JJosé osé Manuel Manuel Teixeira Teixeir a Castrillon Castrillon P Patrícia atrícia K Kátia átia d da aC Costa osta Pina P in a W Wilson il son d da a Silva Silva Santos Santos (Organizadores) (Org (O rgan aniz izad ador ores es)) 2011 José Manuel Teixeira Castrillon Patrícia Kátia da Costa Pina Wilson da Silva Santos (Organizadores) Linguagens: Leitura, História e Educação Rio de Janeiro 2011 Copyright @2011 José Manuel Teixeira Castrillon/Patrícia Kátia da Costa Pina/Wilson da Silva Santos Publicações Dialogarts - www.dialogarts.uerj.br Coordenador do projeto: Darcília Simões - [email protected] Co-coordenador do projeto: Flavio García - [email protected] Coordenador de divulgação: Cláudio Cezar Henriques – [email protected] Darcília Simões - [email protected] Organizadores : José Manuel Teixeira Castrillon Patrícia Kátia da Costa Pina - [email protected] Wilson da Silva Santos - [email protected] Projeto de capa: Carlos Henrique Braga Brandão - [email protected] Diagramação e revisão final: Elisabete Estumano Freire - [email protected] Revisão gramatical e primeiro tratamento : Debora da Silva Ferreira - [email protected] Elton Ribeiro - [email protected] Logotipo Dialogarts: Gisela Abad - [email protected] Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Educação e Humanidades Instituto de Letras Departamento de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Filologia Românica UERJ – SR3 – DEPEXT – Publicações Dialogarts2011 FICHA CATALOGRÁFICA J8011 Linguagens: Leitura, História e Educação. José Manuel Teixeira Castrillon, Patricia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos (organizadores). – Rio de Janeiro: Dialogarts, 2011. Publicações Dialogarts Bibliografia ISBN 978-85-86837-78-4 1. Estudos Literários. 2. Linguagens. 3. Leitura. 4. História. 5. Educação. I. Publicações Dialogarts. II. Projeto de Extensão. III. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. IV. Título Correspondências para: UERJ/IL/LIPO – a/C Darcilia Simões ou Flavio García Rua São Francisco Xavier, 524 sala 11.023 – Bloco B Maracanã – Rio de Janeiro – CEP 20 569-900 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO .................................................................................................................................. 5 PARTE 1: O DISCURSO LITERÁRIO E ALGUMAS POSSÍVEIS LEITURAS OLHARES DA CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA SOBRE O LEITOR E A LEITURA Patrícia Kátia da Costa Pina ................................................................................................................ 8 ELOMAR, LEITOR DE LITERATURA - UMA ALBA MEDIEVAL NA CANÇÃO CANTADA Renailda Ferreira Cazumbá ............................................................................................................... 21 APROPRIAÇÃO E FICCIONALIZAÇÃO DO REAL NOS CONTOS: MANDINGAS DA ILHA QUILOMBA(1984), DO OUTRO MUNDO(2002) E DO OUTRO LADO TEM SEGREDOS(2003) Luciete Bastos.................................................................................................................................... 34 AS RELAÇÕES DISCURSIVAS NO CONTO O ALIENISTA Oton Magno Santana dos Santos ....................................................................................................... 48 MEMÓRIA E CULTURA : O INDÍGENA , UMA LEITURA LITERÁRIA. Maria Angélica Rocha Fernandes ...................................................................................................... 57 PARTE 2: DISCURSO, LÍNGUA, LEITURA A IMAGEM DA MULHER NO DISCURSO PUBLICITÁRIO Cláudia Madalena Feistauer .............................................................................................................. 66 O CORPO E O DISCURSO: A MULHER NA MIDIA IMPRESSA Luzimare Almeida Piloto e Fabiana Andrade Santos ........................................................................ 74 ANÁLISE DO SUJEITO DO DISCURSO NOS COMENTÁRIOS POLÍTICOS DE ARNALDO JABOR NO JORNAL DA GLOBO: 2006, O ANO DA REELEIÇÃO Baktalaia de Lis Andrade Leal........................................................................................................... 85 A CONTRIBUIÇÃO DOS ESTUDOS SOCIOLINGÜÍSTICOS PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: UMA ABORDAGEM DO CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO Vivian Meira (UNEB/UNICAMP/FAPESB) .................................................................................... 96 5 APRESENTAÇÃO O livro Linguagens: leitura, história e educação é composto por nove capítulos, voltados todos para o estudo das linguagens que engendram o mundo contemporâneo enquanto objeto de leitura, enquanto constructo histórico e enquanto instrumento de formação de sujeitos conscientes de seu lugar social e de sua potencialidade. Os cinco primeiros abordam as relações entre a linguagem literária e o leitor. O primeiro reflete sobre o lugar do leitor na Teoria da Literatura novecentista e na contemporaneidade: “Olhares da Crítica Literária Brasileira Contemporânea sobre o Leitor e a Leitura” é assinado pela Doutora Patrícia Kátia da Costa Pina, Professora Titular de Literatura Brasileira do Campus XX da UNEB, situado em Brumado. O segundo capítulo aborda a poética de Elomar, numa leitura consistente e sedutora, que traz esse “cantador” nordestino enquanto leitor da lírica medieval: “Elomar Leitor de Literatura (Uma Alba Medieval na Canção “Cantada”)” foi escrito pela Mestra Renailda Ferreira Cazumbá, Professora Assistente também do Campus XX da UNEB. O terceiro capítulo, criado pela Professora Especialista Luciete Bastos, docente do Campus VI da UNEB, sediado em Caetité, cujo título é “Apropriação e Ficcionalização do Real nos Contos: “Mandingas da Ilha Quilomba”(1984), “Do Outro Mundo”(2002) e “Do Outro Lado tem Segredos”(2003)” traz uma bela leitura da LIJ, pela análise de três obras de Ana Maria Machado. O quarto capítulo, escrito pelo Professor Especialista Oton Magno Santana dos Santos, Mestrando da UESC, docente do Campus XX da UNEB, intitulado “As Relações Discursivas no Conto ‘O Alienista’”, aborda a narrativa machadiana “O Alienista”, estudando os valores construídos pelo discurso do Bruxo Fluminense. O quinto estudo é de autoria da Especialista Maria Angélica Rocha Fernandes e aborda a questão do nacionalismo em dois momentos da literatura brasileira: o Romantismo e o Modernismo. Na segunda parte do livro, aparecem quatro capítulos, que abordam o discurso em seu trânsito com o leitor. O capítulo seis, “A Imagem da Mulher no Discurso Publicitário”, de autoria da Mestra Cláudia Madalena Feistauer, faz uma sagaz leitura das representações do 6 feminino na publicidade brasileira. O capítulo sete, escrito pelas Professoras Especialistas Fabiana A. Santos e Luzimare A. Piloto, intitulado “O Corpo e o Discurso: A Mulher na Mídia Impressa” aborda a representação do feminino em revista de grande circulação, através de sólido estudo acerca da retórica e suas “armas” de sedução do público. O capítulo oito, criado pelo mestrando Baktalaia de Lis Andrade Leal, aborda o discurso da mídia televisiva. O capítulo nove, que finaliza o livro, foi escrito pela doutoranda Vívian Meira, também professora da UNEB, Campus XX, Brumado: “A contribuição dos estudos sociolingüísticos para o ensino de Lingua Portuguesa: Uma abordagem do contexto sócio-histórico”, como aponta o título, trabalha na perspectiva da sociolingüística, observando, entre outros aspectos, o ensino da Língua Portuguesa. Os nove capítulos do livro desenham um sólido esforço de pesquisa acerca de algumas das linguagens que habitam e elaboram o mundo contemporâneo na perspectiva de docentes do ensino superior baiano, que lidam com a formação de professores, os quais irão, ao término de sua graduação, atuar no ensino básico público e privado. Livro que traz o olhar de dez profissionais que trabalham, estudam, escrevem, pensam, mais que tudo, pensam sobre os espaços físicos e simbólicos dentro dos quais circulam e com os quais interagem no seu diversificado cotidiano. José Manuel Teixeira Castrillon, Dr. Patrícia Kátia da Costa Pina, Dra. Wilson da Silva Santos, MSc Organizadores PARTE 1: O DISCURSO LITERÁRIO E ALGUMAS POSSÍVEIS LEITURAS 8 OLHARES DA CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA SOBRE O LEITOR E A LEITURA Patrícia Kátia da Costa Pina 1 A prática teórico-crítica que respondeu à poesia da modernidade, a partir de Baudelaire, centra-se na textualidade e/ou lega ao leitor estudos histórico-sociológicos. Quanto mais a poesia se concentrou em sua própria linguagem, mais a teoria e a crítica se esforçaram por investigá-la, descurando das relações texto/leitor, relegando a este último um lugar menor, ou, muitas vezes, um não-lugar. Não é que os teóricos e os críticos da literatura não “soubessem” da existência do leitor. Parece-me que os estudos literários novecentistas não quiseram se arriscar a lidar com uma categoria que supunham ser tão somente não-literária. A Estilística foi a primeira a trabalhar nesse sentido, considerando a obra um organismo fechado, cuja estrutura deveria ser descoberta. Claro que o “descobridor” seria o leitor, mas não o leitor comum, apenas o leitor preparado para isso. O leitor cotidiano, porque comum e avistado em qualquer rua ou mercado das cidades, grandes ou pequenas, esse não cabia nas altas considerações teórico-críticas, talvez por trazerem uma dimensão por demais trivial. O bom é que a Estilística intuía, ainda que ligeiramente, que todo o esforço poético e ficcional tinha uma direção – demandava um ato de decifração. O Formalismo Russo, à exceção de Tynianov e Bakhtin, privilegiou também a textualidade, fazendo análises imanentistas do literário. Esta última corrente teóricocrítica buscava delimitar as fronteiras do objeto a ser analisado, promovendo uma espécie de hierarquia discursiva. Desde o início de suas atividades, ainda sem a consistência de uma “escola”, os jovens russos que fundaram, entre 1914 e 11915 o Círculo Lingüístico de Moscou e, em 1917, a OPOIAZ, dentre os quais se destacam Chklovski, Brik, Jakobson, recusaram categoricamente as interpretações extraliterárias do texto: [...] os principais esforços dos formalistas [...] visavam estabelecer a tese segundo a qual devemos estudar os traços 1 Doutora em Literatura Comparada (UERJ, 2000). Professora Titular de Literatura Brasileira da UNEB, Campus XX, Brumado. Autora de Literatura e jornalismo no oitocentos brasileiro (EDITUS, 2002), organizadora de Vindiciae: em defesa de Machado de Assis, de vários capítulos de livro e de artigos em periódicos QUALIS/CAPES. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 9 específicos da arte literária. Para isto, é preciso partirmos da diferença funcional entre a língua poética e a língua quotidiana. (EIKHENBAUM, 1976, p.15) Considerando a poesia linguagem em função estética, buscavam a literariedade, isto é, o que de característico e peculiar houvesse na linguagem para fazê-la linguagem literária. O grupo voltava-se para o contingente, o palpável, o analisável, rejeitando as bases da teoria simbolista do verso e da teoria marxista. Essa peculiaridade associava-se a um potencial de conflito e deformação em relação à linguagem quotidiana – desvio, estranhamento: “[...] os formalistas se livraram da correlação tradicional de formafundo e da noção de forma como um invólucro, como um recipiente no qual se deposita o líquido (o conteúdo).” (EIKHENBAUM, op. cit., p.13) Sob a ótica formalista, a linguagem poética tinha a fronteira do diferente, do desviante, quanto à linguagem das práticas diárias. Esgarçando o comum, a linguagem poética com que se deparavam os formalistas na época, provocava uma reação de estranhamento no leitor. Percebo ser esta uma das grandes contribuições do Formalismo Russo: a consideração, mesmo que parcial, de que todo texto, principalmente literário, demanda um leitor. E a noção de estranhamento implicava a percepção de que o leitor necessário ao texto tinha história, fazia história, partilhava cultura, portava valores concretos, que lhe davam identidade. Tratava-se de uma linguagem desautomatizada, a qual confrontava esse leitor histórico e cultural com a fronteira do lugar-comum: O estudo da poesia do ponto de vista da arte exige atenção para o seu lado temático, para a própria escolha do tema, na mesma medida que para a sua estruturação, elaboração compositiva e combinação com outros temas. Neste sentido, tema para o poeta é toda palavra isolada provida de sentido concreto: aqui a temática coincide com a semântica poética; portanto, cada motivo que o poeta utiliza na composição do sentido do todo artístico deve ser examinado como tema. (JIRMUNSKI, 1976, p.67) Cada elemento componente do texto literário, para os formalistas, relacionava-se com os demais dentro da mesma obra, e com outros similares, em outras séries artísticas e/ou literárias. Esse processo de produção artística (prum), verdadeiro objeto da investigação formalista, ao se consolidar em uma obra, tende a sofrer um desgaste com o tempo, a arte, então, tende a absorver novas linguagens, formas, construções: O estudo da evolução ou da variabilidade literária deve romper com as teorias de estimação ingênua que resultam da confusão José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 10 dos pontos de vista: tomam-se os critérios próprios de um sistema (admitindo que cada época constitui-se num sistema particular), para julgar os fenômenos em relevo de um outro sistema. Deve-se então suprimir toda a marca subjetiva [...] (TYNIANOV, 1976, p.106) Tynianov e Bakhtin destoam da totalidade do grupo formalista por entenderem a série literária num processo relacional, tanto interno, como externo. O conceito de evolução literária de Tynianov, por exemplo, é curioso e mostra uma raiz mais distante para as práticas de historiografia literária contemporâneas. A história literária efetuada pelos Formalistas, sob a perspectiva acima recortada, fundada sobre transformações de estilos, formas e gêneros, traduzida através da articulação entre tradição e inovação, prevê o cânone e o desvio, pode ser entendida como uma linha interrompida, o que enfatiza um caráter sistêmico da literatura. Tynianov e Jakobson repensam a dicotomia sincrônico/diacrônico, relacionandoos por uma fusão sincronia-diacronia, e permitindo que se valorizasse a heterogeneidade literária, em detrimento da homogeneidade tradicional. Tynianov inclui ainda as questões relacionadas às séries sociais: a obra, a série literária e a série social relacionam-se em ritmos diferentes. A periodização, então, não pode ser pensada a partir de rupturas sincrônicas, mas como um processo heterogêneo de passagens e superposições variáveis no tempo. As contribuições formalistas tardaram a ser conhecidas sistematicamente na Europa e, principalmente, nas Américas, por conta da perseguição política sofrida pelos jovens pesquisadores. Condenado categórica e publicamente em 1930, o Formalismo Russo viu seus criadores e estudiosos espalharem-se pelo mundo, outros adotaram maneiras menos teóricas de abordar o literário, outros preferiram o pelotão de fuzilamento, como Polivanov, morto em janeiro de 1938. Tzvetan Todorov foi, posteriormente, um grande divulgador do movimento. Uma afirmação de Jirmunski parece poder definir bem o objeto, a ação, o método, enfim, dos Formalistas: As imagens poéticas são complementações subjetivas e mutáveis das representações verbais. Se, por um lado, a palavra e a poesia, no que se refere à perceptibilidade da representação, são mais pobres do que as artes plásticas, por outro lado, são mais ricas no seu domínio próprio. (JIRMUNSKI, 1976, p.442) Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 11 Lidar com o domínio próprio da poesia – a linguagem do desvio, do estranhamento – foi a prática formalista e é seu legado até para nós, estudiosos da literatura, ainda que “já” estejamos no século XXI. Outra corrente teórico-crítica de grande impacto no Brasil foi o Estruturalismo francês que, partindo das investigações antropológicas de Lévi-Strauss, estabelece ações analíticas e relacionais quanto ao objeto literário: De um ponto de vista estrutural, os quatro mitos ocultam uma unidade profunda, apesar do fato (...) de um deles aparentemente diferir muito dos outros por seu conteúdo, estilo e estrutura. Tentarei, não obstante, apreender as relações que se estabelecem entre os quatro mitos.. (LÉVI-STRAUSS, 1983, p.255) Os estudos do referido antropólogo serviram de base para que se estabelecesse o método estruturalista em relação à literatura: buscava-se a unidade profunda entre obras com discursos similares, a partir do estabelecimento de suas estruturas. Com isso, uma obra era relacionada à outra “semelhante”, de mesmo gênero, época etc., e “esqueletos” comuns eram traçados, confirmando-se uma espécie de “gramática da narrativa”. Através da noção de escritura, o estruturalismo francês, representado, aqui, principalmente por Barthes, ataca a verossimilhança mimética e expressiva e elimina o autor como subjetividade na obra, designando o texto como uma ação que não tem fim e que apaga qualquer origem. É, também, como a dos formalistas, uma abordagem imanentista do literário, mas é mais radical, uma vez que o texto e sua estrutura, a escritura em suma, presidem indubitavelmente esta forma de refletir sobre a literatura. E o leitor, pressentido e desejado pelos Formalistas Russos, adormece na perspectiva dos estruturalistas franceses. Para Barthes, a escritura destrói inclusive o corpo que escreve – o único tempo da escritura é o da enunciação, no qual o texto demanda ser ‘desembaraçado’: “...desloca-se para o leitor a função autoral, que deve realizar um sentido à custa da morte do autor como presença.” (HANSEN, 1992, p.32) Mas o leitor, aí, é uma abstração, não é uma realidade com a qual o crítico vá lidar. É uma suposição evanescente. As sociedades sem história foram a base do Estruturalismo, primitivas ou indígenas – nelas, o artista não era um indivíduo destacado dos demais, a arte não se baseava na originalidade e na diferença. O problema a ser questionado, aí, é que, mesmo nas tribos, os autores são reconhecidos, e muitas pinturas corporais se diferenciam por José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 12 conta da criatividade do autor. Barthes substitui o autor pela linguagem, pela escritura – ele se torna um ‘escriptor’, um ser de papel, um sujeito da enunciação que só existe nela: “...apagando a assinatura do escritor, a morte funda a verdade da obra, que é enigma” (BARTHES, 1970, p.219). A morte do autor, trazida por Barthes e relida por Foucault, consiste, no campo teórico, a uma crítica à ideologia que tem como fundamento Deus, a razão, a ciência, a lei, e marca a passagem do estruturalismo para o pós-estruturalismo. Segundo Antoine Compagnon, O autor foi, claramente, o bode expiatório principal das diversas novas críticas, não somente porque simbolizava o humanismo e o individualismo que a teoria literária queria eliminar dos estudos literários, mas também porque sua problemática arrastava consigo todos os outros anticonceitos da teoria literária. Assim, a importância atribuída às qualidades especiais do texto literário (a literariedade) é inversamente proporcional à ação atribuída à intenção do autor. (COMPAGNON, 1999, p.48) Barthes, ao substituir o autor pela linguagem, torna o objeto literário irredutível a uma intenção, o que coloca o leitor como critério de interpretação. Num movimento de releitura, Foucault entende que não há autores, há fundadores de discursividade. Ele está inserido na cultura do fluxo, que marca o fim da modernidade, nos anos 60 e 70: “A função-autor é, portanto, característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade” (FOUCAULT, 2001, p.274). O Estruturalismo Francês e suas posteriores releituras, portanto, centrando-se na escritura, abrem caminho para o desenvolvimento de estudos semiológicos, voltados para a análise do discurso – literário ou não. O grande legado estruturalista foi exatamente a busca do textual e, por conta dessa ação, o levantamento de questões cruciais para o estudo do literário, como a do autor, aqui enfocada. Na transição dos anos 60 para os 70 do século XX, na Alemanha, Jauss dá início a uma série de provocações a todos os teóricos imanentistas que dominavam o cenário acadêmico de então. Ligado à hermenêutica, como teoria da compreensão, Jauss tornou possível abandonar a ideia da ‘interpretação correta’, objetivo não alcançado pelos estruturalistas de matiz barthesiano, por não abordarem a categoria leitor/leitura. Nascem, aí, as Estéticas da Recepção e do Efeito, sendo representadas por dois teóricos de peso: Jauss, utilizando-se de métodos histórico-sociológicos; Iser, trabalhando com Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 13 métodos teorético-textuais. O primeiro enfoca em suas investigações a recepção, o segundo, o efeito. A primeira questão levantada pela referida corrente teórico-crítica, colocada por Jauss, diz respeito à forma como os autores entendem a experiência estética. Deve-se observar, aqui, que sua concepção de arte é idealista: a experiência estética, para ele, consiste no prazer oriundo da oscilação entre o eu e o objeto, o sujeito distanciando-se interessadamente de si e aproximando-se do objeto, o que resultaria em uma forma diferenciada de prazer: “...el carácter histórico de uma obra de arte no va solo unido a su función representativa o expresiva, sino a su misma necesidad de recepción...”(JAUSS, 1971, p.62) Privilegiando as vanguardas e, por conseqüência, um leitor ideal, Jauss trabalha com três categorias: poiesis, aisthesis, katharsis. O efeito catártico da leitura, numa retomada de Aristóteles, permite que se pense nessa idealização do leitor. Lidando com a ideia de horizonte de expectativas, Jauss traz questões relativas à regionalidade das transformações sofridas pelas obras no processo de leitura e à disseminação das mudanças por ela sofridas, indicando que o horizonte de expectativas deve mediar a composição das histórias da literatura: No ensaio inaugural, o horizonte de expectativas tinha sido relacionado ao gesto produtivo do leitor em função de um sistema de normas objetiváveis e reconstituíveis, entre outras, a partir de normas estéticas conhecidas, de relações explícitas com obras do cenário literário-histórico e da suposta oposição entre função poética e prática da linguagem. Menos de uma década depois, o próprio autor reconhece, explicitamente, a limitação de seus conceitos e aponta a ausência da esfera social como lacuna de sua construção teórica. (OLINTO, 1996, p. 27) Jauss desconstruiu a história da literatura de caráter universalizante, situando o fenômeno literário numa esfera comunicativa complexa. Criam-se, com Jauss, as bases para uma história da literatura relacional, que parte da desconstrução das noções de homogeneidade e totalidade que fundamentam as épocas e as escolas – há uma pluralização do tempo histórico. A segunda questão colocada pelas Estéticas da Recepção e do Efeito, desenvolvida por Iser, concerne aos vazios e ao leitor implícito, situando-se no plano direto da textualidade. O referido teórico parte das interações humanas, tendo em vista sermos obrigados a um cotidiano de interpretações: transpondo o cotidiano para a obra José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 14 literária, sente-se a necessidade de uma espécie de projeção do leitor para que se efetive a interação deste com o texto: “Apenas a imaginação é capaz de captar o não-dado, de modo que a estrutura do texto, ao estimular uma seqüência de imagens, se traduz na consciência receptiva do leitor” (ISER, 1996, p.79). Iser traz para o campo literário a investigação sobre os mecanismos textuais que conduzem a interação da obra com o leitor empírico. A obra responde às necessidades de uma dada época, de uma dada cultura, segundo a ótica de um indivíduo que responde por sua autoria. O leitor de carne e osso nem sempre partilha esse mesmo contexto original e, mesmo que o faça, constitui-se em um indivíduo outro, uma subjetividade diferente daquela que engendrou o texto. Há, portanto, entre ambos – o texto com seu leitor implícito e o mundo com seus leitores históricos – uma assimetria que, longe de impedir o trânsito de sentidos, viabiliza o diálogo, pois provoca o desejo de interação: o leitor real sempre quer entender o que lê, conseqüentemente, sempre envida esforços para aproximar-se do mundo que lhe é dado pelo impresso. Nesse processo, vai negociando com a obra e com as suas próprias expectativas. Para Iser, por meio da ficção, o leitor empírico pode atravessar as fronteiras do mundo instituído, uma vez que ele o refaz, antropofagizando a realidade. Segundo o teórico alemão, o texto ficcional não é pleno em si, carrega lacunas que desenham uma implicitação do leitor imaginado pelo autor e pelos editores, ilustradores etc., essa projeção tem um forte potencial de provocação. Parece-me que as brechas textuais que promovem o diálogo da obra com esse leitor de verdade constroem uma representação de leitor – o referido leitor implícito – que se quer e que se sabe imprecisa, incompleta, apenas textual, exatamente para gerar sensações e sentimentos surpreendentes no leitor de carne, osso, óculos, levando-o a aproximar-se mais e mais da obra. Essa representação, ou melhor, o leitor implícito, viabiliza um outro tipo de representação: a das cenas e práticas de leituras, as quais balizam a interação da palavra impressa com o leitor real. Essas representações, nem sempre explícitas, ensinam o leitorado, em sua heterogeneidade de repertórios, a entrar no texto e a dialogar com ele. Elas aparecem, por exemplo, em cenas em que algumas personagens lêem e discutem livros, jornais, revistas, filmes etc. Nos jornais e revistas, essas representações podem ser percebidas a partir da relação entre texto e anúncios, ou entre textos e fotos. