UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTE
DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS
ANTONIO MARCOS DA SILVA OLIVEIRA
A CARACTERIZAÇÃO DA PERSONAGEM MORTE NA OBRA: AS
INTERMITÊNCIAS DA MORTE, DE JOSÉ SARAMAGO
JOÃO PESSOA
2015
ANTONIO MARCOS DA SILVA OLIVEIRA
A CARACTERIZAÇÃO DA PERSONAGEM MORTE NA OBRA: AS
INTERMITÊNCIAS DA MORTE, DE JOSÉ SARAMAGO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao
Curso de Licenciatura em Letras da Universidade
Federal da Paraíba como requisito para obtenção
do grau de Licenciado em Letras, habilitação em
Língua Portuguesa.
Orientador: Prof. Dr. Arturo Gouveia de Araújo
JOÃO PESSOA
2015
Catalogação da Publicação na Fonte.
Universidade Federal da Paraíba.
Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA).
Oliveira, Antonio Marcos da Silva.
A caracterização da personagem morte na obra: as intermitências da morte,
de José Saramago./ Antonio Marcos da Silva Oliveira. - João Pessoa, 2015.
33f.
Monografia (Graduação em Letras- Língua Portuguesa) – Universidade
Federal da Paraíba - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes.
Orientador: Prof.º Dr.º Arturo Gouveia de Araújo
1. Romance. 2. Personagens. 3. Morte. I. Saramago, José. II. Título.
BSE-CCHLA
CDU 82-31
ANTONIO MARCOS DA SILVA OLIVEIRA
A CARACTERIZAÇÃO DA PERSONAGEM MORTE NA OBRA: AS
INTERMITÊNCIAS DA MORTE, DE JOSÉ SARAMAGO
Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal
da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras,
habilitação em Língua Portuguesa.
Trabalho de Conclusão de Curso aprovado em 23/01/2015
Prof. Dr. Arturo Gouveia de Araújo (orientador)
Profa. Dra. Vanessa Neves Riambau Pinheiro (1º examinador)
Profa. Dra. Ana Cláudia Félix Gualberto (2º examinador)
JOÃO PESSOA
2015
RESUMO
O presente trabalho objetiva discutir a caracterização da personagem “morte” no
romance As Intermitências da Morte (2005), do escritor José Saramago. Para tanto,
esta monografia se divide em três capítulos. No primeiro capítulo, será descrita uma
breve trajetória sobre a vida de José Saramago, principalmente no que concerne a
sua vivência literária, envolvendo os acontecimentos políticos que se deram em
Portugal sob a influência do salazarismo e suas conseqüências no campo literário. O
segundo capítulo é composto pela fundamentação teórica, baseada no estudo teórico
de E. M. Forster(1984) sobre: “personagem plana” e “personagem redonda” e suas
características na narrativa. Com uma breve complementação teórica sobre a
personagem, na abordagem de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes(1988).
Palavras-chave: Saramago; romance; personagens; morte.
ABSTRACT
The present paper discusses the characterization of " death " character in the novel The
Death Flashes (2005 ) , the writer José Saramago. Therefore, this monograph is divided
into three chapters. In the first chapter, a brief history will be described on the life of
José Saramago , especially with regard to his literary experience , involving the political
events that took place in Portugal under the influence of Salazar and its consequences in
the literary field . The second chapter consists of the theoretical framework , based on
the theoretical study of E.M. Forster (1984 ) on: " flat character " and " round character
" and its features in the narrative. With a theoretical complement on the character , the
approach of Carlos Reis and Ana Cristina M. Lopes (1988 ) .
Keywords: Saramago ; love story; characters ; death.
AGRADECIMENTOS
A todos que contribuíram nessa caminhada acadêmica.
SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS.............................................................................9
1. UMA BREVE TRAJETÓRIA DE JOSÉARAMAGO....................................10
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA – CARACTERIZAÇÃO DA
PERSONAGEM..................................................................................................13
2. 1 Análise da personagem morte: Sob a ótica de E.M. Forster....................19
CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................31
REFERÊNCIAS..................................................................................................32
9
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A princípio, vale ressaltar a importância do escritor José Saramago para o autor
deste trabalho no que diz respeito a sua vida de leitor e sua forma de encarar a
realidade. Foram muitas obras lidas. E, a cada leitura realizada, a necessidade de
compreensão só aumentava. É com muita satisfação que apresentamos esse
Trabalho de Conclusão de Curso, tendo como obra analisada um livro desse escritor
português.
O presente trabalho objetiva analisar a personagem “morte” no romance As
Intermitências da Morte (2005). A princípio, será feita uma breve abordagem sobre
a vida literária de Saramago, inserindo-a nos acontecimentos ocorridos em Portugal
durante a ditadura salazarista, das décadas iniciais do Século XX até o início da
década de 80, com o fim da ditadura salazarista. A abordagem dessa fase se faz
necessária para a compreensão dos acontecimentos ocorridos na Literatura
Portuguesa pós-revolução e, consequentemente, os rumos tomados por Saramago e
sua reconhecida forma de escrever seus romances, contos, novelas etc.
Após isto, começaremos a abordagem teórica sobre a caracterização da
personagem, com um breve conceito, segundo os estudos de Carlos Reis e Ana
Cristina M. Lopes, na obra: Dicionário de Teoria da Narrativa (1998), com o intuito
de compreender a importância da personagem dentro da narrativa. Em seguida, a
abordagem principal, no que concerne à teoria, dialoga com E.M.Forster,
especificamente os conceitos de “personagem plana” e “personagem redonda”, em
sua obra Aspectos do Romance (1969). Na caracterização da personagem morte no
decorrer da narrativa, ressaltamos alguns pontos pertinentes da teoria de Forster, no
que tange às terminologias “plana” e “redonda” e a uma adequada aplicação desses
princípios à analise da obra.
10
“[...] a morte é a solução que a vida encontrou para continuar sendo vida [...].”
José Saramago
1. UMA BREVE TRAJETÓRIA DE JOSÉ SARAMAGO
José Saramago (1922-2010), escritor português, e conhecido mundialmente por
muitas de suas obras, traduzidas em diversas línguas. Foi consagrado com o prêmio
Camões em 2005, prêmio este considerado o mais importante da literatura de língua
portuguesa. Em 1998 ganhou também o Prêmio Nobel de Literatura com a sua obra,
Ensaio Sobre a Cegueira (1995), prêmio este conquistado pela primeira vez por um
escritor de língua portuguesa. Suas obras são reconhecidas como uma luta contra o
individualismo e a lógica do lucro.
