadro abaixo: TEORIA DOS GÊNEROS TEXTUAIS TEORIA DOS GÊNEROS DO DISCURSO Ênfase nas formas composicionais. Ênfase na situação de enunciação. Gênero é uma entidade/noção vaga, que recobre uma família de similaridades e é percebido como um modelo canônico. Gênero é um universal concreto decorrente das relações sociais e regulador das interações e discursos configurados em enunciados ou textos (Rojo, 2004, no prelo). A noção de gênero se confunde com a de família de textos. “Texto” é a materialização do gênero como universal concreto. Busca descrever a função ou a materialidade do texto/gênero através de unidades estáveis que o compõem, entre estas, as seqüências típicas ou os tipos de discurso. Busca a significação, a acentuação valorativa e o tema, indiciados pelas marcas lingüísticas, pelo estilo e pela forma composicional do texto. Apesar de estabelecer uma aproximação com o discurso bakhtiniano, dele se distancia e com ele praticamente rompe, em muitos pontos. Mantém uma postura crítica e dialógica com as teorias bakhtinianas, sem no entanto se distanciar demasiado delas. Em termos didáticos, busca definir um gênero colocando paralelamente vários textos supostamente pertencentes a ele e buscando assim regularidades formais ligadas à língua ou à função do gênero, tendo como “pano de fundo” o contexto de produção. Em termos didáticos, busca definir um gênero a partir de regularidades e similaridades das relações sociais numa esfera de comunicação específica. Portanto, parte-se da análise em detalhe dos aspectos sóciohistóricos da situação enunciativa para daí buscar as marcas lingüísticas que refletem esses aspectos da situação. Principais autores nos quais se apóiam os trabalhos dentro desta tendência analisados por Rojo: Bronckart (1997), Adam (1998/99), Marcuschi (2002). Principais autores nos quais se apóiam os trabalhos dentro dessa tendência analisados por Rojo: Bakhtin e seu círculo, Holquist, Silvestre & Blank, Brait, Faraco etc. Quadro 2 – Teoria dos gêneros textuais e teoria dos gêneros do discurso A relevância de fazermos tal distinção reside no fato de que cada uma dessas abordagens resulta em aplicações didáticas diferentes. Assim, segundo Rojo (2005), constatamos que os trabalhos da teoria de Gênero de Texto tendem a recorrer a categorias mais ligadas à estrutura ou forma composicional do texto, enquanto a 75 teoria de Gênero do Discurso seleciona suas categorias de análise a partir dos parâmetros sociais da enunciação, dando importância maior as marcas linguísticas que decorrem da produção de significação e temas do discurso. Esta pesquisa inscreve-se na teoria de Gênero do Discurso, mostraremos, assim, em nossa análise, maior preocupação com a discursividade, tanto no momento de verificação das necessidades dos alunos, quanto para criação de atividades reflexivas para a reescrita. Por hora, dialogaremos brevemente com algumas pesquisas que falam sobre a prática da reescrita. 2.4 O ensino reflexivo da escrita: a reescrita em questão Homens, nascidos na história e constrangidos pela história, vamos construindo soluções (que a cada vez não se querem paliativas), conscientes de que o que se vai tecendo, a pouco e pouco, em cada ponto, em cada nó, é uma resposta marcada pela eleição de postos de observação possíveis (...). GERALDI (1997, p. 4) Antes de iniciarmos nossa pesquisa, procuramos por estudos que objetivavam um dos nossos propósitos: definir a reescrita mediante os aportes teóricos do Círculo de Bakhtin. Não encontramos pesquisas com tal objetivo, mas encontramos trabalhos reflexivos sobre o ensino da escrita, os quais dão espaço relevante à prática da reescrita, portanto, sobre eles abordaremos a seguir 43. Como vimos desenvolvendo, podemos verificar que, quando pensamos a linguagem como prática social e levamos essa abordagem para o ensinoaprendizagem de LP, deparamo-nos com o trabalho processual e reflexivo da escrita, de tal maneira que se evidenciam seus procedimentos, tais como: planejamento, escrita, revisão e reescrita. Todos eles acarretam um ensino mais facilitador da proficiência do aluno no domínio da escrita e também sua formação enquanto sujeito crítico que usará a escrita socialmente, fora da escola. As pesquisas que serão apresentadas aqui demonstram preocupação de um ensino reflexivo para esse aluno-sujeito crítico. Logo, poderemos notar em seus meandros, a influência das ideias discutidas alhures, presentes nos documentos O trabalho com a produção escrita aqui no Brasil é bastante amplo, o que abordaremos aqui é uma pequena parte desse arcabouço. Não havia possibilidade de falarmos sobre todas as pesquisas aqui, então, selecionamos apenas sete. 43 76 oficiais, tais como a teoria de ensino-aprendizagem do Grupo de Genebra, a teoria enunciativa bakhtiniana e contribuições de Vigotski. Nesses moldes, as pesquisas estão atreladas à visão de ensino ligado à natureza social da linguagem, objetivando ora evidenciar a importância da escrita e seus procedimentos, ora demonstrar métodos para um ensino da escrita eficaz, ora propor novas atividades que ocasionariam a prática reflexiva social do aluno em sua produção. Assim, escolhemos algumas pesquisas, tais como: GRILLO (1995); JESUS (1995); ALMEIDA (2001); ARAÚJO (2004); AGNOLINI (2007); BORGES (2007); GONÇALVES (2009)44. Conforme Melo e Petroni (2009), podemos dizer que os estudos e pesquisas na perspectiva dos gêneros discursivos, na década de 90, romperam com a abordagem tradicional e linear da produção de textos que se limitava à narração, descrição e dissertação enfatizando apenas os aspectos estruturais da língua. A reescrita, no ensino prescritivo, era como um breve momento de passar a limpo o, então, produto: a redação. Nessa temática, esperava-se que o aluno caprichasse na letra (nem pensar em garranchos!) e na ortografia ou em alguma concordância equivocada (isso caso ele percebesse algo estranho no texto ao lê-lo, para si, em voz alta). A reescrita era, assim, como alcunha Jesus (1995), uma “higienização do texto”. A reescrita transforma-se numa espécie de “operação limpeza”, onde o objetivo principal consistia em eliminar as “impurezas” previstas pela profilaxia lingüística. Ou seja, os textos são analisados apenas no nível da transgressão ao estabelecido pelas regras de ortografia, concordância e pontuação, sem se dar a devida importância às relações de sentido emergentes na interlocução. Como resultado, temos um texto, quando muito, “lingüisticamente correto”, mas prejudicado na sua potencialidade de realização (JESUS, 1995, p. 54). As reescritas individuais normalmente dizem respeito à correção ortográfica, com ou sem consulta de dicionário. Nesse caso, cada aluno corrige os erros já assinalados no seu texto pelo professor ou por um colega, com a atenção centrada exclusivamente no apagamento do erro, sem se ocupar de qualquer ordem de natureza 44 Não vimos nenhum problema em abordarmos pesquisas do início da década de 90, anterior aos documentos oficiais (PCNLP), pois nosso intuito foi buscar estudos que apresentassem, de alguma maneira, a reescrita e, assim, encontramos nessas pesquisas a abordagem do ensino de LP numa perspectiva discursiva. 77 semântica voltada para a descoberta de significados e, com isso, poder inferir o caráter polissêmico da linguagem (idem, p. 55). Por tais colocações, percebemos o contexto da prática de ensino, arraigado ao ensino normativo, no qual há marcação das irregularidades do texto de forma unilateral. Nesse caso, ao professor cabe o papel de apontar e corrigir os “erros” de forma absoluta, direcionado apenas pelos cânones da escrita45. Jesus (1995) afirma que o uso da escrita, nesse contexto, tem como prioridade atender às exigências disciplinares da instituição escolar e dos dogmas linguísticos. Dessa maneira, nada mais natural que a visualização apenas da superfície linguística a fim de ajustá-la a um modelo de texto desvinculado da historicidade de sua produção. Nesse âmbito, Jesus (idem) diz que o desvínculo acarreta “apagamento das cenas enunciativas”, ou seja, não há interesse no caminho percorrido pelo aluno para desenvolvimento da escrita mediante a reescrita e mesmo a sua variação linguística é considerada como errônea, independentemente da situação comunicativa de que ele esteja participando. Mesmo o texto que ele produz é tratado como algo “desenraizado da realidade viva e o erro é tido como acontecimento equivocado por si e para si” (JESUS, 1995, p. 30). Esse quadro incutia no aluno um único objetivo: escrever para obtenção de nota, de maneira que não havia sentido para o aluno praticar a escrita fora da escola, em seu dia a dia. Preocupada com isso, Jesus propõe a “prática reflexiva sobre o texto para corrigir os erros”, a fim de propiciar a análise dos contextos de produção e situação discursiva. Com essa finalidade ela afirma que o “conceito de ‘correção’ não pode ser entendido exclusivamente enquanto processo de resgate de normas a partir dos erros sinalizados no texto”, porém momento reflexivo sobre o “próprio dizer”. Nessa perspectiva, Jesus (1995) passa a propor o trabalho da escrita como uma produção, o que implicaria o desenvolvimento de um processo considerando condições e instrumentos de produção em oposição à visão tradicional de redação como um produto acabado. Para que isso aconteça, a autora elenca algumas medidas necessárias: 45 Jesus (1995) refere-se aos textos literários, ela conta que as atividades propostas para a produção escrita eram a cópia e o ditado. 78 Transpor a dicotomia escrita/leitura, pela inserção das duas práticas num mesmo processo, substituir o trabalho com metalinguagem por um trabalho de correção e auto-correção de textos produzidos pelos próprios alunos; otimizar o processo de produção escrita do aluno, pelo uso das informações afloradas da problematização das dificuldades apresentadas no texto (JESUS, 1995, p.02). Assim, mediante tais propostas, Jesus (1995) desenvolve sua pesquisa com alunos de 3ª e 6ª séries com a seguinte metodologia: o uso de cadernos próprios para produção de textos; a reescrita coletiva, na lousa, sob a orientação do professor procurando, enfocar as dificuldades de cunho linguísticos que dissessem respeito à maioria dos alunos; a prática de troca de cadernos. Desse modo, os alunos leriam a produção uns dos outros e fariam considerações. Após essas duas últimas práticas, cada aluno retornaria a sua produção refletindo sobre as considerações feitas pelo professor ou pelos colegas. Dessa maneira, Jesus (1995) busca desvencilhar-se da prática tradicional de ensino da escrita para uma prática que leve o aluno à reflexão não somente de suas inadequações, mas também das dos outros que, de alguma forma, contribuem para a formação de sujeito crítico, isso porque as considerações não seriam feitas apenas sobre os aspectos gramaticais. Assim, nessa pesquisa, verificamos a reescrita como prática interativa, pois o aluno reescreve partindo das considerações do outro (ou professor ou colega). Em todo caso, há pesquisas que estudam como enquadrar a gramática ao processo de escrita, fato bastante possível e satisfatório, desde que não se esqueça do caráter amplo da linguagem. Para tanto, a análise linguística está ligada à reflexão e consciência dos alunos sobre os procedimentos da escrita e conhecimento de como adequar seu texto às situações. Agnolini (2007) acredita que [...] a reescrita pode se dar de forma satisfatória quando [...] sua reflexão extrapola o próprio debruçar-se sobre seu texto para englobar algumas relações, a saber: a relação oralidade/escrita; a norma culta e as variedades lingüísticas; as clarezas e as funções de um texto, incluindo neste último as relações locutor/interlocutor (AGNOLINI, 2007, p. 10). A partir dessas relações, Agnolini (2007) espera o rompimento com o ensino nomenclatural da gramática para uma investigação linguística, ao professor cabendo o papel de mostrar “como os alunos podem expressar-se com clareza, atingindo os objetivos previamente estabelecidos para aquela produção” (AGNOLINI, 2007, p. 24). Dessa forma, a reescrita é o momento para a exploração reflexiva dos 79 elementos linguísticos “que o professor julgar pertinentes para o ensino e a produção de um texto” (idem). O objetivo de Agnolini (2007) é a temática: o trabalho com as necessidades dos alunos e suas possibilidades (BRASIL, 1998). Para tanto, ela propõe a criação de exercícios linguísticos, considerando as inadequações das produções e o seu trabalho com os alunos, para, após isso, os alunos retomarem a escrita, agora com um olhar novo, com o qual eles poderiam perceber o que necessitam modificar. Segundo a pesquisadora, em nenhum momento ela usou as produções para correção, a não ser para investigar o que trabalharia nas atividades. Após a reescrita, ela percebeu que, mesmo sem a sua correção direta, os alunos modificaram seus textos, considerando os exercícios de análise linguística, como também fizeram alterações de ordem gramatical nas produções. Assim, a prática de reescrita desenvolveu-se mediante a reflexão dos alunos. Essa proposta comprova e consolida a temática, já tão discutida aqui, de se trabalhar com as necessidades dos alunos, mediante a qual, em um primeiro momento, o aluno atua com o que sabe para, em seguida, usar o que o professor lhe oferecer. Vale ressaltar o cuidado para não significar as necessidades dos alunos somente quanto à normatividade da língua. Há de se entender que a reescrita não é “um ato individual do aluno que vai construindo o seu texto direcionado pelas regras da gramática normativa” (ALMEIDA, 2001). Em outra pesquisa sobre a reescrita, Borges (2007) analisa essa prática tendo em conta a “intuição” do aluno entre aquilo que ele sabe e o que o professor aponta. Cada criança modifica seu texto correspondendo a sua singularidade, cada qual com um estilo e percepção de como melhorar sua produção a partir das considerações feitas pelo professor. Esse viés apresenta o aluno como ser histórico, com seus próprios valores, com sua própria cultura. Todavia, como ressalta Borges (2007), à criança é dado o papel de cumpridora de tarefas, de revisora que busca a adequação do texto à norma estabelecida. Dessa maneira, o contexto de reescrita não dá conta da diversidade linguística, sendo estipulada como “erro” qualquer modificação do aluno em seu texto que denote seu estilo, ao invés do que foi imposto. Em decorrência disso, Borges (2007) critica o uso do texto do aluno como pretexto para o ensino da gramática: 80 [...] as reescritas, em sua quase totalidade, na escola das crianças, são motivadas por uma situação-problema, dada ou criada pela professora, a partir da qual têm que resolver problemas de gramática feitos, propositalmente, para “reescrita” (concebida como espaço para corrigir erros), como uso de maiúsculas, de segmentação de palavras, de pontuação, entre outros (BORGES, 2007, p. 20). Para a autora, esse posicionamento foge do caráter processual da linguagem que prima pela interação entre aluno e professor, pois não propicia um espaço de análise do diálogo aluno/professor sobre o que foi dito, acatado ou refutado. Não considera também a singularidade dos alunos que se revela em suas produções. Ela defende que: [...] é necessário que a criança se posicione, considerando seus valores e a posição que ocupa no espaço escolar. A escrita, em suas particularidades, possibilita o diálogo, o confronto necessário à constituição dos sujeitos (aluno e professor) no espaço escolar (BORGES, 2007, p. 21). Em busca disso, Borges (2007) propõe a reescrita por intuição, ou seja, o aluno não somente reproduziria as correções que o professor faz à sua produção, mas refletiria sobre elas para então reescrever, tendo em vista as considerações do professor. Verificamos que essa abordagem não se atém apenas aos conceitos linguísticos, porém visa aos conceitos discursivos, mediante os quais o aluno pode mostrar a sua singularidade, a sua reflexão crítica diante dos fatos. Também almejando essa prática interativa e constitutiva do sujeito crítico, Almeida (2001) apresenta a temática da reescrita em duplas, em conjunto, em caráter reflexivo daquilo que foi suscitado em um momento anterior à reescrita – considerando a discussão com o professor e a turma sobre quais pontos precisariam de revisão. Ela defende: Ao aceitar-se a participação do outro nesse processo, parece que se está possibilitando aos sujeitos, durante as interferências que fazem como leitores de seu próprio texto e do outro, uma reflexão sobre a linguagem, isto é, podem observar se há adequação entre os recursos lingüísticos usados e o que queriam dizer, pressupondo o leitor (ALMEIDA, 2001, p. 23). Nessa pesquisa, Almeida defende o caráter não individual da linguagem e tampouco abstrata em sua normatividade, mostrando que a interação com o outro (professor e colegas) constitui-se tanto em uma forma de apoio para solucionar os problemas percebidos durante o processo de reescrita, quanto em um momento em 81 que os alunos reescrevem seus textos direcionados pelas vozes que foram ouvidas durante os momentos de interação sobre as produções, anteriores à reescrita. Partindo disso, podemos dialogar com os dizeres de Araújo (2004), quando ela também reafirma o caráter dialógico da escrita e, consequentemente, de seus procedimentos – a reescrita, que nos interessa. Essa pesquisa assemelha-se com as outras pesquisas já citadas no que tange à reescrita