XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 2 O ESTÁGIO CURRICULAR EM CURSO DE LICENCIATURA NA UFPI: A VIVÊNCIA DE UM PERCURSO Maria da Glória Soares Barbosa Lima – UFPI Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino Teresina-PI ([email protected]) Resumo: Este texto, que integra o painel “Prática de Ensino e Estágio Supervisionado na UFPI: especificidades, percursos e...”, apresenta o traçado memorialístico de um percurso de estágio supervisionado na Licenciatura Letras-Português, na UFPI, portanto sob os auspícios da disciplina Prática de Ensino II - Língua e Literatura Nacional, tendo como referencial teórico-metodológico a formação inicial (LIMA, 2006; NUÑEZ E RAMALHO, 2002), o estágio supervisionado (PERES, 2006; PIMENTA; LIMA, 2004) e as narrativas autobiográficas (MIGNOT, 2003; PÉREZ, 2007). Metodologicamente inscreve- se nos parâmetros na pesquisa qualitativa-narrativa, empregando o memorial autobiográfico como instrumento orientador da produção dos dados narrativos. O estudo, na sua origem, envolveu 12 alunos-professores (estagiários), os quais produziram, cada um, seu memorial autobiográfico, tendo como centralidade o percurso e as vivências formativas promovidas pelo referido estágio, no entanto, para efeito desta composição textual, e em obediência aos limites deste artigo, trabalhamos/analisamos o percurso da Estagiária 1. Desse modo, para efeito de análise e para dar mais clareza a este percurso, seus momentos foram assim nomeados: Contatos iniciais com a disciplina; Estudos teóricos fundamentadores do estágio; Observando a prática; Planejamento das atividades docentes; Na escola, no estágio; Assumindo a sala de aula; Dilemas de professor iniciante; e O estágio como lócus de aprendizagens professorais. Nesse diapasão, as principais conclusões evidenciam que o estágio é concebido e conceptualizado pela futura professora, como momento de formação profissional orientadora da docência, como espaço de descobertas do ser professor na vivência da realidade viva do contexto escolar, no exercício concreto da união da teoria com a prática, portanto um momento formativo diferenciado que propiciou melhor compreender, organizar e exercitar o ofício docente na escola, campo de estágio. Palavras-Chave: Estágio supervisionado. Formação inicial. Narrativas autobiográficas. Aproximações Introdutórias Este trabalho visa à reflexão sobre o estágio curricular em curso de Licenciatura, revelando como se efetiva sua concretude na realidade do ensino na Universidade e na escola, mediado pelos aportes teórico-epistemológicos e metodológicos previstos para este fim e também pelas relações sociais tecidas e estabelecidas no cotidiano da escola campo de estágio. Tratamos do estágio na configuração de um processo que vai tomando corpo, conforme vai crescendo a consciência profissional do futuro professor, cuja formação ou cujo processo formativo busca a compreensão do saber, do saber-fazer e do saber-ser. Essas vertentes se Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007134 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 3 interconectam na continuidade do percurso de formação, configurando a identidade de cada futuro professor configurando sua prática pedagógica futura, subsidiando a compreensão das situações dilemáticas da profissão e, inclusive as saídas didáticas/pedagógicas de como contorná-las. O estágio supervisionado concebido sob esse espectro parece, dimensionalmente considerado, um tempo relativamente curto para comportar, compreender e executar tantos propósitos. Mas há que se compreender que a formação é um continuum e, como tal, o estágio, em atendimento a essa realidade, representa o aprender da profissão docente. A propósito, Pimenta e Lima (2004, p. 101-102) mencionam que a intencionalidade e a reflexão sobre o caráter formativo constituem a essência do estágio, desde que o consideram “como um campo de conhecimentos necessários aos processos formativos. [...] um espaço de convergência das experiências pedagógicas vivenciadas no decorrer do curso”, no contexto formativo inicial. Espera-se, portanto, que nesse espaço formativo, onde ocorre sua primeira experiência real com a docência, o aluno-professor possa, de fato, perceber e compreender a articulação teoria-prática, exercitando a reflexão contínua e necessária que colabora para torná-lo um sujeito mais crítico e assim operar sua capacidade de aprender-ensinar, mediante o desenvolvimento de sua “curiosidade