PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DE SÃO JOSÉ CENTRO UNIVERSITÁRIO MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ – USJ CURSO DE PEDAGOGIA JULIANA CRISTINA JULIARI DOS SANTOS VIOLÊNCIA E SUAS IMPLICAÇÕES NO AMBIENTE ESCOLAR São José 2011 PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DE SÃO JOSÉ CENTRO UNIVERSITÁRIO MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ – USJ CURSO DE PEDAGOGIA JULIANA CRISTINA JULIARI DOS SANTOS VIOLÊNCIA E SUAS IMPLICAÇÕES NO AMBIENTE ESCOLAR Trabalho elaborado para a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), do Curso de Pedagogia do Centro Universitário Municipal de São José. Orientador: Professor Dr. José Carlos da Silva. São José 2011 JULIANA CRISTINA JULIARI DOS SANTOS VIOLÊNCIA E SUAS IMPLICAÇÕES NO AMBIENTE ESCOLAR Trabalho de Conclusão de Curso elaborado como requisito parcial obtenção do grau de licenciatura em Pedagogia do Centro Universitário Municipal de São José – USJ, avaliado pela seguinte banca examinadora: Orientador: Profº Drº José Carlos da Silva Profº. Msc. Evandro de Oliveira Brito Profº. Drº. Juares da Silva Thiesen São José, 31 de maio de 2011 Este trabalho é dedicado a todos os docentes que amam e honram ensinar, educar e mediar às crianças, adolescentes e adultos, no objetivo de possibilitar a eles, compreender e transformar o mundo em que vivemos. AGRADEÇO... ...Primeiramente e eternamente a Deus, por ter me conduzido em toda a minha caminhada acadêmica, e com sua misericórdia me deu sabedoria, paciência e forças para continuar. ... À minha família, que me apoiou nos momentos difíceis, respeitando as minhas angústias e sabiamente me educando, sendo responsáveis pelo que hoje sou. ...Ao meu querido orientador, José Carlos da Silva, admirável e comprometido com o educar, pela orientação, fazendo-me ver a real responsabilidade de ser educador. ....Aos admiráveis professores, Juares da Silva Thiesen e Evandro de Oliveira Brito, os quais, com toda a excelência, aceitaram meu convite para compor a banca examinadora. ...A todos os professores do Centro Acadêmico de São José, pela dedicação e comprometimento em contribuir com a minha formação acadêmica. ... Às minhas inesquecíveis colegas de sala, que, com todas as suas especificidades, contribuíram para enriquecer minha formação. Em especial, minhas companheiras, amigas e educadoras, Bruna Rodrigues, Gabriela, Nina e Morgany, com toda a simplicidade e carinho, vivenciamos momentos de alegria e tristeza. ...A todos os professores e alunos que contribuíram com suas vivências e experiências para que esta pesquisa se realizasse. ....A todos os que, de forma direta ou indireta, contribuíram para a realização e a conclusão deste curso. Serei eternamente agradecida! Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniqüidade e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o letígio se suscita. Por esta causa, a lei se afroxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida. Hc.1:2-4. RESUMO Partindo do pressuposto de que a violência escolar está relacionada diretamente com as relações sociais, o presente Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tem o objetivo de verificar a violência nas escolas e suas implicações, e compreender como se geram as relações. Os objetivos que orientam esta pesquisa são: identificação da presença da violência escolar através da perspectiva dos professores e alunos, percepção das ações socioeducativas nas escolas e a eficácia do seu objetivo e análise de como os professores e os alunos percebem a violência no cotidiano escolar. A pesquisa foi realizada com um grupo de 10 professores e 10 alunos, da rede pública e privada da Grande Florianópolis, mediante questionários aberto e fechado, permitindo aos professores e alunos relatar as vivências sobre violência, além da meticulosa pesquisa teórica sobre a violência escolar, que possibilita uma compreensão mais significativa acerca da temática. Palavras-chaves: violência escolar, ações públicas, professores, alunos. LISTA DE QUADROS QUADRO1- Número de expulsões..........................................................................................19 QUADRO 2– Perfil do professor entrevistado....................................................... .................42 QUADRO 3– Perfil do aluno entrevistado ..............................................................................43 LISTA DE TABELA TABELA 1 – Alunos, por capitais das Unidades da Federação, segundo a percepção dos efeitos da violência sobre o desempenho escolar.....................................................................23 TABELA 2 - Alunos, por capitais da Unidades da Federação, segundo a percepção do impacto da violência na qualidade de ensino............................................................................24 TABELA 3- Alunos, por capitais das Unidades da Federação, segundo o que lhes desagrada na escola. ..................................................................................................................................24 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 09 1.HISTÓRICO DA VIOLÊNCIA .............................................................................. 12 2.1. Violência escolar...............................................................................................................16 2. VIOLÊNCIA ESCOLAR NO MUNDO ........................................................................................ 18 3. AS FACES DA VIOLÊNCIA ESCOLAR ....................................................................... 29 3.1 Conflitos... ..................................................................................................................... ... 29 3.2 Indisciplina e disciplina... ................................................................................................ . 30 3.3. Violência física e violência simbólica... ....................................................................... ... 33 3.4. Depredação do espaço escolar... .................................................................................. ... 34 3.5. Violência familiar e violência escolar... ....................................................................... ... 35 4. BULLYING................................................................................................................... .....37 4.1 Vítimas do bullying... .................................................................................................... ... 38 4.2 Agressores... ...................................................................................................................... 39 4.3 Expectadores... ............................................................................................................... ... 40 5. ANÁLISE DAS ENTREVISTAS COM OS PROFESSORES... ............................... ... 42 5.1As diferentes formas de violência e seus praticantes... .................................................. ... 43 5.2 Relações violência e prática pedagógica... .................................................................... ... 47 5.3 As ações de combate à violência... ................................................................................ ... 50 6. ANÁLISE DAS ENTREVISTAS COM OS ALUNOS... ........................................... ... 52 6.1 A presença da violência no cotidiano escolar... ............................................................. ... 53 6.2 A violência do professor na percepção do aluno... .......................................................... . 55 6.3 Alunos e a violência... ................................................................................................... ... 58 CONCLUSÃO.................................................................................................................... ... 61 REFERÊNCIAS... ............................................................................................................ ... 63 APÊNDICE... ..................................................................................................................... ... 66 Apêndice 1... ........................................................................................................................ ... 67 Apêndice 2............................................................................................................................... 68 9 INTRODUÇÃO Ao pensar em violência escolar, logo remete-se à ideia de agressão física, brigas, depredação do espaço escolar, ofensas, xingamentos. No entanto, esta ideia já vem sendo desmistificada por vários autores1 que esclarecem que a violência vai além do ato físico, concreto e palpável, muitas vezes ela é simbólica, sutil e implícita, causando danos profundos a toda a sociedade. Sabe-se que a violência é um fenômeno complexo. Riston e Bastos abordam que sua complexidade se deve, essencialmente, a quatro aspectos: a polissemia de sua definição e os problemas de sua definição; à controvérsia na delimitação do objeto da violência; a quantidade, variedade e interação do objeto de suas causas; e, por fim, à falta de consenso sobre a natureza. (RISTUM e BASTOS, 2004 apud PACHECO 2008, p.135). Diante disso, percebe-se a importância de novos estudos acerca da violência escolar. E ao propor uma pesquisa sobre violência, não se quer apenas conhecer as suas características e os seus conceitos. Por isso a pesquisa tem como objetivos: Identificar as diferentes formas de violência no meio escolar. Perceber as ações sócio-educativas para enfrentar a violência escolar. Analisar as ações sócio-educativas e sua eficácia no combate a violência. Charlot afirma, “Não basta, porém, coletar dados; deve-se também saber exatamente o que se procura. E isso é ainda mais necessário quando se aborda uma questão antiga de uma forma relativamente nova.” (CHARLOT, 2000, p.09 apud ALMEIDA, 2008 p.60). Torna-se importante pensar em uma problemática que fale de um tema antigo como a violência escolar no aspecto da atualidade e que contribua para a educação e a prática pedagógica, levando em consideração sua influência na sociedade. Sendo assim, o tema violência necessita de um olhar atento e crítico, que perceba suas especificidades. Atualmente o assunto violência está no auge da sua exposição, sendo a mídia (televisão, internet, jornal) o seu veículo de transmissão, no entanto é necessário estar atento às informações transmitidas, pois pode haver a manipulação das mesmas. Dessa forma, a escola acaba recebendo os reflexos e as influências que ocorrem em volta dos muros escolares, que passaram a ter uma forte expressão dentro dela, todavia, não significa dizer que a escola não seja responsável pela violência. 1 Autores como: SANTOS (2010), AQUINO (1996), ABRAMOVAY (2003), entre outro que serão estudados nos capítulos posteriores. 10 Com isso, percebe-se a amplitude que envolve a violência nas escolas e todas as suas implicações e as especificidades, tornando o tema ainda mais complexo e desafiador, com o objetivo pedagógico de identificar as ações educativas que enfrentam a violência. Tendo como fundamento, a pesquisa bibliográfica, que possibilita apropriar-se dos conceitos que revelam os agressores; as vítimas e como agem. Assim, o presente trabalho tem como procedimentos metodológicos, pesquisa qualitativa e quantitativa com um grupo de 10 (dez) professores e 10 (dez) alunos de 5 (cinco) escolas, sendo 2 (duas) da rede pública municipal, 2 (duas) estaduais e 1(uma) particular da Grande Florianópolis, por meio de entrevistas baseado no questionário 2 com questões abertas e fechadas que possibilitem ao professor e ao aluno descrever a violência que vivenciam nas escolas. O trabalho é organizado por capítulos e subcapítulos, com a finalidade de descrever e possibilitar a compreensão dos conceitos, atos e características da violência social e escolar que estão diretamente relacionados. O capítulo um, “Histórico da violência”, destaca os conceitos e as definições de violência e principalmente sua complexidade, revelando que o ser humano é responsável pela própria violência, a qual há séculos vem combatendo, e que, enquanto houver relações sociais, sempre haverá conflitos, no entanto, para que isto não ocorra, é necessário que o ser humano exercite a ética e a moral. O capítulo dois, “Violência escolar no mundo”, exibe casos de violência escolar no mundo e no Brasil, mostrando a gravidade do problema e os altos índices de violência dentro das escolas. Os dados descritos neste capítulo têm a finalidade de promover a reflexão de pais, professores e diretores sobre o problema da violência e o grande aumento da mesma, e sinalizar ainda que, se não forem obtidas medidas que combata a violência na escola, a grande vítima poderá ser a educação. No terceiro capítulo, “As faces da violência escolar”, apresenta a realidade que a comunidade escolar vivencia diariamente. Conflitos, indisciplina, agressões, violência familiar, depredação escolar e “bullying” são experiências do cotidiano das escolas e que são esclarecidas neste capítulo. O intuito é de promover uma explicação que permita aos professores e diretores terem uma prática de acordo com a real necessidade dos alunos e de suas dificuldades. 2 Ver apêndice 1 e 2. 11 No quarto capítulo, “Bullying”, revela a imagem da covardia e do desrespeito, que é vivenciado diariamente nas escolas. Os conceitos descritos neste capítulo têm o objetivo possibilitar aos educadores identificar os agressores, as vítimas, os espectadores e os comportamentos de ambos, na finalidade de combater o bullying nas escolas. Nos capítulos quinto e sexto, “Análise de dados”, tem como finalidade, por meio dos relatos dos professores e alunos, responder questões que derivaram de tal pesquisa. Que tipo de violência os professores e os alunos enfrentam diariamente nas escolas? O que as escolas fazem para combater a violência? Quais são os resultados? Finalmente, como problemática, questiona-se como o problema da violência afeta a prática pedagógica no ambiente escolar? 12 1. HISTÓRICO DA VIOLÊNCIA Violência urbana, violência policial, violência familiar, violência escolar, são alguns tipos de violências historicamente construídas pela sociedade, em um processo social, que ao longo do tempo vem se transformando, ressignificando e criando formas e expressões diferentes. Contudo, é preciso, compreender o conceito de violência. Oliveira (2007) fala que violência vem do latim, violentia, e significa força violenta; ou, ainda, recurso à força, para submeter alguém (contra sua vontade). Já Santos define violência como: Um fenômeno que pertence aos assuntos humanos. Por ser da ordem da sublime, quando quer irromper, ela traz nas ondas do mar agitado o inimaginável, a conflagração e a transgressão das normas sociais – sintonizando a palavra transgressão, por sua vez, não como simples violação das leis, mas como excesso, como o ato de ir além dos limites. (SANTOS, 2002. p.43) Percebe-se a violência, com atitudes de impotência, superioridade, em que o agressor não consegue controlar seus atos diante das ações e em outros momentos ultrapassa limites, rompe barreiras, até que alcance seus objetivos, sem se importar com as consequências. Albornoz contribui quando fala: A palavra violência associado à violação, dilaceração, despedaçamento, agressão, desordem, além de aludir a uma quebra, ruptura de um tabu, ultrapassagem de um limite, transgressão de uma proibição, indo até a ideia de abuso de um corpo, falta de respeito, etc.