Faculdades de Campinas Curso de Relações Internacionais Microcrédito como promotor de desenvolvimento social no Brasil: o caso do Banco Popular da Mulher de Campinas Alexandre Veauvy Campinas 16 de Novembro de 2011 i BANCA EXAMINADORA Data da realização do Exame: (28 / 11 / 2011) Horário: (16:00) Local: CERI - FACAMP Componentes da Banca Examinadora Professor Orientador: Marcelo Prado Ferrari Manzano Professor Convidado: Denis Maracci Gimenez Professor representante da Coordenação de Monografia: Marcus Horta ii Alexandre Veauvy Microcrédito como promotor de desenvolvimento social no Brasil: o caso do Banco Popular da Mulher de Campinas Monografia realizada sob a orientação do Prof. Marcelo Prado Ferrari Manzano, como requisito parcial para a conclusão do Curso de Relações Internacionais nas Faculdades de Campinas. Campinas 2011 iii Veauvy, Alexandre. V486m Microcrédito como promotor de desenvolvimento social no Brasil: o caso do Banco Popular da Mulher de Campinas / Alexandre Veauvy. – Campinas: [s.n.], 2011. 60f. Orientador: Marcelo Prado Ferrari Manzano. Monografia – Faculdades de Campinas, Faculdade de Relações Internacionais. 1. Microcrédito . 2. Microfinanças. 3. Política social. 4. Pobreza. I. Manzano, Marcelo Prado Ferrari. II. Faculdades de Campinas. Faculdade de Relações Internacionais. III. Título. CDD: 334 iv Dedico aos meus avôs Gilles Henri Duchêne e Marcel Veauvy v vi Agradecimentos Gostaria de agradecer a todos os professores da FACAMP que transmitiram um conhecimento de alta qualidade e possibilitaram a concretização desta monografia. Foram 4 anos de estudo que me prepararam para o porvir. Aos funcionários Banco Popular da Mulher pelo inestimável apoio que me forneceram ao longo do ano e permitiram a realização deste trabalho, especialmente meus agradecimentos ao José Carlos e à Sueli. Ao professor Marcelo Manzano pela orientação que me guiou neste trabalho, não somente pela sua objetividade e disposição em apontar o caminho, mas, também, pela autonomia que me permitiu aprender. vii viii Resumo O nascimento do microcrédito em Bangladesh com Yunus possibilitou alavancar a geração de renda entre a população pobre e marginalizada do sistema bancário tradicional. O sucesso de seu banco, o Grammen Bank, é incontestável quanto ao êxito que obteve em propiciar a muitos de seus clientes as condições para que construíssem um ambiente de estabilidade financeira, gerando benefícios para toda a família. A partir do sucesso logrado pelo microcrédito em Bangladesh, tal ferramenta passa a ser utilizada por vários países na esfera internacional, dentre eles o Brasil. Em solo brasileiro os primeiros ensaios microcrediários datam de 1973 com o Programa UNO na região Nordeste. A partir de então a matéria passou por uma profunda transformação por meio da criação de um arcabouço institucional próprio, fato que pode ser observado no Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (Lei 11.110/05), hoje pedra basilar na estruturação do microcrédito brasileiro. O trabalho foi dirigido para convergir no estudo de caso do Banco Popular da Mulher de Campinas. A análise desenvolvida sobre o Banco de microcrédito apresenta uma visão sobre a prática de uma instituição de microcrédito brasileira que não pode ser desvinculada do ambiente em que está inserida, a cidade de Campinas. Palavras Chaves 1.Microcrédito 2.Autossuficiência Econômica 3.Microfinanças 4.Política Social 5.Microempreendedorismo 6.Pobreza 7.Banco Popular da Mulher 8.Campinas ix Abstract The birth of microcredit in Bangladesh with Yunus enabled to leverage the generation of income among the poor and marginalized of the traditional banking system. The success of his bank, the Grameen Bank, is irrefutable as to its accomplishment in providing its various customers the conditions to build an environment of financial stability, generating benefits for the whole family. From the success achieved by microcredit in Bangladesh this tool starts being employed by several countries in the international sphere, including Brazil. In Brazil the first experience with microcredit date back to 1973 with the UNO Program in the Northeast. Since then this subject has passed through a profound transformation throughout the creation of a proper institutional framework that can be seen in the National Program of Productive Oriented Microcredit (Law 11.110/05), which represents today a cornerstone in the structure of microcredit in Brazil. The work was directed to converge in the case study of Banco Popular da Mulher of Campinas. The development of the analysis on this Bank of microcredit provides an insight into the practice of a Brazilian microcredit institution that cannot be dissociated from the environment in which it is inserted, the city of Campinas. Key words 1.Microcredit 2.Economic Self-Sufiency 3.Microfinanance 4.Social Policy 5.Microentrepeneurship 6.Poverty 7.Banco Popular da Mulher 8.Campinas x xi Sumário Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .IX Abstract . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . X Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 1. Considerações sobre o microcrédito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .5 1.1 Definição de microcrédito e termos relacionados. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 1.2 História do microcrédito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 1.3 Seleção adversa e risco moral. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 1.4 Subsídios. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10 1.5 Colaterais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11 2. Microcrédito no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .14 2.1 Economia brasileira. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .14 2.2 Surgimento do microcrédito no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19 2.3 Arcabouço legal. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .25 2.3.1 Organizações da Sociedade Civil e Interesse Público (OSCIP). . . . . . . . . . . . 26 2.3.2 Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCM). . . . . . . . . . . . . . . . . . .27 2.3.3 Cooperativas de Crédito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 2.3.4 Agências de Fomento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 3. Estudo de caso: o Banco Popular da Mulher. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 3.1 Campinas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30 3.2 Banco Popular da Mulher. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 3.2.1 Tipos de créditos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .33 3.2.2 Processo de tomada de crédito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 3.2.2.1 O comitê de crédito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .38 3.2.3 Avaliação das operações de crédito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .40 Conclusão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .45 Anexo A. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .47 Referências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .49 xii Introdução O embrião do microcrédito pode ser remetido a Muhammad Yunus, cidadão de Bangladesh e professor de economia da Universidade de Chittagong. Yunus, impulsionado pela miséria que aflorava em seu país, pensou em uma maneira alternativa de quebrar o ciclo da pobreza. Seu projeto começou na década de 70, e, auxiliado por alguns de seus estudantes, pesquisou qual era a real situação vivenciada pelos habitantes mais pobres da região. Neste levantamento de dados Yunus percebeu a razão da estagnação destas pessoas pobres: elas, não fornecendo garantias reais de que ao tomar um empréstimo de um banco convencional seriam capazes de honrar a dívida, recorriam a agiotas que cobravam uma taxa de juros diária abusiva. Neste contexto, essas pessoas marginalizadas do sistema bancário se tornavam dependentes dos agiotas que forneciam o meio de sua subsistência miserável. Yunus, em seu livro “Um mundo sem pobreza: a empresa social e o futuro do capitalismo”, explana como atacou a raiz do problema: diante da negação dos bancos para serem credores destas pessoas face ao risco de inadimplência, ele decidiu por ser o credor delas. Coletou a módica quantia de 27 dólares de seu próprio bolso e emprestou a 42 famílias (YUNUS, 2006, p.23-24) – aproximadamente 60 centavos de dólar por família. O resultado deste processo seria um marco na vida de Yunus que passa a se dedicar integralmente a causa de tirar os “mais pobres dos pobres” da pobreza: todos os devedores pagaram no prazo a quantia estipulada. Isto, na perspectiva de Yunus, decorre do fato destas pessoas serem pobres não por incompetência delas, mas por falta de oportunidades; logo, este pequeno empréstimo é uma oportunidade que elas agarram para que se desenvolvam econômico-socialmente (Idem, p.272-273). A partir desta experiência exitosa o microcrédito começa a dar seus primeiros passos. Lastreado em seu ensaio bem sucedido de pequenos empréstimos, Yunus funda o Banco Grammen na década de 70. A concepção do Banco foi pensada para almejar os seguintes objetivos: estender as facilidades bancárias para homens e mulheres pobres; 1 eliminar a exploração dos pobres pelos emprestadores de dinheiro; criar oportunidades de criar negócios próprios para a vasta população rural pobre de Bangladesh; alcançar os mais desfavorecidos, principalmente as mulheres das famílias mais pobres, de modo que eles possam se adequar dentro de um formato organizacional que seja possível eles compreenderem e gerenciarem por si só; e inverter o círculo vicioso de velhice de "baixa renda, baixa poupança e baixo investimento”, em círculo virtuoso de "baixa renda, injeção de crédito, investimento, mais renda, mais economia, mais investimento, mais renda”. Segundo as informações disponibilizadas pelo Banco, seu controle acionário está nas mãos da população rural: 90% das ações pertencem aos tomadores de empréstimo e 10% ao governo (GRAMMEN BANK, 2010). É importante destacar que o microcrédito não é uma ação pontual e isolada, ele faz parte de um conjunto de ações que visam impactar socioeconomicamente. Gimenez expõe que o sentido das políticas públicas observado no pós-guerra, em especial as políticas de emprego, foi alterado a partir da década 70. A ascensão de governos conservadores nos países centro – Reagan em 1980 (EUA), Thatcher em 1979 (Grã Bretanha) e Khol em 1983 (Alemanha) – marcou o rompimento do compromisso do pleno emprego em favor de políticas monetárias restritivas que visavam o controle inflacionário (GIMENEZ, 2003, p.82). Neste contexto, segundo o autor, as políticas governamentais de fomento de emprego vão transmutar de um compromisso político de pleno emprego e plena incorporação social para estratégias que visam garantir os direitos sociais básicos, como a de renda via seguro-desemprego (Idem, p.90-91). A relação das políticas de emprego com o microcrédito e sua inserção na esfera brasileira é descrito por Shanna Nogueira Lima (LIMA, 2009, p.47). Segundo a autora, o fato de haverem experiências exitosas do uso do microcrédito no campo internacional, em conjunção com a percepção da insuficiência das medidas clássicas de Política Pública de Emprego, gerou um ambiente favorável para a utilização de programas de microcrédito por países em desenvolvimento como estratégia de fomento ao emprego e renda. De acordo com a perspectiva de Nogueira da Costa, a adoção do microcrédito no Brasil tem certas peculiaridades que se contrapõe ao caso vivenciado pelo Banco Grameen em Bangladesh (COSTA, 2010, p.3-4). Na visão do autor, o microcrédito brasileiro estaria associado aos “bancos do povo”, o qual não pretende ser um banco de aldeia como o Banco Grammen, no qual os agentes de crédito vão até seus potenciais tomadores de empréstimo; aqui, apesar de termos a mesma conjuntura de Bangladesh 2 no aspecto que condiz a presença majoritária dos indigentes no campo, os bancos de microcrédito se concentram nas grandes cidades e aguardam que seus potenciais devedores venham até eles. Segundo Bittencourt, dentre os objetivos das políticas de microcrédito e microfinanças no Brasil está a facilitação e ampliação do acesso ao crédito entre os microempreendedores formais e informais com a finalidade de gerar renda e trabalho, a ampliação do acesso aos serviços financeiros pela população de baixa renda e a redução das taxas de juros no financiamento. A fim de concretizar tais objetivos, o governo ampliou a quantidade de agentes financeiros responsáveis pela população de baixa renda, alterou a regulamentação para facilitar a atuação das instituições financeiras junto a população de baixa renda, adaptou os produtos e serviços financeiros à realidade do público de baixa renda e microempreendedores formais e informais, e aumentou as fontes de financiamento para o crédito popular e produtivo (BITTENCOURT, 2005, p.8-11). A questão que se colocava premente com o desenvolvimento do microcrédito era como torná-lo uma ferramenta auto-sustentável, que não recaísse em uma política assistencialista de governo. O resultado foi a inovação das metodologias de organização e cobrança do crédito, tal qual o aval solidário1: forma de constrangimento social no qual o tomador de empréstimo faz parte de um grupo que se avaliza mutuamente; desta forma, o grupo se auto-fiscaliza para evitar a inadimplência e a revogação do empréstimo (LIMA, 2009, p.52-53). Neste contexto, Nogueira da Costa aponta que a revolução financeira de Yunus “foi dar crédito ao trabalho, quando sempre se deu ao capital” (COSTA, 2010, p.3). Nesta conjunção de fatores foi fundado, em 2002, o Banco Popular da Mulher no Município de Campinas na qualidade de uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Visando abarcar um maior portfólio de clientes o banco disponibiliza três linhas de crédito: Semear, caracterizada por privilegiar as mulheres e apresentar juros reduzidos; Crescer, destinada aos empreendimentos já estruturados e que não preenchem os requisitos da linha Semear; e Cooperar, voltada aos grupos de trabalhadores em regime de auto-gestão (BANCO POPULAR DA MULHER, 2010). O Banco Popular da Mulher prioriza a concessão de crédito ao gênero feminino em função da perspectiva tradicional das mulheres serem o alicerce da constelação 1 Uma das inovações responsáveis pelo sucesso do Banco Grameen, que hoje empresta a 7 milhões de pessoas (YUNUS, 2008, p.239) 3 familiar, prontas a sobrepujar as suas necessidades em prol de seus filhos. A busca pelo maior ganho social possível, visível na priorização das mulheres quando na concessão de empréstimos, pode também ser observada no alinhamento do Banco aos princípios do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (Lei nº 11.110/05), que rege o direcionamento dos recursos às camadas da população que garantam maior retorno social e não aos setores que garantam maiores taxas de retorno financeiro (BANCO POPULAR DA MULHER, 2010). O objetivo deste estudo é desenvolver o tema do microcrédito visando analisar o Banco Popular da Mulher do município de Campinas. Destarte, o estudo foi trabalhado em prol de fornecer ao leitor as informações necessárias para compreender o estudo de caso, e não se propõe a extinguir as variadas formas de expressão do microcrédito e muito menos apresentar debates ideológicos que envolvem o tema. Partindo da conceituação do microcrédito o estudo busca prover um esboço da matéria, contextualizando as primeiras experiências microcrediárias e sua inserção em solo brasileiro a fim de concretizar o estudo de caso do Banco Popular da Mulher. 