PROFESSORAS NEGRAS NO RIO DE JANEIRO: HISTÓRIA DE UM BRANQUEAMENTO Maria Lúcia Rodrigues Muller (UFMT/PENESB) Luciana Vianna (PENESB) PENESB (Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira) Este trabalho procura demonstrar que havia professoras negras no magistério público do Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal) durante a Primeira República. Esse estudo faz parte do Eixo Temático O Negro na Educação Brasileira: história e memória do Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira (PENESB)/ESE da Universidade Federal Fluminense, do qual a autora principal é pesquisadora associada. A pesquisa foi financiada pela Fundação Ford. Deve-se ressaltar que a pesquisa possibilitou ampliar um pouco mais o conhecimento sobre a classificação “racial” dos brasileiros nesse período histórico. Mais adiante se busca também demonstrar que a falta de sobrenome ou a presença de determinados sobrenomes denotavam a marca de um passado de escravidão. Foi utilizado o método da pesquisa documental, levantando material de arquivo e privilegiando fontes primárias. Contudo, na medida do necessário foram utilizadas outras fontes da época, tais como literárias, fotográficas, periódicos e outras. As fontes documentais utilizadas foram os acervos do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), especialmente os arquivos da Instrução Pública, os acervos do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (antiga Escola Normal) e da Biblioteca Nacional. Também foram investigados os acervos iconográficos encontrados no AGCRJ; acervos de periódicos, jornais da época e boletins da Prefeitura do Distrito Federal, etc, encontrados na Biblioteca Nacional e no AGCR. De igual maneira, verificou-se a necessidade de pesquisar as mudanças na legislação educacional do Município e a legislação sobre registro civil. Procurou-se trabalhar com os referenciais teórico-metodológicos da História das Mentalidades, especialmente àqueles que abordam a construção da história dos “excluídos da história” (Perrot, 1988). É difícil precisar qual é a “cor” daqueles que aparecem nos acervos documentais apesar da Lei do Registro Civil, de 1989, determinar o registro da cor na certidão de nascimento. Ainda que seja difícil precisar a cor das professoras nesse período, não é tarefa impossível se transformamos essa dificuldade em um problema histórico (Mattos, 1998). Trata-se de buscar todos os fiapos de informação e juntá-los em mosaicos de evidências até esse verdadeiro “quebra-cabeças” apresente um quadro minimamente coerente. 2 Uma palavra precisa ser dita com relação à forma escolhida para a apresentação do material de campo. Optou-se por ilustrar, sempre que possível, as análises realizadas com citações, por vezes extensas, das fontes escritas e iconográficas. Essa opção deve-se à necessidade de colocar em discussão e apresentar evidências suficientes de uma das questões principais desse trabalho a “cor” das professoras primárias do Distrito Federal. Heterogeneidade étnica e cultural – os debates das elites – a solução do branqueamento Desde meados do século XIX as elites brasileiras preocupavam-se com o futuro do país, dado nossa heterogeneidade étnica e cultural. Essas elites eram influenciadas pelas teorias racistas, européias e norte-americanas, então em voga, que postulavam uma hierarquia entre as raças e colocavam nos patamares mais baixos dessa hierarquia os povos orientais e negros. No final do século XIX, chegava-se a uma solução conciliatória: o Brasil deveria aspirar ao progresso “branqueando” sua população. Para tal fazia-se necessário “importar” levas de trabalhadores europeus e, ao final de algumas gerações, com a miscigenação teríamos aqui uma nova raça branca, a “raça brasileira”. Tendo o Brasil uma população predominantemente negra e indígena –“mais atrasada” e “mais inferior”- suas possibilidades de construir a modernidade