(ALBORNOZ, 2000, p.13 apud PACHECO 2000). Com base nesses conceitos, percebe-se a violência como ato de violação das leis, desrespeito, irracionalidade, associando a violência ao ser humano e, consequentemente, à sociedade, e portanto sendo historicamente construída.. Segundo Santos: Ela é (violência) claramente perceptível desde as sociedades primitivas até as sociedades mais modernas, atinge todas as classes sociais indiscriminadamente e reaparece, de tempos em tempos, expressando um estado de crise – caracterizado pelo enfraquecimento dos vínculos sociais- que acarreta movimentos que não são habituais nos indivíduos ou nos grupos e que, por isso mesmo, levam a uma desagregação social. (SANTOS, 2002, p.46) 13 A violência, como já fora visto, constitui-se nas relações sociais. Entretanto, percebese também outro contribuinte importante para os atos de violência, ou seja, a realidade social. A realidade social, sendo também geradora de violência, a torna ainda mais complexa, por ser constituída de vários fatores, como economia, saúde, educação, lazer, moradia, entre outros. Isso revela que, em algum desses fatores, existe um desequilíbrio, para que ocorra a violência. Neste sentido, Santos enfatiza que: [...] Encontraram-se na ideia de violência a imprevisibilidade, o caos, a conflagração e, mais do que a transgressão as ordem, um desregramento absoluto, não é à toa que as relações com qualidade de violência – que se instauram entre os homens e que desembocam na vida – vão deixando rastros de uma situação dramática, da qual devemos esperar tudo, já que não temos mais certeza de nada nos comportamentos cotidianos. (SANTOS, 2002, p. As conseqüências da violência são o caos, o medo, a perda da qualidade das relações humanas. Os atos de violência geram na sociedade a incerteza, a desconfiança, alterando e interferindo no comportamento dos sujeitos. Porém, tais incertezas também são históricas e se modificam de acordo com a sociedade. Pino contribui para a compreensão da origem da violência quando menciona: As especulações a respeito da natureza e da origem da violência não são novas, visto que os atos de violência fazem parte não da natureza humana, mas da historia social dos homens. Na medida em que a violência tem a ver com a violação dos limites estabelecidos pela sociedade, ela é um problema da ordem social de duas maneiras: como fator desestabilizador e como questionamento dessa ordem. (SANTOS, 2002, p.xv). Cada sujeito atribui à violência significados e conceitos diferentes, dependendo dos fatores social, financeiro, educacional e emocional, tornando a violência complexa e multifacetada. Santos diz que [...] como a significação é o elemento definidor de uma relação – essa significação define-se pelo significado que as pessoas atribuem à relação -, o problema está em como essas pessoas vivem essas praticas e não a definição das mesmas, pois nessa vivência pode haver conflito, mudança de semiose, de significação. (SANTOS, 2002, p.147). 14 Isso deixa claro o quanto a violência é humana, e as relações interferem diretamente no conceito de violência, em que as vivências e as experiências de sofrer violência, de compartilhar, ver e praticar atos violentos dá ao sujeito a compreensão do que é violência a partir da sua leitura do mundo. De acordo com Pino, o termo violência não denota um atributo próprio de certos fenômenos, mas uma quantidade atribuída a eles pelos homens, o que varia em função das diferenças culturais e das épocas. (SANTOS, 2002, p.xii). Observa-se nesses relatos a violência historicamente vivenciada nas relações e nas significações da sociedade. No entanto, outro aspecto são as individualidades pelas quais a sociedade é composta, que geram a violência. Domingos destaca que: Ao contrario do que pensam os autores que defendem a ideia do individualismo metodológico, é de todo modo certo que o individuo tal como o conhecemos é fruto de um longo processo histórico e da modernidade, por meio dos processos de encaixe que o mercado e o estado moderno provocaram, desenraizando as pessoas e fazendo-as independentes de seus contextos particulares, com que os indivíduos assumem a feição de seres abstratos e intercambiáveis. Alem disso, os indivíduos somente se individualizam de modo específico mediante sua socialização - isto é, a aprendizagem de padrões cognitivos, expressivos, morais e afetivos- dentro de uma determinada cultura (DOMINGOS, 2005, P.27 apud ALMEIDA, 2008, p.62). Domingos revela um aspecto diferente das relações sociais, mostrando o indivíduo, e o individualismo, como um processo histórico e mediado pela sociedade, interagindo com o sujeito de forma dominadora, determinando suas ações e pretensões. Para que os indivíduos possam conviver em grupo ou em sociedade, como fala Domingos, e para que não haja descontrole, desordem e violência por parte dos mesmos, criam-se leis e regras para estabelecer a ordem e o bem estar social. Santos ressalta: [...] a ordem cultural suplanta a biológica e cria as leis (que são simbólicas) para garantir que o homem não saia por aí matando o outro. Contudo, mesmo que o homem reconheça teoricamente a validade dessas leis, ele não se submete a elas voluntariamente, mas o faz porque na prática não poderia entrar no grande jogo da vida se não se submetesse, afinal, ele já nasce numa sociedade com leis preexistentes. (SANTOS, 2002, p.43). A violência é uma atitude, uma expressão social, que vem ao logo do tempo se tornando mais evidente. Almeida (2008) defende a ideia do caráter científico-filosófico da 15 violência como expressão da sociedade capitalista, na qual é possível compreender a dimensão sociológica. Diante disso, verifica-se que há uma violência considerada maior, mantenedora e derivadora de outros tipos de violência: a violência social, que, segundo Pino, [...] existe hoje uma sensação vaga, mas generalizada, de que a violência se instalou na vida social do país, atingindo até a intimidade dos espaços reservados à vida privada, isso revela que a sociedade, enquanto ordenamento social e legal está sendo corroído na sua base, o que constitui um problema social sério. Tanto mais sério se a violência social, além de ser transgressão da lei, for à expressão de uma vontade de poder que se coloca acima da lei. (SANTOS, 2002, p.xv). A violência não é um fenômeno novo, e, como já afirmamos, é um fenômeno histórico e cultural, uma vez que seu significado também depende dos costumes, crenças e vivências sociais. A violência pode estar associada também a situações de poder e domínio, em que, alguns sujeitos colocam-se acima da lei. . Pino diz que: O caráter imprevisível da ação violenta, imprevisível quanto ao momento em que pode ocorrer e quanto à forma que pode tomar, e a consciência crescente nas pessoas da própria impotência perante ela geram no imaginário coletivo a representação da violência como uma força cega incontrolável e dos seus agentes como os senhores da vida e da morte, diante dos quais a única postura “racional” é a obediência e a submissão (SANTOS, 2002, xi). Nesse contexto, percebe-se que, historicamente, a sociedade vive e revive, de tempos em tempos, a sensação de medo, angustia por causa da violência. A violência tornou-se um elemento quase que indissociável na sociedade, produzido e praticado por ela mesma. Santos acredita que: Assim, não é desnecessário lembrar que não há como acabar, de uma vez por todas, com o problema da violência, porque ele permanece em aberto sem fornecer a mínima alusão a uma solução definitiva, afinal empreender esforços neste sentido é o mesmo que confinar a violência num espaço oco, num lugar vazio (SANTOS, 2002, p.45). 16 Com isso, nota-se, cada vez mais, a complexidade da violência e sua forma indefinida e variável, e a relação que a sociedade tem com a mesma. Constata-se que não há violência, se não houve relações sociais. Todavia, a violência só ocorre quando há um desrespeito ao cumprimento das normas estabelecidas pela sociedade. Após os breves relatos sobre a origem da violência, e seus conceitos, torna-se necessário um objeto de estudo, com ênfase na violência escolar. 1.1 Violência escolar A violência escolar, como todos os outros tipos de violência, também é historicamente construída, dependendo e refletindo as relações e as contradições da sociedade.Almeida diz que a relação entre Educação e Violência não é recente, há registros históricos que indicam uma permanência nesta relação, porém, existem diferenças no teor de cada desdobramento desse processo, ou seja, cada momento histórico possui uma especificidade e uma forma de produzir violência. A escola não é uma instituição que está preservada desse processo (ALMEIDA, 2008, p.63). Dessa maneira, nota-se que a violência escolar também é social, e possui uma especificidade no seu modo de produzi-la, e de tempos em tempos vêm se expressando novos tipos de violência. Em outra fala, Almeida deixa ainda mais clara a relação entre escola, violência e sociedade quando salienta que: É nas relações sociais que se pode considerar a origem da violência, é a partir destas relações reproduzidas no interior da escola que esse processo se constitui como determinante. Tomando ainda a escola como espaço social e de contradições, a violência se caracteriza como uma forma de recusa do próprio espaço escolar, isso evidencia também certa resistência em compreender a escola como um espaço para a superação destas contradições. É mais do que necessário conhecer e debater as relações sociais na sociedade uma perspectiva do conhecimento escolar e da pratica docente (ALMEIDA, 2008, 62). A escola é reflexo da sociedade. Os problemas de indisciplina, as agressões, o preconceito, o uso de drogas, etc., são expressões que são manifestadas pelos alunos no meio escolar. . 17 Loureiro sinaliza que: A violência, em nossos dias, sai da sombra, ou é a própria sombra que aflora, emerge do individual e do social, sem deixar de ser sombra e passa a ser um fenômeno real, visível, em seus estardalhaços ou subliminar, subjacente às regras, normas, etc. está em todo o lugar; invadiu, ou explodiu nos lares, bares, hospitais, igrejas, etc; e as escolas, a ela, não ficaram imunes (LOREIRO 1999, p.54 apud Pacheco, 2008, p.135). Percebe-se, nesta citação, que a autora descreve a violência como algo que surge de forma sutil, e está invadindo todos os espaços e principalmente as escolas. A escola tem como função social estabelecer relações sociais respeitosas e agradáveis que possibilitem um bemestar social. Porém, hoje em dia, as escolas estão vivendo outra realidade ou uma prática diferente da teoria proposta a ela, na qual, com facilidade e frequência, se ouve falar de violência nas escolas. Isso também implica que a violência não só vem de fora das escolas, mas é constituída também dentro dela, refletindo o que ocorre fora dos muros escolares e de toda a organização educacional e social. Loreiro afirma que: O que fica patente é que a violência não surge só de fora, nem só de dentro da escola, do estabelecimento de ensino-apredizagem, da comunidade de aprendizagem, mas também da organização do sistema educacional, do anacronismo de suas ações, da incapacidade atual de propor estruturas para formar para este mundo, para esta era, e de ver o erro, a falha com outros olhos. Isto, já em si mesmo, é um fato violento, uma violência contra o individuo e contra a sociedade. (LOREIRO, 1999, p.55 apud PACHECO, 2008, p.136) A violência escolar, em muitos casos, é motivada como negação ao espaço escolar e tudo ao que pertence a ela, como professores, alunos, diretores, funcionários, métodos, regras, disciplina, relações, convivência, experiências, que por motivos variados e indefinidos, leva alguns sujeitos a cometerem atos violentos. Pelo fato de a escola ser produtora e reprodutora da violência, criam-se novas formas e expressões diferentes e próprias, podendo ser caracterizadas como indisciplina, conflitos ou violência física, violência simbólica, depredação. No capítulo a seguir, situa-se alguns dados de violência escolar no mundo, na qual permitirá uma compreensão maior do avanço da violência escolar no mundo. 18 2. VIOLÊNCIA ESCOLAR NO MUNDO Nas últimas décadas, o assunto que tem se destacado no mundo inteiro, em jornais, revistas e demais meios de comunicação, é o aumento expressivo da violência. Nos últimos anos, esses atos de violência podem ser vistos com mais frequência nas escolas, trazendo à tona, um problema que ficou há anos encoberto e que agora ressurge com intensidade, movimentando toda a sociedade, já que não se refere apenas à comunidade escolar. Pesquisas realizadas na Europa mostram que a violência escolar não é um problema específico das escolas brasileiras, mas uma violência que está atingindo todos os continentes. Somente no final da década de 90, contudo, ocorreu um encontro de cientistas que apresentaram um estudo para o Ministério da Educação dos países europeus. O objetivo era tomar providências quanto à questão da “segurança nas escolas”. O professor Éric Debarbieux descreve a importância das pesquisas quando fala que: O trabalho de pesquisa não tem lugar numa aristocrática torre de marfim, reservada aos pesquisadores natos. Seu trabalho não pode ser isolado das condições estratégicas que permitem que ele seja posto em prática: sem essas condições não haveria créditos, nem colegas, nem mobilização do mundo. Não se trata de uma concepção cinicamente utilitarista, mas apenas da aplicação à sociologia da ciência de um clichê sociológico desnaturalizante: “Você não nasce pesquisador nato, você se transforma em um”. Não se trata aqui da comunidade cientifica em si, mas apenas de uma comunidade em construção permanente, e isso é o que acontece na Europa, em relação à violência escolar (DEBARBIEUX, 2002, p.31). Pesquisas realizadas nas escolas inglesas revelam os comportamentos violentos e agressivos, que podem ser percebidos no número total de expulsões, levando em conta que as circunstâncias da escola, incluindo a autoridade educacional local e os padrões éticos nela vigentes, sejam fatores importantes da equação que determina quem será expulso da escola, e por que razão. (DEBARBIEUX, 2002, p.76). Porém, não se pode negar o aumento expressivo das expulsões. 19 QUADRO: 1 Números de expulsões Ano Total de expulsões 1990/91 2.910 1991/92 3.833 1992/93 8.636 1993/94 11.181 1994/95 11.084 1995/96 12.500 1996/97 12.700 1997/98 12.300 1998/99 10.400 Fonte das cifras: 1990-92 e 1994-99 são estimativas do DfE e do DfEE; 1993-94 são estimativas de Persons, in Persons et al,;1995 e 1992-93 são estimativas de Hayden, in Hayden, 1997, apud Hayden e Blaya,2002,p. 75. Nota-se que as expulsões, em 10 anos, crescem cerca de 50%, mostrando que as escolas em casos mais extremos, recorrem à expulsão, para que o problema seja resolvido. Não só as expulsões são reflexos da violência nas escolas inglesas, como também a falta de interesse dos corpos discente e docente acarretam atos de violência decorrentes da negação ao espaço escolar, e a tudo que se encontra dentro da escola, como os colegas de classe, professores, entre outros. Segundo Hayden e Blaya: O desinteresse pode ser demonstrado pelos alunos de diversas maneiras e pode estar relacionado a uma série de questões. Por exemplo, em alguns casos, o comportamento que acaba por resultar em expulsão está vinculado ao desinteresse. Faltar às aulas pode ser um sintoma de desinteresse, ou pode estar relacionado a outras questões, como, por exemplo, o jovem pode ser arrimo de família. O desinteresse pode se dever também à experiência de o jovem ter sido vitima de intimidação, ou de ele se sentir inseguro na escola [...] Para alguns jovens desinteressados, o comportamento insubordinado e a atuação em sala de aula ou na comunidade podem se vistos como as únicas maneiras de atrair a atenção e adquirir status frente a seus pares (HAYDEN e BLAYA, 2002, p.79). 