COMUNICAÇÃO ATUALIDADE DA FAEB/CONFAEB PARA A ARTE/EDUCAÇÃO E A FORMAÇÃO INICIAL DO PROFESSOR DE ARTE COSTA, Fábio José Rodrigues da1 INTRODUÇÃO O presente texto resulta de um dos capítulos da tese “Didática das Artes Visuais: uma proposição pós-moderna” defendida no mês de junho de 2007 na Universidade de Sevilla-Espanha. Embora o objeto tenha sido a sistematização de uma didática especifica para o currículo da formação do professor de artes visuais, tendo esta didática como objeto de estudo as pedagogias contemporâneas e seus modelos educativos voltados à alfabetização visual, um dos aspectos tratados foi o papel e a atualidade da Federação dos Arte/Educadores do Brasil – FAEB e os Congressos Nacionais como protagonistas na luta tanto em defesa de um ensino de arte de qualidade como de uma formação inicial para o professor coerente com o tempo presente e as transformações que se estão operando na pós-modernidade. O ATIVISMO SOCIAL E POLÍTICO DO PROFESSOR DE ARTE Poderíamos dizer que uma característica da condição pós-moderna do professor de arte brasileiro seja seu caráter de ativista social e político demonstrado por vias do Movimento dos Arte/Educadores do Brasil. Porém, por ativismo social e político se entende as ações e/ou atividades defendidas por este coletivo com o interesse em provocar mudanças de índole social e política em questões relacionadas com a democratização; a função social da arte na formação deste país com base nos princípios democráticos; a persistência na defesa da arte como área de conhecimento no currículo da escola de educação 1 Doutor em Arte/Educação pela Universidade de Sevilla-Espanha. Professor Adjunto do Departamento de Educação da Universidade Regional do Cariri – URCA. Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ensino da Arte – NEPEA.Líder do Grupo de Pesquisa Ensino da Arte em Contextos Contemporâneos – GPEACC-CNPq básica como parte do processo de formação e humanização do cidadão; as permanentes e continuas revisões dos pressupostos conceituais, históricos, metodológicos e práticos do ensino da arte em contextos deliberadamente organizados, assim como, nos movimentos sociais; a inserção do principio educativo como categoria organizadora e mediadora entre as ações dos museus, centros culturais e público resultando na mediação cultural; as revisões permanentes e continuas no tocante a formação inicial do professor e sua atualização. Talvez conservadoras para um contexto remanescentes da tradicionalmente colonização marcado e/ou de pelas suas forças formas contemporâneas, defender uma educação na qual a arte seja um conhecimento a ensinar e a ser aprendido sem constituir um privilegio de poucos, busque um conhecimento que deve ser democratizado e socializado ultrapassando os limites do poder atual e (re) significando o sentido da educação e da escola. Uma característica contemporânea da Arte/Educação brasileira reside exatamente no poder de mobilização dos professores e professoras por meio dos congressos, seminários, jornadas e pela organização de associações representativas deste coletivo em âmbito local e nacional. As bases contemporâneas da Arte/Educação brasileira não foram erguidas desde as universidades como tradicionalmente se verifica em outros países. No caso brasileiro esta epistemologia contemporânea é o resultado do poder de reunir em um mesmo espaço professores e professoras de varias regiões do Brasil para conjuntamente refletirem em torno dos problemas da área, de seus limites, de sua inadequação ao tempo presente e suas mudanças; das exigências para os professores e professoras e para as instituições e tudo isso se foi constituindo dentro da contemporaneidade da área, de sua epistemologia e de tantos enfoques que foram emergindo, inclusive, da própria busca de outros lugares de desenvolvimento de pesquisas que ampliaram o significado do ensino da arte no Brasil. Para compreender como uma área de conhecimento se estrutura é necessário ter conhecimento das lutas internas e externas que enlaçam os sujeitos sociais em determinado contexto social, histórico, cultural, político e educacional. Quando se fala de ensino da arte é fundamental que se delimite de onde se fala, de que se fala e porque se fala. Hoje há uma perigosa forma de colonização disfarçada nas generalizações em torno do conceito de formação inicial de professores porque esta formação é especifica, particular, condicionada a realidade de origem e de seu desenvolvimento e por isso muitas vezes se escuta falar de formação inicial de professores ou de atualização destes profissionais tendo como referência propostas e proponentes estrangeiros que em seus próprios países