enquanto prática interativa. Aqui o trabalho em pares é privilegiado, principalmente no momento de revisão do texto, quando os alunos conversam entre si sobre as produções e fazem apontamentos para serem considerados no momento de reescrita. O trabalho com a reescrita lança o olhar do aluno para os aspectos discursivos em nível de reflexão e adequação da linguagem conforme a prática social. Visando a um objetivo, a um leitor e à circulação em um determinado contexto, os textos são retomados e reelaborados a fim de corresponderem aos parâmetros da situação de interação comunicativa que justifica e desencadeia a produção escrita. Nesse caso, a produção textual configura-se como um diálogo, no sentido bakhtiniano, e não como mera tarefa (ARAÚJO, 2004, p. 16). Por isso, Araújo (2004) defende a necessidade de as práticas de reescritas serem produtivas do ponto de vista da linguagem como interlocução, tomando-se o cuidado para não “correr o risco” de normatizar a intervenção no texto do aluno, pois, às vezes, há “o risco da ‘leitura’ do processo de produção ser tão ‘mapeado’ por exigências escolarizadas quanto o produto-texto o é, já que geralmente é analisado por critérios muitas vezes restritos e restritivos” (ARAÚJO, 2004, p. 18). A ideia é de um trabalho reflexivo entre professor e aluno, alunos e alunos, pois o momento da reescrita se configura na interação concreta entre as partes. A relevância do outro nesse processo vai além de um mero mediador instrumental. Se pensarmos no professor, enquanto par mais avançado, ele direcionará o aluno pelos “diversos planos da dialogia implicados na escrita” (ARAÚJO, 2004, p. 20) e também dialogará com as considerações feitas pelos alunos sobre a produção dos outros. Grillo (1995), com base na teoria sócio-interacionista, concorda com essa temática, principalmente no que tange ao papel auxiliador do professor no momento da reescrita. Ela espera que os alunos tenham uma visão da escrita enquanto trabalho do qual a revisão é parte integrante, tornando-os, deste modo, leitores de 82 seus próprios textos, em busca de uma melhor utilização dos recursos expressivos disponíveis. Nessa hipótese, a intervenção do professor na reescrita faria com que o aluno refletisse sobre os recursos expressivos utilizados. E como seria isso? Grillo propõe o uso de bilhetes (comentários do professor sobre o texto) na primeira versão para provocar o processo de reescrita. Através disso, o aluno retoma sua produção, revisando-a para atender às exigências do professor. É pertinente pensar: até que ponto os comentários do professor poderão contribuir para a proficiência da escrita? Qual o tratamento dado à resposta do aluno aos comentários? Quando essa resposta é considerada “pronta”? Haverá mais bilhetes? Haverá mais de uma versão? Essas são perguntas para serem respondidas em sala de aula, no momento em que as práticas de produção acontecerem, pois poderão variar segundo as condições de cada contexto escolar. A problemática que fica é o como trabalhar a escrita considerando seus procedimentos, ou seja, de forma processual, distanciando-se do tratamento unívoco da redação enquanto produto e com a finalidade de obtenção de nota. Precisar-se-ia pensar em adequações de tempo e quantidade de alunos por sala, mesmo porque as condições de ensino podem influenciar tanto positivo quanto negativamente no processo de qualquer prática. Em todo caso, não somente o contexto poderia ser considerado, como também o desenvolvimento do aluno. Aqui, mais uma vez, damos voz à proposta dos PCNLP (1998): trabalhar com as necessidades e possibilidades dos alunos. Esse é um desafio para os professores haja vista que em uma sala de aula há mais de vinte alunos, cada qual em um nível. Nessa temática, as pesquisas até agora citadas buscam, ainda que um pouco, facilitar o ensino reflexivo da escrita em um viés enunciativo-discursivo. Podemos lembrar também da proposta metodológica do uso de SD e lista de constatações, discutida na última seção, a qual Gonçalves (2009) faz uso. Segundo esse pesquisador esse método facilita a prática dialógica em sala de aula, visto que às vezes o professor não tem tempo de atender a todos os alunos. O autor ressalva que a lista de constatação precisa ser adaptada ao públicoalvo, e caso o professor pense em usar uma lista pronta, que pertence a outro contexto, ele perceberá as limitações da lista de constatações e precisará fazer adaptações para complementá-la, considerando as dificuldades de seus alunos. 83 Podemos dizer isso também das pesquisas sobre a reescrita citadas nesta seção. O uso de seus métodos em sala de aula requereria adaptação conforme as necessidades dos alunos, pois, ao considerarmos a escrita como processo, não temos como determinar os resultados que irão aflorar durante essa prática. Concluímos a análise dessas pesquisas, afirmando que todas apresentam a preocupação com a prática reflexiva do aluno sobre seu processo de escrita, ocasionando o momento de reescrita para essa prática. Verificamos também as necessidades dos alunos como ponto de partida para a reflexão e o acompanhamento interativo do professor e a participação dos colegas nesse processo, estimulando, assim, a preocupação do aluno em responder as considerações feitas pelos outros ou mesmo o início de uma reflexão mais crítica sobre o seu desenvolvimento mediante o dizer dos outros. Traçadas essas considerações, podemos agora iniciar o nosso caminho para uma proposta também reflexiva sobre o ensino da escrita com o foco na reescrita a partir das necessidades dos alunos. O diferencial de nossa proposta consiste na presença dos aportes teóricos de Bakhtin e o seu Círculo, os quais estarão presentes em nossa definição de reescrita e influenciarão nossa abordagem sobre quais aspectos analisar nas produções de textos dos alunos. 2.5 Definição da reescrita sob perspectiva bakhtiniana Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Questão do grande tempo. BAKHTIN (2010[1970-71], p. 410) Quando pensamos em reescrita, deparamo-nos com algumas definições, tais como: - paráfrase: reescrever um texto modificando as palavras, mas mantendo o sentido; geralmente, esse método é usado para que o aluno possa ampliar seu vocabulário e sua capacidade de expressão (AGNOLINI, 2007); - reelaboração do texto alheio: o aluno ouviria, por exemplo, a história da Branca de Neve e depois escreveria uma nova versão, modificando o que quisesse ou mantendo o mesmo enredo, porém reescreveria o texto de acordo com sua releitura (BORGES, 2007). 84 - reelaboração do já-escrito pelo próprio aluno: o aluno refaz sua produção textual, depois de o professor ter verificado quais são as suas necessidades do aluno e o ter instrumentalizado para voltar ao seu texto, com a capacidade, então, de reconhecer as inadequações de sua produção (ARAÚJO, 2004). Essa última está ligada aos procedimentos do processo da escrita e em algum momento será uma etapa das duas primeiras, pois essas representam a mudança de um texto em outro por parte do aluno, o que requer deste último um trabalho de elaboração da escrita, na qual ele usará seu conhecimento sobre essa prática para criar seu próprio texto, ou seja, para escrever uma versão diferente da original. Logo, as definições de reescrita – paráfrase e reelaboração do texto alheio – não dizem respeito à reescrita, tal como a consideramos: um dos procedimentos da escrita - a reescrita ou reelaboração do já-escrito pelo próprio aluno. Fiad (2010), além desta definição da reescrita, relacionada ao retorno do autor sobre seu próprio texto para realizar algumas operações sobre a linguagem, sublinha também a interpretação que reconhece todo texto como uma reescrita, “na medida em que sempre que enunciamos algo estamos, de alguma forma, retomando o que outros já enunciaram. Nessa interpretação, o outro sempre está no discurso: escrever é sempre reescrever” (FIAD, 2010, p. 2)46. Logo, percebe-se que essa definição é muito ampla e, usá-la neste trabalho, implicaria considerarmos todas as pesquisas, inclusive esta, como reescrita e não chegaríamos a nenhuma conclusão relevante para os nossos objetivos. Por isso, tomamos aqui a terceira das definições citadas inicialmente, a qual define o procedimento da escrita – a reescrita -, que a nosso ver remete ao processo que revela uma retomada ao texto. Nessa perspectiva, Fiad e Barros (2003) afirmam que pesquisas voltadas para a análise de reescrita em textos de alunos têm se realizado nos últimos quinze anos, desde o início da década de 90, guiadas pelo interesse maior pelo processo da escrita do que pelo seu produto final. Essa mudança de paradigma advém da 46 Poderíamos atribuir esse fato ao caráter dialógico da linguagem, discutido no capítulo 1. 85 chamada crítica genética47 feita à normatividade da língua. Essa vertente apresenta alguns pontos básicos sobre o ensino da escrita: O reconhecimento da escrita como um trabalho; a reescrita passou a ser entendida como objetivo (aprender a escrever é aprender a reescrever) e instrumento de ensino, de intervenção; a avaliação dos textos passou a considerar o processo e não apenas o produto final; escrever e reescrever passaram a ser considerados como dois aspectos da mesma atividade (FIAD, 2010, p. 5). Desde então, a reescrita é tida como instrumento para melhora das produções escolares, considerando que, conforme Fabre e Cappeau apud Fiad e Barros (2003), ela caracteriza as modificações escriturais pelas quais os diversos estados do texto constituem as sequências retomadas, que resultam em um texto terminal. Dessa maneira, não há reescrita apenas após a primeira versão (depois que o professor devolve o texto ao aluno), mas ela acontece no processo de produção, desde o início da atividade de escrita48. Nesses termos, verificamos que escrever não é uma questão de inspiração, mas requer um processo contínuo, o qual se realiza em vários momentos, conforme Fiad e Mayrink-Sabinson (1994) em: planejamento, execução, leitura do texto e modificação49, a partir da reescrita. E também essas práticas dependem da prática reflexiva do autor sobre o texto a partir da existência do leitor, pois a escrita como processo traz à tona a presença do outro, tornando o texto inacabado. Menegassi e Ohuschi (2007) complementam: [...] o texto nunca está acabado, pois é submetido a mudanças provocadas por alguma reação do outro, podendo ser o outro das leituras realizadas e, nelas, as vozes que ali ecoam, o professor, ou ainda o colega. Assim, ele sempre pode ser melhorado e o aluno, consciente disso, efetua mudanças significativas [...] (MENEGASSI&OHUSCHI, 2007, p. 244). Por tal colocação, afirmamos que a reescrita caracteriza-se como um processo dialógico reflexivo, ou seja, é um diálogo carregado de compreensão ativa 47 Fiad (2010) explica que “no final dos anos 60, com a crise do estruturalismo, a crítica genética surge propondo um olhar para os manuscritos literários de maneira diferente do olhar da filologia, que buscava as origens de um texto. Nesse momento, os manuscritos escapam às estruturas, pois a proposta é que os manuscritos sejam portadores de um movimento, do processo de criação” (FIAD, 2010, p. 4). 48 Segundo Fiad e Barros (2003), antes mesmo de dominarem o sistema alfabético de escrita do português, as crianças rasuram letras, refazem-nas. As crianças apagam, inserem, substituem letras, palavras, expressões, frases deixando marcas de sua trajetória individual (FIAD e BARROS, 2003). 49 Esses aspectos significam os procedimentos da escrita: planejar, escrever, revisar e reescrever. 86 com a percepção do eu sobre o outro e entendimento das construções de sentidos que aparecem nas práticas sociais. Em outras palavras, a reescrita é um momento de reflexão sobre os discursos outrem, a fim de compor as ideias próprias ou ainda novos sentidos. Se assim o é, a análise linguística não será suficiente para dar uma palavra outra ao dizer do outro, porém será necessário também o domínio dos aspectos discursivos para posicionar-se criticamente. Menegassi e Ohuschi (2007) afirmam que o processo da escrita se inicia por uma relação interpessoal, com a construção do conhecimento a partir de uma relação social de interação. Sendo assim, o mais importante nessa prática dialógica é a construção de sentidos, pois a partir da interação com o outro o eu se tornará autor. Nessa ocasião de interação, ou seja, de reescrita, o aluno está em um momento intrapessoal (GERALDI, 1997), no qual há a incorporação e sedimentação dos conhecimentos presentes neste processo para a criação de sentidos que possam dialogar com esses conhecimentos outros. Em suma, isso é resultado da prática mediadora, de um interlocutor real – nesse caso o professor – que faz as intervenções necessárias para a transformação do sujeito e do seu texto. Ao ter consciência do que seu leitor pensa, o aluno pratica reflexivamente o uso da sua linguagem, pois a ele cabe dar uma resposta, não qualquer resposta, mas uma que expresse sua compreensão ativa. Nesse viés, como já desenvolvido aqui, imprimimos à reescrita o mesmo valor que Bakhtin atribui à linguagem, pois, assim como ele considera a língua de natureza social, também consideramos a reescrita de tal maneira. Logo, a reescrita representa uma prática social reflexiva do autor não apenas sobre o seu discurso, mas também sobre o discurso do outro, na qual o trabalho de análise do próprio texto para adequá-lo ao seu interlocutor permite ao locutor uma ação mais consciente e crítico sobre o seu dizer e sobre quais influências ou quais novos sentidos ele pode desencadear em uma relação social. Nessa perspectiva, ao atribuirmos à reescrita característica dialógica, levamos em conta a presença dos aspectos discursivos da linguagem definidos por Bakhtin e seu Círculo e apresentados aqui no capítulo 1, no processo de aperfeiçoamento da linguagem. Assim, na reescrita verificamos: Um trabalho do sujeito em uma atitude responsiva com consequente compreensão ativa criadora; 87 Olhar exotópico do sujeito sobre o próprio texto, momento em que o sujeito é outro de si mesmo; Uma reflexão sobre a estética do texto, pois há trabalho reflexivo sobre o conteúdo, o material e a forma; Uma reflexão sobre o ético – análise das apreciações valorativas, relacionado com o que se pode ou não dizer em determinado gênero; Constituição do sujeito-autor. Se analisarmos novamente a teoria bakhtiniana, veremos que esses aspectos, visíveis na reescrita, coincidem com a constituição da linguagem. E não estaríamos equivocados em pensar que qualquer sujeito respondente ativo faz uso desses aspectos todas as vezes que responde ativamente ao outro, mediante um gênero do discurso. Desde a primeira versão da produção escrita, o aluno inicia o seu caminho de desenvolvimento para a constituição de um sujeito-autor, de modo que no momento da reescrita o trabalho é mais reflexivo, pois ali, supõe-se, um aluno consciente e perceptivo do que precisa melhorar. A nosso ver, para que a consciência e a percepção aconteçam é necessário um trabalho após a primeira versão e anterior a reescrita, por meio do qual as necessidades dos alunos seriam tratadas e eles receberiam suporte para, então, praticarem a reescrita, denominamos esse método de atividades reflexivas para a reescrita e apresentaremos, mais adiante, como as desenvolvemos. Antes disso, partiremos para o próximo capítulo, no qual discorreremos sobre o nosso objeto de pesquisa, nossos objetivos, nossos dados e corpora, e os processos e procedimentos utilizados em nossa coleta e análise de dados, para, posteriormente adentrarmos, precisamente, na análise do nosso objeto. 88 CAPÍTULO 3 Metodologia de pesquisa: o caminho até os dados Nesta seção, tentaremos traçar o nosso percurso nesta pesquisa, um caminho repleto de encontro e desencontros, porém, com muitas descobertas, as quais nos permitiram, neste fazer científico, consolidar as nossas perspectivas, geração e análise de dados no processo da pesquisa. 