PROJETO DE
EDITORIAL
ste número especial do
Boletim GTPOS é uma
amostra de tudo que tem
sido feito no projeto Orientação
Sexual na Escola que estamos
desenvolvendo em parceria com
a Secretaria da Educação da
cidade de São Paulo.
O artigo “Um projeto bem
sucedido nas escolas da Rede
Pública Municipal de São
Paulo” conta a história do projeto e localiza seus princípios
gerais: a discussão de valores
sem imposição, a postura de condutor de debates, a informação
como fundamento mas sem ser
suficiente, a metodologia participativa com a construção coletiva
de conhecimento. Tudo balizado
pelo respeito aos outros, à diversidade, à inclusão social e à
democracia. Em “Sexualidade e
Currículo”, aborda-se como a
temática da sexualidade repercute
dentro da estrutura da Secretaria
da Educação.
No artigo “Orientação Sexual
nos Centros de Educação
Infantil” são apresentadas as
atividades realizadas junto aos
educadores deste nível de ensino
apontando os desafios e os sucessos já obtidos. Já o texto “Uma
Experiência Criativa” apresenta
os sentimentos de uma supervisora e dos professores que vivem a
implantação do projeto em
EMEI(s).
No texto que discute como
abordar temas polêmicos com
adolescentes o autor também
aponta como os professores têm
pré-noções sobre adolescentes
que não se confirmam no desenrolar do projeto.
O artigo “Supervisão: Uma
Aprendizagem” trata da importância das reuniões semanais que
possibilitam reflexão, trocas de
experiência e solução coletiva e
criativa de problemas.
Seguramente, por meio destes
artigos pode-se ter uma visão da
importância da implantação do
projeto de Orientação Sexual nas
escolas municipais de São Paulo.
É um belo exemplo para todo o
Brasil.
Silvio Duarte Bock
Membro fundador do GTPOS
ORIEN TAÇÃO
E
SEXUAL
NA ESCOLA
B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L
AGOSTO DE 2004
Um projeto
bem sucedido
Nas escolas da Rede Pública Municipal
de São Paulo
por Antonio Carlos Egypto
001, novo século: uma odis- como deve ser difícil conhecer e
séia no tempo. Toma posse a administrar a maior Prefeitura do
nova administração munici- país, na máquina burocrática que
pal em São Paulo, o governo da pode inviabilizar trabalhos os mais
reconstrução. É hora de buscar consistentes, nas estruturas do
realizar os projetos que interessam Estado que são paquidérmicas e
à população. Ainda no primeiro coisas que tais, quando veio a notíano da nova gestão, apresentei um cia. Mal havia começado o ano de
2003 e estava tudo certo. O proprojeto de Orientação Sexual na
jeto estava aprovado e agora
Escola, em nome do GTPOS.
era aprontar para começar
O trabalho interessava à
o trabalho. Na verdade,
Secretaria de Educação,
o que eu estava
seduzia e encantava
aprontando mesmo
as pessoas e tinha
A extensão
eram as malas
uma história de
do projeto
para as férias
sucesso ande
verão,
terior, quané grande, abrange
mas diante da
do, de 1989 a
toda
nova situação,
1992, um projeto
pus-me a campo
similar fora concea cidade
imediatamente.
bido e executado pelo
O cronograma do
GTPOS.
projeto, que previa três anos
O tempo passava e eu
de trabalho, foi reduzido a
pensava com meus botões (e
dois e era preciso montar as
zíperes também, é claro) em
2
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B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L
Um projeto bem sucedido nas escolas da Rede Pública Municipal de São Paulo
CONTINUAÇÃO DA CAPA
O que se busca com tudo isso e com a formação continuada que acontece ao longo do
trabalho de supervisão é produzir reflexão e
criatividade. E por meio dela gerar uma prática
educativa inovadora e democrática, onde a
problematização dos temas ocupa papel central.
A criatividade pode ser concebida como
um processo histórico contínuo de mudanças
que ocorrem na cultura pela ação dos diferenextensão do projeto é grande, abrange
tes grupos sociais. No pequeno espaço das nostoda a cidade, dividida em 31 subsas supervisões, o processo criativo pode ser
prefeituras. A rede tem cerca de 1000
percebido pela ótica do mundo interno das pesescolas e 300 creches diretas. E novas demansoas que estão se relacionando e na elaboração
das surgiram com a inauguração dos CEU
do trabalho pedagógico.