epistemológica”, como nos diz Freire (1996), capacidade que o induz a indagar, a questionar, que está sempre em busca de esclarecimento, como manifestação natural ao ser humano. Ou, ainda, como condição necessária ao ser professor e saber ensinar, trabalhando, portanto, uma epistemologia da reflexão na ação, bem como dos saberes que dela decorrem (PERRENOUD, 2001). Nessa acepção, comporta pensar o estágio como momento curricular, como etapa final da formação inicial, como momento de aprendizagem no qual o aluno (futuro professor) aprende a lidar com a teoria e com a prática, buscando superar a dicotomia entre ambas. Revela-se, desse modo, uma noção de estágio permeada pela reflexão crítica, que vislumbra alunos e professores sintonizados com a realidade cotidiana da escola, vivenciando a realidade da prática pedagógica. Um trabalho pedagógico entendido na sua concretude como uma produção social do gênero humano, seja na sua versão material, seja na sua vertente imaterial, cultural, que concebe o trabalho escolar como algo mais amplo, que ultrapassa a concepção de docência, tão somente. Para alcance dos objetivos perspectivados para este painel, descrever e tecer reflexões sobre a vivência de um percurso de estágio supervisionado em uma Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007135 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4 licenciatura na Universidade Federal do Piauí-UFPI, o fazemos mediante a seguinte organização textual: discutimos, em primeiro lugar, sobre formação de professores e, em segundo lugar, sobre o estágio supervisionado a partir de um recorte teóricometodológico, com descrições e análises, em formato sucinto, do percurso desse estágio, pelo recurso da narrativa autobiográfica. Formação de professores Na formação de professores o desejável é que a ação educativa nas suas diversas nuances não se configure como uma ação fragmentada, distribuída e experienciada por meio de situações docentes estremadas, dissociadas de seus aspectos correlatos, do ininterrupto processo de ação-reflexão-ação, de modo a assegurar, no percurso da formação inicial, a sistematização do conhecimento professoral, que diferencia o aluno-professor como um especialista na formação auferida, como um pensador que reflete na e sobre a ação de ser professor e saber ensinar e, por fim, como um cidadão comprometido com o seu tempo histórico, ultrapassando, por conseguinte, os limites de sua especialidade. A formação inicial é caracterizada pela formação acadêmico-formal, cujo contexto de ocorrência é a universidade (as faculdades, os institutos também), nos cursos de graduação. Compreende a formação específica do/a futuro/a professor/a, configurando-se como o momento em que o/a aluno/a se beneficia não só de conhecimentos no campo geral, mas especialmente de conhecimentos pedagógicos e das disciplinas necessárias à formação profissional. “Nesse contexto, a formação tem um papel decisivo. Ela possibilita o preparo de competências necessárias para o início do exercício profissional e para a inserção desse profissional no mundo do trabalho, respondendo à perspectiva de desenvolvimento integral como ser histórico e social, e em conformidade com projetos individuais e sociais gerados a partir de novas necessidades.” (NUÑEZ E RAMALHO, 2002, p. 12) O expressivo papel da formação inicial transcende a ideia de apenas habilitar pessoas para atuarem como profissionais no mercado de trabalho, tendo, pois, em maior conta a tarefa de formar professores e professoras comprometidos/as em influírem no contexto social no qual atuarão, perspectivando a mudança tendo como fundamento uma visão crítica da realidade circundante. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007136 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 Nesse sentido, a universidade e as faculdades ocupam significativo papel na formação do sujeito, tendo em vista figurarem como centros de produção e legitimação dos saberes, segundo refere Gauthier et al. Acrescenta, inclusive, que é função dessa instituição "[...] fornecer os conhecimentos necessários e garantir, de uma certa maneira, a qualidade daqueles que os possuem". Devendo, pois, assumir o importante papel de "[...] possibilitar aos futuros profissionais a aquisição de uma personalidade no plano profissional, isto é, uma maneira socializada de ser, de pensar e de agir". (1998, p. 70). De acordo com García (1999), a formação inicial revela-se como o primeiro momento