20 Diante disso, nota-se a complexidade da violência escolar e sua variação frente aos motivos que levam o sujeito a praticar violência. O ato violento pode ser reflexo de sentimentos reprimidos causados pela família, pelos colegas, por professores, por funcionário e etc. Assim, o agressor pode gerar um sentimento de agressividade em outros e, desta forma, um círculo de violência. Outro ponto que se torna importante para a compreensão da violência escolar é a violência por intimidação, atualmente definida como bullying3, que tem como ato intimidar, ofender, seguido por agressão física. Nas escolas inglesas, das quais se origina a palavra, as pesquisas apontam a necessidade de se adotar medidas para evitar tais ocorrências e evidenciam como uma característica significativa do cotidiano escolar. Hayden e Blaya falam que a intimidação afeta não apenas o indivíduo, mas toda a atmosfera da escola e a frequência às aulas. (HAYDEN e BLAYA, 2002, p.73). Pesquisas realizadas na Alemanha mostram a disseminação da violência no ambiente escolar. Dados indicam comportamentos agressivos, xingamentos, ofensas, brigas entre outros, envolvendo alunos e professores. Ofensas verbais dirigidos aos colegas aparecem como os atos mais comuns de violência ou de transgressão (meninos, 82,9%; meninas, 74,1%) (HAYDEN e BLAYA, 2002, p.135). A pesquisa também revela as supostas causas da violência, dando um parâmetro maior do problema. FUNK (1995a: 13ss) e LÖSEL e BLIESENER (1995: 8) ressaltam que: Identificam os seguintes fatores específicos como tendo influência sobre a disposição dos jovens a fazer uso da violência: traços individuais de personalidade, ambiente familiar, grupo de pares, escola e exposição à mídia. (. FUNK (1995a: 13ss) e LÖSEL e BLIESENER (1995: 8) apud HAYADEN e BLAYA, 2002 p. 142). Outros motivos de supostas causas de violência foram dados pelos próprios alunos, em que a razão para a violência na escola, segundo eles, é a “exibição, tentar ser aceito”, isso ocorre por dois terços das meninas (65,5%) e por um número quase igual de meninos (63,5%) (HAYDEN e BLAYA, 2002, p.143). A pesquisa também mostra as causas determinantes da violência usando a análise causal (regressão linear múltipla). A análise foi usada para identificar as influências que causam violência: 3 Sobre o bullying veremos no capitulo 4. 21 Essa análise revelou as seguintes influências: ser do sexo masculino, ter maior necessidade de estímulo e pertencer a um grupo de pares violentos aumentava o nível dos três tipos de violência, ao passo que uma boa relação professor-aluno tendia a reduzir esses níveis (HAYDEN e BLAYA, 2002, p.146). Diante de tais pesquisas, verifica-se que a violência escolar está atingindo os vários tipos de relações sociais e obtendo cada vez mais adeptos para pertencerem a grupos que praticam atos de violência. Partindo dos estudos realizados em alguns países europeus, como foram vistos na página anterior, e ampliando o estudo da violência escolar no mundo, a Grécia tem seu destaque, ao relatar em pesquisas a violência entre gregos e imigrantes: Um dos resultados de pesquisa refere-se ao aumento da violência escolar entre “gangues” de jovens, estudantes gregos e imigrantes, estudantes e pessoas de fora da escola. Esses aspectos da violência escolar refletem as transformações gerais por que vem passando a população estudantil, após as recentes ondas de imigração ocorridas na Grécia. (ARTINOPOULOU, 2002, p. 156) A pesquisa salienta que três em cada dez estudantes (29,4%) já testemunharam incidentes violentos entre estudantes gregos e imigrantes. Essa porcentagem teve aumento extraordinário em Salonica, atingindo 58,2%, enquanto em Atenas ela chega a 39%.4. Tais dados revelam as variações da violência escolar, de acordo com a sociedade, cultura e as relações sociais, mostrando que a violência não tem um padrão único, entretanto, existem características que são comuns entre os atos violentos. A violência escolar, como pode ser constatada, já atingiu todos os continentes, mas nos colégios norte-americanos, esses acontecimentos de violência com morte e ataques contra alunos e professores ocorrem com maior frequência. Em 2002, os EUA realizaram um estudo sobre o assunto. Especialistas detectaram características comuns de jovens que cometeram ataques em escolas. A pesquisa evidenciou que 71% dos agressores se sentiram “perseguidos ou machucados por colegas antes dos ataques”(Revista Dimensão – nº 49 – novembrodezembro/2007, p. 26). Os EUA têm em seus registros um dos ataques mais violentos realizados em escolas em todo o mundo, onde os estudantes, um de 17 e outro de 18 anos, mataram 12 colegas e uma professora no Estado do Colorado – EUA, antes de se suicidarem. A motivação para os 4 Fonte: Secretaria Geral da Juventude da Educação Nacional, 2000 apud. (ARTINOPOULOU, 2002,p. 156) 22 crimes teria sido por vingança pela exclusão social a que ambos eram submetidos (Revista Dimensão – nº 49- novembro-dezembro 2007, p.26). A pesquisa aponta que a maioria das ocorrências nos EUA tem origem no bullying, em que os alunos são discriminados, e reverte o sentimento de vingança em matar seus perseguidores, que para eles é a própria escola, local dessa perseguição, haja vista que, na perspectiva dos agressores, a escola não fez o papel de protegê-los. Almeida esclarece o papel da escola diante da violência quando afirma: Tem-se como pressuposto que, a partir do momento em que a escola não consegue enfrentar a questão da violência, é porque ela não está cumprindo seu papel histórico, qual seja o de constituir laços de sociabilidade humana (não necessariamente afetiva), mas sociais e políticas. Esta é a relação que se propõe e se defende, ou seja, buscar na educação (escola) os seus caratês ontológicos, do ser para a existência civilizatória (ALMEIDA, 2008, p. 65). Diante dos relatos e dos dados de violência assinalados em várias escolas do mundo, nota-se que há um desafio por parte da comunidade escolar e de toda a sociedade: diminuir e prevenir a violência dentro das escolas. No Brasil, isso não é diferente, frequentemente jornais, revistas, TV, internet, informam sobre casos de violência escolar entre alunos – alunos, professores-alunos, alunosprofessores, pais- professores, pais-alunos, gerando insegurança, medo, e transtorno para a comunidade escolar de maneira integral. Vários estudos e pesquisas no Brasil foram lançados para mostrar de forma mais efetiva o crescente problema da violência escolar. As pesquisas ocorrem em vários estados brasileiros, apresentando um panorama geral das causas da violência. Como elas ocorrem, com que frequência, quem são os agressores, quem são as vítimas, entre outros dados, para que, a partir disso, possam ser criados programas de combate e prevenção da violência. conforme Lucinda, Nascimento e Candau: Os mecanismos de combate à violência estão relacionados a diferentes esferas da vida social, de caráter estrutural e também cultural. Sem duvida, entre as praticas culturais, uma das vias com forte potencial para contribuir ás buscas para afrontar esta problemática é a educação (LUCINDA, NASCIMENTO E CANDAU, 2001, P.11). 23 As autoras indicam que a própria educação tem potencial para enfrentar o problema da violência, no entanto a incredulidade, de pais, professores e sociedade, está aumentando os números da violência. Pode-se perceber mais intensamente a relação da violência no espaço escolar na pesquisa realizada no decorrer do ano de 2000. Trata-se do levantamento “Violência nas Escolas” (Abramovay e Rua, 2002), promovido e disponível no site da UNESCO, desenvolvido em 14 cidades brasileiras, entre escolas particulares e públicas, com alunos, pais, professores, funcionários. As tabelas 1 e 2 na sequência revelam dados sobre a violência no Brasil, e como ela esta agindo dentro das instituições de ensino. Tabela 1. Alunos, por capitais das Unidades da Federação, segundo a percepção dos efeitos da violência sobre o desempenho escolar,2000 (%): Incapaz de se concentrar nos estudos Sentem-se nervosos e fartos Perdem o interesse de irem à escola Total RS 42 GO 46 CE 49 PA 46 SP 42 TOTAL 45 33 34 32 28 32 32 32 34 34 28 33 31 170.512 198.832 357.002 192.841 1.462.380 4.633.391 Fonte: Levantamento Nacional sobre Violência, AIDS e Drogas nas Escolas, 2001. Disponível site da UNESCO. : < http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001322/132251por.pdf> Acessado em: 19 de setembro de 2010. Na tabela 1, pode-se ver a perda de interesse dos alunos quanto a irem à escola, o que faz com que eles acabem repetindo o ano letivo, ocorrendo o aumento da evasão escolar e gerando desta forma, uma baixa no sistema educacional. Do mesmo modo, há o aumento do número de professores desmotivados. 24 Tabela 2. Alunos, por capitais das Unidades da Federação, segundo a percepção do impacto da violência na qualidade do ensino, 2000 (%): RS MT A atmosfera da escola 44 42 se torna pesada A qualidade das aulas 30 30 piora Total 170.511 83.871 PE SC RJ TOTAL 35 48 37 39 27 29 28 31 246.179 50.046 665.907 4.633.301 Fonte: Levantamento Nacional sobre Violência, AIDS e Drogas nas Escolas, 2001. Disponível site da UNESCO. <http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001322/132251por.pdf> Acessado em: 19 de setembro de 2010. Na tabela 2, os alunos não sentem o espaço escolar como um lugar agradável, no qual tenham liberdade, sejam aceitos pelas suas diferenças, possam expor suas ideias. Outro fator que contribui para esse sentimento são as escolas estarem deterioradas por causa do tempo, outras por causa do vandalismo dos próprios alunos e ex-alunos, falta de manutenção e cuidados com o ambiente escolar, ou ainda escolas que aparentam prisões. Tais fatores geram desconforto e sentimentos adversos, que podem inclusive interferir no rendimento escolar. Tabela 3. Alunos, por capitais das Unidades da Federação, segundo o que lhes desagrada na escola, 2000 (%): RS 45 SC 41 DF 48 PE 45 RJ 49 TOTAL 44 Administração e diretoria a maioria dos colegas Aulas 29 38 36 40 28 34 30 33 32 33 28 33 31 34 29 26 23 25 A maioria dos professores 25 29 25 22 20 24 Espaço físico Fonte: Levantamento Nacional sobre Violência, AIDS e Drogas nas Escolas, 2001. Disponível site da UNESCO: <http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001322/132251por.pdf> Acessado em: 19 de setembro de 2010. 25 Na tabela 3, como também já fora visto nas tabelas anteriores, o espaço físico é o que mais desagrada a comunidade escolar, porque é nele onde ocorre a maioria das violências, tanto as físicas como as simbólicas. Nas tabelas 2 e 3, Santa Catarina é o 2º estado onde os alunos percebem o impacto da violência na qualidade de ensino, considerando que a qualidade diminui, e o ambiente escolar torna-se desagradável. De forma geral, no Brasil e em outros países, a violência ocorre nos espaços físicos da escola, por que as relações sociais são mais fortes e há mais liberdade para praticar atos violentos, tornando-se um lugar inseguro. O problema da violência escolar ainda é pouco estudado no país. As pesquisas mostram aspectos gerais, dando uma ideia parcial do que realmente acontece nas escolas, dificultando assim uma ação mais eficiente contra o problema, sendo necessários estudos que aprofundem o problema da violência e principalmente suas implicações na prática pedagógica. Segundo a pesquisa, na tabela 3, as relações sociais o são que mais desagrada os alunos, sendo estas as geradoras de conflitos. Segundo Almeida: É nas relações sociais que se pode considerar a origem da violência, é a partir destas relações reproduzidas no interior da escola que esse processo se constitui como determinante. Tornando ainda a escola como espaço social e de contradições, a violência se caracteriza como uma forma de recusa do próprio espaço escolar, isso evidencia também certa resistência em compreender a escola como um espaço para a superação destas contradições. É mais do que necessário conhecer e debater as relações sociais na sociedade uma perspectiva do conhecimento escolar e da pratica docente. (ALMEIDA, 2008, 62) É preciso verificar dados de violência escolar em uma escala menor. Analisando o estado de SC e, em seguida, a Grande Florianópolis, por exemplo, notam-se dados significativos para uma melhor compreensão da violência escolar. Foi publicado, em 2001, que Santa Catarina lidera casos de violência nas escolas, nas quais o estado registra o maior índice de percentual de furtos e de atos de vandalismo da região Sul. O levantamento foi feito em 1999, pelo Instituto de Psicologia da Universidade de 26 Brasília (UnB). Os dados elucidam que 65,5% dos estabelecimentos escolares catarinenses já registraram algum tipo de violência5. Edinéia Vagner, em sua tese, pesquisa a violência escolar em Florianópolis. Ela relata dados de Boletins de Ocorrência feitos de 1991 a 2002, encontrando 514 boletins, e desses, 103 relacionados a violências contra o corpo-técnico pedagógico. ( VAGNER, 2004, p.18). A violência escolar, geralmente, remete à ideia de violência entre os alunos, depredação, vandalismo contra o espaço físico escolar. Portanto, na pesquisa realizada por Edinéia Vagner, há um número alto de BO‟s em que professores, diretores, funcionários são vítimas de violência escolar. Em 2010, duas professoras foram agredidas no maior colégio do estado de Santa Catarina. Uma professora foi agredida por uma mãe, e outra por um aluno da 5º série. O motivo foi o fato de o professor repreendê-lo por estar brincando com o celular enquanto dava aula.6 Um jornal divulgou uma matéria com o título “Violência contra diretora em escola de Florianópolis continua sem solução”, que relembra o caso de uma diretora que foi agredida por alunos, com ovos e pedras, e não houve nenhuma ação efetiva para resolver o problema.7 Em São José, na Grande Florianópolis, casos de agressão contra professores já ocorrem com frequência. No final do ano de 2010, uma professora da Educação Infantil foi agredida por uma mãe que lhe acusava de ter batido em sua filha, aluna do colégio no qual a professora leciona8. Recentemente, o Brasil sofreu a maior tragédia escolar da história. Um ex-aluno adentrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, no período matutino, fortemente armado e disfarçado de palestrante, e atira contra os alunos que estavam na sala de aula, matando 12 e ferindo mais 13, sendo a maioria meninas. A após a entrada da policia e ferido pela mesma, o agressor suicidou-se, deixando uma carta na qual relata o motivo do massacre e como gostaria de ser enterrado, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.9 Em Florianópolis, dois adolescentes de 17 anos foram encontrados com armas, um próximo da escola e o outro com a arma dentro da mochila.10 5 Jornal A Noticia, Joinville, 5 de agosto de 2001. Jornal RD online REPROTE DIÁRIO, 23 de outubro de 2009. 7 Jornal Diário Catarinense, 09 de novembro de 2010, Florianópolis. 8 Folha.com 10 de dezembro de 2010, São Jose dos campos. 