4 1. Considerações sobre o microcrédito O capítulo tem por objetivo introduzir o leitor no universo do microcrédito, partindo de conceituações básicas como o que se pode entender por microcrédito até, por meio do aprofundamento do tema em discussões como a seleção adversa e os subsídios, desenvolver o assunto apresentando as metodologias empregadas nos empréstimos microcrediários. 1.1 Definição de microcrédito e termos relacionados A dificuldade na compreensão do microcrédito está vinculada ao lapso de consenso quanto à sua definição. O Banco Grammen já alerta quanto a infinidade de formas que o microcrédito pode assumir dados o tamanho do empréstimo, o público alvo e as regulamentações que variam de país para país. Não é do intento deste estudo capturar os diversos contornos que o microcrédito pode adotar, mas prover ao leitor uma abordagem ampla do que é compreendido com o termo microcrédito. Destarte, a priori, o conceito do microcrédito pode ser entendido a partir da ótica da conferência global do Microcrédito (Microcredit Summit 2007): “pequenos empréstimos à população muito pobre, para trabalhar por conta própria, permitindo gerar renda para seu sustento e de suas famílias” (BARONE & SADER, 2008, p.1250). O economista Marcelo Neri, que define o conceito de microcrédito como “empréstimos de baixo valor concedidos a pessoas de baixa renda” (NERI, 2008, p.29), apresenta o microcrédito como uma matéria do domínio das microfinanças. As microfinanças abarcariam uma variedade de serviços financeiros dentre os quais o microcrédito está incluso, também tendo destaque as micropoupanças, os microseguros, as remessas de imigrantes e o crédito imobiliário, tendo por finalidade “aumentar a capilaridade do sistema financeiro nos seus diversos segmentos, dando ênfase especial ao crédito, e também à poupança e ao seguro” (Idem, p.30). A funcionalidade das instituições de microfinanças reside no fornecimento de serviços financeiros às pessoas marginalizadas do setor bancário formal, tendo como principais clientes os microempreendedores (Idem, p.29-30). Sob a perspectiva de Marcelo Neri, os microempreendedores são aqueles que realizam atividades econômicas independentes com pouco capital (NERI, 2008, p.30). 5 O autor ainda apresenta que esses nanonegócios, por serem informais ou familiares, muitas vezes não possuem os requisitos legais como documentação ou salário regularizado, que seriam a base das garantias exigidas pelas instituições bancárias tradicionais. As instituições de microfinanças contemplariam esses indivíduos graças ao desenvolvimento de tecnologias de sistemas e métodos de gerenciamento de risco, uma vez que são reduzidos os custos de transação de pequenos empréstimos e os custos fixos unitários (alto quando com pequenos empréstimos), permitindo fornecer um serviço financeiro sustentável (Idem, p.30). Finalmente, cabe apresentar a definição do Microcrédito Produtivo Orientado. Os autores Francisco Marcelo Barone e Emir Sader apresentam tal conceito como “um crédito especializado para um determinado segmento da economia: os micro e pequenos empreendimentos, formais e informais”, destinado a “negócios de pequeno porte, gerenciados por pessoas de baixa renda”, não sendo utilizado para financiar o consumo (BARONE & SADER, 2008, p.1250). Composição das microfinanças no Brasil Microfinanças Microcrédito Microcrédito Produtivo Orientado Fonte: (BARONE & SADER, 2008, p.1250, In: ALVES & SOARES, 2004) Como pode ser observado na figura, o campo das microfinanças engloba as práticas microcrediárias, dentre as quais figura o microcrédito produtivo orientado, viabilizado pela Lei 11.110/05 no âmbito do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO) 2. 2 O PNMPO que foi instituído pela Lei 11.110/05 tem como objetivos gerais: o incentivo aos microempreendedores populares (pessoas jurídicas e físicas empreendedoras em atividades produtivas de pequeno porte – renda bruta anual até R$ 120 mil) na geração de trabalho e renda; disponibilizar recursos para o microcrédito produtivo orientado (crédito concedido visando o atendimento financeiro deste público por meio do relacionamento direto com os empreendedores no local de execução da atividade econômica); e o fornecimento de apoio técnico às instituições de microcrédito produtivo orientado, 6 1.2 História do microcrédito A prática de conceder pequenos empréstimos a públicos vulneráveis pode ser encontrada desde o século XV, quando na Inglaterra eram realizados empréstimos a determinados grupos com reduzidas taxas de juros por meio de fundos de caridade (LIMA, 2009, p.51). No século XIX se desenvolveram os fundos Irlandeses e as cooperativas de crédito na Alemanha que vão espelhar a criação de instituições parecidas no resto do mundo. É somente a partir de meados do século XX que o microcrédito inicia seu percurso de visibilidade internacional com a multiplicação de experiências lideradas em sua maioria por Organizações Não Governamentais (ONGs). Segundo Lima (Idem, p.52), a diferença entre estas novas experiências com as anteriores reside no diferencial tecnológico operacional e financeiro especifico, mais adaptado ao público alvo. Apesar de haverem sido desenvolvidas, antes do século XX, experiências similares às operações de microcrédito, este estudo somente considera como microcrédito as experiências travadas após o desenvolvimento do Grammen Bank na década de 70 – entendido como um marco teórico. A trajetória do microcrédito no século XX pode ser observada em Gimenez, que apresenta essa questão em um contexto mais amplo por meio de um conjunto de ações que visavam impactos socioeconômicos. O autor aborda como a mudança dos compromissos firmados no pós-guerra, a partir de meados dos anos 70, transformou o sentido das políticas públicas, mais especificamente, as políticas de emprego (GIMENEZ, 2003, p.90). Segundo ele, a crise gerada no seio do mundo capitalista colocou em xeque as premissas do welfare state, implicando na redução das taxas de crescimento nacionais e elevação do desemprego, pressionando o aparato de proteção social pelo lado do aumento do número da demanda de serviços sociais e pelo lado do financiamento – dado os persistentes déficits públicos. Nesta conjuntura governos conservadores foram eleitos nos países centro, tais quais Reagan em 1980 (EUA), Thatcher em 1979 (Grã Bretanha) e Khol em 1983 (Alemanha), consolidando o rompimento do compromisso do pleno emprego em favor de políticas monetárias restritivas que visavam o controle inflacionário – fato que acarretou em um baixo desempenho do PIB no decorrer das décadas seguintes (Idem, p.82). É neste espectro almejando seu fortalecimento institucional para a prestação de serviços aos empreendedores populares (Cf. Ministério do trabalho e emprego, 2010). 7 que vão se inserir políticas governamentais de fomento de emprego, que transmuta, segundo Maracci, de um compromisso político de pleno emprego e plena incorporação social para estratégias que visam garantir os direitos sociais básicos, como a de renda via seguro-desemprego – devido a tal mudança de sentido, o autor passa a denominar esta nova política de emprego de políticas liberais de emprego (Idem, p.91). Do ponto de vista de Lima (LIMA, 2009, p.47), a percepção da insuficiência das medidas clássicas de Política Pública de Emprego aliada a experiências exitosas do uso do microcrédito no campo internacional propiciou um ambiente favorável para a utilização de programas de microcrédito por países em desenvolvimento como estratégia de fomento ao emprego e renda. Os empreendimentos de sucesso inspiraram o surgimento de novas Instituições microfinanceiras (IMFs) que se aproveitaram das tecnologias já desenvolvidas, reformulando e criando novas conforme as suas necessidades (Idem, p.52). Na perspectiva brasileira Marcelo Neri aponta que nas últimas décadas do século XX vários Estados decidiram apoiar iniciativas de provimento de crédito aos menos favorecidos, com ênfase na área rural (NERI, 2008, p.27). Segundo a visão do autor, a estratégia de subsidiar o crédito – período que abrange os anos de 1950 a 1980 – foi um grande fracasso devido à corrupção, ineficiência e as taxas subsidiadas que acabaram por resultar em custos crescentes de subsídios, alta taxa de inadimplência cooptação dos benefícios pelos politicamente mais favorecidos e, por conseguinte, o racionamento de crédito3 (Idem, p.27). Segundo o autor o ponto de inflexão deste cenário se deu com o Grammen Bank (Idem, p.28). Fundado na década de 70 em Bangladesh, o Grammen Bank já alcançou mais de 7 milhões de pobres, com um giro financeiro de mais de 6 bilhões de dólares desde sua inauguração e com um uma taxa de liquidação de 99% (YUNUS, 2008, p.239-240). O mentor criador deste banco foi Muhammad Yunus, que, buscando alternativas para quebrar o ciclo da pobreza, compreendeu o problema: as pessoas muito pobres não conseguiam aceder ao sistema financeiro tradicional por não apresentarem garantias reais de que honrariam as dívidas contraídas; por conseqüência estas pessoas tinham que recorrer à margem do sistema, aos agiotas, que cobravam altíssimos juros diários que impossibilitavam o crescimento sustentável do pequeno tomador de empréstimo. O 3 O argumento delineado por Neri não reflete o conjunto das opiniões que discorrem sobre a questão dos subsídios e traz polêmica e discordância; existem aqueles que enxergam os subsídios como uma ferramenta que transborda ações imediatistas e pontuais, onde a concretização de tais políticas vislumbra um desdobramento social que transcende assunções como a realizada por Neri. 8 microcrédito, segundo Yunus, permitiria aos muito pobres escapar desta dependência dos agiotas e forneceria uma base para um crescimento sustentável do tomador de empréstimo. Segundo Neri, as contribuições do Grammen Bank repousam no campo metodológico das microfinanças: [...] a utilização de empréstimos solidários como mecanismo de seleção de tomadores e garantias, volumes de empréstimos adaptáveis e com termos sazonais, a visão de um banco proativo que “vai em direção às pessoas” e a utilização de micropoupanças e microseguros como parte da gama de produtos oferecidos (NERI, 2008, p.28). O autor também relata outras experiências pelo mundo como o Bank Rayat na Indonésia que desenvolveu mecanismos de incentivos aos funcionários do banco concomitantemente a um modelo de gerenciamento de sistema de informação simples e sem computadores. No subcontinente sulamericano, a primeira experiência microcrediária foi a do Projeto Uno, em Recife, baseado no princípio de que a seleridade na aprovação e desembolso de empréstimos a priori é mais relevante para os tomadores do que a taxa de juros em si e logo foi seguido por tantos outros como o Fedecrédito em El Salvador; Caja Los Andes, BancoSol, Prodem, Sartawi e FIE na Bolívia; Cajá Social na Colômbia; Adopem na República Dominicana; Compartamos no México; Financiera Calpiá em El Salvador; MiBanco no Peru; e CrediAmigo no Brasil (NERI, 2008, p.2829). 1.3 Seleção adversa e risco moral O vínculo entre o credor e devedor é marcado por uma assimetria de informação concatenando dois problemas principais: seleção adversa e risco moral (moral hazard) (NERI, 2008, p.30-32). A seleção adversa trata sobre o desconhecimento do emprestador quanto à responsabilidade do tomador, à sua honestidade, ao risco ao qual o tomador pode se sujeitar antes da concessão do crédito (ex ante). O risco moral versa sobre a falta de informação do emprestador sobre as futuras ações do tomador, ou seja, ao seu comprometimento após que o empréstimo foi concedido (ex post). Stiglitz e Weiss (1981) apresentam que o retorno do banco não acompanha sempre o crescimento da taxa de juros, uma vez que em um dado ponto, a elevação da taxa de juros implica na 9 redução da qualidade média dos tomadores, atraindo tomadores mais propensos a assumir grandes riscos e a realizar empreendimentos mais ariscados, diminuindo a taxa de adimplência em razão tanto do risco moral quanto da seleção adversa (Idem, p.31, In: Stiglitz & Weiss, 1981). Caso para o ponto em que o retorno do banco seja máximo houver mais demanda do que oferta de crédito, haverá racionamento de crédito mesmo que haja agentes dispostos a pagar uma taxa de juros maior. 