de um longo, complexo e diferenciado processo de desenvolvimento profissional. Alerta, no entanto, que, assim concebida, é prudente considerar que neste nível a formação ainda não reúne condições de apresentar "produtos bem acabados", até porque, pode-se dizer, representa a via de transição e de interconexão com a formação continuada. Estágio Supervisionado A desafiante tarefa de formar professores no mundo contemporâneo corresponde, em linhas gerais, à reflexão que desenvolvemos neste trabalho, fazendo um recorte para focalizar o Estágio Supervisionado, na licenciatura Letras-Português, que na UFPI recebe as denominações curriculares: Prática de Ensino I-Língua e Literatura Nacional e Prática de Ensino II - Língua e Literatura Nacional. Com estes dados preliminares, passamos a tecer algumas considerações teóricas sobre formação de professores (formação inicial e estágio supervisionado), realçando o estágio supervisionado como referência central nessa tessitura-textual. Estágio enquanto componente acadêmico que envolve atividades de aprendizagem social, profissional e cultural, aspectos determinantes na formação e na edificação da cidadania do futuro professor. É por meio desse componente curricular que o aluno-professor acessa à escola para exercitar a docência, momento formativo previsto nas bases normativas do Estágio Curricular Supervisionado. O estágio, nesta acepção, caracteriza-se como um processo que articula dois significativos momentos: o momento do saber e o momento do fazer. Nesse imbricamento, nessa conectividade, cada um desses momentos guarda sua dimensão epistemológica (conhecimento científico), sua dimensão gnosiológica (ação de conhecer), perspectivando um saber ensinar que não se confunde com transmissão de Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007137 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 6 conhecimento, posto que vislumbra a criação de possibilidades para se efetivar a edificação e a difusão desse conhecimento, isto é, sua própria produção. A despeito dessa compreensão acerca do viés curricular que orienta o estágio supervisionado, os cursos de licenciatura na universidade, a rigor, ainda guardam um caráter marcadamente propedêutico, com excessivo volume de disciplinas teóricas e, praticamente, com poucos espaços disciplinares dedicados ao contato dos alunos com os professores das escolas, com a realidade escolar, seja pública, seja privada. O certo é que esse contato recai quase que exclusivamente na prática de ensino/estágio supervisionado, portanto, na reta final da licenciatura, negando, de certa forma, a compreensão de que tornar-se professor é tarefa inscrita num percurso que chamamos de caminhos da formação que são, primeiramente, gestados, depois traçados e, por fim, concretizados. Implica, nesse sentido, afirmar que a formação acadêmico-formal inicia-se bem antes da etapa do estágio supervisionado. Essas experiências vividas, segundo Peres (2006, p. 54), “[...] são fundantes nas relações futuras”. Nas relações educacionais que, mesmo imperceptíveis inicialmente, entrecruzam-se, constantemente, com as diferentes experiências vivenciadas nesse percurso. Narrativas autobiográficas: fios, tramas e revelações Nesta seção analisamos algumas dimensões do percurso de uma licencianda, aqui denominada ficticiamente de Estagiária 1, como assim, na sequência, foram denominados os demais interlocutores do estudo, no seu estágio supervisionado. Partimos inicialmente do pressuposto teórico de que contar a vida pelo recurso da narratividade autobiográfica traduz-se em ações de formação que buscam dar visibilidade a essas ações (PÉREZ, 2007). Com o apoio terminológico das escritas de si, (MIGNOT, 2003), aqui destacadas como episódios nucleares reveladores do universo reflexivo da aluna-professora; Estagiária 1, organizamos seu percurso, conforme por ela ordenado, para contar acerca do estágio supervisionado, em cuja narratividade rememorou e demarcou tempos, espaços e práticas de formação, dentre outros aspectos que julgou conveniente contar. Como anteparo para dar início ao nosso olhar analítico, reiteramos esse entendimento, citando Mignot (2003, p. 136), em seu texto “Em busca do tempo vivido: Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007138 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 7 autobiografias de professoras,” nesse sentido, a autora inspira-se em Weiler e Middleton (1999) ao fazer a seguinte consideração: Nessa escrita