Disponível eletronicamente em
www.revista-ped.unifei.edu.br
Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 01-12
Recebido em 08/09/2007. Aceito em 29/11/2008
ISSN 1679-5830
PROJETO DO LABORATÓRIO DE ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICAS DE
PETRÓLEO DA UNIFEI LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO AS BOAS
PRÁTICAS LABORATORIAIS
Rafael Appoloni Zambom
Engenheiro de Produção-Mecânica
Universidade Federal de Itajubá - UNIFEI
Instituto de Engenharia de Produção e Gestão
[email protected]
Luiz Fernando Barca
Engenheiro Mecânico e Mestre em Engenharia de Produção
Professor do instituto de Engenharia Mecânica da UNIFEI
Universidade Federal de Itajubá - UNIFEI
Instituto de Engenharia Mecânica
[email protected]
Marco Aurélio de Souza
Engenheiro Mecânico e Mestre em Engenharia Mecânica
Professor do instituto de Engenharia Mecânica da UNIFEI
Universidade Federal de Itajubá - UNIFEI
Instituto de Engenharia Mecânica
[email protected]
2
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
RESUMO
O laboratório de análises físico-químicas de petróleo da UNIFEI realiza a caracterização
de propriedades físicas e químicas de petróleos e emulsões para dar suporte às pesquisas.
Nele são medidas grandezas como viscosidade, densidade, massa, tensão superficial,
tensão interfacial, concentrações, entre outras. O objetivo deste trabalho é elaborar um
projeto considerando as boas práticas laboratoriais. A BPL apresenta princípios que
asseguram confiabilidade das análises, bem como o uso seguro de produtos relacionados à
saúde humana e ao meio ambiente. Nesse contexto eleva a qualidade e confiabilidade dos
estudos realizados.
Palavras-chave: BPL, ISO/IEC 17025, FMEA, Sistema de Qualidade (SQ).
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
3
PROJECT OF THE PHYSICO-CHEMICAL LABORATORY FOR
CRUDE OILS AT UNIFEI IN COMPLIANCE WITH THE GOOD
LABORATORY PRACTICE
ABSTRACT
The physico-chemical laboratory for crude oil analyses at UNIFEI carries out the
characterization of physical and chemical properties of oils and emulsions. Measurements
like viscosity, density, superficial/interfacial tension, concentration and droplet sizes
distribution provide information for supporting the research activities involving phase
separation, multiphase flow and emulsion stability. In this work, the aspects of quality
assurance considering the GLP (Good Laboratory Practice) are described. By complying
with the precepts of GLP, the laboratory can demonstrate that its results are reliable and
nationally and internationally comparable.
Keywords: Good Laboratory Practice, Quality Assurance.
1. INTRODUÇÃO
1.1. Objetivos
Este trabalho objetiva o detalhamento do projeto do laboratório, com base nas BPL,
norma ABNT ISO/IEC 17025, usando FMEA de processo para identificar possíveis falhas e
atuar preventivamente nos processos de medição, delineando o Manual do Sistema de
Garantia da Qualidade.
1.2. Justificativa
O enfoque do Sistema de Qualidade, que se iniciou nos processos produtivos e suas
interfaces, têm se disseminado para outros setores, visando monitorar a qualidade dos
produtos e transmitir segurança e credibilidade aos clientes.
Desta forma, pulveriza-se para outros setores que interagem e que estão relacionados.
Abrange as funções que vão desde o planejamento de projetos, processos, laboratórios de
controle, manutenção e serviços (Campos, 2004; Miguel, 2001).
O Sistema de Qualidade em serviços é um dos segmentos de relevante enfoque dentro
das organizações. Permite a confiabilidade dos laudos emitidos, obtendo credibilidade e
respeito da comunidade, evitando erros e retrabalhos, facilitando a rastreabilidade (Campos,
2004).
Os SQ’s, baseados nos padrões da ISO ou outros de reconhecimento internacional, são
descritos e aplicados de forma genérica. Especificamente, a partir de padrões já existentes,
promove a adequação em função das condições de trabalho. O laboratório de análises físicoquímicas apresenta características exclusivas que são abordadas em atividades de
manipulação de emulsões durante a preparação de amostras e atividades analíticas.
