UM OLHAR PARA O PROFESSOR A PARTIR DO TEATRO GONÇALVES, Jean Carlos – FURB – [email protected] Eixo: Educação e arte / n. 16 Agência financiadora: CAPES 1.Apresentação do tema Estabelecer um tema de pesquisa é, assim, demarcar um campo específico de desejos e esforços por conhecer, por entender nosso mundo e nele e sobre ele agir de maneira lúcida e conseqüente.[...] Pesquisar é buscar um centro de incidência, uma concentração, um pólo preciso das muitas variações ou modulações de saberes que se irradiam a partir de um mesmo ponto.(MARQUES, 2003, p.92) Compreendendo a pesquisa como permanente busca por reflexões que vêm fazendo parte de minha história enquanto pesquisador, apresento os passos da pesquisa, desde as primeiras intenções ao iniciá-la até a apresentação de um fragmento para análise de dados. Nos PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais de Teatro (1998) a improvisação é citada como sugestão de trabalho teatral, como forma de valorizar o processo de aprendizado dos alunos. Para Viola Spolin (2000), é justamente na oportunidade de trabalhar o processo de criação cênica que a Improvisação encontra seu objetivo educativo, pois não se avalia somente o resultado final, mas o percurso dos educandos. A improvisação com foco no processo de trabalho é discutida por Spolin (2000) como estratégia eficaz para a apreensão de conhecimentos sobre a arte do ator tanto em grupos de atores profissionais como em escolas de teatro e escolas formais. Para a autora, “O mundo fornece o material para o teatro, e o crescimento artístico desenvolve-se par e passo com o nosso reconhecimento e percepção do mundo e de nós mesmos dentro dele” (SPOLIN, 2000, p. 13). Assim, não teria sentido a existência de um fazer artístico alienado da realidade e da sociedade, que não gerasse uma reflexão, que fosse desprovido de uma função social. Parafraseando Spolin, o mundo do teatro produz, simultaneamente, um reconhecimento e um contato com o mundo exterior. Dessa forma, quando o aluno vê as pessoas ao seu redor, a maneira como se comportam, ouve os sons produzidos em uma interação, ele adquire uma visão mais ampla de como acontecem as relações em seu mundo pessoal e seu desenvolvimento como ator é acelerado, pois a observação é um constante treinamento atoral. Por entender a escola como um espaço de relações sociais e interlocução entre seus sujeitos, escolhi a improvisação teatral como forma de representação desse espaço. Se a arte discute e é inseparável de aspectos relacionados à vida humana, essa escolha é justificada se admito que no momento em que improvisam, os alunos de teatro trazem para a cena, no ato fisiológico da materialização da palavra, sua visão de mundo, que, por sua vez, é recorrente de uma vivência em determinado meio social, do contexto no qual estão inseridos e de sua própria história. Como objetivo geral deste trabalho, busquei compreender os sentidos de escola que permeiam o discurso de alunos de teatro a partir de exercícios de improvisação teatral. Como objetivos específicos, pretendo: a) analisar a produção dos enunciados a partir do status exercido pelos atores nos lugares sociais de diretor, professor e aluno enquanto personagens de uma encenação da esfera escolar; b) refletir, através dos discursos improvisados teatralmente, sobre as relações de poder estabelecidas na sala de aula. Para atingir tais objetivos, em maio de 2006, decidi ir a campo, aplicando um testepiloto para tentar perceber a possibilidade de realização de uma pesquisa com esta abordagem. Pelo sucesso desse teste-piloto decidi que uma das cenas resultantes do material coletado seria, então, o corpus1 para investigação. Na ocasião estava ministrando aulas de Teatro, pelo Projeto Artenomia, em uma escola de Balneário Camboriú. Com a autorização da direção da escola, em um dos encontros com o grupo dos alunos maiores (integrantes de 7a e 8a séries) propus a realização da pesquisa. O Projeto Artenomia, existente desde 2001 nas escolas da rede municipal da cidade de Balneário Camboriú - SC, tem como objetivo ensinar Teatro e Dança a alunos do Ensino Fundamental, em horário oposto ao período das aulas regulares, abrangendo uma clientela que vai desde os alunos da pré-escola até os da 8a série. Os grupos são formados considerando a faixa etária dos participantes. As aulas oferecidas por esse projeto são optativas. Decidi convidar o grupo composto por alunos de 7a e 8a séries para participar da pesquisa, pois seus participantes possuem mais experiência teatral se comparada com os sujeitos das séries anteriores. 