nossa
américa
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Revista do Memorial da América Latina 04 - 2014 / R$ 5,90
50 anos do
Golpe Militar de 1964
Situação do negro
no Brasil pouco muda
em duas décadas
MEMORIAL 25 ANOS
XII Jogos dos Povos
Indígenas reúne
1600 índios de 16 países
Confira nesta edição: dicas do que se tem do Equador na cidade
3
Índice
Editorial
João Batista de Andrade
América Latina
Luis Fernando Ayerbe
05 06
XII Jogos dos Povos Indígenas
Tânia Rabello
Índios Online
Beatriz Marmol
12 16
Memorial 25 Anos
Daniel Pereira
VISITE
O NOVO
MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
São Paulo, SP, ao lado da estação Barra Funda do metrô
Barra Funda
Karla Oliveira
18 28
O Homem que Amava os Cachorros
Leonor Amarante
Livros
Joelma Gomes
32 36
Ditadura Militar
Eduardo Rascov
Colecionador de fotos do Golpe de 64
Leonor Amarante
38 41
Diretas Já
Marco Aurélio Nogueira
Mandela
Dojival Viera
48 52
Negros no Brasil
Dojival Viera
Festival de Cinema
Francisco Cesar Filho e Jurandir Müller
56 58
Equador
Tânia Rabello
Imagem da Edição
por Juca Martins
62 66
4
5
GOVERNADOR
GERALDO ALCKMIN
MARCELO ARAÚJO
FUNDAÇÃO MEMORIAL
DA AMÉRICA LATINA
CONSELHO CURADOR
PRESIDENTE
ALMINO MONTEIRO ÁLVARES AFFONSO
SECRETÁRIO DA CULTURA
MARCELO ARAÚJO
nossa
SECRETÁRIO DA CULTURA
américa
DIRETOR
JOÃO BATISTA DE ANDRADE
EDITORA EXECUTIVA/DIREÇÃO DE ARTE
LEONOR AMARANTE
SECRETÁRIO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO,
CIÊNCIA E TECNOLOGIA
ASSISTENTE DE REDAÇÃO
REITOR DA USP
DIAGRAMAÇÃO
RODRIGO GARCIA
MARCO ANTONIO ZAGO
REITOR DA UNICAMP
JOSÉ TADEU JORGE
REITOR DA UNESP
JULIO CEZAR DURIGAN
MÁRCIA FERRAZ
REVISÃO
JOELMA GOMES
KARLA OLIVEIRA
REITOR DA FACULDADE ZUMBI DOS PALMARES
COLABORARAM NESTE NÚMERO
JOSÉ VICENTE
PRESIDENTE DO CIEE
RUY ALTENFELDER SILVA
Beatriz Marmol, Daniel Pereira, Dojival Vieira, Eduardo Rascov,
Francisco Cesar Filho, Joelma Gomes, Jurandir Müller, Karla
Oliveira, Luis Fernando Ayerbe, Marco Aurélio Nogueira, Mylene
Lyra e Tânia Rabello.
DIRETORIA EXECUTIVA
DIRETOR PRESIDENTE
JOÃO BATISTA DE ANDRADE
DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE
ESTUDOS DA AMÉRICA LATINA
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NOSSA AMÉRICA HOY é uma publicação bimestral da
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Capa: Foto Repressão à Greve dos Bancários. SP. 1979. Autor: Juca Martins
6
W
Editorial
25 anos de Memorial
ARTHUR GUMIERI DE SOUZA
RENATO LUIZ CANEVER
PRESIDENTE DA FAPESP
CELSO LAFER
hoy
Ao completar 25 anos, o Memorial da América
Latina mostra vigor ao participar do processo de renovação,
em lugar de se deixar dragar pela cultura da queixa e do imobilismo. Uma corrente de brasileiros e estrangeiros tem nos
ajudado na superação do tempo recente que vai ficando para
trás e dá espaço a uma energia vital que nos impulsiona para
o futuro e atiça a imaginação criadora. Isso toca todos os
funcionários do Memorial, protagonistas permanentes das
cíclicas transformações.
O Memorial é uma instituição que, aos olhos da
cultura nacional, ganha muitos contornos e realidades.
Sem o Auditório Simón Bolívar, temporariamente em fase
de restauração, nossa programação será concentrada na
praça onde se encontra a Mão da América Latina, imenso
palco sem fronteiras, onde tudo se movimenta de acordo
com nossa situação de cidadãos contemporâneos dessa
imensa metrópole.
Nesta quarta edição da revista Nossa América
Hoy o jornalista Daniel Pereira repercute fatos e eventos relevantes que marcaram o Memorial, nesse quarto de
século, e algumas personalidades que deram brilho à nossa
história. Os 50 anos do golpe militar de 1964 quando o Brasil, sob a intervenção, viveu seus anos de chumbo, é o tema
abordado pelo jornalista Eduardo Rascov. O período sob
domínio dos militares também é revivido na valiosa contribuição do colecionador cearense Silvio Frota, empresário
e proprietário de primoroso acervo iconográfico sobre a ditadura, que concedeu entrevista à editora Leonor Amarante.
Depois de 20 anos de regime militar, o povo foi
para as ruas e exigiu Diretas Já com manifestações que explodiram em várias cidades do Brasil. O famoso Comício da
Praça da Sé, em São Paulo, completou 30 anos no último 25
de janeiro e foi um marco desse anseio geral e o local foro
das grandes manifestações e protestos que se seguiram
e que depois viraram showmícios. Esses eventos foram o
embrião dos movimentos que recentemente vêm tomando
conta das avenidas paulistanas e de várias outras cidades do
Brasil. Quem comenta é o sociólogo Marco Aurélio Nogueira.
O bairro da Barra Funda sofre intensas mudanças
arquitetônicas e sociais impulsionado pela construção do
Memorial onde hoje se instalam shopping centers, galerias
de arte, centros culturais, casas de espetáculos, torres de
escritórios e novos bairros dentro do bairro. Acompanhando
o movimento global, a América Latina também sofreu mudanças substanciais nos terrenos político, econômico e cultural, de 1989 até hoje, e quem analisa é o historiador Luis
Fernando Ayerbe.
Em entrevista exclusiva à jornalista Tânia Rabello,
líderes de diferentes etnias da América Latina relatam e
reivindicam maior proteção aos direitos e integração das comunidades indígenas. Eles participavam dos XII Jogos dos
Povos Indígenas, em Cuiabá, que reuniu 1600 índios de 46
etnias de 18 países.
A situação dos negros no Brasil pouco mudou nas
duas últimas décadas, como constata Dojival Vieira, diretor
da Afro Press e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em
artigo repleto de dados pouco animadores, neste momento
em que o mundo perdeu o líder Nelson Mandela. Para finalizar, o escritor cubano Leonardo Padura, autor do sucesso
editorial O Homem que Amava os Cachorros, que trata do
assassinato do Trotski e de seu algoz Ramón Mercader,
concedeu entrevista, de sua casa em Cuba, à revista Nossa
América Hoy.
Boa leitura !
João Batista de Andrade
Cineasta e Presidente da Fundação
Memorial da América Latina.
7
AMÉRICA LATINA
1989 - 2014
imagens fotograma
O “fim da história” que não aconteceu
por Luis Fernando Ayerbe
8
9
10
e 70 a região foi governada predominantemente por forças políticas nacionalistas ou socialistas. Seriam elas
as responsáveis pela bomba relógio de
pobreza, subdesenvolvimento, déficit
público, endividamento externo e inflação que explode concomitantemente
à transição democrática, contaminando a percepção dos anos 1980 com o
rótulo de década perdida da economia.
No entanto, o que prevaleceu de fato
nos trinta anos prévios foi a imposição
de regimes militares que buscaram
legitimar-se pelo discurso do combate
ao comunismo e ao “populismo”. De
quem era então a responsabilidade
pelos descaminhos que o novo “consenso” prometia consertar?
A ideologia acabou solapando
a perspectiva histórica, compondo um
relato de época que se tornou hegemônico. O momento de auge coincidiu
com as administrações de Bill Clinton
(1993-2001), que passa a apregoar
uma política externa de promoção da
democracia e do livre-mercado. Coerentemente, anuncia nova divisão do
mundo em quatro categorias de países,
ainda vigente: o “Núcleo Democrático”,
correspondente aos Estados do capitalismo avançado, combinação “virtuosa” de liberdade política e econômica,
ponto de chegada da civilização; os
“Estados em transição”, em processo
de adesão à ordem liberal; os “Estados
fora-da-lei”, patrocinadores da desestabilização e do terrorismo, e os “Estados falidos”, em que a ausência de
governabilidade os torna santuários de
atores ilícitos.
Como parte do estímulo à
ampliação dos “Estados em transição”,
Clinton institui nas Américas uma diplomacia de Cúpulas Presidenciais. Na
primeira, realizada em 1994 em Miami,
o mandatário estadunidense delimita
os contornos políticos e econômicos
da iniciativa: Cuba está excluída sob o
argumento de que seu sistema político
não é democrático, será criada uma
Área de Livre-Comércio das Américas
(ALCA). Aprovação unânime que se
mantém na segunda cúpula em Santiago do Chile, em 1998. Na Cúpula de
Quebec de 2001, já na gestão George
W. Bush, houve apenas uma voz dissonante, o presidente venezuelano
Hugo Chávez, que durante os dias do
Acima: Augusto Pinochet,
ex-presidente do Chile;
abaixo: Hugo Chávez
ex-presidente da Venezuela
Acima: atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama;
abaixo: ex-presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush
Fotos: divulgação
Em 1989, parecia que o mundo finalmente transitava pelos trilhos
de uma das utopias evolucionistas do
século XIX, conduzido por quem estrearia em breve o título de única superpotência, Estados Unidos. Coube a
um ideólogo do establishment cunhar
a famosa frase: trata-se do “fim da
história”, em que a derrota da União
Soviética estaria encerrando as disputas sistémicas até então enfrentadas pelo “capitalismo democrático e
liberal”. Em termos de impacto, depois
do leste europeu, em que a transformação atingiu existencialmente o que
era conhecido como Socialismo Real,
foi na América Latina que a prédica de
“ausência de alternativas” adquiriu status dominante nas políticas de Estado.
Os evolucionistas receiam
de pontos fora da curva, o que não
se aplica aos Estados Unidos, cujos
presidentes se orgulham em enaltecer o excepcionalismo do país. Por
convencimento ou falta de opção, os
governantes eleitos das nossas nascentes democracias foram aderindo
paulatinamente à aplicação de políticas
que, desde o final do século XVIII, se
creditavam como responsáveis pela
excepcional trajetória do vizinho do
norte. O nome do receituário era autoexplicativo: Consenso de Washington.
