A LEITURA DO TEXTO POETICO: UM MERGULHO ALEM DA FORMA Dieli Vesaro Palma (PUC-SP) Este trabalho integra-se numa pesquisa mais ampla cujo objetivo e verificar como ocorre 0 processo de compreensao de texto poetico em que haja predominio das figuras de pensamento do eixo da contradi~ao, tais como, antiteses, oximoros, ironias, entre outras. Nesta etapa, busca-se levantar as estrategias utilizadas pelo leitor, considerado pelo observador como portador de urnperfil adequado a proposta do estudo. Foi urndos sujeitos da pesquisa urnaluno do setimo periodo do Curso de Letras da Pontificia Universidade Catolica de Sao Paulo. 0 informante, alem de sua forma~ao em Letras, e autor de Literatura de Cordel. Os dados foram coletados por meio de tras instrumentos: protocolo verbal, entrevista retrospectiva e verbaliza~ao escrita da significancia, tendo sido feita tambem pelo sujeito a sua auto-avalia~ao como leitor de textos poeticos. Uma semana apos a realiza~ao do protocolo verbal, tendo sido objeto de leitura urn poema camoniano, escolhido por ser compativel com 0 tema da pesquisa, e da verifica~ao escrita foi feita a entrevista retrospectiva. Essas informa~oes foram cruzadas pelo observador e serao apresentadas na analise dos dados deste trabalho. Assim, 0 desenho da pesquisa caracteriza-se por uma analise qualitativa dos dados e 0 metoda utilizado e indutivo-dedutivo. Dada a complexidade do processo de compreensao em leitura, optou-se por uma visao interdisciplinar desse fato. Fundamenta~ao Te6rica Segundo Cavalcanti, a leitura, numa visao multidisciplinar, e focalizada como conhecimento previo, como comunica~ao, como planejamento e como intera~ao. A Autora focaliza, especificamente, a leitura do texto acadamico em lingua estrangeira. Pode ser, entretanto, concebida sua proposta, dada a sua amplitude , como urn modelo geral de leitura. E perfeitamente aplicavel a leitura do poetico, havendo, porem, a necessidade de complementa-lo, nao so no sentido de acrescimo mas de aproxima~ao e de melhor detalhamento do processo, com modelos centrados na leitura do texto poetico. Michel Riffaterre, em "Semiotique de la Poesie"(1983) e "A Produ~ao do Texto" (1989) e a Estetica da Recep~ao , na figura de Robert Jauss, oferecern subsidios para essa complementa~ao, possibilitando, assim, a constru~ao de urn modelo que descreva o processo de leitura de textos nao-referenciais. Considerar-se a leitura do ponto de vista do conhecimento previo, consiste em focalizar-se 0 processamento da informa~ao na memoria de longo termo e 0 acionamento de modelos cognitivos necessarios a compreensao de urntexto. Essa perspectiva embasase nas teorias de Rumelhart & Ortony( 1978) e de Schanck & Abelson(1977), priorizando as no~oes de esquema e moldura. Assim, "esquemas"(Rumelhart & Ortony) sao estruturas de conhecimento e "molduras"(Schank & Abelson) sao representa<;oes de objetos, situa<;oes, acontecimentos, sequencias de acontecimentos, a<;oes e sequencias de a<;oes. Sao esses modelos cognitivos que possibilitam ao leitor levantar suas predi<;oes, refazendo-as, quando incoerencias sao percebidas. A leitura como comunica<;ao enfatiza 0 aspecto social presente nas trocas linguisticas, sendo 0 alicerce desse processo a negocia<;ao de sentido (Widdowson-1984). Oscila entre a comunica<;ao, interpreta<;ao semelhante feita por leitores diferentes, e -a criatividade, possibilidade de interpreta<;oes diferentes; cabe ao leitor estabelecer.o equilibrio entre esses dois polos. 0 fator possibilitador desse equilibrio e a competencia comunicativa, constituida pela competencia gramatical ( conhecimento das regras da gramatica), pela competencia sociolingilistica (conhecimento das regras da lingua) e pela competencia estrategica (estrategias de comunica<;ao, compensatorias de quebras na comunica<;ao,geradas por variaveis de desempenho ou por falta de competencia .. Esse tipo de leitura ocorre atraves de estagios. 