e o progresso diziam, eram praticamente nulas. O argumento da suposta inferioridade do brasileiro estava presente na maior parte das discussões, sobre quaisquer assuntos. É o caso de Pinheiro Guimarães (1907) quando deblaterava contra os concursos públicos para professores. Mas, infelizmente, contra a simplicidade do texto levantam-se objeções inamoldaveis pela rijeza do escudo que as protege –o mesclado fundo africano e de índio que na alma brasileira imprimiu o cunho dominador da superstição. Sim; a superstição do vocábulo, espécie de feiticismo ou, antes, feiticismo da pior espécie, que nos possuímos- a adoração irracional das aparências, das fórmulas cabalísticas, do culto externo, dos acessórios, das roupagens-(...) vendando perniciosamente os mais clarividentes espíritos que, cegos por ela, se embrenharam pela viela tortuosa da incoerência atestada por fatos que desmentem palavras; ela ordena concursos.(...) Abolida a escravatura, não se cogitou na formulação de políticas que integrassem deliberadamente os ex-escravos à sociedade nacional. Os primeiros anos da República foram, então, um período de intensos debates sobre como deveriam ser os caminhos da modernidade e do progresso para o país. Aos poucos, a escola passa a ser o espaço preconizado para a criação do povo brasileiro, uma vez que essas mesmas elites pensavam que até então não tínhamos um povo e sim um aglomerado de populações. 3 A “cor” das professoras do Distrito Federal nos primeiros anos do século XX Dado o pequeno número de homens no magistério carioca no início do século XX (Muller,(a) 1999, p. 104) será utilizado o termo professoras na maior parte desse trabalho. As fontes documentais que identificavam as professoras eram certidões de nascimento e batismo e certificados de vacinação. No AGCRJ encontrou-se cerca de 1.048 requerimentos para inscrição em concursos públicos para provimento das cadeiras de professores adjuntos. Esses requerimentos, quase sempre vinham acompanhados de certidões de nascimento ou batismo dos candidatos. Na verdade os candidatos homens eram em número reduzido. A maioria das inscrições masculinas foi realizado no ano de 1915 (influência da guerra? Perigo de alistamento compulsório?). Nos batistérios, invariavelmente, não constava o quesito cor, com a exceção de dois deles. Não estava preenchido o quesito cor em 71,75% das certidões de nascimento. Constava a cor “branca” em 26,6% das certidões e, em 3% das mesmas constava a cor morena ou parda. Como foi dito anteriormente, apesar de ser obrigatório o registro da cor nos registros civis, freqüentemente isso não acontecia. Essa inexistência do assentamento da cor em quase três quartos das certidões de nascimento dos candidatos aos concursos pode ser explicada pela hierarquização racial construída no Brasil ainda antes da abolição do cativeiro. Como demonstra Mattos (op. Cit., 98) “A noção de ‘cor’ herdada do período colonial, não designava, preferencialmente, matizes de pigmentação ou níveis diferentes de mestiçagem, mas buscava definir lugares sociais, nos quais etnia e condição estavam indissociavelmente ligadas.” Essa autora apresenta inúmeras evidências que a ‘cor” denotava um lugar social. O cativo tendo obtido de alguma maneira sua alforria, imediatamente mudava de cor. Negro e Preto era a ‘cor’ do escravo, era como se denominava o escravo. Ao adquirir o status de homem livre passava a ser registrado como pardo. Possivelmente, parte dos pais dessas crianças que, posteriormente, viriam a se candidatar aos concursos, eram homens e mulheres negros livres. Seus filhos seriam, no máximo, ‘morenos’ ou ‘pardos’; ou, quando não, a ‘cor’ não se faria presente. Ademais, esses pais ocupavam de fato uma posição social razoável. Eram brasileiros, pequenos funcionários públicos ou trabalhadores qualificados. Embora houvesse um número razoável de mães “agregadas” na casa do pai da criança. Não é de estranhar que a maioria dos pais dos candidatos fossem oriundos dos extratos superiores das camadas trabalhadores ou pertencentes à pequena classe média do Rio de Janeiro1. Sendo o 1 No entanto, aproximadamente 20% dos pais dos candidatos declaravam-se doutores ou comerciantes. 