No cenário literário, Saramago é considerado um escritor tardio, mesmo tendo
escrito seu primeiro romance no ano de 1947, intitulado de Terra do Pecado com
traços do naturalismo-realismo, sob forte influência de Eça de Queirós. Três décadas
mais tarde lançaria seu segundo romance chamado. Manual de Pintura e Caligrafia
(1977). No intervalo entre os dois romances, foram escritos: contos, peças de teatro
e poemas publicados em jornais, sendo Poemas Possíveis (1966) o de maior
destaque. Sua atividade profissional nesse intervalo foi de crítico literário, diretor e
redator de jornais, editor e tradutor, e no funcionalismo público. Alguns críticos
apontam esta fase como o de preparação para sua forma de escrever seus romances,
sendo a crônica muito utilizada em sua atividade jornalística, que posteriormente
veio influenciar muitas de suas obras de cunho irônico, humorístico, de perplexidade
e, acima de tudo, instrumentalizando a oralidade dentro da narrativa.
Não poderíamos deixar de abordar o cenário político em Portugal nesse período,
o qual exerceu grande influência na vida literária portuguesa e consequentemente
em Saramago. Período este do Estado Novo (1933-1974), também conhecido como
“salazarismo”, referência a Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970), um dos
representantes mais importantes até os últimos anos da vigência do regime ditatorial,
11
que teve seu término em 25 de abril de 1974 com o movimento social chamado
“Revolução dos cravos”.
Esse período se inicia em Portugal, segundo a grande maioria dos historiadores,
a partir do golpe militar de 28 de maio de 1928, com o apoio de quase todas as
forças políticas portuguesas, com exceção do PRP que se encontrava no poder, do
PCP, do Partido Socialista, do grupo Seara Nova, da CGT e da Esquerda
Democrática. Seu objetivo primeiro era derrubar do poder o partido de António
Maria da Silva, sob a bandeira de dar maior autoridade ao estado, manter a ordem e
a tranqüilidade pública, gerar o crédito com confiança, reforma da vida política e
regularização do orçamento do estado. Portugal passava por uma grande crise
financeira, não diferente de outros países europeus do mesmo período. No entanto,
após o golpe, muitas forças que compunham o bloco tinham idéias políticas
divergentes, o que consequentemente causou muitas rupturas dentro da ditadura.
Escândalos de corrupção, gastos públicos desnecessários e uma política financeira
falha, que iria cada vez mais se distanciando dos objetivos propostos pelo golpe que
justamente foi concretizado para combater todos os males do antigo governo,
agravada pela crise. Diante disso, uma nova proposta política surge, encabeçada por
Salazar que, em seu primeiro ano de governo, consegue estabilizar financeiramente
as contas do Estado, propiciando uma reanimação econômica que teve como
apoiadores grupos como: o republicano conservador, a direita radical e o Centro
Católico. Inicia-se então a ascensão da ditadura salazarista que em 1933 começa sua
repressão contra as forças de oposição.
Muitos levantes ocorreram durante todo o período da ditadura salazarista. Entre
estes, os dos escritores portugueses que, através de seus textos literários,
denunciavam a truculência vivida e a censura imposta pelo estado. Por exemplo,
Fernando Pessoa, em alguns de seus textos de 1926 a 1935, criticava a forma como
Salazar conduzia o Estado português, bem como o que sucedera com as suas
atitudes como se estivesse vendendo a alma do povo português. Foi quase meio
século de ditadura salazarista vivida em Portugal e em países africanos colonizados,
trazendo sérias conseqüências na vida literária sob a égide da censura, perseguição,
exílios de escritores que radicalmente combatiam contra uma situação castradora da
manifestação artística portuguesa.
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Em 1974, Revolução dos Cravos liderado, por militares com grande adesão da
massa, que pôs fim ao regime ditatorial. As consequências sociais e culturais após a
revolução de 1974 foram inúmeras. Portugal saía de tempos violentos para tempos
de liberdades que mudariam todo um processo de escritura, explanação que nos
interessará no presente trabalho para uma melhor compreensão da literatura
contemporânea portuguesa e, consequentemente, um entendimento da escrita
saramaguiana.
Uma nova organização editorial se fez presente com a promoção de entidades
públicas ligadas a produção artística, oferecendo premiações literárias para os
autores antes amordaçados pela censura. Esse processo de mudança de mentalidade
na escrita da literatura portuguesa não apenas está ligado ao pós-1974, mas, decorre
de todos os escritores que vivenciaram e foram partícipes das mudanças de todo
século XX, buscando uma nova forma lusitana de escrever.
Muitos foram os textos que abordaram o tema da ditadura na pós-revolução, e a
literatura não ficou as margens dos acontecimentos, sob as formas, da lírica, do
romance e da dramaturgia, empregando nos seus discursos temas relacionados à
história de Portugal naquele período obscuro. Evidenciando de forma crítica as
conseqüências devastadoras de um momento histórico vivido pela mordaça, na
forma de uma linguagem vívida, artificiosa e alegórica, surgem escritores talentosos,
pela repressão. Tenhamos em mente que essa mudança na forma da escrita na
literatura portuguesa não se deu no imediatismo dos fatos; essa construção foi
forjada em processos anteriores e posteriores à revolução, não ocorrendo de forma
abrupta.
Sob as influências dos acontecimentos históricos vividos no século XX, ressurge
uma literatura portuguesa renovada, vinculando o momento presente à história,
voltada à intertextualidade, misturando gêneros como a prosa e a poesia, somadas às
discursividades fantásticas, caracterizando uma aproximação com a literatura latinoamericana, fazendo-se, assim, uma literatura inovadora lusitana.
