II Congresso sobre Planejamento e Gestão das Zonas Costeiras dos Países de Expressão Portuguesa IX Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário II Congresso do Quaternário dos Países de Língua Ibéricas ESTUDOS PALINOLÓGICOS E PALEOECOLÓGICOS DAS TURFEIRAS DO MÉDIO VALE DO RIO PARAÍBA DO SUL, SÃO PAULO Maria Judite Garcia1; Paulo Eduardo De Oliveira2; Eliane de Siqueira3; Rosana Saraiva Fernandes4. 1 Dra.em Geologia Sedimentar, Professora e Pesquisadora da Universidade Guarulhos Praça Tereza Cristina n°1, Centro, Guarulhos, São Paulo. 07023-070, Fone: 6464 - 1708. e -mail: [email protected] 2 Ph.D. em Botânica, Professor e Pesquisador do Laboratório de Geociências, Universidade Guarulhos 3 Bióloga e Técnica do Laboratório de Geociências, Universidade Guarulhos 4 Bióloga e Técnica do Laboratório de Geociências, Universidade Guarulhos RESUMO Apresentamos neste trabalho os resultados palinológicos para uma turfeira do Médio Vale do Rio Paraíba do Sul, Estado de São Paulo. Os dados sugerem a divisão do diagrama polínico em 5 zonas. O clima da região estudada era úmido e mais frio entre 9720 e 8240 anos A.P. De 8240 a 5400 anos A.P. o clima era úmido e mais quente. Um relativo dessecamento ocorreu entre 5400 e 3500 anos A.P. como sugerem as baixas taxas de sedimentação encontradas para esse período. Os últimos 3500 anos representam condições climáticas diferentes devido ao retorno de elementos botânicos típicos de ambientes frios e úmidos tais como Araucaria, Podocarpus, Ilex e Myrtaceae. ABSTRACT We report the results of a palynological analysis of a Holocene peat core from a peatbog located in the mid Paraíba do Sul River Valley, State of São Paulo, Brazil. The palynological content of the samples permitted the recognition of five distinct pollen zones which indicate that the Holocene of the Paraíba do Sul River Valley was characterized by humid and colder climates from 9720 ca. 8240 C14 years B.P. From ca. 8240 to ca. 5400 C14 years B.P. the climate was humid and warm and from from 5400 C14 years B.P. to ca. 3500 C14 years B.P. it was drier than present. The last 3500 years represent different climatic conditions due to the return of botanical taxa tupically found in cold and wet environments, such as Araucaria, Podocarpus, Ilex and Myrtaceae. Palavras-Chave: araucaria, pólen, holoceno. 1. INTRODUÇÃO O acúmulo de turfa, que ocupa extensas áreas do vale do Rio Paraíba do Sul, entre a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar, sugere que o seu sistema fluvial moderno tem sofrido alterações na dinâmica sedimentar, possivelmente em sincronia com mudanças climáticas globais. Tal inferência é derivada das características dessa extensa sedimentação orgânica, cujas litologias chegam a atingir 20 metros de espessura. Datações basais de várias turfeiras da região mostram que em alguns locais ocorreu sedimentação a partir de 20.000 anos A.P., enquanto em outras áreas a sedimentação tem idade holocena. (Garcia, 1994). O objetivo deste estudo é determinar a paleovegetação predominante na área de ocorrência das turfeiras do município de Jacareí, São Paulo e testar hipóteses geológicas e paleoclimáticas através de estudos palinológicos. Os resultados desta investigação são comparados com os dados palinológicos já existentes para outras áreas da região da Serra da Mantiqueira e do próprio vale do Rio Paraíba do Sul. A comparação desses dados poderão fornecer subsídios para a determinação de padrões climáticos regionais e locais durante o Holoceno da região Sudeste. 