Artigo de Pesquisa
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Artículo de Investigación
Silva KL et al.
A INFLUÊNCIA DAS CRENÇAS E VALORES CULTURAIS NO
COMPORTAMENTO SEXUAL DOS ADOLESCENTES DO SEXO MASCULINO
THE INFLUENCE OF BELIEFS AND CULTURAL VALUES IN THE SEXUAL BEHAVIOR
OF MALE ADOLESCENTS
LA INFLUENCIA DE LAS CREENCIAS Y VALORES CULTURALES EN EL
COMPORTAMIENTO SEXUAL DE LOS ADOLESCENTES DEL SEXO MASCULINO
Kelanne Lima da SilvaI
Fernanda Lima Aragão DiasII
Carlos Colares MaiaIII
Dayse Christina Rodrigues PereiraIV
Neiva Francenely Cunha VieiraV
Patrícia Neyva da Costa PinheiroVI
RESUMO: Fatores culturais podem tornar os adolescentes vulneráveis às doenças sexualmente transmissíveis (DST). Estudo cujo
objetivo foi identificar as crenças e valores dos adolescentes do sexo masculino que influenciam seu comportamento sexual. Tratase de pesquisa qualitativa, com 15 adolescentes do sexo masculino, de 15 a 18 anos de idade, estudantes de uma escola pública
de Fortaleza, realizada entre os meses de novembro de 2007 e janeiro de 2008. Promoveram-se seis oficinas por meio da técnica
do círculo de cultura e aplicou-se a análise de conteúdo. Cumpriram-se os aspectos éticos e legais exigidos. A concepção cultural
masculina de que as mulheres são responsáveis pela saúde sexual do casal e de que o homem possui instintos sexuais e,
consequentemente, comporta-se promiscuamente é uma realidade. Portanto, há a vulnerabilidade às DST e a necessidade de
medidas educativas congruentes com o contexto cultural dos adolescentes.
Palavras-Chave: Cultura; adolescente; doenças sexualmente transmissíveis; educação em saúde.
ABSTRACT: Cultural factors can render adolescents vulnerable to sexually transmitted diseases (STDs). This study aimed to
identify the beliefs and values of male adolescents that influence their sexual behavior. It was a qualitative study of 15 male
students, from 15 to 18 years old, at a public school in Fortaleza, Ceará State, conducted between November 2007 and January
2008. Six workshops were held using the culture circle technique and content analysis was applied. All ethical and legal
requirements were met. The male cultural conception that the female partner is responsible for the couple’s sexual health and
that men have sexual instincts and consequently behave promiscuously is a reality. There is therefore a vulnerability to STDs
and a need for educational measures appropriate to the adolescents’ cultural context.
Keywords: Culture; adolescent; sexually transmitted diseases; health education.
RESUMEN: Los factores culturales puden tornar los adolescentes más vulnerables a las enfermedades de tansmisión sexual
(ETS). La investigación pretiende identificar las creencias y los valores presentados por los adolescentes varones que influyen
en su comportamiento sexual. Investigación cualitativa con 15 adolescentes varones de 15 a 18 años de edad, estudiantes de
una escuela pública de Fortaleza-CE-Brasil, realizada entre noviembre de 2007 y enero de 2008. Se promovieron seis talleres
con la técnica del círculo de la cultura, donde se aplicó el análisis de contenido. Se há cumplido los requisitos éticos y legales.
La concepción cultural de los hombres de que las mujeres son responsables por la salud sexual de la pareja y el hombre tiene
instintos sexuales, y por lo tanto se comporta de forma promiscua, es una realidad. Por lo tanto, hay la vulnerabilidad a ETS y
la necesidad de medidas educativas coherentes con el contexto cultural de los adolescentes.
Palabras Clave: Cultura; adolescente; enfermedades de transmisión sexual; educación en salud. I
Acadêmica de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Integrante do Projeto de Pesquisa: AIDS: Educação e Prevenção. Bolsista do Projeto de Pesquisa
Desmistificando Crenças e Valores de Adolescentes do Sexo Masculino em Favor da Prevenção de DST/AIDS. Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico
e Tecnológico/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Processo: 0006-00/2006 da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil.