È nesse cenário literário inovador que identificamos Saramago, escritor dessa
leva de talentosos que despontam com obras combativas, críticas, experimentais e
reflexivas voltadas para a situação social e política vividas em Portugal no pós1974. Saramago demonstra, em seus escritos literários, uma problematização,
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sobretudo pela ironia e subversão da própria forma literária na abordagem,
historiográfica e política. Ele não se deteve nos fatos históricos em si, mas os insere
e propicia uma auto reflexão ficcional dos acontecimentos. Podemos citar, por
exemplo, romances como Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento
(1982), A Jangada de Pedra (1986) História do Cerco de Lisboa (1989). Tais
romances se inserem num contexto que propõe uma nova perspectiva historiográfica
e viéis político, sobretudo, fazendo o uso da auto reflexão, da ironia e do realismo
fantástico. É nesse cenário, que Saramago desponta como um dos principais
escritores de sua época, e promove uma reflexão na escrita literária em que o social
se insere em sua obra como fato marcante. A caracterização da personagem da
morte, em sua obra, deixa claro essa reflexão do social.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA - CARACTERIZAÇÃO DA
PERSONAGEM
A personagem, segundo a concepção de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes no
Dicionário de Teoria da Narrativa (1988), se caracteriza como a categoria
fundamental da narrativa. E se destaca nesse ponto pela inserção sócio-cultural e de
expressividade em variados aspectos na construção da narrativa. Na narrativa
literária, a personagem se situa como eixo central em torno da qual gira toda a ação,
que, por sua vez, a torna componente na construção literária, exercendo grande
influência nas partes que compõem a história contada.
Segundo citam os autores, Gide, apresenta uma concepção sobre a autonomia de
suas personagens: apenas quando lhes dá voz é que ele passa a conhecê-las de fato.
Sob esses aspectos, podemos observar o papel influente que as personagens exercem
dentro das limitações da narrativa, sendo capazes de influenciar, por sua
expressividade, não apenas seu criador, mas também os leitores, que são os ouvintes
finais.
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Entretanto, os autores observam que esses aspectos nem sempre foram aceitos.
Certas orientações dos romances de nossos dias enxergam as personagens em crise,
ou seja, seres sem contornos, sem definição, por vezes inacessíveis e invisíveis, um
“eu” desconhecido que às vezes é tudo e ao mesmo tempo é nada. A natureza da
personagem é um conjunto descontínuo de marcas, difuso de significação e
construída pelo andamento da narrativa. A personagem é um suporte para as
repetições, para as transformações significativas presentes na narrativa e constituída
por ações que a caracterizam.
Já E. M. Forster, em seu capítulo intitulado “As Pessoas”, de seu livro Aspectos
do Romance (1969), dá ênfase a outro aspecto de análise no romance, passando da
“estória” para a “personagem” que, segundo ele, sofrerá os acontecimentos. Essa
personagem, por sua vez, remete aos “protagonistas” que, para Forster, são uma
referência aos seres humanos, pois o romancista reconhece na personagem alguma
figura humana como fonte de inspiração. Para solidificar sua escolha quanto ao
título, o autor cita outros artistas que retratam a figura humana como fonte de
inspiração, como, por exemplo, historiadores, pintores, escultores, músicos etc. Mas,
com uma diferença entre eles: o romancista procura uma maior intimidade com seu
objeto de inspiração. Sendo assim, Forster comenta o seguinte sobre o romancista:
O romancista, ao contrário de seus colegas, arranja uma porção de
massas verbais, descrevendo a grosso modo a si mesmo (a grosso
modo as sutilezas virão mais tarde), dá-lhes nomes e sexos, determinalhes gestos plausíveis e as faz falar por meio de aspas e talvez
comportarem-se consistentemente. Essas massas verbais são suas
personagens. (FORSTER, 1969. p. 34).
No trecho citado acima, podemos observar que Forster conceitua a personagem
como “massas verbais”. São criadas pelo romancista a partir de sua imaginação e
sob a influência de outras pessoas. Dão vida e voz e moldam conforme o decorrer da
estória, para que o convencimento do leitor se torne cada vez mais forte a cada linha
traçada e crie uma “realidade” nos limites do romance. Por outro lado, o autor nos
esclarece sobre a diferença que há entre as pessoas reais e as personagens criadas a
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partir de pessoas, não se tratando das mesmas pessoas. Se o romance faz de sua
personagem uma descrição fiel da realidade, ou seja, retrata a pessoa conforme ela é
na vida real, se tratará de uma “memória”, logo, a “memória” é uma história que,
por sua vez, se preocupa com os fatos. Quanto aos fatos, por si só não é de interesse
e nem de responsabilidade do romance literário descrevê-los conforme acontecem.
Os fatos, para o romancista, são contados, mas acrescentados de imaginação e
somados a outros fatores apontados por Forster como “incógnitas”, nada mais que o
“temperamento” do romancista, seu poder de criação para a construção do seu
romance. Para exemplificar essa explicação, Forster traça um paralelo entre a
personagem da história e a personagem do romance. A personagem da história é
abordada pelos seus atos visíveis, ou seja, o que está explícito em suas ações, a
exteriorização de seus comportamentos diante dos fatos. Mas, quando a personagem
passa a expor dentro da narrativa seus sentimentos ocultos ou implícitos pela voz do
narrador, ou ainda com a sua própria voz e pensamento, estaremos diante de uma
personagem de romance. Para esclarecer melhor seu pensamento sobre essa
diferença existente entre personagem de uma história e uma personagem de
romance, Forster comenta:
Tudo o que é observável num homem, quer dizer, suas ações e a parte
de sua existência espiritual que pode ser deduzida de suas ações – cai
no domínio da história. Mas, seu lado romanesco (sa partie
romanesque ou romantique) inclui “as paixões genuínas, isto é, os
sonhos, alegorias, tristezas e meditações que a polidez ou vergonha
impedem-no de mencionar”; e expressar esse lado da natureza humana
é uma das principais funções do romance. (FORSTER,1969, p. 35)
Sendo assim, diferentemente de uma personagem da história, a personagem no
romance se caracteriza por sua forma de ser apresentada com seu lado oculto
exposto. Assim, a personagem tende a sua vergonha deixar de lado, expressa sua
tristeza, sua intriga pessoal, seu lado desumano para com seu semelhante, seu
egoísmo, seu amor exagerado, seu despudor, sua reflexão etc. A exposição desses
sentimentos no romance, pela personagem, as define e a diferencia do mundo real.
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Podemos compreender que, para Forster, esse lado oculto da personagem se
compara às duas fases que vivenciamos em nossas vidas, o nascimento e a morte.
Sabemos que nascemos, mas não vivenciamos claramente o fato ocorrido. Quanto à
morte só poderemos conjecturar como se dará, mas vivenciá-la já é mais difícil.