1.1. As turfeiras do vale do Rio Paraíba do Sul As bacias orgânicas (turfeiras) ocorrem, praticamente, ao longo de todo o curso do Rio Paraíba do Sul e são constituídas por camadas orgânicas (turfa), argilas orgânicas pretas, argilas maciças-plásticas cinzaesbranquiçadas. Em alguns locais sotopostos a esses sedimentos podem ocorrer arenitos grossos a finos, micáceos, estratificados, além de lamitos e cascalheiras (Bistrichi et al. 1990). As extensas turfeiras desta região já foram objeto de muitos estudos; os primeiros voltados para a exploração de turfa (Shimada & Carvalho, 1980; Algarte et al. 1982; Ostafiuc, 1986), em escala industrial, em especial para fins energéticos e corretivos de solos. O segundo grupo de estudos de cunho sedimentológico e cronológico (Melo et al., 1987; Turcq et al., 1992; Suguio et al., 1987), cujas idades, obtidas por métodos radiométricos (C14) chegaram a 20.160 anos A.P., enquanto os estudos aloestratigráficos, cronológicos e palinológicos (Moura et al. 1989), (Mello & Moura 1991), obtiveram idades máximas de 10.000 anos A.P. Garcia (1994) realizou estudos palinológicos em diversas turfeiras que apresentaram idades radiométricas de, no máximo, 11.080 anos A.P. O curso médio superior do Rio Paraíba do Sul encontrase encaixado numa unidade geotectônica do tipo “graben”, que integra o sitema de rifts da Serra do Mar (Almeida, 1976). Os depósitos quaternários apresentam evidências de basculamentos tectônicos (Hasui & Ponçano, 1978) que segundo Riccomini (1989, 1992), causa a sismicidade regional natural e capturas de drenagem. Portanto, o desenvolvimento dessas bacias orgânicas é controlado pela tectônica, fato também observado por Cordani et al. (1974), quanto à migração dos meandros ao longo dos blocos rebaixados, à preservação de manchas sedimentares em zonas de embasamento e pelo escoamento dos aluviões quaternários nas regiões de blocos adernados. II Congresso sobre Planejamento e Gestão das Zonas Costeiras dos Países de Expressão Portuguesa IX Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário II Congresso do Quaternário dos Países de Língua Ibéricas 1.2. A turfeira de Jacareí e condições ambientais atuais A turfeira estudada localiza-se no município de Jacareí, São Paulo, (23o 17´S, 45o 58´W) e encontra-se a uma altitude de 550 m acima do nível do mar. Atualmente, o clima do vale, segundo Nimer (1989) é do tipo mesotérmico brando semi-úmido, com a estação seca restrita aos meses de inverno. Nas serras acima de 1600 m o clima é mesotérmico médio brando superúmido e nas regiões entre as serras e o vale o clima é denominado mesotérmico brando úmido. A precipitação pluviométrica no vale é de cerca de 1200 mm, enquanto nas serras atinge 3.000 mm anuais. A temperatura média anual varia entre 19º e 21º C, sendo as temperaturas mais baixas, 15º C (Radambrasil., 1983). Ainda são encontradas na paisagem fragmentos florestais de Floresta Ombrófila densa, Floresta Estacional Semidecidual e Floresta Ombrófila Mista (Floresta de Araucaria). No que tange à vegetação campestre ocorrem também fragmentos de cerrado, formações pioneiras com influência fluvial e área de contato cerrado/Floresta Ombrófila. No entanto, atualmente essas áreas encontram-se reduzidas a alguns agrupamentos ou são vegetações secundárias descaracterizadas por sucessivas queimadas oriundas do impacto ambiental antropogênico (Radambrasil, 1983). 2.0 MATERIAIS E MÉTODOS O testemunho, aqui estudado, com 6.43 m de comprimento, foi obtido no setor sul do campo de turfas do vale, cujas coordenadas são 23o 15’S- 45o 55’ W. A testemunhagem foi feita com um amostrador com pistão obtido do Serviço Geológico da Finlândia. A partir de 6,43 m, uma camada de argilas compactadas não permitiu penetração do amostrador além desse nível. Três amostras selecionadas para datação radiocarbônica (1.06, 4.32 e 6.42 m) foram datadas pela Beta Analytic Inc. (EUA). Os métodos palinológicos empregados estão descritos em Faegri & Iversen (1989). Para remoção