3.1 Trajetória metodológica: da reflexão para os objetivos Toda pesquisa só tem começo depois do fim. Dizendo melhor, é impossível saber quando e onde começa um processo de reflexão. Porém, uma vez terminado, é possível ressignificar o que veio antes e tentar ver indícios no que ainda não era e que passou a ser. AMORIM (2004, p. 11) Ao lançarmos um olhar para o pesquisador do primeiro ano desta pesquisa, verificamos a busca por um objeto, ou melhor, por uma pesquisa pronta, com dados conhecidos e, assim, fáceis de compreender, na realidade, o pesquisador em busca de dados que se encaixassem naquilo que ele já tinha como resposta. Então, podese imaginar o sentimento do pesquisador, quando a orientadora disse que a pesquisa iria sendo construída no decorrer do ano, ou seja, nada definido, a não ser a consciência, um pouco duvidosa, da reescrita como objeto de pesquisa. Assim, no início decidimos por teorizar a reescrita usando o Círculo de Bakhtin e, a partir disso, propor atividades de reescrita e, para alcance desses objetivos, tomamos algumas medidas, tais como: 1) verificar a existência de pesquisas que haviam didatizado a reescrita a partir da perspectiva bakhtiniana; 2) pesquisar na obra bibliográfica do círculo os conceitos que poderiam ser usados para a teorização. Em relação à primeira, como visto no capítulo 2, não encontramos pesquisas que objetivavam a teorização da reescrita, porém trabalhos sobre o ensino reflexivo da escrita com o foco na reescrita e, por isso, tornaram-se relevantes para esta pesquisa, principalmente na construção da nossa visão sobre a definição da reescrita. Percebemos também nas pesquisas o uso da temática apresentada pelos PCN: um ensino de LP que considera as necessidades dos alunos. Todas tinham como base o que os alunos precisavam desenvolver para aprimorar a escrita e, 89 assim, a reescrita era o momento para esse desenvolvimento. Esse fato nos levou ao pensamento: Como propor atividades de reescrita sem sabermos as necessidades dos alunos? Essa questão surgiu porque, até então, pensávamos somente em didatizar a reescrita a partir do gênero discursivo já proposto para a produção em um livro didático50. Logo, as atividades seriam feitas antes do aluno escrever, pois seriam atividades complementares para a proposta de redação apresentada pelo LD. De fato, proporíamos que atividades desse tipo já viessem apresentadas no livro. Inclusive até pensávamos, em nossa metodologia, em investigar os LD do ensino fundamental, a fim de analisarmos o tratamento dado à reescrita. Verificaríamos também os paradidáticos e manuais do professor para analisar como a questão de reescrever era apresentada para os professores. O nosso intuito também de criar essas atividades de reescrita complementares às propostas era trabalhar a autonomia do aluno, de maneira que ele pudesse reescrever sem a presença do professor. Entretanto, compreendemos que essas atividades seriam generalizantes, pois hipotetizaríamos as possíveis dificuldades que os alunos, de acordo com as séries, poderiam apresentar na escrita e, também, nos pareceu que a única análise que faríamos das necessidades dos alunos em relação ao gênero proposto seria sobre os aspectos estruturais, o que não era relevante para uma pesquisa que almejava a discursividade. A princípio, deixamos essas reflexões guardadas e elas sempre vinham à tona, à medida que buscávamos compreender como elaboraríamos as atividades. Essas questões tornaram-se mais intensas, à proporção que avançávamos em nossa leitura da teoria do Círculo de Bakhtin que, como já desenvolvemos alhures, defende a formação da linguagem a partir das práticas sociais. Quando o Círculo pensa em linguagem não está pensando em concepção de língua, mas na constituição de sentidos, nos discursos que são construídos nas relações sociais e, dessa maneira, passamos a considerar a escrita como prática social, construída e endereçada para alguém em resposta a algo. Logo, a reescrita também, para nós, faz parte dessa relação dialógica. Conforme desenvolvido no capítulo 1, o dialogismo e a interação são os constituintes da linguagem e esses dois aspectos estão em relação com outros 50 Doravante LD. 90 conceitos desenvolvidos por Bakhtin e seu Círculo, a saber: a atitude responsiva e compreensão ativa; o olhar exotópico, a atividade ética e estética do sujeito, a partir das quais há a formação do sujeito-autor, constituição essa que se dá na prática dialógica e interativa. Nesses termos, o trabalho processual da escrita teria o caráter de formação do aluno-autor, sendo a reescrita o momento para o desenvolvimento das categorias bakhtinianas, sob nosso ponto de vista, inerentes à linguagem. Nesse ponto, nos deparamos novamente com a questão de como criarmos atividades de reescrita sem sabermos as necessidades dos alunos. Assim, mudamos os nossos objetivos: ao invés de criarmos atividades complementares a partir das propostas de redações, criaríamos atividades a partir de produções escritas pelos alunos. Dessa maneira, eles refletiriam sobre seu próprio texto em busca de melhorar suas necessidades. Quanto a que tipos de necessidades trabalhar nas atividades para a reescrita, optamos pelas discursivas, considerando o método sociológico proposto por Bakhtin/Voloshinov (1997[1929] de análise da linguagem. 1. As formas e os tipos de interação verbal em ligação com as condições concretas em que se realiza (as esferas de atividade); 2. As formas das distintas enunciações, dos atos de fala isolados, em ligação estreita com a interação de que constituem os elementos, isto é, as categorias de atos de fala na vida e na criação ideológica que se prestam a uma determinação pela interação verbal (os gêneros); 3. A partir daí, exame das formas da língua na sua interpretação linguística habitual (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1997[1929], p. 125). Tal método apresenta uma “hierarquia de relevância” a ser considerada, quando pensamos em compreender a construção da linguagem (SANTOS, 2011). De tal modo, verificamos que a discursividade, implícita nos dois primeiro pontos, assume relevância maior que o último ponto. Nos capítulos anteriores, discorremos sobre a predominância do ensino gramatical, assim, podemos afirmar que esse é um ensino comum nas escolas e que os professores de LP, já possuem seus métodos de trabalho da gramática. Por isso, consideramos que se apresentássemos um ensino discursivo, poderíamos contribuir com a prática do professor, complementando-a. Logo, as atividades reflexivas, que criaríamos, seriam apenas uma parte do ensino reflexivo anterior ao momento da reescrita, pois optamos por fazer um recorte e criar exercícios considerando os dois primeiros pontos do método sociológico. 91 Assim, não desconsideraríamos o trabalho com a gramática, esse poderia ocorrer depois das atividades reflexivas discursivas ou ainda durante dessas, isso fica a critério do professor e do desenrolar das aulas. Com isso, consideramos que o nosso trabalho não buscaria acabar com o estudo gramatical e estrutural do texto, mas buscaria conscientizar o professor de LP para a possibilidade de um ensino discursivo mais amplo, de modo que os alunos pudessem constituir-se pessoas reflexivas e críticas. Por isso, nesta pesquisa, escolhemos a perspectiva bakhtiniana, por achar que ela nos daria suporte suficiente na criação de atividades para reescrita em uma perspectiva discursiva. Mediante essa ideia, percebemos que o papel do professor é primordial, pois é ele quem verificaria quais as necessidades discursivas do aluno e, a partir disso, criaria atividades. Isso exige do professor um olhar não somente avaliador ou investigativo, mas de análise reflexiva, de maneira que dialogue com o dizer do aluno. Assim, decidimos que antes de criarmos as atividades, precisaríamos apresentar uma análise reflexiva das produções escritas dos alunos, para justificarmos o porquê de determinadas atividades e, conforme mostraremos no capítulo seguinte, a nossa análise baseou-se na perspectiva bakhtiniana. Por hora, vejamos a que questionamentos essas reflexões nos trouxeram: 1. Quais aspectos da teoria bakhtiniana estão visíveis na prática de reescrita? 2. Como seria uma análise reflexiva sobre a produção de texto dos alunos, considerando a perspectiva bakhtiniana? 3. Quais atividades reflexivas para a preparação do momento de reescrita a análise suscitaria? Esses questionamentos têm por fim nortear as respostas para os seguintes objetivos: 1. Verificar quais construtos teóricos da perspectiva de linguagem do Círculo de Bakhtin são visíveis na reescrita. 92 2. Apresentar a análise reflexiva sobre a produção dos alunos mediante o viés bakhtiniano da linguagem. 3. Criar atividades reflexivas para a reescrita a partir da necessidade discursiva encontrada na análise das produções dos alunos. Apresentados os percursos previamente estabelecidos, vejamos um pouco mais sobre o olhar do pesquisador bakhtiniano sobre o objeto. 3.2 A pesquisa no âmbito enunciativo-discursivo do Círculo de Bakhtin Só nos falta a ousadia científica, investigatória, sem a qual não conseguiremos nos colocar nas alturas nem descer às profundezas. BAKHTIN (2010[1970], p. 366) Os construtos teóricos do Círculo de Bakhtin não só nos auxiliaram na criação das atividades reflexivas para a reescrita, como também os utilizamos para compor o nosso olhar de pesquisador, a fim de que o tratamento dado à análise não destoasse de nossa maneira de compô-la. Esclarecido isso, lembremos brevemente que, segundo a teoria bakhtiniana, na prática social há a constituição da linguagem e dos sujeitos, isto é, o eu constitui o outro, à medida que é por esse também constituído. Conforme a teoria do Círculo, sem essa relação dialógica não haveria constituição da linguagem. Podemos entrever isso quando Bakhtin diz sobre o acontecimento da interação, no qual aquilo que o eu traz consigo constituído entra em contado com o que o outro também tem constituído em si e desse encontro há a constituição de novos sentidos. Eis o fenômeno: A interação do horizonte do cognoscente com o horizonte cognoscível. Os elementos de expressão (o corpo não como materialidade morta, o rosto, os olhos, etc.); neles se cruzam e se combinam duas consciências (a do eu e a do outro); aqui eu existo para o outro com o auxílio do outro (BAKHTIN, 2010[1974/1979], p. 394). Assim, verificamos mais uma vez a importância da díade eu-outro para a teoria bakhtiniana. Por causa dessa relação dialógica entre os sujeitos, Sobral 93 (2005b) cunha os estudos do Círculo de filosofia humana do processo, evidenciando o caráter reflexivo dos estudos bakhtinianos sobre a constituição da alteridade e do discurso nas relações sociais. Da mesma maneira, esta pesquisa busca enquadrarse nessa concepção, inserindo-se, tal como o Círculo, nos estudos das Ciências humanas. Segundo Bakhtin (2010[1974/1979], o objeto das ciências humanas é o ser expressivo e falante, diferentemente das exatas51. O homem não é tratado como coisa muda, pois, enquanto sujeito de natureza dialógica, ele é um ser ativo nas relações sociais. O estudioso russo complementa essa reflexão: Qualquer objeto do saber (incluindo o homem) pode ser percebido e conhecido como coisa. Mas o sujeito como tal não pode ser percebido e estudado como coisa porque, como sujeito permanecendo sujeito, não pode tornar-se mudo; consequentemente, o conhecimento que se tem dele só pode ser dialógico (idem, p. 400). Por tal citação concluímos que o pesquisador dialoga com seu objeto nesse tipo de ciência e, sendo assim, ele percorre o caminho dos sentidos que constituem seu objeto para compreendê-lo. Esse fenômeno é possível porque nas ciências humanas o objeto é o texto, o qual se quer explicar e interpretar. Segundo Amorim (2001), ele é o objeto falante. Há essa característica no objeto, porque, como vimos na teoria bakhtiniana, o texto é um enunciado encadeado na troca verbal, delimitando a compreensão do ato humano, enquanto texto, ao contexto dialógico em qualidade de réplica e de posição de sentido. Logo, o texto precisa ser compreendido aqui na sua amplidão: conjunto coerente de signos ou matéria significante (AMORIM, 2001). Assim, tudo o que significa é objeto das ciências humanas52. Ainda sobre isso, Santos (2011) afirma que a especificidade das ciências humanas está nos sentidos e significados dos outros, os quais são realizados e dados ao pesquisar apenas sob forma de textos entendidos como enunciados Bakhtin (2010[1974/1979]) explica que “as ciências exatas são formas monológicas do saber: o intelecto contempla uma coisa e emite enunciado sobre ela. Aí só há um sujeito: o cognoscente (contemplador) e falante (enunciador). A ele só se contrapõe a coisa muda” (BAKHTIN (2010[1974/1979], p. 400). 51 52 Amorim (2001) explica que o objeto das ciências humanas para Bakhtin (1974/1979) como “tudo o que significa”, aquilo que revele o seu potencial de sentido, enquanto palavra inserida em um “contexto virtual de sentido verbal”, esclarecendo que não basta considerar o homem como objeto para dizer que uma ciência é humana. 94 concretos. Sobre esses aspectos, verificamos em Bakhtin (2010[1959-61]) uma alusão ao fazer do pesquisador: Por toda parte há o texto real ou eventual e a sua compreensão. A investigação se torna interrogação e conversa, isto é, diálogo. Nós não perguntamos à natureza e ela não nos responde. Colocamos as perguntas para nós mesmos e de certo modo organizamos a observação ou a experiência para obtermos resposta. Quando estudamos o homem, procuramos e encontramos signos em toda parte e nos empenhamos em interpretar o seu significado (BAKHTIN, 2010[1959-61], p. 319). Mediante o excerto, podemos compreender o fazer do pesquisador como um processo dialógico inserido em um movimento dialógico de “ir e vir”, ou seja, um passeio pelo texto valorativo do outro e a volta para o eu constituído de dizeres outros, a partir desse movimento, será viável a interpretação com compreensão ativa. Porém, há essa possibilidade por causa do caráter exotópico que o pesquisador ocupa sobre seu objeto, pois, segundo Bakhtin apud Amorim (2001), “a exotopia é a mais potente alavanca de compreensão”. Compreendemos isso a partir da nossa experiência no momento de análise das produções. Como dito alhures, a nossa proposta consistia no trabalho com a discursividade, portanto era de se esperar que em nossa análise verificássemos a construção de sentidos nas produções, porém, não foi isso que aconteceu. Em nossas primeiras leituras das produções, ficamos mais preocupados com os aspectos gramaticais e estruturais, como ortografia, léxico, concordância verbal e nominal, ou seja, verificávamos apenas a normatividade. Logo, percebemos que não sabíamos analisar a discursividade e nos pareceu absurdo que alunos do 9º ano escrevessem tão mal e de maneira errada. Não modalizaremos ao dizer isso, pois essa foi a nossa primeira apreciação valorativa. Assim, foi-nos necessário o distanciamento do nosso eu formalista para analisar a construção de sentidos das produções, conforme o nosso recorte. O Círculo de Bakhtin postula que, para a compreensão de uma cultura, é importante o distanciar-se dela. Dessa maneira fizemos, mas a dúvida sobre como olhar os textos permaneceu. Então, relemos o capítulo 1 para lembrarmos os construtos teóricos bakhtinianos e refletirmos como analisaríamos as produções. Começamos, então, a 95 considerar os textos como diálogos e, a partir disso, pudemos atribuir sentidos ao que fora escrito independentemente da forma. Nessa perspectiva, deixamos de lado nosso olhar avaliador e julgador, para darmos voz ao aluno, sendo assim, passamos a ocupar o lugar de escuta. Ponzio (2010) sublinha a necessidade da escuta da palavra outra, pois sem isso não há compreensão e constituição de sentido. Ele explica o porquê dessa dependência entre a palavra do eu, que escuta, e a palavra outra: Porque a palavra tende à escuta e, além disso, porque como outra, como singular, fora dos lugares comuns do discurso, descoberta, sem defesas, na situação de responsabilidade sem álibis, sem escapatórias, a palavra subsiste apenas no encontro com a outra palavra [...] É exatamente a relação, o encontro que faz existir a palavra como outra palavra; esta é por esta relação, não existe antes, não existe fora disso (PONZIO, 2010, p. 39). Ponzio ainda complementa: Sem o encontro com a palavra outra que a escuta não há outra palavra. Assim, não há o texto de escritura fora da sua leitura, fora da relação com o texto da sua leitura, da sua escrita; e todo texto está já escrito para o texto que o lê, para o texto do qual é o destinatário (PONZIO, 2010, p. 39). Assim sendo, por causa desse movimento exotópico de escuta foi possível perceber as necessidades discursivas dos alunos, pois a partir disso conseguimos verificar a apreciação valorativa que eles construíram durante as aulas. Depois abordaremos isso com mais detalhes, por hora é importante dizer que, a partir da perspectiva bakhtiniana discutida no primeiro capítulo, fizemos a análise das necessidades dos alunos, de maneira que revestimos nosso olhar discursivo com a filosofia de Bakhtin, por considerarmos que o sujeito fala por enunciados concretos, o que significa que ele está sempre fazendo uso dos constituintes da linguagem elucidados pelo Círculo. Assim, a segunda análise nasce depois de verificarmos quais aspectos discursivos ainda precisam ser aprimorados, para que o aluno se torne um sujeitoautor efetivo. Após isso, criamos atividades que buscassem desenvolver esses aspectos, sempre de maneira dialógica, para então os alunos retomarem as suas produções. 96 Em tal perspectiva, apresentaremos também, no próximo capítulo, uma reflexão sobre a prática do professor. Em linhas gerais, adiantamos que acreditamos que ele, a partir do olhar exotópico, tem a condição de perceber a ZPD dos alunos e, então, criar atividades reflexivas para a reescrita com a finalidade de trabalhar nessa zona o desenvolvimento discursivo necessário para a formação crítica dos alunos. Entretanto, antes de envidarmos uma discussão sobre isso e mostrarmos nossa análise, sigamos à apresentação dos caminhos percorridos na geração de nossos dados e no processo de análise das produções dos alunos. 