0 leitor busca atingir os pIanos e os objetivos do autor, num processo interativo com 0 texto. Segundo Cavalcanti, ha dois estagios: redu<;ao, nele ha 0 processamento de informa<;ao por simplifica<;ao conceitual com base no sistema de valores do leitor, e mudan<;a, nele ocorre 0 efeito do texto nas estruturas cognitivas e no sistema de val ores do leitor. Para Riffaterre, a leitura do poetico processa-se em dois niveis: no primeiro le-se 0 texto de cima para baixo, da direita para a esquerda, num desdobramento sintagmatico. E a leitura heuristica, acionando a interpreta<;ao geradora do sentido. A competencia gramatical e ativada; ela leva a predi<;ao da referencialidade da lingua, ao mesmo tempo em que possibilita a percep<;ao de agramaticalidades; alem dela, a competencia literaria tamqem e necessaria; permite 0 preenchimento de lacunas. Nesse estagio, a mimese e apreendida no seu conjunto e superada, salientando a ilusao referencial do texto poetico. o segundo nivel e 0 da leitura retroativa. 0 leitor, constantemente, volta atras, a medida que avan<;a no texto; ele reexamina e revisa, tomando como referencial as informa<;oes precedentes, havendo uma decodifica<;ao estrutural. Usando estrategias logico-comunicativas, 0 leitor descobre que as agramaticalidades sac variantes de umamesma matriz est~tural; nesse processo sac ativados esquemas e molduras. A rela<;ao do texto com essa estrutura (esquema) consti tui a sua significancia. Assim, na leitura hermeneutica, diferentemente da heuristica, cujas unidades sac palavras, sintagmas e frases, a unidade de significancia e 0 texto na sua globalidade. Chegando ao final, retorna-se ao inicio; fecha-se 0 circulo; constroi -se a significancia, superando-se a mimese. Na fase mimetica, a competencia gramatical e 0 paramentro de referencia frente ao qual as agramaticalidades sac obstaculos a serem superados, ocorrendo sua compreensao em outro nivel, 0 da significancia, sendo a competencia semi6tica seu referencial. Sao esses desvios os fios condutores da semiose que desencadeiam a significancia, situada em um sistema hierarquicamente superior e nele percebidos pelo leitor como uma rede complexa. Numa tentativa de sintese, poder-se-ia afirmar que a redu9ao equivale a leitura heuristica ou mimetica, tentando 0 leitor traduzir as informa90es, numa busca de sentido e a mudan9a corresponde a leitura hermeneutica, havendo avalia9ao da informa9ao processada e rea90es do leitor diante do texto, numa procura de significancia. A parafrase e a retroa9ao (anafora) sao, segundo Riffaterre, entre outras, estrategias basilares desse nivel de leitura. Segundo Jauss, a experiencia estetica manifesta-se por meio de tres fun90es: a Poiesis, a Aisthesis e a Katharsis, explicitando respectivamente as atividades produtiva, receptiva e comunicativa desse processo. Essa experiencia nao se inicia nem pela compreensao nem pela interpreta9ao do significado da obra de arte, mas, sim, por seu efeito estetico, ou seja, pela compreensao fruidora e pela frui9ao compreensiva. Esses dois processos ocorrem simultaneamente e mostram que s6 se gosta do que se entende e s6 se entende 0 que se aprecia. Portanto a recep9ao envolve tres etapas: a compreensao, a interpreta9ao e a aplica9ao. A leitura compreensiva, primeira fase do processo de recep9ao e geradora das demais, e desencadeada pela percep9ao estetica, aspecto dial6gico do processo. Identificando-se com a leitura heuristica de Riffaterre, objetiva a busca do sentido. A segunda fase, a da leltura retrospectiva, caracteriza pela interpreta9ao, pois, segundo Zilbermman, apenas podem ser concretizadas significa90es que apareceram ou poderiam ter aparecido ao interprete como possiveis no horizonte de sua leitura anterior. E 0 momento da constru9ao da significancia do texto. Identifica-se