1.4 Subsídios Um tema de muita discussão no domínio do microcrédito está relacionado a se o crédito deve ou não ser subsidiado. Marcelo Neri apresenta o estudo realizado por Robinson (1988-1995) que demonstra que a demanda por microcrédito é pouco sensível a alterações na taxa de juros; ou seja, pequenas alterações nos juros não influenciam no valor contraído pelo tomador (NERI, 2008, p.39-40, In: Robinson, 1988-1995). Destarte, o crédito subsidiado não seria a solução, senão o problema uma vez que levaria ao racionamento deste crédito por ser de volume limitado. Outro problema destacado por Neri versa que as instituições acobertadas por créditos subsidiados estão menos aptas a sustentabilidade devido aos parcos incentivos a eficiência. Segundo o autor, uma maior demanda pelo crédito do que o ofertado incentivaria a corrupção dos funcionários que passariam a cobrar dinheiro pela liberação do empréstimo; soma-se a este problema o desvio do caminho do empréstimo que não chegariam às mãos dos mais necessitados. A visão de Neri de que os subsídios não são a solução, mas a perdição do sistema crediário não corrobora com a realidade. Inicialmente ao afirmar que os subsídios levariam a ineficiência dos provedores de crédito e à corrupção de seus funcionários, Neri não leva em conta a vasta experiência de sucesso trilhada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). Fundado em 1952, o BNDES é um instrumento federal para o financiamento de longo prazo de todos os segmentos da economia, com destaque para as áreas de infraestrutura, agricultura, indústria, comércio e serviços. As condições de financiamento conferidas pelo banco se estendem as micro, pequenas e médias empresas; o valor concedido e o prazo de carência variam de acordo com o segmento econômico. Afirmar que os subsídios levam a ineficiência e corrupção é desacreditar e ignorar os efeitos positivos desencadeados pelo BNDES. O que se 10 pretende comprovar com este exemplo não é o caso de não haver ineficiência ou mau uso do dinheiro público, mas que estas ocorrências não têm uma relação direta com os subsídios, elas são independentes. 1.5 Colaterais A questão que fica pendente é como compelir aos beneficiários do microcrédito a honrarem o compromisso da dívida uma vez que eles não apresentam nenhuma garantia para tomar o empréstimo e não têm nada a perder se o empreendimento fracassar. Neste contexto foi necessário inovar e desenvolver novas tecnologias para que os programas de microcrédito lograssem sucesso. Marcelo Neri apresenta que devem ser superados dois problemas: “a) o alto custo operacional das pequenas operações; e b) a falta de garantias e de informações (curtas historias de crédito) e dificuldades de monitoramento” (NERI, 2008, p.35). Empréstimo solidário. Neri, que aponta esta inovação como a contribuição mais importante para o domínio do microcrédito, explana que o empréstimo solidário versa sobre o empréstimo não a um indivíduo, mas a um grupo de indivíduos que se torna conjuntamente responsável por seu pagamento (NERI, 2008, p.35-37). Neste caso as pessoas do grupo são constrangidas pelo chamado colateral social, no qual os indivíduos são monitorados e constrangidos pelo seu próprio grupo para honrar a dívida. O sucesso desta inovação também reside no fato das pessoas do grupo conhecerem os indivíduos com os quais estão se associando, seus limites e deficiências, muito melhor que os agentes de crédito exteriores à comunidade dirimindo os problemas de assimetria informacional. Na prática, o empréstimo que é destinado em conjunto ao grupo é dividido entre os diversos membros que aplicam sua parte em empreendimentos diversos. Como a natureza dos empreendimentos é distinta, também o é seu retorno; logo, como existe uma responsabilidade mútua pelo empréstimo, caso algum empreendimento fracasse ele é compensado por outro que é bem sucedido, dirimindo os riscos do emprestador quanto aos tomadores. Neste modo de empréstimo é corrente indivíduos de perfis semelhantes se associarem em um grupo, ou seja, tomadores que não gostam de tomar risco formam um grupo mitigando o problema da seleção adversa [...] por permitir aos bancos cobrarem taxas diferenciadas de grupos diferenciados, de acordo com sua capacidade de repagamento, o que 11 ajuda a gerar altos índices de adimplência e taxas de juros menos elevadas, aumentando o bem-estar social (NERI, 2008, p.37). Incentivos dinâmicos. Esta inovação condiz à realização de empréstimos crescentes condicionado pelo pagamento das parcelas anteriores no prazo estipulado; caso a parcela não seja paga é bloqueado os futuros empréstimos (NERI, 2008, p.3738). Iniciando a relação com pequenos empréstimos é possível testar o tomador, filtrando e eliminado os maus pagadores. Outro fator destacado por Neri é o fato da importância de não haver um fim definido neste tipo de relação para não incentivar o calote no último período. Calendário de pagamentos regulares. Na grande maioria dos programas de microfinanças o pagamento do empréstimo se inicia após um breve período do desembolso e de forma regular, diversamente do modelo tradicional que o retorno dos bancos se da pelo recebimento dos juros no final do ano (NERI, 2008, p.38). As vantagens deste modelo segundo Neri são a filtragem dos bons pagadores, o retorno do dinheiro antes que este seja consumido, e, finalmente, como em geral a primeira parcela recai antes do retorno do investimento no empreendimento, é necessário que o tomador já tenha uma renda inicial, resultando em um risco menor de inadimplência para o banco, uma vez que o pagamento não estará condicionado somente ao retorno sobre o empreendimento. Foco nas mulheres. Os fatores que colocam as mulheres no centro dos programas de microcrédito, segundo Neri, são: menor mobilidade, reduzindo o risco da fuga com o dinheiro; em algumas culturas são tratadas com um status social inferior aos homens, logo o microcrédito poderia reduzir a desigualdade entre os sexos; parecem ser mais sensíveis a punições sociais; o investimento nas mulheres tem maior transbordamento sobre a família uma vez que pesquisas apontam esse gênero como o mais preocupado no investimento educacional e da saúde dos filhos (NERI, 2008, p.3839). Esses fatores fazem da mulher um alvo preferencial para o destino não só do microcrédito, mas também de outros programas sociais promovidos pelo governo. Como decorrência lógica a mulher tem sua responsabilidade familiar aumentada, uma vez que grande parte do orçamento doméstico está sob seu poder. Destarte, o que se observa é uma sobrecarga de responsabilidades sobre a mulher, que além de ter que arcar com as tarefas domésticas, agora se ocupa das tarefas tradicionalmente realizadas pelo homem. 12 Contato direto e pessoal dos agentes. Neri coloca como um dos principais diferenciais do programa de microcrédito para o sistema de fornecimento de crédito tradicional o contato pessoal e direto entre o funcionário da instituição emprestadora e o cliente (NERI, 2008, p.39). Os funcionários e seus clientes estabelecem uma relação de longo prazo, uma vez que são aqueles os responsáveis por apresentar o microcrédito a seus potenciais clientes e acompanhar todo o percurso do empreendimento, desde o desembolso até o pagamento. O desempenho do empreendimento pode ainda servir como incentivo também ao funcionário, podendo ser bonificado de acordo com o resultado. Um dos segredos do sucesso do microcrédito é a lealdade dos clientes conseguida pela confiança das instituições na sua clientela e pelos bons serviços fornecidos a ela (NERI, 2008, p.39). Em suma, este estudo parte das experiências do Grammen Bank para discorrer sobre o microcrédito e explana que, em função da alta variabilidade na compreensão do termo, tomará como base a definição atribuída na conferência global do Microcrédito (Microcredit Summit 2007). Finalmente é importante ressaltar que o tema está circundado por debates que visam moldar a aplicação de tal ferramenta. O modo como o microcrédito se insere no contexto brasileiro será analisado no capítulo a seguir. 13 2. Microcrédito no Brasil Com vistas a discorrer sobre a inserção do microcrédito no Brasil, o capítulo apresenta as principais características da economia brasileira a partir da década de 70, quando experiências de concessão de pequenas quantias começam a surgir no país, convergindo para a evolução do tema tendo-se em conta a construção de uma arquitetura jurídico-institucional que serve de apoio para o seu desenvolvimento. 2.1 Economia brasileira A fim de compreender como o microcrédito se insere e se desenvolve no Brasil é necessário entender o ambiente político-econômico vigente no país. Logo, não só é premente esboçar as características do Brasil na fase inicial de inserção das microfinanças, mas também o conjunto das ações políticas do Estado brasileiro ao longo dos anos que tiveram reflexos econômicos e assim possibilitaram criar um ambiente particular no qual o microcrédito se expandiu. O objetivo de tal exercício não é esmiuçar os detalhes da economia brasileira, mas sim fornecer uma visão geral e abrangente das principais características econômicas do país que abarque o período em que são realizados os primeiros ensaios com microcrédito até a atualidade. A prática de concessão de pequenos empréstimos a pessoas físicas começa a dar seus primeiros passos no Brasil na década de 70, mais especificamente no ano de 1973, ano que marca o fim do “Milagre Econômico” brasileiro (1968-1973). Perpetuado durante o regime militar (1964-1985), o que se entende por milagre econômico foi um período de grande e constante crescimento do PIB e da produção industrial brasileira levado a cabo graças a um cenário de grande liquidez internacional4. Para a consecução do plano, que teve como reflexo a manutenção de taxas de crescimento acima de 10% ao ano, o Brasil iniciou um percurso de endividamento externo que, na década de 80, iria desaguar na crise da dívida (MARQUES, 2006, p.119). Apesar de o plano proporcionar um alto crescimento no conjunto da economia brasileira, em uma análise mais detida há de se reparar que houve um agravamento de questões sociais, dado que a pujança econômica foi vivenciada de modo desigual entre os diferentes estratos sociais que compõem a sociedade brasileira, onde as classes mais 4 Cenário de grande disponibilidade de capitais. 14 abastadas concentraram grande parte dos ganhos em detrimento de um crescimento equilibrado e equitativo (MARQUES, 2006, p.119). Destarte, é possível afirmar que houve um crescimento econômico no período, mas não um desenvolvimento econômico sendo este último compreendido como uma melhora qualitativa das condições de vida da maioria da população (Idem, p.125). O período do milagre econômico teve como efeito o agravamento de questões estruturais da economia brasileira que não foram superadas, tal qual a dependência em relação ao capital internacional5 (MARQUES, 2006, p.119). A economia brasileira começa a perder o dinamismo do crescimento com a alteração do cenário internacional: o choque do petróleo em 1973 lançou as bases para a inflação e a recessão mundial (OLIVA, 2010, p.66). Com vistas a enfrentar as mudanças no campo internacional, o regime militar lança o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que perdura de 1975 a 1979 (Idem, 2010, p.66-67). O II PND foi a solução encontrada pelo regime militar para legitimar sua posição no poder, via a manutenção de altas taxas de crescimento, em um cenário em que os êxitos econômicos dependiam da superação dos estrangulamentos estruturais da economia brasileira (MARQUES, 2006, p.132-133). O plano, cujo foco residia na solução da crise energética do país e na superação de sua condição de país subdesenvolvido, propunha em linhas gerais que fizéssemos uma “fuga para frente”: um aumento provisório dos déficits comerciais e da dívida externa seria compensado pela construção de uma estrutura industrial avançada que possibilitaria superar a crise e o subdesenvolvimento (Idem, p.133-134). Durante o II PND houve um crescimento econômico, porém inferior àquele constatado durante a vigência do “milagre econômico” 6 (MARQUES, 2006, p.138). O plano, que tinha a empresa estatal como ator central, enfrentou seu limite no fato de lidar com um curto prazo para objetivar suas pretensões, em um cenário incompatível com a realidade econômico-político do país e ainda agravado por uma conjuntura externa adversa (Idem, p.136). O II PND não conseguiu solucionar os problemas estruturais que afligiam a economia brasileira, e ainda expôs a fragilidade econômica do país, onde, a partir de 5 A carência de um financiamento autônomo brasileiro em projetos de desenvolvimento nacionais foi mais uma vez posta em evidência com o II Plano Nacional de Desenvolvimento – tal fato pode ser observado, por exemplo, na consecução de obras como Itaipu, Sobradinho e para extração de ferro em Carajás (Cf. OLIVA, 2010, p.67). 6 O crescimento econômico brasileiro caiu pela metade no II PND quando comparado ao período do milagre. 15 então, a inflação7 avança em uma trajetória de constante aumento. O plano de crescimento implementado pelo regime militar subestimou o desdobramento do cenário internacional em crise, fato que permitiu a sustentação do crescimento econômico e manutenção de uma alta taxa de investimento na economia incompatível com a realidade mundial, agora agravada pelo segundo choque do petróleo em 1979 e pela elevação da taxa de juros mundial propugnada pelo Federal Reserve no intento de fortalecer o dólar (OLIVA, 2010, p.67). A década de 80 é conhecida como a “década perdida”, uma vez que foi caracterizada pela queda dos investimentos e da taxa de crescimento do PIB, pelo crescimento das dívidas interna e externa, e pela ascensão da inflação (MARQUES, 2006, p.142). No campo político as mudanças que transcorreram foram também um reflexo da economia em crise, fato que culminou no fim do regime militar em 1985 e início da Nova República (Idem, p.142). Nos primeiros anos da década de 80 o Brasil atravessou uma recessão que perdurou de 1981 a 1983, que foi alimentada pela tentativa de Delfim Netto de reeditar o milagre econômico em 1979, apesar da conjuntura externa desfavorável (MARQUES, 2006, p.144). Os efeitos econômicos da política de Delfim resultaram, em um primeiro momento, em um vigoroso crescimento econômico seguido por uma brusca queda do PIB: de uma taxa de crescimento de 9% em 1980, o Brasil passou a uma recessão de 3% no ano que se seguiu (Idem, p.145). A retomada do crescimento brasileiro ocorrerá em 1984 em função da recuperação da economia americana (MARQUES, 2006, p.150). As exportações brasileiras aumentaram assim como a renda agrícola, beneficiados pela alta nos preços dos produtos primários, repercutindo na compra de insumos e maquinários8 (Idem, p.150). Nos anos que se seguiram, de 1984 a 1986, o país voltou à rota do crescimento, ainda que calcado no consumo, e conseguiu reequilibrar a balança comercial em função da desvalorização cambial (Idem, p.169). Nos anos que se seguiram a 1986 uma série de planos que visavam combater a inflação começaram a aflorar no cenário econômico brasileiro: Plano Cruzado (1986), Plano Bresser (1987), Plano Verão (1989), Plano Collor (1990) e Plano Real (1994) – o plano que apresentou melhores resultados quanto ao combate da inflação foi o Plano Real. 7 8 É importante destacar que a inflação impulsionou a especulação financeira. O crescimento do PIB em 1984 foi de 5,4% (Cf. MARQUES, 2006, p.150). 