PROJETO DE EDITORIAL ste número especial do Boletim GTPOS é uma amostra de tudo que tem sido feito no projeto Orientação Sexual na Escola que estamos desenvolvendo em parceria com a Secretaria da Educação da cidade de São Paulo. O artigo “Um projeto bem sucedido nas escolas da Rede Pública Municipal de São Paulo” conta a história do projeto e localiza seus princípios gerais: a discussão de valores sem imposição, a postura de condutor de debates, a informação como fundamento mas sem ser suficiente, a metodologia participativa com a construção coletiva de conhecimento. Tudo balizado pelo respeito aos outros, à diversidade, à inclusão social e à democracia. Em “Sexualidade e Currículo”, aborda-se como a temática da sexualidade repercute dentro da estrutura da Secretaria da Educação. No artigo “Orientação Sexual nos Centros de Educação Infantil” são apresentadas as atividades realizadas junto aos educadores deste nível de ensino apontando os desafios e os sucessos já obtidos. Já o texto “Uma Experiência Criativa” apresenta os sentimentos de uma supervisora e dos professores que vivem a implantação do projeto em EMEI(s). No texto que discute como abordar temas polêmicos com adolescentes o autor também aponta como os professores têm pré-noções sobre adolescentes que não se confirmam no desenrolar do projeto. O artigo “Supervisão: Uma Aprendizagem” trata da importância das reuniões semanais que possibilitam reflexão, trocas de experiência e solução coletiva e criativa de problemas. Seguramente, por meio destes artigos pode-se ter uma visão da importância da implantação do projeto de Orientação Sexual nas escolas municipais de São Paulo. É um belo exemplo para todo o Brasil. Silvio Duarte Bock Membro fundador do GTPOS ORIEN TAÇÃO E SEXUAL NA ESCOLA B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L AGOSTO DE 2004 Um projeto bem sucedido Nas escolas da Rede Pública Municipal de São Paulo por Antonio Carlos Egypto 001, novo século: uma odis- como deve ser difícil conhecer e séia no tempo. Toma posse a administrar a maior Prefeitura do nova administração munici- país, na máquina burocrática que pal em São Paulo, o governo da pode inviabilizar trabalhos os mais reconstrução. É hora de buscar consistentes, nas estruturas do realizar os projetos que interessam Estado que são paquidérmicas e à população. Ainda no primeiro coisas que tais, quando veio a notíano da nova gestão, apresentei um cia. Mal havia começado o ano de 2003 e estava tudo certo. O proprojeto de Orientação Sexual na jeto estava aprovado e agora Escola, em nome do GTPOS. era aprontar para começar O trabalho interessava à o trabalho. Na verdade, Secretaria de Educação, o que eu estava seduzia e encantava aprontando mesmo as pessoas e tinha A extensão eram as malas uma história de do projeto para as férias sucesso ande verão, terior, quané grande, abrange mas diante da do, de 1989 a toda nova situação, 1992, um projeto pus-me a campo similar fora concea cidade imediatamente. bido e executado pelo O cronograma do GTPOS. projeto, que previa três anos O tempo passava e eu de trabalho, foi reduzido a pensava com meus botões (e dois e era preciso montar as zíperes também, é claro) em 2 CONTINUA NA PÁG. 2 B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L Um projeto bem sucedido nas escolas da Rede Pública Municipal de São Paulo CONTINUAÇÃO DA CAPA O que se busca com tudo isso e com a formação continuada que acontece ao longo do trabalho de supervisão é produzir reflexão e criatividade. E por meio dela gerar uma prática educativa inovadora e democrática, onde a problematização dos temas ocupa papel central. A criatividade pode ser concebida como um processo histórico contínuo de mudanças que ocorrem na cultura pela ação dos diferenextensão do projeto é grande, abrange tes grupos sociais. No pequeno espaço das nostoda a cidade, dividida em 31 subsas supervisões, o processo criativo pode ser prefeituras. A rede tem cerca de 1000 percebido pela ótica do mundo interno das pesescolas e 300 creches diretas. E novas demansoas que estão se relacionando e na elaboração das surgiram com a inauguração dos CEU do trabalho pedagógico. (Centros de Educação