Nas recomendações sobre
como liberalizar a economia, dois
exemplos regionais eram cita importante, o Chile de Pinochet e a Bolívia de
Paz Estenssoro pós-1985, precursores
da desregulamentação do mercado interno, privatização de empresas públicas e abertura externa. Para impulsionar o processo, o presidente George H.
W. Bush lançou o Plano Brady, ao qual
aderiram as três maiores economias
da região, com graves dificuldades
para cumprir com os compromissos
das suas dívidas e qualificar-se para
renegociá-las e aceder novamente ao
crédito internacional. O México foi o
primeiro, seguido pela Argentina e finalmente o Brasil. A América Latina
adotava aquela utopia evolucionista que
sempre “teimou” em evitar, insistindo em
“populismos” distributivistas que, finalmente, pareciam tornar-se pesadelo
do passado.
A dificuldade dessa leitura é
que transmite a ideia de que entre 1950
11
Evo Morales, presidente da Bolívia
No caso já mencionado de
Hugo Chávez, eleito pela primeira vez
em 1998, exerce o poder em sucessivas reeleições até o seu falecimento
em março de 2013, instituindo um
processo de mudanças que combina
políticas sociais redistributivas no
plano interno e um protagonismo
regional de oposição à arquitetura
hemisférica proposta por Estados
Unidos, materializado na criação da
Aliança Bolivariana para as Américas
(ALBA) em 2004. No Brasil, Luiz
Inácio Lula da Silva, do Partido dos
Trabalhadores, assume a presidência
12
em 2003, reeleito em 2006 e sucedido em 2011 pela sua ex-ministra
Dilma Rousseff, dando forte impulso à
agenda interna de combate à pobreza
e no âmbito externo à promoção de
mecanismos regionais de articulação.
O país atua decisivamente na criação
da União Sul-americana de Nações
(Unasul) em 2008 e da Comunidade
dos Estados Latino-americanos e
Caribenhos (Celac) em 2010, iniciativas que estabelecem equidistância
com relação aos Estados Unidos. Na
Argentina, as presidências de Néstor
Estados Unidos de inclusão da ALCA
nas discussões, o que na prática paralisou, desde aquele momento, a iniciativa
lançada por Clinton.
Um mês após a Cúpula, Evo
Morales, do Movimento ao Socialismo
e liderança dos camponeses indígenas
plantadores de coca, torna-se presidente da Bolívia, sendo reeleito em
2009. No Equador, Rafael Correa derrota
em 2006 o candidato conservador Álvaro Noboa e em 2013 é reeleito para
um novo mandato, interrompendo
a trajetória de sucessivas crises que
tema extraoficial inevitável imposto a
Barack Obama, ao ponto do presidente
colombiano Juan Manuel Santos, anfitrião da última reunião, solicitar que
esse fosse o último encontro sem a
participação da Ilha.
Como mencionamos anteriormente, os evolucionismos receiam do
imponderável. Para os saudosos dos
consensos dos anos 1990, o que vem
acontecendo na região há mais de uma
década seria um acidente de percurso
na contramão da história. Novamente,
a ideologia busca solapar a realidade.
O porquê do retorno ao topo da agenda
das políticas sociais distributivas e da
construção de autonomia decisória nas
relações exteriores resiste perspectivas obtusas do estilo “recaída populista tipicamente latino-americana”.
Após breves anos de euforia,
os dogmas sobre a virtuosa desregulamentação dos mercados se chocaram
com uma realidade internacional altamente desafiadora: o “efeito tequila”
a partir de dezembro de 1994, em
que a desvalorização abrupta do peso
mexicano leva Clinton a liberar em-
Rafael Correa, presidente do Equador
Kirchner, que assume em 2003, e Cristina Kirchner, eleita em 2007 e reeleita
em 2011, promovem a recuperação do
país após a crise de 2001 que interrompeu o governo de Fernando De La
Rua, adotando uma política externa
de maior aproximação ao entorno latino-americano, revendo o alinhamento automático com Estados Unidos que
prevaleceu nos anos 1990.
O novo cenário político da
América do Sul se expressa na Cúpula das Américas de Mar del Plata em
2005, quando Argentina, Brasil e Venezuela lideram o bloqueio à proposta dos
tornaram inconclusas as presidências
anteriores de Abdalá Bucaram, Jamil
Mahuad e Lucio Gutiérrez. Durante as
administrações de Morales e Correa,
novas constituições institucionalizam
formas de sociabilidade originárias do
mundo andino pré-colombiano, e tanto
Bolívia como Equador se tornam membros da ALBA.
Nas Cúpulas de Trinidad y Tobago em 2009 e Cartagena em 2012,
já sem a ALCA no horizonte, o outro
componente que destacamos das convocatórias presidenciais iniciadas por
Clinton, a exclusão de Cuba, torna-se
préstimo de 50 bilhões de dólares para
conter a sangria de reservas do país;
a crise financeira asiática deflagrada
no verão de 1997, atingindo Tailândia,
Malásia, Indonésia, Filipinas e Coréia
do Sul, com consequências ampliadas na Rússia, que declara moratória
em agosto de 1998; o “efeito samba”
pela desvalorização do real em janeiro
de 1999, com impacto direto na Argentina, fortemente dependente das
exportações ao Brasil, precipitando a
crise que em janeiro de 2002 leva ao
abandono do regime de câmbio fixo vigente desde 1991. Esse encadeamento
de episódios, além de tornar explícita
a vulnerabilidade das economias latino-americanas, comprometeu sua
capacidade de crescimento, transformando os anos 1990 em uma nova
década perdida, com a consequente
impopularidade dos governos comprometidos com as reformas de mercado,
que terminam incorporando o estigma
do ajuste perpetuo, sem a contrapartida da prosperidade anunciada.
O decênio posterior, marcado pela ascensão à presidência em
vários países de lideranças de esquerda - ainda que de origens e posições
diversas -, passa a ser reconhecido
como década ganha da América Latina.
Sob a chancela do crescimento, da diminuição da pobreza, da desigualdade
e da projeção no cenário internacional,
a região se revela menos vulnerável
que os Estados Unidos e a União Europeia aos impactos da crise financeira
deflagrada em 2008, considerada a
mais grave desde 1929.
Certamente, a realidade presente ainda está longe de “um outro
mundo possível”. Assim como no passado, novos atores, com novas demandas, ideias e projetos, desafiam saberes
convencionais e constroem histórias
sem fim. Não é outra a mensagem aos
atuais governantes dos movimentos
sociais que se espalharam pelo Brasil
em junho de 2013: o tempo não para
(e a fila anda).
Fotos: divulgação
encontro questionou em entrevistas a
meios de comunicação a exclusão de
Cuba, e na assinatura da declaração
final fez constar objeções à Cláusula
Democrática aprovada na reunião e
aos prazos estabelecidos para o processo de implementação da ALCA.
O que naquele momento se
apresentava como ruído isolado que
não compromete o conjunto da obra,
transforma-se em pouco tempo em
discurso insistente de um crescente
número de países, principalmente na
América do Sul.
Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia
Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais
(IEEI-Unesp).
13
XII JOGOS
DOS POVOS INDÍGENAS
por Tânia Rabello (colaborou Mylene Lyra)
14
Foto: Marcos Vergueiro
Cuiabá reuniu 1600 índios de 46 etnias no
A Corrida com Tora,
prova disputada pelos
Krahô, Xerente e Apinajé, está associada
a ritos. Dois grupos
rivais se revezam para
carregar os troncos
da palmeira Buriti,
através de um
mesmo percurso
“Ambrósio Kaiwá era meu
amigo... a última vez que falei com
ele, estava feliz por participar de um
filme que contava a história da luta de
seu povo. Era um dos protagonistas...
acho que o filme se chamava Terra
Vermelha. Agora ele tombou dentro de
sua casa e passa a ser mais uma vítima
da violência anti-índio que assola Mato
Grosso do Sul.”
Assim ficou registrada, na
página do Facebook do índio Marcos
Terena, um dos pioneiros do movimento
indígena do Brasil, mais uma morte de
um índio por causa da disputa por terras no Brasil. Ambrósio Vilhalva foi assassinado, com punhaladas, no dia 1º
de dezembro de 2013, em sua aldeia
Guyra Roká, em Mato Grosso do Sul,
e era conhecido por sua luta contra a
invasão das terras dos guaranis por lavouras do agronegócio, principalmente
a cana-de-açúcar. “Os assassinatos
de líderes indígenas correm o risco
de se tornar normais diante da omissão do Estado, fortalecendo as ações
anti-índio nas regiões de conflitos por
demarcação das terras”, declarou, à
Nossa América Hoy, Marcos Terena.
Comandados pela Confederação
da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA),
presidida pela senadora Kátia Abreu
(PMDB-TO) – que também integra a
bancada ruralista, a mais poderosa
do Congresso Nacional –, no Brasil
atualmente são os grandes produtores
rurais e o agronegócio que se têm
revelado a principal ameaça à integridade dos povos originais do Brasil.
Com declarações contra a demarcação
de terras, Kátia Abreu constantemente
incentiva os produtores a contestar
a posse ancestral de áreas. A CNA já
definiu, inclusive, entre seus desafios
para 2014, “solucionar os conflitos envolvendo terras indígenas”. O governo federal, por sua
vez, refém do poder econômico do
agronegócio, responsável por 25% do
PIB do País, e de uma aguerrida bancada ruralista no Congresso Nacional
– que aprovou, contra a orientação
governamental, no dia 10 de dezembro, a instalação de uma comissão que
propõe que a demarcação de reservas
indígenas passe a ser atribuição do
Congresso Nacional, e não mais da
Fundação Nacional do Índio, a Funai –,
mantém-se “omisso”, como qualifica
Marcos Terena.
Percorrendo a América Latina
tem-se a impressão de que o problema
dos indígenas só muda de endereço,
pois a luta entre o capital e os povos
autóctones é uma constante “há séculos”, destaca Marcos Terena. No Chile,
por exemplo, uma das principais disputas não é pela terra, mas pelo mar.
Ali, os indígenas resistem à indústria
do salmão, que pressiona pela transferência dos atuais criatórios – infestados por doenças devido à alta concentração de peixes em pouco espaço
e contaminantes das águas marinhas
– para o preservado litoral sul chileno,
onde vivem, além de indígenas, pequenas comunidades de pescadores.