de si, narram suas histórias propiciando compreender modos particulares de interpretar o peso da instituição escolar nos seus processos de formação e também como buscaram transformá-la com suas práticas. Assim, no percurso do estágio supervisionado, objeto deste estudo, optamos por iniciar esta vertente analítica com um recorte narrativo que, de certa forma, situa o movimento vivenciado pela interlocutora a partir de sua visão sobre a prática concreta de exercício da docência, descrevendo-o em relação aos seus principais entornos e contornos, conforme previsto na proposta curricular do curso e no projeto de estágio. A seguir, ilustramos com alguns excertos narrativos da Estagiária 1, análises que configuram nuances da realidade do percurso da narradora. Desse modo, para dar mais clareza a este percurso, à luz de seu memorial de formação, foi possível descrever esse percurso, por meio de momentos que foram assim nomeados para efeito da mencionada análise: Contatos iniciais com a disciplina; Estudos teóricos fundamentadores do estágio; Observando a prática; Planejamento das atividades docentes; Na escola, no estágio; Assumindo a sala de aula; Dilemas de professor iniciante; e O estágio como lócus de aprendizagens professorais. Contatos iniciais com a disciplina A experiência com a disciplina Estágio Supervisionado foi iniciada ainda na academia. Recebemos um bom embasamento teórico e muitas sugestões antes de irmos ao campo de estágio. Realizamos muitas leituras e discussões em sala de aula na UFPI sobre as especificidades da prática pedagógica. Além destas, ainda recebemos orientações básicas de como nos dirigir aos gestores escolares e ao corpo docente da escola, assim como fomos orientadas sobre a postura mais adequada diante de determinadas situações, que chamamos de inusitadas e que sempre estão presente na escola. Estudos teóricos fundamentadores do estágio Entendo o estágio supervisionado como parte integrante do processo de formação inicial e constitui-se como espaço, por Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007139 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 8 excelência da relação dialética entre teoria e prática. Constitui-se também em uma etapa imprescindível na formação, pois me proporcionou o contato com a realidade na qual atuei. Por meio deste contato com a realidade, os alunos estagiários levam para as suas salas de aula os conhecimentos teóricos adquiridos no processo de formação inicial. Observando a prática Foram momentos únicos e de ricas aprendizagens vivenciadas neste período de observação com da professora titular, quando mostrava a importância de todos os conteúdos apresentados para a formação de cidadãos possuidores de direitos e deveres, utilizava-se de matérias concretos, preocupava-se com as dificuldades dos alunos e sempre buscava alternativas para melhorar, fazia os alunos refletirem e argumentarem criticamente, utilizava uma diversidade de metodologias, saia do espaço da sala de aula para melhor aproveitamento de algumas atividades, incentivava a leitura e a produção textual apoiada em obras literárias. Planejamento das atividades docentes Montamos algumas oficinas, para que a partir destas fossem criados os planos de aula. Aprendi muito em planejar coletivamente. Percebi o quanto a experiência conta nesse momento. Foi uma experiência muito significativa, pois nunca havia feito um plano de aula que de fato seria concretizado. Não vi a hora de começar. Na escola, no estágio No inicio tive uma boa relação com essa turma (2º ano do Ensino Médio), fui bem recebida, os alunos são mais maduros que os do 6º ano, nossas aulas iniciais foram cheias de dinâmicas, atividades que iam muito alem de uma aula expositiva/dialogada [...] passávamos horas debatendo sobre as dificuldades que era convencer um grupo “especial” de alunos a se comportarem, prestarem atenção as aulas e não atrapalhar os outros colegas. Assumindo a sala de aula Começamos com as apresentações, e procurei saber um pouco das histórias de cada um, do que gostavam e não gostavam, suas dificuldades, com quem moravam, a relação estabelecida com seus familiares, qual a impressão e expectativas que tinham em ralação a disciplina que seria ministrada, entre outros aspectos. