Fundação Educacional de Divinópolis – FUNEDI Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG Mestrado em Educação, Cultura e Organizações Sociais O trabalhador temporário da indústria canavieira de Lagoa da Prata-MG: panorama sobre condições de vida, de trabalho e saúde Maria Regina Alves Maciel Divinópolis – MG 2010 Maria Regina Alves Maciel O trabalhador temporário da indústria canavieira de Lagoa da Prata–MG: panorama sobre condições de vida, de trabalho e saúde Dissertação apresentada ao curso de Mestrado em Educação, Cultura e Organizações Sociais da FUNEDI/UEMG, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação, Cultura e Organizações Sociais. Área de concentração: Estudos Contemporâneos Linha de Pesquisa: Espaço e Sociedade Orientador: Prof. Dr. Alysson Fonseca Divinópolis – MG 2010 Catalogação na Fonte Biblioteca Prof. Nicolaas Gerardus Plasschaert - FUNEDI-UEMG M152t Maciel, Maria Regina Alves O trabalhador temporário da indústria canavieira de Lagoa da Prata-MG: panorama sobre condições de vida, de trabalho e de saúde. [manuscrito] / Maria Regina Alves Maciel. - 2010. 97 f., enc. Orientador : Prof. Dr. Alysson Rodrigo Fonseca Dissertação (mestrado) - Universidade do Estado de Minas Gerais, Fundação Educacional de Divinópolis, Mestrado em Educação, Cultura e Organizações Sociais. Bibliografia: f. 88-94 1.Trabalho temporário – Aspectos sociais. 2. Cortador de cana. 3. Agroindústria canavieira – Lagoa da Prata (MG). 4. Saúde do trabalhador. I. Fonseca, Alysson Rodrigo. II. Universidade do Estado de Minas Gerais. Fundação Educacional de Divinópolis. III. Título. CDD: 331.2 Dissertação intitulada “O trabalhador temporário da indústria canavieira de Lagoa da Prata-MG: panorama sobre condições de vida, de trabalho e saúde”, de autoria da mestranda Maria Regina Alves Maciel, aprovada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores: AUTORIZAÇÃO PARA REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA DISSERTAÇÃO Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação intitulada “O trabalhador temporário da indústria canavieira de Lagoa da Prata-MG: panorama sobre condições de vida, de trabalho e saúde”, de autoria de Maria Regina Alves Maciel, por processos de fotocopiadoras e eletrônicos. Igualmente, autorizo sua exposição integral nas bibliotecas e no banco virtual de dissertações da FUNEDI/UEMG. Maria Regina Alves Maciel Divinópolis, 07 de outubro de 2010 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho a meu marido, Francisco, a meus filhos, Vinícius, Clara e Sofia, espectadores pacientes e incentivadores desta minha luta. Dedico aos meus pais, Otaviano e Conceição (Lulu) meus primeiros e definitivos mestres da sabedoria da humildade e do trabalho. Dedico a meus irmãos, companheiros no caminho do otimismo e das conquistas. AGRADECIMENTOS Em todos os projetos de nossa vida, é imprescindível a participação e colaboração de companheiros. E durante a trajetória de realização destes sonhos transformados, é que percebemos o verdadeiro valor de termos conhecido tantos e de termos a alegria de contar com aqueles que nos depositaram confiança e reconheceram nossos esforços. É por isso que agradeço, primeiramente a Deus, que confiou em mim e me tornou capaz desta missão, da qual saio fortalecida em meu espírito, em função do caráter desafiador e disciplinador da árdua e trabalhosa tarefa de conclusão desta obra acadêmica. Agradeço ao Prof. Doutor Francisco de Assis Braga, pelos primeiros passos para a realização desta tarefa. Foi ele que me apresentou o mundo dos métodos, dos referenciais literários e de forma persistente apontou-me caminhos para o desprendimento de radicalismos que só emperravam a conclusão do trabalho. Agradeço ao Prof. Doutor Alysson Fonseca, pela continuidade do processo de realização da emaranhada obra. Sua incisiva observação e incansável detalhismo foram fundamentais para a retomada e conclusão do trabalho. Juntamente com a Profª Doutora Batistina Corgosinho, propiciaram um leque de novos olhares sobre o foco já existente sendo fundamentais para a excelência da dissertação. Minha gratidão ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata, Minas Gerais, que de forma tão solícita, permitiu-me ampliar meus conhecimentos a cerca das condições de vida, trabalho e saúde do trabalhador rurícola braçal do setor sucroalcooleiro daquela região. Estendo minha gratidão aos trabalhadores temporários, focos desta pesquisa e que, sem a colaboração dos mesmos nas entrevistas nada teria sido possível. O AÇÚCAR Ferreira Gullar O branco açúcar que adoçará meu café Nesta manhã de Ipanema Não foi produzido por mim Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro E afável ao paladar Como beijo de moça, água Na pele, flor Que se dissolve na boca. Mas este açúcar Não foi feito por mim. Este açúcar veio Da mercearia da esquina e Tampouco o fez o Oliveira, Dono da mercearia. Este açúcar veio De uma usina de açúcar em Pernambuco Ou no Estado do Rio E tampouco o fez o dono da usina. Este açúcar era cana E veio dos canaviais extensos Que não nascem por acaso No regaço do vale. Em lugares distantes, Onde não há hospital, Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome Aos 27 anos Plantaram e colheram a cana Que viraria açúcar. Em usinas escuras, homens de vida amarga E dura Produziram este açúcar Branco e puro Com que adoço meu café esta manhã Em Ipanema. RESUMO A indústria sucroalcooleira, nos moldes que se apresenta na atualidade brasileira, implica na geração de impactos econômicos, ambientais e sociais. Nesse último ressalta-se a geração de empregos e a constituição do profissional temporário, o cortador de cana. A pesquisa teve como objetivo caracterizar o perfil sócio-econômico do trabalhador temporário da agroindústria canavieira de Lagoa da Prata, Minas Gerais, assim como investigar aspectos relativos à vida, saúde e trabalho desses indivíduos frente às exigências e condições da atualidade. A realização do trabalho constou de uma pesquisa exploratória de natureza qualitativa, através do estudo de caso dos trabalhadores temporários da agroindústria canavieira LDC-SEV de Lagoa da Prata. Como instrumento de coleta de dados utilizou-se a entrevista semi-estruturada, sendo as questões tratadas pela análise de conteúdo de Bardin. Os resultados indicam que a grande maioria dos trabalhadores temporários do setor sucroalcooleiro eram migrantes, homens e jovens, com ensino fundamental incompleto e pequeno poder aquisitivo. A presença majoritária de jovens evidenciou a correlação entre a disposição física e a força muscular exigida pelo trabalho proposto. A maioria sendo migrantes sazonais pode ser explicada pela inibição dos trabalhadores locais diante do baixo salário oferecido, associados ao trabalho pesado e desgastante do corte da cana. A priorização do trabalhador do sexo masculino em detrimento do sexo feminino se justificou pela superioridade biológica natural para o desempenho do trabalho e pela maior oferta de mão-de-obra. A maioria dos trabalhadores era reincidente de outras safras, possivelmente pelo fato de que a maioria não apresentava qualificação profissional, tendo conseqüentemente suas chances diminuídas na disputa por outros empregos. As mulheres, apesar de minoria no quadro dos trabalhadores temporários, desempenhavam as atividades de forma igualitária, dentro de suas limitações físicas. A empresa disponibilizava equipamentos de proteção individuais adequados e conscientizava sobre a importância da utilização dos mesmos através de cursos de integração profissional e treinamento, contribuindo para minimizar os riscos e o índice de acidentes de trabalho. Constatou-se, porém, que o cortador de cana reconhece que, em função do exercício corporal cíclico e repetitivo a que estão sujeitos, estão submetidos a uma série de riscos e problemas de saúde, físicos e psíquicos. Finalmente, verificou-se a existência do fetichismo da estabilidade, justificado pelo espectro da instabilidade, da falta de moradia e da não-sobrevivência, o que torna aceitável a realização do trabalho pesado e desgastante do corte da cana pelos trabalhadores que permanecem como mão-de-obra disponível da empresa, safra após safra, não se importando com as condições de trabalho a que se submetem. Palavras-chaves: açúcar, trabalhador temporário, trabalho, saúde ABSTRACT The sugar and alcohol industry in the manner which is presented in Brazil nowadays, involves the generation of economic impacts, environmental and social issues. In the latter study highlights the creation of jobs and the establishment of professional, temporary cane cutter. The study aimed to characterize the socio-economic profile of the temporary worker of the sugar agribusiness in Lagoa da Prata, Minas Gerais, as well as to investigate aspects of life, health and work of these individuals face the requirements and conditions of today. The completion of the work consisted of an exploratory research, qualitative in nature, through a case study of temporary workers from the sugar industry LDC-SEV of Lagoa da Prata. As an instrument of data collection used the semi-structured interview, with issues addressed by the content analysis of Bardin. The results indicate that the vast majority of temporary workers in the sugarcane sector were migrants, men and youth with basic education and little purchasing power. The massive presence of young people revealed a correlation between the physical and muscular strength required by the proposed work. Most are seasonal migrants can be explained by the inhibition of local workers on low wages offered, coupled with hard work and stressful cutting sugar cane. The prioritization of male worker at the expense of women was justified by the superiority of natural biological to job performance and greater supply of manpower. Most of the workers were a repeat of other crops, possibly because the majority had no qualifications, and consequently reduced their chances in the race for other jobs. The women, though a minority in the framework of temporary workers performed the activities equally, within their physical limitations. The company provides personal protection equipments and adequate awareness on the importance of resource use through integration courses and vocational training, helping to minimize risk and rate of workplace accidents. It found, however, that the cane cutter recognizes that, depending on the cyclical and repetitive bodily exercise they are subjected, are subject to a number of risks and health problems, physical and psychic. Finally, we verified the existence of the fetishism of stability, justified by the specter of instability, lack of housing and non-survival, which makes the realization of decent hard work and stressful cutting sugar cane workers who remain as hand- manpower available from the company, season after season, not caring about the working conditions that they undergo. Keywords: sugar, a temporary worker, work, health LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 Regiões produtoras de cana-de-açúcar no Brasil -2009......................... 25 Figura 2 Localização do Município de Lagoa da Prata – MG............................. 48 Figura 3 Faixa etária dos trabalhadores temporários da Louis Dreyfus Commodities e Santelisa Vale em Lagoa da Prata–MG, em junho de 2010........................................................................................................ 53 Tabela 1 Principais produtos agrícolas dos municípios mineiros de Lagoa da Prata e cidades vizinhas – 2008................................................................................... 19 Tabela 2 Estoque de empregos formais por setor de atividade Minas Gerais – 2008........................................................................................................ 20 Tabela 3 Evolução da safra de cana-de-açúcar/ha – Região Centro-Sul Período 2007-2009................................................................................. Tabela 4 26 Caracterização dos trabalhadores temporários da Louis Dreyfus Commodities e Santelisa Vale em Lagoa da Prata-MG – safra de 2010 (mês de maio)................................................................................ Tabela 5 55 Caracterização geral dos trabalhadores temporários da Louis Dreyfus Commodities e Santelisa Vale em Lagoa da Prata_MG - safra de Tabela 6 2010....................................................................................................... 56 Dados gerais sobre os trabalhadores temporários entrevistados............ 58 LISTA DE ABREVIATURAS BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CLT Consolidação das Leis do Trabalho CPT Comissão de Pastoral da Terra CIPA Comissão Interna de Prevenção de Acidentes DNA Ácido desoxirribonucléico EPI Equipamento de Proteção Individual GTEA Grupo Técnico de Estudos do Álcool HPA Hidrocarbonetos policíclicos aromáticos IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INDI Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais LDC-SEV Louis Dreyfus Commodities e Santelisa Vale MTE Ministério do Trabalho e Emprego MG Minas Gerais MPT Ministério Público do Trabalho OCDE Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico ONG´s Organizações não-governamentais PROÁLCOOL Programa Nacional do Álcool PROCANA Programa cana-de-açúcar RAIS Relação Anual de Informações Sociais REPAR Refinaria de Petróleo de Araucária (PR) SENAR Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SINDAÇÚCAR Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool UFMG Universidade Federal de Minas Gerais ÚNICA União da Agroindústria Canavieira de São Paulo SUMÁRIO 1 1.1 1.2 INTRODUÇÃO.......................................................................................... 12 Objetivo geral.............................................................................................. 15 Objetivos específicos.................................................................................... 15 2 2.1 2.2 2.3 2.3.1 REVISÃO DE LITERATURA................................................................. O município de Lagoa da Prata e a cana-de-açúcar..................................... O agronegócio da cana-de-açúcar................................................................ Mudanças sociais e ambientais provocadas pela agroindústria canavieira.. Impactos ambientais ocasionados pela cana de açúcar: repercussões sobre 2.3.2 o ambiente e a sociedade.................................................................... 29 As relações de trabalho na sociedade açucareira contemporânea – 2.3.3 impactos sociais da monocultura sobre o trabalhador.................................. Condições de vida do trabalhador temporário............................................. 35 37 3 3.1 3.2 3.3 METODOLOGIA....................................................................................... Caracterização da pesquisa.......................................................................... Sujeitos de pesquisa e coleta de dados........................................................ Análises das entrevistas e aspectos éticos................................................... 47 47 48 49 4 4.1 4.2 4.3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS................................... Caracterização geral dos trabalhadores temporários.................................... Caracterização dos trabalhadores temporários entrevistados...................... Percepção dos entrevistados........................................................................ 52 52 57 60 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................... REFERÊNCIAS........................................................................................ ANEXOS..................................................................................................... 85 88 95 16 16 21 29 12 1. INTRODUÇÃO Existem ingredientes fundamentais em nossa mesa, e do qual não nos damos conta do quanto foram revolucionárias suas descobertas para a gastronomia e para a história da humanidade. O açúcar é um desses ingredientes que mudou hábitos e costumes de toda uma sociedade. Os povos primitivos das regiões tropicais consumiam in natura a cana-deaçúcar, além de outras frutas que contivessem o doce do açúcar como abacaxi, batata doce, laranja e manga. A cana-de-açúcar é uma cultura nativa do Sul do Pacífico, e foi levada para várias regiões: Madagascar, Sudeste da Ásia, Índia, China. E também há a suposição de que já havia cana-de-açúcar na América pré-colombiana. As cruzadas tiveram papel importante na popularização do açúcar na Europa, o mel, antes consumido no velho continente, possuía um custo de extração alto, daí a preferência pelo açúcar que seduziu os europeus pelo paladar e também pelas suas qualidades conservantes e medicinais. Entretanto, o clima europeu não era o ideal para seu plantio, sendo que as tentativas de cultivo nos países da Europa Ocidental não surtiram bons resultados. Em função dessa situação, a solução seria, portanto, importar essa iguaria do Oriente. Ao importarem tal riqueza para suas próprias terras, as nações do Velho Mundo que estavam começando a se estruturar politicamente como reinos absolutistas fizeram com que o açúcar logo se tornasse importante para suas “tradições” gastronômicas. Contudo, a dependência da oferta do produto no mercado e os preços dessa valiosa especiaria restringiam o consumo às classes sociais mais abastadas e, por conseqüência, tornava o açúcar um produto elitizado (LIMA et al, 2008). Os portugueses já conhecidos como principais produtores de açúcar no mundo, devido aos conhecimentos adquiridos na produção do Reino e da Ilha da Madeira e pelo alto valor do açúcar no mercado internacional trouxeram a cana-de-açúcar para o Brasil em 1530. Logo a cana encontrou as condições de adaptação propícias para seu pleno desenvolvimento. Uma destas condições foi seu estabelecimento em grandes propriedades fundiárias. A cultura da cana era viável economicamente somente se cultivada em grandes plantações. Para desbravar convenientemente o terreno era necessário o esforço reunido de muitos trabalhadores. Isto feito, as etapas de produção como; a plantação, a colheita e o transporte do produto até os engenhos onde se preparava o açúcar, só se tornavam rendosas quando realizadas em grandes volumes. Nesse sentido, o pequeno produtor não podia subsistir. 13 Assim, as capitanias distribuídas aos donatários portugueses eram enormes, marcando o início dos latifúndios de monocultura no Brasil, pois os dois elementos se complementavam e partiam da necessidade que Portugal tinha de explorar economicamente as terras americanas, tornando possível cobrir os gastos de defesa da colônia (PRADO JÚNIOR, 1971; FURTADO, 2007; LIMA et al, 2008; FERRAZ, 2008; NADALETO e WEHRMANN, 2008). Segundo Ferraz (2008) Furtado (2007) e Lima et al (2008), o cultivo da cana-deaçúcar em forma de plantation1 foi a primeira atividade produtiva a ser instalada no Brasil, ainda no período da colonização portuguesa. Os engenhos se multiplicaram utilizando-se principalmente da mão-de-obra escrava, sendo que no início utilizaram o indígena autóctone, depois os africanos. Sem os trabalhos forçados do negro nas lavouras de cana-de-açúcar, Pernambuco certamente não teria se destacado como maior produtor de açúcar da colônia. Ao final do século XVI, os estados de Pernambuco e Bahia já possuíam mais de uma centena de engenhos, e o país, até 1650, liderou a produção mundial de açúcar. A adaptação da cultura da cana ao Brasil, a mão-de-obra escrava africana, a abundância de terras cultiváveis e o crescimento do mercado do açúcar na Europa foram essenciais para a expansão da produção açucareira. Desde o século XVI até a contemporaneidade, o cultivo da cana-deaçúcar no Brasil é marcado por períodos de prosperidade e de estagnação econômica, devido à prioridade de exportação dos subprodutos, principalmente o açúcar e mais recentemente o álcool combustível, implicando na forte dependência deste setor em relação à conjuntura econômica externa. E desde então a dimensão territorial e os impactos sociais, ambientais e econômicos decorrentes da atividade foram crescendo junto com a expansão desse setor em direção a outras áreas e regiões. A cana ocupa aproximadamente seis milhões de hectares das terras agricultáveis brasileiras concentrados principalmente no sudeste e nordeste e cerca de oitocentos mil trabalhadores ocupados diretamente, o que corresponde a aproximadamente 25% da força de trabalho da agricultura. Paralelamente à geração de empregos ocorre o principal impacto social do cultivo da cana-de-açúcar, que é a questão dos trabalhadores, geralmente migrantes originários do nordeste do Brasil (DINARDI e SALAN, 2004). Em Minas Gerais, a atividade sucroalcooleira esteve durante muitos anos concentrada nas regiões da Zona da Mata e Sul. Após os anos 90, passou a ser transferida para a região do Triângulo Mineiro principalmente devido aos investimentos realizados pelos principais grupos empresariais nordestinos, atraídos pelas condições topográficas, o clima e a 1 Plantation: sistema agrícola que utilizava no período colonial brasileiro a monocultura, o latifúndio e mão-deobra escrava para o desenvolvimento da atividade canavieira (FERRAZ,2008). 14 proximidade com São Paulo, o maior produtor. Com isso o estado de Minas Gerais veio aumentando sua participação na produção de cana-de-açúcar. O crescimento da produção de cana em Minas vem sendo acompanhado por uma concentração maior de indústrias e monoculturas nas mesorregiões Noroeste de Minas, Central Mineira, Oeste de Minas, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, principais regiões produtoras (SINDAÇÚCAR-MG, 2003). Na região centro-oeste do estado de Minas Gerais, o município de Lagoa da Prata apresenta-se como um importante pólo de produção sucroalcooleira, necessitando de grande quantidade de trabalhadores rurais temporários que são admitidos e demitidos todos os anos. Torna-se importante ressaltar que, segundo Brasil (1986), na classificação “trabalhador rural” são distintas duas categorias: o trabalhador direto identificado pela consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que é aquele contratado por tempo indeterminado ou definitivo e o trabalhador rurícola braçal, contratado em regime temporário para um período de um ano para cumprir tarefas variadas em um período de safra, sejam elas: corte de cana, plantio, colheita, aspersão de agrotóxicos, aspersão de vinhaça, ajudantes gerais, excluindo os trabalhos da moenda e engenho, assim como serviços de escritórios e almoxarifados que são atribuídos aos trabalhadores diretos. Caso as atividades da safra terminem antes deste tempo de um ano, automaticamente o contrato é rescendido e o trabalhador temporário pode ser demitido a qualquer momento. Além desta demissão repentina, esta categoria é destituída de benefícios como aviso prévio, os 40% de multa rescisória e o seguro desemprego, comumente pagos aos trabalhadores diretos. Tendo em vista a temática da produção sucroalcooleira do município de Lagoa da Prata e especificamente, o trabalhador temporário que nela atua, questiona-se nessa pesquisa como se caracteriza esse indivíduo no contexto social, suas condições de vida, de trabalho, saúde e perspectivas de futuro. Presume-se que estes trabalhadores, seja da própria cidade ou de outras localidades, não estejam adequadamente organizados para reivindicarem seus direitos e estão permanentemente expostos a uma série de riscos e problemas de saúde. As jornadas e condições de trabalho a que estes trabalhadores sazonais se submetem, parecem comprometer a mobilidade social vertical em função da dificuldade de ascensão escolar e melhoria no nível de renda. Portanto, parece haver evidências claras de expropriação de pequenos proprietários para a zona urbana aumentando o êxodo rural e conseqüentemente o comprometimento da agricultura familiar, bem como evasão de capitais oriundos do trabalho do corte de cana com os safristas migrantes. A cada ano, safristas são contratados temporariamente e o salário é geralmente pouco atrativo para o trabalho pesado e desgastante 15 do corte da cana, sendo muitas vagas preenchidas pelos migrantes sazonais. Nesse sentido, o município de Lagoa da Prata parece contar com uma classe empobrecida de trabalhadores que não podem colaborar com capital de giro suficiente para manter as atividades comerciais e de serviços de forma satisfatória para o crescimento da cidade. Mediante uma pesquisa exploratória de natureza qualitativa, através do estudo de caso dos trabalhadores temporários da agroindústria canavieira de Lagoa da Prata, procurouse nesse trabalho caracterizar o perfil sócio-econômico desses indivíduos, assim como investigar aspectos relativos à saúde, trabalho do homem e da mulher gênero frente às exigências e condições da contemporaneidade. 