É Juan Antonio Correa
Cancin, um índio mapuche morador de
Temuco, no sul do Chile, quem relata
a gravidade do problema: “O governo
protege a indústria do salmão”, diz.
“No ano passado, por exemplo, dois
indígenas foram assassinados por
policiais e a Corte defendeu a ação violenta da polícia, transformando os índios culpados pela agressão.” Cancin,
assim como índios de 48 etnias de
várias nacionalidades das Américas do
Sul, Central e do Norte estiveram no
Brasil, em Cuiabá, em novembro, para
os 12º Jogos Indígenas. De lá, ele falou
à Nossa América Hoy.
Observando-se os números
15
da indústria do salmão e o que ela
significa em termos de divisas para o
Chile, percebe-se por que ocorre tal
proteção, em detrimento dos povos
indígenas, à semelhança do que acontece no Brasil em relação ao poderio
econômico do agronegócio. Em 2012,
as exportações de salmão chileno alcançaram US$ 2,9 bilhões, com 488
mil toneladas exportadas – 15% delas
para o Brasil, o terceiro maior comprador, atrás do Japão e dos Estados Unidos. Para os indígenas, segundo a socióloga argentina Norma Giarraca, da
Universidade de Buenos Aires (UBA),
só resta mesmo a legislação para defender-se deste poderio econômico.
Mas as leis nem sempre funcionam. Embora os direitos indígenas
estejam, efetivamente, garantidos
pela legislação em vários países
latino-americanos, como confirma
o líder Marcos Terena, que foi um dos
organizadores do evento em Cuiabá,
“quando se trata de aplicar essas normas o sistema estatal encontra dificuldades, já que a força, a base política
e os próprios interesses econômicos
se tornam moedas mais fortes nessa
relação, na qual o índio passa a ser
um obstáculo para ações de interesse
16
Foto: Mylene Lyra
Foto: Mylene Lyra
Marcos Terena, líder da tribo Terena
Quéchua Mario Santi, do Equador
econômico”, diz o líder brasileiro, lembrando que Brasil, Colômbia, Equador
e Bolívia – que conta, inclusive, com
um presidente indígena, Evo Morales, da etnia uru-aimará – possuem as regras mais avançadas
de proteção ao direito indígena.
Na Argentina, as questões
também não diferem muito das acima
relatadas. Ali, a situação se agrava por
causa da política neoliberal imposta
pelo governo da presidente Cristina
Kirchner, disfarçada de “desenvolvimento produtivo”, conforme destaca
Norma Giarraca, em artigo sobre o
tema. “Atividades extrativas como o
agronegócio e a mineração, ou especulativas, como o negócio imobiliário,
ameaçam bosques, montanhas, glaciares e os direitos das populações”,
escreveu a socióloga. Carlos Ocampo,
cujo povo é originário da província de
Tucuman, no noroeste da Argentina,
relata, também em Cuiabá (MT), que
a principal questão da região é a disputa pelo território, no caso, entre indígenas e mineradoras de ouro e prata,
além do agronegócio. “Estamos na luta
constante para defender nosso território”, diz
ele, comentando que o governo apoia,
efetivamente, os mineradores. “Re-
centemente houve uma morte de um
indígena, Javier Chocobar, por causa
de disputas territoriais”, lamenta Carlos Ocampo, lembrando ainda que até o
momento não se fez justiça em relação
ao crime. “Além disso, as populações
indígenas na Argentina (são cerca de
20 etnias) estão muito dispersas, o que
dificulta uma união maior”, conclui.
No Equador, o primeiro país
a reconhecer, em sua Constituição
de 2008 os inalienáveis direitos da
natureza, a principal contenda das
populações autóctones tem sido com
a indústria petrolífera, e, também, com
a má vontade do presidente, Rafael
Correa, em respeitar o artigo 71 da Constituição, atraído pelos bilhões de dólares
que reservas de petróleo no meio de
parques nacionais podem render.
Em agosto, por exemplo,
Correa anunciou que o Equador iria
perfurar e extrair petróleo na floresta
amazônica, nos campos ITT (Ishpingo, Tambococha, Tiputini), dentro do
Parque Nacional Yasuni. Para desistir da exploração, Correa havia conclamado a comunidade internacional a
fornecer US$ 3,6 bilhões ao longo de
12 anos – equivalente à metade do
que o país ganharia com a retirada
Matis Cara de Onça, índios da Amazônia
do petróleo nesse período – em troca
da preservação da floresta, da garantia
dos direitos dos povos indígenas locais e da biodiversidade. O presidente
equatoriano conseguiu “apenas” alguns milhões de dólares, insuficientes
para barrar a exploração.
O quéchua Mario Santi, participante dos Jogos Indígenas e que
vive na porção da Amazônia Equatorial,
rica em biodiversidade e florestas, se
orgulha da constituição do Equador,
mas garante que, muito além do artigo 71 e da política incerta de Correa
em relação aos povos autóctones, as
populações indígenas equatorianas
têm procurado se organizar por conta
própria. “Estamos tentando desenvolver
nossa própria administração territorial e também um autogoverno, além
de estabelecermos nosso próprio sistema de desenvolvimento”, diz Mario
Santi, acrescentando que a população
indígena tem pleiteado que se façam
consultas prévias aos indígenas, seja
por parte do governo ou dos grupos interessados na exploração de madeira,
petróleo e da biodiversidade. “Nossa
proposta é defender a selva”, diz Mario
Santi, lembrando que, na ONU, o governo do Equador declara sempre que apoia
os povos indígenas para obter verbas
internacionais. “Temos, portanto, de
fazer valer nossos direitos.”
Como no Equador, em várias
partes da América Latina, há, efetivamente, movimentos de resgate dos
direitos indígenas, por iniciativa dos
próprios. Em outubro de 2013, várias
comunidades sul-americanas se reuniram
no estado venezuelano de Bolívar para
o lançamento do Mercosul Indígena,
cujo objetivo, segundo anunciou na
ocasião a ministra dos Povos Indígenas, Aloha Nuñez, é “a criação de um
órgão especializado para o tratamento
das questões comuns a esses povos
dentro do bloco, além de reivindicar a identidade cultural originária da
região e desenvolver foros para debater o tema da restituição de todo o
patrimônio indígena confiscado”.
Para Marcos Terena, a formação do Mercosul Indígena no
Cone Sul, que reunirá países indígenas como Bolívia, Argentina, Uruguai,
Chile, Paraguai e Brasil, instalados, em
sua maior parte, em regiões que não
fazem parte dos grandes blocos da
geopolítica, como Amazônia e Andes,
pode prestar uma grande contribuição.
“Justamente por estarem, em grande
parte, fora desses blocos mais visíveis,
são as que mais têm sofrido as consequências e as discriminações de um
desenvolvimento pobre e sem nenhum
compromisso com um futuro melhor”,
pontua Marcos Terena, acrescentando
que “é preciso um movimento indígena
independente, autônomo e capaz de
enfrentar as ameaças de forma digna e
com conhecimento de causa”.
O caminho apontado já vem
sendo seguido em ações pontuais.
Além dos Jogos Indígenas que já
ocorreram em 2013 em Cuiabá, em
2014, mais dois grandes eventos estão programados: a Conferência Mundial dos Povos Indígenas da ONU, em
setembro, em Nova York, e os Jogos
Mundiais dos Povos Indígenas, em
julho de 2014, em município ainda a
ser definido, consolidando ainda mais
a importância das nações autóctones
para a evolução da humanidade e – por
que não dizer? - a preservação da biodiversidade humana neste planeta.
Tânia Rabello é jornalista e também colabora
com a revista Brasileiros.
17
Índio também quer
Tecnologia
Livro de Eliete S. Pereira
Site da aldeia Kamayura
Fotos: divulgação
Site da aldeia Tekoa Mboy-ty
Gemerson, 14 anos, Tupinambá, internauta há algum tempo
Espaço digital, inaugurado em 2012 pela Oca Digital
por Beatriz Marmol
O acesso à internet transpôs
fronteiras e chegou para os povos
indígenas, que por sua vez, sempre
foram considerados e tratados como
excluídos. Por meio de programas
de inclusão vindos do governo, de
fundações e ONGs, foram disponibilizados computadores para algumas
aldeias, em meados de 2000. Mas era
preciso treinamento, pois se tratava de
uma ferramenta nova e com um mundo
dentro dela. Muitos equipamentos foram
abandonados na ocasião, justamente
pela carência de capacitação, conexões
lentas e falta de assistência técnica.
Apesar de ser ainda um
18
pequeno passo comparado ao longo
caminho à frente no qual a população
urbana (os brancos) já se encontra,
alguns índios que tiveram acesso à internet, começaram a desenvolver meios de gerar intercâmbio com outras
tribos, através de sites e blogs, com
suas mobilizações e a ter mais acesso
às informações, direitos e educação.
À medida que o mundo digital chega às aldeias, cresce a preocupação dos líderes mais antigos, de que
é preciso saber usar e ter objetivos
definidos para seu uso. A princípio, o
maior interesse desses líderes, quanto
a utilização da internet, é fortalecer a
organização social e atualizar as políticas indígenas, em relação à sua gestão
e ampliação político-social.
Atualmente, é possível realizar
muitas pesquisas deste universo, tanto
sob o ponto de vista de estudiosos do
tema, como dos próprios índios em
seus blogs e portais. Um dos estudos
feitos pela pesquisadora Eliete da Silva
Pereira aborda o tema em seu mestrado intitulado ciborgues indígenas.br: a
presença nativa no ciberespaço, onde
mapeou os sites indígenas e avaliou
o significado dessa interação entre os
índios e o ciberespaço. Eliete coletou
testemunhos de alguns índios que já
faziam uso da internet, como o líder
Marcos Terena: “os povos indígenas
devem se apropriar das tecnologias,
para proteger e disseminar os seus
conhecimentos tradicionais” e ainda
da militante Yakui Tapinambá, que
a v a l i o u a importância desta ferramenta, dizendo que “não significa a
perda da cultura do povo indígena e
sim fortalecimento”.
Diferentes tribos de todo o
Brasil comunicam-se entre si e com a
sociedade em geral, através do site indiosonline.net, que surgiu no Nordeste
com a iniciativa dos próprios índios e
funciona como um portal de diálogo,
encontro e troca.