16 O esforço da década de 80 recaiu sobre o combate a inflação aliado a políticas que visavam gerar superávit comerciais (fruto da necessidade de gerar divisas em dólar em função da dívida externa), incentivando as exportações concomitantemente a contenção das importações sendo principalmente utilizado medidas não tarifárias (MARQUES, 2006, p.207). A década de 90 foi marcada pela abertura comercial brasileira intensificada no governo Collor (1990-1992) e pelo sucesso na estabilização econômica com o Plano Real em 1994. A abertura comercial promovida na década de 90 estava em consonância com o Consenso de Washington, que teve um dos resultados a produção de uma série de medidas liberalizantes que foram sugeridas aos países em desenvolvimento (MARQUES, 2006, p.202). Desenhado como resposta do pensamento econômico conservador à crise do modelo desenvolvimentista – que, segundo esse mesmo pensamento, tinha na excessiva intervenção do Estado e na liberalidade do gasto público direcionado ao atendimento das demandas sociais os fatores estruturais determinantes do descontrole fiscal e da inflação –, esse receituário, em sua versão original, incluía algumas diretrizes básicas: disciplina fiscal, mudanças nas prioridades do gasto público, reforma tributária, desregulamentação da atividade econômica, abertura comercial, privatização, liberalização do investimento direto estrangeiro, taxa de juros determinada pelo mercado, taxa de câmbio competitiva determinada pelo mercado e garantia do direito de propriedade (OLIVA, 2010, p.78). Quanto à inflação, seu combate mais consistente foi realizado pelo Ministro da Fazenda do Presidente Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso com o Plano Real 9. O sucesso do Plano garantiu a Cardoso a presidência da república nas próximas eleições (1994). Apesar de o Plano Real ter obtido êxito na queda da inflação, a questão do crescimento brasileiro não foi solucionada, dado que os capitais que migraram ao Brasil na década de 90 não visavam ampliar a capacidade produtiva do país, mas visavam fusões e aquisições (takeover); o resultado é que qualquer medida de incentivo ao consumo foi abortada10, dado o risco do retorno inflacionário (MARQUES, 2006, p.238). 9 O Plano Real foi desenvolvido em 3 etapas (Cf. MARQUES, 2006, p.230): 1) Estabelecimento do equilíbrio das contas do governo 2) Criação de um padrão estável de valor: Unidade Real de Valor (URV) 3) Emissão de uma nova moeda nacional com poder aquisitivo estável, o real. 10 Para o controle do consumo, foram empregadas medidas como o aumento do juros e a restrição do crédito (Cf. MARQUES, 2006, p.238). 17 O segundo mandato de Fernando Henrique (1998-2002) foi marcado pelas repercussões de suas decisões em seu primeiro governo: a sobrevalorização cambial perpetuada no âmbito do Plano Real teve como conseqüência o aumento das importações e redução das exportações, gerando importantes desequilíbrios econômicos (MARQUES, 2006, p.239). A crise asiática de 1997 e a crise Russa de 1998 lançaram dúvidas sobre a força da economia brasileira, tendo como conseqüência uma crescente dificuldade de obtenção de créditos externos (Idem, p.240). A queima das reservas cambiais resultou no pedido de ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI)11 pelo governo brasileiro em uma tentativa de equacionar o problema vivenciado pelo país (Idem, p.240). Nos anos que se seguiram o Brasil trabalhou o ajuste da taxa de câmbio, com a desvalorização do real, resultado das pressões do mercado, e a adoção do sistema de câmbio flutuante, fato que permitiu um lento ajuste da balança de pagamentos; ainda que a economia brasileira continuasse a ser marcada pela instabilidade como demonstrado pelo crescimento do PIB de 4,5% em 2000 e de apenas 1,5% no ano seguinte (MARQUES, 2006, p.240-241). Na perspectiva dos juros, estes ainda permaneciam elevados quando comparados com a média internacional, mas apresentavam importante redução a partir da adoção do regime de metas inflacionários implementado em 2000 (Idem, p.241). Apesar de em 2002 ter havido uma importante mudança de governo com a eleição de Lula, passando de um governo do PSDB para um do PT, a condução da política macroeconômica segue um percurso delineado desde 1999: o tripé regime de metas de inflação, câmbio flutuante e geração de superávit fiscal primário12 (MARQUES, 2006, p.242). Ainda que a adoção do sistema de metas de inflação possibilite criar um horizonte de expectativa nos agentes econômicos pela previsibilidade da oscilação da taxa inflacionária, a crítica que recai sobre esta política diz respeito aos custos da manutenção da inflação nos patamares estipulados, ou seja, para manter a inflação sob controle o Banco Central determina altas taxas de juros que acabam por ter como conseqüência: encarecimento do crédito, desincentivo ao investimento produtivo, encarecimento do financiamento da dívida pública, e valorização artificial do câmbio pela entrada de capital especulativo (Idem, p.243). 11 O aporte de recursos do FMI de US$ 41,5 bilhões foi liberado no modo stand by, no qual “os recursos são disponibilizados mediante necessidade” (Cf. MARQUES, 2006, p.240). 12 O superávit primário ocorre quando o governo acumula mais receitas que gastos em um determinado período – sem levar em consideração o pagamento de juros. 18 Os dois mandatos de Lula, apesar de possuírem como denominador comum a busca pela distribuição de renda e inclusão social, possuem enfoques distintos: durante seu primeiro governo Lula buscou reativar a economia brasileira por meio da ampliação das exportações13 em um contexto de desestabilização econômica – fruto do agravamento de antigos desequilíbrios estruturais presentes na economia brasileira14; o segundo governo foi marcado por perseguir um crescimento acelerado e por procurar construir bases endógenas para sua sustentação (OLIVA, 2010, p.123-124). A crise econômica e financeira internacional de 2008 produziu um intervalo na concretização do crescimento almejado, determinando importantes perdas no comércio externo15; ainda assim, quando comparado com outros países, em especial àqueles de maior desenvolvimento relativo, o impacto da crise foi restrito, como pode ser observado pelo fato do país sair do ciclo recessivo no segundo trimestre de 2009 (OLIVA, 2010, p.124-125). Destarte, é importante destacar que o Brasil conseguiu emergir da crise mundial de 2008 com perspectivas de desenvolvimento, onde o fortalecimento do mercado interno permitiu criar as bases para sustentar o processo de crescimento (Idem, p.125). 2.2 Surgimento do Microcrédito no Brasil Segundo Monzoni, o primeiro ensaio das microfinanças no Brasil ocorreu em 1973 com a criação da União Nordestina de Assistência a Pequenas Organizações (Programa UNO) (MONZONI, 2006, p.51). Inicialmente localizado na Grande Recife e Pernambuco, o Programa Uno contava com o apoio de uma organização não governamental internacional especializada em microcrédito, a ACCIÓN Internacional. O programa, além de conceder crédito, capacitava seus clientes (microempresários informais) em gestão; fato que contribuiu para a “formação de dezenas de agentes de crédito especializados no mercado informal e tornou-se referência para vários programas de microcrédito na América Latina” (Idem, p.51). Os resultados positivos do Programa UNO levaram o Governo Federal e o Banco Mundial a incluir o UNO no 13 Durante o governo Lula o Brasil teve uma expressiva melhora na balança de pagamentos graças à ampliação das exportações (Cf. MARQUES, 2006, p.244) 14 Dentro desse processo podem ser identificados o aumento da dependência e vulnerabilidade externas da economia, a revitalização dos vetores de exclusão social e concentração da renda e da riqueza, o aumento da heterogeneidade do sistema produtivo e a depauperação da capacidade financeira e operacional do Estado (Cf. OLIVA, 2010, p.123). 15 O país deixou de produzir em 2009 o equivalente a 4,5% do PIB (Cf. OLIVA, 2010, p.125). 19 Projeto Polonordeste cujo objetivo era o desenvolvimento de áreas rurais – iniciativa de US$ 120 milhões. Apesar do sucesso logrado pelo Programa UNO em termos metodológicos, técnicos e o positivo impacto social gerado, suas atividades foram finalizadas em 1991 devido, entre outros motivos, à sua incapacidade de gerar uma estabilidade financeira de longo prazo. A segunda organização microfinanceira brasileira foi criada em 1982 sob o nome de Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Mulher (Banco da Mulher) e contou com o apoio do Women’s World Bank. A organização, localizada inicialmente no Rio de Janeiro, ganhou também apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 1989 e se expandiu para Bahia. O Banco da Mulher é uma sociedade sem fins lucrativos que visa a inserção da mulher na sociedade com qualidade de vida para família; para tanto, o Banco oferece, além do crédito financeiro, para homens e mulheres, palestras e cursos de capacitação técnica e gerencial (MONZONI, 2006, p.52). Hoje o Banco atua, além do Rio de Janeiro e Bahia, no Paraná, Rio Grande do Sul, Amapá, Amazonas e Minas Gerais. Segundo Monzoni, no ano de 1986 foram criados o Banco do Microcrédito, no Paraná, e o PROMICRO, no Distrito Federal (MONZONI, 2006, p.51). Em 1987 surgiu uma ONG, em Porto Alegre, que tinha apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Inter-American Foundation (IAF), o Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos AnaTerra (CEAPE/RS). No ano de 1988 o Instituto de Desenvolvimento Ação Comunitária (IDACO) foi concebido no Rio de Janeiro. Na perspectiva de Bittencourt, o período compreendido entre 1972 a 1988 corresponde à primeira fase do desenvolvimento do microcrédito e das microfinanças no Brasil (BITTENCOURT, 2005, p.2). Esta fase seria caracterizada pela entrada de redes alternativas organizadas por ONGs e pela presença de fundos rotativos com foco no meio rural cujo objetivo é o financiamento e não o retorno do crédito. Ana Claudia Farranha apresenta a mesma perspectiva que Bittencourt ao referir-se as características da “fase inaugural” do microcrédito, todavia difere quanto ao período que compreende a primeira fase, para ela esta se encerra somente em 1993 (FARRANHA, 2006, p.85-86). Em outras palavras, não se tratam de organizações especializadas em microfinanças, voltadas para sua auto-sustentabilidade, mas o saldo final dessa fase refere-se ao desenvolvimento de uma metodologia para atender comunidades mais pobres, fazendo com que o crédito pudesse 20 chegar aqueles que não tinham acesso aos sistemas mais formais e tradicionais de crédito no Brasil (FARRANHA, 2006, p.85). A segunda fase, segundo Bittencourt, compreende ao período de 1989 a 1997 (BITTENCOURT, 2005, p.2). Esta fase diz respeito à entrada dos governos municipais como atores microcrediários por meio de programas ou/e organizações para operar diretamente com microempreendedores, os chamados Bancos do Povo, aliado a expansão do cooperativismo de crédito urbano e a formação de sistemas alternativos de cooperação de crédito rurais. Monzoni apresenta a expansão da rede CEAPE a partir dos anos 90. A experiência que começou no Estado do Rio Grande do Sul se espalha para os Estados do Rio Grande do Norte e Maranhão (ainda no fim da década de 80), Sergipe (1990), Pernambuco (1991), Distrito Federal (1992), São Paulo (1993), Paraíba e Goiás em 1994, Pará e Bahia em 1995, Piauí e Espírito santo em 1997, formando hoje a CEAPE nacional – contava em 2006 com uma carteira de mais de 23 mil clientes que movimentavam ao menos R$ 17 milhões (MONZONI, 2006, p.52-53). Ainda na década de 90 surgiu no Ceará o Pró Renda (1990), e no Rio de Janeiro foram criados o Balcão de Ferramentas (1991) da Caixa Econômica Federal (CEF) e o Banco da Providência em 1994. Em 1995 nasce, na cidade de Porto Alegre, a partir de um empreendimento conjunto entre algumas entidades da sociedade civil, a Prefeitura Municipal de Porto Alegre e o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, uma associação civil de direito privado sem fins lucrativos denominada Instituição Comunitária de Crédito PORTOSOL. A PORTSOL surge ‘para fornecer crédito com pouca burocracia, rapidez e taxas acessíveis aos pequenos empresários’, informais ou não, como forma de fomentar o desenvolvimento de Porto Alegre e de outros municípios do estado (MONZONI, 2006, p. 53). Em 2006 a PORTSOL já atendia na região metropolitana de Porto Alegre e no Vale do Rio dos Sinos e já havia emprestado mais de R$ 60 milhões aos pequenos empreendedores (MONZONI, 2006, p.53). A PORTSOL conta com o apoio dos recursos da prefeitura, do Estado, de instituições nacionais como o SEBRAE-RS e o BNDES e de instituições internacionais como a Sociedade Alemã de Cooperação Técnica (GTZ) e a Inter-American Foundation (IAF). 