tais idéias e proposições não seria aceitas e isso porque: “A classe de currículo das humanidades, a história e as ciências sociais que os multiculturalistas conservadores, liberais e pluralistas têm defendido se nega a reconhecer que a cultura é um terreno de luta.” (KINCHELOE & STEINBERG, 1999, p. 275). Diante do exposto defendemos uma concepção curricular para a formação inicial do professor inserida no contexto do multiculturalismo e no conceito de pósmodernidade crítica, que humaniza ao passo que liberta e que “rechaça o discurso modernista sobre a história uniforme, cronológica e teleológica” (GIROUX, 1997, p. 147). Esta teoria pós-moderna reconhece o sujeito como protagonista de sua história e da história de seu próprio contexto no qual se inclui o educativo em seu sentido amplo. Assim os professores de arte ou arte/educadores são protagonistas das mudanças no ensino da arte no Brasil já que “o pós-modernismo oferece uma série de referentes para considerar o modo que nos constituímos como sujeitos no conjunto de condições políticas, sociais e culturais que muda rapidamente” (Idem). Estes referentes se podem encontrar na concepção pós-formal na qual o professorado “compreende que o importante é a experiência da busca, do questionamento e da reflexão. Em principio, nenhum texto, nenhuma obra de arte e nenhuma pessoa, deveriam estar ao abrigo do questionamento, da analises ou da crítica” (KINCHELOE, 2001, p. 177). A pós-modernidade e nela o pensamento pós-formal permite reconceitualizar o campo cognitivo no processo de formação inicial do professorado, de sua atualização permanente e de seu próprio movimento como sujeito de seu tempo e como ativista social e político da educação com o processo de humanização do humano. Ao passo em que também esta educação é o terreno das lutas por outros modelos educativos aonde as áreas do conhecimento se convertem em comunidades de conhecimento (KINCHELOE, 2001) que já nascem mediatizadas pela interdisciplinaridade. A DESTERRITORIALIZAÇÃO Por meio da teoria pós-moderna e do enfoque pós-formal nos aproximamos da trajetória do ensino da arte no Brasil como resultado de um processo de desterritorialização de todos os conceitos, significados e significantes da epistemologia de verdade única caracterizadora da modernidade e do modernismo artístico que se refletia por meio das estruturas de poder que se apresentavam como responsáveis pela Arte e seu ensino. A mais importante desterritorialização que passou o ensino da arte no Brasil foi motivada pelas contribuições da Proposta Triangular e a defesa de um campo de interesse para as artes visuais como uma comunidade de conhecimento que se ocupa do processo de ensino e aprendizagem da linguagem visual e, a outra, foi provocada pelo Movimento dos Arte/Educadores que vinculados a uma Federação Nacional e as associações locais passaram a representar a área diante do poder governamental de tal modo que este se viu obrigado a mudar o discurso e as práticas políticas que sempre tentavam e ainda tentam utilizar estratégias para retirar o ensino da arte do currículo da educação básica. Esta pós-modernidade e este pensamento pós-formal provocaram a desterritorialização da verdade, do conhecimento científico, do saber dominante, o papel e a função social do governo e de suas instituições. Uma desterritorialização em que “as culturas se entrecruzam, se mesclam e se impõem umas as outras gerando crises que terminam por alterar a configuração dos mapas” (EFLAND, 2003, p. 49) já que as fronteiras: “(...) não só são construções, também são múltiplas e mutantes. Por um lado, as pessoas se mudam, deslocam e trocam significados, automatizando os vínculos entre cultura, identificação e território. Por outro lado, símbolos, textos, músicas e objetos viajam ainda que as pessoas e os grupos permaneçam imóveis, questionando por outra via aquela suposta imbricação” (GRIMSON, 2003, p. 15). Estas mudanças provocadas pela desterritorialização proporcionaram “uma concepção pós-moderna da cultura vinculada ao presente mais que ao futuro. Se volta ao passado para estabelecer a genealogia dos problemas do presente e descobre até que ponto guarda relação com ilusões herdadas do passado” (EFLAND, 2003, p. 30). ATUALIDADE DA FAEB/CONFAEBS A importância que teve e continua tendo a Federação dos Arte/Educadores do Brasil – FAEB se encontra nas lutas por este movimento a favor de uma ampla formação inicial de educadores brasileiros e que para esta formação deveria ser incluída os Fundamentos da Arte/Educação nos cursos de Pedagogia, e, ao mesmo tempo, se deveria por um fim aos cursos de curta duração para a formação inicial do professor da