ENTREVISTA J osé G eraldo de S ousa J ú nior Basta de falar em crise! Um dos criadores do sistema de avaliação de cursos, ex-diretor da Faculdade de Direito da UnB e diretor da Comissão Nacional de Ensino Jurídico da OAB fala que agora é hora de trabalhar e não de reclamar C Por Leandro Silveira Pereira Fotos Raphael Mendes om seu nome associado a um dos movimentos renovadores do estudo do Direito, o que surgiu em torno do carismático jurista Roberto Lyra Filho e de seu “Direito achado na rua”, o professor José Geraldo de Sousa Júnior é um batalhador da causa do ensino. Dirigiu a Faculdade de Direito da UnB, foi diretor de política de ensino superior do MEC, é membro da Comissão Nacional de Ensino Jurídico da OAB. Esteve envolvido, nos últimos trinta anos, com a reformulação de cursos, criação de sistemas de avaliação, aprovação de propostas. Para falar do panorama atual do ensino de Direito ele recebeu a reportagem de Getulio para uma longa conversa. A seguir, os melhores momentos: José Geraldo de Sousa Junior: Quando me formei, em 1973, havia apenas três faculdades de Direito em Brasília. Hoje são 23. Me formei e comecei atuando como advogado numa fundação local, como chefe da procuradoria. Depois passei a advogar associado ao Antonio Carlos Sigmaringa Seixas, num escritório que funcionava como correspondente de advogados estaduais que tinham recursos trazidos para os tribunais superiores em Brasília. Hoje os escritórios já têm sede aqui, mas nesse tempo eles se valiam... 22 get ul io Janeiro 2008 E NTRE V IS TA E N T R E V IS TA Janeiro 2008 ge tulio 23 De uma espécie de sucursal? É, tínhamos nossa própria carteira de atendimento, mas o principal cliente eram escritórios de São Paulo, do Rio. Depois acabei optando pela dedicação exclusiva à universidade. O senhor fez o mestrado com o Roberto Lyra Filho aqui na Universidade de Brasília (UnB). Tinha alguma ligação com movimentos sociais antes disso? Tinha na medida em que integrava a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Distrito Federal, num momento em que Brasília não tinha nem autonomia política nem representação parlamentar, pois o Distrito Federal, na Constituição de 1969, não tinha autonomia nem representação política. O governador primeiros debates para a proposta de construir uma representação política para o Distrito Federal. Representação que só foi criada com a Constituinte de 1987? A rigor, o processo começou com a emenda 26, de novembro de 1985, que convocava a Assembléia Constituinte. Isso deságua nos debates da Constituinte. No espaço da Comissão de Direitos Humanos da OAB, os movimentos sociais se apresentavam, faziam suas plataformas, buscavam traduzir suas demandas. Eram reivindicações por direito à moradia, direito à autodeterminação, na questão indígena, por exemplo. As lutas democráticas daquele momento aqui em Brasília foram fortes, com os estudantes às me interessava esse processo porque a nossa inserção na plataforma das lutas democráticas fazia ver que o Direito era um Direito que cerceava as liberdades, não era emancipatório, era restritivo. O verdadeiro Direito tinha que emergir dessas lutas e se afirmar, às vezes inclusive contra legem, como reivindicação por liberdade e por justiça. até pode se manifestar por meio de normas, mas tem de ser a expressão de uma legítima organização social da liberdade. Essa reflexão se consolida com a criação, aqui na UnB, de uma revista para ser veículo de expressão dessas idéias, e que se chamou Direito e Avesso. E essa foi uma vertente importante nos trabalhos do Lyra Filho? Sim, e criamos essa revista, que deveria ser o boletim do que ele designava de “nova escola jurídica brasileira”. Tinha a ver com essa plataforma: pensar o Direito sem dogmas, como uma legítima orga- Exatamente no posfácio do Desordem e Processo. É um duplo repto: é metodológico, porque é pensar a questão do Direito como uma dialética, como uma dinâmica criativa, mas também é uma crítica ao positivismo do lema “Ordem Sim, ele até usava um pseudônimo artístico, Noel Delamare, quando fazia poesia. Ele trabalhava mui- nização social da liberdade. Nessa revista acabei sendo diretor. Roberto Lyra presidia o conselho editorial, que contava com Marilena