21 No ano de 1996 foi criada, no Rio de Janeiro, pela iniciativa da ONG Viva Rio, a associação sem fins lucrativos VivaCred (MONZONI, 2006, p.53). A VivaCred surge com o objetivo de ofertar financiamento aos micro e pequenos empresários, em especial nas comunidades carentes. Inicialmente a VivaCred contou com o apoio do BID; hoje conta com a cooperação e parceria da Viva Rio, do BNDES, BID, do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), a Secretaria Municipal do Trabalho do Rio de Janeiro e o SEBRAE. Segundo Monzoni, ainda em 1996 foi criado o CrediTrabalho no Distrito Federal; em 1997 foram desenvolvidas novas experiências em Sergipe (Fundação Municipal do Trabalho), Banco do Povo de Goiânia, Banco do Povo de Juiz de Fora em Santa Catarina o ICC Blusol (Idem, p.53). O Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) criou o Programa de Crédito Produtivo Popular (PCPP) em 1996. O objetivo do programa era “disponibilizar linhas de crédito baratas e de longo prazo para instituições de microcrédito brasileiras” (MONZONI,2006,p.54). O BNDES contou com a parceria do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), resultando na criação do Programa de Desenvolvimento Institucional (PDI). O propósito do PDI é “fortalecer institucionalmente a indústria das microfinanças no Brasil para que possa ofertar, de forma sustentável, serviços financeiros aos microempreendedores, formais ou informais” (Idem, p.55). Ana Claudia Farranha caracteriza a segunda fase da experiência microfinanceira brasileira como o surgimento de ONGs especializadas em microfinanças; nesta fase o destaque é dado ao pioneirismo da PORTSOL (FARRANHA, 2006, p.86). Segundo a autora esta fase, que compreenderia os anos de 1993 a 1998, teria como contorno o envolvimento dos governos municipais e estaduais para o financiamento de seus clientes. A novidade em relação à fase anterior seria a busca por taxas de juros inferiores às do mercado e a questão central seria a articulação dos “programas/ instituições vinculados a uma noção de geração de renda para a população” (Idem, p.86). Assim como Ana Claudia Farranha, Bittencourt elucida que a terceira fase se situa entre os anos 1998 a 2002. Tal fase, na concepção de ambos autores, é marcada pela construção de um Marco legal para o microcrédito: criação de um estatuto jurídico que viabiliza a entrada das Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCM) e das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) (FARRANHA, 2006, p.86). Bittencourt ainda destaca a permissão para atuação dos Correspondentes 22 Bancários e o fato das Instituições de Microcrédito voltarem sua atenção para o crédito, deixando de fornecer outros serviços bancários (BITTENCOURT, 2005, p.3). Na terceira fase, segundo a concepção de Farranha e Bittencourt, Monzoni apresenta a fundação do CrediAMIGO em 1998, um programa de microcrédito do Banco do Nordeste do Brasil (MONZONI,2006,p.53). O objetivo deste programa é o financiamento produtivo urbano por meio do fornecimento de pequenos empréstimos para proprietários de micronegócios e a disponibilização de um serviço de assessoria empresarial. O CrediAMIGO conta com diversas parceiras, tal qual a ONG Acción e a OSCIP Instituto Nordeste Cidadania responsável pela capacitação dos clientes e a operacionalização do CrediAMIGO nas áreas de atuação do Banco do Nordeste do Brasil (Idem, p.54). No ocaso da década de 90 inúmeros programas e instituições de microcrédito vinculados aos governos estaduais emergiram, são eles: Banco Palmas, Banco do Povo (em Santo André), Banco Popular de Ipatinga, Banco do Povo de Belém, Acredita (em São Paulo), Banco do Povo Paulista e Banco do Povo de Uberaba em 1998; e no ano seguinte, surgiram o Banco do Povo de Goiás e o Banco do Povo de Mato Grosso do Sul, Sindicred (no Rio de Janeiro, ICC Conquista Solidária (na Bahia, Banco Povo Itabira, BANPOP (em Belo Horizonte), Prefeitura de Recife, Crescer Crédito Solidário (em São Paulo), Agência de Fomento do Amapá, ICC Pelotas, Banco do Povo de Imperatriz, Cred Produzir, ICC Itabuna Solidária e Banpope (Banco Popular de João Monlevade) (MONZONI, 2006, p. 56). No ano de 2001 o SEBRAE lançou o Programa de Apoio ao Segmento de Microcrédito e foram criados os Bancos do Povo de Ituiutaba e de Uberlândia, ICC Bagé, ICC Santa Maria e o São Paulo Confia (MONZONI, 2006, p. 56). Em 2002, surgiram o ICC Serra Gaúcha, o Banco Popular de Olinda, o CrediCidadania, o ICC Frederico Wesphalen, o Banco do Povo de Nova Ipixuna, o Banco da Gente, a Associação Comunitária de Crédito Popular de João Pinheiro e Três Marias (em Minas Gerais), a Associação de Crédito do Microempreendedor de Araguari (ADEBRAS) (Idem ,p. 56-57). No ano de 2003 surgiu a Sociedade Amapaense de Crédito Popular Solidário e o Banco de Sergipe (BANESE) (Idem, p.57). A Associação Brasileira dos Dirigentes de Entidades Gestoras e Operadoras de Microcrédito, Crédito Popular Solidário e Entidades Similares (ABCRED) surgiu em 2002. No Estatuto da ABCRED estão presentes os seguintes objetivos: a promoção do desenvolvimento econômico-social sustentável e o combater à pobreza e a exclusão; o 23 estímulo à criação, crescimento e consolidação da prática e gestão de microcrédito com a finalidade do desenvolvimento local e regional sustentável; por meio de debates, seminários e cursos a ABCRED pretende incitar os dirigentes de instituições gestoras e operadoras de microcrédito, crédito popular e solidário e entidades similares a aperfeiçoarem seus objetivos e encaminharem a solução das questões que atrapalham o atendimento aos microempreendedores, no enfrentamento da exclusão social, na geração de emprego, trabalho e renda; a ABCRED pretende encontrar fontes alternativas de recursos financeiros para fomentar as entidades praticantes de microcrédito em todo território brasileiro (MONZONI, 2006, p.57). Finalmente, a quarta fase inicia no inicio do governo Lula. Para Bittencourt ela é iniciada em 2003 e é caracterizada pela Inclusão bancária, associando o crédito a outros serviços bancários para a população de baixa renda, o apoio ao Cooperativismo de Crédito e a flexibilização das regras para seu funcionamento, o acréscimo do número de correspondentes bancários e dos tipos de serviços prestados, a regulamentação do Crédito consignado e a ampliação e consolidação do Programa Crediamigo (BITTENCOURT, 2005, p.5). Em 2005, segundo Bittencourt, se iniciaria ainda outra fase, a quinta, devido à criação do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (lei N° 11.110/05), que representa um marco legal para o microcrédito produtivo. Esta fase se caracterizaria pela aproximação entre instituições financeiras e de microcrédito por meio da vinculação de outros serviços financeiros ao microcrédito produtivo, pela viabilização de fundos de aval para as instituições de microcrédito e o desenvolvimento de Projetos de Desenvolvimento Institucional que têm foco na articulação entre instituições de microcrédito e na padronização de modelos contábeis (BITTENCOURT, 2005, p.6). Segundo Ana Claudia Farranha, a quarta fase inicia a partir de 2002; entretanto, diferentemente de Bittencourt que atribui uma nova fase com a criação da PNMPO, Farranha apenas sublinha que a partir de 2005 a agenda do microcrédito no Brasil é redesenhada (FARRANHA, 2006, p.88). As características desta fase, na concepção da autora, seriam: 1. Inclusão bancária massificada, associando-a ao oferecimento de outros serviços bancários para a população de baixa renda, 2. Conta simplificada, 3. Viabilização de recursos para o crédito de uso livre e para microempreendedor, 4. Constituição do Banco Popular do Brasil, 5. Apoio ao Cooperativismo de Crédito, incluindo a permissão para constituição de Cooperativas abertas (livre adesão), 6. Ampliação do 24 número e da atuação dos correspondentes bancários, 7. Crédito consignado em folha de pagamento para trabalhadores assalariados e, no INSS, para aposentados e pensionistas, 8. Ampliação e consolidação do Programa Crediamigo (FARRANHA, 2006, p.88). Monzoni sintetiza o movimento geral da inserção e desenvolvimento da estrutura microcrediária brasileira. O primeiro momento, compreendido entre as décadas de 70 e 80, corresponderia à vinculação do desenvolvimento das Instituições microfinanceiras (IMF) às redes internacionais; tais quais o Projeto UNO obteve apoio da ACCIÓN e o Banco da Mulher contou com a ajuda do Women’s World Bank. Essas parcerias resultaram em um processo acelerado de aprendizado, uma vez que as IMF recém nascidas podiam contar com a experiência e metodologia empregadas por estas redes internacionais (MONZONI, 2006, p.58-59). No decorrer das décadas de 80 e 90 ocorreu uma multiplicação das OSCIP’s que passaram a oferecer serviços de microfinanças, em especial o microcrédito e capacitação em gestão. Algumas destas obtiveram o apoio de governos municipais e estaduais (BLUSOL e PORTSOL), outras fizeram parceria com o setor privado (VivaCred) (Idem, p.59). Monzoni aponta como uma característica destas IMF o fato de serem “constituídas sob a forma de pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, de modo que o resultado operacional de sua atividade fim é inteiramente revertido para sua organização”, sendo este totalmente capitalizado (Idem, p.59). Finalmente, Monzoni vislumbra um momento diferente a partir do fim dos anos 90 e início de 2000. Este novo momento se caracterizaria pela implementação de medidas municipais, estaduais e governamentais; por exemplo, os Bancos do Povo (MONZONI, 2006, p.59). Monzoni apresenta que a partir da Lei n° 10.194/01, que autoriza a criação da Sociedade de Crédito ao Microempreendedor (SCM) o setor privado adentra este mercado – as instituições financeiras de grande porte, como o Unibanco e o Santander só o fazem mais recentemente (Idem, p.59). 2.3 Arcabouço legal O Blog do microcrédito apresenta que o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO) habilitou quatro tipos de organizações a operarem como fornecedoras de empréstimo e atendimento aos empreendedores e às micro e pequenas empresas: as Organizações da Sociedade Civil e Interesse Público (OSCIP); as 25 Cooperativas de Crédito; as Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCM); e as Agências de Fomento; também é mencionado no site a existência de instituições constituídas por bancos comerciais, públicos e privados, além dos programas de microcrédito conduzidos por governos estaduais e municipais (BLOG DO MICROCRÉDITO, 2010). O arcabouço jurídico que regulamenta o microcrédito está disposto no anexo A. 2.3.1 Organizações da Sociedade Civil e Interesse Público (OSCIP) As ONGs sem fins lucrativos atuam há décadas em iniciativas microfinanceiras; entretanto em muitos países a estrutura jurídica invalida que elas participem do setor financeiro. Um argumento corriqueiro que fundamenta a normatização da atuação das ONGs no setor financeiro é o de que o mercado destas organizações, ou seja, as camadas menos favorecidas da população, não interessam aos bancos comerciais; somase a isso o fato de que a inovação metodológica das ultimas duas décadas em matéria de serviços financeiros ocorreu primordialmente dentro das ONGs (MONZONI, 2006, p.61). Monzoni ainda argumenta que a participação desse tipo de organização em microfinanças tem seu aspecto positivo na medida em que ONGs têm obrigação legal de aplicar seus recursos em atividades beneficentes, e os lucros obtidos não podem ser divididos entre seus membros ou instituidores, mesmo em caso de liquidação (Idem, p.61). Destarte, se faz imperativo normalizar a atuação das ONGs de modo a lhes atribuir um caráter legal em sua penetração no setor financeiro e, ao mesmo tempo, criar um ambiente favorável à entrada de mais atores neste mercado. No caso brasileiro o que observa é uma adaptação do arcabouço jurídico-institucional para participar desta realidade; neste contexto podem ser destacados duas iniciativas jurídicas: a Lei n° 9.790/99 e a Medida Provisória n° 2.172-32 (MONZONI, 2006, p.61-62). A Lei n° 9.790/99 rege a atuação das ONGs no campo do microcrédito e apresenta as condições que devem ser preenchidas pelas pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos para serem qualificas como OSCIP; e a Medida Provisória n° 2.172-32 desvinculou as Sociedades Civis de Interesse Público e as Sociedades de Crédito para o Microempresário (SCM) da Lei da Usura (decreto Nº 22.626 de 1933 que rege os juros 26 nos contratos e outras providências), fato que confere flexibilidade na adoção das taxas de juro que ser empregada conforme a necessidade (Idem, p.61-62). Em outras palavras, o ordenamento jurídico brasileiro não reconhece a ONG uma vez que não existe uma menção desta sigla e seu significado em nosso Código Civil; o que existe de fato é um entendimento sócio-cultural de que a finalidade destas entidades é de interesse público (SEBRAE, 2011). A Lei n° 9.790/99 qualifica as ONGs que atendem a certos requisitos como OSCIP, são eles: ser pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos; atender aos objetivos sociais e às normas estatutárias previstas na Lei; apresentar cópias autenticadas dos documentos exigidos (Idem, 2011). 