Parece estranho afirmar
que através de uma ferramenta tão
moderna possam resgatar, preservar
e atualizar sua cultura e história, mas tem
sido justamente por esse meio, que vem
sendo cada vez mais disseminados
seus costumes e tradições. A internet
tornou-se um canal focado no futuro,
mas com um incrível poder de registrar
o passado, sem deixar que ele perca
sua relevância.
A perspectiva é d e q u e a
p o p u l a ção indígena tenha acesso
ao que acontece no país e no mundo e que também seja agente for-
mador de opinião e informação
através do mesmo canal.
O uso da internet pode colaborar para preservar sua história e
promover o respeito pela diferença,
pois a imagem romantizada de um
índio intocável e afastado de qualquer
progresso, não condiz com a evolução
natural que toda e qualquer nação tem
o direito de usufruir com livre arbítrio e
eleger o que se faz necessário ou não,
para sua existência.
Beatriz Marmol é arquiteta e pesquisadora de
blogs e sites.
19
MEMORIAL
anos
por Daniel Pereira
O Memorial da América Latina celebra 25 anos
de vida consciente de que
fincou raízes no conceito da
população como instituição
cultural pluralista e vem desempenhando papel relevante
na missão de encurtar a distância entre os povos irmãos
de língua espanhola e dos
países lusófonos.
20
Gestado nos ideais
dos libertadores da América,
o Memorial precisou superar
o estigma de ter nascido sob
o signo da desconfiança e de
intrigas políticas e midiáticas
nada edificantes para o processo de redemocratização
que o país começava a experimentar no final dos
anos 1980.
Este recorte histórico
é um dos temas da primeira
edição de 2014 da revista
Nossa América Hoy, um convite à reflexão sobre as lições
que o passado deixa como
contribuição para o futuro do
Memorial em seu aniversário
de 25 anos no próximo dia 18
de março.
Um marinheiro de primeira
viagem no Memorial da América Latina
talvez não se dê conta, de imediato, do
valor histórico e de quanta simbologia
há impregnada nos acervos do monumental complexo arquitetônico e cultural que no dia 18 de março de 1989
mudou visceralmente a paisagem urbana da Barra Funda, na zona oeste da
capital paulista.
A data será celebrada com
pompa e circunstância, como a ocasião
merece. Mas, coerente com a nova
filosofia de gestão, e considerando
que os tempos andam bicudos, será
uma festa de viés mais popular, com
atrações de qualidade e à altura do
que os paulistanos e nuestros hermanos esperam.
Uma breve digressão para
lembrar quem somos a nós mesmos,
como sugere Eduardo Galeano quando
narra a saga dos desbravadores que
libertaram a América do jugo espanhol
(1). E também para não deixar no limbo
a luta daqueles que, mais tarde, empunharam a bandeira da integração
latino-americana, hoje hasteada em
84 mil metros quadrados no antigo
bairro de operários e imigrantes
onde, 100 anos antes, nasceu o
samba paulistano. (2)
De lá para cá a trajetória desse
gigante de “arquitetura especulando no
concreto”, como Niemeyer gostava de
dizer, baloiçou várias vezes em águas
turbulentas, mas nunca se desviou do
norte indicado por Darcy Ribeiro, autor
do projeto que daria o conteúdo cultural
e político para alavancar, na figura do
Memorial, o processo de integração
latino-americana.
O que os seus críticos se
perguntam, ainda hoje, é: por que
raios uma obra de tal grandiosidade
justamente no Brasil, o menos latinoamericano dos países dessa banda do
planeta e, mais ainda, em um nicho
urbanístico degradado da zona oeste
de uma cidade tão cosmopolita quanto
São Paulo? Foi esse o tom dos petardos desferidos pela Imprensa de São
Paulo, onde Folha e Estadão disputavam renhidamente a audiência de
um ano eleitoral que prometia ser
dos mais disputados.
Curiosamente, a imprensa
carioca não foi tão intolerante quanto
os dois jornalões paulistas. O Jornal
do Brasil, considerado o melhor do
país por muitos anos, em manchete
estampada na capa da edição daquele
sábado, 18 de março de 1989, nomeou
o Memorial como “O Megacentro cultural de SP. E não foi ironia. No dia
seguinte, deu um verniz carioca ao
editorial “Memorial, obra de engenharia política”, misto de resenha social e
política, do qual vale a pena pinçar um
trechinho pelo seu contexto histórico:
“Todas as tendências ideológicas estiveram representadas...com este
ecumenismo, o palanque armado
para a cerimônia esteve animado. A
começar pelo discurso de Niemeyer,
que encerrou sua fala citando o ‘velho
Marx’ – ele que era o único a ter tamanha
intimidade com o autor de O Capital.
(...) Cruzando com os jornalistas, Ulisses
(Guimarães) brincou: Eu estou treinando
para fazer campanha no Nordeste”.
Já o então vetusto Estadão
(histórico adversário do político Orestes
Quércia), ignorou a cobertura factual
da inauguração. Deu destaque à pauta política: era ano de eleições e 11
governadores do PMDB vieram a São
Paulo prestigiar a festa do Memorial.
Na terça-feira, 21(o jornal não circulava na segunda), porém, dedicou seu
principal editorial a defenestrar a obra:
um “atentado ao idioma em nome da
integração com os povos vizinhos que
custou a bagatela de 44 milhões de
dólares norte-americanos”. Quando
o Memorial fez 18 anos, em 2007, o
jornal requentou as críticas (Grandioso, caro e ainda controverso”)
mas, paradoxalmente, abre o texto com
uma declaração capitular do arquiteto
catalão Josep Maria Botey y Gomez : “O
Memorial da América Latina criou uma
memória visual para um lugar que não
tinha paisagem”.
A Folha também foi figadal,
mas, pragmática e cautelosa, esbofeteou com a mão direita e afagou com a
esquerda em editorial que pontuava o
contraste entre a majestade do projeto
e a “miséria do país e o imenso número de problemas sociais irresolvíveis”.
Logo à frente, amenizou: “Por certo,
não depende da decisão de construir
ou não o Memorial o fim dos problemas sociais em São Paulo...uma vez
concluída a obra, um sentimento de
(1)
A bem da coerência histórica é
preciso admitir que o Brasil continua
sendo o patinho feio da América Latina. Ainda recentemente um livro de
geografia publicado nos Estados Unidos
registrava Buenos Aires como capital
do país. Numa sociedade consumista
como a norte-americana, isso certamente contribuiu para manter aceso o
equívoco geográfico, embora não seja
mais relevante nos dias. A questão da
latino-americanidade do Brasil - e o
próprio conceito de América Latina foi abordada por vários historiadores,
um dos mais recentes o inglês Leslie
Bethell. Segundo ele, foi só a partir da
segunda metade do século 20 que os
Estados Unidos e o resto do mundo
começaram a pensar o Brasil como
parte integrante de uma região chamada Latin America. Nesse período surgiram os primeiros brasilianistas, como
Ralph Della Cava, que apresentou o
padre Cícero ao mundo e foi expulso
do Brasil quando se manifestou contra
a ditadura. Depois,Thomas Skidmore,
professor de História da América Latina em Wisconsin, que publicou “De
Getúlio a Castelo”.
(2) O Brasil vivia a travessia para a
democracia – cantada duas décadas
antes por Milton Nascimento. No ano
seguinte, tomaria posse o primeiro
presidente eleito pós-brava, depois
apeado pela mobilização dos caras
pintadas. Foi nesse clima que nasceu
o Memorial.
“A integração da
América Latina
não será obra
dos governos,
mas de toda a
sociedade”
André Franco Montoro
21
pois que o cenário de terra arrasada
deixado pelos regimes militares inviabilizou a consecução imediata dos
objetivos alinhavados na criação de
entidades como a Aladi (Associação
Latino-Americana de Integração), que
surgiu em 1980 como sucessora da
Alalc (Associação Latino-Americana de
Livre Comércio).
Essas experiências seriam
o embrião do Mercosul e o combustível a mover os que sonhavam com
a criação de um locus como ponto de
convergência da produção artística,
cultural e acadêmica do continente,
passo fundamental para promover a
integração entre os povos da incipiente
América Latina.
Na proa dessa caravela estava
Franco Montoro, que quando governador (1983-1987) criou o ILAM (Instituto Latino-Americano), com o objetivo
de fomentar o intercâmbio cultural entre os países da região. O ILAM surgiu
com um acervo de 10 mil títulos, entre
livros, vídeos e fotografias relacionados à cultura da AL. Montoro tinha tanta convicção de que seu discurso um
dia se transformaria em realidade que
prometeu transferir aquele acervo para
a futura biblioteca do Memorial – o que
de fato aconteceu.
“Político audaz, pragmático,
mas sem o charme intelectual de seu
antecessor”, na definição do historiador
Shozo Motoyama, o vice-governador
Orestes Quércia prestou atenção em tudo
o que Montoro pregava e, quis a História
que fosse ele, no mandato seguinte, o
político que tiraria o Memorial do papel.
Com as obras em andamento, Montoro
deu a pincelada decisiva que definiria
a missão do Memorial, ao fazer inserir
o seguinte artigo na Constituição de
1988: “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica,
política, social e cultural dos povos da
América Latina, visando à formação
de uma comunidade latino-americana
de nações”.
Fotos: acervo Memorial da América Latina
admiração predomina, irrefreável...”.
Mais adiante, elogia, morde e assopra: “Uma obra de arte inquestionável,
construída num ato de escárnio às
carências da sociedade brasileira : o
paradoxo, hoje clamoroso, talvez se
desfaça com o tempo”.
Puro Proust, pois o tempo se
encarregou de mostrar que o Memorial é uma realidade que transcende a
picuinhas políticas ou de etimologia.
Basta ver a história. A razão e o porquê
do seu nascimento remontam à saga
dos heróis da independência dos países
latino-americanos - Simón Bolivar, San
Martin e José Marti -, passa pelas páginas infelizes das ditaduras militares e
chega ao período de redemocratização,
que veio embalada pelo ônus da instabilidade econômica causada por décadas de convulsões sociais.
O processo de redemocratização iniciado com o fim das ditaduras
seria o momento propício para impulsionar o projeto. Demorou um pouco,
A fotógrafa Maureen Bisiliat e o antropólogo Darcy Ribeiro
Ex-presidente de Cuba Fidel Castro e ex-governador Orestes Quércia
“O Memorial é um ato por meio do qual todos nós nos assumimos como
latino-americanos”. (Darcy Ribeiro, mentor intelectual do Memorial)
O fator Darcy
Nessa cruzada, enquanto
Montoro agia nos bastidores da política, o etnólogo, antropólogo, educador
e ensaísta Darcy Ribeiro fazia o discurso da persuasão como autêntico
peregrino da causa latino-americana.