Unificados), que estão Na Orientação Sexual na Escola, lida-se tornando a educação municipal mais com valores sem impô-los, o que não é atraente e mais azul. A ação é contínua, tarefa fácil. A postura utilizada é a da o ritmo, frenético. Como é mesmo a condução de debates, onde a inforhistória do paquiderme? Bem, mação é elemento essencial mas deixa prá lá. não suficiente. Daí o uso de E era preciso “ir aonde o metodologia participativa, povo está”, como cantava Era preciso onde o conhecimento se Milton Nascimento a “ir aonde o povo constrói coletivamente. respeito dos artistas. Ou Verdades não são impostas, seja, percorrer a cidade em está” nem o professor assume positodas as suas zonas e regiões cionamentos diretivos. Ele tem fazendo cursos e supervisionancomo referência valores gerais, do o trabalho dos professores, pecomo o respeito ao outro, à diversiriodicamente (semanalmente, no caso dade, à inclusão social e à democracia. O do ensino fundamental e educação de que importa é o processo de construir cojovens e adultos). E muitas palestras, nhecimentos e incorporar comportamentos e reuniões e textos depois, aqui estamos comações consistentes. pletando um ano e meio de ações do projeto de Orientação Sexual na Escola. Felizes e realiste número especial do boletim dedicado zados, apesar dos muitos problemas. ao projeto fala de nossas ações que vão Afinal, estavam em andamento, em junho dos bebês atendidos nos CEI – Centros de 2004, 66 grupos de supervisão com 681 de Educação Infantil (as creches) aos senhores educadores de 459 unidades escolares. Esses e senhoras dos CIEJA – Centros Integrados de educadores levam o projeto a cerca de 100.000 Educação de Jovens e Adultos, os mais velhos alunos. Já realizamos 99 cursos, a grande desses alunos já beirando a casa dos 80 anos de maioria com 24 horas de duração, que mobiidade. Isso é que é abrangência, hein? lizaram 2070 professores, auxiliares de desenOs desafios são enormes, as carências tamvolvimento infantil e coordenadores pedagógibém, e é preciso agir com constância e concos de 1113 escolas e creches. Encontros tinuidade. O GTPOS abraçou essa causa com temáticos, palestras, oficinas, reuniões gerais entusiasmo. Contou com a colaboração decidide pólo e congressos, onde a questão da sexuada de muitos educadores experientes, que tralidade foi apresentada e discutida com mais de balham com Orientação Sexual nas suas esco7000 educadores, também aconteceram. Um las há anos. E também com jovens talentos farto e selecionadíssimo material didático distrazendo toda sua energia e sede de conhecitribuído às escolas dá forma e substância a esse mento ao projeto. trabalho. Um material didático original do Sempre que a gente acredita muito numa projeto foi concebido para adolescentes e coisa e se dedica a ela, acaba fazendo aconteoutro, para crianças, e chegará às escolas neste cer. Quem sabe faz a hora... lembra? segundo semestre. equipes administrativas na Secretaria Municipal de Educação e no GTPOS, além de toda a “infra” necessária. E montar a equipe de formadores, que hoje conta com 33 profissionais. Tudo foi feito com muito empenho, as pessoas envolvidas acreditando muito na proposta e a Secretaria de Educação nos dando todo o apoio de que o projeto precisa. A E 2 AGOSTO / 2004 Antonio Carlos Egypto é o coordenador geral e técnico do projeto de Orientação Sexual na Escola B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L Sexualidade e currículo por Maria Cecília Carlini Macedo té pouco tempo atrás, se discutia se a lo de Leituras da Secretaria Municipal de Edusexualidade era um assunto para ser cação, que trouxe a teoria de Paulo Freire para trabalhado no âmbito da escola. A paro trabalho com a diversidade sexual. Surgiu o tir de muito trabalho e de um processo de desCírculo de Leitura para Transgêneros – bravamento de grupos de uma professora ou Resgatando Histórias, um espaço para que professor que acreditaram na importância de travestis e transexuais pudessem falar sobre valorizar esta discussão, temos esta batalha cultura, recebendo a cada encontro a visita de praticamente vencida. Hoje, na Rede Municiautores, músicos e poetas. A idéia é dar direito pal