1.1 Objetivo geral • Caracterizar o perfil sócio-econômico do trabalhador temporário da agroindústria canavieira de Lagoa da Prata, assim como investigar aspectos relativos à saúde, trabalho do homem e da mulher, frente às exigências e condições da atualidade. 1.2 Objetivos específicos • Estudar a origem desses trabalhadores, assim como suas condições sociais (estudo, moradia, acesso a bens de consumo) e perspectivas de vida; • Pesquisar as condições de trabalho, especialmente no que se refere ao tempo, ganho, produtividade, qualificação, organização e divisões de tarefas; • Buscar informações sobre a saúde desse trabalhador, especialmente no que se referem ao risco, morbidades e segurança no trabalho. 16 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1 O município de Lagoa da Prata e a cana-de-açúcar Data de 1896 a origem do município de Lagoa da Prata, com o surgimento do povoado fundado pelo coronel Carlos José Bernardes Sobrinho. Primeiramente chamado Pântano, devido à região alagadiça em que se achava situado na época, o povoado recebeu, posteriormente, a denominação de São Carlos do Pântano, em homenagem ao seu fundador. Em 1923, passou a chamar-se Lagoa da Prata, por sugestão dos padres que, chegando ao povoado, logo à entrada, avistaram uma "linda lagoa de águas limpas que refletia em seus olhos a cor prateada, resultante da mistura do azul celeste com o brilho dos raios solares". Em 1923, foi criado o distrito, sendo elevado a município em 1938 (OLIVEIRA, 1998). Antes, porém, o Tenente Francisco Bernardes, nos idos de 1850, construiu à margem esquerda do Rio São Francisco, uma boa casa e nela se estabeleceu com negócios de fazendas dando nome ao lugar de “Escorrupicho” e desenvolveu atividade de lavoura canavieira e cereais. Montou um grande engenho de açúcar e aguardente e construiu uma ponte sobre o rio São Francisco. No ano de 1870, o Coronel Carlos Bernardes, casou-se com sua prima de apenas 12 anos na época, Dª Alexandrina, filha do Tenente Francisco Bernardes, e com ela e seus irmãos órfãos, veio morar próximo à lagoa, no Pântano (MENDES2, 2003). Havia então vagos moradores em alguns tugúrios. Por algum motivo achou Carlos Bernardes que devia ser no Pântano a sede da povoação que já tinha em mente. Fez demolir a grande casa que seu sogro havia construído na Fazenda da ponte do Escorropicho, transportou-a para cá em morosos carros de boi e edificou um belo palacete na margem da formosa Lagoa da Prata (MENDES, 2003, p.7). Segundo Oliveira (1998), a cidade de Lagoa da Prata, emancipada em 1938, concentrava a mão-de-obra principalmente no setor agrícola, e pequena parcela no setor de comércio. Entretanto, foi no ano de 1945 que um grupo de fazendeiros e comerciantes deram 2 Acácio Mendes é considerado o primeiro escritor e historiador de Lagoa da Prata. Seus textos datam do início do século XX e foram reunidos em uma obra importante, revisada e apresentada à sociedade lagopratense pela ACADELP- Academia Lagopratense de Letras em 2003. 17 início à implantação da usina açucareira na cidade. A usina recebeu o nome de Usina São Francisco. A fábrica foi montada a poucos quilômetros da linha de ferro, construída na década de 1910, para melhor se fazer o escoamento do açúcar e álcool. O conjunto era composto basicamente de um prédio para a destilaria, o engenho com suas moendas e captação da matéria-prima para a transformação, além da longa chaminé e caldeiras. Segundo o mesmo autor, com as primeiras safras, entre os anos de 1945 e 1950, a empresa construiu uma vila para os trabalhadores, próxima do setor industrial. Possuía redes de esgoto, energia elétrica, água potável além de um centro comercial ativo e organizado, com supermercado, farmácia, padaria, bar, barbearia e cinema. O Banco Financial da Produção manteve um escritório na vila até 1955. Fora também instalado um centro médicoodontológico com laboratório de análises com serviço gratuito para os empregados e dependentes. Durante a década de 1970, sua produção já havia se multiplicado, bem como a área inicialmente plantada. A usina passou a ser denominada Usina Luciânia, em homenagem ao proprietário daquele período, Antonio Luciano Pereira. E dando seguimento às modernidades da vila, fora construída a Praça de Esportes e ao lado dela a Escola Estadual Ovídio de Abreu. A vila Luciânia já contava com mais de três mil pessoas, incluindo as colônias de trabalhadores na zona rural. Porém, no ano de 1989, um movimento grevista de repercussão nacional, fez mudar o rumo da história. Os operários e suas famílias tiveram que se mudar para a zona urbana de Lagoa da Prata, e quase todas as casas da vila Luciânia foram demolidas e deram mais espaço ao canavial. Ficou apenas a indústria propriamente dita e a central administrativa que ainda conta com a estação ferroviária, o aeroporto e residência de diretores. Nos fins dos anos de 1990 a Usina Luciânia foi parcialmente vendida para um grupo de empresários franceses e passou a se chamar Coinbra-Luciânia e atualmente pertence ao grupo francês Louis Dreifus Commodities. Contudo, a despeito das mudanças na política interna da empresa, a expansão da cana-de-açúcar no município de Lagoa da Prata continuou a ocorrer e pode ser verificada a partir dos dados comparativos a seguir: em 2003, as pastagens e culturas predominavam nas áreas de preservação permanente, ocupando 1/3 (33,6%) da área total e o cultivo da cana ocupava uma área de 16,1%; em 2008, a cana-de-açúcar ocupou 10.032 hectares de área plantada no município de Lagoa da Prata, ou seja, 22,8%. O que significa que de 2003 para 2008 as áreas ocupadas pela cana-de-açúcar aumentaram em 8,7% (LANDAU, 2003; IBGE, 2009). 18 A título de comparação, na região de Piracicaba, no Estado de São Paulo, o plantio da cultura de cana-de-açúcar substituiu em torno de 24.000 hectares de pastagens e pouco mais de 3.000 hectares de áreas com outras atividades. Em 1962, a cultura canavieira ocupava 35% da área do município, passando para 50% em 1991. As áreas de pastagens foram as que mais cederam terras para esta expansão, diminuindo de 43%, em 1962, para 25%, em 1991 (SPAVOREK; LEPSCH, 1995). A TAB.1 apresenta um perfil mais claro de Lagoa da Prata, quanto à utilização da terra para agricultura, inclusive para a cana-de-açúcar. Mostra os tipos de cultura de maior ocorrência nos municípios de Lagoa da Prata e cidades vizinhas, sendo a principal cultura a cana-de-açúcar. Em comparação com municípios vizinhos, proporcionalmente à extensão territorial, Japaraíba e Luz apresentam grande quantidade de produção de cana-de-açúcar, juntamente com Lagoa da Prata. Japaraíba possui grande número de fazendas e sítios que cultivam a cana para produção de silagem ou para o fabrico de rapadura, uma das fontes de renda de alguns agricultores daquela cidade. Por outro lado, uma parte de seu território foi adquirida ou arrendada para a usina de açúcar e álcool de Lagoa da Prata. O município de Luz, por exemplo, teve grande parte de suas terras agricultáveis arrendadas para a Usina Louis Dreyfus no ano de 2008 (IBGE, 2008). 19 TABELA 1 Principais produtos agrícolas dos municípios mineiros de Lagoa da Prata e cidades vizinhas 2008. Arroz em casca Produção (t) Rendimento (ha) Área colhida (ha) Produção (t) Rendimento (ha) 20 36 11.000 90167 598.513 65.289 50 36 720 650 2.600 4.000 Japaraíba 40 120 3.000 4.360 318.280 73.000 80 120 1.375 700 3.220 4.600 S. Ant. do Monte 85 136 1.600 300 21.000 70.000 300 135 450 450 2.025 4.500 Moema 30 36 1.200 73 5.768 79.013 110 106 963 300 1.050 3.500 Luz 50 105 2.100 4.137 340.930 82.409 30 26 866 3.500 14.700 4.200 Rendimento (ha) Lagoa da Prata Produção (t) Área colhida (ha) Milho Área colhida (ha) Feijão Rendimento (ha) Cana-de-açúcar Produção (t) Várzea úmida Área colhida (ha) Cidades Fonte: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2008. Quanto ao crescimento populacional, os dados demográficos revelam um aumento acelerado da população urbana no município de Lagoa da Prata e conseqüente diminuição da população rural. Este fenômeno de êxodo rural, observado no município, se deu em grande parte pela absorção da mão-de-obra dos trabalhadores rurais pela indústria de açúcar e álcool. Muitos desses trabalhadores deixaram a zona rural para residirem na zona urbana, atraídos pelas melhores condições de trabalho e de vida almejadas na cidade (IBGE, 2008). Conforme IBGE (2008), assim como a população mineira em geral, a população lagopratense é formada por uma grande diversidade de povos, que inclui índios, bandeirantes paulistas, portugueses, africanos, italianos, alemães, libaneses e espanhóis. O desenvolvimento de Lagoa da Prata está sustentado no crescimento demográfico, pois ao tornar-se sede do município, em 1938, a cidade só contava com 2.417 habitantes. Em 1950 o número cresceu para 3.148, em 1960 chegou a 6.852 e em 1970 a 12.514. Logo passou a contar com 19.974 em 1980 e 28.116, em 1990. O recenseamento de 1997 apontou a existência de 33.807 pessoas no município quase totalmente compactada na cidade, apesar de contar com uma área pequena de 440 km², e a estimativa para 2009 era de 47.000 habitantes. 20 Quanto às ocupações exercidas, de acordo com o último mapa do Mercado de Trabalho da Fundação João Pinheiro (2008), Lagoa da Prata aparece com 28,7%, das ocupações na microrregião de Bom Despacho. Quanto à distribuição dos ocupados por setor de atividade econômica, destacam-se os serviços, com 34,7% das ocupações, e a agropecuária, com 15,3%. A média do estado para esses setores foi de, respectivamente, 49,7% e 6,6%. Lagoa da Prata, segundo município em importância da microrregião em relação à ocupação formal, apresentou um crescimento de destaque, acima da média da microrregião. A indústria representou mais de 50,0% de sua estrutura setorial de ocupação, baseada na indústria sucroalcooleira e de laticínios, mostrando uma expansão no mercado de trabalho em função da expansão da agroindústria açucareira. Conforme Tabela 2, o número total de empregos formais registrados no estado de Minas Gerais em dezembro de 2008 atingiu 4,2 milhões, representando um crescimento de 3,67% em relação ao estoque de emprego de dezembro de 2007. Em números absolutos, esse aumento correspondeu ao acréscimo de 148,0 mil postos de trabalho, em relação ao ano anterior. Os setores que apresentaram melhor desempenho, no tocante à geração de empregos, foram os Serviços, com a criação de 85,2 mil postos de trabalho (+7,28%), o Comércio, com 43,4 mil novos postos (+6,0%), e a Construção Civil, com a geração de 30,7 mil (+13,43%). A maior variação relativa ocorreu no setor da Construção Civil, com crescimento de 13,43%. O setor que apresentou maior saldo negativo foi a Administração Pública, com redução de 37,8 mil postos (-4,38%) (BRASIL, 2010). TABELA 2 Estoque de empregos formais por setor de atividade Minas Gerais – 2008 Setores de Atividades Econômicas Variação Absoluta Relativa (%) 2007 2008 44.287 724.168 37.634 228.743 723.331 1.170.054 862.699 245.287 45.613 746.067 37.220 259.470 766.747 1.255.265 824.918 248.883 1.326 21.899 414 30.727 43.416 85.211 7.781 3.596 2,99 3,02 1,10 13,43 6,00 7,28 4,38 1,47 TOTAL 4.036.203 Fonte: BRASIL, 2010. O agronegócio da cana-de-açúcar 4.184.183 147.980 3,67 Extrativa mineral Indústria de transformação Serviços industriais de utilidade pública Construção civil Comércio Serviços Administração pública Agropecuária, extr. vegetal, caça e pesca 21 2.2 O agronegócio da cana-de-açúcar O conceito de "agrobusiness” (agronegócio) foi proposto em 1957, por Davis e Goldberg3, para designar a soma das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas, processamentos e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles. Assim, a agricultura passa a ser abordada de maneira associada aos outros agentes responsáveis por todas as atividades, que garantem a produção, transformação, distribuição e consumo de alimentos, considerando assim, como parte de uma extensa rede de agentes econômicos. Com este conceito formalizado por tais autores, a visão do sistema do agronegócio passa a ganhar importância, abrangendo todos os envolvidos, desde a pesquisa até o consumidor final (PADILHA JUNIOR; GRASSI MENDES, 2007). De acordo com o mesmo autor, a bibliografia sobre o estudo do agronegócio aponta, no cenário internacional, para dois principais conjuntos de idéias que geraram metodologias de análise distintas entre si. A primeira vertente metodológica teve origem nos Estados Unidos, por Davis e Goldberg, mais precisamente na Universidade de Harvard, que trata do conceito de agronegócio. A segunda metodologia foi desenvolvida durante a década de 60 no âmbito da escola industrial francesa: a noção de analyse de fílière. Traduzida para o português pela expressão cadeia de produção e, no caso do setor agro-industrial, cadeia de produção agro-industrial ou simplesmente cadeia agro-industrial (CPA). O agronegócio é de fundamental importância para a economia do país, pois representa cerca de um terço do nosso PIB e tem dado grande contribuição às exportações de commodities4 e produtos agro-industriais (FERRAZ; PRADA, 2000). A dinâmica atual da economia mundial pode representar, para o Brasil, uma onda fugaz ou uma oportunidade extraordinária de crescimento e desenvolvimento. Alguns países sofrem com a concorrência ofensiva da oferta chinesa a baixos preços - Chinami - que é o efeito da oferta chinesa a baixos preços comparado a um Tsunami concorrencial. Mas os 3 DAVIS, J. H., GOLDBERG, R. A. A concept of agribusiness. Division of research. Graduate School of Business Administration. Boston: Harvard University, 1957. GOLDBERG, R. A. Agribusiness coordination: a systems approach to the wheat soybean and Florida orange economies. Division of research. Graduate Sebool of Business Administration. Boston Harvard University, 1968 (PADILHA JUNIOR; GRASSI MENDES, 2007) 4 Commodity é um termo de origem inglesa que, como o seu plural commodities, significa mercadoria. Usada como referência aos produtos de base em estado bruto (matérias-primas) ou com pequeno grau de industrialização, produzido em grandes quantidades e por diferentes produtores (FURTADO, 2007). 22 preços das nossas commodities primárias e de muitos produtos industriais intensivos em recursos naturais têm conseguido elevar-se e ter as quantidades avolumadas em decorrência da crescente demanda associada ao crescimento chinês. Considere-se o caso da expansão do setor sucroalcooleiro. A liderança brasileira é indiscutível, mas isso está longe de assegurar uma trajetória que aproveite as imensas oportunidades. Na lavoura, relações arcaicas contaminam o conjunto da indústria, da economia brasileira e o país (FURTADO, 2007). A monocultura da cana-de-açúcar, em forma de plantation, foi a primeira atividade produtiva a ser instalada no Brasil, ainda no período da colonização portuguesa, trazida para o país em 1.532 por Martim Afonso de Souza. Apesar de iniciado na Capitania de São Vicente, atual região de São Paulo, onde foi implantado o primeiro engenho de açúcar, foi no nordeste, principalmente na capitania de Pernambuco e da Bahia, que os engenhos se multiplicaram e desde então a dimensão territorial e os impactos sociais, ambientais e econômicos decorrentes da atividade foram crescendo junto com a expansão desse setor (FERRAZ; PRADA, 2000). Minas Gerais, diferentemente do nordeste, onde a cana encontrou condições adequadas durante a colonização brasileira, desenvolveu o agronegócio da cana-de-açúcar principalmente a partir dos anos de 1990, com a expansão do setor sucroalcooleiro para a região do Triângulo Mineiro (SIQUEIRA; REIS, 2008). Segundo Affonso de Paula (2005), a formação econômica do território mineiro compreende a exploração de ouro e diamantes que se iniciou nos fins do século XVII, fruto da penetração, ao longo dos séculos XVI e XVII, do bandeirantismo paulista e baiano no interior do continente. Atividades econômicas, como a cultura de cana-de-açúcar, foram estimuladas pela mineração, atividade principal naquele período. Portanto, no Estado de Minas Gerais a produção de cana-de-açúcar surgiu somente a partir do século XVIII, num contexto em que essa cultura já não era tão importante economicamente para o país, pois o período áureo da monocultura canavieira se deu entre os séculos XVI e XVII. Shikida (1999, apud SIQUEIRA; REIS, 2008) afirma que Minas Gerais saiu prejudicada por não contar com um adequado número de usinas que pudesse dar suporte às políticas do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) no Estado, e por não contar com uma política que pudesse propiciar a modernização de seus engenhos tanto no aspecto econômico da agroindústria canavieira (concentração industrial, mercado consumidor, de trabalho e de terras, entre outros indicadores), como no institucional (Decretos e Leis), nesse sentido o mais favorecido foi o Estado de São Paulo. Em Minas Gerais, os fatores naturais adequados para o cultivo de cana-de-açúcar eram limitados, como o relevo relativamente ondulado e restrições 23 térmicas e hídricas. Houve maior preocupação desenvolvimentista da agroindústria canavieira paulista ante a mineira, pois, enquanto o Governo paulista se preocupou em criar órgãos de pesquisa com a finalidade de criar variedades mais produtivas de cana-de-açúcar e mais resistentes a doenças, o governo mineiro buscou saídas menos custosas para superar os obstáculos ocasionais de sua cultura canavieira. Segundo Siqueira e Reis (2008), em São Paulo existe maior concentração econômica e institucional, com condições naturais propícias, principalmente no “quadrilátero do açúcar”, formado por Sorocaba, Piracicaba, Mogi-Guaçu e Jundiaí. Houve um direcionamento de capital gerado pelo café para as usinas, bancos, fábricas e ferrovias, melhor adaptação com mudanças nas características do regime de trabalho escravo para o trabalho assalariado, uma forte entrada de imigrantes estrangeiros, possibilitando o surgimento de mercados de mão-de-obra, de consumo e de terras. A pequena expressão econômica da produção de cana-de-açúcar no estado de Minas Gerais acompanhou sua economia durante todo o seu período histórico até o século XX. Entretanto, a partir da década de 70, com a chamada Revolução Verde 5, teve início o processo de ocupação do cerrado brasileiro, iniciado a partir das regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Nesse período, intensificou-se a produção de cana-de-açúcar, bastante incentivada no decorrer desta década. Além disso, a partir de meados da década de 1990, a produção de cana-de-açúcar vem apresentando uma importância cada vez maior para o estado de Minas Gerais. Na safra 06/07, o Estado de Minas Gerais produziu 1.911.700 toneladas de açúcar, um crescimento de 362,66% em relação à safra 90/91. A produção de álcool também aumentou, com uma variação 202,19% nesse mesmo período, com uma produção de 1.291.445 m³ de álcool na safra de 06/07 e 2.167.606 na safra de 08/09. Em 2003, a produção mineira de açúcar e álcool era sustentada por 25 unidades industriais. Dentre elas, a unidade industrial Luciânia – atual Louis Dreyfus, localizada no município de Lagoa da Prata, MG (GARLIPP; ORTEGA, 1998; SIQUEIRA; REIS, 2008; ÚNICA, 2008). Porém, já em 2008 o número de usinas em Minas Gerais, subiu para o número de 36. Até 2012, a previsão é de que chegue a 52 usinas com produção de 5,5 bilhões de litros de etanol. Na região do Triângulo Mineiro, algumas empresas que participam desta expansão são: Usina Frutal, Usina Central Energética, Cia. Energética de Açúcar e Álcool do Triângulo Mineiro do Grupo Comfrio/Fittipladi, Grupo Balbo ,Usina Santa Vitória do Grupo Crystalsev S.A, Usina Coruripe Açúcar e Álcool, Usina Cerradão do Grupo Frutal, Cabrera Central 5 Revolução Verde: refere-se ao conjunto de práticas agrícolas (sementes selecionadas, agrotóxicos, máquinas, etc) disseminadas nos anos 60 e 70 pelos países desenvolvidos. (MOREIRA; SENE, 2005) 24 Energética , Usina Nova Ponte, Grupo Carlos Lyra, Grupo Santa Elisa, Cia. Energética Vale do São Simão, Usina Zanin Açúcar e Álcool Ltda (CPT, 2008). A atividade sucroalcooleira em Minas Gerais esteve durante muitos anos concentrada nas regiões da Zona da Mata e Sul. Após os anos 90, passou a ser transferida para a região do Triângulo Mineiro principalmente devido aos investimentos realizados pelos principais grupos empresariais nordestinos, atraídos pelas condições topográficas, o clima e a proximidade com São Paulo. Com isso o estado de Minas Gerais veio aumentando sua participação na produção de cana-de-açúcar, ultrapassando os maiores estados produtores da Região Nordeste, Alagoas e Pernambuco. O crescimento da produção de cana em Minas vem sendo acompanhado por uma concentração maior de indústrias e monoculturas nas mesorregiões Noroeste de Minas, Central Mineira, Oeste de Minas, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, principais regiões produtoras (SINDAÇÚCAR-MG, 2003). Desde então, as regiões do Triângulo Mineiro e Alto Parnaíba vêm recebendo fortes investimentos no setor. Em 1997, incentivada pela inauguração dos portos fluviais nos municípios de Santa Vitória, no rio Paranaíba, e Iturama, no rio Grande, ligando o Triângulo mineiro à hidrovia Tietê-Paraná, a Usina Coruripe, do grupo alagoano Tércio Wanderley, investiu em Iturama, numa fábrica de açúcar com capacidade para produzir 1 milhão de sacas/ano. Outro complexo industrial proveniente do Nordeste, o grupo Carlos Lyra, que possui unidades nos municípios de Volta Grande e de Delta, investiu R$ 40 milhões nas usinas dos dois municípios em 2003 e 2004, visando duplicar a produção de açúcar e álcool (GARLIPP; ORTEGA, 1998). A cultura de cana-de-açúcar passou a apresentar grande importância para a economia do Estado de Minas Gerais. Essa região, favorecida pela mecanização intensiva, passou a apresentar índices de produtividade compatíveis aos produtores mais modernos do país, localizados na região de São Paulo. Assim a atividade sucroalcooleira no Estado de Minas Gerais não surge mais como uma atividade periférica de outra nuclear – extração mineral - mas como uma atividade que é implantada de maneira “racional” economicamente, ou seja, que visa à competitividade para atender da melhor maneira possível à demanda do mercado. Existem cerca de 5.000 fornecedores de cana-de-açúcar no Estado de Minas Gerais. O segmento é responsável pela manutenção de 41.000 empregados diretos no campo, distribuídos por 80 (oitenta) municípios. Ele vem investindo no processo de modernização e cogeração de energia elétrica para uso próprio e venda (SIQUEIRA; REIS, 2008). Em nível nacional, a produção de cana-de-açúcar se concentra nas regiões CentroSul e Nordeste do Brasil (FIG. 1). As áreas em vermelho no mapa mostram onde se 25 concentram as plantações e usinas produtoras de açúcar, etanol e bioeletricidade, segundo dados oficiais do IBGE, da Universidade Estadual de Campinas –UNICAMP e do Centro de Tecnologia Canavieira - CTC (ÚNICA, 2010). FIGURA 1: Regiões produtoras de cana-de-açúcar no Brasil -2009 Fonte: ÚNICA , 2010. De acordo com a TAB. 3, na região centro-sul a área de cana disponível para colheita na safra (2008/09) foi estimada em 6,53 milhões hectares, representando um aumento de 15,7% (917,9 mil hectares) em relação à safra anterior. São Paulo é o maior produtor de cana com uma área de 4,45 milhões hectares disponíveis para colheita, representando 66% de toda área de cana da região centro-sul. Apresentou um crescimento 12,2% (483,3 mil hectares) de área em relação à safra anterior. O segundo maior produtor é o Estado do Paraná com 605 mil hectares, seguido por Minas Gerais com 575 mil hectares de cana. Em