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 15 A leitura surge, então, como uma atividade comandada, sim, pelo texto, mas dependente das possibilidades de interlocução do leitorado histórico que com ele entra em contato: ...a relação entre texto e leitor só pode ter êxito mediante a mudança do leitor. Assim o texto constantemente provoca uma multiplicidade de representações do leitor, através da qual a assimetria começa a dar lugar ao campo comum de uma situação. Mas a complexidade da estrutura do texto dificulta a ocupação completa desta situação pelas representações do leitor. O aumento da dificuldade significa que as representações devem ser abandonadas. Nesta correção, que o texto impõe, da representação mobilizada, forma-se o horizonte de referência da situação. Esta ganha contornos, que permitem ao próprio leitor corrigir suas projeções. Só assim ele se torna capaz de experimentar algo que não se encontrava em seu horizonte. (ISER, 1979, p.88-89) Tal problematização do leitor empírico, empreendida pela obra em sua própria gênese e em seu processo de interação com o mundo, através da divulgação e da leitura, provoca uma relação texto/leitor que abre incontáveis possibilidades de comunicação, as quais dependem de alguns mecanismos textuais de controle como os vazios, as negações, as supressões, as cesuras, as imagens, os cerzidos do texto. Todos esses mecanismos constroem o lugar do leitor de verdade, através dessa implicitação de um leitor desejado pelos autores e editores, quebrando o fluxo textual, interrompendo a articulação discursiva seqüencial. Dessa forma, o texto pode provocar o imaginário de seu interlocutor, dinamizando o impresso, por meio de elementos capazes de suscitar uma leitura ativa. O texto literário se concentra nos vazios comuns às interações humanas, sistematizando-os – o leitor, em face da literatura, é um turista, que, por não conhecer as práticas culturais locais, precisa verificar sempre sua produção de sentido – Iser se preocupa com o efeito causado pela obra. É aí que ele recorre à fenomenologia, através de Ingarden, que apontava, na estrutura da obra literária, a existência de vazios, por meio dos quais o leitor simularia a concretização da mesma. Se Ingarden permanece preso a uma estética da representação, com seu ideal de estruturação harmônica das partes da obra (efeito polifônico), para Iser, a arte não se identifica com o mundo, nem o leitor com a ficção. Esta última, José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 16 contrapondo-se ao conceito de good continuation, remete-nos, sob certos aspectos, ao estranhamento formalista. Iser toma o pólo textual como constante na tradição imanentista, revê Ingarden, mas não sai de seus parâmetros: os vazios e as negações formam, para ele, uma estrutura que impede a recepção arbitrária, provocando a formação de figuras de relevância, de um tema e de seu contorno de horizonte – está então previsto um leitor implícito que se caracteriza como um leitor ideal, condutor necessário do ‘processo hermenêutico’. A partir das investigações dos teóricos das Estéticas da Recepção e do Efeito, surgiram novas histórias da literatura e da leitura e novos estudos sobre o leitor. Nessa trilha, Roger Chartier reencontra Iser, em sua proposta do leitor implícito, e investiga a leitura implícita, ampliando e deslocando o objeto iseriano: “Uma segunda maquinaria, puramente tipográfica, sobrepõe seus próprios efeitos, variáveis segundo a época, aos de um texto que conserva em sua própria letra o protocolo de leitura desejada pelo autor”. (CHARTIER, 1996, p.96) Na ótica iseriana, o que conta para o estudo do leitor e da leitura é enfocar as senhas trabalhadas pelo autor no texto – trata-se de um estudo da produção de textos. Chartier propõe que a estas senhas se cruzem outras, ligadas à produção de livros. As Estéticas da Recepção e do Efeito foram muito fecundas, no que tange a desdobramentos: a autocrítica de Jauss e a constante produção de Iser e Gumbrecht facilitam o processo reflexivo acerca de suas ideias. No Brasil, os estudos sobre o leitor e a leitura desdobraram-se na voz de inúmeros críticos e alguns teóricos da literatura. A ideia de que a leitura é um processo que demanda e constrói, simultaneamente, um Sujeito leitor, um interlocutor histórica e culturalmente marcado perpassa o pensamento contemporâneo voltado para o tema em foco. Assim, Vera Aguiar afirma: Outro aspecto importante a salientar é o fato de que é a estrutura do texto, por seu caráter dialógico, que determina a polifonia, problematizando o leitor, na medida que reage ao seu código. O autor vê a literatura, portanto, como uma provocação ao leitor, levando-o a constituir novos sentidos e, conseqüentemente, crescer como ser humano. (AGUIAR, 2008, p.24) O trecho citado, retirado do texto “Da Teoria à Prática: Competências de Leitura”, de Vera T. de Aguiar, traz dois aspectos que conduzem a conclusão deste Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 17 estudo. O primeiro deles diz respeito ao fato de que a estrutura textual problematiza o leitor. A que noção de leitor estaria Vera Aguiar se referindo? Entendo que ela esteja trabalhando com a ideia de leitor empírico, isto é, o leitor de carne e osso que lê, no cotidiano concreto, livros, revistas, jornais, anúncios, bulas de remédio. É aqui que entra o segundo aspecto do fragmento destacado a ser discutido: o autor provoca o leitor para transformá-lo pelo processo da leitura. Essa provocação me remete ao conceito de jogo de Huizinga, o qual investiga a importância do jogo na vida social: As grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde início, inteiramente marcadas pelo jogo. Como por exemplo, no caso da linguagem, esse primeiro e supremo instrumento que o homem forjou a fim de poder comunicar, ensinar e comandar. É a linguagem que lhe permite distinguir as coisas, defini-las e constatá-las, em resumo, designá-las e com essa designação elevá-las ao domínio do espírito. Na criação da fala e da linguagem, brincando com essa maravilhosa faculdade de designar, é como se o espírito estivesse constantemente saltando entre a matéria e as coisas pensadas. Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza. (HUIZINGA, 2001, p.7) Refletir, então, acerca das relações entre a obra literária e o leitor empírico, através desse conceito de jogo, permite pensar que a tensão que o preside é que funcionaria como instrumento de provocação e de sedução dos interlocutores textuais, transformando-os a partir da interação com o lido. Tal tensão própria do jogo literário remete às estratégias textuais de implicitação do leitor – e de provocação de sua face empírica –, bem como de condução da leitura, discutidas por Iser. Essa ludicidade da linguagem literária abriria caminho para que o leitor, histórica e socialmente localizado, interagisse com o texto. Entendo, assim, que não há neutralidade no ato da leitura – ler é uma travessia das múltiplas textualidades inscritas na palavra/imagem impressa. E atravessá-las significa pôr em diálogo os repertórios previstos no texto/obra e os repertórios pertinentes a cada leitor empírico – ou seja, ler pode ser entendido como um dos jogos possíveis na sociedade. Recorro a Huizinga, novamente: O caráter especial e excepcional do jogo é ilustrado de maneira flagrante pelo ar de mistério em que freqüentemente se envolve. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 18 Desde a mais tenra infância, o encanto do jogo é reforçado por se fazer dele um segredo. Isto é, para nós, e não para os outros. [...]. Dentro do círculo do jogo, as leis e costumes da vida quotidiana perdem validade. Somos diferentes e fazemos coisas diferentes. (HUIZINGA, op. cit., p.15) O mistério do jogo preside o ato da leitura: entramos sozinhos no texto e saímos dele modificados, mesmo quando a leitura é coletiva, pois cada um joga com a sua individualidade, ainda que de acordo com regras gerais. E melhor, cada um joga porque quer jogar. Pode-se deduzir, então, que o ato de ler é um ato de liberdade, o que é confirmado por Bordini e Aguiar: “A riqueza polissêmica da literatura é um campo de plena liberdade para o leitor...” (1988, p.15) Ao deparar-se com uma obra impressa, o indivíduo põe em diálogo as contingências que cercam seu cotidiano e o mundo do texto, abrindo seu imaginário para as vivências Outras que lhe são apresentadas a cada página. Relação transitiva, cada ato de leitura deve processar uma pessoalização do lido: “Não nos é possível penetrar nos textos que lemos, mas estes podem entrar em nós; é isso precisamente o que constitui a leitura” (SCHOLES, 1991, p.22). Ler literatura, então, parece poder ser definido como um momento em que o leitor inscreve, em si, o texto. Mas o processo tem uma contrapartida: ele também se inscreve no texto, uma vez que, ao se deixar ocupar pela palavra/imagem, apropria-se dela, torna-a sua e torna-se ela mesma. Ler implica interpretar e criticar. As associações que estabelecemos ao ler nos revelam quem somos no e a partir do texto lido. O ato da leitura, portanto, não se constrói por um mero processo de decodificação do impresso, pois esse trânsito entre texto e leitor está situado histórica, cultural e politicamente, envolvendo, ainda, condicionamentos menores, de ordem psicológica, social, econômica, enfim. Ler uma obra artística impressa pode ser entendido como um ato que aciona e constrói mundos e vontades. Nós não nascemos leitores de literatura, sequer nascemos leitores do mundo, precisamos ser educados para ler os livros e a vida. Essa educação, familiar, a princípio, escolar, a posteriori, não é, também, um processo natural, um processo fácil e facilitador. Nós nos formamos leitores, se formos adequadamente provocados para isso. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 19 Aguiar propõe, ao debruçar-se sobre as contribuições das Estéticas da Recepção e do Efeito, que a conquista do prazer estético no ato de ler é capaz de construir o gosto pela leitura literária: O prazer estético nasce, pois, da compreensão do sujeito com respeito à prática que vive, envolve participação e apropriação. Na atitude estética, o leitor deleita-se com o objeto que lhe é exterior. Descobre-se, apropriando-se de uma experiência do sentido do mundo. Diante da obra percebe sua própria atividade criativa de recepção da vivência alheia. (AGUIAR, op. cit., p.21) Ao compreender-se interagindo com o texto, o leitor empírico se percebe numa intimidade antes inimaginada, intimidade esta que pode levá-lo a querer repetir a experiência e a gostar do desafio. Hoje, no século XXI, a teoria e a crítica literária não dispensam mais o leitor. Ele é uma realidade. É uma das pontas do mercado cultural. Hoje, o leitor existe, dentro e fora das academias, ele é explicitamente desejado por escritores, editores, professores universitários, mestrandos, doutorandos. Hoje, o leitor É. REFERÊNCIAS: AGUIAR, Vera Teixeira de. Da Teoria à Prática: Competências de Leitura. In.: MARTHA, Alice Áurea Penteado (org.). Leitor, leitura e literatura: teoria, pesquisa e prática – conexões. Maringá: EdUEM, 2008. 188p. p.13-26. BARTHES, Roland. Crítica e verdade. São Paulo: Perspectiva, 1970. BORDINI, Maria da Glória e AGUIAR, Vera Teixeira de. Literatura: a formação do leitor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988. CHARTIER, Roger. Do Livro à Leitura. In.:______ et alii. Práticas da leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. COELHO, José Teixeira Neto. Moderno pós-moderno: modos e versões. 4ed. São Paulo: Iluminuras, 2001. COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: UFMG, 1999. EIKHENBAUM, B. Teoria do ‘Método Formal’. In.: ______ et alii. 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O disco é um dos mais importantes da carreira do Elomar e demarca a caracterização do compositor como um “trovador”, um “menestrel”, um “príncipe da caatinga”, deslocado de seu tempo, que revive os tempos áureos dos cavaleiros medievais na contemporaneidade. A denominação de príncipe da caatinga, atribuída por Vinícius de Moraes, foi marco para a carreira de Elomar, pois na apresentação do disco citado Vinícius reconhece as matrizes medievalizantes presentes na obra do músico nordestino, aliadas aos elementos regionais do folclore brasileiro. Desde esses comentários de Vinícius, ressaltando os valores arcaicos tanto ibéricos como sertanejos cultivados pelo compositor baiano, a imprensa brasileira vem alargando a ideia de que Elomar é o herdeiro da tradição musical dos trovadores e menestréis medievais, baseando-se em suas raras apresentações nos palcos para construir a imagem de um violeiro e cantador tradicional, sem buscar uma atitude mais crítica sobre a produção musical do autor. A apresentação de Vinícius, no entanto, foi importante para a carreira do compositor, ao trazer mais visibilidade para a sua produção musical, que no momento sofria as restrições do mercado e círculo musical, por ser considerada musical regional, com uma temática local, em detrimento do cosmopolitismo e da visibilidade internacional que se buscava para a produção musical da época. Embora Elomar não corrobore as adjetivações sobre sua imagem, reafirmando os epítetos e alcunhas, a vertente medieval também é enfatizada pelo músico-poeta. Em entrevista a Jurema Paes para o Jornal À Tarde, em 1996, Elomar afirma que canta um canto da Idade Média: “eu tenho uma fundamentação trovadoresca, meu trabalho é fundamentado naquela música, longe... séc. XII, XIII, XIV – vamos dizer assim que a minha música tenha vindo lá dos fundamentos da ordem dos templários” (MELLO, 1996: 3). 2Professora da UNEB/Campus XX e Mestra em Literatura e Diversidade Cultural. E-mail: [email protected] José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 22 Estes aspectos, porém, se mal compreendidos, atuam para reforçar a imagem projetada do compositor como menestrel e trovador, deslocado de seu tempo histórico e alheio à realidade contemporânea, “um antimoderno ou até mesmo pré-moderno” (GUERREIRO, 2007: 70). O anacronismo se justificaria por uma busca do passado, renegando os valores e a crítica social da realidade presente. No entanto, se analisados a partir de uma perspectiva teórica adequada através das abordagens teóricometodológicas da Literatura Comparada, da Teoria textual ou da Semiologia, que analisam as influências de um texto sobre outro e as relações entre os discursos, por exemplo, pode-se considerar o caráter de negociação que a obra de Elomar mantém com o passado, não apenas como herança ou continuidade cultural, mas como uma apropriação, geralmente feita por poetas “movidos por uma autoconsciente intertextualidade que faz dialogar, mantendo-lhes as diferenças, o presente e o passado” (MALEVAL, 2002: 25). A retomada da tradição literária trovadoresca na obra de Elomar provém, especificamente, da releitura, como resultado do conhecimento livresco, reorganizado pelo compositor em contato com as experiências proporcionadas a partir da sua aproximação com o cotidiano sertanejo. A criação do compositor é resultado de leitura da tradição literária, atenta e criativa, através de um trabalho artesanal e inventivo do material poético. Dessa releitura, o que o leitor-ouvinte de Elomar pode perceber é um estranhamento, por sua obra trazer à cena da contemporaneidade o manancial do mundo medieval, de forma que, se a leitura for desatenta, pode parecer que o procedimento do poeta não passa de anacronismo e saudosismo de uma tradição. Nesse horizonte, reiteramos a ideia de que na análise que ora realizamos essa releitura a partir da compreensão do ato de leitura em seu sentido amplo, como desvendamento do mundo, e não apenas em seu sentido de processo de decodificação do texto escrito. Sendo assim, nos colocamos também no papel de leitora desse manancial poético-musical, que se apresenta na obra de Elomar e, por meio dessa leitura, procuramos abrir frestas no labirinto da criação artística, e, ainda, das leituras anteriores já empreendidas sobre sua obra. Em primeiro plano, procuramos considerar que Elomar é um leitor de literatura, revelando-se portador de “uma leitura, simultaneamente desrespeitadora, pois corta o texto, e enamorada, pois volta a ele e dele se alimenta” (BARTHES, 1984: 27). Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 23 A partir desta concepção, a leitura do texto de literatura demarca a primeira vertente da obra de Elomar. Esta leitura do cânone literário medieval trovadoresco proporciona uma filtragem da poesia e da musicalidade dessa matriz poética e musical na obra do autor, principalmente se considerarmos que a literatura medieval tinha como princípio poético o canto, a dança e a apresentação pública e que a consciência da conservação da memória escrita dessa produção se deu tardiamente através dos cancioneiros (ROMERO, 1954). Do cânone literário medieval escrito Elomar leu os clássicos, como Gil Vicente, dramaturgo português; Dom Dinis, o rei trovador e; os romances de cavalaria, que segundo o próprio Elomar, foi leitura que perdurou dos 15 anos aos 25, entre outros. Esses elementos servem para confirmar que todo criador do texto escrito é antes de tudo um leitor (GUERREIRO, 2007). Essas leituras representam a bússola que nos norteará na intelecção do percurso criativo do cantador Elomar. Não somos os primeiros a afirmar que Elomar é um leitor da tradição literária, afinal esta pode ser a marca de diversos criadores, como bem nos lembra Eliot, em Tradição e talento individual: “Nenhum poeta, nenhum artista, tem sua significação completa sozinho” (ELIOT, 1989: 39). Guerreiro (2007), por exemplo, afirma que Elomar é um leitor de um cânone especial da nossa tradição literária, embora o cantador não corrobore a conjectura da pesquisadora e não confirme que suas leituras estejam em diálogo direto com sua obra. A pesquisadora analisou as reelaborações e o relacionamento intertextual realizado por Elomar com poemas dos românticos Castro Alves e Álvares de Azevedo, dentre os quais, um intertexto com o poema “Ode ao Dous de Julho”, no qual Elomar faz uma reverência ao poeta condoreiro. Neste, Elomar encena os últimos instantes do poeta romântico em seu leito de morte, de onde recebe a visita da morte, “ministra da vida ao entardecer”, trazendo ainda no poema os ideais românticos de profecia e de loucura dos poetas (GUERREIRO, 2007: 240). As marcas da estética do Romantismo ainda aparecem no livro de poemas “Lira dos dezessete e outras quadras”, ainda não publicado, no qual Elomar realiza um diálogo intertextual com o livro Lira dos vinte anos (1853), de Álvares de Azevedo, retomando os principais temas românticos da nostalgia da infância, da devoção às musas e da fugacidade do tempo. Tal como na estética do Romantismo, nos poemas “Tempora Labatur” e “De belas formas que de longe vêm”, Elomar adota um diálogo com as formas poéticas populares e com a composição de versos livres, trazendo a memória da infância perdida em imagens nostálgicas da mocidade, que se evapora e das José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 24 musas idealizadas, denominadas por Guerreiro de “musas fugidias”, pois nos poemas de Elomar “há uma estratégia de fuga e de sublimação do amor, do desejo” (Idem: 244). Em entrevista concedida a Guerreiro (2007), o poeta deixou evidente o aproveitamento expressivo que fez das leituras de literatura em sua obra. Do Romantismo europeu, Elomar apontou sua admiração pelos franceses Henry Murger, Verlaine, Rimbaud e Lautreamón; dos poetas nacionais, chamou a atenção a fascinação pelo poeta Castro Alves, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac e Raimundo Correia. Nessa entrevista, Elomar posiciona-se não apenas como leitor, mas também como um leitor crítico dessas obras, que lê e interfere. Ao se referir ao rol das escolas literárias que fazem parte de suas leituras prediletas, o compositor afirma que a linha francesa e a portuguesa foram as mais representativas em suas leituras, sendo nestas que mais se delongou. Em comentário sobre a tradução que Castro Alves fez dos poemas “A Balada do Desesperado”, de Henry Murger, e “As três irmãs do poeta”, do poeta inglês E. Berthoud, Elomar elogia a tradução do poeta brasileiro: Eu li no original de Henry Muger e conheço a versão de Castro Alves. Desculpem-me os franceses, mas a de Castro Alves é mais bonita. Quando li pela primeira vez “As três irmãs do poeta”, versão de Castro Alves, do poeta inglês E. Berthoud, achei aquilo tão bonito! [...] Eu li o poema de Berthoud, mas Castro Alves deu asas, deu fulgor, deu brilho, deu clangor à tuba do poeta inglês [...] O que sobra de Berthoud é a ideia, a forma, que é belíssima. Murger é um simples romântico, um grande romântico, mas não é um condoreiro. (MELLO, 2006: 297) Como se vê, para Elomar, a poesia deve ser elegante, ter bela forma e ser eloqüente, ao contrário da poesia contemporânea, que segundo o compositor é “feia e imposta pelo poder”, salvo raras exceções de grandes poetas contemporâneos. Além de leitor crítico de obras clássicas, Elomar fala de suas preferências pelos gêneros literários. Para o poeta, as “cores líricas” presentes em suas obras são apenas conseqüência, pois revela grande atração pelo gênero dramático, pelo trágico e pelo épico. Dentre os épicos, Elomar cita O paraíso perdido, de Milton, Os Lusíadas, de Luís de Camões, A divina comédia, de Dante, a Ilíada, de Homero e o Bhagavad Gita, o livro sagrado do Induísmo. Finalmente, a Bíblia, onde encontra os grandes épicos Êxodo e o primeiro grande épico Apocalipse, segundo o compositor. A preferência do compositor por essas leituras, fazendo delas o seu próprio cânone, revela que, além de leitor atento, é também crítico e divulgador desse acervo de Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 25 leitura. O aproveitamento que faz dele em suas canções demonstra a valorização a estes poetas e a preocupação que tem em divulgar essas obras ao seu público que, embora pequeno, sabe bem aproveitá-las. Tendo, também, o realismo-naturalismo como uma matriz de influência literária, Elomar captou as imagens e as representações que o aproximam do regionalismo literário de Os sertões, de Euclides da Cunha. Esses ecos do imaginário poético e literário euclidiano foram, inclusive, abordados por Novaes (1998) em um trabalho dissertativo, no qual analisou de que forma Elomar tenta compatibilizar a tradição com a ruptura através de uma escritura que capta as representações e as imagens da migração sertaneja, atualizando o imaginário d’Os sertões. Como leitor de literatura, Elomar busca o diálogo com essas obras, atualizando componentes temáticos e estilísticos para o cotidiano do sertão, em diálogo com outras temáticas literárias. Em comentários anteriores, afirmamos que as leituras e a admiração por Castro Alves influenciaram a obra de Elomar e que este produziu diversas canções e poemas em homenagem ao poeta condoreiro. Esses poemas e canções aludem ao imaginário e à fórmula temático-estilística do Romantismo, elementos que, aliados ao tema da vassalagem amorosa do lirismo provençal e galego-português, conferem à obra do autor os tons para a idealização da mulher, sempre inacessível e fugidia. Na canção “Cantada”, podemos perceber esse resultado das leituras da tradição literária trovadoresca, observando que o poeta retoma uma modalidade temática das cantigas de amigo, compondo uma alba. A composição possui os elementos típicos da tradição das canções femininas, em que o ambiente rural se faz presente, mas é composta num tom mais aristocrático tanto na temática, quanto na forma, assemelhando-se às cantigas de amor, que “diferencia-se da de amigo, principalmente, por um caráter aristocrático mais marcado de tom e de forma” (TAVANI, 2002: 157), distanciando-se dos elementos pastoris das cantigas de amigo. Nesta cantiga, o tom aristocrático emprestado tanto pelo estilo e a utilização de um padrão lingüístico culto conferem à canção um clima de intimismo e privacidade entre os amantes, características que aludem também à tradição literária do Romantismo. Se fizermos uma incursão na tradição literária, encontraremos a temática da separação dos amantes ao romper da aurora na grande tragédia de Shakespeare, Romeu e Julieta, que narra acerca do amor proibido entre os filhos de duas famílias rivais: os Capuletos e os Montecchio. A passagem em que a cotovia canta ocorre no final da José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 26 primeira noite de casados entre os jovens, decorrida no quarto de Julieta. Neste excerto da tragédia, o canto da cotovia anuncia simultaneamente a madrugada e o fim da noite de amor dos apaixonados: Romeu tem de despedir-se de Julieta, e regressar a Mântua, antes que algum dos Capuletos se aperceba da sua presença na residência. Este afastamento entristece, como é óbvio, a jovem, que associa o piar da ave à separação (MANCELOS, 2008). Vejamos a cena da separação através dessa adaptação de um excerto da obra: [...] JULIETA - Já vai partir? O dia ainda demora. Não foi a cotovia, mas o rouxinol que assustou seu ouvido temeroso. Todas as noites ele canta pousado na romãzeira: acredite, meu amor, foi o rouxinol. ROMEU - Foi a cotovia. É ela a mensageira da manhã, não o rouxinol. Olhe, meu amor, aquelas listras invejosas que cortam as nuvens do nascente: as tochas da noite se apagaram; o dia alegre já espanta a bruma do alto das colinas. Preciso ir e viver, ou ficar e morrer. JULIETA - Aquela claridade não é a luz do dia, tenho certeza! É algum meteoro que o sol exala, para ser seu guia e iluminar seu caminho para Mântua. Fique um pouco mais! Não é preciso partir tão cedo [...] (SHAKESPEARE, 1997) Mancelos ressalta que se trata de uma das mais célebres e melancólicas cenas de despedida da literatura universal, marcada pela tensão entre os amantes, que desejam permanecer nos braços um do outro, mas sabem que é preciso partir. A cena “é permeada pela multiplicidade de significados contraditórios da aurora: tempo de início e de perda; de frescura e do fim da virgindade de Julieta; de consumação do amor e do adeus”, que trazem para a cena a dramaticidade e a força poética do Romantismo (MANCELOS, 2008: 6). Também na tradição das albas provençais, Maleval destaca que a temática nuclear girava em torno da tristeza dos amantes pelo nascer do dia, porque teriam que separar-se. Em francês, contam-se três composições remanescentes dessa tradição, mas na lírica galego-portuguesa há apenas um texto que se aproxima deste gênero, a cantiga “Levad’ amigo, que dormides as manhãs frias”, do trovador Nuno Fernandes Torneol (MALEVAL, 2003: 142). Eis a cantiga: Levad’, amigo, que dormides as manhãs frias; todalas aves do mundo d’amor dizian: leda m’and’eu. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 27 Levad’, amigo, que dormide’-las frias manhãas; todalas aves do mundo d’amor cantavan: leda m’and’eu. Toda-las aves do mundo d’amor dizian; Do meu amor e do voss’en ment’avian: Leda m’and’eu. Toda-las aves do mundo d’amor cantavan; Do meu amor e do voss’i enementavan: Leda m’and’eu. Do meu amor e do voss’en ment’avian; Vós lhi tolhestes os ramos en que siian: Leda m’and’eu. Do meu amor e do voss’i enementavan; Vos lhi tolhestes os ramos en que pousavan: Leda m’and’eu. Vós lhi tolhestes os ramos en que siian E lhis secastes as fontes en que bevian: Leda m’and’eu. Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan E lhis secastes as fontes u se banhavan: Leda m’and’eu. (BREA, 1996: 688) Diversas análises já foram feitas desta cantiga buscando-se as semelhanças com as albas provençais. No entanto, Brea (1998) e Maleval (2003) afirmam que a cantiga de Torneol tem poucas semelhanças com a alba provençal, pois nela a temática não gira em torno da despedida dos amantes ao romper da alvorada. Para as pesquisadoras, a amiga não maldiz a aurora que anuncia a separação dos amantes, apesar de o verso inicial da cantiga fazer menção ao momento do dia em que se dava a despedida dos namorados “Levad´amigo, que dormides as manhãs frias”, pois no restante da cantiga desaparece a referência à separação dos namorados. Em lugar disso, segundo Brea, a amiga entoa um lamento ao tempo passado, revivendo nos versos das cantigas os felizes compartilhados (BREA & GRADÍN, 1998: 223). Para Maleval, a canção apresenta um desencanto em relação ao seu inacessível amigo, “ao mesmo tempo em que é evocado um passado pleno de amor” nos versos paralelísticos “Toda-las aves do mundo d’amor dizian /Do meu amor e do voss’en ment’avian”/ Toda-las aves do mundo d’amor cantavan/ Do meu amor e do voss’i José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 28 enementavan/ Leda m´and’ eu” (MALEVAL, 2003: 141). A cena típica da alba, segundo Brea & Gradín, era encenada pelo vigia (o gaita), normalmente um amigo ou servente do namorado, despertando os amantes e advertindo-lhes que chegou a hora da separação, porque “com a chegada do dia, podem ser descubertos polo marido da dona (o gilos) ou por algum maledicente (os lauzengiers), que os iriam denunciar” (BREA & GRADÍN, 1998: 222). Na cantiga de Elomar, o poeta encena o momento da despedida dos amantes ao romper da aurora. O amanhecer informa ao namorado que é hora de despedir-se de sua dama, pois é eminente o risco de descoberta do amor proibido: Então desperto e abro a janela, ânsias, amores e alucinações desperta, amada que a luz da vela tá se apagando chamando você está chamando apenas para vê-la morrer por teu viver Amada acende o coração amante que o som suave de uma aurora distante estremeceu aqui no peito meu, ai os galos cantam pra fazer que a aurora rompa com a noite mande a lua embora. os galos cantam, amada, e um mais instante o peito arfante cessa e eu vou- me embora. Vem, namorada, que a madrugada ficou mais roxa que dos olhos teus, as pálpebras cansadas amada atende a um coração em festa, que em minha alcova entra nesse instante. pela janela tudo o que me resta, uma lua nova e outra minguante. Ai namorada nesta madrugada não haverá prantos nem lamentações. os teus encantos vão virar meus cantos voar pros céus e ser constelações Oh Namorada nesta madrugada, Incendiaram-se os olhos meus. não sei porque você um quase nada do universo perdido nos céus apaga estrelas, luas e alvoradas e enche de luz radiosa os olhos meus mulher formosa nesta madrugada Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 29 somos apenas mistérios de Deus. (Das Barracas do Rio Gavião,1973). O Glossário Terminológico da Lírica Trovadoresca, composto por Spina, define a alba como “uma composição poética do gênero lírico, cujo tema se reduz ao diálogo entre os amantes ou esposos, que havendo desfrutado uma noite deliciosa, maldizem o romper da manhã que sobrevém inesperadamente” (SPINA, 1991: 358). Tal gênero lírico, segundo o pesquisador, talvez tenha surgido no Norte da França e na Provença, mas foi no Sul que ela se aperfeiçoou, sendo que no folclore provincial do Norte as albas continuam em sua forma primitiva e popular de canto de despertar. Nesta, o canto dos pássaros anunciavam a aurora a dois amantes. Na canção elomariana, o poeta dramatiza, através de um monólogo típico da alba medieval, esse momento da separação dos namorados: o amante maldiz a chegada da aurora que os separa, distintamente do gênero trovadoresco da cantiga de amigo, em que a voz feminina acordava o amante. O argumento da cantiga repete o formulário das cantigas de amor, em que o encontro amoroso é contrariado e interrompido pelo raiar do dia. Na canção, o namorado ao despertar e abrir a janela percebe, ainda perturbado e confuso pelo despertar abrupto, que de fato o amanhecer os convida à separação. Chama a amada para que esta desperte, pois a luz da vela e o canto dos galos anunciam a alvorada: “desperta, amada que a luz da vela/ tá se apagando chamando você/ está chamando apenas para vê-la/ morrer por teu viver”. O poeta vale-se de imagens hiperbólicas para a qualificação da mulher. Para construir essa ambientação, requisita uma simbologia relacionada à tradição poética da lírica trovadoresca medieval: o eu-lírico reitera praticamente em todos os versos a denominação de “amada”, “namorada” e, finalmente, “mulher formosa” para caracterizar a sua dama. O efeito de redundância culmina nos versos finais, quando a beleza da dama é capaz de apagar “estrelas, luas e alvoradas” e encher de luz o coração do amante. Na lírica trovadoresca galego-portuguesa, “o elogio da dama” significava um importante campo semântico das cantigas de amor, coexistindo com outros como “o amor do poeta”, “a reserva da dama” e a “pena por um amor não correspondido”. Esse elogio, na maioria das vezes, nunca se alargava a uma descrição corpórea; ao contrário, a imagem feminina era idealizada e circunscrevia-se a “uma abstrata e indeterminada qualificação estética (fremosa senhor) ou a uma igualmente imprecisa e totalizante José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 30 valoração positiva do aspecto físico ([senhor] de bom/fremoso parecer/semelhar)” (TAVANNI, 2002: 163. Grifos do autor). No poema-canção de Elomar, o realismo criado para dramatizar a cena de despedida dos amantes abranda a idealização feminina, sugerindo uma mulher mais corpórea, mais concreta, cujos olhos são “luzes”, mas que se apresentam “roxos” como a madrugada. As “pálpebras cansadas” denunciam que a dama entregou-se a uma noite de amor. Tais aspectos trazem à canção um erotismo valorizado pelo poeta como forma de atenuar a idealização feminina. A analogia entre as cores do céu na madrugada e os olhos da namorada acentua esse erotismo. A namorada é solicitada a despertar. O contraste entre a noite – hora dos amantes viverem o amor plenamente – e o dia – momento que simboliza a separação dos amantes – é construído pela analogia entre a luz da vela e a luz do dia, que se tornam incompatíveis no momento. A vela, personificada, chama a amada para que esta a veja apagar-se, no caso, “morrer”. Entende-se que o findar da luz da vela é um alerta para que a incauta namorada não se arrisque no amor proibido. O paradoxo entre as palavras “morrer” e “viver” dão ao texto grande força simbólica: para que a moça “viva” é preciso que a luz da vela “morra”. Predomina na cantiga de Elomar a simbologia típica das albas provençais: a referência ao momento do dia (o alvorecer) e a presença dos animais anunciando separação dos namorados: “os galos cantam pra fazer que a aurora/ rompa com a noite mande a lua embora”. As aves apresentavam-se em muitos textos medievais e em outras tradições literárias, a incitar a libido através do canto. Os elementos naturais como as aves, os rios, os ramos verdes e os cervos eram recorrentes nas cantigas de amigo e expressavam “uma forma mágica de contato entre os jovens namorados e as forças vitais, conferindo a essas cantigas de amigo um colorido e frescor”, elementos que eram ausentes nas cantigas de amor (VIEIRA, 1992: 48). Um segundo elemento na canção vem reforçar essa ideia de que o dia surge através do anúncio da madrugada que se levanta: a luz da vela. Esse elemento provoca um realismo acentuado por um erotismo mais explícito e revelado, expondo a fonte de alegria do amante, que embora tenha que se separar, não esconde o prazer erótico proporcionado pela noite de amor: “Vem, namorada, que a madrugada / ficou mais roxa que dos olhos teus, as pálpebras cansadas”. A imagem também remete às inquietações provocadas por uma noite mal dormida e pela brevidade da noite, como esta se apresenta para os amantes, elementos sugestivos nas albas provençais. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 31 A interjeição “ai” é alusiva à coita de amor. Repetida duas vezes, e com intenções semânticas diversas na canção, essa interjeição denuncia o diálogo explícito com a lírica trovadoresca galego-portuguesa. No verso em que fora utilizada pela primeira vez, a interjeição “ai” é índice da dor do eu enunciador no momento da separação amorosa, dor que “ressoa” em seu “peito arfante”. Porém, o amado aceita a sua condição de “coitado”, ou seja, daquele que sofre de amor e, resignado, alegra-se por viver esse amor, anunciando que não lamentará a separação entre eles quando o dia chegar. No segundo momento de utilização da interjeição “ai”, o amante demonstra paciência e resignação, e, ao contrário de uma simples dor de amor, o eu-lírico anuncia que o sofrimento será mote para a criação poética: “Ai namorada nesta madruga/ não haverá prantos nem lamentações/ os teus encantos vão virar meus cantos/ voar pros céus e ser constelações”. Neste caso, o “ai” revela um suspiro apaixonado, mas de alguém que almeja destino certo para essa dor. Este aspecto denuncia que “o amor cortês é a religião dos trovadores. Um verdadeiro culto à mulher, que prevê a observância de todo um comportamento ritual” (SPINA, 1991: 359). Portanto, aceitar a dor é fazer dela um canto e a melhor saída para o poeta apaixonado. Nos últimos versos da canção, fica patente que o amor é considerado sagrado, já que os dois amantes são considerados “mistérios de Deus”. Os versos finais servem de arremate para a ideia de que o amor é via para a comunhão entre o plano profano e o sagrado e apenas nesta comunhão a existência ganha sentido e esplendor: “Mulher formosa nesta madrugada / somos apenas mistérios de Deus”. Essa comunhão com o sagrado expressa nos últimos versos da canção aproxima o texto poético-musical de Elomar do sentido da poesia mística, a qual “refaz as zonas sagradas que o sistema profana” (BOSI, 1977: 146), demonstrando que o seu enraizamento poético em nada se assemelha ao reacionário que se prende ao passado sem contribuição para o tempo presente. Pensamos que Elomar reafirma sua condição do poeta contemporâneo e de leitor crítico da tradição, visto que, ao invés de separar essas vertentes, busca coaduná-las em seu projeto estético e poético, de forma a afirmar que a tradição e a modernidade não se excluem, mas se interpretam e se complementam. Tal característica é intrínseca aos discursos modernos e pós-modernos que, conforme Zanni (2003), em sua configuração polifônica, busca os diálogos entre diversas vozes e discursos, caracterizando-se pela José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 32 hibridez e pluralidade. Em suas canções medievais e sertanezas, Elomar esmiúça, reinventa e remodela as formas do passado, de acordo com as leituras que faz dessa tradição, mas utilizando-se dos recursos da cultura popular, como o cordel, da literatura canonizada e da cultura de massa contemporânea, como o cinema, a partir de um projeto artístico, que busca uma relação com a identidade cultural e o diálogo com as diferentes linguagens. REFERÊNCIAS: ALBUQUERQUE Júnior, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 1999. BARTHES, Roland. O rumor da língua. Tradução de António Gonçalves. Lisboa, Portugal: Edições 70, 1984. BOSI, Alfredo. O ser o tempo da poesia. 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Paradigmas são questionados e o discurso oficial é subvertido por vozes minoritárias antes silenciadas. A mudança de eixo do centro para a periferia implicou dissolução de fronteiras e imprimiu transformações essenciais no campo cultural, com reflexos na literatura, inclusive na literatura infantil. A concepção de infância também mudou e a literatura a ela destinada foi tomando novo rumo; antes vista como um adulto em tamanho reduzido, a criança passou a ser considerada em sua integralidade, com necessidades e interesses próprios. A literatura infantil foi considerada, até bem pouco tempo, como “gênero menor”, por estar associada, desde as suas origens, a uma função utilitário-pedagógica. As histórias eram elaboradas para se converterem em divulgadoras dos novos ideais burgueses, ratificando o cânone do poder: heterossexual, masculino, capitalista, branco, cristão e ocidental. É bem recente sua emergência e valorização como formadora de consciência crítica que busca romper com paradigmas e com (pre)conceitos, literatura estereotipada e reprodutora de modelos hegemônicos. Assim concebida, a literatura destinada às crianças pode e deve ser um instrumento para a expansão da capacidade de 3 Venho, há muito tempo, empregando o termo “ficcionalização” sem me dar conta se o vocábulo era ou não dicionarizado, incorporei o termo de tanto ouvi-lo no meio acadêmico, principalmente em estudos literários e crítica literária. Curiosamente, a dúvida surgiu justamente no momento em que o empregava no título deste artigo. Nenhum dicionário registra o verbo “ficionalizar”. Desisto de empregá-lo? Não, melhor refletir. Vejamos, então, se consigo entender pelo menos de onde surgiu o termo. Temos na língua portuguesa o verbo «ficcionar», da mesma família que “ficcionalizar”, mas raros dicionários o registram. Supostamente, o termo “ficcionalizar”, tem origem na palavra inglesa “fictionalize”, cujo processo de formação da palavra é similar ao processo empregado em nosso idioma, pelo acréscimo do sufixo ao radical do adjetivo. Assim são formadas grande parte das palavras derivadas da língua portuguesa: pela anexação de afixos à palavra primitiva. A mais comum é a formação de verbos terminados em “izar” a partir de adjetivos. Parece ser por este caminho que surgiu “ficcionalizar”. Uma hipótese aceitável. É difícil precisar se o verbete demora a fazer parte dos dicionários, mas é inquestionável o amplo emprego do termo no meio acadêmico, inclusive registrado em dissertações e teses. Reconhecido pelo uso, ganha identidade. Assim, permanece o termo no título do artigo com essa pequena nota explicativa. 4 UNEB -DCH-Campus VI-Caetité Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 35 analisar o mundo, alargando o horizonte cultural e possibilitando a transformação e o enriquecimento da experiência de vida desses seres em processo, instigando, inclusive, reflexões sobre a identidade cultural dessas crianças leitoras. Por se tratar de um objeto novo, com características singulares e dimensão estética essencial, a literatura infantil possibilita múltiplas pesquisas. Na esteira deste debate, pretendo problematizar ficção, mimese e imaginação a partir dos contos Mandingas da Ilha Quilomba, Do outro mundo e Do outro lado tem segredo, criações de Ana Maria Machado, refletindo a apropriação do real e a sua ficcionalização, interpenetrado pela imaginação criativa da escritora, que busca, penso, levar às crianças temas mais complexos normalmente não oferecidos às crianças por serem considerados inapropriados. Acerca das imbricações em torno do real, do imaginário e do ficcional, os conceitos de mimese 5 postulado por Costa Lima e de imaginação defendido por Iser nos servem de aporte a esta discussão. Luiz Costa Lima (2000) considera a mimese como uma atividade dialógica, em que a representação existe, mas não representa algo anterior, ela é produto de uma troca, um efeito de ir e vir. O fluir da narrativa constitui uma via de mão dupla em que os fatos e as leituras que marcaram o cotidiano de Ana Maria Machado pontuam a ficção e viceversa, assim o leitor pode exercitar o mesmo movimento de vaivéns encenado pela autora, como numa brincadeira em que as peças são movidas pelo imaginário. No cenário teórico da estética da recepção e do efeito, as ideias de Wolfgang Iser podem complementar as postulações de Costa Lima. Iser (1979) apoia-se, igualmente, na orientação despragmatizada da ficção articulada ao "imaginário, aos atos de fingir e ao jogo". A ficção funciona, então, como um campo de ação onde um processo lúdico de fingimento é ativado, descerrando o livre acesso da escrita ao imaginário. A mimese verbal constitui uma forma de jogo que possibilita a encenação de uma realidade que se inscreve na estrutura do fingimento. O texto que se ancora nesse processo lúdico atrai a presença do imaginário e é, necessariamente, marcado pela ambiguidade, especificidade do texto literário, o que, entretanto, não impossibilita ao jovem leitor sair dessa experiência com uma nova visão de mundo, mais crítica e reflexiva. Nessa empreitada, busco ressaltar algumas possibilidades de diálogos entre a história e a literatura, lançando meu olhar em questões que permeiam as experiências 5 Teóricos grafam o termo de formas distintas: mimese e mímesis, opto pelo emprego da primeira, José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 36 vividas, a memória, a história, a linguagem e as suas significações. A questão principal que se afigura é a importância da vivência e do discurso dos personagens Bino, Rosário e Chico como elemento mediador entre literatura e questões sócio-históricas e identitárias, pois as construções literárias possibilitam o deslindamento da dinâmica e dos elos que compõem a sociedade e, consequentemente, daquilo que nos constitui. A partir das experiências de vida dessas personagens, discuto a relação entre mimese e imaginação perpassada pela reflexão acerca de questões étnico-raciais, tradição e diversidade cultural. A ficção contemporânea trata dessas questões por diferentes perspectivas. Pensamos que todas são importantes, umas por não deixarem de lado o preconceito e o racismo que devem e precisam ser refletidos; outras, importantes por mostrarem os negros em situações cotidianas, como pessoas comuns que descendem de um povo de cuja cultura e tradições nós, brasileiros, somos herdeiros. Nos últimos anos, a produção literária voltada à infância tem repensado a condição de excluído a que foi relegado o negro nas histórias infanto-juvenis tradicionais. Esse caráter marginalizador passou a ser substituído por uma atitude compromissada com a necessidade de reforçar, de maneira positiva, a identidade cultural dos afrodescendentes. Ana Maria, uma das pioneiras, ao lado de Ruth Rocha, buscou trazer para a sua literatura a apropriação de conhecimento e domínio dos valores culturais do mundo africano. Ao optar por protagonistas negros, tidos como inferiores diante dos valores do mundo ocidental, Ana criou personagens que marcam uma nova posição ideológica do negro, portador de beleza, de história, de voz e de ação dentro do contexto que é representado imageticamente a partir de nítidas características de etnia e de cultura, tornando propícia a ligação desses conhecimentos com a capacidade de se organizar e agir socialmente. As três histórias, Mandingas da Ilha Quilomba, Do outro lado tem segredos e Do outro mundo, partem de elementos da realidade cotidiana, num ambiente em que atuam crianças comuns, com características peculiares a essa etapa da vida. Os contos têm como pilares o sentimento de liberdade e a esperança de um tempo em que as relações possam ser diferentes, diferentes para melhor, há que se ressaltar. Na novela Do outro lado tem segredos, um narrador enigmático conta a história de vida do protagonista numa aldeia de pescadores. Aos poucos, na interação cotidiana com o grupo e relatos da avó Odila e do senhor Mané Faustino, descendentes de africanos, Bino, personagem/protagonista, ganha voz e vai desvelando, conhecendo e Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 37 aprendendo a história, as tradições e a cultura de seu povo. Para Halbwachs (1990), o tempo é social, a memória está no grupo, e o trabalho de reconstrução do passado só pode ser realizado se nos apoiarmos nas tramas da ajuda mútua e solidariedade múltipla dentro das quais estamos engajados. Bino, respaldando-se apenas em relatos de outras pessoas, pela potencialidade do imaginário, é capaz de recuperar coisas vividas, de imaginar o que não viu e conceber o que não experimentou. Este conto não é escrito em primeira pessoa, no entanto, a não explicitação do narrador deixa margem para que vejamos Bino tomar posse do discurso narrativo pelo qual vai recuperando a história de seus ancestrais e, ao mesmo tempo, vai oportunizando aos demais interlocutores o relato do passado vivido, retomado pela lembrança e que mantém constante articulação com os acontecimentos do presente. Bino cria uma ponte significativa entre a sua vida e a de seus antepassados pelas lembranças narradas por Mané Faustino e sua avó, e vai, passo a passo, construindo a sua identidade. Esses flashes do passado trazem uma nesga da sociedade escravocrata vista sob a perspectiva do explorado. Nesta narrativa, a cultura livresca, de tradição ocidental civilizada, se contrapõe a outra, encarnada, neste livro, pela figura de velhos pescadores. No final do livro, o protagonista assume a tradição cultural de seu povo, supera os conflitos e começa a encontrar respostas para as suas indagações; descobre, por exemplo, que é capaz de ler a natureza e seus elementos à semelhança dos anciões, do Rei Congo, do Zumbi do Quilombo e de tantos outros de sua gente. Nas malhas da ficção, o passado e o presente, o verossímil e a imaginação dialogam; recriado pela escrita, o cenário se torna memória de uma experiência pessoal e estética transformadora. Em Do outro mundo, Ana Maria surpreende o leitor nas páginas iniciais quando o narrador anuncia um grande mistério que será narrado. Num barracão, transformado em anexo para uma pousada, um grupo de amigos dorme; Mariano, o narrador, acorda com ruídos assustadores. A autora cria um clima de suspense que leva o leitor a pensar que se trata de uma história sobre o medo ligado ao sobrenatural, entretanto o medo de que trata a história é o da escravidão e todos os horrores dela decorrentes. O medo inicial do fantasma da garotinha negra logo se dispersa, dando vazão a dois desafios: o de vencer o medo de escrever e o de resolver o enigma que liga o passado da escravidão ao presente. À medida que escreve, Mariano, garoto branco amigo de Elisa e Leo, vai corporificando a sua lembrança e dando o testemunho do que viu e ouviu de Rosário, espectro de uma garotinha escrava que vivera ali naquele anexo da pousada, quando o José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 38 espaço era destinado à senzala da fazenda. O cenário em que se dá a trama no presente é também o ambiente onde o passado é evocado e (re)criado, passado e presente se cruzam no mesmo espaço geográfico. A narrativa, de linguagem e apelos realistas, é quebrada pela inserção do sobrenatural, que configura o “outro mundo”, metáfora da escravidão, remetendo-nos àquela época pela voz da personagem Rosário. A fusão do realismo com o sobrenatural se dá de forma natural e espontânea, Rosário é percebida como uma criança real, presença justificada pela missão de descobrir o paradeiro de seu irmão, desaparecido durante um incêndio criminoso na senzala. Ana Maria faz uso do recurso da construção em abismo, comum às narrativas em que o protagonista é um escritor; o leitor é, então, convidado a participar da trama e, juntamente com os personagens, a montar o quebra-cabeça. Acabamos por descobrir que Amaro, o irmão de Rosário, é o tataravô de Elisa e Léo, filhos de Vera, que divide o negócio da pousada com a mãe de Mariano, daí a explicação para a descendência mestiça dos irmãos já que a outra linhagem da família é italiana. É possível conjecturar que Ana Maria Machado, ao dar voz a um narrador branco, pretendeu dizer que os negros já abordaram exaustivamente o assunto, principalmente por estarem na condição do explorado e discriminado. E agora, cabe ao branco garantir maior visibilidade ao tema, atraindo a atenção de mais pessoas para o problema, além de delegar aos brancos o esforço para uma maior conscientização a respeito do assunto já que há muito os negros a possuem, além de passar a bandeira da defesa do negro para as mãos daqueles que sempre estiveram na posição de explorador. Segundo Sampaio Dória (2008), nesta narrativa não há compromisso com a realidade presente; a história que vem do passado, provoca emoções fortes, mas não as transpõe para os dias atuais, tampouco há uma relação entre o relato de Rosário e a experiência dos demais personagens, ela fica restrita ao fenômeno específico da escravidão. Concordo com o crítico quando diz que não há compromisso com a realidade; exatamente por não haver compromisso com o real é que se trata de um texto literário, pois à literatura cabe o compromisso com a estética. Como defende Costa Lima, as imagens do texto evocam o mundo apenas para retirá-lo de sua "realidade" e precipitá-lo nas brumas nebulosas do imaginário, que rasura os contornos, apaga a nitidez e retira o foco da verdade. Salienta que a tematização imaginária da mimese confecciona o caráter irrealizador e despragmatizado do discurso literário, que, liberado de sua âncora nas referências cotidianas, "se Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 39 caracteriza como uma territorialidade não documental, prazerosa e questionadora da verdade socialmente estabelecida". (1986:304). Mas, se por um lado, para Costa Lima, as obras não são documentos de um contexto histórico, por outro, ele reage contra uma forma de leitura que efetua um divórcio com o mundo que assimilamos como real. (2000:20-1). Acrescento que, embora afastada do compromisso documental, a leitura literária de qualidade leva à reflexão crítica e, consequentemente, à transposição para a realidade do conhecimento que a obra propiciou. Ana Maria não faz, de forma manifesta, uma conexão entre a escravidão no século XIX narrada na obra e o preconceito camuflado ou liberdade cerceada no século XXI, propicia, entretanto, motivos para que a criança leitora de nosso século estabeleça essa ponte e direcione a sua reflexão nesse sentido, principalmente quando orientada para este fim. De sua experiência da infância em Manguinhos, litoral do Espírito Santo, Ana trouxe a observação da dureza da vida dos pescadores; da vivência nos anos de ditadura, um pensamento social atrelado à liberdade e ao valor do trabalho; da artista, a imaginação fértil; aliadas, essas experiências resultaram em Mandigas da ilha Quilomba, uma história que associa mar, liberdade, trabalho e cultura africana. Tão importante quanto a magia que encanta o leitor deste conto é a transformação da percepção de mundo processada nos personagens. Chico (garoto negro filho do empregado), inicialmente, é um coadjuvante de Carlos (garoto branco filho do patrão), sua dimensão ética é acentuada pela condição sócioeconômica desfavorecida, condição que aponta para o fenômeno do preconceito introjetado ou autopreconceito, mantido em razão da dificuldade de as pessoas pensarem sem se valerem de estereótipos. Antonio Dória escreveu que “os estereótipos geram uma fixidez de reação diante dos objetos que raramente é quebrada – e o espaço que cada indivíduo ocupa na sociedade mantém-se estático.” (2008:32) Chico aceita sua condição de explorado e assimila o preconceito, incorporando-o como algo natural, pois a ele parece ser mais seguro ocupar um lugar modesto do que desafiar aquele que detém o poder, numa espécie de redenção condicionada pela assimilação da cultura europeia colonial. E o autor acrescenta que não é por acaso que o preconceito se volta, geralmente, contra o mais fraco e não raras vezes o discriminado introjeta a debilidade que lhe imputam, pois o fim da escravidão não significou o fim dos preconceitos. Foi, ao contrário, um capítulo novo na história das desigualdades; libertos e sem oportunidade de ascensão, os José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 40 negros foram atirados à própria sorte, obrigados a viver livres num país em que foram escravos. No decorrer da história, entretanto, processa-se uma metamorfose e a inicial submissão de Chico aos caprichos e quereres de Carlos verga-se a uma vontade própria, que vai ganhando densidade ao longo do texto: [...] Ainda por cima, ficava levando bronca de um cara que sempre tinha ouvido calado tudo que ele dizia [...].” O silêncio imposto pela submissão vai cedendo lugar à voz da identidade que ganha intensidade a cada nova ação: “Chega, Carlos, não dá mais [...] (MACHADO, 1984:17). Essa força, esse sentir novo, vai ganhando dimensão à proporção que o velho da ilha conta a história do tempo do cativeiro, da luta pela liberdade, da fuga dos escravos para os quilombos e da esperança da raça6 . Concomitantemente, Carlos vai aprendendo sobre respeito e igualdade, e, à medida que percebe a transformação de Chico, que ouve a história do ancião da ilha Quilomba e que reflete sobre suas próprias ações, também nele se processa uma transformação, embora menos profunda do que aquela que se processara em Chico. À medida que relata, o narrador vai se descobrindo e muito daquilo que, inicialmente, lhe é imperceptível, vai sendo (re)significado à medida que reflete. Este conto fala sobre a descoberta da capacidade do homem de fazer por si mesmo sem explorar o trabalho alheio, fala do livre arbítrio, da capacidade de realizar e de inventar. A ilha Quilomba não existe realmente, não se trata de um referente geográfico, ela é um espaço onírico, criação daqueles que anseiam por liberdade e por saber, pois uma e outro compõem frente e verso de uma mesma moeda. Alguns contos contemporâneos reproduzem e reforçam os estereótipos da aparência em detrimento da essência comum aos contos tradicionais, em que o ético e o estético se repetem como identidades fixadas de modo a demarcar diferenças. A diferença, fonte enriquecedora de heterogeneidade e hibridismo, não deve ser vista pela via do antagonismo, mas como uma possibilidade para perceber o que somos e o que nos falta na relação “eu” e o “outro”. Para Homi Bhabha (2003), a “diferença cultural não pode ser compreendida como um jogo livre de polaridades e pluralidades no tempo homogêneo e vazio da comunidade nacional.” É necessário entender que igualdade e desigualdade são construções sociais de razões econômica, histórica e cultural e, por 6 Emprego a palavra “raça” num sentido mais profundo, a junção de etnia (negritude) e raça (ser humano) Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 41 conseguinte, a diferença não deve ser utilizada como geradora de desigualdade e exclusão. Penso que constitui matéria relevante refletir e questionar sobre as relações de poder, identidade, diferença e multiculturalismo presentes nos textos literários infantis contemporâneos, a exemplo dos textos da autora que escolhi para este estudo. A presença do leitor é, por conseguinte, condição sine qua non para que haja a interação texto ficcional e realidade sensorial, pois ao leitor cabe essa dinâmica, sem a qual o processo de leitura é inviável e a interpretação inexistente. Segundo Iser, o leitor deve agir como um co-criador do texto na medida em que supre, com o imaginário, a porção que não está escrita, mas apenas implícita. A literatura é algo inacabado, em constante transmutação; assim como o ser humano, é a leitura que provoca a contínua interação entre as expectativas modificadas e as memórias transformadas, ambas ativadas pelo imaginário. Em Do outro mundo e em Mandigas da Ilha Quilomba, a realidade do cotidiano é invadida por elementos imaginários; no primeiro pelo sobrenatural, no segundo pelo maravilhoso. Somente em Do outro lado tem segredos, o universo da trama é criado com elementos do cotidiano dos pescadores associados à cultura e à tradição dos aldeões resgatada pela memória dos velhos da aldeia. Os homens, vivendo em sociedade, têm a capacidade de recuperar as coisas vividas e, pela potencialidade do imaginário, de verbalizar cenas e fatos, semelhante ao que ocorre com os personagens Odila e Mané Faustino. Os sujeitos personagens vão se constituindo nas práticas sociais, na teia do discurso e na memória coletiva. No terreno da ficção literária, a mimese se configura por sua especial sujeição ao imaginário; por estar submetida à instância imaginária, ela escapa ou recusa a atividade perceptual, que regula as relações pragmáticas entre o sujeito e o modelo. Se, para Costa Lima (2000), a mimese se define como processo criativo, é porque corresponde a uma produção do imaginário que jamais repete o modelo passivamente. A mimese resgata, na aparente semelhança, a diferença latente, ela (re)apresenta o modelo não sob o signo da realidade percebida, mas como o signo da imagem precipitada, e a memória constitui terreno fértil para esta reflexão. Costa Lima desenvolve todo o seu debate em torno da mimese baseado na ideia de que a ficcionalidade do literário opera dentro do eixo ambíguo que oscila entre a semelhança e a diferença. O espaço de tensão criado a partir da tematização imaginária leva a mimese a driblar um horizonte de expectativas de identificação e semelhança para acionar um horizonte de estranhamento e diferença. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 42 Ana Maria Machado sempre se dispôs a escrever para interferir no processo de instigar o senso crítico; para tanto, procura conciliar na ficção os problemas reais vividos com a fantasia, indispensável ao universo infantil, tudo costurado por uma linguagem rica em imagens e poesia e é aí, nesse espaço movediço, nesse entrelugar, entre o real e o imaginário, que a ficção se precipita. Em seu livro Texturas, Ana escreveu que “a boa leitura garante a possibilidade de ascensão social e a tomada de uma parcela de poder, desenvolvendo a capacidade de ler entrelinhas e pensar pela própria cabeça” (2001:184), demonstrando plena consciência do valor desta literatura e de que palavra é poder. Penso que produzir para este público específico requer maior responsabilidade, pois nas entrelinhas das histórias é revelado todo um código de ética. A relação leitor/livro e as discussões que podem surgir destas leituras, cujas histórias trazem protagonistas negros, qualquer que seja o tema, podem propiciar a abertura de caminhos para a busca da identidade étnica da criança negra e contribuir para que as crianças brancas conheçam outra cultura e possam, desta forma, respeitá-la porque a conhecem. E, se esta via de leitura nasce de um texto rico em imagens poéticas, é certo que se trata de literatura, independentemente da temática geradora do discurso ficcional, uma coisa não exclui outra, pelo contrário, a meu ver amplia a margem de possibilidades reflexivas. Análises de situações como essas nos levam a pensar na leitura de textos literários para/por crianças como um modo significativo de partilhar a experiência coletiva e histórica. Fanny Abramovich (1997) escreveu que a literatura nos possibilita descobrir o mundo, mesmo que por vezes ele esteja imerso em conflitos e impasses. Nelly Coelho (2002) complementa a afirmação, dizendo que cabe à literatura infantojuvenil a responsabilidade na formação da consciência de mundo das crianças e dos jovens, delegando à literatura infantil a tarefa fundamental de ser agente de formação. Se podemos concebê-la como um agente formador de consciência crítica, a escrita para os pequenos pode e deve abordar temas mais complexos como o racismo, o preconceito e a discriminação. É necessário, por conseguinte, buscar o exercício reflexivo sobre a identidade cultural do negro como personagem ativo dentro da literatura infantil, pois a ficção pode reforçar os traços identitários afirmativos e os valores culturais do negro. As crianças aprendem com facilidade sobre as diferentes culturas, pois esta aprendizagem exige delas o que têm de mais produtivo: a curiosidade, a imaginação e a facilidade de associação com o diferente. Esse exercício do relativismo pode contribuir para a Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 43 formação de um novo imaginário infantil, como uma preparação para novas atitudes e ações diante da questão da identidade cultural e da representatividade social das diversas etnias na sociedade contemporânea. Ana Maria demonstra imensa sintonia com as questões de seu tempo, e os problemas sociais que a preocupam estão sempre presentes nas suas obras, deixando vestígio através da subjetividade dos personagens. Um de seus principais dons é penetrar no pensamento das crianças, fazendo uso de linguagem elaborada, ao mesmo tempo clara e direta, o que ela justifica apontando boa memória e experiência de vida. Ao rememorar e (re)significar o passado, busca também construir estratégias na tentativa de instituir um processo de mudança e transformação do momento em que vive. Trata-se de uma atividade representativa que, ao invés de repetir o mundo, irrealiza-o e despragmatiza-o a partir da tematização do imaginário: "o imaginário supõe a irrealização do que toca e a aniquilação das expectativas habituais"(COSTA LIMA,1986:194). Mas, é pertinente lembrar que o próprio Costa Lima reage contra uma forma alienada de leitura que rompe com o mundo, penso que seja o meio-termo criar condições para refletir. Ana propicia um espaço sublinear de possibilidade de problematização de mensagens, lugar em que os discursos preconceituosos podem ser contestados, (re)significados e superados. Um espaço em que o multiculturalismo é tratado como possibilidade de conhecimento e de crescimento pessoal, um suporte de questionamentos e de reflexões, pois seu conteúdo envolve crenças, ideologias e conceitos dos mais variados. Trata-se de produções culturais que não são neutras, trazem características dos contextos históricos e sociais nos quais estão inseridas sem, contudo, ser veículo de panfletagem. A história que diverte e instiga é também um instrumento relevante para conhecimentos que a criança vai acrescentando à sua bagagem cultural e, dessa forma, vai compreendendo e (re)elaborando o mundo onde vive. Nelly Novaes Coelho diz que a boa literatura propicia ao leitor divertimento, prazer, emoção “e que, ao mesmo tempo, ensina novos modos de ver o mundo, de viver, de pensar, de reagir e de criar”.(2000:49) Para além do lazer e do poder de desenvolver o gosto pela leitura, estes contos de Ana Maria Machado podem auxiliar na construção da identidade das crianças negras, pois em boa parte dos livros infantis mais utilizados, pelo contrário, os negros não aparecem e, quando aparecem, muitas vezes são José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 44 personagens sem voz, sem vez e sem história, o que pode levar a criança negra a se ver como diferente. Lembrando Dória: ...é importante conhecer não apenas a si mesmo, mas também o outro. O diferente. E assim como o outro começa a ganhar uma existência mais ampla, através do imaginário, ele pode ganhar mais espaço concreto, na vida real. (2008:16) E os textos de Ana aparecem como possibilidade de identificação e percepção do diferente como acréscimo e não como exclusão. Foi a partir das experiências de vida de Bino, Rosário e Chico, percurso para o autoconhecimento e busca de identidade, que procurei identificar relações e lembranças que retratam deslocamentos importantes na história da sociedade brasileira e na constituição da identidade. Penso que, ao ler, refletir e discutir sobre discriminação, preconceito e exclusão, a criança pode contribuir para a quebra do silêncio sobre estes assuntos, pois a literatura, poderosa construção simbólica, penetra no pensamento dos pequenos leitores, ajudando-os na construção do pensamento crítico e na conscientização do problema. E mais, ao perceberem o problema de forma diferenciada, podem romper com imagens estereotipadas e preconceituosas veiculadas em grande parte dos livros a eles destinados. Embora ainda haja muito a fazer no sentido de minimizar as máculas de uma história do negro marcada pela constante ideia de carência de civilização e cultura e de traço estético, Ana Maria já busca uma literatura nacional que valoriza a figura do negro como protagonista e personagem positivo. São obras cujas relações “interpersonagens” refletem a tolerância, a convivência, o interesse por outras culturas, o respeito pelo outro como forma de poder se tornar um diferencial na sociedade do nosso tempo. Longe da defesa de uma literatura infantil realista a serviço da panfletagem baseada numa discussão crua e nua de problemas sociais, defendo uma literatura que mantenha a sua essência na magia e no encantamento, proporcionada pela riqueza da linguagem e pela construção de imagens insólitas, que seja também um espaço de possibilidades para refletir relações humanas e, nessas relações, o diferente, jamais uma literatura porta-voz do reforço da divisão social, berço de estereótipos estreitadores da representatividade social e cultural. Acreditamos que, ao trazer para a sua criação personagens representativas dos grupos minoritários, a autora possibilita a elevação da autoestima das crianças leitoras Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 45 pertencentes a esses grupos, na medida em que com elas se identifica pelo que apresentam de melhor. Por esta via as crianças de qualquer etnia podem se ver como crianças capazes de pensar, refletir e criticar, e mais, este tipo de texto pode propiciar um retorno dessas crianças ao contexto em que a convivência positiva entre as pessoas seja possível. Isso não quer dizer que a narrativa de Ana esteja presa a um compromisso político-social; mas nenhuma obra é de todo neutra, principalmente quando sua autora tem uma história de vida ligada a esses propósitos e pautada em princípios éticos definidos. Embora sua obra permita múltiplas leituras, é, certamente, a vertente estética que a identifica e a qualifica como uma das maiores escritoras do gênero. Livre das amarras nas referências cotidianas, mas rica em experiências de vida, Ana prima pela expressão criativa, pela linguagem transbordante de significados, imagens inusitadas e construções poéticas, próprias da grande literatura, propiciando ao leitor de qualquer idade momentos de imenso prazer estético. Se por um lado Ana colhe na sua vivência motivos para a sua narrativa, é muito mais pela imaginação que sua obra se edifica; sustenta-se aí a possibilidade de leitura das obras desta autora sob a luz da teoria de Costa Lima e Iser, que se complementam quando a questão é o imaginário e o jogo criativo. Creio que este estudo pode contribuir para o resgate das relações indivíduo/meio e a importância que estas relações representam como estabelecimento de um sentido maior para a percepção do sujeito no mundo, neste caso, as crianças leitoras de Ana Maria Machado. Saliento que este trabalho não esgota o tema aqui proposto, trata-se de um estudo introdutório que levanta questões importantes sobre a relação mimese, ficção e imaginação e que demonstra a contribuição do pensamento teórico de Iser e o de Costa Lima para a análise literária, pensamentos que, no meu entendimento, se complementam, ao mesmo tempo em que propiciam a interface entre a literatura e outras áreas do conhecimento, fornecendo elementos para a reflexão sobre o papel da literatura na construção da identidade negra. Espero também contribuir para a compreensão da importância de uma visão crítica e reflexiva sobre o que é lido pelas crianças e a necessidade do cuidado com as mensagens veiculadas e a apropriação dos discursos em tais histórias. Nesse sentido, ratifico que é possível conjecturar que Ana Maria Machado, ao selecionar, combinar e recolher dados da realidade, ficcionalizando-os, incita seus leitores à reflexão sobre questões aparentemente distantes do universo infantil, alargando o seu horizonte José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 46 cultural, além de propiciar grande prazer, quer por corresponder às expectativas de seus leitores, que se identificam com o texto lido; quer por surpreendê-los ao romper com paradigmas e (pre)conceitos, levando-os ao questionamento e ao diálogo constante com o texto. As ideias não têm raízes e viajam no tempo e no espaço, proporcionando sempre novas historicizações e apropriações. Ana se apropria de elementos de seu cotidiano, das histórias de vida de amigos e desconhecidos, das leituras que realizou, de fatos históricos e de reflexões filosóficas, de temas revolucionários, das experiências marcantes, de uma infinidade de motivos, enfim, dando-lhes novas cores, inusitados sentidos, surpreendentes sabores, pelo exercício da imaginação, transformados. Diversos são os caminhos que podem ser traçados e trilhados com o objetivo de contribuir para a construção da identidade, para a aceitação do diferente, para o conhecimento de novas culturas e o respeito a elas e para a quebra de paradigmas, a literatura é mais um deles. REFERÊNCIAS: ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil – Gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1997. BHABHA. H. (1998). O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2007. COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil – teoria – análise- didática. São Paulo: Moderna, 2002. ______. Literatura Infantil. 7 ed. São Paulo: Moderna, 2000. COSTA LIMA, Luiz. Mímesis: desafio ao pensamento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. ______. Sociedade e Discurso Ficcional. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. DÓRIA, Antonio Sampaio. O preconceito em foco: análise de obras infanto-juvenis: reflexões sobre história e cultura. São Paulo: Paulinas, 2008. HALBWACHS, Maurice. A Memória coletiva. Tradução Laurent Léon Schaffter. São Paulo: Vértice, 1990. ISER, Wolfgang. O Fictício e o Imaginário: perspectivas de uma antropologia literária. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1996. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 47 ______. Os atos de fingir, ou o que é fictício no texto ficcional. Trad. de Luiz Costa Lima (1979). In: COSTA LIMA, L. C. Teoria da Literatura em suas Fontes. vol. II. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983, p.955-984. MACHADO, Do outro lado tem segredos. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. ______. Do outro mundo. São Paulo: Ática, 2002. ______. Texturas: sobre leitura e escritos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. ______. Mandingas da ilha Quilomba. 2 ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 48 AS RELAÇÕES DISCURSIVAS NO CONTO O ALIENISTA Oton Magno Santana dos Santos 7 O conto O Alienista, de Machado de Assis faz parte da coleção Papéis avulsos, publicada em 1882. Narra a história de Simão Bacamarte, um médico que se dedica ao estudo da loucura. Para tanto, utiliza o seu prestígio para construir um hospício em Itaguaí, cidade fictícia do interior do Rio de Janeiro. Seu objetivo é prestar um serviço à ciência e à comunidade. Ao longo da história, diversas e surpreendentes atitudes do médico aguçam a curiosidade e provocam os moradores da tal cidade. No entanto, suas atitudes mesmo que discutíveis se justificam sempre em nome do fortalecimento científico, tendo por base o discurso legitimado e a posição social do alienista. De uma forma exacerbada, Simão Bacamarte expõe em fortes tintas a supremacia da ciência em relação a qualquer tentativa de explicação dos fenômenos naturais. Trata-se da consolidação de uma relação que envolve poder, discurso e ideologia a serviço do pensamento científico. É a partir desta observação que norteamos este estudo, visando um entendimento do estabelecimento dos papéis sociais, como eles se definem e como atuam dentro de uma determinada sociedade. Aparentemente, o tema predominante na obra em estudo é a loucura. Por outro lado, no decorrer da narrativa percebemos certa precipitação na definição de tal posicionamento. Entendemos que o referido tema não se reduz ao conceito que representa, por exemplo. Ao contrário, ilumina outras visões que dão margem a várias possibilidades de abordagem das questões presentes no conto. Uma dessas visões se refere aos discursos presentes nas falas do narrador. Já no início da narrativa, percebemos um comportamento diferente em duas atuações do narrador. No primeiro caso, a postura é mais distante. A escolha dos termos, bem como a disposição dos mesmos nas orações que se seguem, sugere um discurso do ouvi dizer, ao invés de afirmar. Atribui a autoridade do narrado a um sujeito plural praticamente indeterminado. Além disso, sugere certa elaboração mental das características do personagem em voga, as quais provocam, dessa forma, concepções de juízo de valor ao objeto da narrativa, isto é, Simão Bacamarte. 7 Especialista em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa e Mestrando em Letras, pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilhéus-BA). Professor Auxiliar da UNEB, Campus XX, Brumado. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 49 As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo El-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia. (MACHADO DE ASSIS, 1998, p,01) Em outra passagem, a relação de proximidade com o objeto narrado acentua-se. Aqui, tem-se a ideia de que se trata de outro narrador ou é o mesmo narrador utilizando outro discurso revestido de outros componentes os quais são essenciais para a confecção de sua matéria. Disto isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. (idem, p. 02) O narrador, nesta passagem, abandona a postura distante e assume seu envolvimento com a história, seja pela escolha das expressões próximas às da fala, seja pela velocidade ou agilidade que conduz a narrativa. Além disso, no trecho em destaque, percebe-se certa familiaridade entre o ser que conta as histórias e os fatos narrados. Há dessa forma, uma alternância entre os discursos do narrador os quais, de certa forma, influenciarão como as histórias serão contadas. A partir daí, temos um ser que irá nos fornecer o material essencial para o nosso estudo. Portanto, conscientizamo-nos de que nosso estudo será pautado nas informações fornecidas por um narrador cuja imagem remete a apanhar um peixe com as mãos. A concepção de cultura suscita na contemporaneidade muitas discussões acerca dos objetos que compõem o referido termo e suas configurações. No entanto, as práticas que envolvem tal concepção datam de épocas anteriores. Preferimos adotar a expressão cultura como processo e não como conceito, uma vez que no texto aqui estudado, as manifestações culturais oscilam conforme a sociedade se transforma. Desse modo, a sociedade e aquilo que a mesma transforma configura-se em processo culturais, conforme acentua Canclini (2007, p. 41): A cultura apresenta-se como processos José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 50 sociais, e parte da dificuldade de falar dela deriva do fato de que se produz, se circula e se consome na história social” Na narrativa machadiana, Itaguaí é pintada como uma típica cidade do interior do Brasil. Por isso, o espanto e a devoção ao filho mais ilustre da terra. Quando as obras da casa verde são concluídas, a cidade festeja durante sete dias. Uma alusão aos sete dias que Deus teria utilizado para construir o mundo? Ou simplesmente a conta do mentiroso, no popular? Tanto faz. São sugeridas no conto em estudo representações da ciência e da religião. Parece que estamos lidando o tempo todo confrontando essas duas visões dentro de um campo de batalha e este seria representado pela cultura local. Como resultado, temos uma população estupefata e indecisa, acostumada a práticas deterministas as quais geralmente propõem conceitos do que é certo ou do que é errado. A data precisa dos acontecimentos narrados em “O alienista” não é fornecida, mas é possível perceber o período pelas pistas encontradas ao longo da história. Estamos no século XIX, O regime político é a monarquia. No meio acadêmico temos o crescimento e a conseqüente valorização do pensamento científico. Na história do conto, a pacata cidade se rende aos títulos e a sabedoria de Simão Bacamarte. Inicialmente apenas os indivíduos ditos loucos são trancafiados na casa de orates. Com o passar do tempo, os que apresentam certas manias, as menores que sejam, também são recolhidos ao templo. A população começa a se espantar quando as pessoas ricas são capturadas. Após prender o albardeiro Mateus, um sujeito exibicionista, a população inquieta-se: Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí, - a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas, - duas ou três de consideração, - foram recolhidas à Casa Verde. O alienista dizia que só eram admitidos casos patológicos, mas pouca gente lhe dava crédito. Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico (...). (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 14) A partir desse momento, a população experimenta uma situação nunca antes imaginada, pois sempre confiou seus destinos a alguma pessoa ou instituição. Nesse caso específico, mesmo que de forma inconsciente, a entrega aos ramos do saber se configura mais eficaz do que quanto à religião. Esta representada na figura do padre Lópes caminha furtiva enquanto Bacamarte, representando as luzes da ciência expõe, garbosamente, cada vez mais seus discursos permeados de objetivos bem definidos, Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 51 pautados na experiência. Ao intensificar os ataques, o alienista provoca uma revolta comandada por um barbeiro insatisfeito com os rumos da história local. Algumas pessoas aderem ao propósito do tal barbeiro, mas a maioria não se posiciona até se certificar de que podem vencer Bacamarte. O barbeiro passou a representar a autoridade que a população necessitava naquele momento, conforme afirma Michel de Certeau (2003, p. 11) “(...) toda representação articula e exprime uma convicção, a qual funda, por sua vez, a legitimidade da autoridade”. Em outras palavras, a adesão dos cidadãos de Itaguaí só se estabelece quando a suposta autoridade do barbeiro é reconhecida pelos demais. Por outro lado, assim que tomam o poder, destituindo a câmara de vereadores, os rebeldes são surpreendidos pela postura do seu líder. Ao invés de cumprir o que prometeu - destruir a Casa Verde, o barbeiro Porfírio propõe uma aliança ao alienista, negociando apoio mútuo para tocarem seus projetos. Esse fato surpreende tanto os seguidores da revolução quanto os que não a apoiavam. Encontramos, neste caso, certa relativização de conceitos morais, éticos e políticos, o que acaba provocando novas formas de representação. A relação de representação é assim confundida pela ação da imaginação (...) que faz tomar o logro pela verdade, que ostenta os signos visíveis como provas de uma realidade que não o é. Assim deturpada, a representação transforma-se em máquina de fabrico de respeito e de submissão, num instrumento que produz constrangimento interiorizado, que é necessário onde quer que falte o possível recurso a uma violência imediata: só os homens de guerra não se mascaram dessa maneira, porque efectivamente o seu papel é mais essencial, eles se afirmam pela força, enquanto os outros o fazem por meio de dissimulações.” (CHARTIER, 1988, p. 22) Como o texto machadiano configura-se numa sátira, nem mesmo os que estão em guerra assumem postura verdadeira diante das questões que surgem. Tem-se a impressão de que o barbeiro estava com aquelas intenções o tempo todo ou que, inebriado pelo poder nunca antes experimentando, sucumbiu ao charme do conhecimento. Em outra passagem, após a decepção com o Porfírio, outro rebelde, o barbeiro João Pina, assume o comando da revolução e o governo local, fato que dura pouco, uma vez que logo a ordem é reestabelecida. Sagra-se apenas um vencedor: o alienista. Com o prestígio assegurado, ousa fazer novos experimentos mudando de planos. Agora, os doentes são aqueles que apresentam comportamentos ilibados e, José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 52 portanto, recolhidos à casa verde. Até o próprio barbeiro Porfírio. Após ser derrotado, quando convidado a fundar outro movimento contrário ao alienista e à câmara, nega-se terminantemente. Como os critérios de loucura agora são outros, é trancafiado na Casa Verde. Por esse fato, o novo preso comenta: “Preso por ter cão, preso por não ter cão” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p.32). A relativização das representações ilustra o desabafo do barbeiro. Trata-se da oscilação de pensamento que movimenta os comportamentos sociais. Além disso, tais representações estão diretamente relacionadas à posição dos indivíduos e como se configuram em uma sociedade. A noção de representação, (...) permite articular três modalidades da relação com o mundo social: em primeiro lugar, o trabalho de classificação e de delimitação que produz as configurações intelectuais múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente construída pelos diferentes grupos; seguidamente, as práticas que visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição; por fim, as formas institucionalizadas e objectivadas graças às quais uns representantes (instâncias colectivas ou pessoas singulares) marcam de forma visível e perpetuada a existência do grupo, da classe ou da comunidade. (CHARTIER, 1988, p.15) Em relação à política, tem-se a impressão de que a história de Itaguaí tende a construção de um total simulacro. Embora haja apenas um intelectual na cidade, suas atitudes sempre justificadas pelo discurso científico, acabam provocando a outrora pacata cidade de modo a revelar as contradições e fragilidades daquele povo. Logo, as pessoas incomodadas com as experiências, em nome do bem-estar social, postam-se contra o médico para depois apoiá-lo, visando concretização de interesses pessoais. No quesito relações interpessoais, o simulacro também se manifesta: a própria D. Evarista, esposa do alienista e o seu fiel amigo, o boticário Crispim Soares. A primeira resolve os problemas de insatisfação com o casamento a partir do momento que é presenteada com viagens e similares. O segundo, ao perceber a iminente queda de Bacamarte, omite-se ao invés de defender o amigo. Vale aqui a aparência ou a representação social legitimada por uma determinada sociedade. O indivíduo apega-se ao que possui, ao material e não o abandona em nome de nenhum tipo de relação afetiva. Todos estes comportamentos são observados curiosamente pelo alienista. No entanto, surpreendentemente suas conclusões o levam sempre a mudar o foco da Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 53 pesquisa. Em outras palavras, suas hipóteses nunca se confirmam, nem mesmo quando o próprio se reclusa no hospício. Sobre as relações de poder, aparentemente, as vitórias estão sempre relacionadas ao representante da ciência, isto é, ao alienista. A sátira configura-se na simbologia do poder exacerbado adquirido pelo pensamento científico de cunho positivista e a algumas sugestões como a analogia entre a guerra dos canjicas e as revoltas pró- independência ou até mesmo referências à revolução francesa. Tais fatos, dentro da história, provocam reflexões acerca da relativização de poder, o que nos provoca diante dos seus instrumentos e a que atende. Primeiro, percebemos que o termo poder, assim como cultura, não é um fim, mas um meio, isto é, processo. Logo, é vacilante. No texto em estudo, a oscilação mesmo satirizada revela um quadro onde alguns indivíduos experimentam tal estado. No entanto, ao observar o comportamento de tais sujeitos, entendemos que o poder por ser simbólico, exige alguns requisitos dos seus prováveis usuários. Um deles é a legitimidade do discurso. Por isso, as visões legitimadas na história, ao seu modo, asseguram a institucionalidade dos seus discursos. Ao ser interpelado pela rebelião, assim age Simão Bacamarte: —Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas, se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós em comissão dos outros a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos nem a rebeldes. (MACHADO DE ASSIS, 1988, p. 20) Com a certeza e o poder do discurso, a postura do alienista demonstra que o mesmo já esperava todas as atitudes dos revoltosos, afinal, o médico fazia questão de estudar minuciosamente todos os seus pacientes. Curiosamente, com todas as guerras travadas entre ciência e religião, aqui, Bacamarte faz questão de reconhecer o poder divino, porém, associado aos seus mestres. Em outra passagem, o alienista demonstra certo cuidado ao lidar com o catolicismo: Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 54 tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente. (idem, p. 04) Trata-se de uma disputa velada pelo poder. Enquanto os revoltosos se expõem contra o inimigo sem nenhum plano ou estratégia definida, a guerra entre o alienista e o padre é silenciosa, mas eficiente e cordial. Mesmo quando Bacamarte resolve trancafiar o padre na sela as relações não são abaladas. Por sua vez, o padre nunca chega a confrontar diretamente seu algoz, como no trecho a seguir em que o padre vai se queixar com a esposa do médico: — A propósito de Casa Verde, disse o Padre Lopes escorregando habilmente para o assunto da ocasião, a senhora vem achá-la muito cheia de gente. —Sim? —É verdade. Lá está o Mateus... —O albardeiro? —O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e Sicrano, e... —Tudo isso doido? —Ou quase doido, obtemperou padre. —Mas então? O vigário derreou os cantos da boca, à maneira de quem não sabe nada ou não quer dizer tudo; resposta vaga, que se não pode repetir a outra pessoa por falta de texto. D. Evarista achou realmente extraordinário que toda aquela gente ensandecesse; um ou outro, vá; mas todos? Entretanto custava-lhe duvidar; o marido era um sábio, não recolheria ninguém à Casa Verde sem prova evidente de loucura. —Sem dúvida... sem dúvida... ia pontuando o vigário. Temos dos dois lados um discurso cuidadosamente elaborado à luz das instâncias que o regulam. Ao testar os conhecimentos do padre, o alienista sagra-se silenciosamente vitorioso, pois se certifica de que possui o poder do conhecimento, o que o faz experimentar uma sensação de supremacia em relação ao religioso, que por sua vez, também experimenta tal situação, pois acredita que enganou o estudioso, relativizando a noção de poder, ou seja, o poder, nesse caso, depende do contexto ou da visão de cada um dos indivíduos envolvidos. Além disso, existe o aspecto cultural. Enquanto a ciência se reforça pela prática da razão, o discurso religioso se consagra pelos dogmas, pela supranaturalidade. Isso é possível porque Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 55 (...) as formas simbólicas estão inseridas em contextos sociais estruturados que envolvem relações de poder, formas de conflito, desigualdades em termos de distribuição de recursos e assim por diante. Essa dupla ênfase define o que eu chamo de “concepção estrutural” da cultura. Fenômenos culturais, dentro dessa visão, podem ser vistos como formas simbólicas em contextos estruturados; e a análise cultural pode ser vista como um estudo da constituição significativa e da contextualização social das formas simbólicas. (THOMPSON, 2007, p. 22) Percebemos, portanto, que as discussões aqui presentes propuseram um olhar relacionado ao contexto em que a narrativa machadiana aqui estudada se passa. Esse olhar tende a ser plural, uma vez que o nosso objetivo propõe uma reflexão acerca da diversidade dos elementos discursivos presentes no conto. Observamos que as relações sociais se transformam constantemente revelando o que Machado em outro conto, “Missa do galo”, definiu como a eterna contradição humana, pois o homem construído pela narrativa machadiana nas mais variadas representações nunca é previsível ou linear. Todos os indivíduos destacados assumem uma postura definida e em outro momento age ou pensa diferente. Aliado a isso, temos as instâncias políticas e as relações de poder, as quais norteiam praticamente todos os atos discursivos descritos no conto, conforme ilustra Linda Hutcheon: “o discurso é ao mesmo tempo um instrumento e um efeito do poder”. Em outras palavras, discurso pode ser entendido como processo e consequência do poder. No conto, isso é verificado pelo fato de que ainda que tenham ocorrido sucessivas alternâncias de governo em Itaguaí, o poder público sempre apoiou o alienista. Nesse caso, vale a legitimidade do discurso científico: O discurso não é uma entidade estável e contínua que possa ser discutida como um texto formal fixo; por ser o local da associação entre o poder e conhecimento, ele vai alterar sua forma e sua relevância dependendo de quem está falando, da posição de poder dessa pessoa e do contexto institucional em que o falante esteja situado. (FAUCAULT apud HUTCHEON, 1991, p. 235) Portanto, mesmo questionado por seu comportamento pelos moradores de Itaguaí, o Alienista sagra-se vencedor, porque ocupa a dita posição privilegiada, isto é, após vários confrontos, ele mesmo decide internar-se na famigerada casa verde, e a população, como sempre é convencida pela justificativa do personagem, como sempre aconteceu, demonstrando que o discurso legitimado vale mais do que quaisquer outras formas de discurso. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 56 REFERÊNCIAS: CANCLINI, Nestor Garcia. Diferentes, desiguais e desconectados. 2ª ed, Rio de Janeiro: UFRJ, 2007. CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. 3ª ed. São Paulo: Papirus, 2003. CHARTIER, Roger. A história cultural – entre práticas e representações. Rio de Janeiro: DIFEL, 1988. HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo, história, teoria, ficção. Trad. Ricardo CRUZ. Rio de Janeiro: Imago, 1991. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Papéis avulsos. [s.l]: Lombaerts & C., 1882. In: Edição eletrônica. [s.l.]: Costa Flosi, 1998. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000230.pdf> THOMPSON, JOHN B. Ideologia e cultura moderna. Petrópolis: Vozes, 2007. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 57 MEMÓRIA E CULTURA: O INDÍGENA, UMA LEITURA LITERÁRIA. Maria Angélica Rocha Fernandes 8 Através dos textos Macunaíma,Iracema e O Guarani, de Mário de Andrade e José de Alencar, respectivamente, pensados pelas teorias de Michel de Certeau, Edward Thompson, Aldo Vannucchi e John Brand, poderemos ter acesso à memória e às “verdades nacionais” na construção da identidade brasileira, as quais emergiram nas narrativas do indianismo do século XIX e XX . A partir do imaginário nacional visto por esses autores, pretende-se fazer relações interdisciplinares, ampliando a dimensão de leitura literária para um diálogo com a História, Religião, Antropologia, Historiografia, dentre outras áreas. A abordagem nacionalista far-se-á à procura de possíveis analogias no âmbito histórico e literário em seu amplo campo de reflexão, com leituras possíveis de diferentes e inusitadas linguagens. Através desses textos poderemos suscitar interpretações que feitas ao longo dos séculos, tendo como pano de fundo a suposta “História do Brasil” que depuram o senso crítico e artístico do cidadão brasileiro, implicando com isso negar momentaneamente as leituras já existentes dos livros, ou de textos que abordam temas aproximados. É de extrema pertinência propor uma discussão sobre o indígena na construção da identidade brasileira, bem como a longa história dos seus costumes, linguagens e memória, retraçar alguns dos principais episódios no desenvolvimento do conceito de cultura e memória “para obter uma compreensão mais profunda daquilo que esses termos envolvem e daquilo que deve ser evitado nos estudos contemporâneos dos fenômenos culturais” (THOMPSON, 1998, p. 165). Muitos estudiosos concordam que o estudo dos fenômenos culturais é uma preocupação de importância central para a sucessividade de gerações. O índio, nesse contexto, figura como suporte de análise da memória do povo brasileiro, suas ações e expressões significativas, suas manifestações verbais, símbolos e textos; é nesse enredo que nosso autóctone ocupa um lugar de destaque no estudo do mundo sócio-histórico-literário, constituído como um campo de significados. Escrever sobre mitos, rituais, lendas, mentiras e olhares divergentes sobre nossas raízes é tentar fazer de lutas isoladas, lutas coletivas, incluindo a escola como 8 Professora Auxiliar de Literatura Brasileira do DCHT, Campus XX, Brumado. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Literatura: Leitura, História e Educação. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 58 meio de integração, apoiar o intercâmbio de ideias, coisas boas que fazem falta à comunidade, porque é nela que cada qual guarda uma verdade que é de todos – como uma colcha de retalhos que delimita o espaço local na “confecção” dos seus pontos e costumes para a validação da consciência coletiva e identidade nacional. O índio é visto por muitos autores da Literatura Brasileira como o passado histórico nacional, como símbolo de nacionalidade, como suporte seguro contra a internacionalização da nossa cultura – A representação do índio na literatura brasileira é marcada pelo mito do “bom selvagem”, o que agrega ao nativo o estereótipo de submisso. Sobretudo, para criar a imagem idealizada do nacionalismo e, conseqüentemente, apresentar ao resto do mundo medieval, o que chamariam de herói brasileiro, porque “para civilizar o índio era preciso assimilar-lhe os padrões culturais; era mister ‘ficar sendo índio’ o mais possível; regressar ao primitivo” (COUTINHO, 2004). E é através do mito do “bom selvagem” que os escritores portugueses se interessam pelo índio brasileiro, a fim de demonstrar não somente o seu poder de posse sobre tal, como também, a amorosidade existente entre o europeu e o índio. A partir de leituras das obras O Guarani e Iracema, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mário de Andrade, tento fazer uma análise sucinta do papel do índio no contexto social, tomando Peri, Iracema e Macunaíma como a representação de uma raça que sofreu influência e influenciou na formação do caráter nacional. É nesse contexto que procuro refletir sobre a memória e cultura indígena no surgimento da civilização brasileira e da sua identidade, porque se quisermos ser entendidos de nosso povo, havemos de falar-lhe em sua língua com os termos e locuções que ele entende e que lhe traduzem nossos usos e sentimentos. Não procuro analisá-lo como herói nacional, mas como “raiz” – promover uma discussão a respeito desses povos nativos que hoje estão em situação de confronto com a cultura dos pseudobrancos. No século XVI com o advento do mercantilismo, portugueses e espanhóis dispuseram-se a cruzar os mares em busca de pagãos, riquezas e glórias. Nos livros citados, os personagens indígenas convivem harmonicamente com a natureza e o branco – caracterizando um vínculo social que se baseia na supremacia da cultura européia. E é através do amor venerável que eles nutrem pelos seres amados que se firma o processo de catequese e aculturação do índio. Na casa da cruz, no meio do fogo, Peri tinha visto a senhora dos brancos; era alva como a filha da lua; era bela como a graça. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 59 O fogo passou; a casa da cruz caiu. De noite Peri teve um sonho; a senhora apareceu; estava triste e falou assim: Peri, tu é meu escravo; tu me seguirás por toda parte. (...) Peri tomou suas armas e partiu; ia ver o guerreiro branco para ser amigo; e a filha da senhora para ser escrava. (...) Era a senhora que Peri tinha visto; não estava triste como da primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrelas. (ALENCAR, Cap. II, p. 36-37) Embora Peri tente resistir a supremacia européia, é inevitável perceber que essa se dá em momentos diferenciados e rotineiros, o que caracteriza, a passos lentos, o processo de aculturação do índio através da realização dos caprichos de sua senhora Cecília. Iracema, por sua vez abandona toda a sua “cultura” para seguir Martim, enquanto que Macunaíma banha-se nas águas mágicas , lavando todo o seu “negrume”,transformando-se em um “lindo branco”. Peri e Ceci / Iracema e Martim implicam a reunião de raças procriadoras da nacionalidade; sendo Iracema anagrama de América poderíamos pensar se a índia não seria uma personificação da virgem terra americana conquistada pelo branco europeu, e Martim – um guerreiro branco que impõe de certa forma sua cultura á amada? O desafio é compreender o valor simbólico de cada personagem e de cada fato. A morte dos personagens do livro O Guarani , a morte de Iracema, e a do herói Macunaíma ,seria a destruição da raça indígena pela raça “branca”, como profetiza o próprio Alencar? Opondo-se a sua cultura de homens livres, Peri e Iracema seguem como escravos da ideologia fidalga, e aproveitando-se da veneração desses personagens com os respectivos amados , os brancos submetem-nos ao batismo, casamento e exploração. Os autóctones acabam anulando a sua cultura para aceitar a cultura européia. - Se tu fosses cristão, Peri!... - Por quê?... perguntou o índio admirado daquelas palavras. - Porque se tu fosses cristão, eu te confiaria a salvação de minha Cecília, e estou convencido que a levarias ao Rio de Janeiro, à minha irmã. - Peri quer ser cristão! exclamou ele com o rosto iluminado. - A nossa religião permite, disse o fidalgo, que na hora extrema todo o homem possa dar o batismo. Ajoelha, Peri! O índio caiu aos pés do velho cavalheiro, que lhe impôs as mãos sobre a cabeça dando ao índio o seu nome. Peri jurou então que levaria Cecília até a irmã fidalga. (ALENCAR, Cap. X, p. 8889) José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 60 A confluência racial em Macunaíma se evidencia desde o primeiro capítulo. Basta ver que o herói índio, nasce preto retinto: No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. (ANDRADE,1978, p.9) A saga de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, é inteiramente mítica: indígena, ele se torna negro e branco ao longo de sua aventura. Deixa sua tribo e vai para a cidade, em busca da perdida Muiraquitã, cruzando nesse percurso com vários estratos da realidade social e diversas figuras de mitologias brasileiras. Uma forte carnavalização percorre a obra, tornando o grotesco, a degradação/regeneração corporal e a paródia alguns de seus ingredientes estéticos mais salientes. A situação vivida por Peri nos remete a discussão sobre as relações existentes entre o homem europeu e o índio brasileiro, sobretudo do ponto de vista civilizatório, uma vez que há interesses por parte dos portugueses em não somente confirmar o achamento de novas terras, mas também de contribuir para o fortalecimento do cristianismo nos quatro cantos do mundo. E os romances citados, carregam em suas entrelinhas o desprezo que os europeus têm em relação ao índio. A escravidão e catequese, práticas seculares, também eram partes do negócio; quando aqui os portugueses chegaram, encontraram gente nativa que equivocadamente nomearam índios. Esses foram catequizados, escravizados, obrigados a tornarem-se crédulos e obedeceram à Igreja Católica; quando se negavam a fazer favores para os novos conquistadores, morriam em confrontos e desentendimentos. A cultura no singular impõe sempre a lei de um poder. À expansão de uma força que unifica colonizando e que nega ao mesmo tempo seu limite e os outros, deve se opor uma resistência. Há uma relação necessária de cada produção cultural com a morte que a limita e com a luta que a defende. A cultura no plural exige incessantemente uma luta. (CERTEAU, 1995, p. 242) A construção da nossa identidade deu-se nesse contexto de desrespeito, de singularidade cultural, e isso explica a índole do brasileiro, no início de tudo os índios se “venderam” por espelhos, por isso “vimos um mundo doente...” e os que ainda não foram exterminados andam a esmo, sem representação específica, sem saneamento, sem Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 61 saúde, sem memória! Resta-nos abordar, discutir e repensar o tema e a cultura de um povo pioneiro da nossa gente, como no desfile das escolas de samba (2006) a escola Porto da Pedra desfilou toda a memória e cultura dos nossos primórdios, em uma mistura festiva e plural de um Brasil que atravessa as alegrias do carnaval e futebol para contar histórias e dar viva ao povo brasileiro! Hoje a situação do índio é complexa, pois perderam praticamente quase todas as suas terras, deixaram de ser escravos oficialmente, mas vivem à margem da sociedade brasileira e os jovens, confusos com a sua cidadania, onde quem determina as situações são os não-nativos, e onde não há espaço para a sua cultura, desiludem-se, pois ao lerem a obra indianista de José de Alencar, percebem as relações de poder coexistentes ampliando outras relações. No livro O Guarani, a personagem Ceci impõe a Peri (índio herói) sua “cultura”, seus costumes, inclusive Peri se batiza conforme os dogmas religiosos e familiares da amada; essa obra constitui a maior expressão épica do nacionalismo romântico do nosso país apesar dos tropeços nos erros de sua ignorância etnográfica e esbarros por entre armadilhas da selva de uma terminologia “brasileira” ainda não bastante esclarecida em sua época. Os romances O Guarani e Iracema são um testemunho de uma época, são a memória de cenas, “heróis”, aventureiros, aimorés, catástrofes, cultura! Peri e Ceci / Iracema e Martim implicam a reunião de raças procriadoras da nacionalidade. São lendas e mitos da terra selvagem, o modo de ver e sentir que dão nota íntima da nacionalidade permitindo uma leitura mais complexa dos símbolos, como na rapsódia Macunaíma de Mário de Andrade onde ele se preocupa em trabalhar e discutir a identidade nacional dos brasileiros, bem como a falta de caráter dos mesmos: E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura (...) O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional (...) Este livro afinal não passa duma antologia do folclore brasileiro 9 . (ANDRADE, 1978) Criado a partir de uma pesquisa do autor sobre as lendas amazônicas referentes às tribos indígenas Arecuná e Taulipang – recolhidas por Koch-Grünberg e publicadas 9 Trecho de um dos prefácios não publicados de Mário de Andrade a Macunaíma – o Herói sem Nenhum Caráter. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 62 em Von Roraima Zun Orenoco, de 1916 – Macunaíma significa literalmente “o grande mau” e refere-se a um deus indígena, cujo principal atributo é a malvadeza. Na rapsódia de Mário, Macunaíma nasce grande, negro retinto, filho de uma índia, casa-se com Ci, depois que ela dá a luz a uma criança que morre prematuramente, dá ao companheiro uma muiraquitã famosa. Ci decide morrer e vira estrela. Macunaíma toma banho nas pegadas de um gigante (que lhe roubou a pedra) e fica branco dos olhos azuis, morre pelo gigante, ressuscita pelas feitiçarias do irmão, depois de incessantes lutas decide virar estrela e sobe para o céu. Quem conta a história ao autor é o papagaio de Macunaíma, já que toda a sua tribo extinguiu-se. “Acabou-se a história e morreu a vitória” (epílogo da obra). Macunaíma é uma múltipla em sentido amplo. A construção do texto consegue compreender toda uma gama de conhecimento e crenças ligados à formação da cultura e identidade brasileira; suas metáforas e pluri-significados nos remetem a um país que “nasce grande”, preguiçoso, perde sua cultura, que é internacionalizada nas mãos do “gigante estrangeiro” e acaba por morrer, dia-a-dia, pela cultura no singular que se torna mortífera; nessa rapsódia ainda percebemos a valorização da cultura popular e indígena e abordagem da memória nacional, despertando a consciência crítica, ponto fundamental desse trabalho para que a cultura indígena não se vá totalmente, pois a memória são as concepções de vida e do mundo para os povos. Já estruturado como indianismo romântico, a obra alencariana apresenta a valorização do índio sob um olhar tipicamente voltado para o mito em que os personagens fazem prevalecer a natureza sobre a cultura, introduzindo de forma poética “uma língua mais brasileira que portuguesa” (SANT’ANA, 1973), a partir do momento em que ele compara metaforicamente a figura de Peri ao poeta primitivo, dizendo que “o poeta primitivo canta a natureza, na mesma linguagem da natureza”. Há aí, portanto, uma busca constante da valorização do índio por parte dos autores, ainda que tal valorização soe como uma simples cópia dos heróis medievais. Desejando descobrir pistas para a construção de perguntas e respostas que possam me fazer compreender melhor as minhas indagações, é necessário pesquisar a princípio a cultura e memória indígena na construção da identidade brasileira; analisar o enfoque que é atribuído à concepção de cultura, que atrai milhares de pessoas para a organização de grupos que compartilhem de uma mesma ideologia. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 63 Qualquer juízo de valor atribuído ao fazer pedagógico que é analisado, não significa que seja algo imutável e definido, pois, vale ressaltar, são as minhas leituras, as análises variam das circunstancias e das convenções que organizam e delimitam as instituições. Por meio desse trabalho pretendo contribuir para reflexões e desvendamentos sobre a construção da identidade nacional, cultura e memória indígena. O estudo sobre Michel de Certeau permite-nos definir cultura no singular como mitificação política, ameaça à própria criatividade e ameaça mortífera e é na oposição entre cultura no singular e cultura no plural que procuro articular os romances indianistas de José de Alencar – Iracema, O Guarani e Macunaíma de Mário de Andrade. Edward Thompson mostra os costumes ingleses e a cultura plebéia perpassados para gerações sucessivas, envolvendo o processo colonizatório e a transmissão oral, vista também na questão do indígena. John Brand – pioneiro nos estudos do folclore estuda as manifestações populares abarcando os costumes, lendas e ditos tão minuciosamente descritos no livro Macunaíma e Aldo Vannucchi pensa que a classe dominante branca-por-autodefinição tem como preocupação maior salientar sua branquidade e, no plano cultural, sua europeidade: A imitação do estrangeiro que era inevitável não seria um mal em si mesmo porque as transplantações culturais vêm associadas, freqüentemente, a fatores de progresso. O mal residia e ainda reside na rejeição de tudo que era nacional e principalmente popular, como sendo ruim (VANNUCCHI, 1999, p. 14). Defendo que foi por meio dessa cultura “vulgar” – recheada de elementos indígenas e africanos – que o povo brasileiro edificou, com os tijolos e cimentos de que dispunha a cultura nacional significativa para toda a população. São os mitos de Gonçalves Dias e seu índio herói e mais cada consideração que vai formando um trabalho de reflexão sobre a raça indígena, nossa identidade nacional, cultura e memória. Não encerro aqui as fontes que pretendo usar, pois o estudo é como uma teia, um emaranhado de ideias que vão se concatenando para reflexões maiores. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 64 REFERÊNCIAS: ALDEIAS. Documento eletrônico. Brasília: <www.funai.gov.br> Acesso em 01 fev. 2006. Funai, [2006?]. Disponível em ALENCAR, José de. O Guarani. 19. ed. Cortejado com a edição crítica do Instituto Nacional do Livro preparada por Darcy Damasceno. São Paulo: Ática, 1995. ______. Iracema: lenda do Ceará. Notas ao texto Dulce Seabra. São Paulo: Scipione, 1994. ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter. Edição crítica de Telê Ancona Porto Lopes. 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Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 PARTE 2: DISCURSO, LÍNGUA, LEITURA 66 A IMAGEM DA MULHER NO DISCURSO PUBLICITÁRIO Cláudia Madalena Feistauer 10 INTRODUÇÂO A publicidade acompanha as mudanças de valores presentes numa sociedade e faz uso desse conhecimento para influenciar as pessoas a consumirem cada vez mais. A publicidade, como aliada do capitalismo, atua como instrumento de manipulação, está presente no dia-a-dia das pessoas. Portanto, tem a função de influenciar a mudança de comportamentos, vender valores, sonhos, ilusões que, supostamente, se concretizam na compra de um produto ou de um serviço. Assim, é necessário entender e refletir sobre o poder que possui a propaganda de influenciar incessantemente no ambiente social e cultural. A mulher atualmente inserida no mercado de trabalho consome muito. A comunicação publicitária está atenta ao consumo feminino e explora ao máximo a tendência consumista criando mensagens específicas que estimulam o consumo e influenciam o comportamento das mesmas transmitindo ideias, normas e valores. Como a publicidade faz uso de discursos, a Análise do Discurso como teoria que é um dispositivo de análise se presta a refletir sobre o discurso publicitário explicitando os aspectos sociais, históricos e ideológicos que se entrecruzam no mesmo. Assim, este trabalho será respaldado na Análise do discurso da linha francesa. CONCEITO DE ANÁLISE DO DISCURSO A Análise do Discurso teve sua gênese na França na década de 1960 e constitui uma prática especializada em analisar construções ideológicas presentes num texto. É muito utilizada, por exemplo, para analisar textos da mídia e as ideologias que trazem em si. Orlandi (2003) define o objeto da Análise do Discurso como o “discurso”. O étimo do vocábulo discurso dá ideia de curso, percurso, de correr por, de movimento. Semelhante a um rio, o discurso, dessa forma, circula na sociedade. Isto significa que todo discurso é uma construção social, não individual, e que só pode ser analisado considerando seu contexto histórico-social; significa ainda que o discurso reflete uma 10 Mestre em Linguagens Professora de Linguística - UNEB Campus XX José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 67 visão de mundo determinada, necessariamente, vinculada à do(s) seu(s) autor(es) e à sociedade em que vive(m). De acordo com Orlandi (2003, p. 15): A Análise do Discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social. Essa mediação, que é discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade do homem e da realidade em que ele vive. O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana. Um dos postulados da Análise do Discurso é que o discurso influencia e, ao mesmo tempo é influenciado pelas estruturas sociais. Parte-se do pressuposto de que a linguagem é um instrumento de poder e por meio dela valores são reforçados ou transformados. Tudo o que é dito transmite as representações do mundo, de realidade, do/a produtor/a do texto. Os discursos se movem e se transformam acompanhando as transformações determinadas pelas transformações sociais e políticas, por isso, ao analisar o discurso, deve-se levar em conta aspectos históricos, sociais, políticos e culturais, além da descrição de estruturas lingüísticas. Portanto, a noção que se tem de discurso como sinônimo de mensagem, informação, pronunciação de meras palavras combinadas em frases, não corresponde ao interesse básico da Análise do Discurso. Em termos de discurso, devem-se considerar os elementos que têm existência no social. Assim, podendo estar relacionado tanto à História quanto à Sociologia, a Análise do Discurso vai buscar, na verdade, o sentido ou sentidos produzidos pelo sujeito ao elaborar um discurso, as suas intenções e a forma como é recebido por quem ouve ou lê suas palavras. Por isso Pêcheux (1969) define discurso como “efeito de sentidos entre interlocutores”. O elemento essencial para a Análise do Discurso (AD) é o sujeito, pois é a partir dele que surgem os discursos, embora ele não seja o centro do seu discurso e não tenha poder de decisão, escolha e estratégias de produção discursiva, na concepção da AD. O sujeito age como alguém que pensa ter o domínio sobre o que diz, mas na verdade, é o inconsciente e as ideologias de cada um que determinam os discursos. Dessa forma a linguagem passa a ser um fenômeno que deve ser estudado não só em relação ao seu sistema interno, enquanto formação lingüística a exigir de seus usuários uma competência específica, mas também enquanto formação ideológica, que se Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 68 manifesta através de uma (BRANDÃO, 2004, p. 17). competência socioideológica. Língua e história se inter-relacionam no discurso onde participam elementos externos, ou seja, as transformações sociais e políticas que fazem parte da vida em sociedade. E é nesses elementos que se baseia a Análise do Discurso, buscando no contexto em que é construído o discurso, os seus possíveis sentidos. Assim, a AD não deve ser confundida com uma simples análise de texto, visto que esta se detém nas relações internas analisando apenas o aspecto lingüístico do discurso. Para a AD a situação histórico-social na qual se organiza um discurso é de fundamental importância na constatação dos “efeitos de sentido”, provocados pelo sujeito discursante e nos sujeitos ouvintes ou leitores do discurso. O texto não pode ser considerado como “uma seqüência lingüística fechada sobre ela mesma, porém é necessário referi-lo ao conjunto de discursos possíveis a partir de um estado definido de condições de produção. (PÊCHEUX, 1969 apud ORLANDI, 1983). As condições de produção abrangem os sujeitos e a situação social, são aspectos históricos, sociais e ideológicos que envolvem o discurso, ou que possibilitam a produção do discurso. Dessa forma, os sentidos das palavras são construídos de acordo com as formações ideológicas nas quais os sujeitos estão inseridos. O sentido de uma palavra, de uma expressão, etc, não existe “em si mesmo” (...) mas, ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas (PÊCHEUX, 1997, P. 190). Referindo-se à linguagem publicitária, neste contexto, a noção de texto torna-se abrangente e passa a designar não apenas o lingüístico, mas o conjunto significativo. As