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007140 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 9 Dilemas de professor iniciante O meu estágio foi super interessante, foi um misto de sensações, e de alguns dilemas. Uma hora desejava ser professora, outra hora já estava me perguntando por que escolhi aquela profissão tão cheia de atribulações e obstáculos, como se só a profissão de professor tivesses seus percalços; uma hora eu adorava estar na sala do 6º ano do Ensino Fundamental, outra hora era o 2º ano Médio minha sala favorita, enfim, meu estágio foi cheio de “emoções”, mas desde já confesso: inesquecível. [...] uma das dificuldades que senti em alguns momentos foi manter a ordem em uma das turmas. Pareciam que estavam divididos por critérios de comportamento. Algumas vezes tive que solicitar a ajuda da pedagoga. O estágio como lócus de aprendizagens professorais Aprendi com a professora da turma e com a minha prática o quanto devemos nos empenhar para formar esse aluno de forma integral, aproveitando cada oportunidade para ensinar a maior quantidade de assuntos, habilidades e informações para a sua atuação na sociedade em vários contextos. [..] o estágio me fez perceber a importância do papel do professor na construção de uma sociedade diferente e mais justa, claro, desde que junto a seu trabalho estejam outras parcerias, como a família por exemplo. [...] Foi um momento muito proveitoso e gratificante, enquanto professor, tomei consciência que minha formação vai alem da universidade e se modifica a cada nova experiência vivenciada. Em suas narrativas a Estagiária 1 traça um relato positivo da experiência no Estágio Supervisionado, registrando, de início, que até chegar à escola e à prática docente real, um necessário caminho foi bem pavimentado, teórica e metodologicamente, ainda na universidade, com leituras e discussões em sala de aula e com as necessárias orientações teóricas e didáticas que dão suporte ao empreendimento estágio supervisionado, como a propósito relata: “Recebemos bom embasamento teórico [...] Realizamos muitas leituras e discussões [...]”. Reconhece em seus apontamentos narrativos “[...] o estágio supervisionado como componente importante da formação inicial [...]”, logo enquanto um legítimo fórum para estabelecimento da dialeticidade teoria-prática operacionalizada no contato com a realidade escolar. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007141 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 10 A Estagiária 1 caracteriza seu percurso como “[...] momentos únicos e de ricas aprendizagens [...]” fenômeno que se presentifíca desde as incursões iniciais com a observação da prática docente da professora titular, com o exercício reflexivo e ponderativo acerca da formação do cidadão, bem como sobre a diversidade metodológica que a professora titular imprimiu às suas atividades em sala de aula. Em acréscimo e no sentido de corroboração do exposto nesta análise, a referida alunaprofessora, coloca em realce seu aprendizado com o planejar coletivamente, destacando ter sido “[...] uma experiência muito significativa [...]”, o que a fez entusiasmar-se a ponto de desejar certa brevidade no assumir a sala de aula, é o que fica implícito em sua narrativa. Com relação ao seu ingresso na, sala de aula, no fazer docente professoral, a interlocutora relata seu bom trânsito com a turma do Ensino Médio com aulas enriquecidas, com “[...] aulas cheias de dinâmicas [...], fenômeno que não conseguiu com a turma do 6º ano, cujos momentos em sala de aula, várias vezes, foram voltadas para solicitar comportamento dos alunos. A esse respeito Perrenoud (2001) refere que ensinar comporta, às vezes, o “agir na urgência”, a despeito de o professor ter estudado e planejado, o inusitado pode acontecer. Sobre a assunção, propriamente de sala de aula, nossa interlocutora demonstra em seu relato certo amadurecimento docente (precoce talvez) por entender e dispor-se a conhecer “[...] um pouco a história de cada um”, de cada aluno. Conhecer o aluno, segundo teóricos de formação, a exemplo de Freire (1996), que defende que ensinar, entre outros requisitos, exige disponibilidade para o diálogo, para a aproximação com seu alunado. No percurso da Estagiária 1, suas memórias narrativas dão conta, desde o início na docência, de sinalizações positivas neste entorno, seja pelas pequenas vitórias, seja pelo reconhecimento de aquisição de alguma segurança didática, seja, enfim, pelo que, em geral, acontece, diante de alguns dilemas, mesmo assim reafirma ter sido seu estágio “super interessante”, porém houve momentos em que oscilava entre ser ou não ser professora, em razão dos percalços e das atribulações da profissão docente, o que a leva reiterar “[...] meu estágio foi cheio de emoções, [...] inesquecível”. Essas “emoções” e essas vivências convergem para o pensamento de Pimenta e Lima (2004) sobre estágio como espaço/tempo que colabora na constituição da identidade docente, da construção progressiva desse aspecto identitário. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007142 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 11 No cômputo geral, a narratividade da Estagiária 1, reconhece o estágio com lócus de aprendizagens professorais, seja porque leva o aluno-professor a perceber a importância do seu papel na construção do cidadão e na construção de “[...] uma sociedade diferente e mais junta [..]”, a interlocutora refere que conscientizou-se, isto é, adquiriu mais clareza da dimensão e da profundidade que encerra o ser professor, aspecto que, no estágio, colaborou com o exercício da reflexão e com o fortalecimento da identidade pessoal do professor. (PIMENTA; LIMA, 2004). Enfim, encerrando esse apanhado narrativo, a análise do conteúdo dos excertos destacados do memorial narrativo da Estagiária, mostrou, mesmo que em rápidas ilustrações, o estágio e suas dinâmicas formativas, o estágio e o planejar coletivamente, o estágio e sinalizações dilemáticas do professor iniciante e, sobretudo, o dimensionou como espaço formal que inicia o aluno professor nas lides docentes, fornecendo os encaminhamentos basilares para o necessário encontro da formação com a prática educativa na escola. Aproximações Conclusivas Nosso esforço, no presente texto, foi, ao retratar um percurso, mostrar, principalmente a dimensão educativa e formativa advinda do componente curricular: Estágio Supervisionado, seja pela vivência do exercício docente na realidade educacional da escola, seja pelo compartilhamento de experiências e saberes no interior do referido componente, enquanto disciplina conclusiva nas licenciaturas. Nessa perspectiva, o Estágio Supervisionado permitiu ao futuro professor aproximar-se, adentrar e viver o cotidiano escolar da instituição e da sala de aula (ensino fundamental e ensino médio), e por que não afirmar como o faz Fiorentini (2004, p. 255-256), permitiu “[...] compreender melhor o mundo da escola, o mundo das ciências educativas, o mundo do outro (o professor e os alunos da escola) e seu próprio mundo (crenças, concepções, ideias; sua história pessoal).” As narrativas analisadas revelaram o estágio, considerando a dimensão em que este é concebido e conceptualizado pela interlocutora, na sua condição de futura professora de Letras-Português, como momento de formação profissional orientadora da docência, a exemplo do previsto na LDB nº 9394/96, portanto, um espaço de descobertas do ser professor na vivência da realidade viva do contexto escolar, no exercício concreto da união da teoria com a prática. No sentido de um momento Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.007143 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 12 formativo diferenciado propiciado ao aluno de licenciatura, no qual foi possível aproximar-se do contexto escolar e da sala de aula concretamente, buscando desenvolver a elaboração criativa de proposições com a finalidade de melhor compreender e organizar seu ofício docente na escola. E, como último registro de encerramento deste aporte conclusivo, reiteramos alguns pontos que, diante de nosso entendimento, via releitura das narrativas, figuram como caminhos formativos e como suporte à docência profissional futura: a) o próprio estágio como um bom suporte, no sentido de preparação para atuar na profissão; b) a aprendizagem do ser professor por meio de situações práticas, envolvendo uma prática reflexiva competente; c) a compreensão de que ser professor, superando a marca histórica, está relacionada a alguém que não só está capacitado a dar aulas, mas, sobretudo, como alguém, que “sabe fazer o aluno aprender” (DEMO, 2004) Nosso estudo representa, portanto, nos meandros deste painel, uma contribuição voltada para a reflexão em torno do estágio supervisionado como espaço de formação reflexiva do professor, de preparo e de vivência real da docência, razão pela qual reafirmamos sobre a efetividade das histórias de vida, da narratividade sobre esse processo, que expressa um significado mais amplo, que se encontra imbricado no tecido social de distinta matização do cotidiano escolar. 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