relação à safra anterior, Paraná e Minas Gerais tiveram aumentos de 17,7% (90,9 mil hectares) e 24,2% (112 mil hectares). Goiás é o quarto maior produtor de cana na região centro-sul com uma 26 área de 432 mil hectares, mas foi o que apresentou a maior taxa de expansão (39,9%) em relação à safra 2007/08, com um aumento na área de 123,2 mil hectares (ÚNICA 2010). TABELA 3 Evolução da safra de cana-de-açúcar/ha – Região Centro-Sul - Período 2007-2009 Estado SAFRA 2007/08 (ha) SAFRA 2008/09 (ha) São Paulo 3.961.928 4.445.281 Paraná 513.965 604.923 Minas Gerais 462.969 574.990 Goiás 308.840 432.009 Mato Grosso do Sul 212.551 290.990 Mato Grosso 217.762 231.060 Rio de Janeiro 94.613 100.399 Espírito Santo 59.231 70.086 Total 5.831.859 6.749.738 Fonte: ÚNICA (http://www.dsr.inpe.br/canasat/). Variação % 07/08 para 08/09 12,2 17,7 24,2 39,9 36,9 6,1 6,1 18,3 15,7 O Brasil tem uma posição privilegiada nessa estratégia mundial devido especialmente ao clima favorável, com cerca de 200 milhões de hectares de terras potencialmente disponíveis, com disponibilidade de força de trabalho abundante e barata, além de conhecimento técnico e experiência na extração do etanol da cana-de-açúcar. Entretanto, Martins de Carvalho (2009) chama a atenção sobre as pretensões das megaempresas e dos governos de diversos países industrializados sobre o território brasileiro, especialmente no que se refere às supostas áreas passíveis de serem ocupadas com culturas que forneçam matérias primas para a produção de agrocombustíveis, negando a presença nesses territórios de populações originárias, de camponeses, de vilas e áreas de proteção ambiental. Contudo, não existe tema mais universal que a questão dos recursos energéticos. O crescimento da demanda por energia tem pressionado o desenvolvimento de sistemas e tecnologias mais eficientes e a diversificação de fontes de suprimento, especialmente de energias limpas e renováveis. Às tradicionais fontes energéticas de carvão, petróleo e gás 27 gradativamente somam-se outras como a nuclear, a elétrica, a eólica e a dos biocombustíveis (LOPES; MASIERO, 2008). Apesar de serem conhecidas há muito tempo, as energias renováveis, incluindo o etanol, não foram estimuladas no passado porque o petróleo e seus derivados eram baratos e abundantes tanto para a produção de combustível quanto de eletricidade. Contudo, com o súbito aumento no preço do barril de petróleo, oscilando entre US$ 100 e 140 no primeiro semestre de 2008 outras tecnologias ganharam viabilidade econômica. No início desse século, o etanol no Brasil se expandiu principalmente com a decisão do governo de aumentar de 23% para 25% a proporção de álcool anidro na gasolina “C” e a expansão da frota de automóveis conhecidos como flex fuel que funcionam tanto com álcool quanto com gasolina (FERRAZ; PRADA, 2000; FIGUEIREDO; FARIAS FILHO, 2009). Segundo Ferraz; Prada (2000), a capacidade produtiva até 2008, no Brasil, foi de 17 bilhões de litros, sendo assim o país precisa construir cem novas usinas até 2010 para a produção de mais 8 bilhões de litros de álcool para atender a demanda co mercado do etanol. Com o aumento da demanda pelo etanol, cresce a produtividade agrícola, e também ocorre a geração de empregos no setor. Para Ferraz (2008) a cana ocupava no Brasil, no ano de 2008, seis milhões de hectares e cerca de oitocentos mil trabalhadores ocupados diretamente, totalizando aproximadamente 25% da força de trabalho da agricultura. Porém, para Dinardi e Salan (2004) o setor destaca-se pela capacidade de geração de empregos, onde somente a lavoura de cana gera cerca de 10 trabalhadores por hectare e a atividade canavieira é responsável por 1.525 milhão de empregos diretos e indiretos. Segundo Martins de Carvalho (2009), a demanda potencial de etanol combustível a nível mundial será crescente e continuada. Nesse sentido, salienta-se que somente a China e a Índia possuem juntas um terço da população mundial (2,3 bilhões de habitantes) e devem continuar a ter altas taxas de crescimento econômico, o que implicará supostamente em aumento da demanda de etanol e de óleos vegetais combustíveis para dar conta das recomendações da mistura etanol com gasolina e dos óleos vegetais para utilização pura ou em mistura com o diesel. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil deve manter a liderança na produção de energias renováveis pelos próximos 25 anos entre os países emergentes. A produção de álcool no mundo passou a ganhar importância com a escassez de derivados do petróleo após a Segunda Guerra Mundial, sendo estratégico dentro da economia nacional brasileira. Em 1975, após a crise do petróleo na década de 70 e a queda de preço do açúcar, o Governo Federal instituiu o PROÁLCOOL, Programa Nacional do Álcool, criado 28 com o objetivo de atender aos interesses dos usineiros, como um mecanismo de superação da crise da economia açucareira; bem como de atender aos interesses do Governo, para melhorar os indicadores econômicos; aos interesses da indústria de máquinas e equipamentos, dando continuidade ao crescimento que havia sido iniciado no final dos anos 60; e aos interesses da indústria automobilística, com a criação do carro a álcool (SHIKIDA; BACHA, 1999). Porém o Proálcool não foi a única tentativa brasileira de desenvolver combustíveis renováveis. Em 1975 o governo criou, mas não implementou o Proóleo - Plano de Produção de Óleos Vegetais para Fins Energéticos, transformando-o em programa em 1983, quando dá início ao Programa Nacional de Óleos Vegetais para Produção de Energia, também chamado de Proóleo. O foco deste programa foi o desenvolvimento e a produção de biodiesel a partir de algodão, babaçu, resíduos, palma, algodão, canola, girassol, nabo forrageiro, mamona, soja e gordura animal para misturá-lo ao diesel (LOPES; MASIERO, 2008). Contudo, a diversificação da agroindústria da cana-de-açúcar e o aumento de eficiência alcançados no Brasil, em grande parte, se devem à implementação do Proálcool e a intervenção do Estado na agroindústria canavieira, que promoveu uma expansão e uma concentração espacial principalmente em terras de alta fertilidade, muitas dessas destinadas antes à agricultura familiar. Inicialmente, essa agroindústria baseada na monocultura da cana era exclusivamente destinada à produção de açúcar. A partir de 1975, a produção de álcool passou a funcionar, como um regulador do mercado de açúcar e vice-versa. Nesse período, houve elevação dos índices de produtividade e aumento da eficiência. Foi com o advento do Proálcool, que as usinas mineiras, ainda que pouco expressivas, passaram por um processo de modernização aumentando seu desempenho e a produção brasileira de cana aumentou de cerca de 120 para 240 milhões de toneladas entre 1975 e 1985, estabilizando-se neste patamar entre 1985 e 1995. Na década de 1990, a desregulamentação do setor sucroalcooleiro, através da interrupção da atuação direta do Estado, impossibilitou a continuidade do Proálcool (GARLIPP; ORTEGA, 1998; NADALETO; WEHRMANN, 2007). 29 2.3. Mudanças sociais e ambientais provocadas pela agroindústria canavieira 2.3.1. Impactos ambientais ocasionados pela cana de açúcar: repercussões sobre o ambiente e a sociedade A cana-de-açúcar é considerada uma planta semi-perene, apresentando um ciclo médio de quatro anos, desde o plantio até a renovação das áreas plantadas. Sua classificação taxonômica a coloca como pertencente ao reino Metaphyta, divisão das Angiospermas, classe das Monocotiledôneas, único representante da ordem Graminales, família Poaceae, gênero Saccharum. A cana-de-açúcar encontrou, no clima quente e úmido do país, um ambiente altamente favorável para o seu cultivo que necessita primeiramente de uma extensa área territorial e de regiões quentes onde possuam duas estações distintas, a primeira quente e úmida, para realizar a germinação e o perfilhamento, a outra estação necessita ser fria e seca a fim de realizar a maturação e conseqüentemente o acúmulo de sacarose (CASAGRANDE, 1991). O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar (Saccharum sp) do mundo. Atualmente, 4,5 milhões de hectares do território nacional são utilizados para o plantio de cana, representando 1% das terras agricultáveis, ou o espaço equivalente a duas vezes o Estado do Piauí. Da safra canavieira, 55% são destinados à produção de álcool e subprodutos, enquanto os demais 45% são destinados à produção de açúcar e subprodutos (LOPES; RIBEIRO ,2006). O preparo do solo para o plantio da cana é feito com aração e gradagem, ocorrendo pulverização do solo e inversão da leira e quebrando a estrutura do solo, além de expor o mesmo à erosão e deposição em rios e lagoas da região. Este tipo de plantio também traz para cima sementes de plantas daninhas que conforme as características fotoblásticas germinam e aumentam a densidade competindo pelos nichos ecológicos com maior agressividade. Uma alternativa para este tipo de preparo de solo é o plantio direto sobre a palha. Neste tipo, o solo sofre o mínimo distúrbio possível e é feito diretamente sobre a resteva da lavoura anterior ou sobre as ervas daninhas, previamente dessecadas por herbicidas de contato ou sistêmicos, que não são tóxicos ao meio ambiente. Os efeitos positivos desse plantio sobre a palha são a redução da enxurrada e da erosão, a diminuição das grandes variações na umidade e temperatura do solo, diminuição do aporte de sedimento aos corpos 30 d’água, redução da poluição e maior produtividade com menores custos de produção em longo prazo (DUARTE, 2003). O mesmo autor também afirma, a partir de pesquisa de campo desenvolvida na região de Lagoa da Prata, Minas Gerais, em 2003, que a usina do município utiliza como prática agrícola a adubação química, que tem como lado positivo a praticidade e o aumento da produtividade e como lado negativo, a possibilidade de carreamento de fertilizante para as águas, depreciando a sua qualidade pela eutrofização. Considerando as características do clima e do solo da região, e considerando ainda que as chuvas mais intensas coincidam com o período em que os adubos químicos são aplicados, há, portanto possibilidade de contaminação de águas superficiais e subterrâneas na região. Em um estudo realizado com o objetivo de avaliar os estados de erosão acelerada do solo presente em áreas com canaviais e pomares de citros localizados na região administrativa de Ribeirão Preto, São Paulo, constatou-se que a mesma forma se refere à erosão hídrica causada pela água das chuvas em áreas cultivadas (PISSARRA; POLITANO, 2005). Dentre os impactos ambientais ocasionados pela cultura da cana-de-açúcar, a queima da cana desperta maior preocupação. Para Duarte (2003), a queima do canavial é uma das etapas mais danosas do processo de fabricação do açúcar e álcool, especialmente em função da poluição atmosférica. A emissão veicular de material particulado pode chegar a 62 toneladas/dia na Região Metropolitana de São Paulo, enquanto o material particulado proveniente da queima de palha, conhecido como "carvãozinho", pode chegar a 285 toneladas/dia (LOPES; RIBEIRO, 2006). Netto et al, (2000, citado por DUARTE, 2003), aponta ainda que a queima da palha da cana, além de reduzir a fertilidade do solo, pode propiciar a formação de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), que assim como seus derivados, estão associados ao aumento da incidência de diversos tipos de cânceres no homem, pois vários componentes deste grupo são capazes de reagir diretamente ou após sofrerem tranformações metabólicas, com o DNA, tornando-se potenciais cancerígenos e eficientes mutágenos, além dos incômodos malefícios proporcionados às pessoas pela fumaça e a fuligem. De acordo com a CPT (2008), um parecer técnico do Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso do Sul, publicado em seis de maio de 2008 (REF: OF/PRT24ª/GAB-HISN/Nº 134/2008), concluiu que a queima da cana resulta na formação de substâncias, como monóxido de carbono, amônia e metano, sendo que o material fino, contendo partículas menores ou iguais a 10 micrometros (PM10) (partículas inaláveis), é o poluente que apresenta maior toxicidade e que 31 tem sido mais estudado. Esse material é constituído em seu maior percentual (94%) por partículas finas e ultrafinas, que atingem as porções mais profundas do sistema respiratório, e são responsáveis pelo desencadeamento de doenças graves. O Parecer mostrou que a poluição atmosférica gerada pela queima da cana-de-açúcar nas regiões de produção canavieira do Mato Grosso do Sul levou a um significativo aumento dos atendimentos hospitalares para tratamento de asma. Além de doenças cardíacas, arteriais e cerebrovasculares, tanto efeitos agudos (aumento de internações e de mortes por arritmia, doença isquêmica do miocárdio e cerebral), como crônicos, por exposição em longo prazo (aumento de mortalidade por doenças cerebrovasculares e cardíacas). Netto et al (2000, citados por DUARTE, 2003), cita ainda como impacto ambiental, a depreciação do panorama visual pela exposição dos efeitos da queimada e os riscos de acidentes com operários ou veículos, pela rapidez com que as chamas se espalham. Sobre o meio biótico, o autor aponta a possibilidade de redução de populações animais, principalmente de vertebrados e artrópodes, pela eliminação de seu habitat ou morte pelo fogo. O uso do fogo na agricultura é condenado há mais de um século pelos manuais de conservação do solo e edafologia, pelas conseqüências negativas por ele provocadas na produtividade da terra. Há inúmeros relatos de desastres provocados pelas queimadas de vegetação, muitas delas praticadas pelos exploradores e colonizadores do velho mundo. No Brasil desde o inicio da colonização as queimadas foram utilizadas para a preparação de áreas para o plantio da cana de açúcar sendo o fogo ateado para a destruição de campos e florestas (FERREIRA, 2009). A explicação encontrada para a necessidade de queimar a cana-de-açúcar é que com a eliminação da palha e folhas secas, aumenta a segurança do trabalhador e o rendimento do corte da cana, diminuindo os custos de colheita e controla os patógenos ou plantas daninhas. Apesar da preocupação generalizada, a cana-de-açúcar é queimada em quase todos os países onde é cultivada. Contudo, é evidente que a motivação principal das queimadas é o aumento no rendimento do corte, já que para a cana queimada previamente, o rendimento das colhedeiras é 30% superior (SCOPINHO et al. 1999; DUARTE, 2003). Por ser uma técnica extremamente impactante, a queimada deve ser abolida em Minas Gerais a partir de 2014, de acordo com o Protocolo de Intenções de Eliminação da Queima da Cana no Setor Sucroalcooleiro de Minas Gerais de 2008. O protocolo é resultado de discussões de uma comissão formada por representantes do Sistema Estadual de Meio Ambiente (SISEMA) - órgão integrado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e 32 Desenvolvimento Sustentável – pelo setor sucroalcooleiro e pelas as entidades representativas dos fornecedores de cana e dos trabalhadores rurais. Esta comissão foi criada em 2007 com o objetivo de reduzir as queimadas e a emissão de monóxido de carbono na atmosfera e para analisar os critérios para a regularização da queimada na produção da cana-de-açúcar no Estado, tornando as regras de controle da queima mais restritivas do que as regras estabelecidas no Decreto Federal 2.661 de 8 de julho de 1998 (SIAMIG, on line)6. Ainda segundo a SIAMIG, as principais diretrizes do protocolo referem-se a empreendimentos implantados a partir de 2008. Esses empreendimentos deverão ter mecanizado, no mínimo, 80% da cana de primeiro corte em 2009 e 100% até 2014 nas áreas com declividade inferior a 12%. A fiscalização do cumprimento do Protocolo de Eliminação da Queima da Cana será feita pelo SISEMA. Acredita-se que até 2014, Minas Gerais terá 58 usinas em produção, com moagem de 100 milhões de toneladas de cana. O investimento no período será de US$ 3 bilhões e o projeto é que 50% da palha da cana não queimada seja utilizada para gerar 587 megawatts de energia elétrica, potência superior à da barragem de Três Marias em Minas Gerais. Além dos impactos causados pelo fogo, a cana colhida manualmente, ao chegar na indústria, carrega consigo impurezas, como areia, palha, argila etc. que se aderem ao colmo e devem ser eliminadas mediante lavagem com água sob pressão no colchão de cana, na mesa alimentadora ou na esteira alimentadora da moenda. O consumo de água varia de 2m³ a 10m³ por tonelada de cana lavada. Portanto antes de serem lançadas nos rios ou reutilizadas industrialmente, as águas de lavagem devem ser previamente tratadas em sistemas descontínuos e sistemas contínuos, excetuando os conjuntos de lagoas anaeróbicas. Após ser lavada, a cana é moída para extração do caldo de cana que é submetido ao processo de clarificação, concentração e centrifugação ou turbinagem para obter o açúcar comercial e o mel. Este, depois de passar por um processo de cozimento a vácuo para obtenção do açúcar de segunda, transforma-se em mel final, mel podre ou melaço. O melaço, depois de diluído, é enviado às dornas de fermentação. Da fermentação do melaço resulta um líquido denominado vinho, o qual depois de centrifugado com objetivo de recuperar o fermento é encaminhado à destilação em aparelhos denominados colunas de destilação, resultando na produção de álcool hidratado e vinhaça (DUARTE, 2003). 6 SETOR SUCROALCOOLEIRO ASSINA PROTOCOLO DE ELIMINAÇÃO DA QUEIMA DA CANA. Acesso em 12/03/2010. Disponível em <http://www.siamig1.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=229&Itemid=75> 33 Sobre os resíduos líquidos, resultantes da fabricação do açúcar e do álcool, há registros da existência da água de lavagem da cana-de-açúcar, a água das colunas barométricas, a água condensada dos evaporadores, a água de lavagem dos pisos e equipamento, a água da refrigeração e descarga de caldeiras e a vinhaça. De um modo geral, a vinhaça é considerada o resíduo líquido mais importante, especialmente pelo seu volume e sua potencialidade de uso na própria lavoura. Esse líquido apresenta-se de cor marrom escuro e de natureza ácida, saindo da bica de destilação a uma temperatura de aproximadamente 107°. Possui cheiro que vai do adstringente ao nauseabundo, qualidade esta relacionada com o teor residual de açúcar. Tão logo a vinhaça é descarregada, ocorre um processo de putrefação liberando gases fétidos. Este resíduo altamente poluente devido à presença de alta demanda bioquímica de oxigênio (DBO) e demanda química de oxigênio (DQO), consumindo de 12.000 a 20.000 mg de oxigênio por litro de substâncias biodegradáveis (DUARTE, 2003; FEIGIN et al., 1991 apud BEBÉ et al, 2009). A vinhaça é considerada um dos resíduos mais ricos em nutrientes se comparado ao bagaço e à torta de filtro produzida pela indústria de açúcar e álcool. Além da alta carga orgânica, é rica em potássio, cálcio, magnésio e sódio, com desbalanceamento do potássio em relação aos demais elementos. Assim, uma das formas mais econômicas e eficientes de utilização da vinhaça é a disposição no solo, prática comum, considerada como uma forma de tratamento e de disposição final (FEIGIN et al., 1991 apud BEBÉ et al, 2009). O lançamento da vinhaça ou vinhoto nos rios, lagoas e baixios foi proibido pelo Decreto-Lei nº 303, de 28 de fevereiro de 1967. Por isto as usinas geralmente utilizam o vinhoto na irrigação das lavouras de cana. Esta prática traz benefícios e também danos ao ambiente. Ao ser aplicado ao solo como fertilizante, favorece o desenvolvimento de microorganismos, atuando sobre os diversos processos biológicos. E de uma maneira indireta ajuda na estruturação devido à ação dos microorganismos na aglutinação das partículas do solo, aumentando a estruturação do solo. Porém, a aplicação indiscriminada de vinhaça na lavoura canavieira, pode acarretar resultados negativos à industrialização do açúcar, pois elevará os teores de potássio e de amido no caldo, cujos efeitos são altamente prejudiciais à qualidade do açúcar obtido e à esgotabilidade dos melaços (DUARTE, 2003). Quando aplicada adequadamente, a fertirrigação por um lado supre parte dos nutrientes para a cultura com vinhaça e é bastante difundida nas regiões canavieiras com resultados satisfatórios em relação às alterações químicas no solo, como o aumento de matéria orgânica, pH, teores de cálcio (Ca), magnésio (Mg) e potássio (K) trocáveis, mas podem ser poluidores, notadamente quando em contato com áreas frágeis de aqüíferos, em locais onde a 34 aplicação foi além da capacidade do sistema em aproveitá-la (FERRAZ; PRADA, 2000; MEDEIROS et al, 2003 apud BEBÉ et al, 2009). No que se refere aos impactos ambientais da cultura da cana na região de Lagoa da Prata, Carvalho (2003) e Landau (2003) apontam situações em que o cultivo da cana é realizado sem respeitar a faixa de preservação permanente em torno dos cursos d’água, ocasionando desmatamento, assoreamento dos córregos, rios, lagos e reservatórios, enchentes, contaminação e poluição das águas superficiais e subterrâneas, eutrofização de lagos e represas, além da redução ou extinção de espécies animais e vegetais. Entidades ambientais como a ASF (Associação do Alto São Francisco) e sindicalistas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata, têm alertado para a ameaça à segurança alimentar em função da expansão da agroindústria açucareira no Alto São Francisco e na região de Lagoa da Prata. Ressaltam que na fazenda de Antonio Luciano (atual Louis Dreyfus Commodities) chegaram a desviar o curso do rio São Francisco para aumentar a área de plantio e facilitar o escoamento da produção. Em um dos pontos de captação, o bombeamento é de 500 litros por segundo - quantidade suficiente para abastecer todo o município. A monocultura substitui áreas de lavouras e criação de gado, além de suprimir as reservas florestais e a mata ciliar para os plantios. A empresa faz aspersão de pesticidas com avião e parte do índice de câncer na cidade é atribuído empiricamente à poluição atmosférica proveniente da usina sucroalcooleira, além de problemas de saúde em trabalhadores que foram afastados por problemas de tendinite, coluna, asma e outras doenças pulmonares. O cultivo de cana chega até a Zona de Amortecimento do Parque Nacional da Serra da Canastra, considerada pelo Atlas da Biodiversidade em Minas gerais como sendo de importância biológica extrema. (LAGOA MERCANTIL, 2008; CPT, 2009) Hoje é comum encontrarmos animais mortos nas estradas, fugindo da devastação das matas. Já encontramos lobos, raposas, tamanduá-bandeira, tamanduá-mirim, lontra, quati, tatu, serpentes, garças, corujas, lagartos, além de peixes mortos no rio, como surubins, que chegam a pesar 40 quilos. Plantam cana até na beira dos rios e das lagoas (CPT, 2008). Apesar do esforço do governo brasileiro para convencer a comunidade internacional de que o etanol brasileiro é “renovável”, no ano de 2007 e 2008 houve uma mudança significativa em relação a essa imagem. Recentemente, denúncias de problemas ambientais e sociais fizeram com que a União Européia reduzisse sua meta de uso de 35 agrocombustíveis brasileiros, fixada inicialmente em 10% até 2020. Em julho de 2008, o Comitê de Meio Ambiente do Parlamento Europeu aprovou a redução dessa meta para 4% até 2015, quando uma nova resolução será adotada a partir de estudos mais profundos sobre seus impactos. Em janeiro de 2008, o Instituto de Pesquisas Tropicais Smithsonian verificou que o etanol a partir da cana-de-açúcar e o biodiesel feito a partir da soja causam mais danos ao meio ambiente do que os combustíveis fósseis. Além disso, a produção de combustível, seja de soja ou de cana, pode ser responsável pelo aumento no custo dos alimentos, tanto de forma direta quanto indireta (CPT, 2008). 