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(Organizadores)
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2011
José Manuel Teixeira Castrillon
Patrícia Kátia da Costa Pina
Wilson da Silva Santos
(Organizadores)
Linguagens:
Leitura, História e Educação
Rio de Janeiro
2011
Copyright @2011 José Manuel Teixeira Castrillon/Patrícia Kátia da Costa Pina/Wilson da Silva Santos
Publicações Dialogarts - www.dialogarts.uerj.br
Coordenador do projeto:
Darcília Simões - [email protected]
Co-coordenador do projeto:
Flavio García - [email protected]
Coordenador de divulgação:
Cláudio Cezar Henriques – [email protected]
Darcília Simões - [email protected]
Organizadores :
José Manuel Teixeira Castrillon Patrícia Kátia da Costa Pina - [email protected]
Wilson da Silva Santos - [email protected]
Projeto de capa:
Carlos Henrique Braga Brandão - [email protected]
Diagramação e revisão final:
Elisabete Estumano Freire - [email protected]
Revisão gramatical e primeiro tratamento :
Debora da Silva Ferreira - [email protected]
Elton Ribeiro - [email protected]
Logotipo Dialogarts:
Gisela Abad - [email protected]
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Centro de Educação e Humanidades
Instituto de Letras
Departamento de Língua Portuguesa,
Literatura Portuguesa e Filologia Românica
UERJ – SR3 – DEPEXT –
Publicações Dialogarts2011
FICHA CATALOGRÁFICA
J8011
Linguagens: Leitura, História e Educação. José Manuel
Teixeira Castrillon, Patricia Kátia da Costa Pina, Wilson da
Silva Santos (organizadores). – Rio de Janeiro: Dialogarts, 2011.
Publicações Dialogarts
Bibliografia
ISBN 978-85-86837-78-4
1. Estudos Literários. 2. Linguagens. 3. Leitura.
4. História. 5. Educação. I. Publicações Dialogarts.
II. Projeto de Extensão. III. Universidade
do Estado do Rio de Janeiro. IV. Título
Correspondências para:
UERJ/IL/LIPO – a/C Darcilia Simões ou Flavio García
Rua São Francisco Xavier, 524 sala 11.023 – Bloco B
Maracanã – Rio de Janeiro – CEP 20 569-900
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO .................................................................................................................................. 5
PARTE 1: O DISCURSO LITERÁRIO E ALGUMAS POSSÍVEIS LEITURAS
OLHARES DA CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA SOBRE O LEITOR E A
LEITURA
Patrícia Kátia da Costa Pina ................................................................................................................ 8
ELOMAR, LEITOR DE LITERATURA - UMA ALBA MEDIEVAL NA CANÇÃO CANTADA
Renailda Ferreira Cazumbá ............................................................................................................... 21
APROPRIAÇÃO E FICCIONALIZAÇÃO DO REAL NOS CONTOS: MANDINGAS DA ILHA
QUILOMBA(1984), DO OUTRO MUNDO(2002) E DO OUTRO LADO TEM SEGREDOS(2003)
Luciete Bastos.................................................................................................................................... 34
AS RELAÇÕES DISCURSIVAS NO CONTO O ALIENISTA
Oton Magno Santana dos Santos ....................................................................................................... 48
MEMÓRIA E CULTURA : O INDÍGENA , UMA LEITURA LITERÁRIA.
Maria Angélica Rocha Fernandes ...................................................................................................... 57
PARTE 2: DISCURSO, LÍNGUA, LEITURA
A IMAGEM DA MULHER NO DISCURSO PUBLICITÁRIO
Cláudia Madalena Feistauer .............................................................................................................. 66
O CORPO E O DISCURSO: A MULHER NA MIDIA IMPRESSA
Luzimare Almeida Piloto e Fabiana Andrade Santos ........................................................................ 74
ANÁLISE DO SUJEITO DO DISCURSO NOS COMENTÁRIOS POLÍTICOS DE ARNALDO
JABOR NO JORNAL DA GLOBO: 2006, O ANO DA REELEIÇÃO
Baktalaia de Lis Andrade Leal........................................................................................................... 85
A CONTRIBUIÇÃO DOS ESTUDOS SOCIOLINGÜÍSTICOS PARA O ENSINO DE LÍNGUA
PORTUGUESA: UMA ABORDAGEM DO CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO
Vivian Meira (UNEB/UNICAMP/FAPESB) .................................................................................... 96
5 APRESENTAÇÃO
O livro Linguagens: leitura, história e educação é composto por nove
capítulos, voltados todos para o estudo das linguagens que engendram o mundo
contemporâneo enquanto objeto de leitura, enquanto constructo histórico e enquanto
instrumento de formação de sujeitos conscientes de seu lugar social e de sua
potencialidade.
Os cinco primeiros abordam as relações entre a linguagem literária e o leitor. O
primeiro reflete sobre o lugar do leitor na Teoria da Literatura novecentista e na
contemporaneidade: “Olhares da Crítica Literária Brasileira Contemporânea sobre o
Leitor e a Leitura” é assinado pela Doutora Patrícia Kátia da Costa Pina, Professora
Titular de Literatura Brasileira do Campus XX da UNEB, situado em Brumado.
O segundo capítulo aborda a poética de Elomar, numa leitura consistente e
sedutora, que traz esse “cantador” nordestino enquanto leitor da lírica medieval:
“Elomar Leitor de Literatura (Uma Alba Medieval na Canção “Cantada”)” foi escrito
pela Mestra Renailda Ferreira Cazumbá, Professora Assistente também do Campus XX
da UNEB.
O terceiro capítulo, criado pela Professora Especialista Luciete Bastos, docente
do Campus VI da UNEB, sediado em Caetité, cujo título é “Apropriação e
Ficcionalização do Real nos Contos: “Mandingas da Ilha Quilomba”(1984), “Do Outro
Mundo”(2002) e “Do Outro Lado tem Segredos”(2003)” traz uma bela leitura da LIJ,
pela análise de três obras de Ana Maria Machado. O quarto capítulo, escrito pelo
Professor Especialista Oton Magno Santana dos Santos, Mestrando da UESC, docente
do Campus XX da UNEB, intitulado “As Relações Discursivas no Conto ‘O
Alienista’”, aborda a narrativa machadiana “O Alienista”, estudando os valores
construídos pelo discurso do Bruxo Fluminense. O quinto estudo é de autoria da
Especialista Maria Angélica Rocha Fernandes e aborda a questão do nacionalismo em
dois momentos da literatura brasileira: o Romantismo e o Modernismo.
Na segunda parte do livro, aparecem quatro capítulos, que abordam o discurso
em seu trânsito com o leitor.
O capítulo seis, “A Imagem da Mulher no Discurso Publicitário”, de autoria da
Mestra Cláudia Madalena Feistauer, faz uma sagaz leitura das representações do
6 feminino na publicidade brasileira. O capítulo sete, escrito pelas Professoras
Especialistas Fabiana A. Santos e Luzimare A. Piloto, intitulado “O Corpo e o Discurso:
A Mulher na Mídia Impressa” aborda a representação do feminino em revista de grande
circulação, através de sólido estudo acerca da retórica e suas “armas” de sedução do
público. O capítulo oito, criado pelo mestrando Baktalaia de Lis Andrade Leal, aborda o
discurso da mídia televisiva. O capítulo nove, que finaliza o livro, foi escrito pela
doutoranda Vívian Meira, também professora da UNEB, Campus XX, Brumado: “A
contribuição dos estudos sociolingüísticos para o ensino de Lingua Portuguesa: Uma
abordagem do contexto sócio-histórico”, como aponta o título, trabalha na perspectiva
da sociolingüística, observando, entre outros aspectos, o ensino da Língua Portuguesa.
Os nove capítulos do livro desenham um sólido esforço de pesquisa acerca de
algumas das linguagens que habitam e elaboram o mundo contemporâneo na
perspectiva de docentes do ensino superior baiano, que lidam com a formação de
professores, os quais irão, ao término de sua graduação, atuar no ensino básico público e
privado.
Livro que traz o olhar de dez profissionais que trabalham, estudam, escrevem,
pensam, mais que tudo, pensam sobre os espaços físicos e simbólicos dentro dos quais
circulam e com os quais interagem no seu diversificado cotidiano.
José Manuel Teixeira Castrillon, Dr.
Patrícia Kátia da Costa Pina, Dra.
Wilson da Silva Santos, MSc
Organizadores
PARTE 1:
O DISCURSO LITERÁRIO E ALGUMAS POSSÍVEIS
LEITURAS
8 OLHARES DA CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA
CONTEMPORÂNEA SOBRE O LEITOR E A LEITURA
Patrícia Kátia da Costa Pina 1
A prática teórico-crítica que respondeu à poesia da modernidade, a partir de
Baudelaire, centra-se na textualidade e/ou lega ao leitor estudos histórico-sociológicos.
Quanto mais a poesia se concentrou em sua própria linguagem, mais a teoria e a crítica
se esforçaram por investigá-la, descurando das relações texto/leitor, relegando a este
último um lugar menor, ou, muitas vezes, um não-lugar.
Não é que os teóricos e os críticos da literatura não “soubessem” da existência
do leitor. Parece-me que os estudos literários novecentistas não quiseram se arriscar a
lidar com uma categoria que supunham ser tão somente não-literária.
A Estilística foi a primeira a trabalhar nesse sentido, considerando a obra um
organismo fechado, cuja estrutura deveria ser descoberta. Claro que o “descobridor”
seria o leitor, mas não o leitor comum, apenas o leitor preparado para isso. O leitor
cotidiano, porque comum e avistado em qualquer rua ou mercado das cidades, grandes
ou pequenas, esse não cabia nas altas considerações teórico-críticas, talvez por trazerem
uma dimensão por demais trivial. O bom é que a Estilística intuía, ainda que
ligeiramente, que todo o esforço poético e ficcional tinha uma direção – demandava um
ato de decifração.
O Formalismo Russo, à exceção de Tynianov e Bakhtin, privilegiou também a
textualidade, fazendo análises imanentistas do literário. Esta última corrente teóricocrítica buscava delimitar as fronteiras do objeto a ser analisado, promovendo uma
espécie de hierarquia discursiva.
Desde o início de suas atividades, ainda sem a consistência de uma “escola”, os
jovens russos que fundaram, entre 1914 e 11915 o Círculo Lingüístico de Moscou e, em
1917, a OPOIAZ, dentre os quais se destacam Chklovski, Brik, Jakobson, recusaram
categoricamente as interpretações extraliterárias do texto:
[...] os principais esforços dos formalistas [...] visavam
estabelecer a tese segundo a qual devemos estudar os traços
1
Doutora em Literatura Comparada (UERJ, 2000). Professora Titular de Literatura Brasileira da UNEB,
Campus XX, Brumado. Autora de Literatura e jornalismo no oitocentos brasileiro (EDITUS, 2002),
organizadora de Vindiciae: em defesa de Machado de Assis, de vários capítulos de livro e de artigos em
periódicos QUALIS/CAPES.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
9 específicos da arte literária. Para isto, é preciso partirmos da
diferença funcional entre a língua poética e a língua quotidiana.
(EIKHENBAUM, 1976, p.15)
Considerando a poesia linguagem em função estética, buscavam a literariedade,
isto é, o que de característico e peculiar houvesse na linguagem para fazê-la linguagem
literária. O grupo voltava-se para o contingente, o palpável, o analisável, rejeitando as
bases da teoria simbolista do verso e da teoria marxista. Essa peculiaridade associava-se
a um potencial de conflito e deformação em relação à linguagem quotidiana – desvio,
estranhamento: “[...] os formalistas se livraram da correlação tradicional de formafundo e da noção de forma como um invólucro, como um recipiente no qual se deposita
o líquido (o conteúdo).” (EIKHENBAUM, op. cit., p.13)
Sob a ótica formalista, a linguagem poética tinha a fronteira do diferente, do
desviante, quanto à linguagem das práticas diárias. Esgarçando o comum, a linguagem
poética com que se deparavam os formalistas na época, provocava uma reação de
estranhamento no leitor. Percebo ser esta uma das grandes contribuições do Formalismo
Russo: a consideração, mesmo que parcial, de que todo texto, principalmente literário,
demanda um leitor. E a noção de estranhamento implicava a percepção de que o leitor
necessário ao texto tinha história, fazia história, partilhava cultura, portava valores
concretos, que lhe davam identidade. Tratava-se de uma linguagem desautomatizada, a
qual confrontava esse leitor histórico e cultural com a fronteira do lugar-comum:
O estudo da poesia do ponto de vista da arte exige atenção para
o seu lado temático, para a própria escolha do tema, na mesma
medida que para a sua estruturação, elaboração compositiva e
combinação com outros temas. Neste sentido, tema para o poeta
é toda palavra isolada provida de sentido concreto: aqui a
temática coincide com a semântica poética; portanto, cada
motivo que o poeta utiliza na composição do sentido do todo
artístico deve ser examinado como tema. (JIRMUNSKI, 1976,
p.67)
Cada elemento componente do texto literário, para os formalistas, relacionava-se
com os demais dentro da mesma obra, e com outros similares, em outras séries artísticas
e/ou literárias. Esse processo de produção artística (prum), verdadeiro objeto da
investigação formalista, ao se consolidar em uma obra, tende a sofrer um desgaste com
o tempo, a arte, então, tende a absorver novas linguagens, formas, construções:
O estudo da evolução ou da variabilidade literária deve romper
com as teorias de estimação ingênua que resultam da confusão
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
10 dos pontos de vista: tomam-se os critérios próprios de um
sistema (admitindo que cada época constitui-se num sistema
particular), para julgar os fenômenos em relevo de um outro
sistema. Deve-se então suprimir toda a marca subjetiva [...]
(TYNIANOV, 1976, p.106)
Tynianov e Bakhtin destoam da totalidade do grupo formalista por entenderem a
série literária num processo relacional, tanto interno, como externo. O conceito de
evolução literária de Tynianov, por exemplo, é curioso e mostra uma raiz mais distante
para as práticas de historiografia literária contemporâneas.
A história literária efetuada pelos Formalistas, sob a perspectiva acima
recortada, fundada sobre transformações de estilos, formas e gêneros, traduzida através
da articulação entre tradição e inovação, prevê o cânone e o desvio, pode ser entendida
como uma linha interrompida, o que enfatiza um caráter sistêmico da literatura.
Tynianov e Jakobson repensam a dicotomia sincrônico/diacrônico, relacionandoos por uma fusão sincronia-diacronia, e permitindo que se valorizasse a heterogeneidade
literária, em detrimento da homogeneidade tradicional. Tynianov inclui ainda as
questões relacionadas às séries sociais: a obra, a série literária e a série social
relacionam-se em ritmos diferentes. A periodização, então, não pode ser pensada a
partir de rupturas sincrônicas, mas como um processo heterogêneo de passagens e
superposições variáveis no tempo.
As contribuições formalistas tardaram a ser conhecidas sistematicamente na
Europa e, principalmente, nas Américas, por conta da perseguição política sofrida pelos
jovens pesquisadores. Condenado categórica e publicamente em 1930, o Formalismo
Russo viu seus criadores e estudiosos espalharem-se pelo mundo, outros adotaram
maneiras menos teóricas de abordar o literário, outros preferiram o pelotão de
fuzilamento, como Polivanov, morto em janeiro de 1938. Tzvetan Todorov foi,
posteriormente, um grande divulgador do movimento.
Uma afirmação de Jirmunski parece poder definir bem o objeto, a ação, o
método, enfim, dos Formalistas:
As imagens poéticas são complementações subjetivas e
mutáveis das representações verbais. Se, por um lado, a palavra
e a poesia, no que se refere à perceptibilidade da representação,
são mais pobres do que as artes plásticas, por outro lado, são
mais ricas no seu domínio próprio. (JIRMUNSKI, 1976, p.442)
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
11 Lidar com o domínio próprio da poesia – a linguagem do desvio, do
estranhamento – foi a prática formalista e é seu legado até para nós, estudiosos da
literatura, ainda que “já” estejamos no século XXI.
Outra corrente teórico-crítica de grande impacto no Brasil foi o Estruturalismo
francês que, partindo das investigações antropológicas de Lévi-Strauss, estabelece ações
analíticas e relacionais quanto ao objeto literário:
De um ponto de vista estrutural, os quatro mitos ocultam uma
unidade profunda, apesar do fato (...) de um deles aparentemente
diferir muito dos outros por seu conteúdo, estilo e estrutura.
Tentarei, não obstante, apreender as relações que se estabelecem
entre os quatro mitos.. (LÉVI-STRAUSS, 1983, p.255)
Os estudos do referido antropólogo serviram de base para que se estabelecesse o
método estruturalista em relação à literatura: buscava-se a unidade profunda entre obras
com discursos similares, a partir do estabelecimento de suas estruturas. Com isso, uma
obra era relacionada à outra “semelhante”, de mesmo gênero, época etc., e “esqueletos”
comuns eram traçados, confirmando-se uma espécie de “gramática da narrativa”.
Através da noção de escritura, o estruturalismo francês, representado, aqui,
principalmente por Barthes, ataca a verossimilhança mimética e expressiva e elimina o
autor como subjetividade na obra, designando o texto como uma ação que não tem fim e
que apaga qualquer origem. É, também, como a dos formalistas, uma abordagem
imanentista do literário, mas é mais radical, uma vez que o texto e sua estrutura, a
escritura em suma, presidem indubitavelmente esta forma de refletir sobre a literatura. E
o leitor, pressentido e desejado pelos Formalistas Russos, adormece na perspectiva dos
estruturalistas franceses.
Para Barthes, a escritura destrói inclusive o corpo que escreve – o único tempo
da escritura é o da enunciação, no qual o texto demanda ser ‘desembaraçado’:
“...desloca-se para o leitor a função autoral, que deve realizar um sentido à custa da
morte do autor como presença.” (HANSEN, 1992, p.32) Mas o leitor, aí, é uma
abstração, não é uma realidade com a qual o crítico vá lidar. É uma suposição
evanescente.
As sociedades sem história foram a base do Estruturalismo, primitivas ou
indígenas – nelas, o artista não era um indivíduo destacado dos demais, a arte não se
baseava na originalidade e na diferença. O problema a ser questionado, aí, é que, mesmo
nas tribos, os autores são reconhecidos, e muitas pinturas corporais se diferenciam por
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
12 conta da criatividade do autor. Barthes substitui o autor pela linguagem, pela escritura –
ele se torna um ‘escriptor’, um ser de papel, um sujeito da enunciação que só existe
nela: “...apagando a assinatura do escritor, a morte funda a verdade da obra, que é
enigma” (BARTHES, 1970, p.219).
A morte do autor, trazida por Barthes e relida por Foucault, consiste, no campo
teórico, a uma crítica à ideologia que tem como fundamento Deus, a razão, a ciência, a
lei, e marca a passagem do estruturalismo para o pós-estruturalismo. Segundo Antoine
Compagnon,
O autor foi, claramente, o bode expiatório principal das diversas
novas críticas, não somente porque simbolizava o humanismo e
o individualismo que a teoria literária queria eliminar dos
estudos literários, mas também porque sua problemática
arrastava consigo todos os outros anticonceitos da teoria
literária. Assim, a importância atribuída às qualidades especiais
do texto literário (a literariedade) é inversamente proporcional à
ação atribuída à intenção do autor. (COMPAGNON, 1999, p.48)
Barthes, ao substituir o autor pela linguagem, torna o objeto literário irredutível
a uma intenção, o que coloca o leitor como critério de interpretação. Num movimento
de releitura, Foucault entende que não há autores, há fundadores de discursividade. Ele
está inserido na cultura do fluxo, que marca o fim da modernidade, nos anos 60 e 70: “A
função-autor é, portanto, característica do modo de existência, de circulação e de
funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade” (FOUCAULT, 2001,
p.274).
O Estruturalismo Francês e suas posteriores releituras, portanto, centrando-se na
escritura, abrem caminho para o desenvolvimento de estudos semiológicos, voltados
para a análise do discurso – literário ou não. O grande legado estruturalista foi
exatamente a busca do textual e, por conta dessa ação, o levantamento de questões
cruciais para o estudo do literário, como a do autor, aqui enfocada.
Na transição dos anos 60 para os 70 do século XX, na Alemanha, Jauss dá início
a uma série de provocações a todos os teóricos imanentistas que dominavam o cenário
acadêmico de então. Ligado à hermenêutica, como teoria da compreensão, Jauss tornou
possível abandonar a ideia da ‘interpretação correta’, objetivo não alcançado pelos
estruturalistas de matiz barthesiano, por não abordarem a categoria leitor/leitura.
Nascem, aí, as Estéticas da Recepção e do Efeito, sendo representadas por dois teóricos
de peso: Jauss, utilizando-se de métodos histórico-sociológicos; Iser, trabalhando com
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
13 métodos teorético-textuais. O primeiro enfoca em suas investigações a recepção, o
segundo, o efeito.
A primeira questão levantada pela referida corrente teórico-crítica, colocada por
Jauss, diz respeito à forma como os autores entendem a experiência estética. Deve-se
observar, aqui, que sua concepção de arte é idealista: a experiência estética, para ele,
consiste no prazer oriundo da oscilação entre o eu e o objeto, o sujeito distanciando-se
interessadamente de si e aproximando-se do objeto, o que resultaria em uma forma
diferenciada de prazer: “...el carácter histórico de uma obra de arte no va solo unido a su
función representativa o expresiva, sino a su misma necesidad de recepción...”(JAUSS,
1971, p.62)
Privilegiando as vanguardas e, por conseqüência, um leitor ideal, Jauss trabalha
com três categorias: poiesis, aisthesis, katharsis. O efeito catártico da leitura, numa
retomada de Aristóteles, permite que se pense nessa idealização do leitor. Lidando com
a ideia de horizonte de expectativas, Jauss traz questões relativas à regionalidade das
transformações sofridas pelas obras no processo de leitura e à disseminação das
mudanças por ela sofridas, indicando que o horizonte de expectativas deve mediar a
composição das histórias da literatura:
No ensaio inaugural, o horizonte de expectativas tinha sido
relacionado ao gesto produtivo do leitor em função de um
sistema de normas objetiváveis e reconstituíveis, entre outras, a
partir de normas estéticas conhecidas, de relações explícitas com
obras do cenário literário-histórico e da suposta oposição entre
função poética e prática da linguagem. Menos de uma década
depois, o próprio autor reconhece, explicitamente, a limitação de
seus conceitos e aponta a ausência da esfera social como lacuna
de sua construção teórica. (OLINTO, 1996, p. 27)
Jauss desconstruiu a história da literatura de caráter universalizante, situando o
fenômeno literário numa esfera comunicativa complexa. Criam-se, com Jauss, as bases
para uma história da literatura relacional, que parte da desconstrução das noções de
homogeneidade e totalidade que fundamentam as épocas e as escolas – há uma
pluralização do tempo histórico.
A segunda questão colocada pelas Estéticas da Recepção e do Efeito,
desenvolvida por Iser, concerne aos vazios e ao leitor implícito, situando-se no plano
direto da textualidade. O referido teórico parte das interações humanas, tendo em vista
sermos obrigados a um cotidiano de interpretações: transpondo o cotidiano para a obra
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
14 literária, sente-se a necessidade de uma espécie de projeção do leitor para que se efetive
a interação deste com o texto: “Apenas a imaginação é capaz de captar o não-dado, de
modo que a estrutura do texto, ao estimular uma seqüência de imagens, se traduz na
consciência receptiva do leitor” (ISER, 1996, p.79).
Iser traz para o campo literário a investigação sobre os mecanismos textuais que
conduzem a interação da obra com o leitor empírico. A obra responde às necessidades
de uma dada época, de uma dada cultura, segundo a ótica de um indivíduo que responde
por sua autoria. O leitor de carne e osso nem sempre partilha esse mesmo contexto
original e, mesmo que o faça, constitui-se em um indivíduo outro, uma subjetividade
diferente daquela que engendrou o texto.
Há, portanto, entre ambos – o texto com seu leitor implícito e o mundo com seus
leitores históricos – uma assimetria que, longe de impedir o trânsito de sentidos,
viabiliza o diálogo, pois provoca o desejo de interação: o leitor real sempre quer
entender o que lê, conseqüentemente, sempre envida esforços para aproximar-se do
mundo que lhe é dado pelo impresso. Nesse processo, vai negociando com a obra e com
as suas próprias expectativas.
Para Iser, por meio da ficção, o leitor empírico pode atravessar as fronteiras do
mundo instituído, uma vez que ele o refaz, antropofagizando a realidade. Segundo o
teórico alemão, o texto ficcional não é pleno em si, carrega lacunas que desenham uma
implicitação do leitor imaginado pelo autor e pelos editores, ilustradores etc., essa
projeção tem um forte potencial de provocação.
Parece-me que as brechas textuais que promovem o diálogo da obra com esse
leitor de verdade constroem uma representação de leitor – o referido leitor implícito –
que se quer e que se sabe imprecisa, incompleta, apenas textual, exatamente para gerar
sensações e sentimentos surpreendentes no leitor de carne, osso, óculos, levando-o a
aproximar-se mais e mais da obra.
Essa representação, ou melhor, o leitor implícito, viabiliza um outro tipo de
representação: a das cenas e práticas de leituras, as quais balizam a interação da palavra
impressa com o leitor real. Essas representações, nem sempre explícitas, ensinam o
leitorado, em sua heterogeneidade de repertórios, a entrar no texto e a dialogar com ele.
Elas aparecem, por exemplo, em cenas em que algumas personagens lêem e discutem
livros, jornais, revistas, filmes etc. Nos jornais e revistas, essas representações podem
ser percebidas a partir da relação entre texto e anúncios, ou entre textos e fotos.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
15 A leitura surge, então, como uma atividade comandada, sim, pelo texto, mas
dependente das possibilidades de interlocução do leitorado histórico que com ele entra
em contato:
...a relação entre texto e leitor só pode ter êxito mediante a
mudança do leitor. Assim o texto constantemente provoca uma
multiplicidade de representações do leitor, através da qual a
assimetria começa a dar lugar ao campo comum de uma
situação. Mas a complexidade da estrutura do texto dificulta a
ocupação completa desta situação pelas representações do leitor.
O aumento da dificuldade significa que as representações devem
ser abandonadas. Nesta correção, que o texto impõe, da
representação mobilizada, forma-se o horizonte de referência da
situação. Esta ganha contornos, que permitem ao próprio leitor
corrigir suas projeções. Só assim ele se torna capaz de
experimentar algo que não se encontrava em seu horizonte.
(ISER, 1979, p.88-89)
Tal problematização do leitor empírico, empreendida pela obra em sua própria
gênese e em seu processo de interação com o mundo, através da divulgação e da leitura,
provoca uma relação texto/leitor que abre incontáveis possibilidades de comunicação, as
quais dependem de alguns mecanismos textuais de controle como os vazios, as
negações, as supressões, as cesuras, as imagens, os cerzidos do texto. Todos esses
mecanismos constroem o lugar do leitor de verdade, através dessa implicitação de um
leitor desejado pelos autores e editores, quebrando o fluxo textual, interrompendo a
articulação discursiva seqüencial. Dessa forma, o texto pode provocar o imaginário de
seu interlocutor, dinamizando o impresso, por meio de elementos capazes de suscitar
uma leitura ativa.
O texto literário se concentra nos vazios comuns às interações humanas,
sistematizando-os – o leitor, em face da literatura, é um turista, que, por não conhecer as
práticas culturais locais, precisa verificar sempre sua produção de sentido – Iser se
preocupa com o efeito causado pela obra.
É aí que ele recorre à fenomenologia, através de Ingarden, que apontava, na
estrutura da obra literária, a existência de vazios, por meio dos quais o leitor simularia a
concretização da mesma. Se Ingarden permanece preso a uma estética da representação,
com seu ideal de estruturação harmônica das partes da obra (efeito polifônico), para
Iser, a arte não se identifica com o mundo, nem o leitor com a ficção. Esta última,
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
16 contrapondo-se ao conceito de good continuation, remete-nos, sob certos aspectos, ao
estranhamento formalista.
