A LEITURA DO TEXTO POETICO: UM MERGULHO ALEM DA FORMA
Dieli Vesaro Palma (PUC-SP)
Este trabalho integra-se numa pesquisa mais ampla cujo
objetivo e verificar como ocorre 0 processo de compreensao de
texto poetico em que haja predominio das figuras de pensamento
do eixo da contradi~ao,
tais como, antiteses,
oximoros,
ironias, entre outras. Nesta etapa, busca-se levantar as
estrategias utilizadas pelo leitor, considerado pelo observador
como portador de urnperfil adequado a proposta do estudo.
Foi urndos sujeitos da pesquisa urnaluno do setimo periodo
do Curso de Letras da Pontificia Universidade Catolica de Sao
Paulo. 0 informante, alem de sua forma~ao em Letras, e autor de
Literatura de Cordel. Os dados foram coletados por meio de tras
instrumentos: protocolo verbal, entrevista retrospectiva
e
verbaliza~ao escrita da significancia, tendo sido feita tambem
pelo sujeito a sua auto-avalia~ao
como leitor de textos
poeticos.
Uma semana apos a realiza~ao do protocolo verbal, tendo
sido objeto de leitura urn poema camoniano, escolhido por ser
compativel com 0 tema da pesquisa, e da verifica~ao escrita foi
feita a entrevista retrospectiva.
Essas informa~oes
foram cruzadas pelo observador e serao
apresentadas na analise dos dados deste trabalho. Assim, 0
desenho da pesquisa caracteriza-se por uma analise qualitativa
dos dados e 0 metoda utilizado e indutivo-dedutivo.
Dada a complexidade do processo de compreensao em leitura,
optou-se por uma visao interdisciplinar desse fato.
Fundamenta~ao Te6rica
Segundo Cavalcanti, a leitura, numa visao multidisciplinar,
e focalizada como conhecimento previo, como comunica~ao, como
planejamento
e
como
intera~ao.
A
Autora
focaliza,
especificamente,
a leitura do texto acadamico
em lingua
estrangeira. Pode ser, entretanto, concebida sua proposta, dada
a sua amplitude
, como urn modelo geral de leitura. E
perfeitamente aplicavel a leitura do poetico, havendo, porem,
a necessidade de complementa-lo, nao so no sentido de acrescimo
mas de aproxima~ao e de melhor detalhamento do processo, com
modelos
centrados
na leitura
do texto
poetico.
Michel
Riffaterre, em "Semiotique de la Poesie"(1983) e "A Produ~ao do
Texto" (1989) e a Estetica da Recep~ao , na figura de Robert
Jauss,
oferecern subsidios
para
essa
complementa~ao,
possibilitando, assim, a constru~ao de urn modelo que descreva
o processo de leitura de textos nao-referenciais.
Considerar-se a leitura do ponto de vista do conhecimento
previo, consiste em focalizar-se 0 processamento da informa~ao
na memoria de longo termo e 0 acionamento de modelos cognitivos
necessarios a compreensao de urntexto. Essa perspectiva embasase nas teorias de Rumelhart & Ortony( 1978) e de Schanck &
Abelson(1977), priorizando as no~oes de esquema e moldura.
Assim,
"esquemas"(Rumelhart
& Ortony) sao estruturas de
conhecimento e "molduras"(Schank & Abelson) sao representa<;oes
de
objetos,
situa<;oes, acontecimentos,
sequencias
de
acontecimentos, a<;oes e sequencias de a<;oes. Sao esses modelos
cognitivos que possibilitam ao leitor levantar suas predi<;oes,
refazendo-as, quando incoerencias sao percebidas.
A leitura como comunica<;ao enfatiza 0 aspecto social
presente nas trocas linguisticas, sendo 0 alicerce desse
processo a negocia<;ao de sentido (Widdowson-1984). Oscila entre
a comunica<;ao, interpreta<;ao semelhante feita por leitores
diferentes, e -a criatividade, possibilidade de interpreta<;oes
diferentes; cabe ao leitor estabelecer.o equilibrio entre esses
dois polos. 0 fator possibilitador
desse equilibrio e a
competencia
comunicativa,
constituida
pela
competencia
gramatical
( conhecimento das regras da gramatica),
pela
competencia
sociolingilistica (conhecimento
das regras
da
lingua) e pela competencia
estrategica
(estrategias de
comunica<;ao, compensatorias de quebras na comunica<;ao,geradas
por variaveis de desempenho ou por falta de competencia ..