(Centros de Educação Unificados), que estão
Na Orientação Sexual na Escola, lida-se
tornando a educação municipal mais
com valores sem impô-los, o que não é
atraente e mais azul. A ação é contínua,
tarefa fácil. A postura utilizada é a da
o ritmo, frenético. Como é mesmo a
condução de debates, onde a inforhistória do paquiderme? Bem,
mação é elemento essencial mas
deixa prá lá.
não suficiente. Daí o uso de
E era preciso “ir aonde o
metodologia participativa,
povo está”, como cantava
Era preciso
onde o conhecimento se
Milton Nascimento a
“ir aonde o povo
constrói coletivamente.
respeito dos artistas. Ou
Verdades não são impostas,
seja, percorrer a cidade em
está”
nem o professor assume positodas as suas zonas e regiões
cionamentos diretivos. Ele tem
fazendo cursos e supervisionancomo referência valores gerais,
do o trabalho dos professores, pecomo o respeito ao outro, à diversiriodicamente (semanalmente, no caso
dade, à inclusão social e à democracia. O
do ensino fundamental e educação de
que importa é o processo de construir cojovens e adultos). E muitas palestras,
nhecimentos e incorporar comportamentos e
reuniões e textos depois, aqui estamos comações consistentes.
pletando um ano e meio de ações do projeto de
Orientação Sexual na Escola. Felizes e realiste número especial do boletim dedicado
zados, apesar dos muitos problemas.
ao projeto fala de nossas ações que vão
Afinal, estavam em andamento, em junho
dos bebês atendidos nos CEI – Centros
de 2004, 66 grupos de supervisão com 681
de Educação Infantil (as creches) aos senhores
educadores de 459 unidades escolares. Esses
e senhoras dos CIEJA – Centros Integrados de
educadores levam o projeto a cerca de 100.000
Educação de Jovens e Adultos, os mais velhos
alunos. Já realizamos 99 cursos, a grande
desses alunos já beirando a casa dos 80 anos de
maioria com 24 horas de duração, que mobiidade. Isso é que é abrangência, hein?
lizaram 2070 professores, auxiliares de desenOs desafios são enormes, as carências tamvolvimento infantil e coordenadores pedagógibém, e é preciso agir com constância e concos de 1113 escolas e creches. Encontros
tinuidade. O GTPOS abraçou essa causa com
temáticos, palestras, oficinas, reuniões gerais
entusiasmo. Contou com a colaboração decidide pólo e congressos, onde a questão da sexuada de muitos educadores experientes, que tralidade foi apresentada e discutida com mais de
balham com Orientação Sexual nas suas esco7000 educadores, também aconteceram. Um
las há anos. E também com jovens talentos
farto e selecionadíssimo material didático distrazendo toda sua energia e sede de conhecitribuído às escolas dá forma e substância a esse
mento ao projeto.
trabalho. Um material didático original do
Sempre que a gente acredita muito numa
projeto foi concebido para adolescentes e
coisa e se dedica a ela, acaba fazendo aconteoutro, para crianças, e chegará às escolas neste
cer. Quem sabe faz a hora... lembra?
segundo semestre.
equipes administrativas na Secretaria Municipal de Educação e no GTPOS, além de toda a
“infra” necessária. E montar a equipe de formadores, que hoje conta com 33 profissionais.
Tudo foi feito com muito empenho, as pessoas
envolvidas acreditando muito na proposta e a
Secretaria de Educação nos dando todo o apoio
de que o projeto precisa.
A
E
2
AGOSTO / 2004
Antonio
Carlos
Egypto é o
coordenador
geral e
técnico do
projeto
de
Orientação
Sexual na
Escola
B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L
Sexualidade e currículo
por Maria Cecília Carlini Macedo
té pouco tempo atrás, se discutia se a
lo de Leituras da Secretaria Municipal de Edusexualidade era um assunto para ser
cação, que trouxe a teoria de Paulo Freire para
trabalhado no âmbito da escola. A paro trabalho com a diversidade sexual. Surgiu o
tir de muito trabalho e de um processo de desCírculo de Leitura para Transgêneros –
bravamento de grupos de uma professora ou
Resgatando Histórias, um espaço para que
professor que acreditaram na importância de
travestis e transexuais pudessem falar sobre
valorizar esta discussão, temos esta batalha
cultura, recebendo a cada encontro a visita de
praticamente vencida. Hoje, na Rede Municiautores, músicos e poetas. A idéia é dar direito
pal de Ensino da cidade de São Paulo, temos o
a estas pessoas que, na maioria das vezes,
projeto de Orientação Sexual inserido no
foram expulsas da escola muito cedo por serem
cotidiano da escola e fazendo parte das disdiferentes. Travestis foram ouvidas e particicussões das salas dos professores e de reuniões
param na estruturação desta ação, represenpedagógicas.
tadas por Cláudia Wonder.