Iser toma o pólo textual como constante na tradição imanentista, revê Ingarden,
mas não sai de seus parâmetros: os vazios e as negações formam, para ele, uma
estrutura que impede a recepção arbitrária, provocando a formação de figuras de
relevância, de um tema e de seu contorno de horizonte – está então previsto um leitor
implícito que se caracteriza como um leitor ideal, condutor necessário do ‘processo
hermenêutico’.
A partir das investigações dos teóricos das Estéticas da Recepção e do Efeito,
surgiram novas histórias da literatura e da leitura e novos estudos sobre o leitor. Nessa
trilha, Roger Chartier reencontra Iser, em sua proposta do leitor implícito, e investiga a
leitura implícita, ampliando e deslocando o objeto iseriano: “Uma segunda maquinaria,
puramente tipográfica, sobrepõe seus próprios efeitos, variáveis segundo a época, aos de
um texto que conserva em sua própria letra o protocolo de leitura desejada pelo autor”.
(CHARTIER, 1996, p.96)
Na ótica iseriana, o que conta para o estudo do leitor e da leitura é enfocar as
senhas trabalhadas pelo autor no texto – trata-se de um estudo da produção de textos.
Chartier propõe que a estas senhas se cruzem outras, ligadas à produção de livros.
As Estéticas da Recepção e do Efeito foram muito fecundas, no que tange a
desdobramentos: a autocrítica de Jauss e a constante produção de Iser e Gumbrecht
facilitam o processo reflexivo acerca de suas ideias.
No Brasil, os estudos sobre o leitor e a leitura desdobraram-se na voz de
inúmeros críticos e alguns teóricos da literatura. A ideia de que a leitura é um processo
que demanda e constrói, simultaneamente, um Sujeito leitor, um interlocutor histórica e
culturalmente marcado perpassa o pensamento contemporâneo voltado para o tema em
foco. Assim, Vera Aguiar afirma:
Outro aspecto importante a salientar é o fato de que é a estrutura
do texto, por seu caráter dialógico, que determina a polifonia,
problematizando o leitor, na medida que reage ao seu código. O
autor vê a literatura, portanto, como uma provocação ao leitor,
levando-o a constituir novos sentidos e, conseqüentemente,
crescer como ser humano. (AGUIAR, 2008, p.24)
O trecho citado, retirado do texto “Da Teoria à Prática: Competências de
Leitura”, de Vera T. de Aguiar, traz dois aspectos que conduzem a conclusão deste
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17 estudo. O primeiro deles diz respeito ao fato de que a estrutura textual problematiza o
leitor. A que noção de leitor estaria Vera Aguiar se referindo? Entendo que ela esteja
trabalhando com a ideia de leitor empírico, isto é, o leitor de carne e osso que lê, no
cotidiano concreto, livros, revistas, jornais, anúncios, bulas de remédio.
É aqui que entra o segundo aspecto do fragmento destacado a ser discutido: o
autor provoca o leitor para transformá-lo pelo processo da leitura. Essa provocação me
remete ao conceito de jogo de Huizinga, o qual investiga a importância do jogo na vida
social:
As grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são,
desde início, inteiramente marcadas pelo jogo. Como por
exemplo, no caso da linguagem, esse primeiro e supremo
instrumento que o homem forjou a fim de poder comunicar,
ensinar e comandar. É a linguagem que lhe permite distinguir as
coisas, defini-las e constatá-las, em resumo, designá-las e com
essa designação elevá-las ao domínio do espírito. Na criação da
fala e da linguagem, brincando com essa maravilhosa faculdade
de designar, é como se o espírito estivesse constantemente
saltando entre a matéria e as coisas pensadas. Por detrás de toda
expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é
jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria
um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza.
(HUIZINGA, 2001, p.7)
Refletir, então, acerca das relações entre a obra literária e o leitor empírico,
através desse conceito de jogo, permite pensar que a tensão que o preside é que
funcionaria como instrumento de provocação e de sedução dos interlocutores textuais,
transformando-os a partir da interação com o lido. Tal tensão própria do jogo literário
remete às estratégias textuais de implicitação do leitor – e de provocação de sua face
empírica –, bem como de condução da leitura, discutidas por Iser.
Essa ludicidade da linguagem literária abriria caminho para que o leitor,
histórica e socialmente localizado, interagisse com o texto. Entendo, assim, que não há
neutralidade no ato da leitura – ler é uma travessia das múltiplas textualidades inscritas
na palavra/imagem impressa. E atravessá-las significa pôr em diálogo os repertórios
previstos no texto/obra e os repertórios pertinentes a cada leitor empírico – ou seja, ler
pode ser entendido como um dos jogos possíveis na sociedade. Recorro a Huizinga,
novamente:
O caráter especial e excepcional do jogo é ilustrado de maneira
flagrante pelo ar de mistério em que freqüentemente se envolve.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
18 Desde a mais tenra infância, o encanto do jogo é reforçado por
se fazer dele um segredo. Isto é, para nós, e não para os outros.
[...]. Dentro do círculo do jogo, as leis e costumes da vida
quotidiana perdem validade. Somos diferentes e fazemos coisas
diferentes. (HUIZINGA, op. cit., p.15)
O mistério do jogo preside o ato da leitura: entramos sozinhos no texto e saímos
dele modificados, mesmo quando a leitura é coletiva, pois cada um joga com a sua
individualidade, ainda que de acordo com regras gerais. E melhor, cada um joga porque
quer jogar.
Pode-se deduzir, então, que o ato de ler é um ato de liberdade, o que é
confirmado por Bordini e Aguiar: “A riqueza polissêmica da literatura é um campo de
plena liberdade para o leitor...” (1988, p.15) Ao deparar-se com uma obra impressa, o
indivíduo põe em diálogo as contingências que cercam seu cotidiano e o mundo do
texto, abrindo seu imaginário para as vivências Outras que lhe são apresentadas a cada
página.
Relação transitiva, cada ato de leitura deve processar uma pessoalização do lido:
“Não nos é possível penetrar nos textos que lemos, mas estes podem entrar em nós; é
isso precisamente o que constitui a leitura” (SCHOLES, 1991, p.22). Ler literatura,
então, parece poder ser definido como um momento em que o leitor inscreve, em si, o
texto. Mas o processo tem uma contrapartida: ele também se inscreve no texto, uma vez
que, ao se deixar ocupar pela palavra/imagem, apropria-se dela, torna-a sua e torna-se
ela mesma. Ler implica interpretar e criticar. As associações que estabelecemos ao ler
nos revelam quem somos no e a partir do texto lido.
O ato da leitura, portanto, não se constrói por um mero processo de
decodificação do impresso, pois esse trânsito entre texto e leitor está situado histórica,
cultural e politicamente, envolvendo, ainda, condicionamentos menores, de ordem
psicológica, social, econômica, enfim.
Ler uma obra artística impressa pode ser entendido como um ato que aciona e
constrói mundos e vontades. Nós não nascemos leitores de literatura, sequer nascemos
leitores do mundo, precisamos ser educados para ler os livros e a vida. Essa educação,
familiar, a princípio, escolar, a posteriori, não é, também, um processo natural, um
processo fácil e facilitador. Nós nos formamos leitores, se formos adequadamente
provocados para isso.
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19 Aguiar propõe, ao debruçar-se sobre as contribuições das Estéticas da Recepção
e do Efeito, que a conquista do prazer estético no ato de ler é capaz de construir o gosto
pela leitura literária:
O prazer estético nasce, pois, da compreensão do sujeito com
respeito à prática que vive, envolve participação e apropriação.
Na atitude estética, o leitor deleita-se com o objeto que lhe é
exterior. Descobre-se, apropriando-se de uma experiência do
sentido do mundo. Diante da obra percebe sua própria atividade
criativa de recepção da vivência alheia. (AGUIAR, op. cit.,
p.21)
Ao compreender-se interagindo com o texto, o leitor empírico se percebe numa
intimidade antes inimaginada, intimidade esta que pode levá-lo a querer repetir a
experiência e a gostar do desafio. Hoje, no século XXI, a teoria e a crítica literária não
dispensam mais o leitor. Ele é uma realidade. É uma das pontas do mercado cultural.
Hoje, o leitor existe, dentro e fora das academias, ele é explicitamente desejado por
escritores, editores, professores universitários, mestrandos, doutorandos.
Hoje, o leitor É.
REFERÊNCIAS:
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MARTHA, Alice Áurea Penteado (org.). Leitor, leitura e literatura: teoria, pesquisa e
prática – conexões. Maringá: EdUEM, 2008. 188p. p.13-26.
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BORDINI, Maria da Glória e AGUIAR, Vera Teixeira de. Literatura: a formação do
leitor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
CHARTIER, Roger. Do Livro à Leitura. In.:______ et alii. Práticas da leitura. São
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Paulo Monteiro. 5ed. São Paulo: Perspectiva, 2001.
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leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979.
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SCHOLES, Robert. Protocolos de leitura. Tradução de Lígia Guterres. Lisboa: Edições
70, 1991.
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21 ELOMAR, LEITOR DE LITERATURA
UMA ALBA MEDIEVAL NA CANÇÃO “CANTADA”
Renailda Ferreira Cazumbá 2
O artigo analisa a retomada da tradição poética medieval na canção “Cantada”,
de Elomar Figueira Mello, presente no disco Nas barrancas do Rio Gavião, 1973. O
disco é um dos mais importantes da carreira do Elomar e demarca a caracterização do
compositor como um “trovador”, um “menestrel”, um “príncipe da caatinga”, deslocado
de seu tempo, que revive os tempos áureos dos cavaleiros medievais na
contemporaneidade. A denominação de príncipe da caatinga, atribuída por Vinícius de
Moraes, foi marco para a carreira de Elomar, pois na apresentação do disco citado
Vinícius reconhece as matrizes medievalizantes presentes na obra do músico nordestino,
aliadas aos elementos regionais do folclore brasileiro.
Desde esses comentários de Vinícius, ressaltando os valores arcaicos tanto
ibéricos como sertanejos cultivados pelo compositor baiano, a imprensa brasileira vem
alargando a ideia de que Elomar é o herdeiro da tradição musical dos trovadores e
menestréis medievais, baseando-se em suas raras apresentações nos palcos para
construir a imagem de um violeiro e cantador tradicional, sem buscar uma atitude mais
crítica sobre a produção musical do autor. A apresentação de Vinícius, no entanto, foi
importante para a carreira do compositor, ao trazer mais visibilidade para a sua
produção musical, que no momento sofria as restrições do mercado e círculo musical,
por ser considerada musical regional, com uma temática local, em detrimento do
cosmopolitismo e da visibilidade internacional que se buscava para a produção musical
da época.
Embora Elomar não corrobore as adjetivações sobre sua imagem, reafirmando os
epítetos e alcunhas, a vertente medieval também é enfatizada pelo músico-poeta. Em
entrevista a Jurema Paes para o Jornal À Tarde, em 1996, Elomar afirma que canta um
canto da Idade Média: “eu tenho uma fundamentação trovadoresca, meu trabalho é
fundamentado naquela música, longe... séc. XII, XIII, XIV – vamos dizer assim que a
minha música tenha vindo lá dos fundamentos da ordem dos templários” (MELLO,
1996: 3).
2Professora da UNEB/Campus XX e Mestra em Literatura e Diversidade Cultural. E-mail:
[email protected]
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
22 Estes aspectos, porém, se mal compreendidos, atuam para reforçar a imagem
projetada do compositor como menestrel e trovador, deslocado de seu tempo histórico e
alheio à realidade contemporânea, “um antimoderno ou até mesmo pré-moderno”
(GUERREIRO, 2007: 70). O anacronismo se justificaria por uma busca do passado,
renegando os valores e a crítica social da realidade presente. No entanto, se analisados a
partir de uma perspectiva teórica adequada através das abordagens teóricometodológicas da Literatura Comparada, da Teoria textual ou da Semiologia, que
analisam as influências de um texto sobre outro e as relações entre os discursos, por
exemplo, pode-se considerar o caráter de negociação que a obra de Elomar mantém com
o passado, não apenas como herança ou continuidade cultural, mas como uma
apropriação, geralmente feita por poetas “movidos por uma autoconsciente
intertextualidade que faz dialogar, mantendo-lhes as diferenças, o presente e o passado”
(MALEVAL, 2002: 25).
A retomada da tradição literária trovadoresca na obra de Elomar provém,
especificamente, da releitura, como resultado do conhecimento livresco, reorganizado
pelo compositor em contato com as experiências proporcionadas a partir da sua
aproximação com o cotidiano sertanejo. A criação do compositor é resultado de leitura
da tradição literária, atenta e criativa, através de um trabalho artesanal e inventivo do
material poético. Dessa releitura, o que o leitor-ouvinte de Elomar pode perceber é um
estranhamento, por sua obra trazer à cena da contemporaneidade o manancial do mundo
medieval, de forma que, se a leitura for desatenta, pode parecer que o procedimento do
poeta não passa de anacronismo e saudosismo de uma tradição.
Nesse horizonte, reiteramos a ideia de que na análise que ora realizamos essa
releitura a partir da compreensão do ato de leitura em seu sentido amplo, como
desvendamento do mundo, e não apenas em seu sentido de processo de decodificação
do texto escrito. Sendo assim, nos colocamos também no papel de leitora desse
manancial poético-musical, que se apresenta na obra de Elomar e, por meio dessa
leitura, procuramos abrir frestas no labirinto da criação artística, e, ainda, das leituras
anteriores já empreendidas sobre sua obra. Em primeiro plano, procuramos considerar
que Elomar é um leitor de literatura, revelando-se portador de “uma leitura,
simultaneamente desrespeitadora, pois corta o texto, e enamorada, pois volta a ele e dele
se alimenta” (BARTHES, 1984: 27).
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23 A partir desta concepção, a leitura do texto de literatura demarca a primeira
vertente da obra de Elomar. Esta leitura do cânone literário medieval trovadoresco
proporciona uma filtragem da poesia e da musicalidade dessa matriz poética e musical
na obra do autor, principalmente se considerarmos que a literatura medieval tinha como
princípio poético o canto, a dança e a apresentação pública e que a consciência da
conservação da memória escrita dessa produção se deu tardiamente através dos
cancioneiros (ROMERO, 1954). Do cânone literário medieval escrito Elomar leu os
clássicos, como Gil Vicente, dramaturgo português; Dom Dinis, o rei trovador e; os
romances de cavalaria, que segundo o próprio Elomar, foi leitura que perdurou dos 15
anos aos 25, entre outros. Esses elementos servem para confirmar que todo criador do
texto escrito é antes de tudo um leitor (GUERREIRO, 2007). Essas leituras representam
a bússola que nos norteará na intelecção do percurso criativo do cantador Elomar.
Não somos os primeiros a afirmar que Elomar é um leitor da tradição literária,
afinal esta pode ser a marca de diversos criadores, como bem nos lembra Eliot, em
Tradição e talento individual: “Nenhum poeta, nenhum artista, tem sua significação
completa sozinho” (ELIOT, 1989: 39). Guerreiro (2007), por exemplo, afirma que
Elomar é um leitor de um cânone especial da nossa tradição literária, embora o cantador
não corrobore a conjectura da pesquisadora e não confirme que suas leituras estejam em
diálogo direto com sua obra. A pesquisadora analisou as reelaborações e o
relacionamento intertextual realizado por Elomar com poemas dos românticos Castro
Alves e Álvares de Azevedo, dentre os quais, um intertexto com o poema “Ode ao Dous
de Julho”, no qual Elomar faz uma reverência ao poeta condoreiro. Neste, Elomar
encena os últimos instantes do poeta romântico em seu leito de morte, de onde recebe a
visita da morte, “ministra da vida ao entardecer”, trazendo ainda no poema os ideais
românticos de profecia e de loucura dos poetas (GUERREIRO, 2007: 240).
As marcas da estética do Romantismo ainda aparecem no livro de poemas “Lira
dos dezessete e outras quadras”, ainda não publicado, no qual Elomar realiza um
diálogo intertextual com o livro Lira dos vinte anos (1853), de Álvares de Azevedo,
retomando os principais temas românticos da nostalgia da infância, da devoção às
musas e da fugacidade do tempo. Tal como na estética do Romantismo, nos poemas
“Tempora Labatur” e “De belas formas que de longe vêm”, Elomar adota um diálogo
com as formas poéticas populares e com a composição de versos livres, trazendo a
memória da infância perdida em imagens nostálgicas da mocidade, que se evapora e das
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
24 musas idealizadas, denominadas por Guerreiro de “musas fugidias”, pois nos poemas de
Elomar “há uma estratégia de fuga e de sublimação do amor, do desejo” (Idem: 244).
Em entrevista concedida a Guerreiro (2007), o poeta deixou evidente o
aproveitamento expressivo que fez das leituras de literatura em sua obra. Do
Romantismo europeu, Elomar apontou sua admiração pelos franceses Henry Murger,
Verlaine, Rimbaud e Lautreamón; dos poetas nacionais, chamou a atenção a fascinação
pelo poeta Castro Alves, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac e
Raimundo Correia. Nessa entrevista, Elomar posiciona-se não apenas como leitor, mas
também como um leitor crítico dessas obras, que lê e interfere. Ao se referir ao rol das
escolas literárias que fazem parte de suas leituras prediletas, o compositor afirma que a
linha francesa e a portuguesa foram as mais representativas em suas leituras, sendo
nestas que mais se delongou. Em comentário sobre a tradução que Castro Alves fez dos
poemas “A Balada do Desesperado”, de Henry Murger, e “As três irmãs do poeta”, do
poeta inglês E. Berthoud, Elomar elogia a tradução do poeta brasileiro:
Eu li no original de Henry Muger e conheço a versão de Castro
Alves. Desculpem-me os franceses, mas a de Castro Alves é
mais bonita. Quando li pela primeira vez “As três irmãs do
poeta”, versão de Castro Alves, do poeta inglês E. Berthoud,
achei aquilo tão bonito! [...] Eu li o poema de Berthoud, mas
Castro Alves deu asas, deu fulgor, deu brilho, deu clangor à tuba
do poeta inglês [...] O que sobra de Berthoud é a ideia, a forma,
que é belíssima. Murger é um simples romântico, um grande
romântico, mas não é um condoreiro. (MELLO, 2006: 297)
Como se vê, para Elomar, a poesia deve ser elegante, ter bela forma e ser
eloqüente, ao contrário da poesia contemporânea, que segundo o compositor é “feia e
imposta pelo poder”, salvo raras exceções de grandes poetas contemporâneos. Além de
leitor crítico de obras clássicas, Elomar fala de suas preferências pelos gêneros
literários. Para o poeta, as “cores líricas” presentes em suas obras são apenas
conseqüência, pois revela grande atração pelo gênero dramático, pelo trágico e pelo
épico. Dentre os épicos, Elomar cita O paraíso perdido, de Milton, Os Lusíadas, de
Luís de Camões, A divina comédia, de Dante, a Ilíada, de Homero e o Bhagavad Gita, o
livro sagrado do Induísmo. Finalmente, a Bíblia, onde encontra os grandes épicos Êxodo
e o primeiro grande épico Apocalipse, segundo o compositor.
A preferência do compositor por essas leituras, fazendo delas o seu próprio
cânone, revela que, além de leitor atento, é também crítico e divulgador desse acervo de
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25 leitura. O aproveitamento que faz dele em suas canções demonstra a valorização a estes
poetas e a preocupação que tem em divulgar essas obras ao seu público que, embora
pequeno, sabe bem aproveitá-las.
Tendo, também, o realismo-naturalismo como uma matriz de influência literária,
Elomar captou as imagens e as representações que o aproximam do regionalismo
literário de Os sertões, de Euclides da Cunha. Esses ecos do imaginário poético e
literário euclidiano foram, inclusive, abordados por Novaes (1998) em um trabalho
dissertativo, no qual analisou de que forma Elomar tenta compatibilizar a tradição com a
ruptura através de uma escritura que capta as representações e as imagens da migração
sertaneja, atualizando o imaginário d’Os sertões.
Como leitor de literatura, Elomar busca o diálogo com essas obras, atualizando
componentes temáticos e estilísticos para o cotidiano do sertão, em diálogo com outras
temáticas literárias. Em comentários anteriores, afirmamos que as leituras e a admiração
por Castro Alves influenciaram a obra de Elomar e que este produziu diversas canções e
poemas em homenagem ao poeta condoreiro. Esses poemas e canções aludem ao
imaginário e à fórmula temático-estilística do Romantismo, elementos que, aliados ao
tema da vassalagem amorosa do lirismo provençal e galego-português, conferem à obra
do autor os tons para a idealização da mulher, sempre inacessível e fugidia.
Na canção “Cantada”, podemos perceber esse resultado das leituras da tradição
literária trovadoresca, observando que o poeta retoma uma modalidade temática das
cantigas de amigo, compondo uma alba. A composição possui os elementos típicos da
tradição das canções femininas, em que o ambiente rural se faz presente, mas é
composta num tom mais aristocrático tanto na temática, quanto na forma,
assemelhando-se às cantigas de amor, que “diferencia-se da de amigo, principalmente,
por um caráter aristocrático mais marcado de tom e de forma” (TAVANI, 2002: 157),
distanciando-se dos elementos pastoris das cantigas de amigo. Nesta cantiga, o tom
aristocrático emprestado tanto pelo estilo e a utilização de um padrão lingüístico culto
conferem à canção um clima de intimismo e privacidade entre os amantes,
características que aludem também à tradição literária do Romantismo.
Se fizermos uma incursão na tradição literária, encontraremos a temática da
separação dos amantes ao romper da aurora na grande tragédia de Shakespeare, Romeu e
Julieta, que narra acerca do amor proibido entre os filhos de duas famílias rivais: os
Capuletos e os Montecchio. A passagem em que a cotovia canta ocorre no final da
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
26 primeira noite de casados entre os jovens, decorrida no quarto de Julieta. Neste excerto
da tragédia, o canto da cotovia anuncia simultaneamente a madrugada e o fim da noite
de amor dos apaixonados: Romeu tem de despedir-se de Julieta, e regressar a Mântua,
antes que algum dos Capuletos se aperceba da sua presença na residência. Este
afastamento entristece, como é óbvio, a jovem, que associa o piar da ave à separação
(MANCELOS, 2008). Vejamos a cena da separação através dessa adaptação de um
excerto da obra:
[...] JULIETA - Já vai partir? O dia ainda demora. Não foi a
cotovia, mas o rouxinol que assustou seu ouvido temeroso.
Todas as noites ele canta pousado na romãzeira: acredite, meu
amor, foi o rouxinol.
ROMEU - Foi a cotovia. É ela a mensageira da manhã, não o
rouxinol. Olhe, meu amor, aquelas listras invejosas que cortam
as nuvens do nascente: as tochas da noite se apagaram; o dia
alegre já espanta a bruma do alto das colinas. Preciso ir e viver,
ou ficar e morrer.
JULIETA - Aquela claridade não é a luz do dia, tenho certeza! É
algum meteoro que o sol exala, para ser seu guia e iluminar seu
caminho para Mântua. Fique um pouco mais! Não é preciso
partir tão cedo [...] (SHAKESPEARE, 1997)
Mancelos ressalta que se trata de uma das mais célebres e melancólicas cenas de
despedida da literatura universal, marcada pela tensão entre os amantes, que desejam
permanecer nos braços um do outro, mas sabem que é preciso partir. A cena “é
permeada pela multiplicidade de significados contraditórios da aurora: tempo de início e
de perda; de frescura e do fim da virgindade de Julieta; de consumação do amor e do
adeus”, que trazem para a cena a dramaticidade e a força poética do Romantismo
(MANCELOS, 2008: 6).
Também na tradição das albas provençais, Maleval destaca que a temática
nuclear girava em torno da tristeza dos amantes pelo nascer do dia, porque teriam que
separar-se. Em francês, contam-se três composições remanescentes dessa tradição, mas
na lírica galego-portuguesa há apenas um texto que se aproxima deste gênero, a cantiga
“Levad’ amigo, que dormides as manhãs frias”, do trovador Nuno Fernandes Torneol
(MALEVAL, 2003: 142). Eis a cantiga:
Levad’, amigo, que dormides as manhãs frias;
todalas aves do mundo d’amor dizian:
leda m’and’eu.
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27 Levad’, amigo, que dormide’-las frias manhãas;
todalas aves do mundo d’amor cantavan:
leda m’and’eu.
Toda-las aves do mundo d’amor dizian;
Do meu amor e do voss’en ment’avian:
Leda m’and’eu.
Toda-las aves do mundo d’amor cantavan;
Do meu amor e do voss’i enementavan:
Leda m’and’eu.
Do meu amor e do voss’en ment’avian;
Vós lhi tolhestes os ramos en que siian:
Leda m’and’eu.
Do meu amor e do voss’i enementavan;
Vos lhi tolhestes os ramos en que pousavan:
Leda m’and’eu.
Vós lhi tolhestes os ramos en que siian
E lhis secastes as fontes en que bevian:
Leda m’and’eu.
Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan
E lhis secastes as fontes u se banhavan:
Leda m’and’eu. (BREA, 1996: 688)
Diversas análises já foram feitas desta cantiga buscando-se as semelhanças com
as albas provençais. No entanto, Brea (1998) e Maleval (2003) afirmam que a cantiga de
Torneol tem poucas semelhanças com a alba provençal, pois nela a temática não gira em
torno da despedida dos amantes ao romper da alvorada. Para as pesquisadoras, a amiga
não maldiz a aurora que anuncia a separação dos amantes, apesar de o verso inicial da
cantiga fazer menção ao momento do dia em que se dava a despedida dos namorados
“Levad´amigo, que dormides as manhãs frias”, pois no restante da cantiga desaparece a
referência à separação dos namorados. Em lugar disso, segundo Brea, a amiga entoa um
lamento ao tempo passado, revivendo nos versos das cantigas os felizes compartilhados
(BREA & GRADÍN, 1998: 223).
Para Maleval, a canção apresenta um desencanto em relação ao seu inacessível
amigo, “ao mesmo tempo em que é evocado um passado pleno de amor” nos versos
paralelísticos “Toda-las aves do mundo d’amor dizian /Do meu amor e do voss’en
ment’avian”/ Toda-las aves do mundo d’amor cantavan/ Do meu amor e do voss’i
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
28 enementavan/ Leda m´and’ eu” (MALEVAL, 2003: 141). A cena típica da alba,
segundo Brea & Gradín, era encenada pelo vigia (o gaita), normalmente um amigo ou
servente do namorado, despertando os amantes e advertindo-lhes que chegou a hora da
separação, porque “com a chegada do dia, podem ser descubertos polo marido da dona
(o gilos) ou por algum maledicente (os lauzengiers), que os iriam denunciar” (BREA &
GRADÍN, 1998: 222).
Na cantiga de Elomar, o poeta encena o momento da despedida dos amantes ao
romper da aurora. O amanhecer informa ao namorado que é hora de despedir-se de sua
dama, pois é eminente o risco de descoberta do amor proibido:
Então desperto e abro a janela,
ânsias, amores e alucinações
desperta, amada que a luz da vela
tá se apagando chamando você
está chamando apenas para vê-la
morrer por teu viver
Amada acende o coração amante
que o som suave de uma aurora distante
estremeceu aqui no peito meu, ai
os galos cantam pra fazer que a aurora
rompa com a noite mande a lua embora.
os galos cantam, amada, e um mais instante
o peito arfante cessa e eu vou- me embora.
Vem, namorada, que a madrugada
ficou mais roxa que dos olhos teus,
as pálpebras cansadas
amada atende a um coração em festa,
que em minha alcova entra nesse instante.
pela janela tudo o que me resta,
uma lua nova e outra minguante.