3.3 Metodologia de geração e análise de dados: E o corpus era difícil [...] o pesquisador deve ver o fenômeno, o objeto, o percurso da pesquisa, no espelho do próprio objeto, claro que refratado por seu olhar atravessado por tudo o que envolvem as pesquisas. Afinal, como o diz Beth Brait, “o corpus fala”! SOBRAL (2005b, p. 116) Antes de tudo, é necessário dizer que a mudança para o uso de produções dos alunos ocorreu em nosso segundo ano de pesquisa. Portanto, pode-se imaginar que foi necessário, como diz o dito popular, “correr contra o tempo” para conseguirmos os nossos dados. A nossa primeira ideia para conseguir as produções foi auxiliar alunos do 4º do ano de Letras na prática de regência. Isso seria possível, pois faríamos disso parte do nosso estágio docente e, como os alunos do último ano estavam trabalhando os gêneros discursivos na perspectiva bakhtiniana, pareceu-nos viável a criação de um projeto de produção processual da escrita com uma dupla da regência. Assim, buscaríamos trabalhar a reescrita na perspectiva já abordada. Entretanto, a prática de regência só aconteceria no segundo semestre do último ano de pesquisa, o que invibializava a coleta de dados em tempo para a análise. Os dados que fossem gerados nessa prática iriam além das produções, pois haveria de se considerar o processo de ensino-aprendizagem tanto no que diz respeito ao planejamento do professor para aplicação do gênero, quanto à compreensão do aluno, bem como ao processo de escrita do mesmo. Dessa maneira, teríamos muitos dados e pouco tempo para analisá-los. Assim, consideramos que para criarmos atividades para a reescrita bastariam as 97 produções. Então, decidimos que, ao invés de irmos para a sala de aula, conseguiríamos a primeira versão de textos escritos por alunos. Como o nosso intuito era demonstrar a possibilidade de criar atividades reflexivas para trabalhar as necessidades dos alunos, consideramos que não haveria problema em apenas conseguirmos os textos sem termos aplicado a proposta de redação ou dado aulas sobre o gênero. Ademais, sabíamos que isso não nos impediria de nos comportamos como o professor, afinal, o trabalho que fizemos tinha a intenção de ser um exemplo para os docentes de LP, que almejassem um ensino reflexivo da escrita. Logo que decidimos isso, uma professora nos disponibilizou sete produções de seus alunos. Nesse primeiro momento, acreditávamos que somente esse número ou no máximo dez redações seriam suficientes para análise. Quando analisamos as produções, verificamos que elas não serviam para os nossos objetivos, pois nosso intuito era trabalhar a discursividade dos alunos em um gênero discursivo. A proposta das produções consistia em imaginar-se como um celular e, então, defender por que o celular é melhor que o computador. O intuito da produção era desenvolver a capacidade de argumentação, de modo que nos questionamos: Em que momento da vida o aluno precisaria agir como celular e se defender? Se era para aprender argumentação, por que não ampliar essa proposta aproximando-a da realidade do aluno? De forma que ele possa argumentar sobre assuntos que são relevantes para a sua vivência. Acreditamos que a proposta podia consistir em defender por que o celular é melhor que o computador, mas sem a necessidade do aluno ocupar o lugar do aparelho telefônico, objeto inanimado e não pensante. Ao invés disso, poderia se pensar no cidadão aluno argumentando a partir do seu próprio ponto de vista. Mediante nossas reflexões, afirmamos que as sete produções faziam parte dos chamados gêneros escolares, ou seja, um gênero de circulação apenas escolar, mais especificamente, nesse caso, um gênero de sala de aula. Procurávamos por produções de gêneros que têm circulação social e que pudessem abranger temas sociais, pelos quais os alunos se posicionassem criticamente, pois, assim como os PCNLP, almejávamos a formação de cidadãos críticos. Por isso, fomos à busca de produções que tivessem esse caráter. Perguntamos para muitos professores sobre a possibilidade de disponibilizarem produções de seus alunos. Inclusive procuramos entre os amigos 98 que são estudantes do Ensino Fundamental e Médio, porém não encontramos. Os primeiros alegavam não trabalhar com a escrita naquele momento ou que já haviam devolvido as redações aos alunos ou ainda que trabalhavam com gêneros literários como poemas. Quanto aos segundos, encontramos disponibilidade, porém, eram produções de gêneros e temas diferentes. Descartamos essas últimas, porque a nossa meta era encontrar produções de uma mesma turma, para que pudéssemos nos aproximar da realidade de sala de aula, pois acreditávamos que os professores não veriam possibilidade de uso do nosso método, caso criássemos atividades reflexivas baseados em uma ou duas produções, quando na realidade se trabalha com a média de 20 a 30 alunos por sala. Depois de muito procurar, uma professora de LP, colega nossa do mestrado nos forneceu textos que se enquadravam ao que buscávamos, isso é, produções com um assunto recorrente na sociedade. Por outro lado, a historicidade da produção dos textos era diferente do que esperávamos, pois, eles não foram escritos em aula de LP. Embora uma professora de língua materna tenha nos dado as produções, elas foram feitas em aulas de Ensino Religioso 53. É comum professores da rede pública darem disciplinas nas quais eles não são formados, para completar a carga horária. Assim, professores de LP veem-se tendo que dar aulas de Ensino Religioso ou Educação Artística e isso aconteceu com nossa colega. Refletimos sobre usar ou não as produções e concluímos que poderíamos usá-las sem problemas. A nossa preocupação era criar atividades reflexivas a partir das necessidades discursivas dos alunos, quando não tínhamos as produções isso era problemático, pois não havia necessidades para analisar e, portanto, nenhuma atividade a criar. Porém, com as produções da aula de ER, tínhamos as necessidades discursivas e poderíamos pensar atividades para saná-las ou amenizá-las. Foi, então, que decidimos usar as produções54, como se fôssemos trabalhar a prática de reescrita em aula de LP, afinal, a nossa amostra de possibilidade de criação de atividades reflexivas para a reescrita é direcionada aos professores de língua materna. Doravante ER. As produções de textos faziam parte do banco de dados da professora que nos forneceu, são produções de alunos de uma escola periférica de Cuiabá, com os quais ela trabalhou no ano de 2008. 53 54 99 Dessa maneira, tínhamos 32 (trinta e duas) produções cuja temática era “Drogas”. Devido ao tempo de nossa pesquisa e o seu tamanho, tivemos que reduzir a quantidade de produções. Assim, escolhemos 20 (vinte) para análise. Após aulas de discussões sobre as drogas, a professora propôs aos alunos que produzissem um texto expressando a opinião sobre o uso das drogas e as consequências dessa atitude. Sabendo disso, precisávamos, então, analisar os textos em uma perspectiva dos gêneros do discurso. Refletíamos frequentemente sobre como fazer isso, visto que os textos foram escritos em uma disciplina que não visava à prática de escrita de algum gênero, logo, os alunos não escreveram com o intuito de aprender a escrever, mas para demonstrar a opinião formada nas aulas. Assim, sabíamos que as produções apresentariam inadequações em qualquer gênero que escolhêssemos. Então, optamos por um gênero que estivesse próximo do que o enunciado da proposta sugeria, por isso, decidimos pelo artigo de opinião. Essa escolha para a nossa proposta era necessária, pois também queríamos conscientizar o professor para o trabalho reflexivo da escrita através de gêneros do discurso. Escolhido o gênero, recorremos ao nosso recorte de criar atividades reflexivas com o enfoque discursivo. Logo, não criaríamos atividades que visassem à estrutura do gênero artigo de opinião. Isso não significa que desconsideramos esse aspecto, muito pelo contrário, assim como as atividades gramaticais, as estruturais podem ocorrer antes ou depois das discursivas, isso fica a critério do professor. Nós mesmos, quando estivermos em sala de aula e usarmos esse método, temos a consciência desses outros tipos de atividades, mas nesta pesquisa o nosso foco é outro. Com os dados em mãos, tivemos muitas dúvidas sobre como analisá-los ou o que analisar da discursividade, pois, como já dito, na leitura dos textos prevalecia nosso olhar sobre os aspectos estruturais e gramaticais que necessitavam de adequações urgentemente, mesmo sabendo que esses não eram a nossa proposta, pois, nesse momento, cabia-nos o papel de trabalho com as inadequações discursivas. Assim, paramos de analisar os aspectos linguísticos para analisar os sentidos que os alunos buscavam construir. Retomamos, então, a teoria bakhtiniana sobre a linguagem para sabermos que categorias usaríamos para análise das necessidades discursivas. Constatamos 100 mais uma vez que a linguagem, nessa concepção, se dá nas relações sociais, gerando, então, os sentidos discursivos, o que move a vida da sociedade. Para que os sentidos sejam construídos, os sujeitos – partes locutoras nas relações – trabalham com os aspectos inerentes à linguagem e é o desenvolvimento desses que constrói os sentidos. Tais aspectos, constitutivos da linguagem, foram expostos no capítulo 1, entendemos que todos eles constituem o sujeito-autor, ou seja, aquele que é capaz de “dominar” os gêneros discursivos com posicionamento próprio, tanto na oralidade quanto na escrita. Nessa perspectiva, como almejamos a formação de um aluno sujeito-autor, é que resolvemos analisar as produções, considerando o desenrolar dos aspectos inerentes à linguagem conceituados pelo Círculo de Bakhtin. Contudo, ainda aqui, fizemos um recorte e unimos alguns conceitos, para melhor organização das categorias de análise. Tal como definimos a reescrita, prática dialógica, também analisamos as produções em diálogo com o querer-dizer dos alunos, usando as seguintes categorias: 1. Gênero discursivo e Ato estético; 2. Compreensão e atitude responsiva; 3. Autoria. Usamos esses aspectos para definirmos a reescrita, conforme exposto no fim do capítulo 2. Assim, fazendo o casamento desses conceitos com a reescrita foi possível a verificação das necessidades dos alunos, ou seja, o que eles precisariam desenvolver para aperfeiçoamento da escrita e consequente constituição de um sujeito-autor. Com o intuito de que os alunos alcancem autoria na prática escrita, acreditamos que se eles apresentarem compreensão responsiva ativa, eles poderão atuar criticamente perante a questão Drogas. Assim, conseguirão organizar as suas ideias axiológicas, adequando-as ao gênero discursivo proposto. O mais provável, contudo, é que isso não aconteça simultaneamente, pois a escrita é um processo e por isso dissemos que na reescrita há a oportunidade de aperfeiçoamento dos dizeres. Nesse viés, as três categorias escolhidas levaram-nos às seguintes questões na análise: 101 - Como o aluno expõe sua compreensão responsiva: ela é ativa ou passiva? Como ela desencadeou a atitude criadora do aluno-autor? - Como o ato criativo do aluno organizou as ideias axiológicas? Ele conseguiu organizar sua vontade discursiva, relacionando o querer-dizer a como dizer? - Como o aluno lida com as diversas informações sobre as drogas para então criar a sua própria opinião? - O que os alunos precisarão desenvolver para se constituírem autores na reescrita de suas produções para o artigo de opinião? Essas e outras perguntas nortearam a nossa análise, à medida que dialogávamos com as produções. Vejamos, então, especificamente qual foi o tratamento dado por nós às produções dos alunos, mediante a perspectiva bakhtiniana. 102 CAPÍTULO 4 Análise de dados: implicações da reescrita dialógica e criação das atividades reflexivas Nosso objetivo, nesta etapa, é apresentar a análise de verificação das necessidades discursivas dos alunos, a qual justificará as atividades reflexivas criadas para desenvolvimento do que o estudante precisa melhorar em seu texto no momento da reescrita. Usaremos o dialogismo como base para nossa análise, à medida que não analisaremos as produções apenas para o encontro das necessidades, mas buscaremos compreender o querer-dizer do aluno na construção de sentidos. Dessa forma, poderemos fazer comentários, ao fim das produções, que dialoguem com o discurso do discente, para que, no momento da reescrita, possamos direcionar a reflexão do aluno sobre o seu dizer e também o seu fazer. Nesse sentido, concordamos com Araújo (2004): (...) um dos trabalhos produtivos com a reescrita parece ser justamente o de criar condições nas quais se possa estabelecer deslocamentos de sentido que favoreçam um retorno engajado ao texto, a partir de uma demanda de reformulação incidindo sobre o dizer e as formas de dizer. (ARAÚJO, 2004, p. 208). Compreendemos que as atividades reflexivas criadas aqui buscarão trabalhar na ZPD, pois concordamos com Vigotski que essa zona é o espaço para o estímulo da aprendizagem dos alunos, sendo o lugar de trabalho com as necessidades. Por isso, defendemos a relevância dessas atividades como o momento de preparação do aluno para a prática de reescrita. Nessa perspectiva, podemos considerar que as atividades favorecerão o avanço da reflexão do aluno em aspectos da produção que são salientes, ou iminentemente salientes para ele, assim como permitirão o estabelecimento de interações e intervenções para que o discente possa vir a focalizar elementos ainda não observáveis. A análise, nesta etapa, compõe dois dos passos de nosso trabalho de pesquisa acerca da criação das atividades e pretende buscar a resposta para as seguintes questões: Como seria uma análise reflexiva sobre a produção de texto dos 103 alunos, considerando a perspectiva bakhtiniana? Quais atividades reflexivas para a preparação do momento de reescrita a análise suscitaria? 4.1 Análise reflexiva e discursiva das produções A palavra do outro coloca diante do indivíduo a tarefa especial de compreendê-la. BAKHTIN (2009[1970-7 1], p. 379) Conforme apresentado no capítulo anterior, procederemos à análise das produções tendo como base algumas categorias relacionadas aos aportes teóricos bakhtinianos, discutidos no Capítulo 1 e usados para definirmos os aspectos visíveis na reescrita. Essa decisão parte da nossa concepção social da linguagem que, segundo o Círculo de Bakhtin, abrange os construtos teóricos em questão, dos quais o indivíduo faz uso em suas práticas sociais, pois são aspectos inerentes à linguagem. Assim, apresentaremos a análise em partes, de acordo com as categorias, para que ao fim desta seção possamos elencar quais necessidades discursivas serão trabalhadas nas atividades. 4.1.1 Atividade estética e gênero do discurso Por causa de nosso objetivo de trabalharmos com a discursividade, decidimos analisar apenas alguns aspectos da atividade estética e dos gêneros do discurso. Quanto ao estético, verificaremos o conteúdo, preocupados com a organização axiológica das produções. Quanto ao gênero, analisaremos a vontade discursiva e o conteúdo temático, interessados no querer-dizer do aluno. Com relação a esse ponto, o gênero do discurso, cabe-nos uma breve ressalva que nos remete ao que já foi dito anteriormente. Por causa da infinita diversidade dos gêneros, os aspectos que os compõem – estilo, forma composicional e conteúdo temático – acontecem e se interrelacionam de formas diferentes, conforme as interações sociais. Assim, o fato de criarmos atividades reflexivas, no âmbito do artigo de opinião, exige que consideremos a particularidade desses aspectos no gênero em questão. 104 Temos a consciência de que as produções aqui anexadas não foram escritas com o intuito de produzir artigo de opinião e esse nem ao menos faz parte da proposta do professor feita aos alunos. Por isso, analisaremos as produções, ao menos quanto ao gênero, sem um valor avaliativo, mas sim comparativo e apresentaremos como seria no artigo de opinião, mesmo porque o intuito das atividades aqui apresentadas é para encaminhar os alunos para a reescrita das produções nesse gênero. Ressaltado isso, sigamos para a análise. As produções foram escritas mediante a proposta: Considerando os debates que ocorreram em sala de aula e o vídeo que você assistiu referente às drogas, produza um texto expressando sua opinião sobre o uso das drogas e suas consequências. O objetivo é claro, apresentar a opinião sobre o que foi discutido em sala de aula. Os alunos atendem a esse objetivo, pois encontramos nas produções amostras explícitas de opiniões sobre as drogas, tais como55: Eu sou contra. (anexo 1, 6) A droga é um vício. (anexo 2) As drogas não poderia existir. Porque Drogas é só para acabar com a vida das pessoas. (anexo 3) Estraga a vida da pessoa acaba com a família e faz vários estragos e depois você entra nessa você nunca mais sai dessa [...]. (anexo 4) [...] não entra nela porque é uma vida que não tem mais folta. (anexo 8) Somente com essas produções, já podemos dizer que os alunos cumpriram o objetivo da proposta e, ao fazermos leitura das demais produções, verificaremos opiniões sobre o adolescente que pensa que se usar drogas ninguém irá perceber (anexo 9), a legalização das drogas (anexo 10), outras que repetem diretamente ser contra as drogas (anexo 11, 12 e 20) e outros que dão opinião do porquê as pessoas usam drogas (anexo 13 e 16). A maioria dessas opiniões é seguida de relatos e depoimentos sobre familiares e amigos que vivem ou viveram no mundo das drogas. A nosso ver, as histórias vivenciadas foram relatadas como tentativa de justificar e fortalecer a 55 Quando transcrevermos trechos das produções, faremos tal como o aluno escreveu. 