UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ECONOMIA Liberdades Reais no Trabalho: Uma análise das políticas ativas de mercado de trabalho a partir da abordagem das capacitações LIANA TEIXEIRA DUQUE Orientadora: Prof. Drª. Celia Lessa Kerstenetzky Co-Orientadora: Prof. Drª. Danielle Carusi Machado MAIO 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ECONOMIA Liberdades Reais no Trabalho: Uma análise das políticas ativas de mercado de trabalho a partir da abordagem das capacitações LIANA TEIXEIRA DUQUE Orientadora: Prof. Drª. Celia Lessa Kerstenetzky Co-Orientadora: Prof. Drª. Danielle Carusi Machado Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Economia MAIO 2014 As opiniões expressas neste trabalho são da exclusiva responsabilidade da autora. Agradecimentos Agradeço imensamente à minha mãe Cláudia e ao meu pai Gil por todo amor, apoio e incentivo. Obrigada por sempre buscarem me acompanhar e me entender nessa trajetória de descobertas que foram os últimos anos. Agradeço ao meu irmão João pela alegria e amor que traz para a minha vida. Muito obrigada à minha orientadora professora Celia Lessa Kerstenetzky pelas aulas incríveis que me mostraram novas possibilidades. Obrigada pela atenção e conhecimentos compartilhados ao longo desse período. Muito obrigada à minha co-orientadora professora Danielle Carusi Machado pelos conhecimentos compartilhados ao longo das aulas e da co-orientação, que me forneceram ferramentas importantes para a pesquisa e o trabalho. Agradeço aos professores e funcionários do PPGE pela atenção e apoio nesses dois anos. Em especial ao professor Fábio Waltenberg pelas excelentes aulas e pelo incentivo. Agradeço a CAPES pelo apoio financeiro ao longo do mestrado. Obrigada ao Mauricio Reis e Alessandra Scalioni Brito por compartilharem seus conhecimentos sobre a montagem do painel da PME, me auxiliando neste processo. Muito obrigada a Elisa Alonso Monçores e Graciele Pereira Guedes pela amizade, carinho, companheirismo, risadas, conversas e momentos incríveis nesses últimos sete anos. Conhecer vocês foi um dos melhores presentes que minha vinda pro Rio de Janeiro me deu. Muito obrigada ao querido amigo Fernando Barreto pelas risadas, carinho, diversão, conversas e conselhos. Muito obrigada aos amigos Felipe Martins, João Mello, Márcio Alvarenga e Vitor Mihessen pelas conversas sobre economia ou sobre a vida, sempre divertidas. Obrigada aos amigos Vanessa Avanci, Lucas Teixeira, Ariana de Britto, Karolyne Romero e Fernanda Nogueira pelas conversas, risadas e incentivo. Muito obrigada a Nicole Nagel por todo o amor, carinho, companheirismo, incentivo, atenção e por tornar minha vida maravilhosa. Muito obrigada a Natália Alonso pela amizade de uma vida e pelo amor e carinho de uma irmã. Agradeço a toda a minha família pelo amor e apoio. Obrigada a todas as pessoas que me ajudaram e fizeram parte da minha vida ao longo desses dois últimos anos. Resumo As Políticas Ativas de Mercado de Trabalho (PAMT) cresceram de importância frente aos novos riscos sociais suscitados por diversas mudanças econômicas e sociais. O conjunto das PAMT é formado por uma variedade de políticas, que procuram (re)colocar os indivíduos no mercado de trabalho através de diferentes mecanismos, impactando de forma diversa o bem-estar dos beneficiários. A abordagem das capacitações, introduzida por Amartya Sen, permite uma visão ampla e diferenciada da relação entre as políticas ativas e o bem-estar individual, englobando aspectos além do salário ou da simples inserção no mercado de trabalho. Sob esta abordagem, as PAMT podem contribuir para o aumento do bem-estar dos beneficiários ao expandirem sua liberdade real no trabalho, definida como a liberdade real do indivíduo em escolher o trabalho que valoriza. O objetivo da dissertação é avaliar as PAMT e, em particular, a política ativa de qualificação profissional a partir da abordagem das capacitações. Após abordar a importância das PAMT no estado de bem-estar social moderno e de fazer uma discussão teórica acerca das liberdades reais no trabalho e do papel das PAMT na promoção destas, a dissertação avalia o impacto da qualificação profissional no Brasil sobre a liberdade real no trabalho a partir dos microdados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME/IBGE) para os anos de 2003 a 2012. Os resultados indicam que a qualificação profissional no Brasil impacta positivamente alguns aspectos da liberdade real no trabalho. No entanto, o potencial desta política é subutilizado no país, conforme atestam o baixo nível de investimento e a redução dos valores investidos nos últimos anos, os quais denotam a baixa prioridade da política ativa de qualificação no Brasil, ao mesmo tempo em que estados de bem-estar moderno têm dado crescente atenção à mesma. Abstract New social risks generated from several economic and social changes increased the importance of Active Labor Market Policies (ALMP). The ALMP consist in a variety of policies that aim for the (re)placement of jobless people in labor market using different strategies with different well-fare effects. The capability approach, introduced by Amartya Sen, allows a large and different vision about the relation between active policies and individual well-fare, including aspects beyond wage and placement in labor market. In this approach, the ALMP may contribute for the increasing of the beneficiaries’ well-fare through the expansion of their capability for work, defined as the individual’s real freedom for choosing a valuable work. This dissertation’s aim is to evaluate the ALMP, particularly the upskilling policy, using the capabilities approach. It will discuss the ALMP’s importance in the modern social well-fare state. Then, it will make a theoretic debate about the capability for work and the ALMP’s importance to it’s promotion. The Brazilian upskilling’s impact on the capability for work will be estimated using data from a monthly employment research for the largest Brazilian metropolitan regions (Pesquisa Mensal de Emprego – PME/IBGE) from 2003 to 2012. The results suggest that Brazil’s upskilling positively impacts some aspects of the capability for work. Índice Introdução............................................................................................................................. 8 Capítulo 1 – Estado de Bem-Estar Social Moderno e Liberdade Real no Trabalho: Novas Perspectivas ........................................................................................................................ 10 1.1 As Políticas Ativas de Mercado de Trabalho no Estado de Bem-Estar Social Moderno ....................................................................................................................................... 10 1.1.1 A Perspectiva do Investimento Social ................................................................. 11 1.1.2 Os Novos Riscos Sociais .................................................................................... 13 1.2 Liberdade Real no Trabalho: as Políticas Ativas de Mercado de Trabalho a partir da abordagem das capacitações ............................................................................................ 18 1.2.1 Liberdade Real no Trabalho ................................................................................ 20 1.2.2 As Políticas Ativas de Mercado de Trabalho e a Liberdade Real no Trabalho ..... 25 1.3 Conclusão ................................................................................................................. 31 Capítulo 2 – Tipos de Políticas Ativas de Mercado de Trabalho e Liberdade Real no Trabalho ........................................................................................................................................... 33 2.1 Política Ativa de Incentivo ........................................................................................ 34 2.2 Política Ativa de Assistência ao Emprego .................................................................. 36 2.3 Política Ativa de Ocupação........................................................................................ 37 2.4 Política Ativa de Qualificação Profissional ................................................................ 40 2.5 Tipos de Política Ativa de Mercado de Trabalho: Impacto Esperado sobre a Liberdade Real no Trabalho e Outras Considerações ....................................................................... 44 Capítulo 3 – Políticas Ativas de Mercado de Trabalho no Brasil: Cenário e Proposta de Avaliação ............................................................................................................................ 50 3.1 Política Ativa de Qualificação Profissional no Brasil ................................................. 50 3.1.1 Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda - SPETR .................................. 51 3.1.2 Plano Nacional de Formação Profissional e Plano Nacional de Qualificação – PLANFOR e PNQ ....................................................................................................... 53 3.1.3 Investimento em Políticas Ativas de Mercado de Trabalho no Brasil: FAT e CODEFAT .................................................................................................................. 58 3.2 Metodologia .............................................................................................................. 64 3.2.1 Base de Dados .................................................................................................... 67 3.2.2 Identificação dos Grupos de Comparação ........................................................... 69 3.2.3 Construção do Painel da PME ............................................................................. 73 3.2.4 Construção dos Indicadores de Liberdade Real no Trabalho ............................... 77 3.3 Conclusão ................................................................................................................. 80 Capítulo 4 – Qualificação Profissional no Brasil promove a Liberdade Real no Trabalho? .. 82 4.1 Beneficiários da Qualificação Profissional no Brasil: estatísticas descritivas a partir da PME................................................................................................................................ 82 4.1.1 Perfil Socioeconômico dos Participantes e Não Participantes de Curso de Qualificação Profissional ............................................................................................. 83 4.1.2 Características do Mercado de Trabalho dos Participantes e Não Participantes de Curso de Qualificação Profissional .............................................................................. 91 4.2 Lacunas da Qualificação Profissional no Brasil: o perfil dos demandantes potenciais 96 4.3 Qualificação Profissional e Liberdade Real no Trabalho no Brasil: indicadores ....... 103 4.4 Conclusão ............................................................................................................... 111 Considerações Finais......................................................................................................... 113 Bibliografia ....................................................................................................................... 115 Anexo ............................................................................................................................... 120 Índice de Tabelas, Gráficos, Quadros e Esquemas Tabela 1 – Orçamento do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – 2008 a 2012.............................61 Gráfico 1 – Investimento e Participação na Política Ativa de Qualificação Profissional no Brasil – 2003 a 2012..........................................................................................................................62 Gráfico 2 – Investimento em Política Ativa de Qualificação Profissional no Brasil e na OCDE em % PIB – 2008 a 2011...............................................................................................................63 Gráfico 3 – Investimento em Política Ativa de Qualificação Profissional no Brasil e em Países da OCDE em % PIB – 2009.....................................................................................................63 Esquema 1 – Condições de Participação em Curso de Qualificação no Painel da PME .......................75 Quadro 1 – Indicadores de Liberdade Real no Trabalho .......................................................................79 Gráfico 4 – Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 ..................................83 Gráfico 5 – Participação em Curso de Qualificação Profissional conforme Situação no Mercado de Trabalho – 2003 a 2012 ......................................................................................................84 Tabela 2 – Perfil Socioeconômico conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 ..........................................................................................................................85 Tabela 3 – Perfil Socioeconômico do Ocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 ...................................................................................................87 Tabela 4 – Perfil Socioeconômico dos Desocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 ...................................................................................................88 Tabela 5 – Perfil Socioeconômico dos Inativos conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 ...................................................................................................90 Tabela 6 – Escolaridade Exigida pelo Curso de Qualificação Profissional conforme Situação no Mercado de Trabalho – 2003 a 2012 ...................................................................................91 Tabela 7 – Características do Trabalho conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 ..........................................................................................................................93 Gráfico 6 – Rendimento Mensal Médio Habitualmente Recebido conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 ............................................................................94 Gráfico 7 – Desocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 .............................................................................................................................................95 Gráfico 8 – Proporção de Inativos que gostariam de conseguir um trabalho conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 .............................................................95 Gráfico 9 – Demandantes Potenciais conforme Situação no Mercado de Trabalho – 2003 a 2012 .............................................................................................................................................97 Tabela 8 – Perfil Socioeconômico dos Demandantes Potenciais conforme Situação no Mercado de Trabalho – 2003 a 2012 .......................................................................................................99 6 Tabela 9 – Demandantes Potenciais Ocupados conforme Posição na Ocupação e Carteira de Trabalho Assinada – 2003 a 2012 .....................................................................................................101 Gráfico 10 – Demandantes Potenciais Desocupados conforme Tempo de Procura por Trabalho – 2003 a 2012 ..............................................................................................................................102 Gráfico 11 – Demandantes Potenciais Inativos conforme Tempo de Saída do Último Trabalho – 2003 a 2012 ..............................................................................................................................102 Tabela 10 – Indicadores de Liberdade Real no Trabalho para Participantes e Não Participantes de Qualificação .....................................................................................................................106 Tabela 11 – Indicadores de Liberdade Real no Trabalho para Ocupados Participantes e Não Participantes de Qualificação ...........................................................................................109 Tabela 12 – Indicadores de Liberdade Real no Trabalho para Participantes e Demandantes Potenciais ..........................................................................................................................................110 Tabela A1 – Testes de Diferença de Médias entre Grupo de Tratamento A e Grupo de Controle A .........................................................................................................................................120 Tabela A2 – Testes de Diferença de Médias entre Grupo de Tratamento B e Grupo de Controle B .........................................................................................................................................120 Tabela A3 – Testes de Diferença de Médias entre Grupo de Tratamento A Ocupado e Grupo de Controle A Ocupado .......................................................................................................120 Tabela A4 – Testes de Diferença de Médias entre Grupo de Tratamento B Ocupado e Grupo de Controle B Ocupado .......................................................................................................120 Tabela A5 – Perfil Socioeconômico conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 (Dados Absolutos) ......................................................................................121 Tabela A6 – Perfil Socioeconômico do Ocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 (Dados Absolutos) ..............................................................121 Tabela A7 – Perfil Socioeconômico dos Desocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 (Dados Absolutos) .........................................122 Tabela A8 – Perfil Socioeconômico dos Inativos conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 (Dados Absolutos) ..............................................................122 Tabela A9 – Escolaridade Exigida pelo Curso de Qualificação Profissional conforme Situação no Mercado de Trabalho – 2003 a 2012 (Dados Absolutos) ...............................................122 Tabela A10 – Características do Trabalho conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional – 2003 a 2012 (Dados Absolutos) ............................................................123 Tabela A11 – Perfil Socioeconômico dos Demandantes Potenciais conforme Situação no Mercado de Trabalho – 2003 a 2012 (Dados Absolutos) .................................................................123 Tabela A12 – Indicadores de Liberdade Real no Trabalho para Ocupados Participantes e Demandantes Potenciais .....................................................................................................................124 7 Introdução As mudanças nas relações de gênero, na estrutura etária da população e no mercado de trabalho suscitaram novas demandas e oportunidades de expansão para o estado de bem-estar e suas políticas públicas. O aumento da importância das Políticas Ativas de Mercado de Trabalho (PAMT) nas últimas décadas resultou do ajuste dos estados de bem-estar modernos frente aos novos riscos sociais gerados por estas mudanças (Cantillon, 2011; Kenworthy, 2010; Kerstenetzky, 2012; Pintelon et al., 2013; Taylor-Gooby, 2004). Os impactos das PAMT se mostram amplos e diversificados, abrangendo tanto a dimensão econômica quanto a dimensão social. No entanto, efeitos sociais relevantes são, muitas vezes, negligenciados por avaliações convencionais, que tendem a utilizar arcabouços teóricos insuficientes para abarcar a complexa relação entre a situação do indivíduo no mercado de trabalho e seu bem-estar (Bonvin e Orton, 2009). Limitadas a investigar os impactos das políticas sobre a empregabilidade e o rendimento dos beneficiários, estas avaliações ignoram, por exemplo, que o salário não consiste no único motivo que leva os indivíduos a trabalhar (Sen, 2010). A abordagem das capacitações, introduzida por Amartya Sen, fornece uma base normativa que permite uma visão ampla e diferenciada da relação entre o trabalho e o bemestar individual (Bonvin e Orton, 2009; Deakin, 2009). Sob esta abordagem, as PAMT, entre as quais se destaca a política de qualificação profissional, podem contribuir para o aumento do bem-estar dos beneficiários ao expandirem sua liberdade real no trabalho, definida como a liberdade efetiva do indivíduo em escolher o trabalho que valoriza (Bonvin e Orton, 2009; Galster, Rosenstein e Bonvin, 2009). O objetivo desta dissertação é avaliar as PAMT e, em particular, a política ativa de qualificação profissional a partir da abordagem das capacitações e do conceito derivado de liberdade real no trabalho. Para tanto será dividida em quatro capítulos, além da introdução e das considerações finais. O primeiro capítulo abordará o papel das PAMT no estado de bem-estar moderno e sua relação com os novos riscos sociais, após o qual será realizada uma discussão teórica, com base na literatura sobre a abordagem das capacitações, acerca das liberdades reais no trabalho e do papel das PAMT na promoção destas. O vínculo das PAMT com a liberdade real no trabalho envolve questões sobre público-alvo, integração com outras políticas públicas e liberdade participativa (Bonvin e Farvaque, 2003; Bonvin e Orton, 2009), a serem abordadas ao longo da discussão. 8 O segundo capítulo abordará os tipos de PAMT e seus distintos impactos na liberdade real no trabalho, destacando sua heterogeneidade geográfica e temporal. O conjunto das PAMT é formado por uma diversidade de políticas que, a partir de diferentes mecanismos, buscam (re)inserir o indivíduo no mercado de trabalho. Diversas políticas ativas, apesar de se mostrarem eficientes do ponto de vista convencional, não contribuem na ampliação da liberdade real do trabalho, podendo, inclusive, reduzi-la (Bonvin e Orton, 2009). O terceiro capítulo analisará as PAMT brasileiras, enfatizando a política ativa de qualificação profissional, desenvolvida no Plano Nacional de Formação Profissional do Trabalhador (PLANFOR) e no Plano Nacional de Qualificação (PNQ). Apesar da expansão das PAMT ao longo da década de 1990 no Brasil (Machado e Neto, 2011), e, recentemente, do lançamento do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), a ainda reduzida parcela do Produto Interno Bruto (PIB) investida nestas políticas até o ano de 2012, em comparação aos países da OCDE e da União Européia, indica que o país se encontra na contramão da tendência verificada nos principais países desenvolvidos. O quarto capítulo avaliará o impacto da qualificação profissional na liberdade real no trabalho a partir do painel da Pesquisa Mensal de Emprego (PME/IBGE) para o período de 2003 a 2012. O esquema de rotação de painéis da PME permite observar o mesmo indivíduo doze meses após a primeira entrevista. Depois de identificados os indivíduos a partir de suas características individuais observadas, estes serão agrupados conforme sua condição de participação em curso de qualificação profissional nos dois anos do painel. A avaliação do impacto da qualificação profissional será realizada através da comparação dos resultados do grupo de tratamento com os resultados do grupo de controle para uma série de indicadores que buscam mostrar diversos aspectos da liberdade real no trabalho, tais como mobilidade na condição de ocupação, mobilidade ocupacional, satisfação com o trabalho, entre outros. 9 Capítulo 1 – Estado de Bem-Estar Social Moderno e Liberdade Real no Trabalho: Novas Perspectivas O ajuste dos estados de bem-estar modernos frente aos novos riscos sociais gerados por diversas mudanças econômicas e sociais geraram novas demandas e oportunidades de expansão para o estado de bem-estar e suas políticas sociais resultando no aumento da importância das PAMT nas últimas décadas. O papel das PAMT no estado de bem-estar moderno e sua contribuição no enfrentamento dos novos riscos sociais mostram que seus impactos podem ser amplos e diversificados. A abordagem das capacitações desenvolvida por Amartya Sen amplia a análise do bemestar individual para além da dimensão econômica, permitindo uma nova visão sobre as causas das privações e as formas de combatê-las. As políticas públicas, particularmente as PAMT, constituem um campo para o qual a abordagem das capacitações fornece uma base normativa que contribui com uma visão mais ampla dos seus impactos sobre o bem-estar individual e social. O presente capítulo busca abordar o papel das PAMT no estado de bem-estar social moderno a partir dos novos riscos sociais e da perspectiva do gasto social como investimento. O capítulo busca ainda discutir as PAMT a partir da abordagem das capacitações, procurando ampliar a visão sobre os efeitos potenciais destas políticas. Este capítulo está dividido em três seções, além desta introdução. A primeira abordará a PAMT no estado de bem-estar social moderno, discutindo a perspectiva do investimento social e os novos riscos sociais. A segunda seção introduzirá em um primeiro momento a abordagem das capacitações, aplicando-a ao mercado de trabalho, após o qual se dedicará à avaliação das PAMT a partir dos conceitos oriundos desta abordagem. A terceira seção concluirá o capítulo abordando os principais resultados encontrados ao longo deste. 1.1 As Políticas Ativas de Mercado de Trabalho no Estado de Bem-Estar Social Moderno O estado de bem-estar moderno, tal como conceberemos nesta dissertação, surgiu na década de 1990 na União Europeia como resultado de um conjunto de mudanças econômicas, sociais e políticas que marcaram a transição de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial (Jenson, 2012; Kenworthy, 2010; Kerstenetzky, 2012; La Porte e Jacobsson, 2012; Taylor-Gooby, 2004). O “antigo” estado do bem-estar baseava-se em políticas sociais 10 passivas e curativas centradas na transferência de recursos econômicos, típicos da proteção social e adequados aos riscos próprios a uma sociedade industrial, e caracterizadas por uma visão de curto-prazo, respondendo aos ciclos-econômicos. O estado de bem-estar moderno, por outro lado, volta-se para a prevenção dos novos riscos sociais, a ativação dos indivíduos e a promoção de igualdade de oportunidades a partir de políticas com uma visão de longo prazo (Cantillon, 2011; De La Porte e Jacobsson, 2012). Apontado por alguns como uma continuação dos princípios e políticas neoliberais e por outros como uma nova perspectiva, o estado de bem-estar atual é cercado por amplo debate e pouco consenso (Jenson, 2012). Entretanto, Jenson (2012) e Pintelon et al. (2013) identificam um conjunto de conceitos e perspectivas que exprimem ideias semelhantes: novo estado de bem-estar, liberalismo inclusivo, estado de bem-estar ativo, perspectiva do investimento social, dentre outras. Kerstenetzky (2014) identifica e diferencia as várias correntes do investimento social: a “perspectiva do investimento social”, como é denominada a corrente socialdemocrata, caracteriza-se por uma política social produtiva e pelo reconhecimento do desemprego como resultado de falhas do mercado de trabalho; o tipo keynesiano, caracterizado por uma política social compensatória; o tipo neoliberal, caracterizado por uma política social mínima, baseada no princípio de “fazer o trabalho valer” (make the work pay); e, por fim, o “terceiro caminho” (third way), que reúne aspectos da corrente neoliberal e da perspectiva do investimento social. 1.1.1 A Perspectiva do Investimento Social A perspectiva do investimento social possui uma visão de longo prazo sobre as políticas sociais. O gasto social é identificado como um investimento e, como tal, além de atender as necessidades presentes dos indivíduos e da sociedade, deve gerar retornos futuros (Jenson, 2012). A política social, sob esta abordagem, não consiste em uma compensação pelos impactos negativos gerados pelos riscos sociais, mas em um mecanismo voltado para a prevenção destes riscos e para a capacitação dos indivíduos para enfrentá-los no presente e no futuro. O estado de bem-estar possui papel central na promoção da agenda do investimento social, que objetiva promover a inclusão social, minimizar a transferência intergeracional da pobreza e garantir que a população esteja preparada para enfrentar os desafios do mercado de trabalho das economias modernas (Jenson, 2012). As políticas sociais elaboradas no contexto dessa agenda voltam-se para a ativação do trabalhador através do investimento em capital 11 humano, de políticas para a primeira infância, como políticas de cuidado e educação infantil, e de políticas voltadas para elevar (e melhorar) a participação dos indivíduos no mercado de trabalho, as PAMT (Jenson, 2012; de la Porte e Jacobsson, 2012). Estas políticas sociais baseiam-se em uma nova lógica público-privada, sob a qual o Estado assume a responsabilidade de prover serviços que antes eram de responsabilidade apenas das famílias e indivíduos, como os serviços de cuidado. As PAMT constituem um dos pilares do estado de bem-estar na perspectiva do investimento social. Seu objetivo principal é a redução do tempo de desemprego através da (re)inserção ativa do indivíduo no mercado de trabalho (Bonoli, 2012). Os impactos das PAMT sobre os beneficiários e a sociedade como um todo permitem visualizar de que forma estas políticas podem contribuir para a agenda do investimento social. O aumento da participação no mercado de trabalho, um dos efeitos das PAMT, pode contribuir para a redução da transferência intergeracional da pobreza (Jenson, 2012). Segundo Kangas e Palme (2009), modelos de políticas baseados em famílias com dois trabalhadores são mais efetivos na redução da pobreza familiar, além de promoverem a redução da desigualdade de renda domiciliar (Kerstenetzky, 2012). Em relação à capacidade da população em enfrentar o mercado de trabalho atual, caracterizado por menor segurança no emprego e maior demanda por qualificação, as PAMT, mais especificamente aquelas que efetivamente elevam o capital humano dos beneficiários, aumentam a chance destes encontrarem um trabalho e mantê-lo. No que tange à questão da inclusão social, a ativação dos trabalhadores contribuiria reduzindo o desemprego, que, conforme destaca Sen (2010), gera diversos efeitos negativos para os desempregados, contribuindo para sua exclusão social. Os impactos positivos das PAMT na esfera econômica também podem ser identificados com a perspectiva do investimento social por beneficiarem a sociedade como um todo no curto e no longo prazo. Segundo Bonvin e Farvaque (2003), estes impactos incidem sobre o nível de renda, de emprego e o crescimento econômico. No caso das políticas de qualificação, incluídas no conjunto das PAMT, Ramos e Freitas (1998) destacam os efeitos positivos de uma força de trabalho mais qualificada sobre a produtividade, a competitividade externa, o crescimento econômico e o nível de emprego. Kerstenetzky (2012), por sua vez, identifica as PAMT como “políticas sociais economicamente orientadas”, ou seja, políticas sociais que impactam a economia. A questão do financiamento do estado do bem-estar, apesar de não constar entre os objetivos da agenda do investimento social, possui importância fundamental para a viabilidade das políticas sociais propostas a partir desta. O financiamento do estado de bem12 estar tornou-se uma questão bastante relevante a partir da década de 1970. A redução do crescimento econômico e o aumento do desemprego, além de outros fatores como o envelhecimento populacional, causaram uma queda da arrecadação e uma elevação dos gastos sociais. Este quadro foi utilizado como argumento por diversas teses que apontavam para uma crise do estado de bem-estar social, que, entretanto, não ocorreu (Kerstenetzky, 2012). Dentre as políticas sociais no contexto do investimento social, as PAMT possuem papel relevante na solução da questão do financiamento. O aumento da população ocupada proporciona maior arrecadação através do imposto de renda e das contribuições na folha de pagamentos (Kenworthy, 2010). Mesmo quando não há uma elevação da taxa de emprego, as PAMT podem contribuir para um aumento da arrecadação ao possibilitarem uma mobilidade ascendente dos trabalhadores em termos de rendimentos. Os gastos sociais também podem ser reduzidos pelas políticas de ativação. Segundo Bonoli (2012), há uma diminuição do dispêndio com seguro-desemprego e benefícios assistenciais a partir da queda do desemprego e a elevação da renda. O impacto positivo das PAMT sobre a pobreza familiar (Kangas e Palme, 2009) e a pobreza infantil (EspingAndersen, 1999) também contribuem para a redução dos gastos. A perspectiva do investimento social busca explicar o estado de bem-estar moderno e as políticas que o compõem. Dentre estas, as PAMT contribuem de maneira relevante, com efeitos positivos sobre a esfera social, a esfera econômica e em relação à questão do financiamento. A ênfase do novo estado de bem-estar sobre novas áreas, como as PAMT e as políticas de cuidado, e sobre a própria perspectiva do investimento social corresponde a uma adaptação do estado de bem-estar diante dos novos riscos sociais (Kerstenetzky, 2012). 1.1.2 Os Novos Riscos Sociais O aumento da importância das PAMT nas últimas décadas resultou do ajuste dos estados de bem-estar modernos frente aos novos riscos sociais gerados por diversas mudanças econômicas e sociais (Cantillon, 2011; Kenworthy, 2010; Kerstenetzky, 2012; Pintelon et al., 2013; Taylor-Gooby, 2004). As mudanças nas relações de gênero, na estrutura etária da população e no mercado de trabalho suscitaram novas demandas e oportunidades de expansão para o estado de bem-estar e suas políticas sociais. Os novos riscos sociais envolvem o acesso ao emprego e a manutenção neste, o equilíbrio entre a vida familiar e o trabalho e o acesso à qualificação e educação (Taylorgooby, 2004). Os grupos mais atingidos pelos novos riscos são as mulheres, os jovens e os 13 indivíduos com baixa qualificação (Idem). Sob a perspectiva do investimento social discutida anteriormente, a adaptação do estado do bem-estar passou pela formulação de políticas sociais voltadas à eliminação e prevenção dos novos riscos sociais. Uma análise destes riscos contribui para uma compreensão mais detalhada da perspectiva do investimento social e das políticas sociais que engloba. A seguir serão discutidas as principais mudanças que marcaram o surgimento dos novos riscos sociais e do estado de bem-estar moderno, destacando o papel das PAMT. Relações de Gênero Nas últimas décadas reduziu-se a diferença entre as taxas de participação de homens e mulheres no mercado de trabalho. Na União Europeia, a taxa de participação masculina caiu de 89% em 1970 para 78% em 2001, enquanto a participação feminina elevou-se de 45% para 61% (Taylor-Gooby, 2004). A participação masculina em 2012 foi de 79%, enquanto a feminina foi de 67% (EUROSTAT), indicando um grande aumento da participação das mulheres frente a um pequeno aumento dos homens. A mesma tendência pode ser observada para o Brasil. Hoffmann e Leone (2004), a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD/IBGE), mostram um crescimento da participação feminina de 32,9% em 1981 para 46,6% em 2002 e uma queda da participação masculina de 74,6% para 71,4% no mesmo período. No ano de 2011, 71% dos homens encontravam-se no mercado de trabalho, contra 50% das mulheres, indicando um crescimento da participação feminina na última década frente à manutenção da participação masculina (PNAD/IBGE). A maior participação feminina gerou efeitos positivos para o estado de bem-estar moderno, contribuindo para a queda da pobreza (Cantillon, 2011; Esping-Andersen, 2009) e da desigualdade de renda domiciliar (Kerstenetzky, 2012). Além disso, conforme Sen (2010), a alfabetização das mulheres e sua inserção no mercado de trabalho tornam a distribuição de recursos mais igualitária dentro do domicílio, reduzindo o “viés contra o sexo feminino” em relação à sobrevivência infantil. Apesar do aumento da participação das mulheres, a desigualdade de gênero no mercado de trabalho continua elevada. Na União Europeia, o rendimento/hora das mulheres em 2011 era 16,2% menor que o dos homens (Eurostat). Os países da OCDE apresentaram em 2009 um diferencial de 15,8% entre os salários médios dos homens e das mulheres em empregos de jornada completa (OCDE). No Brasil, o diferencial de rendimentos do trabalho por gênero, calculado a partir dos dados da PNAD, foi igual a 42,2% em 2011 (IBGE). 