de silicatos empregou-se a dissolução de ácido fluorídrico por 48 horas e remoção da matéria orgânica da amostra assim como do interior dos palinomorfos pela técnica da acetólise (9 partes de anidrido acético para uma parte de ácido sulfúrico concentrado). Durante todo o processo, foi empregada a técnica de centrifugação e decantação explicitada em Colinvaux et al. (1999). Os resíduos finais foram montados em lâminas permanentes, em glicerina e em Entellan. O número de grãos de pólen contados variou entre 178 (amostras inférteis) e 1475 grãos (muito férteis), e o número médio de grãos contados foi 353. Os perfis palinológicos foram elaborados com os programas Tilia e TiliaGraph, e zonas polínicas foram determinadas através da estatística de Cluster Analysis fornecida pelo subprograma CONISS (Grimm, 1987). 3 RESULTADOS E INTERPRETAÇÃO 3.1. Estratigrafia e datação C14 Os sedimentos turfosos coletados em Jacareí possuem sedimentação homogênea, mas diferentes contribuições de lignina e argila permitiram o reconhecimento das seguintes unidades estratigráficas: 0-0,5 m, solo turfoso; 0,50-4,60 m, turfa lignosa; 4,60-5,79 m, turfa argilosa e de 5,79 a 6,43 m, argila compacta. As três datações obtidas para as amostras 1,06-1,07 m, 4,32-4,33 e 6,42 e 6,43m são respectivamente, 4130 + 70, 8100 + 90 e 9720 + 100 anos A.P. 3.2. Resultados Palinológicos Os dados palinológicos obtidos permitiram, através do subprograma CONISS, a identificação de 5 zonas palinológicas, com datações interpoladas e estatisticamente relacionadas entre si. 3.2.1.Zona JA1 (9720 - ca. 8853 C14 anos A.P.) Esta zona é caracterizada pela alta porcentagem (> 60%) do táxon aquático Polygonum aff. hydropiperoides. Os outros elementos herbáceos presentes, que pertencem principalmente às famílias Poaceae e Asteraceae definem, a zona como herbácea, uma vez que somente 5% da soma total de pólen pertence a elementos arbóreos. Pteridófitas do gênero Gleichenia perfazem a totalidade dos esporos encontrados nesta zona. No final da zona há um expressivo aumento de elementos arbóreos representados exclusivamente por Pisonia (60% da soma total de pólen) o que sugere a separação desse evento em uma subzona. Uma subzona é sugerida pelo CONISS devido à uma redução de grãos de Gleichenia, Polygonum e outras ervas, em sincronia com o aumento de Pisonia e início da sedimentação de turfa. 3.2.2.Zona JA2 (ca. 8850 - ca. 8240 C14 anos A.P.) Esta zona é estatisticamente diferente da zona anterior devido ao conspícuo declínio de esporos de Gleichenia e pelo aumento de Selaginella, Polypodium, Cyathea, Asplenium e outras pteridófitas. O desaparecimento de Pisonia do registro palinógico ocorre no momento em que surgem outros elementos arbóreos como Alchornea, Erythroxylum, Ilex, Machaerium, Coccoloba, Schizolobium, Myrsine (Rapanea), Sebastiana, Sorocea, Symplocos e outros táxons da Floresta Atlântica. Esta zona também mostra um aumento progressivo de pólen de ervas, especialmente Poaceae. As algas, bem representadas, pertencem aos gêneros Mougeotia, Spirogyra e Zygnema. 3.2.3.Zona JA3 (ca. 8240 - ca. 5400 C14 anos A.P.) Esta zona é caracterizada por um aumento progressivo de pólen de Poaceae (Gramineae) que varia entre 30% e 60% da soma total. Este aumento é sincrônico com o aumento Lycopodium e de algas. Sphagnum alcança seu maior valor porcentual no início da zona e desaparece no seu final. O pólen arbóreo é representado especialmente por Coccoloba, uma árvore comum na Floresta Atlântica (Joly, 1976, Rizzini, 1997) e por Araucaria, Celtis, Erythroxylum, Machaerium, Pisonia, Myrsine (Rapanea), Sebastiana (aff. S. brasiliensis), Schizolobium e outros. 