com a leitura hermeneutica de Riffaterre. Na primeira, percep9ao estetica/leitura compreensiva, a leitura e progressiva e acompanha a seqUencia do texto, na segunda, interpretativa/retrospectiva, a leitura e retroativa ( a ana fora e a estrategia basica), volta-se do fim ao inicio do texto ou do todo para suas partes. A terceira etapa, a da leitura hist6rica/reconstrutiva, focaliza a recep9ao de que a a obra foi alvo ao longo da hist6ria. Equivale a etapa de aplica9ao , objetivando recuperar as perguntas para as quais 0 texto foi uma resposta na epoca de sua produ9Ao, possibilitando, ainda, ao interprete verificar seu lugar na cadeia temporal. Dessa forma, estar-se-ia aqui propondo uma amplia9ao da leitura hermeneutica concebida por Riffaterre; ela envolveria duas fases: a da leitura retrospectiva/ retroativa, busca da significancia, e a da leitura reconstrutiva, em que 0 processo hist6rico seria considerado. A analise dos dados evidenciara como 0 processo ocorre. Considerar-se a leitura como planejamento e conceber-se 0 processo como situa«;ao de solu«;ao de problemas. Schanck & Abelson e Rumelhart & Ortony focalizam esse aspecto propondo a compreensao ou cria«;ao de pIanos. As adivinha«;5es, busca de metas e objetivos do autor, num processo interativo com 0 texto, feitas pelo leitor, configuram-se como compreensao de pIanos, designada por Cavalcanti interpreta«;ao de pIanos, havendo a cria«;aodeles nos momentos de ruptura na comunica«;ao, ocasionados por problemas de leitura ou por pontos de relevancia detectados pelo leitor. Dessa forma, na leitura poetica, no nivel hermeneutico, tem-se fundamentalmente, a cria«;ao de pIanos,. 0 que nao significa que ela nao possa acontecer no nivel mimetico. 0 objetivo central deste trabalho e verificar que tipos de estrategias 0 leitor utiliza na compreensao de um texto poetico em que predominam figuras de pensamento do eixo da contradi«;ao. Consideram-se estrategias como comportamentos que levam ou nao ao sucesso da compreensaoj sao tecnicas heuristicas ( estragegias perceptuais), possibilitadoras da recupera«;ao do sentido a partir de pistas dadas pelo input visual. Sao de ordens variadas: ortograficas, morfo-sintaticas, semantico-pragmaticas ou discursivas. Sao 0 fundamento da leitura como planejamento, objetivando, portanto, a interpreta«;ao ou cria«;ao de pIanos por parte do leitor. Sao a manifesta«;ao da competencia estrategica do individuo, englobando um componente de estrategias verbais e nao-verbais, acionadas ao ocorrerem rupturas na comunica«;ao geradas por variaveis de desempenho ou competencia insuficiente. E a competencia estrategica 0 elemento de liga«;aoentre estrategias de planejamento e de comunica«;ao. Estas ultimas sao "pIanos potencialmente conscientes para resolver aquilo que para um individuo se apresenta como um problema para se atingir um objetivo comunicativo."(Faerch & Kasper - 1980/81) Assim, ha uma rela«;aodireta entre estrategias e situa«;5es de solu«;ao de problemas. Cavalcanti, a partir de Faerch & Kasper e Olshavsky, classifica as estrategias de comunica«;ao em estrategias de identifica~ao, de solu«;ao e de mascaramento do problema. As prillleirasconUguram-se pelaformula«;ao de uma perguntaj as s~undas desdobram-se emclarifica«;ao, associa«;ao e inferencias e as terceiras podem tomar as seguintes dire«;5es: adiamento da solu~io, ignorincia consciente do problema, abandono do problemaou por fracasso reconhecido ou POr irrelevancia. As estrategias de solu«;ao de problema podem subdividir-se da seguinte forma: a) clarifica«;ao: releitura, parafrase, uso de contexto, adi«;ao de informa«;aojb) associa«;ao: adequa«;ao semantica, adequa«;ao pragmatica, adequa«;ao semantico- pragmaticaj c) inferencias: hip6tese, generaliza«;ao (compara«;ao, classifica«;ao, defini«;ao, expansao), elimina«;ao, adivinha«;ao, constru«;ao de for«;a pragmatica/conteudo proposicional. As de associa«;ao tem posi«;ao superordenada em rela«;ao as demais estrategias de solu«;ao de problemas. 