de Ensino da cidade de São Paulo, temos o a estas pessoas que, na maioria das vezes, projeto de Orientação Sexual inserido no foram expulsas da escola muito cedo por serem cotidiano da escola e fazendo parte das disdiferentes. Travestis foram ouvidas e particicussões das salas dos professores e de reuniões param na estruturação desta ação, represenpedagógicas. tadas por Cláudia Wonder. O próximo passo é conquistar um espaço O projeto de Orientação Sexual na Escola para a sexualidade no currículo, trabalhando trabalhou com os CIEJAs (Centros Integrados estas questões nas diferentes áreas do conhecide Educação Para Jovens e Adultos) na prepamento. Assim, o espaço específico da Orienração desta atividade, num outro projeto, o tação Sexual cresce e se potencializa. Mix Jovem, e nas ações regulares de Este processo contempla a política sexualidade na escola. da Secretaria Municipal de EduO Mix Jovem é um projeto em cação, que pensa a reorientação parceria com a Coordenadoria da A política curricular como um caminho Juventude e com a Ong Mix que abre para a construção de uma Brasil que atua no movieducação emancipadora, mento pelos direitos dos caminho para uma que trata o conhecimento homossexuais e transgêeducação como um todo e é um neros. A base desse trabalho veículo para a estruturação de foi o debate de filmes de curta emancipadora São Paulo como cidade edumetragem sobre diversidade secadora. xual. Os orientadores de salas de leitura ARTICULAÇÕES participaram de trabalhos sobre a O projeto de Orientação Sexual na importância de disponibilizar para crianças Escola na Rede Municipal de Ensino criou na e adolescentes livros e outros materiais que Secretaria de Educação um grupo para desentratam da sexualidade. volver a parte logística e organizacional das O Vamos Combinar? criou uma parceria suas ações. O projeto trouxe inovações em entre a Secretaria Municipal de Saúde e a de todos aspectos, a começar pela parte buroEducação, o projeto de Orientação Sexual na crática, já que a formação em sexualidade é um Escola e o projeto Vida. Trabalha a educação processo contínuo. Os professores passam por preventiva relacionada à DST/Aids e à redução um curso inicial e depois participam da superde danos quanto ao uso indevido de drogas. visão durante todo o período de desenvolviAtua com adolescentes multiplicadores em mento do projeto, que nesta fase se estende até ações de prevenção e organiza a disponibilizadezembro de 2004. Denominamos, então, a ção de camisinhas nas escolas de Ensino supervisão de “Complementação e AcomFundamental, que se inscrevem livremente, panhamento da Ação Pedagógica”, abrindo na projeto em parceria com o Ministério da Rede Municipal uma nova forma oficial de Saúde. capacitação para educadores. E o que ainda está por vir: o projeto de A sexualidade passou a fazer parte das disSexualidade e Direitos Reprodutivos, Cinema e cussões nas escolas, nas Coordenadorias de Sexualidade nos CEU, Semana de Gravidez na Educação, criando espaço para novas ações Adolescência 2004 e o lançamento mundial em que envolveram a reflexão sobre o tema em São Paulo do Esforço Global “Women and diferentes aspectos e segmentos. Aids”. Mas isso a gente conta depois... Um convite para a formação de parceria veio de Paulo Gonçalo, coordenador do Círcu- A Maria Cecília Carlini Macedo é coordenadora do projeto de Orientação Sexual na Escola, na Secretaria de Educação. 3 AGOSTO / 2004 B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L Temas polêmicos da sexualidade e adolescência estes mobilizam nas pessoas as mais diferentes reações e reflexões de acordo com suas experiências de vida. Essas vivências devem ser discutidas com o adolescente em sala de aula sem, contudo, dar respostas ou impor “verdades”, mesmo porque cada pessoa terá a sua própria. Assim a abordagem desses temas deve começar com sua problematização: levantamento de preconceitos, valores, posturas, informações a ele associados e, a partir disso, fomentar a discussão lançando mão de recursos que envolvam todo o grupo no debate. O nosso papel é basicapor Jaime Duarte Júnior mente o de mediador e o de observador. Vamos exemplificar:para trabalhar um