Ai namorada nesta madrugada
não haverá prantos nem lamentações.
os teus encantos vão virar meus cantos
voar pros céus e ser constelações
Oh Namorada nesta madrugada,
Incendiaram-se os olhos meus.
não sei porque você um quase nada
do universo perdido nos céus
apaga estrelas, luas e alvoradas
e enche de luz radiosa os olhos meus
mulher formosa nesta madrugada
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29 somos apenas mistérios de Deus. (Das Barracas do Rio
Gavião,1973).
O Glossário Terminológico da Lírica Trovadoresca, composto por Spina, define
a alba como “uma composição poética do gênero lírico, cujo tema se reduz ao diálogo
entre os amantes ou esposos, que havendo desfrutado uma noite deliciosa, maldizem o
romper da manhã que sobrevém inesperadamente” (SPINA, 1991: 358). Tal gênero
lírico, segundo o pesquisador, talvez tenha surgido no Norte da França e na Provença,
mas foi no Sul que ela se aperfeiçoou, sendo que no folclore provincial do Norte as
albas continuam em sua forma primitiva e popular de canto de despertar. Nesta, o canto
dos pássaros anunciavam a aurora a dois amantes.
Na canção elomariana, o poeta dramatiza, através de um monólogo típico da
alba medieval, esse momento da separação dos namorados: o amante maldiz a chegada
da aurora que os separa, distintamente do gênero trovadoresco da cantiga de amigo, em
que a voz feminina acordava o amante. O argumento da cantiga repete o formulário das
cantigas de amor, em que o encontro amoroso é contrariado e interrompido pelo raiar do
dia. Na canção, o namorado ao despertar e abrir a janela percebe, ainda perturbado e
confuso pelo despertar abrupto, que de fato o amanhecer os convida à separação. Chama
a amada para que esta desperte, pois a luz da vela e o canto dos galos anunciam a
alvorada: “desperta, amada que a luz da vela/ tá se apagando chamando você/ está
chamando apenas para vê-la/ morrer por teu viver”.
O poeta vale-se de imagens hiperbólicas para a qualificação da mulher. Para
construir essa ambientação, requisita uma simbologia relacionada à tradição poética da
lírica trovadoresca medieval: o eu-lírico reitera praticamente em todos os versos a
denominação de “amada”, “namorada” e, finalmente, “mulher formosa” para
caracterizar a sua dama. O efeito de redundância culmina nos versos finais, quando a
beleza da dama é capaz de apagar “estrelas, luas e alvoradas” e encher de luz o coração
do amante.
Na lírica trovadoresca galego-portuguesa, “o elogio da dama” significava um
importante campo semântico das cantigas de amor, coexistindo com outros como “o
amor do poeta”, “a reserva da dama” e a “pena por um amor não correspondido”. Esse
elogio, na maioria das vezes, nunca se alargava a uma descrição corpórea; ao contrário,
a imagem feminina era idealizada e circunscrevia-se a “uma abstrata e indeterminada
qualificação estética (fremosa senhor) ou a uma igualmente imprecisa e totalizante
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
30 valoração positiva do aspecto físico ([senhor] de bom/fremoso parecer/semelhar)”
(TAVANNI, 2002: 163. Grifos do autor).
No poema-canção de Elomar, o realismo criado para dramatizar a cena de
despedida dos amantes abranda a idealização feminina, sugerindo uma mulher mais
corpórea, mais concreta, cujos olhos são “luzes”, mas que se apresentam “roxos” como
a madrugada. As “pálpebras cansadas” denunciam que a dama entregou-se a uma noite
de amor. Tais aspectos trazem à canção um erotismo valorizado pelo poeta como forma
de atenuar a idealização feminina. A analogia entre as cores do céu na madrugada e os
olhos da namorada acentua esse erotismo. A namorada é solicitada a despertar. O
contraste entre a noite – hora dos amantes viverem o amor plenamente – e o dia –
momento que simboliza a separação dos amantes – é construído pela analogia entre a
luz da vela e a luz do dia, que se tornam incompatíveis no momento. A vela,
personificada, chama a amada para que esta a veja apagar-se, no caso, “morrer”.
Entende-se que o findar da luz da vela é um alerta para que a incauta namorada não se
arrisque no amor proibido. O paradoxo entre as palavras “morrer” e “viver” dão ao texto
grande força simbólica: para que a moça “viva” é preciso que a luz da vela “morra”.
Predomina na cantiga de Elomar a simbologia típica das albas provençais: a
referência ao momento do dia (o alvorecer) e a presença dos animais anunciando
separação dos namorados: “os galos cantam pra fazer que a aurora/ rompa com a noite
mande a lua embora”. As aves apresentavam-se em muitos textos medievais e em outras
tradições literárias, a incitar a libido através do canto. Os elementos naturais como as
aves, os rios, os ramos verdes e os cervos eram recorrentes nas cantigas de amigo e
expressavam “uma forma mágica de contato entre os jovens namorados e as forças
vitais, conferindo a essas cantigas de amigo um colorido e frescor”, elementos que eram
ausentes nas cantigas de amor (VIEIRA, 1992: 48).
Um segundo elemento na canção vem reforçar essa ideia de que o dia surge
através do anúncio da madrugada que se levanta: a luz da vela. Esse elemento provoca
um realismo acentuado por um erotismo mais explícito e revelado, expondo a fonte de
alegria do amante, que embora tenha que se separar, não esconde o prazer erótico
proporcionado pela noite de amor: “Vem, namorada, que a madrugada / ficou mais roxa
que dos olhos teus, as pálpebras cansadas”. A imagem também remete às inquietações
provocadas por uma noite mal dormida e pela brevidade da noite, como esta se
apresenta para os amantes, elementos sugestivos nas albas provençais.
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31 A interjeição “ai” é alusiva à coita de amor. Repetida duas vezes, e com
intenções semânticas diversas na canção, essa interjeição denuncia o diálogo explícito
com a lírica trovadoresca galego-portuguesa. No verso em que fora utilizada pela
primeira vez, a interjeição “ai” é índice da dor do eu enunciador no momento da
separação amorosa, dor que “ressoa” em seu “peito arfante”. Porém, o amado aceita a
sua condição de “coitado”, ou seja, daquele que sofre de amor e, resignado, alegra-se
por viver esse amor, anunciando que não lamentará a separação entre eles quando o dia
chegar.
No segundo momento de utilização da interjeição “ai”, o amante demonstra
paciência e resignação, e, ao contrário de uma simples dor de amor, o eu-lírico anuncia
que o sofrimento será mote para a criação poética: “Ai namorada nesta madruga/ não
haverá prantos nem lamentações/ os teus encantos vão virar meus cantos/ voar pros céus
e ser constelações”. Neste caso, o “ai” revela um suspiro apaixonado, mas de alguém
que almeja destino certo para essa dor. Este aspecto denuncia que “o amor cortês é a
religião dos trovadores. Um verdadeiro culto à mulher, que prevê a observância de todo
um comportamento ritual” (SPINA, 1991: 359). Portanto, aceitar a dor é fazer dela um
canto e a melhor saída para o poeta apaixonado.
Nos últimos versos da canção, fica patente que o amor é considerado sagrado, já
que os dois amantes são considerados “mistérios de Deus”. Os versos finais servem de
arremate para a ideia de que o amor é via para a comunhão entre o plano profano e o
sagrado e apenas nesta comunhão a existência ganha sentido e esplendor: “Mulher
formosa nesta madrugada / somos apenas mistérios de Deus”. Essa comunhão com o
sagrado expressa nos últimos versos da canção aproxima o texto poético-musical de
Elomar do sentido da poesia mística, a qual “refaz as zonas sagradas que o sistema
profana” (BOSI, 1977: 146), demonstrando que o seu enraizamento poético em nada se
assemelha ao reacionário que se prende ao passado sem contribuição para o tempo
presente.
Pensamos que Elomar reafirma sua condição do poeta contemporâneo e de leitor
crítico da tradição, visto que, ao invés de separar essas vertentes, busca coaduná-las em
seu projeto estético e poético, de forma a afirmar que a tradição e a modernidade não se
excluem, mas se interpretam e se complementam. Tal característica é intrínseca aos
discursos modernos e pós-modernos que, conforme Zanni (2003), em sua configuração
polifônica, busca os diálogos entre diversas vozes e discursos, caracterizando-se pela
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
32 hibridez e pluralidade. Em suas canções medievais e sertanezas, Elomar esmiúça,
reinventa e remodela as formas do passado, de acordo com as leituras que faz dessa
tradição, mas utilizando-se dos recursos da cultura popular, como o cordel, da literatura
canonizada e da cultura de massa contemporânea, como o cinema, a partir de um projeto
artístico, que busca uma relação com a identidade cultural e o diálogo com as diferentes
linguagens.
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José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
34 APROPRIAÇÃO E FICCIONALIZAÇÃO 3 DO REAL NOS CONTOS:
MANDINGAS DA ILHA QUILOMBA(1984), DO OUTRO
MUNDO(2002) E DO OUTRO LADO TEM SEGREDOS(2003)
Luciete Bastos 4
O real não está na partida nem na chegada,
ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
Guimarães Rosa
A sociedade mudou. Paradigmas são questionados e o discurso oficial é
subvertido por vozes minoritárias antes silenciadas. A mudança de eixo do centro para a
periferia implicou dissolução de fronteiras e imprimiu transformações essenciais no
campo cultural, com reflexos na literatura, inclusive na literatura infantil. A concepção
de infância também mudou e a literatura a ela destinada foi tomando novo rumo; antes
vista como um adulto em tamanho reduzido, a criança passou a ser considerada em sua
integralidade, com necessidades e interesses próprios.
A literatura infantil foi considerada, até bem pouco tempo, como “gênero
menor”, por estar associada, desde as suas origens, a uma função utilitário-pedagógica.
As histórias eram elaboradas para se converterem em divulgadoras dos novos ideais
burgueses, ratificando o cânone do poder: heterossexual, masculino, capitalista, branco,
cristão e ocidental. É bem recente sua emergência e valorização como formadora de
consciência crítica que busca romper com paradigmas e com (pre)conceitos, literatura
estereotipada e reprodutora de modelos hegemônicos. Assim concebida, a literatura
destinada às crianças pode e deve ser um instrumento para a expansão da capacidade de
3
Venho, há muito tempo, empregando o termo “ficcionalização” sem me dar conta se o vocábulo era ou
não dicionarizado, incorporei o termo de tanto ouvi-lo no meio acadêmico, principalmente em estudos
literários e crítica literária. Curiosamente, a dúvida surgiu justamente no momento em que o empregava
no título deste artigo. Nenhum dicionário registra o verbo “ficionalizar”. Desisto de empregá-lo? Não,
melhor refletir. Vejamos, então, se consigo entender pelo menos de onde surgiu o termo. Temos na língua
portuguesa o verbo «ficcionar», da mesma família que “ficcionalizar”, mas raros dicionários o registram.
Supostamente, o termo “ficcionalizar”, tem origem na palavra inglesa “fictionalize”, cujo processo de
formação da palavra é similar ao processo empregado em nosso idioma, pelo acréscimo do sufixo ao
radical do adjetivo. Assim são formadas grande parte das palavras derivadas da língua portuguesa: pela
anexação de afixos à palavra primitiva. A mais comum é a formação de verbos terminados em “izar” a
partir de adjetivos. Parece ser por este caminho que surgiu “ficcionalizar”. Uma hipótese aceitável. É
difícil precisar se o verbete demora a fazer parte dos dicionários, mas é inquestionável o amplo emprego
do termo no meio acadêmico, inclusive registrado em dissertações e teses. Reconhecido pelo uso, ganha
identidade. Assim, permanece o termo no título do artigo com essa pequena nota explicativa.
4
UNEB -DCH-Campus VI-Caetité
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35 analisar o mundo, alargando o horizonte cultural e possibilitando a transformação e o
enriquecimento da experiência de vida desses seres em processo, instigando, inclusive,
reflexões sobre a identidade cultural dessas crianças leitoras.
Por se tratar de um objeto novo, com características singulares e dimensão
estética essencial, a literatura infantil possibilita múltiplas pesquisas. Na esteira deste
debate, pretendo problematizar ficção, mimese e imaginação a partir dos contos
Mandingas da Ilha Quilomba, Do outro mundo e Do outro lado tem segredo, criações
de Ana Maria Machado, refletindo a apropriação do real e a sua ficcionalização,
interpenetrado pela imaginação criativa da escritora, que busca, penso, levar às crianças
temas mais complexos normalmente não oferecidos às crianças por serem considerados
inapropriados. Acerca das imbricações em torno do real, do imaginário e do ficcional,
os conceitos de mimese 5 postulado por Costa Lima e de imaginação defendido por Iser
nos servem de aporte a esta discussão.
Luiz Costa Lima (2000) considera a mimese como uma atividade dialógica, em
que a representação existe, mas não representa algo anterior, ela é produto de uma troca,
um efeito de ir e vir. O fluir da narrativa constitui uma via de mão dupla em que os fatos
e as leituras que marcaram o cotidiano de Ana Maria Machado pontuam a ficção e viceversa, assim o leitor pode exercitar o mesmo movimento de vaivéns encenado pela
autora, como numa brincadeira em que as peças são movidas pelo imaginário. No
cenário teórico da estética da recepção e do efeito, as ideias de Wolfgang Iser podem
complementar as postulações de Costa Lima. Iser (1979) apoia-se, igualmente, na
orientação despragmatizada da ficção articulada ao "imaginário, aos atos de fingir e ao
jogo". A ficção funciona, então, como um campo de ação onde um processo lúdico de
fingimento é ativado, descerrando o livre acesso da escrita ao imaginário. A mimese
verbal constitui uma forma de jogo que possibilita a encenação de uma realidade que se
inscreve na estrutura do fingimento. O texto que se ancora nesse processo lúdico atrai a
presença do imaginário e é, necessariamente, marcado pela ambiguidade, especificidade
do texto literário, o que, entretanto, não impossibilita ao jovem leitor sair dessa
experiência com uma nova visão de mundo, mais crítica e reflexiva.
Nessa empreitada, busco ressaltar algumas possibilidades de diálogos entre a
história e a literatura, lançando meu olhar em questões que permeiam as experiências
5
Teóricos grafam o termo de formas distintas: mimese e mímesis, opto pelo emprego da primeira,
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
36 vividas, a memória, a história, a linguagem e as suas significações. A questão principal
que se afigura é a importância da vivência e do discurso dos personagens Bino, Rosário
e Chico como elemento mediador entre literatura e questões sócio-históricas e
identitárias, pois as construções literárias possibilitam o deslindamento da dinâmica e
dos elos que compõem a sociedade e, consequentemente, daquilo que nos constitui. A
partir das experiências de vida dessas personagens, discuto a relação entre mimese e
imaginação perpassada pela reflexão acerca de questões étnico-raciais, tradição e
diversidade cultural. A ficção contemporânea trata dessas questões por diferentes
perspectivas. Pensamos que todas são importantes, umas por não deixarem de lado o
preconceito e o racismo que devem e precisam ser refletidos; outras, importantes por
mostrarem os negros em situações cotidianas, como pessoas comuns que descendem de
um povo de cuja cultura e tradições nós, brasileiros, somos herdeiros.
Nos últimos anos, a produção literária voltada à infância tem repensado a
condição de excluído a que foi relegado o negro nas histórias infanto-juvenis
tradicionais. Esse caráter marginalizador passou a ser substituído por uma atitude
compromissada com a necessidade de reforçar, de maneira positiva, a identidade
cultural dos afrodescendentes. Ana Maria, uma das pioneiras, ao lado de Ruth Rocha,
buscou trazer para a sua literatura a apropriação de conhecimento e domínio dos valores
culturais do mundo africano. Ao optar por protagonistas negros, tidos como inferiores
diante dos valores do mundo ocidental, Ana criou personagens que marcam uma nova
posição ideológica do negro, portador de beleza, de história, de voz e de ação dentro do
contexto que é representado imageticamente a partir de nítidas características de etnia e
de cultura, tornando propícia a ligação desses conhecimentos com a capacidade de se
organizar e agir socialmente.
As três histórias, Mandingas da Ilha Quilomba, Do outro lado tem segredos e
Do outro mundo, partem de elementos da realidade cotidiana, num ambiente em que
atuam crianças comuns, com características peculiares a essa etapa da vida. Os contos
têm como pilares o sentimento de liberdade e a esperança de um tempo em que as
relações possam ser diferentes, diferentes para melhor, há que se ressaltar.
Na novela Do outro lado tem segredos, um narrador enigmático conta a história
de vida do protagonista numa aldeia de pescadores. Aos poucos, na interação cotidiana
com o grupo e relatos da avó Odila e do senhor Mané Faustino, descendentes de
africanos, Bino, personagem/protagonista, ganha voz e vai desvelando, conhecendo e
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37 aprendendo a história, as tradições e a cultura de seu povo. Para Halbwachs (1990), o
tempo é social, a memória está no grupo, e o trabalho de reconstrução do passado só
pode ser realizado se nos apoiarmos nas tramas da ajuda mútua e solidariedade múltipla
dentro das quais estamos engajados. Bino, respaldando-se apenas em relatos de outras
pessoas, pela potencialidade do imaginário, é capaz de recuperar coisas vividas, de
imaginar o que não viu e conceber o que não experimentou. Este conto não é escrito em
primeira pessoa, no entanto, a não explicitação do narrador deixa margem para que
vejamos Bino tomar posse do discurso narrativo pelo qual vai recuperando a história de
seus ancestrais e, ao mesmo tempo, vai oportunizando aos demais interlocutores o relato
do passado vivido, retomado pela lembrança e que mantém constante articulação com
os acontecimentos do presente. Bino cria uma ponte significativa entre a sua vida e a de
seus antepassados pelas lembranças narradas por Mané Faustino e sua avó, e vai, passo
a passo, construindo a sua identidade. Esses flashes do passado trazem uma nesga da
sociedade escravocrata vista sob a perspectiva do explorado. Nesta narrativa, a cultura
livresca, de tradição ocidental civilizada, se contrapõe a outra, encarnada, neste livro,
pela figura de velhos pescadores. No final do livro, o protagonista assume a tradição
cultural de seu povo, supera os conflitos e começa a encontrar respostas para as suas
indagações; descobre, por exemplo, que é capaz de ler a natureza e seus elementos à
semelhança dos anciões, do Rei Congo, do Zumbi do Quilombo e de tantos outros de
sua gente. Nas malhas da ficção, o passado e o presente, o verossímil e a imaginação
dialogam; recriado pela escrita, o cenário se torna memória de uma experiência pessoal
e estética transformadora.
Em Do outro mundo, Ana Maria surpreende o leitor nas páginas iniciais quando
o narrador anuncia um grande mistério que será narrado. Num barracão, transformado
em anexo para uma pousada, um grupo de amigos dorme; Mariano, o narrador, acorda
com ruídos assustadores. A autora cria um clima de suspense que leva o leitor a pensar
que se trata de uma história sobre o medo ligado ao sobrenatural, entretanto o medo de
que trata a história é o da escravidão e todos os horrores dela decorrentes. O medo
inicial do fantasma da garotinha negra logo se dispersa, dando vazão a dois desafios: o
de vencer o medo de escrever e o de resolver o enigma que liga o passado da escravidão
ao presente. À medida que escreve, Mariano, garoto branco amigo de Elisa e Leo, vai
corporificando a sua lembrança e dando o testemunho do que viu e ouviu de Rosário,
espectro de uma garotinha escrava que vivera ali naquele anexo da pousada, quando o
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38 espaço era destinado à senzala da fazenda. O cenário em que se dá a trama no presente é
também o ambiente onde o passado é evocado e (re)criado, passado e presente se
cruzam no mesmo espaço geográfico. A narrativa, de linguagem e apelos realistas, é
quebrada pela inserção do sobrenatural, que configura o “outro mundo”, metáfora da
escravidão, remetendo-nos àquela época pela voz da personagem Rosário. A fusão do
realismo com o sobrenatural se dá de forma natural e espontânea, Rosário é percebida
como uma criança real, presença justificada pela missão de descobrir o paradeiro de seu
irmão, desaparecido durante um incêndio criminoso na senzala. Ana Maria faz uso do
recurso da construção em abismo, comum às narrativas em que o protagonista é um
escritor; o leitor é, então, convidado a participar da trama e, juntamente com os
personagens, a montar o quebra-cabeça. Acabamos por descobrir que Amaro, o irmão
de Rosário, é o tataravô de Elisa e Léo, filhos de Vera, que divide o negócio da pousada
com a mãe de Mariano, daí a explicação para a descendência mestiça dos irmãos já que
a outra linhagem da família é italiana. É possível conjecturar que Ana Maria Machado,
ao dar voz a um narrador branco, pretendeu dizer que os negros já abordaram
exaustivamente o assunto, principalmente por estarem na condição do explorado e
discriminado. E agora, cabe ao branco garantir maior visibilidade ao tema, atraindo a
atenção de mais pessoas para o problema, além de delegar aos brancos o esforço para
uma maior conscientização a respeito do assunto já que há muito os negros a possuem,
além de passar a bandeira da defesa do negro para as mãos daqueles que sempre
estiveram na posição de explorador.
Segundo Sampaio Dória (2008), nesta narrativa não há compromisso com a
realidade presente; a história que vem do passado, provoca emoções fortes, mas não as
transpõe para os dias atuais, tampouco há uma relação entre o relato de Rosário e a
experiência dos demais personagens, ela fica restrita ao fenômeno específico da
escravidão. Concordo com o crítico quando diz que não há compromisso com a
realidade; exatamente por não haver compromisso com o real é que se trata de um texto
literário, pois à literatura cabe o compromisso com a estética.
Como defende Costa Lima, as imagens do texto evocam o mundo apenas para
retirá-lo de sua "realidade" e precipitá-lo nas brumas nebulosas do imaginário, que
rasura os contornos, apaga a nitidez e retira o foco da verdade. Salienta que a
tematização imaginária da mimese confecciona o caráter irrealizador e despragmatizado
do discurso literário, que, liberado de sua âncora nas referências cotidianas, "se
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39 caracteriza como uma territorialidade não documental, prazerosa e questionadora da
verdade socialmente estabelecida". (1986:304). Mas, se por um lado, para Costa Lima,
as obras não são documentos de um contexto histórico, por outro, ele reage contra uma
forma de leitura que efetua um divórcio com o mundo que assimilamos como real.
(2000:20-1).
Acrescento que, embora afastada do compromisso documental, a leitura literária
de qualidade leva à reflexão crítica e, consequentemente, à transposição para a realidade
do conhecimento que a obra propiciou. Ana Maria não faz, de forma manifesta, uma
conexão entre a escravidão no século XIX narrada na obra e o preconceito camuflado ou
liberdade cerceada no século XXI, propicia, entretanto, motivos para que a criança
leitora de nosso século estabeleça essa ponte e direcione a sua reflexão nesse sentido,
principalmente quando orientada para este fim.
De sua experiência da infância em Manguinhos, litoral do Espírito Santo, Ana
trouxe a observação da dureza da vida dos pescadores; da vivência nos anos de ditadura,
um pensamento social atrelado à liberdade e ao valor do trabalho; da artista, a
imaginação fértil; aliadas, essas experiências resultaram em Mandigas da ilha
Quilomba, uma história que associa mar, liberdade, trabalho e cultura africana. Tão
importante quanto a magia que encanta o leitor deste conto é a transformação da
percepção de mundo processada nos personagens. Chico (garoto negro filho do
empregado), inicialmente, é um coadjuvante de Carlos (garoto branco filho do patrão),
sua dimensão ética é acentuada pela condição sócioeconômica desfavorecida, condição
que aponta para o fenômeno do preconceito introjetado ou autopreconceito, mantido em
razão da dificuldade de as pessoas pensarem sem se valerem de estereótipos.
Antonio Dória escreveu que “os estereótipos geram uma fixidez de reação diante
dos objetos que raramente é quebrada – e o espaço que cada indivíduo ocupa na
sociedade mantém-se estático.” (2008:32) Chico aceita sua condição de explorado e
assimila o preconceito, incorporando-o como algo natural, pois a ele parece ser mais
seguro ocupar um lugar modesto do que desafiar aquele que detém o poder, numa
espécie de redenção condicionada pela assimilação da cultura europeia colonial. E o
autor acrescenta que não é por acaso que o preconceito se volta, geralmente, contra o
mais fraco e não raras vezes o discriminado introjeta a debilidade que lhe imputam, pois
o fim da escravidão não significou o fim dos preconceitos. Foi, ao contrário, um
capítulo novo na história das desigualdades; libertos e sem oportunidade de ascensão, os
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
40 negros foram atirados à própria sorte, obrigados a viver livres num país em que foram
escravos.
No decorrer da história, entretanto, processa-se uma metamorfose e a inicial
submissão de Chico aos caprichos e quereres de Carlos verga-se a uma vontade própria,
que vai ganhando densidade ao longo do texto:
[...] Ainda por cima, ficava levando bronca de um cara que
sempre tinha ouvido calado tudo que ele dizia [...].” O silêncio
imposto pela submissão vai cedendo lugar à voz da identidade
que ganha intensidade a cada nova ação: “Chega, Carlos, não dá
mais [...] (MACHADO, 1984:17).
Essa força, esse sentir novo, vai ganhando dimensão à proporção que o velho da
ilha conta a história do tempo do cativeiro, da luta pela liberdade, da fuga dos escravos
para os quilombos e da esperança da raça6 . Concomitantemente, Carlos vai aprendendo
sobre respeito e igualdade, e, à medida que percebe a transformação de Chico, que ouve
a história do ancião da ilha Quilomba e que reflete sobre suas próprias ações, também
nele se processa uma transformação, embora menos profunda do que aquela que se
processara em Chico. À medida que relata, o narrador vai se descobrindo e muito
daquilo que, inicialmente, lhe é imperceptível, vai sendo (re)significado à medida que
reflete. Este conto fala sobre a descoberta da capacidade do homem de fazer por si
mesmo sem explorar o trabalho alheio, fala do livre arbítrio, da capacidade de realizar e
de inventar. A ilha Quilomba não existe realmente, não se trata de um referente
geográfico, ela é um espaço onírico, criação daqueles que anseiam por liberdade e por
saber, pois uma e outro compõem frente e verso de uma mesma moeda.
Alguns contos contemporâneos reproduzem e reforçam os estereótipos da
aparência em detrimento da essência comum aos contos tradicionais, em que o ético e o
estético se repetem como identidades fixadas de modo a demarcar diferenças. A
diferença, fonte enriquecedora de heterogeneidade e hibridismo, não deve ser vista pela
via do antagonismo, mas como uma possibilidade para perceber o que somos e o que
nos falta na relação “eu” e o “outro”. Para Homi Bhabha (2003), a “diferença cultural
não pode ser compreendida como um jogo livre de polaridades e pluralidades no tempo
homogêneo e vazio da comunidade nacional.” É necessário entender que igualdade e
desigualdade são construções sociais de razões econômica, histórica e cultural e, por
6
Emprego a palavra “raça” num sentido mais profundo, a junção de etnia (negritude) e raça (ser humano)
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41 conseguinte, a diferença não deve ser utilizada como geradora de desigualdade e
exclusão. Penso que constitui matéria relevante refletir e questionar sobre as relações de
poder, identidade, diferença e multiculturalismo presentes nos textos literários infantis
contemporâneos, a exemplo dos textos da autora que escolhi para este estudo.
A presença do leitor é, por conseguinte, condição sine qua non para que haja a
interação texto ficcional e realidade sensorial, pois ao leitor cabe essa dinâmica, sem a
qual o processo de leitura é inviável e a interpretação inexistente. Segundo Iser, o leitor
deve agir como um co-criador do texto na medida em que supre, com o imaginário, a
porção que não está escrita, mas apenas implícita. A literatura é algo inacabado, em
constante transmutação; assim como o ser humano, é a leitura que provoca a contínua
interação entre as expectativas modificadas e as memórias transformadas, ambas
ativadas pelo imaginário.