Desta forma, parte da premissa de que os atuais SQ’s para laboratórios, com ênfase
nos princípios das BPL, não estão direcionados de forma abrangente para as atividades
específicas do laboratório de separação de fases.
Os princípios do Sistema de Qualidade podem ser adaptados, incorporados e
implementados nas atividades desenvolvidas por estes laboratórios, a fim de padronizar seus
4
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
procedimentos de forma sistêmica, considerando os aspectos necessários para a
implementação do Sistema de Qualidade. Utilizaram-se as normas e legislações que
regulamentam os princípios das BPL e também as Boas Práticas de Fabricação (BPF).
1.3. Estrutura do trabalho
Consiste em uma exposição das normas, utilização da ferramenta FMEA para
identificação de modos de falha nos processos, e recomendações para o laboratório.
2. EXPOSIÇÃO DA TEORIA: SISTEMA DA QUALIDADE
Do ponto de vista das ações, ferramentas e sistemas, o Sistema da Qualidade é
considerado uma questão de relevância para as empresas com a preocupação de diminuir
incompatibilidades e em oferecer produtos e serviços que atendam as necessidades do
mercado. As exigências em relação à qualidade dos produtos e serviços promovem a adoção
de técnicas equalizadas e a implementação de sistemas - melhoria contínua a partir de uma
visão estratégica - para se manterem competitivas (Andrade, 2002).
O Sistema de Qualidade promove maior organização e introduz métodos mais
eficientes, com sistematização das atividades (Malmfors et al., 2004).
Maranhão (1994) considera que o SQ representa um conjunto de recursos e regras, a
serem implementadas adequadamente, visando orientar os membros da organização para
executar de forma eficaz as atividades.
Em função da ampla discussão, pode-se considerar que o Sistema de Qualidade,
promove os estudos das atividades operacionais, do comportamento humano e de recursos
disponíveis, refletindo na padronização, nos comportamentos e processos.
O SQ é baseado em princípios que incorporam todas as atividades executadas pela
empresa. Conforme Barquete (2000) constam de: satisfação do cliente (o cliente é a razão da
existência de uma empresa, é preciso encantá-lo); gerência participativa (liberdade, apoio e
estímulo para as pessoas manifestarem opiniões e sugestões); desenvolvimento humano
(busca valorizar o ser humano); constância de propósitos (meios para atingir os objetivos);
aperfeiçoamento contínuo; gerência de processos (a empresa é constituída de processos
menores, que se interligam); delegação (deslocar a responsabilidade de decisão);
disseminação de informações (proporcionar informações sobre a missão, estratégias e planos);
garantia da qualidade (através de normas e procedimentos, para estabilizar os processos); não
aceitar erros (ações preventivas, evitar desvios dos padrões).
De acordo com Mello et al. (2002) o SQ em pequenas organizações não se apresenta
de forma sistematizada. A operacionalização das atividades está na cabeça das pessoas e na
maioria das vezes, não está documentada, em função da quantidade de pessoas envolvidas.
Quanto maior a organização, mais pessoas estão envolvidas. Portanto maior é a possibilidade
de existirem procedimentos, instruções e registros documentados, para conduzir as atividades.
Segundo Barbêdo et al. (2003) a implementação do SQ é importante para pequenas e
grandes organizações.
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
5
2.1. Sistema de Qualidade em serviços
Para Kotler (1998) serviço é definido como qualquer ato ou desempenho que se possa
oferecer de forma essencialmente intangível, podendo ou não estar vinculado a um produto
físico. Segundo Las Casas (1999) são estabelecidos por atos, desempenho e ações.
Apresentam características de serem intangíveis, inseparáveis, heterogêneos e simultâneos.
O Sistema de Qualidade compreende a sistemática dos procedimentos da prestação de
serviço e a relação com o cliente.
Já Miguel (2001), considera a prestação de serviço ser relação entre cliente e
fornecedor, onde os fornecedores devem atender as necessidades dos clientes, através do
empenho e responsabilidade de todos. Sendo assim, o SQ estabelece a sistematização das
atividades.
2.2. Boas Práticas de Laboratório
Os laboratórios sofreram grandes transformações devido ao desenvolvimento
tecnológico das inspeções e dos equipamentos de análise, que proporcionaram a introdução de
computadores e sistemas automatizados. Consumidores mais conscientes sobre a qualidade,
também contribuíram para as transformações.