2.3.2 As relações de trabalho na sociedade açucareira contemporânea – impactos sociais da monocultura sobre o trabalhador Todo o trabalhador da agroindústria sucroalcooleira está sujeito a sofrer os impactos sociais e econômicos provenientes da monocultura, pela forma como se apresentam as condições de trabalho e de como reflete o poder de ganho por seu trabalho em sua vida. Porém o personagem que está mais propenso a sofrer impactos em suas condições de trabalho e de vida é o trabalhador temporário, seja ele migrante ou local. A princípio, a expulsão da população rural para o plantio da cana tem causado desemprego e reduzido a produção de alimentos. Com o desemprego direto, aumenta-se a demanda de mão-de-obra liberada para preencher os cargos nos empregos temporários. Estes impactos têm se intensificado nos últimos anos, com o processo de investimento governamental no agronegócio da cana-de-açúcar. O Brasil continua sendo um dos campeões do mundo em concentração de renda e terra, além de manter um alto índice de pobreza e fome em consequência da superexploração do trabalhador em vez de adotar um modelo de desenvolvimento voltado para a Soberania Alimentar, que priorize a democratização da terra e a preservação ambiental (CPT, 2008). A partir da década de 1970, houve crescente diversificação da atividade rural no país, conseguintemente reforçou o conceito de empresa agrícola, especialmente no tocante à formulação de políticas públicas para o campo. Estima-se a existência de, cerca de US$ 165 bilhões disponíveis, mundialmente, para o financiamento de atividades agropecuárias e a manutenção de investimentos públicos voltados para o desenvolvimento de Ciência e 36 Tecnologia direcionadas para o incremento da produtividade agropecuária (IGLECIAS, 2007). O processo de modernização porque passou a agricultura brasileira e o setor sucroalcooleiro, em decorrência do Proálcool, “repercutiu, na década de 80, em novas formas de organização e absorção da força de trabalho” (SILVA; MARTINS, 2006). O Proálcool impulsionou a instalação de destilarias e usinas, aumentando o número de empregos diretos em toda a cadeia produtiva sucroalcooleira. Houve aumento significativo na produtividade agrícola da cana-de-açúcar e na produtividade do trabalho no corte de cana (ALVES, 2006). O setor agropecuário brasileiro, em especial seus segmentos voltados para o mercado internacional, mantém relações com inúmeros atores e entidades, dentre os quais estão os trabalhadores (IGLECIAS, 2007). Na classificação “trabalhador rural” distingue-se duas categorias: a) o trabalhador direto identificado pela consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), como aquele contratado por tempo indeterminado ou definitivo e b) o trabalhador rurícola braçal, contratado em regime temporário para um período de um ano para cumprir tarefas variadas em um período de safra, sejam elas: corte de cana, plantio, colheita, aspersão de agrotóxicos, aspersão de vinhaça, ajudantes gerais, excluindo os trabalhos da moenda e engenho, escritórios e almoxarifados que são atribuídos aos trabalhadores diretos. Caso as atividades da safra terminem antes deste tempo de um ano, automaticamente o contrato é rescendido e o trabalhador temporário pode ser demitido a qualquer momento. Além desta demissão repentina, esta categoria é destituída de benefícios como aviso prévio, os 40% de multa rescisória e o seguro desemprego, comumente pagos aos trabalhadores diretos (BRASIL, 1986). A Instrução Normativa Nº65 de 19 de julho de 2006, dispõe sobre os procedimentos para a contratação de trabalhadores temporários migrantes. §1º Para o recrutamento e transporte de trabalhadores para localidade diversa da sua origem é necessária a expedição de Certidão Liberatória pelas Delegacias Regionais do Trabalho e Emprego ou respectivas Subdelegacias. [...] Art. 23 Para a emissão da Certidão Liberatória, as DRT exigirão do empregador ou preposto a comprovação da contratação regular dos trabalhadores, que consiste na apresentação das Carteiras de Trabalho devidamente anotadas, dos atestados médicos admissionais e dos contratos escritos que disciplinem a duração do trabalho, o salário, condições de 37 alojamento, alimentação e de retorno à localidade de origem do trabalhador (INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº65 on line 7) Cacciamali (2002) finaliza apontando que o ambiente econômico contemporâneo, configura um tipo de mercado de trabalho no qual um dos traços marcantes é o aumento da insegurança laboral que deriva tanto do menor ritmo de crescimento econômico e conseqüente menor criação de oportunidades de emprego, como das mudanças institucionais implementadas para atender às necessidades da flexibilidade laboral. 2.3.3 Condições de vida do trabalhador temporário A qualidade de vida do trabalhador temporário reflete as mudanças gerais no seu cotidiano, nem sempre relacionadas com seu ambiente de trabalho. É um aspecto que está vinculado aos valores culturais de determinados grupos sociais, ou seja, ele não se manifesta igualmente em diferentes regiões e contextos. Refere-se ao lazer e cultura dos trabalhadores; ao acesso dos trabalhadores a espaços públicos e atividades culturais (cinema, teatros, bibliotecas etc.); inserção dos trabalhadores na sociedade, via participação destes em organizações coletivas (cooperativas e associações) e políticas (sindicatos e partidos políticos) e também pelo seu conhecimento sobre a legislação trabalhista. Também se refere à saúde ambiental, ou seja, às condições de saneamento básico (água potável, água encanada, rede de esgoto) e de saúde dos trabalhadores, o que inclui aspectos relacionados à nutrição, doenças parasitológicas, atendimentos na rede pública, expectativa de vida e taxa de mortalidade infantil (BONACELLI et al, 2003). As condições de trabalho no ambiente de atividades do trabalhador referem-se às práticas preventivas adotadas pela empresa no sentido de garantir segurança do trabalho para o funcionário e evitar o risco de doenças ocupacionais associado à insalubridade, tais como temperaturas altas, emissão de produtos tóxicos e emissão de fumaça e à periculosidade, tais como presença de animais peçonhentos e uso de ferramentas e equipamentos perigosos (BONACELLI et al, 2003). 7 Disponível em <http://www.nrcomentada.com.br/default.aspx?code=336> Acesso em 13/03/2010) 38 A preocupação com a segurança do trabalhador temporário é contemplada na Norma regulamentadora 31 - NR 31 – da Portaria GM n.º 86, de 03 de março de 2005. A NR 31 tem como objetivo estabelecer os preceitos a serem observadas na organização e no ambiente de trabalho, de forma a tornar compatível o planejamento e o desenvolvimento das atividades da agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aqüicultura com a segurança e saúde e meio ambiente do trabalho. Quanto ao ambiente de trabalho, muitas agroindústrias possuem acomodações precárias, onde os trabalhadores ficam alojados em barracões de lona preta, dormem amontoados em quartos escuros, sujos e mal ventilados. Nos “quartos” estão roupas sujas, panelas, botas, instrumentos de trabalho e lenhas para fazer a comida, as condições sanitárias para o armazenamento de comida são precárias, não atendendo a nenhum tipo de norma. A comida com que os trabalhadores se alimentam é deficiente em relação à atividade que exercem (DINARDI; SALAN, 2004). Os trabalhadores que desempenham atividade de corte de cana, devido a uma alimentação inadequada e ao grande esforço físico podem ainda desenvolver uma sucessão de doenças, a principal delas é conhecida como “birola” que é uma cãibra seguida de tontura, dor de cabeça e vômitos (ZORATTO, 2009). Desde 2000, o preço da tonelada de cana paga ao cortador aumentou, em termos reais 9,8%, atingindo R$ 3,45 por tonelada em 2008. Já a produtividade do trabalhador cresceu mais no mesmo período, em 11,9%, de 7,6 toneladas derrubadas por dia, em 2000, para 8,6 toneladas, em 2008, no Estado de São Paulo. De acordo com o pesquisador Francisco Alves, do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o pagamento por produção está por trás de uma série de violações às condições de vida dos cortadores registradas nos últimos anos, inclusive a morte de muitos deles. Para ganhar um pouco mais no final do mês, muitos trabalham além de seu limite físico. Um trabalhador que corta 12 toneladas caminha 8.800 metros; despende 133.332 golpes de podão; carrega 12 toneladas de cana em montes de 15 kg, em média. Dessa forma, realiza diariamente cerca de 800 trajetos e 800 flexões, levando 15 kg nos braços por uma distância de 1,5 a 3 metros, com aproximadamente 36.630 flexões e entorses torácicos para golpear a cana, perdendo, em média, 8 litros de água (CPT, 2008). O aumento de produtividade tem sido uma exigência para a manutenção do emprego na agroindústria sucroalcooleira. Uma forma de manipular os trabalhadores para alcançar maior produtividade é estimulando a competição. Para isso, a empresa LDC Bioenergia do grupo francês Louis Dreyfus Bioenergia, em Lagoa da Prata, MG, divide os 39 trabalhadores em grupos de acordo com a quantidade de cana cortada e quem não cumprir a meta não será contratado na próxima safra (CPT, 2008). Então surge a figura do bom cortador, o sujeito que corta em torno de dez toneladas diárias, disciplinarmente, não faz reclamações trabalhistas e é assíduo. Essa valorização ideológica é reforçada com prêmios aos mais produtivos - motocicletas, por exemplo. Os mecanismos de controle externo - fiscais, feitores, encarregados - acabam sendo introjetados pelos próprios trabalhadores, que buscam ganhar mais - recebem por produtividade e fazem concorrência velada uns com os outros, aceitando a competição (SILVA, 2004). De acordo com o Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA), um dos pilares teóricos do conceito de “superexploração do trabalho” é a apropriação, pelo capitalista, dos ganhos de produtividade obtidos pelo trabalhador, que amplia seu desgaste durante a atividade sem receber por isso uma parcela equivalente em remuneração (REPÓRTER BRASIL, 2010). Além da cultura de cana-de-açúcar, outras atividades agrícolas também adotam o pagamento por produtividade, tais como algodão, amendoim, café, laranja, limão e tangerina. A forma de pagamento da colheita da cana-de-açúcar por produção tem sido alvo de discussões no mercado de trabalho sucroalcooleiro e diversos autores têm questionado o pagamento por produtividade dos empregados da lavoura canavieira. A remuneração por produção tem ampla base legal: é prevista no artigo 457, § 1 0 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com incontroversa aceitação doutrinária e jurisprudencial. Da mesma forma, é prevista em normas coletivas de trabalho, para diversas culturas agrícolas. A limitação existente é que conforme o Artigo 78 da CLT deve ser garantido ao trabalhador um ganho mensal nunca inferior ao salário mínimo vigente (MORAES, 2007). Balsadi (2008) indica que diante dos vários acordos coletivos de trabalho, normatizando o trabalho por produção, houve melhorias em diversos indicadores socioeconômicos ao longo do tempo, como: a redução do trabalho infantil; o aumento do nível de formalidade; os ganhos reais de salário; o aumento de alguns benefícios recebidos e o aumento da escolaridade dos empregados; o elevado porcentual de trabalhadores com carteira assinada. Porém apesar das melhorias dos indicadores citados, ainda existem condições adversas principalmente para os empregados temporários ocupados na colheita manual da cana-de-açúcar, pois têm ocorrido mortes de trabalhadores nos canaviais. Nessa perspectiva, Alves (2006) associa este sistema de pagamento às mortes nos canaviais e responsabiliza o 40 sistema de remuneração por produção para o pagamento dos empregados da lavoura canavieira. Em novembro de 2009, a Procuradoria Regional do Trabalho da 3ª Região de Minas Gerais (PRT-3) concluiu as etapas da fiscalização da empresa LDC Bioenergia e encontrou diversas irregularidades trabalhistas em propriedades. As atividades de corte de cana de seis fazendas da Louis Dreyfus Commodities (LDC), do grupo LDC Bioenergia, na região de Lagoa da Prata, chegaram a ser interditadas, sendo que a empresa não assumiu as irregularidades e se recusou a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com compromissos de melhoria. De acordo com os fiscais, nas frentes de trabalho não havia água potável, acesso a instalações sanitárias ou locais adequados para as refeições, nem intervalos para repouso e alimentação regular para os trabalhadores. A principal irregularidade encontrada foi a terceirização ilícita de 530 trabalhadores que chegavam a cumprir jornada de 12 horas diárias, duas vezes por semana sem o pagamento das horas extras trabalhadas. O fornecimento de Equipamento de Proteção Individual (EPIs) era insuficiente e os operadores de tratores não tinham a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O relatório da fiscalização destaca ainda a ocorrência de dois acidentes de trabalho fatais: o primeiro, em 2007, e o segundo, em 2008. O TAC proposto pelo MPT propõe o pagamento de uma indenização no valor de R$ 2 milhões por dano moral coletivo, que seria revertida em benefício da classe trabalhadora daquela localidade, a título de reparação pelos danos que resultaram da conduta irregular da empresa (REPÓRTER BRASIL, 2010). Essa mesma usina foi inspecionada em 2008, pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). A forma de pagamento dos cortadores foi contestada. Os trabalhadores do corte de cana recebiam por produção e não tinham nenhum controle em relação ao cálculo feito pela empresa. A fiscalização exigiu também que a empresa devolvesse o dinheiro descontado dos empregados pelos minutos de intervalos para descanso (REPÓRTER BRASIL online8). Quanto às condições de emprego no contexto da agroindústria canavieira, as relações tem se transformado ao longo do tempo, especialmente no que se refere ao número de vagas oferecidas em postos de trabalho; o tipo de vínculo e forma como se estabelecem as relações entre trabalhadores fixos e temporários; as exigências em relação ao nível de escolaridade e por fim, a remuneração dos trabalhadores, tanto em termos de salário como em termos de benefícios. Na sazonalidade, característica intrínseca das agroindústrias de cana-de8 Disponível em <http://www.reporterbrasil.org.br/agrocombustiveis/>. 41 açúcar, as condições de emprego são alteradas pelo número variável de meses de trabalho por ano (BONACELLI et al, 2003). Um fator preponderante de impacto na agroindústria sucroalcooleira sobre o trabalhador temporário é a tendência de mecanização da colheita, principalmente na região Centro-Sul, que é irreversível e tende a se acelerar. As usinas estão investindo em co-geração de energia elétrica a partir da queima de bagaço de cana, a palha também pode ser utilizada como matéria-prima para a co-geração de energia elétrica, o que estimula as usinas a deixarem de queimá-la. Portanto, além dos fatores institucionais - a legislação proibindo a queima da cana-de-açúcar - a mecanização tende a se acelerar também em função do aumento de competitividade das usinas, principalmente com o uso de colheitadeiras com tecnologia que permita a colheita em terrenos com maior declividade. A questão que emerge deste contexto é que a mecanização da colheita altera o perfil do empregado, que segundo Moraes (2007), cria oportunidades para tratoristas, motoristas, mecânicos, condutores de colheitadeiras, técnicos em eletrônica, dentre outros, e reduz, em maior proporção, a demanda dos empregados de baixa escolaridade, uma vez que grande parte dos trabalhadores da lavoura canavieira têm poucos anos de estudo. Dessa forma, surge a necessidade de alfabetização, qualificação e treinamento desta mão-de-obra para desempenho de atividades que exijam maior escolaridade. Das condições de emprego dos trabalhadores temporários, obviamente a mais marcante é a sazonalidade, que disponibiliza postos de trabalho periódicos e atrai trabalhadores desempregados de outras regiões. No município de Lagoa da Prata, grande parte dos cortadores de cana é migrante e está vulnerável à exploração e ao preconceito. O local ou dormitório onde vivem no município no período de safra é chamado de “Carandirú” (CPT, 2008). Para Ferreira (2009), a alegação do setor canavieiro com a questão da falta de mão-de-obra para ocupar os postos de trabalho é falsa, pois nas regiões canavieiras de São Paulo, existem milhares de desempregados, no entanto, a cada ano as usinas vão buscar os cortadores de cana cada vez mais longe, como nos estados do Piauí e Maranhão. Uma possível hipótese da pouca utilização da mão-de-obra local seria que esses trabalhadores já conhecem bem o setor, sabem dos seus direitos e são mais organizados. Para a Pastoral do Migrante (2009), municípios como Palmares Paulista e Embaúba, em São Paulo, ficam apenas com o ônus de toda a riqueza gerada em função da cana-de-açúcar. Essas cidades são consideradas dormitório de migrantes cortadores de cana, especialmente por não possuírem usinas nos seus territórios, não se beneficiando, portanto, 42 dos impostos gerados pelo processo de plantio e produção, tendo ainda de arcar com os gastos públicos advindos dessa população flutuante. Assim, Palmares Paulista tem oficialmente 10.508 habitantes, mas de março a dezembro, a cidade incha com a chegada de cerca de 3,5 mil migrantes, a maioria da Bahia, que vem em caravanas para o corte da cana. Outro elemento desencadeador do processo migratório rural-urbano é a concentração cada vez maior de terras atrelado aos condicionantes de atração que a cidade exerce sobre as pessoas do campo, como; áreas de lazer, atendimento hospitalar, escolas e, sobretudo trabalho e salário (MOREIRA; SENE, 2005). A maioria dos trabalhadores bóias-frias9 em seu imaginário possui a ilusão de conseguir melhores condições de vida para seus familiares, mas quando chegam nas usinas, se deparam com uma realidade completamente diversa das que são oferecidas quando saem das suas regiões de origem. Estes trabalhadores não possuem vínculo empregatício com as fazendas, recebem salários muito baixos, e em algumas fazendas recebem apenas vales como forma de pagamento (ZORATTO, 2009). Em geral, os governos de todo o mundo têm resistido à migração rural-urbana. Acredita-se que a falta de ações em favor dos pobres evite a imigração futura de outros pobres. Esta política não tem funcionado porque a maior parte do crescimento urbano deve-se ao crescimento vegetativo e porque os migrantes continuam procurando as cidades, apesar das políticas anti-urbanas. Além disso, tais atitudes têm obrigado os pobres a ocuparem terras marginais, ecologicamente frágeis ou perigosas, tais como beiras de rios e morros íngremes. Isto tem contribuído imensamente para a esqualidez e miséria da nova população urbana, bem como para a degradação ecológica das cidades (MOREIRA; SENE, 2005). No entanto, Martine (2007) nos chama a atenção para o impacto social e ambiental negativo que se configura no momento em que populações migrantes sem teto ocupam áreas de ocupação predatória nas cidades de destino. Para o autor é particularmente importante, o planejamento do uso do solo urbano, por meio de políticas públicas que regularizem a ocupação dos imóveis no sentido de atender às necessidades dos pobres e evitar a ocupação predatória. A análise do uso e da ocupação das terras no Brasil é fundamental para a compreensão dos padrões de organização do espaço e o monitoramento direcionado à atualização de informações sobre o uso e a ocupação das terras assume importância na medida 9 Bóia-fria: Termo que designa aquele trabalhador rural sem vínculo empregatício e que carrega sua própria refeição para o local de trabalho. Não se trata de categoria profissional, mas de uma modalidade regional empregada de forma pejorativa na região sudeste; na região norte, recebem o nome de peões, nas regiões centrooeste e nordeste recebem o nome de corumbás (MOREIRA; SENE, 2005). 43 em que detecta usos desordenados, causadores de deterioração no ambiente (ALBA et al, 2009). Sobre a qualificação da mão-de-obra ou capacitação do trabalhador verifica-se na atualidade transformações no nível educacional formal e não formal, associadas a iniciativas da empresa, tais como flexibilização no horário de trabalho, cursos supletivos, transportes ou de exigências quando da contratação de funcionários e do próprio contexto político e social da região (BONACELLI et al, 2003). Em 2005, havia 519.197 empregados na cultura da cana-de-açúcar do Brasil cuja escolaridade média era de 3,9 anos de estudos; 70% tinham até quatro anos de estudos e, destes, 154.598 podem ser considerados analfabetos funcionais com até 1 ano de estudos (MORAES, 2007). A polarização do mercado de trabalho, verificada nesses últimos anos identifica um fenômeno que coloca em extremos opostos dois núcleos de trabalhadores: de um lado um núcleo mais ou menos estável e com alta qualificação profissional e de outro lado, um núcleo bem maior, muito instável e composto de trabalhadores de baixa qualificação e com uma qualidade do trabalho muito precária No que se refere aos trabalhadores temporários da cana, de um modo geral, a maioria tem baixa escolaridade e são migrantes dos Estados mais pobres do Brasil, sendo muitos desempregados e pequenos agricultores que abandonam suas terras (BALSADI; GRAZIANO DA SILVA, 2008). Embora os trabalhadores temporários da cana-de-açúcar sejam, em sua maioria migrantes, muitos ainda permanecem ligados ao campo como pequenos agricultores. Dessa forma, a agricultura familiar, percebida como atividade extra-safra na vida de muitos trabalhadores temporários, tem sido praticada de forma rudimentar, na maioria das vezes, e classificada de lavoura de subsistência por geralmente não ter como finalidade básica o comércio. É um sistema agrícola extensivo que está vinculado às diversas condições socioeconômicas, diferenças culturais e naturais. Nos países subdesenvolvidos caracteriza-se pela baixa produtividade, emprego quase exclusivo de força humana e animal. O termo familiar se deve ao fato de que os postos de trabalho são ocupados pelos próprios familiares, sem custos adicionais ou então se faz sistema de parceria entre os membros da mesma família (MOREIRA; SENE, 2005). A expansão da atividade canavieira provoca migrações expressivas de famílias de agricultores da roça para a cidade e de outras cidades para o município de Lagoa da Prata, determinando alterações nos padrões de vida da população. Substituem-se a lavoura de 44 subsistência do café, arroz, milho e feijão, pelo agronegócio da cana, determinando a diminuição da agricultura familiar (CPT 2008). Historicamente, no Brasil, as melhores terras sempre foram ocupadas por aqueles que detiveram o poder econômico. As populações pobres que se apossaram de pequenos lotes sempre o fizeram à margem das grandes propriedades. Empresas monocultoras, tanto nacionais quanto multinacionais, instalam-se em grandes propriedades para produção do etanol, dificultando a participação da agricultura familiar. Tal fato pode inviabilizar a construção de parcerias econômicas e compromissos de responsabilidade social entre setor privado - as indústrias - agricultores familiares e suas organizações, tão importante para o desenvolvimento da comunidade local (SILVA, 2001; FIGUEIREDO; FARIAS FILHO, 2009). Em seu texto, “A terra no imaginário dos migrantes”, Silva (2001) procurou analisar, por meio da história oral, os significados que os camponeses migrantes temporários do Vale do Jequitinhonha atribuem à terra no contexto de suas experiências de vida. Para a autora, além da migração se constituir numa estratégia para a reprodução material, engendra também outros significados que entrelaçam a memória e o imaginário. Nesse sentido, ao focalizar as representações, observou que os narradores transformam-se em agentes sociais em busca de utopias, capazes de minimizar a miséria do mundo em que vivem e que não foi produzida por eles. No Estado de São Paulo, a concentração dos latifúndios da monocultura de cana, atinge aproximadamente 60% do total do país, em franca expansão para a região Centro Oeste do país. Deve-se alertar que não há mais área agricultável inexplorada a ser incorporada, e o crescimento de algumas delas será sempre por substituição de outras culturas (FERRAZ, 2008). Na avaliação do uso e ocupação do espaço rural pelas agroindústrias ou famílias de pequenos agricultores verifica-se na região de Lagoa da Prata, município de Lagoa da Prata, freqüentemente o arrendamento de terras do pequeno proprietário para o latifundiário, sendo essa atividade comum no agronegócio da cana-de-açúcar (CPT, 2008). Ouvindo as pessoas que mais diretamente sentem os impactos da prática de arrendamento de terras, subtraídas da agricultura familiar para o plantio da cana, a CPT (2008) cita o depoimento de um agricultor da região de Lagoa da Prata, que diz que não vale a pena arrendar a terra. 