1096 A leitura como intera~ao e focalizada no modele de Schanck & Abelson, considerando as variaveis de desempenho decorrentes do sistema de cren~as do leitor. Dada a complexidade do processo, ele e acentuadamente marcado por situa~oes, de solu~oes de problemas, resultantes de desencontros de estruturas cognitivas e de falta de competencia. Analise dos Dados A analise do procolo verbal permite ao observador detectar as estrategias utilizadas pelo informante. Ele inicia a leitura do texto com uma pergunta "Acho que e Camoes, nao e?" que, ao mesmo tempo em que revela a detec~ao de um problema, evidencia uma estrategia de inferencia, ou seja, 0 leitor levanta uma hip6tese frente ao texto. Foi 0 numero CLX que acompanhava 0 soneto, ja que ele nao apresentava titulo, que se evidencia como pista para a busca do sentido do texto. Alem dele, tambem pistas lexicais the forneceram elementos para levantar hip6teses: •• tem essas, essas palavrinhas aqui, nao se'i se e portugues arcaico, pega bem... tem ventura com formosura. "Outro elemento utilizado na identifica~ao do autor, elemento fundamental para a constru~ao do sentido, foi 0 acionamento do conhecimento previo: "Camoes agora tem isso ... aqui, essa retomada aqui ... 0 fogo arder ja tem naquele outro soneto ... e aver 0 fogo que arde ... entao e um repeteco ...•• o informante nao explicita se chega a conclusao sobre 0 autor do texto, passando, entao, it leitura: nesse momento percebe agramaticalidades: "quando se vir com agua 0 fogo arder ... isso e antitese: (2 sgs) .•. Juntar-se ao claro dia a noite escura .•• claro dia ... acho que e um pleonasmo ... que 0 dia ja e claro •.• ,outro pleonasmo ... noite escura •.. porque a noite e escura ... pra juntar outra antitese dia e noite •.. (2sgs). Verifica-se a contata~ao das agramaticalidades, porem nao ha encaminhamento para buscar a sua solu~ao, partindo 0 leitor para outro ponto do texto.(mascaramento do problema) Continua levantando hip6teses "e a terra colocada la na altura •. ai nao e que ela ta em lugar baixo ... acho que ela ta no Universo", busca do sentido mas nao chega a construi-Io pois afirma," eu nao sei pra que coloca uma posi~ao pra ela la no alto. Nao sei 0 que ele quis dizer com isso." Continua tentando , desta vez a partir de um indice lexical ••Quando 0 amor razao ou rezao isso e rezao mesmo..... Frente a confirma~ao do observador de que e rezao, diz 0 informante "rezao de razao ne? "Quando 0 amor a rezao obedecer ... aqui ... aqui tem uma· coisa bem interessante ... e essa briga de sentimento e razao, quer dizer ( parafrase) acho que ele nem deve falar nisso agora." Percebe-se que 0 leitor novamente usa seu conhecimento previo, faz uma inferencia, mas logo abandona o problema, dizendo nao ter sido pertinente 0 autor abordar aquele tema. Em outro momento fica mais clara a tentativa de busca do sentido, utilizando inclusive, a anafora:"acho que e a Terra em toda altura ne? Deixarei de ver essa formosura, toda essa coisa, esse sentimento ... tem que haver. Aqui, acho que quer dizer ( parafrase) um desejo de iqualdade, de equilibrio tem toda altura, vem essa, essa noite escura, num dia claro " Continua nao tendo compreendido 0 texto pois afirma: " Nao e 0 que ele ta desejando, 0 equilibrio que ele ta desejando, que isso ai nao existe. Pera ai. Nao sendo vista essa mudan~a .•• Agora sim! Agora vai clarear." Continua lendo 0 texto, seguindo 0 mesmo caminho ate que afirma: "Pera dos olhos meus nunca perder-vos. Esse nunca perder-vos (5 sgs) e a formosura, ne ( anafora) Ah! bom ... Percebe-se que 0 informante chegou a um sentido para 0 texto: Entao ta dizendo pra nunca perder ... Isso aqui quer dizer que permanece ainda esses momentos de equilibrio e aqui esse ... esse contrabalan~o ... esse jogo de antiteses ... ele e um poeta renascentista ... e ao mesmo tempo barroco. E isso mesmo? Isso dai, ja ..