14 O elevado diferencial salarial entre homens e mulheres é apenas um dos aspectos da desigualdade de gênero no mercado de trabalho. A maior incidência de empregos de jornada parcial – que tipicamente remuneram menos, garantem menor segurança e possibilitam menores chances de crescimento profissional – entre as mulheres indica que a colocação destas no emprego ocorre de forma mais precária. Na União Europeia, enquanto 8,1% dos homens eram empregados em jornada parcial, 31,6% das mulheres encontravam-se na mesma situação em 2011 (Eurostat). Os índices de participação em empregos de jornada parcial na OCDE em 2011 foram de 8,6% para os homens e 25,3% para as mulheres (OCDE). No Brasil, apesar da maior incidência de empregos de jornada parcial entre os homens em comparação com os países analisados (17,8% em 2011), a diferença em relação às mulheres também é acentuada, 36,6% das brasileiras ocupadas encontravam-se em empregos de jornada parcial em 2011 (IBGE). A responsabilização das mulheres pelo cuidado das crianças e dos idosos (e pelos serviços domésticos) colocada pelos padrões de cuidado tradicionais (Taylor-Gooby, 2004) tem grande influência sobre a inserção da mulher no mercado de trabalho. As dificuldades em conciliar o trabalho pago com o trabalho doméstico podem levar as mulheres a optar por empregos de jornada reduzida ou mesmo a não participar do mercado de trabalho. Políticas de conciliação da vida familiar com o trabalho, destacando as políticas de cuidado de crianças (child care), impactam positivamente a participação das mulheres no mercado de trabalho (Cantillon, 2011; Kenworthy, 2010; Kerstenetzky, 2012), além de permitirem sua colocação em empregos de jornada completa. A integração destas políticas com as PAMT pode contribuir para ampliar este efeito, principalmente para mulheres com baixa qualificação ou que permaneceram inativas ou desempregadas por longo período. A relevância das PAMT para as mulheres é ilustrada pela maior participação destas nos cursos de qualificação e nas agências públicas de emprego no Brasil, conforme apontam Marinho, Balestro e Walter (2010). Envelhecimento Populacional A queda da taxa de fecundidade e o aumento da expectativa de vida, dentre outros fatores, levaram a uma mudança da estrutura etária da população, com aumento da proporção de idosos (Camarano, Kanso e Mello, 2004). Apesar de atualmente atingir de maneira mais séria as sociedades que já possuíam uma população mais madura, como os países europeus e 15 o Japão, o envelhecimento populacional também gera impactos relevantes sobre os países em desenvolvimento (Camarano, Kanso e Mello, 2004). Os impactos desta mudança demográfica recaem principalmente sobre a aposentadoria e a saúde, políticas implantadas pelo estado de bem-estar tradicional. Por outro lado, as políticas sociais modernas podem contribuir na redução dos impactos negativos e no atendimento das necessidades nascentes. A seguir serão analisados os efeitos do envelhecimento populacional sobre a aposentadoria e a saúde e o papel das PAMT diante deles. Além disso, será destacada a relação entre o cuidado do idoso e a participação da mulher no mercado de trabalho. O aumento da razão de dependência – razão entre a população considerada dependente economicamente (menores de 15 e maiores de 64 anos de idade) e a população potencialmente ativa (15 a 64 anos de idade) (IBGE) – pode pressionar o orçamento dos sistemas de aposentadoria pública baseados no regime de partição simples, no qual os benefícios dos trabalhadores aposentados são cobertos pelas contribuições dos trabalhadores ativos, principalmente em países com benefícios elevados e idade de aposentadoria baixa. As PAMT podem contribuir para extinguir ou mitigar este problema de três maneiras principais: elevando a produtividade, aumentando a população contribuinte e reduzindo a população beneficiada. Primeiramente, políticas de treinamento profissional, que elevem o capital humano da força de trabalho, geram um aumento de produtividade, ampliando a base de contribuição da aposentadoria. Em segundo lugar, as PAMT em geral podem contribuir para o aumento da arrecadação expandindo a população ativa contribuinte através da inserção dos inativos, desempregados e trabalhadores informais em empregos formais. Finalmente, as políticas ativas poderiam contribuir ainda através de políticas que incentivem a reinserção ou a continuação dos idosos no mercado de trabalho, como cursos de treinamento e reciclagem e criação de empregos de meia jornada que respeitem as capacidades e desejos deste grupo. Políticas deste tipo contribuiriam para a independência da população idosa, respeitando suas demandas e necessidades e integrando-os na sociedade, que consistem em pontos levantados por estatutos e resoluções concernentes aos direitos dos idosos (Camarano, Kanso e Mello, 2004). A ativação dos idosos permitiria a redução do gasto com benefícios de aposentadoria e o aumento da contribuição. O segundo impacto importante do envelhecimento populacional é sobre os gastos com saúde, que consiste em uma das políticas públicas com maior nível de dispêndio na maioria dos países desenvolvidos (Kenworthy, 2010). Neste caso, as PAMT podem colaborar em dois 16 aspectos: elevando a arrecadação do Estado através do aumento do emprego, da renda e da produtividade, e melhorando a qualidade de vida e, consequentemente, a saúde dos idosos a partir de sua ativação. A importância da integração de políticas de cuidado com as PAMT para a colocação da mulher no mercado de trabalho é reforçada pelo processo de envelhecimento da população. O cuidado dos idosos, assim como o das crianças, recai principalmente sobre as mulheres, prejudicando sua participação. Mercado de Trabalho A globalização e o desenvolvimento tecnológico são as principais causas das mudanças no mercado de trabalho (Taylor-Gooby, 2004), contribuindo para a desindustrialização e o desemprego (Esping-Andersen, 1999). Diante da intensificação da competição internacional a partir da globalização, as empresas passaram a visar ganhos de produtividade crescentes, iniciando um processo de reestruturação produtiva através da implantação de novas tecnologias, modos de governança e relações trabalhistas (Cacciamali, 1999). A busca por maior competitividade aliada ao desenvolvimento tecnológico reduziu a oferta de empregos na indústria (Taylor-Gooby, 2004) causando uma migração de grande parte dos trabalhadores para o setor de serviços, para a informalidade e para o desemprego e a inatividade. O advento de novas relações trabalhistas, como contratos temporários, trabalhos de jornada parcial, mão de obra terceirizada, elevou o quadro de insegurança no trabalho. A desindustrialização e a transição da economia para uma economia de serviços, atreladas à globalização, às novas tecnologias e à terceirização, contribuem para a polarização do mercado de trabalho (Esping-Andersen, 1999). Esping-Andersen (1999) defende que a quase totalidade dos postos de trabalho criados atualmente encontra-se no setor de serviços, que reúne diferentes tipos de serviço (serviços empresariais, serviços de distribuição, serviços pessoais e serviços sociais), que demandam diferentes habilidades e níveis de qualificação da força de trabalho, implicando em diferentes níveis de remuneração e qualidade do trabalho. O mercado de trabalho das economias pós-industriais é caracterizado por uma polarização entre trabalhos de qualidade e com elevada remuneração, que demandam uma mão de obra altamente especializada e qualificada, e trabalhos precários, com remunerações baixas, sem garantia de estabilidade e benefícios, que abrangem a população ativa com baixos níveis de qualificação. O aumento das ocupações nos serviços que demandam alta 17 qualificação é apontado por Esping-Andersen (1999) como determinante da mobilidade de classe ascendente nas sociedades pós-industriais. A maior flexibilidade do mercado de trabalho, provocada pela elevada competição nos mercados globais (Taylor-Gooby, 2004) e aliada ao crescimento do trabalho precário, originou diversos riscos sociais, que atingem principalmente a força de trabalho com baixa qualificação (Esping-Andersen, 1999) e os jovens. Taylor-Gooby (2004) identifica três grupos de riscos sociais gerados pelas mudanças no mercado de trabalho: problemas para entrar no mercado de trabalho, problemas para manter empregos estáveis, seguros, bem pagos e com seguridade social e problemas para receber treinamento adequado. Há uma interligação entre os três riscos. Um indivíduo que tenha dificuldade de acesso a um treinamento adequado enfrentará dificuldades para inserir-se no mercado e manter um emprego de qualidade. Por outro lado, alguém que não esteja colocado em um emprego de qualidade enfrentará problemas para conseguir um treinamento que atenda suas necessidades. Através de PAMT os estados de bem-estar buscam fazer frente a estes novos riscos. As políticas de treinamento e (re)qualificação profissional destacam-se dentre as PAMT por poderem contribuir em todos os três tipos de riscos citados. Além de solucionar diretamente as dificuldades em obter treinamento, estas políticas podem colaborar de maneira significativa na (re)inserção e estabilização do indivíduo em um trabalho de qualidade. Diante das constantes mudanças tecnológicas, um indivíduo qualificado, com habilidades e conhecimentos constantemente atualizados, possui maiores chances de conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho. 1.2 Liberdade Real no Trabalho: as Políticas Ativas de Mercado de Trabalho a partir da abordagem das capacitações O papel das PAMT no estado de bem-estar moderno e sua contribuição no enfrentamento dos novos riscos sociais mostram que seus impactos podem ser amplos e diversificados. O aumento da relevância destas políticas nas últimas décadas incentivou a produção acadêmica acerca do tema (Kluve, 2006). Grande parte desta, entretanto, voltada para análises convencionais, que estudam a eficiência das políticas a partir de análises de custo-benefício ou de seus efeitos sobre indicadores do mercado de trabalho, tendendo a negligenciar os impactos sobre a esfera social (Bonvin e Orton, 2009; Marinho, Balestro e Walter, 2010). 18 O desempenho positivo do mercado de trabalho, medido a partir de indicadores como taxa de desemprego ou nível de renda, aponta para uma melhora na qualidade de vida dos trabalhadores e da sociedade como um todo. No entanto, a relação entre a condição do indivíduo no mercado de trabalho e seu bem-estar é mais complexa do que as análises convencionais permitem observar. O termo “bem-estar” pode ser analisado a partir de diversas bases informacionais, possuindo, portanto, diversos conceitos e significados. Sen (2010) define base informacional como o conjunto das informações utilizadas e ignoradas no processo de formação de juízos. A base informacional a partir da qual o bem-estar social e individual é analisado possui importância relevante na formulação das políticas sociais. Um aspecto que ilustra a complexidade da relação entre a condição no mercado de trabalho e o bem-estar individual diz respeito à oferta de trabalho ou ao que motiva os indivíduos a trabalharem. O impacto do desemprego sobre a qualidade de vida de uma pessoa se estende além da escassez de renda monetária. Exclusão social, perda de autonomia e autoconfiança e efeitos negativos sobre a saúde física e psicológica são alguns efeitos levantados por Sen (2010), o qual destaca que o salário não consiste no único motivo que leva os indivíduos a trabalhar. A visão de que a renda monetária constitui a única fonte de bem-estar oriunda do trabalho e que este gera desprazer ou desutilidade baseia-se na teoria neoclássica 1, que, por sua vez, é pautada na abordagem utilitarista. Sen (2010) aponta diversas limitações importantes desta abordagem, dentre as quais destaca a indiferença em relação a desigualdades, o descaso com aspectos não vinculados à utilidade, como os direitos e as liberdades, e a questão da adaptação das preferências frente às circunstâncias. A complexidade que caracteriza a relação entre o bem-estar individual e a colocação no mercado de trabalho levanta a necessidade de uma base normativa que permita uma análise mais ampla dos impactos das PAMT sobre o bem-estar. A abordagem das capacitações, introduzida por Amartya Sen, apresenta-se como uma alternativa, fornecendo uma base teórica que permite analisar as políticas públicas, particularmente as PAMT, para além da questão da eficiência (Anderson, 2009; Bonvin, 2012; Bonvin e Orton, 2009; Crocker e Robeyns, 2010; Deakin, 2009). Segundo Kerstenetzky (2012), a abordagem das capacitações “formaliza múltiplos componentes do bem-estar social” (Kerstenetzky, 2012, p. 33) – tais como o aspecto multidimensional do bem-estar, a questão da heterogeneidade das 1 Ver Cahuc e Zylberberg (2004). 19 circunstâncias individuais, a importância do processo a partir do qual os benefícios são providos e a questão da liberdade de participação dos indivíduos – apresentando-se, portanto, como uma concepção atraente de bem-estar social. Considerando as questões anteriormente abordadas, a presente seção discutirá em um primeiro momento a relação entre a abordagem das capacitações e a condição do indivíduo no mercado de trabalho, apresentando o conceito de liberdade real no trabalho e enfatizando diversos aspectos que impactam o bem-estar individual no trabalho. Em um segundo momento, será conduzida uma análise das PAMT sob a perspectiva da abordagem das capacitações, buscando destacar de que forma estas políticas podem promover o bem-estar individual no trabalho. 1.2.1 Liberdade Real no Trabalho A abordagem das capacitações avalia o bem-estar individual a partir de uma base informacional ampla que confere papel essencial para a liberdade de escolha. Amartya Sen considera a liberdade individual um dos aspectos mais básicos da vida humana (Bonvin e Orton, 2009). Sob esta perspectiva, a qualidade de vida ou o bem-estar de uma pessoa não depende apenas de seu modo de vida corrente, mas também das outras oportunidades que pode escolher realizar. Viver de certa maneira por opção não é o mesmo que viver da mesma maneira por falta de escolha. Sen (2010) ilustra esta questão com o exemplo de dois indivíduos que jejuam, sendo que um deles o faz por escolha própria (por motivos religiosos, por exemplo) e o outro por não possuir recursos para adquirir alimentos. Apesar de ambos jejuarem, a maior liberdade de escolha do primeiro indivíduo faz com que seu bem-estar, neste aspecto, seja maior que o daquele que não possui alternativas realizáveis. O bem-estar de uma pessoa depende além do seu modo de vida atual, da possibilidade de alcançar outros modos de vida que valoriza. As oportunidades ou modos de vida valorizados pelo indivíduo são denominados “funcionamentos” (functionings) e reúnem tudo aquilo que este considera importante fazer ou ser. O conjunto dos modos de vida ou funcionamentos alternativos que o indivíduo valoriza e pode realizar representa suas “capacitações”2 (capabilities) individuais (Sen, 2010). Conforme Sen (1985, apud Deakin, 2 O conceito de “capacitação”, como destaca Kerstenetzky (2012), não deve ser confundido com qualificação ou posse de habilidades para o trabalho. Capacitação significa liberdade real em escolher entre diversos modos de vida valorizados. Os termos “capacitação” e “liberdade real” serão utilizados como substitutos. 20 2009), capacitação é a liberdade real3 de escolher dentre diversas combinações de “seres” e “fazeres”. Aplicada ao mercado de trabalho, a abordagem das capacitações fornece uma visão mais ampla acerca da relação entre o bem-estar e a colocação no trabalho. Além da condição presente do indivíduo no mercado de trabalho, que representa seu funcionamento efetivo, a liberdade real no trabalho ou capacitação no trabalho (capability for work) possui papel essencial para o bem-estar individual. Bonvin (2012) define capacitação no trabalho como a liberdade real do indivíduo em escolher o trabalho que valoriza. A partir desta perspectiva, apenas a inserção no mercado de trabalho não garante maior bem-estar individual. O trabalho deixa de ser visto como simplesmente um fator de produção (Abbatecola et al., 2012). No exemplo dos jejuadores, a valorização do ato de jejuar pelo primeiro indivíduo, mas não pelo segundo, tem importância determinante para o bem-estar de ambos neste quesito. Expandir o conjunto de modos de vida possíveis resultará em maior bem-estar apenas se estes modos de vida forem valorizados pelo indivíduo, caso contrário seu bem-estar permanecerá inalterado ou poderá ser até mesmo reduzido. No que concerne à liberdade real no trabalho, a concepção do que seria um “trabalho valorizado” é fundamental e reúne diversas dimensões (Bonvin, 2012). Do ponto de vista dos trabalhadores, o “trabalho valorizado” reúne questões referentes a salários e benefícios, oferta e qualidade do trabalho e equilíbrio entre a vida familiar e o trabalho (Bonvin, 2012). A definição, portanto, não é única e um trabalho valorizado por determinado indivíduo pode não ser por outro. A “diversidade dos seres humanos” diferencia o uso que cada um pode fazer de um mesmo nível de renda ou pacote de mercadorias (Sen, 2010). A posse de determinada dotação de recursos e direitos formais não garante que o indivíduo será capaz de convertê-los em funcionamentos e capacitações (Bonvin, 2012). A liberdade real depende da habilidade da pessoa em extrair benefícios efetivos de determinada dotação. Um exemplo no âmbito do mercado de trabalho seria o de uma política de emprego que garante o acesso livre e universal a cursos de qualificação profissional, entretanto não atenta para o fato de que parte da população vive distante dos locais dos cursos e não possui recursos financeiros para custear o transporte. Neste caso, a dificuldade de deslocamento, consequência da distância ou da 3 É importante destacar a diferença entre os termos “liberdade real” (real freedom) e “liberdade formal” (liberties). “Liberdade formal” refere-se aos direitos formais e às liberdades que estes conferem aos indivíduos, enquanto o termo “liberdade real” é utilizado para designar a liberdade efetiva que o indivíduo possui para exercer certo direito ou alcançar determinado resultado (Sen, 2010). A garantia de um direito formal, por exemplo, o direito ou liberdade de ir e vir, não implica que este será efetivamente exercido, por exemplo, caso o indivíduo não possua dinheiro para pagar pelo serviço de transporte. 21 escassez de renda, impede que a garantia do direito formal de fazer curso de qualificação gere benefícios efetivos para determinada parcela da população. A habilidade de extrair benefícios efetivos de determinada dotação, ou a habilidade de transformar dotações em funcionamentos, é determinada pelos fatores de conversão (conversion factors) (Crocker e Robeyns, 2010; Deakin, 2009; Sen, 2010) que, de acordo com Goerne (2010), reúnem todas as circunstâncias que levam ao desenvolvimento ou privação das capacitações ou funcionamentos. Crocker e Robeyns (2010) e Deakin (2009) identificam três grupos principais de fatores de conversão: pessoais, ambientais e sociais (ou institucionais). Fatores pessoais, como idade avançada, doença, gravidez ou incapacidade de locomoção, podem reduzir a habilidade do indivíduo em extrair os mesmos benefícios de um conjunto de funcionamentos comparado a alguém que não se encontre nas mesmas circunstâncias. Os fatores de conversão ambientais, por sua vez, diferenciam o conjunto capacitário das pessoas em relação ao ambiente em que vivem (Sen, 2010). Por exemplo, em locais com inundações ou secas constantes, com presença de vetores de doenças ou poluição, as liberdades reais dos habitantes tendem a ser reduzidas. Já os fatores sociais diferenciam as liberdades reais dos indivíduos de diferentes sociedades e, quando atreladas a determinados fatores pessoais, podem resultar em desigualdade de capacitações entre grupos de uma mesma sociedade, como entre mulheres e homens em uma sociedade machista ou entre estrangeiros e naturais em um país xenófobo. A liberdade real em escolher um trabalho valorizado pode ser limitada ou promovida pelas características individuais e pelas características do mercado de trabalho de um país ou região. Baixa escolaridade, por exemplo, pode restringir as oportunidades alternativas de trabalho valorizadas pela pessoa, consistindo, portanto, em uma característica pessoal que limita a liberdade real no trabalho. A discriminação por parte dos empregadores em relação a determinado grupo populacional é uma característica do mercado de trabalho que pode acarretar em uma restrição da liberdade real no trabalho dos indivíduos pertencentes a este grupo. Dentre os fatores de conversão pessoais relacionados ao trabalho, Bonvin (2012) destaca as habilidades e competências individuais, que reúnem aspectos como diploma, qualificação, competências técnicas e “competências sociais”, como capacidade de trabalhar em grupo. Os fatores de conversão sociais reúnem, por sua vez, aspectos como oferta de trabalho, condição de acesso ao trabalho, qualidade deste e aspectos concernentes à regulação e aos valores presentes no mercado de trabalho (Bonvin, 2012). Oferta de serviços de 22 cuidados de crianças e idosos, baixa proteção do trabalhador por parte da legislação trabalhista e discriminação racial e de gênero são alguns exemplos de fatores que impactam de maneira relevante a liberdade real dos indivíduos no trabalho. Os fatores de conversão relacionados à liberdade real no trabalho reúnem dimensões que ultrapassam o mercado de trabalho, como questões relacionadas a gênero, raça, educação, mobilidade urbana, entre outros. Esta diversidade de elementos determinantes do bem-estar individual no trabalho deve ser observada durante a formulação de políticas públicas voltadas à promoção do emprego, o que será detalhado na próxima subseção. A discussão acerca da liberdade individual empreendida dentro da abordagem das capacitações reúne diversos aspectos. A busca pelo bem-estar pessoal, apesar de ser uma dimensão importante, não é única. A liberdade individual também inclui a busca pela realização de objetivos não relativos ao bem-estar próprio. As liberdades reais reúnem duas dimensões, a liberdade de oportunidades e a liberdade de processos (Bonvin, 2012; Kerstenetzky, 2012). Segundo Sen (1985), estas duas noções de liberdade são produzidas, respectivamente, dentro do aspecto do bem-estar e do aspecto do agente: Both the ‘well-being aspect’ and the ‘agency aspect’ of persons have their own relevance in the assessment of states and actions. Each aspect also yields a corresponding notion of freedom (Sen, 1985, p.169). O aspecto do bem-estar relaciona-se com a “liberdade real de oportunidades” (opportunity freedom) (Bonvin, 2012), ou seja, a liberdade real em escolher entre oportunidades e alternativas valorizadas, e reúne as noções de capacitação e funcionamentos. O aspecto do agente, por sua vez, trata da “liberdade de processo” (process freedom), que consiste na liberdade de participar efetivamente das decisões coletivas e das formulações de políticas públicas (Bonvin, 2012). A liberdade de processo ou de participação remete ao papel de agente dos indivíduos, “de alguém que age e ocasiona mudança e cujas realizações podem ser julgadas de acordo com seus próprios valores e objetivos (...)” (Sen, 2010, p.34). O aspecto do agente abarca, portanto, a realização de todos os objetivos e metas valorizados pelo indivíduo e a liberdade para realizá-los (Crocker e Robeyns, 2010). Whereas well-being freedom is freedom to achieve something in particular, viz., well-being, the idea of agency freedom is more general, since it is not tied to any one type of aim. Agency freedom is freedom to achieve whatever the person, as a responsible agent, decides he or she should achieve (Sen, 1985, p. 203). A liberdade de processo e o aspecto do agente remetem à “capacitação por voz” (capability for voice) ou liberdade real por voz, definida como a liberdade real do indivíduo 23 expressar seus desejos, expectativas e preocupações e fazê-los serem considerados nos processos de decisão coletiva (Bonvin, 2012; Bonvin e Orton, 2009; Galster, Rosenstein e Bonvin, 2009). Capacitação é definida como a liberdade real em escolher dentre modos de vida valorizados. Similarmente, liberdade real no trabalho consiste na liberdade efetiva em escolher um trabalho valorizado. A diversidade dos seres humanos e de seus fatores de conversão implica em um conjunto amplo e heterogêneo de “trabalhos valorizados”, diante do qual a liberdade real por voz possui papel fundamental. Trabalhos valorizados por determinados grupos podem não ser valorizados por outras pessoas. Portanto, diante de um trabalho desvalorizado, os indivíduos devem ter liberdade para expor seus desejos e preocupações, e os terem considerados, de forma a tornar o trabalho valorizado (Bonvin, 2012). Por outro lado, também deve ser garantida a liberdade real de negar um trabalho desvalorizado a custos acessíveis (Bonvin, 2012). A liberdade real no trabalho requer o conhecimento de qual trabalho é valorizado, o que, por sua vez, demanda que os trabalhadores possuam liberdade real por voz. Os indivíduos não devem ser vistos apenas como beneficiários passivos, mas como co-autores, com participação ativa nas decisões coletivas (Bonvin, 2012; Sen, 2010). O aspecto do bemestar e o aspecto do agente ou a liberdade real no trabalho e a liberdade real por voz são complementares. Conforme expõe Bonvin (2012), a capacitação no trabalho apresenta dois caminhos, ou liberdade real em optar por não trabalhar 4 ou liberdade real por participar de maneira efetiva das discussões e definições que envolvem a qualidade do trabalho, ou seja, possuir liberdade real por voz. A liberdade real em optar sair do mercado de trabalho é um dos determinantes da liberdade real por voz. Sem esta liberdade o poder de barganha do trabalhador será reduzido, implicando em uma diminuição de sua liberdade real por voz (Bonvin, 2012). Um exemplo de liberdade real por voz no mercado de trabalho consiste no tipo de organização de trabalho identificado como “discretionary learning”. Encontrado de maneira mais desenvolvida na Dinamarca, na Suécia e na Holanda, este tipo de organização do trabalho se caracteriza por elevados níveis de autonomia no trabalho e de envolvimento dos empregados nas discussões no ambiente de trabalho, que culminam em menor intensidade 4 A capacitação de não trabalhar, ou seja, a liberdade de não participação no mercado de trabalho é compatível com a abordagem das capacitações (Kerstenetzky, 2012). É importante frisar a diferença entre a liberdade real de não trabalhar e a escolha de um indivíduo pela inatividade por acreditar que não conseguirá uma colocação no mercado de trabalho (devido, por exemplo, a um cenário negativo do mesmo), o denominado desemprego por desalento. 24 de trabalho, melhor equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal e elevada satisfação com o trabalho, entre outros (Valeyre et al., 2009). 1.2.2 As Políticas Ativas de Mercado de Trabalho e a Liberdade Real no Trabalho As políticas públicas impactam a vida e o bem-estar dos indivíduos e da sociedade. Considerando a abordagem das capacitações, a relação entre as políticas públicas e a liberdade real – de cada indivíduo ou da sociedade como um todo – pode ocorrer de forma direta ou indireta. O impacto indireto ocorre através dos fatores de conversão, que são diretamente alterados ou têm seus efeitos sobre as liberdades reais modificados pelas políticas públicas. Fatores pessoais (e.g. doenças e baixa escolaridade), ambientais (e.g. poluição e presença de vetores de doenças) e sociais podem ser transformados ou eliminados por políticas públicas voltadas, por exemplo, à saúde, educação e preservação ambiental. Os fatores de conversão expandem ou limitam as liberdades reais. As políticas públicas podem interferir nesta relação, ampliando, reduzindo ou mesmo eliminando este efeito. Discriminação no mercado de trabalho, por exemplo, constitui um fator de conversão social que, associado a determinado fator pessoal, pode reduzir as liberdades reais no trabalho de determinados grupos. Políticas de combate à discriminação, através de campanhas ou legislação própria, buscam reduzir o impacto negativo deste fator sobre as liberdades reais no trabalho. As políticas públicas, portanto, impactam indiretamente as liberdades reais individuais ao agir sobre os fatores de conversão. O impacto direto das políticas públicas sobre as liberdades reais ocorre quando aquelas atuam sobre o conjunto de funcionamentos, ampliando-o ou reduzindo-o. Políticas públicas de educação ou políticas de qualificação profissional, por exemplo, podem ampliar as oportunidades de emprego acessíveis ao indivíduo, ampliando seu conjunto de funcionamentos e, consequentemente, sua liberdade real de escolher o trabalho que valoriza. Por outro lado, políticas que atrelam o recebimento de benefícios à inserção no mercado de trabalho podem reduzir as liberdades reais do indivíduo ao forçá-lo a aceitar ou permanecer em um trabalho que não valoriza. Ao impactar diretamente as liberdades reais, as políticas públicas podem ser identificadas como fatores de conversão, mais especificamente fatores sociais ou institucionais. Através delas o Estado pode atuar promovendo as liberdades reais individuais e, portanto, o bem-estar individual e social. 25 No que concerne às liberdades reais no trabalho, estas podem ser impactadas por diversas políticas públicas, dentre as quais se destacam as PAMT. Diante dos diversos efeitos negativos do desemprego, que extravasam a escassez de renda (Sen, 2010), políticas passivas de transferência de renda, como o seguro-desemprego, mostram-se insuficientes para lidar com a queda do bem-estar individual. As PAMT, por outro lado, abrangem um conjunto amplo de políticas que agem sobre a liberdade real do trabalho, podendo ser identificadas como recursos coletivos que permitem aos beneficiários o controle sobre sua mobilidade ocupacional (Bartelheimer et al., 2008). A partir das PAMT o Estado pode garantir aos indivíduos a escolha real sobre a vida profissional que valorizam, ou seja, a liberdade real do trabalho (Bonvin e Orton, 2009; Galster, Rosenstein e Bonvin, 2009). O impacto das PAMT sobre as liberdades reais no trabalho, entretanto, é potencial. A avaliação das políticas a partir da abordagem das capacitações demanda a apreciação de diversos conceitos e questões levantadas por esta abordagem. O primeiro aspecto importante diz respeito aos fatores de conversão. As circunstâncias pessoais, ambientais e sociais vividas por cada indivíduo diversificam suas necessidades e sua habilidade em transformar direitos, serviços e benefícios em oportunidades reais, ou seja, funcionamentos, e elevar sua liberdade real. Analisar as PAMT, considerando a diversidade dos fatores de conversão, expõe duas questões pertinentes: a focalização das políticas e a integração destas. Considerando que o objetivo das PAMT consiste em elevar o bem-estar dos beneficiários, prioritariamente em relação ao mercado de trabalho, a “diversidade dos seres humanos” (Sen, 2010) deve ser levada em conta. Uma política pública que oferte a mesma dotação de serviços ou bens para todos os indivíduos pode não atender às necessidades de determinados grupos. Esta situação poderia ocorrer, por exemplo, devido à diversidade do nível de escolaridade da população economicamente ativa. Um programa de qualificação voltado a indivíduos com baixa escolaridade provavelmente impactaria de maneira mais expressiva o conjunto de oportunidades deste grupo do que o de pessoas com um nível de escolaridade elevado. Neste caso, uma política de qualificação direcionada apenas para os trabalhadores com baixa qualificação poderia gerar resultados semelhantes a um menor custo. A focalização das políticas surge como solução para estas questões, podendo, inclusive, contribuir para reduzir as diferenças entre grupos sociais (Bartelheimer et al., 2008). O direcionamento de uma política para um grupo específico envolve aspectos que abarcam desde o bem-estar dos indivíduos pertencentes ao grupo focalizado até a manutenção 26 da própria política social. O estigma causado pela focalização produz efeitos negativos sobre o respeito próprio, acarretando na redução do bem-estar individual e em uma menor procura pelos próprios serviços, além de uma menor sustentabilidade política dos programas (Sen, 2010). No caso dos serviços públicos de emprego universais, mesmo que estes beneficiem principalmente os grupos em desvantagem no mercado de trabalho, a focalização poderia gerar estigma, com consequências negativas relevantes, como dificultar a coleta e ampliação de vagas de emprego que permitiriam melhor inserção ocupacional dos usuários (Cacciamali, 2005). O serviço público de intermediação de mão-de-obra (IMO) no Brasil, ofertado pelas agências do Sistema Nacional de Emprego (SINE), apesar de ser universal, não se mostra atrativo para todos os empregadores e trabalhadores. As principais ocupações ofertadas nas agências do SINE são de baixa qualificação e remuneração (Marinho, Balestro e Walter, 2010), acarretando em uma focalização não proposital. A oferta de vagas apenas para o grupo focalizado somada à demanda reduzida pelos serviços públicos de emprego por parte dos trabalhadores – ou porque não se encaixam no grupo focalizado, ou porque, apesar de pertencerem a este grupo, evitam utilizar o serviço para não sofrerem o estigma – reduzem o conjunto de empregos acessíveis aos beneficiários e, consequentemente, ameaçam a liberdade real no trabalho. A baixa sustentabilidade política resultante da focalização, por sua vez, pode limitar a expansão das políticas em termos de qualidade, abrangência e financiamento, reforçando os problemas anteriormente citados. Surge um aparente impasse. A focalização de políticas origina problemas que podem prejudicar a liberdade real dos beneficiários. Por outro lado, a consideração da diversidade dos fatores de conversão entre os indivíduos é fundamental para atender suas reais necessidades de maneira a promover sua liberdade real (no trabalho). A dualidade entre focalização e universalização, entretanto, não é rígida. De acordo com Kerstenetzky (2012), as políticas públicas em países muito desiguais devem dirigir-se para uma “universalização com focalização”. Neste sistema, as políticas públicas, ao mesmo tempo em que abrangem toda a população, dedicam atenção especial a grupos e indivíduos mais vulneráveis. Desta maneira, toda a população seria beneficiada e os impactos negativos da focalização seriam reduzidos, além disso, seriam consideradas as diferentes necessidades e demandas de cada grupo, ampliando o potencial das políticas em promover as liberdades reais individuais. A segunda questão suscitada pela diversidade dos fatores de conversão refere-se à integração entre as PAMT e outras políticas públicas. Como discutido anteriormente, a multiplicidade de fatores de conversão gera uma variedade de necessidades e, além disso, 27 resulta em habilidades distintas para transformar dotações em funcionamentos. A universalização com focalização permite considerar estas diferenças no âmbito de cada política pública. Contudo, as necessidades e demandas dos beneficiários de determinada política muitas vezes extravasam sua área de atuação, além disso, a habilidade para converter em uma oportunidade real determinado benefício concedido por uma política pode depender de outras políticas públicas. Baixa escolaridade, inanição, doenças, difícil mobilidade urbana são alguns fatores de conversão que limitam as liberdades reais no trabalho e que abarcam outras áreas, como educação, combate à fome, saúde e transporte. A ligação entre diferentes áreas e políticas sociais relaciona-se com o papel instrumental da liberdade. A liberdade possui dois papéis essenciais no desenvolvimento e “enriquecimento da vida humana”, o constitutivo e o instrumental (Sen, 2010). O papel constitutivo da liberdade pode ser entendido a partir da noção de que o desenvolvimento ou o aumento do bem-estar ocorre através da expansão das liberdades reais. A liberdade equivale, portanto, ao “fim” do processo de desenvolvimento, possuindo valor intrínseco (Sen, 2010). O papel instrumental, por outro lado, enfatiza a importância das liberdades reais como “meio” para o desenvolvimento e expansão do bem-estar. Sen (2010) pontua que, devido à inter-relação entre as liberdades reais, um tipo de liberdade 5 pode contribuir para a promoção de liberdades de outros tipos e, consequentemente, para o desenvolvimento e o bem-estar individual. A liberdade real no trabalho, portanto, não se dissocia da garantia de outras liberdades reais, que podem ou não, estar relacionadas ao mercado de trabalho. Para que os beneficiários das PAMT tenham uma escolha genuína e tornem-se capazes de desenvolver suas liberdades reais deve haver uma integração entre medidas de proteção econômica, como benefícios monetários, e medidas que promovem oportunidades, como treinamento e proteção no emprego (Anderson, 2009). A integração entre as políticas de emprego, ativas e passivas, possui importante papel na promoção das capacitações dos beneficiários (Bonvin e Orton, 2009). Políticas passivas que garantem benefícios condizentes com as necessidades reais dos beneficiários colaboram para a promoção de sua liberdade real. Um indivíduo desempregado que recebe benefícios de seguro-desemprego que asseguram seu padrão de vida por um período de, por exemplo, um ano, provavelmente terá maiores chances de se colocar em um trabalho que valoriza do que um indivíduo que recebe um benefício relativamente baixo por um curto período de tempo, o qual estará mais propenso a procurar qualquer trabalho que 5 Sen (2010) identifica cinco tipos de liberdades instrumentais: liberdades políticas, facilidades econômicas, oportunidades sociais, garantias de transparência e segurança protetora. 28 melhore sua renda. Nas palavras de Bonvin, se os benefícios providos pelo sistema de seguridade social “são muito baixos, então baixas remunerações podem ser impostas sobre os trabalhadores” (Bonvin, 2012, p.14). Políticas passivas restritas podem, portanto, limitar o impacto positivo de PAMT sobre as liberdades reais no trabalho. As mudanças vivenciadas pelo estado de bem-estar moderno e os novos riscos sociais resultantes destas, analisados na primeira parte deste capítulo, produziram demandas em diversas áreas distintas, tornando a integração das políticas ainda mais importante. A integração das PAMT com políticas de cuidado e um sistema educacional universal que forneça educação integral e de qualidade para todas as faixas etárias, principalmente as mais novas, é essencial para garantir as liberdades reais no trabalho, principalmente das mulheres. A associação entre uma PAMT, como um curso de qualificação profissional, e uma política de provisão pública de serviços de cuidado de crianças expande o conjunto de oportunidades de trabalho acessíveis para mulheres (e homens) com filhos pequenos. Os indicadores sobre trabalho parcial, apresentados na primeira parte do capítulo, mostram como este tipo de trabalho é representativo para as mulheres ocupadas, podendo indicar uma liberdade real no trabalho reduzida. É possível que parcela significativa destas mulheres, mesmo possuindo a qualificação demandada por um trabalho de qualidade, não possam aceitar um emprego de jornada completa por não terem acesso a um serviço de cuidado. A integração entre as PAMT e as políticas de cuidado, além de poder elevar o emprego feminino (Kerstenetzky, 2012), poderia também aumentar a qualidade do trabalho daquelas já inseridas no mercado, contribuindo por duas vias para o aumento da liberdade real no trabalho das mulheres. A importância dos serviços de cuidados é reforçada por Bonvin (2012) ao apontar o equilíbrio entre a vida familiar e a vida no mercado de trabalho como um dos determinantes do trabalho valorizado. O aspecto do agente e a liberdade real por voz exercem papéis essenciais no que tange à liberdade e bem-estar individuais, constituindo o segundo ponto a ser detalhado na avaliação das PAMT a partir da abordagem das capacitações. Como discutido anteriormente, a garantia do papel de agente aos beneficiários é fundamental para identificar que trabalho estes valorizam e, consequentemente, para que as PAMT efetivamente ampliem as liberdades reais no trabalho. As políticas deveriam, idealmente, propiciar mecanismos que garantam uma participação ativa dos beneficiários nas decisões coletivas. As pessoas deveriam “ser vistas como ativamente envolvidas – dada a oportunidade – na conformação de seu próprio destino, e não apenas como beneficiárias passivas dos frutos de engenhosos programas de 29 desenvolvimento” (Sen, 2010, p.77). A diversidade dos fatores de conversão reforça a relevância da liberdade real por voz no desenho das PAMT. Nessa perspectiva, o objetivo das PAMT deveria ser garantir a liberdade real por voz, definida anteriormente como a liberdade real do indivíduo expressar-se e fazer-se ouvir nos processos de decisão coletiva. Além dos beneficiários, o poder de agente também deveria ser garantido aos agentes locais, responsáveis pela aplicação das políticas de emprego. A centralização de todas as decisões, ou seja, uma governança do tipo de “cima para baixo” (top-down) (Bonvin, 2012; Bonvin e Orton, 2009) prejudica a consideração das diferenças existentes entre as regiões e entre os grupos populacionais em cada uma delas. As PAMT, de acordo com Bonvin e Orton (2009), devem permitir algum “grau de manobra” para os agentes locais de maneira que estas sejam, em algum nível, “feitas sob medida” (tailor-made) conforme as circunstâncias regionais e pessoais. A liberdade real por voz baseia-se, segundo Bonvin (2012), em quatro condições principais: disponibilidade de recursos políticos, relacionada à habilidade dos trabalhadores em se unirem e terem peso nos processos de decisões coletivas; disponibilidade de recursos cognitivos, relacionada às habilidades de negociar e comunicar e ao acesso à informação; disponibilidade de direitos, relacionada à garantia de meios de ação a partir da legislação e dos acordos coletivos; e prontidão dos interlocutores, que depende, além da sua boa vontade, das disposições legais sobre os empregadores. No limite, a escolha do trabalho valorizado recai sobre cada indivíduo. A liberdade real por voz a partir da representação democrática dos trabalhadores no processo decisório e na execução das PAMT não garante que os desejos, demandas e necessidades de todos serão atendidas, mas sim que serão consideradas (Bonvin, 2012). Diante disto, todos os trabalhadores devem ser efetivamente livres para escolher sair de uma negociação, de um emprego ou mesmo do mercado de trabalho. A garantia desta possibilidade é essencial para a liberdade real no trabalho e para o poder de barganha dos trabalhadores e sua liberdade real por voz. A garantia da liberdade participativa e do papel de agente pelas PAMT permite alcançar de maneira mais ampla as necessidades dos beneficiários e, desta forma, tornar as políticas mais efetivas na promoção da liberdade real de escolha do emprego. As três questões levantadas, universalização com focalização, integração entre as políticas e a importância da liberdade real por voz dos beneficiários, estão relacionadas entre si. A discussão acerca da diversidade dos fatores de conversão levanta a relevância da atenção especial das PAMT aos grupos mais vulneráveis dentro do mercado de trabalho. O reconhecimento destas vulnerabilidades, por sua vez, passa pela liberdade dos beneficiários 30 em exercer seu poder de agente, possuir liberdade real por voz. Uma vez identificadas e reconhecidas as necessidades e vulnerabilidades, o atendimento destas muitas vezes demanda uma integração das PAMT com outras políticas sociais. 