Chauí e Raymundo Faoro. Aliás, Faoro devia ter sido o autor de O Que É Direito? A Brasiliense procurouo para que escrevesse o livro, mas ele disse que esse era um trabalho para pesquisador. Então sugeriu o Lyra. Depois o Faoro escreveu um pequeno ensaio sobre o livro, uma peça preciosa: “O Que É Direito, Segundo Roberto Lyra Filho”. Foi publicado na Direito e Avesso. E também fez parte de um livro que deveria ser em homenagem aos 60 anos do Lyra Filho, mas acabou sen- e Progresso”, que a nossa bandeira traduz e vem do Augusto Comte, na crença na cientificidade, não é? Nesse posfácio, Lyra já se refere a seu projeto, porque não era um diletante, ele tinha um engajamento. Sobretudo por vinculação aos movimentos estudantis de Direito. Lyra tinha uma perspectiva de apoiar e resgatar o protagonismo estudantil, num compromisso social e político, participando dessas discussões. E o compromisso teórico de trabalhar outra perspectiva para o Jurídico que não fosse uma subordinação a uma legislação que era de uso do delfim. Não do Delfim Netto [risos], mas no sentido latino da expressão, ad usum to a metáfora literária, como essa do “Direito Achado na Rua”. Foi um grande tradutor de poemas. Teve um projeto chamado “Cancioneiro dos Sete Mares”, que era traduzir grandes poetas nos sete idiomas que ele dominava. Curiosamente, o primeiro volume (1979) é num idioma que Lyra não dominava, o húngaro. No centenário de Endre Ady [poeta húngaro, 1877-1919], o Paulo Rónai, um de seus grandes amigos, lhe diz: “Lyra, traduza o Ady”. Ele respondeu: “Paulo, não falo húngaro”. Ele disse: “Eu falo. Traduzo literalmente e você recria”. Lyra gostava muito de poesia, traduziu um pequeno poema do jovem Sim, sobretudo quando tomava forma epistemológica mais definida. Ele havia lido, em 1978, um manifesto aqui na UnB, depois publicado sob forma de opúsculo, com o título “Por um Direito sem Dogmas”. Era outro modo de pensar o jurídico, em que a compreensão do Nessa altura o senhor já trabalhava com o Lyra? do de estudos póstumos pois ele faleceu no ano do aniversário, em 1986. O editor, o Sérgio Fabris, manteve o compromisso e publicou o livro, que se chama Desordem e Processo. O Lyra gostava de instigar com os títulos. Como no caso do “Direito Achado na Rua”. De onde vem essa expressão? delphini. Nesse trabalho ele falava de uma nova escola jurídica brasileira, antipositivista, democrática, pluralista, orientada pela perspectiva de um socialismo democrático. Como plataforma dessa nova escola havia o projeto de repensar a estrutura de divulgação do conhecimento jurídico com um programa alternativo de pensar o Direito, esse “Direito Achado na Rua”. Isso tinha a ver com o lado do Roberto Lyra Filho poeta? O Direito não é a norma. Ele até pode se manifestar por meio de normas, mas tem de ser a expressão de uma legítima organização social da liberdade era nomeado e a legislação ficava a cargo de uma comissão no Senado. A cidade não tinha um espaço político para repercutir as questões da população. Nesse quadro, entidades civis, como a Associação Comercial e sobretudo a OAB, funcionavam como espaço de ressonância. Neles, os movimentos sociais buscavam constituir seus fóruns de discussão. E a OAB, aqui em Brasília, fortaleceu essa possibilidade. Sua Comissão de Direitos Humanos foi um grande mediador, no sentido de criar condições para as pessoas afirmarem suas identidades. Foi ali que se deu um primeiro esboço de formação de uma espécie de central sindical local, quando os sindicatos quiseram se agrupar. Também ali se criou um Comitê de Anistia e os 24 get ul io Janeiro 2008 voltas com o Dops [Departamento de Ordem Política e Social] pela autonomia da universidade. Como foi seu encontro com o Roberto Lyra Filho? Seu doutorado é sobre a figura dele? Não sobre a figura, mas sobre a concepção que ele trouxe para o Direito. Estávamos em 1978, vim fazer o mestrado com o Lyra Filho. Estava interessado em trabalhar com uma proposta que se apoiava em alguns vetores para mim importantes. Primeiro, pensar o jurídico desde uma perspectiva politizadora. Marilena Chauí diria depois que o Lyra se caracterizou como uma espécie de dignidade política do Direito. Ela até escreveu um texto com esse título: “Roberto Lyra Filho ou da dignidade política do Direito”. Então, Direito não fosse uma dedução do legal, mas uma construção social da liberdade. Esse material depois tomaria forma mais definida num livro que ele publicou e que hoje já tem mais de 30 edições, O Que É Direito?, da Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense, publicado em 1982. Esse modo de pensar o Direito tinha outras ramificações, por exemplo, na área do ensino. Roberto Lyra criticava o ensino do Direito por causa do duplo equívoco: a inadequada concepção do objeto de conhecimento e os defeitos da pedagogia decorrente desse equívoco. Ou seja, não se ensina bem o que se aprende mal. Em O Que É Direito? ele consolida essa concepção mais epistemológica de que o Direito não é a norma. Ele E NTRE V IS TA E N T R E V IS TA Janeiro 2008 ge tulio 25 Karl Marx, aquele alemão que morreu na Inglaterra [risos]. E é atração turística de um cemitério londrino até hoje. São os dois túmulos mais visitados do mundo: o do Marx, no Cemitério de Highgate, em Londres, e o do Allan Kardec, no Père-Lachaise, em Paris [risos]. Bom, Lyra gostava de poesia e traduziu esse poema do Marx, que dizia assim: “Kant e Fichte buscavam o país distante pelo gosto de andar lá no mundo da Lua, eu por mim tento ver, sem viés deformante, o que pude encontrar bem no meio da rua”. Isso é Marx. O Lyra Seria um fardo muito pesado? Com a morte do seu criador, a revista ficava sem alma inspiradora. Eu não queria ficar na condição de legatário disso, já era de fato o testamenteiro. Aproveitei a ligação com os movimentos sociais e o fato de que estava assumindo a Procuradoria Geral da universidade a convite do reitor recém-eleito, o Cristovam Buarque, de quem depois fui chefe de gabinete na reitoria. Assumi o debate que o novo reitor propunha de reformulação da planta epistemológica da universidade para fazer a passagem do modelo departamental para um sistema interdisciplinar de organização de qual foi pensada e formada, por exemplo, a proposta do Bolsa Escola. Além dos textos que foram produzidos com a assinatura do Cristovam intelectual, acadêmico. Foram textos importantes como “A Revolução das Prioridades’ e “A Desordem do Progresso”. Mas isso chegou a impactar na docência? Muito. Diria que o projeto de universidade interdisciplinar se generalizou no Brasil a partir dessa perspectiva. É nesse mesmo tempo que, na USP, se cria o IEA, Instituto de Estudos Avançados. É um momento em que se dava essa virada, aqui e poderá dar inúmeros exemplos de como se pode realizar essa interdisciplinaridade a despeito da tensão com um modelo que é secular, que pesa e atrai. Ela poderá falar sobre o programa de abertura epistemológica realizado aqui sem mudar a estrutura da faculdade. E de como, por exemplo, incorporamos mais de dez negros sem política de cotas, desenvolvendo temas na pós-graduação, isso quando a própria UnB, pioneira na política de ações afirmativas, tomava a faculdade de Direito como exemplo de lugar de elite onde negro não entrava. A pós-graduação recebeu índios, foram produzidos inúmeros trabalhos com temáticas complexas e interdisciplinares, com outro viés epistemológico. Por sorte, o Direito da UnB, até pelo tempo e pela história, não trabalha com o peso da tradição de um curso como o da USP, de 1827, certo? Claro que não. Mas vivemos tensões dramáticas, na época da ditadura, com os expurgos. Depois, uma experiência fantástica foi a virada da anistia, no final dos anos 1980, que permitiu resgatar os exilados da própria instituição. Gente como Sepúlveda Pertence, como Fábio Lucas, Perseu Abramo, Pompeu de Souza, Zanine Caldas, Athos Bulcão. Fundadores da universidade tiveram seu projeto de vida afetado. O Sepúlveda Pertence, por exemplo, aposentado pelo AI-5 como promotor, demitido da universidade, fez um percurso como advogado. E esses nomes permaneceram como uma referência, num movimento que está na base desse movimento importante, que me fez, por exemplo, causar algum frisson no congresso, pois abri a minha exposição dizendo que rejeitava hoje qualquer discurso que se apoiasse em indicadores da crise do ensino do Direito, pois isso é fácil. Crise a gente podia falar nos anos 1960, nos anos 1970, não