Diante desses dois fatos da vida humana, para Forster, as “criaturas” são criadas a
partir dessas experiências pelo romancista. Essas “criaturas” são as personagens,
fruto de um lado que nossa individualidade não vivencia completamente. A
personagem nasce da inspiração do romancista e, no mundo real, não poderemos
conhecer o indivíduo profundamente, apenas quando este passa a ser a fonte de
imaginação e suas qualidades secretas são expostas e vivenciadas pelo leitor através
da personagem. Forster conclui seu pensamento sobre a personagem da seguinte
forma:
Aqui devemos concluir a nossa comparação entre aquelas duas
espécies afins: homo sapiens e homo fictus. O homo fictus é mais
indefinível que seu primo. É criado das mentes de centenas de
romancistas que possuem métodos de gestação antagônicos a seu
respeito não devemos generalizar. Ainda assim, se pode dizer algo
sobre ele: geralmente nasce, é capaz de morrer, requer pouco alimento
e sono, está incansavelmente ocupado com relações humanas, e – o
mais importante – podemos saber mais sobre ele do que qualquer um
dos nossos semelhantes, porque seu criador e narrador é um só.
(FORSTER, 1969, p.42-43).
Portanto, a personagem do romance nos será conhecida profundamente pela
imaginação do romancista e será capaz de mostrar quais seus pensamentos e
vicissitudes dentro do ambiente ficcional, podendo ou não surpreender o leitor, a
partir de sua desenvoltura no decorrer do romance. E qualquer comparação que
façamos da personagem com o mundo real se fará infrutífera, pois o que é exposto
da “criatura” não é observável no ser humano, a não ser que o romancista queira
diminuir tal exposição de sua personagem.
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Nessa primeira parte do capítulo, Forster conceitua a personagem como sendo
“massas verbais” e “criaturas”, modeladas e criadas a partir da imaginação do
romancista. E enumera várias características da personagem para estabelecer
diferença entre uma personagem da história e uma personagem do romance.
Na segunda parte do capítulo, “As Pessoas”, Forster aborda os aspectos da
personagem dentro do romance e suas relações com as demais personagens que as
diferenciam quanto ao seu valor na narrativa. Para isso, as divide e as conceitua em
“personagem plana” e “personagem redonda”.
A “personagem plana” transcorre no romance caracteristicamente com o seu
comportamento constante ou fixo. É uma personagem facilmente identificada e
recordada pelo leitor, por manter “idéia ou qualidade” quase sempre imutável, sem
nenhuma variação. Seu aspecto humorístico é muito explorado e que serve também
como um suporte para o enredo. Sua representação no enredo pode vir como um
animal, pois se sabe que humanamente não é possível manter um diálogo e saber
qual é o pensamento, por exemplo, de um cão, da sua característica plana. Porém,
Forster nos alerta sobre a fragilidade de ser rígido quanto à análise da “personagem
plana” dentro do romance, pois a mesma pode se apresentar em um dado momento
no romance com aspectos de uma “personagem redonda”, com características
surpreendentes para o leitor.
A “personagem redonda”, por sua vez, apresenta aspectos opostos aos da
“personagem plana”. Seu comportamento no romance é mutável e complexo, seu
poder de convencimento junto ao leitor é mais predominante. Para Forster, um teste
que poderemos fazer para saber se ela redonda é observarmos se causa surpresa no
romance; se for capaz de causar no leitor um entusiasmo, o resultado é positivo.
Ainda assim, a fronteira que separa essas duas personagens é muito tênue, a
imaginação do romancista por natureza é complexa e suas “criaturas” ou
“personagens” são frutos desse comportamento. Portanto, o aspecto da personagem
deve sempre ser analisado com muito cuidado.
Para isso, devemos apontar algumas críticas às propostas que Forster faz a
caracterização da personagem no romance em seu estudo. Um primeiro ponto a
observar, é a sua caracterização exclusiva para a figura humana como fonte de
“inspiração” do romancista. A criação da personagem, não apenas sofrerá a
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influência do indivíduo, outros elementos presentes na natureza poderiam servir de
base para criar uma personagem, como por exemplo, um animal, na figura de um
cão, poderia assumir uma parte importante no desenrolar da narrativa, a exemplo do
cão “achado” no romance, A Caverna (2000) de José Saramago, que tem sua
participação importantíssima de cunho psicológico na relação da personagem
“Cipriano Algor” com o cão. Outro romance, A Viagem do Elefante (2008), do
mesmo autor, que é a fonte de “inspiração” e a personagem principal do romance,
onde narra a estória de um elefante e sua viagem pela Europa recheadas de
intempéries. Muitos são os elementos que o romancista poderia fazer uso, para que
seu romance crie vida, e não apenas a figura do indivíduo, muitas são as obras que
poderíamos citar nesse trabalho que apresentam tal fonte de imaginação, mas
fiquemos apenas com as de Saramago que é o romancista abordado nesse estudo.
Outro ponto que podemos destacar no pensamento de Forster, é a sua pretensão
de mencionar que apenas o romancista tem a maior intimidade com sua personagem,
em detrimento dos demais artistas citados em sua obra: historiadores, pintores,
escultores e músicos. Não podemos generalizar dessa forma, assim como o
romancista, o pintor, por exemplo, pode ter relação íntima com a sua obra de arte,
quando o seu quadro que retrata a figura de um indivíduo expressa sua imaginação
pelos traços de seu pincel. Portanto, o romancista como os demais artistas, também
possui a intimidade com suas personagens.
No que diz respeito a sua definição de “personagem plana” e “personagem
redonda”, podemos observar, no próprio Forster, certa cautela na diferenciação entre
essas duas terminologias geométricas. Para Forster, quando se fala em “plana”
significa que se trata de algo linear, sem mudanças. Ao contrário dessa afirmação, a
“redonda” seria, no entanto, algo mutável. Mas, se refletirmos melhor sobre a forma
dessas figuras geométricas, observaremos a controvérsia na colocação de Forster.