Em Do outro mundo e em Mandigas da Ilha Quilomba, a realidade do cotidiano
é invadida por elementos imaginários; no primeiro pelo sobrenatural, no segundo pelo
maravilhoso. Somente em Do outro lado tem segredos, o universo da trama é criado
com elementos do cotidiano dos pescadores associados à cultura e à tradição dos
aldeões resgatada pela memória dos velhos da aldeia. Os homens, vivendo em
sociedade, têm a capacidade de recuperar as coisas vividas e, pela potencialidade do
imaginário, de verbalizar cenas e fatos, semelhante ao que ocorre com os personagens
Odila e Mané Faustino. Os sujeitos personagens vão se constituindo nas práticas sociais,
na teia do discurso e na memória coletiva.
No terreno da ficção literária, a mimese se configura por sua especial sujeição ao
imaginário; por estar submetida à instância imaginária, ela escapa ou recusa a atividade
perceptual, que regula as relações pragmáticas entre o sujeito e o modelo. Se, para Costa
Lima (2000), a mimese se define como processo criativo, é porque corresponde a uma
produção do imaginário que jamais repete o modelo passivamente. A mimese resgata,
na aparente semelhança, a diferença latente, ela (re)apresenta o modelo não sob o signo
da realidade percebida, mas como o signo da imagem precipitada, e a memória constitui
terreno fértil para esta reflexão. Costa Lima desenvolve todo o seu debate em torno da
mimese baseado na ideia de que a ficcionalidade do literário opera dentro do eixo
ambíguo que oscila entre a semelhança e a diferença. O espaço de tensão criado a partir
da tematização imaginária leva a mimese a driblar um horizonte de expectativas de
identificação e semelhança para acionar um horizonte de estranhamento e diferença.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
42 Ana Maria Machado sempre se dispôs a escrever para interferir no processo de instigar
o senso crítico; para tanto, procura conciliar na ficção os problemas reais vividos com a
fantasia, indispensável ao universo infantil, tudo costurado por uma linguagem rica em
imagens e poesia e é aí, nesse espaço movediço, nesse entrelugar, entre o real e o
imaginário, que a ficção se precipita.
Em seu livro Texturas, Ana escreveu que “a boa leitura garante a possibilidade
de ascensão social e a tomada de uma parcela de poder, desenvolvendo a capacidade de
ler entrelinhas e pensar pela própria cabeça” (2001:184), demonstrando plena
consciência do valor desta literatura e de que palavra é poder. Penso que produzir para
este público específico requer maior responsabilidade, pois nas entrelinhas das histórias
é revelado todo um código de ética. A relação leitor/livro e as discussões que podem
surgir destas leituras, cujas histórias trazem protagonistas negros, qualquer que seja o
tema, podem propiciar a abertura de caminhos para a busca da identidade étnica da
criança negra e contribuir para que as crianças brancas conheçam outra cultura e
possam, desta forma, respeitá-la porque a conhecem. E, se esta via de leitura nasce de
um texto rico em imagens poéticas, é certo que se trata de literatura, independentemente
da temática geradora do discurso ficcional, uma coisa não exclui outra, pelo contrário, a
meu ver amplia a margem de possibilidades reflexivas.
Análises de situações como essas nos levam a pensar na leitura de textos
literários para/por crianças como um modo significativo de partilhar a experiência
coletiva e histórica. Fanny Abramovich (1997) escreveu que a literatura nos possibilita
descobrir o mundo, mesmo que por vezes ele esteja imerso em conflitos e impasses.
Nelly Coelho (2002) complementa a afirmação, dizendo que cabe à literatura infantojuvenil a responsabilidade na formação da consciência de mundo das crianças e dos
jovens, delegando à literatura infantil a tarefa fundamental de ser agente de formação.
Se podemos concebê-la como um agente formador de consciência crítica, a escrita para
os pequenos pode e deve abordar temas mais complexos como o racismo, o preconceito
e a discriminação. É necessário, por conseguinte, buscar o exercício reflexivo sobre a
identidade cultural do negro como personagem ativo dentro da literatura infantil, pois a
ficção pode reforçar os traços identitários afirmativos e os valores culturais do negro. As
crianças aprendem com facilidade sobre as diferentes culturas, pois esta aprendizagem
exige delas o que têm de mais produtivo: a curiosidade, a imaginação e a facilidade de
associação com o diferente. Esse exercício do relativismo pode contribuir para a
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43 formação de um novo imaginário infantil, como uma preparação para novas atitudes e
ações diante da questão da identidade cultural e da representatividade social das
diversas etnias na sociedade contemporânea.
Ana Maria demonstra imensa sintonia com as questões de seu tempo, e os
problemas sociais que a preocupam estão sempre presentes nas suas obras, deixando
vestígio através da subjetividade dos personagens. Um de seus principais dons é
penetrar no pensamento das crianças, fazendo uso de linguagem elaborada, ao mesmo
tempo clara e direta, o que ela justifica apontando boa memória e experiência de vida.
Ao rememorar e (re)significar o passado, busca também construir estratégias na
tentativa de instituir um processo de mudança e transformação do momento em que
vive. Trata-se de uma atividade representativa que, ao invés de repetir o mundo,
irrealiza-o e despragmatiza-o a partir da tematização do imaginário: "o imaginário supõe
a irrealização do que toca e a aniquilação das expectativas habituais"(COSTA
LIMA,1986:194). Mas, é pertinente lembrar que o próprio Costa Lima reage contra uma
forma alienada de leitura que rompe com o mundo, penso que seja o meio-termo criar
condições para refletir.
Ana propicia um espaço sublinear de possibilidade de problematização de
mensagens, lugar em que os discursos preconceituosos podem ser contestados,
(re)significados e superados. Um espaço em que o multiculturalismo é tratado como
possibilidade
de
conhecimento
e
de
crescimento
pessoal,
um suporte
de
questionamentos e de reflexões, pois seu conteúdo envolve crenças, ideologias e
conceitos dos mais variados. Trata-se de produções culturais que não são neutras,
trazem características dos contextos históricos e sociais nos quais estão inseridas sem,
contudo, ser veículo de panfletagem. A história que diverte e instiga é também um
instrumento relevante para conhecimentos que a criança vai acrescentando à sua
bagagem cultural e, dessa forma, vai compreendendo e (re)elaborando o mundo onde
vive. Nelly Novaes Coelho diz que a boa literatura propicia ao leitor divertimento,
prazer, emoção “e que, ao mesmo tempo, ensina novos modos de ver o mundo, de viver,
de pensar, de reagir e de criar”.(2000:49) Para além do lazer e do poder de desenvolver
o gosto pela leitura, estes contos de Ana Maria Machado podem auxiliar na construção
da identidade das crianças negras, pois em boa parte dos livros infantis mais utilizados,
pelo contrário, os negros não aparecem e, quando aparecem, muitas vezes são
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
44 personagens sem voz, sem vez e sem história, o que pode levar a criança negra a se ver
como diferente. Lembrando Dória:
...é importante conhecer não apenas a si mesmo, mas também o
outro. O diferente. E assim como o outro começa a ganhar uma
existência mais ampla, através do imaginário, ele pode ganhar
mais espaço concreto, na vida real. (2008:16)
E os textos de Ana aparecem como possibilidade de identificação e percepção
do diferente como acréscimo e não como exclusão.
Foi a partir das experiências de vida de Bino, Rosário e Chico, percurso para o
autoconhecimento e busca de identidade, que procurei identificar relações e lembranças
que retratam deslocamentos importantes na história da sociedade brasileira e na
constituição da identidade. Penso que, ao ler, refletir e discutir sobre discriminação,
preconceito e exclusão, a criança pode contribuir para a quebra do silêncio sobre estes
assuntos, pois a literatura, poderosa construção simbólica, penetra no pensamento dos
pequenos leitores, ajudando-os na construção do pensamento crítico e na
conscientização do problema. E mais, ao perceberem o problema de forma diferenciada,
podem romper com imagens estereotipadas e preconceituosas veiculadas em grande
parte dos livros a eles destinados.
Embora ainda haja muito a fazer no sentido de minimizar as máculas de uma
história do negro marcada pela constante ideia de carência de civilização e cultura e de
traço estético, Ana Maria já busca uma literatura nacional que valoriza a figura do negro
como protagonista e personagem positivo. São obras cujas relações “interpersonagens”
refletem a tolerância, a convivência, o interesse por outras culturas, o respeito pelo outro
como forma de poder se tornar um diferencial na sociedade do nosso tempo.
Longe da defesa de uma literatura infantil realista a serviço da panfletagem
baseada numa discussão crua e nua de problemas sociais, defendo uma literatura que
mantenha a sua essência na magia e no encantamento, proporcionada pela riqueza da
linguagem e pela construção de imagens insólitas, que seja também um espaço de
possibilidades para refletir relações humanas e, nessas relações, o diferente, jamais uma
literatura porta-voz do reforço da divisão social, berço de estereótipos estreitadores da
representatividade social e cultural.
Acreditamos que, ao trazer para a sua criação personagens representativas dos
grupos minoritários, a autora possibilita a elevação da autoestima das crianças leitoras
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
45 pertencentes a esses grupos, na medida em que com elas se identifica pelo que
apresentam de melhor. Por esta via as crianças de qualquer etnia podem se ver como
crianças capazes de pensar, refletir e criticar, e mais, este tipo de texto pode propiciar
um retorno dessas crianças ao contexto em que a convivência positiva entre as pessoas
seja possível. Isso não quer dizer que a narrativa de Ana esteja presa a um compromisso
político-social; mas nenhuma obra é de todo neutra, principalmente quando sua autora
tem uma história de vida ligada a esses propósitos e pautada em princípios éticos
definidos.
Embora sua obra permita múltiplas leituras, é, certamente, a vertente estética que
a identifica e a qualifica como uma das maiores escritoras do gênero. Livre das amarras
nas referências cotidianas, mas rica em experiências de vida, Ana prima pela expressão
criativa, pela linguagem transbordante de significados, imagens inusitadas e construções
poéticas, próprias da grande literatura, propiciando ao leitor de qualquer idade
momentos de imenso prazer estético. Se por um lado Ana colhe na sua vivência motivos
para a sua narrativa, é muito mais pela imaginação que sua obra se edifica; sustenta-se
aí a possibilidade de leitura das obras desta autora sob a luz da teoria de Costa Lima e
Iser, que se complementam quando a questão é o imaginário e o jogo criativo.
Creio que este estudo pode contribuir para o resgate das relações indivíduo/meio
e a importância que estas relações representam como estabelecimento de um sentido
maior para a percepção do sujeito no mundo, neste caso, as crianças leitoras de Ana
Maria Machado. Saliento que este trabalho não esgota o tema aqui proposto, trata-se de
um estudo introdutório que levanta questões importantes sobre a relação mimese, ficção
e imaginação e que demonstra a contribuição do pensamento teórico de Iser e o de
Costa Lima para a análise literária, pensamentos que, no meu entendimento, se
complementam, ao mesmo tempo em que propiciam a interface entre a literatura e
outras áreas do conhecimento, fornecendo elementos para a reflexão sobre o papel da
literatura na construção da identidade negra.
Espero também contribuir para a compreensão da importância de uma visão
crítica e reflexiva sobre o que é lido pelas crianças e a necessidade do cuidado com as
mensagens veiculadas e a apropriação dos discursos em tais histórias. Nesse sentido,
ratifico que é possível conjecturar que Ana Maria Machado, ao selecionar, combinar e
recolher dados da realidade, ficcionalizando-os, incita seus leitores à reflexão sobre
questões aparentemente distantes do universo infantil, alargando o seu horizonte
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
46 cultural, além de propiciar grande prazer, quer por corresponder às expectativas de seus
leitores, que se identificam com o texto lido; quer por surpreendê-los ao romper com
paradigmas e (pre)conceitos, levando-os ao questionamento e ao diálogo constante com
o texto.
As ideias não têm raízes e viajam no tempo e no espaço, proporcionando sempre
novas historicizações e apropriações. Ana se apropria de elementos de seu cotidiano,
das histórias de vida de amigos e desconhecidos, das leituras que realizou, de fatos
históricos e de reflexões filosóficas, de temas revolucionários, das experiências
marcantes, de uma infinidade de motivos, enfim, dando-lhes novas cores, inusitados
sentidos, surpreendentes sabores, pelo exercício da imaginação, transformados.
Diversos são os caminhos que podem ser traçados e trilhados com o objetivo de
contribuir para a construção da identidade, para a aceitação do diferente, para o
conhecimento de novas culturas e o respeito a elas e para a quebra de paradigmas, a
literatura é mais um deles.
REFERÊNCIAS:
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil – Gostosuras e bobices. São Paulo:
Scipione, 1997.
BHABHA. H. (1998). O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2007.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil – teoria – análise- didática. São Paulo:
Moderna, 2002.
______. Literatura Infantil. 7 ed. São Paulo: Moderna, 2000.
COSTA LIMA, Luiz. Mímesis: desafio ao pensamento. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2000.
______. Sociedade e Discurso Ficcional. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
DÓRIA, Antonio Sampaio. O preconceito em foco: análise de obras infanto-juvenis:
reflexões sobre história e cultura. São Paulo: Paulinas, 2008.
HALBWACHS, Maurice. A Memória coletiva. Tradução Laurent Léon Schaffter. São
Paulo: Vértice, 1990.
ISER, Wolfgang. O Fictício e o Imaginário: perspectivas de uma antropologia
literária. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1996.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
47 ______. Os atos de fingir, ou o que é fictício no texto ficcional. Trad. de Luiz Costa
Lima (1979). In: COSTA LIMA, L. C. Teoria da Literatura em suas Fontes. vol. II. Rio
de Janeiro: Francisco Alves, 1983, p.955-984.
MACHADO, Do outro lado tem segredos. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
______. Do outro mundo. São Paulo: Ática, 2002.
______. Texturas: sobre leitura e escritos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
______. Mandingas da ilha Quilomba. 2 ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
48 AS RELAÇÕES DISCURSIVAS NO CONTO O ALIENISTA
Oton Magno Santana dos Santos 7
O conto O Alienista, de Machado de Assis faz parte da coleção Papéis avulsos,
publicada em 1882. Narra a história de Simão Bacamarte, um médico que se dedica ao
estudo da loucura. Para tanto, utiliza o seu prestígio para construir um hospício em
Itaguaí, cidade fictícia do interior do Rio de Janeiro. Seu objetivo é prestar um serviço à
ciência e à comunidade. Ao longo da história, diversas e surpreendentes atitudes do
médico aguçam a curiosidade e provocam os moradores da tal cidade. No entanto, suas
atitudes mesmo que discutíveis se justificam sempre em nome do fortalecimento
científico, tendo por base o discurso legitimado e a posição social do alienista.
De uma forma exacerbada, Simão Bacamarte expõe em fortes tintas a
supremacia da ciência em relação a qualquer tentativa de explicação dos fenômenos
naturais. Trata-se da consolidação de uma relação que envolve poder, discurso e
ideologia a serviço do pensamento científico. É a partir desta observação que norteamos
este estudo, visando um entendimento do estabelecimento dos papéis sociais, como eles
se definem e como atuam dentro de uma determinada sociedade.
Aparentemente, o tema predominante na obra em estudo é a loucura. Por outro
lado, no decorrer da narrativa percebemos certa precipitação na definição de tal
posicionamento. Entendemos que o referido tema não se reduz ao conceito que
representa, por exemplo. Ao contrário, ilumina outras visões que dão margem a várias
possibilidades de abordagem das questões presentes no conto. Uma dessas visões se
refere aos discursos presentes nas falas do narrador.
Já no início da narrativa, percebemos um comportamento diferente em duas
atuações do narrador. No primeiro caso, a postura é mais distante. A escolha dos
termos, bem como a disposição dos mesmos nas orações que se seguem, sugere um
discurso do ouvi dizer, ao invés de afirmar. Atribui a autoridade do narrado a um sujeito
plural praticamente indeterminado. Além disso, sugere certa elaboração mental das
características do personagem em voga, as quais provocam, dessa forma, concepções de
juízo de valor ao objeto da narrativa, isto é, Simão Bacamarte.
7
Especialista em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa e Mestrando em Letras, pela
Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilhéus-BA). Professor Auxiliar da UNEB, Campus XX, Brumado.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
49 As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos
vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da
nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e
das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro
anos regressou ao Brasil, não podendo El-rei alcançar dele que
ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa,
expedindo os negócios da monarquia. (MACHADO DE ASSIS,
1998, p,01)
Em outra passagem, a relação de proximidade com o objeto narrado acentua-se.
Aqui, tem-se a ideia de que se trata de outro narrador ou é o mesmo narrador utilizando
outro discurso revestido de outros componentes os quais são essenciais para a confecção
de sua matéria.
Disto isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma
ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e
demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos
casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte
e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem
simpática. (idem, p. 02)
O narrador, nesta passagem, abandona a postura distante e assume seu
envolvimento com a história, seja pela escolha das expressões próximas às da fala, seja
pela velocidade ou agilidade que conduz a narrativa. Além disso, no trecho em
destaque, percebe-se certa familiaridade entre o ser que conta as histórias e os fatos
narrados.
Há dessa forma, uma alternância entre os discursos do narrador os quais, de certa
forma, influenciarão como as histórias serão contadas. A partir daí, temos um ser que irá
nos fornecer o material essencial para o nosso estudo. Portanto, conscientizamo-nos de
que nosso estudo será pautado nas informações fornecidas por um narrador cuja imagem
remete a apanhar um peixe com as mãos.
A concepção de cultura suscita na contemporaneidade muitas discussões acerca
dos objetos que compõem o referido termo e suas configurações. No entanto, as práticas
que envolvem tal concepção datam de épocas anteriores. Preferimos adotar a expressão
cultura como processo e não como conceito, uma vez que no texto aqui estudado, as
manifestações culturais oscilam conforme a sociedade se transforma. Desse modo, a
sociedade e aquilo que a mesma transforma configura-se em processo culturais,
conforme acentua Canclini (2007, p. 41): A cultura apresenta-se como processos
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
50 sociais, e parte da dificuldade de falar dela deriva do fato de que se produz, se circula e
se consome na história social”
Na narrativa machadiana, Itaguaí é pintada como uma típica cidade do interior
do Brasil. Por isso, o espanto e a devoção ao filho mais ilustre da terra. Quando as obras
da casa verde são concluídas, a cidade festeja durante sete dias. Uma alusão aos sete
dias que Deus teria utilizado para construir o mundo? Ou simplesmente a conta do
mentiroso, no popular? Tanto faz. São sugeridas no conto em estudo representações da
ciência e da religião. Parece que estamos lidando o tempo todo confrontando essas duas
visões dentro de um campo de batalha e este seria representado pela cultura local. Como
resultado, temos uma população estupefata e indecisa, acostumada a práticas
deterministas as quais geralmente propõem conceitos do que é certo ou do que é errado.
A data precisa dos acontecimentos narrados em “O alienista” não é fornecida,
mas é possível perceber o período pelas pistas encontradas ao longo da história.
Estamos no século XIX, O regime político é a monarquia. No meio acadêmico temos o
crescimento e a conseqüente valorização do pensamento científico. Na história do
conto, a pacata cidade se rende aos títulos e a sabedoria de Simão Bacamarte.
Inicialmente apenas os indivíduos ditos loucos são trancafiados na casa de orates. Com
o passar do tempo, os que apresentam certas manias, as menores que sejam, também são
recolhidos ao templo. A população começa a se espantar quando as pessoas ricas são
capturadas. Após prender o albardeiro Mateus, um sujeito exibicionista, a população
inquieta-se:
Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a
oeste de Itaguaí, - a medo, é verdade, porque durante a semana
que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas,
- duas ou três de consideração, - foram recolhidas à Casa Verde.
O alienista dizia que só eram admitidos casos patológicos, mas
pouca gente lhe dava crédito. Sucediam-se as versões populares.
Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do
próprio médico (...). (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 14)
A partir desse momento, a população experimenta uma situação nunca antes
imaginada, pois sempre confiou seus destinos a alguma pessoa ou instituição. Nesse
caso específico, mesmo que de forma inconsciente, a entrega aos ramos do saber se
configura mais eficaz do que quanto à religião. Esta representada na figura do padre
Lópes caminha furtiva enquanto Bacamarte, representando as luzes da ciência expõe,
garbosamente, cada vez mais seus discursos permeados de objetivos bem definidos,
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51 pautados na experiência. Ao intensificar os ataques, o alienista provoca uma revolta
comandada por um barbeiro insatisfeito com os rumos da história local. Algumas
pessoas aderem ao propósito do tal barbeiro, mas a maioria não se posiciona até se
certificar de que podem vencer Bacamarte. O barbeiro passou a representar a autoridade
que a população necessitava naquele momento, conforme afirma Michel de Certeau
(2003, p. 11) “(...) toda representação articula e exprime uma convicção, a qual funda,
por sua vez, a legitimidade da autoridade”. Em outras palavras, a adesão dos cidadãos
de Itaguaí só se estabelece quando a suposta autoridade do barbeiro é reconhecida pelos
demais.
Por outro lado, assim que tomam o poder, destituindo a câmara de vereadores, os
rebeldes são surpreendidos pela postura do seu líder. Ao invés de cumprir o que
prometeu - destruir a Casa Verde, o barbeiro Porfírio propõe uma aliança ao alienista,
negociando apoio mútuo para tocarem seus projetos. Esse fato surpreende tanto os
seguidores da revolução quanto os que não a apoiavam. Encontramos, neste caso, certa
relativização de conceitos morais, éticos e políticos, o que acaba provocando novas
formas de representação.
A relação de representação é assim confundida pela ação da
imaginação (...) que faz tomar o logro pela verdade, que ostenta
os signos visíveis como provas de uma realidade que não o é.
Assim deturpada, a representação transforma-se em máquina de
fabrico de respeito e de submissão, num instrumento que produz
constrangimento interiorizado, que é necessário onde quer que
falte o possível recurso a uma violência imediata: só os homens
de guerra não se mascaram dessa maneira, porque efectivamente
o seu papel é mais essencial, eles se afirmam pela força,
enquanto os outros o fazem por meio de dissimulações.”
(CHARTIER, 1988, p. 22)
Como o texto machadiano configura-se numa sátira, nem mesmo os que estão
em guerra assumem postura verdadeira diante das questões que surgem. Tem-se a
impressão de que o barbeiro estava com aquelas intenções o tempo todo ou que,
inebriado pelo poder nunca antes experimentando, sucumbiu ao charme do
conhecimento. Em outra passagem, após a decepção com o Porfírio, outro rebelde, o
barbeiro João Pina, assume o comando da revolução e o governo local, fato que dura
pouco, uma vez que logo a ordem é reestabelecida. Sagra-se apenas um vencedor: o
alienista. Com o prestígio assegurado, ousa fazer novos experimentos mudando de
planos. Agora, os doentes são aqueles que apresentam comportamentos ilibados e,
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
52 portanto, recolhidos à casa verde. Até o próprio barbeiro Porfírio. Após ser derrotado,
quando convidado a fundar outro movimento contrário ao alienista e à câmara, nega-se
terminantemente. Como os critérios de loucura agora são outros, é trancafiado na Casa
Verde. Por esse fato, o novo preso comenta: “Preso por ter cão, preso por não ter cão”
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p.32).
A relativização das representações ilustra o desabafo do barbeiro. Trata-se da
oscilação de pensamento que movimenta os comportamentos sociais. Além disso, tais
representações estão diretamente relacionadas à posição dos indivíduos e como se
configuram em uma sociedade. A noção de representação,
(...) permite articular três modalidades da relação com o mundo
social: em primeiro lugar, o trabalho de classificação e de
delimitação que produz as configurações intelectuais múltiplas,
através das quais a realidade é contraditoriamente construída
pelos diferentes grupos; seguidamente, as práticas que visam
fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira
própria de estar no mundo, significar simbolicamente um
estatuto e uma posição; por fim, as formas institucionalizadas e
objectivadas graças às quais uns representantes (instâncias
colectivas ou pessoas singulares) marcam de forma visível e
perpetuada a existência do grupo, da classe ou da comunidade.
(CHARTIER, 1988, p.15)
Em relação à política, tem-se a impressão de que a história de Itaguaí tende a
construção de um total simulacro. Embora haja apenas um intelectual na cidade, suas
atitudes sempre justificadas pelo discurso científico, acabam provocando a outrora
pacata cidade de modo a revelar as contradições e fragilidades daquele povo. Logo, as
pessoas incomodadas com as experiências, em nome do bem-estar social, postam-se
contra o médico para depois apoiá-lo, visando concretização de interesses pessoais.
No quesito relações interpessoais, o simulacro também se manifesta: a própria
D. Evarista, esposa do alienista e o seu fiel amigo, o boticário Crispim Soares. A
primeira resolve os problemas de insatisfação com o casamento a partir do momento
que é presenteada com viagens e similares. O segundo, ao perceber a iminente queda de
Bacamarte, omite-se ao invés de defender o amigo. Vale aqui a aparência ou a
representação social legitimada por uma determinada sociedade. O indivíduo apega-se
ao que possui, ao material e não o abandona em nome de nenhum tipo de relação
afetiva. Todos estes comportamentos são observados curiosamente pelo alienista. No
entanto, surpreendentemente suas conclusões o levam sempre a mudar o foco da
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53 pesquisa. Em outras palavras, suas hipóteses nunca se confirmam, nem mesmo quando
o próprio se reclusa no hospício.
Sobre as relações de poder, aparentemente, as vitórias estão sempre relacionadas
ao representante da ciência, isto é, ao alienista. A sátira configura-se na simbologia do
poder exacerbado adquirido pelo pensamento científico de cunho positivista e a algumas
sugestões como a analogia entre a guerra dos canjicas e as revoltas pró- independência
ou até mesmo referências à revolução francesa. Tais fatos, dentro da história, provocam
reflexões acerca da relativização de poder, o que nos provoca diante dos seus
instrumentos e a que atende. Primeiro, percebemos que o termo poder, assim como
cultura, não é um fim, mas um meio, isto é, processo. Logo, é vacilante. No texto em
estudo, a oscilação mesmo satirizada revela um quadro onde alguns indivíduos
experimentam tal estado.
No entanto, ao observar o comportamento de tais sujeitos, entendemos que o
poder por ser simbólico, exige alguns requisitos dos seus prováveis usuários. Um deles
é a legitimidade do discurso. Por isso, as visões legitimadas na história, ao seu modo,
asseguram a institucionalidade dos seus discursos. Ao ser interpelado pela rebelião,
assim age Simão Bacamarte:
—Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada
com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a
ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a
administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas, se
exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia
convidar alguns de vós em comissão dos outros a vir ver comigo
os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão
do meu sistema, o que não farei a leigos nem a rebeldes.
(MACHADO DE ASSIS, 1988, p. 20)
Com a certeza e o poder do discurso, a postura do alienista demonstra que o
mesmo já esperava todas as atitudes dos revoltosos, afinal, o médico fazia questão de
estudar minuciosamente todos os seus pacientes. Curiosamente, com todas as guerras
travadas entre ciência e religião, aqui, Bacamarte faz questão de reconhecer o poder
divino, porém, associado aos seus mestres. Em outra passagem, o alienista demonstra
certo cuidado ao lidar com o catolicismo:
Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé
declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes
tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e
profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
54 tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o
pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás
pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele
pontífice eminente. (idem, p. 04)
Trata-se de uma disputa velada pelo poder. Enquanto os revoltosos se expõem
contra o inimigo sem nenhum plano ou estratégia definida, a guerra entre o alienista e o
padre é silenciosa, mas eficiente e cordial. Mesmo quando Bacamarte resolve trancafiar
o padre na sela as relações não são abaladas. Por sua vez, o padre nunca chega a
confrontar diretamente seu algoz, como no trecho a seguir em que o padre vai se queixar
com a esposa do médico:
— A propósito de Casa Verde, disse o Padre Lopes
escorregando habilmente para o assunto da ocasião, a senhora
vem achá-la muito cheia de gente.