é? Agora, depois de tudo que foi feito, com a abertura dos horizontes, com a construção de figuras de futuro... Construção de figuras do futuro? Bom, se você transita do passado para ao menos o presente, e estou falando de futuro, é preciso que tenha essa mediação para fazer a passagem, que sejam construídos a partir do futuro, porque senão atola no passado, fica bloqueado no presente. Pense no Roberto Lyra falava de uma nova escola jurídica brasileira, antipositivista, democrática, pluralista, orientada pela perspectiva de um socialismo democrático Como se dá o diálogo acadêmico. Não há Departamento de Direito Civil, por exemplo? disse: “Quero aplicar no meu campo de conhecimento, que é o Direito, essa disposição do jovem Marx, e achar o Direito na rua”. Ele queria construir um programa em que seus interlocutores se envolvessem com esse projeto. Por exemplo, no Direito do Trabalho, ele conversou com o jovem advogado Tarso Genro, que escrevia muito na Direito e Avesso. O Lyra morreu e o projeto só ficou esboçado. A essa altura eu já estava na universidade, era docente, tinha sido orientado por ele. Fiquei no dilema de dar continuidade à proposta da revista mas achei mais prudente interromper o projeto. 26 get ul io Janeiro 2008 conhecimento. Primeiro estimulando os institutos tradicionais a incorporarem o paradigma da complexidade, da interdisciplinaridade, deixando os feudos dos departamentos. O senhor foi diretor de ensino superior, no MEC, e diretor da Faculdade de Direito da UnB. Até que ponto, com esses trabalhos, levou adiante as idéias do Roberto Lyra? De vários modos. E em diversas etapas. Um exemplo foi a criação do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares. O próprio Cristovam, quando reitor, se engajou nisso e fundou um dos núcleos, o Núcleo de Estudos do Brasil Contemporâneo, no mas é claro que com muita força contra, porque a tradição é pesada. Ali o Cristovam criou o Núcleo de Estudos do Brasil Contemporâneo e eu fundei o Núcleo de Estudos para a Paz e Direitos Humanos. A interdisciplinaridade parece limitarse aos institutos. Na USP, a interdisciplinaridade do IEA não se repete na faculdade de Direito, que não dialoga sequer com a de Ciências Sociais. Os cursos de graduação e de pós são, na maioria, monotemáticos. A nossa professora Loussia Felix [se dirige à professora, que assistia à conversa] irá desmentir isso [risos]. Ela coordenou a pós-graduação E NTRE V IS TA Não, não tem. A faculdade não é departamentalizada para que o diálogo acadêmico se faça por linhas de pesquisa, por áreas temáticas e não pela hierarquia funcional de lugares estabelecidos. Aqui temos áreas temáticas. Direito Público, Privado, Direito Fundamental. As pessoas se reúnem por afinidade intelectual e por demandas das áreas de reflexão. Não há um chefe de departamento. Quando criei o Núcleo de Estudos da Paz e Direitos Humanos, se estabeleceu um diálogo que o Direito não exercitava com os movimentos sociais para construir um programa que se chamou o “Direito Achado na Rua”. E N T R E V IS TA que nunca perdeu o seu horizonte. Essa experiência nós passamos. E a eleição do Cristovam foi um pouco a consolidação disso tudo. Com sua visão, o senhor diria que o ensino de Direito na UnB está na frente? Bem, ontem tivemos o encerramento do X Seminário de Ensino Jurídico da OAB. Há duas semanas a Associação Brasileira do Ensino do Direito, o Ministério da Justiça e a Secretaria de Reforma do Judiciário faziam um congresso nacional de ensino do Direito e de acesso à Justiça e pediram à Faculdade de Direito da UnB que sediasse e organizasse o encontro. Isso pode ser uma resposta formal à pergunta. Nesse congresso, o eixo foi 180 anos de ensino do Direito e acesso democrático à Justiça. É algo livro da Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro. No caso do ensino do Direito é sair dos elementos que nos aprisionavam no século 19. Estamos num presente que é vestíbulo do futuro. Estamos em pleno século 21, mas a cabeça ainda ficou no século 19! Com uma visão epistemológica que localiza o conhecimento na ciência e quer converter tudo que exista em conhecimento científico. Esse modelo foi o da modernidade, com tudo que representou: técnica, instrumentalidade