palavras se relacionam tão intensamente com os demais signos e com os elementos da situação que não se pode depreendê-las de forma isolada. É preciso levar em conta o contexto sócio-histórico em que se inserem e que determina seus sentidos. Portanto, um estudo que aborda as características textuais da linguagem publicitária torna-se muito bem acolhido pela perspectiva da Análise do Discurso, uma vez que o texto publicitário não se desenvolve numa linearidade – grande parte do significado a ser apreendido encontra-se implícito. É necessário, então, ir além da verificação da informação, buscar os efeitos de sentido provocados pelo texto, uma vez que o texto não está completo se José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 69 não se levar em conta a situação, o contexto sócio-histórico e as condições de produção e recepção. A LINGUAGEM PUBLICITÁRIA DIRIGIDA À MULHER Todos os dias, os discursos que abordam a questão de gênero são reproduzidos na dinâmica social, seja nos círculos familiar, jurídico, profissional, midiático, etc. Mas é o discurso publicitário que confere especial atenção para a mulher. Através desse discurso a imagem idealizada da mulher é veiculada atrelada à ideia de que os produtos oferecidos construirão uma imagem de beleza, juventude, sensualidade e aceitação na sociedade. Nesse sentido, o discurso publicitário não só induz ao consumo, mas influencia o comportamento da mulher. O contexto sócio-histórico em que a mulher está inserida atualmente produz um discurso veiculado pela publicidade que utiliza recursos estilísticos e argumentativos para transmitir suas ideologias e construir a imagem da mulher. A publicidade constitui um tipo específico de linguagem, através do qual o produtor representa o universo sob uma determinada perspectiva, promovendo a interrelação de diferentes signos com o objetivo de seduzir o interlocutor a crer numa “realidade construída”. A publicidade vem se desenvolvendo ao longo dos tempos, assumindo características próprias e uma forma particular de interpretar e de reproduzir a realidade social. De acordo com Citelli (1999, p. 43): “o texto publicitário nasce da conjunção de vários fatores, quer psico-sociais-econômicos, quer do uso daquele enorme conjunto de efeitos retóricos aos quais não faltam as figuras de linguagem, as técnicas argumentativas, os raciocínios.” O discurso publicitário é produzido na e para a sociedade, por isso sofre influência dos acontecimentos sociais. No contexto em que vivemos, a mensagem publicitária estimula o consumo e influencia comportamentos. Dessa forma, o discurso publicitário não é um discurso neutro, assim como todo discurso influencia a visão de mundo do leitor/leitora, ao mesmo tempo em que reflete o posicionamento do autor do texto, no caso específico, os publicitários. As campanhas publicitárias direcionadas para a população feminina têm características bem delimitadas, principalmente no que diz respeito ao comportamento, ao gosto, à desenvoltura, aos ideais, à aparência feminina. A publicidade, em muitos Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 70 momentos, exerce papel de um manual de comportamento social e a mulher pode se sentir como que guiada por ele, pois "[...] a publicidade bate sempre na mesma tecla: para ser feliz e bem sucedida, a mulher precisa estar sempre bela e ser (ou parecer) jovem" (CARVALHO, 1996, p.24). A população feminina é a que mais tem recebido, ao longo da história da publicidade, os conceitos de beleza, juventude, felicidade expressos pela publicidade. E isso pode ser constatado através da preocupação feminina atual em tentar atingir o modelo de perfeição que é passado através das campanhas publicitárias. A mulher se sente na obrigação de ser bela, inteligente, bem sucedida profissionalmente e financeiramente, ser a encarnação da perfeição. Mas como atingir esse patamar? As campanhas publicitárias mostram para essas mulheres que é possível conseguir tal proeza, usando determinadas roupas, sapatos, produtos para embelezar o corpo, os cabelos, material para ginástica, lingeries sensuais, enfim, todos os recursos necessários para que a mulher comum se transforme na mulher ideal. O discurso publicitário propõe, portanto, uma troca de identidades do destinatário da mensagem (a mulher), entre a sua identidade enquanto “ser no mundo” e a identidade projetada de um destinatário, “ser do discurso” Ao propor esta troca, “[...] diz-nos quem somos e como somos, ou seja, fixa os contornos da nossa própria identidade [...].” (PINTO, 1997, p. 31). Através dos textos e das imagens expressas nos anúncios, a mulher é induzida a agir, pensar e, até mesmo, ser de certa maneira, de acordo com o que é veiculado na propaganda. Aparentemente é dada à mulher uma possibilidade de escolha, de ação; mas, na verdade, é uma orientação ao modelo muitas vezes inatingível que deve ser seguido, ou às atitudes que devem ser tomadas em determinado momento. A imagem da mulher sensual numa propaganda de lingerie Para ilustrar a influência do discurso da propaganda na construção da imagem da mulher, será analisada uma propaganda que foi veiculada na revista Marie Claire de abril de 2006 e traz o seguinte texto: Em cada desejo meu tem o calor do mundo inteiro. Um fogo que arde sem doer. Que arrepia minha pele. Meus pêlos. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 71 Que pára o tempo. Meus pensamentos. As batidas do meu coração. Em cada parte do meu corpo tem o calor do mundo inteiro. Ardo. O primeiro elemento que se observa no anúncio é o aspecto formal do texto que se apresenta em forma de poema. A escolha da forma do texto já indica o público a quem é dirigida a mensagem – a mulher que é sempre lembrada e cantada em verso e em prosa, e o espírito feminino é evocado em textos românticos, especialmente na poesia. Além disso, tradicionalmente a mulher aprecia esse tipo de composição. No primeiro verso pelo uso do pronome possessivo em primeira pessoa é revelado o sujeito enunciador – uma mulher. O segundo verso apresenta uma cadeia parafrástica provocando efeitos de sentido: 1) “Um fogo que arde sem doer” 2) “Amor é fogo que arde sem se ver É ferida que dói e não se sente É dor que desatina sem doer” (Camões) A paráfrase, segundo Charaudeau e Maingueneau (2006, p. 366) “é uma relação de equivalência entre dois enunciados, um deles podendo ser ou não a reformulação do outro”. No caso do verso “Um fogo que arde sem doer”, foi feita uma reformulação em relação ao texto de Camões “Soneto”, mas numa perspectiva diferente, enquanto o texto de Camões tem como revelar o conceito subjetivo de amor, na propaganda a intenção é revelar o desejo sensual da mulher. O jogo feito pelo enunciador do anúncio promove a troca da palavra “dor” do original de Camões pela palavra “fogo”, a palavra amor não aparece no anúncio, pressupondo uma relação puramente carnal. A mulher retratada no anúncio é jovem e liberada sexualmente, não esconde seus desejos e fala abertamente deles, essa situação circunscreve – a num contexto específico da atualidade no qual a mulher não mais tem uma atitude passiva em relação ao sexo. O enunciador do anúncio descreve as sensações ocorridas no corpo da mulher estimulado pelo desejo. Não há referência a sentimentos, confirmando a efemeridade das relações em nosso tempo. A evocação à sensualidade e ao ato sexual em si fica clara não só pelo texto, mas pela posição em que se encontra a modelo deitada de costas, a cabeça pendida para trás e a boca entreaberta vestida com um conjunto de calcinha e sutiã pretos e de renda com um sapato de salto alto. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 72 Está na leitura das entrelinhas que o uso da lingerie apresentada fará da mulher consumidora do produto uma mulher sensual e desejada, capaz de conquistar o homem de seus sonhos. Outro aspecto a ser destacado no anúncio é o fato de que só há um endereço eletrônico para a aquisição do produto. Isso indica que a mensagem é dirigida um tipo mulher específica, a que pertence a uma classe social que possui computador e acesso à internet, isso, exclui as outras mulheres que não têm acesso aos bens tecnológicos da atualidade. A posição sujeito do enunciador mulher da propaganda fica evidente – é uma mulher de classe média/alta que tem condições de acessar a internet e visualizar o produto que deseja adquirir. A posição sujeito é reflexo da época em que vivemos e da posição social ocupada pela mulher a quem é dirigida a mensagem publicitária. O anúncio termina com o verbo “Permita-se” abaixo do nome do produto: “Nu.Luxe Permita-se” A maneira como foi exposto apenas o nome do produto indica que a consumidora em potencial já conhece a marca e sabe que se trata de lingerie. Nesse sentido, aparece o interdiscurso, a memória discursiva “o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada toma de palavra” (ORLANDI, 2005, p. 31). O verbo “permita-se” é um convite a comprar o produto, mas como se o mesmo fosse um elemento especial destinado a poucas escolhidas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A figura da mulher é explorada de forma contundente na linguagem publicitária e essa linguagem cria uma imagem que não representa a realidade. Um modelo de perfeição muitas vezes inatingível é veiculado e atrelado a produtos que supostamente tornam a mulher no ideal de beleza, juventude e felicidade. Isso para que a mulher seja induzida a consumir produtos que farão com que ela atinja esse padrão. Recorrendo à base epistemológica da AD é possível empreender uma análise que capture os efeitos de sentido expressos pela mensagem publicitária, uma vez que ocorre uma recorrência à história. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 73 Os sentidos são produzidos face aos lugares ocupados pelos sujeitos em interlocução e nesse sentido, a mulher retratada nos anúncios ocupa uma posição bem marcada e adquire um sentido diferente de acordo com o produto que o anunciante queira divulgar e vender. No anúncio analisado, a imagem que o anunciante quis passar foi a da mulher jovem, sensual e liberada sexualmente. Para tanto, o discurso publicitário usou como estratégia para conquistar a leitora/interlocutora, a identificação com tal imagem que difere do papel feminino que historicamente se consolidou: o de base da estrutura familiar. Isso indica que a mulher vem assumindo novos papéis na sociedade a partir do espaço e da liberdade que conquistou com lutas e trabalho. A publicidade, então inclui mensagens que se adequem a novos tipos de consumidoras acompanhando a mudança de comportamento determinada pelas transformações sociais. Este trabalho não tem a pretensão de esgotar o tema, até por questões de tempo e espaço, foi traçada uma breve tentativa de aplicar os pressupostos da AD à análise de um texto publicitário dirigido à mulher. Tanto a AD como a publicidade são temas de interesse amplo por meio do qual estudiosos de várias áreas podem se interessar em desvendar caminhos. REFERÊNCIAS: BRANDÃO, H. N. Introdução à análise do discurso. 2 ed.Campinas/SP: Editora da Unicamp, 2004. CARVALHO, Nelly de. Publicidade a Linguagem da Sedução. São Paulo: Ática, 1996. CHARAUDEAU, P.; MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do Discurso. (Coordenação da tradução Fabiana Komesu). 2 ed. São Paulo: Contexto, 2006 CITELLI, A. Linguagem e persuasão. São Paulo: Ática, 1999. ORLANDI, Eni Pulcinelli. A Linguagem e seu Funcionamento: as formas do discurso. São Paulo: Brasiliense, 1983. PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: Uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Edunicamp, 1997. PINTO, Alexandra Guedes. Publicidade: um discurso de sedução. Porto: Porto Editora, 1997. MARIE CLAIRE. São Paulo: Editora Globo, nº. 181. Abril 2006, p. 18 e 19. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 74 O CORPO E O DISCURSO: A MULHER NA MIDIA IMPRESSA Luzimare Almeida Piloto Fabiana Andrade Santos 11 PREMISSAS E BREVE HISTÓRICO Há tempos, o homem se preocupa em descobrir e se apropriar das técnicas mecanicistas sobre a arte discursiva da persuasão. Esse fascínio se expressa através da literatura, da religião, da filosofia, dos mitos, das lendas, entre outros e teve a sua origem na Antigüidade, com uma das primeiras manifestações relevantes sobre a oratória. Nessa época, consideraram-se importantes três objetos dessa modalidade: o ethos, simbolizado pelo orador, o pathos, representado pelo auditório, e o logos, simbolizado pelo discurso. Vale ressaltar, ainda, que o homem sempre se dedicou à linguagem e só com a criação da Retórica é que os gêneros do discurso persuasivo tomaram formas. O vocábulo retórica, que tem sua origem do grego téchne rhetoriké, ou seja, “arte retórica”, historicamente tem sido entendido com diferentes conceituações. Em sentido lato, a retórica se mistura com a poética, consistindo na arte da eloqüência em qualquer tipo de discurso. Já no sentido restrito, que identifica a retórica como a faculdade de ver teoricamente o que, em cada passo, pode ser capaz de gerar persuasão, de acordo à conceituação aristotélica, é definido como uma modalidade discursiva geral, aplicável às mais diversas disciplinas – uma atividade em que predomina a forma, como a gramática e a dialética, e não o conteúdo. Então, conforme Aristóteles (2007, p. 21) “em estrito senso, o estudo da retórica refere-se aos meios de persuasão [...] que é um tipo de demonstração, pois somos mais persuadidos quando consideramos a demonstração de uma determinada coisa”. O autor ainda ressalta que uma afirmação é persuasiva quando pode ser provada por outras afirmações que também são e que para ser persuasivo aquilo que está sendo asseverado deve possibilitar a adesão de todo um universo de pessoas e não especificamente de uma classe, por isso que o filósofo supracitado destaca “que a retórica não está associada a uma classe definida de assuntos, mas ela é universal como a dialética, além de ser útil também”. (p.22) 11 As autoras são professoras especialistas auxiliares do Campus XX da UNEB, em Brumado. Fabiana Andrade Santos é mestranda da UFBA, orientada pela Dra. Iracema Luiza Souza. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 75 A arte da retórica nasceu na Sicília, em meados do século V a.C. quando a política dos tiranos cedeu lugar à democracia. Nesse novo contexto, todos os cidadãos atenienses participavam diretamente nas assembléias populares que possuíam funções legislativas, executivas e judiciárias. Logo, todos os assuntos eram submetidos ao voto popular, nenhum cidadão se eximia da sua responsabilidade e, muitas vezes, a justificativa de sua opinião era submetida à apreciação de uma platéia. O exercício da função política dependia da habilidade de raciocinar, falar e argumentar coerentemente, logo, pouco a pouco, dentro deste contexto, surgiram profissionais da retórica – os primeiros advogados (gr. Synegoros ou syndikos) – que ainda não representavam seus clientes na tribuna, mas que tinham a incumbência de orientar os seus discursos, quando não os escreviam, compelindo-os a decorá-los, a fim de se obter uma exposição correta e, conseqüentemente, ganho de causa. Tais mestres eram os sofistas e tinham como objetivo ensinar a arte da política e as qualidades indispensáveis para a formação de bons cidadãos, o que incluía a retórica ou a arte da persuasão que era exercida nos tribunais e nas outras assembléias. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA NOVA RETÓRICA Nos últimos anos, por volta de 1950, começou a se delinear uma corrente filosófica e acadêmica que tinha por objetivo recobrar a dignidade dessa forma de conhecimento tão antiga e tão intimamente ligada à história da humanidade. A partir da importância dada à filosofia da linguagem e à filosofia dos valores, vários filósofos e estudiosos começaram a considerar a retórica como um objeto digno de estudo, seja sob a sua vertente formal, seja sob a ótica que privilegia seu aspecto de instrumento de persuasão. Nesse rol de estudiosos destacam-se Perelman e OlbrechtsTyteca que se dispõem a analisar a retórica ultrapassando o exame da técnica do discurso oral, preocupando-se, sobretudo, com a estrutura da argumentação dos textos impressos, na intenção de caracterizar as diversas estruturas argumentativas, cuja análise deve antepor qualquer prova experimental à qual se quisesse submeter sua eficácia. Para o autor, o objetivo de toda argumentação é provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses que se apresentam o seu assentimento. Assim, eficaz é uma argumentação que consegue uma intensidade de adesão ao seu auditório, de forma que se desencadeie nos ouvintes a ação pretendida, ou, pelo menos, crie neles uma disposição para a ação que se manifesta no momento propício. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 76 Dessa maneira, fica evidente ainda que a principal preocupação e compromisso da retórica não é com a verdade e sim com a aceitação, aquiescência e, conseqüentemente, adesão do auditório à tese apresentada. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) afirmam que a instalação de um acordo entre o orador e o auditório é o primeiro passo para que se possa ter a argumentação. O orador utiliza estratégias que acredita serem eficazes na persuasão do outro, ou seja, dá início a uma relação argumentativa cuja finalidade é a adesão do auditório como resultado da persuasão. Nesta perspectiva, os pensadores fazem uma distinção entre persuadir e convencer. Enfatizam que para quem se preocupa com o resultado, persuadir é mais do que convencer, uma vez que a convicção não passa da primeira fase que leva à ação. Porém, para quem está preocupado com o caráter racional da adesão, convencer é mais do que persuadir. É considerada persuasiva a argumentação que pretende valer só para um auditório particular e convincente a que objetiva obter a adesão de todo ser racional. A persuasão tem seu fundamento na natureza particular do sujeito. Argumentar implica, conscientemente ou não, o estabelecimento entre esse acordo inicial entre o orador e o auditório. O orador deve considerar o conteúdo das premissas a escolha daquelas que se apresentam como as melhores ou mais adequadas e as formas que utilizará na sua apresentação. Os acordos podem ser divididos em categorias como real e preferível. Na primeira, as premissas se constituem através de fatos, verdades e presunções, enquanto na categoria do preferível se enquadram os valores relacionados às hierarquias e aos lugares do preferível. Há também o acordo quanto à escolha dos dados que dizem respeito a interpretações, a noções e técnicas de apresentação e, além disso, o acordo quanto à forma das premissas, que se fundamenta na regulação do dizer de acordo ao contexto em que se desenvolve a argumentação. Abreu (2006) ressalta que a primeira condição da argumentação é ter definida uma tese e saber para que tipo de problema essa tese seja resposta; a segunda condição diz respeito à adequação da linguagem ao auditório, ou seja, para que o auditório apreenda aquilo que está sendo defendido é imprescindível que o orador utilize um vocabulário inteligível, objetivando a interação do seu público; isso implicará na terceira condição que diz respeito à necessidade de existir entre o orador e o auditório um contato positivo; e, finalmente, a quarta condição está diretamente relacionada à atitude do orador em relação ao seu auditório, ou seja, para que o auditório acredite José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 77 naquilo que está sendo apregoado pelo orador e, obviamente se convença, é necessário que o mesmo aja de forma ética, argumentando com o outro de forma honesta e transparente. O autor ainda destaca que ao iniciar um processo argumentativo não devemos propor imediatamente nossa tese principal, e sim utilizarmos técnicas argumentativas que são os fundamentos que estabelecem a ligação entre as teses de adesão inicial e a tese principal e que compreendem dois grupos: os argumentos quase lógicos e os argumentos fundamentados na estrutura do real. AS LIGAÇÕES QUE FUNDAMENTAM A ESTRUTURA DO REAL Os argumentos fundamentados na estrutura do real, diferentemente dos quaselógicos, baseiam-se em fatos empíricos que proporcionam ao auditório a liberdade de aderirem ou não à tese defendida pelo orador. Tais argumentos são caracterizados pela relatividade, pois estão diretamente relacionados a pontos de vista. De acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 297): Enquanto os argumentos quase-lógicos têm a pretensão a certa validade em virtude de seu aspecto racional, derivado da relação mais ou menos estreita existente entre eles e certas fórmulas lógicas e matemáticas, os argumentos fundamentados na estrutura do real valem-se dela para estabelecer uma solidariedade entre juízos admitidos e outros que se procura estabelecer. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) citam quatro tipos de argumentos que fundamentam o real pelo caso particular: o exemplo, a ilustração, o modelo e o antimodelo. O Exemplo A técnica argumentativa utilizada a partir do exemplo ocorre quando o orador recobra um caso particular para fundamentar um argumento que ele objetiva que se torne uma generalização. Para tanto se recorre a personagens que têm “autoridade” e que servirão para embasar a tese que é apregoada a fim de se obter a adesão do auditório. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) ressaltam que esse tipo de argumento implica certa discordância da regra particular que o exemplo é evocado para embasá-la, todavia pressupõe um acordo preliminar acerca da viabilidade de uma generalização a partir de casos particulares que se tornam eficazes e que objetivam a interação das Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 78 partes envolvidas. A respeito do Exemplo, Aristóteles (2007, p. 120) afirmava que “ele é de natureza da indução, que é o fundamento do raciocínio”. A Ilustração Ao contrário do exemplo que utiliza um caso para conquistar a adesão do auditório e, conseqüentemente, construir uma regra, a ilustração é um tipo de técnica argumentativa usada para reforçar uma regra que já foi estabelecida. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 407) destacam: Enquanto o exemplo era incumbido de fundamentar a regra, a ilustração tem a função de reforçar a adesão a uma regra conhecida e aceita, fornecendo casos particulares que esclarecem o enunciado geral, mostram o interesse deste através da variedade das aplicações possíveis, aumentam-lhe a presença na consciência. Dessa forma, fica evidente o papel da ilustração, visando, geralmente, aumentar a adesão do auditório a uma regra já consolidada a partir deste. Se a mesma for utilizada inadequadamente, não provocará a invalidação da regra estabelecida e sim um desconhecimento daquele que a utiliza, dando demonstração da sua desinformação e da incongruência ao recorrer àquele artifício para ratificar estatutos que foram apropriados pelo auditório e já estão cristalizados. Porém, vale ressaltar que quando o orador utilizar conscientemente à ilustração de uma forma inadequada, o seu objetivo é provocar uma ironia acerca do que é “verbalizado” incitando no auditório um ceticismo do que parecia inquestionável. A esse respeito Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 411) afirmam: Ainda assim, a ilustração voluntariamente inadequada pode constituir uma forma de ironia. Dizendo, sem tomar fôlego: Você tem de respeitar seus pais; quando um deles o repreender, replique-lhe vivamente, põe-se em dúvida a seriedade da regra. O Modelo e o Antimodelo A técnica argumentativa através do modelo é um desdobramento do exemplo, ou seja, após a apropriação de uma regra preconizada pelo auditório através do exemplo, parte-se para a imitação daquela conduta que gera um padrão a ser seguido em determinados contextos. Isso é ratificado por Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 414) que ressaltam: José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 79 Habitualmente, o modelo glorificado é proposto para a imitação de todos; por vezes trata-se de um modelo reservado a um pequeno número ou somente à própria pessoa; por vezes é um padrão (pattern) a ser seguido em certas circunstâncias: comporte-se, nessa situação, como bom pai de família, ame a seu próximo como a você mesmo, considere verdadeiras unicamente proposições concebidas tão clara e distintamente quanto à proposição “penso, logo existo”. Além de motivar o auditório a aderir um determinado comportamento imposto e/ou sugerido a partir do exemplo, o modelo serve também para caucionar o que foi estabelecido, vez que serve de justificativa para o que parecia absurdo ou geraria insegurança naquele que imitou se não tivesse “aquele” que serviu de modelo e avalizou o seu comportamento. Logo, fica evidente a grande responsabilidade do modelo que, via de regra, deve ser alguém de “conduta ilibada” e que inspire confiança. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005 p. 416) ressaltam que embora servir de modelo seja um sinal que denote prestígio, o inverso, incitado pela imitação entre o modelo e aqueles que se inspiram nele e, que, na maioria das vezes são tidos como “inferiores”, pode “desvalorizar” um pouco o modelo. É o caso, por exemplo, da moda em que as roupas utilizadas pelas modelos são copiadas “grosseiramente” pela massa que tem a vontade de se aproximar daquela “autoridade”. O antimodelo desperta no auditório tudo aquilo que não é aprazível e serve de argumento para estimular a mudança de comportamento que se espera conseguir. Muitas vezes, utilizar este tipo de técnica argumentativa, ou seja, o antimodelo acaba sendo mais eficaz do que o modelo, principalmente nos discursos entre mães e filhos em que as primeiras utilizam exemplos que não devem ser seguidos pelos filhos e que os mesmos repulsam a fim de conseguir o acolhimento das suas regras. Fica evidente que os argumentos pelo modelo e/ou antimodelo podem ser utilizados nas mais diversas situações, não existindo a sobreposição de um em detrimento do outro. ANÁLISE DO OBJETO O nosso objetivo com este estudo é analisar e destacar as técnicas argumentativas presentes na reportagem principal “Paola Oliveira 6kg mais magra e supersarada cardápio + treino” da capa da Revista Boa Forma do mês de outubro do ano de 2007, com base nos pressupostos teóricos das técnicas argumentativas Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 80 fundamentados na estrutura do real. Para tanto, vale ressaltar, que de acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 413), tais argumentos, para convencer o seu auditório, utilizam como recurso o modelo, o antimodelo, o exemplo e a ilustração, de forma a estabelecer, a partir de um caso conhecido, uma regra geral em que o auditório se sinta motivado a aderir àquilo que está sendo preconizado. Tais grupos de argumentos operam por indução, não estão baseados em uma descrição lógica dos fatos, mas a pontos de vista, isto é, a opiniões relativas a eles. No que se refere ao primeiro deles, ou seja, ao modelo, de acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 413) “Quando se trata de conduta, um comportamento particular pode não só servir para fundamentar ou ilustrar uma regra geral, como para estimular uma ação nele inspirada”. Assim, observamos que para reforçar um argumento buscando a adesão do mesmo, a utilização de um modelo adequado àquele tipo de contexto é essencial para o auditório se convencer do que tem sido apregoado. Logo, tendo como pressuposto tais fundamentos, entendemos que o orador ao utilizar como modelo Paola, conhecida pelo auditório como uma atriz “cheinha” e ratificada pelo orador na sua reportagem já que o mesmo diz “Paola de Oliveira já foi assim. Igual a tantas de nós. Sofreu por anos com o vaivém de 3 ou 4 quilos, que quando vinham deixavam seus quadris muito grandes. Aí aposentava o short e entrava em pânico só de pensar em usar biquíni” (UMEDA, 2007) quis provocar no seu auditório a real viabilidade, já que para conseguir o seu objetivo passa, nesse momento, a considerá-la como uma pessoa comum – “igual a tantas de nós” – ao ponto de utilizá-la como modelo para fundamentar uma regra geral, que, apesar de preconizada por diversos tipos de pessoas, desde o senso comum até os especialistas na área, ad hoc., “determinação; dieta saudável e três meses de musculação”, tem sido ineficaz uma vez que não provoca no seu auditório a expectativa desejada. Assim, cônscio da relevância de se ter como modelo uma pessoa de prestígio, simpática, bonita, desejada, fácil de ser imitada, e, ainda por cima, querida pelo tipo específico de auditório que se pretende atingir, a modelo proposta, por si só, já é um argumento suficientemente contundente e inspirador para se seguir a conduta adotada pela mesma na conquista daquilo que se convencionou como padrão de corpo ideal. Tal estratégia argumentativa quis provocar no seu público específico, inicialmente, a possibilidade de uma adesão real, e não ilusória, de que aquele modelo é o ideal a ser seguido para a garantia do corpo perfeito. É interessante ressaltar, ainda, José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 81 que o orador, com a intenção clara de aproximar mais e mais a modelo da nossa realidade, igualando-a ao público, reforça isso quando registra que a mesma não gosta de malhar nem de fazer dieta, características estas próprias daquele público que se pretende chegar, porém ele reforça que se a modelo conseguiu, por que razão o auditório não conseguirá emagrecer, já que existe uma similaridade de vontades entre o auditório e a modelo. Outra questão que deve ser ressaltada é que o orador utiliza Paola como modelo e antimodelo, simultaneamente. De acordo com Abreu (2006) o antimodelo fala acerca daquilo que devemos evitar, ou seja, que não devemos seguir. Tal estratégia argumentativa é eficaz uma vez que o auditório, ao rechaçar determinado tipo de conduta que possa dificultar e/ou impedir a materialização do seu objetivo, sente-se motivado a incorporar atitudes contrárias às utilizadas pelo antimodelo. Assim, tal estratégia é usada pelo orador já que ao despertar no seu público o horror àquela situação, fica fácil a adesão ao modelo proposto e/ou argumento que tem a intenção de conduzir o público a incorporar. Logo, ao citar que Paola se matriculava numa academia, iniciava uma dieta, mas não levava seus planos adiante o orador quis provocar no seu público uma repulsa àquele tipo de atitude. Tal repulsa pode se dar a partir do momento em que o leitor se identifica com a atitude e percebe que a mesma não o levará a lugar nenhum. O terceiro recurso de argumento utilizado com fundamentos na estrutura do real que pode ser analisado nesse estudo diz respeito ao exemplo. Acerca desta estratégia utilizada pelo orador a fim de convencer o seu auditório, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) destacam que esse tipo de argumento é apresentado quando se propõe certo desacordo com uma regra particular e o exemplo é usado para fundamentar tal posicionamento. É importante ressaltarmos que ao utilizar o exemplo como estratégia para convencer o seu público o orador deve estar seguro que o auditório se sentirá desconfortável de duvidar do mesmo, logo, tal argumento objetiva a adesão do público, servindo assim para fundamentar uma regra. De acordo com Perelman e OlbrechtsTyteca (2005, p. 402): Seja qual for a maneira pela qual o exemplo é apresentado, em qualquer área que se desenvolva a argumentação, o exemplo invocado deverá, para ser tomado como tal, usufruir estatuto de fato, pelo menos provisoriamente; a grande vantagem de sua utilização é dirigir a atenção a esse estatuto. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 82 Com base nos fundamentos deste tipo de estratégia argumentativa, torna-se evidente para nós que o orador apresenta o exemplo a partir da descrição de rotina utilizada pela atriz para conseguir emagrecer, com o objetivo de conseguir a adesão de uma regra sem qualquer tipo de contestação. O interessante é que o orador não utiliza somente a atriz como exemplo para fundamentar a sua regra incontestável, a saber, a necessidade de determinação, exercícios físicos e uma boa dieta para se ter um corpo perfeito. Para isso, com a intenção clara de atingir as mulheres casadas e/ou solteiras que queiram casar, ou seja, o auditório escolhido pelo mesmo, ele utiliza argumentos citando o caso de Cláudia Raia, que determinada, mesmo tendo dois filhos, marido e trabalhando não deixa de malhar e coloca, após tal exemplo, para reforçar o seu argumento Paola falando “Se ela conseguia, eu também poderia”, logo, fica pressuposto, a partir do que foi posto. Ducrot (1987, p. 20) leva-nos a entender que o fato que se pressupõe não é declarado, ele é representado, age-se como se fosse impossível pô-lo em dúvida. Apesar de não ser dito, o pressuposto vai alicerçar o posto, que a intenção do orador é fazer com que o seu público também chegue à seguinte conclusão, ou seja, pressuponha que se Paola conseguiu, se Cláudia Raia conseguiu por que ele – o auditório idealizado pelo orador – não conseguirá? Tal exemplo teve a pretensão de estabelecer uma regra a partir de um caso concreto, o da modelo Paola. Para o estabelecimento desta regra podemos ainda destacar que o orador, além de apresentar as características que uma pessoa deve ter para emagrecer, “sugeriu” alguns truques, que na verdade funcionam como um tipo de estratégia, como elemento fundamental, utilizado por Paola, para conseguir a redução das suas medidas – que também foram apresentadas. Assim, o auditório pode inferir que para perder peso não basta fazer qualquer dieta, é mister a utilização de estratégias, denominadas pelo orador como “truques da Paola para não desistir da dieta” (UMEDA, 2007), que foram apresentados a partir do estabelecimento de cinco regras, tidas como infalíveis, segundo a autora, a fim de não se cair na tentação e desistir do regime: l) providencie todos os alimentos de que precisar, 2)forme aliados, 3)seja clara, 4) mergulhe nos light e diets, 5) tenha um objetivo. Diante de tal reflexão fica evidenciado que o exemplo citado pelo orador tem a intenção de provocar no auditório a adesão a uma regra que trará como resultado a perda do peso. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 83 Diretamente associada ao exemplo, encontra-se a ilustração, que muitas vezes é confundida pelo senso comum como sinônimo daquele, mas que de acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) possui apanágios que a tornam com especificidades próprias. A ilustração, recurso argumentativo fundamentado na estrutura do real deve ser apresentada após o exemplo, pois a mesma, de acordo com Perelman, serve para alicerçá-lo uma vez que o auditório já se encontra convencido, através do exemplo que foi citado, a aderir àquela regra. Enquanto o exemplo era incumbido de fundamentar a regra, a ilustração tem a função de reforçar a adesão a uma regra conhecida e aceita, fornecendo casos particulares que esclarecem o enunciado, mostram o interesse deste através da variedade das aplicações possíveis, aumentam-lhe a presença na consciência.(PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005, 407) Percebemos então que a ilustração é apresentada com a intenção de fortalecer algo que o auditório já tem como verdade, princípio norteador. No caso específico do nosso objeto que está sendo investigado podemos registrar que ao apresentar o cardápio utilizado por Paola para “frear a fúria por doce”, sugere que o auditório escolha uma das sete opções oferecidas para o café-da-manhã, lanches da manhã e da tarde, almoço e jantar. O orador já está convencido que o auditório escolhido, idealizado pelo mesmo, já aderiu às regras utilizadas por Paola para emagrecer e que a apresentação do cardápio, além de reforçar o que já foi aceito tornou-as mais claras, presentes e, certamente, atraentes. Podemos perceber, ainda, que através de um caso particular, o de Paola, o orador demonstrou de uma forma concreta, a real viabilidade de se conseguir um corpo sarado, perfeito, dentro dos padrões apregoados por diversos segmentos e instituições, utilizando regras – dieta, exercício físico – já conhecidas e aceitas pelo auditório. Assim, já está sedimentado para aquele público específico que para se conseguir um corpo sarado é necessário a incorporação de hábitos já conhecidos. A ilustração serviu apenas para fortalecer, potencializar uma regra. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante desta análise das técnicas argumentativas fundamentadas na estrutura do real na reportagem da Revista Boa Forma, fica evidente a relevância da utilização de Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 84 técnicas argumentativas pelo orador para se chegar ao seu auditório. Para tanto, observamos que a argumentação não passa pela simples utilização de argumentos, mas pelo ato de persuadir/convencer que “procura atingir a vontade”, envolvendo emoção, subjetividade, buscando o assentimento das ideias apresentadas, através de uma linguagem comum, não criando certezas, ou seja, sem preocupação, com o que se pontua como verdade. Assim, o exemplo, a ilustração, o modelo e o antimodelo contribuem, segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), para essa fundamentação do real pelo caso particular. Face ao exposto, espera-se que esse trabalho contribua significativamente com outras pesquisas ligadas à temática apresentada e que sirva aos estudiosos da linguagem, na medida em que possa ser aproveitado para análise de textos diversificados. REFERÊNCIAS : ABREU, Antônio Suarez. A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. 9. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2006. ARISTÓTELES. Retórica. Tradução de Marcelo Silvano Madeira. São Paulo: Rideel, 2007. (Coleção Biblioteca Clássica). DUCROT, Oswald. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987. PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação: a nova retórica. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. UMEDA, Marjorie. A nova Paola – 6 quilos e uma barriga de dar inveja. Boa Forma, São Paulo: Editora Abril, n. 22, out. 2007, p. 88-95,. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 85 ANÁLISE DO SUJEITO DO DISCURSO NOS COMENTÁRIOS POLÍTICOS DE ARNALDO JABOR NO JORNAL DA GLOBO: 2006, O ANO DA REELEIÇÃO Baktalaia de Lis Andrade Leal 12 INTRODUÇÃO Não há como negar o poder formador e transformador da mídia, ela indubitavelmente prescreve a moda, os candidatos ideais, os hábitos culinários, linguísticos, as opiniões aceitáveis. Há um poder de convencimento cada vez mais sofisticado nos meios de comunicação, em especial na televisão com suas ferramentas que se apresenta como imparcial. No universo que compreende o estudo do jornal televisivo, analisarei neste texto uma pequena parte componente deste instrumento de (in)formação atual: os comentários de Arnaldo Jabor no Jornal da Globo (JG). Jabor - cineasta, crítico e escritor - é uma das vozes que exerce forte influência na formação da opinião pública brasileira. No JG, num espaço a parte, Jabor é comentarista das matérias mais polêmicas, versa seus comentários sobre temas variados: arte, meio-ambiente, política, economia, etc. Não são poucos os lares que se silenciam ao início do discurso do comentarista. Em 2006, ano em que as atenções do Brasil estavam voltadas para a reeleição presidencial, Jabor propôs-se em muito a comentar os aspectos políticos da nação, as campanhas dos candidatos, os debates televisivos e os escândalos que ganharam um espaço especial na mídia brasileira, dentre eles: o mensalão administrado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), os dólares escondidos na cueca, dinheiro não declarado compactado em maleta, crise no setor aéreo, escândalo das sanguessugas. Não será meu objetivo fornecer informações a respeito das verdades ou certezas, dos culpados ou das impunidades trazidos a tona nos comentários, mas abordar as implicações que constroem o sujeito expresso na superfície do texto de Jabor, o que favorece a percepção de suas filiações partidárias. Em trabalhos posteriores estarei dedicado à análise especifica dos comentários. Neste trabalho pretendo estudar um pouco o sujeito do discurso desse comentarista nesse ano e sobre este tema: política nacional. Essa pesquisa poderá sinalizar um perfil 12 Professor da UNEB do Campus XX, Brumado. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 86 do sujeito em questão para que os futuros textos que adotem também este objeto achem aqui esse suporte para melhor significar a voz que fala nos comentários do telejornalismo. Por vezes, recorrerei a trechos dos comentários, não para análise dos conteúdos pois como disse o farei em próximos trabalhos - mas para, através dos textos, perceber os efeitos de sentido na edificação da imagem do sujeito do discurso. FILIAÇÃO PARTIDÁRIA Para demarcar o campo teórico da linha francesa da Análise do Discurso (AD), devo considerar o sujeito em questão como interpelado pela ideologia e sujeitado à língua, conforme a Althusser e Pêcheux parafraseados por Orlandi (2009). Essa interpelação conduz o sujeito a proceder discursivamente conforme a formação ideológica em que sua classe está inscrito. A princípio considero Arnaldo Jabor um representante de uma classe dada, em favor da qual textualizará. Conforme Pêcheux (1988), os sujeitos inscritos numa formação ideológica de sua classe não teriam opção, pois estão inscritos historicamente nessa formação, assim manifestariam os desejos e objetivos para a manutenção desta classe. Vê-se esse princípio claramente nos discursos de religiosos, agricultores ou juristas, que não discursam absolutamente contra sua categoria, mas somente em seu favor, para sua subsistência. É possível perceber a formação em que Arnaldo Jabor está inscrito através dos indicativos linguísticos. Considero os seguintes trechos de comentários de Jabor: “o que está acontecendo com a TAM não aconteceu nas outras empresas, a culpa é da TAM, mas isso não absolve a tonteira do executivo...” “o vazio administrativo deste governo não se resolve...” “A culpa é do seu governo, presidente.” (No comentário “a culpa é do seu governo, presidente” do dia 22/12/2006) “nunca antes vimos tantos fatos inconclusos, escândalos esquecidos, a vida política ta virando um balé ridículo” “o que nos deixa ver às claras o que antes era feito com vergonha” “Graças a economia mundial, aos trabalhos dos empresários, o desemprego tá caindo, a economia continua sobre controle.” (No comentário “A política é irrelevante”) José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 87 “O que assusta nessa chanchada é que antigamente as patranhas, as tramóias eram mais respeitosas com a opinião pública” (No comentário “Mais respeito pela mentira”) “Tomara que os homens do governo Lula estejam certos, porque o que inquieta é que essas pessoas otimistas e seguras de hoje foram contra ao Plano Real em 94” (No comentário “Otimismo irresponsável”) “Há dez anos, a dívida das prefeituras era de 4 bilhões, hoje, estima-se entre 15 e 40 bilhões de reais” (No Comentário “Bondade do Lula vai custar 14,5 bilhões”) Os indicativos que conduzem a inscrição do comentarista na classe elitizada do país estão presentes em muitos aspectos. Quando diz: “a tonteira do executivo”, “o vazio administrativo deste governo”, “a culpa é do seu governo” e “ tomara que os homens do governo Lula esteja certos”, o jornalista expõe sua visão de instabilidade, culpabilidade e desconfiança na administração do presidente Luis Inácio da Silva. Quando diz: “nunca antes”, “antes era feito com vergonha”, “antigamente... eram mais respeitosas” e “essas pessoas... foram contra ao Plano Real em 94” denuncia sua preferência pelo governo anterior, o PSDB na representação do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Filiação ainda mais comprovada quando faz comparativos das dívidas das prefeituras no Governo Lula e a “há dez anos”, no governo do PSDB. Quando diz: “Graças a economia mundial, aos trabalhos dos empresários, o desemprego tá caindo, a economia continua sobre controle.” Nesse trecho, Jabor elimina qualquer crédito do governo pela estabilidade econômica do Brasil, mostrando que pela sua visão – ao contrário do que o pensamento socialista acredita – a classe empresarial é responsável pelo momento estável da economia. Essas preferências de interpretação apontam para uma inscrição do sujeito desse discurso na classe de elite da sociedade brasileira. Quando essa afirmação se junta com as informações de que o jornalista é oriundo da classe alta da sociedade e de que a Rede de TV Globo (da qual Jabor é servidor) sempre empenha-se abertamente na defesa das coligações do partido Tucano e seus coligados, é possível propor um gesto de interpretação seguro: Arnaldo Jabor fala como sujeito inserido na Classe Empresarial da sociedade brasileira. Quando, em próximos trabalhos, eu me dedicar às analises dos seus comentários, esse partidarismo tornar-se-á ainda mais evidente. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 88 O SUJEITO Como tentativa de explorar ao máximo as possibilidades de aclaração do sujeito, tento estabelecer três esferas de interpretação: O lugar do sujeito (jornalista), a linguagem do sujeito (literária) e a temática do sujeito (política). Jamais devemos nos ater a apenas uma das questões, a menos que a análise seja sobre um literato que escreva literatura num texto literário. Ou um político que discuta política com uma linguagem política. O que não é o caso do meu objeto. É lúcido reconhecer que essas diferentes esferas constroem juntamente o sujeito. Literatura, política e jornalismo constroem o sujeito dessa análise. O diagrama a seguir servirá para visualizar essa análise tripartida: Jornalístico Lugar Linguagem Conteúdo Literária Político Por ser um jornalista que fala da política nacional numa linguagem literária, a princípio é possível confundir o seu papel e de qual perspectiva Jabor olha para o telespectador. Para tornar menos opaca a visualização do sujeito é que me parece necessário analisar cada um dos aspectos dessa construção. O LUGAR Para Orlandi (2009), o lugar do sujeito é construído pela função social exercida por ele, pois essa função social é que comporta a autoridade para dizer o que diz. Sendo assim, o valor que tem o dizer de um jornalista só existe por causa do valor da função (jornalista) que a sociedade reconhece. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 89 Assim, se o sujeito fala a partir do lugar de professor, suas palavras significam de modo diferente do que se falasse do lugar de aluno. O padre fala de um lugar em que suas palavras tem autoridade determinada junto aos fieis etc. Como nossa sociedade é construídas por relações hierarquizadas, são relações de força, sustentadas no poder desses diferentes lugares, que se fazem valer na “comunicação”. A fala do professor vale (significa) mais do que a do aluno. (ORLANDI, 2009, p. 39 e 40) Assim existe a relação de forças estabelecidas pelos lugares sociais. Nessa hierarquia alguns lugares garantem mais autoridade e, portanto, mais aceitação. Isso é confirmado por Foucault em Arqueologia do Saber: Quem fala? Quem, no conjunto de todos os indivíduos falante, pode legitimamente ter esse tipo de linguagem? [...] A fala médica não pode vir de qualquer um; seu valor, sua eficácia, seus próprios poderes terapêuticos e, de modo geral, sua existência como fala médica não são dissociáveis da personagem, estatutariamente definida, que tem o direito de articulá-la. (FOUCAULT in MAINGUENEAU, 2006, p. 151) A voz de Jabor é legitimada pelo lugar de jornalista e, se considerar-mos o poder que a mídia detém na atualidade, o sujeito em questão ganha autoridade considerável. O chamado “quarto poder” incorpora a voz do verdadeiro, essa influência midiática reveste-se de supra verdade e serve de opinião única e inconteste. Os comentaristas esportivos discutem fervorosamente na exposição de opiniões contrárias. O Jabor do Jornal da Globo não, não há quem o conteste. Não há a voz do TU que se tornaria EU quando tomasse o fio do diálogo (se houvesse diálogo). Não há o lugar do outro. Pois sim, o lugar do comentarista concentra a autoridade suficiente para doutrinar politicamente os telespectadores silenciosos. Mas isso não quer dizer que o TU não exista, que não tome a palavra em frente a televisão, nas casas, nos bares, ou num ponto de táxi. E mesmo quando em silencio, já que a televisão não permite interação, o TU (telespectador do JG) não é passivo, é ruminante conforme afirma Bakhtin: “Aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da palavra, mas ao contrário, um ser cheio de palavras interiores” (BAKHTIN, 2006, p. 153 e 154). A voz inconteste do sujeito legitimado pelo lugar não significa que haja aceitação completa ou eterna desse dizer. Não significa que a recepção desse discurso será plena e o TU concorde integralmente com o conteúdo expresso. Mas a legalidade Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 90 de dizer permanece sobre o lugar. Encerrando esse tópico com mais um teórico em consonância com meu pensamento cito Maingueneau (1997) que diz que o momento do dizer é a consagração do enunciador em sujeito, e a legitimação dessa voz é assegurada pelo lugar que esse sujeito ocupa: “Se ela (subjetividade enunciativa) submete o enunciador as suas regras, ela igualmente o legitima, atribuindo-lhe a autoridade vinculada institucionalmente a este lugar” (MAINGUENEAU, 1997, p.33). A LINGUAGEM A partir de quando Louis Hjemslev (linguista dinamarquês) elaborou um conceito mais amplo do signo linguístico atribuindo-lhe a importância da Expressão e do Conteúdo, esses dois conceitos passaram a transitar nos domínios da literatura adaptando-se e ficando conhecidos como: O Plano da Expressão e o Plano do Conteúdo. Na literatura, esses dois planos são uma forma de analisar os textos bipartindo sua superfície em linguagem (expressão) e teor (conteúdo). Para Fiorin: Quando um discurso é manifestado por um plano de expressão qualquer, temos um texto. Poder-se-ia perguntar por que diferenciar a imanência (plano de conteúdo) da manifestação (união do conteúdo com a expressão), se não existe conteúdo sem expressão e vice-versa. Essa distinção é metodológica e decorre do fato de que um mesmo conteúdo pode ser expresso por diferentes planos de expressão (FIORIN, 2002, p. 31 e 32) Observar essa bipartição é importante para mim, pois é no plano do conteúdo que se manifesta o discurso político e no plano da expressão, as formas literárias. A linguagem usada nos texto do comentarista desvia-se do gênero tradicional do jornalismo que preserva um estilo denotativo e uma suposta parcialidade. Nos comentários de Jabor a linguagem é literária e a parcialidade é desmedida. Inovação que passa a ser corriqueira nos jornais televisivos. É um tipo de sofisticação que mistura gêneros, é a crônica-telejornalística ou telecrônica. As estabilidades que regulam as diferenças entre gêneros como um memorando administrativo e uma letra de música são, a princípio, rígidas. Mas é fácil perceber que as misturas acontecem originando inovações. Aprimoramentos do tipo são descritos por Bakhtin – parafraseado por Brandão (2006) – como uma forma de adaptação e mistura dos gêneros: Embora cada gênero tenha suas características específicas, um gênero não é, necessariamente, uma “fôrma” que se impõe ao falante/escritor. Enquanto conjunto de traços marcados pela José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 91 regularidade, pela repetibilidade, o gênero é relativamente “estável”, mas essa estabilidade é constantemente ameaçada por forças que atuam sobre as restrições genéricas, forças de caráter social, cultural e individual (estilísticas) que determinam ou mudanças num gênero, ou seu apagamento, ou sua revivescência. Essa tensão entre estabilidade x variabilidade se faz marcar de maneira específica nos diferentes gêneros. (BRANDÃO, 2005, p. 31) Essas observações servem para justifica a sofisticação jornalística no discurso de Jabor. Tem-se então, um telejornal que reserva espaço para uma variação estilística partidarizada, conduzindo a opinião pública sem nenhum disfarce. No plano do tipo de linguagem, Arnaldo Jabor prefere a literária. Porque sua formação de cineasta o conduz para um jornalismo que transige os moldes padronizados. Ora para uso da linguagem literária não é preciso nenhuma legitimação prévia. Conforme Maingueneau: ... na literatura, ao contrário do que ocorre na medicina, não há diploma reconhecido que confira o direito à palavra. Para determinar quem tem o direito de enunciar, um posicionamento literário define à sua própria maneira o que é um autor legítimo. Cada autor se orienta em função da autoridade que tem condições de adquirir, dadas as suas conquistas e a trajetória que concebe a partir delas num dado estado do campo. (MAINGUENEAU, 2006, p. 152) Amparado pelos livros e filmes produzidos e premiados, o comentarista do JB define sua maneira literária no percurso de sua história. Desta forma, encontra-se perfeitamente confortável para o uso de construções poéticas e conotativas num espaço que sugere contenção desses aspectos. Pois, como já refletido, um jornal televisionado tende a manter relativa estabilidade de gênero discursivo e tradicionalmente não permite inovações estilísticas. Quebrando as regras destaco construções de Jabor como: “Pra fazer uma piada infame, essa greve dos controladores caiu do céu no governo Lula” (...) “Ninguém tem saco pra administrar, fica só a Dilma Holseff, coitada, tarefeira, trabalhando feito uma louca. Dizem que, no fim do expediente, ela até varre o planalto e apaga a luz.” (No comentário: “E o Lula?”) Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 92 Sendo a linguagem literária passível de interpretações várias, também por ser mais atraente a qualquer leitor, um fato importante nesse uso de gênero é perceber como a crítica se torna arte e como o comentário torna-se mais importante que a própria noticia veicula. Como bem dizem Fernando & Barbosa (1992): A humildade implícita no ato de instrumentalizar-se corretamente colocaria em proporções mais “saudáveis” a tendência crescente ao texto narcisista, pseudoliterário, crônicatrampolim, no qual a janela torna-se espelho e o comentarista, assunto. Do modo como tem ocorrido, o jornalismo cultural substitui a tarefa crítica da descoberta pela tentação frívola da invensão auto indulgente, a demonstração pela persuasão. (FERNANDO & BARBOSA, 1992) A telecrônica Jaboriana é uma representação da crônica-trampolim, a tentativa de autopromoção alavancada por uma crítica embebida pela linguagem literária. O espectador assiste uma crítica à política nacional e desfruta de fina poesia enquanto o crítico alça vôo no reconhecimento de seu trabalho parasitário. Jabor, pela sua construção literária, torna-se assunto no lugar da própria notícia. Por motivos histórico/pessoais o autor conduz os poucos segundos de seu tempo no JB compartilhando uma telecrônica com todo legitimação que a o lugar proporciona e com a destreza que a linguagem da literatura permite. O CONTEÚDO O tema de política partidária no Brasil tem sido quase sempre associado aos conceitos de corrupção, manejo de influências, nepotismo etc. Relação que dispensa justificativa muito longa, visto que essas práticas são corriqueiras e divulgadas algumas vezes, muitas outras, permanecem no anonimato. O político (candidato ou eleito) já carrega consigo a imagem de desconfiança, pelo senso comum. O jornalista que fala de política abarca consigo a credibilidade sobre esse conteúdo que o político não tem. Em outros termos, o político é quase sempre rotulado como demagogo, sendo que a imagem de corrupto está associada ao lugar de político, o jornalista por sua vez é quase sempre visto como justiceiro, a voz do povo. O que faz muitas vezes o telespectador imaginar que o comentarista é apolítico. Mas não é. Essa suposta apolitização, áurea de imparcialidade, não resiste a uma observação mais cuidadosa sobre o conteúdo dos comentários, cuidado que não ocorre com todos os José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 93 observadores. Aliás, os outros componentes que constroem esse sujeito (o lugar e a linguagem) servem de distração para a realização de uma campanha política declarada. Enquanto o telespectador ou ouvinte tem sua atenção voltada para o lugar (jornalista) e a linguagem (literária) esquece-se da filiação política do comentarista. É curioso como o jornalismo pode ser tão parcial no seu conteúdo e ao mesmo tempo espelhar um sujeito dotado de credibilidade e aceitação pelo plano da linguagem e pelo seu lugar. Evidentemente que essa aceitação (também especulativa – não comprovada) é garantida também por outros aspectos: o fato do JG ser veiculado pela Rede Globo (emissora mais assistida no país), a imagem de intelectual construída pelo comentarista, o teor de muitas notícias que partem de fundos de verdade etc. Para que esse estudo não penda para a afirmação do tipo: “nunca se poderia noticiar informação alguma que se estaria tomando partido”, proponho uma análise do conteúdo discursivo. Para descrever o sujeito escancaradamente parcial no conteúdo político de Jabor, destaco o comentário 13 sobre o debate do dia 08/10/2006 entre os candidatos Luiz Inácio da Silva e Geraldo Alckmin para disputa de segundo turno. A crítica foi apadrinhada ao ponto. Coube ao Tribunal Superior Eleitoral determinar a retirada do comentário dos instrumentos midiáticos, pois julgou que o texto promovia a campanha do candidato do PSDB. Eis alguns trechos: De um lado, a teimosa demanda de Alckmin pelo concreto da administração pública e, do outro lado, o Lula apelando para pretextos utópicos, preferindo rolar na retórica de símbolo. (...) Alckmin foi incisivo; Lula foi evasivo. Lula saiu da arrogância do primeiro turno para o papel de "sóbrio estadista injustiçado". Mas escondeu seu mau humor quase ofendido, por ter de dialogar ali com aquele "burguês", limpinho e sem barba. (...) Ele gaguejou, tremeu, suas frases peremptórias não tinham ritmo, não "fechavam", enquanto Alckmin parecia um cronômetro, crescendo no ritmo e concluindo com fragor. Lula estava rombudo, Alckmin era um estilete. Um quadro pode ser montado listando as características dos dois candidatos pela ótica do comentarista: 13 Comentário transmitido pelo veículo de radiodifusão CBN em 10 de outubro de 2006. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 94 Geraldo Alckmin Luiz Inácio da Silva pelo concreto da administração pretextos utópico, retórica pública símbolo. Incisivo evasivo "burguês", limpinho e sem barba "sóbrio estadista injustiçado” um cronômetro gaguejou, tremeu de crescendo no ritmo e concluindo frases peremptórias não tinham com fragor ritmo Estilete rombudo Nesse tipo de recorte fica mais clara a preferência do comentarista. O visível compromisso político do comentarista é camuflado pelo lugar de jornalista e pela linguagem croniqueta. Então, parece não se tratar de discutir a parcialidade camuflada da mídia televisiva, mas a parcialidade inteiramente visualizada, desta forma o JG fica completamente a mostra quanto às suas filiações políticas, ainda mais do que já é. CONSIDERAÇÕES FINAIS Todo aparato discursivo é uma interpelação pela a formação ideológica age coercivamente transformando o individuo em sujeito de um discurso que pensa que é seu, mas pertence a sua classe. O sujeito dessa análise disfarça-se de apolítico, numa construção aparente, uma ilusão projetada. Para isso, lança mão da história de cineasta intelectual, da audiência que goza a emissora, da linguagem, do lugar. A imagem do intelectual comentarista é a exploração de requinte dos jornais de TV, a figura do filósofo geral, o jornalista literato que conduz o publico a adesão de opiniões políticas que convém à emissora. È curioso notar que dadas notícias são sempre acompanhadas dessas “notas explicativas” como se carecessem de comentários à parte para serem entendidas, ou melhor, para que por elas tomem partido. Quando à maioria das outras notícias, de outros teores, parece que o público pode interpretá-las sem esses comentários adicionais. José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 95 REFERÊNCIAS: ARNALDO JABOR. Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-da-globo/>. Acesso em outubro a dezembro 2006 e 2007. BAKHTIN, M. M. Marxismo e a filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 12 ed. São Paulo, HUCITEC, 2006. BRANDÂO, Helena H. Nagamine. Estilo, gêneros do discurso e implicações didáticas. In: Discurso em análise III. (org. Joselice M. de Barreiro, Maria José C. Rocha e João Antônio de S. Neto), 31. Salvador: NEAD, 2005. BARBOSA, Frederico & FERNANDO, Carlos. Que crítica? Caderno Mais! Folha de São Paulo em 24/02/1992. FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. 11 ed. São Paulo: Contexto, repensando a língua portuguesa, 2002. MAINGUENEAU, Dominique. Discurso Literário. Trad. Adail Sobral. São Paulo: Contexto, 2006. ______. Novas tendências em análise do discurso. Trad. Freda Indursky. 3 ed. São Paulo: Pontes, 1997. ORLANDI, Eni. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 8 ed. Campinas: Pontes, 2009. PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. de Eni P. Orlandi. 3 ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1997. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 96 A CONTRIBUIÇÃO DOS ESTUDOS SOCIOLINGÜÍSTICOS PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: UMA ABORDAGEM DO CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO Vivian Meira (UNEB/UNICAMP/FAPESB) INTRODUÇÃO Nesse artigo, procuro delinear a polêmica envolvendo a formação do português popular brasileiro e a influência do contato entre línguas na constituição deste, abordando, para tanto, os pontos de vista de diversos estudiosos sobre esta temática. Discuto também a contribuição desses estudos sociolinguísticos para o ensino de Língua Portuguesa, tentando relacionar essa perspectiva à concepção de educação proposta por Saviani (1991, 1999). A POLÊMICA SOBRE A FORMAÇÃO DO PORTUGUÊS POPULAR BRASILEIRO: OS CONTEXTOS SOCIAIS DA FORMAÇÃO LINGÜÍSTICA DO BRASIL A heterogeneidade linguística manifesta a heterogeneidade social, portanto, há uma relação entre língua e sociedade. A diversidade linguística no Brasil tem sua história ligada à história dos diferentes povos que entraram em contato na colonização de nosso povo. Nesse caso, o contexto sociolinguístico no qual o português emergiu se distingue do contexto sociolinguístico encontrado em outros países de língua portuguesa, como, por exemplo, em Portugal. Daí, para entendermos a diversidade linguística brasileira, temos de compreendê-la como resultado do convívio, na colonização, de diferentes povos, com suas próprias línguas e culturas. Em linhas gerais, o contexto sociolinguístico e histórico de formação do português popular do Brasil, caracterizado pela presença de africanos, indígenas e brancos europeus e, portanto, pelo contato entre línguas e pelo processo de Transmissão Linguistica Irregular, TLI (cf. Lucchesi, 2003), aponta para a ocorrência de alterações e/ou variações significativas nas variedades populares do português. De certo modo, o contexto histórico de constituição da nossa realidade linguística aponta para um processo de transmissão linguística caracterizado por alterações nos padrões de uso linguístico no Brasil no sentido de utilizar formas não marcadas, ou seja, de simplificar e/ou reduzir o uso de certas estruturas gramaticais. Portanto, compreender a história sociolinguística do Brasil, é essencial para avaliarmos a importância do massivo contato José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 97 do português com as línguas indígenas e africanas e o processo de TLI daí decorrente para a formação da realidade linguística brasileira, especificamente, para as suas variedades populares. E esse entendimento pode auxiliar o professor de Língua Portuguesa a adotar uma postura positiva diante das inúmeras variações linguísticas presentes na sala de aula, oriundas de diferentes tipos de alunos, que espelham o meio social. Na próxima seção, serão apresentadas algumas das hipóteses que buscam explicar a origem das variações no Português falado no Brasil. HIPÓTESES PARA EXPLICAR A ORIGEM DAS VARIAÇÕES NO PORTUGUÊS BRASILEIRO É possivel distinguir entre três formulações teóricas que propõem explicar a origem da diferença entre o português do Brasil e o português europeu: a da crioulização prévia, a da deriva e a questão da crioulização fatorizada. Adolfo Coelho, no século XIX, levantou a questão de que há certas semelhanças e aproximações entre aspectos de variantes do português brasileiro e crioulos de base portuguesa. Guy (1981) vai assumir a hipótese da crioulização prévia do português popular do Brasil, afirmando que este apresenta alguns traços de línguas crioulas. Em 1993, Tarallo, no artigo “Sobre a alegada origem crioula do português brasileiro: mudanças sintáticas aleatórias,” contesta as afirmações de Guy (1981) e defende o fato de que não há como afirmar que tenha ocorrido um processo de crioulização prévia no PB, uma vez que as variações neste tendem a afastá-lo de sua língua alvo, o português europeu e não a aproximá-lo, como deveria ocorrer no processo de descrioulização. A teoria da deriva ou evolução natural é defendida por Naro e Scherre (1993; 2000), que consideram que o fenômeno da variação tem origem na antiga deriva secular das línguas indo-européias em geral e das línguas românicas em particular, sendo que, para esses sociolinguistas, as condições sócio-históricas e lingüísticas do Brasil apenas aceleraram esses processos de mudança. Na verdade, Naro e Scherre (1993), apesar de serem sociolinguistas, tentam explicar as variações no português do Brasil tendo como base uma orientação estruturalista, afirmando que as mudanças ocorridas em nossa língua foram motivadas pela deriva linguística do português e, além disso, que tanto os indígenas quanto os africanos foram responsáveis apenas pela aceleração desse processo. De certa forma, o Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 98 que houve, para esses estudiosos, foi uma evolução interna do sistema da língua portuguesa. A questão da crioulização fatorizada é defendida por Baxter e Lucchesi (1997). Segundo eles, a variação é resultado do processo de transmissão linguística irregular, decorrente de um forte e massivo contato linguístico entre povos (europeus, indígenas e africanos), que, por sua vez, estiveram presentes não apenas na formação sócio-histórica de nosso povo, como também na nossa constituição linguística. Além disso, para Baxter e Lucchesi (1997), este processo esteve mais fortemente marcado no interior do país, onde há ausência de escolarização, de meios de comunicação e de transporte. No Brasil não houve a formação de crioulos típicos (cf. Lucchesi, 1999), uma vez que a nossa formação sociolinguística não deu ensejo à constituição de situações como estas. É possível que tenham existido variedades linguísticas crioulizantes em pontos isolados do nosso território, mas as diversas alterações que se processaram no cenário sócio-econômico do Brasil nos últimos séculos contribuíram para a não conservação dessas variedades. Nesse sentido, apropriamo-nos da seguinte afirmação de Mattos e Silva (2000:13): ‘‘(...) a crioulização prévia não pode ser descartada para certos locais nos interiores rurais brasileiros, como, aliás, defendem A. Baxter e D. Lucchesi, mas não se justifica para o geral do Brasil.’’ Foram várias as razões que contribuíram para a não formação de crioulos no Brasil, dentre as quais posso citar o fator demográfico, apresentando um percentual de população branca não tão inferior à população negra e o fato de ter existido uma miscigenação entre as raças, favorecendo um contato mais estreito com a língua alvo. Defendo a posição de que o contato do português, sobretudo, com falantes de línguas africanas e o processo de TLI daí decorrente serem essenciais para entendermos a constituição do português popular do Brasil. No entanto, isso não significa que houve transferência de estruturas linguísticas do substrato. Com efeito, o que houve foi uma aquisição precária do português por falantes de línguas indígenas e africanas, o que desencadeou um processo de transmissão irregular do português do tipo menos intenso do que o que se dá nas situações de pidginização/crioulização típicas. Lucchesi (2000) afirma que as condições sócio-históricas de constituição do português popular do Brasil apontam para um processo de variação, tanto dos elementos flexionais quanto dos gramaticais e, portanto, tal processo não resulta na eliminação José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 99 total dos elementos gramaticais, como é comum nos crioulos típicos. Na verdade, o processo de variação ocorrido no PB foi decorrente de uma transmissão linguística irregular menos intensa. As variações ocorridas no português popular do Brasil refletem o processo de constituição sócio-histórica de nosso povo. Assim, tanto o contato entre línguas, quanto a transmissão linguística irregular desencadeada pelo contato, conjugados com dados da quase ausência de escolarização no decorrer do século XVI ao XIX podem contribuir para explicar a origem dessas variações. O estudo da história sociolinguística do Brasil pode contribuir significativamente para o esclarecimento da origem das variações no português popular brasileiro e, assim, levar alunos e professores a quebrar visões preconceituosas a respeito das variações em nossa língua. Há atualmente variações em vários fenômenos linguísticos, dentre eles, posso citar uma variação no uso do modo subjuntivo (cf. Meira, 2006), em que a forma morfológica deste vem sendo substituída pela do indicativo. Uma analise histórica desse fenômeno demonstra que essa variação no PB não é atual, como encontramos em Alkmim (2001), que, ao estudar a variedade linguística de negros e escravos representada em charges de 1876, observou, como um dos fenômenos linguísticos comuns à fala de negros, o uso das formas de presente do indicativo em lugar do presente do subjuntivo. Reproduzo a seguir um dos trechos dos diálogos da charge O Mosquito, na qual está registrado presenta (presente do indicativo) por apresente (presente do subjuntivo): - Pai Zuzé, iesse di água deviacaba: se eu fôsse ministôro, água não fartava. Dexava tudo sórro negóço, mas água não fartava, não... - Presenta nas eleição, você qui é fôrro. - Óia, nhonhô Texera em sendo ministôro não li digo nada. (Charge de Rafael Bordado in O MOSQUITO, de 26/1/1876, apud ALKMIM, 2001:323). Esse registro evidencia a relação histórica entre o uso das formas não marcadas do indicativo nos contextos de uso das formas morfologicamente marcadas do subjuntivo, de um lado, e a aquisição imperfeita do português pelos escravos africanos e a nativização desse modelo defectivo de português falado com segunda língua entre seus descendentes, de outro. Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 100 A complexidade das regras que norteiam o emprego do subjuntivo e dos valores e formas a ele associados conjugados com o contexto social, no qual muitos alunos estão inseridos, bem como a ausência de meios normatizadores contribuem para desfavorecer a transmissão das formas de subjuntivo, como das formas de outros fenômenos da língua, como da concordância nominal, por exemplo. A relação entre língua e sociedade, bem como a teoria linguística que tenta dar conta dessa relação será tema da nossa próxima seção. A LÍNGUA SOB A PERSPECTIVA SOCIAL: A SOCIOLINGÜÍSTICA VARIACIONISTA Uma variável linguística consiste em duas ou mais formas distintas de se expressar a mesma informação, o mesmo conteúdo semântico, num mesmo contexto e, como afirma Labov (1983), quanto à referência ou valor de verdade, as variantes são idênticas, distinguindo-se apenas em sua significação social ou estilística. Em si, a língua, seja ela voltada para uma norma padrão ou não, é a língua, um meio de comunicação. Os valores que atribuímos a ela são valores sociais. Há uma realidade bipolarizada no PB (cf. Lucchesi, 2001), visto que de um lado há as normas referentes ao português urbano culto e de outro as normas referentes ao português não culto, cada uma apresentando características próprias e tendências específicas de mudança. A compreensão da língua como fato social apenas recentemente passa a fazer parte dos estudos e da pesquisa linguística, com o advento da Sociolinguística. No entanto, desde o inicio do século XX, muitos estudiosos vêm discutindo questões acerca do caráter social da língua e um dos precursores foi Antoine Meillet (1866-1936), que enfatiza, no tratamento das questões linguísticas, a associação entre língua e fato social. As ideias de Meillet vão de encontro à posição de que ‘‘a linguística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma’’ (SAUSSURE, 2003 [1916]: 271), frase atribuída a Saussure e que encerra o Curso de Lingüística Geral. . Para Meillet, é essencial que se faça referência à diacronia, à história a fim de que se compreenda o fenômeno lingüístico, afirmando que a língua é um fato social, portanto, a lingüística é uma ciência social. Meillet entende assim que a língua deve ser concebida como um fenômeno social, podendo receber José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 101 influência dos fatores externos. Este estudioso reconhece ainda que há correlação entre a mudança linguística e seu contexto externo, pois ‘‘tout fait de langue manifeste un fait de civilisation’’ (MEILLET, 1965 [1921]:168). No entanto, durante muitas décadas do século XX, a concepção imanentista, consolidada com o estruturalismo, direcionou os estudos linguísticos e entendeu a mudança na língua principalmente a partir de fatores internos. Tendo isso em vista, o sistema lingüístico deveria ser estudado por suas relações estruturais, sem interferências do contexto social. Os fatores externos, por sua vez, apenas eram aceitos na interpretação da mudança na língua depois de esgotadas todas as possibilidades imanentistas e, de certo modo, os estudos lingüísticos se limitavam às questões e às condições internas. Durante a primeira metade do século XX, a dicotomia saussureana entre langue e parole permeou os estudos lingüísticos. Nesse período, vigorou, grosso modo, uma concepção de língua que consistia num sistema abstrato e uniforme a todos os falantes. Esta concepção, de certa forma, foi retomada por Chomsky em meados desse mesmo século. O aspecto social da linguagem não era reconhecido diante do caráter uniforme da língua, que, por sua vez, era preservada pela concepção estruturalista como um sistema fechado, abstrato e homogêneo. Havia, nesse sentido, uma identificação entre homogeneidade e estrutura. Porém, na segunda metade do século XX, pelo menos uma parte dos estudos linguísticos passa a dar ênfase a uma maior integração entre o fator social e a língua, de modo a destacar a variação e a heterogeneidade, como inerentes ao sistema linguístico. Assim, ao se estabelecer uma correspondência entre língua e fatos sociais, passa-se a reconhecer a heterogeneidade e a diversidade linguística. Em 1963, Labov realiza um primeiro estudo tendo como objeto a língua falada e sua relação com o contexto social e, portanto, de cunho sociolingüístico. A comunidade estudada é a da ilha de Martha’s Vineyard, no Estado de Massachusetts, costa leste dos EUA, onde analisa a variação entre ditongos. Empreende estudos também sobre o inglês falado em Nova Iorque, analisando a estratificação social do /r/, com amostras de fala colhidas em grandes lojas de departamento e o inglês vernáculo dos negros do Harlem (a língua do gueto), além de outras pesquisas de base sociolingüística na Filadélfia. De forma geral, considero Labov o mais importante representante do modelo teórico da Sociolinguística Variacionista. De acordo com esta teoria, toda variação é motivada, Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 102 controlada por fatores e pode ser previsível. Portanto, nesse modelo, a aleatoriedade no uso da língua está fora de cogitação. O objeto de estudo da Sociolingüística é o vernáculo, a língua falada, utilizada em situações cotidianas e informais. O vernáculo pode ser entedido como a língua falada em situações concretas de uso. Portanto, o objeto da análise variacionista é a variável linguística. O programa laboviano estuda a língua em uso, ressaltando seu caráter social, ou seja, para Labov (1983) há relação entre fatos linguísticos e fatos sociais. Nesse sentido, a Sociolinguística busca estabelecer correlações entre as variáveis da língua e as variáveis sociais, como nível de escolaridade, faixa etária, sexo etc., concebendo a variação como inerente ao fenômeno linguístico e não mais como exterior a este. Dessa sorte, a heterogeneidade linguística passa a ser observada e analisada e a variabilidade da língua deixa de ser considerada livre ou aleatória, sendo controlada por motivações sociais; diante disso, a variação da língua passa a ser alvo das pressões externas. O falante, dessa forma, utiliza certas variedades linguísticas conforme determinados fatores, como estratificação, escolarização, idade etc. Weinrich, Labov e Herzog (1968) afirmam que há sistematicidade e ordenação na variação e argumentam que a heterogeneidade é essencial ao fenômeno lingüístico, pois: Parece-nos completamente inútil construir uma teoria da mudança que aceite como entrada descrições desnecessariamente idealizadas e contrafactuais de estados de língua. Muito antes que teorias preditivas da mudança lingüística possam ser buscadas, será necessário aprender a ver a língua, quer de uma perspectiva diacrônica, quer de uma perspectiva sincrônica, como um objeto possuindo heterogeneidade sistemática. (...) Um dos corolários de nossa abordagem é que, numa língua servindo a uma comunidade complexa (isto é, real), é a ausência de heterogeneidade estrutural que seria disfuncional’’ (WEINRICH, LABOV, HERZOG, 1968:100-101). 14 14 ‘‘It seems to us quite pointless to construct a theory of change which accepts as its input unnecessarily idealized and counterfactual descriptions of language states. Long before predictive theories of language change can be attempted, it will be necessary to learn to see language -whether from diachronic or a synchronic vantage- as na object possessing orderly heterogeneity. (...). One of the corrollaries of our approach is that in a language serving a complex (i.e., real) community, it is absence of structured heterogeneity that would be dysfunctional’’ (Tradução nossa). José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 103 O processo de variação linguística correlacionado ao contexto do contato entre línguas está na base da formação do PB. Nesse caso, o contexto sociolinguístico ocorrido no Brasil era complexo e heterogêneo, visto que não havia apenas uma língua de substrato, mas várias, tanto as dos ameríndios, quanto as dos africanos, que entraram em contato com a língua de superstrato, a língua portuguesa, cujas variedades eram diversas, a depender dos traços sociais e regionais do colonizador. Desse modo, a diversa “estrutura” social e demográfica patenteada na terra brasilis terminou por se refletir na variedade lingüística adquirida pela população local. A aquisição precária do português pelos indígenas aculturados e pelos escravos africanos e a nativização dessa língua pelos descendentes destes teria influenciado todo o processo de formação do PB. Foi em um contexto sociocultural e histórico variado que se desenvolveu e se implantou no Brasil a língua portuguesa e é irrefutável a ideia de que esse meio social não tenha influenciado nossa língua e nossa cultura. 15 Na verdade, fomos totalmente afetados pela mistura étnica, cultural e linguística trazida pelos diferentes povos que aqui habitavam. O contato entre povos é o grande responsável pela pluralidade cultural e linguística que caracteriza a sociedade brasileira atualmente. E é a partir dessa perspectiva de observação que acho conveniente o ensino de Língua Portuguesa ser pautado. Além do ensino das regras, o professor precisa aceitar as variações no sentido de ensinar aos alunos a usá-las em diferentes contextos, ora se usa a linguagem formal, ora se usa uma linguagem mais informal. De fato, o caráter heterogêneo e variável da língua possibilita a sua plena funcionalidade dentro de uma comunidade também heterogênea. Por isso, numa sala de aula sabemos que há heterogeneidade e que a mesma precisa ser trabalhada de forma consciente e produtiva. Tomar as variações linguísticas dos alunos a partir de uma visão preconceituosa não contribui para o ensino de regras gramaticais. Ao eleger esse tópico de análise, deparo-me com a delicada questão da variação na sala de aula. Relacionar a abordagem sociolinguística com uma concepção educacional será objeto da próxima seção. 15 Para mais detalhes da história sociolingüística do Português falado no Brasil, ver Meira (2008). Linguagens: Leitura, História e Educação – Dialogarts –ISBN: 978-85-86837-78-4 104 A SOCIOLINGÜÍSTICA NA SALA DE AULA: PERSPECTIVAS PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA O professor precisa saber lidar com a variação linguística, pois sua postura refletirá no seu ensino e no processo de aprendizagem do aluno. Nesse caso, posso tentar relacionar, de forma breve, os achados sociolinguísticos sobre variação na língua à proposta de Saviani (1991) a respeito da Pedagogia Histórico-Crítico. A prática pedagógica relacionada ao ensino de Língua Portuguesa deve tentar associar as regras gramaticais, o conteúdo propriamente dito da tradição gramatical ao contexto social no qual o aluno, bem como o professor estão inseridos, assim como o contexto social no qual a Língua Portuguesa emergiu no Brasil. Desconhecer os contextos de surgimento da Língua Portuguesa no Brasil é quebrar essa interação. Essa prática deve buscar a transformação da sociedade através da ação-compreensão-ação do educando, enfocando no conteúdo, como produção histórico-social. (cf. Saviani, 1999). E assim as aulas de Língua Portuguesa devem ser mais do que a transmissão de regras prescritas pela tradição gramatical, devem ser aulas de história da língua, bem como de transformação social através de uma postura linguística positiva, transmitindo regras e valorizando as variações, sabendo fazer uso delas em contextos específicos. Apesar de falantes nativos de Língua Portuguesa, muitos alunos, que ingressam nas escolas, nem sempre são bem sucedidos nas aulas de Língua Portuguesa. A obrigatoriedade das regras gramaticais, a necessidade de abandono de suas variações linguísticas, sem nem mesmo lhes serem explicados os motivos da escrita ser tão distante da língua falada, leva os alunos, algumas vezes, a sentirem dificuldades nas aulas de sua língua materna. A educação nesse caso acaba reproduzindo a sociedade na qual ela está inserida. Algumas práticas pedagógicas para Saviani não apresentam uma proposta pedagógica, apenas reproduz o mecanismo de funcionamento da própria escola tal como está constituída. A variação linguística é comumente encarada com visões preconceituosas, principalmente quando é utilizada por grupos marginalizados socialmente, já que os vários falares representam os diversos grupos que compõem uma sociedade e a heterogeneidade linguística manifesta a heterogeneidade social. Fazendo uma ponte com as ideias defendidas por Saviani, deve haver em sala um tratamento diferenciado José Manuel Teixeira Castrillon, Patrícia Kátia da Costa Pina, Wilson da Silva Santos 105 com relação às diferenças individuais, que terminam se manifestando também nas diferenças linguísticas. É importante que a escola supra as carências dos alunos. As aulas de Língua Portuguesa devem estar voltadas tanto para o ensino de regras gramaticais quanto para a valorização das diferenças linguísticas de cada aluno, mostrando, através de diferentes metodologias, que o aluno pode usar varias formas da língua dependendo do contexto social em que ele está inserido e que não existe uma forma melhor ou pior do que outra. Todas são usadas para um mesmo fim: a comunicação. E, como observa Saviani, a escola deve adequar seus conteúdos de forma a ser um instrumento de mudança social. Nesse caso, o ensino de Língua Portuguesa tem de ser abrangido como um todo, de várias perspectivas, tanto de uma visão histórica quanto social. CONSIDERAÇÕES FINAIS Foi apresentado um breve comentário sobre a importância do conhecimento por parte do professor e alunos acerca da história da Língua Portuguesa no Brasil. Muito mais do que apontar diferenças entre variedades da norma culta e da norma vernácula, é fundamental que se compreenda que cada uma delas está ligada a um contexto sócio-histórico distinto e, portanto, apresenta diferentes razões históricas para explicar suas diversidades. Já que a diferença, a variedade, do ponto de vista da língua, é explicada pela necessidade de uso lingüístico de cada sociedade, de cada povo. Sendo assim, é importante entender que tanto o português culto quanto o português popular apresentam histórias distintas, revelando origens muito distanciadas, apesar de muitas vezes se aproximarem. REFERÊNCIAS: ALKMIM, Tânia Maria (2001). A variedade lingüística de negros e escravos: Um tópico da história do português no Brasil. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. Para a história do português brasileiro: Primeiros estudos. Vol. II, Tomo II, pp. 317-335. BAXTER, Alan; LUCCHESI, Dante (1997). 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