MATERIAL TÁTIL NO ENSINO DA GEOGRAFIA PARA DEFICIENTES
VISUAIS
Luciana Maria Santos de Arruda/Instituto Benjamin Constant/PUC
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Lívia Câmara Teixeira/Instituto Benjamin Constant/PUC
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Vinícius de Jesus Oliveira/Instituto Benjamin Constant/PUC
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INTRODUÇÃO
A geografia como ciência possibilita ao homem o entendimento da realidade que o
cerca. Ela insere os alunos no espaço em que vivem, provocando a interação com o meio, a
partir do momento em que se aprende a ler as paisagens para conhecer a realidade física,
social, econômica e humana de um local.
Ela ajuda a conhecer as mudanças provocadas pelo homem no meio ambiente.
Permite compreender o processo de globalização e as consequências para as relações
sociais, políticas e humanas.
Segundo os PCN’s (1997):
Adquirir conhecimentos básicos de Geografia é algo importante
para a vida em sociedade, em particular para o desempenho das
funções de cidadania: cada cidadão, ao conhecer as
características sociais, culturais e naturais do lugar onde vive,
bem como as de outros lugares, pode comparar, explicar,
compreender e espacializar as múltiplas relações que diferentes
sociedades em épocas variadas estabeleceram e estabelecem com
a natureza na construção de seu espaço geográfico.
Pensar a educação na forma como ela se apresenta e repensá-la numa outra
perspectiva é um desafio que nos leva a refletir a condição em que estamos dentro da
sociedade, não só como agentes sociais, mas, também, enquanto sujeitos.
O ensino da geografia necessita de uma retomada dos conteúdos já vistos sempre
com diferentes níveis de aprofundamento e formas de apresentação.
No decorrer do projeto será apresentado uma nova abordagem do ensino da
geografia para alunos deficientes visuais ( cegos e de baixa visão ) a partir da elaboração de
materiais didáticos com a colaboração dos alunos do 9º ano do ensino fundamental do
Instituto Benjamin Constant e de estagiários de desenho industrial da PUC - RJ no ano de
2008.
Houve a necessidade de abordar os conteúdos trabalhados no 1º semestre de forma a
proporcionar um melhor entendimento através dos materiais táteis.
Esse trabalho além de produtivo foi muito significativo na estruturação do
pensamento dos alunos, além de ter despertado o entendimento no mundo que está em
constante transformação, aumentou o interesse deles pela geografia fazendo com que
compreendessem a importância deles como agente dessa mudança.
2- OBJETIVO
O objetivo proposto nesse trabalho é proporcionar de forma clara e simples os
diversos temas da geografia de acordo com a necessidade de cada aluno, em compreender
determinado assunto.
Despertar no professor a importância que se tem em inovar na elaboração e na
construção de materiais didáticos para que os alunos tenham uma melhor compreensão do
conteúdo trabalhado. Porém essa elaboração precisa do acompanhamento do aluno para que
se tenha uma resposta significativa.
3- METODOLOGIA
O presente trabalho teve início em março de 2008 com a chegada de dois estagiários
de desenho industrial da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro ( PUC – RJ )
no Departamento de Geografia do Instituto Benjamin Constant ( IBC ) com o intuito de
contribuir nas aulas de geografia de uma forma prática através da produção de materiais de
baixo custo com o auxilio dos alunos e da professora.
Dentre as turmas do 6º ao 9º anos do Ensino Fundamental foi determinado a escolha
da turma do 9º ano composta de 7 alunos entre eles 2 de baixa visão e 5 cegos. Essa escolha
foi feita baseada nos conteúdos que seriam aplicados, por envolver temas não só de
geografia física, mas temas voltados para questões que estão sendo muito discutidas no
mundo como a questão ambiental.
Visto que nas séries iniciais estes assuntos são abordados, vale ressaltar que no 9º ano
as possibilidades do envolvimento das questões políticas por trás desses temas tornam o
trabalho mais instigante (audacioso).