105 opinião. Outra maneira usada para isso é o uso de informações sobre o que são drogas, quais suas consequências ou quais famosos já morreram por causa do vício. Acreditamos que para os objetivos da disciplina ER esses textos seriam suficientes, pois os alunos escreveram com êxito, conforme a proposta. Porém, ao considerarmos essas produções no âmbito do ensino da escrita em LP, não podemos deixar de buscar muito mais dos alunos, referimo-nos aqui sobre a construção do discurso que evidencia um sujeito respondente ativo. Temos discutido constantemente que a constituição do sujeito, a construção de sua apreciação axiológica, se dá no universo do outro. De modo que consideramos natural o aluno apresentar relatos daquilo que tem visto ou vivenciado, pois isso contribuiu para a construção do que eles são e de como avaliam o mundo que os cerca. Verificaremos que as atividades reflexivas e a nossa proposta de reescrita do artigo de opinião exigirão dos alunos a utilização do que vivenciaram para explicitação de suas apreciações axiológicas. Pensamos dessa maneira por causa da definição estética de Bakhtin (2002[1924]) para o conteúdo56, ou seja, “a composição axiológica da realidade vivida” (p.35). Logo, os acontecimentos da vida e as relações sociais levam o sujeito a apreciações axiológicas, as quais representam a sua constituição. Compreendemos, então, que os acontecimentos não são as atitudes axiológicas, mas deles nascem essas atitudes, o que de fato nos interessa, afinal, são elas as responsáveis pelos sentidos discursivos. Nessa perspectiva, em se tratando do artigo de opinião, consideramos que os depoimentos se referem a fatos vivenciados ou observados pelos alunos, porém, não constituem a axiologia de fato. De acordo com a perspectiva bakhtiniana, através deles os alunos formaram suas apreciações. Nesse aspecto, atribuímos ao aluno a característica de um articulista, assim como esse não fala diretamente em seu próprio nome, mas a partir do ponto de vista de suas relações sociais (SANTOS, 2011), esperamos que o aluno aja da mesma forma ao reescrever. Logo, não há a possibilidade das produções permanecerem como estão para a construção do artigo de opinião, pois esse pede uma organização do discurso Aqui lançaremos um olhar sobre o conteúdo, componente da atividade estética, ao fazer isso não desconsideraremos o material e a forma para a nossa análise, porém, não os enfocaremos nesse momento, pois estamos pensando em nosso recorte discursivo. 56 106 diferente do depoimento ou relato. Sobre a adequação do discurso, Bakhtin (2002[1934-35]) afirma: O tema do sujeito que fala e de sua palavra exige em toda parte procedimentos formais especiais do discurso. Conforme já dissemos, o discurso como objeto do discurso é um objeto sui generis que coloca questões especiais à nossa linguagem (BAKHTIN, 2002[193435], p. 139). Nesse viés, a possibilidade de dizer o que se pretende de qualquer maneira não existe. O que moldará o como dizer é o próprio discurso que está relacionado ao campo de produção de determinado gênero, pois são as relações sociais que determinam os procedimentos formais especiais do discurso. Assim, teremos que trabalhar com os alunos a reflexão sobre a adequação dos discursos conforme o gênero. Percebemos, então, que aos alunos não falta assunto, e sim domínio dos recursos linguístico-discursivos para a composição axiológica. Tomemos como exemplo a produção 01 para melhor esclarecer essa problemática: 107 Tal produção apresenta o esquema mencionado antes: breve opinião seguida do depoimento e, linguisticamente, tem poucos problemas de ordem gramatical, porém há insuficiência argumentativo-discursiva, por causa da falta de recursos de como usar o depoimento para compor adequadamente a apreciação axiológica. Para isso, pensamos que seriam relevantes comentários sobre o texto para auxiliar o aluno em sua reflexão no momento da reescrita, após as atividades. Comentários como: 1. Em relação ao texto Drogas: pesadelo para uns, alívio para outros, para quem é um pesadelo? Para quem é alívio? E por quê? Em que sentido as drogas podem ser pesadelo e em qual podem ser alívio? 2. Qual o sentimento dos filhos que têm pais dependentes químicos? Qual a relação entre eles? Como isso molda o caráter das crianças? Há perdas nessa relação? 3. Qual a possibilidade de reestruturação familiar quando um dependente químico decide buscar tratamento? Durante a reescrita, o aluno não precisaria responder às perguntas tal como foram feitas, pois esses questionamentos seriam apenas para norteá-lo na organização de suas apreciações axiológicas. Repare que as questões não seriam fora da realidade dele, mas teriam como base o depoimento da 1ª versão. Logo, seriam perguntas sobre as quais ele poderia refletir e responder. Seriam necessários também comentários para as outras produções, pois, como a número 01, elas apresentam a mesma necessidade de melhora na organização da apreciação valorativa. Na realidade, essa necessidade está relacionada à falta de compreensão ativa57, sem a qual não haverá como dizer o que realmente se pensa. Contudo, como o retorno às produções só acontecerá após as atividades reflexivas para a reescrita, os alunos já estarão conscientes da reflexão sobre a sua escrita e terão os elementos necessários para reescrever. Não podemos deixar de comentar ainda sobre as produções que mostraram, já na produção do texto opinativo, suas apreciações axiológicas. Observe os trechos que selecionamos: 57 Falaremos mais sobre isso adiante. 108 Anexo 13: Anexo 15: Anexo 16: Anexo 17: 109 Essas produções evidenciam atitudes axiológicas que os alunos poderão aproveitar na reescrita para o artigo de opinião, elas chamaram a nossa atenção porque se diferenciarem das demais. Enquanto a maioria dos alunos buscou escrever toda a informação que recordavam das aulas, expondo a opinião minimamente, essas produções apresentam o contrário, pois nelas as opiniões sobressaem às informações. Podemos dizer que elas são exemplos de que as informações e experiências de vida servem para a construção da valoração. Notamos ainda que, para a construção axiológica, é preciso a prática da exotopia, mas não somente enquanto momento que permite um olhar de fora, e sim também prática de procurar entender o outro do lugar dele, e não do lugar do eu. Isso poderia evitar opiniões extremas ou práticas generalizantes, como acontece na produção13 (anexo 13) e na produção 17 (anexo 17), as quais dizem, respectivamente: Para mim só tem uma resposta para quem quis entrar para esse mundo. “São pessoas com vontade de acabar com a própria vida”. (produção 13) Será que essas pessoas que usam será que elas usam por que eles querem ou não conseguem mais ficar sem usar mais o que os levou a usar será que foi a felicidade ou foi desilusão a falta de amor carinho companheirismo da família. Isso os leva ao refúgio das drogas. (produção 17) No nosso ponto de vista, será interessante trabalhar a exotopia nas atividades reflexivas, a fim de que o aluno possa consolidar sua apreciação. Acreditamos também que seria relevante conscientizar o estudante para a prática de pesquisa sobre o objeto discursivo. Caso as informações do professor apresentadas em sala não sejam suficientes, os alunos ainda podem recorrer a outros meios, como a mídia, a internet etc. Com a apreciação axiológica formada, acreditamos que o sujeito, então, poderá organizar o seu dizer tendo em vista o que é dizível no artigo de opinião, ou seja, o conteúdo temático das produções será modificado. Consideramos anteriormente que as produções foram escritas com êxito e os alunos encontraram estratégias para justificarem suas opiniões. Vimos que a forma designada por eles para a escrita foi o relato ou o depoimento, próximo do testemunho, pois como no 110 enunciado da proposta não apresentava que gênero escrever, constatamos que os alunos tinham, então, o campo aberto para a escrita do que quisessem, desde que expusessem a opinião. Entretanto, visando à prática de reescrita para o artigo de opinião, o conteúdo temático usado para a escrita dos depoimentos precisará ser outro. Com isso, não dizemos que depoimentos e exemplificações não possam acontecer no gênero por nós proposto, porém eles precisam ser discursivizados, ou seja, como discorrido até aqui, a partir deles os alunos formaram suas valorações. Nessa perspectiva, concordamos com Santos (2011), quando ela reflete sobre qual é o domínio de sentido no gênero artigo de opinião: A título de exemplo, podemos dizer que o domínio de sentido de que se ocupa o gênero artigo de opinião são os acontecimentos sociais (variados em escala temporal) que se mostram discursivizados e permitem uma opinião (avaliação) deliberada/declarada por parte de um autor seja legitimado pelo próprio lugar social de onde fala e pela instituição jornalística que faz a mediação da produção deste gênero (SANTOS, 2011, p. 45). Mediante os acontecimentos sociais, o autor expõe a sua apreciação valorativa, ou seja, a sua opinião que pode levar os leitores à criação de uma opinião própria. Para que isso ocorra, os fatos precisam estar amarrados discursivamente ao querer-dizer do autor. Considerando esse ponto de vista, teremos que criar atividades reflexivas que levem os alunos à formação discursiva do seu querer dizer, mediante um posicionamento crítico. Quando pensamos nesse posicionamento, não nos referimos somente ao aspecto polêmico ou à obrigação de ser contra determinado assunto ou a favor dele, como é comum pensar sobre a natureza do artigo de opinião. Concordamos com Santos (2011) que nem sempre isso possa acontecer, porque a atitude responsiva do autor pode ocorrer de outra forma. O autor pode simplesmente construir sua apreciação valorativa sobre determinado objeto, respondendo a apreciações anteriores de outros autores e esperando deles respostas ou uma compreensão ativa, que podem ser de discordância ou concordância, parcial ou total, negociação, que podem estar conjuntamente representadas no discurso ou não, e isso depende do querer dizer do autor e do fundo aperceptivo que ele tem de seu destinatário (SANTOS, 2011, p. 45). 111 Em tal perspectiva, verificamos que o gênero artigo de opinião apresenta diversas maneira de explicitação da apreciação axiológica e isso dependerá da vontade discursiva do autor. Nesse caso, não basta, para a reescrita das produções para o artigo de opinião ensinar aos alunos apenas um tipo, consideramos que será preciso levá-los a consciência dessa diversidade. Constatamos, então, aqui duas necessidades discursivas que se correlacionam: a explicitação da axiologia e a organização dessa no gênero artigo de opinião. Compreendemos que a primeira já poderia transparecer nas produções, isto é, conforme já dito, os acontecimentos poderiam ter sido usados para criação dos aspectos valorativos. Na segunda, temos a ressalva do artigo de opinião não ter sido o objetivo da escrita. Porém, isso não impede que investiguemos o que precisará ser trabalhado nas atividades. Ademais, o ato estético, ou seja, a organização axiológica depende do gênero, pois esse determinará como o trabalho estético procederá, podemos exemplificar com as produções dos alunos. Caso nomeássemos as produções como gênero depoimento, veríamos que as apreciações axiológicas foram organizadas para a criação desse gênero. Para a reescrita para o artigo de opinião, a organização será outra. De tal maneira, criaremos exercícios que estimulem o aluno a posicionar-se e a criar, a partir dos acontecimentos, apreciações axiológicas e que saibam como escrevê-las no artigo de opinião. Dessa maneira, acreditamos que haverá o desenvolvimento da compreensão ativa criadora dos alunos, aspecto inerente à linguagem que evidencia o caráter singular do sujeito. 4.1.2 Atitude responsiva e Compreensão ativa Desenvolvemos no capítulo 1 que a atitude responsiva ativa do sujeito apresenta dois níveis de compreensão: a ativa e a passiva. A primeira evidencia o caráter crítico do posicionamento do sujeito que, nas relações sociais, refrata os dizeres do outro para a criação do seu próprio dizer. Para a construção de sentidos no discurso é pela ativa que o falante espera, pois a passiva representa a reprodução dos discursos, ou seja, a repetição. 112 Relacionamos essa ideia ao acontecimento sala de aula, ali a todo o momento, professor e aluno estão em diálogo que exige, dos dois, atitudes responsivas, caracterizadas pela compreensão ativa. Essa caracterização, considerando o aluno, pode aparecer no entendimento dos conteúdos ou no desenvolvimento de um assunto na escrita ou na oralidade. Nessa perspectiva, consideramos que a proposta de produção, expressar a opinião sobre o uso das drogas, esperava dos alunos mais que a repetição do que fora discutido em sala de aula. Poderíamos dividir as informações em dois sentidos: 1. Demonstração da preocupação do aluno em mostrar que estava presente às aulas e prestando atenção; 2. Tentativa de mostrar o porquê das opiniões apresentadas: essas são informações em forma de depoimentos ou testemunhos sobre familiares, amigos, conhecidos, os quais são ou foram usuários de drogas. Esses dois sentidos estão misturados nas produções: ora o primeiro prevalece, dando um caráter informativo ao texto, ora o segundo, dando à produção caráter de desabafo ou depoimento. Já reconhecemos aqui que os alunos cumpriram os objetivos, porém acreditamos que, a partir de um processo reflexivo, eles poderiam fazer muito melhor, produzindo textos em direção ao artigo de opinião. Apresentamos alguns exemplos que demonstram a repetição das informações discutidas em sala de aula: Eu vou sita algum exemplo que drogas que essas pessoas utiliza como cristal, cigarro, beque, pó, pasta básica, remedio, ox etc... (anexo 04). Nós vimos algumas pessoas antes e depois das drogas e vimos que depois das drogas as pessoas se acabam, quando um dependente não tem dinheiro para comprar a droga ela comesa à roubar para sustentar seu visio, augumas tentam enganar os traficantes mas acaba morta (anexo 05). Muitos famosos já morreram por causa das drogas dentre eles: Michael Jackson; Amy Winnehouse, Cazuza (anexo 15). As consequências são muitas: não tem boa saúde, corre risco de vida, perde a família, quem tem filhos e usa drogas perde o amor dos filhos e da família (anexo 16). 113 Vo cita uns tipo de droga: cocaína, ox, maconha, crack, pó, base tabaco [...] (anexo 20). Esses trechos demonstram não somente falta de compreensão do que o enunciado pede, mas aponta para uma reprodução das informações apresentadas na sala de aula para discussão. Nesse caso, temos a evidência de uma compreensão passiva, quando na realidade esperava-se que o aluno apresentasse uma compreensão ativa, ou seja, que ele se posicionasse criticamente ao invés de dizer o que são drogas ou quais as consequências por usá-las. Aqui também verificamos outro tipo de preocupação: mostrar para a professora que prestaram atenção. Os alunos respondem dessa maneira com a consciência de quem será avaliado e se a professora pediu um texto sobre o que eles viram nas aulas, significa que ela quer verificar se eles prestaram atenção. Isso poderia ser apenas hipotético, se não fosse o apelo final da produção 05: Tal enunciado, juntamente com os anteriormente citados, confirma a nossa tese de que os alunos pensavam que precisavam repassar as informações das aulas e, por isso, a possível consideração de que escreviam ao professor avaliador. Temos, então, a figura do professor, na visão dos alunos, como aquele que detém o conhecimento e avalia a aprendizagem, pontuando para mais ou para menos. Araújo (2004) complementa essas afirmações, definindo o que é produzir textos na escola: Produzir textos em contexto escolar configura uma situação particular de enunciação na qual os alunos atendem a solicitações do professor e que, de certa forma, elaboram seus textos a partir da imagem que fazem das expectativas de correção e avaliação [...] (ARAÚJO, 2004, p. 16). A nosso ver, essa colocação justifica a reprodução de informações. Tomamos como exemplo a produção 05 (anexo 5), por causa do baixo nível opinativo. Diferentemente dos outros, que alternam o discurso em informações, indícios de opiniões, depoimentos, informações etc, a produção 05 atenta para informações e apresenta apenas um indício de opinião, como mostra o esquema a seguir: 1º e 2º§ - tipos de drogas; 114 3º§ - informações sobre o que assistiram; 4º§ - países que legalizaram as drogas; indício de opinião: [...] já pensou você com seu filho andando pelo parque e aparessese uma pessoa que acabou de usar. 5º§ - apelo à professora. Verificamos que o aluno apresenta informações, mas não deixa clara a sua opinião. Por exemplo, ele nem ao menos diz o que poderia acontecer caso se deparasse com um drogado em pleno parque. Ele nem mesmo deixa marcas textuais que expressem a entonação do que ele quer dizer. Isso fica por conta do leitor. A professora poderia questionar em comentário a esse aluno sobre o que ele realmente pensa de todas as informações apresentadas, exemplo: 1. É a favor ou contra as drogas? Por quê? 2. O que isso poderia ocasionar em sua vida ou na vida dos que o cercam? 3. É a favor da legalização das drogas? 