e o enquadramento de pessoas. O papa João Paulo II há três anos absolveu Galileu da condenação de heresia! Há três anos! Essa é a crise do Direito? Essa é primeira: ficar preso a uma visão de ciência, como se fosse a ex- Janeiro 2008 ge tulio 27 pressão de conhecimento. A outra, é ficar preso a uma visão funcional, como se o modelo de Estado, também do século 19, fosse a única forma de fazer política. É por isso que não se reconhece a dimensão política dos movimentos sociais. Só vê política onde o Estado está. E a imprensa é o “diário oficial” da contemporaneidade, pois só vê o Estado. Tudo o que a sociedade constrói, ela não vê. Ignora. Só vê relevância no institucional. O social é inventivo, é criador, é transformador. Por isso o Fórum Social Mundial chamou tanta atenção, pois diz: “Olha aqui! O que existe não é só o que a gente vê!” No campo do conhecimento é o mesmo, o que Galileu dizia há 400 anos: “A verdade é filha do tempo e não da autoridade”. Ficamos presos a uma a subjetividade jurídica à pessoa. Que pessoa? A do não-homem, pois a mulher não é homem, a criança não é homem, o índio também não. O que os sujeitos apresentam hoje? Intra-subjetividades, intersubjetividades, coletividades protagonistas, movimentos sociais, pessoas jurídicas coletivas. Uma provocação: como se faz a transição entre a informação, de um lado, do MEC apontando a lista de cursos com graves problemas. E são mais de mil faculdades de Direito. São 1.091, segundo os dados mais recentes! Totalizando 253 mil vagas. Ou seja, oferta maior que a demanda, mercantilizando o ensino. E órgãos de classe, que teriam função de controlar a qualidade, se transformando em institucionais do que corporativas. Este ano se realiza a XX Conferência Nacional dos Advogados. Basta checar os temas que serão debatidos. São tudo, menos corporativos. O debate ali é de alta política. Tanto que esta é a única das profissões com um assento constitucional. Nem o jornalismo, que Marx dizia formar os cães de guarda da democracia, tem essa estatura, nenhuma outra profissão ocupa esse lugar. E isso se deve à contribuição dada, por isso a advocacia ganhou esse lugar. A Comissão Nacional de Ensino Jurídico formada pela OAB só tem professores. Discutem-se temas da corporação, claro, mas de um ponto de vista não corporativo. E o conselho da OAB não interfere nas decisões dessa comissão. Até poderia, mas a presidência homologa. E com Não estava em jogo a competência da FGV ou o fato de que poderia estar sendo elaborado um belo projeto. Afinal, vocês são especialistas! Vão fazer o que há de melhor! A Comissão colocou você na roda para olhar nos olhos, verificar os fatores de acreditamento. E foi essa conversa olho no olho que balizou a aprovação, caso contrário não seria aprovado. Por quê? Porque, no nosso modo de ver, o Estado e a cidade de São Paulo já atingiram há muito o nível de satisfação da demanda. Ampliar novos cursos de Direito ali não representa nenhum fator social. bilizado a comissão da OAB. Veja, no começo dos anos 1990, quando a Comissão Nacional de Ensino Jurídico foi criada, ela realizou uma classificação dos cursos. Isso foi em 1993. Na época eram 184 cursos, hoje são 1.091. Então a OAB fez algo que antes só tinha sido esboçado no setor privado pela Playboy, com o seu ranking das faculdades (iniciado em 1982) e depois pelo Guia do Estudante, da Abril. O MEC estava num processo de retração que depois foi ativado por outro viés, o da liberalização. Ou seja, autorizou tudo o que pôde para responder à demanda, esperando que Até que ponto a tese da professora Loussia Felix ajudou na implantação desses processos? Mas há a crítica de que a OAB foi capturada por entidades, grupos econômicos que interferem no processo de decisão sobre abertura de cursos. depois um sistema de avaliação viesse colocar as coisas nos eixos. O fato é que nesse cenário a OAB foi pioneira ao criar mecanismos de avaliação de cursos, apontando os excelentes, regulares e insuficientes. Foi a partir daí que a sociedade interpelou o MEC. E, para criar as comissões de especialistas, o MEC recorreu aos quadros da OAB. Eu, por exemplo, era membro da comissão da OAB. O Paulo Lobo também. Fomos convocados para integrar a comissão