O próximo passo é conquistar um espaço
O projeto de Orientação Sexual na Escola
para a sexualidade no currículo, trabalhando
trabalhou com os CIEJAs (Centros Integrados
estas questões nas diferentes áreas do conhecide Educação Para Jovens e Adultos) na prepamento. Assim, o espaço específico da Orienração desta atividade, num outro projeto, o
tação Sexual cresce e se potencializa.
Mix Jovem, e nas ações regulares de
Este processo contempla a política
sexualidade na escola.
da Secretaria Municipal de EduO Mix Jovem é um projeto em
cação, que pensa a reorientação
parceria com a Coordenadoria da
A política
curricular como um caminho
Juventude e com a Ong Mix
que abre
para a construção de uma
Brasil que atua no movieducação emancipadora,
mento pelos direitos dos
caminho para uma
que trata o conhecimento
homossexuais e transgêeducação
como um todo e é um
neros. A base desse trabalho
veículo para a estruturação de
foi o debate de filmes de curta
emancipadora
São Paulo como cidade edumetragem sobre diversidade secadora.
xual.
Os orientadores de salas de leitura
ARTICULAÇÕES
participaram de trabalhos sobre a
O projeto de Orientação Sexual na
importância de disponibilizar para crianças
Escola na Rede Municipal de Ensino criou na
e adolescentes livros e outros materiais que
Secretaria de Educação um grupo para desentratam da sexualidade.
volver a parte logística e organizacional das
O Vamos Combinar? criou uma parceria
suas ações. O projeto trouxe inovações em
entre a Secretaria Municipal de Saúde e a de
todos aspectos, a começar pela parte buroEducação, o projeto de Orientação Sexual na
crática, já que a formação em sexualidade é um
Escola e o projeto Vida. Trabalha a educação
processo contínuo. Os professores passam por
preventiva relacionada à DST/Aids e à redução
um curso inicial e depois participam da superde danos quanto ao uso indevido de drogas.
visão durante todo o período de desenvolviAtua com adolescentes multiplicadores em
mento do projeto, que nesta fase se estende até
ações de prevenção e organiza a disponibilizadezembro de 2004. Denominamos, então, a
ção de camisinhas nas escolas de Ensino
supervisão de “Complementação e AcomFundamental, que se inscrevem livremente,
panhamento da Ação Pedagógica”, abrindo na
projeto em parceria com o Ministério da
Rede Municipal uma nova forma oficial de
Saúde.
capacitação para educadores.
E o que ainda está por vir: o projeto de
A sexualidade passou a fazer parte das disSexualidade e Direitos Reprodutivos, Cinema e
cussões nas escolas, nas Coordenadorias de
Sexualidade nos CEU, Semana de Gravidez na
Educação, criando espaço para novas ações
Adolescência 2004 e o lançamento mundial em
que envolveram a reflexão sobre o tema em
São Paulo do Esforço Global “Women and
diferentes aspectos e segmentos.
Aids”. Mas isso a gente conta depois...
Um convite para a formação de parceria
veio de Paulo Gonçalo, coordenador do Círcu-
A
Maria Cecília
Carlini
Macedo é
coordenadora
do projeto de
Orientação
Sexual na
Escola, na
Secretaria de
Educação.
3
AGOSTO / 2004
B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L
Temas
polêmicos
da sexualidade
e adolescência
estes mobilizam nas pessoas as mais diferentes
reações e reflexões de acordo com suas experiências de vida. Essas vivências devem ser discutidas com o adolescente em sala de aula sem,
contudo, dar respostas ou impor “verdades”,
mesmo porque cada pessoa terá a sua própria.
Assim a abordagem desses temas deve começar
com sua problematização: levantamento de preconceitos, valores, posturas, informações a ele
associados e, a partir disso, fomentar a discussão lançando mão de recursos que envolvam
todo o grupo no debate. O nosso papel é basicapor Jaime Duarte Júnior
mente o de mediador e o de observador.