4. Caso você encontrasse alguém se drogando em uma praça como você reagiria? Tais questões poderiam levar o aluno a uma reflexão mais complexa sobre o assunto, visto que ele já teria conhecimento sobre isso. A reflexão da professora demonstrará para ele que ela está preocupada com algo além das notas, pois espera que ele desenvolva senso crítico. Essa mudança influenciaria o nível da compreensão do aluno, pois, ao enxergar o destinatário de outra maneira, ele buscará participar eficazmente da relação dialógica. A atitude do professor pode levar o aluno a considerá-lo como um interlocutor com o qual há possibilidade de diálogo, e que se pode esperar uma resposta além de uma avaliação, ou seja, uma apreciação axiológica do outro (o professor) que o constitui, à medida que ele também pode constituir a atitude axiológica de seu outro. Bakhtin (2009[1952-53]) afirma: O papel dos outros, para quem se constrói o enunciado, é excepcionalmente grande [...] esses outros, para os quais o meu pensamento pela primeira vez se torna um pensamento real, não são ouvintes passivos, mas participantes ativos da comunicação discursiva. Desde o início o falante aguarda resposta deles, espera uma ativa compreensão responsiva (BAKHTIN, 2009[1952-53], p. 301). 115 Mediante tal colocação, podemos nos perguntar: Será que nas produções podemos perceber a atitude responsiva do aluno, tendo em vista o seu outro, o professor? Ele esperava que compreensão responsiva do seu leitor? Sim, o aluno teve atitude responsiva: a atitude de responder reproduzindo o que viu e ouviu nas aulas e a resposta que esperava do professor era uma boa nota por isso. Logo, compreendemos que a visão que se tem do interlocutor influencia o tipo de resposta que lhe será dada. Contudo, a resposta que esperamos de uma produção, com o caráter aqui definido, é a atitude responsiva ativa com a compreensão do mesmo tipo. Por tal motivo, criaremos atividades em que o aluno possa trabalhar essas particularidades da linguagem. Nesse viés, é necessário um trabalho que leve o aluno ao encontro de sua própria palavra (PONZIO, 2010). Mais do que isso, que o leve ao não contentamento de reproduzir o que o outro disse, como se existisse alguém que fosse dono da palavra58: [...] a palavra que temos que procurar com urgência, e antes de qualquer coisa, é essa palavra outra; cada um deve procurar, e deve procurar em si mesmo, perguntar a si mesmo; e não esperar, querer ouvir, exigir, orgulhosamente e com arrogância, do outro. Uma palavra outra a partir de si mesmo, uma palavra capaz de ouvir a outra palavra (PONZIO, 2010, p. 11). Por tal citação, lembramos que o sujeito é um ser histórico e é a partir dessa historicidade que ele atribui sentido aos discursos. Vale dizer que não é a história do eu sozinho que fará isso, porém, a historicidade dele com a do outro, conforme dito alhures. Dessa maneira, não há autoridade sobre a linguagem e nem muito menos a palavra está sujeita a uma única singularidade, afinal, ela está enredada em milhares de fios dialógicos. Assim, consideramos que mesmo o aluno precisa exigir de si uma compreensão ativa em frente às questões postas em qualquer relação social, para que não aceite a condição de dominado pelo conhecimento do outro, mas que possa participar ativamente de sua constituição. Nas atividades reflexivas proporemos que o aluno possa refletir sobre seus discursos e sobre os do outro, com o intuito de 58 Ninguém é dono da linguagem [...]. No nosso caso não se trata de pôr em discussão uma apropriação, mas de reconhecer, queira ou não, apesar do desânimo que isso pode nos provocar, que “ninguém é patrão na própria casa”, como dizia Sigmund Freud referindo-se à linguagem (PONZIO, 2010, p. 17). 116 construir o seu próprio dizer e tornar-se um sujeito-autor. Por isso, sigamos para a próxima categoria de análise. 4.1.3 Autoria Conforme desenvolvido no capítulo 1, o conceito de autoria está vinculado à compreensão ativa e à apreciação axiológica, discutidas até agora. Sem eles não há a formação do autor, o qual significa a atitude criadora do sujeito em um universo repleto de dizeres dos outros. Nesse viés e, considerando a análise até agora, os alunos não alcançaram a autoria, entretanto, acreditamos que eles têm potencial para isso e possuem o recurso necessário, isto é, a presença dos outros. Esses estavam presentes no discurso apresentado: nos vídeos assistidos sobre as drogas, nos textos lidos, nas discussões com a professora e os colegas, no próprio conhecimento de mundo que, por sua vez, está perpassado pelo discurso de familiares, amigos e conhecidos, usuários de drogas ou não. A partir do que esses outros pensam é que será possível a formação do sujeito-autor, mas isso também só será possível se o sujeito buscar a sua própria palavra (PONZIO, 2010), ou seja, não se satisfaça em responder ao outro com a palavra desse, reproduzindo o dizer alheio, ocultando o próprio eu. Compreendemos que as informações da mídia sobre as drogas ou mesmo o discurso da professora podem constituir o discurso do aluno em seu texto, porém de maneira dialógica e não autoritária. Por isso, agora seria necessária uma conscientização dos alunos em dois sentidos: a professora não está ali somente para avaliar, pois ela pode fazer parte do diálogo; as informações foram apresentadas a eles para fomentar seu conhecimento sobre as drogas, para construir a sua opinião sobre isso e não para serem citadas tais como ouvidas ou lidas nas aulas. Quanto à presença do discurso de familiares e amigos, os próprios alunos revelam fatos da intimidade. Essa atitude remonta ao que Bakhtin (2002[1934-35]) diz sobre a necessidade de o sujeito falar e a consideração psicológica do que os outros possam falar dele. Nesse caso, o que a professora diria ao ouvir a história de alguém próximo a ele que está no mundo das drogas? Bakhtin ainda apresenta que a partir do que o sujeito sabe sobre os outros é que ele construirá uma apreciação valorativa. Não é por nada que em nosso 117 discurso sobre algo, quase sempre ou sempre, trazemos o discurso outrem colado ao que discursamos. Ouve-se, no cotidiano, a cada passo, falar do sujeito que fala e daquilo que ele fala. Pode-se mesmo dizer: fala-se no cotidiano sobretudo a respeito daquilo que os outros dizem – transmitem-se, evocam-se, ponderam-se, ou julgam-se as palavras dos outros, as opiniões, as declarações, as informações; indigna-se ou concorda-se com elas, discorda-se delas, refere-se a elas, etc (BAKHTIN, 2002[1934-35], p. 139). Logo, segundo a teoria bakhtiniana, é impossível escapar ao discurso alheio, pois isso faz parte do processo dialógico da linguagem. Nesse processo, cada interlocutor pode usar de sua singularidade para criar uma resposta com a atitude valorativa que queira. Compreendemos que para o aluno, na prática da escrita, esse não é um processo fácil. A busca pela autoria não é confortável, pois constantemente se tem que confrontar as vozes que já perpassam o objeto do discurso determinado. Assim, consideramos que esse processo precisa ser trabalhado no momento da reescrita em prática reflexiva de como organizar o projeto discursivo, tendo em vista os destinatários. Nesta pesquisa, a nosso ver, a formação da autoria tem início nas atividades reflexivas que buscarão ampliar o universo discursivo do aluno, ao que diz respeito ao seu posicionamento em meio a tantos discursos. Esperamos que na prática de reescrita aconteça a consolidação do sujeito-autor, pois ali ele trabalhará especificamente sobre a sua construção de sentidos. Vejamos agora que atividades reflexivas essa análise suscitou. 118 4.2 Atividades reflexivas para a reescrita por categoria discursiva bakhtiniana A linguagem, em suas múltiplas manifestações, nos serve para que possamos dar respostas ao mundo, ao outro, e quando o fazemos, fazemos também com o outro, com a palavra alheia que tornamos palavra própria. (PADILHA, 2009, p. 104) Com base na análise das produções, criamos atividades reflexivas que objetivam colaborar para a construção do sujeito-autor, à medida que constrói apreciações axiológicas e desenvolve compreensão ativa criadora sobre o tema “drogas”. As atividades trabalharão esses aspectos, visando à reescrita das produções para um artigo de opinião. Nesse caso, precisamos lembrar mais uma vez, focaremos na discursividade do gênero, sendo essas atividades reflexivas um recorte do ensino da escrita que poderia acontecer em aulas de LP. Assim, nas práticas escolares, a criação de atividades reflexivas sobre a textualidade, enfocando aspectos linguísticos e estruturais seria necessária também. Apesar de antes das produções já terem ocorrido debates, discussões sobre os textos lidos e vídeos assistidos, é necessário trazermos isso à tona, mas dessa vez de forma mais direcionada. Vejamos, então, as atividades: Atividade reflexiva 01 Autoria e Gênero do discurso Caracterização geral da atividade Tipo da atividade: Leitura e análise discursiva do gênero artigo de opinião. Textos a serem trabalhados: dois artigos de opinião com o tema relacionado às drogas. Procedimentos da atividade: 1º. Dispor a sala em círculo e dividi-la em dois grupos, A e B. O grupo A ficará com o artigo “Droga de vida” e o B com “Legalização das drogas”, se possível cada integrante do grupo com uma cópia dos artigos; 2º. Dizer aos alunos que cada grupo fará a leitura em conjunto dos artigos de opinião sobre as drogas. Em seguida, pedir para que eles façam a leitura, discutindo, inicialmente, em duplas as questões referentes ao artigo lido, conforme seguem. 119 Droga de vida - por Felipe Jost Clavé Em meio aos jovens, andar com pessoas que utilizam algum tipo de entorpecente é praticamente normal. E, por conta disso, no mínimo um dos nossos amigos usa algum tipo de substância ilegal, mesmo que não saibamos. Eu acho deprimente ter de afirmar isso, mas a cada dia que passa milhares de adolescentes entram em um submundo de vício que parte da maconha até o crack e outras drogas muito mais pesadas. Já virou até clichê dizer que a parada final é a morte, mas isso não deixa de ser verdade. Em meio a esse cenário atual, uma das perguntas mais feitas é: de quem é a culpa? Sem dúvida nenhuma, dos usuários. Vício não se herda dos pais, nem é imposto pela sociedade. Dos pais, recebemos apenas educação. Porém, mesmo com ela, muitos adolescentes preferem os conselhos de traficantes. E nenhum traficante que se preze vai forçar alguém a usar drogas, afinal ele é sempre um amigo e nunca ofereceria algo que não fosse legal. Além disso, usar drogas virou moda, marca da juventude rebelada que teve tudo nas mãos, nunca lutou por nada e se acha no direito de fazer uma revolução. Se não fossem os usuários, todo esse comércio ilegal já teria acabado há muito tempo. E esse usuário não deve ser idealizado como uma pessoa sem condições, marginalizada pela sociedade e que furta para pagar pelas drogas que consome. O usuário que sustenta esse tráfico é um estudante que sempre teve acesso a tudo o que quis e nunca realmente trabalhou para receber dinheiro. É o tipo de adolescente que gasta de R$ 300 a R$ 400 em entorpecentes quando vai em festas. Os motivos para o consumo são ainda mais incoerentes. Como ressaltei, o apelo dos jovens é que usar drogas é legal. De muitos amigos, escutei que festas sem bebidas ou drogas não são festas. Existem tantas desculpas para esse consumo, uma mais ridícula que a outra, que me dá até vontade de rir. Não um riso feliz, mas aquele amarelo do coringa. Um que esconde a vergonha de pertencer a uma geração tão fútil, cujo lema ironicamente é “Viva a vida, pois a vida é curta”. Sim, curta para eles. Curta de ideias, de personalidade, de caráter... de todos os valores morais que realmente contam. É uma semivida, na qual sua felicidade acabou dependendo desse estado eufórico em que você esquece todas as derrotas. Em suma, é da falta de responsabilidade que parte toda essa situação calamitante em que está imersa grande parte da juventude brasileira. Atualmente tudo é fácil, e o mundo apressado faz com que tenhamos o que queremos nas mãos sem ou com pouco esforço. O remédio para essa epidemia não é apenas a conscientização, mas o amadurecimento dessa geração tão infantil. Fonte: http://www.clicrbs.com.br/dsm/rs/impressa/4,41,2717129,13523 1. O que o autor quis dizer com o título “Droga de vida”? 2. Podemos verificar para quem o autor direciona esse texto? Justifique. 3. Qual a opinião do autor sobre o uso das drogas? Como ele demonstra isso? 4. De acordo com o texto, por que os jovens usam drogas? Você concorda? Por quê? Há algum outro motivo? 5. Como o autor descreve a juventude de “hoje”? Você se enquadra nessa descrição? O que é ser jovem para você? 6. Por que o autor parece tão pessimista sobre a relação juventude e drogas? 7. Você pensa ser possível identificar culpados, quando se trata do uso das drogas? Por quê? 8. Como você se sente ao ler esse texto? Justifique-se. 120 Legalização das drogas – autor desconhecido59. Particularmente sou contra a legalização da maconha, não vejo pontos positivos, pelo contrário, posso apontar vários pontos negativos. Primeiramente, legalizar a maconha não quer dizer que o tráfico de drogas vai desaparecer ou diminuir. Siga a linha de raciocínio: Traficantes já matam uns aos outros por roubarem o ponto de drogas, imagine se a maconha for legalizada, e em qualquer supermercado ou mercadinho ela for vendida, o lucro dos traficantes vai ser reduzido, porque as pessoas facilmente vão encontrar a maconha, e esta terá nota fiscal e tudo mais (é até irônico dizer uma coisa dessa), olhando por esse lado isso é até bom, porém, isso não é uma daquelas histórias de final feliz que contam para as crianças. É claro que os traficantes não aceitarão isso, e se já matam uns aos outros, o que impedirá que matem os donos de mercadinhos ou afins que vendam a maconha "legalizada". Com isso a violência vai aumentar. A maconha assim como as demais drogas vicia, pode não ser tanto quanto o crack e a cocaína, mas de fato vicia, adolescentes são muito curiosos, e por isso o número de viciados está crescendo cada vez mais, se já cresce com a maconha sendo ilegal, imagine quando legalizar, vai ser tão comum que aquele que não fizer uso dela é que vai ser rotulado como "estranho, anormal". E para as pessoas viciadas, o vicio vai está tão próximo que vai ser quase impossível evitá-lo e ficar longe deste. Além disso, como qualquer droga a maconha tem suas consequências, que a depender da dose utilizada pode variar. Os efeitos e as consequências da maconha podem variar desde aumento da frequência cardíaca (a curto prazo), alucinações, ilusões e paranóias (doses mais altas) até danos no sistema pulmonar e cardiovascular (a longo prazo). Quanto aos pontos positivos, o único que se pode citar é: com a legalização da droga, mercados (pontos de venda da droga legalizada) e centros de recuperação terão mais lucro. Portanto, como foi possível ver, não há nenhuma vantagem em legalizar a maconha. Com base no que foi dito, pare e reflita um pouco sobre isso, será que existe alguma vantagem? Será que realmente vale à pena legalizar a maconha? Fonte: www.mundoreal.spaceblog.com.br 1. Por que o autor é contra a legalização da maconha? 2. Quais são os argumentos usados pelo autor contra a legalização da maconha? 3. Você concorda com todos os argumentos dados pelo autor contra a legalização da maconha? Comente o porquê sobre cada argumento. 4. Você acha que se a venda da maconha for legalizada, qualquer pessoa irá quer comprá-la? Relacione sua resposta com a venda do cigarro que também é uma droga, vicia e faz mal a saúde e, ainda assim, é vendido. 3º. Depois da discussão em duplas, pedir para que discutam com o grupo, com o intento de ouvir as opiniões das outras duplas. Buscávamos um artigo de opinião cujo assunto fosse a legalização das drogas. Esse foi o único que encontramos na internet, no blog Mundo Real. Esse blog, segundo a blogueira, foi criado para divulgar ideias pessoais, como o que ela pensa sobre a legalização das drogas. Não temos informações de qual seja seu nome, pois no blog não está divulgado, só sabemos que se trata de uma mulher, porque o sexo foi divulgado. Reconhecemos que nesse artigo há inadequações, mas ainda assim optamos por usá-lo, por causa do assunto. 59 121 4º. Leitura com a turma – uma pessoa de cada grupo fará a leitura do artigo recebido em voz alta e explanará juntamente com os integrantes de sua equipe as considerações discutidas. O outro pode, em seguida, colaborar. De fato o professor os instigará a isso. Explicando... Essa atividade nasceu da necessidade dos alunos refletirem sobre a organização da apreciação axiológica em um artigo de opinião, ou seja, como o autor desse gênero expõe suas opiniões, argumenta e traz para dentro do gênero informações. Antes dessa atividade seria necessário também o estudo da estrutura do gênero, pois isso facilitaria a observação discursiva dos alunos nessa atividade. Na leitura dos textos, o professor pode levar os estudantes à percepção da diferença entre os artigos de opinião e o que eles produziram principalmente referente ao querer-dizer dos autores. Como já desenvolvido, o artigo de opinião não se constrói somente baseado em polêmicas ou argumentação para defesa de ideias que busquem convencer o leitor, mas o autor de um artigo de opinião pode apenas dizer suas apreciações valorativas sobre algo. Em alguns artigos é possível verificar apenas o ato de dizer o que se pensa sobre o assunto, expressando a opinião60. A estratégia de dividir os alunos em grupos e dentro desses em duplas é para que todos tenham a oportunidade de expressar seus apontamentos referentes às questões e ao que mais queiram dizer sobre o texto. Almejamos com isso a formação apreciativa do aluno sobre o dizer do outro, representado pelos autores dos artigos e pelos colegas, pois, conforme a teoria bakhtiniana, é no processo dialógico que os sujeitos alcançam responsividade ativa. Tal perspectiva nos leva a reafirmar que o interlocutor, seja ele leitor ou falante, não é um decodificador do enunciado do locutor, mas um “parceiro” da produção de sentidos (SOBRAL, 2009). Desse modo, acreditamos que a disposição das salas e o modo como o professor conduzirá as discussões, a fim de que todos os alunos participem, instigará a atitude dialógica. Acreditamos que se aplicássemos essa atividade, talvez fosse necessário levar para os alunos diversos tipos de artigos de opinião, para que tenham conhecimento das possibilidades de escrita desse gênero, isso pode ser feito durante o ensino dos aspectos do artigo de opinião. 