9 Fonte: G1, Rio e em São Paulo, abril de 2011. 10 Fonte: Diário Catarinense. Santa Catarina. Quinta-feira, 7 de abril de 2011. 6 27 Diante de tais casos, observa-se que a violência escolar está recebendo novos personagens, que vêm de fora das escolas, como pais e ex-alunos, causando transtorno, ao passo que deveriam estar agindo a favor e junto da escola, para minimizar e prevenir a violência escolar. Em análises de pesquisa realizada com professores, no estudo relativo à violência nas escolas, Lucinda, Nascimento e Candau descrevem a importância do envolvimento da família no que se refere à violência escolar. Assim, é possível concluir que, se as famílias podem ajudar a manter seus filhos afastados da violência, podem, também, socializá-los para ela. Pais violentos podem estar contribuindo para tornar violentos os seus filhos. Se a violência familiar pode, de alguma forma, agravar os efeitos da violência urbana sobre as crianças e jovens, é possível concluir que ela produz consequências muito significativas e imediatas sobre a vida escolar (LUCINDA et al, 2001, p. 62). Essa é uma preocupação comum entre os professores, coordenadores, diretores, na qual a falta de estrutura familiar está afetando diretamente as relações sociais dentro das escolas. A sociedade é composta de relações sociais, e essas relações geram conflitos, porém, quando esses conflitos ganham força, se tornam violência. A escola não gera violência, mas diariamente alunos e professores vivenciam a violência, seja na família, no bairro, na televisão,no rádio,no jornal ou internet. No entanto, não se pode negar que mesmo que, as escolas não gerem a violência, em muitos casos criam e produzem ambientes que a expressem. Santos afirma que: E aí, iludidos pela ideia de que basta seguir as teorias que estão “na moda” para o trabalho ser moderno, para garantir bons resultados, acabamos atribuindo a tais teorias (de forma ingênua e equivocada) um poder absoluto, um peso de verdade, até mesmo depois de percebemos nas situações ambíguas e inusitadas da prática educativa que essa verdade está sendo destruída a partir das palavras, gestos e expressões das próprias crianças. ( SANTOS, 2002,p.198) Em outro trecho, a autora completa, quando fala da organização escolar e seus efeitos sobre os alunos: Além disso, pode ser que o número elevado de crianças dentro de uma sala de aula (considerando a diversidade de situações difíceis e desconhecidas que irão ocorrer) e as pressões da instituição escolar para dar continuidade às aulas (aconteça o que acontecer) e para cumprir os dias letivos e todo o conteúdo do programa esteja 28 dificultando ainda mais a visão sobre o problema da violência, impedindo que os fios da alta tensão que implicam uma contração da vida sejam identificados, tocados e transfigurados. ( SANTOS, 2002,p.198). A autora fala da negligência da escola, em não querer ver o que acontece em seu espaço escolar, e o padrão que é estabelecido, sem a preocupação da realidade social na qual a escola está inserida. Mesmo diante de tantos dados adversos sobre o problema da violência escolar, ainda pode-se perceber a falta de informações suficientes, para compreender o problema e evitá-la. Na faz-se necessário, que todos os envolvidos, no processo de educação, estejam comprometidos e dispostos a combater a violência e possibilitar às crianças e aos adolescentes um ensino de qualidade. No capítulo seguinte tem se objetivo de conhecer as faces da violência escolar e os seus conceitos. 29 3. AS FACES DA VIOLÊNCIA ESCOLAR A violência caracteriza-se por ser complexa e variável, todavia, em vários momentos fica evidente a forma que ela se expressa, sendo assim atribuídas algumas nomenclaturas a ela, como: conflitos, indisciplina, violência simbólica e física, entre outros. No entanto, é necessário a compreensão desses conceitos para que não sejam aplicados de forma equivocada no cotidiano escolar. 3.1 Conflitos O conflito se caracteriza pelas diferenças de comportamentos, opiniões, credos religiosos, ideologias, costumes, etc., que são perfeitamente percebidas nas relações sociais. Entretanto, o conflito não se apropria das características da violência e da agressão. Pacheco define conflito como: O conflito é um processo natural da sociedade e um fenômeno necessário para a vida humana, podendo ser um fator positivo para a mudança e o crescimento pessoal ou um fato negativo de destruição, dependendo da forma de regulá-lo. O conflito não é bom, nem mau, simplesmente existe. Nessa dimensão, não se pode confundir conflito com violência. Ambos estão relacionados entre si, mas, de forma alguma, podem ser considerados sinônimos (PACHECO, 2008, p.138). O conflito é gerado pelo desentendimento e as diferenças nas relações sociais, na qual é vista e aceita como um processo de amadurecimento do sujeito, possibilitando-o vivenciar sentimentos de contradição, de aceitação e não aceitação de suas opiniões, costumes, crenças. Todavia, as situações de conflitos podem ser resolvidas de forma ética e respeitando as diferenças dos sujeitos. 3.2 Indisciplina e disciplina Os motivos da indisciplina e da violência escolar é uma pergunta que diariamente os professores, os pais e a sociedade em geral estão tentando responder. Facilmente as 30 nomenclaturas são usadas de forma equivocada, ou sem a colação corretas diante atos. Isso revela também a dificuldade que há em definir quando é indisciplina e quando é violência. . Guimarães compreende indisciplina, afirmando que: [...] as ideias acerca da indisciplina estão longe de serem consensuais. Isto se deve não somente à complexidade do assunto e à marcante ausência da pesquisas que contribuam no refinamento do estudo deste problema, mas também à multiplicidade de interpretações que o tema encerra. O próprio conceito de indisciplina, como toda criação cultural, não é estático, uniforme, nem tampouco universal. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história, entre as diferentes instituições e até mesmo dentro de uma mesma camada social ou organismo. Também no plano individual a palavra indisciplina pode ter diferentes sentidos que dependerão das vivências de cada sujeito e do contexto em que forem aplicadas ( REGO, 1996, p.84). Tanto a indisciplina como a violência escolar têm suas definições complexas e variáveis, sendo interligadas, todavia, diferentes entre si. Defini-las e compreendê-las é importante para poder agir sobre elas. Rego que faz uma leitura do termo indisciplina a partir do dicionário, definindo primeiro a disciplina e posteriormente indisciplina: Segundo o dicionário o termo disciplina pode ser definido como “regime de ordem imposta ou livremente consentida. Ordem que convém ao funcionamento regular de uma organização ( militar, escolar, etc;). Relações de subordinação do aluno ao mestre ou ao instrutor. Observância de preceitos ou normas. Submissão a um regulamento”. E, disciplinar, o ato de “ sujeitar ou submeter à disciplina: disciplinar uma tropa. Fazer obedecer ou ceder; acomodar; sujeitar; corrigir: Procurou disciplinar os instintos selvagens da criança”. E ainda, disciplinável como “aquele que pode ser disciplinado”. Já o termo indisciplina; desobediência; desordem; rebelião”. Sendo assim, indisciplinado é aquele que “se insurge contra a disciplina” ( FERREIRA, 1986, p.595 apud REGO, 1996, p. 85). Para Guimarães, a definição de indisciplina é a rejeição à disciplina, submissão, regulamento, normas que têm como ato desobedecer. Entretanto, a violência seria caracterizada por qualquer “ato violento que, no sentido jurídico, provocaria, pelo uso da força, um constrangimento físico ou moral” (GUIMARAES, 1996, p.73). A indisciplina é conhecida, no meio educacional, como a bagunça, a falta de atenção, a conversa, a falta de educação. Já a disciplina se refere à organização, ao silêncio, docilidade, passividade (WALLON, 1975, p.379 apud Rego, 1996, p.85). Isso mostra que a escola, com 31 toda a organização, regras e muitas vezes autoritarismo, gera essa indisciplina, a rejeição ao espaço escolar. Por outro lado, não se pode dizer que não deve mais haver regras e normas na escola. Porém, é preciso repensar a organização e a estrutura da escola. Conforme Rego: Uma outra tendência presente no campo da educação é a de associar a disciplina à tirania. Qualquer tentativa de elaboração de parâmetros ou definição, de diretrizes é vista como prática autoritária, deformadora ou restritiva, que ameaça o espírito democrático e cerceia a liberdade e espontaniedade das crianças e jovens. A disciplina assume uma conotação de opressão e enquadramento.[...] a escola, por sua vez, necessita também de regras e normas orientadoras do seu funcionamento e da convivência entre os elementos que nela atuam. Nesse sentido, as normas deixam de ser vistas apenas como prescrições castradoras, e passam a ser compreendidas como condição necessária ao convívio social.[...] nesse paradigma, o disciplinador é aquele que educa, oferece parâmetros e estabelece limites( REGO, 1996, p. 86). Na área educacional, a disciplina adquiriu novas características e está em constante mudança. Dentro desse processo, a disciplina não pode ser vista e praticada, pela comunidade escolar, com autoritarismo e tirania. A disciplina tem o desígnio de manter a organização e a qualidade das relações sociais no espaço escolar, permitindo aos sujeitos compreenderem a finalidade dela, sem que seja algo imposto e autoritário. Contudo, é perceptível a indisciplina no espaço escolar, revelando que somente as regras e normas não conseguem conter os indisciplinados. Alguns fatores contribuem para que ocorra a indisciplina: a organização escolar, educação familiar, sociedade, entre outros. Segundo Rego Muitos atribuem a culpa pelo “comportamento indisciplinado” do aluno à educação recebida na família, assim como à dissolução do modelo nuclear: “ esta criança tem uma criação familiar totalmente autoritária, está acostumada a apanhar e a receber severos castigos, por essa razão não consegue viver em ambientes democraticos‟; “ se os próprios pais não sabem dar limiteseu é que não vou dar”.[...] neste caso, a responsabilidade pelo comportamento do aluno na escola parece ser única e exclusivamente da família. Novamente a escola se isenta de uma revisão interna, já que o problema é deslocado para fora de seu domínio.( REGO, 1996, p. 88). A família é apontada como responsável pela falta de disciplina do aluno. Além da família, os próprios alunos são muitas vezes responsabilizados pelas suas atitudes de indisciplina, sendo rotulados como “crianças que não têm jeito”, “ela nasceu assim mesmo” (REGO, 1996, 87). Esse tipo de rótulo indica que a indisciplina é algo determinado pela 32 personalidade ou característica do aluno, sem levar em conta no ambiente ao qual ele está inserido, e pode ser propício a gerar indisciplina. Por outro lado, a escola culpa a família pelo comportamento indisciplinado de seus alunos, e os pais e a sociedade responsabiliza a escola pela falta de disciplina dos alunos. Nesse aspecto Rego afirma: Já os profissionais da educação ( diretores, coordenadores, técnicos etc.) e muitos pais, quando provocados a analisar as possíveis causas da incidência deste comportamento nas escolas, muitas vezes acabem por atribuir a responsabilidade ao professor.(REGO,1996,p.89). Certamente que a responsabilidade pelo problema envolve toda a comunidade escolar, a indisciplina deve ser tratada com responsabilidade. É perceptível, no entanto, a falta de estrutura e de conhecimento por parte de todos os envolvidos. Rego fala que: Primeiramente, é possível observar que o lugar ocupado por cada deste elementos no sistema educacional parece alterar significativamente o seu modo de explicar as razões da incidência da indisciplina na escola. Apesar destas diferenças, predomina, entre a maior parte dos envolvidos no processo educativo, um olhar parcial e pouco fundamentado sobre o problema. As complexas relações entre o individuo, a escola, a família e a sociedade não parecem suficientemente debatidas e aprofundadas. As justificativas, alem de pouco criticas e abrangentes, se mostram impregnadas de meias-verdades, de explicações do senso comum ou pseudocientificas ( um espécie de “psicologização” ou “sociologização” das questões educacionais e pedagógicas)( REGO, 1996, p. 90). Diante de todos esses fatos, verifica-se que tanto a violência como a indisciplina são atitudes comuns nas escolas. Entretanto, este é um assunto desconhecido da comunidade escolar, necessitando de mais estudos e pesquisas que proporcionem a ela um aprofundamento no tema para que consiga se estruturar a fim de prevenir e combater a indisciplina e a violência escolar. 3.3. Violência física e violência simbólica Nota-se que a violência vai além da indisciplina e dos conflitos, todavia, é oriunda deles. A perda de controle e o desrespeito aos limites geram a violência. 33 A violência na escola também é complexa, e difunde-se em dois ramos, violência física e violência simbólica. Abramovay nos esclarece sobre essas violências quando fala sobre a violência física: Intervenção física de um indivíduo ou grupo contra a integridade de outro(s) ou de grupo(s) e também contra si mesmo, abrangendo desde suicídios, espancamentos de vários tipos, roubos, assaltos e homicídios até a violência no trânsito (disfarçadas sob a denominação de “acidentes”), além das diversas formas de agressão sexual (ABRAMOVAY, 2003, p.73). A violência simbólica, para Abramovay, Forma de violência simbólica (abuso do poder, baseado no consentimento que se estabelece e se impõe mediante o uso de símbolos de autoridade); verbal; e institucional (marginalização, discriminação, e práticas de assujeitamento utilizadas por instituições diversas que instrumentalizam estratégias de poder). (ABROMOVAY, 2003, p.74) Quanto aos conceitos de violência física e violência simbólica, a violência física é perceptível, contudo, a violência simbólica, em um primeiro momento não pode ser vista mas é extremamente comum, principalmente nas escolas, já que as relações são intensas e existem pessoas com características diferentes, ou seja, classes sociais diferentes, etnias, cultura, costumes e educação familiar diferentes. Por isso a dificuldade nas relações sociais potencializa atos de violência simbólica, como humilhações de alunos contra alunos, alunos/professores, professores/ alunos, xingamentos, provocações, intimidações e ameaças. Desta forma, os sujeitos que sofrem violência simbólica como alunos e professores, por exemplo, sentem-se atemorizados, inseguros, refletindo no desempenho escolar. A violência física e a violência simbólica podem ser percebidas no cotidiano escolar, certamente não com tanta ênfase como deveria e com certa demora, por parte da equipe pedagógica. Nas palavras de Santos, Pode ser que o número elevado de crianças dentro de uma sala de aula (considerando a diversidade de situações difíceis e desconhecidas que irão ocorrer) e as pressões da instituição escolar para dar continuidade às aulas (aconteça o que acontecer) e para cumprir os dias letivos e todo o conteúdo do programa esteja dificultando ainda mais a visão sobre o problema da violência, impedindo que os fios de alta tensão que implicam uma contradição da vida sejam identificados, tocados e transfigurados (SANTOS, 2002, p. 198). 