• ja e vem essa duvida da alma ... da alma se perder ou se salvar ... entao (5sgs) essas ... (5sgs) esta tudo aqui ••. mesmo ele volta para um sentimento de... contradi torio •.." Consta-se, assim, que 0 leitor constroi um sentido para 0 texto, e, a partir de seu conhecimento previo, parte para a leitura reconstrutiva, recuperando 0 lado historico presente na recep~ao estetica. Mas falta a leitura retroativa, aquela que leva a construc;;aoda significancia do texto , na qual as agramaticalidades sac interpretadas em oatro nivel, no qual a competencia semiotica e acionada. . o leitor faz a releitura do texto(leitura retroativa), mas fixando-se no aspecto formal: "agora as rimas"e passa longo tempo contando rimas e silabas metricas, classificando-as em seguida. Perguntado se 0 texto havia feito sentido para ele novamente insiste no aspecto formal, 0 que leva entao 0 observador a perguntar-lhe como sintetizaria 0 texto. Responde da seguinte forma:"Quando vir com agua 0 fogo ..• (15 sgs) ••• Colocando 0 desejo ... 0 desejo de cg~hecer a (~sgs)esse ..•esse equilibrio fantastico ... e por isso que ... qu~ ... que 0 homem luta a vida inteira .., com com ... por um equilibrio que nio existe (3sgs), dai ( 4sgs)por um lado e ..• e metaforas que sempre vem pra... metaforas que... que serve para coloca 0 estado do homem, que ... que serve pra faze aquilo que eu falei de .•. da denota~ao." Constata-se que 0 informante, ainda insistindo no formal, nos dados tecnicos, reitera 0 tema do equilibrio, 0 que leva 0 observador a concluir que ele, apos a releitura nao refez suas hipoteses de leitura nem construiu a significancia utilizando pistas linguuisticas que 0 texto Ihe oferecia. Esse fate ficou evidente na analise da entrevista retrospectiva e da verifica~ao escrita. Diante da pergunta "0 que voce lembra do processo de compreensao do texto?", respondeu: '~Eu lembro que, por exemplo" •.. das figuras de linguagem, que sac quatro, ne... acho que tem a poetica,a ludica, e qual a outra? que tem as figuras de linguagem, tem paradoxo, antitese (3sgs)... aquela pequena expressao .•.a .•. 0 1098 fogo arde ...quando eu lembrei daquele outro soneto dele ... foi quando reconheci que deveria ter side Camoes e a estrutura formal, sem erro, assim, quarteto, terceto, tudo ••. tudo apagadinho, na metrica, se a rima rica ou ... assim •.. tudo em ordem ... onde deveria vir ..." Ainda diante da questao: E pra que 0 texto fizesse sentido pra voce, qual foi 0 caminho que voce chegou. Como e que voce procedeu? A resposta dada foi a seguinte: "Eu fui buscando 0 conhecimento que eu adquiri. Por exemplo: a figura de linguagem, ... a fun~ao da linguagem tambem ... Isso ai foi ••• 0••• conceito que peguei na quando fiz a carreira academica, e, quanto a conhecer ••• a conhecer a estrutura do soneto, e ... e do colegial, e da ..• e da licen~a que fez 0 poeta... nao nao tambem... e... uma... e um conceito de literatura do colegio que ... ai voce ve que e um poema e nao .•• nao e ... uma prosa ... va lembrando de todas as pessoas que ••• que me deram aula. As mesmas pessoas que me deram aula no colegial. .• e que nem estejam lembrando de mim ••. eu .• nessa hora ... eu to eu to ... parece que eu to colocando a imagem delas, ate 0 momento que finaliza.. Isso. •. isso me da vontade ... de ..