UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTE DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS ANTONIO MARCOS DA SILVA OLIVEIRA A CARACTERIZAÇÃO DA PERSONAGEM MORTE NA OBRA: AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, DE JOSÉ SARAMAGO JOÃO PESSOA 2015 ANTONIO MARCOS DA SILVA OLIVEIRA A CARACTERIZAÇÃO DA PERSONAGEM MORTE NA OBRA: AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, DE JOSÉ SARAMAGO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa. Orientador: Prof. Dr. Arturo Gouveia de Araújo JOÃO PESSOA 2015 Catalogação da Publicação na Fonte. Universidade Federal da Paraíba. Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA). Oliveira, Antonio Marcos da Silva. A caracterização da personagem morte na obra: as intermitências da morte, de José Saramago./ Antonio Marcos da Silva Oliveira. - João Pessoa, 2015. 33f. Monografia (Graduação em Letras- Língua Portuguesa) – Universidade Federal da Paraíba - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Orientador: Prof.º Dr.º Arturo Gouveia de Araújo 1. Romance. 2. Personagens. 3. Morte. I. Saramago, José. II. Título. BSE-CCHLA CDU 82-31 ANTONIO MARCOS DA SILVA OLIVEIRA A CARACTERIZAÇÃO DA PERSONAGEM MORTE NA OBRA: AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, DE JOSÉ SARAMAGO Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa. Trabalho de Conclusão de Curso aprovado em 23/01/2015 Prof. Dr. Arturo Gouveia de Araújo (orientador) Profa. Dra. Vanessa Neves Riambau Pinheiro (1º examinador) Profa. Dra. Ana Cláudia Félix Gualberto (2º examinador) JOÃO PESSOA 2015 RESUMO O presente trabalho objetiva discutir a caracterização da personagem “morte” no romance As Intermitências da Morte (2005), do escritor José Saramago. Para tanto, esta monografia se divide em três capítulos. No primeiro capítulo, será descrita uma breve trajetória sobre a vida de José Saramago, principalmente no que concerne a sua vivência literária, envolvendo os acontecimentos políticos que se deram em Portugal sob a influência do salazarismo e suas conseqüências no campo literário. O segundo capítulo é composto pela fundamentação teórica, baseada no estudo teórico de E. M. Forster(1984) sobre: “personagem plana” e “personagem redonda” e suas características na narrativa. Com uma breve complementação teórica sobre a personagem, na abordagem de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes(1988). Palavras-chave: Saramago; romance; personagens; morte. ABSTRACT The present paper discusses the characterization of " death " character in the novel The Death Flashes (2005 ) , the writer José Saramago. Therefore, this monograph is divided into three chapters. In the first chapter, a brief history will be described on the life of José Saramago , especially with regard to his literary experience , involving the political events that took place in Portugal under the influence of Salazar and its consequences in the literary field . The second chapter consists of the theoretical framework , based on the theoretical study of E.M. Forster (1984 ) on: " flat character " and " round character " and its features in the narrative. With a theoretical complement on the character , the approach of Carlos Reis and Ana Cristina M. Lopes (1988 ) . Keywords: Saramago ; love story; characters ; death. AGRADECIMENTOS A todos que contribuíram nessa caminhada acadêmica. SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS.............................................................................9 1. UMA BREVE TRAJETÓRIA DE JOSÉARAMAGO....................................10 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA – CARACTERIZAÇÃO DA PERSONAGEM..................................................................................................13 2. 1 Análise da personagem morte: Sob a ótica de E.M. Forster....................19 CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................31 REFERÊNCIAS..................................................................................................32 9 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A princípio, vale ressaltar a importância do escritor José Saramago para o autor deste trabalho no que diz respeito a sua vida de leitor e sua forma de encarar a realidade. Foram muitas obras lidas. E, a cada leitura realizada, a necessidade de compreensão só aumentava. É com muita satisfação que apresentamos esse Trabalho de Conclusão de Curso, tendo como obra analisada um livro desse escritor português. O presente trabalho objetiva analisar a personagem “morte” no romance As Intermitências da Morte (2005). A princípio, será feita uma breve abordagem sobre a vida literária de Saramago, inserindo-a nos acontecimentos ocorridos em Portugal durante a ditadura salazarista, das décadas iniciais do Século XX até o início da década de 80, com o fim da ditadura salazarista. A abordagem dessa fase se faz necessária para a compreensão dos acontecimentos ocorridos na Literatura Portuguesa pós-revolução e, consequentemente, os rumos tomados por Saramago e sua reconhecida forma de escrever seus romances, contos, novelas etc. Após isto, começaremos a abordagem teórica sobre a caracterização da personagem, com um breve conceito, segundo os estudos de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, na obra: Dicionário de Teoria da Narrativa (1998), com o intuito de compreender a importância da personagem dentro da narrativa. Em seguida, a abordagem principal, no que concerne à teoria, dialoga com E.M.Forster, especificamente os conceitos de “personagem plana” e “personagem redonda”, em sua obra Aspectos do Romance (1969). Na caracterização da personagem morte no decorrer da narrativa, ressaltamos alguns pontos pertinentes da teoria de Forster, no que tange às terminologias “plana” e “redonda” e a uma adequada aplicação desses princípios à analise da obra. 10 “[...] a morte é a solução que a vida encontrou para continuar sendo vida [...].” José Saramago 1. UMA BREVE TRAJETÓRIA DE JOSÉ SARAMAGO José Saramago (1922-2010), escritor português, e conhecido mundialmente por muitas de suas obras, traduzidas em diversas línguas. Foi consagrado com o prêmio Camões em 2005, prêmio este considerado o mais importante da literatura de língua portuguesa. Em 1998 ganhou também o Prêmio Nobel de Literatura com a sua obra, Ensaio Sobre a Cegueira (1995), prêmio este conquistado pela primeira vez por um escritor de língua portuguesa. Suas obras são reconhecidas como uma luta contra o individualismo e a lógica do lucro. No cenário literário, Saramago é