1 Coleção finita de dados selecionados para análise em uma pesquisa (BAUER e GASKELL, 2002) A escola onde foi realizada a coleta dos dados conta com uma estrutura física de três andares com aproximadamente dez salas em cada um deles. É a única escola da rede municipal que no ano de 2006 contava com uma sala-ambiente para cada disciplina. O anfiteatro, onde acontecem as aulas do projeto Artenomia, está localizado no primeiro andar, e não é utilizado apenas para o projeto, mas também para reuniões e eventos. Uma pequena sala dentro do anfiteatro tem a função de camarim, onde são guardados cenários e figurinos. O espaço contém uma parede com espelho, um palco, e barras de sustentação para as aulas de treinamento físico (expressão corporal e técnica de dança). Um aparelho de som é disponibilizado para uso exclusivo dos professores desse projeto. No dia da realização do teste-piloto, comecei o encontro com alguns aquecimentos teatrais (jogos e treinamento físico de ator) e em seguida conversei com o grupo sobre as regras de um jogo cênico (Spolin, 2000). Seguindo a metodologia proposta pela autora solicitei ao grupo que se dividisse em duas equipes e se organizasse em palco-platéia, onde um time de atores pudesse encenar/jogar/improvisar e outro assistisse aos colegas. Ressaltei que, ao improvisar, os atores precisam estar concentrados em três aspectos considerados por Spolin (2000) como fundamentais na construção de uma encenação improvisada: o ONDE (lugar onde acontece a ação), o QUEM (quais personagens estão sendo representados) e o O QUE (o motivo da ação). Solicitei ao primeiro grupo que improvisasse uma cena, sem ensaio prévio, com o tema: escola. Deixei que os atores se dispusessem da forma como desejassem. A primeira formação espacial foi a de uma sala de aula. Gravei em áudio esse primeiro exercício, e solicitei a troca dos sujeitos. Agora, quem havia assistido, faria a encenação e vice-versa. A formação espacial também foi a de uma sala de aula. Também gravei essa segunda cena. As anotações em diário de campo foram feitas em seguida. Ao transcrever os dados, percebi que a coleta resultou em uma série de registros suficientes para merecer um estudo. Por compreender que a materialidade lingüística precisa ser analisada com profundidade, selecionei como corpus da pesquisa somente o primeiro exercício criado pelos sujeitos. A opção pelo primeiro grupo se deve ao fato de que os discursos provenientes da improvisação não sofreram interferências de um material criativo anterior, como no caso do grupo que apresentou posteriormente. Segundo Bakhtin (2003), ao exteriorizar a palavra, o discurso do sujeito é constituído pelo que ele ouve, sua constituição se dá pelo dizer do outro. Entendendo, portanto, que a primeira encenação já continha dados suficientes para uma análise, preferi trabalhar com um corpus delimitado, que permitisse um aprofundamento maior nas discussões teóricas. 2.Autores convidados Uma pesquisa, para adquirir validade (BOGDAN & BIKLEN, 1994), precisa se ancorar teoricamente em autores que possam complementar as reflexões propostas pelo pesquisador desde a construção metodológica até a análise dos dados. Apresento ao leitor o aporte teórico que fundamenta essa pesquisa. Ele é constituído por múltiplos olhares, dando ao texto uma característica heterogênea através de cinco autores: Bakhtin (2003), Foucault (1998,2003), Ubersfeld (2005), Spolin (2000) e Johnstone (1990), acompanhadas, também, de outros referenciais que se fizeram necessários durante o percurso. Apresento, também, uma breve reflexão sobre a forma como esses autores podem conversar nessa pesquisa. Escolhi, primeiramente, a teoria de enunciação (BAKHTIN, 2004), por compreender que o sujeito, em situação de interação com o outro, constitui a produção de seus enunciados a partir de vozes que circulam socialmente e que antecedem seu dizer. O dizer contém palavras. O estudo do discurso humano, suas diferentes manifestações sociais e suas implicações na vida cotidiana, não poderia dispensar a importância da palavra como instrumento da interação. A primeira atitude de um sujeito em relação a um acontecimento novo, ou que não estava previsto, geralmente tem a palavra, ou o silêncio, como reação ao inusitado: Ela [a palavra] é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige a alguém. [...] Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. (BAKHTIN, 2004, p.113) O termo diálogo, nesta pesquisa, não é utilizado para fazer referência ao mesmo sentido que é atribuído a esta palavra no âmbito do senso comum. Entendo, a partir de Bakhtin (2003), as relações dialógicas como espaços de tensão entre vozes sociais. Espaços onde cada palavra é materializada a partir de outros enunciados que circulam socialmente e dos dizeres anteriores à sua exteriorização. O sujeito, portanto, fala a partir do discurso do outro, para o discurso do outro e com o discurso do outro. Para Bakhtin, não existe um objeto do discurso que não seja dialógico. Em Flores (2005) o conceito de dialogismo pode ser aplicado tanto ao texto escrito quanto à oralidade, pois aponta para um sujeito que, a partir da alteridade da interlocução, produz um enunciado permeado por outros discursos, por outras vozes. A voz, em Bakhtin (2003), não é discutida somente como emissão de som, mas como representação de um discurso, como figura subjetiva, emissora de enunciados imersos em um contexto histórico e social. Analiso, nesta pesquisa, os enunciados das personagens criadas em uma improvisação teatral, na qual os atores dialogam a partir dos papéis de professor, diretor e alunos de uma escola fictícia, por isso, trago para a discussão, Ubersfeld (2005), para nortear a reflexão sobre a enunciação teatral. Para autora, há um dialogismo constitutivo do texto de teatro: a personagem não fala sozinha, pois seu texto tem um autor. A esse fenômeno a autora chama de dupla enunciação. No caso dessa pesquisa, os autores dos discursos das personagens são os próprios sujeitos, pois o texto é improvisado, isto é, criado no ato da materialização da palavra. Assim, autor e personagem falam ao mesmo tempo. Isso fundamenta a teoria de que os enunciados produzidos no exercício de improvisação são constituídos tanto pelas vozes das outras personagens da cena enunciativa, como pelas vozes que constituem ou constituíram o sujeito enunciador (o aluno participante da cena). Ao aproximar a teoria da enunciação da improvisação teatral, entendo que essa última só pode acontecer em uma “coesão de um ator atuando com outro” (SPOLIN, 2000, p.18). Na atuação improvisada, cada ator responde a outro partindo dos enunciados que emergem instantaneamente de um trabalho equilibrado entre aquilo que vem do seu exterior e aquilo que vem seu interior (idem), possibilitando que o jogo cênico consista no surgimento de respostas (enunciados) no próprio ato improvisacional. É aí que as personagens estabelecem suas relações, e apresentam-se às outras. É aí, também, que o autor dos discursos, o aluno, apresenta sua visão de mundo e as vozes que constituem seus enunciados, mesmo que não tome consciência disso durante o exercício de improvisação. Nos exercícios de improvisação que propus ao grupo para a realização dessa pesquisa, os atores podiam improvisar livremente seguindo apenas a instrução de improvisar a partir do tema: escola. Não havia um texto prévio, alguém que se responsabilizasse pela produção dos discursos que iriam emergir. Os sujeitos da pesquisa, portanto, ao criar as personagens, não tinham consciência de que eram também seus autores. Isso possibilitou que os alunos retratassem a escola sem qualquer tipo de constrangimento ou medo de serem mal compreendidos, pois afinal, estavam fazendo teatro, e o teatro permite que o ator vivencie em cena situações aquém de julgamentos sobre sua vida pessoal. As personagens criadas pelos atores falam de uma determinada posição social, exercendo poderes umas sobre as outras. Isto justifica a presença do conceito de status (JOHNSTONE, 1990) na análise dos dados. Para este autor, os exercícios de improvisação só podem obter êxito se o ator estiver consciente do status de sua personagem na interação com os outros participantes da cena. Bakhtin (2004) também ressalta que cada sujeito possui um status social, lugar do qual se comunica com seus interlocutores. Os dados da pesquisa apontam para uma escola como espaço de conflitos e relações de poder, por isso Foucault (1998; 2003) passa a permear a reflexão, fundamentando a análise de que os sujeitos enunciam de um lugar determinado socialmente. A aproximação entre Foucault e Bakhtin é possível nessa pesquisa, pois os autores apontam para a noção de sujeito como um ser que enuncia de um lugar social e é constituído pelo discurso do outro. É a partir desta visão dialógica que converso com o leitor, ciente de que minha voz não está sozinha e de que esse texto é constituído pelas vozes dos autores que me auxiliam no processo teórico de compreensão dos discursos produzidos pelos sujeitos da pesquisa. 