A implementação do SQ em laboratórios representa inúmeras vantagens como:
melhoria da organização, através da formalização e aplicação de procedimentos, otimizando
processos; definição da função e responsabilidades do pessoal; detecção e correção dos erros;
confirmação da competência e qualidade; melhoria da imagem do laboratório para os clientes;
facilidade para conduzir as reclamações.
Conforme o Inmetro (2003), Boas Práticas de Laboratório (BPL) é um SQ, composto
por um conjunto de critérios que diz respeito à organização e às condições sob as quais os
estudos em laboratório podem ser planejados.
Foram desenvolvidas para promover qualidade e validação de dados gerados em
testes, usados para determinar a segurança de substâncias químicas e seus produtos (OECD,
1998).
A regulamentação brasileira que estabelece as Boas Práticas de Laboratório está
contemplada na norma ABNT NBR ISO/IEC 17025 – Requisitos gerais para a competência e
laboratórios de ensaio e calibração, de setembro de 2005, pelo Inmetro – DICLA (Divisão de
Credenciamento de Laboratórios de Calibração e de Ensaio).
De acordo com o Inmetro (2003) são aplicáveis em estudos que dizem respeito ao uso
seguro de produtos, com objetivo de avaliar, monitorar e proteger o meio ambiente de um
modo geral, nos seguintes casos:
•
concessão, renovação, modificação de registro e pesquisa, obtenção de propriedades
físicas e químicas de produtos químicos, biológicos e biotecnológicos;
•
petição para estabelecimento, modificação ou isenção de tolerância;
•
estudos conduzidos em resposta aos questionamentos de órgãos governamentais;
•
qualquer outra aplicação, petição ou submissão enviada aos órgãos competentes, com a
intenção de solicitar a modificação de registro ou outra aprovação requerida.
6
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
2.3. Boas Práticas de Fabricação
As Boas Práticas de Fabricação (BPF) ou Good Manufacturing Practices (GMP)
asseguram os parâmetros básicos com o estabelecimento de procedimentos padronizados, que
devem ser conhecidos e praticados por todos os colaboradores de uma organização.
2.4. Monitoramento e avaliação do sistema da qualidade
O processo de monitoração e avaliação consiste de atividades designadas para
assegurar que a unidade operacional esteja atuando de acordo com os princípios e diretrizes
do Sistema de Qualidade (Benoliel, 1999).
A verificação é realizada pela equipe de auditores, composta por membros do
departamento de Garantia de Qualidade, provida de experiência formalizada para a aplicação
do monitoramento e inspeção das ações de BPL. Os constituintes da equipe, não apresentam
envolvimento na condução das atividades do laboratório, para evitar que a pessoa inspecione
sua própria atividade (Inmetro, 2003).
As avaliações ou auditorias são realizadas em intervalos previamente planejados,
através de um programa, de acordo com a situação e o grau de importância por parte da área a
ser auditada, e dos resultados de verificações anteriores. São definidas por critérios, escopo,
freqüência e métodos, divulgadas aos setores envolvidos da organização. (Calegare, 1999).
As não conformidades geradas na monitoração desencadeiam um processo em que a
área auditada estabelece ações corretivas evitando reincidências. O processo termina quando
todas as não conformidades geradas estiverem sido concluídas, quando as ações corretivas
propostas forem executadas de forma eficaz (Inmetro, 2003; Mello et al., 2002).
Há três tipos de auditorias para o diagnóstico da funcionalidade do Sistema de
Qualidade: auditoria de primeira parte (organização); de segunda parte (fornecedor); de
terceira parte (entidade certificadora).
2.5. Ferramentas da qualidade
São métodos estruturados para implementação de sistemas, compostos por
dispositivos, procedimentos gráficos, numéricos ou analíticos, formulações, esquemas de
funcionamento e mecanismos de operação (Miguel, 2001). Este trabalho abordará
especificamente uma ferramenta utilizada para identificar modos de falha do processo –
FMEA.
2.6. FMEA
A ferramenta FMEA (Failure Mode and Effects Analysis) serve para identificar os
modos potenciais de falhas, suas causas e seus efeitos, contribuindo para a garantia da
qualidade do produto final. Sua aplicação permitiu uma visão geral do processo e o
estabelecimento de ações preventivas.