34 Isso mostra a dificuldade da escola em perceber e enfrentar a violência, quando a responsabilidade que é imposta a ela, prevalece com primeira opção. Assim, é importante que haja mais estudos na área da violência escolar, para que se possa ter uma compreensão real e efetiva sobre o assunto e as escolas saibam como agir sem prejudicar suas responsabilidades pedagógicas. A violência simbólica atualmente é denominada como “bulliyng”, com as mesmas características de intimidação, controle sobre o outro, ofender, xingar, entre outros aspectos. 3.4. Depredação do espaço escolar Com frequência se ouve falar que há escolas com cadeiras e mesas quebradas, sem ventiladores, sem cortinas, vasos sanitários entupidos com papel, paredes sujas e riscadas, portas sem trancas e quebradas, e outros problemas, considerados depredação do ambiente escolar. Isso também é um tipo de violência e em alguns lugares se tornaram muito comuns. As escolas de hoje se tornaram muito parecidas com prisões, grades nas janelas, funcionários vigiando os corredores, horários para entrar e para sair, guaritas nos portões, enfim, com um aspecto desagradável para aqueles que as frenquentam. Guimarães, sob a ótica de Foucault, já descrevia a escola como prisão, fazendo uma comparação direta. “Não é mais necessário recorrer à força para obrigar o escolar à aplicação, o essencial é que o aluno, assim como o detento, se saiba vigiado” (GUIMARAES, 1988, p.36). Nesta citação, se vê claramente o aluno sendo comparado com o detento e automaticamente a escola sendo comparada com a prisão. Seguindo esta linha, nota-se que a depredação escolar é uma negação ao espaço escolar. De acordo com Guimarães: Se as depredações acusam os descontentamentos e críticas a toda a instituição escolar, tenta-se impedi-las, exercendo uma vigilância constante sobre o comportamento dos indivíduos e estabelecendo o padrão ideal de atitudes perante a escola, objetivando dessa forma evitar que as indisciplinas se tranformem em armas contra as estruturas já estabelecidas. ( GUIMARAES, 1988, p. 43). 35 Portanto, a depredação pode ser uma recusa ao espaço escolar, e seus motivos são variados, podendo indicar a falta de motivação em estar na escola, violência sofrida dentro dela, expressão de sentimentos negativos, em que os indisciplinados não encontram na escola um apoio que os faça sentir-se seguros no ambiente escolar. 3.5. Violência familiar e violência escolar A violência familiar pode ser considerada uma das faces da violência escolar. A família é o exemplo maior de conduta para as crianças e adolescentes. Quando eles percebem a fragilidade do meio familiar, tendem a expressar sentimentos de agressividade. A violência familiar é um tipo de violência que tende a interferir diretamente nas relações dentro da escola, podendo variar entre o desempenho do aluno, agressividade, abandono escolar, entre outros.Lucinda, Nascimento,Candau descrevem a violência familiar como: A violência familiar, sofrida pela criança e o adolescente, tem sido motivo de grande preocupação dos educadores. Apesar de estar localizada, quase sempre, fora dos muros escolares, tal forma de violência interfere significativamente no cotidiano escolar. Torna-se cada vez mais freqüente o fato de crianças chegarem à escola vitimas de violência familiar. São diversos os fatores que podem estar relacionados a esta manifestação de violência. ( LUCINDA, et al, 2001,p.35). A violência familiar torna-se grave quando ela chega na escola. A escola, muitas vezes, não tem auxílio da família para orientar a criança ou o adolescente no sentido de impedir problemas de violência no meio escolar. A violência física, como agressão, tortura, abuso, faz com que a criança e o adolescente reflitam atos de violência na escola ou tenham queda no desempenho escolar, mas também a desestrutura familiar, como pais separados, pais ou irmãos que são viciados, tanto em bebidas como drogas, crianças que moram com os avós, pais presos, pais ausentes, entre outras situações de ordem familiar, pode atingir o emocional da criança e do adolescente. Desta maneira, o problema pode interferir no desenvolvimento educacional. Cardia fala das causas e consequências que a violência ocasiona no aluno que a sofre: 36 A combinação da presença da violência no bairro com a violência doméstica... terá efeitos sobre o desempenho acadêmico das crianças e jovens que estão expostos a essas circunstâncias, sobre a sua capacidade de adaptação a normas e disciplina e sobre a violência na escola: crianças vítimas de violência têm mais dificuldades de leitura e compreensão de textos, porque a inteligência verbal é afetada pela combinação pobreza-violência, menor capacidade de atenção e de concentração em tarefas e menor capacidade de elaborar críticas ( CARDIA, 1997,p.50 apud LUCINDA, et al, 2001, p.36). Cárdia mostra claramente os efeitos da violência familiar no âmbito escolar. Diante disso, torna-se necessário um trabalho em conjunto com a escola e a família, para que assim a criança possa se desenvolver normalmente. O capítulo a seguir revela a covardia e a frieza de uma violência que está presente nas escolas fazendo alunos e professores, vítimas de bullying. 37 4. BULLYING A violência escolar, por ser complexa e variada, adquire diversas formas e expressões que variam de escola para escola. No entanto, alguns tipos de violência estão presentes na maioria delas. O bullying, por exemplo, é uma das formas de violências, que está presente no cotidiano escolar, sendo considerada uma das mais agressivas para a referida comunidade. Os primeiros indícios de estudos sobre bullying surgiram nos anos 70. Em uma pesquisa realizada por Dan Olweus, na Noruega, ele percebeu os comportamentos violentos entre os jovens. Todavia, no final dos anos 70, é publicada a obra “Agression in the schools – bullies and whipping boys, de Dan Olweus. Assim, o problema do bullying começou a ter um estudo mais aprofundado. (LEONARDO, 2007, pag., 12). O bullying passou a receber atenção especial somente a partir da década de 1980, quando três jovens se suicidaram, após serem vítimas de violência por parte de outros alunos. Olweus iniciou uma pesquisa ampla e detalhada sobre bullying, na intenção de detalhar números de alunos praticantes ou vitimizados pelo bullying (LEONARDO, 2007, pág.12). O bullying, assim como a violência escolar, têm sua definição muito complexa, contudo, alguns autores, em suas teorias definem como “o desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la sob tensão” (TATTUM e HERBERT, 1993, apud Hayden e Blaya, 2002, p.72). Já Olweus define bullying quando: Um(a) aluno(a) é exposto(a), de forma repetida e durante um determinado período de tempo, a atos/ações negativas por parte de um ou mais alunos. As ações negativas existem quando alguém tenta ou consegue intencionalmente causar prejuízo ou infligir danos ou sofrimentos a outra pessoa. ( OLWUES, 1991,apud LEONARDO, 2007, p.13). Porém, o conceito de bullying está longe de ser definido e irrevogável. Assim com a violência escolar, o bullying tem seus conceitos ainda indefinidos e que podem entrar em contradição, sobretudo quando relacionada com a violência escolar, na qual os dois temas ainda necessitam de mais estudos para serem definidos com mais clareza. Por outro lado, a partir dos estudos já realizados, pode-se compreender e identificar algumas características principais do bullying, que ajudam a compreender seus efeitos no ambiente escolar. 38 O bullying pode se expressar das mais variadas formas: verbal e física e material, psicológica e moral, sexual, virtual, em que as vítimas podem sofrê-lo com diferentes expressões. 4.1 Vítimas do bullying As vítimas de bullying, normalmente, fogem ao padrão estético e social dos seus agressores, os “bullies”, os quais procuram vítimas indefesas, com baixa autoestima e fragilizadas. Silva (2010) caracteriza três tipos de vítimas: vítima típica, vítima provocadora e vítima agressora. Na concepção de Silva (2010), as vítimas típicas são alunos que pouco interagem com outros colegas. Diz: Em geral são tímidas ou reservadas, e não conseguem reagir aos comportamentos provocadores e agressivos dirigidos contra elas. Normalmente são mais frágeis fisicamente ou apresentam alguma “marca” que as destaca da maioria dos alunos: são gordinhas ou magras demais, altas ou baixas demais... Enfim, qualquer coisa que fuja ao padrão imposto por um determinado grupo pode deflagrar o processo de escolha da vítima do bullying. Os motivos (sempre injustificáveis) são os mais banais possíveis ( SILVA, 2010, p.38). As vítimas provocadoras, no entanto, tendem a instigar reações violentas em seus colegas contra si próprios, todavia, não têm argumentos suficientes para se defenderem. Silva define as vítimas provocadoras como: ... conseguem-nos responder aos revides de forma satisfatória. Elas, em geral, discutem ou brigam quando são atacadas ou insultadas. Nesse grupo geralmente encontramos as crianças ou adolescentes hiperativos e impulsivos e/ou imaturos, que criam, sem intenção explícita, um ambiente tenso na escola. Sem perceberem, as vitimas provocadoras acabam “dando tiro nos próprios pés”, chamando atenção dos agressores genuínos. Estes, por sua vez, se aproveitam dessas situações para desviarem toda a atenção para a vítima provocadora. Assim, os verdadeiros agressores continuam incógnitos em suas táticas de perseguição ( SILVA, 2010, p. 40). 39 As vítimas agressoras tendem a ser mais perigosas do que as vítimas típicas e provocadoras, pois acabam sendo reflexo dos seus próprios agressores. São vítimas vingativas, que acumularam sentimentos de revolta diante de tantas agressões físicas e moral que sofreram. Silva caracteriza a vítima agressora como: Ela reproduz os maus-tratos sofridos como forma de compensação, ou seja, ela procura outra vítima ainda mais frágil e vulnerável, e comete contra esta todas as agressões sofridas. Isso aciona o efeito “cascata”, ou de círculo vicioso, que transforma o bullying em um problema de difícil controle e que ganha proporções infelizes de epidemia mundial de ameaça à saúde pública. (SILVA, 2010, p. 42). As vítimas de bullying são crianças e adolescentes que tendem a ter um comportamento parecido quando sofrem bullying. São aqueles que normalmente ficam isolados, faltam às aulas, estão sempre deprimidos, desmotivados, sentem medo das pessoas, e tais comportamentos podem resultar em sintomas físicos, como dor de cabeça, vômito, enjoo, insônia, perda de apetite. 4.2 Agressores Os agressores são crianças e adolescentes que trazem em sua personalidade um perfil de maldade, agressividade e prazer de ver o outro sofrer. Eles são indisciplinados, insubordinados, não têm respeito pelos animais e com as pessoas, e, à medida que vão crescendo, os sentimentos e a postura agressiva aumentam. Silva ressalta que: Os agressores apresentam, desde muito cedo, aversão às normas, não aceitam serem contrariados ou frustrados, geralmente estão envolvidos em atos de pequenos delitos, como furtos, roubos, vandalismo, com destruição do patrimônio público ou privado... O que lhes falta, de forma explicita, é afeto pelos outros ( SILVA, 2010, p. 44). Os agressores têm comportamentos agressivos tanto na escola como no ambiente familiar. Na escola, eles andam em grupo, ameaçando e provocando outros colegas, colocando apelidos pejorativos, roubando e quebrando objetos dos colegas, empurrando, 40 batendo. No ambiente familiar, são agressivos com os pais ou responsáveis, não respeitam as regras, tendem a mostra superioridade, sendo sempre hostis. 4.3 Espectadores Os espectadores são atores que não estão diretamente envolvidos nas ações de bullying, não tomam partido nem pelo agressor nem pela vítima. Para melhor defini-los, foram divididos em três categorias: espectadores passivos, espectadores ativos, espectadores neutros. De acordo com Silva, o espectador passivo: Em geral, os espectadores passivos assumem essa postura por medo absoluto de se tornarem a próxima vítima. Recebem ameaças explícitas ou veladas do tipo: “Fique na sua, caso contrário a gente vai atrás de você.” Eles não concordam e até repelem as atitudes dos bullies; no entanto, ficam de mãos atadas para tomar qualquer atitude em defesa das vítimas ( SILVA, 2010, p.45). Esse tipo de espectador tende a sofrer as mesmas consequências psíquicas que as vítimas de violência, por causa da sua fragilidade emocional. Entretanto, os espectadores ativos tendem a incentivar moralmente os agressores. Silva descreve os espectadores como: Estão inclusos nesse grupo que, apesar de não participarem ativamente dos ataques contra as vítimas, manifestam “apoio moral” aos agressores, com risadas e palavras de incentivo. Não se envolvem diretamente, mas isso não significa, em absoluto, que deixam de se divertir com o que vêem. É importante ressaltar que misturados aos espectadores podemos encontrar os verdadeiros articuladores dos ataques, perfeitamente “camuflados” de bons moços. Eles tramaram tudo e, agora, estão apenas observando e se divertindo ao verem o circo pegar fogo (SILVA, 2010, p.46). Os espectadores neutros, porém, são, em muitos casos, insensíveis à violência que ocorre no ambiente escolar. Ao se depararem com vítimas de bullying, os espectadores neutros negligenciam qualquer tipo de atendimento, expressando um sentimento de frieza com relação à violência, em muitos casos omitindo socorro as vítimas e informações que levem ao agressor. Silva observa que: Dentre eles, podemos perceber os alunos que, por uma questão sociocultural... não demonstrando sensibilidade pelas situações de bullying que presenciam. Eles são acometidos por uma “anestesia emocional”, em função do próprio contexto social 41 no qual estão inseridos. Seja lá como for, os espectadores, em sua grande maioria, se omitem em face dos ataques de bullying. Vale a pena salientar que a omissão, nesses casos, também se configura em uma ação imoral e ou/ criminosa, tal qual a omissão de socorro diante de uma vitima de um acidente de trânsito. (SILVA, 2010 p. 46). É possível notar que os espectadores também sentem as consequências do bullying. Os efeitos são devastadores tanto neles como nos agressores e nas vítimas. Sentimentos de impotência, de culpa e negligência fazem os espectadores apresentarem um aprisionamento emocional, tendo a sensação de serem agressores. O bullying já fez várias vítimas pelo mundo, somente na última década, jornais, revistas, internet, noticiaram casos de ataques às escolas, tendo como origem da motivação o bullying. Em março de 2001, um estudante de 16 anos é morto a tiros no estacionamento de uma escola em Gary, no Estado de Indiana nos EUA, por um ex-aluno do mesmo colégio.11 Em março de 2005, Jeff Weise, de 16 anos matou, nove pessoas e depois cometeu suicídio em uma escola de Minnesota nos EUA. Segundo a polícia, ele sofria de perturbações psicológicas e era admirador de Adolf Hitler. Antes de sair de casa, o garoto assassinou os avós. Além dos mortos, 14 pessoas ficaram feridas.12 Em novembro de 2006, um estudante de 18 anos provocou um banho de sangue numa escola secundária de Emsdetlen, noroeste da Alemanha, ferindo 27 pessoas, antes de se suicidar. O jovem explicou o motivo do atentado em duas páginas na internet, em que dizia: “Grande parte da minha vingança dirigia-se contra os professores, as pessoas que se imiscuíram na minha vida e ajudaram a me colocar onde estou no matadouro. Eu odeio a todos vocês e à vossa espécie, desde os seis anos de idade que gozam comigo, mas agora vão ter de pagar por isso”.13 Estes dados revela que o bullying é um problema que merece uma atenção especial, na qual o poder político, a sociedade e a comunidade escolar necessitam se organizarem para combater este mal que está presente nas escolas. A seguir será analisadas as entrevistas realizadas com os professores de escolas publicas e particulares da Grande Florianópolis. 