4 magistério uma profissão que exige de seus membros um mínimo de escolaridade, mesmo nesse período e em concursos para professores adjuntos, é explicável que as famílias das requerentes tivessem um mínimo de condições econômicas para prover seus estudos. Os requerimentos observados são respectivamente dos anos de: 1911, 1912, 1913, 1914, 1915, 1916, 1920, 1921, 1928, 1929 e 1931. Nos outros anos deste intervalo de tempo, não se encontram requerimentos, provavelmente por não ter havido concursos que, apesar de obrigatórios por lei, nem sempre aconteciam. O requerimento é um documento onde o candidato solicita sua inscrição no concurso. Nele são anexados documentos de identificação como: certidão de nascimento ou outro documento de mesmo teor (certidão de cartório, atestado de batismo, pública forma, escritura de perfilhação), atestado de vacinação ou revacinação e memorial. O quesito cor nas certidões de nascimento nem sempre era impresso no formulário, quando aparecia, seu preenchimento, ou não preenchimento, dependia do escrevente, do cartório que, por sua vez, deveria reproduzir as palavras do declarante. Pode-se observar que o mesmo poderia ou não aparecer em certidões do mesmo período. Na realidade cada cartório possuía um modelo específico de certidão, ou seja, o formulário não era exatamente igual para todos os cartórios como é hoje. Os atestados de vacinação e revacinação nem sempre trazem o item "cor". Eles foram encontrados com mais freqüência nos anos de 1920 e 1921. Nem todos os requerimentos traziam anexados um atestado de vacinação. Ainda assim, o preenchimento do item "cor" dependeria da pessoa que estivesse "do outro lado da mesa". Ou seja, atestados de vacinação de um mesmo requerente, dependendo do ano em que foram feitos e da pessoa que os preencheu, poderiam apresentar informações diferentes. Por exemplo: Coaracy de Siqueira Amazonas, nascida em Niterói, tinha na certidão de cartório de 1918 (cópia da certidão original) que sua cor era branca segundo a declaração de seu pai (funcionário público). No entanto, no atestado de vacinação de 1920 sua cor aparece como morena. Mais tarde, em outro atestado de vacinação (1921) sua cor aparece branca novamente. Sua irmã, Nair Siqueira Amazonas, candidata ao concurso de 1920, aparece no atestado de vacina como morena. Esses exemplos mostram que preencher ou não o dado "cor" dependia dos interesses em questão e, principalmente da condição ou das relações sociais dos pais ou do jovem –caso dos atestados de vacinação-. Dependendo desses fatores, a ‘cor’ poderia ser clareada, caso de ‘morenos’ e ‘pardos’, ou omitida. Ao contrário das certidões de nascimento as certidões de batismo não possuíam o campo cor a ser preenchido. No entanto, duas delas faziam a referência a cor no texto escrito 5 pelo pároco, "no dia...pus os santos óleos em "Fulano pardo" ou "Fulano branco”. O mesmo pároco que escreveu as declarações de cor, acima mencionadas, nas duas certidões de batismo havia preenchido várias outras, anexas nos requerimentos, e em nenhuma dessas havia preenchido a cor das crianças batizadas. Teria pretendido esse pároco ao registrar a ‘cor’, o que não era nem um pouco comum nos batistérios, ressaltar o lugar social ocupado pelos pais dessas crianças? É possível suspeitar da existência de outros não brancos, entre os candidatos aos concursos de professor adjunto, quando se observa a os sobrenomes, ou a ausência dos mesmos, dos avós dos requerentes. Durante a pesquisa, descobriu-se que ‘Silva’, ‘Jesus’, ‘Santos’, ‘Nascimento’, ‘Conceição’, por exemplo, eram sobrenomes de pessoas