antiga Licenciatura em Educação Artística e seu caráter generalista ou polivalente que ainda predominava nas universidades brasileiras como se pode comprovar no Boletim Número 01 de Dezembro de 1987, portanto, onze anos antes da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBN Nº 9394 de 1996. O protagonismo assumido historicamente pela FAEB pode ser observado em outros documentos que registram o perfil e importância desta entidade na luta em defesa do ensino da arte para todos os níveis da Educação Básica, assim como, para a formação inicial do professor de artes. Em agosto de 1988 quando da realização de seu primeiro Congresso, a FAEB aprova documento que foi enviado a V Conferencia Brasileira de Educação no qual este segmento explicita a necessidade de inclusão da arte no processo de formação do professor para a Educação Infantil e Primeiros Anos do Ensino Fundamental que a época estava a cargo dos cursos de Magistério. Os cursos de Magistério, de nível médio, significou o desmantelamento da Escola Normal provocado pela Lei 5.692/71. “O ensino de Magistério ou Normal merece uma reformulação total por sua característica multiplicadora. Se recomenda que a Arte seja incluída como função básica na preparação dos futuros professores. Não se exclui, entretanto, os primeiros anos do Primário, a necessidade do professor especializado em Arte” (FAEB, 1988, p. 03). Em este mesmo documento os arte/educadores expressam sua concepção da função da arte na sociedade brasileira como sendo a de humanização, socialização e identidade cultural. Ademais para eles a formação do professor de arte deveria orientar-se a partir dos seguintes princípios: “1. CONCEPÇAO DE ARTE- A Arte se deve entender como forma de expressão e de construção do conhecimento, que na escola e na sociedade significam: 1.1. Fator de Humanização – gerador de realização pessoal pela apropriação do processo de criação; 1.2. Fator de Socialização – gerador de realização do cidadão pelos compromissos de liberdade e participação social assumida; - gerador da identidade do homem brasileiro, competente e comprometido com o processo histórico enquanto sujeito capaz de implementar mudanças; 1.3. Fator de Identidade Cultural – gerador da prática da experiência estética, integradora do pensar e do fazer. 2. DOMINIO DO CONTEÚDO ESPECIFICO – O conteúdo deve ser entendido como compreensão do processo de produção de conhecimento e de linguagem artística, bem como a apreensão das estruturas básicas desses conhecimentos e a segurança de desenvolvê-los na escola e na sociedade. 3. CONHECIMENTOS EM EDUCAÇAO – O professor de Arte deve compreender a escola e os organismos culturais no contexto histórico-social para uma ação consciente e comprometida com sua realidade” (FAEB, 1988, p. 02). Como se pode observar no conteúdo do documento já se defendia uma formação inicial centrada em princípios, capacidades e na unidade entre fazer e pensar. Os princípios se expressaram pelos Fatores, porém as capacidades estão vinculadas ao processo que deve desenvolver o professor ou professora ao longo de sua formação: “1. Ler o processo de evolução do ser humano em todas as instancias (cognitiva, afetiva, sociocultural, política e estética); 2. Ler o contexto sociocultural, político e estético no qual se localiza; 3. Dominar a linguagem expressiva com a qual pretende trabalhar e ter subsídios de outras linguagens expressivas e áreas afins; 4. Acompanhar e orientar o processo criador; Produzir Arte e sistematizar conhecimentos; 5. Analisar e criticar a produção artística e teórica; 6. Desenvolver e acompanhar pesquisas em sua área” (FAEB, 1988, p. 02). Circunscrito nas condições históricas da época, o documento inclusive faz algumas sugestões com relação à organização do currículo para os cursos de formação inicial do professor para o ensino da arte que deverão oferecer uma formação Professional que garanta a unidade e o domínio do fazer e do pensar tanto em relação à Arte como em relação à Educação. “1. Um curso com a duração mínima de quatro anos, aos quais se acrescenta uma especialização, que comece com uma visão ampla da Arte, da Educação, da Filosofia e das Ciências, se aprofundando em uma área artística especifica; 2. O currículo deve ter uma estrutura com disciplinas obrigatórias e optativas, se incluindo as de outras áreas do conhecimento afins, visando a complementação do saber na interdisciplinaridade; 3. Se deve guardar a Especificidade da Arte no desenvolvimento de disciplinas de fundamentação pedagógica, filosófica, sociológica, metodológica e antropológica” (FAEB, 1988, p. 2). Ainda que se façam numerosas criticas ao currículo organizado por disciplinas