E-mail: lany_lds@hotmail.
II
Enfermeira. Especialista em Enfermagem Clínica pela Universidade Estadual do Ceará. Mestranda do Curso de Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal
do Ceará. Integrante do Projeto de Pesquisa AIDS: Educação e Prevenção da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: [email protected].
III
Acadêmico de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Integrante do Projeto de Pesquisa AIDS: Educação e Prevenção. Fortaleza, Ceará, Brasil IVAcadêmico
de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, Ceará, Brasil.
V
Enfermeira. PhD pela Universidade de Bristol. Professora Adjunta da Universidade Federal do Ceará. Coordenadora do Projeto de Pesquisa A Tecnologia Educacional
e os Modelos de Educação em Saúde nas Ações de Enfermagem e Promoção da Saúde da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil. Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Processo: 409365/2006-8. E-mail: [email protected].
VI
Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora Adjunta da Universidade Federal do Ceará. Coordenadora do Projeto de Pesquisa Desmistificando crenças e valores
de adolescentes do sexo masculino em favor da prevenção de DST/AIDS. Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico/Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Processo: 0006-00/2006 da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: [email protected].
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Cultura e comportamento sexual de adolescentes
INTRODUÇÃO
O modo como o conjunto de crenças, valores e
costumes culturais dos adolescentes influencia seu
comportamento sexual é preocupante, uma vez que se
trata de um ser influenciável e experienciador de uma
diversidade de conflitos psicossociais oriundos do processo de enfrentamento das modificações biológicas e
de formação de identidade pessoal e social inerentes a
esse período denominado adolescência.
Vivenciar a sexualidade com um parceiro ou parceira é uma das experiências de maior repercussão na
vida do adolescente. É a descoberta do novo e um processo de experimentação pessoal fortemente influenciado por fatores sociais e culturais do grupo a que o
jovem pertence. Dentre estes fatores, há a diferenciação na maneira de interpretar e de viver a sexualidade
entre o homem e a mulher, conduzindo à necessidade
de discutir a questão de gênero quando o assunto é
sexualidade e relacionamento sexual1.
A descoberta das crenças e valores pelos adolescentes do sexo masculino que influenciam seu comportamento sexual é imprescindível à qualidade e
efetividade das intervenções realizadas pelas políticas
públicas e pelos profissionais de enfermagem em seus
vários cenários de atuação, pois, estatisticamente, a
maioria dos casos de infecção pelo Vírus da
Imunodeficiência Adquirida (HIV) ocorre em adolescentes do sexo masculino2. Além disso, os homens iniciam sua vida sexual precocemente, com várias parceiras, muitas vezes, sem o uso regular do preservativo masculino. Aumenta-se, assim, sua vulnerabilidade ao acometimento pelo vírus HIV e Doenças Sexualmente
Transmissíveis (DST), em especial por serem influenciados por um sistema de valores e crenças que defende a
dominação masculina e as desigualdades de gênero3,4.
Dessa forma, objetivou-se identificar as crenças
e valores dos adolescentes do sexo masculino que influenciam seu comportamento sexual, com foco nos
entraves culturais existentes que dificultam a preservação de sua saúde sexual.
REFERENCIAL TEÓRICO
Os aspectos sociais, culturais e econômicos característicos da vivência do homem devem ser questionados e analisados, pois o comportamento humano
está condicionado por fatores que demonstram os riscos e agravos à sua saúde5. Desse modo, crenças, valores e costumes permeiam o contexto de vida das pessoas e interferem na forma como elas se comportam
diante de situações de saúde-doença6-8.
Ante a influência cultural à qual a sociedade é
submetida, o homem e a mulher são levados a visualizar
o início e a continuidade na prática de relações sexuais
de maneira diferenciada. O homem tende a praticar o
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sexo precocemente, com o intuito de provar sua masculinidade heterossexual e sua autoafirmação como
homem, com várias parceiras e mantendo a diferença
entre sexo e amor. Em contrapartida, a mulher é orientada a postergar o começo do intercurso sexual e a
realizá-lo com parceiro em relacionamento estável1.