—Sim?
—É verdade. Lá está o Mateus...
—O albardeiro?
—O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e
Sicrano, e...
—Tudo isso doido?
—Ou quase doido, obtemperou padre.
—Mas então?
O vigário derreou os cantos da boca, à maneira de quem não
sabe nada ou não quer dizer tudo; resposta vaga, que se não
pode repetir a outra pessoa por falta de texto. D. Evarista achou
realmente extraordinário que toda aquela gente ensandecesse;
um ou outro, vá; mas todos? Entretanto custava-lhe duvidar; o
marido era um sábio, não recolheria ninguém à Casa Verde sem
prova evidente de loucura.
—Sem dúvida... sem dúvida... ia pontuando o vigário.
Temos dos dois lados um discurso cuidadosamente elaborado à luz das
instâncias que o regulam. Ao testar os conhecimentos do padre, o alienista sagra-se
silenciosamente vitorioso, pois se certifica de que possui o poder do conhecimento, o
que o faz experimentar uma sensação de supremacia em relação ao religioso, que por
sua vez, também experimenta tal situação, pois acredita que enganou o estudioso,
relativizando a noção de poder, ou seja, o poder, nesse caso, depende do contexto ou da
visão de cada um dos indivíduos envolvidos. Além disso, existe o aspecto cultural.
Enquanto a ciência se reforça pela prática da razão, o discurso religioso se consagra
pelos dogmas, pela supranaturalidade. Isso é possível porque
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
55 (...) as formas simbólicas estão inseridas em contextos sociais
estruturados que envolvem relações de poder, formas de
conflito, desigualdades em termos de distribuição de recursos e
assim por diante. Essa dupla ênfase define o que eu chamo de
“concepção estrutural” da cultura. Fenômenos culturais, dentro
dessa visão, podem ser vistos como formas simbólicas em
contextos estruturados; e a análise cultural pode ser vista como
um estudo da constituição significativa e da contextualização
social das formas simbólicas. (THOMPSON, 2007, p. 22)
Percebemos, portanto, que as discussões aqui presentes propuseram um olhar
relacionado ao contexto em que a narrativa machadiana aqui estudada se passa. Esse
olhar tende a ser plural, uma vez que o nosso objetivo propõe uma reflexão acerca da
diversidade dos elementos discursivos presentes no conto. Observamos que as relações
sociais se transformam constantemente revelando o que Machado em outro conto,
“Missa do galo”, definiu como a eterna contradição humana, pois o homem construído
pela narrativa machadiana nas mais variadas representações nunca é previsível ou
linear. Todos os indivíduos destacados assumem uma postura definida e em outro
momento age ou pensa diferente. Aliado a isso, temos as instâncias políticas e as
relações de poder, as quais norteiam praticamente todos os atos discursivos descritos no
conto, conforme ilustra Linda Hutcheon: “o discurso é ao mesmo tempo um instrumento
e um efeito do poder”. Em outras palavras, discurso pode ser entendido como processo
e consequência do poder. No conto, isso é verificado pelo fato de que ainda que tenham
ocorrido sucessivas alternâncias de governo em Itaguaí, o poder público sempre apoiou
o alienista. Nesse caso, vale a legitimidade do discurso científico:
O discurso não é uma entidade estável e contínua que possa ser
discutida como um texto formal fixo; por ser o local da
associação entre o poder e conhecimento, ele vai alterar sua
forma e sua relevância dependendo de quem está falando, da
posição de poder dessa pessoa e do contexto institucional em
que o falante esteja situado. (FAUCAULT apud HUTCHEON,
1991, p. 235)
Portanto, mesmo questionado por seu comportamento pelos moradores de
Itaguaí, o Alienista sagra-se vencedor, porque ocupa a dita posição privilegiada, isto é,
após vários confrontos, ele mesmo decide internar-se na famigerada casa verde, e a
população, como sempre é convencida pela justificativa do personagem, como sempre
aconteceu, demonstrando que o discurso legitimado vale mais do que quaisquer outras
formas de discurso.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
56 REFERÊNCIAS:
CANCLINI, Nestor Garcia. Diferentes, desiguais e desconectados. 2ª ed, Rio de
Janeiro: UFRJ, 2007.
CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. 3ª ed. São Paulo: Papirus, 2003.
CHARTIER, Roger. A história cultural – entre práticas e representações. Rio de
Janeiro: DIFEL, 1988.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo, história, teoria, ficção. Trad.
Ricardo CRUZ. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Papéis avulsos. [s.l]: Lombaerts & C., 1882.
In:
Edição
eletrônica.
[s.l.]:
Costa
Flosi,
1998.
Disponível
em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000230.pdf>
THOMPSON, JOHN B. Ideologia e cultura moderna. Petrópolis: Vozes, 2007.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
57 MEMÓRIA E CULTURA:
O INDÍGENA, UMA LEITURA LITERÁRIA.
Maria Angélica Rocha Fernandes 8
Através dos textos Macunaíma,Iracema e O Guarani, de Mário de Andrade e
José de Alencar, respectivamente, pensados pelas teorias de Michel de Certeau, Edward
Thompson, Aldo Vannucchi e John Brand, poderemos ter acesso à memória e às
“verdades nacionais” na construção da identidade brasileira, as quais emergiram nas
narrativas do indianismo do século XIX e XX . A partir do imaginário nacional visto
por esses autores, pretende-se fazer relações interdisciplinares, ampliando a dimensão
de leitura literária para um diálogo com a História, Religião, Antropologia,
Historiografia, dentre outras áreas. A abordagem nacionalista far-se-á à procura de
possíveis analogias no âmbito histórico e literário em seu amplo campo de reflexão,
com leituras possíveis de diferentes e inusitadas linguagens. Através desses textos
poderemos suscitar interpretações que feitas ao longo dos séculos, tendo como pano de
fundo a suposta “História do Brasil” que depuram o senso crítico e artístico do cidadão
brasileiro, implicando com isso negar momentaneamente as leituras já existentes dos
livros, ou de textos que abordam temas aproximados.
É de extrema pertinência propor uma discussão sobre o indígena na construção
da identidade brasileira, bem como a longa história dos seus costumes, linguagens e
memória, retraçar alguns dos principais episódios no desenvolvimento do conceito de
cultura e memória “para obter uma compreensão mais profunda daquilo que esses
termos envolvem e daquilo que deve ser evitado nos estudos contemporâneos dos
fenômenos culturais” (THOMPSON, 1998, p. 165). Muitos estudiosos concordam que o
estudo dos fenômenos culturais é uma preocupação de importância central para a
sucessividade de gerações. O índio, nesse contexto, figura como suporte de análise da
memória do povo brasileiro, suas ações e expressões significativas, suas manifestações
verbais, símbolos e textos; é nesse enredo que nosso autóctone ocupa um lugar de
destaque no estudo do mundo sócio-histórico-literário, constituído como um campo de
significados. Escrever sobre mitos, rituais, lendas, mentiras e olhares divergentes sobre
nossas raízes é tentar fazer de lutas isoladas, lutas coletivas, incluindo a escola como
8
Professora Auxiliar de Literatura Brasileira do DCHT, Campus XX, Brumado. Pesquisadora do Grupo
de Pesquisa Literatura: Leitura, História e Educação.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
58 meio de integração, apoiar o intercâmbio de ideias, coisas boas que fazem falta à
comunidade, porque é nela que cada qual guarda uma verdade que é de todos – como
uma colcha de retalhos que delimita o espaço local na “confecção” dos seus pontos e
costumes para a validação da consciência coletiva e identidade nacional. O índio é visto
por muitos autores da Literatura Brasileira como o passado histórico nacional, como
símbolo de nacionalidade, como suporte seguro contra a internacionalização da nossa
cultura – A representação do índio na literatura brasileira é marcada pelo mito do “bom
selvagem”, o que agrega ao nativo o estereótipo de submisso. Sobretudo, para criar a
imagem idealizada do nacionalismo e, conseqüentemente, apresentar ao resto do mundo
medieval, o que chamariam de herói brasileiro, porque “para civilizar o índio era
preciso assimilar-lhe os padrões culturais; era mister ‘ficar sendo índio’ o mais possível;
regressar ao primitivo” (COUTINHO, 2004). E é através do mito do “bom selvagem”
que os escritores portugueses se interessam pelo índio brasileiro, a fim de demonstrar
não somente o seu poder de posse sobre tal, como também, a amorosidade existente
entre o europeu e o índio.
A partir de leituras das obras O Guarani e Iracema, de José de Alencar, e
Macunaíma, de Mário de Andrade, tento fazer uma análise sucinta do papel do índio no
contexto social, tomando Peri, Iracema e Macunaíma como a representação de uma raça
que sofreu influência e influenciou na formação do caráter nacional.
É nesse contexto que procuro refletir sobre a memória e cultura indígena no
surgimento da civilização brasileira e da sua identidade, porque se quisermos ser
entendidos de nosso povo, havemos de falar-lhe em sua língua com os termos e
locuções que ele entende e que lhe traduzem nossos usos e sentimentos. Não procuro
analisá-lo como herói nacional, mas como “raiz” – promover uma discussão a respeito
desses povos nativos que hoje estão em situação de confronto com a cultura dos
pseudobrancos. No século XVI com o advento do mercantilismo, portugueses e
espanhóis dispuseram-se a cruzar os mares em busca de pagãos, riquezas e glórias. Nos
livros citados, os personagens indígenas convivem harmonicamente com a natureza e o
branco – caracterizando um vínculo social que se baseia na supremacia da cultura
européia. E é através do amor venerável que eles nutrem pelos seres amados que se
firma o processo de catequese e aculturação do índio.
Na casa da cruz, no meio do fogo, Peri tinha visto a senhora dos
brancos; era alva como a filha da lua; era bela como a graça.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
59 O fogo passou; a casa da cruz caiu.
De noite Peri teve um sonho; a senhora apareceu; estava triste e
falou assim:
Peri, tu é meu escravo; tu me seguirás por toda parte.
(...) Peri tomou suas armas e partiu; ia ver o guerreiro branco
para ser amigo; e a filha da senhora para ser escrava.
(...) Era a senhora que Peri tinha visto; não estava triste como da
primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as
estrelas. (ALENCAR, Cap. II, p. 36-37)
Embora Peri tente resistir a supremacia européia, é inevitável perceber que essa
se dá em momentos diferenciados e rotineiros, o que caracteriza, a passos lentos, o
processo de aculturação do índio através da realização dos caprichos de sua senhora
Cecília. Iracema, por sua vez abandona toda a sua “cultura” para seguir Martim,
enquanto que Macunaíma banha-se nas águas mágicas , lavando todo o seu
“negrume”,transformando-se em um “lindo branco”. Peri e Ceci / Iracema e Martim
implicam a reunião de raças procriadoras da nacionalidade; sendo Iracema anagrama de
América poderíamos pensar se a índia não seria uma personificação da virgem terra
americana conquistada pelo branco europeu, e Martim – um guerreiro branco que impõe
de certa forma sua cultura á amada? O desafio é compreender o valor simbólico de cada
personagem e de cada fato. A morte dos personagens do livro O Guarani , a morte de
Iracema, e a do herói Macunaíma ,seria a destruição da raça indígena pela raça
“branca”, como profetiza o próprio Alencar? Opondo-se a sua cultura de homens livres,
Peri e Iracema seguem como escravos da ideologia fidalga, e aproveitando-se da
veneração desses personagens com os respectivos amados , os brancos submetem-nos
ao batismo, casamento e exploração. Os autóctones acabam anulando a sua cultura para
aceitar a cultura européia.
- Se tu fosses cristão, Peri!...
- Por quê?... perguntou o índio admirado daquelas palavras.
- Porque se tu fosses cristão, eu te confiaria a salvação de minha
Cecília, e estou convencido que a levarias ao Rio de Janeiro, à
minha irmã.
- Peri quer ser cristão! exclamou ele com o rosto iluminado.
- A nossa religião permite, disse o fidalgo, que na hora extrema
todo o homem possa dar o batismo. Ajoelha, Peri!
O índio caiu aos pés do velho cavalheiro, que lhe impôs as mãos
sobre a cabeça dando ao índio o seu nome. Peri jurou então que
levaria Cecília até a irmã fidalga. (ALENCAR, Cap. X, p. 8889)
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
60 A confluência racial em Macunaíma se evidencia desde o primeiro capítulo.
Basta ver que o herói índio, nasce preto retinto:
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa
gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um
momento em que o silêncio foi tão grande escutando o
murmurejo do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma
criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
(ANDRADE,1978, p.9)
A saga de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, é inteiramente mítica:
indígena, ele se torna negro e branco ao longo de sua aventura. Deixa sua tribo e vai
para a cidade, em busca da perdida Muiraquitã, cruzando nesse percurso com vários
estratos da realidade social e diversas figuras de mitologias brasileiras. Uma forte
carnavalização percorre a obra, tornando o grotesco, a degradação/regeneração corporal
e a paródia alguns de seus ingredientes estéticos mais salientes.
A situação vivida por Peri nos remete a discussão sobre as relações existentes
entre o homem europeu e o índio brasileiro, sobretudo do ponto de vista civilizatório,
uma vez que há interesses por parte dos portugueses em não somente confirmar o
achamento de novas terras, mas também de contribuir para o fortalecimento do
cristianismo nos quatro cantos do mundo. E os romances citados, carregam em suas
entrelinhas o desprezo que os europeus têm em relação ao índio.
A escravidão e catequese, práticas seculares, também eram partes do negócio;
quando aqui os portugueses chegaram, encontraram gente nativa que equivocadamente
nomearam índios. Esses foram catequizados, escravizados, obrigados a tornarem-se
crédulos e obedeceram à Igreja Católica; quando se negavam a fazer favores para os
novos conquistadores, morriam em confrontos e desentendimentos.
A cultura no singular impõe sempre a lei de um poder. À
expansão de uma força que unifica colonizando e que nega ao
mesmo tempo seu limite e os outros, deve se opor uma
resistência. Há uma relação necessária de cada produção cultural
com a morte que a limita e com a luta que a defende. A cultura
no plural exige incessantemente uma luta. (CERTEAU, 1995, p.
242)
A construção da nossa identidade deu-se nesse contexto de desrespeito, de
singularidade cultural, e isso explica a índole do brasileiro, no início de tudo os índios
se “venderam” por espelhos, por isso “vimos um mundo doente...” e os que ainda não
foram exterminados andam a esmo, sem representação específica, sem saneamento, sem
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61 saúde, sem memória! Resta-nos abordar, discutir e repensar o tema e a cultura de um
povo pioneiro da nossa gente, como no desfile das escolas de samba (2006) a escola
Porto da Pedra desfilou toda a memória e cultura dos nossos primórdios, em uma
mistura festiva e plural de um Brasil que atravessa as alegrias do carnaval e futebol para
contar histórias e dar viva ao povo brasileiro!
Hoje a situação do índio é complexa, pois perderam praticamente quase todas as
suas terras, deixaram de ser escravos oficialmente, mas vivem à margem da sociedade
brasileira e os jovens, confusos com a sua cidadania, onde quem determina as situações
são os não-nativos, e onde não há espaço para a sua cultura, desiludem-se, pois ao lerem
a obra indianista de José de Alencar, percebem as relações de poder coexistentes
ampliando outras relações. No livro O Guarani, a personagem Ceci impõe a Peri (índio
herói) sua “cultura”, seus costumes, inclusive Peri se batiza conforme os dogmas
religiosos e familiares da amada; essa obra constitui a maior expressão épica do
nacionalismo romântico do nosso país apesar dos tropeços nos erros de sua ignorância
etnográfica e esbarros por entre armadilhas da selva de uma terminologia “brasileira”
ainda não bastante esclarecida em sua época. Os romances O Guarani e Iracema são um
testemunho de uma época, são a memória de cenas, “heróis”, aventureiros, aimorés,
catástrofes, cultura! Peri e Ceci / Iracema e Martim implicam a reunião de raças
procriadoras da nacionalidade. São lendas e mitos da terra selvagem, o modo de ver e
sentir que dão nota íntima da nacionalidade permitindo uma leitura mais complexa dos
símbolos, como na rapsódia Macunaíma de Mário de Andrade onde ele se preocupa em
trabalhar e discutir a identidade nacional dos brasileiros, bem como a falta de caráter
dos mesmos:
E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade
moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se
manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no
sentimento na língua na História na andadura (...) O brasileiro
não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem
consciência tradicional (...) Este livro afinal não passa duma
antologia do folclore brasileiro 9 . (ANDRADE, 1978)
Criado a partir de uma pesquisa do autor sobre as lendas amazônicas referentes
às tribos indígenas Arecuná e Taulipang – recolhidas por Koch-Grünberg e publicadas
9
Trecho de um dos prefácios não publicados de Mário de Andrade a Macunaíma – o Herói sem Nenhum
Caráter.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
62 em Von Roraima Zun Orenoco, de 1916 – Macunaíma significa literalmente “o grande
mau” e refere-se a um deus indígena, cujo principal atributo é a malvadeza. Na rapsódia
de Mário, Macunaíma nasce grande, negro retinto, filho de uma índia, casa-se com Ci,
depois que ela dá a luz a uma criança que morre prematuramente, dá ao companheiro
uma muiraquitã famosa. Ci decide morrer e vira estrela. Macunaíma toma banho nas
pegadas de um gigante (que lhe roubou a pedra) e fica branco dos olhos azuis, morre
pelo gigante, ressuscita pelas feitiçarias do irmão, depois de incessantes lutas decide
virar estrela e sobe para o céu. Quem conta a história ao autor é o papagaio de
Macunaíma, já que toda a sua tribo extinguiu-se. “Acabou-se a história e morreu a
vitória” (epílogo da obra). Macunaíma é uma múltipla em sentido amplo. A construção
do texto consegue compreender toda uma gama de conhecimento e crenças ligados à
formação da cultura e identidade brasileira; suas metáforas e pluri-significados nos
remetem a um país que “nasce grande”, preguiçoso, perde sua cultura, que é
internacionalizada nas mãos do “gigante estrangeiro” e acaba por morrer, dia-a-dia, pela
cultura no singular que se torna mortífera; nessa rapsódia ainda percebemos a
valorização da cultura popular e indígena e abordagem da memória nacional,
despertando a consciência crítica, ponto fundamental desse trabalho para que a cultura
indígena não se vá totalmente, pois a memória são as concepções de vida e do mundo
para os povos.
Já estruturado como indianismo romântico, a obra alencariana apresenta a
valorização do índio sob um olhar tipicamente voltado para o mito em que os
personagens fazem prevalecer a natureza sobre a cultura, introduzindo de forma poética
“uma língua mais brasileira que portuguesa” (SANT’ANA, 1973), a partir do momento
em que ele compara metaforicamente a figura de Peri ao poeta primitivo, dizendo que
“o poeta primitivo canta a natureza, na mesma linguagem da natureza”.
Há aí, portanto, uma busca constante da valorização do índio por parte dos
autores, ainda que tal valorização soe como uma simples cópia dos heróis medievais.
Desejando descobrir pistas para a construção de perguntas e respostas que
possam me fazer compreender melhor as minhas indagações, é necessário pesquisar a
princípio a cultura e memória indígena na construção da identidade brasileira; analisar o
enfoque que é atribuído à concepção de cultura, que atrai milhares de pessoas para a
organização de grupos que compartilhem de uma mesma ideologia.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
63 Qualquer juízo de valor atribuído ao fazer pedagógico que é analisado, não
significa que seja algo imutável e definido, pois, vale ressaltar, são as minhas leituras,
as análises variam das circunstancias e das convenções que organizam e delimitam as
instituições. Por meio desse trabalho pretendo contribuir para reflexões e
desvendamentos sobre a construção da identidade nacional, cultura e memória indígena.
O estudo sobre Michel de Certeau permite-nos definir cultura no singular como
mitificação política, ameaça à própria criatividade e ameaça mortífera e é na oposição
entre cultura no singular e cultura no plural que procuro articular os romances
indianistas de José de Alencar – Iracema, O Guarani e Macunaíma de Mário de
Andrade. Edward Thompson mostra os costumes ingleses e a cultura plebéia
perpassados para gerações sucessivas, envolvendo o processo colonizatório e a
transmissão oral, vista também na questão do indígena. John Brand – pioneiro nos
estudos do folclore estuda as manifestações populares abarcando os costumes, lendas e
ditos tão minuciosamente descritos no livro Macunaíma e Aldo Vannucchi pensa que a
classe dominante branca-por-autodefinição tem como preocupação maior salientar sua
branquidade e, no plano cultural, sua europeidade:
A imitação do estrangeiro que era inevitável não seria um mal
em si mesmo porque as transplantações culturais vêm
associadas, freqüentemente, a fatores de progresso. O mal
residia e ainda reside na rejeição de tudo que era nacional e
principalmente popular, como sendo ruim (VANNUCCHI,
1999, p. 14).
Defendo que foi por meio dessa cultura “vulgar” – recheada de elementos
indígenas e africanos – que o povo brasileiro edificou, com os tijolos e cimentos de que
dispunha a cultura nacional significativa para toda a população. São os mitos de
Gonçalves Dias e seu índio herói e mais cada consideração que vai formando um
trabalho de reflexão sobre a raça indígena, nossa identidade nacional, cultura e
memória. Não encerro aqui as fontes que pretendo usar, pois o estudo é como uma teia,
um emaranhado de ideias que vão se concatenando para reflexões maiores.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
64 REFERÊNCIAS:
ALDEIAS. Documento eletrônico. Brasília:
<www.funai.gov.br> Acesso em 01 fev. 2006.
Funai,
[2006?].
Disponível
em
ALENCAR, José de. O Guarani. 19. ed. Cortejado com a edição crítica do Instituto
Nacional do Livro preparada por Darcy Damasceno. São Paulo: Ática, 1995.
______. Iracema: lenda do Ceará. Notas ao texto Dulce Seabra. São Paulo: Scipione,
1994.
ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter. Edição crítica de
Telê Ancona Porto Lopes. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos / São Paulo:
Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1978.
AZEVEDO, Fernando de. A transmissão da cultura. São Paulo: Melhoramentos /
Instituto Nacional do Livro, 1976.
BOSI, Ecléa. Cultura de massa e cultura popular. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1981.
CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. Campinas: Papirus, 1995.
GIRAUDO, José Eduardo Fernandes. Poética da memória: uma literatura de Toni
Morrison. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1997.
GREGG, Vernon. Memória humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2001.
ÍNDIOS. Disponível em <www.indios.org> Acesso em 02 fev. 2006.
POVOS INDÍGENAS. Disponível em <www.sociambiental.org> Acesso em 05 fev.
2006.
THOMPSON, Edward P. Costumes em comum. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
VANNUCCHI, Aldo. Cultura Brasileira: o que é, como se faz. São Paulo:
Universidade Sorocaba / Edições Loyola, 1999.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
PARTE 2:
DISCURSO, LÍNGUA, LEITURA
66 A IMAGEM DA MULHER NO DISCURSO PUBLICITÁRIO
Cláudia Madalena Feistauer 10
INTRODUÇÂO
A publicidade acompanha as mudanças de valores presentes numa sociedade e
faz uso desse conhecimento para influenciar as pessoas a consumirem cada vez mais. A
publicidade, como aliada do capitalismo, atua como instrumento de manipulação, está
presente no dia-a-dia das pessoas. Portanto, tem a função de influenciar a mudança de
comportamentos, vender valores, sonhos, ilusões que, supostamente, se concretizam na
compra de um produto ou de um serviço. Assim, é necessário entender e refletir sobre o
poder que possui a propaganda de influenciar incessantemente no ambiente social e
cultural.
A mulher atualmente inserida no mercado de trabalho consome muito. A
comunicação publicitária está atenta ao consumo feminino e explora ao máximo a
tendência consumista criando mensagens específicas que estimulam o consumo e
influenciam o comportamento das mesmas transmitindo ideias, normas e valores.
Como a publicidade faz uso de discursos, a Análise do Discurso como teoria que
é um dispositivo de análise se presta a refletir sobre o discurso publicitário explicitando
os aspectos sociais, históricos e ideológicos que se entrecruzam no mesmo. Assim, este
trabalho será respaldado na Análise do discurso da linha francesa.
CONCEITO DE ANÁLISE DO DISCURSO
A Análise do Discurso teve sua gênese na França na década de 1960 e constitui
uma prática especializada em analisar construções ideológicas presentes num texto. É
muito utilizada, por exemplo, para analisar textos da mídia e as ideologias que trazem
em si.
Orlandi (2003) define o objeto da Análise do Discurso como o “discurso”. O
étimo do vocábulo discurso dá ideia de curso, percurso, de correr por, de movimento.
Semelhante a um rio, o discurso, dessa forma, circula na sociedade. Isto significa que
todo discurso é uma construção social, não individual, e que só pode ser analisado
considerando seu contexto histórico-social; significa ainda que o discurso reflete uma
10
Mestre em Linguagens Professora de Linguística - UNEB Campus XX
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
67 visão de mundo determinada, necessariamente, vinculada à do(s) seu(s) autor(es) e à
sociedade em que vive(m).
De acordo com Orlandi (2003, p. 15):
A Análise do Discurso concebe a linguagem como mediação
necessária entre o homem e a realidade natural e social. Essa
mediação, que é discurso, torna possível tanto a permanência e a
continuidade do homem e da realidade em que ele vive. O
trabalho simbólico do discurso está na base da produção da
existência humana.
Um dos postulados da Análise do Discurso é que o discurso influencia e, ao
mesmo tempo é influenciado pelas estruturas sociais. Parte-se do pressuposto de que a
linguagem é um instrumento de poder e por meio dela valores são reforçados ou
transformados. Tudo o que é dito transmite as representações do mundo, de realidade,
do/a produtor/a do texto.
Os discursos se movem e se transformam acompanhando as transformações
determinadas pelas transformações sociais e políticas, por isso, ao analisar o discurso,
deve-se levar em conta aspectos históricos, sociais, políticos e culturais, além da
descrição de estruturas lingüísticas. Portanto, a noção que se tem de discurso como
sinônimo de mensagem, informação, pronunciação de meras palavras combinadas em
frases, não corresponde ao interesse básico da Análise do Discurso.
Em termos de discurso, devem-se considerar os elementos que têm existência no
social. Assim, podendo estar relacionado tanto à História quanto à Sociologia, a Análise
do Discurso vai buscar, na verdade, o sentido ou sentidos produzidos pelo sujeito ao
elaborar um discurso, as suas intenções e a forma como é recebido por quem ouve ou lê
suas palavras. Por isso Pêcheux (1969) define discurso como “efeito de sentidos entre
interlocutores”.
O elemento essencial para a Análise do Discurso (AD) é o sujeito, pois é a partir
dele que surgem os discursos, embora ele não seja o centro do seu discurso e não tenha
poder de decisão, escolha e estratégias de produção discursiva, na concepção da AD. O
sujeito age como alguém que pensa ter o domínio sobre o que diz, mas na verdade, é o
inconsciente e as ideologias de cada um que determinam os discursos.
Dessa forma a linguagem passa a ser um fenômeno que deve ser
estudado não só em relação ao seu sistema interno, enquanto
formação lingüística a exigir de seus usuários uma competência
específica, mas também enquanto formação ideológica, que se
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68 manifesta através de uma
(BRANDÃO, 2004, p. 17).
competência
socioideológica.
Língua e história se inter-relacionam no discurso onde participam elementos
externos, ou seja, as transformações sociais e políticas que fazem parte da vida em
sociedade. E é nesses elementos que se baseia a Análise do Discurso, buscando no
contexto em que é construído o discurso, os seus possíveis sentidos. Assim, a AD não
deve ser confundida com uma simples análise de texto, visto que esta se detém nas
relações internas analisando apenas o aspecto lingüístico do discurso. Para a AD a
situação histórico-social na qual se organiza um discurso é de fundamental importância
na constatação dos “efeitos de sentido”, provocados pelo sujeito discursante e nos
sujeitos ouvintes ou leitores do discurso.