60 122 Podemos, ainda, considerar que esse momento é relevante para o reconhecimento da liberdade de palavra (PONZIO, 2010), ou seja, o conhecimento de que cada sujeito pensa de maneira singular e é na singularidade do outro em contato com a do eu que os sentidos irão ser construídos: A liberdade da palavra [...] é indício de demagogia secundária, baseada na qual não somente uma pessoa “toma a palavra”, a “pretende", a “concede”, a “dá” (Dou a minha palavra!), mas, mais ainda, a distribui, dividida, segundo um tempo igual para todos: a cada um tempo de palavra (PONZIO, 2010, p. 19). A compreensão do que o outro pensa auxiliará os alunos no momento da reescrita para constituição do seu querer-dizer referente à legalização das drogas e aos motivos que levam uma pessoa a usar drogas. Esses são assuntos recorrentes nas produções, por isso apresentamos artigos que dialogam essas duas temáticas. As questões propostas foram criadas com base na necessidade discursiva dos alunos, ou seja, elas nortearão a discussão dos grupos, à medida que serão instrumentos para reflexão dos alunos e consequente ampliação das apreciações valorativas. Vale ressaltar que, dependendo de como transcorra a discussão, o professor precisará elaborar outras questões e para isso ele precisará estar atento para orientar os alunos no caminho da construção de sentidos. Essa atividade não se esgota aqui, pois ela é apenas o início do processo de constituição do sujeito-autor. Veremos que o próximo exercício é continuação dos objetivos dessa atividade, porém exigirá que os alunos coloquem em prática suas reflexões sobre o uso das drogas. Precisaram responder aos outros ativamente em uma situação de comunicação com interlocutores fictícios, mas que poderiam ser reais. Os objetivos disso serão o desenvolvimento da compreensão discursiva e como direcioná-la ao outro. 123 Atividade reflexiva 02 Autoria: Compreensão ativa e Atividade estética Caracterização geral da atividade Tipo da atividade: Debate personalizado Desenvolvimento da atitude crítica e organização da apreciação axiológica na construção da opinião. Ainda em grupos A e B, os alunos terão como base todas as reflexões feitas nas aulas sobre o uso das drogas, reflexões feitas desde antes da escrita das produções até a atividade anterior. Pessoas hipotéticas no debate: Uma pessoa indecisa, com dúvidas se usaria drogas; Grupo 01 - usuários de drogas; Grupo 02 – Aqueles que não usam e convivem com quem usa; Grupo 03 - Aqueles que não usam e não querem. Procedimentos da atividade: 1º. Explicar para os alunos que essa atividade é complementação da anterior, com a finalidade de ajudá-los a ampliar suas opiniões de maneira crítica sobre as drogas, tendo em consideração tudo que já foi discutido até então. Dizer que será um debate personalizado em forma de encenação, para que eles ocupem o lugar de pessoas que pensam diferentemente deles. Essa prática pode levá-los a compreender melhor o posicionamento dos outros, para então, com eficácia, criarem a sua própria opinião. 2º. Pedir para que os alunos distribuam entre o grupo as personagens, sendo que um aluno fará a pessoa indecisa, com dúvidas se usaria drogas; três farão os usuários de drogas (grupo 01); três, os que não usam e convivem com quem usa (grupo 02); três, os que não usam e não querem (grupo 03). 3º. Entregar e ler a seguinte situação: Uma pessoa tem um amigo que usa drogas e está insistindo para ela usar. Ela tem ouvido muitas coisas sobre as drogas, alguns dizem que é bom usar, outros que não. Ela não sabe em quem acreditar. Às vezes ela pensa que deve decidir por si própria se a droga é ruim ou boa, mas para isso ela precisaria experimentar, então, ela sempre se pergunta: experimentar ou não? 124 Ajudem-na a decidir! O que será que os usuários de drogas diriam para ela? Será que todos os usuários são como o amigo dela? Todos querem a mesma vida para os outros? O que diriam aqueles que são contra as drogas e que têm familiares e amigos nesse caminho? E aquelas pessoas que não querem usar drogas, apenas porque têm visto notícias sobre as consequências das drogas? 4º. Explicar que os grupos não precisam falar diretamente com a pessoa indecisa sobre o que fazer, eles podem falar entre si, por exemplo, o usuário pode direcionar a fala para quem não usa e vice-versa. A pessoa indecisa não precisa ficar quieta enquanto os outros falam sobre se ela deve usar ou não. Ela deve participar do diálogo, com questionamentos ou ainda apontamentos. Sobre o final: em um grupo, a pessoa indecisa decidirá sobre o que fazer, dependendo da argumentação e fatos expostos no debate. No outro grupo, ela decidirá em cinco minutos não usar as drogas e se juntará às outras pessoas em argumentação para persuadir o usuário a abandonar as drogas. Serão necessários 20 ou 25 minutos para que os grupos discutam e reflitam sobre como farão. 5º. Enquanto o grupo A estiver em debate, o B observará e fará anotações e ao fim dará a sua apreciação valorativa, sobre o debate assistido e depois o A fará o mesmo. Explicando... Essa atividade convida os alunos a pensarem como outros, tentando colocarse no lugar de pessoas representadas nos personagens apresentados como pessoa indecisa sobre se usaria drogas; usuários de drogas; pessoas que não usam e convivem com quem usa; pessoas que não usam e não querem. Esses personagens foram criados a partir das temáticas apresentadas nas produções dos alunos, tais como: A favor ou não das drogas; (em todas as produções). O que leva as pessoas ao uso de drogas? (anexos 8, 13, 14, 17). As consequências das drogas em aspectos físicos, mentais e relacionamentos; (anexos 4, 5, 6, 7, 9,12, 13,19, 20). 125 Conselhos enfáticos de alerta contra as drogas; (anexos 2, 4, 6, 10, 12, 17, 18, 19). Testemunhos sobre familiares, amigos e conhecidos usuários. (anexos 1, 3, 4, 6, 11, 12). Esses aspectos aparecem nas produções, porém não demonstram a atitude crítica dos alunos concretamente. No debate, poder-se-á exercitar o querer dizer para alcançar da compreensão ativa, mediante as apreciações valorativas. Para isso, o professor será o coordenador do debate, orientando os alunos na atuação, tendo a situação dada como referência. A ideia desse debate não é repassar informações, mas materializar o que o conhecimento sobre drogas significou para eles. Então, caso eles fiquem apenas no nível informativo, o professor intervém para ampliar a apreciação valorativa. Em todo caso, o professor estará coordenando para manter esses propósitos, de maneira que todos falem. Cada debate pode ter de 10 a 15 minutos: enquanto um grupo debate, o outro observa e ao final opina sobre a discussão nos aspectos propostos. O professor pode até sugerir que eles digam se fariam algo de diferente ou seu concordaram ou não com algo que foi dito. Nessa atividade, além do exercício da formação de atitude crítica e organização axiológica, podemos considerar também o exercício de colocar-se no lugar do outro para compreendê-lo e, a partir daí, formar opinião sobre algo. Vale lembrar que a capacidade de se colocar no lugar do outro está ligada ao excedente de visão que o eu tem do outro. Esse aspecto, como já dito, envolve as questões espaciais – relacionadas ao corpo no espaço – e as questões discursivas, relacionadas às relações sociais vivenciadas pelo eu diferentes das vividas pelo outro e também molda a atitude estética do eu, ou seja, como será a formação da apreciação valorativa do eu. Outro momento da atitude estética que podemos verificar aqui é o fenômeno de compenetração, ou seja, da colocação do eu no lugar do outro, da qual fala Bakhtin (2009[1922-24]): [...] eu devo vivenciar – ver e inteirar-me – o que ele vivencia, colocar-me no lugar dele, como que coincidir com ele (no modo, na forma possível dessa compenetração...) [...] Devo adotar o horizonte vital concreto desse indivíduo tal como ele o vivencia [...] (BAKHTIN, 2009[1922-24], p. 23). 126 Esse movimento cria um diálogo sem preconceitos, com construção de sentidos que constitui o eu-outro, pois os leva a pensar na condição humana das partes envolvidas na relação social. Ainda nessa perspectiva de ocupar o lugar do outro, é necessário lembrar a natureza insubstituível do sujeito, pois ocupar o lugar não implica tomar a existência sendo a outra pessoa. Ponzio (2010) reflete sobre essa condição: “Do meu lugar único, que ninguém mais pode ocupar, somente eu sou eu, enquanto todos os outros são outros” (p. 35). Assim, quando o eu vivencia a vida do outro, isso é feito com consciência, de maneira reflexiva, devido ao excedente de visão que o eu tem do outro. Bakhtin (1922-24) diz que esse movimento sobre a vida do outro pode motivar o eu a um ato ético: para ajuda, consolação, reflexão cognitiva, o que caracteriza a compreensão ativa criadora do eu. Esses aspectos estão presentes nessa atividade reflexiva e auxiliarão os alunos quando retomarem suas produções, pois eles poderão pensar dialogicamente em seus interlocutores e também naqueles mencionados nas produções como familiares, amigos e conhecidos. Como continuação desse exercício, esses aspectos serão ainda usados na atividade reflexiva 03, porém de outra maneira. Atividade reflexiva 03 Autoria: Atividade estética e Exotopia Caracterização geral da atividade Tipo da atividade: leitura de um depoimento de um ex-dependente químico e conversa com um especialista que trabalha com dependentes químicos. Essa atividade objetiva colocar os alunos de frente com a história de um exdependente químico, a fim de que conheçam o ponto de vista de uma pessoa que está sob o julgamento deles na escrita de suas produções. Propomos também uma conversa com um especialista em dependentes químicos, acreditamos que isso seria relevante para os alunos, afinal, alguns têm familiares e amigos dependentes. Procedimentos da atividade: 1º. Dispor os alunos em círculo e distribuir uma cópia para cada um do texto com o testemunho de um ex-dependente químico, apresentado abaixo. 127 TESTEMUNHO DE UM EX-DEPENDENTE QUÍMICO – autor desconhecido Alunos adolescentes da Escola Estadual José Evangelista França, em Sete Lagoas, reunidos no pátio da escola para ouvirem a palestra sobre drogas. O vereador Milton Saraiva, se apresentou e contou a experiência triste, que teve com um irmão envolvido com drogas, fez a família sofrer e acabou internado como louco. Despediu-se e deixou, para continuar falando sobre o assunto, um senhor de 43 anos, que falaria de sua experiência com drogas. Seu nome é Nelson Lopes, membro da ASFIPO (Associação de Prevenção às Drogas). Começou dizendo que as drogas lhe oferecem o céu e depois, tiram-lhe a capacidade de voar. Sua mãe ficou viúva, e vieram morar aqui por ser uma cidade maior e ela queria dar estudos e vida melhor para eles. Ele chegou a estudar até a sexta série. Se achava feio, mal-vestido e ninguém queria sua amizade. Na escola, naquela época, tinha um grupinho que era respeitado pelos colegas. Um dia deixaram cair um pacotinho que chamavam de loló, ele com apenas 11 anos, levou para casa e experimentou. Olhou para seu tênis velho e furado, de repente ele estava até bonito, se olhou no espelho, ajeitou o cabelo e se achou transformado, gostou da sensação de liberdade que sentia. No outro dia, depois de pegar o dinheiro que a mãe guardava para comprar pão e leite dos menores, ele comprou a droga, e se sentiu "o cara!" Começou a faltar às aulas. Precisando de mais dinheiro, cometeu seu primeiro furto, um toca-fitas de um carro. Foi encaminhado a FEBEM (Instituição para menores infratores). Saindo de lá, abandonou a escola, a família e entrou para o mundo das drogas. Cometeu latrocínio, se tornou o traficante mais procurado na época. Conseguiu muito dinheiro, comprou casas e fazia viagens pelo Brasil. Engravidou algumas mulheres, e as abandonava quando era preso, os soldados o levavam para a "Serra de Santa Helena" ponto turístico da cidade. Lá o espancavam antes de prendê-lo. Quando saía da cadeia, voltava a roubar para sustentar o vício, experimentou de tudo que as drogas oferecem. Um dia foi ao médico, pois seu nariz sangrava e doía. O médico ficou sabendo que ele era viciado em cocaína e disse-lhe que se não parasse em seis meses, perderia o nariz. Achou melhor usar drogas injetáveis, com o organismo debilitado não conseguia nem roubar mais. Resolveu pedir ajuda a mãe. Coração de mãe é cheio de amor e perdão. Voltou para casa, enquanto sua mãe foi a cidade de Aparecida em São Paulo cumprir promessa feita para o filho sair do vício, ele chamou um caminhão e colocou tudo de valor que ela conseguiu em anos de trabalho. Tudo pela droga. Passados alguns anos, começou a usar o crak, que como ele disse: é a destruição do ser humano. Aos 30 anos, pesando 43 quilos, passou a morar debaixo da ponte, ali mesmo não sendo homossexual, ele aceitou transar com homens para sustentar seus vícios. Vivia pior que muitos animais, sem banhos, sem roupas decentes e sem objetivo de vida. Às vezes tinha a sensação de não estar vivo, foi assim que teve um encontro com Jesus Cristo, mesmo não tendo religião. Jesus lhe dizia, para procurar ajuda, e que ele serviria de exemplo para muitos jovens! Foi pedir perdão a mãe, ela procurou o vereador Milton, que o internou em uma clínica para drogados. Há dez anos, ele não se droga, apesar de várias cicatrizes no corpo e na alma, segue a vida, gritando para os jovens: A droga não compensa, ela vai te destruir! Fonte: http://pt.shvoong.com/writing-and-speaking/1997043-palestra-sobre-drogas-testemunhoum/#ixzz1abpX0rv7 2º. Explicar que eles farão a leitura do testemunho de um ex-dependente químico e discutirão sobre, guiados por questões referentes ao texto. Inicialmente, o especialista pode apenas observar a discussão e, à medida que a conversa ocorra, ele intervirá. 3º. As questões são para iniciar a conversa. Esperamos que, com o tempo, os alunos se sintam à vontade para perguntar o que quiserem. 128 Questões iniciais: 1) Em sua opinião, quais foram os motivos que fizeram Nelson Lopes entrar no mundo das drogas? 2) Você considera que há culpados por alguém usar drogas, além do próprio usuário? Por quê? 3) Em sua opinião, como as autoridades precisariam lidar com os viciados? 4) Qual o papel da família e dos amigos na recuperação de quem está em tratamento? Explicando... Nessa atividade, trazemos um depoimento de um ex-dependente químico que norteará a discussão entre os alunos e um especialista em recuperação de usuários de drogas. Assim, os alunos poderão refletir sobre o que leva algumas pessoas às drogas, o porquê da dificuldade de abandonar o vício, a importância do apoio da família ou de amigos quando o viciado decide se tratar, a consciência do drogado sobre o que a droga faz com a vida dele. Esses temas serão tratados, porque nas produções essas questões estão presentes, mas às vezes expressas de maneira preconceituosa ou ainda sem nenhuma comprovação, portanto, como senso comum. Essa também será uma oportunidade para aqueles que conhecem pessoas usuárias de drogas se expressarem sobre como é a vida dessas pessoas, se é parecida com o que fora a vida do ex-drogado, qual o sentimento da família, dos amigos ou ainda do próprio aluno em relação a isso. Poderia ainda ser discutida a questão da possibilidade de restabelecimento físico, mental, familiar e social dos drogados, quando esses decidem procurar tratamento. Seguindo a abordagem das atividades anteriores, essa se daria em rodas de conversas, como uma prática de escutar o que o outro tem a dizer. Ponzio (2010) ressalta que a palavra outra se dá “na escuta, no ‘dar um tempo ao outro’”, consistindo em uma centralização do outro ao invés da centralização do eu, pois para Bakhtin e o Círculo o eu encontra sua palavra a partir do outro, por isso há necessidade de refletir sobre o que os outros, em nosso caso, professor, colegas e especialista, têm a dizer: 129 [...] colocar-se em escuta significa simplesmente isso: dar tempo ao outro, o outro de mim e o outro eu; dar tempo e dar-se tempo [...]