3.Um olhar para o professor Para a elaboração desse artigo, utilizo um fragmento resultante da transcrição do primeiro exercício cênico realizado com os sujeitos da pesquisa, a analiso os dados considerando principalmente os discursos do professor, mas com a consciência de que esses discursos estão imbricados e são constituídos pelos discursos dos outros participantes da cena enunciativa. EPISÓDIO I Bobo - Posso ir no banheiro? Professor - Não, não pode ir no banheiro. Quietinhos e escrevendo. Bobo - Eu vou mijar aqui no latão... Professor - Hei, hei, hei. Vai pra diretoria se continuar assim, hein... Bobo - Aposta quanto que eu mijo no latão? Professor - Olha moleque, é bom tu ficar quieto, vou chamar a diretora desse jeito. Bobo - Ah , tudo tu fica aí chamando a diretora, se liga... Gêmea 1 - Fica quieto! [...] Professor - Quieto aí! Direto pra diretoria. Direto, agora! Bobo – Ah, credo! Beleza, vamo lá!? Professor - Vai.Ah...Garotinho impertinente... Bobo - Impertinente é a tua mãe! Professor - Mais respeito. Eu sou professor! Bobo - Ah, Professor, eah! (Bobo Sai) EPISÓDIO II Professor - Entre, por favor! (Diretora entra com Bobo) Diretora - Com licença, professor, eu encontrei esse aluno lá na minha sala da diretoria, reclamando que o senhor maltratou ele, chamando de burro. Isso é verdade? (Pausa) Diretora - Senta ali, senta. Professor - Sei, então ele falou isso... Alunos, eu fiz isso? Gêmeas - Não! Bobo -É que ele virou todos num complô contra eu... Diretora - Fica quieto, fica quieto. O senhor aqui é apenas aluno... [...] Professor - Eu vou me retirar e os alunos também, e o senhor ficará com a diretora. Com licença. No dizer da personagem Professor: Quietinhos e escrevendo., há um discurso sobre o seu lugar social e seu poder diante dos alunos. Primeiramente sinalizo uma ordem: Quietinhos. O desejo de silêncio, para que apenas a voz do professor seja ouvida, aponta para um direito que a personagem acredita ter adquirido pelo fato de ser professor. Ainda nesse dizer ele aponta para uma tarefa que cabe ao aluno: escrever, afirmando que não é necessário um acordo sobre o que se faz na escola, como se isso já estivesse préestabelecido. O lugar de professor, segundo Arroyo (2000), carrega traços marcantes, misturados e incômodos, que personificam uma imagem que foi construída socialmente, no decorrer da história. O autor aponta para a imagem do professor como resultado de uma herança social, vocacional, a imagem do mestre divino, detentor do saber, salvador, que professa uma arte e abraça doutrinas, modos de vida e ideais e por isso, precisa ser respeitado como tal. A ordem da personagem que evoca silêncio no discurso acima é, portanto, fruto de um discurso que foi construído socialmente. Ainda quanto ao imaginário social de professor, temos no seu discurso: Quieto aí., a marca lingüística [...] aí, a partir da qual a personagem Professor sinaliza uma distância entre o seu lugar social e o de aluno, e para um afastamento corporal, físico. O advérbio aí é utilizado para indicar um espaço que não é o mesmo ocupado pelo professor, logo, o corpo do professor e o corpo do aluno, apesar de estarem dispostos em um mesmo ambiente, a sala de aula, têm lugares determinados a serem ocupados e posições sociais distintas. Considerando as contribuições de Johnstone (1990), o nível de status em que se encontra a personagem Professor, faz com que ela esteja sempre afirmando sua posição espacial, recusando a aproximação com aqueles que exercem um status mais baixo, os alunos. O exercício do poder, portanto, nesta cena, é responsável pela localização e fixação do sujeito em um local determinado na sala de aula. Outro dizer que aponta para a forma como a personagem Professor vai se constituindo dentro da cena é: Mais respeito. Eu sou professor!. Desde criança o sujeito é ensinados a respeitar os mais velhos, os pais e os professores. O pedido de respeito, porém, implica a confirmação de um lugar social de autoritarismo. Os dizeres presentes nestes dados da pesquisa apontam para um professor que se autodenomina detentor do conhecimento e de toda a autoridade na sala de aula. Para Foucault, um dos mecanismos externos de controle dos discursos, a oposição do verdadeiro e do falso, consiste na adoção de uma idéia como verdade, sobre a qual não se podem proferir discursos contrários. Assim, quando a personagem Professor finaliza a ordem: Mais