considerado um escritor tardio, mesmo tendo escrito seu primeiro romance no ano de 1947, intitulado de Terra do Pecado com traços do naturalismo-realismo, sob forte influência de Eça de Queirós. Três décadas mais tarde lançaria seu segundo romance chamado. Manual de Pintura e Caligrafia (1977). No intervalo entre os dois romances, foram escritos: contos, peças de teatro e poemas publicados em jornais, sendo Poemas Possíveis (1966) o de maior destaque. Sua atividade profissional nesse intervalo foi de crítico literário, diretor e redator de jornais, editor e tradutor, e no funcionalismo público. Alguns críticos apontam esta fase como o de preparação para sua forma de escrever seus romances, sendo a crônica muito utilizada em sua atividade jornalística, que posteriormente veio influenciar muitas de suas obras de cunho irônico, humorístico, de perplexidade e, acima de tudo, instrumentalizando a oralidade dentro da narrativa. Não poderíamos deixar de abordar o cenário político em Portugal nesse período, o qual exerceu grande influência na vida literária portuguesa e consequentemente em Saramago. Período este do Estado Novo (1933-1974), também conhecido como “salazarismo”, referência a Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970), um dos representantes mais importantes até os últimos anos da vigência do regime ditatorial, 11 que teve seu término em 25 de abril de 1974 com o movimento social chamado “Revolução dos cravos”. Esse período se inicia em Portugal, segundo a grande maioria dos historiadores, a partir do golpe militar de 28 de maio de 1928, com o apoio de quase todas as forças políticas portuguesas, com exceção do PRP que se encontrava no poder, do PCP, do Partido Socialista, do grupo Seara Nova, da CGT e da Esquerda Democrática. Seu objetivo primeiro era derrubar do poder o partido de António Maria da Silva, sob a bandeira de dar maior autoridade ao estado, manter a ordem e a tranqüilidade pública, gerar o crédito com confiança, reforma da vida política e regularização do orçamento do estado. Portugal passava por uma grande crise financeira, não diferente de outros países europeus do mesmo período. No entanto, após o golpe, muitas forças que compunham o bloco tinham idéias políticas divergentes, o que consequentemente causou muitas rupturas dentro da ditadura. Escândalos de corrupção, gastos públicos desnecessários e uma política financeira falha, que iria cada vez mais se distanciando dos objetivos propostos pelo golpe que justamente foi concretizado para combater todos os males do antigo governo, agravada pela crise. Diante disso, uma nova proposta política surge, encabeçada por Salazar que, em seu primeiro ano de governo, consegue estabilizar financeiramente as contas do Estado, propiciando uma reanimação econômica que teve como apoiadores grupos como: o republicano conservador, a direita radical e o Centro Católico. Inicia-se então a ascensão da ditadura salazarista que em 1933 começa sua repressão contra as forças de oposição. Muitos levantes ocorreram durante todo o período da ditadura salazarista. Entre estes, os dos escritores portugueses que, através de seus textos literários, denunciavam a truculência vivida e a censura imposta pelo estado. Por exemplo, Fernando Pessoa, em alguns de seus textos de 1926 a 1935, criticava a forma como Salazar conduzia o Estado português, bem como o que sucedera com as suas atitudes como se estivesse vendendo a alma do povo português. Foi quase meio século de ditadura salazarista vivida em Portugal e em países africanos colonizados, trazendo sérias conseqüências na vida literária sob a égide da censura, perseguição, exílios de escritores que radicalmente combatiam contra uma situação castradora da manifestação artística portuguesa. 12 Em 1974, Revolução dos Cravos liderado, por militares com grande adesão da massa, que pôs fim ao regime ditatorial. As consequências sociais e culturais após a revolução de 1974 foram inúmeras. Portugal saía de tempos violentos para tempos de liberdades que mudariam todo um processo de escritura, explanação que nos interessará no presente trabalho para uma melhor compreensão da literatura contemporânea portuguesa e, consequentemente, um entendimento da escrita saramaguiana. Uma nova organização editorial se fez presente com a promoção de entidades públicas ligadas a produção artística, oferecendo premiações literárias para os autores antes amordaçados pela censura. Esse processo de mudança de mentalidade na escrita da literatura portuguesa não apenas está ligado ao pós-1974, mas, decorre de todos os escritores que vivenciaram e foram partícipes das mudanças de todo século XX, buscando uma nova forma lusitana de escrever. Muitos foram os textos que abordaram o tema da ditadura na pós-revolução, e a literatura não ficou as margens dos acontecimentos, sob as formas, da lírica, do romance e da dramaturgia, empregando nos seus discursos temas relacionados à história de Portugal naquele período obscuro. Evidenciando de forma crítica as conseqüências devastadoras de um momento histórico vivido pela mordaça, na forma de uma linguagem vívida, artificiosa e alegórica, surgem escritores talentosos, pela repressão. Tenhamos em mente que essa mudança na forma da escrita na literatura portuguesa não se deu no imediatismo dos fatos; essa construção foi forjada em processos anteriores e posteriores à revolução, não ocorrendo de forma abrupta. Sob as influências dos acontecimentos históricos vividos no século XX, ressurge uma literatura portuguesa renovada, vinculando o momento presente à história, voltada à intertextualidade, misturando gêneros como a prosa e a poesia, somadas às discursividades fantásticas, caracterizando uma aproximação com a literatura latinoamericana, fazendo-se, assim, uma literatura inovadora lusitana. È nesse cenário literário inovador que identificamos Saramago, escritor dessa leva de talentosos que despontam com obras combativas, críticas, experimentais e reflexivas voltadas para a situação social e política vividas em Portugal no pós1974. Saramago demonstra, em seus escritos literários, uma problematização, 13 sobretudo pela ironia e subversão da própria forma literária na abordagem, historiográfica e política. Ele não se deteve nos fatos históricos em si, mas os insere e propicia uma auto reflexão ficcional dos acontecimentos. Podemos citar, por exemplo, romances como Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982), A Jangada de Pedra (1986) História do Cerco de Lisboa (1989). Tais romances se inserem num contexto que propõe uma nova perspectiva historiográfica e viéis político, sobretudo, fazendo o uso da auto reflexão, da ironia e do realismo fantástico. É nesse cenário, que Saramago desponta como um dos principais escritores de sua época, e promove uma reflexão na escrita literária em que o social se insere em sua obra como fato marcante. A caracterização da personagem da morte, em sua obra, deixa claro essa reflexão do social. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA - CARACTERIZAÇÃO DA PERSONAGEM A personagem, segundo a concepção de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes no Dicionário de Teoria da Narrativa (1988), se caracteriza como a categoria fundamental da narrativa. E se destaca nesse ponto pela inserção sócio-cultural e de expressividade em variados aspectos na construção da narrativa. Na narrativa literária, a personagem se situa como eixo central em torno da qual gira toda a ação, que, por sua vez, a torna componente na construção literária, exercendo grande influência nas partes que compõem a história contada. Segundo citam os autores, Gide, apresenta uma concepção sobre a autonomia de suas personagens: apenas quando lhes dá voz é que ele passa a conhecê-las de fato. Sob esses aspectos, podemos observar o papel influente que as personagens exercem dentro das limitações da narrativa, sendo capazes de influenciar, por sua expressividade, não apenas seu criador, mas também os leitores, que são os ouvintes finais. 14 Entretanto, os autores observam que esses aspectos nem sempre foram aceitos. Certas orientações dos romances de nossos dias enxergam as personagens em crise, ou seja, seres sem contornos, sem definição, por vezes inacessíveis e invisíveis, um “eu” desconhecido que às vezes é tudo e ao mesmo tempo é nada. A natureza da personagem é um conjunto descontínuo de marcas, difuso de significação e construída pelo andamento da narrativa. A personagem é um suporte para as repetições, para as transformações significativas presentes na narrativa e constituída por ações que a caracterizam. Já E. M. Forster, em seu capítulo intitulado “As Pessoas”, de seu livro Aspectos do Romance (1969), dá ênfase a outro aspecto de análise no romance, passando da “estória” para a “personagem” que, segundo ele, sofrerá os acontecimentos. Essa personagem, por sua vez, remete aos “protagonistas” que, para Forster, são uma referência aos seres humanos, pois o romancista reconhece na personagem alguma figura humana como fonte de inspiração. Para solidificar sua escolha quanto ao título, o autor cita outros artistas que retratam a figura humana como fonte de inspiração, como, por exemplo, historiadores, pintores, escultores, músicos etc. Mas, com uma diferença entre eles: o romancista procura uma maior intimidade com seu objeto de inspiração. Sendo assim, Forster comenta o seguinte sobre o romancista: O romancista, ao contrário de seus colegas, arranja uma porção de massas verbais, descrevendo a grosso modo a si mesmo (a grosso modo as sutilezas virão mais tarde), dá-lhes nomes e sexos, determinalhes gestos plausíveis e as faz falar por meio de aspas e talvez comportarem-se consistentemente. Essas massas verbais são suas personagens. (FORSTER, 1969. p. 34). No trecho citado acima, podemos observar que Forster conceitua a personagem como “massas verbais”. São criadas pelo romancista a partir de sua imaginação e sob a influência de outras pessoas. Dão vida e voz e moldam conforme o decorrer da estória, para que o convencimento do leitor se torne cada vez mais forte a cada linha traçada e crie uma “realidade” nos limites do romance. Por outro lado, o autor nos esclarece sobre a diferença que há entre as pessoas reais e as personagens criadas a 15 partir de pessoas, não se tratando das mesmas pessoas. Se o romance faz de sua personagem uma descrição fiel da realidade, ou seja, retrata a pessoa conforme ela é na vida real, se tratará de uma “memória”, logo, a “memória” é uma história que, por sua vez, se preocupa com os fatos. Quanto aos fatos, por si só não é de interesse e nem de responsabilidade do romance literário descrevê-los conforme acontecem. Os fatos, para o romancista, são contados, mas acrescentados de imaginação e somados a outros fatores apontados por Forster como “incógnitas”, nada mais que o “temperamento” do romancista, seu poder de criação para a construção do seu romance. Para exemplificar essa explicação, Forster traça um paralelo entre a personagem da história e a personagem do romance. A personagem da história é abordada pelos seus atos visíveis, ou seja, o que está explícito em suas ações, a exteriorização de seus comportamentos diante dos fatos. Mas, quando a personagem passa a expor dentro da narrativa seus sentimentos ocultos ou implícitos pela voz do narrador, ou ainda com a sua própria voz e pensamento, estaremos diante de uma personagem de romance. Para esclarecer melhor seu pensamento sobre essa diferença existente entre personagem de uma história e uma personagem de romance, Forster comenta: Tudo o que é observável num homem, quer dizer, suas ações e a parte de sua existência espiritual que pode ser deduzida de suas ações – cai no domínio da história. Mas, seu lado romanesco (sa partie romanesque ou romantique) inclui “as paixões genuínas, isto é, os sonhos, alegorias, tristezas e meditações que a polidez ou vergonha impedem-no de mencionar”; e expressar esse lado da natureza humana é uma das principais funções do romance. (FORSTER,1969, p. 35) Sendo assim, diferentemente de uma personagem da história, a personagem no romance se caracteriza por sua forma de ser apresentada com seu lado oculto exposto. Assim, a personagem tende a sua vergonha deixar de lado, expressa sua tristeza, sua intriga pessoal, seu lado desumano para com seu semelhante, seu egoísmo, seu amor exagerado, seu despudor, sua reflexão etc. A exposição desses sentimentos no romance, pela personagem, as define e a diferencia do mundo real. 16 Podemos compreender que, para Forster, esse lado oculto da personagem se compara às duas fases que vivenciamos em nossas vidas, o nascimento e a morte. Sabemos que nascemos, mas não vivenciamos claramente o fato ocorrido. Quanto à morte só poderemos conjecturar como se dará, mas vivenciá-la já é mais difícil. Diante desses dois fatos da vida humana, para Forster, as “criaturas” são criadas a partir dessas experiências pelo romancista. Essas “criaturas” são as personagens, fruto de um lado que nossa individualidade não vivencia completamente. A personagem nasce da inspiração do romancista e, no mundo real, não poderemos conhecer