negras, brasileiros ou africanos. No AGCRJ pode ser encontrado o livro que traz os resultados do Censo Municipal de 1906. Esse livro traz, ao final, uma lista com 182 centenários cariocas. Segundo a apresentação, cidades importantes como Paris e Buenos Aires quando realizaram os Censos de suas populações procuraram resgatar os centenários que ali viviam. Com o Rio de Janeiro “não podia ser diferente”, o Censo de 1906 também apresenta uma síntese da vida dos “centenários” de acordo com relatos de pessoas próximas a eles ou até mesmo do próprio recenseado, que apesar da idade avançada, possui recordações e boa memória que permitem perceber a veracidade de sua idade através de uma relação entre a vida do recenseado e fatos históricos. Vários deles foram fotografados, uma boa parte dessas fotografias eram de centenários ou centenárias de pele negra. Pelas fotografias pode-se estabelecer a relação entre ‘cor’ e sobrenomes ou ausência de sobrenome e, mesmo, no caso de alguns, o passado de escravidão. Em seguida, transcreve-se os nomes de alguns desses centenários que tiveram sua foto publicada e um resumo de sua biografia tal como foi publicada nos resultados do Censo de 1906. “Maria da Conceição: com 100 anos de idade, solteira, brasileira, analfabeta, nasceu no Rio de Janeiro”. “Benedicto dos Santos: com 100 anos de idade, solteiro, brasileiro, analfabeto, profissão ignorada, recenseado na rua Aqueduto nº 65. Nasceu em Pernambuco e depois veio para o Rio de Janeiro, ficando algum tempo no município de Santa Maria Magdalena. Sempre trabalhou na lavoura.” “Thereza de Jesus: com 120 anos de idade, solteira, africana, analfabeta, foi na rua Bom Jardim nº 110. Veio para o Brasil com 3 anos de idade. Leopoldina Damasceno: com 100 anos de idade, viúva, africana, analfabeta, recenseada na rua Dr Rego Barros nº 39, na Gamboa. Nasceu no Congo e chegou ao Rio de Janeiro com 5 anos de idade.”Deolindo do Nascimento: com 100 anos de idade, solteiro, brasileiro, analfabeto, profissão ignorada, foi recenseado na rua Benedicto Hypolito nº 65”.”Anna da Silva: Com 120 anos de idade, viúva, brasileira, analfabeta, foi recenseada na Rua da Alegria nº 41. Nasceu na ilha de Itacurussá, no Rio e ali casou-se””Fernando Felix do Espírito Santo: Com 101 anos de idade, solteiro, brasileiro, analfabeto, operário, foi 6 recenseado na Rua da Alegria nº 36. Nasceu na Bahia e veio para o Rio com 40 anos. Além de serviços domésticos, exercia, nas suas horas vagas, o ofício de sapateiro.” “Domigas Rosa: Com 110 anos de idade, solteira, africana, analfabeta, foi recenseada na rua Miguel Cervantes (casa) s/nº (barracão)” “Catharina Rosa: Com 100 anos de idade, brasileira, analfabeta, foi recenseada na rua Souza Franco nº 72. Contudo, vários desses centenários, africanos ou brasileiros, negros, tinham sobrenomes diferentes daqueles citados acima. São exemplos disso, Lucrecia Borges; Domingas F. Vieira; Feliciana do Amaral; Aniceto Andrade; Manoel Valente da Silva, etc. Nomes e sobrenomes a merecer uma outra pesquisa e uma outra discussão. Outro aspecto que merece ser assinalado é o eufemismo, para o passado de escravidão. Segundo o livro, o africano “veio” para o Brasil. “Nasceu no Congo e ‘veio’ ´para o Brasil com três anos.”, por exemplo. Nada se escrevia sobre o passado de violência e opróbrio vivido pelo recenseado ou recenseada. Cotejando-se os sobrenomes dos centenários com os sobrenomes dos avós dos candidatos foi possível encontrar a ascendência africana de um razoável número de professores que tiveram sua ‘cor’ omitida nos documentos. Em seguida são transcritos alguns dados referentes aos avós dos candidatos e a ‘cor’ dos mesmos tal qual encontradas nos documentos de identificação. Essa transcrição tem por objetivo facilitar ao leitor entender o processo utilizado para, pelo menos, questionar o não registro da ‘cor’ em tantas certidões de nascimento. Para