Esse tipo de leitura ocorre atraves de estagios. 0 leitor
busca atingir os pIanos e os objetivos do autor, num processo
interativo com 0 texto. Segundo Cavalcanti, ha dois estagios:
redu<;ao, nele
ha
0
processamento
de
informa<;ao por
simplifica<;ao conceitual com base no sistema de valores do
leitor, e mudan<;a, nele ocorre 0 efeito do texto nas estruturas
cognitivas e no sistema de val ores do leitor. Para Riffaterre,
a leitura do poetico processa-se em dois niveis: no primeiro
le-se 0 texto de cima para baixo, da direita para a esquerda,
num desdobramento
sintagmatico.
E a leitura heuristica,
acionando a interpreta<;ao geradora do sentido. A competencia
gramatical e ativada; ela leva a predi<;ao da referencialidade
da lingua, ao mesmo tempo em que possibilita a percep<;ao de
agramaticalidades; alem dela, a competencia literaria tamqem e
necessaria; permite 0 preenchimento de lacunas. Nesse estagio,
a mimese e apreendida no seu conjunto e superada, salientando
a ilusao referencial do texto poetico.
o segundo nivel e 0 da leitura retroativa. 0 leitor,
constantemente, volta atras, a medida que avan<;a no texto; ele
reexamina e revisa, tomando como referencial as informa<;oes
precedentes,
havendo uma decodifica<;ao estrutural.
Usando
estrategias logico-comunicativas, 0 leitor descobre que as
agramaticalidades sac variantes de umamesma matriz est~tural;
nesse processo sac ativados esquemas e molduras. A rela<;ao do
texto
com
essa
estrutura
(esquema)
consti tui
a
sua
significancia. Assim, na leitura hermeneutica, diferentemente
da heuristica, cujas unidades sac palavras, sintagmas e frases,
a unidade de significancia e 0 texto na sua globalidade.
Chegando ao final, retorna-se ao inicio; fecha-se 0 circulo;
constroi -se a significancia, superando-se a mimese. Na fase
mimetica, a competencia gramatical e 0 paramentro de referencia
frente ao qual as agramaticalidades sac obstaculos a serem
superados, ocorrendo sua compreensao em outro nivel, 0 da
significancia, sendo a competencia semi6tica seu referencial.
Sao
esses
desvios
os
fios condutores
da
semiose
que
desencadeiam
a
significancia,
situada
em
um
sistema
hierarquicamente superior e nele percebidos pelo leitor como
uma rede complexa. Numa tentativa de sintese, poder-se-ia
afirmar que a redu9ao equivale a leitura heuristica
ou
mimetica, tentando 0 leitor traduzir as informa90es, numa busca
de sentido e a mudan9a corresponde a leitura hermeneutica,
havendo avalia9ao da informa9ao processada e rea90es do leitor
diante do texto, numa procura de significancia. A parafrase e
a retroa9ao (anafora) sao, segundo Riffaterre, entre outras,
estrategias basilares desse nivel de leitura.
Segundo Jauss, a experiencia estetica manifesta-se por meio
de tres fun90es: a Poiesis, a Aisthesis e a Katharsis,
explicitando respectivamente as atividades produtiva, receptiva
e comunicativa desse processo. Essa experiencia nao se inicia
nem pela compreensao nem pela interpreta9ao do significado da
obra de arte, mas, sim, por seu efeito estetico, ou seja, pela
compreensao fruidora e pela frui9ao compreensiva. Esses dois
processos ocorrem simultaneamente e mostram que s6 se gosta do
que se entende e s6 se entende 0 que se aprecia. Portanto a
recep9ao envolve tres etapas: a compreensao, a interpreta9ao e
a aplica9ao.
A leitura compreensiva, primeira fase do processo de
recep9ao e geradora das demais, e desencadeada pela percep9ao
estetica, aspecto dial6gico do processo. Identificando-se com
a leitura heuristica de Riffaterre, objetiva a busca do
sentido.
A
segunda
fase,
a
da
leltura
retrospectiva,
caracteriza pela
interpreta9ao,
pois, segundo Zilbermman,
apenas podem ser concretizadas significa90es que apareceram ou
poderiam
ter aparecido
ao interprete
como possiveis
no
horizonte de sua leitura anterior. E 0 momento da constru9ao da
significancia
do
texto.
Identifica-se
com
a
leitura
hermeneutica
de
Riffaterre.