45 Os contratos são de 12 anos e depois disso a cana já acabou com tudo. A usina usa máquinas pesadas para preparar a terra e causa erosão do solo. Depois queimam a cana e a cinza se espalha por toda a região. Eu não quis arrendar minha terra e estou cercado de cana. Aqui não tem mais terra para lavoura e por isso subiu tanto o preço dos alimentos. Meus vizinhos deixaram de produzir milho, feijão, café, leite e arrendaram a terra para a empresa Total. Eu ainda planto milho, feijão, e produzo leite, mas para o produtor o preço não aumentou, só para o atravessador e para a população. Ainda consigo produzir leite porque faço a ração. Se fosse comprar, não sobrava nenhuma renda. O preço da ração aumentou 50% e fica difícil criar animais (CPT, 2008). Outro agricultor da mesma região tem a mesma posição. “A usina insistiu, mas eu não quis. Meus vizinhos arrendaram e depois ficaram com depressão, porque é o mesmo que perder a terra. O que vai acontecer se os agricultores deixarem de plantar alimentos?” A discussão em relação ao gênero ou divisão sexual do trabalho em qualquer que seja o setor de atividade produtiva é de grande importância, conforme evidencia Pateman (1993) em sua análise do processo de configuração sexual dos espaços público e privado, em “O contrato sexual”. A autora, partindo dos teóricos contratualistas, enfatiza que, ao explicar o surgimento da sociedade civil, os teóricos do contrato social, configuram lugares diferenciados para os homens (responsáveis pela criação da política enquanto espaço público) e para as mulheres (confinadas à esfera do doméstico, vinculada historicamente ao não civil e ao apolítico). Daí a importância de estudos que considerem a dimensão do trabalho como categoria central de análise das relações de gênero, já que esta categoria incorpora, historicamente, visíveis relações de desigualdade e de poder assimétrico entre homens e mulheres (CYRINO, 2009). É comum trabalhadores temporários trazerem suas famílias para a região na qual exercerão suas atividades sazonais, conforme o contrato, sendo que, na maioria das vezes, as esposas procuram serviços domésticos nas cidades ou mesmo atuam como bóias-frias. Entretanto, como essas mulheres geralmente não servem para o corte da cana, por não atenderem a produtividade necessária, são empregadas para as tarefas ditas como aquelas mais simples, mas que demandam esforço repetitivo e desgastante, como as de bituqueiras, recolhendo restos de cana que as máquinas não conseguem colher ou como aplicadoras de agrotóxico. Certas fazendas ainda exigem das mulheres, de forma ilegal, um atestado de esterilidade e muitas se intoxicam por causa dos agrotóxicos, sendo que uma grande parte delas morre com câncer na boca e na garganta (ZORATTO, 2009). 46 Sobre a situação de algumas mulheres que têm suas vidas transformadas pelo impacto sócio-econômico da cana-de-açúcar, a Pastoral do Migrante (2009) cita o exemplo das usinas da região de Palmares Paulista, em São Paulo. Estas usinas deixaram de empregar mulheres solteiras, porque geralmente cortam menos cana que os homens e algumas delas se envolvem com fiscais de turmas de trabalhadores e colegas de trabalho. Muitas mulheres, nesses envolvimentos, engravidam e são abandonadas pelo companheiro que na maioria das vezes é migrante. Então, sozinhas para sustentar os filhos, sem qualificação de mão-de-obra para desempenhar outras atividades e com pouquíssimas opções de renda, essas mulheres passam a pesar nos orçamentos das prefeituras de cidades dormitórios de cortadores de cana. Para minimizar a pobreza dessas mães e filhos, a família é inscrita em programas de transferência de renda, como o Programa Bolsa Família e o Programa Renda Cidadã. A duplicidade de responsabilidade e a conseqüente aceleração de ritmos e cadências vivenciadas por mulheres que procuram manter-se no mercado de trabalho sem romper com seus antigos afazeres domésticos, funções tradicionais que as mulheres exercem secularmente e que permanecem como encargos específicos femininos, têm um caráter de invisibilidade social, sendo desqualificadas e desvalorizadas socialmente (CYRINO, 2009). 47 3. METODOLOGIA 3.1. Caracterização da pesquisa O trabalho buscou, mediante uma pesquisa exploratória de natureza qualitativa, caracterizar o perfil sócio-econômico dos trabalhadores temporários da agroindústria canavieira da empresa LDC-SEV de Lagoa da Prata, assim como investigar aspectos relativos à saúde, trabalho e gênero desses indivíduos frente às exigências e condições da atualidade. Como instrumento de coleta de dados qualitativos utilizou-se da entrevista semi-estruturada, aplicada aos trabalhadores dessa categoria e pesquisa de dados gerais sobre os trabalhadores temporários junto ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata e na empresa sucroalcooleira Louis Dreifus Commodities. Atualmente a Louis Dreyfus conta com uma área de 30.000 hectares de cana-deaçúcar cultivada e 70% de sua colheita já ocorrem com a utilização de máquinas. Estima-se que até 2014 não haja contratação de mão-de-obra de trabalhadores temporários para o corte da cana. A pesquisa bibliográfica constou, além de levantamentos em materiais técnicocientíficos (como artigos, dissertações e teses), em consultas aos bancos de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Fundação João Pinheiro. Outras fontes oficiais de informação foram consultadas, como a Assembléia Legislativa de Minas Gerais. O estudo foi realizado no município mineiro de Lagoa da Prata (FIG. 2), que ocupa uma área de 44.226 ha (IBGE, 2009). A sede municipal, bem como parte da zona rural, encontra-se inserida na microbacia da Lagoa Verde, sendo seu uso e ocupação bastante diversificados, tendo-se como atividades principais a monocultura de cana-de-açúcar, agricultura de subsistência, pastagem, dentre outros. Segundo Landau (2003), esta microbacia possui uma área de 99,4 km², sendo sua paisagem constituída pelo seu relevo, vegetação e uso do solo. De um modo geral, o relevo é mais aplainado em relação ao restante do município, predominando as superfícies de planícies e vales rasos. A região é formada por uma rede de drenagem da qual fazem parte, córregos, nascentes, açudes, lagoas e dolinas. 48 FIGURA 2: Localização do Município de Lagoa da Prata – MG Fonte: LANDAU (2003). 3.2 Sujeitos de pesquisa e coleta de dados Os sujeitos de pesquisa constituíram-se de trabalhadores temporários da agroindústria sucroalcooleira Louis Dreyfus Commodities, que desempenham atividades nesta indústria (sindicalizados ou não-sindicalizados, residentes ou não no município de Lagoa da Prata), independente de sexo, estado civil, cor ou idade e relacionados pela pesquisadora junto ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata. O estudo teve como instrumento de coleta de dados, entrevistas semi-estruturadas, apoiadas em questionário semi-estruturado (Anexo 1) e aplicadas aos participantes, entre os dias 25 de maio a 10 de junho de 2010. As informações foram gravadas utilizando câmera filmadora, com a permissão prévia dos entrevistados. De acordo com Triviños (2008), a entrevista semi-estruturada é aquela que parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses que oferecem amplo 49 campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem do informante. Desta maneira, o informante começa a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa. O mesmo autor afirma ainda que o processo da entrevista semi-estruturada dá melhores resultados se for trabalhado com diferentes grupos de pessoas de diferentes setores envolvidos. A coleta de dados ocorreu a partir de um universo de 761 sujeitos no próprio município onde os trabalhadores temporários atuavam durante as safras, em horários e locais previamente definidos. Para seleção dos entrevistados, inicialmente foi elaborada uma lista com possíveis candidatos, que foram selecionados através de sorteio e convidados posteriormente. Um entrevistado inicialmente eleito poderia ser substituído por outro subseqüente do mesmo segmento, caso este não se dispusesse a participar da pesquisa ou demonstrasse desqualificação ou baixo grau de cooperação. Anteriormente ao processo de realização das entrevistas, foi realizada uma entrevista-piloto, buscando-se verificar a adequação das questões. O número de entrevistados foi definido em função dos critérios de saturação, conforme proposto por Fontanella et al (2008). Segundo os autores, a amostragem por saturação constitui uma ferramenta conceitual freqüentemente empregada nos relatórios de investigações qualitativas, sendo utilizada para estabelecer ou fechar o tamanho final de uma amostra em estudo. Dessa forma, a captação de novos componentes é encerrada quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, certa redundância ou repetição, não sendo considerado relevante persistir na coleta de dados. Com base nessa metodologia, foram entrevistados oito homens e duas mulheres, totalizando dez trabalhadores temporários, que foram previamente orientados sobre a pesquisa e seus objetivos e assinaram o Termo de consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Anexo 2). 3.3 Análises das entrevistas e aspectos éticos Os pesquisadores costumam encontrar três grandes obstáculos quando partem para a análise dos dados recolhidos no campo (...). O primeiro deles (...)‘ilusão da transparência’(...) O segundo (...) sucumbir à magia dos métodos e das técnicas (...). O terceiro (...) é a dificuldade de se juntarem teorias e conceitos muito abstratos com os dados recolhidos no campo (MINAYO, 2000, p. 197). 50 O conteúdo das entrevistas foi transcrito e analisado tendo como base a metodologia qualitativa da análise do conteúdo, conforme proposto por Bardin (1979). Essa análise pode ser aplicada tanto na pesquisa quantitativa como na investigação qualitativa, obviamente com aplicações diferentes. De acordo com Triviños (2008) a Análise do Conteúdo nasceu quando os primeiros homens realizaram as primeiras tentativas para interpretar os livros sagrados. Já na década de 1920, com os estudos de Leavell sobre a propaganda empregada na primeira Grande Guerra a análise de conteúdo alcança a sistematização, adquirindo formas organizadas de um método de investigação. Mais tarde, outras publicações foram feitas, no esforço de definir regras, princípios e orientações para o método. Porém a obra notável sobre a análise de conteúdo, onde se configurou detalhes, não somente em relação à técnica de seu emprego, mas também em seus princípios, em seus conceitos fundamentais, é a obra de Bardim (1977) 10 , L’analyse de contenu, publicada em Paris. Bardin nos fornece a definição deste instrumento de pesquisa, dizendo que a análise de conteúdo é [...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações, visando, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, obterem indicadores quantitativos ou não, que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) das mensagens (BARDIN, 1979, p.42). Bardin caracteriza a análise de conteúdo como sendo empírica e, por essa razão, não pode ser desenvolvida com base em um modelo exato. Contudo, para sua operacionalização, devem ser seguidas algumas regras básicas, por meio das quais se parte de uma literatura de primeiro plano para atingir um nível mais aprofundado. Nesse sentido, relaciona as estruturas semânticas – significantes - com estruturas sociológicas - significados dos enunciados, e articula a superfície dos textos com os fatores que determinam suas características (variáveis psicossociais, contexto cultural, contexto e processo de produção da mensagem). Não se trata de atravessar os significantes para atingir significados, como se faz na leitura normal, mas de, por meio dos significantes e dos significados (manipulados), 10 BARDIN, L. Análise de conteúdo. Tradução de Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 1977. 229 p. Título original: L’Analyse de Contenu. Original francês. 51 buscarem-se diferentes significados de natureza psicológica, sociológica, política, histórica, dentre outros (MINAYO, 2006). A explicitação, sistematização e expressão do conteúdo de mensagens, promovida pela análise de conteúdo, é organizada em três etapas realizadas em conformidade com três pólos cronológicos diferentes. De acordo com Bardin (1979) e Minayo (2000), essas etapas são: a) a pré-análise: fase de organização e sistematização das idéias, em que ocorre a escolha dos documentos a serem analisados, a retomada das hipóteses e dos objetivos iniciais da pesquisa em relação ao material coletado, e a elaboração de indicadores que orientarão a interpretação final. b) a exploração do material: trata-se da fase em que os dados brutos do material são codificados, classificados e categorizados para se alcançar o núcleo de compreensão do texto. c) tratamento dos resultados obtidos e interpretação: De posse dessas informações, o investigador propõe suas inferências e realiza suas interpretações de acordo com o quadro teórico e os objetivos propostos, ou identifica novas dimensões teóricas sugeridas pela leitura do material. Os resultados obtidos, aliados ao confronto sistemático com o material e às inferências alcançadas, podem servir a outras análises baseadas em novas dimensões teóricas ou em técnicas diferentes. Segundo Alves-Mazzotti (2001), embora sejam feitas verificações parciais ao longo de toda a pesquisa, a “checagem”, que é um critério relativo à credibilidade é feita de modo completo e formal no final dos trabalhos, apresentando-se aos participantes os resultados e conclusões, bem como outros aspectos do relatório considerados relevantes e pedindo que os avaliem quanto à precisão e relevância. Isto pode ser feito de forma escrita, oral ou visual. Antes de se proceder a realização das entrevistas, os trabalhadores assinaram um termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE (Anexo 2) concordando em participar da pesquisa. Por se tratar de uma pesquisa que envolve diretamente seres humanos (Resolução 196/96 CNS), o projeto havia sido encaminhado para o Comitê de Ética da FUNEDI (Anexo 3), obtendo aprovação em 04/06/2009, através do Parecer 51/2009. 52 4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 4.1 Caracterização geral dos trabalhadores temporários Os dados utilizados para a caracterização geral dos trabalhadores temporários da LDC-SEV (Louis Dreyfus Commodities – Santelisa Vale, formada com a fusão entre as operações da multinacional francesa Louis Dreyfus Commodities no Brasil e da Santelisa Vale, de Sertãozinho, SP) foram obtidos junto ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata, assim como na própria empresa. No período que se realizou o estudo, a empresa contava com aproximadamente 1500 funcionários e havia empregado 761 safristas ou trabalhadores temporários para a safra do ano de 2010. Destes 761 trabalhadores, apenas 33 (4,3%) eram mulheres cuja média de idade estava em torno de 35 anos e 728 (95,7%) homens cuja média de idade estava em torno de 33 anos. A faixa de idade dos trabalhadores temporários da LDC-SEV encontra-se na FIG.3. Os dados demonstram maior número de trabalhadores no intervalo de 18 a 25 anos, com 297 trabalhadores representando 38% do total. No intervalo compreendido pela faixa etária de 26 a 30 anos, observou-se 158 trabalhadores (21% do total). Essas duas faixas etárias compreendem juntas 59% dos trabalhadores, evidenciando que indivíduos mais jovens estariam mais aptos a esse tipo de trabalho, especialmente em relação a necessidade de força física e muscular exigida pelo corte da cana, irrigação e adubação, dentre outras atividades que demandam força e resistência. Em função dessas observações, a FIG. 3 mostra uma curva descendente do número de indivíduos mais jovens para mais velhos, culminando com apenas 32 trabalhadores (4%) na faixa etária correspondente aos indivíduos acima de 50 anos. De acordo com a CPT (2008) um indivíduo que corta 12 toneladas diariamente, caminha cerca de 8.800 metros; despende 133.332 golpes de podão e carrega 12 toneladas de cana em montes, com peso médio de 15 kg. Para isso, realiza cerca de 800 trajetos e 800 flexões, levando 15 kg de cana nos braços por uma distância de 1,5 a 3 metros, com aproximadamente 36.630 flexões e entorses torácicos para golpear a cana, perdendo, em média, 8 litros de água. Portanto a vigor, a juventude e a saúde física são fundamentais nesse tipo de trabalho. 53 A empresa atualmente não emprega menores de 18 anos para execução de quaisquer tipos de tarefas, diferente do que ocorria no passado, nos tempos da então Usina Luciânia, em que crianças de 12 anos eram contratadas para serviços agrícolas, inclusive para o corte de cana. Balsadi (2008) informa que no estado de São Paulo, diante dos vários acordos coletivos de trabalho, ocorridos entre empregados e patrões no setor canavieiro, normatizando o trabalho por produção, houve melhorias em diversos indicadores socioeconômicos ao longo do tempo, sendo a redução do trabalho infantil uma delas. FIGURA 3 – Faixa etária dos trabalhadores temporários da Louis Dreyfus Commodities e Senatelisa Vale em Lagoa da Prata –MG, junho de 2010. Fonte: LDC-SEV. Quanto ao número de homens e de mulheres que atuavam nos setores de trabalho temporário da LDC-SEV, a TAB. 4 mostra que dos 761 trabalhadores, 18 mulheres estavam desempenhando trabalhos agrícolas (corte de cana, capina, plantio, irrigação), enquanto que para desempenhar o mesmo trabalho foram contratados 490 homens. Para desempenhar atividades na área da indústria (ajudantes na moenda, caldeira e outros), havia 87 homens e 14 mulheres, sendo que nos demais setores que não envolviam diretamente o corte de cana trabalhavam 151 homens e uma mulher. Dentre os trabalhadores temporários, 80% eram migrantes, dos quais, 30% provenientes de reservas indígenas do norte de Minas Gerais e os 54 demais 50% eram provenientes da região sul do estado da Bahia, mais especificamente de Morrinhos e áreas rurais vizinhas. Para Ferreira (2009), uma possível hipótese da pouca utilização da mão-de-obra local e maior utilização de migrantes seria que os trabalhadores locais já conhecem bem o setor, sabem dos seus direitos e são mais organizados. A opção das usinas em utilizar mão-deobra migrante justifica-se pela alegação do setor canavieiro com a questão da falta de mão-deobra para ocupar os postos de trabalho. Porém, nas regiões canavieiras de São Paulo, existem milhares de desempregados, e mesmo assim a cada ano as usinas vão buscar os cortadores de cana cada vez mais longe, como nos estados do Piauí e Maranhão. Zoratto (2009), afirma que é comum trabalhadores temporários trazerem suas famílias para a região na qual exercerão suas atividades sazonais, sendo que, na maioria das vezes, as esposas procuram serviços domésticos nas cidades ou mesmo atuam como bóiasfrias e que por não atenderem a produtividade necessária, são empregadas para as tarefas ditas como aquelas mais simples, mas que demandam esforço repetitivo e desgastante, como as de bituqueiras, que recolhem restos de cana que as máquinas não conseguem colher. Porém, no caso desta pesquisa, foi verificada através das entrevistas e confirmada pelos dados fornecidos pela empresa, a inexistência de mulheres migrantes sazonais sendo trazidas e contratadas. As poucas mulheres que atuam nas atividades agrícolas, como o corte de cana ou catação de bitucas, são do próprio município ou de cidades vizinhas11. 11 Os trabalhadores temporários de cidades vizinhas que trabalham na usina e retornam para suas casas após o dia de trabalho não são caracterizados como migrantes sazonais, mas como migrantes pendulares. 55 TABELA 4 Caracterização dos trabalhadores temporários da Louis Dreyfus Commodities e SantelisaVale em Lagoa da Prata-MG, safra de 2010. Trabalhadores Homem Mulher Contratados 728 33 Atua no setor da indústria 87 14 Atua no setor agrícola 490 18 Atua em outros setores 151 1 São migrantes 608 0 Não - migrantes 120 33 Fonte: Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata – MG e LDC-SEV Total 761 101 609 152 608 153 A TAB. 5 mostra que do montante total de 761 trabalhadores, 60% eram admitidos de safras anteriores. Apenas 54 (7%) do total de 761 trabalhadores eram sindicalizados. A maioria dos trabalhadores (80%) contava apenas com ensino fundamental incompleto e os demais com ensino médio completo (20%). Um montante de 60% dos trabalhadores temporários residia em casa própria, sendo que neste percentual incluímos os migrantes, que afirmaram viver em casa própria em suas cidades. Quanto aos indígenas, segundo a empresa e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, também possuíam moradia própria na reserva da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), para onde retornariam logo que finalizasse o período de safra da cana-de-açúcar, motivo que os trouxe como migrantes sazonais. 56 TABELA 5 Caracterização geral dos trabalhadores temporários da Louis Dreyfus Commodities e Santelisa Vale em Lagoa da Prata - MG - safra de 2010. Caracterização dos trabalhadores % Mora em casa própria 60 Mora de aluguel 40 Cursou 1º grau incompleto 80 Cursou 2º grau 20 São sindicalizados 07 Não são sindicalizados 93 Trabalharam em outras safras 60 Primeira safra 40 Fonte: Relatório de entrevistas e dados do Sindicato Rural dos Trabalhadores de Lagoa da Prata-MG e LDC-SEV Verificou-se pela pesquisa um baixo percentual de trabalhadores sindicalizados (7%), reforçando o argumento de Balsadi e Graziano da Silva (2008), no qual o processo de modernização e mecanização visto na agricultura em grande escala, na atualidade, geralmente emprega poucos trabalhadores qualificados, sendo a maioria com baixa qualificação. Citam ainda que dentre os fatores mais específicos está a fraca representação e organização sindical dessa categoria de trabalhadores temporários da agricultura, com exceção de algumas culturas em certas regiões produtoras. A formação e a estruturação dos sindicatos de trabalhadores agrícolas assalariados são muito importantes para o fortalecimento de todas as categorias na agricultura. Se por ventura os empregados permanentes estão em situação consideravelmente mais favorável, no que se refere a condições de trabalho e rendimentos, é inexorável admitir que ainda sejam necessárias políticas públicas e ações dos trabalhadores e dos agricultores no sentido de proporcionar melhores condições de trabalho para os empregados temporários, os quais possuem níveis elevados de precarização (BALSADI; GRAZIANO DA SILVA, 2008). A caracterização geral dos trabalhadores temporários nos permite vislumbrar aspectos da sua qualidade de vida que, para Bonacelli et al (2003), é o reflexo das mudanças gerais no seu cotidiano, nem sempre relacionadas com seu ambiente de trabalho. É um 57 aspecto que está vinculado aos valores culturais de determinados grupos sociais, ou seja, ele não se manifesta igualmente em diferentes regiões e contextos. Os aspectos da qualidade de vida dos trabalhadores temporários observados nesta pesquisa e mostrados na TAB. 5 refletem de modo específico, as mudanças gerais ocorridas na região em função das transformações do município em sua trajetória de crescimento e mesmo da usina sucroalcooleira, com as mudanças internas vividas desde sua implantação na década de 1950. Portanto, a qualidade de vida e o perfil dos trabalhadores temporários tem refletido essas mudanças contextualizadas em seus valores, conferindo identidade à população do município, especialmente no que se refere aos aspectos sócio-culturais e econômicos. 4.2 Caracterização dos trabalhadores temporários entrevistados O perfil dos trabalhadores temporários da cana-de-açúcar entrevistados no município de Lagoa da Prata – MG foi delineado em torno de características básicas como sexo, idade, escolaridade, renda familiar, moradia, trabalhador local ou migrante, jornada de trabalho semanal, número de safras trabalhadas na empresa e tempo total de trabalho na usina. A TAB. 6 mostra estas características básicas coletadas nas entrevistas e aqui dispostas a partir de nomes fictícios para resguardar a identidade dos entrevistados, conforme as garantias de total sigilo previstas no TCLE (anexo 2). 