respeito, e enuncia: Eu sou professor!, ele aponta para a auto-imagem de um professor que, necessariamente e historicamente, precisa de respeito. A imagem da profissão de mestre é uma herança social advinda de uma história de luta por melhores salários, plano de carreira, condições de trabalho e direito à qualificação permanente (ARROYO, 2000). Essa auto-imagem que a personagem Professor apresenta em seu discurso nos remete a um sujeito que espera que seu trabalho seja valorizado e respeitado, pois seus anos de estudo o fizeram dominar saberes e conhecimentos adequados ao seu ofício, esta é a sua verdade. Arroyo ainda considera que a profissão docente possui uma identidade socialmente determinada, e quem a escolhe ou a encontra, não apenas a exerce, mas passa a ser professor (Eu sou, e não: eu estou professor), carregando consigo a imagem da profissão, com seus traços marcantes e misturados: Somos a imagem que fazem de nosso papel social, não o que teimamos ser. Teríamos de conseguir que os outros acreditem no que somos. Um processo social complicado, lento, de desencontros entre o que somos para nós e o que somos para fora. [...] Diferentes formas de ser professor e professora. [...] O desencontro entre imagens sociais e imagens pretendidas pela categoria e auto-imagens pretendidas por cada um cria uma tensão, um mal-estar que mantém sempre a pergunta: quem somos? (ARROYO, 2000, p. 29,30) O professor, como autoridade, também é uma imagem social advinda das aproximações que a palavra recebe com a vocação religiosa. (ARROYO, 2000). A compreensão do educador como alguém que professa, abraça doutrinas, demonstra e pratica a dedicação e o amor, está presente no imaginário social e constitui sua identidade. É a partir dessas marcas históricas e culturais, que ele interage na situação comunicativa, enunciando de uma posição social, estabelecendo acordos e negociando conflitos. Um olhar para a autoridade a partir da filosofia é sugerido por Arendt (2001), ao considerar que a autoridade exercida pelo professor é determinada a partir da responsabilidade que ele assume diante do mundo, ao ter como ofício a instrução, o ensino. A autora ainda aponta a autoridade como necessária nas instituições educacionais, como fator organizador das relações humanas, mas não defende o professor autoritário nem a escola como lugar do exercício do poder e da ordem. Para Weber (1987), sociólogo, o caráter sagrado da tradição é responsável pela legitimação da autoridade mais antiga e mais universalmente mantida. Segundo o autor, uma autoridade sustentada em uma base de costume é estável, adquirindo uma validade digna de imitação. Nessa pesquisa, os dizeres da personagem Professor fazem referência à autoridade da profissão docente, pois esse é o lugar do qual enuncia, um lugar onde a legitimação da autoridade tem uma validade construída social e historicamente. Reafirmando, em seu discurso, o seu lugar social, o professor reitera seu status social e interfere na atitude responsiva de seu interlocutor (BAKHTIN, 2003). A personagem Bobo, após o enunciado do professor, responde com um dizer irônico: Ah, professor, eah!, apontando para uma distorção da imagem docente que o professor tenta legitimar. Nessa reação Bobo utiliza como estratégia de resistência um discurso irônico, que para Voese (2007) é sempre intencional e acionado na interação, quando o enunciante dirige-se ao outro para agredi-lo ou para jogar amigavelmente. No caso do discurso da personagem Bobo, sua intenção é a de pôr em dúvida a autenticidade do enunciado anterior do professor, no qual este tenta impor o respeito que julga merecer pelo fato de exercer determinada profissão. O discurso irônico de Bobo nos remete às forças centrífugas das quais fala Bakhtin, discutidas por Faraco (2003, p.67) como: [...] aquelas que corroem continuamente as tendências centralizadoras, por meio de vários processos dialógicos, tais como a paródia e o riso de qualquer natureza, a ironia, a polêmica explícita ou velada, a hibridização ou a reavaliação, a sobreposição de vozes, etc. Bobo aponta para uma imagem não compatível com a auto-imagem que o professor tem de si mesmo. Para Bakhtin (2003) o sujeito se constitui na interação com o outro e seus enunciados são repletos de vozes que circulam socialmente. Por isso, a constituição da imagem da personagem Professor, é resultado de um processo dialógico no qual os dizeres presentes na improvisação vão produzindo sentidos entre os participantes da cena. Neste