Vamos exemplificar:para trabalhar um
tema como a homossexualidade pode-se dramatizar diferentes situações veiculadas pela
mídia: o assassinato de um homem por um grus definições dos dicionários sempre
po de jovens apenas por estar de mãos dadas
abordam a adolescência como o intercom outro homem, a expulsão de um casal de
valo de tempo da existência humana
homens ou mulheres de um shopping por
compreendido entre a infância e a idade adulta
terem trocado um beijo, o preconceito que
marcado por mudanças físicas e psicológicas
se manifesta numa escola porque um adoprofundas. As mudanças físicas por si só,
lescente se declara homossexual, ou
já geram ansiedade e insegurança em
qualquer outra situação que o grupo
boa parte dos adolescentes e associacrie. Para tornar a vivência mais
das à busca de identidade produrica é sempre desejável que os
zem atitudes rebeldes, reivindipapéis representados não
catórias, contestatórias. LiO importante
sejam fixos, permitindo a
dar com essas individualitroca de personagens.
é deixar o foco na
dades em formação não é
Cada orientador sexutarefa fácil para o universo
reflexão
al,
na
sua prática, deve bus“adulto”, mais especificacar a técnica que mais se adapte
mente, para pais e professores.
aos seus grupos, levando-se em
Criou-se até um termo depreconta a realidade, as referências de
ciativo para designá-los: “aborrecencada escola/bairro/cidade. O importante
tes”, ou seja, aqueles que aborrecem,
é deixar o foco na reflexão, na discussão,
que causam aborrecimentos. Para evitá-los
na problematização.
os pais têm assumido uma postura permissiva,
Um relato de experiência que considero
com limites pouco claros, deixando os adolessignificativo: utilizei o jogo ANTES-DURANcentes impotentes diante de meios de comuniTE-DEPOIS para discutir gravidez na adocação que, se por um lado democratizam inforlescência com um grupo de professores. Uma
mações, por outro impõem padrões de beleza,
das dinâmicas propostas é a montagem de
comportamento e consumo. Diante desse
“sonhos de adolescentes”. Vários grupos tivequadro, nós educadores devemos ter uma atiram muita dificuldade em montar os sonhos
tude de acolhimento, nunca de confronto.
dos adolescentes, argumentando que eles esDevemos ser capazes de lembrar como foi esse
tavam inseridos numa realidade tão dura que
processo de adolescer para nós mesmos e, apenão sonhavam. Quando esses professores fosar das diferenças de idades e de contextos
ram aplicar essa dinâmica com seus alunos,
históricos, veremos que, na essência, não foi
constataram que eles sonham sim e que seus
muito diferente. Esse exercício nos aproxima
sonhos eram bem variados. Quem não condos adolescentes e permite que os auxiliemos a
seguia pensar em sonhos eram os professores!
compreender e refletir sobre as mudanças que
Creio que devemos tomar muito cuidado para
estão ocorrendo com eles e atingir o que connão projetar nossas expectativas e desencantos
sidero nosso principal papel: ajudar na conssobre os adolescentes. Acredito que venham
trução de personalidades mais críticas e
daí as dificuldades que temos em lidar com
solidárias.
adolescentes. Eles não são “aborrecentes”, apeEm um trabalho de orientação sexual com
nas são o que são: indivíduos em formação.
adolescentes devemos estar particularmente
Um abraço e ... boas polêmicas.
atentos ao abordarmos temas polêmicos, pois
A
4
AGOSTO / 2004
ADOLESCENTE:
adj. e s. 2g. 1.
Que, ou quem,
está na adolescência.
2.fig
Que está no
começo, no início, que ainda
não atingiu todo
o vigor.
ADOLESCÊNCIA:
s. f.
O período da
vida humana que
sucede à infância, começa com
a puberdade e se
caracteriza por
uma série de
mudanças corporais e psicológicas
(estende-se
aproximadamente dos 12 aos
20 anos).
ABORRECER:
V. t. d.
Sentir horror a;
abominar, detestar; causar aborrecimento a; desgostar, contrariar,
enfadar; causar
horror, aversão,
tédio, enfado.
Dicionário
Aurélio
Jaime Duarte
Júnior é
formador do
projeto de
Orientação
Sexual na
Escola junto
às EMEFs
(Escolas Municipais de
Ensino
Fundamental)
B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L
Supervisão: uma aprendizagem
por Célia Lourdes Amaral de Almeida
aperfeiçoando na supervisão e no cotidiano da
m plena “happy-hour” da sexta-feira
sala-de-aula. E os professores remexendo
chegavam as professoras e profesarmários, depósitos, porões, cantos e
sores, dispondo, talvez, da única
recantos de suas escolas. Não é que
noite “livre” da semana. O local: a sala
havia muito material “esquecido”?
de leitura da EMEF Shirley Guio.