tema como a homossexualidade pode-se dramatizar diferentes situações veiculadas pela mídia: o assassinato de um homem por um grus definições dos dicionários sempre po de jovens apenas por estar de mãos dadas abordam a adolescência como o intercom outro homem, a expulsão de um casal de valo de tempo da existência humana homens ou mulheres de um shopping por compreendido entre a infância e a idade adulta terem trocado um beijo, o preconceito que marcado por mudanças físicas e psicológicas se manifesta numa escola porque um adoprofundas. As mudanças físicas por si só, lescente se declara homossexual, ou já geram ansiedade e insegurança em qualquer outra situação que o grupo boa parte dos adolescentes e associacrie. Para tornar a vivência mais das à busca de identidade produrica é sempre desejável que os zem atitudes rebeldes, reivindipapéis representados não catórias, contestatórias. LiO importante sejam fixos, permitindo a dar com essas individualitroca de personagens. é deixar o foco na dades em formação não é Cada orientador sexutarefa fácil para o universo reflexão al, na sua prática, deve bus“adulto”, mais especificacar a técnica que mais se adapte mente, para pais e professores. aos seus grupos, levando-se em Criou-se até um termo depreconta a realidade, as referências de ciativo para designá-los: “aborrecencada escola/bairro/cidade. O importante tes”, ou seja, aqueles que aborrecem, é deixar o foco na reflexão, na discussão, que causam aborrecimentos. Para evitá-los na problematização. os pais têm assumido uma postura permissiva, Um relato de experiência que considero com limites pouco claros, deixando os adolessignificativo: utilizei o jogo ANTES-DURANcentes impotentes diante de meios de comuniTE-DEPOIS para discutir gravidez na adocação que, se por um lado democratizam inforlescência com um grupo de professores. Uma mações, por outro impõem padrões de beleza, das dinâmicas propostas é a montagem de comportamento e consumo. Diante desse “sonhos de adolescentes”. Vários grupos tivequadro, nós educadores devemos ter uma atiram muita dificuldade em montar os sonhos tude de acolhimento, nunca de confronto. dos adolescentes, argumentando que eles esDevemos ser capazes de lembrar como foi esse tavam inseridos numa realidade tão dura que processo de adolescer para nós mesmos e, apenão sonhavam. Quando esses professores fosar das diferenças de idades e de contextos ram aplicar essa dinâmica com seus alunos, históricos, veremos que, na essência, não foi constataram que eles sonham sim e que seus muito diferente. Esse exercício nos aproxima sonhos eram bem variados. Quem não condos adolescentes e permite que os auxiliemos a seguia pensar em sonhos eram os professores! compreender e refletir sobre as mudanças que Creio que devemos tomar muito cuidado para estão ocorrendo com eles e atingir o que connão projetar nossas expectativas e desencantos sidero nosso principal papel: ajudar na conssobre os adolescentes. Acredito que venham trução de personalidades mais críticas e daí as dificuldades que temos em lidar com solidárias. adolescentes. Eles não são “aborrecentes”, apeEm um trabalho de orientação sexual com nas são o que são: indivíduos em formação. adolescentes devemos estar particularmente Um abraço e ... boas polêmicas. atentos ao abordarmos temas polêmicos, pois A 4 AGOSTO / 2004 ADOLESCENTE: adj. e s. 2g. 1. Que, ou quem, está na adolescência. 2.fig Que está no começo, no início, que ainda não atingiu todo o vigor. ADOLESCÊNCIA: s. f. O período da vida humana que sucede à infância, começa com a puberdade e se caracteriza por uma série de mudanças corporais e psicológicas (estende-se aproximadamente dos 12 aos 20 anos). ABORRECER: V. t. d. Sentir horror a; abominar, detestar; causar aborrecimento a; desgostar, contrariar, enfadar; causar horror, aversão, tédio, enfado. Dicionário Aurélio Jaime Duarte Júnior é formador do projeto de Orientação Sexual na Escola junto às EMEFs (Escolas Municipais de Ensino Fundamental) B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L Supervisão: uma aprendizagem por Célia Lourdes Amaral de Almeida aperfeiçoando na supervisão e no cotidiano da m plena “happy-hour” da