o indivíduo profundamente, apenas quando este passa a ser a fonte de imaginação e suas qualidades secretas são expostas e vivenciadas pelo leitor através da personagem. Forster conclui seu pensamento sobre a personagem da seguinte forma: Aqui devemos concluir a nossa comparação entre aquelas duas espécies afins: homo sapiens e homo fictus. O homo fictus é mais indefinível que seu primo. É criado das mentes de centenas de romancistas que possuem métodos de gestação antagônicos a seu respeito não devemos generalizar. Ainda assim, se pode dizer algo sobre ele: geralmente nasce, é capaz de morrer, requer pouco alimento e sono, está incansavelmente ocupado com relações humanas, e – o mais importante – podemos saber mais sobre ele do que qualquer um dos nossos semelhantes, porque seu criador e narrador é um só. (FORSTER, 1969, p.42-43). Portanto, a personagem do romance nos será conhecida profundamente pela imaginação do romancista e será capaz de mostrar quais seus pensamentos e vicissitudes dentro do ambiente ficcional, podendo ou não surpreender o leitor, a partir de sua desenvoltura no decorrer do romance. E qualquer comparação que façamos da personagem com o mundo real se fará infrutífera, pois o que é exposto da “criatura” não é observável no ser humano, a não ser que o romancista queira diminuir tal exposição de sua personagem. 17 Nessa primeira parte do capítulo, Forster conceitua a personagem como sendo “massas verbais” e “criaturas”, modeladas e criadas a partir da imaginação do romancista. E enumera várias características da personagem para estabelecer diferença entre uma personagem da história e uma personagem do romance. Na segunda parte do capítulo, “As Pessoas”, Forster aborda os aspectos da personagem dentro do romance e suas relações com as demais personagens que as diferenciam quanto ao seu valor na narrativa. Para isso, as divide e as conceitua em “personagem plana” e “personagem redonda”. A “personagem plana” transcorre no romance caracteristicamente com o seu comportamento constante ou fixo. É uma personagem facilmente identificada e recordada pelo leitor, por manter “idéia ou qualidade” quase sempre imutável, sem nenhuma variação. Seu aspecto humorístico é muito explorado e que serve também como um suporte para o enredo. Sua representação no enredo pode vir como um animal, pois se sabe que humanamente não é possível manter um diálogo e saber qual é o pensamento, por exemplo, de um cão, da sua característica plana. Porém, Forster nos alerta sobre a fragilidade de ser rígido quanto à análise da “personagem plana” dentro do romance, pois a mesma pode se apresentar em um dado momento no romance com aspectos de uma “personagem redonda”, com características surpreendentes para o leitor. A “personagem redonda”, por sua vez, apresenta aspectos opostos aos da “personagem plana”. Seu comportamento no romance é mutável e complexo, seu poder de convencimento junto ao leitor é mais predominante. Para Forster, um teste que poderemos fazer para saber se ela redonda é observarmos se causa surpresa no romance; se for capaz de causar no leitor um entusiasmo, o resultado é positivo. Ainda assim, a fronteira que separa essas duas personagens é muito tênue, a imaginação do romancista por natureza é complexa e suas “criaturas” ou “personagens” são frutos desse comportamento. Portanto, o aspecto da personagem deve sempre ser analisado com muito cuidado. Para isso, devemos apontar algumas críticas às propostas que Forster faz a caracterização da personagem no romance em seu estudo. Um primeiro ponto a observar, é a sua caracterização exclusiva para a figura humana como fonte de “inspiração” do romancista. A criação da personagem, não apenas sofrerá a 18 influência do indivíduo, outros elementos presentes na natureza poderiam servir de base para criar uma personagem, como por exemplo, um animal, na figura de um cão, poderia assumir uma parte importante no desenrolar da narrativa, a exemplo do cão “achado” no romance, A Caverna (2000) de José Saramago, que tem sua participação importantíssima de cunho psicológico na relação da personagem “Cipriano Algor” com o cão. Outro romance, A Viagem do Elefante (2008), do mesmo autor, que é a fonte de “inspiração” e a personagem principal do romance, onde narra a estória de um elefante e sua viagem pela Europa recheadas de intempéries. Muitos são os elementos que o romancista poderia fazer uso, para que seu romance crie vida, e não apenas a figura do indivíduo, muitas são as obras que poderíamos citar nesse trabalho que apresentam tal fonte de imaginação, mas fiquemos apenas com as de Saramago que é o romancista abordado nesse estudo. Outro ponto que podemos destacar no pensamento de Forster, é a sua pretensão de mencionar que apenas o romancista tem a maior intimidade com sua personagem, em detrimento dos demais artistas citados em sua obra: historiadores, pintores, escultores e músicos. Não podemos generalizar dessa forma, assim como o romancista, o pintor, por exemplo, pode ter relação íntima com a sua obra de arte, quando o seu quadro que retrata a figura de um indivíduo expressa sua imaginação pelos traços de seu pincel. Portanto, o romancista como os demais artistas, também possui a intimidade com suas personagens. No que diz respeito a sua definição de “personagem plana” e “personagem redonda”, podemos observar, no próprio Forster, certa cautela na diferenciação entre essas duas terminologias geométricas. Para Forster, quando se fala em “plana” significa que se trata de algo linear, sem mudanças. Ao contrário dessa afirmação, a “redonda” seria, no entanto, algo mutável. Mas, se refletirmos melhor sobre a forma dessas figuras geométricas, observaremos a controvérsia na colocação de Forster. Normalmente uma figura circular não traz uma mudança aparente; a representação de um círculo é constante e, qualquer movimento que façamos, não se observa nenhuma alteração. Por outro lado, a figura plana, quando colocada em movimento, nos trará diversos ângulos distintos de acordo com a posição assumida. E, quando observamos essa caracterização dentro do próprio romance, a diferença fica cada vez mais duvidosa. Poderão, críticos literários, ter conceitos da mesma personagem, distintos. Ora, um crítico poderá enxergar uma “personagem plana” como 19 “personagem redonda” e vice-versa. Quanto à “personagem plana”, Forster assegura há mais facilidade para o leitor lembrar-se dela. É o oposto da “personagem redonda” que, por ser muito complicada, poderá ser relegada ao esquecimento. O que poderá ocorrer é justamente o inverso: por se tratar de uma personagem que impacta no romance, a mesma pode causar no leitor uma lembrança mais duradoura do que uma personagem que se mantém inerte, sem mudanças aparentes, ou que só expõe sua característica humorística, como declara Forster sobre essa “personagem plana”. Como vemos, e concordando com Forster, a rigidez na análise de uma personagem como “plana” ou “redonda” requer muito cuidado. A personagem no interior de um romance não deve ser vista antecipadamente como algo imutável, seu comportamento poderá sofrer mudanças constantes e é o que veremos na análise da personagem “morte” no romance de Saramago. 