58 TABELA 6 Dados gerais sobre os trabalhadores temporários entrevistados Trabalhador Sexo/ (nome Idade Escolaridade fictício) Jornada No de Safras Familiar trabalho trabalhadas (salários) (Horas Renda Moradia Procedência Tempo de trabalho na Usina (anos) Ademir M/ 35 2º grau-Curso 4 própria Lagoa da Prata semanais) 36 8 8 Andréia Batista Célio Cláudio Jaime Luis Roberto Sérgio Simone F /34 M /44 M/ 19 M/ 25 M/ 34 M /41 M/ 22 M /33 F/ 40 Técnico 5ª série 2º grau 6ª série 7ª série 4º série 4ª série 2º grau 2º grau 4ª série 1a2 3 1a2 1 2 2 4 3 1a2 alugada própria própria própria alugada alugada própria própria própria Lagoa da Prata Lagoa da Prata Morrinhos- BA Morrinhos-BA Morrinhos-BA Morrinhos-BA Lagoa da Prata Japaraíba-MG Lagoa da Prata 44 44 44 44 44 44 44 44 44 4 21 1 1 2 2 3 14 5 4 21 1 1 2 2 3 14 5 Fonte: Relatório de entrevistas A população de trabalhadores entrevistados apresentou uma variação de idade entre 19 e 44 anos, lembrando que a média geral de idade fornecida pela empresa e pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais na caracterização geral dos trabalhadores está entre 33 anos para homens e 35 para mulheres. Em relação ao nível de escolaridade, todos os entrevistados sabiam ler e escrever, o que foi observado quando leram e assinaram o TCLE, porém, todos os migrantes sazonais entrevistados apresentaram ensino fundamental incompleto. Dos demais trabalhadores entrevistados, quatro apresentaram ensino médio completo, inclusive um destes com curso técnico em segurança do trabalho, e as duas mulheres apresentaram ensino fundamental incompleto. Para Balsadi e Graziano da Silva (2008), a polarização do mercado de trabalho, verificada nesses últimos anos identifica de um lado um núcleo mais ou menos estável e com alta qualificação profissional e de outro lado, um núcleo bem maior, muito instável e composto de trabalhadores de baixa qualificação. No que se refere aos trabalhadores temporários da cana, de um modo geral, a maioria tem baixa escolaridade e são migrantes dos Estados mais pobres do Brasil, sendo muitos desempregados e pequenos agricultores que abandonam suas terras. Balsadi (2008), indica que diante dos vários acordos coletivos de trabalho, no estado de São Paulo, houve melhorias em diversos indicadores socioeconômicos ao longo do tempo, como o aumento da escolaridade dos empregados. Acredita-se que o mesmo venha ocorrendo na empresa estudada, pois do total dos dez entrevistados, quatro afirmaram ter 59 segundo grau completo, inclusive o operador de máquinas. Para Moraes (2007), a mecanização da colheita altera o perfil do empregado, que cria oportunidades para tratoristas, motoristas, mecânicos, condutores de colheitadeiras, técnicos em eletrônica, dentre outros, e reduz, em maior proporção, a demanda dos empregados de baixa escolaridade. Os entrevistados, durante as safras, apresentaram renda familiar mensal variando entre um salário mínimo e quatro salários mínimos. Dos entrevistados, dois moravam em casas de aluguel e oito possuíam casa própria, e destes trabalhadores, praticamente todos afirmaram somente conseguir tal realização graças às safras já trabalhadas na usina sucroalcooleira. Os migrantes do sul da Bahia possuíam residências próprias na cidade de origem, de acordo com o que afirmaram nas entrevistas. Ao serem questionados se eram residentes em Lagoa da Prata e redondezas ou se vinham de regiões distantes, quatro afirmaram vir do sul da Bahia, enquanto que cinco se disseram ser lagopratenses, ou seja, nascidos em Lagoa a Prata e um pertencia à cidade vizinha, Japaraíba-MG. Para Zoratto (2009), a maioria dos trabalhadores bóias-frias em seu imaginário possui a ilusão de conseguir melhores condições de vida para seus familiares, pois eles vêem em outro lugar maiores chances de melhorara em seus padrões de vida. Os migrantes entrevistados, assim como os demais trabalhadores migrantes, foram contratados pela Instrução Normativa Nº65 de 19 de julho de 2006 (BRASIL, 2010), que dispõe sobre os procedimentos para a contratação de trabalhadores temporários migrantes, inclusive contratos que disciplinem a duração do trabalho, o salário, condições de alojamento, alimentação e de retorno à localidade de origem do trabalhador. Segundo Moreira e Sene (2005), em geral, o governo tem resistido à migração. Acredita-se que a falta de ações em favor dos pobres evite a imigração futura de outros pobres. Esta política não tem funcionado. Além disso, tais atitudes têm obrigado os pobres a ocuparem terras marginais, ecologicamente frágeis ou perigosas, tais como beiras de rios e morros íngremes. Isto tem contribuído imensamente para a esqualidez e miséria da nova população urbana, bem como para a degradação ecológica das cidades. Ao descrever sobre a jornada de trabalho, os entrevistados afirmaram que os trabalhadores temporários do corte de cana, irrigação, plantio, capina, preparo e operadores de máquinas trabalham 44 horas semanais e recebem por produtividade nas horas estipuladas em contrato, enquanto que os trabalhadores temporários dos tratos culturais trabalham 36 horas semanais. Todos têm uma folga semanal, porém a forma em que se apresenta é diferenciada. Os trabalhadores locais trabalham de segunda-feira a sexta-feira e recebem folga no domingo e os migrantes trabalham no sistema conhecido como “5 por 1”, que consiste em se trabalhar 60 cinco dias consecutivos na semana e receber a folga no sexto dia, previamente acordado entre as partes. Apesar de a forma de pagamento por produtividade da colheita da cana-de-açúcar ser alvo de discussões no mercado de trabalho sucroalcooleiro, a remuneração por produção tem ampla base legal: é prevista no artigo 457, § 1 0 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com incontroversa aceitação doutrinária e jurisprudencial. Da mesma forma, é prevista em normas coletivas de trabalho, para diversas culturas agrícolas. A limitação existente é que conforme o Artigo 78 da CLT deve ser garantido ao trabalhador um ganho mensal nunca inferior ao salário mínimo vigente (MORAES, 2007). Não houve diferença entre o número de safras trabalhadas e o tempo de trabalho na usina (anos), uma vez que o montante total de entrevistados não trabalharam em outras empresas, senão na Louis Dreifus Commodities. Do total de trabalhadores entrevistados, oito eram trabalhadores temporários admitidos de safras anteriores e dois tratavam-se de contratos de principiantes. Os trabalhadores temporários admitidos de safras anteriores afirmaram receber mais de um salário mínimo por mês, apontando como justificativa a maior produtividade durante a colheita da cana. No que se refere ao tempo de trabalho na usina, observou-se variação entre aqueles indivíduos que estavam em sua primeira safra (iniciantes) até aqueles com 21 anos de trabalho na empresa. Entretanto a média observada foi de 11 safras trabalhadas. Portanto a maior oferta de mão-de-obra é constituída de trabalhadores experientes de safras anteriores e que produzem mais e conseqüentemente recebem mais em função de sua maior produtividade. 4.3 Percepção dos entrevistados Tendo em vista os objetivos do trabalho, a análise das entrevistas baseou-se em três áreas temáticas: as condições de vida, trabalho e saúde de indivíduos trabalhadores temporários da usina sucroalcooleira de Lagoa da Prata. Dessa forma, buscou-se compreender o modo de vida e as condições de trabalho desses sujeitos através de seus discursos - às vezes esclarecedoras, outras dúbias e temerosos, possivelmente pela condição de empregados e defensores de seu status social. Nesse sentido, procurou-se relacionar as estruturas semânticas – significantes com estruturas sociológicas - significados - dos enunciados, articulando a superfície dos 61 textos com os fatores que determinam suas características (variáveis psicossociais, contexto cultural, contexto e processo de produção da mensagem). Assim, buscou-se por meio dos significantes e dos significados (manipulados), alcançar diferentes significados de natureza psicológica, sociológica, política, histórica, dentre outros (MINAYO, 2006). No que se refere às condições de vida, trabalho e saúde dos trabalhadores, observou-se de modo geral que as condições de vida refletem as condições de ganho e de trabalho em que se verifica o fetichismo da estabilidade, justificado pelo espectro da instabilidade, da falta de moradia, da não-sobrevivência. Eu construí minha casa foi com dinheiro da usina. Todo trabalhador temporário quando entra ele tem um objetivo de compra, é para isso que ele trabalha. Meu pai deu a vida para a usina, tudo que ele fez foi com dinheiro da usina também. Antigamente o povo começava cedo a trabalhar e tudo era a usina (Batista, 44 anos) O depoimento acima guarda um sentimento de quase intimidade e respeito velado com a empresa sucroalcooleira na qual trabalha e onde viu o pai trabalhar grande parte de sua vida. Durante os discursos dos trabalhadores locais, não raramente percebemos um tom saudosista dos tempos da “usina”, “antigamente”, “antes”, “na Vila Luciânia”. O pai deste trabalhou a vida inteira na empresa, porque a “usina” era a principal fonte de sobrevivência no momento. Nesse sentido, para uma melhor compreensão das relações sociais de trabalho e condições de vida desses trabalhadores temporários torna-se necessário considerar que o “antigamente”, muitas vezes citado pelos nossos entrevistados, na maioria das vezes faz referência a um tempo pouco conhecido para os trabalhadores com menor tempo de jornada de trabalho, mas muito próximo da memória dos mais antigos na empresa, especialmente daqueles que presenciaram a Vila Luciânia, desativada em 1989. De acordo com Leite Lopes (1978) os operários residentes nas vilas operárias ainda na década de 1970, passavam necessariamente a depender de toda uma teia de “favores” por parte dos empregados (chefia direta) para satisfazerem detalhes mínimos de sua vida cotidiana doméstica e recursos auxiliares para sua subsistência (energia, água, lenha, terras de plantio). Tradicionalmente, no passado, a própria organização do lazer em outras regiões, era diretamente controlada pela empresa e constituía-se de formação de bandas filarmônicas e que 62 depois foram substituídas por clubes de futebol. Sendo que as atividades de lazer dos operários nestes clubes vinculavam-se ao seu sucesso profissional ou demissão dentro da usina, dependendo logicamente de sua atuação ou trajetória social que o operário pudesse ter naquela atividade esportiva. A trajetória da implantação dos programas sociais pela Usina Luciânia e a finalização dos mesmos reflete as mudanças econômicas que se operaram na sociedade contemporânea, partindo do keynesianismo12 ao neoliberalismo13. Para os neoliberais, o objetivo do capitalismo estava sendo ameaçado durante os anos 1970 pelas reivindicações das classes trabalhadoras e seus sindicatos tanto quanto pelos gastos sociais de programas assistenciais, cuja existência expandiu enormemente durante o keynesianismo. É neste contexto econômico que se insere “nossa usina canavieira” e suas relações sociais e trabalhistas. Embora, os trabalhadores vivessem o sonho Keynesiano do Bem-Estar Social morando em uma vila e acomodados de forma razoável em casas do estilo “popular” e tivessem acesso a exames de saúde e odontológicos periódicos e ainda assim rendessem lucros para a empresa, o neoliberalismo chegou solapando tudo que caracterizasse ameaça ao objetivo do capitalismo em voga. Por meio deste estudo exploratório sobre as condições de vida, trabalho e saúde do trabalhador temporário na atualidade, percebemos nuances e evidências de influência neoliberal nas relações sociais e trabalhistas construídas ao longo dos anos, especialmente através do fechamento da vila de trabalhadores (Vila Luciânia) em 1989 e a desativação das colônias de trabalhadores na zona rural, descritos na revisão de literatura. Outra evidência refere-se à forma de pagamento por produtividade e no real ganho salarial dos cortadores de cana. Ao serem questionados sobre a função desempenhada nesta safra de 2010, oito trabalhadores temporários responderam serem cortadores de cana, abrangendo as atividades de plantio e colheita, um afirmou trabalhar no setor de tratos culturais e um como operador de máquinas. 12 Keynesianismo – Teoria que enfatiza a importância de políticas sociais de natureza assistencial e de políticas econômicas em tempos de recessão. Estado de Bem-Estar Social (Almeida e Rigolin, 2005). 13 Neoliberalismo – Doutrina, em voga nas últimas décadas do século XX, que favorece uma redução do papel do Estado na esfera econômica e social. A teoria neoliberal nasce a partir da década de 1970, no Reino Unido e mais tarde nos Estados Unidos, como uma reação ao Estado intervencionista e ao de Keynes (Almeida e Rigolin, 2005). 63 Sou rurícola braçal, faço plantio, corte, capina, catação de bituca, os pedaços de cana que ficam para trás, mas este ano eles pararam com esta catação, mudaram muita coisa, cada ano que passa muda, (Simone, 40 anos). Trabalho na aplicação de herbicida, é o que chamam de tratos culturais (Ademir, 35 anos). Sou cortador de cana, prá isso que eu fui contratado, só sei fazer isso (Luís, 41 anos). Eu tô na irrigação, desde 1996 que eu faço mais é isso, durante as safras (Sérgio, 33 anos). Sou operador de máquinas, a gente dirige as máquinas que colhe cana, as colheitadeiras (Roberto, 22 anos). De acordo com a CLT (BRASIL, 1986) o trabalhador rurícola braçal, é aquele contratado em regime temporário para um período de um ano para cumprir tarefas variadas em um período de safra, sejam elas: corte de cana, plantio, colheita, aspersão de agrotóxicos, aspersão de vinhaça, ajudantes gerais, excluindo os trabalhos da moenda e engenho, assim como serviços de escritórios e almoxarifados que são atribuídos aos trabalhadores diretos. Daí a variação de funções apresentada pelos entrevistados. A expectativa quanto à aquisição de bens de consumo com a remuneração obtida com o trabalho despendido durante a safra, segundo os entrevistados, não ultrapassam as despesas mensais para a manutenção da casa, aquisição de utensílios domésticos, alimentos e pagamentos de contas de luz, água, telefone e aluguel, no caso daqueles que não têm casa própria. O trabalhador solteiro espera, na melhor das hipóteses, a compra de uma motocicleta com a renda acumulada durante a safra. Uso o dinheiro para manutenção da casa, comprar um móvel novo às vezes ou pagar conta mesmo né (Andréia, 34 anos). Conheço um cortador de cana que comprou um carro, claro que foi com o dinheiro guardado de outras safras também, mas ele conseguiu (Ademir, 35). Eu quero comprar uma moto (Cláudio, 19 anos). 64 Os cortadores de cana, para receber R$ 540,00 devem cortar 174 toneladas de cana, a R$3,00 a tonelada. Antigamente, em 1989, era necessário cortar 80 toneladas para ganhar o mesmo salário mínimo, para quem trabalha nos tratos culturais com uso de herbicida, formicida, fertirrigação o salário é de R$ 679,00 com adicional noturno, mais 15%. Quem ganha de R$ 540,00 a R$ 700,00 tem salário de carteira, 15% resultado de acordo coletivo (de trabalho), 20% adicional (noturno) e 25,00 para trabalhar no domingo (Batista, 44 anos) Para Balsadi (2008), os ganhos reais de salário assim como o aumento de alguns benefícios recebidos por trabalhadores também são frutos de acordos coletivos de trabalho. Os entrevistados que se disseram sindicalizados apontaram os acordos coletivos como responsáveis pelas melhorias salariais dos últimos tempos na empresa. Na perspectiva marxiana, a mais-valia, base dos lucros capitalista, é resultado de uma relação social de exploração, tendo como fundamental o controle da força de trabalho e a expropriação do excedente, fruto dessa força empregada, mas não paga. A capacidade do capital e de suas classes dominantes concentrarem riqueza à custa dos que estão integrados ao sistema produtivo é na atualidade, superior a qualquer outro período da história. Trata-se de uma máquina de exclusão de trabalhadores, a partir dos movimentos de elevação da composição técnica, novas tecnologias para dar continuidade ao processo de acumulação e concentração da riqueza (GOMES, 2009). Com o baixo poder de compra verificado pelos relatos das entrevistas, principalmente se atentarmos para a comparação feita pelos trabalhadores entrevistados de que atualmente é necessário cortar mais que o dobro de cana do que há vinte anos para receber o salário mínimo, então fica claro o empobrecimento da classe trabalhadora canavieira do município. Pois o que houve foi uma desvalorização do trabalho em detrimento do ganho obtido pelo trabalhador. O que compromete o desenvolvimento da comunidade, uma vez que, o trabalhador se vê impossibilitado de colaborar com maior capital de giro para manter as atividades comerciais e de serviços de forma satisfatória para o crescimento da cidade. Um dos grandes problemas enfrentados pelos trabalhadores temporários refere-se à possível dispensa no período da entressafra, que os leva a buscar outros tipos de serviços para a sua sobrevivência. O trabalho mostrou que durante o período de entressafra, os trabalhadores temporários que são dispensados pela empresa realizam tarefas de natureza diversas. Dentre essas atividades, as mais citadas foram trabalhos na agricultura (30%) e os chamados “bicos” (30%), que são trabalhos geralmente simples e de curta duração. Em 65 seqüência foi citada a construção civil (20%) e por fim a tarefa de doméstica (20%), no caso específico das mulheres. Para Gomes (2009), uma das questões mais importantes da atualidade é a capacidade que o sistema de produção capitalista alcançou de descartar trabalhadores em massa como decorrência do processo de permanente reestruturação produtiva, que promove a integração, das maneiras mais diversas, de trabalhadores com novas qualificações justapondose com as antigas. Nesse sentido, três dos migrantes entrevistados chegaram a afirmar que durante a entressafra não faziam nada, mas depois voltaram atrás e disseram que faziam “bicos”, uma modalidade de ocupação indefinida que supre necessidades momentâneas para três entrevistados. A gente faz nada não. Espera aparecer o serviço (safra) de novo. Quer dizer faz qualquer coisa que tiver. Uns bicos. Não rende muito, mas, faz o que tem (Luis, 41 anos). A gente descansa, trabalha aqui e ali, na roça. Qualquer coisa. Não tem muito o que fazer não (Jaime, 34 anos). Trabalho por minha conta, vendendo coisas (Cláudio, 25 anos). Gomes (2009) afirma que o desemprego e a deterioração das relações de trabalho são conseqüências das novas formas de exploração engendradas pelos novos instrumentos de produção e de controle, como a acumulação flexível e a terceirização. Esses processos criam condições propícias à expulsão de trabalhadores do processo produtivo, obrigando-os a somarem-se ao exército industrial de reserva, que, por sua vez, reforça as estruturas de controle social. Conseqüentemente este desemprego cria margens para todo tipo de ocupação e os “bicos” se apresentam de formas variadas no setor informal da economia, como jovens e crianças nas ruas fazendo malabarismos ou negociando "bugiganga", flanelinhas e deficientes físicos competindo nas ruas na busca pelos trocados dos motoristas, pessoas comercializando salgados, refrigerantes, balas, óculos e objetos falsificados em pontos escolhidos. Durante o período da entressafra, as duas mulheres entrevistadas apontam os serviços de domésticas e diaristas como principal fonte de sustento. 66 Fico em casa mesmo, até aparecer alguma coisa. De doméstica ou diarista na casa dos outros (Andréia, 34 anos). Trabalho de doméstica; faço limpeza para os outros; outra hora fico em casa mesmo, olhando os meninos, cuidando da casa (Simone, 40 anos). Embora as duas entrevistadas considerem-se arrimo de família, por responsabilizarem-se pelas despesas de toda a família (as duas entrevistadas são divorciadas e cuidam sozinhas dos filhos), ocupando a priori, posições socialmente reconhecidas como masculinas, suas falas não contrariam sua índole doméstica, nem tão pouco almejam participar da esfera civil e política destinada aos homens. Segundo Cyrino (2009), de acordo com a análise do processo de configuração sexual dos espaços público e privado proposto em O contrato sexual, (PATEMAN, 1993) as mulheres são confinadas à esfera do doméstico, vinculada historicamente ao não-civil e ao apolítico enquanto os homens têm lugar diferenciado na sociedade, ou seja, são os responsáveis pela criação da política enquanto espaço público. Dessa forma, para as mulheres que desempenham trabalhos fora de sua esfera doméstica, durante os períodos de entressafra, restam as atividades que são culturalmente aceitas como extensão de suas lidas domésticas, como diaristas e domésticas, justificadas inconscientemente por não incompatibilizar com as tarefas de esposa e mãe. Para os homens, as atividades da entressafra apresentam-se variadas. Segundo relatos das entrevistas, dentre outras possibilidades, a construção civil também atrai mão-de-obra dos trabalhadores na entressafra, o que geralmente é visto por eles como falta de alternativa, pois o trabalho em questão, quase sempre oferecido por mestres-deobras irregulares, geralmente não possui seguridade (Previdência Social). Trabalho de ajudante de pedreiro, sempre aparece alguma coisa assim. O ruim é que não tem como assinar carteira (Roberto, 22 anos). Eu mexo com construção, construção civil (Ademir, 35 anos). A formalidade no trabalho é vista pelos indivíduos como uma importante condição para a obtenção da aposentadoria, além de outros benefícios. A ocupação de ajudante de pedreiro ou construtor civil, sem regulamentação legal, na ótica dos entrevistados, 67 não é diferente dos tipos de ocupação criados no setor informal da economia e tratados como “bicos”. Cumpre lembrar que neste período de desempenho de atividades informais, a instabilidade de remuneração mensal a que esses indivíduos estão sujeitos influencia diretamente na qualidade de vida, dificultando ainda mais a realização de seus projetos de vida. A condição de desempregado desempenhando atividades informais recebe enfoque sensacionalista por parte da mídia como uma forma de disseminar uma idéia (falsa) de igualdade de oportunidades ou superação individual como regra geral no modelo capitalista atual. Para Gomes (2009), a mídia burguesa exibe reportagens e matérias sobre indivíduos de sucesso, casos excepcionais de gente que conseguiu escapar às situações de sobrevivência hostil, buscando "empreender" em atividades marginais, a dinâmica econômica capitalista moderna. É oportuno entrever a constatação de que os trabalhadores temporários que se dedicam à agricultura no período de entressafra trabalham em condições de indefinição e dilema, no que se refere ao ganho e produtividade desse espaço de tempo. A razão desse dilema é que o curto período de entressafra, que varia de um ano para outro (podendo somar quatro a cinco meses aproximadamente), geralmente não garante tempo para colheitas rentáveis e, por outro lado, não se pode ignorar a oferta do trabalho agrícola, pois o sustento das famílias destes trabalhadores, na maioria das vezes, depende da agricultura enquanto aguardam a próxima safra de cana-de-açúcar. Trabalhava nas fazendas, no plantio e colheita de fazendas. Antigamente a usina fornecia terras até dois hectares para arrendatários e colonos, até 1995, que entravam com a semente, trabalho e pagava a empresa com produção (Batista, 21 anos) Eu trabalho aqui na roça. Uma hora a gente planta, outra hora a gente mexe também só com a tiração de leite (pecuária leiteira) e vai levando (Sérgio, 33 anos). A gente trabalha com roçado (Célio, 19 anos). O relato desses trabalhadores agricultores confirmam que embora os trabalhadores temporários da cana-de-açúcar sejam, em sua maioria migrantes, muitos ainda permanecem ligados ao campo como pequenos agricultores. Dessa forma, segundo Moreira; Sene (2005), a agricultura familiar, percebida como atividade extra-safra na vida de muitos trabalhadores 68 temporários, tem sido praticada de forma rudimentar, na maioria das vezes, e classificada