Normalmente uma figura circular não traz uma mudança aparente; a representação
de um círculo é constante e, qualquer movimento que façamos, não se observa
nenhuma alteração. Por outro lado, a figura plana, quando colocada em movimento,
nos trará diversos ângulos distintos de acordo com a posição assumida. E, quando
observamos essa caracterização dentro do próprio romance, a diferença fica cada
vez mais duvidosa. Poderão, críticos literários, ter conceitos da mesma personagem,
distintos. Ora, um crítico poderá enxergar uma “personagem plana” como
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“personagem redonda” e vice-versa. Quanto à “personagem plana”, Forster assegura
há mais facilidade para o leitor lembrar-se dela. É o oposto da “personagem
redonda” que, por ser muito complicada, poderá ser relegada ao esquecimento. O
que poderá ocorrer é justamente o inverso: por se tratar de uma personagem que
impacta no romance, a mesma pode causar no leitor uma lembrança mais duradoura
do que uma personagem que se mantém inerte, sem mudanças aparentes, ou que só
expõe sua característica humorística, como declara Forster sobre essa “personagem
plana”. Como vemos, e concordando com Forster, a rigidez na análise de uma
personagem como “plana” ou “redonda” requer muito cuidado. A personagem no
interior de um romance não deve ser vista antecipadamente como algo imutável, seu
comportamento poderá sofrer mudanças constantes e é o que veremos na análise da
personagem “morte” no romance de Saramago.
2.1 Análises da personagem morte: Sob a ótica da teoria de E. M. Forster
As Intermitências da Morte (2005), escrito por José Saramago, narra uma
história em que a morte resolve, sem aviso prévio, se ausentar do país fictício e
causa sérios problemas em toda sociedade e nas instituições que são seus alicerces:
econômico, religioso, científico e político. O que seria num primeiro momento uma
dádiva, ou seja, uma vida eterna tão almejada por todos, mais na frente, em apenas
algumas semanas e nos meses subsequentes, torna-se um tormento sem precedentes.
Ao fim de sete meses, ocorre seu retorno e uma volta à normalidade. No entanto,
algo está fora do comum: um “violoncelista”, uma das personagens na segunda parte
do romance, que deveria morrer, não morre. Isso causa na morte uma insatisfação e
um desejo de saber qual o motivo de tal acontecimento.
O romance se divide em duas partes, não necessariamente capítulos, pois
Saramago não as delimita como tais. São pausas nas narrativas, porém, interligadas
entre si pela idéia do acontecimento anterior, a análise do romance irá discorrer
sobre a personagem morte, na sua caracterização em “plana” e “redonda”.
20
A personagem morte, quando analisada pela teoria de Forster, apresenta os dois
conceitos sugeridos pelo autor. Na primeira parte da narrativa, podemos analisar a
morte com características de uma personagem plana. Seu papel segue uma
continuidade sem mudanças, lembrada apenas como uma ausência, naquele país
fictício. Ocorre todo um descontrole social que, no foco principal da narrativa, são
as conseqüências dessa ausência. Não há a presença da personagem morte. Os fatos
ocorridos nessa primeira parte é que se tornam relevantes na construção da
narrativa, como, por exemplo, a crise subseqüente nas principais esferas do país
fictício, afetando instituições como: funerárias, hospitais, seguradoras etc. Algumas
personagens que aparecem possuem caracteristicamente a figura “plana”
denominada por Forster, quando analisadas no transcorrer da primeira parte do
romance. Ora, surgem para iniciar um fato e logo em seguida desaparecem no
transcorrer da estória, incorporada ou não pelo narrador mais adiante, mas sem
relevância. Como exemplo podemos citar o seguinte trecho do romance:
Não há mortos. Mais sorte teria aquela jovem repórter de televisão a
quem um transeunte, olhando alternadamente para ela e para a câmara,
contou um caso vivido em pessoa e que era a exata cópia do já citado
episódio da rainha-mãe, Estava justamente a dar meia-noite, disse ele,
quando o meu avô, que parecia mesmo a ponto de finar-se, abriu de
repente os olhos antes que soasse a última badalada no relógio da
torre, como se se tivesse arrependido do passo que ia dar, e não
morreu, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 14).
Observa-se no trecho, a presença das personagens: a jovem repórter e o
transeunte diretamente na narrativa, e a rainha e o avô citados indiretamente. A
jovem repórter apenas aparece no romance nesse momento e não mais será utilizada
no decorrer do romance. Portanto, poderíamos caracterizá-la como uma personagem
“plana”, seguindo o conceito de Forster. Por outro lado, essa personagem não
apresenta características de uma personagem “plana” por completo, faltando o
humor que, segundo Forster, é uma das características dessa personagem. Somado a
esses pontos relevantes do romance, entre outros, a obra não apresenta nomes
próprios em suas personagens, o que dificulta ainda mais a lembrança, concebida
21
por Forster como característica da personagem plana. Contudo, se as personagens da
jovem repórter e do transeunte não causam surpresas na narrativa, estaremos,
conforme Forster, diante de personagens planas. Além, dessas personagens citadas
acima, outras aparecerão com essas mesmas características, sendo, portanto, usadas
para entrelaçar toda a estória em torno da ausência da morte e suas conseqüências.
Na segunda parte do romance, teremos outro cenário em comparação com a
primeira parte. O retorno da morte no romance devolverá toda a normalidade ao
curso natural dos indivíduos. A morte passa a ter vez e voz, se torna uma
personagem emblemática, como podemos observar na seguinte citação:
[...], senhor diretor-geral da televisão nacional, estimado senhor, para
os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho
informar de que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal
como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos e
até ao dia trinta e um de dezembro do ano passado, devo explicar que
a intenção que me levou a interromper a minha atividade, a parar de
matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores
e gravadores doutro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses
seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que
para eles seria viver sempre, isto é, eternamente, embora, aqui entre
nós dois, senhor diretor-geral da televisão nacional, eu tenha de
confessar minha total ignorância sobre se as duas palavras, sempre e
eternamente, são tão sinônimas quanto em geral se crê, ora bem,
passado esse período de alguns meses q que poderíamos chamar de
prova de resistência
ou de tempo gratuito e tendo em conta os
lamentáveis resultados da experiência, tanto de um ponto de vista
moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista pragmático, isto é,
social, considerei que o melhor para as famílias e para a sociedade no
seu conjunto, quer em sentido vertical, quer em sentido horizontal,
seria vir a público reconhecer o equívoco de que sou responsável e
anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará que a
todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com
saúde ou sem ela, permaneceram neste mundo, se lhes apagará a
candeia da vida quando se extinguir no ar da última badalada da meianoite, note-se que a referência a badalada é meramente simbólica, não
seja que alguém lhe passe pela cabeça a idéia estúpida de encravar os
relógios dos campanários ou retirar o badalo aos sinos pensando que
22
dessa maneira deteria o tempo e contrariaria o que é minha decisão
irrevogável[...] (SARAMAGO, 2005, p. 99-100).