Fitas de vídeo, painéis imantados,
Esta foi a rotina de agosto a
A experiência
seios de silicone para ensinar
dezembro de 2003. No início,
na Coordenadoria
auto-exame, bonecos... Uma
nem todos sentiam-se pron“Família Colchete” entos para dar início ao traRegional de Educação
contrada em um porão,
balho de Orientação
Vila Maria –
recebeu da professora uma
Sexual em suas escolas.
“faxina” em regra e até gaMesmo tendo a vivência e a
Vila Guilherme
nhou roupas novas!
preparação do curso de forA cada novo encontro, o commação, agora se tratava de “colopartilhar das experiências:
car a mão na massa”. E praticar algo
novo sempre traz dificuldades. E a de
◆ a receptividade dos alunos: “Foi dez
Orientação Sexual em especial, porque
com as minhas 4as. séries! Primeiro comelida com questões que provocam a emergênçamos falando do corpo como um todo,
cia de tabus e resistências. Daí o receio quanto
órgãos, músculos, articulações. Nada de noà recepção dos(as) colegas, a intranqüilidade
mes. Mas um reconhecimento, ir se percebenquanto à reação de pais e mães, a insegurança
do. Depois fizemos o projeto dos bonecos.
frente às possíveis reações de alunos e alunas.
Construímos os bonecos. E aí chegamos na
“Na minha aula de Educação Física com a
sexualidade. E a receptividade foi muito boa!
3a. Série, uma menina passando e os meninos
Eles tinham muita curiosidade!”;
disseram: Ai que gostosa!’. E a menina
chorou. Aí juntei todo mundo e perguntei: ‘O
◆ o trabalho tendo visibilidade na escola:
que é gostoso? O que você quis dizer pra ela?”
“A escola está fervilhando! Todo mundo fala
E a professora da sala já aos berros: “Ele
de sexualidade: o diretor, os auxiliares de edusabe!” E o menino respondeu: “Gostosa pra
cação, os professores, os alunos! Saiu daquela
mim é bonita”. E cada um foi falando o que
coisa mistificada, que não se pode falar e pasachava. E foi uma conversa tão bonita! E
sou a ser assunto da escola!”;
desmistificou pra professora que tinha certeza
que o menino disse aquilo com o mesmo senti◆ o lançar-se a novos desafios: “Ouvi a
do de um adulto”.
professora de 2a. Série falando: ‘Olha aquele
Papel modesto, o nosso. Mas significativo:
menino. É gay. É um Bambi! Aí levei aquele
“A Coordenadora Pedagógica da escola me
livro Menino brinca de boneca?. Precisava
parou um dia no pátio e me disse: ‘Escuta aqui,
ver as crianças discutindo, falando sobre as
professora: você não vai dar aulas de
diferenças.! 2a. Série! Foi a coisa mais linda!
Orientação Sexual para aquelas 5as. e 6as.
E a professora estava junto”.
séries? Porque eu não agüento mais... um que
fica se esfregando e passando a mão no
outro!”. Me cobrou forte! E eu disse pra ela:
o nos propormos a discutir a sexuali“Não, eu não vou dar aulas de Orientação
dade e a discuti-la como uma experiênSexual pra eles, porque esse trabalho é muito
cia única, acolhendo e refletindo as
sério e não pode ser uma coisa jogada, pra
múltiplas opiniões, problematizando e propitapar buraco e pra quebrar-galho da escola. Me
ciando um espaço de elaboração do pensamenarruma um dia, um horário fixo, que eu me
to crítico, operamos transformações (em nós e
preparo e desenvolvo o trabalho”. Era uma
em nosso grupo). E isso, com certeza, nos torna
necessidade, sim, daquelas salas. Mas eu senti
mais questionadores quanto à nossa própria
que a sexualidade não era um assunto a ser
atividade docente.
tratado de qualquer maneira!”.
Assim, o desafio de fazer um trabalho conÉ este o nosso trabalho na Supervisão.
sistente, sério, planejado. Idéias de aulas
“diferentes”, dinâmicas foram surgindo e se
E
Célia de
Lourdes
Amaral de
Almeida é formadora do
projeto de
Orientação
Sexual na
Escola junto às
EMEFs
(Escolas
Municipais de
Ensino
Fundamental)
5
A
AGOSTO / 2004
B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L
Orientação
Sexual nos
Centros
de Educação
Infantil
A tendência das educadoras diante de um comportamento sexual com o qual não se sentem à
vontade, é mudar de assunto, tomar como
doença ou reprimir severamente. Talvez não
relacionem esses comportamentos sexuais
com a expressão da curiosidade e do brincar
sexual infantís.