do MEC. Estamos falando dos anos 1990, do governo Fernando Henrique, da época do Provão. como referencial para construir os dois indicativos: primeiro, superar a crise significa repensar as diretrizes curriculares e construir um sistema de avaliação; segundo, introduzir a interdisciplinaridade, repensar os eixos de formação, a relação temática entre disciplinas e matérias, buscar espaços não tradicionais para a produção de conhecimento, com as atividades complementares. Daí a experiência dos núcleos de prática jurídica, a valorização do protagonismo dos movimentos sociais, das assessorias jurídicas universitárias, a introdução da monografia. Ela se colocou na posição estratégica de observar o que acontecia. E se ligou ao protagonista do momento, que era a OAB. Ela trabalhava o tema da avaliação da qualidade de cursos no seu doutorado. Para a OAB, ela criou modelos de avaliação, indicadores do sistema classificatório. Quando fomos para o MEC, nós a chamamos. Ela criou um belíssimo programa de avaliação que o MEC não aproveitou plenamente. Mas nós, da comissão, tomamos “Kant e Fichte buscavam o país distante pelo gosto de andar lá no mundo da Lua, eu por mim tento ver, sem viés deformante, o que pude encontrar bem no meio da rua” visão de política do século 19, com a cabeça lá, embora os pés já pisem o século 21. As figuras de futuro dizem: “Há outros conhecimentos, outras sociabilidades, achadas na rua”. Claro, a rua é uma metáfora, não é? As figuras de futuro são o novo paradigma? Sim e o ensino do Direito se deu conta disso. Basta ver a coleção de ensino jurídico da OAB. São oito volumes publicados, o primeiro deles Diagnóstico, Perspectivas e Propostas. O eixo de apresentação dos trabalhos é de um lado a visão de crise. E do outro a construção de figuras de futuro. Um exemplo é o sujeito de Direito. No pensamento kantiano do século 18, era o da pessoa física, individualizada. Reduzia 28 get ul io Janeiro 2008 sindicatos de entidades educacionais. E o senhor diz que não existe a crise? Como se dá a transição? isso a OAB construiu um fator de interlocução com o social. Ela se dá pelo diálogo com quem tem relevância no processo. Por exemplo, a OAB. Ela construiu institucional e politicamente um lugar de audiência. Politicamente porque se tornou uma instituição que, atuando na história, ganhou visibilidade e a sua voz tem relevância. Então, conseguiu fixar o entendimento de que nenhum curso de Direito, nenhuma instituição se credencie sem que ela se manifeste. E essa comissão fixa diretrizes? A OAB poderia ter sido cooptada? Esse é o discurso corrente. Quem vai responder isso não sou eu, é a história. E a história mostra que a OAB se manifesta muito mais em questões Ela baliza padrões para que a construção do futuro se realize de modo que, nesse campo, o da educação jurídica, os fundamentos presentes sejam os fundamentos republicanos, democráticos, de atualização de paradigmas. Por isso a OAB consegue estabelecer interlocuções com os vários setores, com os empreendedores, com os docentes, indicando como é que ela constrói os seus indicadores. Você mesmo, como representante da Fundação Getulio Vargas, passou por essa experiência, sendo sabatinado sobre a abertura do Direito GV na Comissão Nacional de Ensino Jurídico. E NTRE V IS TA Não é bem assim, basta pergunta ao João Carlos Di Genio [dono na Unip] ou ao Heitor Pinto Filho [dono da Uniban] o que eles acham da OAB. Eles têm horror! Um horror danado! Outro problema para o novo paradigma apontado é o da falta de professores. Com 1.100 cursos, não há mestres e doutores suficientes para atuar em sala de aula. Esse é um dos fatores que têm mo- E N T R E V IS TA Janeiro 2008 ge tulio 29 Ou seja, o modelo de avaliação criado pela OAB na área do Direito acabou dando o tom para a avaliação estabelecida pelo MEC para todos os cursos universitários? Exato. Os modelos de avaliação dos cursos foram detonados a partir do processo da OAB. Infelizmente o modelo foi mal aproveitado pelo MEC, que optou por uma saída restritiva, mas de alto apelo social, que foi o Provão. O ministro Paulo Renato achou que essa avaliação resolvia. Deveria saber que não ia resolver. O Brasil forma hoje 25% dos advogados do mundo. Se