Meninos têm a primeira relação sexual muito cedo,
motivados pela atração física e com parceiras sem
vinculação afetiva. Outro aspecto a interferir são as decisões sobre a adoção do método contraceptivo, destacando-se a camisinha, porquanto seu uso está vinculado a
concepções segundo as quais o preservativo masculino
diminui o prazer no intercurso sexual, causa desconforto
na atividade sexual, provoca irritação vaginal e não é totalmente seguro em virtude do risco de rompimento4,9.
Assim, os rapazes têm um maior número de parceiras, começam a vida sexual cedo e até mesmo com
parceiras eventuais, motivados por crenças favoráveis à
soberania masculina. Isto pode sugeri-los a se idealizarem como fortes, imunes às doenças e incapazes de dispensar uma mulher por ter um desejo sexual
incontrolável e instintivo. Tais atitudes podem desencadear maior vulnerabilidade às DST e ao HIV/AIDS3.
Os homens também estão envolvidos com a contaminação heterossexual das mulheres e, consequentemente, de seus filhos mediante a transmissão vertical do HIV. A redução da incidência do acometimento
pelo HIV poderá ser efetivada por meio da mudança de
comportamento do homem, o qual deve ser sensibilizado e conscientizado cada vez mais cedo a assumir
comportamentos seguros e saudáveis e a desmistificar
crenças e valores10.
METODOLOGIA
Trata-se de pesquisa qualitativa que possibilita ao pesquisador conhecer o modo de pensar e agir das pessoas
diante de determinada situação11, além de poder incluir o
levantamento de opiniões, atitudes e crenças de uma população, sempre procurando descrever as características
de determinado grupo ou fenômeno12.
Como sujeitos da pesquisa, constaram 15 adolescentes do sexo masculino, na faixa etária de 15 a 18
anos, que já vinham participando das ações de educação em saúde desenvolvidas pelos acadêmicos de enfermagem integrantes do Projeto Aids: Educação e
Prevenção da Universidade Federal do Ceará.
O estudo foi realizado em uma escola estadual
adstrita à Secretaria Executiva Regional III da cidade
de Fortaleza/Ceará, em virtude de esta escola e seu grupo de funcionários possibilitarem a prática de atividades educativas com seus discentes por alunos integrantes do projeto de pesquisa citado anteriormente.
Para a coleta de dados empreendida entre novembro de 2007 e janeiro de 2008, utilizaram-se como insRecebido em: 06.10.2009 – Aprovado em: 16.01.2010
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trumentos e procedimentos a observação participante, o
registro dos achados no protocolo observacional e o círculo de cultura.
A observação é um método bastante utilizado para
investigar o contexto cultural de um grupo e alcança o
estádio de observação-participante quando há interação
do pesquisador com os participantes13,14.
Para registrar dados da observação adota-se o protocolo observacional, no qual se faz o registro detalhado
do conteúdo das observações no campo da pesquisa,
envolvendo a descrição do ambiente e as reflexões do
pesquisador, entre estas, suas observações pessoais, especulações, sentimentos, impressões e descobertas durante a fase de coleta de dados15.
Quanto aos círculos de cultura, também são usados
com a finalidade de promover a educação em saúde e possibilitar o diálogo aberto com os adolescentes sobre as
suas vivências diárias, além de permitir um aprendizado
rápido, contextualizando a realidade dos educandos em
todo o momento de construção coletiva do conhecimento. Com base nestes círculos, existe uma inter-relação
que proporciona liberdade e crítica acerca do assunto abordado nas oficinas, sobretudo por se tratar de um grupo
aberto ao diálogo, debate e trabalhar em conjunto16.