processo, os sujeitos falam de um lugar construído socialmente, aceitando, reafirmando ou resistindo a esta posição, de acordo com o contexto no qual estão inseridos. Bobo prefere resistir à autoridade imposta pelo professor, fazendo com que este, recorra a um auxílio extra-sala. O discurso: Direto pra diretoria é exteriorizado no momento em que o professor não consegue fazer com que o aluno fique em silêncio, sua opção é, portanto, retirá-lo da sala de aula e encaminhá-lo a alguém que tenha um lugar de maior poder no espaço escolar: o diretor. Para Foucault (2003), o poder está em toda parte, a todo o momento o sujeito é vigiado por seus superiores. Mas estes superiores também são distribuídos em diferentes categorias, nas quais os que exercem menos poder têm o dever de registrar todas as suas observações e transmiti-las aos maiorais. É assim tanto em uma prisão ou hospital, quanto em uma escola. Quando a personagem Professor não consegue contornar o conflito na sala de aula, sua saída é enviar o aluno para outro espaço: a diretoria. A personagem Bobo, no discurso: Ah , tudo tu fica aí chamando a diretora, se liga..., sinaliza para a imagem de um professor que não consegue contornar a situação enunciativa na sala de aula, e portanto, precisa que a diretora intervenha. Ao estabelecer um acordo com o aluno, no qual o princípio é chamar a diretora no caso de o aluno não ficar em silêncio, a personagem Professor admite sua incapacidade de resolver o conflito e determina seu lugar social entre os alunos e a direção. A autoridade, nesse caso, depende da ordem de distribuição dos poderes. Na escola, a tradição (WEBER, 1987) estabelece que a direção exerça o maior poder de decisão, e que o professor deve ser responsável pelo exercício da autoridade em sala de aula, e por último, que o aluno precisa aderir as ordens e normas estabelecidas e conviver com elas. Ainda segundo Weber (1987), os sujeitos envolvidos em um sistema de autoridade, que a princípio é garantido por sanções externas e penalidades, podem internalizar esse sistema, convivendo com ele de forma natural, como se ele sempre tivesse existido. O modo como o professor se posiciona no tratamento com os sujeitos que estão fora do espaço da sala de aula sinaliza para a internalização do sistema de autoridade. Ao se relacionar com um sujeito que não está no espaço da sala de aula, o professor abandona seu discurso autoritário, e enuncia: Entre, por favor!. O uso do imperativo autoritário nos discursos anteriores dá lugar à expressão por favor, utilizada como sinal de cordialidade e respeito. Mesmo que a personagem Professor não saiba quem adentrará a cena, seu dizer está se referindo a alguém posicionado fora do ambiente da sala de aula. Como a autoridade do professor, tradicionalmente, está concentrada dentro de um espaço físico determinado, e seu discurso, provavelmente, não é direcionado a um aluno, o dizer: Entre, por favor!, parece ser mais adequado a essa nova situação de enunciação. Ao perceber que seu interlocutor é a diretora da escola, o próximo dizer do professor, após ser indagado por esta sobre suas atitudes, aponta para uma nova postura discursiva. Em: Alunos, eu fiz isso? está sinalizada a necessidade de legitimação do discurso da personagem Professor diante da fala da diretora: Com licença, professor, eu encontrei esse aluno lá na minha sala da diretoria, reclamando que o senhor maltratou ele, chamando de burro. Isso é verdade?. Ao fazer uma nova pergunta aos alunos, o professor deixa de dar a resposta final e autoritária de todos os outros discursos, como vinha acontecendo desde o início da cena. Isso acontece em dois outros momentos: Diretora - Professor, o que aconteceu na sala? Professor - Alunos, o que aconteceu na sala? e Diretora - Ele falou que ia mijar no latão? Professor - Ele não falou, alunos? Nessa mudança na situação enunciativa identificamos a presença da alteridade (AMORIM, 2003) no enunciado do professor, pois o seu interlocutor, agora, é a diretora, alguém que ocupa um lugar social de maior poder no âmbito escolar. Esta postura também é sinalizada no discurso: [...] não é mesmo senhora diretora?, no qual o professor não se coloca como dono da palavra final. Após a afirmação de que o aluno irá para a diretoria, há uma pergunta na qual o professor sugere/permite que a diretora decida o destino do aluno. Esta, por ser autoridade máxima na escola, passa a ser também, autoridade no espaço da sala de aula. Ainda para reiterar seu lugar de poder frente