facilitar a compreensão o nome do candidato aparecerá sublinhado. Só serão transcritos os dados sobre alguns daqueles cujo documento de identificação não consta a ‘cor’, ou que consta a ‘cor branca’.Como será possível observar, cruzando os sobrenomes ou a ausência de sobrenomes dos ascendentes, principalmente avós e mães, aumenta muito o número de professores negros no magistério do Rio de Janeiro. Dos 71 % de candidatos, que apresentaram certidões de nascimento sem o registro da ‘cor’, em 23,8% não consta o nome dos avós. Avós sem sobrenome, ou com sobrenomes como Jesus, Conceição, etc, eram 14%. Os avôs com sobrenome, junto com avós que não o tinham eram 9,5%. Antonio Correa Jorge da Cruz; Cor: Branca; Nascimento: 31/07/1899; Avós paternos: Domingos Homem Jorge da Cruz e Maria Ignacia de Jesus; não constam os avós maternos.Benedicta da Conceição: Nascimento: 17/02/1889.Certidão de batismo: na filiação só há referência a figura materna: Rita da Conceição. Bernadina Vicente da Silva: Cor: não consta; Nascimento: 23/07/1891 Local: Capoeiras, Campo Grande/RJ. Filiação: João Vicente da Silva e Maria Francisca da Conceição. Avós paternos: Francisco da Silva e Maria Ignacia de Jesus. Balduino Foster da Costa. Cor: não consta. Nascimento: 07/02/1891. Filiação: Thereza Maria de Jesus, o pai é ignorado. Avó materna: Maria Joaquina de Jesus. Carmelita 7 Bezerra Antunes. Cor: não consta. Nascimento: 05/04/1891. Local: Venda das Pedras, Itaborai/ RJ. Avó paterna: Bernarda Rosa da Conceição. Avó materna: Ceciliana Maria da Conceição. Camillo Mallio. Cor: branca. Nascimento: 28/03/1902. Filiação: Antonio Mallio e Carolina "de tal" (é assim que o nome da mãe aparece na certidão). Avós paternos: Vicente Mallio e Luiza Mallio. Avós maternos: Não consta. Isaura dos Reis. Cor: não consta. Nascimento: 09/09/1889. Filiação: José Rufino dos Reis e Rita dos Santos.Avós: não aparecem. Izaura Maria da Conceição. Cor: branca (Certidão de nascimento e atestado de vacinação). Nascimento: 02/01/1896. Filiação: Rita Maria da Conceição. Não constam nome do pai ou dos avós. Imagens: as fotografias escolares No setor de iconografia do AGCRJ podem ser encontradas fotografias de festividades escolares ocorridas no Distrito Federal, assim como fotos de prédios escolares e de obras municipais. As fotos das festividades escolares são importantes por serem elementos de prova da existência das professoras negras. Nem todas estão datadas. Pelas vestimentas das pessoas pode-se supor que as fotografias foram tiradas a partir da década de dez (1910) em diante. Ademais, o acervo iconográfico sugere que as fotos conservadas são aquelas que demonstram a presença do poder público municipal no cenário da cidade. Seja porque estava construindo novos equipamentos sociais, como a construção de escolas, seja porque estava modificando a topografia urbana, alargando ou construindo ruas e avenidas. Sendo assim, esse tipo de intervenção começou a ser documentada a partir da década de dez, pelo menos é o que dizem as fotos em que constam datas. Contudo, encontrou-se duas fotos anteriores ao ano de 1910. Uma de 1906 que retrata um pequeno grupo de professoras (uma delas, negra). E a outra, também de 1906, retrata a festa do aniversário do Prefeito no pátio da Prefeitura do Distrito Federal, ali estão uns grupos de populares. Aparentemente ainda não se cogitava da presença de escolares nesse tipo de festividade. Deve-se ter em conta que a campanha civilista, liderada por Olavo Bilac, começou em 1916. Essa campanha, talvez, teria reforçado o entendimento da importância de se deslocar as festividades cívicas para o espaço escolar. Isto é, a partir desse período começa-se a entender que a escola pública primária deveria ser o espaço privilegiado para a construção da nacionalidade, da identidade e do sentimento nacional. Já na década de vinte era comum realizar-se as festas cívicas na escola. Os arranjos das fotos desse período sempre continham a bandeira nacional e às vezes uma outra bandeira, que supõe-se que fosse a bandeira do Distrito Federal ou do Estado do Rio de Janeiro. É provável que a presença do panteão nacional tenha a intenção de reafirmar a idéia da pátria e de seu símbolo, a Bandeira. 