O texto não pode ser considerado como “uma seqüência lingüística fechada
sobre ela mesma, porém é necessário referi-lo ao conjunto de discursos possíveis a
partir de um estado definido de condições de produção. (PÊCHEUX, 1969 apud
ORLANDI, 1983).
As condições de produção abrangem os sujeitos e a situação social, são aspectos
históricos, sociais e ideológicos que envolvem o discurso, ou que possibilitam a
produção do discurso. Dessa forma, os sentidos das palavras são construídos de acordo
com as formações ideológicas nas quais os sujeitos estão inseridos.
O sentido de uma palavra, de uma expressão, etc, não existe “em
si mesmo” (...) mas, ao contrário, é determinado pelas posições
ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico no
qual as palavras, expressões e proposições são produzidas
(PÊCHEUX, 1997, P. 190).
Referindo-se à linguagem publicitária, neste contexto, a noção de texto torna-se
abrangente e passa a designar não apenas o lingüístico, mas o conjunto significativo. As
palavras se relacionam tão intensamente com os demais signos e com os elementos da
situação que não se pode depreendê-las de forma isolada. É preciso levar em conta o
contexto sócio-histórico em que se inserem e que determina seus sentidos. Portanto, um
estudo que aborda as características textuais da linguagem publicitária torna-se muito
bem acolhido pela perspectiva da Análise do Discurso, uma vez que o texto publicitário
não se desenvolve numa linearidade – grande parte do significado a ser apreendido
encontra-se implícito. É necessário, então, ir além da verificação da informação, buscar
os efeitos de sentido provocados pelo texto, uma vez que o texto não está completo se
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69 não se levar em conta a situação, o contexto sócio-histórico e as condições de produção
e recepção.
A LINGUAGEM PUBLICITÁRIA DIRIGIDA À MULHER
Todos os dias, os discursos que abordam a questão de gênero são reproduzidos
na dinâmica social, seja nos círculos familiar, jurídico, profissional, midiático, etc. Mas
é o discurso publicitário que confere especial atenção para a mulher. Através desse
discurso a imagem idealizada da mulher é veiculada atrelada à ideia de que os produtos
oferecidos construirão uma imagem de beleza, juventude, sensualidade e aceitação na
sociedade. Nesse sentido, o discurso publicitário não só induz ao consumo, mas
influencia o comportamento da mulher. O contexto sócio-histórico em que a mulher está
inserida atualmente produz um discurso veiculado pela publicidade que utiliza recursos
estilísticos e argumentativos para transmitir suas ideologias e construir a imagem da
mulher.
A publicidade constitui um tipo específico de linguagem, através do qual o
produtor representa o universo sob uma determinada perspectiva, promovendo a interrelação de diferentes signos com o objetivo de seduzir o interlocutor a crer numa
“realidade construída”. A publicidade vem se desenvolvendo ao longo dos tempos,
assumindo características próprias e uma forma particular de interpretar e de reproduzir
a realidade social.
De acordo com Citelli (1999, p. 43): “o texto publicitário nasce da conjunção de
vários fatores, quer psico-sociais-econômicos, quer do uso daquele enorme conjunto de
efeitos retóricos aos quais não faltam as figuras de linguagem, as técnicas
argumentativas, os raciocínios.”
O discurso publicitário é produzido na e para a sociedade, por isso sofre
influência dos acontecimentos sociais. No contexto em que vivemos, a mensagem
publicitária estimula o consumo e influencia comportamentos. Dessa forma, o discurso
publicitário não é um discurso neutro, assim como todo discurso influencia a visão de
mundo do leitor/leitora, ao mesmo tempo em que reflete o posicionamento do autor do
texto, no caso específico, os publicitários.
As campanhas publicitárias direcionadas para a população feminina têm
características bem delimitadas, principalmente no que diz respeito ao comportamento,
ao gosto, à desenvoltura, aos ideais, à aparência feminina. A publicidade, em muitos
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70 momentos, exerce papel de um manual de comportamento social e a mulher pode se
sentir como que guiada por ele, pois "[...] a publicidade bate sempre na mesma tecla:
para ser feliz e bem sucedida, a mulher precisa estar sempre bela e ser (ou parecer)
jovem" (CARVALHO, 1996, p.24).
A população feminina é a que mais tem recebido, ao longo da história da
publicidade, os conceitos de beleza, juventude, felicidade expressos pela publicidade. E
isso pode ser constatado através da preocupação feminina atual em tentar atingir o
modelo de perfeição que é passado através das campanhas publicitárias. A mulher se
sente na obrigação de ser bela, inteligente, bem sucedida profissionalmente e
financeiramente, ser a encarnação da perfeição. Mas como atingir esse patamar? As
campanhas publicitárias mostram para essas mulheres que é possível conseguir tal
proeza, usando determinadas roupas, sapatos, produtos para embelezar o corpo, os
cabelos, material para ginástica, lingeries sensuais, enfim, todos os recursos necessários
para que a mulher comum se transforme na mulher ideal.
O discurso publicitário propõe, portanto, uma troca de identidades do
destinatário da mensagem (a mulher), entre a sua identidade enquanto “ser no mundo” e
a identidade projetada de um destinatário, “ser do discurso” Ao propor esta troca, “[...]
diz-nos quem somos e como somos, ou seja, fixa os contornos da nossa própria
identidade [...].” (PINTO, 1997, p. 31).
Através dos textos e das imagens expressas nos anúncios, a mulher é induzida a
agir, pensar e, até mesmo, ser de certa maneira, de acordo com o que é veiculado na
propaganda. Aparentemente é dada à mulher uma possibilidade de escolha, de ação;
mas, na verdade, é uma orientação ao modelo muitas vezes inatingível que deve ser
seguido, ou às atitudes que devem ser tomadas em determinado momento.
A imagem da mulher sensual numa propaganda de lingerie
Para ilustrar a influência do discurso da propaganda na construção da imagem da
mulher, será analisada uma propaganda que foi veiculada na revista Marie Claire de
abril de 2006 e traz o seguinte texto:
Em cada desejo meu tem o calor do mundo inteiro.
Um fogo que arde sem doer. Que arrepia minha pele. Meus
pêlos.
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71 Que pára o tempo. Meus pensamentos. As batidas do meu
coração. Em cada parte do meu corpo tem o calor do mundo
inteiro. Ardo.
O primeiro elemento que se observa no anúncio é o aspecto formal do texto que
se apresenta em forma de poema. A escolha da forma do texto já indica o público a
quem é dirigida a mensagem – a mulher que é sempre lembrada e cantada em verso e
em prosa, e o espírito feminino é evocado em textos românticos, especialmente na
poesia. Além disso, tradicionalmente a mulher aprecia esse tipo de composição.
No primeiro verso pelo uso do pronome possessivo em primeira pessoa é
revelado o sujeito enunciador – uma mulher.
O segundo verso apresenta uma cadeia parafrástica provocando efeitos de
sentido:
1) “Um fogo que arde sem doer”
2) “Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É dor que desatina sem doer” (Camões)
A paráfrase, segundo Charaudeau e Maingueneau (2006, p. 366) “é uma relação
de equivalência entre dois enunciados, um deles podendo ser ou não a reformulação do
outro”. No caso do verso “Um fogo que arde sem doer”, foi feita uma reformulação em
relação ao texto de Camões “Soneto”, mas numa perspectiva diferente, enquanto o texto
de Camões tem como revelar o conceito subjetivo de amor, na propaganda a intenção é
revelar o desejo sensual da mulher. O jogo feito pelo enunciador do anúncio promove a
troca da palavra “dor” do original de Camões pela palavra “fogo”, a palavra amor não
aparece no anúncio, pressupondo uma relação puramente carnal.
A mulher retratada no anúncio é jovem e liberada sexualmente, não esconde seus
desejos e fala abertamente deles, essa situação circunscreve – a num contexto específico
da atualidade no qual a mulher não mais tem uma atitude passiva em relação ao sexo.
O enunciador do anúncio descreve as sensações ocorridas no corpo da mulher
estimulado pelo desejo. Não há referência a sentimentos, confirmando a efemeridade
das relações em nosso tempo.
A evocação à sensualidade e ao ato sexual em si fica clara não só pelo texto, mas
pela posição em que se encontra a modelo deitada de costas, a cabeça pendida para trás
e a boca entreaberta vestida com um conjunto de calcinha e sutiã pretos e de renda com
um sapato de salto alto.
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72 Está na leitura das entrelinhas que o uso da lingerie apresentada fará da mulher
consumidora do produto uma mulher sensual e desejada, capaz de conquistar o homem
de seus sonhos.
Outro aspecto a ser destacado no anúncio é o fato de que só há um endereço
eletrônico para a aquisição do produto. Isso indica que a mensagem é dirigida um tipo
mulher específica, a que pertence a uma classe social que possui computador e acesso à
internet, isso, exclui as outras mulheres que não têm acesso aos bens tecnológicos da
atualidade. A posição sujeito do enunciador mulher da propaganda fica evidente – é
uma mulher de classe média/alta que tem condições de acessar a internet e visualizar o
produto que deseja adquirir. A posição sujeito é reflexo da época em que vivemos e da
posição social ocupada pela mulher a quem é dirigida a mensagem publicitária.
O anúncio termina com o verbo “Permita-se” abaixo do nome do produto:
“Nu.Luxe
Permita-se”
A maneira como foi exposto apenas o nome do produto indica que a
consumidora em potencial já conhece a marca e sabe que se trata de lingerie. Nesse
sentido, aparece o interdiscurso, a memória discursiva “o saber discursivo que torna
possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na
base do dizível, sustentando cada toma de palavra” (ORLANDI, 2005, p. 31).
O verbo “permita-se” é um convite a comprar o produto, mas como se o mesmo
fosse um elemento especial destinado a poucas escolhidas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A figura da mulher é explorada de forma contundente na linguagem publicitária
e essa linguagem cria uma imagem que não representa a realidade. Um modelo de
perfeição muitas vezes inatingível é veiculado e atrelado a produtos que supostamente
tornam a mulher no ideal de beleza, juventude e felicidade. Isso para que a mulher seja
induzida a consumir produtos que farão com que ela atinja esse padrão. Recorrendo à
base epistemológica da AD é possível empreender uma análise que capture os efeitos de
sentido expressos pela mensagem publicitária, uma vez que ocorre uma recorrência à
história.
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73 Os sentidos são produzidos face aos lugares ocupados pelos sujeitos em
interlocução e nesse sentido, a mulher retratada nos anúncios ocupa uma posição bem
marcada e adquire um sentido diferente de acordo com o produto que o anunciante
queira divulgar e vender.
No anúncio analisado, a imagem que o anunciante quis passar foi a da mulher
jovem, sensual e liberada sexualmente. Para tanto, o discurso publicitário usou como
estratégia para conquistar a leitora/interlocutora, a identificação com tal imagem que
difere do papel feminino que historicamente se consolidou: o de base da estrutura
familiar. Isso indica que a mulher vem assumindo novos papéis na sociedade a partir do
espaço e da liberdade que conquistou com lutas e trabalho. A publicidade, então inclui
mensagens que se adequem a novos tipos de consumidoras acompanhando a mudança
de comportamento determinada pelas transformações sociais.
Este trabalho não tem a pretensão de esgotar o tema, até por questões de tempo e
espaço, foi traçada uma breve tentativa de aplicar os pressupostos da AD à análise de
um texto publicitário dirigido à mulher. Tanto a AD como a publicidade são temas de
interesse amplo por meio do qual estudiosos de várias áreas podem se interessar em
desvendar caminhos.
REFERÊNCIAS:
BRANDÃO, H. N. Introdução à análise do discurso. 2 ed.Campinas/SP: Editora da
Unicamp, 2004.
CARVALHO, Nelly de. Publicidade a Linguagem da Sedução. São Paulo: Ática, 1996.
CHARAUDEAU, P.; MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do Discurso.
(Coordenação da tradução Fabiana Komesu). 2 ed. São Paulo: Contexto, 2006
CITELLI, A. Linguagem e persuasão. São Paulo: Ática, 1999.
ORLANDI, Eni Pulcinelli. A Linguagem e seu Funcionamento: as formas do discurso.
São Paulo: Brasiliense, 1983.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: Uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas:
Edunicamp, 1997.
PINTO, Alexandra Guedes. Publicidade: um discurso de sedução. Porto: Porto Editora,
1997.
MARIE CLAIRE. São Paulo: Editora Globo, nº. 181. Abril 2006, p. 18 e 19.
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74 O CORPO E O DISCURSO: A MULHER NA MIDIA IMPRESSA
Luzimare Almeida Piloto
Fabiana Andrade Santos 11
PREMISSAS E BREVE HISTÓRICO
Há tempos, o homem se preocupa em descobrir e se apropriar das técnicas
mecanicistas sobre a arte discursiva da persuasão. Esse fascínio se expressa através da
literatura, da religião, da filosofia, dos mitos, das lendas, entre outros e teve a sua
origem na Antigüidade, com uma das primeiras manifestações relevantes sobre a
oratória. Nessa época, consideraram-se importantes três objetos dessa modalidade: o
ethos, simbolizado pelo orador, o pathos, representado pelo auditório, e o logos,
simbolizado pelo discurso. Vale ressaltar, ainda, que o homem sempre se dedicou à
linguagem e só com a criação da Retórica é que os gêneros do discurso persuasivo
tomaram formas.
O vocábulo retórica, que tem sua origem do grego téchne rhetoriké, ou seja,
“arte retórica”, historicamente tem sido entendido com diferentes conceituações. Em
sentido lato, a retórica se mistura com a poética, consistindo na arte da eloqüência em
qualquer tipo de discurso. Já no sentido restrito, que identifica a retórica como a
faculdade de ver teoricamente o que, em cada passo, pode ser capaz de gerar persuasão,
de acordo à conceituação aristotélica, é definido como uma modalidade discursiva geral,
aplicável às mais diversas disciplinas – uma atividade em que predomina a forma, como
a gramática e a dialética, e não o conteúdo.
Então, conforme Aristóteles (2007, p. 21) “em estrito senso, o estudo da retórica
refere-se aos meios de persuasão [...] que é um tipo de demonstração, pois somos mais
persuadidos quando consideramos a demonstração de uma determinada coisa”. O autor
ainda ressalta que uma afirmação é persuasiva quando pode ser provada por outras
afirmações que também são e que para ser persuasivo aquilo que está sendo asseverado
deve possibilitar a adesão de todo um universo de pessoas e não especificamente de uma
classe, por isso que o filósofo supracitado destaca “que a retórica não está associada a
uma classe definida de assuntos, mas ela é universal como a dialética, além de ser útil
também”. (p.22)
11
As autoras são professoras especialistas auxiliares do Campus XX da UNEB, em Brumado. Fabiana
Andrade Santos é mestranda da UFBA, orientada pela Dra. Iracema Luiza Souza.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
75 A arte da retórica nasceu na Sicília, em meados do século V a.C. quando a
política dos tiranos cedeu lugar à democracia. Nesse novo contexto, todos os cidadãos
atenienses participavam diretamente nas assembléias populares que possuíam funções
legislativas, executivas e judiciárias. Logo, todos os assuntos eram submetidos ao voto
popular, nenhum cidadão se eximia da sua responsabilidade e, muitas vezes, a
justificativa de sua opinião era submetida à apreciação de uma platéia.
O exercício da função política dependia da habilidade de raciocinar, falar e
argumentar coerentemente, logo, pouco a pouco, dentro deste contexto, surgiram
profissionais da retórica – os primeiros advogados (gr. Synegoros ou syndikos) – que
ainda não representavam seus clientes na tribuna, mas que tinham a incumbência de
orientar os seus discursos, quando não os escreviam, compelindo-os a decorá-los, a fim
de se obter uma exposição correta e, conseqüentemente, ganho de causa. Tais mestres
eram os sofistas e tinham como objetivo ensinar a arte da política e as qualidades
indispensáveis para a formação de bons cidadãos, o que incluía a retórica ou a arte da
persuasão que era exercida nos tribunais e nas outras assembléias.
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA NOVA RETÓRICA
Nos últimos anos, por volta de 1950, começou a se delinear uma corrente
filosófica e acadêmica que tinha por objetivo recobrar a dignidade dessa forma de
conhecimento tão antiga e tão intimamente ligada à história da humanidade.
A partir da importância dada à filosofia da linguagem e à filosofia dos valores,
vários filósofos e estudiosos começaram a considerar a retórica como um objeto digno
de estudo, seja sob a sua vertente formal, seja sob a ótica que privilegia seu aspecto de
instrumento de persuasão. Nesse rol de estudiosos destacam-se Perelman e OlbrechtsTyteca que se dispõem a analisar a retórica ultrapassando o exame da técnica do
discurso oral, preocupando-se, sobretudo, com a estrutura da argumentação dos textos
impressos, na intenção de caracterizar as diversas estruturas argumentativas, cuja
análise deve antepor qualquer prova experimental à qual se quisesse submeter sua
eficácia. Para o autor, o objetivo de toda argumentação é provocar ou aumentar a adesão
dos espíritos às teses que se apresentam o seu assentimento.
Assim, eficaz é uma argumentação que consegue uma intensidade de adesão ao
seu auditório, de forma que se desencadeie nos ouvintes a ação pretendida, ou, pelo
menos, crie neles uma disposição para a ação que se manifesta no momento propício.
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76 Dessa maneira, fica evidente ainda que a principal preocupação e compromisso da
retórica não é com a verdade e sim com a aceitação, aquiescência e, conseqüentemente,
adesão do auditório à tese apresentada.
Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) afirmam que a instalação de um acordo
entre o orador e o auditório é o primeiro passo para que se possa ter a argumentação. O
orador utiliza estratégias que acredita serem eficazes na persuasão do outro, ou seja, dá
início a uma relação argumentativa cuja finalidade é a adesão do auditório como
resultado da persuasão. Nesta perspectiva, os pensadores fazem uma distinção entre
persuadir e convencer. Enfatizam que para quem se preocupa com o resultado, persuadir
é mais do que convencer, uma vez que a convicção não passa da primeira fase que leva
à ação. Porém, para quem está preocupado com o caráter racional da adesão, convencer
é mais do que persuadir.
É considerada persuasiva a argumentação que pretende valer só para um
auditório particular e convincente a que objetiva obter a adesão de todo ser racional. A
persuasão tem seu fundamento na natureza particular do sujeito. Argumentar implica,
conscientemente ou não, o estabelecimento entre esse acordo inicial entre o orador e o
auditório. O orador deve considerar o conteúdo das premissas a escolha daquelas que se
apresentam como as melhores ou mais adequadas e as formas que utilizará na sua
apresentação. Os acordos podem ser divididos em categorias como real e preferível. Na
primeira, as premissas se constituem através de fatos, verdades e presunções, enquanto
na categoria do preferível se enquadram os valores relacionados às hierarquias e aos
lugares do preferível. Há também o acordo quanto à escolha dos dados que dizem
respeito a interpretações, a noções e técnicas de apresentação e, além disso, o acordo
quanto à forma das premissas, que se fundamenta na regulação do dizer de acordo ao
contexto em que se desenvolve a argumentação.
Abreu (2006) ressalta que a primeira condição da argumentação é ter definida
uma tese e saber para que tipo de problema essa tese seja resposta; a segunda condição
diz respeito à adequação da linguagem ao auditório, ou seja, para que o auditório
apreenda aquilo que está sendo defendido é imprescindível que o orador utilize um
vocabulário inteligível, objetivando a interação do seu público; isso implicará na
terceira condição que diz respeito à necessidade de existir entre o orador e o auditório
um contato positivo; e, finalmente, a quarta condição está diretamente relacionada à
atitude do orador em relação ao seu auditório, ou seja, para que o auditório acredite
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77 naquilo que está sendo apregoado pelo orador e, obviamente se convença, é necessário
que o mesmo aja de forma ética, argumentando com o outro de forma honesta e
transparente. O autor ainda destaca que ao iniciar um processo argumentativo não
devemos propor imediatamente nossa tese principal, e sim utilizarmos técnicas
argumentativas que são os fundamentos que estabelecem a ligação entre as teses de
adesão inicial e a tese principal e que compreendem dois grupos: os argumentos quase
lógicos e os argumentos fundamentados na estrutura do real.
AS LIGAÇÕES QUE FUNDAMENTAM A ESTRUTURA DO REAL
Os argumentos fundamentados na estrutura do real, diferentemente dos quaselógicos, baseiam-se em fatos empíricos que proporcionam ao auditório a liberdade de
aderirem ou não à tese defendida pelo orador. Tais argumentos são caracterizados pela
relatividade, pois estão diretamente relacionados a pontos de vista. De acordo com
Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 297):
Enquanto os argumentos quase-lógicos têm a pretensão a certa
validade em virtude de seu aspecto racional, derivado da relação
mais ou menos estreita existente entre eles e certas fórmulas
lógicas e matemáticas, os argumentos fundamentados na
estrutura do real valem-se dela para estabelecer uma
solidariedade entre juízos admitidos e outros que se procura
estabelecer.
Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) citam quatro tipos de argumentos que
fundamentam o real pelo caso particular: o exemplo, a ilustração, o modelo e o
antimodelo.
O Exemplo
A técnica argumentativa utilizada a partir do exemplo ocorre quando o orador
recobra um caso particular para fundamentar um argumento que ele objetiva que se
torne uma generalização. Para tanto se recorre a personagens que têm “autoridade” e
que servirão para embasar a tese que é apregoada a fim de se obter a adesão do
auditório. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) ressaltam que esse tipo de argumento
implica certa discordância da regra particular que o exemplo é evocado para embasá-la,
todavia pressupõe um acordo preliminar acerca da viabilidade de uma generalização a
partir de casos particulares que se tornam eficazes e que objetivam a interação das
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78 partes envolvidas. A respeito do Exemplo, Aristóteles (2007, p. 120) afirmava que “ele
é de natureza da indução, que é o fundamento do raciocínio”.
A Ilustração
Ao contrário do exemplo que utiliza um caso para conquistar a adesão do
auditório e, conseqüentemente, construir uma regra, a ilustração é um tipo de técnica
argumentativa usada para reforçar uma regra que já foi estabelecida. Perelman e
Olbrechts-Tyteca (2005, p. 407) destacam:
Enquanto o exemplo era incumbido de fundamentar a regra, a
ilustração tem a função de reforçar a adesão a uma regra
conhecida e aceita, fornecendo casos particulares que
esclarecem o enunciado geral, mostram o interesse deste através
da variedade das aplicações possíveis, aumentam-lhe a presença
na consciência.
Dessa forma, fica evidente o papel da ilustração, visando, geralmente, aumentar
a adesão do auditório a uma regra já consolidada a partir deste. Se a mesma for utilizada
inadequadamente, não provocará a invalidação da regra estabelecida e sim um
desconhecimento daquele que a utiliza, dando demonstração da sua desinformação e da
incongruência ao recorrer àquele artifício para ratificar estatutos que foram apropriados
pelo auditório e já estão cristalizados. Porém, vale ressaltar que quando o orador utilizar
conscientemente à ilustração de uma forma inadequada, o seu objetivo é provocar uma
ironia acerca do que é “verbalizado” incitando no auditório um ceticismo do que parecia
inquestionável. A esse respeito Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 411) afirmam:
Ainda assim, a ilustração voluntariamente inadequada pode
constituir uma forma de ironia. Dizendo, sem tomar fôlego:
Você tem de respeitar seus pais; quando um deles o repreender,
replique-lhe vivamente, põe-se em dúvida a seriedade da regra.
O Modelo e o Antimodelo
A técnica argumentativa através do modelo é um desdobramento do exemplo, ou
seja, após a apropriação de uma regra preconizada pelo auditório através do exemplo,
parte-se para a imitação daquela conduta que gera um padrão a ser seguido em
determinados contextos. Isso é ratificado por Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p.
414) que ressaltam:
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79 Habitualmente, o modelo glorificado é proposto para a imitação
de todos; por vezes trata-se de um modelo reservado a um
pequeno número ou somente à própria pessoa; por vezes é um
padrão (pattern) a ser seguido em certas circunstâncias:
comporte-se, nessa situação, como bom pai de família, ame a
seu próximo como a você mesmo, considere verdadeiras
unicamente proposições concebidas tão clara e distintamente
quanto à proposição “penso, logo existo”.
Além de motivar o auditório a aderir um determinado comportamento imposto
e/ou sugerido a partir do exemplo, o modelo serve também para caucionar o que foi
estabelecido, vez que serve de justificativa para o que parecia absurdo ou geraria
insegurança naquele que imitou se não tivesse “aquele” que serviu de modelo e avalizou
o seu comportamento. Logo, fica evidente a grande responsabilidade do modelo que, via
de regra, deve ser alguém de “conduta ilibada” e que inspire confiança.
Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005 p. 416) ressaltam que embora servir de
modelo seja um sinal que denote prestígio, o inverso, incitado pela imitação entre o
modelo e aqueles que se inspiram nele e, que, na maioria das vezes são tidos como
“inferiores”, pode “desvalorizar” um pouco o modelo. É o caso, por exemplo, da moda
em que as roupas utilizadas pelas modelos são copiadas “grosseiramente” pela massa
que tem a vontade de se aproximar daquela “autoridade”. O antimodelo desperta no
auditório tudo aquilo que não é aprazível e serve de argumento para estimular a
mudança de comportamento que se espera conseguir. Muitas vezes, utilizar este tipo de
técnica argumentativa, ou seja, o antimodelo acaba sendo mais eficaz do que o modelo,
principalmente nos discursos entre mães e filhos em que as primeiras utilizam exemplos
que não devem ser seguidos pelos filhos e que os mesmos repulsam a fim de conseguir
o acolhimento das suas regras.
Fica evidente que os argumentos pelo modelo e/ou antimodelo podem ser
utilizados nas mais diversas situações, não existindo a sobreposição de um em
detrimento do outro.
ANÁLISE DO OBJETO
O nosso objetivo com este estudo é analisar e destacar as técnicas
argumentativas presentes na reportagem principal “Paola Oliveira 6kg mais magra e
supersarada cardápio + treino” da capa da Revista Boa Forma do mês de outubro do ano
de 2007, com base nos pressupostos teóricos das técnicas argumentativas
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80 fundamentados na estrutura do real. Para tanto, vale ressaltar, que de acordo com
Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 413), tais argumentos, para convencer o seu
auditório, utilizam como recurso o modelo, o antimodelo, o exemplo e a ilustração, de
forma a estabelecer, a partir de um caso conhecido, uma regra geral em que o auditório
se sinta motivado a aderir àquilo que está sendo preconizado.
Tais grupos de argumentos operam por indução, não estão baseados em uma
descrição lógica dos fatos, mas a pontos de vista, isto é, a opiniões relativas a eles. No
que se refere ao primeiro deles, ou seja, ao modelo, de acordo com Perelman e
Olbrechts-Tyteca (2005, p. 413) “Quando se trata de conduta, um comportamento
particular pode não só servir para fundamentar ou ilustrar uma regra geral, como para
estimular uma ação nele inspirada”.