Na
primeira,
percep9ao
estetica/leitura
compreensiva,
a leitura e progressiva
e
acompanha
a
seqUencia
do
texto,
na
segunda,
interpretativa/retrospectiva,
a leitura e retroativa
( a
ana fora e a estrategia basica), volta-se do fim ao inicio do
texto ou do todo para suas partes. A terceira etapa, a da
leitura hist6rica/reconstrutiva, focaliza a recep9ao de que a
a obra foi alvo ao longo da hist6ria. Equivale a etapa de
aplica9ao , objetivando recuperar as perguntas para as quais 0
texto
foi
uma
resposta
na
epoca
de
sua
produ9Ao,
possibilitando, ainda, ao interprete verificar seu
lugar na
cadeia temporal. Dessa forma, estar-se-ia aqui propondo uma
amplia9ao da leitura hermeneutica concebida por Riffaterre; ela
envolveria duas fases: a da leitura retrospectiva/ retroativa,
busca da significancia, e a da leitura reconstrutiva, em que 0
processo hist6rico seria considerado. A analise dos dados
evidenciara como 0 processo ocorre.
Considerar-se a leitura como planejamento e conceber-se 0
processo como situa«;ao de solu«;ao de problemas. Schanck &
Abelson e Rumelhart & Ortony focalizam esse aspecto propondo a
compreensao ou cria«;ao de pIanos. As adivinha«;5es, busca de
metas e objetivos do autor, num processo interativo com 0
texto, feitas pelo leitor, configuram-se como compreensao de
pIanos, designada por Cavalcanti interpreta«;ao de pIanos,
havendo a cria«;aodeles nos momentos de ruptura na comunica«;ao,
ocasionados por problemas de leitura ou por pontos de
relevancia detectados pelo leitor. Dessa forma, na leitura
poetica, no nivel hermeneutico, tem-se fundamentalmente, a
cria«;ao de pIanos,. 0 que nao significa que ela nao possa
acontecer no nivel mimetico.
0 objetivo central deste
trabalho e verificar que tipos de estrategias 0 leitor utiliza
na compreensao de um texto poetico em que predominam figuras de
pensamento do eixo da contradi«;ao. Consideram-se estrategias
como comportamentos que levam ou nao ao sucesso da compreensaoj
sao
tecnicas
heuristicas
(
estragegias
perceptuais),
possibilitadoras da recupera«;ao do sentido a partir de pistas
dadas pelo input visual. Sao de ordens variadas: ortograficas,
morfo-sintaticas, semantico-pragmaticas ou discursivas. Sao 0
fundamento da leitura como planejamento, objetivando, portanto,
a interpreta«;ao ou cria«;ao de pIanos por parte do leitor.
Sao a manifesta«;ao da competencia estrategica do individuo,
englobando um componente de estrategias verbais e nao-verbais,
acionadas ao ocorrerem rupturas na comunica«;ao geradas por
variaveis de desempenho ou competencia insuficiente. E a
competencia estrategica 0 elemento de liga«;aoentre estrategias
de planejamento e de comunica«;ao. Estas ultimas sao "pIanos
potencialmente conscientes para resolver aquilo que para um
individuo se apresenta como um problema para se atingir um
objetivo comunicativo."(Faerch & Kasper - 1980/81) Assim, ha
uma rela«;aodireta entre estrategias e situa«;5es de solu«;ao de
problemas.
Cavalcanti, a partir de Faerch & Kasper e Olshavsky,
classifica as estrategias de comunica«;ao em estrategias de
identifica~ao, de solu«;ao e de mascaramento do problema. As
prillleirasconUguram-se pelaformula«;ao de uma perguntaj as
s~undas desdobram-se emclarifica«;ao, associa«;ao e inferencias
e as terceiras podem tomar as seguintes dire«;5es: adiamento da
solu~io, ignorincia consciente do problema, abandono do
problemaou por fracasso reconhecido ou POr irrelevancia. As
estrategias de solu«;ao de problema podem subdividir-se da
seguinte forma:
a) clarifica«;ao: releitura, parafrase, uso de contexto,
adi«;ao de
informa«;aojb) associa«;ao: adequa«;ao semantica,
adequa«;ao pragmatica, adequa«;ao semantico- pragmaticaj c)
inferencias:
hip6tese,
generaliza«;ao
(compara«;ao,
classifica«;ao, defini«;ao, expansao), elimina«;ao, adivinha«;ao,
constru«;ao de for«;a pragmatica/conteudo proposicional. As de
associa«;ao tem posi«;ao superordenada em rela«;ao as demais
estrategias de solu«;ao de problemas.
