HEMODIÁLISE: MUDANÇAS BIOPSICOSSOCIAIS E SUA
REPERCUSSÃO NO TRATAMENTO – ESTUDO DE CASO
Silvia Maria Bonassi, Renato Amaro Zângaro
Universidade Camilo Castelo Branco, Instituto de Engenharia Biomédica
e-mail: [email protected]
Resumo- O objetivo deste estudo de caso é caracterizar a vida de um paciente renal crônico submetido à
hemodiálise, identificando as interferências que esse tratamento provoca na sua vida psicossocial. Materiais
e Métodos: Estudo de Caso, roteiro de entrevista semiestruturada, Inventário de sintomas de stress para
adultos de Lipp (ISSL), cardiofrequêncimetro Polar modelo RS800CX, concentração de cortisol salivar. As
mensurações foram realizadas em condições apropriadas no domicilio e durante diálise. A análise dos
resultados parciais mostrou que o paciente renal crônico em hemodiálise sofre mudanças biopsicossociais,
apresentando stress.
Palavras-chave: Renal crônico; hemodiálise; stress; variabilidade cardíaca; mudanças biopsicossociais.
Área do Conhecimento: Reabilitação.
Introdução
O stress segundo Lipp (2005) é o produto da
interação do homem com o meio ambiente físico e
sociocultural. Desta forma existem fatores
pessoais (processos psíquicos e somáticos) e
ambientais (ambiente físico e social) que
interagem no surgimento e gerenciamento do
stress. Quando se investiga o stress, é necessário
considerar três aspectos: biológico, psicológico e
social.
Deve-se atentar ao organismo, a
personalidade e ao sistema social, que são muito
importantes.
Para identificar as fases do stress e se este se
manifesta com sintomas físicos ou psicológicos,
pode-se utilizar o Inventário de Sintomas de Stress
para Adultos de Lipp - ISSL. Atualmente, o ISSL
divide o stress em 4 grandes fases: alerta,
resistência, quase exaustão e exaustão. Essa
ultima apresenta-se com maior gravidade podendo
levar à morte. É comum em pessoas que
apresentam
stress
o
organismo
sofrer
modificações, tais como: taquicardia, sudorese
excessiva, tensão muscular, boca seca, úlceras,
hipertensão e até mesmo enfarte do miocárdio
(LIPP, 2005).
Para Vanderlei et al. (2008), a doença renal
crônica dialítica (DRCD) afeta a qualidade de vida
do paciente mais intensamente que outras
doenças crônicas, como a artrite reumatoide. A
DRCD exerce efeito negativo sobre níveis de
energia e vitalidade, limitando interações sociais e
prejudicando a saúde psíquica. Segundo Reed,
Robertson & Addison (2005), o desenvolvimento
de arritmias cardíacas nos pacientes renais
crônicos está associado à disfunção autonômica
evidenciada pela redução da variabilidade da
frequência cardíaca (VFC). Além disso, a
diminuição da VFC representa um fator de risco
independente para a mortalidade cardíaca nestes
pacientes.(VANDERLEI, 2008)
O cortisol é um hormônio glicocorticoide vital.
Ele permite que o indivíduo se adapte às
alterações externas e ao stress. Portanto, é
considerado um marcador biológico de sintomas
de stress, que pode ser quantificado pela saliva do
paciente, sendo um método simples e não
invasivo. (SCHMIDT, 1998).
Este estudo considera o relato de dados
parciais de um renal crônico submetido à
Hemodiálise, e avalia o stress, as mudanças
físicas e psicossociais produzido pelo tratamento.
A pesquisa pretende caracterizar a população de
pacientes renais crônicos da região sul-matogrossense, atendidos em hemodiálise, além de
avaliar fatores estressores que podem interferir na
adesão ao tratamento hemodialítico.
Método
O trabalho se baseia em um estudo de caso
descritivo individual. O sujeito é um homem de 34
anos, com ensino médio completo, casado, tem
dois filhos menores de idade. É pedreiro
aposentado por invalidez, hipertenso, submetido à
hemodiálise há 6 anos, faz três sessões semanais
de 4h,
com acesso venoso pela Fistula
Arteriovenosa (FAV).
. Instrumentos: entrevista sócio-demográfica,
baseada no modelo de Bertolin (2007), inventário
de stress- LIPP – ISSL (duas aplicações com
intervalo de seis meses) Cardiofrequêncimetro
modelo RS800CX, teste Elisa - concentração
salivar - método enzimaimunoensaio. A coleta dos
dados no domicílio e na sessão de hemodiálise
ocorreram em condições apropriadas, conforme
protocolo de uso dos instrumentos. Procedimento:
Na primeira fase, durante a diálise, o paciente foi
Encontro de Pós-Graduação e Iniciação Científica – Universidade Camilo Castelo Branco
197
Resultados
A partir da entrevista temos que: O paciente
negligencia a dieta alimentar. Seu lazer atividade
fpisica é limitado. As vezes se entristece, pensa
na família e em sua própria condição. Sua esposa
acompanha o tratamento, sendo assistido pelo
Sitema Único de Saúde – SUS. A insuficiência
renal crônica foi desencadeada por Nefrite túbolointersticial, é hipertenso e devido ao tratamento
apresenta
algumas
complicações
clínicas,
(fraqueza física, dores de cabeça, manchas na
pele, dores nas articulações), faz uso de vários
medicamentos. Durante a visita domiciliar ele se
locomovia apoiado numa moleta e queixava de dor
nos dois joelhos.