Não hesitava em usar recursos irônicos
para despertar corações e mentes. “A
América Latina existe?”. Foi assim,
provocativo, que abriu o debate em A
América Latina: A Pátria Grande, título
do ensaio que lançou no México em
1976. “Ainda hoje – cutucou Darcy nós, latino-americanos, vivemos como
se fôssemos um arquipélago de ilhas
que se comunicam por mar e pelo ar
e que, com mais frequência, voltam-se
para fora, para os grandes centros econômicos mundiais, do que
para dentro”.
Qual Dom Quixote moderno,
Darcy Ribeiro incorporou os traços
da personalidade de Simón Bolívar e
José Marti e empunhou de forma inconfundível o estandarte dos ideais de
22
uma nação latino-americana mais “humana, generosa e aberta à convivência
com todas as raças e culturas”. Não foi
por acaso, portanto, que veio a se tornar mentor intelectual, incumbido de
pensar as grandes linhas de atuação
do Memorial.
Ele mesmo fez questão de
liderar uma visita de personalidades
e jornalistas ao canteiro de obras do
complexo arquitetônico, em fins de
1988, para anunciar as linhas de atuação do Memorial. “Já ali, dava uma
definição que era uma resposta a
quaisquer dúvidas sobre a condição de
São Paulo como protagonista de uma
missão integradora dessa natureza”,
escreveria em artigo no jornal Folha
de S.Paulo o ex-presidente Fernando
Leça (2005-2012) na celebração dos 20
anos do Memorial.
O efeito Quércia
Eleito governador, Orestes
Quércia ainda não havia tomado posse
quando foi ao México e lá conheceu o
Museu da Independência, onde estão
as estátuas dos Libertadores da América. Ficou ofendido por não ter visto
no mesmo panteão qualquer referência
a José Bonifácio, patriarca da Independência do Brasil. O episódio foi narrado por
Almino Affonso, presidente do Conselho
Curador da Fundação Memorial da
América Latina, na edição especial em
homenagem a Oscar Niemeyer publicada em dezembro de 2012.
Segundo Almino, à época
vice-governador eleito, Quércia o
chamou para um almoço, contou sua
decepção com o que viu no México
e assumiu o compromisso de levar
adiante o sonho de Montoro e homenagear todos os que lutaram pela independência dos países latino-americanos,
incluindo José Bonifácio. “Já trazia amadurecida a intenção de convidar Oscar
Niemeyer para assumir o projeto”,
que seria iniciado ainda no final de
1987, primeiro ano do governo Quércia. Hoje, José Bonifácio tem busto de
bronze na Biblioteca Latino-Americana
23
Adolfo Bioy Casares
Fernando Birri
Fernando Leça e o Papa Bento XVI
Com a benção do Papa
Vista da Praça do Memorial com a
instalação de Magdalena Fernández
24
“A América Latina será a
grande potência sonhada por ele (Bolívar) quando cada um de nós souber
respeitar as diferenças com o outro”.
Recém-chegado ao cenário geopolítico
da América Latina em 2010, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, escolheu o Brasil para sua primeira
visita internacional e veio ao Memorial
no início de setembro daquele ano. A
declaração, diante do busto bolivariano, explicava o gesto de dias antes,
quando hasteou bandeira branca para
seus vizinhos da Venezuela e Equador.
O presidente colombiano foi um dos
tantos chefes de Estado que visitaram o
Memorial nesses 25 anos. Especialmente
quando o Parlamento Latino-Americano
fazia parte do Memorial, por aqui estiveram
Bill Clinton (EUA), Fidel Castro (Cuba),
Hugo Chavez (Venezuela), Mickhail
Gorbachev (União Soviética), César
Gaviria (Colômbia), Mário Soares (Portugal), Eduardo Duhalde (Argentina),
Carlos Mesa (Bolívia), Valentín Paníagua (Peru), Rodrigo Carazo (Costa Rica),
Ernesto Peres-Balladares (Panamá) e,
mais tarde, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Roussef.
Essa galeria de celebridades
teve seu ponto alto em 2007, na visita
do Papa Bento XVI. O Memorial seria
apenas o ponto de troca do carro que
trazia o chefe da Igreja Católica do
Mosteiro São Bento, pelo papamóvel
panorâmico que o levaria para o Estádio do Pacaembu, onde se encontraria
com a Juventude Católica.
O forte esquema de segurança organizado pelo Exército e policias
de SP era tão rígido que nem mesmo
o presidente do Memorial à época,
Fernando Leça, estava autorizado a entrar na Praça Cívica, onde o papa faria
a troca. Foi quando o “acaso divino”
entrou em cena: a fotógrafa oficial da
comitiva papal no Mosteiro São Bento
era, nada mais, nada menos, do que a
artista plástica Angela Barbour, gerente
da Galeria Marta Traba, no Memorial.
Católica de carteirinha, Angela articulou a homenagem a Bento XVI
– uma placa em frente da biblioteca -,
intermediou com o militar que comandava a operação o acesso do presidente e dois jornalistas, e ainda convenceu
o staff do Vaticano a levar Bento XVI
até a escultura da Mão para uma benção aos países da América Latina.
Artistas, Intelectuais e...
A plêiade de notáveis do meio
artístico que passa pelo Auditório
Simón Bolívar dispensa comentários.
A lista é longa e, só para registro, inclui
nomes como os de Tom Jobim, Chico
Buarque, Milton Nascimento, Toquinho,
Gilberto Gil, Caetano Veloso, Cauby
Peixoto, Simone, Quarteto em Ci, Vânia
Bastos, Fafá de Belém, Mônica Salmaso, Moraes Moreira, Raices de América, Hamilton de Hollanda, Trovadores
25
Fotos: acervo Memorial da América Latina
Nestor Canclini
Victor Civita.
Em 1988 o canteiro de obras
do Memorial lembrava um daqueles
filmes épicos das Ilíadas ou das cruzadas que singravam por mares nunca
dantes navegados. A grandiosidade do
projeto exigia comprometimento e esforço concentrado – sentimentos que
na reta final da construção moviam
os 2.800 trabalhadores que se entregavam freneticamente para cumprir o
cronograma de trabalhos e entregar
a obra no prazo previsto. Uma das
dificuldades que a legião de obreiros
enfrentava era o terreno escolhido
para a construção: um pátio de cargas
da Fepasa (antiga Ferroviária Paulista
S.A.), numa várzea do rio Tietê. Além
disso, aquele era um “projeto de Niemeyer”, portanto, inédito, ousado e
inovador do ponto de vista tecnológico.
Fora do canteiro de obras,
porém, um episódio de grande repercussão no contexto de críticas à iniciativa por pouco não inviabilizaria o
início da construção do Memorial não
fosse a mão firme e a vontade política
de Orestes Quércia. Para evitar que o
início dos trabalhos se atrasassem, o
governador simplesmente descartou
fazer licitação e, numa jogada arriscada
ao limite, agregou o projeto à planilha
de custos das obras do Metrô. Mais
tarde, confessaria que “se fosse fazer
concorrência, como manda o figurino,
não sairia nada”. O formato proposto
por Quércia foi aprovado pelo Tribunal
de Contas do Estado, que deu razão ao
governador por considerar que, aditado ao Metrô, o projeto saiu por um
custo bem menor.
Ex-presidente de Cuba Fidel Castro
Ex-presidente dos Estados Unidos
Bill Clinton
26
Fotos: acervo Memorial da América Latina
Urbanos, Zeca Baleiro, Agnaldo Rayol,
Beto Guedes, Alceu Valença, Dominguinhos, Jair Rodrigues. E artistas
internacionais, como Mercedes Sosa,
Pablo Milanês, Paco de Lucia, Fito Paez,
Libertad Lamarque, Piazzolla, Armando
Manzanero, Balé de Cuba, Orquestra
de Câmara de Florença, Filarmônica de
Israel e maestro Zubin Mehta, Quarteto
Debussy (França), Coral da Fundação
Gulbenkian (Portugal).
Nas artes plásticas e visuais, o Memorial recebe importantes
mostras, a exemplo das retrospectivas
de Johann Moritz Rugendas, Fernando
Botero e Oswaldo Guayasamín, além
de uma exposição dedicada ao escritor e fotógrafo Juan Rulfo. Em 2012,
Guerra e Paz, de Portinari, atraiu ao
Salão de Atos cerca de 250 mil pessoas e contribuiu para que o Memorial registrasse o seu maior público
de todos os tempos, com cerca de 1
milhão e 200 mil visitantes no ano,
segundo dados da Diretoria de Atividades Culturais.
Diretores, atores, atrizes e
dramaturgos da filmografia nacional
e do continente marcam presença nos
festivais latino e ibero-americano de
cinema e de teatro. Aqui estiveram,
entre muitos, Alberto Birri (Argentina),
Miguel Littin (Chile), Paul Leduc (México), Fernando Solanas (Argentina),
Octavio Getino (Espanha), Marcelo
Piñeyro (Argentina), Nelson Pereira
dos Santos, João Batista de Andrade
(atual presidente do Memorial), Phillipe Barcinsky (Brasil), Lima Duarte,
Denise Fraga, Fernanda Montenegro.
Escritores e acadêmicos de
expressão do cenário brasileiro e internacional frequentam seminários, palestras
e fóruns organizados no âmbito da
Cátedra Unesco-Memorial da América
Latina, inaugurada em 2006 em parceria com USP, Unicamp e Unesp e cujo
escopo é debater as questões sociais,
culturais e políticas comuns aos países
da AL. Nesses encontros aqui estiveram,
entre outros: Bioy Casares, Adolfo
Perez Esquivel, Néstor García Canclini,
Stuart Hall, Antonio Callado, Thiago de
Mello, Chico Buarque, Antonio Cândido, Haroldo de Campos, João Ubaldo
Ribeiro, Alberto Dines, Nélida Piñon,
Eduardo Galeano, Nicolau Svenko,
Achille Bonito Oliva.
Zubin Mehta, maestro indiano
Astor Piazzolla, músico argentino
Antonio Cândido, escritor brasileiro
O Ballet Nacional de Cuba
dirigido pela bailarina e
coreógrafa Alicia Alonso
inaugurou o auditório Simon Bolívar em 1989,
onde voltou a apresentarse 17 anos mais tarde
27
Na virada para as comemorações de seu 25º aniversário, a nova
gestão inspirou-se na metáfora de Castro Alves, “a praça é do povo, assim
o céu é do condor” para flexibilizar
a programação do Memorial e deixá-la
com um perfil mais popular. Assim, a
Praça Cívica ganhou parque infantil,
pista de caminhada, equipamentos
para ginástica, vaporizadores contra
o calor, mesas e bancos sob as árvores, barracas de artesanato, de
alimentação, tendas para descanso,
livraria multimídia, brinquedos.