Nessa parte da narrativa, poderemos empregar o conceito de personagem
“redonda” para a morte que, segundo Forster, passa a ser a personagem principal e
participar ativamente no romance, sendo uma de suas características a capacidade de
causar surpresa ao leitor. Acrescentaríamos que a personagem morte causa na
narrativa uma mudança radical na forma como se darão os fatos, conforme
observamos no trecho citado acima. Por meio de uma carta escrita pela morte e lida
em rede nacional de televisão, toda a população é informada sobre o fim da sua
ausência. No entanto, a morte não pretende mais chegar de surpresa e define que os
indivíduos serão avisados previamente, como no seguinte trecho:
[...], um ponto há em que sinto ser minha obrigação dar a mão a
palmatória, o qual tem que ver com o injusto e cruel procedimento que
vinha seguindo, que era tirar a vida às pessoas a falsa-fé, sem aviso
prévio, sem dizer água-vai, tenho de reconhecer que se tratava de uma
indecente brutalidade , quantas vezes não dei nem sequer tempo a que
fizessem
testamento, é certo que na maior parte dos casos lhes
mandava uma doença para abrir caminho, mas as doenças tem algo de
curioso, os seres humanos sempre esperam safar-se delas, de modo
que só quando já é tarde de mais se vem a saber que aquela iria ser a
última, enfim, a partir de agora toda gente passará a ser prevenida por
igual e terá um prazo de uma semana para pôr em ordem o que ainda
lhe resta de vida, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 100).
Essa carta, por sua vez, foi uma maneira que a morte achou de ser mais
benevolente com os indivíduos prestes a morrer. Seria enviada, e teria um prazo de
oito dias para que o indivíduo organizasse sua vida terrena e tivesse uma passagem
para além-vida menos traumática. O que ocorre é que uma dessas cartas retorna ao
remetente. E a própria morte, confusa e surpresa com o acontecimento, resolve se
certificar pessoalmente do motivo do retorno da carta.
23
A partir desse acontecimento, a morte passa a ter voz ativa no romance, sua
personagem deixa de ser “plana”, que na primeira parte não aparece como
personagem definida, e agora assume seu papel principal no romance. Essa transição
pode ser identificada de acordo com o conceito de Forster, com sua caracterização
de personagem “redonda”. O narrador apresenta ao leitor a personagem morte com
suas características comumente conhecidas, identificadas no seguinte trecho:
[...] Factos são factos, e este, quer se queira, quer não, pertence à
ordem dos incontornáveis. Não pode haver melhor prova dele que a
imagem da própria morte que temos diante dos olhos, sentada numa
cadeira e embrulhada no seu lençol, e tendo na orografia da sua óssea
cara um ar de total desconcerto. Olha desconfiada o sobrescrito
violeta, dá-lhes voltas para ver se nele encontra algumas das anotações
que os carteiros devem escrever em casos semelhantes, como sejam,
recusado, mudou de residência, ausente em parte incerta e por tempo
indeterminado, falecido, Que estupidez a minha, murmurou, como
poderia ter falecido ele se a carta que o devia matar voltou para trás.
(SARAMAGO, 2005, p. 136).
Há a voz do narrador, e se observa a presença da morte como personagem,
personificada pela primeira vez no romance. O narrador descreve sua feição física:
sentada em uma cadeira e embrulhada em um lençol. E narra seu estado,
“desconfiada”, em decorrência da carta que retorna, e com a sua voz que “sussurra”
sobre o acontecido. Os acontecimentos passarão a se desenvolver na narrativa em
torno da personagem morte. Seus sentimentos e sua presença são destacados pelo
narrador de forma mais constante, os fatos ocorridos com a sua ausência na primeira
parte não terão tanta importância quanto a sua presença. O cenário anterior é
substituído pelo ambiente em que vivem a morte e o violoncelista. Por essa mudança
ou “surpresa” causada pela personagem morte na narrativa é que, segundo Forster,
poderemos caracterizar uma personagem de “redonda”. Outra característica
marcante dessa personagem é a sua personificação na figura de uma mulher,
observado no seguinte trecho:
24
[...] Sem pronunciar uma palavra, nem adeus, nem até logo, a morte
levantou-se da cadeira, dirigiu-se à única porta existente na sala,
aquela portazinha estreita a que tantas vezes nos referimos sem a
menor idéia de qual pudesse ser a sua serventia, abriu-a, entrou e
tornou a fechá-la atrás de si. [...] Meia hora teria passado num relógio
quando a porta se abriu e uma mulher apareceu no limiar. A gadanha
tinha ouvido dizer que isto podia acontecer, transforma-se a morte em
um ser humano, de preferência uma mulher por essa cousa dos
gêneros, mas pensava que se tratava de uma historieta, um mito, de
uma lenda como tantas e tantas outras, [...] (SARAMAGO, 2005, p.
180).
A personagem morte, mais uma vez, surpreende na narrativa com sua
transformação em uma mulher, com o objetivo de se aproximar do “violoncelista” e
descobrir os motivos pelas quais o fim dele não se concretiza depois de vários
retornos da carta de cor violeta.
Na aproximação ocorre o encontro das duas personagens, há um envolvimento
amoroso entre a morte e o violoncelista. Conforme o narrador, “[...] abraçou-se ao
homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu
que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém
morreu”. O romance se encerra com a frase que o inicia, o que causa mais uma vez
uma surpresa em relação à personagem da morte e uma conjectura em relação ao
princípio de sua ausência e à continuidade de certa forma do romance. Portanto, a
personagem morte pode ser caracterizada, de acordo com Forster, como
“personagem plana” na primeira parte da narrativa e caracteristicamente “redonda”
na segunda parte, em decorrência das mudanças observadas. Contraditoriamente ela
corresponde, por suas características marcantes, o que comenta Forster sobre a
personagem redonda. Sendo a morte a principal personagem do romance, mesmo
tendo sido conceituada na primeira parte como uma personagem plana, não deixa de
influenciar e causar diversas mudanças no decorrer da narrativa. A exemplo dessa
mudança podemos citar o seguinte tercho:
25
[...] Tenho um grande favor a pedir-te, disse a morte. Como sempre, a
gadanha não respondeu, o único sinal de ter ouvido foi um
estremecimento pouco mais que perceptível, uma expressão geral de
desconcerto físico, posto que jamais haviam saído daquela boca
semelhantes palavras. [...] Estás muito bonita, comentou a gadanha, e
era verdade, a morte estava muito bonita e era jovem, teria trinta e seis
ou trinta e sete anos como haviam calculado os antropólogos, Falaste,
finalmente, exclamou a morte, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 178-181).