Com relação à questão de gênero, mostraram-se capazes de lidar com as diferenças.
Este projeto é um trabalho inédito para
esses educadores. Estamos descobrindo que as
educadoras têm um longo repertório com as
crianças, mas falta-lhes formação teórica para
nomear aquilo que elas têm como dados vivenpor Maria Cecília Pereira da Silva
ciados na relação com os alunos. Durante as
supervisões tem sido fundamental unir os
dados obtidos de muitos anos de observação de
Projeto de Orientação Sexual nos
crianças com as informações teóricas e cientíCentros de Educação Infantil – CEI,
ficas do desenvolvimento emocional e sexual
iniciou-se em agosto de 2003 a pedido
infantis e, assim, possibilitar a reflexão.
das Coordenadorias da Educação e dos profisQuando dizemos que masturbar-se é inerente
sionais de CEI. Foram realizados cursos iniciais
ao desenvolvimento da sexualidade abrimos a
de 16 horas envolvendo 585 Professores de
possibilidade de um outro olhar para a criança
Desenvolvimento Infantil, Auxiliares de Desene garantimos que as educadoras não repitam
volvimento Infantil e Coordenadores Pedaautomaticamente com seus alunos exatamente
gógicos. Após o curso seguiram-se as supero que lhes foi ensinado. É como se esse projevisões de 2 horas mensais em 2003 e quinzenais
to validasse aquilo que elas acompanharam
em 2004, em 22 locais distintos da cidade. O
mas não registraram como aprendizado.
entusiasmo, o interesse e a participação dos
As supervisões constroem um espaço
educadores de CEI nos surpreenderam com
reflexivo e favorecem a capacidade de
uma adesão plena à proposta do projeto.
observação e de intervenção na reUm questionário1 aplicado no
lação professor-aluno. A descoinício do projeto revela dados
Um trabalho
berta de que a sexualidade infaninteressantes: o perfil dos edutil e a curiosidade de aprender
cadores de CEI caracteriza-se
inédito na
estão ligadas ampliou a
por mulheres na sua maioSecretaria
Municipal
concepção de educação.
ria acima dos 30 anos,
Além
disso, os educacom ensino médio comde Educação
dores vêm assumindo uma
pleto e com muitos anos de
da cidade
postura mais investigativa e
experiência em educação de
reflexiva, deixando de esperar dos
crianças de 3 a 6 anos.
de São Paulo
formadores uma receita pronta, para
Há um paradoxo: 80% das edubuscar construir junto com o grupo o
cadoras declararam que conhecem
conhecimento e a compreensão das manimuito pouco sobre o tema sexualidade,
festações sexuais das crianças.
sendo que 57% delas nunca participaram de
Esse projeto também nos tem surpreendido
nenhuma atividade relacionada à orientação
com
outros desdobramentos ligados à presexual e se sentem pouco à vontade para lidar
venção de dificuldades de aprendizagem e de
com temas da sexualidade. No entanto, quando
problemas emocionais graves. A partir do relaperguntadas sobre como lidar com certas situato das educadoras, é possível imaginar que cerções que envolvem a sexualidade, elas detos comportamentos vão gerar dificuldades de
monstraram que em seu cotidiano sabem lidar
concentração no ensino fundamental. Com um
com estas situações. Será que se envergonham
olhar mais aguçado e uma postura adequada,
em declarar um conhecimento adquirido com a
os educadores podem identificar e intervir preexperiência de tantos anos? Ou será que não se
cocemente diante dessas situações, favorecendão conta do que sabem?
do o desenvolvimento sadio das crianças.
Existem, porém, dificuldades relatadas no
questionário, como o desconforto com situa1 Elaborado e realizado pelo IDECA – Instituto de
ções de masturbação infantil ou com a curiosiDesenvolvimento Educacional Cultural e de Ação
dade das crianças em descobrir o sexo oposto.
Comunitária.
O
6
AGOSTO / 2004
Maria
Cecília
Pereira da
Silva é
Coordenado
ra Técnica
do Projeto
de
Orientação
Sexual nos
CEIs.