sexta-feira sala-de-aula. E os professores remexendo chegavam as professoras e profesarmários, depósitos, porões, cantos e sores, dispondo, talvez, da única recantos de suas escolas. Não é que noite “livre” da semana. O local: a sala havia muito material “esquecido”? de leitura da EMEF Shirley Guio. Fitas de vídeo, painéis imantados, Esta foi a rotina de agosto a A experiência seios de silicone para ensinar dezembro de 2003. No início, na Coordenadoria auto-exame, bonecos... Uma nem todos sentiam-se pron“Família Colchete” entos para dar início ao traRegional de Educação contrada em um porão, balho de Orientação Vila Maria – recebeu da professora uma Sexual em suas escolas. “faxina” em regra e até gaMesmo tendo a vivência e a Vila Guilherme nhou roupas novas! preparação do curso de forA cada novo encontro, o commação, agora se tratava de “colopartilhar das experiências: car a mão na massa”. E praticar algo novo sempre traz dificuldades. E a de ◆ a receptividade dos alunos: “Foi dez Orientação Sexual em especial, porque com as minhas 4as. séries! Primeiro comelida com questões que provocam a emergênçamos falando do corpo como um todo, cia de tabus e resistências. Daí o receio quanto órgãos, músculos, articulações. Nada de noà recepção dos(as) colegas, a intranqüilidade mes. Mas um reconhecimento, ir se percebenquanto à reação de pais e mães, a insegurança do. Depois fizemos o projeto dos bonecos. frente às possíveis reações de alunos e alunas. Construímos os bonecos. E aí chegamos na “Na minha aula de Educação Física com a sexualidade. E a receptividade foi muito boa! 3a. Série, uma menina passando e os meninos Eles tinham muita curiosidade!”; disseram: Ai que gostosa!’. E a menina chorou. Aí juntei todo mundo e perguntei: ‘O ◆ o trabalho tendo visibilidade na escola: que é gostoso? O que você quis dizer pra ela?” “A escola está fervilhando! Todo mundo fala E a professora da sala já aos berros: “Ele de sexualidade: o diretor, os auxiliares de edusabe!” E o menino respondeu: “Gostosa pra cação, os professores, os alunos! Saiu daquela mim é bonita”. E cada um foi falando o que coisa mistificada, que não se pode falar e pasachava. E foi uma conversa tão bonita! E sou a ser assunto da escola!”; desmistificou pra professora que tinha certeza que o menino disse aquilo com o mesmo senti◆ o lançar-se a novos desafios: “Ouvi a do de um adulto”. professora de 2a. Série falando: ‘Olha aquele Papel modesto, o nosso. Mas significativo: menino. É gay. É um Bambi! Aí levei aquele “A Coordenadora Pedagógica da escola me livro Menino brinca de boneca?. Precisava parou um dia no pátio e me disse: ‘Escuta aqui, ver as crianças discutindo, falando sobre as professora: você não vai dar aulas de diferenças.! 2a. Série! Foi a coisa mais linda! Orientação Sexual para aquelas 5as. e 6as. E a professora estava junto”. séries? Porque eu não agüento mais... um que fica se esfregando e passando a mão no outro!”. Me cobrou forte! E eu disse pra ela: o nos propormos a discutir a sexuali“Não, eu não vou dar aulas de Orientação dade e a discuti-la como uma experiênSexual pra eles, porque esse trabalho é muito cia única, acolhendo e refletindo as sério e não pode ser uma coisa jogada, pra múltiplas opiniões, problematizando e propitapar buraco e pra quebrar-galho da escola. Me ciando um espaço de elaboração do pensamenarruma um dia, um horário fixo, que eu me to crítico, operamos transformações (em nós e preparo e desenvolvo o trabalho”. Era uma em nosso grupo). E isso, com certeza, nos torna necessidade, sim, daquelas salas. Mas eu senti mais questionadores quanto à nossa própria que a sexualidade não era um assunto a ser atividade docente. tratado de qualquer maneira!”