A morte e sua mudança em mulher causam espanto na personagem “gadanha”que, se analisada pela teoria de Forster, podemos classificá-la de plana. A aparição
da morte, nesse primeiro momento, apenas se dá no ambiente caracterizado como
“sala subterrânea dos arquivos”, onde a morte desenvolve suas atividades obituárias,
escrevendo e despachando suas cartas para os destinatários prestes a morrer. Tratase de uma façanha extraordinária, a de dar voz a um instrumento, uma espécie de
foice carregada pela morte presente em diversas iconografias medievais. O que
observamos é a interferência de uma personagem sobre a outra na narrativa,
configurando característica de personagem redonda.
Outra personagem, que podemos considerar como uma personagem plana na
narrativa que aparece com essas características, é o cão que acompanha o
violoncelista em seu ambiente familiar, e convive com a solidão do dono no
decorrer da narrativa, inclusive com uma pequena participação indireta com o
narrador, no seguinte fragmento:
[...] Talvez a causa do abatimento do dono fosse a mulher que
apareceu no parque, pensou, afinal não era certo que aquele provérbio
que dizia que o que os olhos não vêem, não o sente o coração. Os
provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão. [...]
(SARAMAGO, 2005, p. 205-206).
26
Mas até mesmo essa participação da personagem do cão na narrativa só é
possível pela interferência da personagem morte com a sua aparição na vida do
violoncelista. Diante da morte que desconhece, por esta lhe aparecer em forma de
uma bela mulher, seu cotidiano de solidão é alterado e seus pensamentos se voltam
para uma atração amorosa ainda não vivenciada.
As mudanças ocorridas com o retorno da morte são diversas na narrativa. Sua
aparição como personagem atuante na segunda parte do romance a caracteriza
definitivamente como uma personagem redonda, segundo Forster. Vejamos o efeito
causado pelo narrador, ao descrever a morte conforme convencionada nos mais
diversos livros, mostradas nas iconografias medievais, como no fragmento:
[...] Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto
embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma
velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de
paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha,
umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de
verbetes. [...], Realmente, não há nada no mundo mais nu que um
esqueleto. Em vida, anda duplamente vestido, primeiro pela carne com
que se tapa, depois, se as não tirou para banhar-se ou para outra
atividades mais deleitosas, pelas roupas com que a dita carne gosta de
cobrir-se. [...] (SARAMAGO, 2005, p. 145-146).
O que podemos observar na citação acima é a descrição da morte como um
esqueleto: ora vestido com uma mortalha, tal como o representa o imaginário
popular, ora envolto de carne e/ou pele, representando o homem. Sendo assim, o
narrador traz para o leitor uma personagem mais próxima da “realidade”. A morte
expõe seus pensamentos íntimos, quando confrontada com um fato que nunca
ocorreu em toda a sua trajetória um indivíduo que não morre, apesar da insistência
dela em lhe enviar, por diversas vezes, a carta de cor violeta. Como no seguinte
trecho:
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[...] a morte olha a cara adormecida e pensa vagamente que este
homem já deveria estar morto, que este brando respirar, inspirando,
expirando, já deveria ter cessado, que o coração que a mão esquerda
protege já teria de estar parado e vazio, suspenso para sempre na
última contração. Veio para ver este homem, e agora já o viu, não há
nele nada de especial que possa explicar as três devoluções da carta de
cor violeta, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 151-152).
A descrição que a morte faz do violoncelista é a causa da problemática que virá
a ser o ponto principal da segunda parte da narrativa. A personagem morte,
contrariada por esse fato, assumirá a posição principal dentro da narrativa e passará
a influenciar e modificar todo o contexto social do violoncelista, bem como de toda
a narrativa. Sua participação será diferenciada da primeira parte do romance e é essa
característica que a define como protagonista.
Não poderíamos deixar de destacar a importância do violoncelista em toda essa
mudança ocorrida na segunda parte do romance. A sua participação pode ser
caracterizada, também como uma personagem central, segundo o conceito de Carlos
Reis e Ana Cristina M. Lopes (1988). Pois as ações ocorrerão em torno dessas duas
personagens, e a construção da narrativa terá como base o retorno da carta
prenunciando a morte. O conceito de personagem redonda também poderá ser
empregado ao violoncelista, mesmo que sua intervenção seja indireta, como coloca
o narrador: “[...] O homem que dorme não tem nenhuma culpa do que sucedeu com
a carta de cor violeta, [...]” (Saramago, 2005, p. 152). Mas sua aparição na narrativa
provoca uma reviravolta nos fatos até então lineares, em que os indivíduos morrem
com o simples envio das cartas. Portanto, o papel desempenhado pelo violoncelista é
tão importante quanto a personagem morte no transcorrer dos acontecimentos.
Na primeira parte do romance, as duas personagens não estão presentes na
narrativa de forma direta. A morte é citada pelo narrador, de forma indireta desde o
início do romance, como no seguinte trecho “[...] como se a velha àtropos da
dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia. [...]”
28
(Saramago, 2005, p. 11). A narrativa segue contemplando os fatos ocorridos com a
“greve da morte” e suas vicissitudes:
[...] iria ser compreendida da mesma equivocada maneira por milhões
de pessoas, o que virá a ter como desconcertante conseqüência, num
futuro muito próximo, a criação de um movimento de cidadãos
firmemente convencidos de que pela simples acção da vontade será
possível vencer a morte e que, por conseguinte, o imerecido
desaparecimento de tanta gente no passado só se tinha devido a uma
censurável debilidade de volição das gerações anteriores. [...] o gozo
feliz de uma vida eterna cá na terra, se havia tornado em um bem para
todos, como o sol que nasce para todos os dias e o ar que respiramos.
[...] falar-se de crise numa situação existencial justamente privilegiada
pela ausência da morte, [...] que até agora não deu o menor sinal de
vida [...] (SARAMAGO, 2005, p. 15).