2.3.2 Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCM) Em relação às Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCM), esta entidade jurídica foi criada a partir da Lei n° 10.194/01. A SCM está sujeita a supervisão do Banco Central e, além do setor público não pode participar como sócio direto ou indireto, as SCM devem harmonizar sua atuação com o regime estabelecido em seu Estatuto Social (MONZONI, 2006, p.62-63). Monzoni destaca a Resolução n° 2.874 responsável por dispor sobre a constituição e funcionamento da SCM e seus posteriores aperfeiçoamentos que revogam uma série de limitações – tal qual a Resolução n° 2.874 que, dentre outras finalidades, permite a atuação da SCM em uma região diversa daquela definida em seu estatuto; permite que uma SCM se integre ao sistema financeiro nacional; autoriza que uma OSCIP controle uma SCM; permite que uma SCM instale Postos de Atendimentos de Microcrédito (PAM) em qualquer localidade (MONZONI, 2006, p.63). O autor ainda evidencia a Resolução n°3.156, que permite que as SCM contratem um correspondente bancário, e o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo e Orientado (PNMPO), que ampliou para além do crédito os serviços financeiros das SCM (Idem, p.63) 2.3.3 Cooperativas de Crédito A Cooperativa de Crédito é uma sociedade de pessoas cuja finalidade é proporcionar assistência financeira a seus cooperantes (SEBRAE, 2011). Ela é uma instituição autogestionada que está submetida, assim como as demais instituições 27 financeiras, a fiscalização do Banco Central. A restrição de suas operações é dada, por exemplo, na contratação de empréstimos em dinheiro que, diferentemente dos bancos que atuam com o público em geral, só é possível com seus cooperantes (Idem, 2011). Uma mudança no cenário das cooperativas ocorre com a resolução 3106 do Banco Central: antes da resolução o modelo brasileiro de cooperativas de crédito se dividia em cooperativa de crédito mútuo (urbano) e cooperativa de crédito rural. Este era um modelo cooperativo fechado, ou seja, para poder participar, por exemplo, da cooperativa de crédito rural era necessário ser proprietário de uma propriedade rural; a cooperativa de crédito mútuo (urbano) seguia a mesma lógica, para poder participar era necessário pertencer a grupo profissional específico ou trabalhar em uma mesma empresa (Idem, 2011). Este cenário mudou com a resolução 3106 do Banco Central que introduziu as cooperativas mistas (SEBRAE, 2011). Com esta resolução é possível associar pessoas de diferentes grupos sociais; portanto, as cooperativas de crédito rural não são mais restritas àqueles possuidores de uma propriedade rural. Além disto, esta resolução também é responsável por criar a cooperativa de empreendedores, que é constituída por empresários de diferentes ramos de atividade (Idem, 2011). 2.3.4 Agências de Fomento As Agências de Fomento tem como finalidade conceder “financiamento de capital fixo e de giro associado a projetos na Unidade da Federação onde tenham sede” (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2011) e “devem ser constituídas sob a forma de sociedade anônima de capital fechado e estar sob o controle de Unidade da Federação, sendo que cada Unidade só pode constituir uma agência” (Idem, 2011). Apesar de terem um status de instituição financeira, seu raio de manobra é restrito uma vez que não estão aptas a: recorrer ao redesconto; captar recursos junto ao público; ter conta de reserva no Banco Central; ter participação societária em outras instituições financeiras; contratar depósitos interfinanceiros na qualidade de depositante ou de depositária. Finalmente, as agências de fomento são obrigadas a manter um fundo de liquidez equivalente a, pelo menos, 10% do valor de suas obrigações que será inteiramente aplicado em títulos públicos federais (Idem, 2011). Este tipo de entidade microfinanceira é regulamentado pela Resolução CMN 2.828, de 2001. 28 Concluindo, a construção do capítulo esteve alicerçada no desenvolvimento do microcrédito no Brasil, no qual foi abordado o ambiente político-econômico vigente no país a partir dos primeiros ensaios das microfinanças até a construção do arcabouço jurídico levantado em prol da regulamentação de instituições habilitadas a operar com o microcrédito. O próximo capítulo tem por finalidade apresentar o estudo de caso do Banco Popular da Mulher de Campinas. 29 3. Estudo de caso: o Banco Popular da Mulher O capítulo busca relatar a experiência do Banco Popular da Mulher a partir de um estudo de caso. O desenvolvimento do estudo repousou na caracterização da cidade em que o Banco está inserido, na análise da política de concessão de créditos e sua avaliação, bem como na explanação da constituição do Banco Popular da Mulher. 3.1 Campinas O desenvolvimento do Banco Popular da Mulher está vinculado às características peculiares do ambiente em que está inserido, a cidade de Campinas. Destarte, é imprescindível compreender como a cidade se apresenta hoje para entender como isto reflete sobre o Banco Popular da Mulher. A cidade de Campinas conta com uma superfície de 796 km², estando localizada a 96 km de São Paulo, importante centro industrial e financeiro da América do Sul, e a 172 km do porto de Santos, o maior porto da América Latina (Guia de Investimentos 2010, 2011, p.12). Campinas é considerada a maior cidade do interior do Brasil, com uma população superior a um milhão de habitantes a cidade atrai um grande número de empresas; hoje aproximadamente 52 mil empresas estão instaladas na cidade, resultando na formação do terceiro maior parque industrial do país (Idem, 2011, p.11). A cidade de Campinas possui o maior aeroporto de Cargas da América Latina e em 2008 o PIB (Produto interno Bruto) da cidade foi superior a 27 bilhões de reais16, número equivalente a países da América do Sul como Bolívia e Paraguai (Guia de Investimentos 2010, 2011, p.19). A renda per capita gira em torno de R$ 27.000,00 e o mercado consumidor vem se fortalecendo nos últimos anos; além das classes A e B apresentarem um acréscimo no consumo, a classe C aumentou o seu poder de compra em 50% (Idem, 2011, P.22). Quanto à infra-estrutura, a população campineira desfruta de uma consolidada17 rede elétrica, iluminação pública e água encanada (Guia de Investimentos 2010, 2011, p.16). Apesar do tratamento de esgoto vir avançando a passos largos nos últimos anos o índice ainda gira em torno de 80% (Idem, 2011, p.16). No campo da saúde a cidade 16 17 O PIB retrata o valor de toda a riqueza gerada (bens e serviços finais) na cidade de Campinas em 2008. Índice próximo de 100%. 30 possui 32 hospitais, fato que resulta em aproximadamente 4,8 médicos por 1000 habitantes (Idem, 2011, p.11). Finalmente cabe destacar que a cidade de Campinas também é um pólo educacional do Brasil, contando com 13 instituições de ensino superior18, 126 colégios de ensino médio, 270 escolas de ensino fundamental e 291 de ensino pré-escolar (Idem, 2011, p.21). 3.2 Banco Popular da Mulher O Banco Popular da Mulher é fruto de uma parceria entre o poder público municipal e entidades da sociedade civil. Qualificado como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), o Banco foi fundado em Campinas em 2002 sob o nome “Banco do Povo de Campinas” e começou a operar em 2003. O Banco segue os princípios do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (Lei nº 11.110/05) ao direcionar os recursos às camadas da população que garantam maior retorno social e não aos setores que garantam maiores taxas de retorno financeiro. Apesar de o Banco atender pessoas físicas de ambos os sexos, micro e pequenas empresas, cooperativas e outros empreendimentos populares, prioriza a concessão de crédito ao gênero feminino; esta filosofia decorre da tentativa de atingir o maior ganho social possível, uma vez que a mulher, geralmente, é a peça basilar para a sustentação das famílias de baixa renda. Destarte, o foco nas mulheres está em consonância com a percepção tradicional de que as necessidades de seus filhos prevaleceriam sobre as suas, transbordando, assim, em ganhos sociais para toda a família (BANCO POPULAR DA MULHER, 2010). O objetivo do Banco Popular da Mulher é atender através do microcrédito, demandas de empreendedores de pequenos negócios, de baixa renda, que exerçam atividades produtivas formais ou informais, a fim de criar facilidades diante de um quadro composto por um setor da sociedade que, historicamente tem dificuldades de acesso ao crédito, não só no Município de Campinas, mas em todo Brasil. Nesse sentido o Banco Popular da Mulher procura facilitar o acesso ao crédito, a fim de promover a geração de trabalho e renda, criação de empregos, fomentando a constituição e a consolidação de empreendedores de pequenos negócios e a inclusão social (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). 18 19% da população campineira têm ensino superior. 31 O Banco foi formado como uma Associação, a Associação de Crédito Popular Solidário de Campinas, logo, sua direção foi fragmentada entre os seguintes órgãos: Assembléia Geral dos Associados, Conselho de Administração e o Conselho Fiscal (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). A Assembléia Geral dos Associados é o locus principal das decisões e é o órgão de maior representatividade, uma vez que é composto por representantes do Poder Público Municipal e por representantes de diversas entidades sindicais com sede em Campinas – Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Campinas e Região, Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia Elétrica de Campinas, Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Destilação e Refinação de Petróleo de Campinas e Paulínia, Sindicato dos Trabalhadores da UNICAMP, Sindicato dos Trabalhadores na Economia Informal de Campinas e Sindicato dos Empreendedores Individuais de Ponto Público Fixo e Móvel de Campinas (Idem, 2011). A centralidade das decisões, confinada à Assembléia Geral dos Associados, pode ser observada no Conselho de Administração, cuja composição é definida pela Assembléia Geral com a participação do Instituto de Economia da PUC-Campinas. Dentre as finalidades do Conselho de Administração pode ser destacado a indicação da Gerência Executiva (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). O Conselho Fiscal, por sua vez, é formado por um membro indicado pelos sindicatos fundadores, do Instituto de Previdência do Município de Campinas, do Sindicato dos Contabilistas de Campinas e Região e do Conselho Regional de Economia, além de contar com representantes da Prefeitura Municipal de Campinas (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). Finalmente, cabe destacar os pontos de atendimento do Banco. A sede do Banco se localiza no centro da cidade de Campinas, na Avenida Campos Sales, número 427; outro posto de atendimento pode ser encontrado na região de Campo Grande no Jardim Santa Clara – Avenida Hum, número 1343 – e ainda na região de Ouro Verde no Terminal Hortoshopping – Box 12, 1º andar (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). A localização dos postos de atendimento afastados do centro da cidade de Campinas é estratégica: a região de Campo Grande é composta por uma população de 60 mil habitantes e está em processo de rápidas transformações devido à seu acelerado crescimento, fato que resulta em um espaço fértil para o desenvolvimento do microcrédito; a região de Ouro Verde conta com uma população de 200 mil habitantes e 32 boa infraestrutura, sendo caracterizada como uma região de potencial desenvolvimento do microcrédito (Idem, 2011). 3.2.1 Tipos de Crédito O Banco Popular da Mulher disponibiliza três linhas de crédito: Semear; Crescer; e Cooperar. A linha Semear é caracterizada por apresentar juros reduzidos e privilegiar as mulheres do município de Campinas. Para que a família possa ser assistida por esta linha de crédito é necessário que ela, ou apenas um dos membros da família, seja cadastrado e assistido por, no mínimo, um programa social vinculado ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS) da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência e Inclusão Social (SMCAIS), da Secretaria Municipal de Educação (SME) ou da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), seja na esfera municipal, estadual ou federal. Ainda devem ser preenchidos os seguintes requisitos: 1) desenvolver sua atividade econômica no município de Campinas; 2) apresentar a cópia do RG, CPF e comprovante de endereço atual e em seu nome; 3) apresentar orçamentos do que se pretende adquirir; 4) ser membro de família assistida por algum programa social, e/ou ser membro de família, em situação de risco ou vulnerabilidade social, possuir renda per capita familiar de até ½ salário mínimo mensal; 5) para empreendimentos com menos de um ano, o solicitante deverá fazer curso de gestão de pequenos negócios para então ter acesso ao crédito e apresentar Plano de Negócio a ser analisado pelo comitê; 6) em não havendo restrições cadastrais, para créditos até o limite de R$ 500,00 não será exigido avalista/fiador do solicitante; 7) caso haja algum tipo de restrição cadastral, bastará a assinatura de um fiador solidário que, por sua vez, não precisará comprovar renda (“aval moral”), se a restrição for até R$ 500,00, o tomador do crédito poderá solicitar até R$ 1.000,00, se a restrição for superior a R$ 500,00 e/ou haver cheque devolvido, o crédito estará limitado a R$ 500,00. Com juros de 1,00% a.m. esta linha de crédito se estende em empréstimos até o valor de R$ 1.000,00 para capitais de giro, fixo ou misto, diferindo no prazo de pagamento (BANCO POPULAR DA MULHER, 2010). A linha Crescer é voltada para os empreendimentos que não preenchem os requisitos da linha de crédito Semear e para àqueles que já possuem um negócio estruturado e carecem de um reforço de capital para expandir seu empreendimento. O perfil que deve ser atestado é: 1) desenvolver sua atividade econômica no município de Campinas; 2) 33 apresentar a cópia do RG, CPF e comprovante de endereço atual e em seu nome e, se tiver sócio, os mesmos documentos; 3) quando existir empresa, apresentar Contrato Social ou Certificado de Empreendedor Individual e cartão CNPJ em vigência; 4) apresentar orçamentos do que se pretende adquirir; 5) outros documentos poderão ser solicitados; 6) caso o solicitante tenha restrições em seu nome, poderá ser atendido desde que o montante da restrição não ultrapasse R$ 500,00 e/ou tenha cheque devolvido; 7) os empreendimentos que possuem menos de seis meses de atividade serão considerados início de negócio e neste caso o solicitante deverá realizar curso de gestão de negócios ou similar e apresentar um plano de negócio que será avaliado pelo comitê de crédito do banco – a compensação exigida será de no mínimo 30% do valor necessário para iniciar o negócio, devendo ser comprovada. Nesta linha crediária os juros e as condições de pagamento variam de acordo com o valor do empréstimo e o uso que se fará do recurso liberado, podendo chegar até R$ 10.000,00 – conforme o devedor for liquidando o empréstimo, se ele tiver um bom histórico e o projeto for viável, lhe será aberto uma nova faixa de valores (BANCO POPULAR DA MULHER, 2010). Finalmente, a linha Cooperar é destinada aos grupos de trabalhadores em regime de auto-gestão, desde que associados em cooperativas ou articulados em torno de alguma atividade de geração de emprego e renda apoiada pela Secretaria de Trabalho e Renda (STR) ou sob supervisão das incubadoras a ela conveniadas. Ainda que informais e em período de estruturação, esses grupos, respaldados pela Política Municipal de Apoio à Economia Solidária, poderão acessar esta linha crediária mediante parecer técnico da STR. Para a tomada de empréstimo o valor concedido varia de acordo com o tipo de grupo: em formação ou cooperativa. No caso do grupo ainda estar em formação está previsto um valor de crédito máximo de R$ 10.000,00 com juros de 1% num prazo de até 24 meses e carência de 12 meses. Já no caso do grupo ser uma cooperativa, dependendo do valor do crédito almejado, o valor do juros, prazo e carência variam na ordem direta à soma. O valor máximo previsto, a priori, é de R$ 50.000,00, com juros de 1,6%, prazo de 60 meses e carência de 18 meses – caso a cooperativa deseje uma valor superior seu caso será avaliado pelo Conselho de Administração. O Banco Popular da Mulher ressalta que caso outras Cooperativas no município de Campinas desejarem esta linha crediária poderão ter acesso mediante um parecer técnico elaborado por um profissional indicado pela STR que indique que a Cooperativa analisada proporciona a geração de trabalho e renda e a inclusão social de seus membros, face aos princípios da 34 “Economia Solidária” 19. Quanto às garantias do devedor desta linha crediária, cabe ao Comitê de crédito do banco definir em função do valor e destinação do crédito, enquadrando em uma das três alternativas seguintes: alienação fiduciária; avalista/fiador; aval moral, no qual não há necessidade de comprovação da renda do fiador (BANCO POPULAR DA MULHER, 2010). 