Essas inserções na paisagem
da praça vieram acompanhadas de
uma programação eclética de lazer cultural que tem como base o Circo Paratodos, com capacidade para 350 pessoas, onde, todo fim de semana, são
realizadas performances, espetáculos
de teatro, contação de histórias, cinema,
saraus, lançamento de livros, shows
musicais e atividades de qualidade e
perfil popular..
Não é uma mudança de paradigma, muito menos uma ousadia conflituosa com o projeto arquitetônico de
Niemeyer. Pelo contrário. Quando bancou a aposta de dar um caráter mais
popular ao Memorial, o atual presidente, João Batista de Andrade, não estava
blefando.“Muitas pessoas sequer têm
a curiosidade de entrar no Memorial porque não sabem para que serve
aquele enorme espaço cimentado que
é a Praça Cívica, e o que são os prédios brancos que a rodeiam. Precisamos mudar essa realidade. Acho que
Niemeyer e Darcy Ribeiro ficariam
felizes em ver a praça cheia de gente
do povo.”
Performance
do Circo para Todos
28
O Memorial da América Latina é
uma fundação de direito público, mantida pelo Governo do Estado de São
Paulo. Tem área total de 84.482m² - dos
quais, 20 mil m2 de verde - dividida
pela avenida Auro Soares de Moura
Andrade. Sua localização, ao lado do
Terminal da Barra Funda – que integra
metrô, trens e ônibus - contribui para
que o Memorial seja um dos pontos
mais visitados na capital.
Acessibilidade universal: rampas, banheiros adaptados para cadeirantes e piso tátil em toda a sua área,
além de totens com dispositivos de
leitura em Braile instalados nos portões
de entrada do conjunto.
Mais de 1.200.000 pessoas
passaram pelos diversos eventos realizados no Memorial em 2012, números
que o colocam como a instituição pública mais visitada do país. A exposição
Guerra e Paz, de Portinari, foi a principal atração da temporada, com cerca de
250 mil visitantes.
O traço de Oscar Niemeyer,
autor do projeto arquitetônico, garante
a funcionalidade da estrutura e a adequação de suas instalações para abrigar
eventos de todos os tipos e tamanhos.
A concepção do projeto cultural idealizado por Darcy Ribeiro dá unidade às
ações e atividades desenvolvidas em
cinco edifícios.
A Praça Cívica é o local de
grandes manifestações e eventos populares e pode receber até 40 mil pessoas.
Abriga o Salão de Atos, a Biblioteca Latino-Americana e a Galeria Marta Traba.
No mesmo espaço fica a escultura Mão
da América, autoria de Niemeyer, com 7
metros de altura, símbolo da saga dos
libertadores da América e cartão postal
da cidade.
No outro lado, o Pavilhão da
Criatividade Darcy Ribeiro, o prédio da
Administração e o Auditório Simón Bolívar que também tem dois anexos: Sala
dos Espelhos e Congressistas. O prédio
redondo de vidros negros onde funcionava o Parlamento Latino-Americano
(Parlatino) hoje abriga a Secretaria Estadual da Pessoa com Deficiência.
Acima: Concerto da Orquestra Filarmônica de Israel com regência de Zubin
Mehta; abaixo: festa do Dia das Crianças, em 12 de outubro de 2013
Fotos: acervo Memorial da América Latina
...e povo
Daniel Pereira é jornalista, escritor e assessor de imprensa do Memorial da América Latina.
29
Funda
Barra
Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico - em 1975 e em esfera municipal pelo Conpresp - Conselho Municipal de Preservação do
Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da
Cidade de São Paulo - em 1991. O imóvel
localizado à rua Lopes Chaves, 546, projetado por Oscar Americano no início
da década de 1920, é um sobrado
geminado em estilo eclético, em
alvenaria de tijolos. Atualmente
pertence à Secretaria de Estado da Cultura e desde
1990 funciona como a
Oficina da Palavra,
cuja programação é voltada para o teatro e literatura.
Em 1917 foi inaugurado o
Teatro São Pedro construído pelo português Manuel Fernandes Lopes. Na
época da inauguração o local foi classificado como o mais moderno e luxuoso da cidade de São Paulo. Possuía,
na ocasião, 28 frisas, 28 camarotes,
balcões com mais de 100 assentos,
plateia para 800 cadeiras e uma geral
para 1000 pessoas. Hoje, a capacidade
é de 636 espectadores. O teatro é
situado à esquina das ruas Barra Fun-
A arquitetura atual do bairro com torres
comerciais de vidros e aço escovado
contrasta com os casarões do passado
como o Teatro São Pedro
por Karla Oliveira
Fotos:divulgação
Um passeio pela
história da
Barra Funda,
região que corresponde à antiga
Fazenda Iguape, propriedade de Antônio
da Silva Prado, o Barão
de Iguape, um importante
aristocrata e político no Brasil
Imperial - nos mostra como o
bairro passou por radicais mudanças.
Uma região que foi potencialmente
industrial no passado - tendo grande
destaque neste sentido, o conhecido
Império Matarazzo, o maior complexo
industrial da América Latina, que foi se
enfraquecendo até se extinguir na década de
1980, atualmente, abre espaço para novos ares.
Hoje é um dos bairros da cidade que mais
cresce em termos de valorização. Em muitos aspectos
a Barra Funda vem mudando sua cara, antes, galpões
e fábricas, agora, novos edifícios comerciais e residen30
ciais, além de um forte comércio.
São grandes centros de compras e
serviços como hipermercados, shoppings, hotéis, casas noturnas, bares
e diversas empresas.
A região também conta com
diferenciada infraestrutura de transporte público, com terminais de ônibus, metrô e trens nas imediações.
A cultura e a arte possuem grandes
espaços, lá estão fixados importantes
patrimônios culturais do país. São
construções que se estabeleceram,
marcando época, e que merecem
destaque especial, pontuam, ou pontuaram, física e culturalmente, o bairro,
no contexto da cidade.
O bairro expôs para o país
grandes nomes, como Mário de Andrade, que nasceu e viveu na Barra
Funda, que conserva até hoje sua antiga residência, a Casa Mario de Andrade
que foi tombada em esfera estadual pelo
Condephaat - Conselho de Defesa do
31
da e Albuquerque Lins. No ano 1989 foi
concluída a construção do Memorial
da América Latina, um grande complexo cultural inaugurado sobre o antigo Largo da Banana e projetado pelo
arquiteto Oscar Niemeyer.
Além disso, o bairro é endereço que atrai novos seguimentos
ligados à cultura e arte, isto é notado
por meio da ampla chegada de ateliês e
galerias que se instalaram em antigos
galpões e depósitos pela região. Estes
locais oferecem exposições, cursos e
aquecem o mercado de arte da região.
O Bairro da Barra Funda é atualmente considerado o novo point de
arte da capital paulista. Além de atrair
artistas novos e consagrados, a região
tem chamado atenção de empresários
interessados em investir em cultura
e negócios. Ambos apostam na arte
popular como uma grande tendência.
Um destes espaços é a Baró
Galeria, referência na promoção da arte
latino-americana. Dirigida por Maria
Baró e Adriano Casanova, o local está
instalado em um espaço de 1500 m de
um antigo galpão de estacionamento.
Nos últimos quatro anos, a galeria
tem desempenhado um papel impor32
tante no circuito da arte internacional
ajudando a estabelecer um intenso
diálogo entre artistas, curadores e
instituições culturais.
Outra galeria encontrada no
bairro é a Fortes Vilaça. Inaugurada
em 2001, é hoje, no circuito mundial,
referência do vigor e qualidade da arte
contemporânea. Sob a direção de
Márcia Fortes, Alessandra d’Aloia
e Alexandre Gabriel, apresenta um
programa dinâmico em que artistas
brasileiros e estrangeiros, jovens e
consagrados, realizam exposições ambiciosas. Mostras coletivas organizadas por curadores convidados também
são frequentes no programa. Estas colaborações estendem-se para palestras e
publicações. A Galeria participa das mais
importantes feiras de arte internacionais.
Também localizada na Barra
Funda e com segunda filial na Vila
Madalena, temos a Galeria Transversal,
sobre arte contemporânea, que representa artistas consagrados e talentos
emergentes, da pintura ao grafite,
passando pelo desenho, gravura, escultura, fotografia, vídeo, instalações e
intervenções urbanas.
Outro seguimento de arte lo-
Fotos:divulgação
Galeria Baró espaço para arte contemporânea,
ponto de encontro de jovens artistas. Nas paredes,
obra do argentino Pablo Siquier
calizado no bairro é o Ateliê LaTintota.
Nesse espaço, artistas e pesquisadores
de arte e tecnologia visam a expansão
do campo de atuação e de difusão de
trabalhos em ações coletivas. O LaTintota, que atualmente funciona como ateliê do grupo
homônimo especializado em cenografia, está ampliando seu leque de
atuação para se tornar um espaço de
encontros para criação e estúdio de
produção e gravação multimídia, com
diversos tipos de produções artísticas.
Seus criadores, o videoartista e artista
plástico venezuelano Carlos Pedreañez,
o designer e escultor Leonardo Ceolin, e
o arquiteto e músico Flávio Lima, atuam no
espaço desde 2006, criando cenários,
esculturas, gravuras e música. Já trabalharam em parceria com diversos
artistas como Jorge Garcia, André Gerreiro Lopes, Lívia Sabag, Ballet da Cidade, Marku Ribas, Rede Tranzmidias,
Maria Bonomi, entre outros.
E por falar em cultura, não
podemos deixar de citar que a Barra
Funda é considerada o berço do samba
paulistano, onde se deu a origem de
muitos grupos e blocos carnavalescos. Um dos pontos da cidade onde
era possível encontrar amigos, tocar
e dançar o samba era o largo da Banana – na Barra Funda – e nos becos
do Bexiga. Alguns grupos ficaram
conhecidos, como o Grupo dos
Teimosos do Bexiga e o Bloco dos Boêmios da Barra Funda, que logo depois
se transformaria em cordão famoso. O
fundador dos cordões carnavalescos
paulistanos, Dionísio Barbosa, morava
no bairro desde 1906. Fundou o Grupo
Carnavalesco Barra Funda. O nome
do grupo mudou para Camisa Verde e
Branco e passou a engrossar fileiras
na luta por um carnaval paulista por
várias décadas.