Em decorrência de sua metodologia, nos círculos de
cultura sobressai a figura do animador, cuja atribuição é
organizar e coordenar o grupo, mediante abertura de espaço para a participação dos educandos17. Dessa forma, o
círculo de cultura leva à conscientização do grupo sobre a
necessidade de adoção de medidas preventivas para reduzir a sua vulnerabilidade à infecção por DST e pelo HIV,
favorecendo o empoderamento dos adolescentes e, com
isso, a consequente mudança de comportamento18.
Como mencionado, desenvolveram-se seis oficinas, com duração média de uma hora e meia cada
uma, e processaram-se segundo o preconizado pela
Pedagogia Libertadora de Freire16,18, pois possibilitaram o diálogo entre alunos e pesquisadores, com
consequentes momentos de conscientização sobre a
temática em discussão e construção de um conhecimento adaptado ao meio social, econômico e cultural
no qual os adolescentes estão inseridos.
Obtidos os resultados, passou-se a analisá-los com
base na técnica de análise de conteúdo descrita por
Bardin19. Isto propiciou a discussão dos resultados segundo sua disposição em quatro categorias temáticas,
quais sejam: o valor do corpo feminino para os adolescentes, a percepção masculina acerca das mulheres, a
crença dos adolescentes em relação à definição do ser
homem e o comportamento sexual masculino.
Vale destacar que a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas da comunicação que visa obter, por
procedimentos sistemáticos e objetivos, a análise de
todo o conteúdo das mensagens e a expressão desse
conteúdo organizado em categorias20. Desse modo, cada
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categoria temática formulada representa um aspecto
cultural extraído das falas dos sujeitos, identificadas
pela letra A, de adolescente, seguida do número de
acordo com a ordem em que ele se manifestou.
Consoante exigido, a pesquisa respeitou todos os
aspectos legais e éticos preconizados pela Resolução no
196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Solicitou-se
autorização por escrito aos alunos e seus responsáveis
para participar do estudo através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido devidamente explicado aos jovens e a seus pais21. Ainda como exigido, a
realização de estudo foi autorizada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Ceará mediante emissão do protocolo de no 119/07.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise acurada dos achados obtidos após as
oficinas com os adolescentes possibilitou a formação
de quatro categorias temáticas discutidas a seguir.
O Valor do Corpo Feminino para os
Adolescentes
Durante as oficinas os adolescentes masculinos
se mostraram interessados em conhecer o corpo feminino em detrimento do próprio corpo. Eles demonstraram pouco conhecimento em relação ao crescimento e desenvolvimento puberal a eles inerentes por serem adolescentes, conforme a seguinte fala após a indagação sobre o conhecimento de algumas estruturas
do corpo masculino como: glândula seminal,
epidídimo, uretra, escroto, canal deferente.
Nunca nem ouvi falar nisso, aí. (A1)
Os participantes do estudo desconheciam algumas questões relacionadas a certas estruturas e aspectos hormonais do organismo feminino, apesar de mostrarem mais interesse e receptividade em discutir estes
assuntos com os facilitadores.
De modo geral, a fase da adolescência é conhecida por suas inúmeras modificações físicas e hormonais,
as quais permitiram aos adolescentes relacionarem a
adolescência com o aumento da altura, em estar mais
forte, o crescimento de pelos e voz grave.
Fiquei com espinhas, barba e pelos e fiquei mais forte. (A2)
Fiquei mais alto e crescimento de pelos pelo corpo. (A5)
Para os adolescentes, as alterações físicas mais perceptíveis são observadas no aumento do crescimento físico e no aparecimento e desenvolvimento de caracteres
sexuais secundários; as menos são as alterações fisiológicas e a maturidade neurogonadal, caracteres sexuais primários, acompanhadas pela capacidade de procriar. Os
caracteres sexuais primários são os órgãos internos e externos responsáveis pelas funções reprodutivas (p. ex.,
ovários, útero, mamas, pênis). Os caracteres sexuais se-
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Cultura e comportamento sexual de adolescentes
cundários são as alterações verificadas em todo o corpo
em decorrência de alterações hormonais (p. ex., alterações da voz, desenvolvimento de pelos na face e pubianos,
depósitos de gordura), mas que não desempenham função direta na reprodução22.