3.2.2 Processo de tomada de crédito Em conversa com o gerente executivo do Banco Popular da Mulher, José Carlos Edwiges, e, por meio da realização de uma pesquisa de campo, foi objetivado o processo de tomada crédito. Antes de ser apresentado tal processo deve ser feita uma ressalva sublinhada por José Carlos Edwiges: atualmente a metodologia empregada pelo Banco na tomada de empréstimo ocorre majoritariamente por meio da concessão de crédito a pessoas particulares, de modo individual; existe um desejo por parte do Banco de reestruturar o método empregado, passando a emprestar não a uma pessoa, mas para um grupo de indivíduos. A motivação do Banco para realizar esta mudança esta embasada em vários fatores, tais quais: os altos custos para gerir empréstimos individuais de pequena monta; o desejo de ampliar a carteira de clientes atendida pelo Banco frente ao tamanho da população campineira – de aproximadamente um milhão de habitantes; a necessidade do crescimento físico e financeiro do próprio Banco para suportar um número maior de clientes. Feita esta ressalva, será apresentado o processo de tomada de crédito como é hoje observado no Banco Popular da Mulher. O primeiro passo identificado se refere à instrução dos potenciais tomadores de microcrédito dos mecanismos para obtenção do crédito e a explicação de como esta ferramenta poderia beneficiar o seu empreendimento. A divulgação destas informações ocorreria por meio de palestras, distribuição de folders explicativos e pela transmissão “boca-a-boca”, compreendida como a dispersão do conhecimento a partir dos tomadores 19 “Economia Solidária é um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver. Sem explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente. Cooperando, fortalecendo o grupo, cada um pensando no bem de todos e no próprio bem”. É uma “inovadora alternativa de geração de trabalho e renda e uma resposta a favor da inclusão social. Compreende uma diversidade de práticas econômicas e sociais organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outras, que realizam atividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário” (Cf. Ministério do trabalho e emprego, 2011). 35 de crédito – esta se revelou a forma mais eficaz no marketing microcrediário. Para aqueles que ainda estejam inseguros sobre as atividades do Banco Popular da Mulher, as dúvidas podem ser esclarecidas pelo site, por telefone ou pelo comparecimento nos postos de atendimento. Após o processo informativo, àqueles que desejarem solicitar o empréstimo devem comparecer ao Banco Popular da Mulher com os documentos necessários em função do tipo de crédito almejado. Quando o potencial tomador de empréstimos apresenta os documentos vitais para o prosseguimento do pedido, no qual são registrados os dados básicos do cliente – como seu endereço, idade, ramo de atividade, crédito solicitado, finalidade do crédito, valor máximo possível da prestação, melhor dia de pagamento – e de seu fiador – como estado civil, nome, endereço, profissão, renda, tempo de trabalho – é agendado uma entrevista. Ainda nesta etapa é analisado se o potencial cliente possui alguma restrição ao crédito em decorrência, por exemplo, de se configurar na situação de inadimplente provinda de uma dívida anterior não paga. Posteriormente, em posse do pré-cadastro do cliente e da verificação de sua situação creditícia, é objetivada a entrevista agendada na qual é promovido um levantamento sócio-econômico estruturado em duas partes: informações sobre o emprendedor e sua família; e dados sobre o empreendimento. Em relação a primeira parte da entrevista são levantadas questões como: renda familiar (quanto cada membro da família contribui para a renda), detalhamento dos gastos familiares (alimentação, educação, saúde, transporte, etc), conta corrente/ poupança, experiência profissional (descrição das experiências profissionais até o negócio atual), escolaridade, bens familiares (veículos, imóveis, etc). Na segunda parte do levantamento sócio-econômico são respondidas questões como: as características do negócio (se o local é próprio, alugado, emprestado; se o empreendedor trabalha em local fixo ou é feirante, por exemplo), histórico do empreendimento (como e porque começou, com que capital, dificuldades enfrentadas, conquistas, metas, se houve crescimento), situação patrimonial do cliente (ativos e passivos), histórico das vendas (mensalmente), principais clientes e fornecedores, nível de concorrência, existência de funcionários, custos (matérias primas, mercadorias, serviços, impostos, transportes, aluguéis, luz, água, gasolina, etc), capacidade instalada (física e financeira), e a potencialidade do negócio. Aqui deve ser ressaltado a resistência dos futuros tomadores de empréstimos quanto à transparência nas respostas do levantamento sócio-econômico; notadamente os entrevistadores devem ter a habilidade de convencer os entrevistados a fornecerem os dados com a maior 36 acuidade possível – não é raro os entrevistados terem receio de enumerar todos os seus bens e ganhos face ao imaginário de que caso tenham “muita posse” o Banco irá desconsiderar o pedido de empréstimo. A próxima etapa dentro do processo de concessão de empréstimos diz respeito à visita ao potencial tomador de crédito. Nesta visita ao local de trabalho do futuro cliente, os agentes de crédito verificam se as informações fornecidas durante o levantamento sócio-econômico corroboram com a realidade; ou seja, é analisado se o entrevistado não deturpou a realidade em seu favor, como, por exemplo, ter afirmado que havia somente uma máquina de costura e na visita se verificam ao menos dez máquinas em funcionamento. Desta visita o agente de crédito deve emitir um parecer sobre a real situação do futuro cliente; os fatos que destoem das respostas providas no levantamento sócio-econômico devem ser reportados e posteriormente serão julgadas pelo comitê de crédito. Aqui deve ser ressaltado que havendo um caso de renovação do empréstimo, entendido com a aquisição de uma nova quantia20, é analisado o histórico do cliente; a partir da história do cliente com o Banco é possível que algumas etapas sejam realizadas de maneira mais rápida face ao prévio conhecimento do Banco do comportamento particular daquele cliente – por exemplo, o caso de ser um pagador que cumpra com os prazos estipulados. Munidos das informações colhidas durante a semana, os agentes de crédito se reúnem no final da semana, em geral Sexta-Feira, a um comitê de crédito aonde serão analisados todos os casos da semana para deliberar a quem o banco irá conceder empréstimo. É importante ressaltar que o comitê de crédito dará prevalência a uma análise do impacto social gerado quando colocado face a perspectiva objetiva de honrar as dívidas contraídas – deve ser observado, todavia, que o Banco considera importante a real capacidade do cliente de efetivamente pagar o empréstimo contraído, mas, ainda assim, é utilizado um critério subjetivo na concessão do empréstimo: a multiplicação dos ganhos sociais para o cliente e sua família21. Após a seleção dos futuros tomadores de crédito, àqueles clientes que estão iniciando o negócio é recomendado, e mesmo necessário, que façam um breve curso (duração de uma semana) de orientação de como gerir um negócio próprio. Tal curso22 é oferecido gratuitamente pelo Banco Popular da Mulher e se torna um pré-requisito para 20 No Banco Popular da Mulher só é possível adquirir um novo empréstimo após ter saldado o anterior plenamente. 21 A análise do comitê de crédito será aprofundada no item 3.2.2.1. 22 A oferta do curso varia conforme a demanda, na melhor das hipóteses pode haver um curso por mês. 37 a obtenção do crédito para aqueles que vão ter o primeiro contato na posição de administradores do próprio negócio. Afinal, não é raro àqueles “empreendedores de primeira viagem” buscarem para o seu negócio os melhores e mais caros equipamentos, resultando no desejo de obter “altos” empréstimos para satisfazerem seus sonhos; logo, se faz necessário que sejam instruídos quanto a formação de um plano de negócios que se atenha as reais necessidades para a abertura do empreendimento – deve-se ter em conta que o objeto de estudo tratado refere-se a empréstimos para a construção ou ampliação de pequenos empreendimentos como, por exemplo, a compra de um carrinho de cachorro-quente. A contrapartida requerida pelo Banco quando um empreendedor toma um empréstimo é a de este último arcar com ao menos 30% dos custos do empreendimento. A concepção em que está embasada esta exigência se refere ao pensamento de que o tomador de empréstimo terá um apreço diferenciado pelo montante total quando uma parte deste dinheiro tem como origem o seu próprio bolso, neste caso ele se empenhará com mais dedicação para não perder seu dinheiro e colher seus frutos. Ainda deve ser destacado o processo de acompanhamento do cliente após o fornecimento do crédito. Neste caso, depois que o empréstimo é concedido e o cliente inicia ou amplia o seu empreendimento, os agentes de crédito continuam uma estreita relação com sua clientela, acompanhando o desenvolvimento do negócio e, até mesmo, com a realização de visitas23 para a comprovação dos fatos in loco. 3.2.2.1 O comitê de crédito A importância do comitê de crédito decorre do fato de ser uma etapa determinante no processo de concessão de um empréstimo, aonde os riscos e os desdobramentos sócio-econômicos do crédito são avaliados e ponderados. Em uma participação do comitê como ouvinte foi possível observar a deliberação em torno da concessão dos empréstimos. Os empréstimos demandados ao Banco Popular da Mulher ao longo da semana são compilados pelos agentes de crédito que apresentam caso a caso ao comitê de crédito. O primeiro fator analisado quando um caso é apresentado pelo agente de crédito 23 Na prática as visitas pós-crédito ocorrem de maneira não tão regular em função da disponibilidade do carro da Prefeitura Municipal de Campinas para a realização das visitas, caso que resulta na priorização de certos clientes que encontram dificuldade em manter seu empreendimento. 