1096
A leitura como intera~ao e focalizada no modele de Schanck
& Abelson, considerando as variaveis de desempenho decorrentes
do sistema de cren~as do leitor. Dada a complexidade do
processo, ele e acentuadamente marcado por situa~oes, de
solu~oes de problemas, resultantes de desencontros de
estruturas cognitivas e de falta de competencia.
Analise dos Dados
A analise do procolo verbal permite ao observador detectar
as estrategias utilizadas pelo informante. Ele inicia a leitura
do texto com uma pergunta "Acho que e Camoes, nao e?" que, ao
mesmo tempo em que revela a detec~ao de um problema, evidencia
uma estrategia de inferencia, ou seja, 0 leitor levanta uma
hip6tese frente ao texto. Foi 0 numero CLX que acompanhava 0
soneto, ja que ele nao apresentava titulo, que se evidencia
como pista para a busca do sentido do texto. Alem dele, tambem
pistas lexicais the forneceram elementos para levantar
hip6teses: ••
tem essas, essas palavrinhas aqui, nao se'i se e
portugues arcaico, pega bem... tem ventura com formosura.
"Outro elemento utilizado na identifica~ao do autor, elemento
fundamental para a constru~ao do sentido, foi 0 acionamento do
conhecimento previo: "Camoes
agora tem isso ... aqui, essa
retomada aqui ... 0 fogo arder
ja tem naquele outro soneto ...
e aver 0 fogo que arde ... entao e um repeteco ...••
o informante nao explicita se chega a conclusao sobre 0
autor do texto, passando, entao, it leitura: nesse momento
percebe agramaticalidades: "quando se vir com agua 0 fogo
arder ... isso e antitese: (2 sgs) .•. Juntar-se ao claro dia a
noite escura .•• claro dia ... acho que e um pleonasmo ... que 0
dia ja e claro •.• ,outro pleonasmo ... noite escura •.. porque a
noite e escura ... pra juntar outra antitese dia e noite •..
(2sgs). Verifica-se a contata~ao das agramaticalidades, porem
nao ha encaminhamento para buscar a sua solu~ao, partindo 0
leitor para outro ponto do texto.(mascaramento do problema)
Continua levantando hip6teses "e a terra colocada la na
altura •. ai nao e que ela ta em lugar baixo ... acho que ela ta
no Universo", busca do sentido mas nao chega a construi-Io
pois afirma," eu nao sei pra que coloca uma posi~ao pra ela la
no alto. Nao sei 0 que ele quis dizer com isso." Continua
tentando , desta vez a partir de um indice lexical ••Quando 0
amor razao ou rezao
isso e rezao mesmo..... Frente a
confirma~ao do observador de que e rezao, diz 0 informante
"rezao de razao ne? "Quando 0 amor a rezao obedecer ... aqui ...
aqui tem uma· coisa bem interessante ... e essa briga de
sentimento e razao, quer dizer ( parafrase) acho que ele nem
deve falar nisso agora." Percebe-se que 0 leitor novamente usa
seu conhecimento previo, faz uma inferencia, mas logo abandona
o problema, dizendo nao ter sido pertinente 0 autor abordar
aquele tema. Em outro momento fica mais clara a tentativa de
busca do sentido, utilizando inclusive, a anafora:"acho que e
a Terra em toda altura ne? Deixarei de ver essa formosura, toda
essa coisa, esse sentimento ... tem que haver. Aqui, acho que
quer dizer
( parafrase) um desejo de iqualdade, de
equilibrio
tem toda altura, vem essa, essa noite escura, num
dia claro
"
Continua nao tendo compreendido 0 texto pois
afirma: " Nao e 0 que ele ta desejando, 0 equilibrio que ele ta
desejando, que isso ai nao existe. Pera ai. Nao sendo vista
essa mudan~a .•• Agora sim! Agora vai clarear."
Continua lendo 0 texto, seguindo 0 mesmo caminho ate que
afirma: "Pera dos olhos meus nunca perder-vos. Esse nunca
perder-vos (5 sgs) e a formosura, ne ( anafora) Ah! bom ...