A Barra Funda também abriga
complexos esportivos. Neste bairro
encontra-se a nova sede da Federação
Paulista de Futebol, a FPF, fundada
em 22 de abril de 1941, é a entidade
máxima do futebol no Estado de São
Paulo. Lá são organizados todos os
torneios oficiais que envolvam as equipes do Estado, como o Campeonato
Paulista, Copa São Paulo de Juniores
- principal competição da categoria
no país - e Copa Paulista de Futebol.
A Federação responde à Confederação
Brasileira de Futebol (CBF). Dentro do
prédio da Federação Paulista, situado
na Rua Federação Paulista de Futebol,
está o Museu Paulo Machado de Carvalho (Museu do Futebol), localizado
no quinto andar, onde estão expostos
diversos objetos e até mesmo a bola
oficial da decisão da Copa do Mundo
de Futebol de 1958, a primeira ganha
pela Seleção Brasileira de Futebol.
Também estão instalados no bairro o
Estádio Palestra Itália, pertencente ao
clube de futebol Palmeiras e os Centros de Treinamento (CT) do mesmo
Palmeiras e do São Paulo F.C.
A Barra Funda apesar de já
ter mudado sua cara, ainda se encontra em processo de transformação. Os
novos edifícios comerciais, residenciais, além do forte comércio, os grandes
centros de compras e serviços, como
os hipermercados, shoppings, hotéis,
casas noturnas, bares, empresas e os
novos seguimentos ligados à cultura e
a arte, evidenciam que a o bairro vem
se qualificando e se requalificando no
cenário da cidade de São Paulo e indicam que sem dúvida o seu porvir será
ainda mais promissor.
Projeto do novo estádio da Sociedade
Esportiva Palmeiras, um marco da cultura
italiana no bairro
33
O HOMEM QUE AMAVA OS
À esquerda: Liv
Davidovich
Bronshtein
conhecido com
Leon Trotski, líder
do Exército Vermelho, por volta
de 1924, autor
desconhecido. À
direita ao lado:
Ramón
Mercader.
Abaixo: Trotski no
leito de morte
O escritor cubano Leonardo
Padura, debruçou-se sobre um dos
crimes mais perturbadores do século
XX, o assassinato de Leon Trostki exilado na Turquia, França, Noruega e,
finalmente, no México, onde foi morto
a mando de Stalin - e a história de seu
algoz, o catalão Ramón Mercader,
voluntário das Brigadas Internacionais da
Guerra Civil Espanhola.
Padura, que é escritor de
romances policiais, faz um mergulho
34
nas contradições das utopias revolucionárias. A trama se desenvolve em
três momentos distintos - a Revolução
Espanhola, a Revolução Russa e a
Revolução Cubana.
Em 1939 Jaime Ramón
Mercader Del Rio entra no México
com passaporte falso, sob o nome
de Jacques Mornard, um negociante
belga, com a missão de matar Trotski.
Em 24 de maio de 1940 o plano de
assassiná-lo não dá certo. Na segunda
tentativa, Ramón se envolve amorosamente com Sylvia Agelof, secretária de
Trostki, que facilita sua entrada na casa
repleta de seguranças, em Coyoacán,
bairro da cidade do México, onde ele o
golpea na cabeça com uma picareta de
alpinismo.
Por telefone, de sua casa em
Havana, Leonardo Padura dá entrevista
para revista Nossa América Hoy.
Fotos: divulgação
por Leonor Amarante
Acima: casa onde
Trotski morou em
Coyoacán, no
México, e foi morto.
Ao lado: Leonardo
Padura durante
visita ao túmulo de
Ramón Mercader,
em Moscou
Arquivo pessoal
CACHORROS
35
NOSSA AMÉRICA HOY – O quanto há
de verdade e de ficção em seu livro
Homem que Gostava de Cachorros?
LEONARDO PADURA - O episódio sobre o assassinato de Trotski é o mais
verdadeiro, porque sua vida está muito
documentada. Meu livro começa no
momento em que ele está exilado em
Alma-Ata, do Cazaquitão, em 1934,
justamente terminando sua biografia
Minha Vida, que ele havia começado
em 1930, quando foi expulso da União
Soviética. Pesquisei bastante outros
livros, muitos deles romanceados e tive
que organizar tudo de maneira literária.
Ao contrário de Trotski, praticamente
não existe nada sobre Ramón Mercader porque ele sempre viveu na clandestinidade. Isso dificultou qualquer
acesso a uma biografia documentada,
mas ao mesmo tempo me permitiu ter
uma maior liberdade de ficção. A parte
cubana é totalmente imaginada. O personagem Yvan foi criado e nessa
história entra em cena todo meu
conhecimento da vida de meu país.
N. A. H. – O que o impulsionou, verdadeiramente, a escrever essa trama
policialesca?
L. P. – O Século das Luzes, de Alejo
Carpentier, que trata de como a
Revolução Francesa se perverteu e
como foi perversa com muito militantes que a ajudaram a triunfar. O
Homem que Amava os Cachorros,
36
também. Stalin teve um papel decisivo
na desconstrução da utopia. Afinal, um
estado não pode governar o tempo
todo provocando medo, perseguições
e barbaridades. Meu livro não tem a ver
só com a revolução russa, mas reflete
sobre a utopia e suas contradições.
N. A. H. – Ramón Mercader é descrito
no livro como um fantoche que depois
de ser preso no México por 20 anos
vai para a U.R.S.S., onde é tratado
como “indesejável”, um bobo da corte, embora tenha sido condecorado
por Brezhnev, em 1961. Não estaria
no livro meio caricato?
L. P. - Eu creio que foi isso mesmo o
que aconteceu com Mercader, foi um
fantoche. Nos 20 anos em que ele ficou
na prisão, a Espanha já havia confrontado sua impressão digital e confirmado que ele era realmente o assassino
de Trotski, mas ele nunca confessou
ser Ramón Mercader. Ele foi fiel a
esse pacto de silêncio com a U.R.S.S.
Quando saiu do cárcere, já havia alguma mudança naquele país. Khrushchev
já havia denunciado as atrocidades
cometidas por Stalin. E Ramón, afinal,
representava o pior do stalinismo, ele
cometeu um crime coordenado por
Stalin. Em carta, Mercader chegou a
afirmar que era uma “batata quente”
nas mãos do governo e outros países
não queriam abrigá-lo. Como havia escrito, ele queria viver fora da U.R.S.S.,
a única solução foi passar a “batata
quente” de Moscou a Havana.
N. A. H. - Esse acordo foi feito entre Brezhnev e Fidel Castro? Qual a
posição de Cuba?
L. P. – O trâmite foi feito em alta esfera,
pelo comando. Ele viveu em Havana por
quatro anos, também com uma vida
clandestina, com o nome de Ramón
Lopez e poucas aparições públicas. Os
cubanos, na verdade, nunca souberam
que Ramón Mercader vivia entre eles.
Não tínhamos a menor ideia de
toda a história.
N. A. H. - Jamais a imprensa cubana
publicou a morte de Trotski?
L. P. - Em Cuba, se sabia quem era
Trotski e que ele havia sido morto
por um espanhol chamado Ramón
Mercader que lutou na guerra civil espanhola. Mas não conhecíamos nada
mais sobre isso. Em Cuba, ele chamava-se Ramón Lopez, um homem
como outro qualquer, e morreu aqui
com este nome. Quando o cadáver foi
levado para Moscou, também o enterram com o nome de Ramón Lopez,
e assim ficou inicialmente na lápide.
Ele não tinha recuperado seu nome
verdadeiro até os anos 90, quando
o governo russo revelou sua verdadeira identidade e gravou finalmente o
nome: Jaime Ramón Mercader.
N. A. H. – É difícil acreditar que Trotski não fosse conhecido em Cuba? Nem
mesmo pelos estudantes de ciências
políticas? Como é essa história?
L.P- Eu mesmo cursei Ciências Humanas e nunca estudei Trostki. Sabíamos que havia participado da
Revolução Russa e que fora assassinado. Quanto ao Mercader havia uma
ignorância total. Por isso, quando meu
livro foi publicado aqui em 2009, as
pessoas começaram a comentá-lo e em
pouco dias foram vendidos os primeiros quatro mil exemplares, depois uma
nova edição de mais quatro ou cinco
mil também esgotou-se. A maioria das
pessoas me agradece por ter revelado
parte de uma história que passou aqui
e ninguém conhecia. Muitos queriam
saber o título de outros livros sobre o
tema para aprofundar-se no assunto.
N.A.H- Você já falou algumas vezes
que gostaria de visitar o Brasil.
Quando virá?
L.P- Conhecer o Brasil é um sonho antigo. Na verdade, são três países que
me interessam. A Grécia por questões
culturais, Israel por que é o berço da
civilização Ocidental e o Brasil por
questões culturais e sentimentais.
Sempre fui fanático pelo futebol brasileiro, desde muitos anos, desde o
tempo de Pelé e não só porque agora
está na moda Ronaldo e Ronaldinho
(Gaúcho). Faz muito tempo que sigo a
esse esporte. Em abril vou à Bienal do
Livro em Brasília e depois a São Paulo.
Estou curioso e ansioso para chegar.
Sei que meu livro está indo muito bem
por aí. A primeira edição está esgotada!
A Morte de Trotski no Cinema
Richard Burton vive Trotski e Alain Delon, Ramón Mercader, no filme dirigido por Losey
O Assassinato de Trotski,
um filme britânico de 1972, dirigido
por Joseph Losey, com roteiro de
Nicholas Mosley e foi estrelado por
Richard Burton como Leon Trotski,
Alain Delon, como Ramón Mercader
e Romy Schneider, como secretária
do revolucionário russo.Depois de
conquistar Sylvia Agelof, Mercader encontra-se por duas vezes com Trotski
sob o pretexto de ser um patrocinador
canadense de suas ideias. Na segunda
tentativa, feriu-o mortalmente. Segundo
alguns relatos, os seguranças de
Trotski iriam matá-lo, mas Trotski
impediu, gritando “Não o matem! Este
homem tem uma história a contar.”
Mercader foi conduzido às
autoridades mexicanas, a quem se
recusou a revelar sua real identidade.
Foi condenado por assassinato e sentenciado a 20 anos de prisão, ficando
os primeiros cinco anos em solitária.