1.3 Conclusão A análise das PAMT sob a abordagem das capacitações traz à tona questões que seriam provavelmente ignoradas por perspectivas mais convencionais. Voltadas à avaliação da eficiência das políticas a partir de indicadores como taxa de desemprego e nível salarial, estas perspectivas (Oliveira e Rios-Neto, 2007; Severnini e Orellano, 2010; Reis, 2012; Musse e Machado, 2013; Card, Kluve e Weber, 2010; Kluve, 2010) desconsideram a complexa relação entre o bem-estar individual e a colocação no mercado de trabalho. Além da condição presente dos indivíduos no mercado de trabalho, que abarca os fatores relativos à qualidade do trabalho – que extravasam o salário e a condição de ocupado/desempregado, os indicadores considerados pelas análises convencionais –, o bemestar individual no trabalho depende da liberdade real da pessoa escolher o trabalho que valoriza. Partindo desta perspectiva e considerando que as políticas públicas sociais devem expandir o bem-estar e a qualidade de vida da população, o objetivo das PAMT deveria ser promover as liberdades reais no trabalho. Para tanto, alguns pontos importantes devem ser considerados. Uma política que vise à expansão das liberdades reais no trabalho deve considerar a diversidade dos fatores de conversão, que resultam em diferentes necessidades e demandas de cada grupo populacional, ao mesmo tempo em que atenta para as implicações da focalização de políticas. Diante deste aparente conflito, as PAMT deveriam atender as diferentes necessidades sem deixar de abranger a população como um todo, reduzindo assim os impactos negativos da focalização. A diversidade dos fatores de conversão somada ao papel instrumental da liberdade, que frisa a interligação entre diversos tipos de liberdade, implica na necessidade da integração entre as PAMT e outras políticas públicas, como políticas nas áreas da educação e saúde, políticas passivas do mercado de trabalho e políticas de conciliação da vida familiar com o trabalho. As políticas de cuidado são fundamentais para a promoção da liberdade real no trabalho das mulheres. Remetendo ao aspecto do agente, a importância da liberdade real por voz é o terceiro ponto destacado. A promoção da liberdade real no trabalho por parte das PAMT depende da 31 liberdade real dos beneficiários em se expressarem e terem sua voz considerada nas decisões coletivas. O papel ativo dos beneficiários, assim como um relativo “grau de manobra” dos agentes locais, permite a identificação do que se considera um “trabalho valorizado” e o conhecimento das demandas de cada mercado de trabalho regional. As PAMT devem ser políticas até certo ponto feitas “sob medida” de maneira a promover efetivamente a liberdade real no trabalho. Uma PAMT que eleva a liberdade real no trabalho ou a capacitação no trabalho é denominada “capability-friendly” (Bonvin, 2012). Apesar de serem potencialmente “capability-friendly”, as políticas ativas efetivamente implantadas reúnem os fatores anteriormente discutidos em graus diferentes e, portanto, impactam em graus diferentes as liberdades reais no trabalho, podendo, inclusive, reduzi-las. Este último caso pode ser observado em políticas que incentivam a (re)inserção dos indivíduos condicionando o recebimento de benefícios sociais à sua participação no mercado de trabalho. A opção de não participar do mercado de trabalho, que, como vista anteriormente, é essencial para a liberdade real por voz e para a liberdade real no trabalho, seria eliminada, levando a uma redução da liberdade real dos trabalhadores (Bartelheimer et al., 2008), além de reduzir suas chances de adquirir maior qualificação e, posteriormente, melhor inserção no mercado de trabalho. A adaptação da força de trabalho às demandas do mercado e a moralização de seu comportamento também constituem medidas tomadas por PAMT que fogem do objetivo de promover as liberdades reais no trabalho. Os tipos de PAMT e seus impactos sobre as liberdades reais no trabalho serão discutidos no capítulo a seguir. 32 Capítulo 2 – Tipos de Políticas Ativas de Mercado de Trabalho e Liberdade Real no Trabalho Atualmente as PAMT integram as políticas de mercado de trabalho da maioria dos países desenvolvidos e consistem em um importante componente da European Employment Strategy (EES) (Bonoli, 2013; de la Porte e Jacobsson, 2012; Kluve, 2010). Esta difusão, no entanto, encobre a amplitude e a diversidade das políticas reunidas sob a nomenclatura de PAMT. Esta diversidade incentivou o desenvolvimento de uma variedade de classificações e tipologias (Torfing, 1999; Taylor-Gooby, 2004) que, em sua maioria, dividem as políticas entre “boas”, desenvolvedoras do capital humano do beneficiário, e “ruins”, que utilizam mecanismos negativos para a (re)inserção do indivíduo no mercado de trabalho (Bonoli, 2013). A partir da mesma lógica dicotômica, mas buscando abarcar em maior nível a complexidade que envolve a diversidade das PAMT, a classificação desenvolvida por Bonoli (2012, 2013) baseia-se em duas dimensões. A primeira dimensão diz respeito ao objetivo de colocar os indivíduos em empregos reais não subsidiados 6, enquanto a segunda dimensão refere-se às políticas que buscam investir no capital humano dos beneficiários. A partir destas duas dimensões e da interseção entre elas, o autor identifica quatro tipos de PAMT: política ativa de incentivo (incentive reinforcement), política ativa de assistência (employment assistance), política ativa de ocupação (occupation) e política ativa de qualificação (upskilling). Os modelos de políticas de mercado de trabalho implantados pelos países não adotam uma política ativa em particular, mas agregam uma diversidade de tipos (Bonoli, 2013). Apesar desta “mistura”, cada tipo de PAMT pode ser identificado com determinado grupo de países, permitindo a distinção de três regimes principais: nórdico, continental e anglo-saxão (Bonoli, 2013).7 8 O presente capítulo objetiva analisar o conjunto das PAMT em seus diferentes tipos, destacando sua variação geográfica e temporal, além de seus impactos sobre as liberdades 6 Bonoli (2013) define “emprego real não subsidiado” como trabalhos criados a partir de uma demanda por parte de empregadores privados ou públicos e não para absorver o excesso de oferta de trabalho. 7 Bonoli (2013) analisa as PAMT para quatro regimes: nórdico, continental, anglo-saxão e mediterrâneo. O autor inclui no regime nórdico, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia. O regime continental é formado por Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Holanda e Suíça. O regime anglo-saxão constitui-se de Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Irlanda, Reino Unido e Estados Unidos. O regime mediterrâneo inclui Grécia, Itália, Portugal e Espanha. A análise das PAMT para o último regime será realizada de maneira mais reduzida na conclusão deste capítulo, tendo em vista a reduzida importância destas políticas nos países mediterrâneos. 8 Os regimes utilizados por Bonoli (2013) se assemelham aos regimes de bem-estar social identificados por Esping-Andersen (1999), inclusive na composição dos países. 33 reais no trabalho. Para tanto o capítulo está dividido em cinco seções. As quatro primeiras abordam cada uma um tipo de PAMT, além de apresentar o regime que mais a utiliza e a trajetória de um dos países no desenvolvimento destas políticas. A última seção conclui o capítulo com uma análise sobre o impacto esperado dos diferentes tipos de PAMT sobre a liberdade real no trabalho, além de uma breve discussão sobre as políticas ativas nos países do regime mediterrâneo e nos países em desenvolvimento. 2.1 Política Ativa de Incentivo As políticas ativas de incentivo reúnem medidas que buscam elevar o incentivo ao trabalho dos indivíduos que recebem benefícios, sejam estes oriundos de políticas passivas de mercado de trabalho, como o seguro-desemprego, ou de políticas assistenciais, como benefícios para as famílias com filhos. Limitações do montante e do período de recebimento do benefício, condicionalidades do seu recebimento à inserção no mercado de trabalho e sanções ao não cumprimento das normas são alguns exemplos. Este tipo de política ativa é muitas vezes implantado com o objetivo de garantir a participação dos indivíduos desocupados em programas de outras PAMT, como cursos de qualificação ou IMO. As políticas ativas de incentivo podem ser efetivas em aumentar a probabilidade de emprego dos participantes (Kluve, 2010). Medidas de incentivo ao trabalho são encontradas em todos os regimes analisados, contudo são mais difundidas nos países do regime anglo-saxão (Card, Kluve e Weber, 2010). Através de um “índice de intensidade do incentivo ao trabalho” (index of work incentive intensity), Bonoli (2013) mostra que o regime anglo-saxão apresenta as políticas de incentivo mais fortes, seguido do regime nórdico. Dentro do regime anglo-saxão, o Reino Unido apresenta o segundo maior índice, atrás apenas da Austrália, país com incentivos ao trabalho mais intensos. O mercado de trabalho exerce papel fundamental no regime anglo-saxão, formado por Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Irlanda, Reino Unido e Estados Unidos. O baixo investimento em políticas públicas, caracterizadas por focalização, baixos benefícios por tempo limitado e fortes condicionalidades, torna o mercado de trabalho a principal fonte de bem-estar. O pleno emprego constitui um dos principais pilares deste regime (Kerstenetzky, 2012), com as PAMT possuindo importância relevante na sua manutenção. O baixo gasto com PAMT no regime anglo-saxão (0,32% do PIB em 2007) não significa um baixo 34 desenvolvimento das PAMT, mas a adoção de políticas menos custosas, como as políticas de assistência ao emprego e de incentivos (Bonoli, 2013). As políticas de mercado de trabalho inglesas caracterizam-se por elevada intensidade de incentivos ao trabalho, benefícios focalizados e sujeitos a teste de meios e baixo nível de regulamentação e proteção ao emprego (Bonoli, 2013). O estado de bem-estar “Beveridgiano” que se formou no Reino Unido após a Segunda Guerra Mundial passou a entender o desemprego como um fenômeno estrutural resultante da organização econômica, diferente da anterior responsabilização do indivíduo pela Lei dos Pobres (Deakin, 2009). O Estado tornouse o responsável por garantir o bom funcionamento do mercado de trabalho assegurando o acesso a este e garantindo o bem-estar individual em situações como desemprego, doença e velhice (Deakin, 2009). Sua interferência, entretanto, deveria ser a menor possível, implicando em benefícios focalizados e limitados ao nível de subsistência (Bonoli, 2013). O cenário econômico do final da década de 1970 acarretou no abandono da agenda keynesiana para a adoção da ideologia liberal, pautada em austeridade nos gastos e na estratégia de welfare to work no mercado de trabalho (Bonoli, 2013; de la Porte e Jacobsson, 2012). A estruturação desta estratégia passou por uma contínua redução dos benefícios do seguro-desemprego e uma intensificação das políticas de incentivo (Bonoli, 2013). Os critérios de elegibilidade para os benefícios foram reforçados, o indivíduo desempregado a mais de seis meses deveria provar que estava procurando emprego para continuar a recebê-los (Bonoli, 2013). O elevado desemprego, principalmente entre os jovens, na década de 1990 culminou na implantação em 1998, com grande apoio popular, de diversas PAMT, denominadas “New Deals” (Bonoli, 2013; Fraser, 2004). As políticas são focalizadas em alguns grupos de indivíduos vulneráveis, jovens entre 18 e 24 anos desempregados há mais de seis meses, desempregados de longo prazo com mais de 25 anos de idade, inativos com mais de 50 anos de idade, pais e mães solteiros e pessoas com deficiências, sendo o programa para os jovens aquele com maior orçamento (Fraser, 2004). O New Deal é constituído de políticas de assistência ao emprego, políticas de qualificação profissional (em menor medida) e políticas de incentivo. A principal medida, identificada com o primeiro tipo de PAMT, consiste em programas que reúnem aconselhamento individual, formulação de uma estratégia de ação pessoal, IMO e medidas voltadas para lidar com problemas sociais (Bonoli, 2013; Fraser, 2004). O New Deal para os jovens inclui o encaminhamento, após quatro meses de participação nos programas anteriores, para educação básica ou treinamento profissional, para um emprego temporário subsidiado ou 35 para um emprego temporário voluntário (not-for-profit kind) (Bonoli, 2013; Fraser, 2004). Estas medidas são acompanhas por políticas de incentivo, que condicionam o recebimento de benefícios à participação nos programas. O Reino Unido destina aproximadamente 55% do gasto com PAMT para as políticas de incentivo e de assistência ao emprego, figurando como o país europeu com maior importância desses tipos de PAMT (Kluve, 2010). As PAMT dos New Deals foram acompanhadas pela introdução do Working Families’ Tax Credit, mais tarde substituído pelo Working Tax Credit. A política consiste no reembolso de créditos fiscais a indivíduos elegíveis, além de subsídios para gastos com cuidado dos filhos (childcare) (Blundell et al., 2000). Inicialmente apenas casais com filhos ou pais solteiros com baixa renda e comprovadamente ocupados eram elegíveis ao programa, que foi expandido para abranger toda a população ocupada com baixa renda com mais de 16 anos (Blundell et al., 2000). A obrigatoriedade de estar trabalhando por um determinado número de horas semanalmente (definido conforme o perfil do indivíduo) em um trabalho pago faz do Working Tax Credit uma política passiva com importante componente de incentivo ao trabalho. 2.2 Política Ativa de Assistência ao Emprego As políticas de assistência ao emprego consistem em serviços que buscam aumentar as chances do indivíduo conseguir uma (re)colocação no mercado de trabalho através da eliminação ou redução de alguns obstáculos (Bonoli, 2012, 2013). Um exemplo característico são os serviços de IMO, que melhoram a troca de informações entre o empregador e o trabalhador que procura emprego facilitando a combinação (matching). Os programas de IMO apresentam impactos favoráveis sobre a duração do desemprego e a renda do trabalho, especialmente no curto prazo (Card, Kluve e Weber, 2010). Outros exemplos deste tipo de política são os programas de aconselhamento vocacional e os empregos subsidiados. Políticas ativas de cuidado também podem ser identificadas como políticas de assistência ao emprego, uma vez que eliminam uma importante barreira para a entrada no mercado de trabalho de indivíduos com filhos, principalmente as mulheres (Bonoli, 2013). Algumas políticas são voltadas para grupos específicos, como é o caso dos empregos subsidiados para jovens que buscam o primeiro emprego ou para indivíduos em situação de desemprego por um longo prazo. O principal papel das políticas de assistência ao emprego é promover e acelerar o contato entre o indivíduo desocupado e o mercado de trabalho, podendo ser identificadas 36 como complementares às outras PAMT. Por este motivo, este tipo de política é encontrado em todos os regimes, sendo particularmente mais desenvolvida nos regimes anglo-saxão e nórdico (Bonoli, 2013). 2.3 Política Ativa de Ocupação As políticas ativas de ocupação caracterizam-se por baixo investimento em capital humano e baixo incentivo para a colocação dos beneficiários em empregos reais não subsidiados. Seu objetivo consiste em manter os desempregados ocupados com determinada atividade, não necessariamente dentro do mercado de trabalho, prevenindo, desta forma, a deterioração do capital humano da força de trabalho (Bonoli, 2012, 2013). Alguns exemplos de políticas de ocupação são a criação de empregos públicos temporários ou em organizações sem-fins lucrativos e programas de treinamento sem impacto efetivo sobre o capital humano dos participantes. A redução da taxa de desemprego aberto é um dos impactos potenciais (nem sempre efetivados) das políticas de ocupação. Entretanto, a queda do desemprego não é resultado da inserção efetiva dos indivíduos no mercado de trabalho, mas decorre da diminuição da oferta de trabalho através da colocação dos indivíduos desocupados em atividades e empregos temporários à margem do mercado de trabalho. Apesar dos efeitos esperados, avaliações apontam que as políticas de criação direta de emprego frequentemente se apresentam prejudiciais para a probabilidade de emprego dos participantes (Kluve, 2010). As políticas de ocupação agem como atenuantes dos efeitos negativos do desemprego, possuindo um caráter semelhante ao das políticas passivas de mercado de trabalho. Entretanto, ao contrário destas, as políticas ativas de ocupação mantêm o indivíduo em contato com o mercado de trabalho, ainda que não inserido neste, além de não conferirem benefícios monetários. Os países do regime continental figuram como os principais utilizadores deste tipo de política ativa (Bonoli, 2013). O regime continental é heterogêneo em relação ao gasto em PAMT. Reunindo Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Holanda e Suíça, o investimento em PAMT em relação ao PIB varia entre níveis semelhantes ao regime nórdico, como o caso da Bélgica e da Holanda, com respectivamente 1,2% e 1,1% em 2007, e níveis de investimento mais baixos, mas ainda assim maiores que os observados entre os países anglo-saxões, como o caso da Suíça, que investiu 0,6% do PIB em políticas ativas em 2007 (Bonoli, 2013). Por outro lado, os países do regime continental compartilham características importantes no que diz respeito às PAMT. 37 A organização familiar tradicional, caracterizada pelo homem provedor e a mulher cuidadora e dona de casa (male-breadwinner female-carer model), encontra-se na base do modelo continental (de la Porte e Jacobsson, 2012). Como resultado, as políticas e estratégias sobre o mercado de trabalho baseiam-se principalmente na provisão de emprego estável para o homem chefe de família (Kerstenetzky, 2012). O resultado deste modelo familista é um mercado de trabalho marcado por importante desigualdade de gênero. O status ou posição ocupacional possui elevada importância no regime continental. Com base no “princípio da equivalência”, a distribuição dos benefícios deve ser equivalente à contribuição realizada pelo indivíduo durante seu período ativo (Bonoli, 2013; Kerstenetzky, 2012). Este mecanismo reforça as desigualdades no mercado de trabalho entre os “incluídos” (insiders), trabalhadores protegidos e em empregos estáveis e bem remunerados, e os “excluídos” (outsiders), trabalhadores desprotegidos e em empregos precários (Kersteneszky, 2012). A baixa mobilidade no mercado de trabalho, resultado do elevado grau de proteção ao emprego, intensifica esta segmentação, conferindo-lhe um aspecto permanente. As políticas que reforçam as desigualdades no mercado de trabalho, juntamente com a forte legislação de proteção ao emprego surgem como importantes fatores limitantes ao desenvolvimento de outras PAMT nos países do regime continental, entre os quais a Alemanha figura como principal exemplo. A criação de um sistema de seguridade social e a auto-regulação do mercado de trabalho alemão por parte de seus atores remonta ao final do século XIX (Bonoli, 2013). A defesa deste sistema pela conservação do modelo de família “homem provedor/mulher cuidadora” e da segmentação entre “incluídos” e “excluídos” no mercado de trabalho dificultou reformas e inclusão de novas políticas. O sistema de treinamento vocacional, desenvolvido no contexto da auto-regulação, caracterizava-se por ser um sistema dual, através do qual o trabalhador frequentava o treinamento profissional ofertado pelos empregadores dentro das empresas e, simultaneamente, a escola profissional pública (Bonoli, 2013). O Employment Promotion Act de 1969 modificou o cenário das PAMT na Alemanha ao introduzir o treinamento vocacional nas atribuições do sistema de seguro-desemprego (Bonoli, 2013). A nova legislação fortaleceu o papel das PAMT tornando o treinamento profissional responsabilidade do Estado e introduzindo programas de criação de emprego. Apesar destas mudanças, a resposta inicial ao desemprego gerado pelas crises da década de 1970 baseou-se em políticas passivas, principalmente em estratégias de aposentadoria precoce, que objetivam a redução do desemprego pela diminuição da oferta de trabalho, não se preocupando com um retorno, mesmo que futuro, ao mercado de trabalho. A partir de 38 meados da década de 1970, as políticas ativas de ocupação (criação de empregos e treinamento) passaram a ser utilizadas como medida para reduzir o desemprego através da diminuição da oferta de trabalho (Bonoli, 2013). No início dos anos 2000, a soma de um escândalo envolvendo a falsificação de estatísticas pelos agentes do Serviço Público de Emprego (SPE) alemão com um déficit orçamentário crônico e um baixo nível de eficiência do Serviço resultou na formação da Comissão Hartz, que apresentou propostas para a modernização do SPE e das políticas de mercado de trabalho em 2002 (Bonoli, 2013; Kemmerling e Bruttel, 2005). A implantação das medidas, conhecidas como Reforma Hartz, ocorreu ao longo dos três anos seguintes à publicação das propostas. Kemmerling e Bruttel (2005) classificam as medidas em três grupos: reforma do SPE alemão, reforma do sistema de seguro-desemprego e, em menor número, introdução de medidas de ativação para aumentar a participação no mercado de trabalho. As políticas de assistência ao emprego introduzidas pela Reforma Hartz trouxeram como característica um atendimento mais individualizado, utilizando como principal ferramenta o desenho do perfil do indivíduo desocupado através de entrevistas e questionários, que permitiam estimar suas necessidades (Kemmerling e Bruttel, 2005). A IMO passou a ser ofertada por uma combinação de agências públicas e privadas. Os indivíduos desempregados por mais de seis semanas possuem direito a um vale (voucher) para contratar os serviços de IMO de uma agência privada, que recebe o valor apenas mediante sucesso na colocação do indivíduo no mercado de trabalho (Kemmerling e Bruttel, 2005). A Personal Service Agentur (PSA), por sua vez, consiste em um conjunto de agências públicas de emprego temporário, visto como uma transição entre o desemprego e o trabalho estável. O emprego por conta-própria foi apontado como uma alternativa ao desemprego através da criação de um programa de estímulo ao microempreendedor (Bonoli, 2013; Kemmerling e Bruttel, 2005). O fortalecimento de políticas de incentivo foi outra medida tomada pela Reforma Hartz. Conforme a nova definição de “trabalho adequado” (suitable work), indivíduos desempregados por mais de um ano que recebem o benefício de desemprego (Unemployment Benefit II)9 são obrigados a aceitar qualquer trabalho que não seja ilegal, independente das 9 O Unemployment Benefit II, também criado na Reforma Hartz, resulta da junção do seguro desemprego de longo-prazo com o benefício assistencial aos indivíduos sem acesso ao seguro-desemprego. O resultado foi um benefício muitas vezes menor do que o anteriormente ofertado pelo seguro-desemprego de longo-prazo (Bonoli, 2013). 39 qualificações e ocupações anteriores do indivíduo e do salário ofertado, que pode ser inferior ao salário definido em acordos coletivos (Kemmerling e Bruttel, 2005). As diversas medidas da Reforma Hartz, acompanhadas por cortes no orçamento dos programas de treinamento profissional e de criação de emprego (Kemmerling e Bruttel, 2005), mostraram-se impopulares (Bonoli, 2013). A Reforma foi criticada tanto por ser reduzida frente à necessidade de mais reformas fundamentais quanto por ser muito ampla e aproximar demasiadamente o país da desregulamentação neoliberal, no entanto, alguns a vêem como o primeiro passo da Alemanha para fora da estagnação (Kemmerling e Bruttel, 2005). 2.4 Política Ativa de Qualificação Profissional A política ativa de qualificação profissional caracteriza-se por forte orientação para a inserção do indivíduo em empregos reais e forte investimento em capital humano, voltando-se principalmente para aqueles que não conseguiram auferir benefício líquido do sistema educacional ou cujas habilidades tornaram-se obsoletas (Bonoli, 2012, 2013). A inserção dos indivíduos no mercado de trabalho ocorre através da expansão de suas habilidades e capacidades (Bonoli, 2012; de la Porte e Jacobsson, 2012). Em meta-análise realizada para 137 avaliações de programas de PAMT de 19 países europeus, os programas de qualificação profissional apresentam baixa probabilidade de gerar impactos positivos significativos sobre as taxas de emprego após a participação no programa (Kluve, 2010). Por outro lado, as políticas ativas de incentivo e de assistência ao emprego mostram um melhor desempenho. Avaliações de impacto destes tipos de PAMT apresentam uma probabilidade de 30 a 50 pontos percentuais maior que as avaliações sobre programas de treinamento em estimar um impacto positivo significativo (Kluve, 2010). No entanto, outra meta-análise, esta realizada para 199 avaliações de programas de 26 países ao redor do mundo, mostra que os programas de qualificação profissional não são particularmente efetivos no curto-prazo (um ano), mas apresentam relativo impacto positivo após dois anos sobre aspectos da situação no mercado de trabalho (probabilidade de empregar-se, salário e duração da situação de desemprego) (Card, Kluve e Weber, 2010).10 10 Os programas de treinamento mostram uma probabilidade de apresentar impactos positivos e significativos sobre retornos do mercado de trabalho no curto-prazo (probabilidade de empregar-se, salário e duração da situação de desemprego) 4 pontos percentuais maior do que os programas com tipos de PAMT misturadas. Quando considerado o impacto no médio-prazo, os programas de treinamento apresentam uma probabilidade 74 pontos percentuais maior (Card, Kluve e Weber, 2010). 40 Para Kluve (2010), além do aumento do capital humano este tipo de política ativa também objetiva o aumento da produtividade e da empregabilidade dos participantes. A qualificação profissional é a PAMT mais comumente utilizada, sendo identificada pelo autor como a PAMT “clássica”. Além dos desocupados, principal público-alvo das PAMT, a qualificação profissional também pode beneficiar os indivíduos já inseridos no mercado de trabalho e que procuram melhorar a qualidade de seu trabalho através da qualificação ou que desejam mudar de atividade. As políticas de qualificação (upskilling) identificadas por Bonoli (2012, 2013) não reúnem todas as políticas de qualificação profissional, mas apenas aquelas que investem pesadamente no capital humano. Abrangem, portanto, programas de qualificação de longo prazo, que ampliam o capital humano, e não programas de curto prazo que visam apenas à manutenção deste capital, como é caso das políticas de ocupação analisadas anteriormente. Os cursos de qualificação podem fornecer uma formação geral ou uma formação específica (Kluve, 2010). Comparativamente aos outros regimes, os países do regime nórdico apresentam o maior desenvolvimento das políticas ativas de qualificação (Bonoli, 2013). Estas políticas são acompanhadas por políticas passivas de mercado de trabalho, generosas em relação ao valor e ao período do benefício, e políticas de conciliação da vida familiar com o trabalho, como os serviços públicos de cuidado (Kerstenetzky, 2012; Knotz, 2012). A combinação de PAMT é particularmente comum nos países nórdicos (Card, Kluve e Weber, 2010). O regime nórdico caracteriza-se por um elevado nível de investimento em PAMT, o gasto médio com PAMT em relação ao PIB é o mais elevado entre os quatro regimes, atingindo 0,98% do PIB em 2007, contra 0,88% do regime continental, 0,32% do regime anglo-saxão e 0,45% do regime mediterrâneo (Bonoli, 2013). As trajetórias das políticas de emprego dos países nórdicos, entretanto, são bastante diferentes entre si. A Suécia foi pioneira na utilização de PAMT com a implantação do modelo Rehn-Meidner no início da década de 1950. O modelo tinha como objetivo sustentar o pleno emprego alcançado na época da Segunda Guerra Mundial, além de promover a distribuição salarial igualitária, a modernização da indústria sueca e a redução e estabilização dos preços (Bonoli, 2012, 2013; Forslund e Krueger, 1997).11 11 O modelo Rehn-Meidner baseava-se em três pilares. O primeiro consistia em uma política solidária de salários, que objetivava a igualdade de pagamento para trabalhos iguais, independente do nível de produtividade de cada firma (Forslund e Krueger, 1997), gerando uma forte pressão igualitária na distribuição salarial (Bonoli, 2012, 2013). O segundo pilar era formado por um conjunto de políticas de estabilização voltadas à estabilização da inflação, entre as quais se destacava a política fiscal (Forslund e Krueger, 1997). Estas duas medidas 41 As PAMT implantadas pelo modelo Rehn-Meidner abrangiam políticas de qualificação profissional, de IMO e de criação de empregos públicos, além de políticas de incentivo. Estas últimas consistiam em condições para receber o benefício do seguro-desemprego. Os beneficiários deveriam procurar ativamente por um emprego e aceitar uma oferta de um trabalho adequado, a recusa de uma oferta de trabalho poderia levar à expulsão do segurodesemprego (Forslund e Krueger, 1997). A criação de empregos públicos temporários ganhou grande enfoque no país no decorrer das décadas de 1970 e 1980, aproximando as PAMT suecas das políticas de ocupação, características dos países do regime continental (Bonoli, 2013). A participação em PAMT passou a habilitar os indivíduos para novos períodos de seguro-desemprego (Forslund e Krueger, 1997). Diante destas mudanças as PAMT passaram a ter a função de reduzir a oferta de trabalho e o desemprego aberto, ao invés de promover a qualificação e a inserção efetiva dos indivíduos no mercado de trabalho. Diversas reformas e mudanças foram iniciadas na metade da década de 1990, fortalecendo a orientação pró-emprego das PAMT e caracterizando, para alguns autores, uma reorientação das PAMT suecas para o modelo original (Bonoli, 2013). A participação em programas de PAMT deixou de habilitar para o recebimento do seguro-desemprego e os trabalhadores desocupados por mais de cem dias passaram a poder ser exigidos a aceitar trabalho em qualquer lugar no país a um salário até 10% menor que o benefício do seguro (Bonoli, 2013). Apesar de a Suécia ser pioneira na utilização de PAMT, desde meados dos anos 2000 a OCDE e a European Comission defendem o modelo de flexiseguridade dinamarquês como o exemplo a ser seguido pelos países da UE (Chahad, 2009; de la Porte e Jacobsson, 2012). A ênfase da Dinamarca em políticas passivas (como esquemas de aposentadoria precoce) frente às crises dos anos 1970 e 1980 não foi eficiente na redução da taxa de desocupação, que alcançou 12% em 1993 (Bonoli, 2013; Chahad, 2009). O modelo de flexiseguridade surgiu em resposta ao elevado desemprego.12 As reformas, iniciadas em 1994, foram acompanhadas por um aumento do investimento em PAMT de 0,4% do PIB em 1980 incentivaram as indústrias suecas a buscar ganhos de produtividade através de investimento em tecnologia, impulsionando a modernização da indústria sueca. A falência de indústrias que não conseguiram acompanhar esse processo motivou a implantação de PAMT, o terceiro pilar do modelo. O papel das PAMT consistia no atendimento dos trabalhadores desempregados oriundos destas indústrias que, após participarem de programas de treinamento e qualificação profissional, conseguiam recolocar-se no mercado de trabalho (Bonoli, 2012, 2013; Forslund e Krueger, 1997). 12 O modelo de flexiseguridade tem origem em diversos acordos estabelecidos entre sindicatos de trabalhadores e representantes de empresas a partir do final do século XIX (Bonoli, 2013; Chahad, 2009). A tradição de cooperação entre os atores sociais foi uma característica importante na constituição deste modelo. 42 (um terço do investido pela Suécia no mesmo ano) para 1,3% do PIB em 2007 (0,2 pontos percentuais a mais do que investido pela Suécia) (Bonoli, 2013). O modelo de flexiseguridade reúne três elementos principais: um mercado de trabalho flexível, caracterizado por elevada mobilidade da força de trabalho e baixa proteção ao emprego, uma ampla rede de seguridade social, com benefícios de seguro-desemprego com alta taxa de reposição e longa duração, e um amplo conjunto de PAMT, com enfoque nas políticas de qualificação profissional (Chahad, 2009; Hendeliowitz, 2008). Apesar da baixa proteção ao emprego fazer uma grande parcela da população ser afetada pelo desemprego, aproximadamente 20% dos trabalhadores passa pela situação de desemprego a cada ano, a taxa de desemprego da Dinamarca é uma das menores entre os países da OCDE (Hendeliowitz, 2008). Este cenário é explicado pelo equilíbrio entre um mercado que favorece demissões e contratações e uma rede de políticas passivas e ativas que apóiam o indivíduo desocupado e proporcionam seu retorno efetivo ao mercado de trabalho. A baixa proteção ao emprego é contrabalançada por uma elevada proteção ao indivíduo (Chahad, 2009). A flexibilidade com segurança proporciona uma situação de ganho-ganho (win-win situation) tanto para as empresas, que podem ajustar rapidamente sua força de trabalho às flutuações econômicas sem importantes mudanças de custo, quanto para os trabalhadores, que tem o risco do desemprego coberto pela rede de seguridade social e são reinseridos no mercado de trabalho através de PAMT (Chahad, 2009). A taxa de reposição do segurodesemprego é elevada, cerca de 90% do salário anterior para indivíduos com baixa renda, com duração de quatro anos13 (Bonoli, 2013; Chahad, 2009). Após dois anos recebendo o benefício (seis meses no caso dos jovens), os desempregados possuem tanto o direito como a obrigação de participar das PAMT, como programas de treinamento e qualificação profissional (Bonoli, 2013). As PAMT do modelo de flexiseguridade são descentralizadas, individualizadas e enfatizam programas de qualificação profissional com foco no treinamento geral, mas também contam com políticas de incentivos, reforçadas ao longo da década de 1990 (Bonoli, 2013; Chahad, 2009). O modelo dinamarquês se apóia ainda no treinamento vocacional de longo-prazo (life-long learning) para trabalhadores não qualificados ou qualificados em condição de desocupação ou ocupação (Chahad, 2009). Com origem em 1960, o treinamento vocacional de longo-prazo é planejado e administrado pelas empresas e sindicatos e 13 A duração do benefício de seguro-desemprego era de sete anos em 1994, passando para cinco anos em 1996 e quatro anos em 1998 (Bonoli, 2013). 43 financiado pelo Estado, o que garante a prevalência de um treinamento mais geral do que específico (Chahad, 2009). 2.5 Tipos de Política Ativa de Mercado de Trabalho: Impacto Esperado sobre a Liberdade Real no Trabalho e Outras Considerações A análise da trajetória dos países em relação às políticas de emprego empreendida por Bonoli (2013) mostra que o cenário econômico e, consequentemente, a situação do mercado de trabalho vivida por cada país exerce forte influência na escolha das políticas adotadas. As crises das décadas de 1970 e 1980 e a consequente elevação das taxas de desemprego culminaram na adoção de políticas ativas de ocupação por grande parte dos países europeus, inclusive aqueles pertencentes ao regime nórdico. A redução do desemprego continuou a ser o objetivo das PAMT, entretanto este resultado não seria alcançado via (re)inserção dos beneficiários em empregos não subsidiados, mas prioritariamente através da redução da oferta de trabalho por políticas ativas de ocupação. Além destas, uma ampla política de aposentadoria precoce foi adotada pelos países do regime continental. Importantes transformações no mercado de trabalho e na economia em geral marcaram a década de 1990. A globalização e o consequente aumento da competição internacional geraram uma corrida por ganhos de produtividade e um processo de contínua transformação tecnológica, elevando a demanda por uma força de trabalho qualificada e com conhecimentos atualizados. A precarização das relações de trabalho tornou-se uma realidade preocupante. Diante deste quadro iniciou-se uma mudança de orientação das políticas de emprego de grande parte dos países desenvolvidos para a ativação da força de trabalho, processo denominado por Bonoli (2013) como “activation turn”. O regime nórdico apresentou a partir da década de 1990 um maior desenvolvimento das políticas ativas de qualificação, principalmente na Dinamarca, e uma ampliação das políticas ativas de incentivo e de assistência ao emprego. Atreladas a estas se encontram políticas passivas de mercado de trabalho amplas e generosas e políticas de conciliação da vida familiar com o trabalho, como as políticas públicas de cuidado. A orientação para a ativação no regime anglo-saxão, por sua vez, caracterizou-se pela adoção de políticas ativas de qualificação, de assistência ao emprego e de incentivo, com grande ênfase no último tipo. Soma-se a este quadro políticas passivas de mercado de trabalho pouco generosas em termos do montante do benefício e do período de recebimento, além de um baixo investimento em políticas públicas de conciliação da vida familiar com o trabalho. 