11 Fonte: Revista Dimensão – nº 49- novembro-dezembro/2007 Fonte: Revista Dimensão – nº 49- novembro-dezembro/2007 13 Fonte: Revista Dimensão – nº 49- novembro-dezembro/2007 12 42 5. ANÁLISE DAS ENTREVISTAS DOS PROFESSORES As entrevistas foram realizadas com professores da rede pública estadual e municipal de educação da Grande Florianópolis14. Ao todo foram entrevistados 10 professores que lecionam ou já lecionaram em salas de Educação Infantil ao Ensino Médio. Quadro 2: Perfil do professor entrevistado Fonte: Entrevistas com os professores Sujeito entrevistado Formação Área de atuação Professor 1 Pedagogia Professor 2 Licenciatura em Geografia Pedagogia Coordenação e projetos Docência em Geografia Coreógrafa Professor 3 Professor 4 Series que atua 6 anos 6º ano ao 9º ano 6 anos Ed. Infantil ao Ensino Médio Ed. Infantil ao Ensino Médio Ensino Fundamental I e II Ens.Fundamental I e II e Ensino Médio Series iniciais Ens. Fundamental I, EJA Ens. Fundamental I Ens. Fundamental I Ens. Fundamental I Pedagogia e Música Licenciatura em História Coreógrafa 8 anos Secretaria Escolar 30 anos Professor 6 Pedagogia Coreógrafa 6 anos Professor 7 Pedagogia 5 anos Professor 8 Licenciatura Matemática Licenciatura em Português Licenciatura em Biologia Séries iniciais Ens. Fundamental I, EJA Docência em Matemática Docência em Português Docência em Biologia Professor 5 Professor 9 Professor 10 14 Tempo de exercício da profissão 18 anos 8 anos 15 anos 3 anos 6º ano ao 9º ano cinco escolas, de Educação Infantil a Ensino Médio, participaram da pesquisa por meio dos professores entrevistados. 43 As entrevistas ocorreram de forma individual e em locais que se encontravam à disposição e vazios, como a biblioteca da escola e a sala de aula. As entrevistas foram organizadas com 10 questões objetivas e abertas, a fim de identificar as diferentes formas de violência escolar, as ações que são realizadas para combater a violência e a relação violência e prática pedagógica. 5.1 As diferentes formas de violência e seus praticantes. Nesta categoria serão analisadas as respostas que correspondem às diferentes formas de violência e seus praticantes. Os professores apontaram vários tipos de violência e também vários agressores diferentes, revelando um novo perfil da violência, mostrando que a violência está ocorrendo tanto de dentro para fora, como de fora para dentro da escola e tendo agressores, em alguns casos, como pais e as mães. Os pais e mães são os novos personagens da violência escolar, como pode ser observado nas entrevistas. Alguns trechos das entrevistas15 merecem ser ressaltados sobre o comportamento dos pais na violência escolar: “A mãe de uma aluna entrou na escola, bateu na professora a empurrou e quebrou o pé dela.” (Professor 4). “Aconteceu uma vez... Um pai entrou na escola na hora da saída e agrediu um aluno, que havia brigado com seu filho no dia anterior.” (Professor 1) “A mãe de uma aluna entrou na escola e deu um tapa na cara da professora, sendo que ela não revidou e foi fazer um B.O. em uma delegacia.” (Professor 7) Abramovay e Rua relatam como essas variedades na violência interferem no papel social da escola: 15 Entrevistas realizadas pela autora no dia 19 de abril de 2011. 44 A vulnerabilidade da escola a várias violências, macrossociais, viria aumentando também sua perda de legitimidade como lugar de produção e transmissão de saberes, quando contraposta ao alcance social, ampliação do escopo e do acesso de novos meios de formação (ABRAMOVAY e RUA, 2002, p.25). A violência com novos personagens, especialmente quando são os pais, faz com que haja um desequilíbrio na escola, pois a escola necessita do apoio e da compreensão dos pais para combater a violência. No entanto, quando os pais são os agressores, há uma fragilidade tanto para a educação escolar quanto para a educação familiar, sendo a criança e o adolescente os mais prejudicados, tendo em vista que perderão a referência educacional, a qual possibilita a formação de cidadãos éticos. Segundo Lucinda et al, a família pode contribuir para minimizar os efeitos da violência. (LUCINDA, et al, 2001, p.35). Outro aspecto importante observado dentro do objetivo pesquisado é o aumento do casos de professores e diretores que agridem os alunos de forma física ou verbal, que, em muitos casos, são brutais, como foi relatado pelos entrevistados. De acordo com os relatos, as agressões iniciam com discussões e “bate bocas”, levando a ameaças de morte, tapas e até ao ponto de violência sexual.16 “O aluno incomodou e respondeu o professor, o professor bateu no aluno com um molho de chave nas costas.” (Professor 4) “Após o professor ser ameaçado por um aluno, ele acabou violentando o aluno.” (Professor 3) “Chamei o coordenador para conversar com um aluno que estava perturbando em sala de aula. De repente, no corredor, o professor se exaltou com a voz e, quando fui ver, ele já estava levantando o aluno pelo colarinho.” (Professor 5) “Um „professor‟, por falta de conhecimento em lidar com o caso didático, fez o educando sentar com um soco no ombro, cuja reclamação deste parou na direção, mas só chamaram a atenção do „professor‟, não abrindo um processo administrativo.” (Professor 7) Tais relatos descrevem uma violência sem controle dentro das unidades escolares e como estão sendo vivenciadas. A relação professor e a violência está, acontecendo de forma 16 Baseado nas entrevistas realizadas com os professores. 45 variável, na qual, em alguns momentos, o professor é vítima, em outros, é o agressor, ou se torna vítima por anteriormente ter praticado algum tipo de violência. Isso mostra também o pouco preparo psicológico que o professor tem para lidar com situações de conflito, pois deveria ser o mediador para solucionar os problemas e não o incentivador ou provocador da violência. Abramovay e Rua descrevem a reação do aluno a ser ignorado pelo professor, quando fala que: A falta de comunicação entre professores e alunos causa, nos estudantes, muita revolta, independentemente da idade ou da série em que se encontram. É possível que essa atitude afete a auto-estima dos estudantes, que não aceitam ser ignorados. Há uma forte crítica aos professores cuja preocupação se restringe ao repasse de conteúdo, sem interesse em interagir com a turma. ( ABRAMOVAY e RUA, 2002, p.39) Em outro trecho, Abramovay e Rua falam da relação aluno x professor A situação dos professores na sala de aula também é desconfortável, pois muitos sentem que os alunos lhes faltam com o respeito... Os alunos, em alguns casos, comportam-se de maneira autoritária, humilhando ou insultando o professor ou, em casos extremos, utilizando-se do poder ou prestígio dos pais para forçar a demissão daquele de quem não gosta. (ABRAMOVAY e RUA, 2002, p. 40). Essas variedades da violência tendem a atingir toda a estrutura escolar. Diante dos fatos e relatos, a comunidade escolar necessita se apropriar de novos conhecimentos e atitudes para combater as variáveis da violência. Nas análises das entrevistas, ficou evidente a quantidade de apelidos pejorativos que os professores recebem, 100% dos entrevistados já receberam ou presenciaram outros professores sendo apelidados. Isso revela característica do bullying, sendo os seus indícios os apelidos pejorativos que causam constrangimento. Silva esclarece como acorre o bullying contra os professores e quais suas reações: Infelizmente, muitos professores são humilhados, ameaçados, perseguidos e até ridicularizados por seus alunos. A maioria deles não sabe como agir frente a essas desagradáveis situações que ocorrem em seu ambiente de trabalho. Se eles sofrem bullying por parte dos alunos, temem procurar a direção escolar e ser mal interpretados por seus superiores e, até mesmo, rotulados de incompetentes no trato com os estudantes. Por outro lado, se recorrem aos próprios alunos, temem se fragilizar mais ainda diante dos seus agressores, o que é bastante frequente. Além disso, ao chamarem os responsáveis para uma reunião na escola, costumam se deparar com a incômoda situação do não comparecimento dos pais ou até mesmo 46 do apoio inconsequente deles às versões descabidas de seus filhos (SILVA, 2010, p. 148). Esse tipo de comportamento de alunos contra professores traz à tona discussões que vêm ganhado amplitude em reuniões pedagógicas, em que surgem vários fatores que podem estar relacionados com o aumento da violência nas escolas, variando entre falta a de autoridade dos professores, indisciplina dos alunos, desorganização física da escola, excesso de regras e proibições, liberdade excessiva e falta de controle. Isso fica claro nos relatos de duas professoras que justificam a não violência em suas salas de aula devido ao posicionamento que adquiriram com relação aos alunos. “Em minha sala de aula, não há ocorrência de violência, por causa da minha postura e da forma como conduzo a aula [...] sempre com disciplina e responsabilidade. No entanto, sempre converso com os alunos, e tenho a responsabilidade de cumprir o que é combinado com os alunos” (Professor 2) “A violência em sala de aula depende da didática do professor. O professor tem que ouvir os alunos.” (Professor 1). Os referindos relatos indicam que a violência não se expressa quando há autoridade do professor em sala de aula. Nota-se também que não são todos os professores que conseguem esse domínio, uma vez que as práticas de autoritarismo surgem na sala de aula, gerando conflito e prejudicando o trabalho pedagógico. Entretanto, a autoridade docente não pode ser vista como solução para combater a violência e muito menos como motivo para isto. A autoridade do professor ou a falta dela são aspectos a serem discutidos e considerados com responsabilidade e relevância. Na opinião de Almeida: Não existe uma relação direta entre a violência escolar e perda da autoridade docente. Compreende-se que a violência escolar é um processo mais abrangente e que se comunica permanentemente com a realidade social. Assim, a autoridade docente ou a ausência dela não deve ser tomada como causa para justificar a violência escolar. Neste aspecto é necessário, para que não se cometa o equívoco de considerar a autoridade docente como uma forma eficiente de enfrentamento à violência escolar, analisar a violência como um processo sócio-histórico e que, partindo de seus desdobramentos, possui uma dimensão muito complexa. Conhecer objetivamente a realidade da violência escolar passa a ser requisito para não se cair no senso comum. ( ALMEIDA, 2008,p. 65). 47 A violência escolar de pais contra professores, de professores e diretores contra alunos, alunos contra alunos, agrega novas formas de violência, tornando-a mais complxa e variável. 5.2 Relação violência e prática pedagógica. Nesta categoria, serão analisadas as questões que indicam a relação da violência e da prática pedagógica. Os professores dizem que já ocorreram várias situações em que tiveram que parar suas aulas, por causa da violência, que nem sempre acontecia dentro de sua sala, mas nas salas ao lado. “Teve um dia que fui obrigada a parar minha aula e ir à sala ao lado pedir para pararem por causa do barulho e bagunça que estavam fazendo e que estava atrapalhando minha aula.” (Professor 2) “Parar a aula já aconteceu comigo, porque os alunos estavam quase se agredindo, brigando.” (Professor 1) “Sim, é algo que acontece com muita frequência.” (Professor 3) “Foi em uma sala da 4ª série, que a professora, depois de tentar dar um jeito na briga e não conseguindo aparta, saiu gritando a chamar pela diretora.” (Professor 5) Através dos relatos, pode-se identificar que as aulas ficam em vários momentos fragmentadas pelas paralisações por causa da indisciplina e da violência. Essas paralisações tendem a refletir no processo de ensino aprendizagem, e por mais que o professor se esforce para recuperar o tempo perdido, a qualidade nem sempre é a mesma, causando um grande déficit na educação. 48 Em conversas informais com os professores, pode-se notar essas preocupações com relação ao aprendizado. O trabalho pedagógico é prejudicado muitas vezes pelo excesso de trocas de professores que não aguentam lecionar em determinadas turmas consideradas “rebeldes”, “indisciplinadas” e, em alguns casos “violentas”. Isso fica evidente no relato de uma professora entrevistada: “Quando eu ainda dava aula em turmas de alfabetização, fui lecionar em uma turma do 3º ano. Eu era a quinta professora que iria dar aula para eles naquele ano. Havia alunos de até 15 anos, e que não eram alfabetizados. Os professores anteriores não aguentaram, pois era uma turma extremamente rebelde, indisciplinada e por ser turma mista17, complicava ainda mais. A própria diretora da escola achava que eu não iria aguentar. Mas eu gosto do que faço, e não iria abandoná-los, como fizeram os outros. Foi difícil, tive que usar métodos que normalmente não se utilizariam em outras turmas, com esse tipo de turma, normalmente métodos tradicionais, cheios de regras, normas e conseqüência, fazem com que eles fiquem ainda mais rebeldes e indisciplinados, pois a rebeldia deles é uma negação a escola, o que se tem que fazer é que eles gostem de vir à escola, de aprender, e isso dá muito trabalho e muitos professores não fazem ou não querem perder tempo, preferem mudar de escola. Mas para mim foi muito gratificante, chegar ao final do ano e ver que todos os alunos estão alfabetizados. Fiquei muito feliz.” (Professor 1) Neste relato, a professora revela situações importantes que envolvem a prática docente e a organização escolar. São as práticas docentes que tendem a fazer a diferença em turmas consideradas “rebeldes”. A posição do professor e a sensibilidade em criar novas alternativas que são de suma importância. Almeida contribui quando fala que: [...] pode-se afirmar que a gestão democrática da escola e na escola pode ser considerada uma referência para a superação da violência. O papel pedagógico da escola tem como objetivo desenvolver e promover um processo de humanização fundamentado no acesso ao conhecimento científico, que é próprio da humanidade e se constitui como um direito e uma necessidade para o indivíduo tornarem-se humano (ALMEIDA, 2008, p.66). O papel da escola vai além do ensinar a ler e a escrever, tem o compromisso de formar cidadãos. Outro ponto da prática docente, que ficou evidente no relato da professora, foi que, por inexperiência ou falta de motivação, outros professores acabaram abandonados, ocasionando déficit na educação. 17 Turmas com alunos de idades e níveis de conhecimento diferentes. 