Percebe-se que 0 informante chegou a um sentido para 0 texto:
Entao ta dizendo pra nunca perder ... Isso aqui quer dizer que
permanece ainda esses momentos de equilibrio e aqui esse ...
esse contrabalan~o ... esse jogo de antiteses ... ele e um poeta
renascentista ... e ao mesmo tempo barroco. E isso mesmo? Isso
dai, ja ..• ja e vem essa duvida da alma ... da alma se perder
ou se salvar ... entao (5sgs) essas ... (5sgs) esta tudo aqui ••.
mesmo ele volta para um sentimento de... contradi torio •.."
Consta-se, assim, que 0 leitor constroi um sentido para 0
texto, e, a partir de seu conhecimento previo, parte para a
leitura reconstrutiva, recuperando 0 lado historico presente na
recep~ao estetica. Mas falta a leitura retroativa, aquela que
leva a construc;;aoda significancia do texto , na qual as
agramaticalidades sac interpretadas em oatro nivel, no qual a
competencia semiotica e acionada.
.
o leitor faz a releitura do texto(leitura retroativa), mas
fixando-se no aspecto formal: "agora as rimas"e passa longo
tempo contando rimas e silabas metricas, classificando-as em
seguida.
Perguntado se 0 texto havia feito sentido para ele
novamente insiste no aspecto formal, 0 que leva entao 0
observador a perguntar-lhe como sintetizaria 0 texto. Responde
da seguinte forma:"Quando vir com agua 0 fogo ..• (15 sgs) •••
Colocando 0 desejo ... 0 desejo de cg~hecer a (~sgs)esse ..•esse
equilibrio fantastico ... e por isso que ... qu~ ... que 0 homem
luta a vida inteira .., com com ... por um equilibrio que nio
existe (3sgs), dai ( 4sgs)por um lado e ..• e metaforas que
sempre vem pra... metaforas que... que serve para coloca 0
estado do homem, que ... que serve pra faze aquilo que eu falei
de .•. da denota~ao."
Constata-se que 0 informante, ainda
insistindo no formal, nos dados tecnicos, reitera 0 tema do
equilibrio, 0 que leva 0 observador a concluir que ele, apos a
releitura nao refez suas hipoteses de leitura nem construiu a
significancia utilizando pistas linguuisticas que 0 texto Ihe
oferecia. Esse fate ficou evidente na analise da entrevista
retrospectiva e da verifica~ao escrita. Diante da pergunta "0
que voce lembra do processo de compreensao do texto?",
respondeu: '~Eu lembro que, por exemplo" •.. das figuras de
linguagem, que sac quatro, ne... acho que tem a poetica,a
ludica, e qual a outra? que tem as figuras de linguagem, tem
paradoxo, antitese (3sgs)... aquela pequena expressao .•.a .•. 0
1098
fogo arde ...quando eu lembrei daquele outro soneto dele ... foi
quando reconheci que deveria ter side Camoes e a estrutura
formal, sem erro, assim, quarteto, terceto, tudo ••. tudo
apagadinho, na metrica, se a rima rica ou ... assim •.. tudo em
ordem ... onde deveria vir ..."
Ainda diante da questao: E pra que 0 texto fizesse sentido
pra voce, qual foi 0 caminho que voce chegou. Como e que voce
procedeu? A resposta dada foi a seguinte: "Eu fui buscando 0
conhecimento
que eu adquiri.
Por exemplo:
a figura de
linguagem, ... a fun~ao da linguagem tambem ... Isso ai foi •••
0••• conceito
que peguei na
quando
fiz a carreira
academica, e, quanto a conhecer ••• a conhecer a estrutura do
soneto, e ... e do colegial, e da ..• e da licen~a que fez 0
poeta... nao nao tambem... e... uma... e um conceito de
literatura do colegio que ... ai voce ve que e um poema e nao .••
nao e ... uma prosa ... va lembrando de todas as pessoas que •••
que me deram aula. As mesmas pessoas que me deram aula no
colegial. .• e
que nem estejam lembrando de mim ••. eu .• nessa
hora ... eu to
eu to ... parece que eu to colocando a imagem
delas, ate 0 momento que finaliza.. Isso. •. isso me da
vontade ... de ..• terminar a leitura. E ... acho que 0 processo
foi esse." Mais uma vez percebe-se que 0 informante nao
mergulhou na significancia do poema. Enfatiza 0 aspecto formal
do texto e relaciona esse dado ao seu percurso de forma~ao como
leitor. Para ele, 0 conhecimento tecnico e importante para a
compreensao do texto, embora, enquanto leitor, ele nao tenha
sido material suficiente para a constru~ao de pIanos.