44 As características sociais e institucionais dos países do regime continental tornam lenta a mudança de orientação das políticas de emprego para a ativação. No entanto, esta vêm ocorrendo ao longo da última década, com aumento das políticas de incentivo e de assistência ao emprego. A mudança de orientação das PAMT ao longo das décadas indica que o cenário da economia em geral e do mercado de trabalho em particular são determinantes na escolha da política a ser adotada. A (re)inserção do beneficiário no mercado de trabalho, por mais desenvolvida, generosa e ampla que seja a PAMT, depende da disponibilidade de vagas, ou seja, da demanda por trabalho. Partindo desta consideração, a adoção das políticas ativas de ocupação ocorreria em períodos de reduzida demanda por mão de obra, como nas crises que permearam as décadas de 1970 e 1980. Neste cenário de escassez de oferta de vagas, a criação de empregos públicos e a colocação dos indivíduos em atividades marginalmente ligadas ao mercado de trabalho surgem como mecanismos para manter a força de trabalho ativa ou socialmente inserida enquanto aguarda pela recuperação da demanda por trabalho não subsidiado. As políticas ativas de qualificação, por outro lado, seriam adotadas em períodos nos quais há demanda por mão de obra, principalmente qualificada. A partir da qualificação profissional os beneficiários conseguiriam inserir-se em um primeiro emprego, sair da situação de desemprego, mudar de atividade ou mesmo acompanhar as mudanças tecnológicas da atividade que exerce. A presença de políticas de incentivo e de assistência ao emprego, apesar de serem observadas ao longo de todas as décadas, recebem maior relevância em períodos de maior busca pela colocação dos indivíduos em empregos reais não subsidiados. No que concerne aos impactos das PAMT sobre os resultados no mercado de trabalho dos beneficiários (redução do desemprego e aumento da renda do trabalho), há pouco consenso acerca da efetividade destes impactos, assim como qual seria o melhor tipo de política ativa (Kluve, 2010). No entanto, as meta-análises realizadas por Card, Kluve e Weber (2010) e Kluve (2010) indicam algumas conclusões. Os programas de criação direta de emprego, característicos da política ativa de ocupação, mostram uma probabilidade significativamente menor de apresentar efeitos de tratamento positivos (menor em 24,8 pontos percentuais) e uma probabilidade significativamente maior de apresentar efeitos negativos (maior em 17,4 pontos percentuais) em relação aos programas de política ativa de qualificação (Kluve, 2010). Os programas das políticas ativas de incentivo e de assistência ao emprego, por sua vez, apresentam 45 probabilidade significativamente maior de apresentar efeitos de tratamento positivos (maior em 44,1 pontos percentuais) e uma probabilidade significativamente menor de apresentar efeitos negativos (menor em 19,5 pontos percentuais) em relação aos programas de política ativa de qualificação (Kluve, 2010). Estes resultados são corroborados por Card, Kluve e Weber (2010), contudo apenas no curto-prazo. Os autores concluem que, apesar dos programas de assistência ao emprego se apresentarem mais efetivos que os programas de qualificação profissional no curto prazo, os ganhos de políticas que ampliam o capital humano são maiores quando considerados horizontes de avaliação mais longos. No entanto, como apresentado e discutido no primeiro capítulo, os impactos das PAMT sobre os beneficiários vão além das variáveis comumente utilizadas nas avaliações de impacto, como o desemprego e a renda do trabalho. Dessa forma, além dos efeitos identificados no parágrafo anterior, as PAMT podem impactar a liberdade real no trabalho dos indivíduos. Do ponto de vista da promoção da liberdade real no trabalho, não existe uma dicotomia entre políticas que permitem uma total liberdade e políticas que acarretem em uma total privação desta, mas sim uma gradação. Cada tipo de PAMT deve ser, portanto, analisada em separado. As políticas de incentivo se espalham por todos os países dos três regimes analisados. Apesar de apresentarem maior peso entre os países do regime anglo-saxão, tanto em termos de gastos quanto em termos de intensidade, a importância desse tipo de política ativa cresceu em todos os regimes ao longo ao longo do “activation turn”. A ideia que permeia estas políticas, de acordo com Jenson (2012), é de que “qualquer trabalho é um bom trabalho” (“any job is a good job”). As chances de escolha ocupacional dos beneficiários podem ser reduzidas pelas políticas de incentivos (Kerstenetzky, 2012). Condicionar o recebimento de benefícios à participação no mercado de trabalho ou reduzir as alternativas a esta resulta em uma redução da liberdade individual de escolha do trabalho que o indivíduo valoriza, uma vez que este se verá forçado, direta ou indiretamente, a retornar rapidamente ao mercado de trabalho, independente da qualidade do emprego no qual se colocará. Além disso, adaptar a mão de obra moralizando seu comportamento14 não corresponde a um aumento das liberdades reais individuais (Bonvin e Orton, 2009), mas sim a uma diminuição destas, tendo em vista a eliminação da alternativa de não participar do mercado de trabalho (Bartelheimer et al., 2008). 14 Julgamentos e expectativas morais sobre os beneficiários das PAMT acabam levando a abordagens punitivas e à percepção do indivíduo desocupado como “passivo” (Bonvin e Orton, 2009). Neste sentido, a ativação dos beneficiários corresponderia a uma mudança (forçada) de um comportamento “passivo” para um comportamento “ativo” moralmente mais aceito. 46 Semelhante às políticas de incentivo, as políticas ativas de assistência ao emprego permeiam todos os regimes. Além de apresentarem uma forte orientação para a efetiva inserção do indivíduo no mercado de trabalho, as políticas de assistência permitem que os indivíduos utilizem seu capital humano de uma melhor maneira, podendo, inclusive, elevar modestamente esse capital (Bonoli, 2013). O melhor uso do capital humano é resultado da eliminação de obstáculos para a entrada no mercado de trabalho, que tem como consequência a ampliação das oportunidades reais de trabalho acessíveis, ou seja, da liberdade real no trabalho do beneficiário. As políticas ativas de ocupação, bastante utilizadas pelos países do regime continental, indicam, por sua vez, um impacto potencial menor na promoção da inserção efetiva dos desempregados no mercado de trabalho. Ao manter inalterado o conjunto individual de oportunidades reais no mercado de trabalho, este tipo de política ativa sustentaria as desigualdades de liberdade real no trabalho que atingem os grupos de trabalhadores mais vulneráveis, formados pelas mulheres, desempregados de longo prazo, jovens, idosos, indivíduos com baixa escolaridade e imigrantes, os “excluídos” do regime continental. O último tipo de PAMT analisado, a política ativa de qualificação, expandiria e atualizaria as habilidades dos beneficiários através do investimento em capital humano, ampliando o conjunto de trabalhos (reais não subsidiados) que este podem efetivamente exercer. Dessa maneira, as políticas de qualificação poderiam contribuir de forma relevante para a promoção da liberdade real no trabalho. Avaliando os tipos de PAMT, idealmente as políticas de qualificação possuem maior grau de promoção de liberdade real no trabalho, enquanto as políticas de incentivo encontramse no outro extremo, com menor grau de promoção da liberdade real no trabalho. As políticas de assistência ao emprego e de ocupação encontram-se entre as duas pontas. A análise dos tipos de PAMT permite uma primeira avaliação do impacto das políticas sobre a liberdade real no trabalho. Entretanto, como visto ao longo do capítulo, os tipos de política ativa não são implantados de maneira isolada pelos países. Diferentes formas de interação entre as PAMT e outras políticas de mercado de trabalho, e também outras políticas públicas, acarretam em diferentes impactos sobre a liberdade real no trabalho dos beneficiários. A orientação para a ativação no regime anglo-saxão caracterizou-se pela adoção de políticas ativas de qualificação, de assistência ao emprego e de incentivo, com grande ênfase no último tipo. Soma-se a este quadro políticas passivas de mercado de trabalho pouco generosas em termos do montante do benefício e do período de recebimento, além de um 47 baixo investimento em políticas públicas de conciliação da vida familiar com o trabalho. O regime anglo-saxão, representado pelo Reino Unido, apresenta uma estrutura de PAMT, políticas passivas e políticas sociais em geral pouco favorável à liberdade real no trabalho. A integração das PAMT com políticas passivas generosas e outras políticas sociais encontrada no regime nórdico, além de ser fundamental para as elevadas taxas de emprego e o financiamento de serviços sociais universais de alta qualidade (de la Porte e Jacobsson, 2012), possui papel essencial na promoção da liberdade real no trabalho. Neste sentido, o regime nórdico pode ser visto como promotor da liberdade real no trabalho. Apesar de o regime nórdico apresentar um elevado índice de intensidade de incentivo ao trabalho (Bonoli, 2013), os países deste regime apresentam um equilíbrio entre as políticas de incentivo e as outras políticas ativas e passivas de mercado de trabalho. No trabalho desenvolvido por Knotz (2012), o regime nórdico exibe os maiores índices de “enablement” (habilitar/capacitar) e os menores índices de “enforcement” (coação) (com exceção da Noruega) em relação aos outros dois regimes identificados (Continental e Anglo-Saxão), apresentando, portanto, um equilíbrio entre responsabilidades e direitos. O desenvolvimento das políticas de mercado de trabalho para a ativação do indivíduo verificado na maior parte dos países desenvolvidos não ocorreu nos países identificados por Bonoli (2013) como pertencentes ao regime mediterrâneo, Grécia, Itália, Portugal e Espanha. Estes países apresentam os menores níveis de investimento em PAMT em relação ao PIB, inclusive em comparação com o regime anglo-saxão (Bonoli, 2013). Este cenário reflete o atraso destes países no desenvolvimento de uma agenda de ativação de sua força de trabalho. Apesar de algumas tentativas de implantação de PAMT nos países mediterrâneos, estas se mostraram pouco abrangentes e eficazes. O aumento da taxa de participação é conquistado através do relaxamento da legislação trabalhista para permitir outros tipos de contrato, como trabalhos temporários e de jornada parcial, resultando em uma segmentação entre os incluídos e os excluídos de empregos de qualidade. O regime mediterrâneo baseia-se em políticas passivas de mercado de trabalho, destacadamente em pensões por idade, apresentando o menor índice de incentivo ao trabalho entre os quatro regimes (Bonoli, 2013). A grande relevância e valorização das políticas passivas e do modelo familiar tradicional atrapalham a adoção de PAMT amplas. Os países desenvolvidos não são os únicos a utilizarem as PAMT como estratégia no combate ao desemprego. Países em desenvolvimento também apresentam sistemas de mercado de trabalho que contam com políticas ativas para reduzirem suas elevadas taxas de desemprego. Os sistemas de emprego dos países do MERCOSUL incluem PAMT de todos os 48 tipos.15 As políticas ativas são executadas pelos Estados de maneira descentralizada e focalizada, com a participação da iniciativa privada e do terceiro setor. No que diz respeito às políticas ativas de assistência ao emprego, o Paraguai possui um modelo de IMO semelhante ao do Brasil, ao passo que a Argentina e o Uruguai não possuem um sistema de IMO efetivamente implantado (Cacciamali, 2005). As políticas ativas de ocupação foram implantadas na forma de criação de empregos públicos temporários pela Argentina e Uruguai no início dos anos 2000 com o objetivo de frear o aumento da pobreza (Cacciamali, 2005). A reestruturação produtiva da indústria dos países do grupo, resultado do processo de liberalização econômica ao longo da década de 1990, acarretou em mudanças nos sistemas de qualificação profissional, de maneira a torná-los mais abrangentes (Cacciamali, 2005). No entanto, a baixa escolaridade da população dos países levou muitas vezes as políticas de qualificação profissional a apenas cobrir uma falha do sistema de educação básico (Cacciamali, 2005). Os países em desenvolvimento, ao contrário dos países desenvolvidos, apresentam poucas evidências sobre os impactos das PAMT, e particularmente das políticas ativas de qualificação profissional, nos resultados do mercado de trabalho (Betcherman et al., 2004; Reis, 2012). Entretanto, a (reduzida) amostra de estudos permite algumas avaliações preliminares. O maior mercado informal pode limitar o impacto das PAMT sobre a criação de emprego formal e aumento de salários. Por outro lado, algumas políticas de qualificação de países em desenvolvimento voltadas para jovens apresentam impactos mais positivos que o mesmo tipo de política em países desenvolvidos, devido, em parte, à escassez de oferta de mão de obra qualificada (Betcherman et al., 2004). Partindo da observação dos casos dos países em separado percebe-se que a estruturação das políticas e o impacto destas, mesmo sendo do mesmo tipo e no mesmo regime, são particulares a cada país. Além disso, os países em desenvolvimento, nos quais se inclui o Brasil, apresentam características próprias que tornam o impacto das PAMT diferente do observado nos países desenvolvidos. Os dois capítulos a seguir se dedicarão, portanto, a analisar o impacto das PAMT implantadas no Brasil, particularmente da política de qualificação profissional, sobre a liberdade real no trabalho. 15 Estão sendo considerados os países membros desde 1991, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A Venezuela é membro do MERCOSUL desde 2012. 49 Capítulo 3 – Políticas Ativas de Mercado de Trabalho no Brasil: Cenário e Proposta de Avaliação A análise das PAMT sob a abordagem das capacitações traz à tona questões muitas vezes ignoradas por perspectivas mais convencionais. A introdução do conceito de liberdade real no trabalho permitiu avaliar de maneira mais abrangente o impacto destas políticas sobre a situação do indivíduo no mercado de trabalho. A política ativa de qualificação profissional figura como uma política com grande potencial de promoção da liberdade real no trabalho. O momento vivido pelo Brasil, de escassez de mão de obra qualificada frente a um ainda grande contingente de desempregados e trabalhadores em ocupações precárias, faz da política de qualificação profissional uma política com papel importante. Entretanto, seu impacto efetivo sobre os indicadores de mercado de trabalho e sobre a liberdade real no trabalho depende de diversos aspectos, relativos tanto aos indivíduos beneficiados quanto à estrutura da própria política. Diante disto, o presente capítulo objetiva analisar a estrutura institucional e orçamentária das PAMT do Brasil, destacando a política ativa de qualificação profissional, e definir a metodologia a ser utilizada na avaliação do impacto da qualificação profissional sobre a liberdade real no trabalho dos indivíduos participantes (realizada no Capítulo 4). Para tanto o presente capítulo está dividido em três seções, além desta introdução. A primeira seção aborda as políticas ativas de qualificação profissional no Brasil, detalhadas no âmbito do Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda (SPETR) e seus componentes. A segunda seção dedica-se à descrição da metodologia utilizada na avaliação da qualificação profissional no Brasil. A terceira e última seção traz as principais conclusões do capítulo. 3.1 Política Ativa de Qualificação Profissional no Brasil O impacto das PAMT e da política ativa de qualificação profissional, em particular, sobre a liberdade real no trabalho é determinado em grande parte pelo desenho destas políticas, como observado na análise realizada no capítulo anterior acerca das PAMT de diversos países desenvolvidos. Esta seção busca identificar e discutir as características das PAMT e, principalmente, da política ativa de qualificação profissional do Brasil. Primeiramente será apresentado o SPETR e as políticas de mercado de trabalho abrangidas por este. A seguir serão apresentados e discutidos os principais planos de qualificação profissional do Brasil, destacando tanto melhorias realizadas ao longo dos anos quanto 50 algumas críticas. Por último será detalhado o financiamento das políticas de mercado de trabalho no Brasil. 3.1.1 Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda - SPETR O SPETR abrange as principais políticas públicas de mercado de trabalho implantadas no Brasil. Construído ao longo das décadas de 1970 e 1980 e consolidado na década de 1990 (Cardoso Jr. et al., 2006; Machado e Neto, 2011), o SPETR acompanha a lógica dos sistemas de emprego dos países centrais, reunindo políticas passivas e ativas de mercado de trabalho. O Programa Seguro-Desemprego (PSD), instituído em 1990, é formado por três segmentos de políticas de mercado de trabalho – o seguro-desemprego, a intermediação de mão de obra (IMO) e a qualificação profissional – com a finalidade de fornecer assistência financeira temporária ao trabalhador demitido sem justa causa e auxiliar os trabalhadores na busca ou preservação do emprego. A implantação de políticas ativas atreladas à política passiva do seguro-desemprego indica uma percepção das necessidades dos trabalhadores para além da esfera financeira, constituindo um importante avanço das políticas de mercado de trabalho no país. Os serviços de IMO e qualificação profissional eram anteriormente de responsabilidade do Sistema Nacional de Emprego (SINE), criado em 1975 para atender as determinações da OIT (Organização Internacional do Trabalho) (Cardoso Jr. et al., 2006). A falta de uma fonte de financiamento estável (o SINE deveria ser financiado pelo Fundo de Assistência ao Desempregado (FAD), que não contava com receita vinculada) é apontada como um dos motivos para a baixa eficiência dos serviços, principalmente da qualificação profissional (Cardoso Jr. et al., 2006), problema revertido com a criação do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), discutido a frente. Com a criação do PSD, o SINE tornou-se o responsável pela execução das ações do programa, que incluem o serviço de IMO e o encaminhamento para a qualificação profissional, além do apoio operacional ao pagamento do benefício de seguro-desemprego e ao Programa de Geração de Emprego e Renda (PROGER). As ações do PSD pelo SINE seguem o princípio da descentralização, sendo executadas a partir da articulação entre União, estados e municípios. Criado em 1986 como parte do Plano Cruzado 16, o seguro-desemprego inicialmente previa a assistência financeira temporária apenas para o trabalhador formal desempregado e já 16 Sobre o Plano Cruzado ver Modiano (1990). 51 atribuía ao SINE a recolocação e requalificação dos beneficiários (Cardoso Jr. et al., 2006). A ampliação da abrangência do seguro-desemprego ao longo da década de 1990, alcançando uma cobertura de mais de 95% dos requerentes, resultou do maior acesso do público inicialmente coberto – os trabalhadores formais – e da expansão do direito para outros setores do mercado de trabalho, como o pescador artesanal (1992), o trabalhador doméstico (2001) e o trabalhador resgatado de condição análoga à de escravo (2003) (Machado e Neto, 2011). Entretanto, ainda é expressiva a proporção de trabalhadores sem direito ao segurodesemprego, tendo em vista o elevado grau de informalidade do mercado de trabalho brasileiro, aproximadamente 34% em 2012 (IPEA, 2013). A IMO, segunda política incluída no PSD, pode ser identificada dentre os tipos anteriormente apresentados de PAMT como uma política ativa de assistência ao emprego, cujo objetivo consiste em (re)colocar o trabalhador no mercado de trabalho, reduzindo os custos e o tempo de espera tanto para o trabalhador, quanto para o empregador. A oferta pública do serviço de intermediação 17 é executada pelas agências do SINE, tendo como público alvo os trabalhadores em geral, desempregados ou em busca de nova ocupação, pessoas com deficiência, idosos, pessoas que buscam o primeiro emprego e empregadores da iniciativa privada ou governamental. 18 A atenção simultânea a todos os trabalhadores, mas com dedicação especial aos grupos mais vulneráveis amplia a capacidade de identificar e prover as necessidades reais dos beneficiários e, portanto, promover sua liberdade real no trabalho. As políticas ativas de assistência ao emprego, dentre as quais se encontra a IMO, ampliam a liberdade real no trabalho ao proporcionar um melhor uso do capital humano dos beneficiários. Entretanto, a baixa atratividade do serviço de IMO prestado pelo SINE para os empregadores e trabalhadores – que consideram a rede de contatos pessoal mais eficaz na obtenção de um emprego – e a baixa qualificação e remuneração das ocupações mais ofertadas (Marinho, Balestro e Walter, 2010) colocam em questão a capacidade desta política em ampliar o conjunto de escolhas dos trabalhadores brasileiros e promover sua liberdade real no trabalho. O reduzido grau de matching (razão entre trabalhadores colocados e trabalhadores inscritos) da IMO promovida pelo SINE corrobora esta visão. Em 2007, apenas 27% dos 17 A IMO é um serviço ofertado por agências privadas e públicas no Brasil. A regulação da oferta privada é de responsabilidade do MTE, contudo não há lei que regulamente a conduta das agências (Cardoso Jr. et al., 2006). 18 O público que efetivamente procurou o serviço de IMO no SINE em 2010 era formado majoritariamente por homens (53,3%), brancos e pardos (62,3%), com 20 a 39 anos de idade (51,9%) e com ensino médio completo (39,5%). Este perfil foi reproduzido entre os trabalhadores inscritos no SINE que conseguiram uma colocação no mercado de trabalho (DIEESE, 2011). 52 trabalhadores que buscaram o SINE para conseguir uma colocação no mercado de trabalho alcançaram seu objetivo (Marinho, Balestro e Walter, 2010). Analisando o grau de matching de cada grupo demográfico observa-se que este é menor para as mulheres, os jovens e os idosos, resultados que reforçam a importância da focalização dentro da IMO, além de sua integração com outras políticas e serviços públicos. A qualificação profissional foi o último tripé do PSD a ser consolidado. Apesar de a educação profissional existir no Brasil desde a década de 1940, as políticas de qualificação profissional passaram a receber maior importância no Brasil a partir da década de 1990 (Cardoso Jr. et al., 2006). Com a reestruturação produtiva e a busca das empresas por aumentos de produtividade, as políticas de qualificação também passaram a ter um papel relevante frente ao aumento do desemprego e da precarização da força de trabalho (Machado e Neto, 2011). É apenas com a criação do Plano Nacional de Formação Profissional (PLANFOR) que a qualificação profissional torna-se acessível aos trabalhadores em geral e integrada com outras políticas de mercado de trabalho (Cardoso Jr. et al, 2006). 3.1.2 Plano Nacional de Formação Profissional e Plano Nacional de Qualificação – PLANFOR e PNQ O PLANFOR foi instituído em 1996 com o objetivo de (re)qualificar anualmente ao menos 20% da população economicamente ativa (PEA) até o ano de 2002, abrangendo habilidades básicas, específicas e de gestão (Cardoso, Façanha e Marinho, 2002; MTE, 2003; Tartuce, 2009). Outros objetivos do plano eram elevar a escolaridade da PEA, contribuir para a redução das desigualdades sociais e regionais e combater todas as formas de discriminação (Tartuce, 2009). A extensão do público-alvo do PLANFOR para além dos trabalhadores formais, agregando desempregados, trabalhadores informais, pequenos produtores, jovens, mulheres, pessoas com deficiência, entre outros, introduziu nas políticas de trabalho e emprego do Brasil a preocupação com grupos vulneráveis no mercado de trabalho, representando uma inovação do plano (Cardoso Jr. et al, 2006, Machado e Neto, 2011). As ações de qualificação do PLANFOR, financiadas pelo FAT e geridas pela Secretaria de Formação e Desenvolvimento Profissional (SEFOR) do Ministério do Trabalho (MTb), eram implementadas e executadas de maneira descentralizada pelas Secretarias Estaduais de Trabalho em convênio com o MTb através dos Planos Estaduais de Qualificação (PEQs), coordenados pelas Secretarias Estaduais de Trabalho, e através das Parcerias Nacionais e 53 Regionais (PARCs) baseadas em convênios entre o MTb e a rede de educação profissional 19 (Batista, 2009; Cardoso, Façanha e Marinho, 2002; Cardoso Jr. et al, 2006; Castioni, 2009; Peixoto, 2008). A definição das ações do PLANFOR considerando as características dos mercados de trabalho regionais seria condição necessária para a efetiva (re)inserção da PEA no mercado de trabalho (Bulhões, 2004). Esta descentralização é um aspecto importante na promoção das liberdades reais no trabalho por permitir o ajuste da política de qualificação às características dos mercados de trabalho estaduais. Em termos de abrangência, o PLANFOR apresentou bons resultados relativos, apesar de não alcançar a meta inicialmente proposta. A quantidade de inscritos em cursos de qualificação elevou-se de 1,2 milhões de educandos em 1996 para quatro milhões em 2001 – respectivamente 1,71% e 4,97% da PEA – e os recursos disponibilizados pelo FAT aumentaram de R$ 295 milhões em 1996 20 para R$ 493 milhões em 2001 (Cardoso, Façanha e Marinho, 2002; MTE, 2003). Contudo, a formação promovida pelo plano é identificada em diversas avaliações como uma formação rápida que não fornece as competências demandadas, preparando, em grande parte dos casos, apenas para uma inserção na informalidade (Tartuce, 2009). O ano de 1999 trouxe à tona as fragilidades do PLANFOR. Denúncias de irregularidades na execução das ações pelos estados culminaram na redução dos recursos disponibilizados e, consequentemente, na diminuição da carga horária dos cursos de 150 horas para 60 horas (Cardoso Jr. et al, 2006; Castioni, 2009; MTE, 2003). O desgaste institucional e político e a consequente perda da qualidade dos cursos levou à extinção do PLANFOR e à sua substituição pelo Plano Nacional de Qualificação (PNQ) em 2003. O PNQ manteve diversos objetivos estabelecidos pelo PLANFOR. Parte dos quais foram incorporados como desafios para o novo plano, uma vez que o PLANFOR demonstrou dificuldades no seu cumprimento. Alguns destes objetivos não plenamente alcançados pelo PLANFOR eram: a integração com o sistema de educação básica (Tartuce, 2009) e com as outras políticas do PSD, o aumento da probabilidade de obtenção de emprego, inclusão social, 19 Constituem a rede de formação profissional no Brasil: os sistemas de ensino técnico federal, estadual e municipal, as universidades públicas e privadas, o Sistema S, os sindicatos de trabalhadores, as escolas e fundações de empresas e as organizações não-governamentais (Cardoso Jr. et al, 2006, Tartuce, 2009). Os Serviços Nacionais Sociais e de Aprendizagem ou Sistema S compreendem: Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Serviço de Aprendizagem Rural (Senar), Serviço Nacional de Aprendizagem no Transporte (Senat) e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O Sistema S é gerido autonomamente em relação ao governo e financiado majoritariamente por contribuições sobre a folha de salários, mas executa ações específicas de emprego e renda financiadas com recursos públicos (Cardoso Jr. et al., 2006). 20 Valor atualizado para reais de janeiro de 2001 pelo IPCA. 54 redução da pobreza e combate à discriminação, aumento da probabilidade de permanência no trabalho e elevação da produtividade (Bulhões, 2004). Outros objetivos do PLANFOR mantidos pelo PNQ foram alcançados de maneira bem-sucedida pelo primeiro plano: estabelecimento de um público-alvo prioritário formado por grupos inseridos de maneira mais precária no mercado de trabalho, participação dos governos e da sociedade civil na definição das ações de qualificação e na execução dos cursos, participação das comissões estaduais e municipais de emprego (Bulhões, 2004). O PNQ buscou ainda superar os problemas do plano antecessor através de maior fiscalização e da definição de critérios mínimos de qualidade. No que tange à qualidade dos cursos, o PNQ instituiu uma carga horária média mínima de duzentas horas de ações formativas, que agregam cursos, seminários, oficinas, laboratórios e outras (MTE, 2003). A carga horária média dos cursos do PNQ aumentou desde sua implementação, atingindo 204,2 horas em 2007, indicando uma melhora da qualidade dos cursos (Cardoso Jr. et al, 2006; DIEESE, 2011). Os anos de 2008 e 2009, entretanto, apresentaram uma redução da carga horária média dos cursos (para 194,6 e 186 horas, respectivamente) seguidos por um ligeiro aumento em 2010 (187,9 horas) (DIEESE, 2011). A execução do PNQ é efetuada através de três planos: PlanTeQs, ProEsQs e PlanSeQs. Os Planos Territoriais de Qualificação (PlanTeQs) consistem em convênios com as Secretarias Estaduais de Trabalho ou com os Arranjos Institucionais Municipais (MTE, 2003). A possibilidade do desenvolvimento de planos de qualificação com municípios com mais de um milhão de habitantes representa uma inovação do PNQ e traduz uma maior preocupação com a articulação da política com as necessidades regionais. A segunda forma de execução das ações de qualificação consiste nos Projetos Especiais de Qualificação (ProEsQs), que “contemplam a elaboração de estudos, pesquisas, materiais técnico-didáticos, metodologias e tecnologias de qualificação social e profissional” (MTE, 2003, p. 39) em território regional ou nacional. Os Planos Setoriais de Qualificação (PlanSeQs), instituídos em 2004, agem sobre demandas emergenciais, estruturais ou setoriais (Castioni, 2009). As iniciativas no âmbito dos PlanSeQs envolvem os setores da construção civil e do turismo, assim como ações focalizadas nos beneficiários do Programa Bolsa Família e nas trabalhadoras domésticas. Em 2009, os PlanSeQs ultrapassaram os PlanTeQs em termos de quantidade de inscritos, atingindo 113.935 inscritos em 2010, contra 67.780 dos PlanTeQs (DIEESE, 2011). Apesar dos avanços em relação ao PLANFOR, o PNQ apresenta aspectos que indicam diversas fragilidades da política de qualificação profissional no Brasil. A concentração do público atendido entre os trabalhadores formais inscritos no seguro-desemprego é um dos 55 aspectos criticados por Marinho, Balestro e Walter (2010). Por outro lado, dados acerca da distribuição dos inscritos em cursos do PNQ em 2010 apresentam uma focalização destes em mulheres e jovens (DIEESE, 2011). O PNQ encontra-se ainda distante da meta de universalizar a qualificação profissional no Brasil. Na pesquisa de opinião realizada com egressos do PNQ 2007 em todo o Brasil, menos de 20% declararam ter passado a trabalhar na área do curso (Marinho, Balestro e Walter, 2010). Quando questionados sobre qual o motivo para participar do curso de qualificação a maioria dos egressos respondeu que buscava “conseguir uma colocação e melhorar suas condições de trabalho”. Contudo quase metade dos entrevistados declarou que nada mudou após o curso, sendo a proporção maior entre mulheres e alunos do Nordeste (Marinho, Balestro e Walter, 2010). Diante desses resultados questiona-se o efetivo impacto dos cursos ofertados pelo PNQ sobre as oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Caso o efeito dos cursos seja apenas evitar a depreciação do capital humano dos beneficiários, o PNQ se aproximará das políticas ativas de ocupação 21, se distanciando das políticas ativas de qualificação, no que tange à promoção da liberdade real no trabalho. Um dos principais objetivos da dimensão institucional 22 sobre a qual o PNQ foi estruturado consiste na integração deste com as políticas do SPETR e com outras políticas públicas, como as políticas de educação e de desenvolvimento, aspecto essencial para a promoção da liberdade real no trabalho. No entanto, a política de qualificação promovida pelo PSD caracteriza-se por ser desarticulada em relação a outras políticas públicas (Castioni, 2009; Paiva, 2006). Resultados de pesquisa de opinião realizada com beneficiários dos três segmentos do PSD indicam que a integração nem sempre ocorre. Dentre os entrevistados inscritos no seguro-desemprego, 55% não haviam participado de cursos de qualificação. Proporção que aumenta para 71% para os entrevistados que procuraram a IMO (Marinho, Balestro e Walter, 2010). A promulgação da Lei 12.513 em 2011 representou um passo adiante na integração das políticas de mercado de trabalho ao permitir condicionar o recebimento do benefício do seguro-desemprego à frequência em curso de formação inicial e continuada ou qualificação profissional de no mínimo 160 horas. O condicionamento aplica-se ao trabalhador que receber o benefício do seguro-desemprego pela terceira vez em um período de dez anos, contudo não 21 As políticas ativas de ocupação caracterizam-se por baixo investimento em capital humano e baixo incentivo para a colocação dos beneficiários no mercado de trabalho. Seu objetivo consiste em manter os desempregados ocupados com determinada atividade, não necessariamente dentro do mercado de trabalho. 22 O PNQ é fundamentado em seis dimensões principais: política, ética, conceitual, institucional, pedagógica e operacional (MTE, 2003). 56 será exigido em caso de inexistência de oferta de curso compatível com o perfil do trabalhador no município ou região metropolitana de residência ou se este apresentar comprovante de matrícula e de frequência mensal em outro curso que obedeça a carga horária mínima (IPEA, 2013). O condicionamento do recebimento do seguro-desemprego à frequência em curso de qualificação constitui uma política ativa de incentivo. Apesar de promover maior integração entre políticas públicas, “esta obrigação representa, na verdade, uma restrição ao direito de receber o seguro” (IPEA, 2013, p.293). A política de incentivo reduz a liberdade real do trabalhador ao forçá-lo a tomar determinada decisão, neste caso a de qualificar-se. Apesar disto, as políticas de incentivo podem agir como garantidoras da frequência dos beneficiados nos programas das outras PAMT, medida utilizada por grande parte dos países desenvolvidos em suas estratégias de ativação, inclusive pelos países do regime nórdico. O aspecto que merece maior atenção não é tanto a utilização de políticas de incentivo ao trabalho, mas sim o equilíbrio destas com outras PAMT e políticas passivas amplas e generosas. A mesma lei instituiu o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), com o objetivo de aumentar a oferta de educação profissional e tecnológica. Os trabalhadores compreendem uma parcela do público-alvo do programa, que abrange também estudantes do ensino médio da rede pública e beneficiários dos programas federais de transferência de renda. A integração do PRONATEC com o seguro-desemprego ocorre através da modalidade Bolsa-Formação Trabalhador, que se destina a oferecer cursos gratuitos de formação inicial e continuada (com 160 horas ou mais) para beneficiários do seguro-desemprego e de programas sociais do Governo Federal, como o Plano Brasil Sem Miséria. Apesar de estar articulado ao seguro-desemprego e ao SINE, o PRONATEC é de responsabilidade do Ministério da Educação (MEC). A existência de políticas de qualificação paralelas ao PNQ indica uma redução do papel deste dentro do SPETR (IPEA, 2013). A divisão dos recursos e da gestão, operacionalização e execução da política de qualificação profissional entre dois ministérios, com prejuízo para o MTE no âmbito do PNQ, limita a conquista do objetivo comum de ambos os planos. O objetivo da universalização da oferta da qualificação profissional e de sua integração com o SPE e demais políticas sociais são comuns ao PRONATEC e ao PNQ. Dessa forma, a existência de um não deve significar automaticamente a extinção do outro, mas sim proporcionar maior integração entre políticas públicas sociais e entre o SPETR e o sistema de educação. A integração passa pela reconstrução do desenho institucional dos dois planos (IPEA, 2013). 57 3.1.3 Investimento em Políticas Ativas de Mercado de Trabalho no Brasil: FAT e CODEFAT A importância das PAMT, e em particular das políticas de qualificação profissional, no Brasil pode ser avaliada a partir dos recursos direcionados a cada uma. A partir de dados fornecidos pelos Relatórios de Gestão do FAT, esta subseção apresentará a estrutura de financiamento do fundo, identificando as principais políticas de mercado de trabalho que este financia. Sendo o Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (CODEFAT) o órgão responsável pelo orçamento do FAT, inicialmente será apresentada a estrutura deste, assim como sua importância na garantia da liberdade real por voz dos beneficiários dos programas do MTE. O CODEFAT, criado em 1990 juntamente com o PSD, tem como função aprovar e acompanhar a execução e os orçamentos dos programas do PSD e do abono salarial, assim como elaborar a proposta orçamentária do FAT como um todo e fiscalizar a administração deste. O Conselho possui uma estrutura tripartite, constituída por representantes dos trabalhadores, dos empregadores e de órgãos e entidades governamentais. A participação da sociedade nas decisões do CODEFAT ocorre através dos Conselhos ou Comissões Estaduais e Municipais de Emprego, também construídas de forma tripartite com representantes dos trabalhadores, dos empregadores e dos governos locais. As comissões devem conhecer o mercado de trabalho local, orientar a execução das políticas a nível local, controlar a execução das ações e promover a articulação institucional (MTE).23 As Comissões Estaduais e Municipais permitiriam aos beneficiários e agentes locais exporem suas necessidades, preferências e ambições em relação às políticas. O conhecimento das especificidades locais permite estruturar políticas públicas mais efetivas. A análise feita por Marinho, Balestro e Walter (2010), no entanto, mostra problemas no exercício da liberdade real por voz dos beneficiários nos conselhos, tais como ausência de representantes de um dos três segmentos e falhas na comunicação entre as comissões municipais e as estaduais e entre estas e o CODEFAT. A inexistência de uma fonte de financiamento específica para as políticas de mercado de trabalho antes da década de 1990 é apontada como uma das causas para a lenta expansão do seguro-desemprego e dos serviços prestados pelas agências do SINE (Cardoso Jr. et al., 23 http://portal.mte.gov.br/codefat/estrutura-e-funcoes-das-comissoes-de-emprego.htm Acessado em: 15/01/13 às 15:32. 