O narrador, que possui voz ativa no romance, relata os fatos dos mais diversos
com a ausência da personagem morte. Num primeiro momento, os fatos ocorridos
são considerados pelas demais personagens - as quais, segundo o conceito de
Forster, podem ser classificadas como planas. -, como uma dádiva divina para umas,
e para outras, como um mal para todos os indivíduos. Suas aparições são rápidas e
pontuais, e não influenciam diretamente nos acontecimentos. Servem como suporte
para o desenvolvimento dos fatos. A ausência da personagem morte, torna-se
relevante nos discursos de todas as personagens envolvidas na narrativa e que
muitas vezes, como já pontuado, só aparecem uma única vez com a voz , que lhes é
pertinente para a exposição do fato, como no seguinte trecho:
[...] Melhor então seria não fazer nada, disse um dos filósofos
optimistas, os problemas do futuro, o futuro que os resolva, O pior é
que o futuro já é hoje, disse um dos pessimistas, temos aqui, entre
outros, os memorandos elaborados pelos chamados lares do feliz
ocaso, pelos hospitais, pelas agências funerárias, pelas companhias de
seguro, e, salvo o caso destas, que sempre hão-de encontrar maneira
29
de tirar proveito de qualquer situação, há que reconhecer que as
perspectivas não se limitam a ser sombrias, são catastróficas, terríveis,
excedem em perigos tudo o que mais delirante imaginação pudesse
conceber, Sem pretender ser irónico, o que nas atuais circunstâncias
seria de péssimo gosto, observou um integrante não menos
conceituado do sector protestante, parece-me que essa comissão já
nasceu morta, [...] (SARAMAGO, 2005, p. 37).
O que podemos observar é a presença de personagens de uma comissão criada
para discutir as conseqüências provocadas nas diversas esferas da sociedade em
torno da ausência da morte. Ironicamente, o narrador expõe um debate secular sobre
a morte, entre a ciência e a religião, tentando explicar os acontecimentos. A
discussão não chega a lugar algum. As discussões na narrativa ocorrerão entre as
personagens até o desfecho da ausência da morte. Até o desfecho, a narrativa segue
sem mudanças, os indivíduos não morrem, as personagens aparecem pontualmente e
não há protagonistas nessa primeira parte do romance. Podemos classificar as
personagens dessa parte como planas, pelos aspectos sugeridos por Forster, por
serem constantes e fixas, sem apresentar mudanças que alterem a narrativa. Exceto
no que Forster classifica como característica humorística de uma personagem plana.
Não há a presença de personagens humorísticas na narrativa do romance, o narrador
não explora, em suas personagens, o humor. Sendo assim, só podemos atribuir às
características de “imutáveis” para classificá-las como plana. A própria morte só
terá vez e voz na segunda parte do romance, com o seu retorno. Na primeira parte
aparece apenas indiretamente através da voz do narrador.
Na segunda parte da narrativa, com o retorno da morte, as mudanças se farão
mais presentes. A morte e sua presença como protagonista mudarão todo o contexto
social dos fatos. Juntamente com o violoncelista, causador de sua aparição, a morte
é apresentada pelo narrador ao leitor de forma visível, expondo seus sentimentos
mais íntimos, relacionados ao acontecimento da carta enviada ao violoncelista, a
qual retorna. A partir daí a narrativa se desenvolve entre a morte, transformada em
mulher, e o violoncelista na figura de um músico solitário. Surge uma relação
amorosa, consumada entre os dois. E, no final, o narrador retoma a primeira frase do
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romance, “[...] No dia seguinte ninguém morreu. [...]” (Saramago, 2005, p. 207), que
poderíamos refletir como um ciclo da narrativa. Afinal, é o próprio significado de
intermitência ¹: interrupção momentânea.
________________________
¹ BUENO, Francisco da Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD,
1996.
31
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como observa Forster, a caracterização da personagem em “plana” e “redonda”
terá que ser analisada como muito cuidado. Foi o que constatamos ao analisar a
personagem morte no romance de Saramago. A mesma personagem apresentou as
duas características apontadas na teoria.
Na primeira parte, os acontecimentos da ausência da morte são destacados pelo
narrador. A aparição da morte é mencionada apenas no início de forma indireta, para
criar os fatos que desencadeiam uma série de situações, os quais o narrador utiliza
para dar conteúdo à narrativa.
Já na segunda parte, a personagem morte deixa de ser secundária e passa a
desempenhar o papel principal no romance. Portanto, fica claro que as
características de uma personagem romanesca nem sempre seguem uma linearidade
de comportamentos. Essas características podem ser alteradas, conforme
demonstram os fatos na narrativa.
Por fim, diante da pesquisa realizada para o desenvolvimento do presente
Trabalho de Conclusão de Curso, foi possível observar a importância da Teoria da
Literatura como princípio norteador dos elementos aqui desenvolvidos. Ou seja, o
primeiro contato com os conceitos de “personagem plana” e “personagem redonda”,
debatidos em sala de aula, fez surgir a curiosidade sobre o tema. A partir dessa
curiosidade, e de um corpus já incipiente nas leituras realizadas dos romances
saramaguianos no decorrer da academia, amadurecimento que resultou na pesquisa.
32
REFERÊNCIAS:
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José Saramago. 2013. 107 f. Dissertação (Mestrado em Letras) - Universidade federal
de Uberlândia. 2013.
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BUENO, Francisco da Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. São Paulo:
FTD, 1996.
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cartas portuguesas. Rio grande do Sul: PUCRS, s/d.
Kaplan. E. Ann. O Mal Estar no Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1993.
33
JAMESON, Fredric. O Pós Modernismo e a Sociedade. In: Kaplan. E. Ann. O Mal
Estar no Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de Teoria da Narrativa. São
Paulo: Editora Ática S. A., 1988.
ROANI, Gerson Luiz. Sob o vermelho dos cravos de abril – Literatura e revolução no
Portugal contemporâneo. Revista Letras. Editora UFPR: Curitiba, n. 64, p. 15-32.
Set./dez. 2004.
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras,
2005.
SILVA, Luis Claudio Ferreira. A Abolição da Morte na Sociedade. Revista Odisseia –
PpgEL/UFRN, Natal, ISSN 1983-2435. n. 6 jul./dez. 2010.
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a caracterização da personagem morte na obra