8 A “pose” dos fotografados sugere a existência de uma hierarquia entre os docentes que se denotava em pequenos detalhes, detalhes esses que se repetiam nas diferentes fotos. Quais as informações que trazem essas fotografias? Nos arranjos dos grupos, independente do objetivo da comemoração seja a festa da Bandeira, seja a comemoração da data da Independência do Brasil, via-se um grupo de mulheres, umas mais velhas, outras mais jovens, ao redor das autoridades. As crianças, quando aparecem, aparecem vestidas com roupas brancas uma delas, portando uma faixa bicolor, possivelmente verde-amarela. Qual teria sido o objetivo da cor desses trajes? O branco simbolizando a pureza? O futuro da pátria simbolizado pela presença das crianças? Vale ressaltar que era branca a epiderme das crianças retratadas nessas fotos comemorativas. Voltando às professoras, nas fotos algumas usavam chapéu e, vestiam roupas de mais qualidade. Essas aparentavam mais idade. É lícito supor que nesse tempo, como agora, o maior tempo no exercício do magistério implicava a ascender a degraus mais altos na carreira e, portanto, usufruir salários melhores.1 Em duas das fotos, justamente as professoras que aparentavam estar mais bem vestidas, inclusive usando chapéu, eram negras. Existem outras fotos onde mulheres negras também estão em posição de destaque. É o caso da inauguração do Grupo Escolar de Santa Cruz, em 1924. Contudo, não era tão evidente a posição delas como professoras. Nesse sentido só são referidas as duas fotografias citadas acima. Retomando a ‘cor’ Ao finalizar a investigação, pode-se afirmar que havia professoras negras no ensino público do Distrito Federal nas primeiras décadas do século XX. Eram moças de origem social humilde, filhas ou netas de ex-escravos. Os fragmentos de histórias de vida encontrados nos arquivos nos dizem que suas trajetórias de vida, especialmente as trajetórias de estudos e trajetórias profissionais foram marcadas por grandes sacrifícios. Levavam mais tempo para concluir o curso da Escola Normal. E, quando nomeadas efetivas, eram relegadas às escolas mais distantes, nos arredores da cidade. O discurso de Amélia Xavier paraninfa da turma de normalistas formandas em 1903 espelha a difícil vida das professoras no início do século XX: “Os anos do curso da Escola Normal representam um aprendizagem custosíssima. Entre as que o completam cada ano, haverá possivelmente quem poucos obstáculos tenha encontrado para vencelo, mas ha quem o percorra - e é grande a maioria- num ambicioso afã de aprender, e há também quem o perlustre, através de mil vicissitudes, encontrando a cada passo, anteposta ás suas aspirações, a difícil barreira de uma condição humilde e de uma precária 9 situação econômica. E há, finalmente, além dessas, as que não chegam, ou as que se retiram mal feridas.”2 O que se tentou mostrar nesse trabalho, dialogando com as diferentes fontes e transformando a dificuldade, da ausência da ‘cor’, em um problema histórico é que o magistério público do Distrito Federal teria aproximadamente 20% de professores negros, ou não brancos em vez dos exíguos 3% de professores, ‘pardos’ ou ‘morenos’ citados anteriormente. Provavelmente esses 3% eram compostos por aqueles que possuíam uma epiderme mais escura ou os que eram de famílias com menos recursos sociais. No início do século vinte, no Distrito Federal, havia um número razoável de docentes negras no ensino primário municipal. Paulatinamente foi diminuindo sua presença. Os dados obtidos apontam para a conclusão que a medida em que o ensino público foi sendo