Segundo Andery (1999), a análise dos modos e efeitos de falha permite: reconhecer o
potencial de falha de cada etapa do processo e avaliar sua repercussão no produto final,
encarado de maneira global e sistêmica; hierarquizá-las, pela determinação de um índice de
risco atribuído a cada uma – as que apresentarem maior índice de risco serão objetos de
planos de ação específicos.
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
7
2.7. Metodologia
Foi estruturada uma planilha eletrônica com os seguintes campos e suas finalidades:
Item - representa a quantidade do referido equipamento; Nome do componente - nome do
equipamento que será analisado; Objetivo (função) do componente - o que o equipamento
realiza; Modo de falha potencial - tipo de falha que pode ocorrer; Efeito potencial da falha - o
que a falha ocasionará; Gravidade - escala de 1 a 5, onde 1 representa baixa gravidade e 5 alta
gravidade; Causa principal da falha - apresentação dos diversos motivos de falha; Ocorrência
- refere-se à freqüência de ocorrência, onde na escala de 1 a 5, 1 representa baixa ocorrência e
5 representa alta; Controles atuais - refere-se a o que é feito para controlar as causas principais
de falhas; Detecção - refere-se ao nível de facilidade de constatação das falhas, onde na escala
de 1 a 5, 1 significa facilidade de detecção e 5, extrema dificuldade de detecção das falhas;
Risco - é a multiplicação dos índices (gravidade, ocorrência e detecção); Providências
recomendadas - ações que busquem minimizar falhas.
Figura 1 - Modelo FMEA
2.8. O sistema proposto na ABNT NBR ISO/IEC 17025
A Norma ABNT NBR ISO/IEC 17025 estabelece os requisitos gerais para
laboratórios de ensaio e calibração que desejam demonstrar competência técnica para suas
atividades.
Seus principais objetivos: estabelecer um padrão internacional e único para atestar a
competência dos laboratórios para ensaios e/ou calibrações, facilitando o estabelecimento de
acordos de reconhecimentos mútuo entre os organismos nacionais; facilitando a interpretação
e a aplicação dos requisitos, evitando opiniões divergentes e conflitantes; abrangendo também
amostragem e desenvolvimento de novos métodos; estabelecendo relação mais estreita, clara
e sem ambigüidades.
Divide-se em duas partes: a primeira corresponde às exigências que devem ser
cumpridas pela gerência do laboratório (parte 4) e faz referência à ISO 9001:2000, com
destaque para a relevância que a norma dá para que os laboratórios também desenvolvam um
sistema de qualidade. Para que um laboratório seja certificado pela norma ISO/IEC
17025:2005, o mesmo também deve operar de acordo com a norma ISO 9001:2000: devem
ser implementados os mesmos procedimentos obrigatórios. A segunda contém os requisitos
técnicos que devem ser seguidos por quem busca a certificação (parte 5) e faz referência à
8
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
ISO/IEC Guia 25. O laboratório deve ter implementado planos e procedimentos que
assegurem a confiabilidade dos ensaios, como cálculo de incerteza de medição,
rastreabilidade, validação dos métodos.
Tabela 1 - Sistema de qualidade para laboratórios de análise físico-químicas
Princípios das normas
BPL / ABNT ISO 17025
BPF
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
Itens do sistema de qualidade
Estrutura organizacional e responsabilidades
Departamento de garantia da qualidade
Localização e instalações
Equipamentos e materiais
Procedimento operacional padrão
Amostra
Pessoal manipulador das amostras
Arquivos de documentos e registros
Monitoramento e avaliação
Fonte: Correia, 2005
Outros
X
X
X
X
X
Fonte: Correia, 2005
3. CARACTERIZAÇÃO DO LABORATÓRIO
As principais
correspondentes:
medições
e
análises
realizadas,
bem
como
equipamentos
•
Malvern: distribuição em freqüência do tamanho de gotas (de 0,3 a 300 micrometros) em
emulsões de água em óleo e de óleo em água através do espalhamento de luz laser;
•
Horiba: concentração óleo em água (de 0 a 200 ppm) por absorção de infra-vermelho;
•
Karl-fischer: concentração de água em óleo (de 0 a 20%) por titração coulométrica.