. É tempo disponível, disponível para a alteridade, a alteridade de si mesmo em relação à própria identidade e alteridade do outro em relação à própria identidade e a alteridade do outro em relação à sua identidade (PONZIO, 2010, p. 25). Por tal colocação, reafirmamos a necessidade de refletir sobre o que o outro diz, compreendendo suas apreciações avaliativas para então encontrar a própria apreciação. Depois de todas essas atividades reflexivas, consideramos que os alunos estarão preparados para retomarem as produções. Atividade reflexiva 04: A reescrita Caracterização geral da atividade Tipo da atividade: retorno às produções com os comentários do professor para a reflexão e reescrita Procedimentos da atividade: 1º. Entregar as produções aos alunos e dizer para reescreverem como artigo de opinião, considerando os comentários feitos ao fim de cada produção. Explicar que os comentários foram feitos para nortear as reflexões deles sobre o próprio texto e que eles precisam considerar as discussões feitas nas atividades anteriores, não para reproduzirem as informações, mas para construírem suas próprias opiniões. Enquanto eles refletem, o professor pode dizer que estará disponível para conversarem, à medida que as produções vão sendo reescritas. Explicando... Ficamos em dúvida se enquadraríamos a reescrita como atividade reflexiva. Afinal, vimos afirmando que as atividades seriam criadas a fim de preparar os alunos para esse momento, ou seja, não a considerávamos atividade tal como as outras. Entretanto, no decorrer da análise percebemos que a reescrita é também um exercício reflexivo para melhora da prática da escrita. A diferença entre essa atividade e as outras é que as outras foram criadas em virtude desse momento, pois os aspectos do discurso trabalhados nas atividades 130 materializam-se nessa prática. Logo, é na reescrita que o aluno poderá utilizar os saberes adquiridos nas atividades para tentar “sanar” suas necessidades. O que esperamos cultivar é a ideia de que, na reescrita, os textos são retomados e reelaborados a fim de corresponderem aos parâmetros do gênero do discurso proposto, em nosso caso, do artigo de opinião. Caso aplicássemos essas atividades, sabemos que a primeira reescrita das produções para um artigo talvez não alcançasse bons resultados, pois essa seria a primeira versão dos alunos do artigo de opinião, visto que a primeira versão das produções não era esse gênero. Por isso, talvez fosse necessário reescrever mais de uma vez. Não consideramos que após a primeira reescrita seja preciso a criação de mais atividades reflexivas que antecipem uma terceira, quarta ou quinta versão. O que de fato precisa permanecer é a prática reflexiva do aluno e o diálogo com o professor, tanto por comentários quanto oralmente. Nessa perspectiva essa atividade, como todas as outras, precisa ser monitorada pelo professor, independentemente dos comentários feitos ao fim das produções, pois é importante que o docente esteja disponível para conversar com os alunos, caso esses queiram discutir sobre os comentários. Isso caracteriza a reescrita como prática dialógica, questão que já definimos ao fim do capítulo 2 que agora retomamos. Destacamos que essa prática reflexiva da reescrita faz parte do processo de formação do sujeito-autor, por isso as categorias apresentadas para análise e desenvolvidas nas atividades reflexivas seguiam para essa constituição: o sujeitoautor com opiniões próprias e consequente posicionamento crítico. Ainda verificamos que as categorias de análise e as necessidades trabalhadas nas atividades coincidem com a dialogia da reescrita e com os aspectos inerentes à linguagem que verificamos nessa prática. Dessa forma, nessa atividade 04, após atividades que deram suportes para esse momento, teremos: Um trabalho do sujeito em uma atitude responsiva com consequente compreensão ativa criadora. Esta foi construída mediante as discussões e reflexões feitas durante as atividades e agora segue mediante os comentários do professor. Olhar exotópico do sujeito sobre o próprio texto, nesse momento o sujeito é outro de si mesmo. O aluno já não é o mesmo da primeira 131 versão. Podemos dizer que agora ele pode analisar seu antigo texto, de maneira reflexiva, com valorações que foram construídas nas práticas interativas das aulas. Uma reflexão sobre a estética do texto, pois há trabalho reflexivo sobre o conteúdo, o material e a forma61 e também reflexão sobre o ético – análise das apreciações valorativas, relacionando com o que se pode ou não dizer em determinado gênero. Durante a análise, constantemente, nos lembrávamos do que Faraco (2009) diz sobre como o pensamento bakhtiniano significa a ação humana. Ele diz que para esse pensamento “a grande força que move o universo das práticas culturais são precisamente as posições socioavaliativas postas numa dinâmica de múltiplas interrelações responsivas” (p. 38)62. Recordávamos disso, pois em nossa análise sempre remetíamos a prática axiológica e compreensão ativa para constituição do sujeito-autor e essa questão socioavaliativa já estava presente em nossa percepção de quais aspectos bakhtinianos seriam visíveis na reescrita. Percebemos, ainda, que pensar em analisar as produções dos alunos em um aspecto discursivo, na perspectiva bakhtiniana, significa analisar a construção axiológica dos dizeres dos sujeitos. De acordo com Sobral (2009), o fato de o Círculo de Bakhtin insistir que toda enunciação envolve um tom avaliativo, isto é, uma apreciação valorativa impressa pelo sujeito as suas atuações verbais, demonstra que os textos com os quais o sujeito tem contato nas relações sociais não se restringem a formas abstratas, porém, são concretos e ganharam sentidos a partir da realidade e das apreciações valorativas do interlocutor. Sobral, ainda sobre isso, complementa: Na definição de outra base da concepção dialógica, o Círculo usa a expressão “entoação avaliativa” (ou expressiva) para designar o fato de que o sujeito sempre diz algo ao outro a partir de uma dada posição social, que resulta da relação do sujeito com o outro nas circunstâncias concretas de sua interação (SOBRAL, 2009, p. 84). Não trabalhamos aqui com o material e a forma, pois para o nosso recorte discursivo a análise do conteúdo era suficiente. Mas reafirmamos que esses aspectos precisam ser ensinados também de maneira reflexiva, o que implica dizer que as atividades podem abordar os demais constituintes da construção da linguagem, isso conforme a necessidade dos alunos. 61 62 Citação já presente no capítulo 1, mas achamos por bem reafirmá-la aqui. 132 Tal colocação nos leva a reafirmar que o interlocutor, seja ele leitor ou falante, não é um decodificador do enunciado do locutor, mas um “parceiro” da produção de sentidos (SOBRAL, 2009). Dessa forma que se dá a prática dialógica, por meio das valorações construídas pelos sujeitos, as quais vão construindo os discursos. Por isso, demos tanta importância à interação nas atividades e a prática de trabalho com o outro, sempre com a ideia de que o aluno pudesse refletir sobre os discursos que os colegas apresentassem, pois seria a partir deles que seria construído o posicionamento crítico e se teria, então, a constituição da autoria. 133 Considerações finais Nossa pesquisa insere-se nos pressupostos do paradigma sócio-histórico e cultural do ensino-aprendizagem de língua materna em contexto escolar, por isso trabalhamos com o estudo da escrita como prática social e defendemos que o ensino de LP reflexivo e contextualizado, ou seja, que leve em consideração as condições sociais. Nessa vertente, utilizamos a concepção do ensino-aprendizagem da escrita enquanto processo, interessados na prática reflexiva dos alunos sobre o próprio texto, significada aqui como reescrita. Logo no início, apresentamos a problemática do como ensinar reflexivamente a reescrita e lembramos que para ocorrer essa prática seria preciso um trabalho anterior que partisse das necessidades dos alunos, a fim de que fosse dado aos estudantes suporte para a reflexão dos aspectos a melhorar em suas produções. Com esse intuito, passamos a considerar a criação de exercícios que tivessem esses objetivos e cunhamos, então, essa abordagem de atividades reflexivas para a reescrita. Na escolha de que necessidades trabalhar nessas atividades, nós fizemos o recorte de nos atermos, nesta pesquisa, à discursividade. Dessa maneira, recorremos à teoria da linguagem do Círculo de Bakhtin que busca compreender as relações sociais mediante a construção de sentidos, isto é, de discursos. Utilizamos essa teoria não somente para analisarmos as necessidades discursivas nas produções, mas também para embasarmos a nossa concepção de reescrita, investigando na obra bibliográfica do Círculo quais aportes teóricos são visíveis nessa prática, conforme consta no capítulo 1. No capítulo 2, traçamos o panorama do ensino da escrita no Brasil. Discutimos sobre as influências teóricas presentes nos documentos oficiais como o conceito de ZPD de Vigotski, que compreende a zona de trabalho com as necessidades das crianças, tendo como base as possibilidades de aprendizagem, ou seja, o desenvolvimento potencial. Consideramos essa noção em nossa análise das necessidades discursivas nas produções dos alunos. Apresentamos, também, uma discussão com a teoria de ensino- aprendizagem da escola de Genebra, que também influenciou a criação dos PCNLP. Nessa parte mostramos, brevemente, a concepção do gênero textual, diferenciando- 134 a do gênero do discurso, com o intuito de justificarmos o nosso trabalho com essa última noção. Também, discorremos brevemente sobre algumas pesquisas que defenderam o ensino da reescrita como prática reflexiva e processual, para, em seguida, apresentarmos a nossa concepção da reescrita como prática dialógica, a qual aborda também a ideia de reflexão e processo. Nessa seção retomamos, ao fim, os aspectos teóricos da teoria bakhtiniana presentes na reescrita, os quais moldaram a nossa concepção dessa prática. Como dito, esses aspectos constam no capítulo 1 faz parte do nosso primeiro objetivo, o qual busca responder a questão: 1. Quais os aspectos da teoria bakhtiniana estão visíveis na prática de reescrita? No estudo da obra bibliográfica do Círculo de Bakhtin pudemos compreender o funcionamento da linguagem para a construção de sentidos, pois a filosofia bakhtiniana busca apresentar isso, mediante o estudo dos aspectos, segundo a teoria, inerentes à linguagem. Esse fato casou com a nossa concepção da escrita, que, a nosso ver, é uma maneira de praticar a linguagem, portanto, compreendemos que a reescrita, um procedimento da escrita, é um trabalho reflexivo da linguagem. Por isso, foi possível percebermos os construtos teóricos de Bakhtin nessa prática. Desse modo, concluímos que na prática da reescrita identificamos o dialogismo, o aspecto primordial da linguagem, no qual todos os outros aspectos se inserem. Ele caracteriza a reescrita como momento em que o aluno reflete sobre os enunciados dos outros e a partir deles constrói os seus próprios com o intuito de apresentar respostas ativamente responsivas. O que caracteriza a presença, também, dos aportes teóricos compreensão ativa e atitude responsiva ativa. Esses aspectos estão ligados a constituição do sujeito-autor, o qual se desenvolve na prática reflexiva da reescrita. Notamos, então, a construção da autoria, conforme Bakhtin, caracterizada pela atitude criadora do aluno, advinda da compreensão ativa. Outro aspecto presente na reescrita é o ato estético. Esse significa a organização das ideias axiológicas em determinado gênero do discurso. Na prática de reescrever, o aluno preocupa-se em organizar as suas apreciações valorativas, tendo em consideração as particularidades do gênero e, também, buscará escrever 135 de maneira que o seu destinatário compreenda. Isso leva-nos a outro aspecto, a exotopia. Essa está relacionada ao excedente de visão que o aluno tem sobre a sua própria produção, ou seja, ele compreende o que é necessário melhorar porque nas atividades reflexivas ele construiu um novo olhar, isto é, um olhar outro sobre o próprio texto. Esse movimento só será possível, caso o professor crie atividades que deem suporte para os alunos trabalharem com suas necessidades. E, para verificação das necessidades, o professor precisa analisar as produções dos alunos e só depois criar as atividades baseadas nelas. Em nosso percurso metodológico percebemos isso, então, optamos por analisar as produções conforme a teoria bakhtiniana, assim, esse tipo de análise passou a compor os nossos objetivos e buscou responder a segunda questão: 2. Como seria uma análise reflexiva sobre a produção de texto dos alunos, considerando a perspectiva bakhtiniana? Conforme dito no capítulo 4, foi necessário nos colocarmos na posição dialógica para percebermos quais eram as necessidades discursivas dos alunos. Essa posição não nos levou a dialogar somente com as produções, mas também com os aportes teóricos do Círculo de Bakhtin apresentados no capítulo 1. Nesse diálogo, percebemos que os conceitos bakhtinianos estão interligados uns com os outros, de maneira que ao falar de um é difícil não remeter ao outro, isso faz parte da unicidade da linguagem. Dessa forma, decidimos escolher alguns aspectos que remetessem aos outros conceitos, para, então, organizarmos nossa análise por categorias. Como vimos no capítulo 3, escolhemos analisar pelas categorias gênero do discurso e atividade estética; a compreensão ativa e a atitude responsiva; autoria. No decorrer da análise, percebemos que, por causa do nosso recorte discursivo, essas categorias de análise estavam ligadas ao aspecto axiológico da linguagem. E começamos a compreender que trabalhar com o discurso é trabalhar com as apreciações valorativas dos outros e, no caso das produções, era a análise das posições de valor dos alunos. Compreendemos que se fizéssemos atividades nas quais buscássemos o aprimoramento das ações dos alunos em nossas categorias de análise, estaríamos 136 levando-os à construção de valores, isto é, à formação de um sujeito-autor reflexivo e crítico. Concluímos, então, que, nas atividades reflexivas, os alunos teriam a oportunidade de construir criticamente suas valorações. Com essa perspectiva, buscamos responder a nossa terceira questão: 3. Quais atividades reflexivas para a preparação do momento de reescrita a análise suscitaria? Como vimos desenvolvendo, a análise, mediante as categorias escolhidas, mostrou a necessidade discursiva dos alunos na construção da axiologia em questão de posicionamento crítico. Por isso, optamos por atividades reflexivas nas quais os alunos fossem impelidos a constantemente refletir sobre os dizeres dos outros, à proporção que construía o seu próprio. Criamos situações nas quais a prática dialógica era constante como em atividades de leitura e discussão em grupos, debate e entrevista. Essa abordagem foi dada porque concordamos com a teoria bakhtiniana que, embora os sentidos sejam infinitos, ele só se atualiza no contato com outro sentido, isto é, o sentido do outro. E os sentidos devem sempre entrar em contato com outros sentidos para, então, revelar “os novos momentos de sua infinidade” (BAKHTIN 2000[1970-71], p. 386), logo, para construção dos discursos há necessidade do contato com o outro. Ademais, as atividades constituíram o primeiro momento dessa prática dialógica, pois ela continuaria na reescrita. Quando o aluno teria que dialogar com os comentários feitos pelo professor e com as discussões feitas em aula para, então, responder ativamente. Bem como o estudante dialogaria com os dizeres outros, levando-os à composição do seu discurso. Com essas ideias é que criamos as atividades. Conforme dito no início desta pesquisa, defendemos o trabalho reflexivo do professor que adapta os métodos de ensino-aprendizagem da escrita, considerando as condições das necessidades dos alunos, afinal, não existe uma “receita” que possa atender às particularidades da aprendizagem de cada aluno. O que tentamos mostrar aqui foi esse trabalho reflexivo que, diferente de aplicação de métodos, constituiu-se em aplicação de uma teoria, de um modo não prescritivo. 137 A nosso ver, esta pesquisa, embora findado os nossos dois anos de Mestrado, apenas teve o seu começo. Acreditamos que ainda há muito por descobrir e criar, tendo a teoria do Círculo de Bakhtin como suporte, pois essa teoria, tal como ela é, ainda não foi integralmente utilizada para o ensino da escrita. O que fizemos aqui corresponde apenas a um suspiro que persiste. Como as atividades criadas não foram aplicadas, temos a consciência de que em sala de aula elas sofreriam alterações. As mudanças seriam necessárias, por causa da prática de sala de aula ser guiada pelo contexto. Gostaríamos ter tido tempo para aplicá-las e unir teoria e prática, mas aguardaremos a nossa próxima oportunidade. Quem sabe quando formos para sala de aula. Por hora, esperamos que esse trabalho contribua para a reflexão do professor sobre a necessidade de um ensino reflexivo da escrita com o foco na reescrita e indicamos a teoria bakhtiniana como um elemento no qual o professor pode refletir sobre muitos fatores como a sua condição humana e a dos seus alunos; a sua prática metodológica e pedagógica do ensino da língua materna. Essa teoria instiga o docente de LP a não ser somente um reprodutor dos dizeres alheios ou das metodologias que outros criaram, mas exige dele a resposta de um sujeito-autor ativo que filtre esses conhecimentos de acordo com a sua historicidade e, em se tratando do ensino de LP, com a historicidade de seus alunos. Isso é o que Bakhtin chama de tornar-se homem entre os outros, e o que chamamos de tornar-se professor entre os outros. 138 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGNOLINI, A. C. L. Em função da escrita: uma experiência com exercícios de análise linguística em sala de aula. Campinas, UNICAMP, 2007. (Mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem), do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, 2007. ALMEIDA. M. O. Refacção como ação pedagógica: o olhar do outro sobre o texto orienta a refacção? Campinas, UNICAMP, 2001. 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