Assim, observamos que para reforçar um argumento buscando a adesão do
mesmo, a utilização de um modelo adequado àquele tipo de contexto é essencial para o
auditório se convencer do que tem sido apregoado. Logo, tendo como pressuposto tais
fundamentos, entendemos que o orador ao utilizar como modelo Paola, conhecida pelo
auditório como uma atriz “cheinha” e ratificada pelo orador na sua reportagem já que o
mesmo diz “Paola de Oliveira já foi assim. Igual a tantas de nós. Sofreu por anos com o
vaivém de 3 ou 4 quilos, que quando vinham deixavam seus quadris muito grandes. Aí
aposentava o short e entrava em pânico só de pensar em usar biquíni” (UMEDA, 2007)
quis provocar no seu auditório a real viabilidade, já que para conseguir o seu objetivo
passa, nesse momento, a considerá-la como uma pessoa comum – “igual a tantas de
nós” – ao ponto de utilizá-la como modelo para fundamentar uma regra geral, que,
apesar de preconizada por diversos tipos de pessoas, desde o senso comum até os
especialistas na área, ad hoc., “determinação; dieta saudável e três meses de
musculação”, tem sido ineficaz uma vez que não provoca no seu auditório a expectativa
desejada. Assim, cônscio da relevância de se ter como modelo uma pessoa de prestígio,
simpática, bonita, desejada, fácil de ser imitada, e, ainda por cima, querida pelo tipo
específico de auditório que se pretende atingir, a modelo proposta, por si só, já é um
argumento suficientemente contundente e inspirador para se seguir a conduta adotada
pela mesma na conquista daquilo que se convencionou como padrão de corpo ideal.
Tal estratégia argumentativa quis provocar no seu público específico,
inicialmente, a possibilidade de uma adesão real, e não ilusória, de que aquele modelo é
o ideal a ser seguido para a garantia do corpo perfeito. É interessante ressaltar, ainda,
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
81 que o orador, com a intenção clara de aproximar mais e mais a modelo da nossa
realidade, igualando-a ao público, reforça isso quando registra que a mesma não gosta
de malhar nem de fazer dieta, características estas próprias daquele público que se
pretende chegar, porém ele reforça que se a modelo conseguiu, por que razão o
auditório não conseguirá emagrecer, já que existe uma similaridade de vontades entre o
auditório e a modelo. Outra questão que deve ser ressaltada é que o orador utiliza Paola
como modelo e antimodelo, simultaneamente.
De acordo com Abreu (2006) o antimodelo fala acerca daquilo que devemos
evitar, ou seja, que não devemos seguir. Tal estratégia argumentativa é eficaz uma vez
que o auditório, ao rechaçar determinado tipo de conduta que possa dificultar e/ou
impedir a materialização do seu objetivo, sente-se motivado a incorporar atitudes
contrárias às utilizadas pelo antimodelo. Assim, tal estratégia é usada pelo orador já que
ao despertar no seu público o horror àquela situação, fica fácil a adesão ao modelo
proposto e/ou argumento que tem a intenção de conduzir o público a incorporar. Logo,
ao citar que Paola se matriculava numa academia, iniciava uma dieta, mas não levava
seus planos adiante o orador quis provocar no seu público uma repulsa àquele tipo de
atitude. Tal repulsa pode se dar a partir do momento em que o leitor se identifica com a
atitude e percebe que a mesma não o levará a lugar nenhum.
O terceiro recurso de argumento utilizado com fundamentos na estrutura do real
que pode ser analisado nesse estudo diz respeito ao exemplo. Acerca desta estratégia
utilizada pelo orador a fim de convencer o seu auditório, Perelman e Olbrechts-Tyteca
(2005) destacam que esse tipo de argumento é apresentado quando se propõe certo
desacordo com uma regra particular e o exemplo é usado para fundamentar tal
posicionamento. É importante ressaltarmos que ao utilizar o exemplo como estratégia
para convencer o seu público o orador deve estar seguro que o auditório se sentirá
desconfortável de duvidar do mesmo, logo, tal argumento objetiva a adesão do público,
servindo assim para fundamentar uma regra. De acordo com Perelman e OlbrechtsTyteca (2005, p. 402):
Seja qual for a maneira pela qual o exemplo é apresentado, em
qualquer área que se desenvolva a argumentação, o exemplo
invocado deverá, para ser tomado como tal, usufruir estatuto de
fato, pelo menos provisoriamente; a grande vantagem de sua
utilização é dirigir a atenção a esse estatuto.
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82 Com base nos fundamentos deste tipo de estratégia argumentativa, torna-se
evidente para nós que o orador apresenta o exemplo a partir da descrição de rotina
utilizada pela atriz para conseguir emagrecer, com o objetivo de conseguir a adesão de
uma regra sem qualquer tipo de contestação. O interessante é que o orador não utiliza
somente a atriz como exemplo para fundamentar a sua regra incontestável, a saber, a
necessidade de determinação, exercícios físicos e uma boa dieta para se ter um corpo
perfeito.
Para isso, com a intenção clara de atingir as mulheres casadas e/ou solteiras que
queiram casar, ou seja, o auditório escolhido pelo mesmo, ele utiliza argumentos
citando o caso de Cláudia Raia, que determinada, mesmo tendo dois filhos, marido e
trabalhando não deixa de malhar e coloca, após tal exemplo, para reforçar o seu
argumento Paola falando “Se ela conseguia, eu também poderia”, logo, fica
pressuposto, a partir do que foi posto. Ducrot (1987, p. 20) leva-nos a entender que o
fato que se pressupõe não é declarado, ele é representado, age-se como se fosse
impossível pô-lo em dúvida. Apesar de não ser dito, o pressuposto vai alicerçar o posto,
que a intenção do orador é fazer com que o seu público também chegue à seguinte
conclusão, ou seja, pressuponha que se Paola conseguiu, se Cláudia Raia conseguiu por
que ele – o auditório idealizado pelo orador – não conseguirá? Tal exemplo teve a
pretensão de estabelecer uma regra a partir de um caso concreto, o da modelo Paola.
Para o estabelecimento desta regra podemos ainda destacar que o orador, além de
apresentar as características que uma pessoa deve ter para emagrecer, “sugeriu” alguns
truques, que na verdade funcionam como um tipo de estratégia, como elemento
fundamental, utilizado por Paola, para conseguir a redução das suas medidas – que
também foram apresentadas. Assim, o auditório pode inferir que para perder peso não
basta fazer qualquer dieta, é mister a utilização de estratégias, denominadas pelo orador
como “truques da Paola para não desistir da dieta” (UMEDA, 2007), que foram
apresentados a partir do estabelecimento de cinco regras, tidas como infalíveis, segundo
a autora, a fim de não se cair na tentação e desistir do regime: l) providencie todos os
alimentos de que precisar, 2)forme aliados, 3)seja clara, 4) mergulhe nos light e diets, 5)
tenha um objetivo. Diante de tal reflexão fica evidenciado que o exemplo citado pelo
orador tem a intenção de provocar no auditório a adesão a uma regra que trará como
resultado a perda do peso.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
83 Diretamente associada ao exemplo, encontra-se a ilustração, que muitas vezes é
confundida pelo senso comum como sinônimo daquele, mas que de acordo com
Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) possui apanágios que a tornam com especificidades
próprias. A ilustração, recurso argumentativo fundamentado na estrutura do real deve
ser apresentada após o exemplo, pois a mesma, de acordo com Perelman, serve para
alicerçá-lo uma vez que o auditório já se encontra convencido, através do exemplo que
foi citado, a aderir àquela regra.
Enquanto o exemplo era incumbido de fundamentar a regra, a
ilustração tem a função de reforçar a adesão a uma regra
conhecida e aceita, fornecendo casos particulares que
esclarecem o enunciado, mostram o interesse deste através da
variedade das aplicações possíveis, aumentam-lhe a presença na
consciência.(PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005,
407)
Percebemos então que a ilustração é apresentada com a intenção de fortalecer
algo que o auditório já tem como verdade, princípio norteador. No caso específico do
nosso objeto que está sendo investigado podemos registrar que ao apresentar o cardápio
utilizado por Paola para “frear a fúria por doce”, sugere que o auditório escolha uma das
sete opções oferecidas para o café-da-manhã, lanches da manhã e da tarde, almoço e
jantar. O orador já está convencido que o auditório escolhido, idealizado pelo mesmo, já
aderiu às regras utilizadas por Paola para emagrecer e que a apresentação do cardápio,
além de reforçar o que já foi aceito tornou-as mais claras, presentes e, certamente,
atraentes.
Podemos perceber, ainda, que através de um caso particular, o de Paola, o orador
demonstrou de uma forma concreta, a real viabilidade de se conseguir um corpo sarado,
perfeito, dentro dos padrões apregoados por diversos segmentos e instituições,
utilizando regras – dieta, exercício físico – já conhecidas e aceitas pelo auditório.
Assim, já está sedimentado para aquele público específico que para se conseguir um
corpo sarado é necessário a incorporação de hábitos já conhecidos. A ilustração serviu
apenas para fortalecer, potencializar uma regra.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante desta análise das técnicas argumentativas fundamentadas na estrutura do
real na reportagem da Revista Boa Forma, fica evidente a relevância da utilização de
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
84 técnicas argumentativas pelo orador para se chegar ao seu auditório. Para tanto,
observamos que a argumentação não passa pela simples utilização de argumentos, mas
pelo ato de persuadir/convencer que “procura atingir a vontade”, envolvendo emoção,
subjetividade, buscando o assentimento das ideias apresentadas, através de uma
linguagem comum, não criando certezas, ou seja, sem preocupação, com o que se
pontua como verdade. Assim, o exemplo, a ilustração, o modelo e o antimodelo
contribuem, segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), para essa fundamentação do
real pelo caso particular.
Face ao exposto, espera-se que esse trabalho contribua significativamente com
outras pesquisas ligadas à temática apresentada e que sirva aos estudiosos da linguagem,
na medida em que possa ser aproveitado para análise de textos diversificados.
REFERÊNCIAS :
ABREU, Antônio Suarez. A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. 9. ed.
Cotia: Ateliê Editorial, 2006.
ARISTÓTELES. Retórica. Tradução de Marcelo Silvano Madeira. São Paulo: Rideel,
2007. (Coleção Biblioteca Clássica).
DUCROT, Oswald. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.
PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação: a
nova retórica. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
UMEDA, Marjorie. A nova Paola – 6 quilos e uma barriga de dar inveja. Boa Forma,
São Paulo: Editora Abril, n. 22, out. 2007, p. 88-95,.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
85 ANÁLISE DO SUJEITO DO DISCURSO NOS COMENTÁRIOS
POLÍTICOS DE ARNALDO JABOR NO JORNAL DA GLOBO:
2006, O ANO DA REELEIÇÃO
Baktalaia de Lis Andrade Leal 12
INTRODUÇÃO
Não há como negar o poder formador e transformador da mídia, ela
indubitavelmente prescreve a moda, os candidatos ideais, os hábitos culinários,
linguísticos, as opiniões aceitáveis. Há um poder de convencimento cada vez mais
sofisticado nos meios de comunicação, em especial na televisão com suas ferramentas
que se apresenta como imparcial.
No universo que compreende o estudo do jornal televisivo, analisarei neste texto
uma pequena parte componente deste instrumento de (in)formação atual: os comentários
de Arnaldo Jabor no Jornal da Globo (JG). Jabor - cineasta, crítico e escritor - é uma das
vozes que exerce forte influência na formação da opinião pública brasileira. No JG, num
espaço a parte, Jabor é comentarista das matérias mais polêmicas, versa seus
comentários sobre temas variados: arte, meio-ambiente, política, economia, etc. Não são
poucos os lares que se silenciam ao início do discurso do comentarista.
Em 2006, ano em que as atenções do Brasil estavam voltadas para a reeleição
presidencial, Jabor propôs-se em muito a comentar os aspectos políticos da nação, as
campanhas dos candidatos, os debates televisivos e os escândalos que ganharam um
espaço especial na mídia brasileira, dentre eles: o mensalão administrado pelo Partido
dos Trabalhadores (PT), os dólares escondidos na cueca, dinheiro não declarado
compactado em maleta, crise no setor aéreo, escândalo das sanguessugas. Não será meu
objetivo fornecer informações a respeito das verdades ou certezas, dos culpados ou das
impunidades trazidos a tona nos comentários, mas abordar as implicações que
constroem o sujeito expresso na superfície do texto de Jabor, o que favorece a
percepção de suas filiações partidárias.
Em trabalhos posteriores estarei dedicado à análise especifica dos comentários.
Neste trabalho pretendo estudar um pouco o sujeito do discurso desse comentarista
nesse ano e sobre este tema: política nacional. Essa pesquisa poderá sinalizar um perfil
12
Professor da UNEB do Campus XX, Brumado.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
86 do sujeito em questão para que os futuros textos que adotem também este objeto achem
aqui esse suporte para melhor significar a voz que fala nos comentários do
telejornalismo.
Por vezes, recorrerei a trechos dos comentários, não para análise dos conteúdos pois como disse o farei em próximos trabalhos - mas para, através dos textos, perceber
os efeitos de sentido na edificação da imagem do sujeito do discurso.
FILIAÇÃO PARTIDÁRIA
Para demarcar o campo teórico da linha francesa da Análise do Discurso (AD),
devo considerar o sujeito em questão como interpelado pela ideologia e sujeitado à
língua, conforme a Althusser e Pêcheux parafraseados por Orlandi (2009). Essa
interpelação conduz o sujeito a proceder discursivamente conforme a formação
ideológica em que sua classe está inscrito. A princípio considero Arnaldo Jabor um
representante de uma classe dada, em favor da qual textualizará. Conforme Pêcheux
(1988), os sujeitos inscritos numa formação ideológica de sua classe não teriam opção,
pois estão inscritos historicamente nessa formação, assim manifestariam os desejos e
objetivos para a manutenção desta classe. Vê-se esse princípio claramente nos discursos
de religiosos, agricultores ou juristas, que não discursam absolutamente contra sua
categoria, mas somente em seu favor, para sua subsistência.
É possível perceber a formação em que Arnaldo Jabor está inscrito através dos
indicativos linguísticos. Considero os seguintes trechos de comentários de Jabor:
“o que está acontecendo com a TAM não aconteceu nas outras
empresas, a culpa é da TAM, mas isso não absolve a tonteira do
executivo...”
“o vazio administrativo deste governo não se resolve...”
“A culpa é do seu governo, presidente.”
(No comentário “a culpa é do seu governo, presidente” do dia
22/12/2006)
“nunca antes vimos tantos fatos inconclusos, escândalos
esquecidos, a vida política ta virando um balé ridículo”
“o que nos deixa ver às claras o que antes era feito com
vergonha”
“Graças a economia mundial, aos trabalhos dos empresários, o
desemprego tá caindo, a economia continua sobre controle.”
(No comentário “A política é irrelevante”)
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
87 “O que assusta nessa chanchada é que antigamente as patranhas,
as tramóias eram mais respeitosas com a opinião pública”
(No comentário “Mais respeito pela mentira”)
“Tomara que os homens do governo Lula estejam certos, porque
o que inquieta é que essas pessoas otimistas e seguras de hoje
foram contra ao Plano Real em 94”
(No comentário “Otimismo irresponsável”)
“Há dez anos, a dívida das prefeituras era de 4 bilhões, hoje,
estima-se entre 15 e 40 bilhões de reais”
(No Comentário “Bondade do Lula vai custar 14,5 bilhões”)
Os indicativos que conduzem a inscrição do comentarista na classe elitizada do
país estão presentes em muitos aspectos. Quando diz: “a tonteira do executivo”, “o
vazio administrativo deste governo”, “a culpa é do seu governo” e “ tomara que os
homens do governo Lula esteja certos”, o jornalista expõe sua visão de instabilidade,
culpabilidade e desconfiança na administração do presidente Luis Inácio da Silva.
Quando diz: “nunca antes”, “antes era feito com vergonha”, “antigamente... eram
mais respeitosas” e “essas pessoas... foram contra ao Plano Real em 94” denuncia sua
preferência pelo governo anterior, o PSDB na representação do então presidente
Fernando Henrique Cardoso. Filiação ainda mais comprovada quando faz comparativos
das dívidas das prefeituras no Governo Lula e a “há dez anos”, no governo do PSDB.
Quando diz: “Graças a economia mundial, aos trabalhos dos empresários, o
desemprego tá caindo, a economia continua sobre controle.” Nesse trecho, Jabor
elimina qualquer crédito do governo pela estabilidade econômica do Brasil, mostrando
que pela sua visão – ao contrário do que o pensamento socialista acredita – a classe
empresarial é responsável pelo momento estável da economia.
Essas preferências de interpretação apontam para uma inscrição do sujeito desse
discurso na classe de elite da sociedade brasileira. Quando essa afirmação se junta com
as informações de que o jornalista é oriundo da classe alta da sociedade e de que a Rede
de TV Globo (da qual Jabor é servidor) sempre empenha-se abertamente na defesa das
coligações do partido Tucano e seus coligados, é possível propor um gesto de
interpretação seguro: Arnaldo Jabor fala como sujeito inserido na Classe Empresarial da
sociedade brasileira. Quando, em próximos trabalhos, eu me dedicar às analises dos
seus comentários, esse partidarismo tornar-se-á ainda mais evidente.
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88 O SUJEITO
Como tentativa de explorar ao máximo as possibilidades de aclaração do sujeito,
tento estabelecer três esferas de interpretação: O lugar do sujeito (jornalista), a
linguagem do sujeito (literária) e a temática do sujeito (política).
Jamais devemos nos ater a apenas uma das questões, a menos que a análise seja
sobre um literato que escreva literatura num texto literário. Ou um político que discuta
política com uma linguagem política. O que não é o caso do meu objeto. É lúcido
reconhecer que essas diferentes esferas constroem juntamente o sujeito. Literatura,
política e jornalismo constroem o sujeito dessa análise.
O diagrama a seguir servirá para visualizar essa análise tripartida:
Jornalístico Lugar Linguagem Conteúdo Literária Político Por ser um jornalista que fala da política nacional numa linguagem literária, a princípio
é possível confundir o seu papel e de qual perspectiva Jabor olha para o telespectador.
Para tornar menos opaca a visualização do sujeito é que me parece necessário analisar
cada um dos aspectos dessa construção.
O LUGAR
Para Orlandi (2009), o lugar do sujeito é construído pela função social exercida
por ele, pois essa função social é que comporta a autoridade para dizer o que diz. Sendo
assim, o valor que tem o dizer de um jornalista só existe por causa do valor da função
(jornalista) que a sociedade reconhece.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
89 Assim, se o sujeito fala a partir do lugar de professor, suas
palavras significam de modo diferente do que se falasse do lugar
de aluno. O padre fala de um lugar em que suas palavras tem
autoridade determinada junto aos fieis etc. Como nossa
sociedade é construídas por relações hierarquizadas, são
relações de força, sustentadas no poder desses diferentes
lugares, que se fazem valer na “comunicação”. A fala do
professor vale (significa) mais do que a do aluno. (ORLANDI,
2009, p. 39 e 40)
Assim existe a relação de forças estabelecidas pelos lugares sociais. Nessa
hierarquia alguns lugares garantem mais autoridade e, portanto, mais aceitação. Isso é
confirmado por Foucault em Arqueologia do Saber:
Quem fala? Quem, no conjunto de todos os indivíduos falante,
pode legitimamente ter esse tipo de linguagem? [...] A fala
médica não pode vir de qualquer um; seu valor, sua eficácia,
seus próprios poderes terapêuticos e, de modo geral, sua
existência como fala médica não são dissociáveis da
personagem, estatutariamente definida, que tem o direito de
articulá-la. (FOUCAULT in MAINGUENEAU, 2006, p. 151)
A voz de Jabor é legitimada pelo lugar de jornalista e, se considerar-mos o poder
que a mídia detém na atualidade, o sujeito em questão ganha autoridade considerável. O
chamado “quarto poder” incorpora a voz do verdadeiro, essa influência midiática
reveste-se de supra verdade e serve de opinião única e inconteste.
Os comentaristas esportivos discutem fervorosamente na exposição de opiniões
contrárias. O Jabor do Jornal da Globo não, não há quem o conteste. Não há a voz do
TU que se tornaria EU quando tomasse o fio do diálogo (se houvesse diálogo). Não há o
lugar do outro. Pois sim, o lugar do comentarista concentra a autoridade suficiente para
doutrinar politicamente os telespectadores silenciosos. Mas isso não quer dizer que o
TU não exista, que não tome a palavra em frente a televisão, nas casas, nos bares, ou
num ponto de táxi. E mesmo quando em silencio, já que a televisão não permite
interação, o TU (telespectador do JG) não é passivo, é ruminante conforme afirma
Bakhtin: “Aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da
palavra, mas ao contrário, um ser cheio de palavras interiores” (BAKHTIN, 2006, p.
153 e 154).
A voz inconteste do sujeito legitimado pelo lugar não significa que haja
aceitação completa ou eterna desse dizer. Não significa que a recepção desse discurso
será plena e o TU concorde integralmente com o conteúdo expresso. Mas a legalidade
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
90 de dizer permanece sobre o lugar. Encerrando esse tópico com mais um teórico em
consonância com meu pensamento cito Maingueneau (1997) que diz que o momento do
dizer é a consagração do enunciador em sujeito, e a legitimação dessa voz é assegurada
pelo lugar que esse sujeito ocupa: “Se ela (subjetividade enunciativa) submete o
enunciador as suas regras, ela igualmente o legitima, atribuindo-lhe a autoridade
vinculada institucionalmente a este lugar” (MAINGUENEAU, 1997, p.33).
A LINGUAGEM
A partir de quando Louis Hjemslev (linguista dinamarquês) elaborou um
conceito mais amplo do signo linguístico atribuindo-lhe a importância da Expressão e
do Conteúdo, esses dois conceitos passaram a transitar nos domínios da literatura
adaptando-se e ficando conhecidos como: O Plano da Expressão e o Plano do Conteúdo.
Na literatura, esses dois planos são uma forma de analisar os textos bipartindo
sua superfície em linguagem (expressão) e teor (conteúdo). Para Fiorin:
Quando um discurso é manifestado por um plano de expressão
qualquer, temos um texto. Poder-se-ia perguntar por que
diferenciar a imanência (plano de conteúdo) da manifestação
(união do conteúdo com a expressão), se não existe conteúdo
sem expressão e vice-versa. Essa distinção é metodológica e
decorre do fato de que um mesmo conteúdo pode ser expresso
por diferentes planos de expressão (FIORIN, 2002, p. 31 e 32)
Observar essa bipartição é importante para mim, pois é no plano do conteúdo
que se manifesta o discurso político e no plano da expressão, as formas literárias.
A linguagem usada nos texto do comentarista desvia-se do gênero tradicional do
jornalismo que preserva um estilo denotativo e uma suposta parcialidade. Nos
comentários de Jabor a linguagem é literária e a parcialidade é desmedida. Inovação que
passa a ser corriqueira nos jornais televisivos. É um tipo de sofisticação que mistura
gêneros, é a crônica-telejornalística ou telecrônica. As estabilidades que regulam as
diferenças entre gêneros como um memorando administrativo e uma letra de música
são, a princípio, rígidas. Mas é fácil perceber que as misturas acontecem originando
inovações. Aprimoramentos do tipo são descritos por Bakhtin – parafraseado por
Brandão (2006) – como uma forma de adaptação e mistura dos gêneros:
Embora cada gênero tenha suas características específicas, um
gênero não é, necessariamente, uma “fôrma” que se impõe ao
falante/escritor. Enquanto conjunto de traços marcados pela
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
91 regularidade, pela repetibilidade, o gênero é relativamente
“estável”, mas essa estabilidade é constantemente ameaçada por
forças que atuam sobre as restrições genéricas, forças de caráter
social, cultural e individual (estilísticas) que determinam ou
mudanças num gênero, ou seu apagamento, ou sua
revivescência. Essa tensão entre estabilidade x variabilidade se
faz marcar de maneira específica nos diferentes gêneros.
(BRANDÃO, 2005, p. 31)
Essas observações servem para justifica a sofisticação jornalística no discurso de
Jabor. Tem-se então, um telejornal que reserva espaço para uma variação estilística
partidarizada, conduzindo a opinião pública sem nenhum disfarce.
No plano do tipo de linguagem, Arnaldo Jabor prefere a literária. Porque sua
formação de cineasta o conduz para um jornalismo que transige os moldes
padronizados. Ora para uso da linguagem literária não é preciso nenhuma legitimação
prévia. Conforme Maingueneau:
... na literatura, ao contrário do que ocorre na medicina, não há
diploma reconhecido que confira o direito à palavra. Para
determinar quem tem o direito de enunciar, um posicionamento
literário define à sua própria maneira o que é um autor legítimo.
Cada autor se orienta em função da autoridade que tem
condições de adquirir, dadas as suas conquistas e a trajetória que
concebe a partir delas num dado estado do campo.
(MAINGUENEAU, 2006, p. 152)
Amparado pelos livros e filmes produzidos e premiados, o comentarista do JB
define sua maneira literária no percurso de sua história. Desta forma, encontra-se
perfeitamente confortável para o uso de construções poéticas e conotativas num espaço
que sugere contenção desses aspectos. Pois, como já refletido, um jornal televisionado
tende a manter relativa estabilidade de gênero discursivo e tradicionalmente não permite
inovações estilísticas.
Quebrando as regras destaco construções de Jabor como:
“Pra fazer uma piada infame, essa greve dos controladores caiu
do céu no governo Lula”
(...)
“Ninguém tem saco pra administrar, fica só a Dilma Holseff,
coitada, tarefeira, trabalhando feito uma louca. Dizem que, no
fim do expediente, ela até varre o planalto e apaga a luz.”
(No comentário: “E o Lula?”)
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92 Sendo a linguagem literária passível de interpretações várias, também por ser
mais atraente a qualquer leitor, um fato importante nesse uso de gênero é perceber como
a crítica se torna arte e como o comentário torna-se mais importante que a própria
noticia veicula. Como bem dizem Fernando & Barbosa (1992):
A humildade implícita no ato de instrumentalizar-se
corretamente colocaria em proporções mais “saudáveis” a
tendência crescente ao texto narcisista, pseudoliterário, crônicatrampolim, no qual a janela torna-se espelho e o comentarista,
assunto. Do modo como tem ocorrido, o jornalismo cultural
substitui a tarefa crítica da descoberta pela tentação frívola da
invensão auto indulgente, a demonstração pela persuasão.
(FERNANDO & BARBOSA, 1992)
A telecrônica Jaboriana é uma representação da crônica-trampolim, a tentativa
de autopromoção alavancada por uma crítica embebida pela linguagem literária. O
espectador assiste uma crítica à política nacional e desfruta de fina poesia enquanto o
crítico alça vôo no reconhecimento de seu trabalho parasitário. Jabor, pela sua
construção literária, torna-se assunto no lugar da própria notícia.
Por motivos histórico/pessoais o autor conduz os poucos segundos de seu tempo
no JB compartilhando uma telecrônica com todo legitimação que a o lugar proporciona
e com a destreza que a linguagem da literatura permite.
O CONTEÚDO
O tema de política partidária no Brasil tem sido quase sempre associado aos
conceitos de corrupção, manejo de influências, nepotismo etc. Relação que dispensa
justificativa muito longa, visto que essas práticas são corriqueiras e divulgadas algumas
vezes, muitas outras, permanecem no anonimato.
O político (candidato ou eleito) já carrega consigo a imagem de desconfiança,
pelo senso comum. O jornalista que fala de política abarca consigo a credibilidade sobre
esse conteúdo que o político não tem. Em outros termos, o político é quase sempre
rotulado como demagogo, sendo que a imagem de corrupto está associada ao lugar de
político, o jornalista por sua vez é quase sempre visto como justiceiro, a voz do povo. O
que faz muitas vezes o telespectador imaginar que o comentarista é apolítico. Mas não
é. Essa suposta apolitização, áurea de imparcialidade, não resiste a uma observação
mais cuidadosa sobre o conteúdo dos comentários, cuidado que não ocorre com todos os
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
93 observadores. Aliás, os outros componentes que constroem esse sujeito (o lugar e a
linguagem) servem de distração para a realização de uma campanha política declarada.
Enquanto o telespectador ou ouvinte tem sua atenção voltada para o lugar (jornalista) e
a linguagem (literária) esquece-se da filiação política do comentarista. É curioso como o
jornalismo pode ser tão parcial no seu conteúdo e ao mesmo tempo espelhar um sujeito
dotado de credibilidade e aceitação pelo plano da linguagem e pelo seu lugar.