A Percepção Masculina acerca das Mulheres
Além disso, também se comentaram nas oficinas
as vantagens e desvantagens de ser mulher. Entre as
vantagens, mencionaram-se poder engravidar, sentir
emoções, ser respeitada e admirada e cuidar da casa.
Entre as desvantagens, respectivamente, sentir dor, ser
menos inteligente e poderem ser vítimas de violência.
Os seguintes depoimentos indicaram as vantagens de ser mulher:
A vantagem da mulher é que elas engravidam. (A2)
A vantagem de ser mulher é que ela é bem respeitada. (A4)
De sentir emoções, de dar à luz uma criança. (A9)
Ela pode passar o dia todo cuidando de casa enquanto
o marido trabalha. (A11)
Em relação às desvantagens, os depoimentos a
seguir são bem esclarecedores:
Porque as mulheres sentem muitas dores. (A1)
Ser frágil, ser delicada e menstruar. (A7)
As mulheres são menos inteligentes. (A9)
É que algumas mulheres são violentadas por seus maridos e mesmo assim continuam com eles. (A12)
As vantagens e desvantagens de ser mulher estão associadas à ideia de que o homem é forte, inteligente, imune às doenças, impetuoso e exposto a menos riscos3, ou seja, o inverso das mulheres. Este discurso traz à tona aspectos da dominação masculina
ainda arraigada na cultura brasileira.
Outro aspecto evidenciado também vinculado à
cultura machista e possível de comprometer a saúde do
homem, em virtude de expô-lo a comportamentos de
risco a sua saúde, é a gravidez, pois é a mulher que
engravida. Cabe-lhe, então, saber o momento certo e
assumir a responsabilidade de conhecer, escolher e usar
o método contraceptivo. Dessa forma, o homem excluise da responsabilidade e participação nas questões de
saúde sexual e reprodutiva.
Esta ideia de ser o cuidado da saúde sexual e
reprodutiva atribuição da mulher foi bastante ressaltada nas respostas dos adolescentes por ocasião do
questionamento sobre de quem é a função de realizar
estas ações, como mostram as falas:
Deve planejar a gravidez. (A7)
Deve conhecer os métodos contraceptivos. (A8)
Deve escolher o método contraceptivo. (A9)
Deve usar um método contraceptivo regularmente. (A10)
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Os contextos social, cultural e institucional presentes na vida dos adolescentes juntamente com as
questões de gênero, quase sempre estão pautados na
dominação masculina e demonstram diferentes aspectos entre o comportamento do adolescente do sexo
masculino e o do feminino. Estes aspectos devem ser
considerados nas ações de promoção da saúde dessa
faixa etária2,23-25. Nas atividades realizadas na oficina,
alguns adolescentes que no início expressaram ideias
totalmente machistas, no final mudaram de opinião,
como citado a seguir:
Tudo que o homem pode a mulher também pode. (A2)
Acho que tudo que o homem faz, a mulher também é
capaz de fazer. (A3)
Homem pode tudo e mais um pouco, mulher também. (A4)
A Crença dos Adolescentes em Relação à
Definição do Ser Homem
Conforme identificou-se, a hegemonia masculina
permeia os pensamentos dos adolescentes, refletindo-se
no conteúdo de suas respostas quanto às vantagens de ser
homem de acordo com o apresentado nas falas:
Não sentem dor, só as mulheres sentem. (A1)
A vantagem de ser homem é que não engravida. (A5)
O homem é mais inteligente e tem mais chance no mercado de trabalho. (A8)
Não fazer tarefas domésticas. (A7)
Nesses trechos pode-se destacar um aspecto dominante na cultura brasileira: o machismo26.
Ele pode influenciar o comportamento sexual,
sobretudo mediante a crença de ser o homem historicamente considerado mais potente sexualmente do que
a mulher. Enfatiza-se sua virilidade27 e também o fato
segundo o qual a infidelidade masculina é aceita socialmente, enquanto a fidelidade é uma norma cobrada
apenas para as mulheres28.