B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L
Uma experiência criativa
por Maria Cristina Domingues Pinto
desconforto semelhante ao meu. Apesar
enso que com esta lúcida indado curso inicial, agora era o momengação a autora se refere aos
to de “por a mão na massa”,
“sonhos” de vigília, aquele
“Quem
“massa” de alunos, de pais “fu“sonhar” acordada, consciente/
dentre nós
riosos”, de colegas ressabiainconsciente, que caminha na
dos para dizer o mínimo.
direção da realização de
estará a altura da
Frente a tais fantasias, a
nossos desejos de forma
criatividade de
angústia gerada era enorcriativa.
me e toda sorte de escapisAlgo que sempre chaseus sonhos?”
mos
surgiam: “eu não sabia
mou minha atenção em relação
Joyce
que haveria supervisão... vamos
à criatividade, à inspiração (tal
McDougall
ter que dedicar mais tempo?”
como os “sonhos”) é que chega não
Projetos prontos, extensivos a pais
se sabe de onde, nem bem como chee/ou à escola, logo no primeiro encontro!?
gou e por vezes irrompe inesperadamente
Persistência em desfocar o objetivo do
em nossa fala. Se traduz em palavras.
trabalho com crianças, para professores e pais.
Não há uma compreensão intelectual do
Como se antes de mais nada precisassem tornáque é criado, “sonhado” num primeiro momenlos “cúmplices”.
to. Parece surgir de uma intuição certeira, mas
Tratei então de entender e traduzir essas
fugaz, de um saber não pensado e na tentativa
resistências em “miúdos”, aclarando-as e acode capturá-lo pensado, se esvai como um
lhendo-as como fizera com as minhas próprias,
sonho.
para que fossem usadas a nosso favor.
Faço essa introdução para contar a vocês o
Afinal certa dose de angústia nos impulque foi mais significativo na minha experiência
siona a pensar, a criar. Daí em diante, quando
com grupo de EMEIs. Uma experiência veralguém saía do “prumo” podíamos ludicadadeiramente criativa, compartilhada.
mente reconduzi-lo ao caminho pretendido,
Nos contatos iniciais com as professoras
porém, (pela angústia) desviado.
havia um clima entre apreensão e muita aniEm outras ocasiões, eu sugeria que a memação. Afinal estávamos todas ali reunidas
lhor propaganda do trabalho de sexualidade
para uma tarefa estimulante. Trabalhar sexuainfantil, juntos aos pais e professores era o melidade com crianças pequenas. Era um desafio!
lhor trabalho que pudessem fazer com seus
Para mim era o primeiro grupo de supervisão
alunos, mantendo o foco sempre neles. Assim,
pedagógica em sexualidade infantil. Para as
pelo êxito, aos poucos iriam “contaminar”
professoras coincidentemente se dava o mesnovos aliados e não opositores.
mo. Apenas em direção inversa. Eu como
Passado o período inicial, de estranhamensupervisora elas como supervisionandas.
to e reconhecimento do terreno, quando sentiAos poucos, sem que percebêssemos claramos que ali a terra poderia ser fértil, um espaço
mente, o clima inicial foi sendo substituído por
de confiança, companheirismo e cumplicidade
um certo desconforto. Eu, em alguns momense instalou. “Nos demos as mãos” no sentido
tos me sentia livre, criativa. Em outros, e esses
de com habilidades (escuta afinada, olhar perspredominavam, como se não estivesse cumpicaz; para o novo...) e estratégias de interprindo minha função de “ensinar” metodolovenção (técnicas de dinâmica de grupo, disgia, discutir preconceitos, valores...
cussões de vídeos, leituras de livros...) “subConseguia resgatar involuntariamente ,
verteríamos” a ordem das coisas. À semelhanprovavelmente para me acalmar, que o saber
ça de um jogo as regras se estabeleciam. Onde
intuitivo da ciência, como todo processo criatihouvesse repressão, supressão de idéias, havevo, brota da mesma fonte consciente/inconria sexualidade. Transformada em acolhimensciente e só num segundo momento é elaborato, simbolizada em palavras, diria o até aqui
do e recebe tratamento metodológico e teóriproibido.
co... Coisas assim surgiam e sumiam.
Onde não houvesse compreensão, haveria
Me perguntava o que estaria acontecendo
observação, tolerância com nossa própria
comigo. Comecei a vislumbrar que estava
ignorância (aquela que tivemos com nossa
angustiada diante desta nova situação, diante
angústia) até que com maior clareza pudéssede não saber como seria este sonho!
mos intervir.