3.2.4. Zona JA4 (ca. 5397 - 3506 C14 anos A.P.) Esta zona é caracterizada principalmente pela mudança na abundância e composição dos espectros de pteridófitas II Congresso sobre Planejamento e Gestão das Zonas Costeiras dos Países de Expressão Portuguesa IX Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário II Congresso do Quaternário dos Países de Língua Ibéricas tais como Lycopodium, que entra em declínio progressivo, em contraste com o aumento de Asplenium, Cyathea, Gleichenia e Sphagnum. Outra característica importante desta zona é o maior aumento em toda a análise, de Poaceae, que alcança 60% da soma total de pólen. As porcentagens de elementos arbóreos, contudo, é praticamente similar à da zona anterior, embora haja uma mudança importante na composição florística da vegetação com o decréscimo de Coccoloba e o aparecimento de Cassia, Gaylussacia (Ericaceae), Leucothoe (Ericaceae), Solanaceae nos espectros polínicos. 3.2.5. Zona JA5 (ca. 3506 - 1948 C14 anos A.P.) Esta zona representa condições ambientais radicalmente diferentes de todas as zonas anteriores. É marcada especialmente por um aumento dos elementos arbóreos, representados por Bauhinia, Ilex e Alchornea. Táxons pouco representados nesta zona pertencem à Araucaria, Drimys, Clusia, Daphnopsis, Ericaceae (aff. Gaylussacia e aff. Leucothoe), Podocarpus e Myrsine (Rapanea). Há um decréscimo de elementos formadores de turfa, tais como Lycopodium, concomitantemente ao aumento de Gleichenia. O táxon Sphagnum é encontrado com altos valores percentuais, mas decresce rapidamente no final da zona. Adicionalmente, em sincronia com essas mudanças, as algas decrescem rapidamente. 4. CONCLUSÕES O registro palinológico da turfeira de Jacaréi, SP sugere: !Entre 9720 e ca. 8240 C14 anos A.P., o Holoceno do vale do Rio Paraíba do Sul foi caracterizado por clima regional úmido e frio, durante o qual iniciou-se um período de acúmulo de turfa; !De ca. 8240 a ca. 5400 C14 anos A. P., o clima regional era úmido e quente; !De 5400 C14 anos A.P. a ca. 3500 C14 anos A.P., o clima regional era relativamente mais seco, com um número maior de meses secos, do que atualmente; !Elementos da floresta de Araucaria aparecem no registro polínico de Jacareí em duas épocas diferentes: de 8853 a 8239 anos A.P. e de 3506 a 1948 anos A.P. Essas duas fases de expansão da floresta de Araucária estão de acordo com registros palinológicos de outras localidades do Sudeste do Brasil (Behling, 1995, 1997, 2002, Bissa, 1998m, De Oliveira, 1992, Ledru, 1992, Ledru et al. , 1996, Takiya, 1997); !A velocidade sedimentação foi alta (ca. 1,3 mm/ano) de 9720 a ca. 8240 C14 anos A.P., enquanto foi baixa (ca. 0,82 mm/ano) de ca. 8240 a ca. 5400 C14 anos A.P.; !Nos últimos 3.500 anos ocorreu a maior mudança climática da região. Os elementos de floresta montana reaparecem no diagrama polínico e sugerem condições climáticas mais frias e úmidas; !O presente estudo mostra que nas regiões tropicais a formação de extensos depósitos profundos de turfa também é possível em climas tropicais, o que contraria a hipótese de Lottess & Ziegler (1994) que exige clima temperado para esse processo. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem à Universidade Guarulhos pelo suporte financeiro da maior parte desse trabalho, à CESP pelo auxílio na coleta do material estudado e ao Projeto FAPESP no 2000/03960-5 intitulado “História da exumação da plataforma sulamericana a exemplo da região sudeste brasileira: Termocronologia por traços de fissão e sistemáticas AR/AR e SM/ND”, que subsidiou o término deste trabalho. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Algarte, J.P., Oliveira, C.A. & Aboarrage, A.M., 1982. Prospecção de turfa na Bacia de Taubaté – SP. In: Congresso Brasileiro de Geologia , 32, Salvador, Bahia , 1982, Anais...5: 2261-2272. 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