racionalizado, regulamentado, criaram-se obstáculos cada vez maiores para a presença de moças negras, tanto como professoras do Ensino Público Municipal quanto como alunas da Escola Normal. Inclusive com o desaparecimento do Curso Normal Noturno, em nome de uma pretensa maior qualidade pedagógica do curso diurno, que permitia às moças pobres trabalharem e estudarem. No caso do magistério, esses obstáculos impediram a essas moças o progresso profissional e mesmo o ingresso à carreira, sem que houvesse, aparentemente, alguma manifestação formal, escrita, de resistência à cor da pele das professoras ou das candidatas à Escola Normal. No final da década de vinte em diante tornava-se quase impossível o ingresso de moças “escuras” ao magistério público carioca.. No que se refere ao Distrito Federal, o acesso ao magistério público primário foi cada vez mais sendo restringido para aquelas moças que não tinham o fenótipo adequado (Muller(b), pp. 41-42, 1999). Como se a professora primária tivesse que ter a aparência física e social de uma nação que não existia na época nem existe hoje. . Os critérios dos exames médicos para ingresso à Escola Normal –posteriormente Instituto de Educação- mais pareciam um delírio eugenista, (Muller,(a), p. 145, 1999). Não é casual que quase não se veja alunas “não-brancas” nas antigas fotos do Instituto de Educação. Não aparecia mais a figura da “degeneração da raça” ou da “inferioridade de negros e mulatos”. Essas representações englobadoras, a partir daí, aparecem em outras entidades como “perfeição física” e “psicológica”. A discriminação racial, dessa forma, não 2 O discurso de Amélia Xavier retrata uma recém formada a par das discussões mais avançadas sobre o ensino e sobre as necessidades da sociedade brasileira. No entanto, até onde se pode observar, Amélia foi nomeada para uma escola suburbana (onde as professoras ganhavam menos e tinham menos prestígio) e lá ficou pelo menos grande parte de sua vida profissional. Seria ela uma das professoras negras? 10 foi institucionalizada. Manteve-se ao nível das relações, justificando hierarquias sociais e étnicas. Como assinala Lilia Moritz Schwarcz (1993, p. 247), “A raça se discute entre “pessoas” nos conflitos diários, na clínica médica, na personalidade das personagens dos romances científicos da época; a lei, entre “indivíduos”, ou melhor, entre os reduzidos cidadãos dessa grande nação que participam das esferas políticas decisórias, dos debates externos e diplomáticos. Assim, se as conclusões sobre a singularidade das espécies humanas, no Brasil, nunca constaram das leis ou dos documentos oficiais, conformaram um argumento freqüente nos debates que levaram à elaboração dessas mesmas medidas.” (grifos das pesquisadoras) BIBLIOGRAFIA CITADA: BARTHES, Roland, O Sistema da Moda. São Paulo: Editora Nacional, 1979. MATTOS, Hebe Maria, As Cores do Silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. (Coleção História do Brasil) MULLER, Lúcia, (a) As Construtoras da Nação: professoras primárias na Primeira República. Niterói: Intertexto, 1999. MULLER, Maria Lúcia, (b) Professoras Negras na Primeira República In OLIVEIRA, Iolanda, (coord.) Relações raciais e Educação: alguns determinantes (Cadernos Penesb, 1). Niterói: Intertexto, 1999 , pp. 21-68. PERROT, Michelle, Os Excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiros. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1988. PINHEIRO GUIMARÃES, O Ensino Publico. Rio de Janeiro: Typografia do Jornal do Commercio, 1907. SCHWARCZ ,. Lilia Moritz, O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. XAVIER, Amélia, Discursos Proferidos na Solemnidade da Entrega de Diplomas às Normalistas que Terminaram o seu Curso no Anno Escolar de 1903. Rio de Janeiro: Typ. Do Instituto Profissional, 1904. 1 O Ensino Público do Distrito Federal já contava com uma carreira docente organizada antes de 1920.