58 2006). A criação do FAT permitiu ampliar a abrangência das políticas de mercado de trabalho para além do benefício monetário ao desempregado (Cardoso Jr. et al., 2006). Instituído em 1990 pela mesma lei que criou o PSD, o FAT destina-se ao financiamento do seguro-desemprego, do PNQ, da IMO, do abono-salarial e de programas de qualificação profissional e de desenvolvimento econômico fora do âmbito do PSD. O FAT possui três fontes de receita: receitas primárias, receitas financeiras e outras receitas (IPEA, 2013). As receitas primárias são constituídas majoritariamente pelas arrecadações do Programa de Integração Social e do Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público24 (PIS/PASEP), as principais fontes de recursos do fundo (Cardoso Jr. et al., 2006; IPEA, 2013).25 As receitas do FAT não são destinadas em sua totalidade ao financiamento de políticas de emprego, trabalho e renda. Uma parcela significante (20%) da receita total é direcionada ao Tesouro Nacional através da Desvinculação das Receitas da União (DRU) para o cumprimento do superávit fiscal. No ano de 2012, o montante desvinculado foi igual a R$ 9,5 bilhões, valor equivalente a mais de 160 vezes o investido em políticas de qualificação profissional no mesmo ano (Tabela 1). Tendo em vista que os gastos com o segurodesemprego e o abono salarial e com o repasse ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) devem ser obrigatoriamente cumpridos, as políticas de qualificação e os serviços prestados pelo SINE (entre eles a IMO) são as categorias mais negativamente impactadas pela DRU. O repasse ao BNDES é uma obrigação do FAT prevista pela CF/88, que consiste no empréstimo de 40% da receita do PIS/PASEP ao BNDES para o financiamento de programas de desenvolvimento econômico, dentre os quais se destaca o PROGER26 (IPEA, 2013; Machado e Neto, 2011). Sendo um dos objetivos do PROGER a geração de emprego, este 24 O PIS e o PASEP, instituídos em 1970, são fundos constituídos por contribuições de pessoas jurídicas, empregadoras de trabalhadores formais (PIS), e do governo, empregador de servidores públicos (PASEP). Criados inicialmente com o objetivo de formar o patrimônio do trabalhador e incentivar a poupança, a partir da CF/88 os recursos do PIS/PASEP foram vinculados ao financiamento do PSD e do abono-salarial (Cardoso Jr. et al., 2006; Machado e Neto, 2011). 25 Além das receitas primárias, as receitas financeiras constituem nos retornos das aplicações do fundo em Títulos do Tesouro através do Banco do Brasil e em “depósitos especiais” em instituições financeiras oficiais federais (IPEA, 2013). Outra fonte de recursos prevista pela CF/88, mas não regulamentada, consiste em uma contribuição para o financiamento do seguro-desemprego de empresas com índices de rotatividade da força de trabalho superior ao índice médio do setor. 26 O PROGER consiste em um programa dedicado à concessão de crédito através dos bancos oficiais federais (BNDES, Banco do Brasil, BNB, CEF, FINEP) a micro e pequenas empresas, cooperativas e pessoas físicas de baixa renda de setores intensivos em mão de obra e setores considerados prioritários pela política de desenvolvimento governamental. O objetivo do PROGER é promover a geração de emprego e renda. (http://proger.mte.gov.br/portalproger/pages/sobreproger.xhtml;jsessionid=3D41FD300352424E256D77E5FDE 25A6F.lbroutev121p145. Acessado em 07/10/2013 às 13:25.) 59 programa se assemelha a uma política ativa de ocupação. No entanto, a criação de empregos ocorre via concessão de crédito a atividades produtivas, sem participação direta do Estado. O seguro-desemprego e o abono-salarial27 são despesas obrigatórias do FAT. O segurodesemprego reúne cinco modalidades de benefícios: seguro-desemprego formal, segurodesemprego ao trabalhador doméstico, seguro-desemprego ao pescador artesanal, segurodesemprego ao trabalhador resgatado e bolsa qualificação profissional. 28 Principal política passiva de mercado de trabalho do Brasil (Machado e Neto, 2011), o seguro-desemprego abarca aproximadamente 70% das despesas do FAT, sendo a modalidade seguro-desemprego formal a com maior participação. O abono salarial representa a segunda maior despesa corrente do fundo. Juntas, as duas políticas passivas totalizam aproximadamente 90% das despesas do FAT (Tabela 1). O montante destinado às outras despesas correntes em 2011 foi de R$ 560 milhões, representando 1,6% do total das despesas do fundo. No ano de 2008 esta rubrica contou com R$ 841 milhões ou 3,4% das despesas correntes (Tabela 1). Entre as outras despesas se encontram as políticas ativas de qualificação profissional e a IMO. O investimento em “orientação profissional e IMO” em 2011 foi igual a R$ 95 milhões, contra R$ 119 milhões em 2008, significando uma queda de 20%. No caso da qualificação profissional foram investidos R$ 86 milhões em 2011 e R$ 173 milhões em 2008, redução de 50% (Tabela 1). Ambas as políticas apresentaram queda no montante investido e na participação nas despesas entre 2008 e 2011. No entanto, a política de qualificação foi a que sofreu redução mais significativa entre todos os outros gastos do FAT. O valor investido em 2011 em qualificação profissional representou menos da metade daquele investido em 2008 e a participação da política entre as despesas caiu 64% entre os dois anos. 27 O abono salarial, criado em 1970 e expandido em 1989, consiste em uma política de complementação de renda do trabalhador, podendo ser considerada uma política passiva de mercado de trabalho. Compreende um benefício no valor de um salário mínimo pago anualmente aos trabalhadores formais (cadastrados no PIS/PASEP) que recebem salário inferior a dois salários mínimos (Cardoso Jr. et al., 2006; Machado e Neto, 2011). 28 O seguro-desemprego formal constitui no benefício clássico ao trabalhador formal demitido sem justa causa. A segunda modalidade, criada em 2001, consiste em benefício no valor de um salário mínimo ao trabalhador doméstico formal dispensado sem justa causa. O seguro-desemprego ao pescador artesanal, instituído em 1991, compreende um benefício mensal temporário de um salário mínimo ao pescador artesanal profissional durante o período de defeso. A terceira modalidade, o seguro-desemprego ao trabalhador resgatado, instituído em 2003, consiste em auxílio temporário de um salário mínimo concedido, por no máximo três meses, ao trabalhador desempregado resgatado de regime de trabalho forçado ou da condição análoga à de escravo. A bolsaqualificação, última modalidade do seguro-desemprego, permite o uso do benefício do seguro-desemprego por trabalhadores com contrato de trabalho suspenso que comprovem frequência em cursos de qualificação profissional. Esta política compreende uma alternativa à demissão do trabalhador formal e atrela uma política passiva (benefício monetário) a uma política ativa (qualificação profissional). 60 Tabela 1 Orçamento do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) - 2008 a 2012 Em R$ milhões 2008* % R$ 2009* % R$ 2010* % R$ 2011* % R$ 2012** % R$ RECEITAS Arrecadação PIS/PASEP DRU n.d. n.d. - 35.836 40.558 48.600 47.330 -7.167 -20,0 -8.112 -20,0 -9.720 -20,0 -9.466 -20,0 Receita da Contribuição PIS/PASEP Outras Receitas 31.208 71,6 28.668 69,6 32.446 70,3 38.880 74,8 37.864 64,7 12.406 28,4 12.544 30,4 13.715 29,7 13.126 25,2 20.653 35,3 TOTAL DAS RECEITAS 43.614 100 41.212 100 46.161 100 52.006 100 58.517 100 OBRIGAÇÕES Benefício Seguro-Desemprego Seguro-Desemprego Formal Seguro-Desemprego ao Trabalhador Doméstico Seguro-Desemprego ao Pescador Artesanal Seguro-Desemprego ao Trabalhador Resgatado Bolsa Qualificação Profissional 18.339 17.635 19 673 7 5 Benefício Abono Salarial 7.446 27,9 8.900 Outras Despesas Correntes Orientação Profissional e IMO Qualificação Social e Profissional (PNQ) Outras 895 126 173 596 68,7 23.026 70,6 23.064 68,7 25.343 68,5 27.614 68,2 66,1 21.865 67,0 21.696 64,7 23.951 64,7 25.690 63,5 0,07 20 0,06 23 0,07 25 0,07 27 0,07 2,52 1.069 3,27 1.330 3,96 1.347 3,64 1.893 4,68 0,02 4 0,01 5 0,02 5 0,01 4 0,01 0,02 69 0,21 10 0,03 16 0,04 (a) - 3,36 0,47 0,65 2,23 710 109 184 416 27,3 9.879 2,18 0,34 0,57 1,28 613 79 169 364 29,4 11.054 29,9 12.337 30,5 1,83 0,24 0,50 1,09 597 102 86 410 1,61 0,27 0,23 1,11 531 141 59 331 1,31 0,35 0,14 0,82 TOTAL DAS DESPESAS 26.680 100 32.637 100 33.556 100 36.994 100 40.481 100 Empréstimos ao BNDES (sobre PIS/PASEP)*** 11.856 38,0 11.326 39,5 13.069 40,3 14.403 37,0 15.061 39,8 TOTAL DAS OBRIGAÇÕES 38.535 - 43.963 - 46.625 - 51.397 - 55.542 - RESULTADO NOMINAL 5.079 - -2.751 - -463 - 609 - 2.975 - *Preços de janeiro de 2012 atualizados pelo IPCA. **Preços correntes *** % relativa à Receita da Contribuição PIS/PASEP n.d.: não disponível (a): Em razão de falhas no sistema de emissão de benefícios, as modalidades Seguro-Desemprego Formal e Bolsa Qualificação foram aglutinadas. Fonte: MTE(2009, 2010, 2011, 2012, 2013) A comparação entre os gastos com políticas passivas e o investimento em políticas ativas no âmbito do FAT mostra uma forte desigualdade na distribuição dos recursos, com prejuízo para as PAMT. Observa-se também uma queda tanto dos valores quanto da participação das políticas ativas, frente a um aumento dos valores e manutenção da participação das políticas passivas. As fragilidades do PNQ expostas anteriormente são reforçadas pelo baixo investimento. A escassez de recursos dificulta a universalização do plano e sua integração com outras políticas públicas, além de reforçar outras fragilidades. 61 A observação dos dados dos gastos em qualificação profissional pelo FAT permite dividir os anos desde a instituição do PNQ em dois períodos: de 2003 a 2007 e de 2008 a 2012 (Gráfico 1). Ambos os períodos apresentam comportamentos parecidos, com um crescimento inicial seguido de uma queda significativa para valores próximos ao executado no ano inicial do plano. O ano de 2012 apresenta uma queda ainda mais acentuada, atingindo um valor 26% menor que investido em 2003. A quantidade de pessoas atendidas pelo PNQ está diretamente relacionada com o montante investido no plano, conforme indica o Gráfico 1. Além disso, o período com maiores níveis de investimento no PNQ, o triênio 2008-2010, é marcado por um aumento anual do gasto por participante (de R$709/participante em 2007 para R$1171/participante em 2010), que sofre uma redução no ano de 2011 para R$842/participante e um posterior aumento em 2012 para R$2148/participante. A universalização da qualificação profissional passa, portanto, pelo aumento do investimento nesta política ativa. Gráfico 1 Investimento e Participação na Política Ativa de Qualificação Profissional no Brasil - 2003 a 2012 200 180 160 R$ milhões/mil pessoas 140 120 100 80 60 40 20 0 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Investimento em Qualificação Social e Profissional (R$ milhões de jan. 2012) Participação em Qualificação Social e Profissional (em mil pessoas) Valores atualizados para 2012 pelo IPCA. Fonte: MTE O Brasil encontra-se muito abaixo dos países da OCDE no que tange ao investimento em política de qualificação profissional. No ano de 2011, a OCDE investiu 0,15% do PIB neste tipo de PAMT, enquanto o Brasil investiu apenas 0,002% (Gráfico 2). Considerando a proporção do PIB investida em determinada política como indicador da importância desta no país, o Brasil apresenta um quadro de baixíssima relevância das políticas ativas de 62 qualificação profissional. Quando comparado com os países da OCDE em separado, o Brasil encontra-se abaixo de todos, inclusive de países que investem relativamente pouco neste tipo de PAMT, como Estados Unidos, Reino Unido, Chile e México (Gráfico 3). Gráfico 2 Investimento em Política Ativa de Qualificação Profissional no Brasil e na OCDE em % PIB - 2008 a 2011 0,18% 0,17% 0,16% 0,16% 0,15% 0,14% 0,13% % PIB 0,12% 0,10% 0,08% 0,06% 0,04% 0,02% 0,005% 0,005% 0,004% 0,002% 0,00% 2008 2009 OCDE 2010 2011 BRASIL Fonte: MTE e OCDE Statistics Gráfico 3 Investimento em Política Ativa de Qualificação Profissional no Brasil e em Países da OCDE em % PIB - 2009 BRASIL México Reino Grécia Austrália EUA Chile Suécia Holanda Canadá Nova OCDE Bélgica Itália Suiça Espanha Noruega Dinamarca França Alemanha Irlanda Portugal Finlândia Áustria 0,00% 0,10% 0,20% 0,30% 0,40% 0,50% % PIB Fonte: MTE e OCDE Statistics 63 Como visto no capítulo anterior, as políticas de qualificação profissional consistem no tipo de PAMT com maior potencial para promover a liberdade real no trabalho dos beneficiários, além de contribuir indiretamente com a sociedade e a economia como um todo. Após a discussão do desenho, do financiamento e dos principais problemas da política de qualificação em vigor no país, questiona-se sua capacidade em promover a liberdade real no trabalho do trabalhador brasileiro. 3.2 Metodologia O aumento da importância da qualificação profissional na década de 90 e a criação do PLANFOR em 1996 fomentaram estudos acerca do tema. Apesar disto, Severnini e Orellano (2010) apontam a ausência de uma tradição em realizar avaliações de impacto de programas de qualificação profissional no Brasil. Esta ausência pode ser ilustrada e, em certa medida, explicada pela escassez de bases de dados que forneçam informações mais detalhadas acerca do tema. Não obstante, alguns trabalhos se dedicaram a avaliar o impacto de programas de qualificação profissional, dentre os quais os mais importantes são descritos e discutidos abaixo. Oliveira e Rios-Neto (2007) avaliaram o impacto do PLANFOR sobre o nível e a duração do desemprego a partir de uma pesquisa experimental realizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte de dezembro de 1996 a junho de 1997. Os resultados indicam um impacto positivo do programa de qualificação profissional sobre o total da amostra. O grupo dos beneficiados apresentou um tempo médio de sobrevivência no desemprego igual a dez meses, contra doze meses dos não beneficiados. O mesmo ocorre em relação à probabilidade de sair do desemprego, para os participantes do programa de qualificação do PLANFOR esta foi 15% maior que dos não participantes. No entanto, os impactos se mostraram menos positivos e não significativos quando considerados apenas os beneficiários que se encontravam na condição de desemprego no momento da qualificação. O ensino profissionalizante anterior à criação do PLANFOR é avaliado em Severnini e Orellano (2010) a partir dos microdados da Pesquisa sobre Padrões de Vida (PPV) do IBGE, realizada apenas uma vez, entre março de 1996 e março de 1997, nas regiões Sudeste e Nordeste. A pesquisa permite identificar os concluintes de curso profissionalizante, assim como o ano de conclusão, a duração e o local do curso. Os resultados mostram efeitos distintos conforme o nível do ensino profissionalizante. Os estudantes do ensino fundamental que fizeram curso profissionalizante de nível básico apresentam renda esperada 37% maior do 64 que os estudantes que não fizeram. A renda esperada dos participantes de ensino profissionalizante de nível tecnológico, por outro lado, é 27% menor que os estudantes de nível superior que não fizeram curso técnico. A formação técnica no ambiente de trabalho, por sua vez, reduz a probabilidade de desemprego e aumenta a renda esperada dos participantes em 37%. A qualificação profissional em um período mais recente é avaliada em Reis (2012), que estima o efeito desta sobre emprego, emprego formal e renda do trabalho a partir do painel da Pesquisa Mensal de Emprego (PME/IBGE) para o período de março de 2002 a março de 2012. O impacto foi avaliado apenas para os indivíduos, com 21 a 54 anos de idade, que declararam ser ocupados no primeiro mês de entrevista e tornaram-se desempregados ou inativos três meses depois. Além disso, entraram na amostra apenas os indivíduos que declararam na primeira entrevista nunca haver frequentado nem concluído curso de qualificação profissional. As estimativas, feitas através do método de pareamento por escore de propensão, mostram que a qualificação profissional no Brasil melhora os resultados no mercado de trabalho para os indivíduos dentro das características consideradas. A qualificação profissional aumenta a probabilidade de se empregar em seis pontos percentuais, eleva a renda do trabalho entre 18% e 45% e aumenta a probabilidade de inserção em emprego formal entre 3,1 e 7,3 pontos percentuais. Os resultados encontrados, no entanto, se diferenciam conforme características demográficas e de escolaridade dos trabalhadores. Os efeitos sobre a probabilidade de se empregar e a renda do trabalho parecem ser maiores para indivíduos com menor nível de escolaridade e mais velhos. Para Reis (2012), esses resultados, comparados com avaliações feitas em países desenvolvidos, sugerem que os programas de qualificação profissional são geralmente mais efetivos em países em desenvolvimento. Um dos motivos seria a escassez de oferta de mão de obra qualificada nestes países (Betcherman et al., 2004). Musse e Machado (2013) dedicam-se principalmente a construir o perfil dos brasileiros que cursam ou cursaram educação profissional. As autoras utilizam os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE) do ano de 2007, que conta com um suplemento sobre educação de jovens e adultos. O perfil foi traçado para os indivíduos que declararam frequentar ou haver frequentado educação profissional, que engloba três categorias: qualificação profissional, ensino técnico de nível médio e graduação tecnológica. A maioria dos indivíduos que declararam estar frequentando educação profissional em 2007 estava cursando algum tipo de qualificação profissional (81,03%), seguido do ensino técnico de nível médio (17,46%) e, por fim, da graduação tecnológica (1,51%). 65 A análise descritiva realizada por Musse e Machado (2013) identificou os cursos de informática como os mais demandados entre os cursos de qualificação profissional, atraindo 36,07% dos indivíduos. Nas três categorias de educação profissional, a maioria dos concluintes trabalhava ou já havia trabalhado na área de estudo. A maior parte dos que cursavam ou que já haviam cursado encontravam-se na região sudeste (47,38%). As mulheres frequentam mais a educação profissional do que os homens, entretanto a segregação ocupacional existente no mercado de trabalho se mantém na distribuição das áreas de estudo conforme o sexo. Os indivíduos que frequentam cursos de educação profissional são majoritariamente brancos ou amarelos, com ensino fundamental completo e jovens. Os indivíduos desempregados são os que mais procuram a educação profissional. Além de traçar o perfil da população que frequentava ou havia frequentado cursos de educação profissional em 2007, Musse e Machado (2013) avaliaram o impacto deste tipo de educação sobre os retornos do trabalho, encontrando um efeito positivo. Os trabalhos brevemente descritos acima são exitosos ao avaliar os impactos da qualificação profissional, ou da educação profissional em geral, sobre alguns aspectos do mercado de trabalho (probabilidade de emprego/desemprego, renda, probabilidade de emprego formal e duração do desemprego). Os indicadores utilizados nessas avaliações, entretanto, são insuficientes para apreender a complexa relação entre o mercado de trabalho e o bem-estar individual, abordada no primeiro capítulo. Oliveira e Rios-Neto (2007) e Reis (2012) avançam neste sentido ao incorporarem, respectivamente, os indicadores de duração do desemprego e emprego formal, que permitem observar não apenas a inserção no mercado de trabalho em si, mas também a forma que esta ocorre. Em todos os trabalhos discutidos, a ausência de indicadores importantes para a dinâmica entre bem-estar individual e mercado de trabalho, dentre os quais se destacam os indicadores de mobilidade dos ocupados dentro do mercado de trabalho, soma-se à falta de uma preocupação com as preferências e escolhas da população que participa, participou ou gostaria de participar de cursos de qualificação profissional. A mobilidade ocupacional indica uma provável mudança no conjunto de escolhas realizáveis do indivíduo, ou seja, seu conjunto capacitário, podendo significar uma variação da sua liberdade real no trabalho. O conhecimento das preferências do indivíduo em relação ao trabalho é essencial para acessar seu bem-estar dentro do mercado de trabalho, noção incluída no conceito de trabalho valorizado, utilizado na definição de liberdade real no trabalho.29 29 A liberdade real no trabalho é definida como a liberdade efetiva do indivíduo em escolher o trabalho que valoriza. 66 As avaliações qualitativas abarcam alguns aspectos acerca dos programas de qualificação que as avaliações quantitativas convencionais não conseguem vislumbrar. A avaliação do PSD realizada a pedido do MTE (Marinho, Balestro e Walter, 2010) fornece diversas informações importantes sobre cada um dos tripés do programa, que permitiram traçar um panorama das principais PAMT realizadas no Brasil no início deste capítulo. Marinho, Balestro e Walter (2010) levantam diversas questões, verificadas na realização efetiva do PSD, que impactam de maneira relevante o bem-estar da população, embora não possam ser quantificadas nos indicadores convencionais de mercado de trabalho. Um dos resultados encontrados pelos autores é a baixa inserção dos participantes dos cursos de qualificação em ocupações relacionadas com os temas destes cursos. Este cenário pode ter duas origens (ou ambas), ou os temas dos cursos não estão de acordo com o desejo dos participantes, o que indica um desconhecimento desse desejo e uma provável falta de liberdade por voz dos participantes, ou os cursos não qualificam os alunos de maneira que estes consigam aplicar efetivamente os conhecimentos adquiridos, o que poderia indicar problemas no ensino ou no aprendizado ou problemas relativos à inserção do aluno no mercado de trabalho relacionados com limitações de sua liberdade real. A abordagem das capacitações e o conceito de liberdade real no trabalho, discutidos anteriormente, incorporam na análise dos resultados aspectos importantes sobre a efetiva realização dos programas e o modo que estes impactam pessoas com distintas características e valores. Ambos serão empregados por essa dissertação como uma ampliação da percepção das avaliações convencionais. A presente seção detalhará a metodologia utilizada na avaliação da qualificação profissional no Brasil a partir da abordagem das capacitações. Para tanto está dividida em quatro subseções que justificam a escolha da base de dados e detalham a identificação dos grupos de comparação, assim como a construção do painel de dados e dos indicadores a serem utilizados na avaliação. 3.2.1 Base de Dados Os trabalhos descritos na introdução da seção utilizam, em sua maioria, dados secundários do IBGE ou do MTE. Os custos do levantamento de dados primários, como feito por Oliveira e Rios-Neto (2007), é um aspecto que dificulta a aplicação dessa estratégia em mais trabalhos. Optou-se nesta avaliação pela utilização de uma base de dados secundária, a PME. A justificativa desta escolha será desenvolvida a seguir, iniciando pelo detalhamento 67 das bases de dados existentes no Brasil que fornecem informações sobre qualificação profissional. A Base de Gestão da Qualificação do Sistema de Gestão de Ações de Emprego (BGQ/SIGAE) do MTE reúne informações dos três segmentos do PSD. O Subsistema da Qualificação Profissional (SQP) permite ao MTE a orientação e o acompanhamento das ações de qualificação social e profissional instituídas pelo PNQ, reunindo desde 2003 dados relativos às instituições executoras das ações e sobre os trabalhadores inscritos nestas. A restrição do acesso do público à BGQ, entretanto, dificulta sua utilização em trabalhos acadêmicos.30 Outra fonte de dados sobre qualificação profissional é o Suplemento sobre Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD/IBGE), utilizada em Musse e Machado (2013). Os microdados individuais deste suplemento da PNAD possibilitam traçar o perfil da população brasileira em relação à qualificação profissional, ao ensino técnico de nível médio e à graduação tecnológica. Por ter sido realizado apenas em 2007 o suplemento não permite a comparação temporal do perfil do público atingido pela política. A PNAD não é uma base de dados em painel, o que impede uma avaliação do efeito de médio prazo da frequência em cursos de qualificação profissional. 31 A terceira fonte de dados consiste na Pesquisa Mensal do Emprego (PME/IBGE), pesquisa domiciliar mensal realizada a partir de uma amostra probabilística, sendo o indivíduo a unidade de investigação. A PME abrange as seis principais regiões metropolitanas (RMs) do país, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, além de Curitiba32. O principal objetivo é a produção de indicadores sobre o mercado de trabalho. A PME utiliza um esquema de rotação de painéis, no qual os domicílios são entrevistados por quatro meses consecutivos, permanecem oito meses sem serem entrevistados e são novamente 30 A Avaliação Externa do Programa Seguro-Desemprego organizada por Marinho, Balestro e Walter (2010) e executada pela Universidade de Brasília em parceria com o MTE utiliza os dados do SIGAE. Disponível em: http://portal.mte.gov.br/data/files/FF8080812CB90335012CC21F88FF0055/avaliacao_externa_sd[1].pdf. Acesso em 27 de abril de 2014. O DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) também possui acesso aos dados do SIGAE, publicando os dados agregados sobre o PSD no Anuário do Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda em parceria com o MTE. Disponível em: http://www.dieese.org.br/anuario/AnuSistPub2010/conteudo/index.html. Acesso em: 27 de abril de 2014. As tentativas em obter a base do SIGAE junto ao MTE para utilizar nesta dissertação não tiveram êxito. 31 A PNAD Contínua foi implantada pelo IBGE a partir de janeiro de 2012 para substituir a PME e a PNAD. A PNAD Contínua é uma pesquisa domiciliar trimestral que agrega o esquema de rotação de painéis da PME com a abrangência nacional da PNAD (IBGE, 2014). 32 O Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES) realiza a PME na RM de Curitiba em parceria com o IBGE. 68 pesquisados por mais quatro meses, sendo excluídos da amostra após este período (IBGE, 2007; Ribas e Soares, 2008). Os dados fornecidos pela PME não possibilitam distinguir a qualificação profissional oriunda de políticas públicas daquela financiada pelo setor privado, empresas ou os próprios indivíduos.33 Por outro lado, a pesquisa permite avaliar a qualificação profissional em geral do ponto de vista da população atingida, gerando informações que podem contribuir para a tomada de decisões dos formuladores de políticas públicas. Ao contrário do Suplemento da PNAD sobre Educação Profissional, a PME contém um painel, que viabiliza o acompanhamento dos indivíduos beneficiários de cursos de qualificação e possibilita investigar o impacto da qualificação profissional sobre esta população. Alinhando a disponibilidade da base às vantagens do painel, a PME foi escolhida para avaliar o impacto da qualificação profissional na liberdade real no trabalho no Brasil. O período avaliado é de dez anos, entre 2003, o primeiro ano de aplicação do PNQ (e primeiro ano da nova PME34), e 2012, o ano mais recente com todos os dados mensais disponíveis para todas as RMs. Os microdados mensais foram empilhados de maneira a compor bases anuais. Para não contabilizar o mesmo domicílio quatro vezes em um ano, devido ao esquema de rotação dos painéis, foram selecionadas apenas as primeiras e quintas entrevistas realizadas. Portanto, serão avaliados apenas os indivíduos de domicílios que responderam tanto a primeira entrevista, quanto a quinta entrevista, realizada doze meses depois. Este intervalo entre as duas entrevistas permitirá avaliar as mudanças ocorridas com cada indivíduo de um ano para o outro. 3.2.2 Identificação dos Grupos de Comparação O impacto de uma política pública, de um programa social ou de uma intervenção pode ser mensurado através da comparação entre a condição do público participante da ação após a realização desta e a condição deste mesmo público no mesmo ponto no tempo caso não houvesse participado da ação, o contrafactual (Peixoto et al., 2012). Uma vez que não é possível observar os mesmos indivíduos em duas situações distintas em um mesmo momento, o contrafactual compreende uma situação hipotética, portanto não pode ser verificado 33 A PME fornece dados sobre a participação dos indivíduos em cursos de qualificação profissional através de duas questões: “Concluiu algum curso de qualificação profissional?” (Questão 12, Parte 3) e “Frequenta curso de qualificação profissional?” (Questão 13, Parte 3). 34 A PME foi realizada pela primeira vez em 1980, com uma revisão efetuada em 1982. O IBGE realizou nova revisão em 2001, buscando ajustar a pesquisa à realidade corrente e às novas recomendações internacionais. O ano de 2003 foi o primeiro ano no qual a Nova PME foi realizada em todos os meses. 69 empiricamente. O grupo dos indivíduos que não participaram da intervenção, embora apresente problemas como contrafactual, pode ser comparado com o grupo dos participantes em uma análise preliminar dos dados. As questões da PME sobre participação em cursos de qualificação profissional permitem identificar dois grupos. O grupo dos participantes é formado por indivíduos que haviam concluído ou estavam frequentando curso de qualificação no período de referência. 35 O grupo dos não participantes é formado por indivíduos que não haviam concluído nem estavam frequentando curso de qualificação no período de referência. A liberdade real no trabalho é determinada por diversos fatores de conversão, entre os quais se encontram as características socioeconômicas e aspectos relativos ao mercado de trabalho. Como discutido no primeiro capítulo, a diversidade destes fatores implica em diferentes habilidades para extrair benefícios de um curso de qualificação profissional. Ou seja, o impacto da qualificação profissional diferencia-se conforme os fatores de conversão individuais. Isto posto, os grupos de participantes e não participantes foram divididos em três subgrupos de acordo com a situação no mercado de trabalho (ocupado, desocupado, inativo) totalizando seis subgrupos.36 A situação no mercado de trabalho é um fator de conversão importante na definição de liberdades reais, relacionadas ou não ao mercado de trabalho. Dessa maneira, a partir da divisão da amostra entre ocupados, desocupados e inativos, procura-se identificar as diferenças entre estes grupos em termos de liberdades reais no trabalho. Também pesou para a subdivisão o fato da PME apresentar conjuntos de questões direcionadas apenas para indivíduos em determinada situação no mercado de trabalho. Os perfis socioeconômicos dos subgrupos serão analisados na seção 4.1 para os anos de 2003, 2007, 2010 e 2012. Os anos de 2003 e 2012 foram escolhidos por serem os extremos do período analisado. Os outros dois anos foram selecionados de forma a abranger duas fases distintas desse período no que concerne à participação e investimento em Política Ativa de Qualificação Profissional (Gráfico 1). O ano de 2007 foi marcado por uma queda no investimento e na participação, enquanto o ano de 2010 marcou o final de um ciclo de crescimento nos dois indicadores. Os perfis serão traçados a partir de características pessoais e de trabalho, de forma a considerar diversos fatores de conversão. As características pessoais investigadas serão as 35 Optou-se por agregá-los devido ao tamanho reduzido da amostra. Os seis subgrupos são: indivíduos ocupados que concluíram ou frequentam curso de qualificação profissional, indivíduos ocupados que não concluíram nem frequentam curso, indivíduos desocupados que concluíram ou frequentam curso, indivíduos desocupados que não concluíram nem frequentam curso, indivíduos inativos que concluíram ou frequentam curso e indivíduos inativos que não concluíram nem frequentam curso de qualificação profissional. 36 70 mesmas para todos os grupos: sexo, cor ou raça, faixa etária e escolaridade exigida pelo curso de qualificação, esta última respondida apenas por quem havia concluído ou estava frequentando curso de qualificação. As características sobre trabalho analisadas diferenciamse conforme a situação no mercado de trabalho. Para os ocupados serão analisadas as seguintes características: Posição na ocupação; Assinatura da carteira de trabalho; Horas trabalhadas; Satisfação com o trabalho (o indivíduo tomou providência para conseguir outro trabalho?); E rendimento do trabalho principal (atualizado para valores de dezembro de 2012 pelo IPCA). Estas características permitem avaliar de maneira mais ampla a situação dos trabalhadores ocupados no mercado de trabalho e, consequentemente, sua liberdade real no trabalho. A posição na ocupação, a assinatura da carteira de trabalho, o número de horas trabalhadas e o rendimento do trabalho principal são fatores de conversão importantes na definição da liberdade real dos trabalhadores brasileiros. A inserção em posições na ocupação mais precárias, como trabalhador doméstico e trabalhador não remunerado, ou em empregos sem carteira assinada (informais) ou com baixo rendimento pode ser resultado de diversas limitações de liberdades reais anteriores ao mercado de trabalho e, por outro lado, pode causar limitações de outras liberdades. O mesmo ocorre com o número de horas trabalhadas, trabalhos de jornada parcial podem indicar reduzida liberdade real no trabalho, principalmente para as mulheres, podendo também implicar na limitação de outras liberdades reais. Finalmente, a procura por outro trabalho pelo indivíduo ocupado aponta para uma não satisfação com o trabalho exercido, indicando uma não valorização deste trabalho pelo indivíduo, condição essencial para sua liberdade real no trabalho. A insatisfação pode ter origem, inclusive, em uma expansão das oportunidades no mercado de trabalho em geral. Nesse caso, o trabalho passa a ser não valorizado frente a um aumento do conjunto de possibilidades do indivíduo, sejam estas reais ou não. No caso dos desocupados, a característica a ser analisada será o tempo de procura por emprego. Os impactos negativos da situação de desemprego, exclusão social, perda de autonomia e autoconfiança e efeitos negativos sobre a saúde física e psicológica (Sen, 2010), além da diminuição da renda, podem ser amplificados com o tempo, resultando em maiores 71 danos à qualidade de vida do indivíduo e dificultando sua entrada no mercado de trabalho. Para os inativos, a característica investigada será o desejo de conseguir um trabalho mesmo não tendo procurado. Este desejo indica a valorização do funcionamento de “trabalhar” pelo indivíduo e, consequentemente, uma limitação de sua liberdade real no trabalho, tendo em vista sua condição de inativo. Demandantes Potenciais Além dos seis subgrupos relacionados acima foi definido o grupo dos demandantes potenciais de qualificação profissional, formado por indivíduos que desejavam (re)entrar no mercado de trabalho ou mover-se dentro dele, mas que não haviam concluído nem frequentado curso de qualificação no período de referência. Trata-se, portanto, de um subconjunto do grupo dos não participantes que apresentam um desejo não atendido de (re)entrar ou mover-se no mercado de trabalho, característica que sinaliza uma reduzida liberdade real no trabalho. Considerando a potencial contribuição da qualificação profissional na conquista da colocação desejada no mercado de trabalho, esses indivíduos são vistos como possíveis demandantes da ação. A inclusão deste grupo nas análises permite observar uma provável área de expansão da qualificação profissional no Brasil que poderia resultar em uma ampliação da liberdade real no trabalho. Os demandantes potenciais têm como característica comum não haver participado de cursos de qualificação. O outro aspecto definidor deste grupo, o desejo de (re)inserção ou mobilidade no mercado de trabalho, é identificado de maneira distinta para cada situação no mercado de trabalho. Os demandantes potenciais ocupados são indivíduos que possuíam trabalho(s) na semana de referência, mas que declararam haver tomado providência para conseguir outro trabalho (variável V441), o que pode ser traduzido como um desejo por mobilidade. A busca por trabalho, por definição37 comum a todos os indivíduos desocupados, configura um desejo pela (re)inserção no mercado de trabalho. Dessa forma, o grupo dos demandantes potenciais desocupados é constituído por todos os indivíduos não participantes de cursos de qualificação profissional em condição de desocupação. O grupo dos demandantes potenciais inativos, por sua vez, é formado por indivíduos que declararam que 37 A definição de desocupação empregada é a utilizada pela PME na construção da variável derivada de condição na ocupação (VD1): o indivíduo desocupado é aquele que não possuía trabalho na semana de referência, mas que tomou providência para consegui-lo e que poderia assumi-lo na semana de referência caso conseguisse. 72 gostariam de conseguir um trabalho mesmo não tendo procurado por um (variável V464), o que caracteriza um desejo de inserção no mercado de trabalho. Os perfis dos demandantes potenciais em conjunto, assim como os subgrupos de demandantes potenciais ocupados, desocupados e inativos serão analisados na seção 4.2 para os mesmos anos de 2003, 2007, 2010 e 2012. As estatísticas descritivas abarcarão características pessoais (sexo, cor ou raça, faixa etária, escolaridade, região metropolitana e condição na família) e características de trabalho, estas distintas para cada situação no mercado de trabalho. 