3.1. Localização e instalações
Devem ser estrategicamente planejadas, em áreas isentas de odores, fumaça, poeira,
distúrbios eletromagnéticos, radiação, umidade, vibrações, com alimentação elétrica
garantida, etc, proporcionando a realização correta dos ensaios e/ou calibrações (Inmetro,
2003). Além disso, devem favorecer ações do programa de gestão de resíduos (Jardim, 1998).
3.2. Condições ambientais
Carga térmica. Uma forma de classificá-la é quanto sua origem – interna (gerada no
interior das edificações; tipicamente, provêm de pessoas, equipamentos, iluminação, recintos
adjacentes), ou externas (provenientes da insolação através janela, diferença de temperatura
das paredes, admissão ou infiltração de ar). Construído com pé-direito de cinco metros,
paredes de tijolos tipo baiano, deitados, com revestimento de litofina e reboco de 20 mm de
espessura por dentro e por fora, a área construída para o laboratório terá face para o norte
geográfico, com 45m² de área propensa a radiação/insolação. Possuirá área envidraçada de
7m², com vidros de espessura de 4 mm, uma porta de 80x210cm e uma de 120x120cm; além
de uma janela para recepção de amostra de 50x40cm. A partir desses dados, considerando
ainda a presença de quatro colaboradores no ambiente, e da necessidade de climatização e
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
9
controle das condições internas, chegou-se ao resultado de 45.000BTU instalados para a
devida refrigeração do ambiente.
Controle do ar interno. De modo a assegurar correto funcionamento e prevenir
contaminações e deteriorações, prevê-se a instalação de um desumidificador com capacidade
de operar em um ambiente com taxa de renovação de ar de 500m³/h. O manuseio de reagentes
no laboratório exigirá a instalação de capelas exaustoras que expulsem gases. Uma
característica redundante para este fato é a operação do laboratório em um ambiente com
insuflamento de ar e pressão positiva, facilitando escoamentos.
3.3. Layout
A partir da análise dos POP’s, FMEA’s e da experiência na realização de ensaios, foi
projetado considerando os requisitos da NBR 17025, bem como os da BPL.
Distribuição de freqüência dos diâmetros das gotas, concentrações, tensões interfaciais
e superficiais, viscosidade, foram os processos analisados com auxílio da ferramenta FMEA.
O layout proposto sustentou-se em algumas condições estratégicas para a obtenção de
resultados finais de medições confiáveis. Controle de agentes externos, tais como fumaça,
poeira, vibração, bem como o estudo da localização dos equipamentos (levando em
consideração as particularidades de cada procedimento e instrumento – FMEA), visam a
garantia do resultado final.
O número de colaboradores é uma variável importante para a disposição dos
equipamentos, já que se deve analisar o trânsito e o espaço requerido para o seu manuseio.
A logística de itens de ensaio e de recebimento das amostras em consonância às
características construtivas do laboratório também foram consideradas, visando o seu bom
andamento.
Figura 2 - Proposta de layout
Fonte: Desenvolvido pelos autores
10
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
3.4. Segurança
Antes de qualquer trabalho laboratorial o operador deve estar informado sobre os
riscos dos produtos químicos e dos equipamentos, bem como conhecer as precauções de
segurança e os procedimentos de emergência, para se proteger dos possíveis riscos. Deve ter
por hábito planejar o trabalho, pois só assim poderá executá-lo com segurança. Todos os
usuários devem seguir cuidadosamente as regras e normas de segurança vigentes, as
instruções de segurança referentes à manipulação de reagentes e de equipamentos; bem como
conhecer perfeitamente a localização e funcionamento de todo o equipamento de emergência,
extintores, bocas-de-incêndio, fontes lava-olhos, chuveiros de emergência, entre outros.
3.5. Pessoal e atividades desenvolvidas
Devem-se definir períodos para treinamento e procedimentos. Colaboradores devem
ser treinados para o manuseio dos equipamentos, localização das instruções e documentos,
gerenciamento de arquivos, POP´s, bem como orientados a relatar inconformidades.