Evidentemente que essa aceitação (também especulativa – não comprovada) é garantida
também por outros aspectos: o fato do JG ser veiculado pela Rede Globo (emissora
mais assistida no país), a imagem de intelectual construída pelo comentarista, o teor de
muitas notícias que partem de fundos de verdade etc.
Para que esse estudo não penda para a afirmação do tipo: “nunca se poderia
noticiar informação alguma que se estaria tomando partido”, proponho uma análise do
conteúdo discursivo.
Para descrever o sujeito escancaradamente parcial no conteúdo político de Jabor,
destaco o comentário 13 sobre o debate do dia 08/10/2006 entre os candidatos Luiz
Inácio da Silva e Geraldo Alckmin para disputa de segundo turno. A crítica foi
apadrinhada ao ponto. Coube ao Tribunal Superior Eleitoral determinar a retirada do
comentário dos instrumentos midiáticos, pois julgou que o texto promovia a campanha
do candidato do PSDB. Eis alguns trechos:
De um lado, a teimosa demanda de Alckmin pelo concreto da
administração pública e, do outro lado, o Lula apelando para
pretextos utópicos, preferindo rolar na retórica de símbolo.
(...)
Alckmin foi incisivo; Lula foi evasivo. Lula saiu da arrogância
do primeiro turno para o papel de "sóbrio estadista injustiçado".
Mas escondeu seu mau humor quase ofendido, por ter de
dialogar ali com aquele "burguês", limpinho e sem barba.
(...)
Ele gaguejou, tremeu, suas frases peremptórias não tinham
ritmo, não "fechavam", enquanto Alckmin parecia um
cronômetro, crescendo no ritmo e concluindo com fragor.
Lula estava rombudo, Alckmin era um estilete.
Um quadro pode ser montado listando as características dos dois candidatos pela
ótica do comentarista:
13
Comentário transmitido pelo veículo de radiodifusão CBN em 10 de outubro de 2006. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
94 Geraldo Alckmin
Luiz Inácio da Silva
pelo concreto da administração pretextos
utópico,
retórica
pública
símbolo.
Incisivo
evasivo
"burguês", limpinho e sem barba
"sóbrio estadista injustiçado”
um cronômetro
gaguejou, tremeu
de
crescendo no ritmo e concluindo frases peremptórias não tinham
com fragor
ritmo
Estilete
rombudo
Nesse tipo de recorte fica mais clara a preferência do comentarista. O visível
compromisso político do comentarista é camuflado pelo lugar de jornalista e pela
linguagem croniqueta. Então, parece não se tratar de discutir a parcialidade camuflada
da mídia televisiva, mas a parcialidade inteiramente visualizada, desta forma o JG fica
completamente a mostra quanto às suas filiações políticas, ainda mais do que já é.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Todo aparato discursivo é uma interpelação pela a formação ideológica age
coercivamente transformando o individuo em sujeito de um discurso que pensa que é
seu, mas pertence a sua classe. O sujeito dessa análise disfarça-se de apolítico, numa
construção aparente, uma ilusão projetada. Para isso, lança mão da história de cineasta
intelectual, da audiência que goza a emissora, da linguagem, do lugar. A imagem do
intelectual comentarista é a exploração de requinte dos jornais de TV, a figura do
filósofo geral, o jornalista literato que conduz o publico a adesão de opiniões políticas
que convém à emissora. È curioso notar que dadas notícias são sempre acompanhadas
dessas “notas explicativas” como se carecessem de comentários à parte para serem
entendidas, ou melhor, para que por elas tomem partido. Quando à maioria das outras
notícias, de outros teores, parece que o público pode interpretá-las sem esses
comentários adicionais.
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
95 REFERÊNCIAS:
ARNALDO JABOR. Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-da-globo/>. Acesso
em outubro a dezembro 2006 e 2007.
BAKHTIN, M. M. Marxismo e a filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara
Frateschi Vieira. 12 ed. São Paulo, HUCITEC, 2006.
BRANDÂO, Helena H. Nagamine. Estilo, gêneros do discurso e implicações didáticas.
In: Discurso em análise III. (org. Joselice M. de Barreiro, Maria José C. Rocha e João
Antônio de S. Neto), 31. Salvador: NEAD, 2005.
BARBOSA, Frederico & FERNANDO, Carlos. Que crítica? Caderno Mais! Folha de
São Paulo em 24/02/1992.
FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. 11 ed. São Paulo: Contexto,
repensando a língua portuguesa, 2002.
MAINGUENEAU, Dominique. Discurso Literário. Trad. Adail Sobral. São Paulo:
Contexto, 2006.
______. Novas tendências em análise do discurso. Trad. Freda Indursky. 3 ed. São
Paulo: Pontes, 1997.
ORLANDI, Eni. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 8 ed. Campinas:
Pontes, 2009.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. de
Eni P. Orlandi. 3 ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
96 A CONTRIBUIÇÃO DOS ESTUDOS SOCIOLINGÜÍSTICOS PARA
O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: UMA ABORDAGEM DO
CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO
Vivian Meira (UNEB/UNICAMP/FAPESB)
INTRODUÇÃO
Nesse artigo, procuro delinear a polêmica envolvendo a formação do português
popular brasileiro e a influência do contato entre línguas na constituição deste,
abordando, para tanto, os pontos de vista de diversos estudiosos sobre esta temática.
Discuto também a contribuição desses estudos sociolinguísticos para o ensino de Língua
Portuguesa, tentando relacionar essa perspectiva à concepção de educação proposta por
Saviani (1991, 1999).
A POLÊMICA SOBRE A FORMAÇÃO DO PORTUGUÊS POPULAR BRASILEIRO:
OS CONTEXTOS SOCIAIS DA FORMAÇÃO LINGÜÍSTICA DO BRASIL
A heterogeneidade linguística manifesta a heterogeneidade social, portanto, há
uma relação entre língua e sociedade. A diversidade linguística no Brasil tem sua
história ligada à história dos diferentes povos que entraram em contato na colonização
de nosso povo. Nesse caso, o contexto sociolinguístico no qual o português emergiu se
distingue do contexto sociolinguístico encontrado em outros países de língua
portuguesa, como, por exemplo, em Portugal. Daí, para entendermos a diversidade
linguística brasileira, temos de compreendê-la como resultado do convívio, na
colonização, de diferentes povos, com suas próprias línguas e culturas.
Em linhas gerais, o contexto sociolinguístico e histórico de formação do
português popular do Brasil, caracterizado pela presença de africanos, indígenas e
brancos europeus e, portanto, pelo contato entre línguas e pelo processo de Transmissão
Linguistica Irregular, TLI (cf. Lucchesi, 2003), aponta para a ocorrência de alterações
e/ou variações significativas nas variedades populares do português. De certo modo, o
contexto histórico de constituição da nossa realidade linguística aponta para um
processo de transmissão linguística caracterizado por alterações nos padrões de uso
linguístico no Brasil no sentido de utilizar formas não marcadas, ou seja, de simplificar
e/ou reduzir o uso de certas estruturas gramaticais. Portanto, compreender a história
sociolinguística do Brasil, é essencial para avaliarmos a importância do massivo contato
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
97 do português com as línguas indígenas e africanas e o processo de TLI daí decorrente
para a formação da realidade linguística brasileira, especificamente, para as suas
variedades populares. E esse entendimento pode auxiliar o professor de Língua
Portuguesa a adotar uma postura positiva diante das inúmeras variações linguísticas
presentes na sala de aula, oriundas de diferentes tipos de alunos, que espelham o meio
social.
Na próxima seção, serão apresentadas algumas das hipóteses que buscam
explicar a origem das variações no Português falado no Brasil.
HIPÓTESES PARA EXPLICAR A ORIGEM DAS VARIAÇÕES NO PORTUGUÊS
BRASILEIRO
É possivel distinguir entre três formulações teóricas que propõem explicar a
origem da diferença entre o português do Brasil e o português europeu: a da
crioulização prévia, a da deriva e a questão da crioulização fatorizada.
Adolfo Coelho, no século XIX, levantou a questão de que há certas semelhanças
e aproximações entre aspectos de variantes do português brasileiro e crioulos de base
portuguesa. Guy (1981) vai assumir a hipótese da crioulização prévia do português
popular do Brasil, afirmando que este apresenta alguns traços de línguas crioulas. Em
1993, Tarallo, no artigo “Sobre a alegada origem crioula do português brasileiro:
mudanças sintáticas aleatórias,” contesta as afirmações de Guy (1981) e defende o fato
de que não há como afirmar que tenha ocorrido um processo de crioulização prévia no
PB, uma vez que as variações neste tendem a afastá-lo de sua língua alvo, o português
europeu e não a aproximá-lo, como deveria ocorrer no processo de descrioulização.
A teoria da deriva ou evolução natural é defendida por Naro e Scherre (1993;
2000), que consideram que o fenômeno da variação tem origem na antiga deriva secular
das línguas indo-européias em geral e das línguas românicas em particular, sendo que,
para esses sociolinguistas, as condições sócio-históricas e lingüísticas do Brasil apenas
aceleraram esses processos de mudança.
Na verdade, Naro e Scherre (1993), apesar de serem sociolinguistas, tentam
explicar as variações no português do Brasil tendo como base uma orientação
estruturalista, afirmando que as mudanças ocorridas em nossa língua foram motivadas
pela deriva linguística do português e, além disso, que tanto os indígenas quanto os
africanos foram responsáveis apenas pela aceleração desse processo. De certa forma, o
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
98 que houve, para esses estudiosos, foi uma evolução interna do sistema da língua
portuguesa.
A questão da crioulização fatorizada é defendida por Baxter e Lucchesi (1997).
Segundo eles, a variação é resultado do processo de transmissão linguística irregular,
decorrente de um forte e massivo contato linguístico entre povos (europeus, indígenas e
africanos), que, por sua vez, estiveram presentes não apenas na formação sócio-histórica
de nosso povo, como também na nossa constituição linguística. Além disso, para Baxter
e Lucchesi (1997), este processo esteve mais fortemente marcado no interior do país,
onde há ausência de escolarização, de meios de comunicação e de transporte.
No Brasil não houve a formação de crioulos típicos (cf. Lucchesi, 1999), uma
vez que a nossa formação sociolinguística não deu ensejo à constituição de situações
como estas. É possível que tenham existido variedades linguísticas crioulizantes em
pontos isolados do nosso território, mas as diversas alterações que se processaram no
cenário sócio-econômico do Brasil nos últimos séculos contribuíram para a não
conservação dessas variedades.
Nesse sentido, apropriamo-nos da seguinte afirmação de Mattos e Silva
(2000:13): ‘‘(...) a crioulização prévia não pode ser descartada para certos locais nos
interiores rurais brasileiros, como, aliás, defendem A. Baxter e D. Lucchesi, mas não se
justifica para o geral do Brasil.’’ Foram várias as razões que contribuíram para a não
formação de crioulos no Brasil, dentre as quais posso citar o fator demográfico,
apresentando um percentual de população branca não tão inferior à população negra e o
fato de ter existido uma miscigenação entre as raças, favorecendo um contato mais
estreito com a língua alvo.
Defendo a posição de que o contato do português, sobretudo, com falantes de
línguas africanas e o processo de TLI daí decorrente serem essenciais para entendermos
a constituição do português popular do Brasil. No entanto, isso não significa que houve
transferência de estruturas linguísticas do substrato. Com efeito, o que houve foi uma
aquisição precária do português por falantes de línguas indígenas e africanas, o que
desencadeou um processo de transmissão irregular do português do tipo menos intenso
do que o que se dá nas situações de pidginização/crioulização típicas.
Lucchesi (2000) afirma que as condições sócio-históricas de constituição do
português popular do Brasil apontam para um processo de variação, tanto dos elementos
flexionais quanto dos gramaticais e, portanto, tal processo não resulta na eliminação
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
99 total dos elementos gramaticais, como é comum nos crioulos típicos. Na verdade, o
processo de variação ocorrido no PB foi decorrente de uma transmissão linguística
irregular menos intensa.
As variações ocorridas no português popular do Brasil refletem o processo de
constituição sócio-histórica de nosso povo. Assim, tanto o contato entre línguas, quanto
a transmissão linguística irregular desencadeada pelo contato, conjugados com dados da
quase ausência de escolarização no decorrer do século XVI ao XIX podem contribuir
para explicar a origem dessas variações. O estudo da história sociolinguística do Brasil
pode contribuir significativamente para o esclarecimento da origem das variações no
português popular brasileiro e, assim, levar alunos e professores a quebrar visões
preconceituosas a respeito das variações em nossa língua.
Há atualmente variações em vários fenômenos linguísticos, dentre eles, posso
citar uma variação no uso do modo subjuntivo (cf. Meira, 2006), em que a forma
morfológica deste vem sendo substituída pela do indicativo. Uma analise histórica desse
fenômeno demonstra que essa variação no PB não é atual, como encontramos em
Alkmim (2001), que, ao estudar a variedade linguística de negros e escravos
representada em charges de 1876, observou, como um dos fenômenos linguísticos
comuns à fala de negros, o uso das formas de presente do indicativo em lugar do
presente do subjuntivo. Reproduzo a seguir um dos trechos dos diálogos da charge O
Mosquito, na qual está registrado presenta (presente do indicativo) por apresente
(presente do subjuntivo):
- Pai Zuzé, iesse di água deviacaba: se eu fôsse ministôro, água
não fartava. Dexava tudo sórro negóço, mas água não fartava,
não...
- Presenta nas eleição, você qui é fôrro.
- Óia, nhonhô Texera em sendo ministôro não li digo nada.
(Charge de Rafael Bordado in O MOSQUITO, de 26/1/1876,
apud ALKMIM, 2001:323).
Esse registro evidencia a relação histórica entre o uso das formas não marcadas
do indicativo nos contextos de uso das formas morfologicamente marcadas do
subjuntivo, de um lado, e a aquisição imperfeita do português pelos escravos africanos e
a nativização desse modelo defectivo de português falado com segunda língua entre
seus descendentes, de outro.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
100 A complexidade das regras que norteiam o emprego do subjuntivo e dos valores
e formas a ele associados conjugados com o contexto social, no qual muitos alunos
estão inseridos, bem como a ausência de meios normatizadores contribuem para
desfavorecer a transmissão das formas de subjuntivo, como das formas de outros
fenômenos da língua, como da concordância nominal, por exemplo.
A relação entre língua e sociedade, bem como a teoria linguística que tenta dar
conta dessa relação será tema da nossa próxima seção.
A LÍNGUA SOB A PERSPECTIVA SOCIAL: A SOCIOLINGÜÍSTICA
VARIACIONISTA
Uma variável linguística consiste em duas ou mais formas distintas de se
expressar a mesma informação, o mesmo conteúdo semântico, num mesmo contexto e,
como afirma Labov (1983), quanto à referência ou valor de verdade, as variantes são
idênticas, distinguindo-se apenas em sua significação social ou estilística. Em si, a
língua, seja ela voltada para uma norma padrão ou não, é a língua, um meio de
comunicação. Os valores que atribuímos a ela são valores sociais.
Há uma realidade bipolarizada no PB (cf. Lucchesi, 2001), visto que de um lado
há as normas referentes ao português urbano culto e de outro as normas referentes ao
português não culto, cada uma apresentando características próprias e tendências
específicas de mudança.
A compreensão da língua como fato social apenas recentemente passa a fazer
parte dos estudos e da pesquisa linguística, com o advento da Sociolinguística. No
entanto, desde o inicio do século XX, muitos estudiosos vêm discutindo questões acerca
do caráter social da língua e um dos precursores foi Antoine Meillet (1866-1936), que
enfatiza, no tratamento das questões linguísticas, a associação entre língua e fato social.
As ideias de Meillet vão de encontro à posição de que ‘‘a linguística tem por
único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma’’
(SAUSSURE, 2003 [1916]: 271), frase atribuída a Saussure e que encerra o Curso de
Lingüística Geral. .
Para Meillet, é essencial que se faça referência à diacronia, à
história a fim de que se compreenda o fenômeno lingüístico,
afirmando que a língua é um fato social, portanto, a lingüística é
uma ciência social. Meillet entende assim que a língua deve ser
concebida como um fenômeno social, podendo receber
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
101 influência dos fatores externos. Este estudioso reconhece ainda
que há correlação entre a mudança linguística e seu contexto
externo, pois ‘‘tout fait de langue manifeste un fait de
civilisation’’ (MEILLET, 1965 [1921]:168).
No entanto, durante muitas décadas do século XX, a concepção imanentista,
consolidada com o estruturalismo, direcionou os estudos linguísticos e entendeu a
mudança na língua principalmente a partir de fatores internos. Tendo isso em vista, o
sistema lingüístico deveria ser estudado por suas relações estruturais, sem interferências
do contexto social. Os fatores externos, por sua vez, apenas eram aceitos na
interpretação da mudança na língua depois de esgotadas todas as possibilidades
imanentistas e, de certo modo, os estudos lingüísticos se limitavam às questões e às
condições internas.
Durante a primeira metade do século XX, a dicotomia saussureana entre langue
e parole permeou os estudos lingüísticos. Nesse período, vigorou, grosso modo, uma
concepção de língua que consistia num sistema abstrato e uniforme a todos os falantes.
Esta concepção, de certa forma, foi retomada por Chomsky em meados desse mesmo
século.
O aspecto social da linguagem não era reconhecido diante do caráter uniforme
da língua, que, por sua vez, era preservada pela concepção estruturalista como um
sistema fechado, abstrato e homogêneo. Havia, nesse sentido, uma identificação entre
homogeneidade e estrutura. Porém, na segunda metade do século XX, pelo menos uma
parte dos estudos linguísticos passa a dar ênfase a uma maior integração entre o fator
social e a língua, de modo a destacar a variação e a heterogeneidade, como inerentes ao
sistema linguístico. Assim, ao se estabelecer uma correspondência entre língua e fatos
sociais, passa-se a reconhecer a heterogeneidade e a diversidade linguística.
Em 1963, Labov realiza um primeiro estudo tendo como objeto a língua falada e
sua relação com o contexto social e, portanto, de cunho sociolingüístico. A comunidade
estudada é a da ilha de Martha’s Vineyard, no Estado de Massachusetts, costa leste dos
EUA, onde analisa a variação entre ditongos. Empreende estudos também sobre o inglês
falado em Nova Iorque, analisando a estratificação social do /r/, com amostras de fala
colhidas em grandes lojas de departamento e o inglês vernáculo dos negros do Harlem
(a língua do gueto), além de outras pesquisas de base sociolingüística na Filadélfia. De
forma geral, considero Labov o mais importante representante do modelo teórico da
Sociolinguística Variacionista. De acordo com esta teoria, toda variação é motivada,
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
102 controlada por fatores e pode ser previsível. Portanto, nesse modelo, a aleatoriedade no
uso da língua está fora de cogitação.
O objeto de estudo da Sociolingüística é o vernáculo, a língua falada, utilizada
em situações cotidianas e informais. O vernáculo pode ser entedido como a língua
falada em situações concretas de uso. Portanto, o objeto da análise variacionista é a
variável linguística.
O programa laboviano estuda a língua em uso, ressaltando seu caráter social, ou
seja, para Labov (1983) há relação entre fatos linguísticos e fatos sociais. Nesse sentido,
a Sociolinguística busca estabelecer correlações entre as variáveis da língua e as
variáveis sociais, como nível de escolaridade, faixa etária, sexo etc., concebendo a
variação como inerente ao fenômeno linguístico e não mais como exterior a este. Dessa
sorte, a heterogeneidade linguística passa a ser observada e analisada e a variabilidade
da língua deixa de ser considerada livre ou aleatória, sendo controlada por motivações
sociais; diante disso, a variação da língua passa a ser alvo das pressões externas. O
falante, dessa forma, utiliza certas variedades linguísticas conforme determinados
fatores, como estratificação, escolarização, idade etc.
Weinrich, Labov e Herzog (1968) afirmam que há sistematicidade e ordenação
na variação e argumentam que a heterogeneidade é essencial ao fenômeno lingüístico,
pois:
Parece-nos completamente inútil construir uma teoria da
mudança
que
aceite
como
entrada
descrições
desnecessariamente idealizadas e contrafactuais de estados de
língua. Muito antes que teorias preditivas da mudança
lingüística possam ser buscadas, será necessário aprender a ver a
língua, quer de uma perspectiva diacrônica, quer de uma
perspectiva sincrônica, como um objeto possuindo
heterogeneidade sistemática.
(...)
Um dos corolários de nossa abordagem é que, numa língua
servindo a uma comunidade complexa (isto é, real), é a ausência
de heterogeneidade estrutural que seria disfuncional’’
(WEINRICH, LABOV, HERZOG, 1968:100-101). 14
14
‘‘It seems to us quite pointless to construct a theory of change which accepts as its input unnecessarily
idealized and counterfactual descriptions of language states. Long before predictive theories of language
change can be attempted, it will be necessary to learn to see language -whether from diachronic or a
synchronic vantage- as na object possessing orderly heterogeneity. (...). One of the corrollaries of our
approach is that in a language serving a complex (i.e., real) community, it is absence of structured
heterogeneity that would be dysfunctional’’ (Tradução nossa).
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
103 O processo de variação linguística correlacionado ao contexto do contato entre
línguas está na base da formação do PB. Nesse caso, o contexto sociolinguístico
ocorrido no Brasil era complexo e heterogêneo, visto que não havia apenas uma língua
de substrato, mas várias, tanto as dos ameríndios, quanto as dos africanos, que entraram
em contato com a língua de superstrato, a língua portuguesa, cujas variedades eram
diversas, a depender dos traços sociais e regionais do colonizador. Desse modo, a
diversa “estrutura” social e demográfica patenteada na terra brasilis terminou por se
refletir na variedade lingüística adquirida pela população local.
A aquisição precária do português pelos indígenas aculturados e pelos escravos
africanos e a nativização dessa língua pelos descendentes destes teria influenciado todo
o processo de formação do PB. Foi em um contexto sociocultural e histórico variado
que se desenvolveu e se implantou no Brasil a língua portuguesa e é irrefutável a ideia
de que esse meio social não tenha influenciado nossa língua e nossa cultura. 15
Na verdade, fomos totalmente afetados pela mistura étnica, cultural e linguística
trazida pelos diferentes povos que aqui habitavam. O contato entre povos é o grande
responsável pela pluralidade cultural e linguística que caracteriza a sociedade brasileira
atualmente. E é a partir dessa perspectiva de observação que acho conveniente o ensino
de Língua Portuguesa ser pautado. Além do ensino das regras, o professor precisa
aceitar as variações no sentido de ensinar aos alunos a usá-las em diferentes contextos,
ora se usa a linguagem formal, ora se usa uma linguagem mais informal.
De fato, o caráter heterogêneo e variável da língua possibilita a sua plena
funcionalidade dentro de uma comunidade também heterogênea. Por isso, numa sala de
aula sabemos que há heterogeneidade e que a mesma precisa ser trabalhada de forma
consciente e produtiva. Tomar as variações linguísticas dos alunos a partir de uma visão
preconceituosa não contribui para o ensino de regras gramaticais.
Ao eleger esse tópico de análise, deparo-me com a delicada questão da variação
na sala de aula. Relacionar a abordagem sociolinguística com uma concepção
educacional será objeto da próxima seção.
15
Para mais detalhes da história sociolingüística do Português falado no Brasil, ver Meira (2008).
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
104 A SOCIOLINGÜÍSTICA NA SALA DE AULA: PERSPECTIVAS PARA O ENSINO DE
LÍNGUA PORTUGUESA
O professor precisa saber lidar com a variação linguística, pois sua postura
refletirá no seu ensino e no processo de aprendizagem do aluno. Nesse caso, posso
tentar relacionar, de forma breve, os achados sociolinguísticos sobre variação na língua
à proposta de Saviani (1991) a respeito da Pedagogia Histórico-Crítico.
A prática pedagógica relacionada ao ensino de Língua Portuguesa deve tentar
associar as regras gramaticais, o conteúdo propriamente dito da tradição gramatical ao
contexto social no qual o aluno, bem como o professor estão inseridos, assim como o
contexto social no qual a Língua Portuguesa emergiu no Brasil. Desconhecer os
contextos de surgimento da Língua Portuguesa no Brasil é quebrar essa interação. Essa
prática deve buscar a transformação da sociedade através da ação-compreensão-ação do
educando, enfocando no conteúdo, como produção histórico-social. (cf. Saviani, 1999).
E assim as aulas de Língua Portuguesa devem ser mais do que a transmissão de regras
prescritas pela tradição gramatical, devem ser aulas de história da língua, bem como de
transformação social através de uma postura linguística positiva, transmitindo regras e
valorizando as variações, sabendo fazer uso delas em contextos específicos.
Apesar de falantes nativos de Língua Portuguesa, muitos alunos, que ingressam
nas escolas, nem sempre são bem sucedidos nas aulas de Língua Portuguesa. A
obrigatoriedade das regras gramaticais, a necessidade de abandono de suas variações
linguísticas, sem nem mesmo lhes serem explicados os motivos da escrita ser tão
distante da língua falada, leva os alunos, algumas vezes, a sentirem dificuldades nas
aulas de sua língua materna.
A educação nesse caso acaba reproduzindo a sociedade na qual ela está inserida.
Algumas práticas pedagógicas para Saviani não apresentam uma proposta pedagógica,
apenas reproduz o mecanismo de funcionamento da própria escola tal como está
constituída.
A variação linguística é comumente encarada com visões preconceituosas,
principalmente quando é utilizada por grupos marginalizados socialmente, já que os
vários falares representam os diversos grupos que compõem uma sociedade e a
heterogeneidade linguística manifesta a heterogeneidade social. Fazendo uma ponte
com as ideias defendidas por Saviani, deve haver em sala um tratamento diferenciado
José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
105 com relação às diferenças individuais, que terminam se manifestando também nas
diferenças linguísticas. É importante que a escola supra as carências dos alunos.
As aulas de Língua Portuguesa devem estar voltadas tanto para o ensino de
regras gramaticais quanto para a valorização das diferenças linguísticas de cada aluno,
mostrando, através de diferentes metodologias, que o aluno pode usar varias formas da
língua dependendo do contexto social em que ele está inserido e que não existe uma
forma melhor ou pior do que outra. Todas são usadas para um mesmo fim: a
comunicação. E, como observa Saviani, a escola deve adequar seus conteúdos de forma
a ser um instrumento de mudança social. Nesse caso, o ensino de Língua Portuguesa
tem de ser abrangido como um todo, de várias perspectivas, tanto de uma visão histórica
quanto social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Foi apresentado um breve comentário sobre a importância do conhecimento por
parte do professor e alunos acerca da história da Língua Portuguesa no Brasil.
Muito mais do que apontar diferenças entre variedades da norma culta e da
norma vernácula, é fundamental que se compreenda que cada uma delas está ligada a
um contexto sócio-histórico distinto e, portanto, apresenta diferentes razões históricas
para explicar suas diversidades. Já que a diferença, a variedade, do ponto de vista da
língua, é explicada pela necessidade de uso lingüístico de cada sociedade, de cada povo.
Sendo assim, é importante entender que tanto o português culto quanto o português
popular apresentam histórias distintas, revelando origens muito distanciadas, apesar de
muitas vezes se aproximarem.
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tópico da história do português no Brasil. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. Para
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phonology, syntax, and language history. Philadelphia: University of Pennsylvania.
391f. mimeo. Ph.D Dissertation on Linguistics.
Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4
106 LABOV, William (1983). Modelos Sociolingüísticos. Trad. de José Miguel Marinas
Herreras. Madrid: Cátedra.
LUCCHESI, Dante .As Duas Grandes Vertentes da História Sociolingüística do Brasil
(1500-2000) São Paulo:.Delta, v. 17, no 1, 2001, pp. 97-130.
______. A Variação na Concordância de Gênero em uma Comunidade de Fala Afrobrasileira: Novos Elementos sobre a Formação do Português Popular do Brasil. 364f.
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José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos
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