38 responsável é se o pedido é de uma renovação de empréstimo ou um caso novo: por um lado, se é um pedido de renovação de crédito o Banco já possui um histórico do cliente e conhece o seu perfil, tendo informações sobre sua experiência passada com o Banco, suas reais possibilidades de pagamento, seus sucessos ou fracassos; por outro lado, se é um caso novo o comitê dispensa maior tempo deliberando sobre a concessão do empréstimo em função dos riscos dos envolvidos, ou seja, do desconhecimento do cliente e de seu negócio. Cada caso apresentado ao comitê é padronizado em uma folha na qual estão contidas as principais informações sobre o demandante de crédito e seu negócio, tal como a demonstração de resultado do negócio, a sua capacidade de pagamento, os indicadores econômico-financeiros – tal qual o saldo familiar e a margem de endividamento –, e a garantia do potencial cliente, ou seja, a condição do avalista/fiador. Concomitantemente ao provimento de tais informações ao comitê, o agente de crédito esboça a estrutura familiar de seu cliente a fim de ilustrar o impacto social que a concessão do microcrédito teria não somente sobre este indivíduo, mas sobre sua família. Ainda na folha apresentada pelo agente de crédito ao comitê existe um espaço para o agente realizar suas considerações sobre o cliente que não se confinam unicamente ao âmbito objetivo, como a capacidade de pagamento do cliente, mas extrapola também a órbita subjetiva, contendo informações sobre seu caráter tal qual “simpático”, “esforçado”, “gentil”, “caprichoso”, e seu sonho, como por exemplo, “sempre sonhou trabalhar com chocolate”. No campo abaixo das considerações o agente de crédito realiza uma conclusão sobre o caso analisado onde se posiciona como favorável, ou não, ao fornecimento de crédito ao cliente. Nesse espaço o agente também sugere a quantia que o Banco poderia conceder ao cliente e sua forma de pagamento, sendo habitual ao comitê concordar e ratificar tal sugestão. No dia da visita ao comitê foram apresentados 8 casos cuja deliberação por caso girou em torno de 23 minutos. Grande parte dos pedidos foi de renovação de empréstimo com uma média de R$ 3.200,00 por caso, número considerado alto pelos presentes – o valor médio dos empréstimos concedidos no ano de 2010 girou em torno de R$ 2.360,00. Os casos analisados pelo comitê foram tanto para a construção de projetos como o pedido de um empréstimo de R$ 7.000,00 para terminar a construção de uma academia de ginástica e o pedido de R$ 5000,00 para concluir as obras de um 39 Buffet infantil, como para a manutenção do negócio como o caso de um salão de cabeleireiro que por falta de planejamento faltaria dinheiro no final do ano e necessita do empréstimo de R$ 3.500,00 para manter o salão e o caso de uma mãe de 10 filhos que pediu um empréstimo de R$ 500,00 para continuar com seu negócio de vendedora de cachorro quente, fato que só consegue se conseguir alugar o carrinho. Destarte, o comitê do Banco Popular da Mulher analisa caso a caso e em função das capacidades de pagamento e do desdobramento social que o empréstimo pode concatenar concede, ou não, o crédito. O portfólio de clientes envolve uma grande diversidade de pessoas, podendo abarcar desde aqueles que obtiveram curso universitário e buscam realizar uma ação empreendedora de grande porte onde o Banco possui uma pequena participação na quantia total do dinheiro investido, tal qual o caso do Buffet infantil, onde a empreendedora possui diploma de psicóloga e já investiu a soma de R$ 60.000,00 no negócio, até aqueles com que não possuem qualificação profissional e que buscam o empréstimo para manter em funcionamento os seus micronegócios, como observado no caso da vendedora de cachorro quente que necessita de R$ 500,00 para conservar seu trabalho. 3.2.3 Avaliação das operações de crédito O Banco Popular da Mulher desde que entrou em operação em Março de 2003 já realizou, até 31/12/2010, 2.644 operações de crédito nas quais foi liberado um montante total de R$ 6.652.821,00 (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). Segundo o relatório de avaliação de resultado de 2010 divulgado pelo Banco em Janeiro de 2011, o Banco contribuiu para a criação e manutenção de mais de 5.000 postos de trabalho no município de Campinas. É importante ressaltar que o ano de 2010 representou um ano de crescimento nas operações do Banco; tal fato pode ser observado na tabela abaixo denominada “estatística Geral 2009 – 2010”, que apresenta um significativo crescimento de diversos índices quando comparado a 2009, tais quais: as solicitações de crédito (24,40%); as operações de crédito (26,03%); a concessão de empréstimos (22,54%); a quantia liberada (29,36%); e os valores movimentados (41,90%) (Idem, 2011). 40 Estatística Geral 2009 - 2010 2009 2010 Diferença Evento Atendimentos/Informação Variação % 3.029 3.146 117 3,86% Solicitações de Crédito 291 362 71 24,40% Operações de Crédito 265 334 69 26,03% Renegociações 21 35 14 66,66% Empréstimos Concedidos 244 299 55 22,54% Para Mulheres 200 238 38 19,00% Formalizados 23 76 53 230,43% 546.000,00 706.305,00 160.305,00 29,36% Valor Médio – R$ 2.237,70 2.362,22 124,52 5,54% Valores Renegociados – 34.229,33 117.066,21 82.836,88 242,00% 580.229,33 823.371,21 243.141,88 41,90% Valores Liberados – R$ R$ Valores Movimentados – R$ Fonte: (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011).24 A tabela “estatística Geral 2009 – 2010” remete, também, a importantes considerações, como o fato de haver um expressivo aumento da quantidade de pessoas formalizadas, entendidas como pessoas que abriram firma, quando em 2009 estas representavam apenas 9,48% dos empréstimos, em 2010 sua representatividade chega a 25,59% do volume das operações25 (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). Outro índice que merece destaque é referente ao crescimento do valor médio das operações de 5,54%, reforçando a perspectiva de que estes empreendedores acreditam no retorno de seu negócio e por isto investem mais nele (Idem, 2011). As mulheres no ano de 2010 foram responsáveis por 79,60% dos empréstimos concedidos, fato que ressalta a política do Banco de priorizar os empréstimos às mulheres por estes desencadearem um maior ganho social. Freqüentemente o investimento na abertura de novos negócios por parte das mulheres está relacionado à 24 Cf. http://www.bpm.org.br/site/noticias.php?codigo=73 In. BANCO POPULAR DA MULHER. Acesso em 8 de Maio de 2011. 25 Segundo o Banco, grande parte desta formalização dos clientes se deve ao programa do Governo Federal para Micro Empreendedores Individuais (Cf. BANCO POPULAR DA MULHER, 2011) . 41 complementação da renda familiar, muitas vezes uma necessidade latente, uma vez que não são todos os cônjuges que contribuem para manter a casa (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). Em relação à taxa de inadimplência, ao passo que o índice apontado pelo Serasa em 2010 ficou em 6,3%, o Banco Popular da Mulher registrou uma inadimplência de apenas 1,16% nas parcelas vencidas a mais de 30 dias (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). Gráfico 1 Gráfico 2 O gráfico 1 apresenta a composição da liberação dos empréstimos em 2010: o segmento do comércio concentrou 70,90% dos empréstimos, os serviços representaram 26,09% e a produção apenas 3,01% (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). O gráfico 2 ilustra que do total do crédito concedido em 2010 o capital de giro, destinado à compra de mercadorias e matéria-prima, foi responsável por 43,14%, o capital fixo, destinado ao investimento em máquinas e equipamentos, por 29,43% e o capital misto, capital fixo e capital de giro, por 27,42% (Idem, 2011). A tabela abaixo, denominada “liberações por faixa etária”, apresenta o perfil do público atendido pelo Banco Popular da Mulher. Neste público, a faixa etária que mais procura o Banco desde que foi criado é aquela que ainda hoje é a mais expressiva: de 41 a 50 anos. Este segmento é majoritariamente composto por aqueles que outrora trabalhavam como empregados, mas, devido a uma situação particular – seja por terem sido despedidos ou vislumbrarem uma oportunidade –, acabam por abrir seu próprio negócio e, além de criarem emprego para si, não é raro empregarem seus familiares (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). 42 Liberações por faixa etária Faixa Etária 2009 2010 15 a 20 anos 2,59% 2,34% 21 a 30 anos 6,47% 15,38% 31 a 40 anos 31,03% 27,42% 41 a 50 anos 33,62% 29,77% 51 a 60 anos 19,40% 18,73% 61 a 70 anos 5,60% 5,35% + de 70 anos 1,29% 1,00% Fonte: (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011).26 A tabela “liberações por faixa etária” apresenta um expressivo crescimento, de 2009 a 2010, de 137,71% da participação dos jovens compreendidos entre 21 a 30 anos. Este aumento pode representar uma mudança de perspectiva por parte deste público jovem, que transcende da visão de encontrar um bom emprego e ali permanecer para o empreendedorismo, no qual o jovem é dono de próprio negócio (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). Em termos do tipo do contrato, ou seja, se é uma renovação do crédito ou se o cliente é novo e está tomando o empréstimo pela primeira vez, cabe ser destacado o seguinte: o ano de 2010 marcou uma vertiginosa expansão da tomada de novos empréstimos, enquanto em 2009 foram formalizados 90 contratos deste tipo, no ano de 2010 foram selados 183 contratos27 (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). Os novos empréstimos tomados em 2010 representaram 61,20% da quantidade total dos contratos firmados frente às renovações (Idem, 2011). Finalmente cabe relacionar o número de empréstimos concedidos à faixa de crédito demandada. No ano de 2010 foram concedidos 299 empréstimos, destes, 68 foram destinados a empréstimos de até R$ 1.000,00, 163 a empréstimos compreendidos entre R$ 1.001,00 a R$ 3.000,00, 62 a empréstimos na faixa de R$ 3.001,00 a R$ 5.000,00 e 6 para valores situados entre R$ 5.001,00 a R$ 10.000,00 (BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). Estes dados informam que 77,25% do crédito 26 Cf. http://www.bpm.org.br/site/noticias.php?codigo=73 In. BANCO POPULAR DA MULHER. Acesso em 8 de Maio de 2011. 27 O aumento do número de novos contratos seria uma conseqüência das alterações promovidas na política de crédito no início de 2010 referentes à flexibilização da concessão de crédito – como a criação de alternativas para a garantia dos empréstimos (Cf. BANCO POPULAR DA MULHER, 2011). 43 concedido pelo Banco Popular da Mulher condiz a valores de até R$ 3.000,00, fato que evidencia o objetivo do Banco de priorizar os mais necessitados que, em geral, são aqueles que demandam uma menor quantia de crédito. Destarte, o capítulo apresentou a relação entre Banco Popular da Mulher e a cidade em que está inserido: com particularidades próprias, a cidade de Campinas é um importante centro econômico nacional, espaço no qual o Banco busca integrar sócioeconomicamente àqueles marginalizados do desenvolvimento econômico. Ademais, o capítulo buscou descrever detalhadamente o modus operandi do Banco destacando: os requisitos para ser um potencial cliente, os tipos de crédito oferecidos e as etapas que devem ser preenchidas para conseguir um empréstimo. 44 Conclusão O intuito deste trabalho foi construir uma base sólida de informações acerca do microcrédito a fim de concretizar o estudo de caso do Banco Popular da Mulher em Campinas. Uma vez realizado o estudo de caso foi constatado que o Banco de microcrédito analisado é um importante instrumento de inclusão social de uma parte da população campineira economicamente marginalizada por fornecer as condições para fomentar iniciativas empreendedoras e ampliar micronegócios. Entretanto foi percebido que o Banco possui uma autonomia relativa em relação à Prefeitura, fato que posterga determinadas tomadas de decisões e atrasa a concretização da política de microcrédito. Os valores ainda são vistos como insuficientes diante do potencial de clientes e a forma de concessão de empréstimos particulares adotada pelo Banco é muito limitada. Os altos custos subtraídos em empréstimos individuais, que responde pela quase totalidade dos empréstimos do Banco, ainda que desempenhem um importante papel social, resultam em baixos retornos econômicos que restringem a expansão da carteira de clientes. A matéria do microcrédito evoluiu muito desde os ensaios de Yunus em Bangladesh, e as novas tecnologias desenvolvidas desde então poderiam começar a ser empregadas pelo Banco Popular da Mulher. Deste modo, a pretensão demonstrada pelo corpo burocrático do Banco em modificar a metodologia de concessão de empréstimos, substituindo os empréstimos particulares por empréstimos para grupos de indivíduos, é justificada pelo sucesso das inovações microcrediárias, e no meu entender, sua implementação é um imperativo para o desenvolvimento microcrediário em Campinas. O desafio da expansão da política de microcrédito no Brasil repousa no reconhecimento desta ferramenta como um importante promotor de inserção econômica e desenvolvimento social. Entretanto, tal instrumento não deve ser vislumbrado como a solução para os problemas econômico-sociais que amarguram a sociedade brasileira, a política de microcrédito está contida dentro de um conjunto de medidas que almejam integrar e desenvolver a sociedade brasileira. Caso fosse implementada isoladamente, como uma espécie de panacéia social, muito provavelmente seria ineficaz, trazendo poucos ganhos sociais. Creio que quanto mais solitária for a política de microcrédito, maiores seriam os custos e tempo demandado para converter tal esforço em ganhos 45 sociais, afinal o indivíduo depende de um respaldo governamental muito mais amplo que não se confina unicamente ao empréstimo e acompanhamento do empreendimento. 46 Anexo A Bittencourt apresenta de modo sintético as legislações que regulam o microcrédito (BITTENCOURT, 2005, p.38-39): Cooperativas de crédito: –Leis 4.595/64, 5.764/71 e 10.865/04; Res. CMN 3.106/03 e 2.707/00 OSCIP: –Lei 9.790/99; MP 2.143-33/01 e 2.113-32/01; Decreto 3.100/99; Port. MJ 361/99 e 256/02 SCM: –Lei 10.194/01; Res. CMN 2.874/01 e 3.182/03 Crédito Consignado: –Lei 10.820/03; Decreto 4.961/04; Res. CMN 2.718/00 Correspondentes Bancários: –Res. CMN 3.156/03, 3.110/03 e 2.707/00 Riscos e Garantias: –Res. CMN 2.682/99, 1.559/88 e 3.258/05; Circular BC 3.163/05 Bancos Cooperativos: –Res. CMN 3.188/04 e 2.788/00 FAMPE (Sebrae): –Leis 8.029 e 11.110/05 Agências de Fomento –MP 2.192-70/01; Res. CMN 2.828/01 Banco Popular do Brasil: –Lei 10.738/03 Contas simplificadas: –Res. CMN 3.211/04 Conta corrente normal e eletrônica –Res. CMN 2.025/93, 2.747/00, 2.817/01 e 2.953/02 FAT – Funproger: –Leis 7.998/90, 8.019/90, 8.352/91, 9.872/99 e 11.110/05; Res CMN 3.091/03 Tributação do Crédito: 47 –Leis 9.311/96, 10.865/04, 10.892/04 e 11.110/05; Port MF 244/04 Depósitos especiais para microcrédito: –Leis 10.735/03 e 11.110/05; Res. CMN 3.310/05 Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado – PNMPO: –Lei 11.110/05; Decreto 5.288/04; Res CMN 3.310/05 e Res. Codefat 449/05 48 Referências ALVES, Sérgio Darcy da Silva; SOARES, Marden Marques. Democratização do crédito no Brasil: Atuação do Banco Central. Disponível em:<http://www.politiquessociales.net/IMG/pdf/democraticao_do_credito_no_Brasil_A ctuacao_do_Banco_Central.pdf>. Acesso em 25 de Setembro de 2010. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/>. Acesso em 3 de Abril de 2011. BANCO POPULAR DA MULHER. Disponível em: <http://www.bpm.org.br/site/>. Acesso em 25 de Setembro de 2010. BANCO POPULAR DA MULHER. Disponível em: <http://www.bpm.org.br/site/>. Acesso em 8 de Maio de 2011. BARONE, Francisco Marcelo; SADER, Emir. Acesso ao crédito no Brasil: evolução e perspectivas. Rev. Adm. Pública, Rio de Janeiro, v. 42, n. 6, Dez 2008. 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