Em relação às desvantagens de ser homem, os
adolescentes assim se pronunciaram:
Não existem desvantagens. (A3)
Ter que sair para trabalhar. (A7)
Procurar emprego. (A8)
Tem muitas responsabilidades. (A12)
Nestes depoimentos, observa-se a associação do ser
homem a um ser superior. Para eles, o único problema são as
exigências da sociedade, particularmente ao obrigá-lo a ser o
provedor e garantir o sustento da casa. Consequentemente,
ele é forçado a sair de casa para procurar emprego, trabalhar e
assumir muitas responsabilidades29.
O Comportamento Sexual Masculino
Historicamente, o homem é entendido como
possuidor, principalmente, de instintos voltados para
o sexo, justificando seu comportamento promíscuo e
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infiel. Tal comportamento pode ser visto no dia a dia e,
durante o desenvolvimento dessa oficina, percebeuse o quanto o machismo permeia a vida dos homens. Foi
possível, então, identificar aspectos machistas nos depoimentos dos adolescentes provenientes das características da cultura vivenciada por eles29, como mostram os seguintes pronunciamentos:
O homem pode ir para um cabaré e sair com várias
mulheres. (A5)
Se o homem trair a mulher ele é garanhão, já a mulher,
é galinha. (A6)
Desse modo, há necessidade de educar os adolescentes numa ação mais direcionada à cultura do grupo
e orientá-los sobre os riscos a que estão expostos, por
considerarem que para ser homem é preciso adotar alguns comportamentos passíveis de comprometer sua
saúde e consequentemente a da parceira e dos filhos.
CONCLUSÕES
Compreendeu-se que a cultura social de representar o homem como um ser dotado de fortaleza e
superioridade em relação à mulher transforma-o em
um ser frágil quanto aos cuidados de sua saúde sexual.
Associado a isso, o comportamento sexual caracterizado pela multiplicidade de parceiras sem o interesse
pelo uso do preservativo masculino deixa-o vulnerável ao acometimento por DST e exige dos profissionais de saúde e das autoridades medidas educativas
destinadas a conscientizá-los da exigência do cuidado
adequado à sua saúde sexual.
Inegavelmente, o conhecimento se constrói a
cada dia, é algo contínuo, requer busca constante por
parte de quem ajuda a ensinar e de quem está disposto
a aprender. Urge, portanto, a continuidade de trabalho educativo junto a esses adolescentes com vistas a
sensibilizá-los da necessidade de se prevenir e quem
sabe mudar comportamentos favoráveis à disseminação das DST/AIDS.
Como a primeira relação sexual geralmente ocorre na adolescência e a dos homens é mais precoce que
a das mulheres, as ações de educação em saúde envolvendo aspectos culturais relacionados ao gênero e à
sexualidade tornam-se relevantes para essa faixa etária.
É preciso, pois, orientá-los antes do primeiro envolvimento sexual na tentativa de reduzir comportamentos de risco.
Mudar comportamento é um processo lento. Assim, a melhor forma de minimizar os riscos a que eles se
expõem é conscientizá-los por meio de ações de educação em saúde direcionadas para esse público-alvo. Espera-se, dessa maneira, propiciar o seu empoderamento.
São visíveis e crescentes as carências de informação desse grupo etário. Diante disto, ele constitui um
segmento fundamental para atividades de promoção
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da saúde, em face da possibilidade de intervenções que
envolvam mudanças mais eficazes no estilo de vida e,
ao mesmo tempo, propiciem a formação de agentes
multiplicadores. Nesse sentido, as oficinas representam o ponto inicial de um processo a ser complementado pela família, pela escola, comunidade e por
políticas sociais. Com vistas a uma adolescência mais
conscientizada e segura, sugere-se a continuidade de
práticas educativas voltadas aos jovens, a exemplo do
proposto neste artigo.
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