de lavoura de subsistência por geralmente não ter como finalidade básica o comércio. Não houve evidências nas falas dos entrevistados de ter havido expropriação de pequenos proprietários para a zona urbana aumentando o êxodo rural, nem tão pouco se configurou comprometimento da agricultura familiar como conseqüência de suposta expropriação, obviamente. Dos entrevistados que disseram assumir o papel de agricultores durante a entressafra, apenas um vive na zona rural, sem pretensão de vender suas terras para a empresa canavieira onde trabalha apesar de já ter sido oferecido a ele tal proposta. Eu nasci aqui na roça, nunca pensei em vender não, minha família mora toda aqui (Sérgio, 33 anos). Os outros dois entrevistados que também desempenham agricultura nunca possuíram terras de cultivo, sendo então parceiros ou meeiros de outros agricultores na entressafra. Procurando significados de natureza psicológica, sociológica, política e histórica nos discursos proferidos a respeito de condições de trabalho, inferimos que estes trabalhadores temporários, na maioria das vezes, almejam igualar-se às condições dos trabalhadores ditos definitivos ou permanentes. A condição de permanentes (em detrimento a de temporários) significa colocar fim às instabilidades financeiras durante as safras e garantir a contribuição para a previdência social ininterruptamente, por tempo indeterminado. Tal contribuição é vista como de suma importância para a garantia da aposentadoria por tempo de serviço, além de contarem com benefícios como planos de saúde. Dessa forma, no imaginário do trabalhador temporário, a safra é um trampolim para que ele se torne permanente na usina e que tenha a mesma seguridade garantida a seus colegas de trabalho - o ideal promissor de desenvolvimento social e econômico sob a tutela da “usina”. A segurança do trabalho classificado como permanente, certamente diminui o espectro ressentido pelo trabalhador com as ameaças de despensas por greve, das secas prolongadas que prejudicam a agricultura familiar ou da inexistência de registro em carteira profissional que comprometerá sua futura aposentadoria. Segundo Harvey (2004), os controles sociais sobre a força de trabalho, aliados às novas configurações produtivas das organizações, como a terceirização e trabalho temporário, engendram uma série de 69 determinações concretas que estabelecem novas realidades para a exploração de mais-valia e palavras-chave como competitividade, individualismo, empreendedorismo tornam-se os novos símbolos do sucesso. Para Hobbes (1998), o medo constante leva os homens a entrar em guerra. Por essa razão, é também em virtude do desejo de estabelecerem-se a segurança e esperança de uma vida melhor através do trabalho, que o homem tende à paz e por fim à aceitação de imposições. Os homens renunciam aos seus direitos em troca de estabilidade de vida e, uma vez feitos essa troca, em forma de pacto, encontram-se diante da impossibilidade de voltar ao estado em que primeiramente se encontravam. Contestar o poder do Estado político gerido pelo soberano seria o mesmo que se opor a si mesmo, pois que ele seria a encarnação da própria coletividade, a cuidar dos interesses de seus súditos. Nos anos de 1970, no universo das relações sociais na cultura canavieira, a submissão ao poder do Estado vem encontrar repercussão, por exemplo, no pensamento de José Sérgio Leite Lopes, em “O Vapor do Diabo” 14(LEITE LOPES, 1978), quando escreve que “o fetichismo do salário-hora dos operários, a atuação do Presidente, e a prática da administração da usina estão presentes na resposta do operário à pergunta referente ao número possível de turnos de trabalho”. Essa impossibilidade objetiva (aumento do salário-hora) só pode ser rompida por uma determinação suprema – pelo Presidente - conforme a visão que têm os operários da concessão dos direitos de leis dados por Getúlio Vargas. “Essas leis (as leis trabalhistas) quando começou, foi de seu Getúlio Vargas, não é? Foi de Getúlio Vargas que libertou esse Brasil, todos nós, né. Ele foi um grande Presidente. E finalmente, todos eles que têm entrado, são uns bons Presidente. Que eles não são o causador de nenhum de nós sofrer isso. [...] São eles que botam essas leis pra gente viver. Viver. Porque antigamente aquelas leis cativas, aquelas leis presas, o camarada morria, o camarada apanhava, e lá vai, e hoje a gente é livre. [...]” (depoimento de um operário do açúcar em “O Vapor do Diabo: o trabalho dos operários do açúcar, Lopes,1978, p. 109) Assim no início dos anos de 1970, o Estado intervinha diretamente na economia. com a finalidade de garantir a reativação de indústrias nacionais com políticas protecionistas, além de programas de intervenção pública e ação social que garantissem ilusória estabilidade. 14 José Sérgio Leite Lopes apresentou seu trabalho como dissertação de mestrado em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ). Tal dissertação baseou-se em pesquisa de campo com operários de usinas canavieiras na zona da mata de Pernambuco, realizada entre janeiro e março de 1972 no quadro do “Estudo Comparativo do Desenvolvimento Regional” 70 Os dados obtidos nesse trabalho nos permite inferir que neste momento atual, verifica-se a existência do fetichismo da estabilidade laboral, fortalecido pelo espectro da instabilidade, da falta de moradia, da não-sobrevivência. A mão-de-obra barata (R$ 3,00 a tonelada de cana cortada), o trabalho exaustivo, repetitivo e causador de moléstias físicas e psíquicas tais como tendinite e depressão, são justificados pela realidade da não-escolaridade dos trabalhadores, da falta de qualificação para outras atividades melhor remuneradas e, sobretudo pela esperança de alcançar poder aquisitivo. Nos anos de 1970, Leite Lopes (1978) nos conta sobre o fetichismo do salário – hora. Assim, embora fosse imenso o sofrimento causado pela enorme jornada e pelas condições de trabalho, o profissionista15 justificava sua permanência na moagem com base na vinculação do seu salário ao tempo de trabalho despendido. Mesmo exaurido pelo peso cotidiano dessas condições de trabalho, ao invés de dissociar o aspecto favorável do salário do aspecto desfavorável da jornada de trabalho, o profissionista, ao contrário percebia suas condições de trabalho como constitutivas de sua própria categoria e assim, de certa forma, justificadas, em vez de perceber o caráter contraditório e o círculo vicioso de seu cálculo econômico. Não obstante, o mesmo autor, em suas conclusões, afirma que é a sazonalidade do trabalho agrícola que transforma a longa jornada de trabalho da moagem em mal menor, pois diante do salário diminuído da época de entressafra e dos cortes de operários a que estão sujeitos, o espectro do desemprego interiorizado explica o medo do questionamento da longa jornada de 12 horas de trabalho. Tal espectro se vê alimentado pela ameaça do avanço da superpopulação da parte agrícola da plantation em direção à usina no oferecimento de mãode-obra disponível, disputando vagas em uma ocupação operária estável. Os migrantes entrevistados, que foram contratados pela Instrução Normativa Nº65 de 19 de julho de 2006 (BRASIL, 2010), demonstraram estar conscientes das cláusulas contratuais. Porém, há aqueles que resistem em cumprir os termos do contrato segundo a IN Nº65, especialmente no que tange ao retorno à localidade de origem do trabalhador no final da safra. Conforme o relato a seguir. 15 No discurso dos operários do açúcar em O Vapor do Diabo, (Lopes, 1978) a categoria profissão aparece com dois sentidos: Artista ou Oficial é aquele que cria com seu trabalho algo útil para a produção na usina em oficinas, o carpinteiro, caldeireiro, torneiro, serralheiro; Profissionista é aquele que está fora das oficinas, principalmente no processo de fabricação do açúcar propriamente dito e nos transportes. 71 Da safra passada, ficaram doze migrantes que não quiseram ir embora com os outros. E hoje esses doze já somam uns sessenta, pois trouxeram as famílias (Batista, 44 anos) Alguns entrevistados, quatro no total, relataram que os habitantes da cidade já conhecem o trabalho e o salário da empresa, bem como o sistema de pagamento por produtividade, o que o torna pouco atrativo, especialmente, sobretudo, se esses indivíduos puderem optar por outras atividades de ocupação. Zoratto (2009), em análise de situações semelhantes no estado de São Paulo, afirma que quando os migrantes chegam às usinas, se deparam com uma realidade completamente diversa das que são oferecidas quando saem das suas regiões de origem. Acreditamos que essa discussão se aplica ao caso dos migrantes sazonais, como é o caso dos trabalhadores temporários da cana-de-açúcar, sendo que alguns migrantes se desiludem ao perceber a realidade das condições de trabalho e retornam ao seu local de origem. Conforme IBGE (2008), a população lagopratense é formada por uma grande diversidade de povos, que inclui índios, bandeirantes paulistas, portugueses, africanos, italianos, alemães, libaneses e espanhóis, estando o desenvolvimento da cidade sustentado no crescimento demográfico. Em 1938, ano de sua emancipação política, a cidade só contava com 2.417 habitantes. Em 1960 chegou a 6.852 e em 1970 a 12.514 e 2009, 47.000 habitantes. O crescimento populacional absoluto de Lagoa da Prata parece estar relacionado com o desenvolvimento dos postos de ocupações no setor da indústria sucroalcooleira e na oferta de mão-de-obra que se modifica a cada ano. Para a Fundação João Pinheiro (2008), Lagoa da Prata apresentou um crescimento de destaque na oferta de empregos no ano de 2008, acima da média da microrregião de Bom Despacho. O setor responsável por esse crescimento foi a indústria, que representou mais de 50,0% de sua estrutura setorial de ocupação, baseada principalmente na indústria sucroalcooleira e de laticínios. Porém, diante do crescimento da oferta de ocupação formal na indústria sucroalcooleira e de laticínios, constatada anteriormente, não se pode inferir que a mão-deobra dos migrantes e de seus familiares que permanecem em Lagoa da Prata seja absorvida em sua totalidade por este setor, o que seria positivamente um arranjo social e econômico providencial. Contudo a guisa de apresentação de resultados, outros autores (MARTINE, 2007; CPT, 2008; SILVA, 2001; ZORATO, 2009) têm demonstrado o lado negativo dos 72 movimentos migratórios sazonais que terminam em migração convencional, uma vez que o migrante não retorna ao seu lugar de origem. Martine (2007) chama a atenção para o impacto social e ambiental negativo que se configura no momento em que populações migrantes sem teto ocupam áreas de ocupação predatória nas cidades de destino. Nesse sentido, torna-se importante o planejamento do uso do solo urbano, por meio de políticas públicas que regularizem a ocupação dos imóveis no sentido de atender às necessidades dos pobres e evitar a ocupação predatória. Para os entrevistados, a forma de contratação e a existência das comodidades do alojamento dos migrantes é que diferenciam os dois grupos de trabalhadores temporários: os migrantes e locais. Os migrantes vivem em um alojamento, por sinal, muito bem equipado com tanques de lavar, quadra de esportes e dormitórios de apenas quatro camas com armários. Segundo a CPT (2008), há trabalhadores locais que utilizam o apelido de Carandirú para referir-se ao alojamento dos migrantes, uma referência ao presídio paulista. Entretanto, apesar dessa denominação, o acampamento possui todos os requisitos necessários para a estadia dos trabalhadores no período da safra para e os migrantes não são reféns em seus dormitórios. Durante um dia da semana, que corresponde ao dia da folga, todos que estiverem usufruindo deste direito, podem ir até à cidade para fazer compras ou mesmo sair da rotina. Um microônibus é colocado à disposição da turma que está de folga naquele dia e um trabalhador local responsável, uma espécie de fiscal acompanha o passeio, não propriamente como cicerone, mas como observador à distância. No alojamento tem de tudo, o alojamento dos baianos (migrantes) é muito bem equipado, tem tanques de lavar roupa, dormitórios de apenas quatro camas cada um, armários no dormitório, até quadra de esporte. O apelido de Carandirú é só por ciúme dos próprios trabalhadores da cidade. Eu já estive lá (Batista, 44 anos) Hoje é nosso dia de folga, então a gente pode sair pra comprar alguma coisa, andar pela cidade, quem quiser. Eles dão o microônibus, o motorista e o fiscal prá andar com a gente (Luis, 41 anos). O quadro acima evidenciado parece não se aplicar ao que foi observado em pesquisas anteriores (DINARDI; SALAN, 2004; CPT, 2008), que apontam que muitas 73 agroindústrias sucroalcooleira disponibilizam acomodações precárias e insalubres a seus trabalhadores. Outra forma de preconceito da população local em relação aos trabalhadores migrantes, verificada neste trabalho, refere-se à receptividade desses pelos comerciantes da cidade. Os relatos apontam que nas casas de comércio locais, os funcionários, proprietários e atendentes geralmente olham os migrantes com desconfiança. Tal fato certamente ocorre não exatamente pela condição espacial (de onde vem?) que caracteriza esse elemento, mas pela condição transitória temporal (até quando fica na cidade?) que o caráter migratório encerra. A insegurança quanto ao saldo das dívidas pendentes e a possibilidade de aumento de clientes inadimplentes e conseqüente prejuízo é o que pode dificultar a confiança e conseqüentemente a flexibilidade dos crediários. Eu queria comprar umas coisas, um celular. Mas tem que ter crédito. Sem dinheiro não compra e nós não temos crédito (Célio, 19 anos). Neste cenário, vislumbramos um quadro significativo da evasão de capitais oriundos do trabalho do corte de cana com os safristas migrantes, para as suas cidades de origem. Os migrantes que são consumidores em potencial, geralmente não adquirem bens de consumo na cidade a despeito de não possuírem crédito, nem despendem quantias substanciais em dinheiro para custos com despesas pessoais e moradia, pois à disposição dos mesmos há o alojamento equipado pela empresa. Portanto, o saldo final de seus ganhos, na maioria das vezes, é utilizado nas regiões de origem desses migrantes. Quanto à postura de “ciúmes” adotada por trabalhadores temporários locais em relação aos migrantes, parte da justificativa para tal comportamento parece estar também relacionada à produtividade dos migrantes. Dos trabalhadores entrevistados, ao serem questionados sobre a forma de tratamento dispensado aos trabalhadores migrantes, três deles responderam que os baianos ganham mais, mas de acordo com os próprios entrevistados, em sua totalidade e de forma controversa, esta informação não procede. Na verdade, os migrantes cortam muita cana, mas trabalham no sistema 5 por 1, ou seja, trabalham cinco dias e folgam um dia, e então por mérito de produção, geralmente saem ganhando mais. Dessa forma, se ocorre de trabalharem no domingo (em função do sistema mencionado, em que as folgas 74 retrocedem aos dias da semana), o trabalhador ganha dobrado, o que ocorre também com os feriados. Já os trabalhadores locais optaram por trabalhar a semana e folgar no domingo. Outro fator que se deve destacar na diferenciação das condições de trabalho do trabalhador temporário migrante e trabalhador temporário local se refere à alimentação: do salário do trabalhador migrante são descontados R$33,00 por mês para custeio de alimentação enquanto que o trabalhador local recebe um adicional mensal de R$50,00 para auxílioalimentação. Ainda há uma terceira alternativa: se o trabalhador, migrante ou não, optar por fazer suas refeições na lanchonete da empresa, deve contribuir com a quantia de 12,00 por mês. No que se refere ao intervalo para refeição, a empresa proporciona uma hora de almoço com descanso obrigatório de uma hora, em cumprimento a uma exigência legal, além de dez minutos a cada duas horas trabalhadas, para descanso muscular. À disposição dos cortadores de cana e demais trabalhadores da agricultura (excetuando os que fazem parte do quadro de tratos culturais), fica estacionado um ônibus equipado com toldo, dez conjuntos de mesas com quatro cadeiras, água refrigerada para consumo e lavatório para higienização antes e depois do almoço. Neste contexto, em função das condições oferecidas na alimentação desse trabalhador, o termo “bóia-fria”, tão apregoado em trabalhados acadêmicos em nossos dias, parece não se aplicar ao caso, como se pode ver pelo depoimento de um desses trabalhadores. Para alimentação o migrante paga 33,00 por mês para receber sua marmita e o trabalhador local recebe 50,00 para levar sua comida de casa. E o trabalhador da cidade só come marmita fria se quiser, pois a usina oferece uma marmita térmica (Simone, 40 anos). Cabe ainda ressaltar que nenhum trabalhador temporário entrevistado se autodenominou “bóia-fria” e tão pouco aceita com naturalidade que os outros o façam. Portanto o termo parece soar com estranheza hoje, nas relações sociais que se estabelecem no corte de cana e trabalhos afins, inclusive entre os migrantes. A maior parte dos entrevistados (oito no total) era reincidente de safras anteriores. A permanência do cortador de cana em mais de uma safra, apesar do baixo-salário, é justificada pelas necessidades de sobrevivência e, por outro lado, as condições de trabalho oferecidas, aos olhos do trabalhador, cumprem corretamente os padrões exigidos pelas leis vigentes de proteção ao trabalhador rural. 75 A usina estende um tapete vermelho pra gente entrar e lá dentro serve um banquete pobre (baixo salário). É mais ou menos isso (Ademir, 35 anos). Segundo Balsadi; Graziano da Silva (2008), tem-se observado maior fiscalização por parte dos órgãos nacionais nas empresas agrícolas de maior porte, desde os anos de 1990, visando evitar abusos e desrespeitos aos direitos sociais, trabalhistas e ambientais. Os trabalhadores entrevistados relataram que, no que se refere ao transporte para os postos de trabalho, o indivíduo que lida com os tratos culturais da cana tem disponível um veículo (ônibus) para essa função. Os operadores de máquinas também fazem uso de veículos que os conduziam aos seus postos de trabalho. De um modo geral, a diferenciação de veículos de transporte ocorre em função da variedade de setores. Os operadores de máquinas não estão no mesmo quadro de horários dos cortadores de cana, que por sua vez utilizam ônibus com lotação adequada e semi-novos e nenhum trabalhador viaja sem estar devidamente sentado. Nós vamos de ônibus coletivo com assentos para todos, ninguém viaja em pé. O ônibus é da empresa e lá a gente pega outro ônibus da empresa até o campo (Ademir, 35 anos, aplicador de herbicida). O transporte é terceirizado. Prá nós que somos poucos, não compensa a usina pagar o mesmo ônibus do corte de cana. O nosso é um carro menor, perua com doze lugares (Roberto, 22 anos, operador de máquinas). Ao serem questionados se recebiam material adequado para a realização do trabalho (Equipamentos de Proteção Individual – EPI’s), assim como instrução para utilizálos, todos afirmaram positivamente. Neste contexto, as instruções sobre uso do EPI’s é oferecida pela empresa e promovida por membros do SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). A utilização desses equipamentos é de uso obrigatório e os trabalhadores que não os utilizar durante as atividades laborais estariam sujeitos a advertência oral, escrita e despensa do emprego, caso fosse constatado não-uso do equipamento, completamente e corretamente durante o trabalho. É obrigado a usar o equipamento. Se for pego, por exemplo, faltando a bota ou outra coisa, o trabalhador é chamado a atenção e se repetir 76 tem que assinar advertência e se continuar pode ser mandado embora (Ademir, 35 anos) De acordo com Balsadi; Graziano da Silva (2008), as recentes exigências de certificações que comprovem o respeito aos direitos humanos, aos direitos trabalhistas e à preservação e conservação do meio ambiente, pressionam as empresas para oferecerem melhores condições de trabalho e emprego, o que as obrigou a cumprir melhor a legislação trabalhista. De um modo geral, os EPI’s são diferenciados para cada setor de trabalho, de acordo com a função exercida pelo indivíduo. Dessa forma, o trabalhador cortador de cana recebe, além do uniforme, um equipamento de segurança constituído de botas de PVC, boné árabe, uniforme, podão, capa de podão, lima e garrafa d’água. Para os operadores de máquinas o material constituí-se de óculos, abafador (protetor para ouvidos), bota de PVC, caneleira e garrafa d água. Os EPI’s utilizados pelos trabalhadores dos tratos culturais são o jaleco, a calça de tecido impermeável com teflon ou óleo de fobol, a bota de PVC, as luvas de látex, a máscara respiradora com filtro de carvão ativo e os óculos de lentes de policarbonato. De acordo com o relato dos trabalhadores, a limpeza da roupa utilizada por eles nos tratos culturais ou aplicação de herbicida é realizada por uma empresa especializada, visando especialmente evitar o contato do usuário com resquícios de possíveis materiais tóxicos na peça usada. Dessa forma, o trabalhador faz a troca de roupa na empresa e ao fim do dia de trabalho, após o banho em banheiro restrito da empresa, deixa a roupa usada e no dia seguinte recebe um uniforme limpo, também fornecido pela usina. A gente recebe jaleco, calça, boné árabe, roupa impermeável com teflon ou óleo de fobol, bota de PVC, luvas de látex, máscara respiradora e filtro de carvão dativo, óculos de lentes de policarbonato (Ademir, 35 anos, tratos culturais). Botas de PVC, boné árabe, uniforme, podão, capa de podão, lima, garrafa d’agua (Simone, 40 anos, corte de cana). Óculos, abafador (protetor para ouvidos), bota de PVC, caneleira e garrafa d água (Roberto, 22 anos, operador de máquinas). 77 Pela fala dos entrevistados verifica-se que a preocupação com a segurança do trabalhador temporário contemplada na Norma regulamentadora 31 - NR 31 – da Portaria GM n.º 86, de 03 de março de 2005 tem sido observada pela empresa. Em caso de ocorrência de acidentes de trabalho, seja pela falta do EPI ou mesmo com a utilização deste, o trabalhador é tratado no próprio campo de serviço e dependendo da gravidade da lesão é levado para o pronto-socorro local. Os casos mais comuns de acidentes relatados pelos trabalhadores foram as estocadas no olho com pontas de cana, cortes nos dedos ou braços e tonturas. Já tomei uma podãozada no pé. Foi uma brincadeira na hora do almoço entre duas colegas e o podão atingiu foi o meu pé. Levei cinco pontos. Antes era assim, a gente era levado para o ambulatório da usina, o médico fazia o serviço e aí ninguém denunciava para a medicina do trabalho como acidente de trabalho. Para você entrar no prédio da empresa a gente tinha que entrar de botina, mas podia cortar cana descalço. Hoje não, a enfermeira vai lá ao campo e atende ou é trazido para a cidade no ônibus, para o pronto-socorro. Porém, perante a lei a empresa é obrigada a comunicar o acidente para o sindicato e nem entrega a carta de acidente ao trabalhador, mas não comunica, então o empregado dá entrada do benefício no INSS como auxílio doença e não auxílio acidente aí ele vem a perder porque a empresa é que é obrigada a pagar e não o empregado (Batista, 44 anos) Já aconteceu comigo de eu ter um corte no 2º dedo do pé direito quando eu fui aparar as pontas da folha da cana cortada. A empresa me levou até o ambulatório para fazer a sutura. Na época, eu cortava cana (atualmente é aplicador de herbicida) e a empresa contava com um ambulatório. Voltei ao trabalho no dia seguinte, mas trabalhei no pátio sem botina, fazendo limpeza (Ademir, 35 anos). De leve, cortezinho no dedo, estocada no olho, eles fazem a pirâmide, né, uma folha que elas chamam de pirâmide, tem que ir lá na usina, passar pelo médico, eles olham, se for coisa que precisa ficar uns dias parado, cê fica, senão a empresa encaminha se for mais grave. Mas nesse caso resolveu lá mesmo (Simone, 40). Os ferimentos ocorridos nos olhos têm destaque pela sua gravidade e pela característica intrínseca do agente causador da lesão. O contato do bagaço da cana-de-açúcar disperso pelo vento ou pontas de folhas da cana com os olhos dos trabalhadores representa grandes desconfortos e riscos para sua saúde, podendo inclusive determinar incapacidade parcial permanente. 