3.2.3 Construção do Painel da PME Um painel de dados fornece informações valiosas para uma avaliação de impacto. Os dados em painel possibilitam comparar a situação de um mesmo indivíduo antes e depois de participar de uma intervenção. Esta informação, aliada à escolha de um bom contrafactual, permite uma avaliação mais detalhada e conclusiva dos efeitos da intervenção em comparação às estatísticas descritivas. Os painéis foram construídos de maneira semelhante às bases utilizadas na análise das estatísticas descritivas. As bases mensais foram empilhadas de maneira a formar bases anuais e foram mantidos apenas os dados referentes à primeira e à quinta entrevistas realizadas com cada domicílio. Os painéis são constituídos de duas bases anuais consecutivas (2003 e 2004, por exemplo), com o primeiro ano contendo as informações fornecidas nas primeiras entrevistas e o segundo ano informações da quinta entrevista, totalizando nove painéis (20032004, 2004-2005, 2005-2006 e assim por diante até o ano de 2012). O domicílio é a unidade amostral acompanhada durante as entrevistas. As pessoas residentes no domicílio, no entanto, não são necessariamente as mesmas durante todo o período. Podem ocorrer mudanças de todos ou parte dos residentes. O acompanhamento dos indivíduos é dificultado pelo fato da PME não fornecer um código que identifique exatamente a mesma pessoa ao longo das entrevistas. Não obstante, uma estratégia comumente empregada por trabalhos que utilizam o painel de indivíduos da PME (Ribas e Soares, 2008; Reis, 2012) é a construção de um identificador com exatidão aproximada a partir de características individuais fornecidas pela pesquisa. O identificador criado pelo presente trabalho utilizou as seguintes variáveis fornecidas pela PME: Painel (V060), Grupo Rotacional (V063), Região Metropolitana (V035), Número de Controle (V040), Número de Série (V050), Número da Família (V207), Ano de 73 Nascimento (V224), Mês de Nascimento (V214), Dia de Nascimento (V204) e Sexo (V203). Esta estratégia de identificação apresenta um problema no caso de gêmeos univitelinos, que por possuírem mesma data de nascimento e sexo são identificados como a mesma pessoa. Por conseguinte foram retirados da amostra, sem perda significativa (menos de 2% da amostra em cada painel), os indivíduos residentes no mesmo domicílio e que apresentam mesma data de nascimento e sexo. O painel da PME apresenta alguns atritos que impossibilitam observar todos os indivíduos ao longo das oito entrevistas. Ribas e Soares (2008) destacam dois: a mobilidade geográfica, que implica na mudança de domicílio, e a recusa de resposta. A estratégia utilizada para contornar o problema de perda de informações foi excluir do painel os indivíduos que aparecem na primeira entrevista e não aparecem na quinta entrevista, o que acarretou na perda de aproximadamente 6% da amostra. Grupos de Tratamento e Controle A associação entre as condições de participação do indivíduo em curso de qualificação no ano I e no ano II do painel possibilita identificar seis possíveis situações (Esquema 1). A situação um reúne indivíduos que pertenciam ao grupo dos participantes no primeiro e no segundo ano do painel, de forma que não permite analisar a condição anterior à ocorrência da participação e, portanto, não constitui um grupo de análise apropriado. Os indivíduos inseridos na segunda situação foram participantes no ano I e não participantes no ano II, caracterizando um conflito, visto que o grupo dos participantes inclui aqueles que declararam haver concluído curso de qualificação em qualquer ponto do tempo. Duas causas podem ser levantadas para explicar este atrito: houve erro de medida por declaração imprecisa ou os indivíduos frequentavam curso no ano I, mas o abandonaram sem concluí-lo, ficando fora do grupo dos participantes no ano II. A situação dois também não será analisada. A situação quatro apresenta a passagem da condição de não participação para a condição de participação. Na situação seis, por sua vez, os indivíduos passam da condição de demandantes potenciais para a condição de participação. Ao contrário das duas primeiras, as situações quatro e seis permitem observar a pessoa antes e depois (ou durante, caso ainda esteja frequentando o curso) da intervenção ou tratamento. Assim sendo, os grupos de indivíduos nestas duas situações são denominados Grupo de Tratamento A e Grupo de Tratamento B, respectivamente. 74 Os indivíduos nas situações três e cinco não passaram por mudanças na condição de participação entre o ano I e o ano II, permanecendo como não participantes e demandantes potenciais, respectivamente. Por apresentarem a mesma condição de participação no ano I que os respectivos grupos de tratamento, os indivíduos nas situações três e cinco podem ser adotados como grupos de comparação na avaliação de impacto da qualificação profissional. Estes grupos serão denominados Grupo de Controle A e Grupo de Controle B. As comparações entre os grupos de tratamento e controle, denominadas Análise A e Análise B, permitirão inferir o impacto da qualificação profissional ao contrastar indivíduos que partiram de uma mesma condição inicial e se diferenciaram em um segundo momento em relação à participação em curso de qualificação. Para tanto alguns pressupostos são adotados. Assume-se que as composições dos grupos de tratamento e controle não se alteram de forma significativa entre os dois anos e que os grupos não são afetados de maneira heterogênea por mudanças que ocorram após a intervenção. O impacto da qualificação profissional pode variar de maneira significativa conforme a situação no mercado de trabalho do indivíduo tratado, além disso, algumas perguntas da PME são realizadas para condições na ocupação específicas. Em vista disto, as análises A e B 75 também deveriam ser realizadas dentro de cada situação no mercado de trabalho. No entanto, devido o tamanho reduzido da amostra de indivíduos desocupados e inativos pertencentes aos grupos de tratamento e controle, as análises serão desenvolvidas apenas para os ocupados. Pareamento A condição de que os grupos de tratamento e controle apresentem mesma situação de participação em cursos de qualificação no ano I é necessária, mas não suficiente para que as análises A e B consigam avaliar o impacto da qualificação profissional. Os grupos podem apresentar diferenças em relação a outras características individuais. Caso estas diferenças sejam significativas, o grupo de controle deixa de ser um bom contrafactual para o grupo de tratamento e os dois grupos tornam-se incomparáveis. A existência de diferenças significativas, na média, entre o Grupo de Tratamento A e o Grupo de Controle A e entre o Grupo de Tratamento B e o Grupo de Controle B foi examinada através de testes de diferença de médias para as seguintes características individuais observadas na PME: região metropolitana, sexo, faixa de idade, cor ou raça, escolaridade e situação no mercado de trabalho, além de variáveis dummies para cada painel. Os testes para os grupos de tratamento e controle considerando apenas os indivíduos ocupados foram executados para as seguintes características, além das anteriores: Posição na Ocupação, Carteira Assinada, Tipo de Contrato e Rendimento Mensal Médio. Os resultados dos testes (Tabelas A1, A2, A3 e A4) mostram diferenças significativas entre os Grupos de Tratamento e Controle A e entre os Grupos de Tratamento e Controle B. O Grupo de Tratamento A Ocupado e o Grupo de Controle A Ocupado são significantemente diferentes na maioria das características testadas, sendo semelhantes apenas em relação à região metropolitana, sexo e posição na ocupação. O mesmo ocorre entre o Grupo de Tratamento B Ocupado e o Grupo de Controle B Ocupado, semelhantes apenas em relação a sexo, posição na ocupação e tipo de contrato. Estes resultados constatam a incomparabilidade entre os grupos de tratamento e controle. O método mais aplicado frente a este problema é o método de pareamento, que consiste em encontrar para cada indivíduo do grupo de tratamento um indivíduo (ou vários) do grupo de controle semelhante em determinadas características observadas. 38 Pressupõe-se que, após o pareamento, qualquer diferença entre resultados dos dois grupos será consequência apenas 38 Ver Wooldridge (2002). 76 do tratamento, ou seja, da participação em curso de qualificação. O pareamento foi realizado entre os grupos de tratamento e controle da Análise A e entre os grupos de tratamento e controle da Análise B de cada painel considerando as características analisadas nos testes de diferenças de médias. 39 Para verificar a efetividade do pareamento foram novamente realizados testes de diferenças de médias para as mesmas características. Os resultados dos novos testes (Tabelas A1, A2, A3 e A4) mostram que o pareamento foi efetivo para os grupos da Análise A, inclusive quando considerados apenas os ocupados.40 O pareamento não foi bem-sucedido para algumas características dos grupos da Análise B e da Análise B para os ocupados, provavelmente devido ao tamanho reduzido da amostra. 3.2.4 Construção dos Indicadores de Liberdade Real no Trabalho O painel construído permite observar a situação do indivíduo no mercado de trabalho em dois pontos no tempo. Pressupõe-se que mudanças de um ano para o outro podem ter duas origens: a escolha de uma opção valorizada pelo indivíduo, mas não acessível no primeiro momento, ou a escolha de uma opção não valorizada (ou menos valorizada) pelo indivíduo frente a uma redução das opções disponíveis. Nos dois casos há uma alteração do conjunto das capacitações individuais, que por sua vez representa uma variação na liberdade real no trabalho. Saber o sentido desta variação não é trivial. Como discutido no primeiro capítulo, a percepção individual do que é um trabalho valorizado é fundamental para o conceito de liberdade real no trabalho. Mudanças no mercado de trabalho tradicionalmente vistas como negativas podem ser positivas para determinadas pessoas. A mobilidade para uma ocupação com menor salário e menor exigência de escolaridade, por exemplo, de economista para artesão, convencionalmente reconhecida como uma mudança negativa será positiva caso o indivíduo valorize mais a ocupação para a qual se moveu. Portanto, a classificação da variação em aumento ou redução (ou permanência) da liberdade real no trabalho deverá ser realizada com cuidado e ressalvas. Essa característica, advinda da abordagem das capacitações, dificulta a estruturação de um índice de liberdade real no trabalho que reúna todos os indicadores detalhados abaixo. 39 O pareamento foi realizado sem reposição, de forma que um indivíduo do grupo de controle pode ser pareado com apenas um indivíduo do grupo de tratamento. O escore de propensão foi estimado por logit. O método de pareamento utilizado foi o do vizinho mais próximo. 40 Apesar dos testes indicarem um pareamento efetivo para os grupos da Análise A, é importante destacar a possibilidade de ocorrer o problema de viés de seleção, devido a características não observáveis e, portanto, não incluídas no processo de pareamento, e aos limites da própria metodologia utilizada. 77 Os indicadores foram reunidos em dois grupos, indicadores de situação no mercado de trabalho e indicadores de características do trabalho. Os primeiros são relativos apenas à mobilidade ou permanência na situação no mercado de trabalho e serão utilizados nas análises para os indivíduos em geral. O segundo grupo de indicadores refere-se a mudanças de diversos fatores relativos ao trabalho, sendo utilizados nas análises dos indivíduos que permaneceram na condição de ocupados nos dois anos. O grupo de indicadores de situação no mercado de trabalho se distingue em indicadores de mobilidade e indicadores de permanência. Os indicadores de mobilidade, por apresentarem uma mudança na situação do indivíduo no mercado de trabalho, significam uma provável variação de sua liberdade real no trabalho. Por outro lado, os indicadores de permanência apontam para uma manutenção do mesmo grau de liberdade real no trabalho no que tange à situação no mercado de trabalho, mas não descartam mobilidades em outros aspectos. Os indicadores de características do trabalho, referentes aos indivíduos que permaneceram ocupados nos dois anos do painel, 41 reúnem cinco dimensões de mobilidade. Os indicadores de informalidade têm na assinatura da carteira de trabalho o critério para classificação em formal ou informal. Os indicadores de rendimento foram construídos a partir da variável de “rendimento mensal habitualmente recebido por mês referente ao trabalho principal”, atualizado mês a mês para valores de dezembro de 2012 pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC/IBGE). Os indicadores de jornada de trabalho consideraram jornada parcial quando o número de horas habitualmente trabalhadas por semana no trabalho principal é menor que quarenta horas e jornada total quando é igual ou maior que quarenta horas. Os indicadores de satisfação com o trabalho se baseiam na variável que investiga se o indivíduo ocupado tomou providência para conseguir outro trabalho. A procura por outro trabalho indicaria uma insatisfação com o trabalho vigente. Por fim, os indicadores de mobilidade ocupacional foram construídos a partir da variável de ocupação da PME, que identifica as ocupações de acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 2002) do MTE. A CBO 2002 classifica as ocupações em dez Grandes Grupos Ocupacionais (GG), agregados por nível de competência. O conceito de competência reúne duas dimensões, nível de competência e domínio ou especialização da competência. O nível de competência é “função da complexidade, amplitude e responsabilidade das atividades desenvolvidas no emprego ou outro tipo de relação de trabalho”, enquanto o domínio da competência “relaciona-se às características do contexto do 41 A análise do grupo dos indivíduos que permaneceram desocupados e do grupo dos indivíduos que permaneceram inativos foi impossibilitada pelo tamanho reduzido das amostras. 78 trabalho como área de conhecimento, função, atividade econômica, processo produtivo, equipamentos, bens produzidos que identificarão o tipo de profissão ou ocupação” (MTE, 2010). A CBO 2002 identifica quatro níveis de competência, dois, três, quatro e não definido.42 Os GGs com nível de competência não definido são considerados apenas no último indicador de mobilidade ocupacional. Quadro 1 Indicadores de Liberdade Real no Trabalho I. SITUAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO A. Mobilidade 1. Mobilidade Inativo -> Desemprego 2. Mobilidade Inativo -> Ocupado 3. Mobilidade Desempregado -> Inativo 4. Mobilidade Desempregado -> Ocupado 5. Mobilidade Ocupado -> Inativo 6. Mobilidade Ocupado -> Desempregado B. Permanência 1. Permanência Inativo 2. Permanência Desempregado 3. Permanência Ocupado II. CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO A. Informalidade 1. Informal -> Formal 2. Formal -> Informal B. Rendimento 1. Aumento Rendimento 2. Redução Rendimento C. Jornada de Trabalho 1. Parcial -> Total 2. Total -> Parcial D. Satisfação com o Trabalho 1. Procura Outro Trabalho -> Não Procura Outro Trabalho 2. Não Procura Outro Trabalho -> Procura Outro Trabalho E. Mobilidade Ocupacional 1. Sem Mobilidade Ocupacional 2. Mobilidade Ocupacional Com Ganho de Competência 3. Mobilidade Ocupacional Com Perda de Competência 4. Mobilidade Ocupacional Com Mesma Competência 5. Mobilidade Ocupacional Sem Considerar Competência Elaborado pela autora Depois de calculados os indicadores para os grupos da Análise A e da Análise B, os resultados entre grupo de tratamento e grupo de controle serão comparados através do teste de diferença de médias, que apontará em quais indicadores os grupos de tratamento e controle são significantemente diferentes. Este procedimento será realizado para todos os nove painéis. 42 Grandes Grupos de Ocupação por nível de competência: Forças Armadas, policiais e bombeiros militares / não definido; Membros superiores do poder público, dirigentes de organizações de interesse público e de empresas e gerentes / não definido; Profissionais das ciências e das artes / quatro; Técnicos de nível médio / três; Trabalhadores de serviços administrativos / dois; Trabalhadores dos serviços, vendedores do comércio em lojas e mercados / dois; Trabalhadores agropecuários, florestais, da caça e pesca / dois; Trabalhadores da produção de bens e serviços industriais / dois; Trabalhadores da produção de bens e serviços industriais contínuos / dois; Trabalhadores de manutenção e reparação / dois (MTE, 2010). 79 3.3 Conclusão O SPETR brasileiro engloba diversas PAMT, seguindo a tendência mundial de adotar uma mistura de tipos de políticas ativas ao invés de um em particular. As principais PAMT adotadas pelo Brasil são a IMO, a política de qualificação profissional e as políticas de incentivo. A criação no PRONATEC na modalidade Bolsa-Formação Trabalhador e a inclusão da condicionalidade de participação em curso de qualificação profissional para o recebimento do benefício do seguro-desemprego constituem medidas que aproximam o Brasil do avanço para a ativação do trabalhador, o chamado “activation turn”, identificado nos países desenvolvidos. No entanto, este processo é permeado por diversas questões que podem limitar seu progresso efetivo, além do seu impacto sobre as liberdades reais no trabalho. O reduzido investimento do Brasil em PAMT, particularmente em políticas de qualificação profissional, em comparação com os países desenvolvidos e mesmo com países em desenvolvimento, como México e Chile (Gráfico 3), mostra a pouca importância desse tipo de política no país, problema agravado pela crescente desigualdade na distribuição dos recursos do FAT entre políticas ativas e passivas (Tabela 1). A criação do PRONATEC pode vir a amenizar este cenário via investimento na modalidade Bolsa-Formação Trabalhador. Entretanto, diante do convívio paralelo de dois programas de qualificação profissional, o PRONATEC e o PNQ, questiona-se se a efetividade de ambos não passaria por uma integração a partir da reconstrução de seus desenhos institucionais. Outro aspecto que surge como potencial limitador do impacto efetivo das PAMT, tanto sobre a ativação dos trabalhadores quanto sobre a promoção de suas liberdades reais no trabalho, consiste na ainda reduzida integração entre as políticas ativas e entre estas e outras políticas. Destaca-se a baixa integração da política de qualificação com a IMO e o sistema básico de ensino, objetivo não plenamente cumprido pelo PLANFOR, que se tornou objetivo também do PNQ. Levanta-se, ainda, a importância da criação de uma política ativa de cuidado ampla e de sua integração com as políticas de mercado de trabalho. A universalização das PAMT, objetivo central do PNQ em relação à política ativa de qualificação, passa pelo aspecto da integração com outras políticas e reúne também questões relativas ao conhecimento do público alvo e demandante das políticas ativas. A garantia do real funcionamento dos conselhos municipais e estaduais de emprego mostra-se relevante para a efetividade deste processo. 80 Apesar dos problemas identificados, as PAMT e, em destaque, as políticas de qualificação profissional, apresentam grande potencialidade de gerar efeitos positivos, tanto para indicadores de mercado de trabalho convencionais, quanto para a liberdade real no trabalho, diante da escassez de mão de obra qualificada no Brasil. As avaliações de impacto referidas na segunda seção do presente capítulo encontraram efeitos positivos da qualificação profissional sobre os retornos do mercado de trabalho. Oliveira e Rios-Neto (2007) encontraram um efeito positivo do programa do PLANFOR realizado na RM de Belo Horizonte sobre a probabilidade de sair do desemprego. Reis (2012) encontrou efeitos positivos da qualificação profissional no Brasil sobre a probabilidade de se empregar, a probabilidade de se inserir em um emprego formal e a renda do trabalho. Partindo da discussão realizada no primeiro capítulo, esta dissertação busca ampliar a percepção das avaliações convencionais (exemplificadas pelos trabalhos acima) através do emprego da abordagem das capacitações e do conceito de liberdade real no trabalho na avaliação dos impactos da qualificação profissional no Brasil. 81 Capítulo 4 – Qualificação Profissional no Brasil promove a Liberdade Real no Trabalho? A abordagem das capacitações e o conceito de liberdades reais no trabalho permitem abordar aspectos além dos convencionalmente analisados, ampliando a visão sobre o efeito das PAMT sobre os beneficiários. As PAMT mostram um efeito potencial positivo sobre as liberdades reais no trabalho dos indivíduos, com destaque para as políticas ativas de qualificação profissional. A diversidade de tipos de PAMT e os variados modelos implantados pelos países desenvolvidos (e em desenvolvimento) mostram que os impactos destas políticas dependem de seu formato e das características do país em que se inserem. O Brasil apresenta diversas particularidades, além de problemas, que levam ao questionamento de se as PAMT brasileiras promovem a liberdade real no trabalho. Mais particularmente, questiona-se se a política ativa de qualificação profissional, a PAMT com maior potencial de impactar positivamente as liberdades reais no trabalho, é efetiva neste sentido no Brasil. O presente capítulo dedica-se, portanto, à avaliação do impacto da qualificação profissional sobre a liberdade real no trabalho, a partir da metodologia definida no capítulo anterior. Para tanto está dividido em quatro seções. A primeira seção apresenta e avalia as estatísticas descritivas sobre os participantes e não participantes de qualificação profissional no Brasil. A segunda seção aborda o perfil dos demandantes potenciais de qualificação profissional, indicando diversas lacunas na oferta deste serviço no país. Na terceira seção, a qualificação profissional é avaliada em termos de seu impacto sobre a liberdade real no trabalho a partir de diversos indicadores. As principais conclusões do capítulo são colocadas na quarta e última seção. 4.1 Beneficiários da Qualificação Profissional no Brasil: estatísticas descritivas a partir da PME A análise do perfil dos beneficiários de políticas ou programas sociais é fundamental para conhecer o público-alvo efetivamente atingido, identificar lacunas e apontar possíveis impactos da ação. Como defende Musse e Machado (2013), “conhecer o indivíduo que se qualifica é fundamental para tornar as políticas públicas mais efetivas” (Musse e Machado, 2013, p.238). Ademais, investigar o perfil dos indivíduos não beneficiados permite observar possíveis caminhos de expansão da política, neste caso da qualificação profissional. Nesta 82 seção será analisado o perfil socioeconômico e as características de mercado de trabalho dos indivíduos participantes e não participantes de curso de qualificação profissional a partir das estatísticas descritivas obtidas na PME para os anos de 2003, 2007, 2010 e 2012. 4.1.1 Perfil Socioeconômico dos Participantes e Não Participantes de Curso de Qualificação Profissional O grupo dos participantes de cursos de qualificação profissional aumentou de 2003 para 2012 tanto em termos proporcionais quanto em termos absolutos (Gráfico 4). Entretanto, estes dados devem ser analisados com cuidado. Como visto anteriormente, os grupos de participantes e não participantes são formados, respectivamente, por indivíduos que concluíram ou participaram e por indivíduos que não concluíram nem participaram de curso de qualificação profissional. A PME não fornece informações sobre quando ocorreu a participação, portanto, indivíduos que se declararam concluintes de curso de qualificação em 2007, por exemplo, podem ter frequentado o curso em qualquer ano anterior. Dessa maneira, o tamanho do grupo dos participantes deve ser visto como o estoque de pessoas com qualificação profissional dentro do universo analisado. Gráfico 4 Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 100% 90% 80% 70% 60% 80.050 82.658 82.714 27.435 30.611 34.399 2007 2010 2012 82.780 50% 40% 30% 20% 10% 16.455 0% 2003 Participante (em mil) Não Participante (em mil) Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Considerando as diferenças entre os estoques de participantes dos períodos analisados, a participação em curso de qualificação profissional teve um aumento anual médio mais 83 expressivo entre 2003 e 2007 (2,75 milhões de participantes a mais por ano) do que nos períodos de 2007 a 2010 (1,06 milhões) e de 2010 a 2012 (1,89 milhões). Os ocupados são maioria entre os participantes de cursos de qualificação profissional, seguidos dos inativos e dos desocupados (Gráfico 5). Quando analisada a participação em qualificação dentro de cada situação no mercado de trabalho, observa-se que os participantes representavam 36% dos ocupados e 35% dos desocupados, contra 17% dos inativos em 2012. A menor proporção de participantes entre os inativos pode ser explicada, em parte, pelo maior peso de indivíduos com 65 anos de idade ou mais neste grupo (Tabela 5). Apesar de haver indivíduos nesta faixa etária ainda inseridos ou que buscam um inserção no mercado de trabalho, a proporção é menor que em faixas etárias mais jovens. Gráfico 5 Participação em Curso de Qualificação Profissional conforme Situação no Mercado de Trabalho - 2003 a 2012 100% 90% 3.293 5.460 6.116 7.102 1.314 1.922 1.571 1.404 11.849 20.053 22.925 25.892 2003 2007 2010 2012 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% Participante Ocupado (em mil) Participante Desocupado (em mil) Participante Inativo (em mil) Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Os participantes de curso de qualificação profissional são majoritariamente homens, brancos e amarelos, com 25 a 44 anos de idade (Tabela 2). Os não participantes, por sua vez, são, na sua maioria, mulheres, brancas e amarelas, com 25 a 54 anos de idade. No período de 2003 a 2012 observou-se uma queda na proporção de brancos e amarelos no total analisado, resultado seguido pelos grupos de participantes e não participantes. O processo de envelhecimento da população pode ser observado no aumento da participação das faixas etárias mais velhas no total do universo analisado, assim como entre os participantes e não participantes de qualificação profissional. 84 Tabela 2 Perfil Socieconômico conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 Em % Participantes Não Participantes TOTAL 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 SEXO Homem Mulher 52 48 51 49 50 50 51 49 45 55 45 55 44 56 44 56 46 54 46 54 46 54 46 54 Branca/Amarela 65 Preta/Parda/Indígena 35 FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 18 25 a 34 anos 26 35 a 44 anos 25 45 a 54 anos 17 55 a 64 anos 8 65 anos ou mais 5 TOTAL 100 63 37 60 40 61 39 60 40 58 42 55 45 54 46 60 40 59 41 56 44 56 44 20 27 22 17 9 5 100 17 28 22 18 10 6 100 15 27 22 17 11 6 100 19 22 21 16 11 11 100 16 21 20 18 12 13 100 14 20 19 18 14 15 100 14 19 19 18 15 16 100 19 23 21 17 10 10 100 17 22 21 18 12 11 100 15 22 20 18 13 12 100 14 21 19 18 14 13 100 COR OU RAÇA Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. Ocupados Os homens são maioria entre os ocupados, tanto participantes quanto não participantes (Tabela 3). Por outro lado, as mulheres são maioria quando considerada a distribuição por sexo para todo o universo independente da situação no mercado de trabalho, indicando uma desigualdade de gênero na inserção no mercado de trabalho. O período de 2003 a 2012 mostra, no entanto, um aumento da proporção de mulheres entre os indivíduos ocupados e uma redução desta desigualdade, resultado das mudanças nas relações de gênero observadas em países desenvolvidos e subdesenvolvidos. A proporção de homens e mulheres entre os ocupados participantes e não participantes, por sua vez, não apresenta diferenças significativas ao longo dos anos. Assim como entre os dois grupos e os indivíduos ocupados em geral. Este resultado mostra uma aparente igualdade na participação em curso de qualificação profissional entre homens e mulheres ocupados. Os brancos e amarelos são maioria no universo analisado (Tabela 3). A comparação da distribuição por cor ou raça dos ocupados com a distribuição por cor ou raça da amostra total não indica uma desigualdade na inserção no mercado de trabalho. O mesmo não ocorre quando analisadas as distribuições por cor ou raça conforme a participação em curso de qualificação. A proporção de brancos e amarelos é maior entre os participantes do que entre os não participantes em todos os anos analisados. O oposto se verifica para os pretos, pardos e 85 indígenas, que apresentam menor peso entre os participantes e maior peso entre os não participantes de curso de qualificação, resultado verificado nos quatro anos. A menor participação dos pretos, pardos e indígenas entre os ocupados participantes em comparação com os brancos e amarelos aponta para uma desigualdade racial na distribuição da qualificação profissional. Este resultado tem origem em uma desigualdade de liberdades reais entre cores ou raças no Brasil. A população preta, parda e indígena no Brasil apresenta, na média, condições socioeconômicas que resultam em menores níveis de liberdade real em diversas dimensões. Menor nível de renda, menor escolaridade, piores condições de habitação, maiores índices de violência, maiores níveis de desemprego, trabalhos mais precários são alguns exemplos de condições socioeconômicas vividas pela média da população preta, parda e indígena no Brasil. Estas condições são fatores de conversão que limitam as liberdades reais desta população em diversas dimensões, inclusive na participação de curso de qualificação. Empregados formais, por exemplo, possuem mais acesso a cursos de qualificação, inclusive dentro da empresa, do que trabalhadores precários. Os ocupados são mais jovens que o total analisado. Aproximadamente 70% dos ocupados possuem entre 25 e 54 anos de idade. O envelhecimento populacional, importante mudança na estrutura etária da população responsável por alguns dos novos riscos sociais, pode ser verificado na amostra como um todo, assim como em cada uma das condições na ocupação. No grupo dos indivíduos ocupados, a faixa etária mais jovem considerada (18 a 24 anos de idade), abrangia 14% dos indivíduos em 2012 contra 18% em 2003. A faixa etária de 55 a 64 anos, por sua vez, passou de 7% a 11% entre 2003 e 2012, respectivamente (Tabela 3). Em relação à participação em qualificação profissional, a proporção de indivíduos nas faixas etárias de 25 a 34 e 35 a 44 anos de idade é maior entre os ocupados participantes do que entre os ocupados não participantes. A maior participação destes grupos na qualificação profissional pode ter origem no maior interesse de indivíduos nestas faixas etárias em aprimorar ou reciclar conhecimentos ou mesmo em um desejo por mobilidade ocupacional, características menos verificadas em indivíduos mais jovens, que entraram há pouco tempo no mercado, e em indivíduos mais velhos, que vivem a perspectiva da aposentadoria. Entre os ocupados, os participantes de curso de qualificação profissional são majoritariamente homens, brancos ou amarelos, com 25 a 44 anos de idade. Os ocupados não participantes apresentam perfil semelhante aos participantes, assim como o total dos ocupados (Tabela 3). 86 Tabela 3 Perfil Socieconômico dos Ocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 Em % Não Participante Ocupado Participante Ocupado Total Ocupados Total 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 SEXO Homem Mulher 57 43 COR OU RAÇA Branca/Amarela 66 Preta/Parda/Indíg. 34 FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 16 25 a 34 anos 29 35 a 44 anos 29 45 a 54 anos 19 55 a 64 anos 6 65 anos ou mais 2 TOTAL 100 56 44 55 45 55 45 57 43 56 44 55 45 54 46 57 43 56 44 55 45 54 46 46 54 46 54 46 54 46 54 63 37 60 40 61 39 60 40 57 43 54 46 53 47 61 39 59 41 56 44 55 45 60 40 59 41 56 44 56 44 18 30 25 18 7 2 100 15 31 25 19 8 2 100 14 31 25 19 9 2 100 18 28 26 18 7 2 100 16 26 26 21 9 2 100 14 26 25 21 11 3 100 14 25 25 22 12 3 100 18 28 27 18 7 2 100 16 28 26 20 8 2 100 15 28 25 20 10 2 100 14 27 25 21 11 3 100 19 23 21 17 10 10 100 17 22 21 18 12 11 100 15 22 20 18 13 12 100 14 21 19 18 14 13 100 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Observação: Considerou-se ocupada a pessoa que possuía um ou mais trabalhos na semana de referência. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. Desocupados A distribuição dos desocupados conforme o sexo segue a distribuição do total da amostra, com as mulheres sendo a maioria (Tabela 4). No entanto, a proporção de mulheres entre os desocupados é maior do que entre os ocupados, indicando uma maior vulnerabilidade desta população na inserção no mercado de trabalho. As mulheres também são maioria quando considerada a participação em curso de qualificação, sem diferenças significativas entre participantes e não participantes, corroborando com o resultado encontrado no grupo dos indivíduos ocupados. Em relação à variável de cor ou raça, os pretos, pardos e indígenas são maioria entre os desocupados, enquanto os brancos e amarelos representam a maioria no universo analisado (Tabela 4). Os desocupados são, por definição, indivíduos que gostariam de trabalhar, mas que não o estão fazendo. Portanto, são pessoas com reduzida liberdade real no trabalho, uma vez que não conseguem alcançar um funcionamento valorizado, no caso o trabalho. Dessa maneira, a prevalência dos pretos, pardos e indígenas entre os desocupados traduz-se em uma menor liberdade real no trabalho desta população em comparação com os brancos e amarelos, resultado que não apresenta melhoras ao longo do período analisado. Além disso, a menor proporção de pretos, pardos e indígenas entre os participantes de curso de qualificação do que entre os não participantes reforça o resultado, encontrado na análise dos indivíduos ocupados, de que há uma desigualdade racial na distribuição da qualificação profissional no Brasil. 87 A distribuição etária dos desocupados distingue-se dos ocupados e do total da amostra na maior proporção de indivíduos mais jovens, principalmente entre 18 e 24 anos de idade. Enquanto 14% dos indivíduos ocupados tinham entre 18 e 24 anos de idade em 2012, 36% dos indivíduos desocupados encontravam-se na mesma faixa etária em 2012 (Tabelas 3 e 4). Apesar dos indivíduos com 18 a 24 anos de idade representarem mais de um terço dos desocupados também entre os participantes de curso de qualificação, as faixas etárias mais velhas apresentam maior peso entre os participantes do que entre os não participantes. Este resultado indica que também entre os desocupados, os indivíduos com 25 a 54 anos de idade tendem a participar mais de cursos de qualificação do que pessoas nas outras faixas etárias. A maior proporção de jovens participantes de qualificação profissional entre os desocupados do que entre os ocupados mostra que os jovens que procuram por este tipo de curso estão desocupados, apontando a importância de outras PAMT para esta parcela da população. Tabela 4 Perfil Socieconômico dos Desocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 Em % Não Participante Desocupado Participante Desocupado Total Desocupados Total 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 SEXO Homem Mulher 45 55 COR OU RAÇA Branca/Amarela 54 Preta/Parda/Indíg. 46 FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 40 25 a 34 anos 31 35 a 44 anos 17 45 a 54 anos 9 55 a 64 anos 3 65 anos ou mais 0 TOTAL 100 42 58 42 58 44 56 46 54 44 56 41 59 43 57 46 54 44 56 41 59 44 56 46 54 46 54 46 54 46 54 50 50 51 49 51 49 51 49 46 54 44 56 46 54 52 48 48 52 46 54 48 52 60 40 59 41 56 44 56 44 44 31 14 8 2 0 100 40 31 16 10 3 0 100 35 33 17 10 4 1 100 41 28 18 10 3 0 100 40 30 17 10 3 0 100 37 31 18 10 4 0 100 37 29 19 11 4 0 100 40 29 17 10 3 0 100 41 30 16 9 3 0 100 38 31 18 10 4 0 100 36 31 18 11 4 0 100 19 23 21 17 10 10 100 17 22 21 18 12 11 100 15 22 20 18 13 12 100 14 21 19 18 14 13 100 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Observação: Considerou-se desocupada a pessoa que não possuía nenhum trabalho na semana de referência, mas que tomou providência para conseguir trabalho e que, se conseguisse trabalho, poderia assumí-lo na semana de referência. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. Os desocupados que participam de curso de qualificação profissional são, em sua maioria, mulheres, brancas ou amarelas, com 18 a 34 anos de idade. Por outro lado, os desocupados não participantes são majoritariamente mulheres, pretas, pardas ou indígenas, com 18 a 37 anos de idade (Tabela 4). Inativos As mulheres representam cerca de 70% dos inativos e 54% do total da amostra (Tabela 5). A sobre representação das mulheres entre os inativos pode ser, em grande medida, 88 resultado da maior participação das mulheres entre os idosos, devido à sua maior expectativa de vida frente aos homens. Por outro lado, a menor participação das mulheres no mercado de trabalho ocorre, muitas vezes, em razão de fatores que limitam sua liberdade real em entrar no mercado de trabalho. A responsabilização exclusiva da mulher pelo cuidado da casa, dos filhos e também dos idosos, por exemplo, é um fator que limita a entrada da mulher no mercado de trabalho. Entre os inativos, a participação em curso de qualificação profissional é maior para as mulheres do que para os homens, tanto em termos absolutos (Tabela A7), quanto relativos (Tabela 5). Entretanto, o menor peso das mulheres no grupo dos inativos participantes em comparação com o grupo dos inativos não participantes pode indicar uma desigualdade de gênero na distribuição da qualificação profissional entre os inativos, que se mantém no período analisado mesmo com o aumento da participação feminina no mercado de trabalho. Este resultado também pode ter origem na maior proporção de mulheres entre os idosos, os quais participam menos de cursos de qualificação. Uma desigualdade de gênero na participação dos inativos em cursos de qualificação profissional se somaria aos outros fatores limitantes da liberdade real no trabalho da mulher, resultando em uma diminuição ainda maior do conjunto de possibilidades que esta parcela da população pode efetivamente alcançar. No que concerne à cor ou raça dos inativos, verifica-se que estes são mais brancos e amarelos do que o total da amostra. Uma possível explicação para este resultado é a maior escolaridade da população branca e amarela em comparação com a população preta, parda e indígena. Permanecer estudando por mais anos implica no adiamento da entrada no mercado de trabalho. Observa-se um aumento da proporção dos pretos, pardos e indígenas entre os inativos de 2003 para 2012, resultado que pode estar relacionado com um aumento da escolaridade da população brasileira como um todo nos últimos anos. A desigualdade racial na distribuição da qualificação profissional, resultado encontrado na análise do ocupados e desocupados, também se confirma no caso dos inativos. Os inativos são mais velhos que o total da amostra, assim como em comparação com os ocupados e desocupados. Os indivíduos com 65 anos de idade ou mais representavam 33% dos inativos em 2012, contra 13% do total da amostra, 3% dos ocupados e 0,4% dos inativos no mesmo ano (Tabela 5), resultados explicados pela grande presença de aposentados neste grupo. Apesar disto, 24% dos inativos que declararam ser participantes de qualificação profissional em 2012 pertenciam a esta faixa etária, com a participação aumentando de 2003 para 2012. Embora esta parcela da população esteja potencialmente fora do mercado de trabalho, pode haver uma demanda por cursos de qualificação profissional, seja por um desejo 89 apenas por adquirir novos conhecimentos, seja por um desejo de retornar ao mercado de trabalho. Tabela 5 Perfil Socieconômico dos Inativos conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 Em % Participante Inativo Não Participante Inativo Total Inativa Total 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 SEXO Homem Mulher 36 64 COR OU RAÇA Branca/Amarela 65 Preta/Parda/Indíg. 35 FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 19 25 a 34 anos 14 35 a 44 anos 14 45 a 54 anos 16 55 a 64 anos 18 65 anos ou mais 18 TOTAL 100 35 65 35 65 36 64 28 72 29 71 29 71 29 71 28 72 30 70 30 70 31 69 46 54 46 54 46 54 46 54 65 35 62 38 61 39 61 39 60 40 57 43 57 43 61 39 61 39 58 42 57 43 60 40 59 41 56 44 56 44 19 15 13 15 19 18 100 17 16 12 14 20 22 100 16 14 11 14 21 24 100 16 13 14 15 17 26 100 13 11 12 15 18 30 100 12 10 11 14 20 33 100 12 9 10 14 20 35 100 16 13 14 15 17 25 100 14 12 12 15 19 28 100 13 11 11 14 20 31 100 12 10 10 14 20 33 100 19 23 21 17 10 10 100 17 22 21 18 12 11 100 15 22 20 18 13 12 100 14 21 19 18 14 13 100 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Observação: Considerou-se inativa (ou não economicamente ativa) a pessoa com mais de 10 anos de idade que não possuía nenhum trabalho na semana de referência nem estava procurando por um. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. O grupo dos participantes inativos é formado majoritariamente por mulheres, brancas e amarelas e com 55 anos de idade ou mais. O perfil dos inativos não participantes segue as mesmas características, assim como o total dos inativos (Tabela 5). Escolaridade Exigida pelo Curso de Qualificação A qualificação profissional reúne uma variedade de cursos. No entanto, a base de dados utilizada não permite distinguir a origem da qualificação profissional – se ofertada pela firma ou se está inserida em alguma política de emprego, por exemplo –, e não fornece informações sobre a carga horária dos cursos, importante indicador de qualidade. Além das perguntas sobre participação em curso de qualificação, a PME pergunta aos entrevistados participantes qual a escolaridade exigida pelo curso de qualificação profissional. Esta variável será utilizada para analisar, em algum grau, a diversidade dos cursos de qualificação profissional. A maioria dos participantes frequentou cursos que exigiam ensino médio completo, seguido dos que exigiam ensino fundamental completo (Tabela 6). No período analisado verificou-se um aumento da participação em cursos que demandam apenas alfabetização ou a conclusão da primeira série do ensino fundamental e em cursos que exigem a conclusão do ensino médio ou a conclusão do ensino superior. Por outro lado, ocorreu uma queda dos 90 cursos que requerem a conclusão da quarta série do ensino fundamental ou a conclusão do ensino fundamental. A maior participação em cursos que exigem maior nível de escolaridade pode ser motivada, em parte, pelo aumento da escolarização da população brasileira e pelo aumento da procura dos empregadores por mão de obra mais qualificada. O crescimento da participação em cursos de menor escolaridade, por outro lado, pode ser explicado tanto pelo aumento da taxa de ocupação para a parcela mais pobre e menos escolarizada da população quanto pela reestruturação da política ativa de qualificação profissional a partir de 2003, que tem nesta população um de seus públicos-alvo. Quando analisada a escolaridade exigida pelo curso conforme a situação no mercado de trabalho, observa-se que os ocupados apresentam maior participação nos cursos que demandam escolaridade elevada (conclusão do ensino superior) do que os desocupados e inativos (Tabela 6). O oposto se verifica em relação aos inativos, que participam mais de cursos que demandam um baixo nível de escolaridade (alfabetização ou conclusão da primeira série do ensino fundamental) do que os ocupados e desocupados. Tabela 6 Escolaridade Exigida pelo Curso de Qualificação Profissional conforme Situação no Mercado de Trabalho - 2003 a 2012 Em % 2003 Alfabetização ou concl. 1ª série do EF Conclusão da 4ª série do EF Conclusão do EF Conclusão do EM Conclusão de ES TOTAL Ocupado 2007 2010 2012 Desocupado Inativo 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 Total Participantes 2003 2007 2010 2012 13 21 18 20 12 23 21 24 18 25 23 26 14 22 19 21 11 30 35 12 100 10 26 30 13 100 10 23 35 15 100 8 19 36 17 100 13 38 33 3 100 12 33 29 3 100 12 28 34 5 100 9 26 36 6 100 14 29 32 7 100 13 27 28 7 100 12 23 33 9 100 10 19 35 10 100 12 30 34 10 100 10 27 30 11 100 11 23 34 13 100 8 20 36 15 100 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. 4.1.2 Características do Mercado de Trabalho dos Participantes e Não Participantes de Curso de Qualificação Profissional Os perfis dos participantes e não participantes de curso de qualificação profissional no mercado de trabalho serão analisados para as características definidas na metodologia para cada situação no mercado de trabalho (seção 3.2). Devido à maior disponibilidade de informações para os ocupados na base de dados utilizada, esta parcela da população receberá maior atenção na análise a seguir. 91 Ocupados A maioria dos ocupados do universo analisado consiste em empregados, com carteira assinada e que trabalhavam de 40 a 44 horas semanalmente (Tabela 7). A queda da informalidade verificada no mercado de trabalho brasileiro nos últimos anos explica o aumento da proporção de ocupados com estas três características entre 2003 e 2012. Os empregados e empregadores possuem maior participação entre os ocupados participantes de curso de qualificação do que entre os ocupados não participantes (Tabela 7). Situação oposta ocorre em relação aos trabalhadores domésticos e trabalhadores por conta própria, que possuem maior participação entre os não participantes. A sobre-representação dos empregados e empregadores pode ser resultado de uma maior facilidade destes grupos em obter a qualificação profissional ou de um efeito desta sobre a mobilidade ocupacional dos participantes, que se moveriam de outras posições na ocupação para a posição de empregado ou empregador. Por outro lado, a sub-representação dos empregados domésticos e trabalhadores por conta própria entre os participantes reforça a vulnerabilidade destas ocupações, principalmente dos primeiros. Além de deterem menores níveis de liberdades reais no trabalho por estarem inseridos em uma posição na ocupação caracteristicamente mais precária, os empregados domésticos tendem a se beneficiar menos dos impactos positivos da qualificação profissional. Resultado semelhante ocorre em relação à posse ou não de carteira assinada. A participação dos empregados formais (com carteira de trabalho assinada) entre os ocupados participantes de qualificação profissional é maior que entre os não participantes (Tabela 7). A maior proporção de trabalhadores formais entre os participantes pode ser explicada, por um lado, pelo maior acesso a cursos de qualificação ofertados dentro das empresas e, por outro lado, por um possível impacto positivo da qualificação profissional sobre a qualidade do emprego, o que promoveria a formalização do beneficiário. Semelhante ao que ocorre com os empregados domésticos, os trabalhadores informais apresentam menores níveis de liberdade real no trabalho que os trabalhadores formais, diferença que é reforçada pela menor participação dos informais em cursos de qualificação profissional. O indivíduo ocupado que procura por outro trabalho indica uma insatisfação com o trabalho atual. A partir desse pressuposto, observa-se que uma parcela dos indivíduos ocupados estava insatisfeita com o trabalho que exercia. Esta insatisfação, no entanto, reduziu-se à metade entre 2003 e 2012. Enquanto 8% dos ocupados estavam insatisfeitos com seu trabalho em 2003, apenas 4% encontrava-se na mesma situação em 2012 (Tabela 7). 92 Ainda assim, em termos absolutos havia 2,8 milhões de pessoas insatisfeitas com o próprio trabalho em 2012 (apenas no universo considerado pela pesquisa) (Tabela A9). Sendo a liberdade real no trabalho definida como a liberdade do indivíduo em escolher o trabalho que valoriza, esta população possui uma liberdade real no trabalho reduzida. A maior proporção de trabalhadores insatisfeitos entre os participantes de curso de qualificação profissional sinaliza a mobilidade ocupacional como um dos motivos dos indivíduos ocupados buscarem a qualificação profissional. A existência de ocupados insatisfeitos com o trabalho no grupo dos não participantes de curso de qualificação revela uma importante lacuna na oferta deste serviço, que será analisada mais atentamente na seção seguinte. Tabela 7 Características do Trabalho conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 Em % Participante Ocupado Posição na Ocupação Trabalhador doméstico Empregado Conta própria Empregador Trabalhador não remunerado Carteira Trabalho Assinada Sim Não Missing Horas Trabalhadas na Semana Até 14 horas 15 a 39 horas 40 a 44 horas 45 a 48 horas 49 horas ou mais Tomou providência para conseguir outro trabalho? Sim Não TOTAL Não Participante Ocupado Total Ocupado 2007 2010 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2 73 18 7 1 2 75 16 11 0 2 77 15 5 0 2 78 15 5 0 9 64 21 5 1 11 63 21 4 1 10 65 20 4 1 9 67 20 4 0 7 66 20 6 1 8 67 20 5 1 7 69 18 5 1 6 71 18 5 0 48 15 38 51 16 33 55 13 31 57 12 31 45 22 34 46 21 32 50 19 31 52 17 31 45 20 34 48 19 33 52 17 31 54 15 31 2 20 47 15 16 2 19 51 16 13 2 18 55 15 11 1 17 56 15 11 2 16 47 19 16 2 15 50 20 13 2 15 54 18 11 1 15 54 18 11 2 17 47 18 16 2 16 50 18 13 2 16 54 17 11 1 16 55 17 11 11 89 100 10 90 100 7 92 100 5 95 100 7 93 100 5 95 100 4 96 100 3 97 100 8 92 100 7 93 100 5 95 100 4 96 100 2012 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Observação: Considerou-se ocupada a pessoa que possuía um ou mais trabalhos na semana de referência. O rendimento mensal médio real habitualmente recebido pelos participantes de curso de qualificação é maior que o recebido pelos não participantes (Gráfico 6). Novamente este resultado pode apresentar duas causas, ou que os indivíduos ocupados em trabalhos com maiores rendimentos possuem maior facilidade em se qualificar ou que a qualificação profissional proporciona maiores rendimentos para os beneficiários, seja incentivando uma mobilidade para trabalhos com maiores remunerações, seja ampliando a remuneração recebida pelo indivíduo no mesmo trabalho. O aumento real do rendimento do trabalho ocorrido no Brasil na última década pode ser observado também nestes dados. Apesar disto, a 93 distância entre os ocupados não participantes e o total dos ocupados e entre os ocupados não participantes e os ocupados participantes aumentou de 2003 para 2012, resultado que pode apontar para um crescimento ao longo do período do efeito da qualificação profissional sobre o rendimento do trabalho. Gráfico 6 Rendimento Mensal Médio Habitualmente Recebido* conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 R$ 2.500,00 R$ 2.157,77 R$ 2.233,88 R$ 2.057,75 R$ 2.362,74 R$ 2.000,00 R$ 1.754,16 R$ 1.506,00 R$ 1.844,93 R$ 1.579,29 R$ 1.500,00 R$ 1.515,08 R$ 1.362,31 R$ 1.555,19 R$ 1.316,61 R$ 1.000,00 R$ 500,00 R$ 2003 Ocupado Participante 2007 2010 Ocupado Não Participante 2012 Total Ocupados Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. *Rendimento atualizado para valores de dezembro de 2012 pelo INPC/IBGE. A maioria dos ocupados participantes de curso de qualificação profissional é empregada, com carteira de trabalho assinada, trabalham de 40 a 44 horas por semana e não haviam tomado providência para procurar outro trabalho (Tabela 6). Os ocupados não participantes apresentam o mesmo perfil, assim como a população ocupada como um todo. Desocupados Os indivíduos desocupados apresentam uma liberdade real no trabalho restrita. Realidade reforçada pelo grande número de desempregados não participantes de curso de qualificação profissional. Apenas 35% dos desocupados eram participantes em 2012 (Gráfico 7). Ou seja, 2,6 milhões de pessoas desejavam trabalhar e procuravam emprego, mas não eram abarcados pelo serviço de qualificação profissional, seja público ou privado, em 2012. Esta importante lacuna na qualificação profissional será discutida na seção referente aos demandantes potenciais. 94 Gráfico 7 Desocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 100% 90% 80% 70% 60% 4.068 3.052 2.581 1.922 1.571 1.404 2007 2010 2012 6.109 50% 40% 30% 20% 10% 1.314 0% 2003 Desocupado Participante (em mil) Desocupado Não Participante (em mil) Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Gráfico 8 Proporção de Inativos que gostariam de conseguir um trabalho conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 100% 90% 80% 70% 60% 4.738 3.814 3.120 1.395 1.254 2010 2012 6.095 50% 40% 30% 20% 10% 1.461 1.071 0% 2003 2007 Inativo Participante (em mil) Inativo Não Participante (em mil) Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. 95 Inativos Os indivíduos inativos abrangiam 21% dos participantes de cursos de qualificação profissional em 2012 (Gráfico 5). Apesar de não estarem procurando trabalho, 11% dos inativos gostariam de conseguir um. A inserção no mercado de trabalho não é conquistada, apesar de ser desejada, caracterizando uma restrição da liberdade real no trabalho deste grupo. Dentro do grupo dos inativos que declararam desejar conseguir um trabalho, os não participantes de curso de qualificação eram maioria (Gráfico 8). São indivíduos que desejam ingressar no mercado de trabalho, mas não são atendidos por uma política com potencial para promover esta inserção. Este resultado aponta para mais um gargalo da qualificação profissional no Brasil, que será discutido na próxima seção. Os grupos populacionais que mais participam de cursos de qualificação profissional nas principais RMs do Brasil são homens, brancos e amarelos, com 25 a 44 anos de idade (Tabela 2). A maioria dos participantes de qualificação profissional frequenta cursos que exigem ensino médio completo (Tabela 6). Entre os participantes ocupados prevalecem os mesmos grupos que entre os participantes como um todo (Tabela 3). A maioria dos ocupados participantes de curso de qualificação profissional é empregada, com carteira de trabalho assinada, trabalham de 40 a 44 horas por semana, não haviam tomado providência para procurar outro trabalho e tiveram um rendimento médio mensal de R$ 2362,74 em 2012 (Tabela 6 e Gráfico 6). Os participantes desocupados são majoritariamente mulheres, brancas ou amarelas, com 18 a 34 anos de idade (Tabela 4). Os inativos que participam de curso de qualificação profissional são, em sua maioria, mulheres, brancas e amarelas, com 55 anos de idade ou mais (Tabela 5). 4.2 Lacunas da Qualificação Profissional no Brasil: o perfil dos demandantes potenciais Os demandantes potenciais são indivíduos que desejavam (re)ingressar no mercado de trabalho ou mover-se dentro dele, mas que não haviam concluído nem frequentado curso de qualificação no período de referência.43 Tendo em vista os possíveis impactos positivos da qualificação sobre a (re)inserção e mobilidade no mercado de trabalho, estes indivíduos são considerados prováveis demandantes de cursos de qualificação. 43 A PME fornece dados sobre a participação dos indivíduos em cursos de qualificação profissional através de duas questões: “Concluiu algum curso de qualificação profissional?” (Questão 12, Parte 3) e “Frequenta curso de qualificação profissional?” (Questão 13, Parte 3). 96 A análise do perfil dos demandantes potenciais visa identificar lacunas e, consequentemente, áreas para ampliação da qualificação profissional no Brasil. Caso contribua para que os potenciais demandantes alcancem a posição desejada no mercado de trabalho, a qualificação profissional terá um efeito positivo importante sobre a liberdade real no trabalho desta população. Gráfico 9 Demandantes Potenciais conforme Situação no Mercado de Trabalho - 2003 a 2012 16.000 14.861 Demandantes Potenciais (em mil) 14.000 12.000 10.669 10.000 8.514 8.000 7.136 6.109 6.000 5.572 4.339 3.709 4.000 3.134 4.068 2.000 3.052 3.180 2.262 2.581 1.421 1.753 0 2003 2007 Ocupados Demandantes (em mil) Inativos Demandantes (em mil) 2010 2012 Desocupados Demandantes (em mil) Total Demandantes (em mil) Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. O grupo dos demandantes potenciais teve seu tamanho reduzido a menos da metade no período de 2003 a 2012, passando de 14,9 milhões de pessoas para 7,1 milhões (Gráfico 9). Os desocupados eram maioria entre os demandantes em 2003, seguidos dos inativos e ocupados. Em 2007, os inativos passaram a ser maioria entre os demandantes, seguidos dos desocupados e ocupados, permanecendo desta forma nos outros anos. A reestruturação do mercado de trabalho brasileiro ao longo dos últimos anos pode explicar, em parte, a redução da quantidade de demandantes potenciais ao longo da última década. Alguns fatores são a redução do desemprego e a diminuição da insatisfação com o trabalho no período, que reduzem os demandantes desocupados e ocupados, respectivamente, e a criação de postos de trabalho e o aumento da participação feminina no mercado de trabalho no período, que reduzem os demandantes inativos. Os demandantes potenciais de curso de qualificação profissional são majoritariamente mulheres (60% em 2012), perfil que se repete quando considerada a situação no mercado de 97 trabalho dos demandantes (Tabela 8). As mulheres representam menos da metade apenas entre os demandantes potenciais ocupados nos anos de 2003 e 2007, resultado explicado pela menor proporção de mulheres entre os ocupados (Tabela 3). A proporção de mulheres entre os demandantes ocupados (50% em 2012) é maior que entre o total dos ocupados (46% em 2012) (Tabelas 3 e 8). O mesmo ocorre quando comparados o total de demandantes, com 60% de mulheres em 2012, com o total do universo analisado, com 54% de mulheres em 2012 (Tabelas 3 e 8). As mulheres são, portanto, as maiores demandantes de qualificação profissional, tanto em termos relativos quanto absolutos (Tabela A10). O perfil dos demandantes quanto à cor ou raça mostra resultado semelhante. Apesar dos brancos e amarelos serem maioria no universo analisado, os pretos, pardos e indígenas são maioria entre os demandantes potenciais em todos os anos analisados, exceto em 2003, quando perfazem 49% (Tabela 8). A análise por situação no mercado de trabalho torna esse resultado mais evidente, principalmente entre os ocupados e inativos. Os pretos, pardos e indígenas representavam, respectivamente, 45% e 43% dos ocupados e inativos em 2012, contra, respectivamente, 57% e 59% dos demandantes ocupados e demandantes inativos no mesmo ano (Tabelas 3, 5 e 8). Os pretos, pardos e indígenas são maiores demandantes potenciais de cursos de qualificação profissional que os brancos e amarelos, condição que continuou igual no período analisado. Aproximadamente 80% dos demandantes potenciais possuem entre 18 e 44 anos de idade, sendo mais jovens que o total do universo analisado (Tabelas 3 e 8). A faixa etária mais jovem, de 18 a 24 anos de idade, é a que apresenta maior diferença de proporção entre os demandantes potenciais e o total analisado. Enquanto 14% do universo possuíam entre 18 e 24 anos de idade em 2012, 29% dos demandantes potenciais encontravam-se na mesma faixa etária. A escolaridade dos demandantes potenciais aumentou ao longo do período analisado, acompanhando a tendência da população brasileira. Em 2012, aproximadamente metade (49%) dos demandantes potenciais possuía onze anos ou mais de estudo. Esse perfil difere dos resultados sobre a escolaridade exigida pelo curso de qualificação (Tabela 6). Os participantes de qualificação profissional frequentam cursos que exigem uma escolaridade proporcionalmente menor do que a que os demandantes potenciais possuem. Enquanto 21% dos participantes fizeram cursos que exigiam apenas a alfabetização ou conclusão da primeira série do ensino fundamental, apenas 4% dos demandantes potenciais tinham de um a três anos de estudo (Tabelas 6 e 8). 98 Tabela 8 Perfil Socieconômico dos Demandantes Potenciais conforme Situação no Mercado de Trabalho - 2003 a 2012 Em % Demandantes Demandantes Demandantes Desocupados Inativos Total 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 Demandantes Ocupados SEXO Homem Mulher 56 44 COR OU RAÇA Branca/Amarela 51 Preta/Parda/Indígena 49 FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 28 25 a 34 anos 32 35 a 44 anos 25 45 a 54 anos 12 55 a 64 anos 3 65 anos ou mais 1 ESCOLARIDADE Sem instrução e menos de 1 ano 4 de estudo 1 a 3 anos de estudo 8 4 a 7 anos de estudo 30 8 a 10 anos de estudo 21 11 ou mais anos de estudo 38 Não determinada 0 REGIÃO METROPOLITANA Recife 9 Salvador 10 Belo Horizonte 9 Rio de Janeiro 23 São Paulo 39 Curitiba 4 Porto Alegre 6 TOTAL 100 53 47 49 51 50 50 46 54 44 56 41 59 43 57 28 72 29 71 29 71 32 68 41 59 40 60 38 62 40 60 43 57 42 58 43 57 51 49 46 54 44 56 46 54 50 50 49 51 44 56 41 59 51 49 47 53 44 56 43 57 24 34 25 13 3 0 24 34 23 15 3 0 23 35 23 15 4 0 41 28 18 10 3 0 40 30 17 10 3 0 37 31 18 10 4 0 37 29 19 11 4 0 28 24 20 15 9 5 25 24 20 17 9 5 25 24 20 16 10 5 26 25 19 16 9 4 33 27 20 12 5 2 30 28 20 13 5 2 29 29 20 14 6 2 29 28 20 14 6 2 3 2 2 3 2 1 1 6 5 4 2 5 3 3 2 6 29 21 41 0 5 23 20 50 0 4 21 19 53 0 7 27 25 38 0 5 25 25 43 1 4 20 24 51 0 3 18 24 54 0 10 33 22 28 0 9 32 23 31 0 7 27 24 39 0 5 25 23 44 0 8 30 23 34 0 7 29 23 37 0 5 23 23 45 0 4 22 22 49 0 9 18 14 16 30 7 5 100 10 18 14 20 27 5 6 100 11 13 12 22 32 3 6 100 7 10 8 17 48 4 6 100 9 11 7 20 41 5 6 100 10 13 7 22 39 4 6 100 6 12 7 23 41 5 6 100 12 10 13 16 38 4 7 100 14 11 12 13 39 5 6 100 17 14 11 17 29 5 7 100 17 19 11 16 25 5 6 100 9 10 10 18 42 4 6 100 11 13 11 16 38 6 6 100 13 15 10 19 32 5 6 100 12 15 10 20 32 5 6 100 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. Em relação à distribuição geográfica, os demandantes potenciais encontram-se principalmente nas RMs de São Paulo e Rio de Janeiro, maiores RMs do Brasil. Um resultado que deve ser destacado é o aumento da proporção de demandantes potenciais nas duas RMs do Nordeste, Recife e Salvador, ao longo do período considerado. Os demandantes potenciais são, portanto, principalmente inativos e majoritariamente do sexo feminino, pretos, pardos ou indígenas, com 18 a 34 anos de idade e com onze anos ou mais de estudos, residentes nas RMs de São Paulo e Rio de Janeiro. As políticas ativas de qualificação realizadas no Brasil deveriam idealmente ser estruturadas de maneira a atender esta população. Uma maior efetividade dessas políticas passa pela compreensão das especificidades dos grupos de demandantes potenciais. Os fatores de conversão enfrentados por cada um dos grupos devem ser considerados no momento da formulação dos programas de qualificação profissional, caso contrário a oferta de cursos pode não ser acompanhada de uma maior participação por parte da população. No caso das mulheres, por exemplo, devem ser consideradas questões relativas ao cuidado de crianças e idosos. A (re)inserção no mercado de trabalho, a mobilidade 99 ocupacional e mesmo a participação em curso de qualificação profissional das demandantes potenciais podem ser, em grande parte, limitadas pela responsabilização quase total da mulher pelo cuidado das crianças. As políticas e programas de qualificação devem ser acompanhados por uma política ativa de cuidado. Desta forma, uma maior oferta de cursos de qualificação terá um maior impacto efetivo sobre este grupo. Por sua vez, a elevada proporção de jovens com 18 a 24 anos de idade entre os demandantes potenciais aponta para a importância de programas que integrem a qualificação profissional com a experiência profissional, obstáculo importante na obtenção do primeiro emprego. Os demandantes potenciais de qualificação profissional possuem maior escolaridade do que o exigido pelos cursos frequentados pelos participantes. Este resultado atenta para a importância de haver cursos de qualificação que atendam efetivamente todos os níveis de escolaridade, inclusive o nível superior. Também deve ser considerada a diversidade dos participantes e demandantes em relação às áreas de estudo de interesse. Nesse sentido, os cursos de qualificação oferecidos através ou mesmo dentro das empresas tendem a limitar a liberdade real de escolha da área de estudo, uma vez que são voltados principalmente para conhecimentos específicos dentro da atividade exercida pelo trabalhador na empresa. Este tipo de qualificação tende a contribuir muito pouco para a mobilidade ocupacional do trabalhador. A demanda dos trabalhadores ocupados por qualificação profissional deveria ser vista além da qualificação oferecida pelas firmas. A qualificação pode ter papel importante na promoção da mobilidade ocupacional. Quando esta mobilidade é para uma ocupação que o trabalhador valoriza mais que a anterior, há um ganho de liberdade real no trabalho e um aumento do bem-estar deste indivíduo. Apesar disto, os trabalhadores ocupados tendem a ser ignorados nas avaliações de impacto, como ocorre em Reis (2012), e em grande parte dos programas e políticas de qualificação profissional, que se voltam principalmente para os indivíduos desocupados. Os demandantes potenciais ocupados são majoritariamente empregados, totalizando 65% em 2012, seguidos dos trabalhadores por conta própria (22%) e dos trabalhadores domésticos (11%) (Tabela 9). Os empregados demandantes são indivíduos insatisfeitos com o trabalho que exercem, uma vez que declararam estar procurando outro trabalho, o que reforça a importância da oferta de qualificação profissional de qualidade fora da influência da firma. O aumento da proporção dos empregados entre os demandantes ocupados de 2003 a 2012 aconteceu em razão do aumento da formalização no mercado de trabalho brasileiro ocorrido no mesmo período. 100 Outro resultado que deve ser ressaltado é a maior proporção de trabalhadores domésticos entre os ocupados demandantes do que entre ocupados participantes de curso de qualificação. Em 2012, 2% dos ocupados participantes de curso de qualificação profissional eram trabalhadores domésticos (Tabela 7), enquanto 11% dos demandantes potenciais ocupados de qualificação profissional pertenciam à mesma posição na ocupação (Tabela 9). Os trabalhadores domésticos figuram, portanto, como uma categoria com uma demanda por qualificação profissional não atendida. Tabela 9 Demandantes Potenciais Ocupados conforme Posição na Ocupação e Carteira de Trabalho Assinada - 2003 a 2012 2003 POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO Empregado Conta própria Trabalhador doméstico Empregador Trabalhador não remunerado CARTEIRA DE TRABALHO Sim Não Missing TOTAL 2007 2010 2012 (em mil) % (em mil) % (em mil) % (em mil) % 1.685 1.012 379 67 36* 53 32 12 2 1 1.188 667 348 35* 24* 53 30 12 2 1 1.059 412 238 25* 20* 60 24 14 1 1 925 313 161 15* 7* 65 22 11 1 0 687 1.310 1.182 3.180 22 41 37 100 553 942 767 2.262 24 42 34 100 557 689 506 1.753 32 39 29 100 537 496 388 1.421 38 35 27 100 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. *Amostra não significativa (<100 pessoas) Seguindo o processo de formalização da força de trabalho brasileira, a proporção de trabalhadores com carteira de trabalho assinada entre os demandantes potenciais ocupados aumentou no período de 2003 a 2012, enquanto os trabalhadores sem carteira deixaram de ser maioria entre os mesmos (Tabela 9). Contudo, é importante notar que as diferenças dos resultados entre os quatro anos analisados podem ser, em parte, consequência da queda da subdeclaração (missing) ao longo do período. A proporção de trabalhadores sem carteira assinada entre os demandantes ocupados supera três vezes a proporção dos mesmos entre os ocupados participantes de curso de qualificação. A menor oferta de cursos pelas empresas e instituições privadas, menor acesso à informação, menores incentivos no trabalho para se qualificar são alguns fatores que podem limitar a liberdade do trabalhador informal em escolher e efetivamente participar de um curso de qualificação. Esta grande lacuna na qualificação profissional do Brasil deveria ser preenchida idealmente pela política ativa de qualificação profissional. Os indivíduos desocupados e inativos são os maiores demandantes potenciais de qualificação profissional. O tempo de desocupação e inatividade são fatores que podem ter efeitos negativos sobre a habilidade dos indivíduos em obter benefícios de políticas de mercado de trabalho. 101 Gráfico 10 Demandantes Potenciais Desocupados conforme Tempo de Procura por Trabalho - 2003 a 2012 100% 90% 80% 422 824 545 785 270 332 193 224 70% 60% 2.094 50% 1.703 1.457 3.466 40% 30% 20% 10% 1.007 748 707 2010 2012 1.034 0% 2003 2007 Até 30 dias (em mil) De 31 dias a menos 1 ano (em mil) De 1 ano a menos de 2 anos (em mil) 2 anos ou mais (em mil) Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Gráfico 11 Demandantes Potenciais Inativos conforme Tempo que Saíram do Último Trabalho - 2003 a 2012 100% 90% 1.091 957 2.081 1.698 442 393 819 725 660 2003 2007 1.443 781 80% 70% 60% 1.280 50% 2.856 40% 30% 20% 10% 350 454 724 0% 2010 2012 Menos de 1 ano (em mil) De 1 ano a menos de 2 anos (em mil) 2 anos ou mais (em mil) Missing (em mil) Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Os demandantes desocupados declararam, em sua maioria, estarem procurando trabalho durante mais de 30 dias e menos de um ano (Gráfico 10). Os demandantes inativos, por sua 102 vez, declararam ter saído do último trabalho há dois anos ou mais (Gráfico 11). Os cursos de qualificação devem considerar estes aspectos, tanto na dimensão da didática empregada quanto no que concerne à integração com outras políticas de mercado de trabalho, como a IMO. 4.3 Qualificação Profissional e Liberdade Real no Trabalho no Brasil: indicadores44 A presente seção avaliará o impacto da qualificação profissional na liberdade real a partir dos indicadores propostos na metodologia (Seção 3.2) e resumidos no quadro abaixo (Quadro 1). A qualificação profissional apresentou um impacto positivo e significativo na mobilidade inativo-ocupado em todos os anos analisados. O grupo de tratamento apresentou uma mobilidade 3,4 pontos percentuais (p.p.) mais alta que o grupo de controle no painel 2003/2004, resultado significativo a menos de 0,1%. A menor, mas ainda significativa, diferença entre os grupos foi de 2,2 p.p. no painel 2004/2005 (Tabela 10). A mobilidade da condição de inatividade para a condição de ocupação pode significar um ganho na liberdade real no trabalho caso o indivíduo valorize mais o funcionamento de trabalhar do que o de não trabalhar. Dessa forma, a qualificação profissional teria contribuído para o aumento da liberdade real no trabalho. Por outro lado, a mobilidade inativo-ocupado pode ocultar uma situação na qual o indivíduo desejava permanecer inativo, mas se viu obrigado a trabalhar. Esta situação acontece, por exemplo, com diversos jovens que desejam cursar o ensino superior ou mesmo concluir o ensino médio, mas entram no mercado de trabalho para suprir necessidades financeiras, ou com aposentados que precisam retornar ao mercado de trabalho por restrições financeiras. Neste caso, a princípio a qualificação profissional não estaria gerando maior liberdade real no trabalho, contudo poderia colaborar em um segundo momento para que estes jovens se inserissem em uma ocupação que valorizassem. Portanto, apesar da mobilidade inativo-ocupado ser normalmente vista como positiva para o indivíduo, é necessário atentar para outras situações nas quais ela representa uma falta de liberdades reais. 44 O tamanho reduzido da amostra impede que todos os indicadores sejam analisados. Apesar de serem significativos em relação à estatística t e ao p-valor, alguns resultados não são significativos em relação à amostra (foram consideradas significativas amostras a partir de 100 indivíduos). Por este motivo serão analisados apenas os indicadores que apresentaram resultado(s) significativo(s) no que diz respeito à amostra. Os indicadores para os grupos de ocupados da Análise B (que considera os demandantes potenciais) não apresentaram nenhum resultado significativo considerando o tamanho da amostra, portanto os resultados encontram-se apenas no anexo. 103 Quadro 1 Indicadores de Liberdade Real no Trabalho I. SITUAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO A. Mobilidade 1. Mobilidade Inativo -> Desemprego 2. Mobilidade Inativo -> Ocupado 3. Mobilidade Desempregado -> Inativo 4. Mobilidade Desempregado -> Ocupado 5. Mobilidade Ocupado -> Inativo 6. Mobilidade Ocupado -> Desempregado B. Permanência 1. Permanência Inativo 2. Permanência Desempregado 3. Permanência Ocupado II. CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO A. Informalidade 1. Informal -> Formal 2. Formal -> Informal B. Rendimento 1. Aumento Rendimento 2. Redução Rendimento C. Jornada de Trabalho 1. Parcial -> Total 2. Total -> Parcial D. Satisfação com o Trabalho 1. Procura Outro Trabalho -> Não Procura Outro Trabalho 2. Não Procura Outro Trabalho -> Procura Outro Trabalho E. Mobilidade Ocupacional 1. Sem Mobilidade Ocupacional 2. Mobilidade Ocupacional Com Ganho de Competência 3. Mobilidade Ocupacional Com Perda de Competência 4. Mobilidade Ocupacional Com Mesma Competência 5. Mobilidade Ocupacional Sem Considerar Competência Elaborado pela autora A transição no sentido oposto, de ocupado para inativo, se mostrou mais forte para o grupo de controle, com as diferenças significativas a menos de 0,1% em todos os painéis e variando de -0,2 p.p. no painel 2008/2009 a -2,2 p.p. no painel 2003/2004 (Tabela 10). A mobilidade ocupado-inativo pode resultar da aposentadoria de indivíduos ocupados. Neste caso, a menor mobilidade do grupo de tratamento decorre da menor participação das faixas etárias mais velhas em cursos de qualificação profissional. Além da aposentadoria, a transição da ocupação para a inatividade pode ser resultado de uma escolha própria ou de uma falta de liberdade de escolha. No primeiro caso, o indivíduo pode optar por sair do mercado de trabalho para, por exemplo, estudar ou mesmo cuidar dos filhos. No segundo caso, por sua vez, a saída do mercado de trabalho figura como a única opção possível, caracterizando uma falta de liberdade real no trabalho. A responsabilização exclusiva, ou quase exclusiva, das mulheres pelo cuidado dos filhos, agregada a uma escassa oferta de creches públicas, torna a saída do mercado de trabalho a única possibilidade para grande parcela das mulheres ocupadas, principalmente para aquelas sem condições de custear 104 um cuidado privado. Neste caso, a qualificação profissional parece ter um impacto positivo sobre a liberdade real no trabalho ao reduzir a mobilidade ocupado-inativo para o grupo dos tratados. O indicador de mobilidade desocupado-inativo teve resultado significativo em termos amostrais apenas para o painel 2004-2005, indicando um impacto positivo da qualificação profissional, ou seja, o grupo dos tratados apresentou uma mobilidade desocupado-inativo 0,2 p.p. menor que o grupo de controle (Tabela 10). A passagem do desemprego para a inatividade indica uma possível situação de desemprego oculto pelo desalento, que reúne pessoas desocupadas que param de procurar trabalho por desestímulos do mercado de trabalho. A opção pela inatividade é consequência da adaptação das escolhas e preferências individuais às circunstâncias. Neste caso, a mobilidade desocupado-inativo não gera ganhos positivos para a liberdade real no trabalho. A passagem da condição de desemprego para a condição de ocupação, por sua vez, é normalmente vista como uma mobilidade positiva. De fato, a conquista de uma posição no mercado de trabalho por um indivíduo desocupado significa um aumento do seu conjunto capacitário, uma vez que o funcionamento “trabalhar” tornou-se acessível. Todavia, o conceito de liberdade real no trabalho vai além da simples inserção no mercado, abrangendo aspectos a respeito da concepção individual de um trabalho valorizado. A inserção de um indivíduo desocupado em uma ocupação não valorizada por este poderia significar uma perda de sua liberdade real no trabalho. Este trabalhador poderia, por exemplo, inserir-se em uma ocupação valorizada caso procurasse trabalho por mais tempo ou participasse de curso de qualificação. Portanto, a mobilidade desocupado-ocupado não será necessariamente positiva para o indivíduo do ponto de vista da liberdade real no trabalho. As diferenças em relação a este padrão devem ser consideradas. O mesmo ocorre em relação à mobilidade ocupado-desocupado. Apesar de convencionalmente ser entendida como negativa, esta transição pode estar ocultando uma futura mobilidade ocupacional desejada pelo indivíduo. Esta possibilidade, entretanto, não anula os efeitos negativos do desemprego sobre as liberdades reais no trabalho e outras capacitações individuais. Os resultados acerca do impacto da qualificação profissional sobre estes dois indicadores são inconclusivos. O grupo dos tratados apresentou tanto uma maior mobilidade desocupado-ocupado quanto uma maior mobilidade ocupado-desocupado, com resultados significativos na maior parte dos painéis. Diante disto, pode-se afirmar apenas que a qualificação profissional promove maior mobilidade na situação no mercado de trabalho. 