Segundo os resultados do Inventário do Stress –
ISSL constatou-se: Primeira mensuração: durante
diálise, apresentou stress na fase de exaustão,
com
63%
predominãncia
de
sintomas
psicológicos. Após um intervalo de seis meses, foi
realizada a mensuração no domicílio apresentou
stress na fase de exaustão com 100% de
predominãncia de sintomas psicológicos.Segundo
as regras e normas de correção do ISSL, o
paciente apresentou num período de seis meses a
presença de stress na fase denominada exaustão,
com predominância de sintomas psicológicos.
Através do método de ELISA constatou-se que
a concentração do cortisol salivar foi elevada, isto
é, 51,8ng/mL, (valor de referência normal: 5,0 a
21,6ng/mL) indicando alterações emocionais,
causadas por exposição a agentes estressores.
As mensurações da VFC registrada em
domicílio, no início, e, ao final da sessão da
diálise, indicam variações da VFC, conforme
explicitam os dados da tabela 1.
Tabela 1: Respostas da VFC avaliada no domínio do tempo
pelos índices RMSSD, SDNN dos intervalos iRR(ms) e
PNN50%, medidos durante 10minutos no período matutino,
dentro de 24horas, estando o paciente em repouso, deitado na
posição decúbito dorsal.
Frequência
Resultados
Cardíaca
Nº de batimentos
932
SD1
2,5ms
iRR Mínimo 639ms
94bpm
SD2
6,8ms
iRR Média
652ms
92bpm
RMSSD 3,5ms
iRR Máxima 688ms
87bpm
pNN50 0,0%
Desvio padrão
5,2ms
Razão max./min.
1,08
Nº de batimentos
998
SD1
2,4ms
iRR Mínimo 558ms
108bpm
SD2 10,3ms
iRR Média
601ms
100bpm
RMSSD 3,4ms
iRR Máxima 620ms
97bpm
pNN50 0,0%
Desvio padrão
7,5ms
Razão max./min.
1,11
Nº de batimentos
788ms
SD1
2,4ms
iRR Mínimo 759ms
79bpm
SD2
30,6ms
iRR Média
820ms
73bpm
RMSSD 3,4ms
iRR Máxima 859ms
70bpm
pNN50 0,0%
Desvio padrão
21,8ms
Razão max./min.
1,13
Fonte: dados de coleta do pesquisador. O estudo esta em
andamento e os resultados estão em fase de análise.
Inicio da
diálise
Domicílio
Local
Término da
diálise
entrevistado e submetido ao inventário de stress
ISSL. Após 6 meses, ocorreu a segunda fase durante 24h - no período matutino, em seu
domicílio, foi submetido ao inventário ISSL e à
primeira aferição de sua variabilidade cardíaca,
por 10 min.
A VFC foi avaliada no domínio do tempo pelos
índices RMSSD, SDNN dos intervalos iRR em
milissegundos (ms) e PNN 50%. Na análise no
domínio da frequência foram obtidas bandas de
baixa frequência, alta frequência e razão baixa/alta
frequência.
Na manhã seguinte, a VFC foi mensurada duas
vezes, considerando o mesmo protocolo, no início
e término da sessão de diálise. A amostra de
saliva também foi coletada no inicio da mesma
sessão dialítica.
Discussão
Segundo inventário ISSL o nível de stress
diagnosticado está na fase de exaustão,
considerada patológica. A diminuição da média de
intervalos RR no início da sessão de dialise indica
um aumento na frequência cardíaca ou uma
simpato-excitação cardíaca durante os exames,
que está associada com a diminuição na
variabilidade da frequência cardíaca total no
momento de maior estresse. Neste caso em
estudo, a hipertensão pode levar ao enfarte do
miocárdio. O paciente renal crônico apresenta
diminuição da VFC, que representa um fator de
risco independente para a mortalidade cardíaca,
especialmente a morte súbita. A concentração de
cortisol salivar é elevada evidenciando que o
paciente exige maiores cuidados.
Conclusão
Com base nos resultados parciais, similaridade
dos resultados dos três instrumentos e
considerando as limitações do estudo, pode-se
concluir que o paciente renal crônico em
tratamento hemodialítico está vulnerável à
mudanças orgânicas, psicológicas e sociais. Pode
manifestar sintomas de stress patológico, se
arriscando, apesar do tratamento. O atendimento
ao paciente renal crônico hemodialítico deve ser
multidisciplinar, considerando sua totalidade.
Referências
BERTOLIN, D.C. Modos de enfrentamento de pessoas com
insuficiência renal crônica terminal em tratamento hemodialítico.
Ribeirão Preto: USP; 2007.
LIPP, M. E. N. Manual do inventário de Interesses para adultos de
Lipp - ISSL. 3ª ed., São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.
REED MJ, ROBERTSON CE, ADDISON PS. Heart rate variability
measurements and the prediction of ventricular arrhythmias. QJM 2005;
98:87-95. SCHMIDT, N.A. Issues Compr Pediatr Nurs. 20(3): 183-90,
1998.
VANDERLEI, L. C. M.; Silva, R.A.; Pastre, C.M.; et al. Comparison of the
Polar S810i monitor and the ECG for analysis of heart rate variability in
the time and frequency domains. Brazilian Journal of Medical and
Biological Research, n.10, p.15-25, 2008.
Encontro de Pós-Graduação e Iniciação Científica – Universidade Camilo Castelo Branco
198
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