3.6. Programa de Gerenciamento de resíduos
Inicialmente, a conscientização quanto a importância do PGR deve partir da alta
gerência, garantindo disposição com relação a efetivação do programa. Citamos os conceitos
dos 3R’s:
•
Reduzir a geração: para os processos de medição e geração de resultados em estudos
laboratoriais, geração de resíduos é inevitável. No PGR deve constar uma forte base de
treinamento, conscientização e incentivo a melhorias em POP’s, reduzindo ao máximo
possível a geração de resíduos; sem interferir na realização de medições e obtenção de
resultados confiáveis. A contra-partida é a diminuição de despesas e custos envolvidos.
•
Reutilização: deve-se prever o que poderá ser reutilizado e o que não deverá ser. A partir
do planejamento de um ensaio, com a estruturação de um POP, consegue-se listar
materiais que serão utilizados e como poderão ser reutilizados.
•
Reciclagem: parte inicialmente das condições estruturais do laboratório.
4. EQUIPAMENTOS E MATERIAIS
Os equipamentos utilizados no laboratório devem estar acompanhados de informações
necessárias, serem limpos e inspecionados periodicamente, submetidos à manutenção
preventiva e calibração; devem possibilitar rastreabilidade das medidas de grandezas físicas e
apresentar um registro certificado de calibração, emitido por empresas especializadas
(Inmetro, 2003).
5. PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRÃO
Descreve como conduzir ensaios e atividades de rotina do laboratório (Inmetro, 2003).
Também definidos como Standard Operating Procedure (SOP), são descritos para assegurar
que todos os colaboradores executem a mesma atividade e conduzam o trabalho da mesma
maneira (Garner et al., 1996).
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
11
A padronização dos POP’s consiste na elaboração do esboço da seqüência correta das
operações, descrita de forma resumida, contendo os passos críticos de forma pictórica,
facilitando o entendimento (Campos, 2004).
Deve ser redigido por uma pessoa com experiência e conhecimento, considerando
especificidades, tendo aprovação da gerência de acordo com a sistemática de controle das
revisões (Garner et al., 1996).
6. AMOSTRA
Consiste de produtos (emulsões, em geral) ou materiais encaminhados para análise,
sendo necessário manter o registro de caracterização da amostra, data, condições de
armazenagem.
Deve ser preparada ou processada em condições que atendam aos requisitos básicos.
7. ARQUIVOS DE DOCUMENTOS E REGISTROS
Devem ser estruturados e equipados para o acondicionamento e armazenamento
seguro, garantindo sua integridade. O material retido deve ser indexado de forma ordenada
para promover a rápida recuperação - rastreabilidade. Somente o pessoal designado e
autorizado formalmente pela gerência pode ter acesso (Inmetro, 2003).
8. MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO
Consiste da atividade do departamento de garantia da qualidade, realizada por
auditores, definidos em programação, designados para assegurar por meio de auditorias, que a
operacionalização do laboratório esteja de acordo com o SQ, quanto aos princípios das BPL.
As pessoas que farão a auditoria não devem estar envolvidas com suas atividades, a
fim de evitar o conflito de interesses. Devem ter treinamento e experiência para desempenhar
a função e habilidade para entender os conceitos básicos envolvidos (Inmetro, 2003).
9. METODOLOGIA DE IMPLEMENTAÇÃO
A implementação do Sistema de Qualidade no laboratório de análise físico-química
deve ser realizada de forma gradativa e sistêmica, com a participação de todos os
colaboradores da organização. Suas etapas podem ser desenvolvidas de acordo com a tabela.
12
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
Tabela 2 - Etapas de implementação do sistema de qualidade.
Fonte: Correia, 2005
Um conjunto de documentos é proposto para o controle dos itens citados, criando-se
um arquivo, com a utilização de ferramentas do Excel.
10. CONCLUSÃO
A elaboração de Sistemas de Qualidade específicos, a partir de padrões já existentes,
promove a adequação em função das condições atuais de trabalho para o qual o laboratório de
análises físico-químicas da UNIFEI apresenta características exclusivas.
Com base nos princípios das Boas Práticas de Laboratório, na norma ABNT ISO/IEC
17025, a partir da utilização da ferramenta FMEA para caracterização dos processos,
delineou-se o Manual do Sistema de Garantia da Qualidade para o laboratório. A ferramenta
FMEA foi utilizada para identificar modos de falha dos processos, suas causas e seus efeitos.