Na verifica~ao escrita, havia perguntas mais direcionadas
a compreensao do texto e outras encaminhadoras da constru~ao da
significancia. Nas respostas dadas pelo informante, percebe-se
que ele, no primeiro caso, nao responde ao que Ihe foi
perguntado e, no segundo, ele retoma a hip6tese da busca do
equilibrio, embora as questoes apresentadas permittissem a
predi~ao do tema do texto.
Considera~oes finais
Conforme foi exposto, a leitura do texto poetico, na sua
completude, passa por tres etapas: a da leitura compreensival
heuristicai a da leitura interpretativa/hermeneutica
e a da
leitura reconstrutiva. Verifica-se que 0 informante observado
apresenta um desempenho adequado em rela~ao a primeira etapa de
leitura,
utilizando
suas
competencias
comunicativa,
estrategica, gramatlcal, sociolinguistica e literaria. Busca
estabelecer um sentido para 0 texto. Em rela~ao ao segundo
nivel, contata-se que ele nao retrabalha as agramaticalidades
percebidas, nao chega a criar pIanos durante a leitura, repete
a hip6tese de sentido levantada na leitura compreensivai nao
utiliza, com adequa~ao, a competencia semi6tica, portanto nao
constr6i a significancia do texto, partindo de pistas textuais.
Quanto a terceira leitura, a reconstrutiva, servindo-se do
conhecimento previo, ele a realiza com desenvoltura em um de
seus aspectos,
0 da contextualiza9ao
historica
do autor,
fundamentando
0 sentido do texto nesse dado; verifica-se
a
dimensao do conhecimento previo e dos esquemas cognitivos nessa
atitude do leitor, configurando-se,
fortemente, a leitura como
conhecimento
previo. Em rela980 ao segundo aspecto da leitura
reconstrutiva
, inter-relacionamento
entre a tematica do texto
e os questionamentos
e expectativas
do lei tor, pode-se afirmar
que ele nao foi considerado pelo informante.
Convem
ressaltar,
ainda,
em
rela980
a
leitura
reconstrutiva,
que
0
informante
realizou-a
sem
passar
profundamente
pela leitura interpretativa,
contrariando,
dessa
forma, a previsao de Jauss. Verifica-se
ainda que 0 leitor
mascara continuamente
os problemas constatados na leitura, nAo
buscando utilizar as estrategias adequadas para a solu9ao dos
problemas constatados. 0 recurso a estragegias foi quantitativa
e quali tati vamente pouco relevante.
Em sintese,
se a
leitura do texto poetico, em sua acep9ao plena, implica passar
pelos tres niveis de leitura, pode-se concluir que 0 informante
nao a realizou. 0 lei tor hipotetizou
um possivel tema para 0
texto,
mas nao buscou
sua verifica9ao,
utilizando-se
da
anafora, estrategia fundamental para se atingir a signficancia
do texto poetico. 0 dados formais e as agramaticalidades
nao
foram retrabalhados
objetivando seu papel e sua importancia em
formas indiretas de expressao como e a linguagem poetica. Oai
ser possivel afirmar-se
que a leitura do texto poetico e um
mergulho alem da forma, ja que a ruptura criativa do autor no
nivel dos significantes
oferece
ao lei tor pistas
para a
percep9ao
de velhos e desgastados
temas, mas que nao podem
deixar de ser captados
pelo lei tor. Entretanto,
apesar da
polissemia,
0 autor, de certa forma, ancora
seu texto e,
consequentemente,
a liberdade de cria9ao do lei tor e limitada.
A contradi9ao
de sentimento
Amoroso
foi apenas,
em certos
momentos, levemente intuida pelo informante.
Palavras-chave:
Leitura,
interpreta9ao,reconstru98o.
figuras
de pensamento,
compreensao,
Bibliografia
CAMOES, L. de Obras, Porto, Lello & Irmaos Ltda, 1970, soneto
CLX, p.84.
CAVALCANTI,M.
do C. Intere9ao Leitor-Texto
- Aspectos de
Interpreta~8o
Pragmitica, Campinas,
Ed. da Unicamp,
1989.
LIMA, L.C. A Literatura e 0 Leitor, Rio de Janeiro, Paz e
Terra, 1979.
RIFFATERRE,
M. "A Significancia
do Poema"in Semiotique
de la
poesie, Paris, Editions du Seuil,1983.
A Produ~ao do Texto, Sao Paulo, Martins Fontes,
1989.
ZILBERMAN, R. Estetica da Recep980 e Historia da Literatura,
Sao Paulo, Atica, 1989.
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