Nessa ocasião percebia nas professoras
CONTINUA NA ÚLTIMA PÁGINA
P
Maria Cristina
Domingues
Pinto é
formadora do
projeto de
Orientação
Sexual na
Escola junto
às EMEIs
(Escolas
Municipais de
Educação
Infantil)
7
AGOSTO / 2004
B O L E T I M I N F O R M AT I V O E S P E C I A L
Uma experiência criativa
CONTINUAÇÃO
Seguem alguns exemplos:
– “Uma aluna de 5 anos passou a tarde com
a professora eventual. Ela me disse que ficou
muito constrangida ao ver a criança se masturbando, muito. Perguntei: Como assim? Ela
disse que a R. ficou balançando o corpo na
cadeira o tempo todo. Na minha observação
nunca percebi nada. Pensei que podia ser pela
minha ausência. A R. é muito apegada a mim.
Mas, vou continuar observando...”
“Perguntei para o Charles porque estava
triste. Ele respondeu que tinha apanhado do pai
com fio de ferro, porque tava mexendo no
pinto. Primeiro me deu uma pena danada...
depois lembrei daqui e falei:
Vai ver que ele pensou que você tava
fazendo uma coisa feia, errada.
Mas é gostoso!
Nós aqui sabemos disso e que não há nada
de errado nisso, mas seu pai não pensa assim.
Percebia que com essa atmosfera fértil, de
continência, reflexão e jogo, eu como parte
integrante do mesmo, era estimulada e estimulava, ou mesmo despertava a criatividade de
minhas supervisionandas, em suas narrações e
na suas conclusões ou “insights”.
Estávamos penetrando e nos deixando
penetrar, por indagações, experimentações,
novas formulações para antigas situações,
tanto nossas, como dos colegas. Seguíamos
atentas contra a simplificação reducionista de
sexualidade à sexo, contra tabus, preconceitos,
dissociações entre teoria e técnica (meu medo
inicial), entre mente e corpo, enfim contra toda
forma de cegueira.
Percebia que mais que uma epistemologia
se produzia ali entre nós uma ética de liberdade. Transformando conhecimento científico,
metodológico colorido pela pedagogia, psicologia e pela psicanálise em conhecimento
popular acessível a todos que dele participavam. Fazíamos desta forma um congraçamento legítimo entre teoria, técnica e cultura
através do brincar, criar participativo e compartilhado.
Era para mim extremamente prazeroso
usufruir e aprender na companhia de minha
“alunas”, e penso que com elas ocorria o
mesmo. Via seus trabalhos frutificarem através
de ações complexas e ao mesmo tempo sutis,
onde muita criatividade e engenhosidade afetiva e mental eram necessárias.
Winnicott diz que o brincar é excitante em
si mesmo, não porque envolve instintos,
porém, pela magia que contém e pela intensidade das relações afetivas com quem se brinca.
O brincar verdadeiro é terapêutico porque é
criativo em si mesmo. Assim eu sentia! Através
dele se experimenta e se controla a realidade,
se distingue entre eu e o outro (“comigo não
observei nada... mas vou continuar observando”). Enfim desenvolve a capacidade de pensar
afetivamente, levando em conta o outro. É também através dessa liberdade para o brincar
compartilhado que se desenvolve a capacidade
para espontaneidade genuína e para o “sonhar”
singular e criativo.
BOLETIM INFORMATIVO ESPECIAL é uma publicação do projeto de Orientação Sexual na Escola desenvolvido pelo GTPOS –
Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual – para a Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura da cidade de São Paulo.
Secretária de Educação:
Maria Aparecida Perez
Coordenação do projeto:
Antonio Carlos Egypto (GTPOS)
Maria Cecília Carlini Macedo (SME)
Coordenação administrativo/ financeira (GTPOS):
Elisabeth Bahia Figueiredo
Coordenação do projeto nas creches:
Maria Cecília Pereira da Silva (GTPOS)
Equipe de apoio no GTPOS:
Ângela de Sousa Queiroz,
Célia Maria de Carvalho da Costa Ferreira,
Rodrigo Estramanho de Almeida, Sarah Atra e
Sila Maria Andrade Kolhy
Equipe de apoio na Secretaria de Educação:
Diana Mendes,
Isabel Cristina dos Santos,
Nadir Soares Monteiro e
Selma Auxiliadora Cordeiro
Jornalista responsável:
Nelma de Fátima Firmiano
(MTB 13582)
Edição de arte e desktop:
Moema Kuyumjian
Impressão:
PR Artes Gráficas
Tiragem:
6.000 exemplares
GTPOS
Grupo de Trabalho e Pesquisa
em Orientação Sexual
Fone/Fax (11) 3801.3691 3875.7244 3801.3434
Rua Bruxelas, 169 – Sumaré
CEP 01259-020 – São Paulo / SP – Brasil
www.gtpos.org.br
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boletim especial - Projeto Orientação Sexual nas Escolas