2.1 Análises da personagem morte: Sob a ótica da teoria de E. M. Forster As Intermitências da Morte (2005), escrito por José Saramago, narra uma história em que a morte resolve, sem aviso prévio, se ausentar do país fictício e causa sérios problemas em toda sociedade e nas instituições que são seus alicerces: econômico, religioso, científico e político. O que seria num primeiro momento uma dádiva, ou seja, uma vida eterna tão almejada por todos, mais na frente, em apenas algumas semanas e nos meses subsequentes, torna-se um tormento sem precedentes. Ao fim de sete meses, ocorre seu retorno e uma volta à normalidade. No entanto, algo está fora do comum: um “violoncelista”, uma das personagens na segunda parte do romance, que deveria morrer, não morre. Isso causa na morte uma insatisfação e um desejo de saber qual o motivo de tal acontecimento. O romance se divide em duas partes, não necessariamente capítulos, pois Saramago não as delimita como tais. São pausas nas narrativas, porém, interligadas entre si pela idéia do acontecimento anterior, a análise do romance irá discorrer sobre a personagem morte, na sua caracterização em “plana” e “redonda”. 20 A personagem morte, quando analisada pela teoria de Forster, apresenta os dois conceitos sugeridos pelo autor. Na primeira parte da narrativa, podemos analisar a morte com características de uma personagem plana. Seu papel segue uma continuidade sem mudanças, lembrada apenas como uma ausência, naquele país fictício. Ocorre todo um descontrole social que, no foco principal da narrativa, são as conseqüências dessa ausência. Não há a presença da personagem morte. Os fatos ocorridos nessa primeira parte é que se tornam relevantes na construção da narrativa, como, por exemplo, a crise subseqüente nas principais esferas do país fictício, afetando instituições como: funerárias, hospitais, seguradoras etc. Algumas personagens que aparecem possuem caracteristicamente a figura “plana” denominada por Forster, quando analisadas no transcorrer da primeira parte do romance. Ora, surgem para iniciar um fato e logo em seguida desaparecem no transcorrer da estória, incorporada ou não pelo narrador mais adiante, mas sem relevância. Como exemplo podemos citar o seguinte trecho do romance: Não há mortos. Mais sorte teria aquela jovem repórter de televisão a quem um transeunte, olhando alternadamente para ela e para a câmara, contou um caso vivido em pessoa e que era a exata cópia do já citado episódio da rainha-mãe, Estava justamente a dar meia-noite, disse ele, quando o meu avô, que parecia mesmo a ponto de finar-se, abriu de repente os olhos antes que soasse a última badalada no relógio da torre, como se se tivesse arrependido do passo que ia dar, e não morreu, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 14). Observa-se no trecho, a presença das personagens: a jovem repórter e o transeunte diretamente na narrativa, e a rainha e o avô citados indiretamente. A jovem repórter apenas aparece no romance nesse momento e não mais será utilizada no decorrer do romance. Portanto, poderíamos caracterizá-la como uma personagem “plana”, seguindo o conceito de Forster. Por outro lado, essa personagem não apresenta características de uma personagem “plana” por completo, faltando o humor que, segundo Forster, é uma das características dessa personagem. Somado a esses pontos relevantes do romance, entre outros, a obra não apresenta nomes próprios em suas personagens, o que dificulta ainda mais a lembrança, concebida 21 por Forster como característica da personagem plana. Contudo, se as personagens da jovem repórter e do transeunte não causam surpresas na narrativa, estaremos, conforme Forster, diante de personagens planas. Além, dessas personagens citadas acima, outras aparecerão com essas mesmas características, sendo, portanto, usadas para entrelaçar toda a estória em torno da ausência da morte e suas conseqüências. Na segunda parte do romance, teremos outro cenário em comparação com a primeira parte. O retorno da morte no romance devolverá toda a normalidade ao curso natural dos indivíduos. A morte passa a ter vez e voz, se torna uma personagem emblemática, como podemos observar na seguinte citação: [...], senhor diretor-geral da televisão nacional, estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho informar de que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos e até ao dia trinta e um de dezembro do ano passado, devo explicar que a intenção que me levou a interromper a minha atividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores e gravadores doutro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre, isto é, eternamente, embora, aqui entre nós dois, senhor diretor-geral da televisão nacional, eu tenha de confessar minha total ignorância sobre se as duas palavras, sempre e eternamente, são tão sinônimas quanto em geral se crê, ora bem, passado esse período de alguns meses q que poderíamos chamar de prova de resistência ou de tempo gratuito e tendo em conta os lamentáveis resultados da experiência, tanto de um ponto de vista moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista pragmático, isto é, social, considerei que o melhor para as famílias e para a sociedade no seu conjunto, quer em sentido vertical, quer em sentido horizontal, seria vir a público reconhecer o equívoco de que sou responsável e anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará que a todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com saúde ou sem ela, permaneceram neste mundo, se lhes apagará a candeia da vida quando se extinguir no ar da última badalada da meianoite, note-se que a referência a badalada é meramente simbólica, não seja que alguém lhe passe pela cabeça a idéia estúpida de encravar os relógios dos campanários ou retirar o badalo aos sinos pensando que 22 dessa maneira deteria o tempo e contrariaria o que é minha decisão irrevogável[...] (SARAMAGO, 2005, p. 