deixassem no ritmo que vinha, em pouco tempo seriam 50% dos advogados do mundo. E pensar que há algum tempo sabíamos que o grosso dos advogados do mundo estava nos Estados Unidos, uma sociedade extremamente litigiosa. E olha que lá são apenas 200 escolas de Direito. cidental em sua vida, sem vínculos com a instituição. Hoje está desaparecendo a figura do horista. A OAB não aprova um único projeto fundado em professor horista. E a própria OAB tem mostrado os nichos que começam a se desenvolver. O senhor pode citar alguns exemplos? O Paraná nos surpreendeu. Quando se começou esse processo, quem tinha ouvido falar da Unesp de Franca? Quando a escola de Franca apareceu naquela avaliação da OAB, em 1993, recebemos telefonemas perguntando por que esse curso e não o Mackenzie. Depois quando veio o Provão, a Unesp figurou em boa condição, e continua na combinação dos elementos disponíveis: o provão, o Enade e o exame de Ordem. A OAB em seus congressos Estamos num presente que é vestíbulo do futuro. Estamos em pleno século 21, mas muitos ainda têm a cabeça no século 19! Onde está o professor de Direito? Esse é o lado, digamos, em construção nesse processo, será o lado bom. A expansão, ainda que desordenada, acabou produzindo condições para avaliar, qualificar, e a qualidade do ensino passou a ser considerada pelos gestores. Criaram-se consultorias e aos poucos se profissionaliza a atividade do professor. Hoje a docência é profissão, carreira. Já analiso projetos para credenciamento com diferenciais significativos de remuneração, plano de carreira. Hoje tem professor que vive da docência, com rendimentos iguais ou superiores ao de juízes e promotores. Antes dar aula era diletantismo para alguns juízes que faziam da docência algo que enobrecia sua atividade, mas in- 30 get ul io Janeiro 2008 sempre tem espaço em que são apresentadas as experiências exemplares: o que alguém faz que, se outro soubesse, faria igual ou melhor? Passa a impressão de que a OAB perdeu muito do espaço que já ocupou como vanguarda na sociedade, como nos tempos do Raymundo Faoro. Essa impressão é errada? Não, mas é não verdadeira. Há o estudo “A OAB Vista Pelos Advogados”, uma pesquisa de avaliação da imagem institucional. O que chama atenção nele é o fato de que os advogados são conservadores, mas a instituição não é. E advogados conservadores se reconhecem numa instituição que não é conservadora, acham que ela representa bem a classe quando se coloca como vanguarda. E ela não se coloca E NTRE V IS TA como vanguarda por ter uma plataforma progressista, mas por não se omitir nas questões que exigem participação e protagonismo. A minha confiança vem daí! Nisso sou otimista, embora de um otimismo trágico e não celebrante! Acredito que certos sujeitos na sociedade podem realizar papéis transformadores, ainda que eventualmente tenham uma história de conservadorismo. É o caso de instituições como a OAB ou como o Judiciário. O juiz Harry Blackman, dos Estados Unidos, era o homem que vinha do Alabama, era conservador. Mas quando chegou à Suprema Corte, e chegou por ser conservador, se envolveu com as lutas dos direitos civis e foi o mais avançado dos juízes. O senhor cita o exame de Ordem como referencial até para o modelo de ensino. Mas exame avalia conteúdos, e hoje a busca é por habilidades e competências. Não acho essa separação entre habilidades e conteúdo muito razoável. As escolas que conseguem as metas de qualificação mantêm o padrão de desempenho. Por exemplo, os alunos da UnB não fazem cursinho para aprovar no exame, eles sabem trabalhar os conteúdos. Pois se os professores são tradicionais, também se desenvolvem espaços dentro da instituição que possibilitam alternativas para o desenvolvimento de habilidades. Não necessariamente na sala de aula. Lembro-me da frase do Evandro Lins e Silva, ele, o maior criminalista brasileiro, dizia, em O Salão dos Passos Perdidos: “Formei-me em Direito por decreto, e nunca, nunca, assisti a uma aula de Direito Penal”. Onde ele aprendeu? Ele aprendeu na faculdade, mas não com o professor de Direito Penal. Aprendeu nos espaços. Então, a escola proporciona. A escola que realiza isso garante o sucesso dos alunos. E N T R E V IS TA Janeiro 2008 ge tulio 31