. Assim, o desafio de fazer um trabalho conÉ este o nosso trabalho na Supervisão. sistente, sério, planejado. Idéias de aulas “diferentes”, dinâmicas foram surgindo e se E Célia de Lourdes Amaral de Almeida é formadora do projeto de Orientação Sexual na Escola junto às EMEFs (Escolas Municipais de Ensino Fundamental) 5 A AGOSTO / 2004 B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L Orientação Sexual nos Centros de Educação Infantil A tendência das educadoras diante de um comportamento sexual com o qual não se sentem à vontade, é mudar de assunto, tomar como doença ou reprimir severamente. Talvez não relacionem esses comportamentos sexuais com a expressão da curiosidade e do brincar sexual infantís. Com relação à questão de gênero, mostraram-se capazes de lidar com as diferenças. Este projeto é um trabalho inédito para esses educadores. Estamos descobrindo que as educadoras têm um longo repertório com as crianças, mas falta-lhes formação teórica para nomear aquilo que elas têm como dados vivenpor Maria Cecília Pereira da Silva ciados na relação com os alunos. Durante as supervisões tem sido fundamental unir os dados obtidos de muitos anos de observação de Projeto de Orientação Sexual nos crianças com as informações teóricas e cientíCentros de Educação Infantil – CEI, ficas do desenvolvimento emocional e sexual iniciou-se em agosto de 2003 a pedido infantis e, assim, possibilitar a reflexão. das Coordenadorias da Educação e dos profisQuando dizemos que masturbar-se é inerente sionais de CEI. Foram realizados cursos iniciais ao desenvolvimento da sexualidade abrimos a de 16 horas envolvendo 585 Professores de possibilidade de um outro olhar para a criança Desenvolvimento Infantil, Auxiliares de Desene garantimos que as educadoras não repitam volvimento Infantil e Coordenadores Pedaautomaticamente com seus alunos exatamente gógicos. Após o curso seguiram-se as supero que lhes foi ensinado. É como se esse projevisões de 2 horas mensais em 2003 e quinzenais to validasse aquilo que elas acompanharam em 2004, em 22 locais distintos da cidade. O mas não registraram como aprendizado. entusiasmo, o interesse e a participação dos As supervisões constroem um espaço educadores de CEI nos surpreenderam com reflexivo e favorecem a capacidade de uma adesão plena à proposta do projeto. observação e de intervenção na reUm questionário1 aplicado no lação professor-aluno. A descoinício do projeto revela dados Um trabalho berta de que a sexualidade infaninteressantes: o perfil dos edutil e a curiosidade de aprender cadores de CEI caracteriza-se inédito na estão ligadas ampliou a por mulheres na sua maioSecretaria Municipal concepção de educação. ria acima dos 30 anos, Além disso, os educacom ensino médio comde Educação dores vêm assumindo uma pleto e com muitos anos de da cidade postura mais investigativa e experiência em educação de reflexiva, deixando de esperar dos crianças de 3 a 6 anos. de São Paulo formadores uma receita pronta, para Há um paradoxo: 80% das edubuscar construir junto com o grupo o cadoras declararam que conhecem conhecimento e a compreensão das manimuito pouco sobre o tema sexualidade, festações sexuais das crianças. sendo que 57% delas nunca participaram de Esse projeto também nos tem surpreendido nenhuma atividade relacionada à orientação com outros desdobramentos ligados à presexual e se sentem pouco à vontade para lidar venção de dificuldades de aprendizagem e de com temas da sexualidade. No entanto, quando problemas emocionais graves. A partir do relaperguntadas sobre como lidar com certas situato das educadoras, é possível imaginar que cerções que envolvem a sexualidade, elas detos comportamentos vão gerar dificuldades de monstraram que em seu cotidiano sabem lidar concentração no ensino fundamental. Com um com estas situações. Será que se envergonham olhar mais aguçado e uma postura adequada, em declarar um conhecimento adquirido com a os educadores podem identificar e intervir preexperiência de tantos anos? Ou será que não se cocemente diante dessas situações, favorecendão conta do que sabem? do o desenvolvimento sadio das crianças. Existem, porém, dificuldades relatadas no questionário, como o desconforto com situa1 Elaborado e realizado pelo IDECA – Instituto de ções de masturbação infantil ou com a curiosiDesenvolvimento Educacional Cultural e de Ação dade das crianças em descobrir o sexo oposto. Comunitária. O 6 AGOSTO / 2004 Maria Cecília Pereira da Silva é Coordenado ra Técnica do Projeto de Orientação Sexual nos CEIs. B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L Uma experiência criativa por Maria Cristina Domingues Pinto desconforto