A partir do momento em que os alunos tomaram conhecimento da importância deles
na elaboração do trabalho com sugestões, dicas e opiniões tendo a possibilidade de discutir
e opinar sobre quais assuntos eles gostariam que houvessem a produção de materiais para
melhor entendimento, o envolvimento com o trabalho foi crescendo.
A pesquisa feita para a elaboração dos materiais partiu do acompanhamento dos
estagiários durante as aulas que duravam 50 minutos e eram ministradas 3 vezes na semana
e teve a duração de março a julho, com a aplicação dos materiais nos meses de junho e
julho.
Em um primeiro momento questionou-se a confecção de materiais de quais assuntos
trabalhados, haja vista que os conteúdos do 1º e 2º bimestres eram variados: a 2ª Guerra
Mundial, a geografia da Guerra Fria, a Organização das Nações Unidas, o sistema político
internacional, a questão ambiental e a cidadania, energia e ambiente, os tratados
internacionais sobre o ambiente e a conquista dos mares.
Ao final de cada aula ocorria uma reunião onde se definia quais pontos importantes
dos conteúdos discutidos poderiam ser revertidos em materiais táteis. Foi observado os
temas que os alunos traziam um conhecimento, algo que os fizessem lembrar desses temas
e quais sentiam mais interesse durante as exposições orais da professora.
As exposições orais, as descrições verbais, os resumos em forma de texto foram de
suma importância para desenvolver os temas, tanto para os alunos como para os estagiários.
Dessa forma observou-se que a descrição verbal do material que seria produzido
deveria ocorrer de forma detalhada para análise da funcionalidade do mesmo.
Após a coleta de dados os estagiários observaram a importância que as palavras, as
frases, as interjeições nesse trabalho e na construção dos futuros experimentos. Palavras
como: geografia, armas, século, adaptação, interessante, curioso, sociedade, objetivos,
desenvolver, modificação, elaborar, guerra, vítimas, soldados, mulheres, ONU, meio
ambiente, reciclar, energia, concreto, mapa, Braille, água, relevo, conceito.
Diante dessas palavras que traduzem o cotidiano dessa turma os estagiários as
transformaram em frases com as quais mostraram o objetivo do trabalho.
“Acompanhar e orientar os alunos para poder abrir espaço ao conhecimento.”
“Ajudar a desenvolver o saber e o pensar através de exercícios e trabalhos interessantes.”
“Estimular e incluir cada aluno trazendo pontes para a realidade.”
A primeira frase foi o norte para o pontapé na construção dos experimentos. No
entender dos estagiários ela revela a preocupação da professora em edificar o conhecimento
dos seus alunos por meio de determinadas impressões e tornou-se um guia para a
construção dos experimentos.
A fundamentação teórica do trabalho utilizou como referencial VYGOTSKY (1987).
“A aprendizagem é o processo pelo qual o indivíduo
adquire informações, habilidades, atitudes, valores, etc. A
concepção de que é o aprendizado que possibilita o despertar de
processos internos do indivíduo, liga o desenvolvimento da
pessoa a sua relação com o ambiente sócio-cultural em que vive e
reconhece que a situação do homem como organismo não
desenvolve plenamente sem o suporte de outros indivíduos de sua
espécie.”
4.1- A CONSTRUÇÃO DOS MATERIAIS TÁTEIS
Na confecção dos materiais foi observado a necessidade da utilização de sucatas por
apresentar um baixo custo e ao mesmo tempo chamar a atenção para materiais que estão no
nosso dia-a-dia.
Também foi observada a utilização de diferentes texturas como fator importante na
utilização do tato, como a utilização de cores contrastantes para os alunos de baixa visão.
Em alguns materiais foram construídos com base no olfato e na percepção do
aumento da temperatura.
Na ausência de um sentido, na maioria dos casos obtemos a
informação de elementos por meio de outros sentidos de
percepção sensorial, em separado ou em conjunto, naquilo que se
denomina multissensorial, são aquelas percepções elaboradas
entre: ouvido e tato, nariz e tato, boca e tato e etc..