78 Segundo Zoratto (2009), os trabalhadores que desempenham atividade de corte de cana, devido a uma alimentação inadequada e ao grande esforço físico podem ainda desenvolver várias doenças, sendo a principal delas conhecida como “birola”, que é uma cãibra seguida de tontura, dor de cabeça e vômitos. As duas mulheres entrevistadas afirmaram ter sentido tonturas por mais de uma vez no exercício do trabalho de corte de cana, sendo que em uma dessas eventualidades uma delas precisou ir embora antes do término da jornada diária. Já aconteceu de eu ficar indisposta, com tontura, aí tive que vir embora (Simone,40 anos). Tontura, também acontece, às vezes a gente amolece por causa do calor, eu acho (Andréia, 34 anos). Para Silva et al (2005), muitos são os riscos e danos que acometem os trabalhadores agrícolas, dentre eles estão: acidentes com ferramentas manuais, ocasionando lesões traumáticas de diferentes graus de intensidade; acidentes com animais peçonhentos, como cobras, aranhas, escorpiões, taturanas, abelhas, vespas e marimbondos; exposição a agentes infecciosos e parasitários endêmicos que provocam doenças como a esquistossomose, a malária, dentre outras; exposição às radiações solares por longos períodos, desencadeando uma série de problemas de saúde, tais como cãibras, síncopes, exaustão por calor, envelhecimento precoce e câncer de pele; exposição a ruído e à vibração que estão presentes pelo uso das motosserras, colhedeiras, tratores etc. O autor cita ainda a exposição a partículas de grãos armazenados, ácaros, pólen, detritos de origem animal, dentre outros, que podem ocasionar as doenças respiratórias, com destaque para a asma ocupacional e as pneumonites por hipersensibilização. Durante as entrevistas foi argumentado ao trabalhador temporário quais os principais riscos a que estes estariam sujeitos durante o trabalho. As respostas mais freqüentes foram: picadas de animais peçonhentos (um relato), riscos de insolação (dois); quedas em buracos de tatu e buracos provocados por enxurrada (um); cortes e machucados com podões no corte de cana (sete); alergias a poeira e fertilizantes (dois) e por fim, riscos de lesões musculares (três). 79 Apenas dois dos entrevistados afirmaram ter receio quanto à exposição a fertilizantes, porém não sabendo precisar que tipo de fertilizantes e herbicidas os mesmos estão expostos. Segundo Silva et al (2005), a exposição a fertilizantes pode causar intoxicações graves e mortais. As intoxicações registradas têm sido consideradas acidentais, podendo ser ocasionadas pelos produtos do grupo dos fosfatos, sais de potássio e nitratos. As intoxicações por fosfatos se caracterizam por hipocalcemia, já as intoxicações causadas por sais de potássio provocam ulceração da mucosa gástrica, hemorragia e perfuração intestinal. Os nitratos, uma vez no organismo, se transformam – por meio de uma série de reações metabólicas – em nitrosaminas, que são substâncias cancerígenas. A gente tem medo um pouco desses venenos, né (Luis, 41 anos). Tem esses químicos todos, eles podem fazer mal pra gente (Cláudio, 25 anos). Quanto às doenças adquiridas no período de permanência do trabalhador na empresa, as mais comuns relatadas pelos trabalhadores temporários foram: Lesões por Esforços Repetitivos e Doenças Osteomusculares - LER/DORT (três relatos), problemas de coluna (três), depressão (dois), tendinite e bursite (dois) e estafa física e mental (dois), causadas especialmente pelo ritmo e intensidade de trabalho acelerados em função do ganho por produtividade e ainda, pela incerteza quanto à continuidade no emprego em safras posteriores. Outros quatro trabalhadores disseram nunca ter adquirido doença alguma na empresa. De acordo com Silva et al (2005), as LER/DORT são patologias típicas dos trabalhadores rurais assalariados, sendo causadas pela divisão e o ritmo intenso de trabalho com cobrança de produtividade, jornada de trabalho prolongada, ausência de pausas, entre outros aspectos da organização do trabalho. Dessa forma, no processo de avaliação de riscos e danos à saúde dos trabalhadores, além das análises das condições materiais de trabalho, é importante avaliar tanto suas condições fisiológicas, afetivas, como a experiência acumulada em relação à tarefa e às situações concretas de trabalho nas quais os trabalhadores estão inseridos. 80 O cortador de cana usa o braço direito (para os destros) como apoio para cortar a cana, é como um camaleão, ele se adapta às condições do trabalho exigido alongando a musculatura e os tendões, o que resulta em um braço mais longo que o outro. Todo cortador de cana desenvolve um braço mais que o outro. (Batista, 44 anos). Tudo é uma questão de costume. A gente acostuma (Andréia, 34 anos). No que se refere à organização desses trabalhadores, apenas três dos dez entrevistados afirmaram ser sindicalizados. Os acordos coletivos de trabalho são celebrados entre empresas e sindicatos representativos de categorias profissionais e cada negociação entre o sindicato e a empresa segue os costumes e a política geral de cada região. Geralmente, a categoria da empresa dita a categoria dos empregados. Assim sendo, a empresa, por pertencer a uma determinada categoria, automaticamente estará filiada ao sindicato dessa mesma categoria. Quanto aos empregados, estes não são obrigados a filiarem-se a um sindicato, mas se for da sua vontade, caberá ao empregador respeitar e acatar as prerrogativas de cada sindicato e seus filiados. Durante o período das entrevistas, o sindicato dos trabalhadores rurais e alguns trabalhadores do corte de cana buscavam mobilizar os colegas para uma greve, em que exigiam entre outras reivindicações, o aumento no preço da tonelada de cana cortada, que no momento estava em R$ 3,00. Acreditamos que essa situação possa ter prejudicado a cooperação de alguns entrevistados, pois estes pareciam temer represálias por parte da empresa e não hesitavam em perguntar sobre a natureza dos questionamentos e suas supostas implicações. Isso aí não vai dar problema prá nóis não, vai?(Luis, 41 anos) A partir das informações colhidas sobre o que o sindicato oferecia de benefício aos trabalhadores, os três entrevistados sindicalizados apontaram: tratamento dentário, convênio com curso de informática para os filhos, convênio com plano de saúde (Unimed), kit de material escolar para os filhos estudantes, além do reajuste automático salarial de 6% conseguido mediante acordo coletivo de trabalho e três salários de aposentadoria no ato da 81 dispensa, para os funcionários com mais de 5 anos de efetivo exercício de suas atividades, ininterruptamente, na empresa. Para os trabalhadores que são membros da diretoria sindical, como é o caso do Ademir, é garantida a permanência na empresa por no mínimo cinco anos, sendo demitido neste período apenas mediante insubordinação grave dentro da empresa. Como diretor sindical, por exemplo, eu tenho imunidade quanto `a demissão por cinco anos, se não houver faltas graves na empresa como: insubordinação, assédio moral ou sexual, roubo e coisas assim (Ademir, 35 anos). Sim é importante participar. Através dele, acontecem os acordos coletivos, o sindicato convoca uma assembléia geral com os associados, que fazem as propostas que são enviadas para a empresa (Simone, 40 anos) Gabinete dentário, convênio com a Compuway (escola de informática na cidade), para os filhos dos associados, convênio com a Unimed, além do piso a gente tem reajuste automático de 6% de acordo coletivo, três salários de aposentadoria no ato da dispensa, material escolar para os filhos menores de idade. (Batista, 44 anos) Ao serem questionados sobre o incentivo à qualificação profissional, houve unanimidade de que “a empresa não incentiva a qualificação profissional entre os trabalhadores temporários”. Dessa forma, infere-se que o trabalho temporário traduz a idéia de uma substituição ao trabalhador que esteja ausente, uma continuação do trabalho de alguém que o executou em safras passadas, ou a execução de trabalhos no posto de serviço de outro que ainda pode vir na próxima safra, sem perspectiva de estar no próximo ano para dar continuidade ao serviço. O empregado ocupado em uma atividade em um dado momento talvez não permaneça no ano seguinte, portanto, não se faz necessário um investimento continuado em um trabalhador que pode sair ao final de uma safra. A empresa não incentiva. Como o ministério exige a qualificação, então a empresa promove cursos do SENAI que poderiam ser melhores, fazem de uma hora (Batista, 44 anos). 82 Não tem incentivo para estudar não. Tem assim o curso de integração antes de começar a trabalhar. Ninguém trabalha sem fazer a integração (preparação para o trabalho, repasse de normas de segurança para os trabalhadores, instruções de uso do EPI) (Roberto, 22 anos). A conseqüência deste círculo vicioso de não incentivo à qualificação e escolaridade mínima para o trabalho é enfatizada por Moraes (2007), quando afirma que em 2005, havia 519.197 empregados na cultura da cana-de-açúcar do Brasil cuja escolaridade média era de 3,9 anos de estudos; 70% tinham até quatro anos de estudos e, destes, 154.598 podem ser considerados analfabetos funcionais com até um ano de estudos. Sobre a distinção entre homens e mulheres no trabalho temporário da indústria da cana, verificou-se que não há distinção nítida entre a qualidade de serviço entre os sexos, nem tampouco na forma de recebimento salarial. O que pode haver, acreditamos, é uma priorização da mão-de-obra masculina em detrimento da mão-de-obra feminina. Embora alguns entrevistados (quatro, no total) tenham afirmado que existiam mulheres que produziam mais que do que homens, o fato não era regra geral, mas sim casos isolados. Em média os homens produzem mais que as mulheres no corte de cana. Tem mulheres que cortam mais que homens, mas na média o rendimento é semelhante perde por pouco. Inclusive elas têm mais persistência, vão trabalhando até a hora de ir embora, já a maioria dos homens, não. Neste ano, a usina contratou menos mulheres, e mais velhas, acho que é por causa da responsabilidade que as casadas têm e que as solteiras não têm. Se hoje a usina abrir contratação, aparecem 50% de homem e 50% de mulher, mas esse ano a empresa puxou para o lado dos homens para evitar amolação com faltas de solteiras ou gravidez e ainda, no ano passado na época do acordo coletivo do sindicato, elas foram as que mais brigaram (Batista, 44 anos) Em função das informações obtidas, verificou-se que os trabalhadores do sexo masculino parecem não ver as colegas de trabalho com estranheza, nem como alvos potenciais de competição em produtividade, mesmo que algumas delas tenham se sobressaído no corte da cana. Quando questionados sobre o rendimento, alguns entrevistados chegaram a 83 mencionar que existem mulheres que têm maior produtividade no corte de cana que os homens, mas deixaram entrever que isso não constitui uma regra e sim casualidade. Biologicamente o posto de cortadores pertence aos homens como uma conseqüência natural de sua força física. A própria empresa parece preferir contratar homens. Na safra do ano de 2010, a empresa deu prioridade para a contratação de homens e um pequeno grupo de mulheres mais maduras, com média de idade de 33 anos. Para a usina não tem homem nem mulher, tem o trabalhador. Se fosse na época da tarefa (em administrações anteriores), é 20 metros (área medida para corte de cana), então é para todo mundo. As diferenças são, por exemplo, conquista sindical em acordo coletivo dando direito de tarefa menor para gestantes que engravidaram lá dentro na empresa, sim porque é difícil alguma entrar grávida, mas pode acontecer porque no exame admissional o médico do trabalho não pode apalpar a mulher para fazer o exame, se ela estiver grávida de poucos meses não é nem percebido. Nosso acordo coletivo é modelo para outros sindicatos (Batista, 44 anos) Tem respeito, todos têm respeito, né (com as mulheres). A empresa proíbe assédios morais e sexuais. Claro que há os casos (extraconjugais), sempre houve, mas ficam encobertos, porque se a empresa descobre, dá problema (Ademir, 35 anos) Não tem mulheres nas nossas turmas não, eles não têm contratado mulheres migrantes (Cláudio, 25 anos). Mas as outras mulheres (de outras sessões) todo mundo trata com respeito (Célio, 19 anos). Não vi nenhuma mulher trabalhando (Jaime, 34 anos). Para a Pastoral do Migrante (2009) as usinas da região de Palmares Paulista, em São Paulo deixaram de empregar mulheres solteiras, porque geralmente cortam menos cana que os homens e algumas delas se envolvem com fiscais de turmas de trabalhadores e colegas de trabalho. Muitas mulheres, nesses envolvimentos, engravidam e são abandonadas pelo companheiro que na maioria das vezes é migrante. Apenas um entrevistado ponderou sobre a situação da pequena quantidade de mulheres contratadas para a safra do ano de 2010. Para ele, o menor número de mulheres e a 84 preferência pelas menos jovens são explicados pela correlação existente entre a experiência anterior e maior responsabilidade quanto à assiduidade. As jovens geralmente faltam ao trabalho após um fim de semana agitado, por exemplo. O baixo número de mulheres em relação ao número de homens pode ser também justificado quanto à postura cidadã: as trabalhadoras são mais inquiridoras quanto aos seus direitos junto à empresa e formação de acordos coletivos de trabalho, um incômodo para empregadores, além da possibilidade mesmo remota de gravidez durante o período de contrato de trabalho. Contudo, as mulheres de forma geral, apresentam mais persistência para com a finalização das tarefas, o que nem sempre é percebido nos homens. Tal reflexão partiu de um dos trabalhadores, não sendo confirmado com outros relatos e nem tampouco com a empresa contratante. Cyrino (2009) considera a dimensão do trabalho como categoria central de análise das relações de gênero, já que esta categoria incorpora, historicamente, visíveis relações de desigualdade e de poder assimétrico entre homens e mulheres. Segundo o mesmo autor, a duplicidade de responsabilidade – trabalho e família - e a conseqüente aceleração de ritmos e cadências vivenciadas por mulheres que procuram manter-se no mercado de trabalho sem romper com seus antigos afazeres domésticos, funções tradicionais que as mulheres exercem secularmente e que permanecem como encargos específicos femininos, têm um caráter de invisibilidade social, sendo desqualificadas e desvalorizadas socialmente. 85 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS As transformações e modificações nas relações de trabalho das empresas rurais na contemporaneidade, como o pagamento por produtividade e o contrato para período de safra, tendem a potencializar a crise social e econômica observadas em países subdesenvolvidos e de economia agrária, como é o caso do Brasil. A análise das condições de trabalho, vida e saúde do trabalhador rurícola braçal do setor canavieiro na atualidade significou para esta pesquisadora uma busca de compreensão do lugar do ser humano em sua esfera social, superando em análise as formas de dominação criadas nas formas keynesianas e posteriormente, neoliberais de pensamento que reduzem as relações sociais de produção em simples fetiche ideológico. A realização deste trabalho de pesquisa possibilitou a confirmação de muitas de nossas hipóteses e argumentações desenvolvidas e discutidas na revisão de literatura durante o trabalho. A grande maioria dos trabalhadores temporários do setor sucroalcooleiro eram migrantes, homens e jovens, mostrando a correlação entre a disposição física e a força muscular exigida pelo trabalho proposto; o corte de cana, irrigação e outros. Sobre o aspecto da migração, concluímos que em face do baixo salário oferecido, associado ao trabalho pesado e desgastante do corte da cana muitos dos trabalhadores locais foram inibidos, sendo a maioria das vagas preenchidas pelos migrantes sazonais. A priorização do trabalhador do sexo masculino em detrimento do sexo feminino se justificou pela superioridade biológica natural para o desempenho do trabalho, em relação à mulher e pela maior oferta de mão-de-obra. Do total de trabalhadores, muitos eram reincidentes de outras safras, tal fato pode ser explicado pela falta de alternativa no mercado de trabalho, uma vez que a maioria não apresenta qualificação profissional, conseqüentemente têm suas chances diminuídas na disputa por um trabalho. As mulheres, apesar de minoria, desempenhavam as atividades de forma igualitária, dentro de suas limitações físicas, logicamente, os trabalhos de corte de cana, indústria e outros. O poder aquisitivo dos trabalhadores temporários compreendia níveis baixos. As jornadas e condições de trabalho, ganho e produtividade a que estes trabalhadores sazonais se submetia, comprometia a mobilidade social vertical em função da dificuldade de ascensão escolar e melhoria no nível de renda, a qualidade de vida (casa própria, avanço nos estudos, lazer, tratamentos médico-odontológico) e maior desenvolvimento dos fluxos de mercadorias 86 e finanças na cidade, culminando com a evidente evasão de capitais oriundos do trabalho do corte de cana com os safristas migrantes. Não houve evidências claras de expropriação de pequenos proprietários para a zona urbana aumentando o êxodo rural e comprometendo a agricultura familiar em função de perda de espaço agrícola de agricultores para a empresa. Talvez porque esta expropriação já tenha ocorrido em tempos passados, quando se iniciou o processo da industrialização do setor canavieiro na região de Lagoa da Prata ainda na década de 1940, sendo esta a única hipótese refutada em todo o trabalho. Os trabalhadores temporários da cana-de-açúcar são fracamente organizados. Apenas uma pequena porcentagem (7%) participava de sindicato e se envolvia com os acordos coletivos que a princípio seriam o meio mais seguro para conquistas de melhorias salariais e, no entanto, os trabalhadores ignoravam e apresentavam uma percepção de estranheza e de algo exterior à sua condição profissional. O trabalho informal estava presente na realidade desses trabalhadores, que na época da entressafra se valiam de oportunidades variadas para suprir suas necessidades financeiras e com isto, engrossam as fileiras do exército industrial de reserva à espera da safra seguinte. No que se refere à saúde, mitigação de riscos e prevenção de acidentes, verificouse que a empresa disponibilizava equipamentos de proteção individuais adequados e conscientizava sobre a importância da utilização dos mesmos através de cursos de integração profissional e treinamento com pessoal do SENAI e CIPA, contribuindo para minimizar o índice de acidentes de trabalho aos quais eventualmente estavam expostos. Porém, em função da forma de execução do serviço, ou seja, o exercício corporal cíclico e repetitivo a que estão sujeitos, os cortadores de cana se submetem a uma série de riscos e problemas de saúde, tanto no dia-a-dia quanto no exercício da função ao longo do tempo. A empresa cumpre a lei no que se refere ao descanso obrigatório de uma hora no intervalo para refeição dos trabalhadores e dez minutos a cada duas horas trabalhadas. De forma semelhante, proporciona veículos terceirizados para o transporte dos trabalhadores, atendendo às normas trabalhistas e especificidades de cada setor e função. Os resultados obtidos apontam para uma exploração do trabalhador temporário: a necessidade de cortar 174 toneladas de cana para receber um salário mínimo. Assim, na prática da superexploração do trabalho, os custos econômicos são divididos por todos os envolvidos no processo de produção, mas os benefícios geralmente ficam nas mãos da 87 empresa, sem a devida observância dos reais sacrifícios infligidos à classe trabalhadora para a realização do mesmo. É preciso deflagrar o processo de reflexão, crítica e autocrítica, inerente ao pesquisador social em quaisquer níveis de educação acadêmica e reacender o debate sobre a mais-valia no processo produtivo. Acreditamos que será um desafio a ampliação deste debate que poderá incorporar os resultados auferidos nesta investigação que revela trabalhadores temporários rurícolas braçais reféns de um fetichismo globalizante e contemporâneo e mais atual que nunca, o contraditório fetichismo da estabilidade profissional. A contradição deriva da própria condição de transitoriedade a que estão sujeitos os trabalhadores temporários no desempenho de suas funções, entretanto, a estabilidade continua sendo uma realidade distante para os mesmos, contudo, enquanto safristas, esta condição parece ainda ser a mais disponível e merecedora de sacrifícios. Por meio desta deflagração crítica, acreditamos poder desenvolver uma ética transdisciplinar que diz respeito a uma economia que serve ao homem e não o inverso como nos faz crer a cultura capitalista neoliberal que, graças ao dinamismo tecnológico, e maior lucro e produtividade em detrimento de programas sociais e estabilidade profissional, relegam países de economia agrária, como o Brasil, à subordinação de multinacionais de agronegócios para o cumprimento de seus papéis como exportadores de commodities. 88 REFERÊNCIAS AFFONSO DE PAULA, R. Z. Ocupação do espaço, formas de produção e território: uma nota sobre a formação territorial de Minas Gerais. Revista Científica da FAMINAS, Muriaé, v. 1, n.2, p. 255-275, Maio/Ago. 2005. ALBA, J. M. F.; BOLFE, E. L.; MIURA, A. K; PEREIRA, R.S.; SIQUEIRA, J. W de. Uso, ocupação das terras e banco de dados geográficos da metade sul do Rio Grande do Sul. Ciência Rural, Santa Maria, v. 39, n. 6, Set. 2009. ALMEIDA, L. M. A. de; RIGOLIN, T. B. 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Que riscos o trabalhador enfrenta o seu dia-a-dia? 9. Qual é o transporte utilizado para os postos de trabalho? 10. Qual é o tempo de almoço e descanso? Explique: 11. Que acidentes já sofreu no trabalho? Como foi assistido pela empresa? 12. Que doenças já contraiu na empresa enquanto trabalhava? Como foi assistido pela empresa? 13. Qual sua expectativa em relação ao que pode ser adquirido com o salário do período da safra? Que planos você faz para a família? 14. Você participa de alguma organização sindical? È diferente participar ou não? 15. O que o sindicato oferece ao trabalhador em termos de benefício? 16. Qual é a forma de tratamento da empresa em relação ao trabalhador temporário migrante e o local? Como? Por quê? 17. Como a empresa incentiva a qualificação profissional? 18. Qual é a forma de tratamento da empresa em relação a homens e mulheres que desempenhem funções iguais? Explique; 19. Como os colegas de trabalho (homens) tratam as colegas (mulheres) de trabalho? 20. Qual é o rendimento das mulheres no corte da cana ou outras funções para as quais foram contratadas temporariamente? ANEXO 2 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (Em duas vias, sendo uma para o sujeito da pesquisa) Eu,______________________________________, do sexo_________, de_______anos de idade, residente à______________________________________________________, declaro ter sido informado e estar devidamente esclarecido sobre os objetivos e intenções deste estudo, sobre as técnicas (procedimentos) a que estarei sendo submetido, sobre os constrangimentos que poderão ocorrer. Recebi garantias de total sigilo e de obter esclarecimentos sempre que o desejar, se necessário. Sei que minha participação está isenta de despesas. Concordo em participar voluntariamente deste estudo e sei que posso retirar meu consentimento a qualquer momento. _____________________________________________ ______/______/_______ Assinatura do sujeito de pesquisa ______________________________________________ _______/______/______ Assinatura da testemunha Pesquisador responsável Eu, Maria Regina Alves Maciel, responsável pelo projeto O trabalhador temporário da indústria canavieira de Lagoa da Prata, Minas Gerais: condições de vida, de trabalho e saúde, declaro que obtive espontaneamente o consentimento deste sujeito de pesquisa (ou do seu representante legal) para realizar este estudo. Assinatura_________________________________________ _______/______/_____ ANEXO 3 PARECER Nº 51/2009 Comitê de Ética em Pesquisa da FUNEDI-UEMG