semelhante ao meu. Apesar enso que com esta lúcida indado curso inicial, agora era o momengação a autora se refere aos to de “por a mão na massa”, “sonhos” de vigília, aquele “Quem “massa” de alunos, de pais “fu“sonhar” acordada, consciente/ dentre nós riosos”, de colegas ressabiainconsciente, que caminha na dos para dizer o mínimo. direção da realização de estará a altura da Frente a tais fantasias, a nossos desejos de forma criatividade de angústia gerada era enorcriativa. me e toda sorte de escapisAlgo que sempre chaseus sonhos?” mos surgiam: “eu não sabia mou minha atenção em relação Joyce que haveria supervisão... vamos à criatividade, à inspiração (tal McDougall ter que dedicar mais tempo?” como os “sonhos”) é que chega não Projetos prontos, extensivos a pais se sabe de onde, nem bem como chee/ou à escola, logo no primeiro encontro!? gou e por vezes irrompe inesperadamente Persistência em desfocar o objetivo do em nossa fala. Se traduz em palavras. trabalho com crianças, para professores e pais. Não há uma compreensão intelectual do Como se antes de mais nada precisassem tornáque é criado, “sonhado” num primeiro momenlos “cúmplices”. to. Parece surgir de uma intuição certeira, mas Tratei então de entender e traduzir essas fugaz, de um saber não pensado e na tentativa resistências em “miúdos”, aclarando-as e acode capturá-lo pensado, se esvai como um lhendo-as como fizera com as minhas próprias, sonho. para que fossem usadas a nosso favor. Faço essa introdução para contar a vocês o Afinal certa dose de angústia nos impulque foi mais significativo na minha experiência siona a pensar, a criar. Daí em diante, quando com grupo de EMEIs. Uma experiência veralguém saía do “prumo” podíamos ludicadadeiramente criativa, compartilhada. mente reconduzi-lo ao caminho pretendido, Nos contatos iniciais com as professoras porém, (pela angústia) desviado. havia um clima entre apreensão e muita aniEm outras ocasiões, eu sugeria que a memação. Afinal estávamos todas ali reunidas lhor propaganda do trabalho de sexualidade para uma tarefa estimulante. Trabalhar sexuainfantil, juntos aos pais e professores era o melidade com crianças pequenas. Era um desafio! lhor trabalho que pudessem fazer com seus Para mim era o primeiro grupo de supervisão alunos, mantendo o foco sempre neles. Assim, pedagógica em sexualidade infantil. Para as pelo êxito, aos poucos iriam “contaminar” professoras coincidentemente se dava o mesnovos aliados e não opositores. mo. Apenas em direção inversa. Eu como Passado o período inicial, de estranhamensupervisora elas como supervisionandas. to e reconhecimento do terreno, quando sentiAos poucos, sem que percebêssemos claramos que ali a terra poderia ser fértil, um espaço mente, o clima inicial foi sendo substituído por de confiança, companheirismo e cumplicidade um certo desconforto. Eu, em alguns momense instalou. “Nos demos as mãos” no sentido tos me sentia livre, criativa. Em outros, e esses de com habilidades (escuta afinada, olhar perspredominavam, como se não estivesse cumpicaz; para o novo...) e estratégias de interprindo minha função de “ensinar” metodolovenção (técnicas de dinâmica de grupo, disgia, discutir preconceitos, valores... cussões de vídeos, leituras de livros...) “subConseguia resgatar involuntariamente , verteríamos” a ordem das coisas. À semelhanprovavelmente para me acalmar, que o saber ça de um jogo as regras se estabeleciam. Onde intuitivo da ciência, como todo processo criatihouvesse repressão, supressão de idéias, havevo, brota da mesma fonte consciente/inconria sexualidade. Transformada em acolhimensciente e só num segundo momento é elaborato, simbolizada em palavras, diria o até aqui do e recebe tratamento metodológico e teóriproibido. co... Coisas assim surgiam e sumiam. Onde não houvesse compreensão, haveria Me perguntava o que estaria acontecendo observação, tolerância com nossa própria comigo. Comecei a vislumbrar que estava ignorância (aquela que tivemos com nossa angustiada diante desta nova situação, diante angústia) até que com maior clareza pudéssede não saber como seria este sonho! mos intervir. Nessa ocasião percebia nas professoras CONTINUA NA ÚLTIMA PÁGINA