105 Tabela 10 Mobilidade Permanência Situação no Mercado de Trabalho Indicadores de Liberdade Real no Trabalho para Participantes e Não Participantes de Qualificação Teste de Diferença de Médias: coeficientes, estatística t e p-valor para Painéis Anuais de 2003 a 2012 Inativo => Desocupado Inativo => Ocupado Desocupado => Inativo Desocupado => Ocupado Ocupado => Inativo Ocupado => Desocupado coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente Inativo estatística t p-valor coeficiente Desocupado estatística t p-valor coeficiente Ocupado estatística t p-valor 2003 0,004ª 25,05 0,000 0,034 137,15 0,000 0,003ª 20,22 0,000 0,001 3,95 0,000 -0,022 -94,69 0,000 0,006 35,75 0,000 -0,038 -91,22 0,000 -0,004ª -26,04 0,000 0,016 30,87 0,000 2004 0,004ª 37,69 0,000 0,030 152,06 0,000 -0,002 -15,97 0,000 0,006 33,36 0,000 -0,017 -89,81 0,000 0,004 24,44 0,000 -0,034 -98,25 0,000 -0,003 -20,65 0,000 0,010 22,69 0,000 2005 0,007ª 47,06 0,000 0,022 100,27 0,000 0,001ª 9,45 0,000 0,007 37,89 0,000 -0,014 -65,3 0,000 0,007 47,51 0,000 -0,034 -92,65 0,000 -0,004 -29,06 0,000 0,008 16,18 0,000 2006 0,003ª 23,13 0,000 0,025 112,74 0,000 -0,001ª -7,19 0,000 0,010 56,76 0,000 -0,008 -38,13 0,000 0,008ª 52,8 0,000 -0,032 -79,91 0,000 -0,006ª -41,81 0,000 0,000 0,05 0,957 2007 0,010ª 76,03 0,000 0,030 121,44 0,000 -0,007ª -48,97 0,000 0,007 38,25 0,000 -0,003 -14,18 0,000 0,005ª 37,93 0,000 -0,040 -92,75 0,000 -0,001ª -11,05 0,000 -0,002 -3,68 0,000 2008 0,006ª 45,86 0,000 0,028 117,63 0,000 0,000ª 1,15 0,250 0,004ª 22,58 0,000 -0,002 -11,41 0,000 0,003 22,53 0,000 -0,034 -81,3 0,000 -0,003ª -28,4 0,000 -0,001 -2,28 0,023 2009 0,001ª 11,49 0,000 0,031 138,65 0,000 0,001ª 9,55 0,000 0,005 33,75 0,000 -0,005 -26,27 0,000 0,013ª 100,49 0,000 -0,031 -76,14 0,000 -0,007ª -67,43 0,000 -0,008 -17,26 0,000 2010 0,006ª 62,55 0,000 0,028 125,37 0,000 0,000ª -1,13 0,259 0,002ª 11,23 0,000 -0,018 -77,82 0,000 0,003ª 21,63 0,000 -0,041 -98,76 0,000 0,001ª 7,73 0,000 0,019 38,56 0,000 2011 0,004ª 37,19 0,000 0,030 133,14 0,000 -0,002ª -18,48 0,000 0,004ª 30,82 0,000 -0,012 -53,24 0,000 0,003ª 25,91 0,000 -0,038 -90,2 0,000 0,000ª 4,9 0,000 0,010 20,78 0,000 ª Valores não significativos, amostra > 100 pessoas. Em relação aos indicadores de permanência na situação no mercado de trabalho, o grupo de tratamento apresentou menor permanência na inatividade em relação ao grupo de controle em todos os painéis, com a maior diferença sendo de -4,1 p.p. no painel de 2010/2011. Todos os resultados são significativos a menos de 0,1%. O indicador de permanência na condição de ocupado, por sua vez, não apresentou resultados conclusivos. Dos sete painéis anuais que tiveram resultados significativos, a diferença entre o grupo de tratamento e controle foi positiva em cinco deles e negativa em dois (Tabela 10). Os dois indicadores de permanência indicam situações de manutenção dos níveis de liberdade real no trabalho relativos à situação no mercado de trabalho, contudo sem descartar mudanças relativas a outras dimensões. Os impactos da qualificação profissional vão além da inserção ou saída do mercado de trabalho. A qualificação pode contribuir para mobilidades dentro de cada situação no mercado de trabalho. Os indivíduos ocupados, apesar de não ser o público com maior demanda 106 potencial por qualificação profissional, podem se beneficiar de impactos importantes da qualificação sobre a liberdade real no trabalho. Uma vez que a condição de ocupado não garante que o indivíduo encontra-se em um trabalho que ele valorize, as possibilidades de ganho (ou perda) de liberdade real no trabalho dentro desta condição são diversas. A avaliação dos indicadores de características do trabalho a seguir busca explorar estas possibilidades. A formalização é uma das possíveis mobilidades dentro da condição de ocupado. A transição de um trabalho informal (nesse caso entendido como trabalho sem carteira assinada) para um trabalho formal é interpretada geralmente como uma mudança positiva para o trabalhador. Os direitos conquistados com a assinatura da carteira de trabalho aumentam o poder de barganha do trabalhador e o asseguram frente a diversos riscos, ampliando sua liberdade real no trabalho. Consequentemente, a mobilidade em sentido oposto, de um trabalho formal para um informal, é entendida como uma mudança negativa. No entanto, algumas exceções devem ser consideradas. Pode haver períodos econômicos nos quais a informalidade, por exemplo, o trabalho por conta própria, é considerada uma opção mais valorizada pelo indivíduo.45 O indicador de mobilidade informal-formal, significativo em termos amostrais em quatro dos nove painéis, mostra uma maior formalização para o grupo de tratamento (Tabela 11). A participação em cursos de qualificação profissional, portanto, impacta positivamente na formalização dos indivíduos ocupados, promovendo, consequentemente, um aumento do nível de liberdade real no trabalho. Os resultados do indicador formal-informal não apresentaram resultados significativos em relação à amostra. Outra mobilidade bastante discutida é a variação do salário ou rendimento do trabalho. O rendimento não é o único benefício que pode ser auferido do trabalho, portanto não é o único fator que motiva o indivíduo a trabalhar. Ainda assim, o rendimento é geralmente um fator de grande peso em decisões relativas ao trabalho, além de ser um aspecto determinante da liberdade real individual em diversas circunstâncias, inclusive fora do mercado de trabalho. O indicador de rendimento real no trabalho mostra um impacto positivo e significativo da qualificação profissional sobre o rendimento ao longo de todo o período analisado (Tabela 11). O conjunto dos indivíduos tratados que apresentaram um aumento real do rendimento do trabalho é maior que o conjunto de indivíduos do grupo de controle que mostraram mesma 45 A análise de indicadores de informalidade passa pela definição de trabalho informal, que pode variar desde um enfoque mais jurídico, como utilizado nesta análise, até um enfoque sobre a eficiência econômica e a produtividade do trabalho (Noronha, 2003). 107 variação. Dessa maneira, a liberdade real no trabalho dos participantes de cursos de qualificação profissional foi impactada positivamente através do aumento do rendimento real do trabalho destes. A jornada de trabalho é um aspecto importante principalmente para as mulheres, maioria entre os trabalhadores de jornada parcial em todo o mundo. Como discutido anteriormente, a jornada parcial indica uma provável limitação da liberdade real no trabalho. Dessa maneira, a transição de um trabalho de jornada parcial para um trabalho de jornada completa significaria um aumento da liberdade real no trabalho, enquanto que uma transição em sentido oposto resultaria em uma redução desta liberdade. Os resultados sobre jornada de trabalho foram significativos na amostra apenas para o indicador de mobilidade parcial-total, e apenas para quatro painéis. Nestes, o grupo de tratamento apresentou maior transição de jornada parcial para jornada completa do que o grupo de controle, indicando um impacto positivo da qualificação profissional sobre a liberdade real no trabalho (Tabela 11). Os indicadores de satisfação no mercado de trabalho foram significativos em relação à amostra apenas para a mobilidade procura-não procura outro trabalho e apenas no painel 2004-2005, apresentando uma diferença positiva entre o grupo de tratamento e o grupo de controle (Tabela 11). A transição entre uma condição de satisfação com o trabalho para uma condição de insatisfação com o trabalho indica uma redução da liberdade real no trabalho uma vez que o indivíduo passa a exercer um trabalho não valorizado por ele. Consequentemente, uma transição em sentido oposto aponta para um aumento da liberdade real no trabalho. Entretanto, o reduzido número de resultados significativos não permite fazer afirmações conclusivas sobre o impacto da qualificação profissional sobre a satisfação com o trabalho. O indicador de mobilidade com ganho de competência apresentou resultados significativos na amostra apenas para os painéis 2006/2007, com diferença de -0,1 p.p. entre tratados e controles, e 2009/2010, com diferença de 1,6 p.p. entre os dois grupos (Tabela 11). O indicador de mobilidade com perda de competência não apresentou resultados significativos em relação à amostra. A reduzida amostra nos dois indicadores pode ser vista como resultado da baixa ocorrência de mobilidades ocupacionais fora do mesmo nível de competência. O indicador de mobilidade com mesma competência, por sua vez, apresentou resultados significativos em termos amostrais para todos os painéis e em termos estatísticos para a maioria deles. Os resultados significativos mostraram uma maior mobilidade ocupacional dentro do mesmo nível de competência para o grupo dos participantes de qualificação profissional, exceto no painel 2003/2004, que apresentou uma diferença de -1,2 p.p. entre tratados e controles (Tabela 11). 108 Tabela 11 Jornada de Trabalho Satisfação com o Trabalho Mobilidade Ocupacional Características do Trabalho Rendim ento Real do Informalidade Indicadores de Liberdade Real no Trabalho para Ocupados Participantes e Não Participantes de Qualificação Teste de Diferença de Médias: coeficientes, estatística t e p-valor para Painéis Anuais de 2003 a 2012 coeficiente Informal => estatística t Formal p-valor coeficiente Formal => estatística t Informal p-valor coeficiente Aumento estatística t Rendimento p-valor coeficiente Parcial => estatística t Total p-valor coeficiente Total => estatística t Parcial p-valor coeficiente Procura => Não Procura estatística t Outro Trabalho p-valor Não Procura => coeficiente Procura Outro estatística t Trabalho p-valor Mobilidade coeficiente Com Ganho de estatística t Competência p-valor Mobilidade coeficiente Com Perda de estatística t Competência p-valor Mobilidade coeficiente Com Mesma estatística t Competência p-valor Mobilidade Sem coeficiente Considerar estatística t Competência p-valor 2003 -0,001ª -2,100 0,036 -0,013ª -39,30 0,000 0,133 159,1 0,000 0,019ª 46,50 0,000 0,009ª 23,64 0,000 -0,008ª -21,87 0,000 0,043ª 109,0 0,000 0,042ª 91,48 0,000 0,008ª 20,57 0,000 -0,012 -23,58 0,000 0,060 77,38 0,000 2004 0,021 56,90 0,000 0,008ª 25,83 0,000 0,062 83,22 0,000 0,006 16,49 0,000 0,020ª 60,67 0,000 0,003 7,140 0,000 0,040ª 126,75 0,000 0,031ª 85,24 0,000 0,004ª 12,58 0,000 0,011 24,81 0,000 0,063 93,97 0,000 2005 0,027 70,79 0,000 0,001ª 2,690 0,007 0,086 114,9 0,000 0,011 31,29 0,000 0,033ª 94,49 0,000 0,008ª 27,17 0,000 0,049ª 146,85 0,000 0,037ª 101,95 0,000 0,001ª 2,390 0,017 0,00 -0,330 0,740 0,076 113,6 0,000 2006 0,021ª 52,43 0,000 -0,014ª -44,56 0,000 0,082 102,6 0,000 0,021ª 59,31 0,000 0,014ª 43,84 0,000 0,025ª 75,33 0,000 0,034ª 106,85 0,000 -0,001 -2,86 0,004 0,017ª 53,20 0,000 0,021 44,75 0,000 0,047 66,65 0,000 2007 0,002ª 5,130 0,000 0,015ª 48,01 0,000 0,086 102,6 0,000 0,008ª 22,07 0,000 0,017ª 44,3 0,000 0,015ª 44,06 0,000 0,037ª 107,1 0,000 0,029ª 72,22 0,000 0,031ª 80,89 0,000 0,001 1,280 0,202 0,081 107,7 0,000 2008 0,009ª 23,65 0,000 0,020ª 60,97 0,000 0,073 90,88 0,000 0,028ª 81,77 0,000 0,044ª 118,29 0,000 0,025ª 70,57 0,000 0,043ª 126,7 0,000 0,036ª 91,92 0,000 0,021ª 65,69 0,000 0,020 39,07 0,000 0,100 139,9 0,000 2009 0,006 16,53 0,000 -0,006ª -20,17 0,000 0,090 117,6 0,000 0,020ª 56,12 0,000 0,021ª 59,6 0,000 0,013ª 45,00 0,000 0,041ª 135,83 0,000 0,016 40,66 0,000 0,015ª 45,50 0,000 0,017 37,61 0,000 0,052 75,90 0,000 2010 0,015 39,31 0,000 0,008ª 27,51 0,000 0,130 170,4 0,000 0,016 44,59 0,000 0,029ª 79,81 0,000 0,014ª 43,20 0,000 0,030ª 106,41 0,000 0,025ª 63,79 0,000 0,023ª 62,76 0,000 0,011 23,06 0,000 0,068 95,60 0,000 2011 0,016ª 51,04 0,000 0,000ª 1,610 0,106 0,092 117,7 0,000 0,004 12,22 0,000 0,028ª 77,59 0,000 0,003ª 8,610 0,000 0,021ª 78,43 0,000 0,027ª 72,33 0,000 0,005ª 15,32 0,000 0,028 60,96 0,000 0,074 105,2 0,000 ª Valores não significativos, amostra > 100 pessoas. A mobilidade ocupacional é um importante indicador do mercado de trabalho, podendo significar tanto uma redução quanto um aumento do conjunto individual de possibilidades de ocupação. A transição para uma ocupação com menor (ou maior) nível de competência pode indicar uma redução (ou um aumento) das possibilidades de escolha do indivíduo, porém não necessariamente. Como discutido, a mobilidade para uma ocupação com menor nível de competência pode ser resultado de uma escolha real do indivíduo. A qualificação profissional, por sua vez, pode apresentar impactos distintos sobre a mobilidade ocupacional. A qualificação oferecida por empresas, por ser geralmente direcionada para conhecimentos específicos, tende a reduzir a mobilidade ocupacional do trabalhador e aumentar seu tempo de permanência na empresa (Cacciamali, 2005). Apesar de 109 poder apresentar impactos positivos, este tipo de qualificação também pode reduzir a liberdade real no trabalho dos empregados ao qualificá-los para exercer atividades presentes apenas em determinada empresa. Uma qualificação profissional mais geral ou em área livremente escolhida pelo indivíduo, por outro lado, ampliaria seu conjunto de possíveis ocupações e, consequentemente, aumentaria sua liberdade real no trabalho. Tabela 12 Mobilidade Situação no Mercado de Trabalho Indicadores de Liberdade Real no Trabalho para Participantes e Demandantes Potenciais Teste de Diferença de Médias: coeficientes, estatística t e p-valor para Painéis Anuais de 2003 a 2012 Inativo => Desocupado Inativo => Ocupado Desocupado => Inativo Desocupado => Ocupado Ocupado => Inativo Ocupado => Desocupado Permanência Inativo Desocupado Ocupado coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor 2003 -0,077ª -113,3 0,000 0,114ª 178,9 0,000 0,022ª 32,84 0,000 0,110ª 141,9 0,000 -0,023ª -65,08 0,000 -0,025ª -51,17 0,000 -0,033 -34,47 0,000 -0,173ª -187,4 0,000 0,084 90,32 0,000 2004 -0,029ª -68,11 0,000 0,082ª 180,2 0,000 -0,010 -15,32 0,000 0,165ª 245,6 0,000 -0,001ª -4,25 0,000 -0,025ª -63,5 0,000 -0,068 -91,54 0,000 -0,191 -232,7 0,000 0,075 93,83 0,000 2005 -0,057ª -99,62 0,000 0,102ª 189,6 0,000 -0,002ª -2,52 0,012 0,147ª 200,7 0,000 -0,006ª -19,15 0,000 -0,014ª -37,08 0,000 -0,058 -65,47 0,000 -0,194 -225,8 0,000 0,083 100,7 0,000 2006 -0,044ª -76,88 0,000 0,102ª 183,7 0,000 -0,012ª -17,13 0,000 0,159ª 206,4 0,000 -0,006ª -21,09 0,000 -0,005ª -11,52 0,000 -0,057 -63,36 0,000 -0,237ª -255,6 0,000 0,100 113,5 0,000 2007 0,029ª -46,11 0,000 0,102ª 168,6 0,000 -0,031ª -40,69 0,000 0,184ª 219,1 0,000 -0,002ª -5,100 0,000 -0,021ª -51,14 0,000 -0,048 -50,65 0,000 -0,249ª -247,3 0,000 0,093 96,55 0,000 2008 -0,044ª -66,42 0,000 0,110ª 172,2 0,000 0,000ª 0,35 0,728 0,111ª 140,2 0,000 -0,006ª -15,26 0,000 -0,032ª -64,65 0,000 -0,055 -52,3 0,000 -0220ª -226,0 0,000 0,135ª 136,4 0,000 2009 0,017ª -26,79 0,000 0,093ª 152,3 0,000 -0,011ª -13,83 0,000 0,166ª 197,3 0,000 0,013ª 30,60 0,000 -0,014ª -31,16 0,000 -0,103 -103,8 0,000 -0,240ª -251,2 0,000 0,113ª 118,6 0,000 2010 -0,078ª -113,87 0,000 0,097ª 130,7 0,000 0,006ª 7,22 0,000 0,130ª 151,9 0,000 -0,020ª -39,33 0,000 -0,030ª -61,07 0,000 -0,061 -51,69 0,000 -0,191ª -173,3 0,000 0,147ª 140,8 0,000 2011 -0,053ª -76,28 0,000 0,113ª 138,8 0,000 -0,030ª -31,74 0,000 0,172ª 161,0 0,000 0,004ª 8,360 0,000 -0,026ª -48,71 0,000 -0,117ª -86,11 0,000 -0,188ª -166,2 0,000 0,126ª 101,3 0,000 ª Valores não significativos, amostra > 100 pessoas. O indicador de mobilidade sem considerar competência, significativo em todos os painéis e em todos os requisitos, mostrou uma maior mobilidade ocupacional para o grupo dos tratados, atingindo uma diferença de 10 p.p. em relação ao grupo de controle no painel de 2008/2009 (Tabela 11). A qualificação profissional, portanto, tem um impacto positivo sobre a mobilidade ocupacional. Este impacto tende a ser mais positivo para a liberdade real no trabalho quanto mais o curso de qualificação profissional ampliar o conjunto de atividades que o indivíduo pode exercer. 110 Os indicadores para o grupo de tratamento e controle da Análise B, que considera como situação inicial a condição de demandante potencial, apresentaram resultados significativos apenas para os indicadores de permanência na situação no mercado de trabalho. Os demandantes potenciais que se tornaram participantes de curso de qualificação mostraram menor permanência nas condições de inativo e de desocupado e maior permanência na condição de ocupado em relação aos demandantes potenciais que não participaram de qualificação profissional no decorrer de um ano (Tabela 12). 4.4 Conclusão A avaliação de impacto da qualificação profissional a partir dos painéis de indivíduos da PME encontrou efeitos positivos desta sobre alguns dos indicadores construídos. A qualificação profissional no Brasil, considerando as RMs analisadas pela pesquisa, promove maior mobilidade da situação no mercado de trabalho, maior formalização, maior transição para jornada completa de trabalho e maior mobilidade ocupacional. O impacto da qualificação profissional sobre a liberdade real no trabalho ocorre através destes indicadores de mobilidade, que representam normalmente ganhos de liberdade real no trabalho. No entanto, como destacado ao longo da última seção, o sentido da variação da liberdade real no trabalho não segue a norma necessariamente. A liberdade real no trabalho depende dos fatores de conversão de cada indivíduo e de sua concepção sobre o que é um trabalho valorizado. Apesar disto, diante da elevada precariedade do mercado de trabalho brasileiro, somada às grandes desigualdades de renda, de moradia e, inclusive, de direitos, características da sociedade brasileira, a formalização e a transição para um trabalho de jornada completa representam, na maioria das vezes, uma ampliação das liberdades reais no trabalho e fora deste. A qualificação profissional no Brasil apresenta, portanto, potencial de impactar positivamente e efetivamente a liberdade real no trabalho de seus beneficiários. Estando a política ativa de qualificação profissional inserida no objeto da avaliação, esta também possui o potencial de promover a liberdade real no trabalho no Brasil. E mais ainda, por ser uma política pública, pode ser expandida para toda a população brasileira, inclusive para a parcela sem acesso à qualificação profissional privada. O PNQ (e o PRONATEC, a partir de 2012) conta, portanto, com um grande potencial para elevar a liberdade real no trabalho da população brasileira. A expansão da política ativa de qualificação no Brasil deve atentar para diversos aspectos apontados ao longo da análise do perfil dos participantes e dos demandantes 111 potenciais de qualificação. O impacto efetivo desta política sobre a liberdade real no trabalho da população brasileira passa pela atenção aos principais demandantes potencias (mulheres, pretos, pardos e indígenas e indivíduos com 18 a 44 anos de idade e com onze anos ou mais de estudo) e aos grupos sub-representados na distribuição da qualificação profissional (os pretos, pardos e indígenas, as mulheres inativas, os empregados domésticos e os trabalhadores inativos). Programas de qualificação profissional voltados para esta população devem considerar os fatores de conversão e as limitações de liberdades reais, inclusive fora do mercado de trabalho, de cada um dos grupos. A integração da política de qualificação com outras políticas públicas, como, por exemplo, uma política ativa de cuidados, tem um importante papel na inserção dos demandantes potenciais. A expansão do PNQ deve considerar ainda a ampliação da oferta de cursos de qualificação para todos os níveis de escolaridade e em diversas áreas de estudo, o que aumentaria a atratividade da política e o efetivo impacto desta sobre o conjunto de opções dos beneficiários. Além disso, a ampliação dos cursos oferecidos permitiria o real funcionamento da política de incentivo que atrela o recebimento do seguro-desemprego à frequência em curso de qualificação. O descompasso entre a escolaridade exigida pelos cursos de qualificação profissional aos participantes e o nível de escolaridade dos demandantes potenciais indica a importância da complementaridade entre esta PAMT e o sistema educacional. A efetividade do impacto do PNQ sobre a liberdade real no trabalho de seus participantes passa ainda pela garantia de liberdade real por voz para os beneficiários, os demandantes e os agentes locais. O mau funcionamento dos conselhos e comissões do CODEFAT dificulta a identificação de demandas e problemas, prejudicando a efetividade das políticas do PSD. Todos esses aspectos relativos à expansão da política ativa de qualificação profissional e à efetividade de seu impacto sobre a liberdade real no trabalho passam por uma questão de ordem prática, mas de grande relevância: o baixo investimento em PAMT no Brasil. A reduzida importância das PAMT no Brasil, identificada também na crescente desigualdade na distribuição dos recursos do FAT entre políticas ativas e passivas, tornam infactíveis as mudanças anteriormente propostas. 112 Considerações Finais A adoção de PAMT é uma tendência dos estados de bem-estar social modernos frente aos novos riscos sociais enfrentados, como pôde ser confirmado na análise para os regimes e países desenvolvidos. Neste contexto, a busca pela ativação do trabalhador através de políticas ativas de qualificação é uma estratégia implantada por diversos países. A abordagem das capacitações e o conceito de liberdade real no trabalho permitiram uma análise ampla da relação entre o bem-estar do indivíduo e sua situação no mercado de trabalho. Diferente das teorias convencionais, a abordagem das capacitações não vê no salário o único benefício do trabalho, mas considera que o bem-estar individual no mercado de trabalho, e na vida como um todo, está relacionado à efetiva liberdade do indivíduo em escolher o trabalho que valoriza. Desta maneira, ao alterar a situação do indivíduo no mercado de trabalho, as PAMT podem ampliar ou reduzir suas opções de escolha, interferindo no seu conjunto de funcionamentos valorizados. As PAMT, portanto, podem impactar seus beneficiários além da simples inserção no mercado de trabalho ou do aumento da renda do trabalho, elas podem alterar sua liberdade de escolha. A direção deste impacto depende, entre outros aspectos, do tipo da PAMT. A gradação da liberdade real no trabalho entre os tipos de PAMT parte da política ativa de incentivo, com menor grau de liberdade real no trabalho, para a política ativa de qualificação profissional, com maior grau de liberdade real no trabalho. As políticas ativas de assistência ao emprego e ocupação se encontram entre elas. No entanto, devido à implantação pelos países de uma mistura dos diversos tipos de PAMT, a avaliação do impacto destas políticas deve ser realizada considerando as particularidades de cada país em termos sociais, econômicos e institucionais. O Brasil apresenta um sistema público de emprego que utiliza diversas PAMT. Algumas questões levantadas, no entanto, colocam em dúvida a efetividade destas políticas no impacto sobre os retornos do mercado de trabalho, como empregabilidade e renda do trabalho, e sobre a liberdade real no trabalho. A avaliação de impacto da qualificação profissional no Brasil foi realizada a partir de alguns indicadores geralmente não utilizados em outras avaliações de impacto das PAMT, como a procura por outro trabalho e a mobilidade ocupacional. Além disso, indicadores comumente utilizados, como, por exemplo, a inserção no mercado de trabalho e o rendimento 113 do trabalho, puderam ser analisados de maneira mais ampla, destacando aspectos importantes sobre seus efeitos na liberdade real no trabalho. A avaliação da qualificação profissional a partir da abordagem das capacitações confirmou alguns efeitos encontrados por outros trabalhos, como o impacto sobre a inserção no mercado de trabalho, encontrado por Oliveira e Rios-Neto (2007) e Reis (2012), e o impacto positivo sobre a inserção em emprego formal, encontrado por Reis (2012). Além dos efeitos anteriormente encontrados por outros trabalhos, foram identificados impactos positivos sobre a jornada de trabalho e sobre a mobilidade ocupacional. A conclusão é de que a qualificação profissional no Brasil, considerando as RMs abrangidas pela PME, impacta positivamente alguns aspectos da liberdade real no trabalho. Por outro lado, identificou-se através uma desigualdade racial na distribuição da qualificação profissional, com uma menor participação dos pretos, pardos e indígenas entre os ocupados participantes em comparação com os brancos e amarelos. A partir deste resultado, cuja origem remonta, em grande parte, a uma desigualdade de liberdades reais entre cores ou raças no Brasil, questiona-se a capacidade (esperada) das PAMT brasileiras e da política ativa de qualificação profissional em combater desigualdades. Além disso, a baixa prioridade dada à política ativa de qualificação profissional no Brasil, comprovada pelo baixo nível de investimento e pela queda deste ao longo dos últimos anos, em um momento no qual os estados de bem-estar modernos têm elevado sua atenção a este tipo de PAMT, mostra que o potencial desta política está sendo subutilizado no país. A metodologia utilizada não permitiu, no entanto, agregar os indicadores de liberdade real no trabalho em um só índice. Propõe-se, portanto, a elaboração de um índice de liberdade real no trabalho que permitisse conclusões mais claras sobre a direção do impacto da qualificação profissional e das PAMT em geral. A lógica fuzzy poderia ser a estratégia utilizada na construção deste índice, uma vez que permitiria uma gradação dos impactos das políticas sobre a liberdade real no trabalho. Além desta limitação metodológica, os dados utilizados na avaliação não permitiram analisar alguns indicadores em razão da amostra reduzida, principalmente quando considerado o grupo dos demandantes potenciais. Diante disto, levanta-se a importância da ampliação das bases de dados no Brasil no que concerne às informações acerca da qualificação profissional e das PAMT em geral, o que permitiria um melhor acompanhamento e avaliação destas políticas, contribuindo, inclusive, para seu desenvolvimento. 114 Bibliografia ANDERSON, G. The Capability Approach and the Legal Regulation of Employment: A Comment on Deakin. 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Cambridge, London: The MIT Press, 2002. 119 Anexo Tabela A1 Testes de Diferença de Médias entre Grupo de Tratamento A e Grupo de Controle A Variável Região Metropolitana Sexo Faixa de Idade Cor ou Raça Escolaridade Situação no Mercado de Trabalho Antes Pareamento Após Pareamento Coeficiente Estatística t p-valor Coeficiente Estatística t p-valor 0,040 1,52 0,128 0,002 0,050 0,961 -0,060 -22,65 0,000 0,000 -0,060 0,955 -0,495 -58,39 0,000 0,004 0,420 0,675 -0,060 -22,96 0,000 0,002 0,480 0,628 0,837 134,15 0,000 0,000 -0,010 0,993 -0,293 -57,23 0,000 0,000 -0,040 0,972 Tabela A2 Testes de Diferença de Médias entre Grupo de Tratamento B e Grupo de Controle B Variável Região Metropolitana Sexo Faixa de Idade Cor ou Raça Escolaridade Situação no Mercado de Trabalho Antes Pareamento Após Pareamento Coeficiente Estatística t p-valor Coeficiente Estatística t p-valor 0,512 7,20 0,000 0,220 2,61 0,009 -0,070 -9,76 0,000 -0,029 -3,48 0,000 -0,126 -6,73 0,000 0,034 1,59 0,111 -0,097 -13,09 0,000 -0,021 -2,47 0,013 0,649 43,24 0,000 0,010 0,72 0,474 -0,167 -14,97 0,000 -0,074 -5,71 0,000 Tabela A3 Testes de Diferença de Médias entre Grupo de Tratamento A Ocupado e Grupo de Controle A Ocupado Variável Região Metropolitana Sexo Faixa de Idade Cor ou Raça Escolaridade V409 V415 V417 VD23 Antes Pareamento Coeficiente Estatística t p-valor 0,0658427 1,91 0,056 0,0013587 0,39 0,7 -0,194879 -21,72 0 -0,0769275 -21,89 0 0,6633059 87,17 0 0,0154658 3,04 0,002 -0,0701119 -17,58 0 -0,013021 -7,47 0 422,8739 35,63 0 Após Pareamento Coeficiente Estatística t p-valor -0,0604753 -1,05 0,296 0,0052443 0,93 0,355 0,0244955 1,83 0,068 0,0029873 0,53 0,594 -0,0021907 -0,25 0,805 -0,0005311 -0,24 0,813 0,0075677 1,59 0,111 -0,0025226 -1,02 0,308 45,24363 2,65 0,008 Tabela A4 Testes de Diferença de Médias entre Grupo de Tratamento B Ocupado e Grupo de Controle B Ocupado Variável Região Metropolitana Sexo Faixa de Idade Cor ou Raça Escolaridade V409 V415 V417 VD23 Antes Pareamento Após Pareamento Coeficiente Estatística t p-valor Coeficiente Estatística t p-valor 0,799 5,00 0,000 0,795 3,80 0,000 0,002 0,10 0,918 -0,029 -1,26 0,208 -0,166 -4,41 0,000 -0,142 -3,11 0,002 -0,146 -8,17 0,000 -0,128 -5,62 0,000 0,728 20,90 0,000 0,550 13,53 0,000 -0,018 -0,71 0,478 0,169 11,21 0,000 -0,209 -9,53 0,000 -0,196 -8,74 0,000 -0,008 -0,58 0,561 -0,003 -0,19 0,853 299,841 11,89 0,000 262,072 8,47 0,000 120 Tabela A5 Perfil Socieconômico conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 (Dados Absolutos) (em mil pessoas) Participantes 2003 2007 2010 Não Participantes 2012 2003 2007 2010 TOTAL 2012 2003 2007 2010 2012 49.533 57.952 51.621 61.648 53.472 63.641 63.273 44.212 63.916 49.353 65.506 51.607 SEXO Homem 8.505 13.868 15.430 17.412 37.385 35.665 36.191 36.060 45.889 Mulher 7.950 13.567 15.181 16.987 45.395 44.385 46.467 46.654 53.345 COR OU RAÇA Branca/Amarela Preta/Parda/Indígena FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 25 a 34 anos 35 a 44 anos 45 a 54 anos 55 a 64 anos 65 anos ou mais TOTAL 10.653 17.198 18.437 20.817 49.258 46.075 45.479 44.689 59.911 5.802 10.237 12.175 13.582 33.521 33.975 37.179 38.025 39.324 3.031 4.306 4.084 2.865 1.378 792 16.455 5.470 7.522 6.045 4.532 2.534 1.332 27.435 5.163 8.596 6.633 5.361 3.122 1.736 30.611 5.331 9.424 7.500 5.991 3.930 2.221 34.399 15.657 18.527 17.209 13.645 8.739 9.003 82.780 12.681 16.431 16.102 14.313 9.899 10.624 80.050 11.865 16.280 15.709 14.842 11.755 12.206 82.658 11.319 15.616 15.322 15.075 12.165 13.217 82.714 18.688 18.151 17.029 16.650 22.833 23.953 24.877 25.040 21.293 22.147 22.342 22.822 16.509 18.845 20.202 21.066 10.117 12.433 14.878 16.096 9.794 11.956 13.942 15.438 99.235 107.485 113.269 117.113 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. Tabela A6 Perfil Socieconômico dos Ocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 (Dados Absolutos) (em mil pessoas) Ocupado Participante 2003 2007 2010 2012 Ocupado Não Participante 2003 2007 2010 2012 Total Ocupados 2003 2007 2010 2012 SEXO Homem 6728 Mulher 5121 11151 12628 14200 26048 24547 25195 25044 32776 35697 37823 39244 8903 10297 11692 19626 19485 20919 21338 24747 28388 31216 33030 Branca/Amarela 7814 Preta/Parda/Indíg. 4035 12711 13857 15741 27256 25047 24964 24370 35070 37758 38821 40111 7342 9068 10151 18418 18984 21150 22012 22453 26327 30218 32163 COR OU RAÇA FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 25 a 34 anos 35 a 44 anos 45 a 54 anos 55 a 64 anos 65 anos ou mais TOTAL 1879 3567 3514 3726 8217 6854 6685 3431 6078 7154 7954 12765 11593 11932 3398 5078 5658 6466 11938 11579 11517 2204 3559 4336 4857 8403 9058 9759 752 1440 1852 2358 3342 3900 4935 185 332 411 532 1010 1047 1287 11849 20053 22925 25892 45674 44032 46114 6477 11703 11465 10027 5359 1349 46382 10096 16196 15336 10606 4094 1195 57524 10421 17671 16657 12617 5341 1379 64085 10199 19085 17175 14095 6787 1698 69039 10203 19657 17932 14884 7717 1881 72274 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Observação: Considerou-se ocupada a pessoa que possuía um ou mais trabalhos na semana de referência. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. 121 Tabela A7 Perfil Socieconômico dos Desocupados conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 (Dados Absolutos) (em mil pessoas) Desocupado Participante Desocupado Não Participante Total Desocupados 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 Homem Mulher 597 716 808 1113 662 909 622 782 2805 3304 1798 2269 1249 1803 1112 1469 3402 4021 2606 3383 1911 2712 1734 2251 Branca/Amarela Preta/Parda/Indíg. 707 606 964 957 795 775 714 690 3125 2984 1885 2183 1341 1711 1197 1384 3832 3591 2849 3140 2137 2486 1911 2074 18 a 24 anos 25 a 34 anos 35 a 44 anos 45 a 54 anos 55 a 64 anos 65 anos ou mais 527 403 226 121 33 3 1314 846 599 278 146 48 6 1922 624 488 254 152 49 4 1571 491 468 239 144 55 7 1404 2477 1738 1071 600 199 25 6109 1623 1212 707 397 113 16 4068 1117 938 559 307 117 15 3052 951 755 481 294 93 7 2581 3003 2141 1297 721 233 28 7423 2469 1811 985 542 160 22 5989 1741 1427 812 458 166 19 4623 1442 1223 720 438 148 14 3985 SEXO COR OU RAÇA FAIXA ETÁRIA* TOTAL Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Observação: Considerou-se desocupada a pessoa que não possuía nenhum trabalho na semana de referência, mas que tomou providência para conseguir trabalho e que, se conseguisse trabalho, poderia assumí-lo na semana de referência. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. Tabela A8 Perfil Socieconômico dos Inativos conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 (Dados Absolutos) (em mil pessoas) Inativo Participante Inativo Não Participante 2007 2010 2012 Total Inativos 2003 2007 2010 2012 2003 2003 2007 2010 2012 Homem 1179 Mulher 2113 1909 3551 2140 3976 2589 4513 8532 9320 9748 9904 9711 11230 11888 12494 22464 22630 23744 23847 24577 26181 27720 28360 Branca/Amarela 2132 Preta/Parda/Indíg. 1161 3523 1938 3784 2332 4362 2741 18877 19143 19174 19122 21009 22666 22958 23484 12119 12807 14318 14629 13280 14745 16650 17369 1058 845 690 828 1045 995 5460 1025 954 721 873 1221 1321 6116 1115 1003 795 989 1518 1682 7102 4963 4204 4063 3891 5589 5261 5089 5005 4025 3625 3410 3157 4497 4471 4365 4160 4200 3816 3634 3376 4660 4505 4355 4171 4642 4858 4776 4755 5181 5686 5649 5744 5198 5887 6704 6712 5790 6932 7925 8230 7968 9560 10904 11861 8571 10555 12225 13543 30996 31950 33492 33751 34288 37411 39608 40853 SEXO COR OU RAÇA FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 25 a 34 anos 35 a 44 anos 45 a 54 anos 55 a 64 anos 65 anos ou mais TOTAL 625 472 460 540 593 603 3293 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Observação: Considerou-se inativa (ou não economicamente ativa) a pessoa com mais de 10 anos de idade que não possuía nenhum trabalho na semana de referência nem estava procurando por um. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. Tabela A9 Escolaridade Exigida pelo Curso de Qualificação Profissional conforme Situação no Mercado de Trabalho - 2003 a 2012 (Dados Absolutos) (em mil pessoas) Alfabetização ou concl. 1ª série do EF Conclusão da 4ª série do EF Conclusão do EF Conclusão do EM Conclusão de ES TOTAL 2003 Ocupado 2007 2010 1518 4231 4075 2012 Desocupado Inativo 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 Total Participantes 2003 2007 2010 2012 5178 162 2277 444 328 334 597 1382 1426 1858 6058 5829 7370 1259 1948 2329 1973 174 234 186 122 461 696 735 688 1894 2878 3250 2783 3502 5278 5194 4981 502 625 447 368 955 1455 1416 1366 4959 7358 7056 6715 4127 6054 7958 9421 431 558 528 499 1042 1526 2014 2472 5600 8138 10500 12392 1444 2542 3370 4338 44 60 81 81 238 401 525 720 1726 3003 3976 5139 11849 20053 22925 25892 1314 1922 1571 1404 3293 5460 6116 7102 16455 27435 30611 34399 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. 122 Tabela A10 Características do Trabalho conforme Participação em Curso de Qualificação Profissional - 2003 a 2012 (Dados Absolutos) (em mil pessoas) Ocupado Participante Posição na Ocupação Trabalhador doméstico Empregado Conta própria Empregador Trabalhador não remunerado Carteira Trabalho Assinada Sim Não Missing Horas Trabalhadas na Semana Até 14 horas 15 a 39 horas 40 a 44 horas 45 a 48 horas 49 horas ou mais Tomou providência para conseguir outro trabalho? Sim Não Missing TOTAL 2010 2012 Total Ocupados 2007 2010 Ocupado Não Participante 2003 2007 2003 2007 2010 2012 2003 2012 229 8635 2130 791 63 499 495 548 4027 4702 4481 4150 4256 5201 4976 4698 15106 17702 20152 29143 27673 30087 30886 37778 42779 47789 51038 3195 3489 3814 9648 9420 9220 9156 11778 12616 12709 12970 2224 1158 1322 2439 1941 2056 2003 3230 3105 3214 3325 89 81 56 418 295 270 187 481 384 350 243 5660 1731 4458 10299 12702 14853 20347 20384 22916 24318 26007 30684 35618 39171 3121 3007 2986 9947 9352 8775 7838 11678 12473 11782 10824 6633 7216 8053 15380 14296 14423 14226 19839 20929 21639 22279 237 2403 5628 1722 1860 365 382 374 873 756 711 660 1111 1121 1094 1035 3720 4054 4477 7262 6675 7073 7176 9665 10395 11126 11653 10167 12671 14428 21409 22036 24788 25193 27037 32203 37460 39621 3143 3333 3885 8713 8689 8301 8289 10434 11832 11634 12173 2657 2485 2728 7417 5876 5241 5064 9277 8534 7725 7792 1279 1915 1707 1388 3180 2262 1753 1421 4459 4177 3460 2810 10555 18119 21201 24487 42421 41743 44342 44940 52976 59862 65543 69427 15 19 17 17 73 26 20 21 88 46 36 37 11849 20053 22925 25892 45674 44032 46114 46382 57524 64085 69039 72274 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. Observação: Considerou-se ocupada a pessoa que possuía um ou mais trabalhos na semana de referência. Tabela A11 Perfil Socieconômico dos Demandantes Potenciais conforme Situação no Mercado de Trabalho - 2003 a 2012 (Dados Absolutos) (em mil pessoas) Desocupados Ocupados Demandantes Inativos Demandantes Demandantes 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 2003 2007 2010 2012 Total Demandantes 2003 2007 2010 2012 SEXO Homem 1774 1204 Mulher 1406 1059 COR OU RAÇA Branca/Amarela Preta/Parda/Indígena FAIXA ETÁRIA* 18 a 24 anos 25 a 34 anos 35 a 44 anos 45 a 54 anos 55 a 64 anos 65 anos ou mais ESCOLARIDADE Sem instrução e menos de 1 ano de estudo 1 a 3 anos de estudo 4 a 7 anos de estudo 8 a 10 anos de estudo 11 ou mais anos de estudo Não determinada REGIÃO METROPOLITANA Recife Salvador Belo Horizonte Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Porto Alegre TOTAL 859 893 715 706 2805 1798 1249 1112 1537 1252 1085 1010 3304 2269 1803 1469 4035 3088 2624 2125 6115 8744 4253 6415 3193 5320 2837 4299 1627 980 741 1553 1283 1012 610 811 3125 1885 1341 1197 2810 2105 1630 1290 2984 2183 1711 1384 2762 2234 2079 1844 7561 7298 4969 5699 3712 4801 3097 4039 884 1015 795 383 85 18 4908 4079 3004 1808 761 298 3243 3021 2163 1425 575 242 2480 2436 1700 1162 531 205 2090 2034 1404 1021 442 146 676 354 221 132 1247 4439 3406 5030 62 731 3061 2479 3997 46 451 1998 1955 3862 25 304 1566 1597 3522 14 1103 1241 857 1655 2742 393 522 8.513 869 1075 714 1401 2311 328 437 7.136 550 778 569 293 66 7 418 603 406 260 59 7 322 490 328 219 57 5 2477 1623 1117 1738 1212 938 1071 707 559 600 397 307 199 113 117 25 16 15 951 755 481 294 93 7 1548 1070 1326 1031 1139 888 825 735 478 397 256 219 945 894 736 595 355 184 818 788 596 508 291 134 116 61 32 25 199 29 362 143 78 247 953 657 1197 12 134 651 486 923 6 92 395 358 872 4 58 305 274 757 1 416 207 117 82 584 389 242 164 1663 1002 610 472 1824 1409 993 789 1506 1009 724 611 1244 984 873 712 2299 1750 1547 1383 1534 1324 1444 1382 26 22 9 4 25 18 13 9 77 45 216 275 214 181 156 425 370 290 165 681 599 632 548 1380 1183 317 401 316 186 584 451 394 304 533 483 531 586 1434 1335 284 321 245 169 470 305 215 186 737 511 398 358 1490 1137 737 356 355 314 1059 818 664 594 864 556 636 494 2660 1730 1235 687 471 458 2951 1675 1187 1058 2121 1673 1084 795 6307 4035 127 163 86 48 270 204 131 123 240 237 175 158 637 604 205 120 98 90 350 245 171 151 396 279 254 196 951 644 3180 2262 1753 1421 6109 4068 3052 2581 5572 4339 3709 3134 14859 10.668 Fonte: PME/IBGE. Elaboração própria. *Foram excluídos os indivíduos com menos de 18 anos de idade. 123 Tabela A12 Jornada de Trabalho Satisfação com o Trabalho Mobilidade Ocupacional Características do Trabalho Rendimento Real do Informalidade Trabalho Indicadores de Liberdade Real no Trabalho para Ocupados Participantes e Demandantes Potenciais Teste de Diferença de Médias: coeficientes, estatística t e p-valor para Painéis Anuais de 2003 a 2012 Informal => Formal Formal => Informal 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 coeficiente 0,127ª 0,114ª 0,077ª 0,107ª 0,111ª 0,055ª 0,083ª estatística t 63,04 65,29 42,74 58,42 47,62 24,78 40,98 p-valor 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 coeficiente -0,040ª 0,046ª -0,010ª 0,004ª 0,037ª -0,009ª -0,049ª estatística t -32,15 42,52 -8,56 3,85 24,38 -5,7 -27,25 p-valor 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 2010 0,075ª 31,48 0,000 -0,112ª -64,13 0,000 2011 0,037ª 11,37 0,000 -0,016ª -9,97 0,000 coeficiente 0,101ª 0,091ª 0,138ª -0,053ª 0,010ª 0,021ª 0,245ª 0,040ª 0,221ª Aumento Rendimento Parcial => Total Total => Parcial Procura => Não Procura Outro Trabalho Não Procura => Procura Outro Trabalho Mobilidade Com Ganho de Competência Mobilidade Com Perda de Competência Mobilidade Com Mesma Competência Mobilidade Sem Considerar Competência estatística t 33,48 34,82 48,03 -19,04 2,97 6,57 75,07 10,99 52,99 p-valor 0,000 0,000 0,000 0,000 0,003 0,000 0,000 0,000 0,000 coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor coeficiente estatística t p-valor 0,069ª 38,57 0,000 -0,080ª -53,38 0,000 0,658ª 318,3 0,000 0,142ª 85,05 0,000 -0,001ª -0,97 0,331 -0,052ª -25,29 0,000 0,131ª 45,65 0,000 0,097ª 55,61 0,000 0,012ª 9,5 0,000 0,758ª 469,93 0,000 0,036ª 24,41 0,000 0,058ª 44,81 0,000 0,051ª 26,38 0,000 0,191ª 77,57 0,000 0,045ª 22,22 0,000 0,019ª 10,14 0,000 0,664ª 328,86 0,000 0,056ª 35,55 0,000 0,070ª 59,62 0,000 0,046ª 24,38 0,000 0,180ª 67,37 0,000 -0,019ª -9,97 0,000 0,027ª 17,33 0,000 0,743ª 409,73 0,000 0,054ª 38,81 0,000 0,009ª 14,48 0,000 0,045ª 22,01 0,000 0,100ª 39,48 0,000 0,103ª 47,68 0,000 0,012ª 6,43 0,000 0,758ª 363,98 0,000 0,050ª 30,25 0,000 0,096ª 63,95 0,000 0,008ª 3,64 0,000 0,195ª 68,16 0,000 0,083ª 39,48 0,000 0,002ª 0,84 0,402 0,806ª 398,68 0,000 0,083ª 45,91 0,000 0,027ª 16,72 0,000 0,035ª 15,9 0,000 0,174ª 58,39 0,000 0,071ª 27,44 0,000 -0,042ª -23,56 0,000 0,743ª 319,37 0,000 0,025ª 13,43 0,000 0,015ª 23,05 0,000 0,075ª 28,13 0,000 0,129ª 39,87 0,000 0,025ª 8,5 0,000 0,044ª 18,97 0,000 0,819ª 316,62 0,000 0,027ª 11,59 0,000 0,095ª 44,8 0,000 -0,124ª -46,41 0,000 0,073ª 18,7 0,000 -0,009ª -2,54 0,011 0,023ª 7,98 0,000 0,889ª 342,84 0,000 0,103ª 41,06 0,000 -0,050ª -27,23 0,000 0,067ª 19,36 0,000 0,102ª 23,18 0,000 ª Valores não significativos, amostra > 100 pessoas. 124