(Ballestero-Ávarez – 2002 )
Os assuntos que geraram mais materiais foram: 2ª Guerra Mundial, a criação da ONU
e os grandes problemas ambientais.
Abaixo relacionamos os materiais táteis funcionais que foram construídos:
1- CILINDRO DE ENERGIA.
Material produzido para a identificação dos diferentes tipos de energias existentes no
mundo. Através de diferentes materiais e espessuras é possível perceber a variedade de
tipos de energia. Os alunos observaram a necessidade de identificação das fontes
energéticas pelos seus respectivos nomes.
Figura 1- Fontes Energéticas.
2 – CAIXA DE DEBATE.
Uma caixa onde os temas trabalhados em sala de aula eram sorteados. Cada aluno
recebia um tema e o explicava para a turma. No final todos estavam debatendo uns
interagindo com os outros.
Figura 2 –Temas atuais.
3 – SUÁSTICA.
Emblema utilizado na farda dos soldados nazistas, o qual os alunos nunca tiveram
contato. Produzido de forma tridimensional. Houve um bom aproveitamento pelo fato do
material apresentado ter uma textura adequada.
Figura 3 – Símbolo Nazista.
4 – GAVETAS DA ÁFRICA.
Estilo de uma cômoda representando alguns países africanos e o nível de consumo de
cada um. Os alunos aprovaram o estilo de abre e fecha das gavetas, o que se tornou um
elemento surpresa.
Figura 4 – Gavetas Africanas.
5 – CAMINHO DO GÁS.
Mapa tátil da América do Sul apresentando o percurso do Gasoduto Brasil-Bolívia. A
principal característica desse material é representar a ligação que faz o transporte do gás
produzido na Bolívia até o Brasil. Os alunos identificaram a necessidade de um título e de
uma legenda em Braille, mas aprovaram a idéia.
Foto 5 – Gasoduto Brasil-Bolívia.
6- POLUIÇÃO DA ÁGUA.
Trabalhar com o aluno a questão da proporção. Mostrar que uma colher de chá de
óleo é capaz de poluir um litro de água. O material foi de fácil entendimento.
Figura 6 – Poluição da água
7- TRANSGÊNICOS.
Identificar através da diferença de tamanho os alimentos geneticamente modificados
dos alimentos comuns. Estimular a curiosidade dos alunos.
Figura 7 – Alimentos Transgênicos.
8- AUTO-ESTUFA.
Material construído para simular uma estufa humana. Por meio da sensação tátil,
trazer o calor gerado por uma estufa. Um dos materiais mais apreciados pelos alunos, não
necessitando de nenhuma correção.
Figura 8 – Auto-estufa
9- ARCO DO DESFLORESTAMENTO.
Mapa tátil da Floresta Amazônica identificando os locais com maior ocorrência de
desmatamento. Os alunos também observaram neste mapa a necessidade de um título e uma
legenda em Braille.
Figura 9 – Desmatamento na Amazônia.
10- CD DE CONTRACULTURA.
Reunião de músicas dessa década símbolo em termos de manifestações pelo
mundo a favor de ideais comuns. Apesar de um grupo significativo de alunos
apreciarem os ritmos atuais houve uma boa receptividade quanto a idéia central do
material. A principal relação foi com o período da Guerra Fria.
Figura 10 – CD cultural.
A partir das observações dos alunos e da análise dessas informações, foi produzido
uma tabela em que foram relacionados os materiais táteis mais funcionais.
Nela está disposta os aspectos quanto a didática, a sensorialidade e a legibilidade do
material.