A norma ABNT ISO/IEC 17025 e BPL orientaram para a sugestão de procedimentos
operacionais padrão, programa de segurança, gestão de resíduos, localização e instalações.
A implementação do Sistema de Qualidade promove às empresas maior organização
das atividades, introduzindo métodos de trabalho mais eficientes, através da sistematização,
tornando-se importante para qualidade dos resultados finais.
Uma sugestão para trabalhos futuros é o cálculo de incerteza de medições para os
principais processos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDERY, P.R.P. Aplicação de ferramentas de análise de falhas e melhoria de processos
de execução em obras prediais. In: Encontro nacional de engenharia de produção, XIX
ENEGEP, Rio de Janeiro, 1999. Anais... Rio de Janeiro//CD-ROM.
ANDRADE, P.H.S. O impacto do programa 5s na implantação e manutenção de
programas da qualidade. Florianópolis, 2002. 159p. Dissertação (Mestrado) – Universidade
Federal de Santa Catarina.
BARBÊDO, A.D.D.; TURRIONI, J.B.; QUETE, T.C. Sistemas de gestão da qualidade no
setor de serviços: um estudo de aplicabilidade em bibliotecas de ensino superior de uma
cidade mineira. In: Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção, v.12, n.1,
p.63-76, dez.2003.
Zambom et al. / Revista P&D em Engenharia de Produção Nº. 08 (2008) p. 1-12
13
BARQUETE, T. C. Desenvolvimento de um modelo de garantia de qualidade para
laboratório baseado no sistema APPCC. Viçosa, 2000. 101p. Dissertação (M.S.) –
Universidade Federal de Viçosa.
BENOLIEL, M.J. Step-by-step implementation of a quality system in the laboratory.
Tends in analytical chemistry, v.18, n.9, p. 632-638, 1999.
CALEGARE, A.J.A. Como avaliar a implantação da qualidade total em organizações.
Barueri: International Quallity Systems, 1999.
CAMPOS, V. F. Gerenciamento da Rotina do trabalho do dia a dia. Belo Horizonte:
INDG - Tecnologia e Serviço Ltda, 2004. 266p.
CORREIA, A.F.K. Implantação de um sistema de qualidade para laboratório de análise
sensorial baseado no sistema de boas práticas. São Paulo, 2005. 111p.
GARNER, W.Y.; BARGEM, S.; USSARY, J.P. Normas de boas práticas de laboratório:
aplicações de estudo de campo de laboratório. Camaçari: CEPED, 1996.
INMETRO – Instituto Nacional de Metrologia. Critérios para o credenciamento de
laboratórios de ensaio segundo os princípios das boas práticas de laboratório. Norma
NIT – DICLA – 028. Brasília, 2003. 30p.
JARDIM, W.F. Gerenciamento de Resíduos Químicos. Campinas: UNICAMP – LQA. 19p.
Kotler, P. Administração de Marketing: análise, planejamento, implementação e
controle. São Paulo: Atlas, 1998. 724p.
LAS CASAS, A. L. Qualidade total em serviços – conceitos, exercícios e casos práticos.
São Paulo: Atlas, 1999. 206p.
MALMFORS, T.; MARCO P.; SAVOLINEN, K. Good Evaluation Practice: a proposal of
guidelines. In: Toxicology letters, v. 151, p. 19-23, 2004.
MELLO, C.H.P.; DA SILVA, C.E.S; TURRIONI, J.B.; DE SOUZA, L.G.M. Sistema de
Gestão da qualidade para operações de produtos e serviços: ISSO 9001:2000. São Paulo:
Atlas, 2002. 221p.
MIGUEL, P.A.C. Qualidade: enfoques e ferramentas. São Paulo: Artiliber, 2001. 263p.
ORGANIZATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. Series on
principles of good laboratory practices and compliance monitoring. Paris, 1998. 44p.
SINGH, R.ANJIT, ASHOK SINGH, JOHN S. TAYLOR, THOMAS ROSENTHAL,
SONJOY SINGH AND GURDEV SINGH. Building learning practices with selfempowered teams for improving patient safety. In: Journal of Health Management, 2006;
8; 91
Download

projeto do laboratório de análises físico