49 Outro aspecto destacado nas entrevistas é o que diz respeito à organização escolar e ao sistema educacional. Nota-se a falta de organização das salas, que permite, por exemplo, alunos com idades avançadas junto com alunos com idades não correspondentes a sua classe. Outro ponto indica que a indisciplina e a rebeldia podem estar relacionadas com a estrutura escolar, as regras, normas, formas de conduzir os alunos e os professores, fazendo com que os alunos não se sintam à vontade na escola, e isso pode levar à rebeldia, indisciplina, violência, uma forma de negação ao espaço escolar e a tudo que nele se encontra. Foucault, fala da negação ao espaço escolar quando revela a estruturação da escola na intenção de padronizar todos os atos e pensamentos e principalmente as regras e normas escolares que muito se parecem com as prisões: Na oficina, na escola, no exercito funciona como repressora toda uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da atividade (desatenção, negligencia, falta de zelo), da maneira de ser (grosseira, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo (atitudes “incorretas”, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, toda uma série de processos sutis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e a pequenas tênues da conduta, e de dar uma fração punitiva aos elementos aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre preso numa universalidade punível-punidora (FOUCAULT, 1987, p.149). Foucault fala das escolas como prisões, lugares em os sujeitos são vigiados constantemente e punidos por não respeitarem as normas impostas. Abramovay e Rua, em seus estudos, enfatizam: Algumas escolas são mais flexíveis do que outras, encontrando-se, também, casos que podem ser considerados de manifestação de violência institucional, ou seja, abuso de poder por parte da instituição que impõe suas regras sem margens de defesa e contra-argumentação por parte dos que são submetidos a ela (ABRAMOVAY E RUA, 34). Essas relações escola, regras, punições e negação ao espaço escolar podem ser conduzidas de outras formas, como fora relatado pela professora, em que ela cria alternativas para atrair seus alunos, mostrando que a prática pedagógica será positiva ou negativa dependendo das ações que o educador realizar. 50 Em outros momentos das entrevistas, o que ficou evidente são as discussões que, segundo os entrevistados, ocorrem com mais frequência entre os alunos e os professores. No entanto, também foram relatados casos de discussões entre professores e direção. A discussão entre professores e direção revela uma desestruturação na equipe técnica-pedagógica, causando um desequilíbrio que pode ser refletido no andamento das atividades escolares. 5.3 As ações de combate à violência Este foi o momento da pesquisa que surpreendeu diante dos relatos feitos pelos professores. No momento em que foram indagados se no local onde trabalhavam havia algum grupo de apoio contra a violência escolar, 9 dos 10 entrevistados responderam que não sabiam de nenhum grupo de apoio ou algum projeto que discutisse sobre violência escolar. Contudo, há uma entrevistada que respondeu que existia um grupo de apoio contra a violência: “Estamos iniciando um projeto novo aqui na escola, Programa Mais Educação, que vai trabalhar com toda a comunidade escolar, pais, mães, alunos, professores e coordenação. É um programa que vai trazer assuntos sobre violência, bullying, ética, moral, entre outros assuntos que no decorrer do programa vão aparecendo. Nosso objetivo é trazer a família para a escola e a escola estar presente também nas famílias. Esta união vai proporcionar muitos benefícios, principalmente para os alunos. (Professor 1). Outro professor que respondeu que não havia nenhum grupo de apoio contra a violência em sua escola sugere que o “PROERD18 pense na possibilidade de criar um núcleo de discussões e estudos para trabalhar com isso”. (Professor 7) Tal relato sugere que as escolas começam a ter uma preocupação mais efetiva com o problema da violência na escola, tanto dentro dela como fora da unidade escolar. Todavia, a grande maioria dos entrevistados desconheciam algum tipo de projeto de combate à violência. Nota-se o aumento expressivo de usuários de drogas (cigarro, maconha e álcool) entre adolescentes, como revela um professor: 18 Programa Educacional de Resistência às Drogas, desenvolvido pela Policia Militar nas turmas de 5º ou 7º ano do Ensino fundamental. 51 “Já aconteceu de um ex-aluno ser assassinado por tráfico de drogas, e também vários ex-alunos estão presos hoje em dia.” (Professor 6) A entrevista demonstra a necessidade de programas de combate à violência e ao uso de drogas nas escolas, em que os adolescentes possam compreender seus efeitos e, com isso, transmitir a outros que ainda não possuem este conhecimento. No capítulo a seguir será analisada as entrevistas realizadas com os alunos de escolas públicas e particulares da Grande Florianópolis. 52 6. ANÁLISE DAS ENTREVISTAS COM ALUNOS As entrevistas foram realizadas com alunos da rede pública estadual, municipal e particular da Grande Florianópolis. Ao todo foram entrevistados 10 alunos que estudam no Ensino Fundamental II19 e Ensino Médio. Quadro 3: Perfil dos alunos entrevistados Fonte: entrevistas com os alunos 19 Sujeito entrevistado Aluno1 Formação Idade Estudante 12 anos Serie em que estuda 6º ano Aluno 2 Estudante 12 anos 6º ano Aluno 3 Estudante 14 anos 8º ano Aluno 4 Estudante 14 anos Aluno 5 Estudante 12 anos 1º ano do Ens. Médio 6º ano Aluno 6 Estudante 13 anos 8º ano Aluno 7 Estudante 10 anos 6º ano Aluno 8 Estudante 12 anos 6º ano Aluno 9 Estudante 14 anos Aluno 10 Estudante 15 anos 1º ano do Ens. Médio 1º ano do Ens. Médio. Segundo a Lei nº 11.274, de 6 de fevereiro de 2006. Art. 3o O art. 32 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com a seguinte redação: Art. 32. O ensino fundamental obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciandose aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão. 53 As entrevistas ocorreram de forma individual e em locais que se encontravam à disposição, como a biblioteca da escola e a sala de aula. As entrevistas foram organizadas em 11 questões objetivas e questões abertas com o objetivo de identificar, na visão dos alunos, a presença da violência. Dessa forma, pode-se dividir as respostas em 3 tipos de categorias que evidenciam os objetivos da entrevista, perceber a presença da violência no cotidiano escolar dos alunos; relação violência e professor, aluno e a violência 6.1 A presença da violência no cotidiano escolar dos alunos. Os professores e alunos veem a violência como tudo aquilo que gera dor, desconforto, sentimento de raiva e impotência diante dos acontecimentos. Isso foi percebido no decorrer das entrevistas. Alguns trechos merecem ser ressaltados: “Um adolescente me pegou pelo pescoço na hora do recreio” (aluno 7) “Eu e a minha colega brigamos na escola, mas não foi de soco, foi de bate boca.” (aluno 2). Isso mostra a constante sensação de violência na escola, que inicia com ofensas, empurrões, pequenas agressões. Na medida em que somamos estes pequenos delitos, eles podem gerar a violência. No entanto, para os alunos, essas atitudes são consideradas formas de violência por causa da intimidação e constrangimento. Conforme Santos: Essas incertezas são ainda mais flagrantes quando percebemos que a violência, em sua atmosfera geral, não está ligada somente a uma gama de ações físicas, mas está também unida a uma passagem incessante de ameaça, medo e terror, capaz de agitar as margens mais estáticas que se julgam inabaláveis. (SANTOS, 2002, p.46) 54 Diante disso, nota-se a violência sendo vivida e presenciada de várias formas e cada uma com atribuições diferentes, dependendo dos sentimentos, da história de vida e do contexto social o qual o sujeito pertence. Nas entrevistas realizadas, 100% dos alunos conhecem ou conheceram vítimas de violência dentro ou fora da escola, estando diretamente relacionadas com violência simbólica e violência física. Isso revela que, cada vez mais, as crianças e os adolescentes estão tendo contato com violência e, desse modo tendem a banalizar o problema, ou seja, fazendo parte de seu cotidiano escolar ou familiar. Sarmento descreve o perigo de se considerar a violência algo normal na sociedade: A cultura da violência na sociedade, como produto do meio, naturaliza-se, também, no interior das escolas, como se fosse consequência e resultado da outra. Contudo, este entendimento é perigoso, pois a moral, os valores e a ética sempre foram tomados historicamente pelo homem para compor um certo bom senso de civilidade e para impor determinados padrões sociais, regulando a vida em sociedade. A violência não está predeterminada no genoma humano, portanto não é marcada pelo DNA e sim uma manifestação cacionais, culturais e, também, psicológicas e antropológicas. (SARMENTO, 2009, p.52). Outro ponto que se torna relevante mencionar nas entrevistas é o fato de os alunos não conhecerem colegas que tenham deixado de frequentar a escola por causa da violência sofrida. Assim, fica evidente que agressores e vítimas frequentam a escola e que matêm uma relação de convívio. Com isso, compreende-se que os professores e diretores, devem estar atentos aos comportamentos das vítimas e dos agressores, podendo revelar situações de conflitos e posteriormente de violência. Perante os relatos, no objetivo de identificar a presença da violência no cotidiano escolar dos alunos, verificou-se que as agressões, bate boca, xingamentos, são os tipos mais comuns de violência que acontecem com maior freqüência. Entretanto, outros tipos de violência podem ser observados no cotidiano escolar, contudo como menos frequência e intensidade, mas não o suficiente para se ter a sensação de tranqüilidade. Os alunos relatam que o maior número de ocorrências de violência se dá entre os próprios alunos. Diante disso, o professor deve estar atento à agressão de alunos com alunos e assim estar ciente de sua responsabilidade como educador. Segundo Silva: 55 O professor deve possuir pleno conhecimento das suas atribuições, bem como da competência de todos os profissionais da escola. Somente de posse desse conhecimento ele será capaz de compreender por que e quando deverá encaminhar um caso de violência entre alunos a outros profissionais e/ou instituições. Inicialmente, o professor deve se dirigir ao diretor do estabelecimento de ensino, uma vez que este é responsável pela vigilância de tudo que ocorre no interior das dependências escolares (SILVA, 2010, p.168). Novamente a responsabilidade da escola fica evidente como instituição de ensino, faz com que toda a sociedade exija soluções e atitudes que demonstre está iniciativa de combater a violência que é gerada dentro dela e a que vem de fora. Santos faz uma crítica à escola, pela falta de comprometimento e negligência com relação às crianças e aos adolescentes vítimas de violência: De que adianta cumprir o horário e as formalidades do cargo se as crianças que estão presas na escuridão, relegadas a um mundo de pesadelos, estão fazendo na escola um pedido de socorro? Como continuar agindo do mesmo modo, relacionando-se com as crianças, que vivem num clima de violência, e com seus pais, mantendo os mesmos objetivos de trabalho, a mesma maneira de enfocar os conteúdos e a mesma forma de avaliá-las? Se os ruídos que evidenciam as relações com qualidade de violência estão sendo ignorados na escola, o que significa a educação para cada um de nós? Para quem e para quê estamos ensinando? Que tipo de escola está trabalhando para construir, uma vez que as crianças estão sendo apenas escutadas, mas não ouvidas? (SANTOS, 2002, p.198). No entanto, não se pode generalizar afirmando que todas as escolas negligenciam o seu papel social. Porém, verifica-se que o papel da escola, em muitos casos está fragmentado, não conseguindo corresponder às expectativas que a comunidade escolar almeja. 6.2 A violência do professor na perspectiva do aluno Ao falar de professor e violência com os alunos percebe-se um desconforto, por considerarem ainda o professor como autoridade, não da forma que ocorria algumas décadas atrás, mas essa relação de poder ainda é muito presente nas escolas. Relatos dos alunos revelam essa relação de poder entre professores e alunos: 56 “O Teodoro foi expulso da aula pela professora de Língua Portuguesa, por não parar de falar no meio da prova.” (aluno 7 ) “Uma colega minha jogou bolinha de papel e respondeu a professora, aí ela tirou da sala.” (aluno 1) “A professora tirou alguns alunos porque estavam conversando e não tinham respeito com os outros alunos.” (aluno 4) Tais relatos mostram a relação de poder entre alunos e professores, em que o professor é a autoridade na turma. A indisciplina dos alunos, que não se pode considerar violência, entretanto o não controle da situação pode gerar violência. Indisciplina nesse contexto, segundo Garcia (2008, p.66), significa a ruptura objetiva de um acordo socialmente elaborado e consentido por uma comunidade escolar, quanto, derivar da atribuição do entendimento subjetivo e unilateral de um professor. Os relatos apontaram dois tipos diferentes de relação: a relação professor e aluno na qual há uma indisciplina por parte do aluno, fazendo com que o professor tenha uma reação de retirá-lo da sala. E a outra é a relação aluno e aluno, em que a falta de respeito entre eles acarreta uma intervenção do professor, retirando-os da sala de aula. Esses dois relatos, ainda que de formas diferentes, representam a violência. De acordo com Pacheco autoridade docente refere-se: Diante da complexidade do campo educacional, da incerteza e dos riscos enfrentados a partir de crises de sentido da vida contemporânea, (re) conhecer e restabelecer a autoridade consciente do professor se constitui numa possibilidade de amenizar a violência escolar, dando referências aos alunos. Nessa perspectiva, fazem-se necessário o diálogo, a conscientização e a participação ativa, trabalhando-se os valores de responsabilidade, comprometimento e coerência. (PACHECO, 2008, p.145) Para Pacheco, a autoridade se difere do autoritarismo quando a prática do professor muda e a visão do aluno também: Autoritarismo, este é visto nas pequenas ações, um autoritarismo do dia-a-dia, que se estabelece nas relações interpessoais, principalmente na relação professor-aluno, baseado na dominação, submissão, coerção, imposição e manipulação. (PACHECO, 2008, p.144). 57 A indisciplina dos alunos pode ter vários fatores. De acordo com os depoimentos, a indisciplina e os conflitos acontecem em situações diferentes e com personagens diferentes. A indisciplina pode se referir a uma negação ao espaço escolar, à falta de domínio docente e/ou à forma do aluno dizer algo aos professores, sobre sentimentos e experiências que ele está tendo dentro ou fora da escola. Em outro momento da entrevista, foi questionado aos alunos se conheciam colegas que foram suspensos por problemas indisciplinares e por violência: 6 dos entrevistados conhecem alunos que já foram suspensos. Alguns dos entrevistados relatam os motivos da suspensão: “Um aluno pulou do muro e caiu em cima de uma criança” (aluno 2). “Um colega “xingou” o professor.” (aluno 5). As suspensões demonstram as atitudes que são tomadas pela direção, na intenção de disciplinar os alunos e assim diminuir e combater a violência. De acordo com Abramovay e Rua: Nas escolas, como em qualquer outro espaço institucional, existem comportamentos que são negativamente sancionados, mediante punições específicas, conforme as transgressões disciplinares. Na medida em que as punições são, na maioria das vezes, estipuladas de forma arbitrária, a escola pode ser um lócus privilegiado do exercício da violência simbólica. A violência, nesse caso, seria exercida pelo uso de símbolos de poder que não necessitam do recurso da força física, nem de armas, nem do grito, mas que silenciam protestos. E no ambiente escolar, com alta probabilidade, seria exercida não somente entre alunos, mas nas relações entre eles e os professores (ABRAMOVAY e RUA, 2002, p. 34). Outro ponto que revela a relação professor e violência, segundo os alunos, são os apelidos pejorativos que os professores, funcionários e outros alunos recebem dos colegas de escola. Normalmente esses apelidos têm ligação com algumas características dos professores e a forma como lidam com os alunos, e um mesmo professor pode receber diferentes apelidos20. Os apelidos, conforme os entrevistados, variam de apelidos por causa da forma física e pelo jeito que falam ou andam, e apelidos que ofendem. 