99-100). Nessa parte da narrativa, poderemos empregar o conceito de personagem “redonda” para a morte que, segundo Forster, passa a ser a personagem principal e participar ativamente no romance, sendo uma de suas características a capacidade de causar surpresa ao leitor. Acrescentaríamos que a personagem morte causa na narrativa uma mudança radical na forma como se darão os fatos, conforme observamos no trecho citado acima. Por meio de uma carta escrita pela morte e lida em rede nacional de televisão, toda a população é informada sobre o fim da sua ausência. No entanto, a morte não pretende mais chegar de surpresa e define que os indivíduos serão avisados previamente, como no seguinte trecho: [...], um ponto há em que sinto ser minha obrigação dar a mão a palmatória, o qual tem que ver com o injusto e cruel procedimento que vinha seguindo, que era tirar a vida às pessoas a falsa-fé, sem aviso prévio, sem dizer água-vai, tenho de reconhecer que se tratava de uma indecente brutalidade , quantas vezes não dei nem sequer tempo a que fizessem testamento, é certo que na maior parte dos casos lhes mandava uma doença para abrir caminho, mas as doenças tem algo de curioso, os seres humanos sempre esperam safar-se delas, de modo que só quando já é tarde de mais se vem a saber que aquela iria ser a última, enfim, a partir de agora toda gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em ordem o que ainda lhe resta de vida, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 100). Essa carta, por sua vez, foi uma maneira que a morte achou de ser mais benevolente com os indivíduos prestes a morrer. Seria enviada, e teria um prazo de oito dias para que o indivíduo organizasse sua vida terrena e tivesse uma passagem para além-vida menos traumática. O que ocorre é que uma dessas cartas retorna ao remetente. E a própria morte, confusa e surpresa com o acontecimento, resolve se certificar pessoalmente do motivo do retorno da carta. 23 A partir desse acontecimento, a morte passa a ter voz ativa no romance, sua personagem deixa de ser “plana”, que na primeira parte não aparece como personagem definida, e agora assume seu papel principal no romance. Essa transição pode ser identificada de acordo com o conceito de Forster, com sua caracterização de personagem “redonda”. O narrador apresenta ao leitor a personagem morte com suas características comumente conhecidas, identificadas no seguinte trecho: [...] Factos são factos, e este, quer se queira, quer não, pertence à ordem dos incontornáveis. Não pode haver melhor prova dele que a imagem da própria morte que temos diante dos olhos, sentada numa cadeira e embrulhada no seu lençol, e tendo na orografia da sua óssea cara um ar de total desconcerto. Olha desconfiada o sobrescrito violeta, dá-lhes voltas para ver se nele encontra algumas das anotações que os carteiros devem escrever em casos semelhantes, como sejam, recusado, mudou de residência, ausente em parte incerta e por tempo indeterminado, falecido, Que estupidez a minha, murmurou, como poderia ter falecido ele se a carta que o devia matar voltou para trás. (SARAMAGO, 2005, p. 136). Há a voz do narrador, e se observa a presença da morte como personagem, personificada pela primeira vez no romance. O narrador descreve sua feição física: sentada em uma cadeira e embrulhada em um lençol. E narra seu estado, “desconfiada”, em decorrência da carta que retorna, e com a sua voz que “sussurra” sobre o acontecido. Os acontecimentos passarão a se desenvolver na narrativa em torno da personagem morte. Seus sentimentos e sua presença são destacados pelo narrador de forma mais constante, os fatos ocorridos com a sua ausência na primeira parte não terão tanta importância quanto a sua presença. O cenário anterior é substituído pelo ambiente em que vivem a morte e o violoncelista. Por essa mudança ou “surpresa” causada pela personagem morte na narrativa é que, segundo Forster, poderemos caracterizar uma personagem de “redonda”. Outra característica marcante dessa personagem é a sua personificação na figura de uma mulher, observado no seguinte trecho: 24 [...] Sem pronunciar uma palavra, nem adeus, nem até logo, a morte levantou-se da cadeira, dirigiu-se à única porta existente na sala, aquela portazinha estreita a que tantas vezes nos referimos sem a menor idéia de qual pudesse ser a sua serventia, abriu-a, entrou e tornou a fechá-la atrás de si. [...] Meia hora teria passado num relógio quando a porta se abriu e uma mulher apareceu no limiar. A gadanha tinha ouvido dizer que isto podia acontecer, transforma-se a morte em um ser humano, de preferência uma mulher por essa cousa dos gêneros, mas pensava que se tratava de uma historieta, um mito, de uma lenda como tantas e tantas outras, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 180). A personagem morte, mais uma vez, surpreende na narrativa com sua transformação em uma mulher, com o objetivo de se aproximar do “violoncelista” e descobrir os motivos pelas quais o fim dele não se concretiza depois de vários retornos da carta de cor violeta. Na aproximação ocorre o encontro das duas personagens, há um envolvimento amoroso entre a morte e o violoncelista. Conforme o narrador, “[...] abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu”. O romance se encerra com a frase que o inicia, o que causa mais uma vez uma surpresa em relação à personagem da morte e uma conjectura em relação ao princípio de sua ausência e à continuidade de certa forma do romance. Portanto, a personagem morte pode ser caracterizada, de acordo com Forster, como “personagem plana” na primeira parte da narrativa e caracteristicamente “redonda” na segunda parte, em decorrência das mudanças observadas. Contraditoriamente ela corresponde, por suas características marcantes, o que comenta Forster sobre a personagem redonda. Sendo a morte a principal personagem do romance, mesmo tendo sido conceituada na primeira parte como uma personagem plana, não deixa de influenciar e causar diversas mudanças no decorrer da narrativa. A exemplo dessa mudança podemos citar o seguinte tercho: 25 [...] Tenho um grande favor a pedir-te, disse a morte. Como sempre, a gadanha não respondeu, o único sinal de ter ouvido foi um estremecimento pouco mais que perceptível, uma expressão geral de desconcerto físico, posto que jamais haviam saído daquela boca semelhantes palavras. [...] Estás muito bonita, comentou a gadanha, e era verdade, a morte estava muito bonita e era jovem, teria trinta e seis ou trinta e sete anos como haviam calculado os antropólogos, Falaste, finalmente, exclamou