PRODUTO
ASPECTOS
MATERIAIS UTILIZADOS
9
D
S
L
1
Cilindro de energia
-
+
-
Embalagem Pringles, tecidos e espuma
2
Gaveta da África
+
+
+
Papelão, isopor, grampos e pregos
3
Suástica
+
+
+
TNT azul, entretela e espuma
4
Caixa de debate
+
+
-
Papelão, TNT e papel
5
Gás Brasil-Bolívia
+
+
+
6
Transgênicos
+
+
+
Tinta relevo marrom, miçangas e TNT
Papelão, tecido, plástico e arroz
10
7
Poluição da água
+
+
+
Garrafa de álcool e colher de chá
8
Auto-estufa
+
+
+
Cabo de guarda-sol, plástico e tampa-bolo
9
Desflorestamento
+
+
+
Juta e barbante
10
CD contracultura
+
-
+
MP3 + capa de EVA
D = didático
S = sensorial
L = legibilidade
TABELA 1: Funcionalidade dos Materiais produzidos
5- O GAVETERIO GEOGRÁFICO.
Ele surgiu da necessidade de guardar todo o material produzido, porém ao longo do
processo de criação, foi observado que o mesmo agrega o conceito “abrir espaço para
conhecimento” e com isso contribuir mais para a interação dos agentes professor - alunos estagiários agindo também como um apelo sensorial e na acessibilidade de informação.
Após uma série de observações, percebeu-se que esse experimento em particular foi
positivo por determinadas razões como: expectativa, curiosidade, portabilidade, leveza,
capacidade de armazenamento de informações, formato tridimensional, legibilidade e
sistema de encaixes.
Ele é composto de quatro gavetas que foram colocadas a pedido dos alunos. Os
puxadores foram pensados anatomicamente para facilitar a identificação da parte frontal da
gaveta e logo, permitir o encaixe na posição correta. Foi colocado o veludo com intenções,
já no estímulo sensorial a cor verde-cítrico chama a atenção dos alunos de baixa visão.
Sendo assim poderia comportar os produtos portáteis-individuais e a professora também
poderia organizar os conteúdos por bimestre.
No verso de cada gaveta, aproveitando o espaço do material, um conjunto de
continentes: Eurásia, Oceania, Américas e África, oferecendo funcionalidade e diferencial
ao gaveteiro.
Na lateral direita, foi colocado um porta-ficha feito de plástico transparente para
abrigar o conteúdo programático da aula durante o curso.
Na lateral esquerda, encontra-se a bolsa de debates. Baseada na proposta inicial da
“caixa de debates” foi modificada a sua configuração a fim de proporcionar maior
flexibilidade de ajuste e também em termos de composição de elementos no gaveteiro.
Alguns temas escritos em fontes visíveis e em Braille foram incluídos. A bolsa de debates,
então, estimula a participação dos alunos na aula e fora dela, na medida em que precisam
pesquisar para obter conhecimento sobre o assunto sorteado. Os temas são variados e
podem ser modificados segundo o interesse do grupo.
Tomando os resultados positivos dos experimentos com gráficos e proporções, essas
características foram agrupadas em apenas um conceito. Assim, construiu-se um gráfico
contendo 5 gráficos reguláveis feitos de elásticos e argolas para sustentar a tensão.
A extremidade superior foi revestida com o mesmo veludo verde dos demais elementos da
cômoda para sustentar a distensão das fibras do elástico.
5.1 – A EXPERIMENTAÇÃO DO GAVETEIRO GEOGRÁFICO.
Ao ser levado para a sala de aula, os alunos demonstraram interesse para saber o que
encontrariam dentro das gavetas, respondendo a proposta da expectativa.
À medida que a professora descrevia o gaveteiro e suas funções, eles aguardavam a
vez para investigá-lo. Todos demonstraram curiosidade e interesse conforme o imaginado.
Dois alunos em particular sugeriram a aperfeiçoar o braille em determinados componentes
da bolsa de debates e nas legendas dos mapas porque algumas letras estavam pouco
legíveis.
Também sugeriram novos materiais que pudessem ser adicionados ao lado
esquerdo do gaveteiro, como fotos em alto-relevo.
Figura 11 –Gaveteiro Geográfico.
Figura 12 –Bolsa de debates
Figura 13 – Gráfico de argolas
Figura 14 – Porta fichas
ERROR: ioerror
OFFENDING COMMAND: image
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