P Maria Cristina Domingues Pinto é formadora do projeto de Orientação Sexual na Escola junto às EMEIs (Escolas Municipais de Educação Infantil) 7 AGOSTO / 2004 B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L Uma experiência criativa CONTINUAÇÃO Seguem alguns exemplos: – “Uma aluna de 5 anos passou a tarde com a professora eventual. Ela me disse que ficou muito constrangida ao ver a criança se masturbando, muito. Perguntei: Como assim? Ela disse que a R. ficou balançando o corpo na cadeira o tempo todo. Na minha observação nunca percebi nada. Pensei que podia ser pela minha ausência. A R. é muito apegada a mim. Mas, vou continuar observando...” “Perguntei para o Charles porque estava triste. Ele respondeu que tinha apanhado do pai com fio de ferro, porque tava mexendo no pinto. Primeiro me deu uma pena danada... depois lembrei daqui e falei: Vai ver que ele pensou que você tava fazendo uma coisa feia, errada. Mas é gostoso! Nós aqui sabemos disso e que não há nada de errado nisso, mas seu pai não pensa assim. Percebia que com essa atmosfera fértil, de continência, reflexão e jogo, eu como parte integrante do mesmo, era estimulada e estimulava, ou mesmo despertava a criatividade de minhas supervisionandas, em suas narrações e na suas conclusões ou “insights”. Estávamos penetrando e nos deixando penetrar, por indagações, experimentações, novas formulações para antigas situações, tanto nossas, como dos colegas. Seguíamos atentas contra a simplificação reducionista de sexualidade à sexo, contra tabus, preconceitos, dissociações entre teoria e técnica (meu medo inicial), entre mente e corpo, enfim contra toda forma de cegueira. Percebia que mais que uma epistemologia se produzia ali entre nós uma ética de liberdade. Transformando conhecimento científico, metodológico colorido pela pedagogia, psicologia e pela psicanálise em conhecimento popular acessível a todos que dele participavam. Fazíamos desta forma um congraçamento legítimo entre teoria, técnica e cultura através do brincar, criar participativo e compartilhado. Era para mim extremamente prazeroso usufruir e aprender na companhia de minha “alunas”, e penso que com elas ocorria o mesmo. Via seus trabalhos frutificarem através de ações complexas e ao mesmo tempo sutis, onde muita criatividade e engenhosidade afetiva e mental eram necessárias. Winnicott diz que o brincar é excitante em si mesmo, não porque envolve instintos, porém, pela magia que contém e pela intensidade das relações afetivas com quem se brinca. O brincar verdadeiro é terapêutico porque é criativo em si mesmo. Assim eu sentia! Através dele se experimenta e se controla a realidade, se distingue entre eu e o outro (“comigo não observei nada... mas vou continuar observando”). Enfim desenvolve a capacidade de pensar afetivamente, levando em conta o outro. É também através dessa liberdade para o brincar compartilhado que se desenvolve a capacidade para espontaneidade genuína e para o “sonhar” singular e criativo. BOLETIM INFORMATIVO ESPECIAL é uma publicação do projeto de Orientação Sexual na Escola desenvolvido pelo GTPOS – Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual – para a Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura da cidade de São Paulo. Secretária de Educação: Maria Aparecida Perez Coordenação do projeto: Antonio Carlos Egypto (GTPOS) Maria Cecília Carlini Macedo (SME) Coordenação administrativo/ financeira (GTPOS): Elisabeth Bahia Figueiredo Coordenação do projeto nas creches: Maria Cecília Pereira da Silva (GTPOS) Equipe de apoio no GTPOS: Ângela de Sousa Queiroz, Célia Maria de Carvalho da Costa Ferreira, Rodrigo Estramanho de Almeida, Sarah Atra e Sila Maria Andrade Kolhy Equipe de apoio na Secretaria de Educação: Diana Mendes, Isabel Cristina dos Santos, Nadir Soares Monteiro e Selma Auxiliadora Cordeiro Jornalista responsável: Nelma de Fátima Firmiano (MTB 13582) Edição de arte e desktop: Moema Kuyumjian Impressão: PR Artes Gráficas Tiragem: 6.000 exemplares GTPOS Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual Fone/Fax (11) 3801.3691 3875.7244 3801.3434 Rua Bruxelas, 169 – Sumaré CEP 01259-020 – São Paulo / SP – Brasil www.gtpos.org.br