a morte, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 178-181). A morte e sua mudança em mulher causam espanto na personagem “gadanha”que, se analisada pela teoria de Forster, podemos classificá-la de plana. A aparição da morte, nesse primeiro momento, apenas se dá no ambiente caracterizado como “sala subterrânea dos arquivos”, onde a morte desenvolve suas atividades obituárias, escrevendo e despachando suas cartas para os destinatários prestes a morrer. Tratase de uma façanha extraordinária, a de dar voz a um instrumento, uma espécie de foice carregada pela morte presente em diversas iconografias medievais. O que observamos é a interferência de uma personagem sobre a outra na narrativa, configurando característica de personagem redonda. Outra personagem, que podemos considerar como uma personagem plana na narrativa que aparece com essas características, é o cão que acompanha o violoncelista em seu ambiente familiar, e convive com a solidão do dono no decorrer da narrativa, inclusive com uma pequena participação indireta com o narrador, no seguinte fragmento: [...] Talvez a causa do abatimento do dono fosse a mulher que apareceu no parque, pensou, afinal não era certo que aquele provérbio que dizia que o que os olhos não vêem, não o sente o coração. Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão. [...] (SARAMAGO, 2005, p. 205-206). 26 Mas até mesmo essa participação da personagem do cão na narrativa só é possível pela interferência da personagem morte com a sua aparição na vida do violoncelista. Diante da morte que desconhece, por esta lhe aparecer em forma de uma bela mulher, seu cotidiano de solidão é alterado e seus pensamentos se voltam para uma atração amorosa ainda não vivenciada. As mudanças ocorridas com o retorno da morte são diversas na narrativa. Sua aparição como personagem atuante na segunda parte do romance a caracteriza definitivamente como uma personagem redonda, segundo Forster. Vejamos o efeito causado pelo narrador, ao descrever a morte conforme convencionada nos mais diversos livros, mostradas nas iconografias medievais, como no fragmento: [...] Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes. [...], Realmente, não há nada no mundo mais nu que um esqueleto. Em vida, anda duplamente vestido, primeiro pela carne com que se tapa, depois, se as não tirou para banhar-se ou para outra atividades mais deleitosas, pelas roupas com que a dita carne gosta de cobrir-se. [...] (SARAMAGO, 2005, p. 145-146). O que podemos observar na citação acima é a descrição da morte como um esqueleto: ora vestido com uma mortalha, tal como o representa o imaginário popular, ora envolto de carne e/ou pele, representando o homem. Sendo assim, o narrador traz para o leitor uma personagem mais próxima da “realidade”. A morte expõe seus pensamentos íntimos, quando confrontada com um fato que nunca ocorreu em toda a sua trajetória um indivíduo que não morre, apesar da insistência dela em lhe enviar, por diversas vezes, a carta de cor violeta. Como no seguinte trecho: 27 [...] a morte olha a cara adormecida e pensa vagamente que este homem já deveria estar morto, que este brando respirar, inspirando, expirando, já deveria ter cessado, que o coração que a mão esquerda protege já teria de estar parado e vazio, suspenso para sempre na última contração. Veio para ver este homem, e agora já o viu, não há nele nada de especial que possa explicar as três devoluções da carta de cor violeta, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 151-152). A descrição que a morte faz do violoncelista é a causa da problemática que virá a ser o ponto principal da segunda parte da narrativa. A personagem morte, contrariada por esse fato, assumirá a posição principal dentro da narrativa e passará a influenciar e modificar todo o contexto social do violoncelista, bem como de toda a narrativa. Sua participação será diferenciada da primeira parte do romance e é essa característica que a define como protagonista. Não poderíamos deixar de destacar a importância do violoncelista em toda essa mudança ocorrida na segunda parte do romance. A sua participação pode ser caracterizada, também como uma personagem central, segundo o conceito de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes (1988). Pois as ações ocorrerão em torno dessas duas personagens, e a construção da narrativa terá como base o retorno da carta prenunciando a morte. O conceito de personagem redonda também poderá ser empregado ao violoncelista, mesmo que sua intervenção seja indireta, como coloca o narrador: “[...] O homem que dorme não tem nenhuma culpa do que sucedeu com a carta de cor violeta, [...]” (Saramago, 2005, p. 152). Mas sua aparição na narrativa provoca uma reviravolta nos fatos até então lineares, em que os indivíduos morrem com o simples envio das cartas. Portanto, o papel desempenhado pelo violoncelista é tão importante quanto a personagem morte no transcorrer dos acontecimentos. Na primeira parte do romance, as duas personagens não estão presentes na narrativa de forma direta. A morte é citada pelo narrador, de forma indireta desde o início do romance, como no seguinte trecho “[...] como se a velha àtropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia. [...]” 28 (Saramago, 2005, p. 11). A narrativa segue contemplando os fatos ocorridos com a “greve da morte” e suas vicissitudes: [...] iria ser compreendida da mesma equivocada maneira por milhões de pessoas, o que virá a ter como desconcertante conseqüência, num futuro muito próximo, a criação de um movimento de cidadãos firmemente convencidos de que pela simples acção da vontade será possível vencer a morte e que, por conseguinte, o imerecido desaparecimento de tanta gente no passado só se tinha devido a uma censurável debilidade de volição das gerações anteriores. [...] o gozo feliz de uma vida eterna cá na terra, se havia tornado em um bem para todos, como o sol que nasce para todos os dias e o ar que respiramos. [...] falar-se de crise numa situação existencial justamente privilegiada pela ausência da morte, [...] que até agora não deu o menor sinal de vida [...] (SARAMAGO, 2005, p. 15). O narrador, que possui voz ativa no romance, relata os fatos dos mais diversos com a ausência da personagem morte. Num primeiro momento, os fatos ocorridos são considerados pelas demais personagens - as quais, segundo o conceito de Forster, podem ser classificadas como planas. -, como uma dádiva divina para umas, e para outras, como um mal para todos os indivíduos. Suas aparições são rápidas e pontuais, e não influenciam