aos alunos, na sua última fala o professor toma uma decisão que contraria os enunciados anteriores da diretora: Eu vou me retirar e os alunos também, e o senhor ficará com a diretora. O fim desse episódio abre possibilidades para a discussão do conceito de anomia, proposto por Elias (2000), no apêndice 2 de Os estabelecidos e os outsiders. Para o autor, uma situação pode ser considerada anômica quando ela é incompatível com a “boa ordem” defendida pela estrutura social. A anomia prevalece nos momentos em que há ausência de previsibilidade e regularidade do comportamento entre os participantes de uma interação. Essa vicissitude é responsável por um estado caótico, no qual o sujeito passa a agir e enunciar de uma forma indesejável em relação ao que dele se espera. O professor, ao se retirar da sala de aula, não resolve o conflito, abandona os alunos e diz o que a diretora deve fazer: ficar na sala com Bobo. Ao anunciar que vai se retirar da sala de aula o professor ignora a estrutura a partir da qual a escola está organizada. Para Elias (2000) onde há seres humanos agrupados, algum tipo de estrutura pode ser identificado, e na escola não seria diferente. Essa situação dá lugar a uma condição caótica, anômica, na qual, ao invés da busca de estratégias que resolvam a altercação, tomam-se providências e atitudes que a tornam ainda pior. O lugar social de professor representado nesse exercício é um lugar conflitante. Mesmo pensando ser detentor da autoridade e do respeito na sala de aula (ARROYO, 2000), sua posição sofre alternâncias de acordo com a situação de enunciação momentânea e de quem são seus interlocutores. Na maioria dos discursos da personagem Professor, há um sujeito com dificuldades de enunciar vozes de convite (BAKHTIN, 2004), permitindo que a interação seja sempre conflituosa. Essa falta de mediação do conflito resulta na ausência de acordos entre os sujeitos da situação de enunciação. A identidade da personagem Professor vai sendo constituída a partir dos enunciados de todos os sujeitos participantes da interação. Nesse processo, são retomadas imagens que circulam socialmente, e os discursos dão lugar a rupturas e à construção de novas imagens e sentidos (NUERNBERG, 2002) sobre o lugar social de professor e sua relação com os outros participantes da organização escolar. Conclusões Os discursos das personagens da cena enunciativa apontam para uma escola onde os relacionamentos exercidos na sala de aula são constituídos pelos lugares sociais, imagens, auto-imagens e status exercidos na interação entre os sujeitos. Nessas relações o poder transita, é disputado e marca os enunciados produzidos na interação. Por ser, a situação comunicativa analisada, parte de um exercício de improvisação teatral, sugiro ao leitor um olhar para a escola através do teatro, reconhecendo com Spolin (2000) que o material cênico existe a partir da percepção do mundo: Quando o aluno vê as pessoas e a maneira como elas se comportam quando juntas, quando vê a cor do céu, ouve os sons no ar, sente o chão sob seus pés e o vento em sua face, ele adquire uma visão mais ampla de seu mundo pessoal e seu desenvolvimento como ator é acelerado. (SPOLIN, 2000, p. 13) Dessa maneira, é possível afirmar, ao concluir essa pesquisa, que ao improvisar, o aluno-ator, que também pode neste momento ser chamado de aluno-autor, traz para o exercício teatral os discursos que o constituem, que fazem parte de suas vivências pessoais. As personagens criadas para esta pesquisa, portanto, retratam os sentidos atribuídos à escola pelos seus autores, os alunos de teatro: uma escola permeada por uma situação caótica, onde a prática social é moralizante. A contribuição desse estudo consiste em sugerir a prática teatral como possibilidade de dar voz ao aluno. O teatro na educação, mais do que uma opção curricular é uma oportunidade de expressão e de inserção do sujeito nas interações sociais. Koudela (1984) defende o ato criador como uma relação entre o que está sendo proferido pelo artista e sua visão de mundo, pois a arte é uma forma de percepção da vida que abre caminho para o conhecimento. Os discursos produzidos no exercício teatral analisado nesta pesquisa permitem um olhar para os sentidos que os sujeitos participantes da improvisação atribuem à escola, a partir de uma manifestação artística. Assim, defendo a arte e, sobretudo, o teatro, como forma de percepção e reflexão sobre a vida e sobre as relações humanas. 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