• terminar a leitura. E ... acho que 0 processo foi esse." Mais uma vez percebe-se que 0 informante nao mergulhou na significancia do poema. Enfatiza 0 aspecto formal do texto e relaciona esse dado ao seu percurso de forma~ao como leitor. Para ele, 0 conhecimento tecnico e importante para a compreensao do texto, embora, enquanto leitor, ele nao tenha sido material suficiente para a constru~ao de pIanos. Na verifica~ao escrita, havia perguntas mais direcionadas a compreensao do texto e outras encaminhadoras da constru~ao da significancia. Nas respostas dadas pelo informante, percebe-se que ele, no primeiro caso, nao responde ao que Ihe foi perguntado e, no segundo, ele retoma a hip6tese da busca do equilibrio, embora as questoes apresentadas permittissem a predi~ao do tema do texto. Considera~oes finais Conforme foi exposto, a leitura do texto poetico, na sua completude, passa por tres etapas: a da leitura compreensival heuristicai a da leitura interpretativa/hermeneutica e a da leitura reconstrutiva. Verifica-se que 0 informante observado apresenta um desempenho adequado em rela~ao a primeira etapa de leitura, utilizando suas competencias comunicativa, estrategica, gramatlcal, sociolinguistica e literaria. Busca estabelecer um sentido para 0 texto. Em rela~ao ao segundo nivel, contata-se que ele nao retrabalha as agramaticalidades percebidas, nao chega a criar pIanos durante a leitura, repete a hip6tese de sentido levantada na leitura compreensivai nao utiliza, com adequa~ao, a competencia semi6tica, portanto nao constr6i a significancia do texto, partindo de pistas textuais. Quanto a terceira leitura, a reconstrutiva, servindo-se do conhecimento previo, ele a realiza com desenvoltura em um de seus aspectos, 0 da contextualiza9ao historica do autor, fundamentando 0 sentido do texto nesse dado; verifica-se a dimensao do conhecimento previo e dos esquemas cognitivos nessa atitude do leitor, configurando-se, fortemente, a leitura como conhecimento previo. Em rela980 ao segundo aspecto da leitura reconstrutiva , inter-relacionamento entre a tematica do texto e os questionamentos e expectativas do lei tor, pode-se afirmar que ele nao foi considerado pelo informante. Convem ressaltar, ainda, em rela980 a leitura reconstrutiva, que 0 informante realizou-a sem passar profundamente pela leitura interpretativa, contrariando, dessa forma, a previsao de Jauss. Verifica-se ainda que 0 leitor mascara continuamente os problemas constatados na leitura, nAo buscando utilizar as estrategias adequadas para a solu9ao dos problemas constatados. 0 recurso a estragegias foi quantitativa e quali tati vamente pouco relevante. Em sintese, se a leitura do texto poetico, em sua acep9ao plena, implica passar pelos tres niveis de leitura, pode-se concluir que 0 informante nao a realizou. 0 lei tor hipotetizou um possivel tema para 0 texto, mas nao buscou sua verifica9ao, utilizando-se da anafora, estrategia fundamental para se atingir a signficancia do texto poetico. 0 dados formais e as agramaticalidades nao foram retrabalhados objetivando seu papel e sua importancia em formas indiretas de expressao como e a linguagem poetica. Oai ser possivel afirmar-se que a leitura do texto poetico e um mergulho alem da forma, ja que a ruptura criativa do autor no nivel dos significantes oferece ao lei tor pistas para a percep9ao de velhos e desgastados temas, mas que nao podem deixar de ser captados pelo lei tor. Entretanto, apesar da polissemia, 0 autor, de certa forma, ancora seu texto e, consequentemente, a liberdade de cria9ao do lei tor e limitada. A contradi9ao de sentimento Amoroso foi apenas, em certos momentos, levemente intuida pelo informante. Palavras-chave: Leitura, interpreta9ao,reconstru98o. figuras de pensamento, compreensao, Bibliografia CAMOES, L. de Obras, Porto, Lello & Irmaos Ltda, 1970, soneto CLX, p.84. CAVALCANTI,M. do C. Intere9ao Leitor-Texto - Aspectos de Interpreta~8o Pragmitica, Campinas, Ed. da Unicamp, 1989. LIMA, L.C. A Literatura e 0 Leitor, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979. RIFFATERRE, M. "A Significancia do Poema"in Semiotique de la poesie, Paris, Editions du Seuil,1983. A Produ~ao do Texto, Sao Paulo, Martins Fontes, 1989. ZILBERMAN, R. Estetica da Recep980 e Historia da Literatura, Sao Paulo, Atica, 1989.