diretamente nos acontecimentos. Servem como suporte para o desenvolvimento dos fatos. A ausência da personagem morte, torna-se relevante nos discursos de todas as personagens envolvidas na narrativa e que muitas vezes, como já pontuado, só aparecem uma única vez com a voz , que lhes é pertinente para a exposição do fato, como no seguinte trecho: [...] Melhor então seria não fazer nada, disse um dos filósofos optimistas, os problemas do futuro, o futuro que os resolva, O pior é que o futuro já é hoje, disse um dos pessimistas, temos aqui, entre outros, os memorandos elaborados pelos chamados lares do feliz ocaso, pelos hospitais, pelas agências funerárias, pelas companhias de seguro, e, salvo o caso destas, que sempre hão-de encontrar maneira 29 de tirar proveito de qualquer situação, há que reconhecer que as perspectivas não se limitam a ser sombrias, são catastróficas, terríveis, excedem em perigos tudo o que mais delirante imaginação pudesse conceber, Sem pretender ser irónico, o que nas atuais circunstâncias seria de péssimo gosto, observou um integrante não menos conceituado do sector protestante, parece-me que essa comissão já nasceu morta, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 37). O que podemos observar é a presença de personagens de uma comissão criada para discutir as conseqüências provocadas nas diversas esferas da sociedade em torno da ausência da morte. Ironicamente, o narrador expõe um debate secular sobre a morte, entre a ciência e a religião, tentando explicar os acontecimentos. A discussão não chega a lugar algum. As discussões na narrativa ocorrerão entre as personagens até o desfecho da ausência da morte. Até o desfecho, a narrativa segue sem mudanças, os indivíduos não morrem, as personagens aparecem pontualmente e não há protagonistas nessa primeira parte do romance. Podemos classificar as personagens dessa parte como planas, pelos aspectos sugeridos por Forster, por serem constantes e fixas, sem apresentar mudanças que alterem a narrativa. Exceto no que Forster classifica como característica humorística de uma personagem plana. Não há a presença de personagens humorísticas na narrativa do romance, o narrador não explora, em suas personagens, o humor. Sendo assim, só podemos atribuir às características de “imutáveis” para classificá-las como plana. A própria morte só terá vez e voz na segunda parte do romance, com o seu retorno. Na primeira parte aparece apenas indiretamente através da voz do narrador. Na segunda parte da narrativa, com o retorno da morte, as mudanças se farão mais presentes. A morte e sua presença como protagonista mudarão todo o contexto social dos fatos. Juntamente com o violoncelista, causador de sua aparição, a morte é apresentada pelo narrador ao leitor de forma visível, expondo seus sentimentos mais íntimos, relacionados ao acontecimento da carta enviada ao violoncelista, a qual retorna. A partir daí a narrativa se desenvolve entre a morte, transformada em mulher, e o violoncelista na figura de um músico solitário. Surge uma relação amorosa, consumada entre os dois. E, no final, o narrador retoma a primeira frase do 30 romance, “[...] No dia seguinte ninguém morreu. [...]” (Saramago, 2005, p. 207), que poderíamos refletir como um ciclo da narrativa. Afinal, é o próprio significado de intermitência ¹: interrupção momentânea. ________________________ ¹ BUENO, Francisco da Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD, 1996. 31 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como observa Forster, a caracterização da personagem em “plana” e “redonda” terá que ser analisada como muito cuidado. Foi o que constatamos ao analisar a personagem morte no romance de Saramago. A mesma personagem apresentou as duas características apontadas na teoria. Na primeira parte, os acontecimentos da ausência da morte são destacados pelo narrador. A aparição da morte é mencionada apenas no início de forma indireta, para criar os fatos que desencadeiam uma série de situações, os quais o narrador utiliza para dar conteúdo à narrativa. Já na segunda parte, a personagem morte deixa de ser secundária e passa a desempenhar o papel principal no romance. Portanto, fica claro que as características de uma personagem romanesca nem sempre seguem uma linearidade de comportamentos. Essas características podem ser alteradas, conforme demonstram os fatos na narrativa. Por fim, diante da pesquisa realizada para o desenvolvimento do presente Trabalho de Conclusão de Curso, foi possível observar a importância da Teoria da Literatura como princípio norteador dos elementos aqui desenvolvidos. Ou seja, o primeiro contato com os conceitos de “personagem plana” e “personagem redonda”, debatidos em sala de aula, fez surgir a curiosidade sobre o tema. A partir dessa curiosidade, e de um corpus já incipiente nas leituras realizadas dos romances saramaguianos no decorrer da academia, amadurecimento que resultou na pesquisa. 32 REFERÊNCIAS: AMORIM, José do Carmo. O erudito e o popular em As Intermitências da Morte, José Saramago. 2013. 107 f. Dissertação (Mestrado em Letras) - Universidade federal de Uberlândia. 2013. ÁRIES, Philippe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. BAIÔA, Manuel. A ditadura militar na historiografia recente. Estudo de Estágio sob orientação do Dr. Nuno Severiano Teixeira . Universidade de Évora: Portugal, 1992-93. BUENO, Francisco da Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD, 1996. CANDIDO, Antonio (Org.); ROSENFELD, Anatol; PRADO, Decio de Almeida; GOMES, Paulo Emílio Sales. A Personagem de Ficção. 2. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, s/d. FOSTER, E. M. Aspectos do Romance. Tradução: Maria Helena Martins. 2. ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1974. GIROLA, Maristela Kirst de Lima. Historia da literatura e censura: O caso das novas cartas portuguesas. Rio grande do Sul: PUCRS, s/d. Kaplan. E. Ann. O Mal Estar no Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. 33 JAMESON, Fredric. O Pós Modernismo e a Sociedade. In: Kaplan. E. Ann. O Mal Estar no Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de Teoria da Narrativa. São Paulo: Editora Ática S. A., 1988. ROANI, Gerson Luiz. Sob o vermelho dos cravos de abril – Literatura e revolução no Portugal contemporâneo. Revista Letras. Editora UFPR: Curitiba, n. 64, p. 15-32. Set./dez. 2004. SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. SILVA, Luis Claudio Ferreira. A Abolição da Morte na Sociedade. Revista Odisseia – PpgEL/UFRN, Natal, ISSN 1983-2435. n. 6 jul./dez. 2010.