20 Alguns apelidos são descritos pelos entrevistados como: general; careca; barrigudo; dedon entre outros. 58 6.3 Aluno e a violência Este último item mostra se o aluno sofre violência. No entanto, a entrevista procurou não expor o entrevistado. E dessa forma, como as demais perguntas tiveram a intenção de visualizar o aluno entrevistado diretamente relacionado com a violência. Sendo assim, foi perguntado aos alunos se eles, em algum momento na escola teriam recebido algum apelido pejorativo. Dos 10 alunos entrevistados, apenas 3 disseram que não receberam nenhum apelido pejorativo, mas 7 receberam, isto denota uma relação direta com a prática do bullying, que os alunos sofreram ao receberem apelidos “Eles já me chamaram de tucano e Luciano Huck.” (aluno 8 ). Os apelidos pejorativos têm, como já afirmamos uma relação direta com a prática de bullying, sendo a prática inicial para os atos mais agressivos. Segundo Silva, o inicio do bullying no ambiente escolar começa em ordem crescente: Com brincadeirinhas de mau gosto, que principalmente evoluem para gozações, risos provocativos, hostis e desdenhosos; Colocam apelidos pejorativos e ridicularizantes, com explicito propósito maldoso; Insultam, difamam, ameaçam, constrangem e menosprezam e subjugam seus pares; Perturbam e intimidam, utilizando-se de empurrões, socos, pontapés, tapas, beliscões, puxada de cabelos ou de roupas; Estão sempre se envolvendo entre alunos, ou entre alunos e professores. Pegam materiais escolares, dinheiro, lanches e quaisquer pertences de outros estudantes, sem consentimento ou até mesmo sob coação. (SILVA, 2010, p.50). Isso mostra a complexidade da violência no âmbito escolar, manifestando-se de várias maneiras e com diferentes personagens, fazendo com que seu combate se torne mais difícil. Outro ponto de destaque é a relação do aluno com as drogas, que, conforme os entrevistados, 4 deles tem colegas diretamente relacionados com seu uso. De acordo com os relatos, as drogas variam entre álcool, cigarro, maconha. O envolvimento de adolescentes com o uso de drogas deve ser também uma preocupação da escola, mesmo que o consumo não ocorra dentro dos limites escolares, mas a influência e os efeitos das drogas refletem dentro da 59 escola, como brigas de gangues rivais, alunos bêbados dentro da escola, causando também um déficit na sua aprendizagem. Abramovay descreve os perigos do uso de drogas por alunos: De fato, é necessário ter em mente que: (a) o consumo inclui drogas licitas e ilícitas e ambas as modalidades acarretam alterações dos estados de consciência, possibilitando resultados direta ou indiretamente prejudiciais aos indivíduos; (b), porém, não necessariamente o consumo de drogas está diretamente associado à violência, enquanto o tráfico está; e (c) por outro lado, embora os usuários de drogas possam ser mais vulneráveis negativamente à violência, esta pode atingir – e freqüentemente atinge – inclusive os que não usam drogas e que são adversários do seu consumo (ABRAMOVAY, 2003, p.55) Sendo assim, torna-se necessário que a escola e o poder público criem programas que conscientizem as crianças e os adolescentes com relação ao perigo do uso das drogas, pois, como já afirmamos, tem efeitos negativos no rendimento escolar. A escola deve estar aliada com as famílias, para que a eficiência do programa seja maior. Em conversas informais com os entrevistados, pode se perceber que o único programa ou projeto relacionado com a prevenção do uso de drogas e o bullying é o projeto da polícia militar PROERD21 (Programa Educacional de Resistência às Drogas), que é desenvolvido com alunos do quinto ou sétimo ano, das redes públicas e particulares de todo o Brasil, acontecendo uma vez na semana em um período de 4 meses em média e tem como objetivo envolver a polícia, a escola, a família e a comunidade na problemática das drogas e da violência. Entre os alunos entrevistados, alguns já passaram pelo projeto e outros estão frequentando, porém nota-se, que mesmo com o projeto os entrevistados afirmam que conhecem colegas que usam ou usaram drogas, sendo necessário repensar o projeto na necessidade de que a teoria seja a prática dos alunos a não usarem drogas. Diante de todos os relatos dos alunos entrevistados, verificou-se que a violência está muito presente no cotidiano escolar e que eles estão diretamente ligados a algum tipo de violência, seja ela física ou simbólica. O envolvimento dos alunos com a violência, está preocupando toda a comunidade escolar, como foi constatado nas entrevistas e nas expressões e aflições que os professores demonstravam. Os professores estão preocupados com a qualidade do aprendizado deles. Em que muitos momentos ficam prejudicados por situações adversas como: indisciplina, conflitos, brigas, falta de professores, e a violência. 21 Fonte: site: http://www.proerd.rn.gov.br/oquee.htm 60 Assim disso, a educação é a que mais tem a perder no complexo mundo da violência, em que o processo de ensino aprendizagem fica fragmentado, fragilizado e desvalorizado, principalmente quando os personagens desta história, professores, alunos, diretores e pais, não conseguem dar respostas a este problema que atinge a escola. 61 CONCLUSÃO O estudo sobre violência escolar chama a atenção pela sua complexidade e brutalidade diante dos fatos que se tem visto e ouvido dentro das escolas brasileiras. Logo, a pesquisa buscou identificar a violência e suas implicações no ambiente escolar, para que, por meio disso, possa-se pensar em medidas para combatê-la. Em consequência do que foi exposto outros objetivos foram definidos na intenção de melhor compreender a violência escolar, tais como: que medidas as escolas utilizam para combater a violência, e qual sua eficiência nesse processo? Durante a pesquisa, notou-se que a violência está mudando de forma rápida e agregando novos personagens, bem como pode ser percebida no contexto histórico e teórico. Alguns autores22 utilizados nesta pesquisa a compreendem como algo complexo, indefinido, variável e que tem como ponto de partida as relações sociais. As teorias que estudam a violência escolar e social visualizam-na diretamente relacionada com as relações sociais e a ruptura de normas e regras, gerando os conflitos, a indisciplina, e por fim, a violência, que é composta por todos estes tipos de relações. Nas entrevistas, observou-se que os professores e os alunos identificaram claramente a violência sendo vivenciada por meio das relações entre eles, gerando uma preocupação sobre a qualidade dessas relações que no momento atual não reflete as consequências que poderão em advir atos no meio escolar. Observou-se também, por meio das entrevistas, a falta de programas e projetos organizados pelas escolas pesquisadas, que previnam e combatam a violência. existe apenas alguns projetos realizados por outras entidades como a Polícia Militar (PROERD), com o objetivo de alertar os adolescentes sobre o consumo de drogas e a prática de bullying, e não especificamente contra a violência. Entretanto, poucos são os projetos diante de tanta violência, isso demonstra uma despreocupação das autoridades, que, com tantas notícias sobre a violência nas escolas, ainda negligenciam o problema. Desta forma, questiona-se: como a educação é percebida pelas autoridades? E perante tantos fatos, por que muitas escolas ainda não têm acompanhamento para combater a violência? As diferentes formas de violência que foram mencionados pelos entrevistados sugerem uma omissão da comunidade escolar, já que a violência está ganhando uma amplitude cada vez maior de agressão. Isso inquieta todo o meio escolar, onde todos são prejudicados, 22 Baston e Riston (2004), Santos (2002), Almeida (2008), Silva (2010), Pacheco (2008), Bourdieu, entre outros. 62 sobretudo os alunos, mesmo sendo, na maioria dos casos, os próprios agressores. Porém, diante de todo o processo educacional, os alunos são as maiores vitimas e os que mais têm a perder com a violência escolar, visto que isto afeta diretamente o aprendizado. Durante toda a pesquisa, percebeu-se a violência entrando de forma descontrolada nas escolas. Nota-se também que ela é gerada no seu próprio meio. Quando a violência é gerada dentro das escolas, revela que o papel social e educacional está fragmentado, ou seja, a escola não consegue lidar com situações sociais, como preconceitos étnico, religioso, social, revelando um problema ainda maior. Tais situações de preconceitos, podem vir a ser a motivação da violência, não conseguindo controlar as relações sociais de forma que respeitem padrões éticos e morais da sociedade. Em outros momentos da pesquisa, fica evidente que as práticas docentes, frente à violência, variam de acordo com o educador. Isso traz um grande prejuízo para o processo educacional, permitindo aos agressores que se utilizem dessa falha institucional para cometer atos violentos. Sendo assim, compreende-se que é necessário que as escolas criem normas internas que direcionem os educadores a terem os mesmos critérios ao lidar com o problema da violência. Compreende-se que a violência escolar é algo que infelizmente está longe de acabar, e muitos são os motivos para que aconteçam. Fatores como: professores desmotivados e que não sabem como lidar com as situações de violência, alunos que chegam à escola com problemas familiares, pais descontrolados, escolas em situações precárias com aspecto de abandono e principalmente projetos que não atendem à demanda de escolas em situações gravíssimas de violência. Isso pode-se observar nas entrevistas, na qual revela, que a violência escolar, não é algo específico de escolas da periferia, como se tinha a ideia, mas de todas as escolas, sejam escolas dos grandes centros urbanos às escolas do interior. Finalmente, é preciso que haja uma sensibilização de toda a sociedade e atitudes que solucionem um dos problemas mais complexos da educação, violência escolar. Diante de tantos problemas, faltam respostas para tantas perguntas que ainda intrigam a educação. Quem é responsável, por exemplo, para combater a violência escolar? Se a resposta for pais, professores, poder público, então o primeiro passo para enfrentar o problema já foi dado. 63 REFERÊNCIAS ABRAMOVAY. Escola e violência. Brasília: UDESCO, UCB, 2003. ABRAMOVAY, Mirian, RUA, Maria das Graças. Violência nas escolas. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001339/133967por.pdf>. Acesso em: 19 de set. de 2010. ALMEIDA, José Luciano Ferreiro. Violência escolar e a relação com o conhecimento e a prática docente. Enfrentamento à Violência/ Secretaria de Estado da Educação. Superintendência da Educação. Diretoria de Políticas e Programas Educacionais. Coordenação de Desafios Educacionais Contemporâneos. – Curitiba: SEED – Pr., 2008. - 93 p. – (Cadernos Temáticos dos Desafios Educacionais Contemporâneos, 4). ARTINOPOULOU, Vasso. A violência escolar na Grécia: panorama das pesquisas e estratégias de ação. In: DEBARBIEUX, Eric e BLAYA, Catherine (Org.). 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Você já presenciou discussões entre alunos X professores; professor X direção; aluno X direção? ( ) Sim ( ) Não ( ) Não sabe 8. Você já retirou aluno de sua classe, por indisciplina? 9. Você conhece algum(a) professor(a) que tenha tirado o aluno de sala por indisciplina? 10.No local onde você trabalha, tem algum grupo de apoio contra a violência escolar? 68 APÊNDICE 2 QUESTIONÁRIO PARA SER APLICADO AOS ALUNOS IDADE: SÉRIE: 1. Você já presenciou algum tipo de violência na escola ou próximo a ela? 2. Você conhece alguém que foi vítima de algum tipo de violência na escola, em casa ou em outro lugar? 3. Você conhece alguém que, por motivo de violência, agressão de colegas, violência familiar, agressão dos professores ou funcionários deixou de ir à escola? 4. Você conhece alguém que não foi à aula por motivo de algum tipo de violência? 5. Você já conheceu algum colega que tenha sofrido algum tipo de violência na sala de aula? O que aconteceu? 6. Conhece algum colega de sala de aula que a professora retirou da sala de aula? Qual o motivo? 7. Conhece algum colega que foi suspenso da escola por problema de indisciplina? 8. Já colocaram apelidos pejorativos em você? ( ) Sim ( ) Não ( ) 9. Você já ouviu alguém dizer que o colega, professor, funcionário era “gordo” ou “feio” ou “magrelo”, “idiota”, etc? ( ) Sim ( ) Não ( ) Não lembra 10. Você já ouviu colegas colocando apelidos pejorativos em outros colegas, professores ou funcionários? ( ) Sim ( ) Não ( ) Não Lembra 11. Conhece algum colega que usa ou já usou algum tipo de droga (álcool, cigarro, maconha, etc.)? 69 70 71 72 Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniqüidade e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o letígio se suscita. Por esta causa, a lei se afroxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida. Hc.1:2-4. RESUMO Partindo do pressuposto de que a violência escolar está relacionada diretamente com as relações sociais, o presente Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tem o objetivo de verificar a violência nas escolas e suas implicações, e compreender como se geram as relações. Os objetivos que orientam esta pesquisa são: identificação da presença da violência escolar através da perspectiva dos professores e alunos, percepção das ações socioeducativas nas escolas e a eficácia do seu objetivo e análise de como os professores e os alunos percebem a violência no cotidiano escolar. A pesquisa foi realizada com um grupo de 10 professores e 10 alunos, da rede pública e privada da Grande Florianópolis, mediante questionários aberto e fechado, permitindo aos professores e alunos relatar as vivências sobre violência, além da meticulosa pesquisa teórica sobre a violência escolar, que possibilita uma compreensão mais significativa acerca da temática. Palavras-chaves: violência escolar, ações públicas, professores, alunos. 73 LISTA DE QUADROS QUADRO1- Número de expulsões..........................................................................................19 QUADRO 2– Perfil do professor entrevistado....................................................... .................42 QUADRO 3– Perfil do aluno entrevistado ..............................................................................43 LISTA DE TABELA TABELA 1 – Alunos, por capitais das Unidades da Federação, segundo a percepção dos efeitos da violência sobre o desempenho escolar.....................................................................23 TABELA 2 - Alunos, por capitais da Unidades da Federação, segundo a percepção do impacto da violência na qualidade de ensino............................................................................24 TABELA 3- Alunos, por capitais das Unidades da Federação, segundo o que lhes desagrada na escola. ..................................................................................................................................24 74