tanto para a escola de educação básica como para os cursos universitários, a verdade é que até o momento não se há apresentado outro modelo e todo o discurso acaba por ficar exatamente diante do muro das disciplinas. A luta pela identidade da área através da configuração de disciplinas passa a constituir o eixo principal dos arte/educadores e isso talvez se deva ao fato de que o ensino da arte começa como uma atividade no currículo da escola na época da ditadura, porém a partir do movimento de redemocratização do país, em relação ao ensino da arte esta se viu muitas vezes ameaçada de ser retirada do currículo. Talvez ocupar um território disciplinar seja a melhor estratégia que os arte/educadores utilizaram para que anos mais tarde outra vez, porém agora por maior mérito da luta se tenha logrado um artigo na atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN Nº 9394 que situa o ensino da arte como obrigatória em todo sistema educativo brasileiro. Porém, destacamos aqui os mais recentes resultados do ativismo social e político do movimento e de sua federação que são testemunhos da atualidade da FAEB e dos CONFAEBS na contemporaneidade e que tornam estes segmentos contemporâneos de si mesmos. Tal afirmação se justifica pelo conteúdo expresso na Carta de Goiânia/2003 aprovada no XIV Congresso da FAEB e legitimada por 847 participantes e representantes da arte/educação brasileira em todos os níveis da educação nacional: “Encaminhar ao Presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, uma solicitação de ratificação do termo que designa a área de conhecimento “Educação Artística” pela designação “Arte”, com base na formação específica plena em uma das linguagens: Artes Visuais, Dança, Teatro e Música (Documento em Anexo). Tal solicitação se justifica pela necessidade de tornar o texto de referida Resolução CEB Nº 2, coerente com o que preconiza os Parâmetros Curriculares Nacionais – Arte e as Diretrizes Curriculares para os cursos universitários de Artes Visuais, de Dança, de Música e de Teatro” (FAEB-Carta de Goiânia, 2003, p. 1). O documento faz referência a Resolução da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação que em 1998 aprovou a referida Resolução Nº 2 com a seguinte redação: “IV- Em todas as escolas se deverá garantir a igualdade de acesso para alunos a uma base nacional comum para legitimar a unidade e a qualidade da ação pedagógica na diversidade nacional. A base comum nacional e sua parte diversificada deverão integrar-se em torno ao paradigma curricular, que vem a estabelecer a relação entre a educação primaria e (...); b) as áreas de conhecimento: 1. Língua Portuguesa; 2. Língua Materna, para populações indígenas e imigrantes; 3. Matemática; 4. Ciências; 5. Geografia; 6. História; Língua Estrangeira; 8. Educação Artística; 9. Educação Física; 10. Educação Religiosa” (CEB- Resolução Nº 2, 1998, p. 2). Esta resolução se manteve em vigência até o não de 2006 quando foi por fim modificada pela Resolução Nº 1 de Janeiro de 2006: “Artigo 1º linha “b” do inciso IV do artigo 3º da Resolução CNE/CEB nº 02, de 7 de abril de 1998, passa a ter vigor com a seguinte redação: Art. 3º (...) IV... a... b. Artes”. As lutas e conquistas, assim como, os desafios que ainda enfrentaremos (arte/educadores) já não pesam tanto em relação ao ensino de arte desde o ponto de vista da obrigatoriedade entendida a partir do plano jurídico isso porque desde o ponto de vista prático será uma luta continua que talvez venha a manter o caráter ativista social e político do movimento. No entanto, é possível que no tempo presente o desafio maior resida exatamente no terreno da formação inicial do professor e sua constante, continua e permanente atualização que já não é uma questão meramente de entendimento político, de políticas públicas para a educação. Esta questão é de ordem contemporânea, de domínio da sociedade e dos arte/educadores já que não se pode conceber a Arte e suas transmutações em contextos culturais específicos e uma formação inicial e atualização do professor que não considere que é o professor de arte o mediador entre a experiência estética, as instituições e, principalmente, formador do público que aprecia, ler, dialoga, vive a experiência. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: EFLAND, Arthur D. La educación en el arte posmoderno, Barcelona: Paidós Ibérica, 2003. GIROUX, Henry A. Cruzando as Fronteiras do Discurso Educacional, Porto Alegre: ArtMed, 1999. KINCHELOE, Joe L. Hacia una revisión crítica del pensamiento docente, Barcelona: Octaedro, 2001. KINCHELOE, Joe L. y Steinberg, Shirley R. Repensar el Multiculturalismo, Barcelona: Octaedro, 1999.