Somente em agosto de 1953 sua verdadeira identidade foi descoberta, e as
suas conexões com a NKVD não foram
reveladas até que tivesse ocorrido a
dissolução da União Soviética.
Fotos: divulgação
No México, Leon
Trotski também ficou
hospedado
na casa de Diego
Rivera e Frida Kahlo
com quem teve um
breve envolvimento
amoroso. Durante todo
o tempo em que
esteve na capital
mexicana foi
protegido pelo
famoso casal de
pintores
Alain Delon e
Richard Burton
37
Ricardo Piglia
e a vida nas
universidades
americanas
Fotos: divulgação
por Joelma Gomes
Há quinze anos lecionando
nas universidades de Princeton e
Harvard, Ricardo Piglia é um escritor argentino cujas obras literárias já
foram reconhecidas e laureadas. Entre
as premiações, está a II edição do
Prêmio Ibero Americano de Narrativa Manoel Rojas, promovido pelo
governo do Chile.
Piglia vive atualmente em seu
país de origem e está aposentado, estado que, conforme afirmou em entrevistas, é importante para elaboração de
novos romances e novelas.
Seu mais recente trabalho,
lançado na Argentina e Espanha é o
romance El Camino de Ida, que trata
da vida dentro das universidades estadunidenses. De modo geral, o protagonista, Emilio Renzi, de nacionalidade
argentina, é convidado a lecionar em
uma universidade dos Estados Unidos,
caracterizando, uma espécie de alter
ego do autor, já que, o escritor também
deixou seu país para viver na grande
potência mundial. De sorte que, Piglia e
seu personagem passam a fazer parte,
não apenas da sociedade comum, mas,
principalmente, da elite do saber.
Na realidade, o enredo do
livro é inspirado na história real
do brilhante professor de matemática Theodore Kaczynski condenado
à prisão perpétua por atentados que
38
mataram três pessoas e feriram mais
de vinte. Para tanto, o autor cria o personagem Thomas Munk, matemático
prisioneiro por direcionar diversos
ataques contra o meio acadêmico.
Numa análise mais precisa,
percebe-se que a discussão proposta,
é política. Ao basear a ficção em uma
história real, o escritor pretende levantar questões humanísticas da sociedade norte americana, como por
exemplo, a sensação de opressão
social e inatividade política dos intelectuais das universidades. Interpretando,
literariamente, o que dizem os crimes
que aparentemente são inexplicáveis
e sempre apontados como crimes de
caráter psicológico.
O escritor assinala para a falta
de interesse do governo americano em
tratar esses crimes como políticos. O
professor Thomas Kaczynski opunha-se
ao regime capitalista e industrial. No
entanto, para levar a público as suas
opiniões, teve que “driblar” o FBI e
sacrificar a vida de alguns cidadãos americanos.
Nessa perspectiva, o escritor,
em algumas falas e pensamentos das
personagens, faz alusões à políticas
públicas que poderiam amenizar as
estatísticas desses tipos de crimes entre o povo norte americano, como, na
fala do protagonista Renzi: “Les haría
falta un poco de peronismo a los Estados Unidos para bajar la estadística de
asesinatos masivos realizados por individuos que se rebelan ante injusticias
de la sociedad.”
Na verdade, o escritor não
está preocupado, na obra, em estabelecer uma discussão entre ideologias
esquerdistas ou de partidos de direita,
ele está pensando na falta de debates
não somente entre os cidadãos, mas,
sobretudo, da falta de luta e de “paixão”
entre os intelectuais.
Com efeito, Ida Brown, professora universitária no romance, postula que pensar e lutar são dois verbos
que vão juntos. No entanto, os professores universitários, que estão no
centro das questões filosóficas que comumente abordam polêmicas, apenas
compartilham o saber, mas suas ideias
radicais não surtem em ações reais.
O debate dentro da filosofia é
comum. Na sociedade grega, o compartilhamento de ideias para tomada
de decisões também era comum, está
aí o cerne do enredo proposto por
Piglia, mesmo que se crie tecnologia de ponta tendo em vista o crescimento econômico de uma sociedade,
é necessário, entretanto, saber qual o
melhor caminho para que esse crescimento aconteça.
O interesse do autor é dar
importância ao debate e à discussão,
com os quais as tomadas de decisões
políticas serão melhores pensadas.
Outra personagem de cunho
político é Nina Andropova, vizinha
russa de Renzi. A discussão presente
nessa personagem está na cegueira
dos ideais da esquerda, principalmente, na revolução russa que comumente rompia violentamente com as
grandes tradições. Se por um lado, os
esquerdistas têm ideias que priorizam
as classes mais inferiores, por outro,
são extremos em tudo. Ricardo
Piglia, ao contrário, defende o meio
termo conseguido pela agregação
de ideias daqueles que assumem
posturas contrárias.
Os temas presentes no livro
não são meramente um problema estadunidense, mas um problema vivido
inclusive nos países de menor desenvolvimento. Diante do avanço
tecnológico, as discussões entre as
esferas sociais parecem perder espaço, e cada vez mais os cidadãos
estão se tornando mais individualistas e solitários. A literatura é um excelente
caminho para a abordagem de
questões políticas, é o modo de levar,
ao interesse de todos, assuntos que
parecem fazer parte apenas dos
governantes, ou dos poderes legislativo e executivo. Contudo, a política
deve ser pensada e vivida entre todos
os participantes da comunidade. A
novela, o conto, o romance abordam
a questão de uma perspectiva artística
sem aquela sensação de trabalho administrativo. Sendo assim, pode-se
dizer que o romance histórico é ainda mais atrativo porque apresenta a
realidade como pano de fundo para
a ficção.
El Camino de Ida será publicado no Brasil em 2014 pela Companhia
das Letras.
Federico em
sua sacada,
obra póstuma de
Carlos Fuentes
Já dizia Raul Seixas: “Prefiro
ser essa metamorfose ambulante, do
que ter aquela velha opinião formada
sobre tudo”. Longe de ser o primeiro a
discutir sobre as várias facetas do ser
humano, o músico trouxe, em poucas
palavras, aquilo que é próprio do ser
racional, a mudança de opinião, a virada de lado.
Como definir certo e errado?
Quem definiu o que é moral e amoral?
O que é a beleza? Como se define o
belo? Quem ensinou a amar? E como
se aprende a odiar? Como se configura
o crime? Hoje se pensa de um modo,
amanhã o que se pensou hoje pode
se tornar completamente contrário, o
que parecia inaceitável, logo se torna
imprescindível para a vida e temos
que fazer. Todas essas questões são
parte da própria concepção mutante da
mente humana.
Sob esse foco, Carlos Fuentes
escreve Federico em sua sacada. Similar a um tratado de filosofia, o livro
aborda questionamentos próprios do
universo racional, da concepção do
homem como participante da sociedade, um mundo natural à parte criado
pelo próprio homem. Para tanto, ele
insere em sua narrativa um personagem
filosófico que tratou da moral, Friedrich
Nietzsche, e é com esse ator que Federico,
criado por Fuentes, discute as questões
vividas por todos, mas despercebidas
pela maioria. Nietzsche, na verdade, é
o próprio Federico, é o seu conceito,
é o que aprendeu. Dessa forma, eles
discutem os aspectos cotidianos e
universais a que todo sujeito passa
pela sua trajetória nesse mundo de
racionalidade. Somadas a todas essas
questões, está a interlocução com o
eu, o que fazemos sempre, sem percebermos que conversamos, muitas
vezes, com a nossa própria consciência.
Livro póstumo do escritor
mexicano Carlos Fuentes, autor de
Gringo velho e Os anos com Laura
Díaz é um testamento literário que
consegue, com as discussões de seus
personagens, transmitir a inteligência
e a perspicácia do autor em sua visão
de mundo.
Lançado pela editora Rocco
está disponível em diversas livrarias
do Brasil.
39
O legado da
Ditadura Militar
em pele viva
Cinquenta anos após o início do ciclo de violência, a sociedade quer
esclarecimentos e pede o fim do desrespeito aos direitos humanos.
por Eduardo Rascov
A USP tem uma. O Sindicato
dos Jornalistas tem outra. O Estado
de São Paulo tem a sua. A cidade de
São Paulo também. Essas e as quase
cem similares espalhadas pelo Brasil
estão sob o guarda-chuva da Comissão Nacional da Verdade, cujo trabalho
árduo vai até dezembro de 2014, se
não houver nova prorrogação. Tantas
Comissões da Verdade estão tentando
iluminar amplas zonas e episódios entrevados do período da Ditadura Militar,
verdadeira Idade das Trevas brasileira.
Deflagrada há 50 anos - em 1º
de abril de 1964 - sua duração varia de
acordo com o gosto: para alguns terminou em 1985, com a eleição indireta
do cordato Tancredo Neves, seguida
de seu calvário e morte, e posse do
inelutável José Sarney; para outros, a
redemocratização efetiva foi em 1989,
com a escolha por sufrágio universal
do infante direitoso Fernando Collor.
Para muita gente boa, porém, a superação do legado da ditadura militar
ainda não se deu.
É o caso da pesquisadora Mariana Joffily, da Universidade Estadual de
Santa Catarina (Udesc), professora de
História da América. Para ela, “uma
40
das piores marcas que a ditadura
deixou para as gerações atuais foi a
militarização da segurança pública,
com uma abordagem que encara os
desafios colocados à segurança em
termos de guerra interna. Além disso,
a ditadura incrementou uma cultura
política que vem desde pelo menos a
escravidão, de que o uso da violência
é um instrumento necessário e válido
para a manutenção da ordem social.
Superar a ditadura, ao meu ver, significa reformular completamente a maneira pela qual a segurança pública vem
sendo estruturada e pensada.” Joffily
publicou o alentado livro No centro da
engrenagem: os interrogatórios na
Operação Bandeirantes e no DOI de
São Paulo (1969 - 1975), editado pelo
Arquivo Nacional e Edusp, em 2012.
Atualmente, a tortura é disseminada no Brasil nas delegacias que
cuidam de bandidos pobres. Crime
comum. Se já era assim antes, com o
ciclo militar isso se entranhou e se entranhou, pois ganhou ares de política
institucional, ao ponto do general Ernesto Geisel ter declarado que sem a
tortura não se venceria a guerra interna (“Acho que a tortura, em certos
casos, torna-se necessária, para obter
confissões”, Élio Gaspari in A Ditadura
Escancarada, Cia. das Letras, pág. 37).
Muitas são as razões usadas para justificar a tortura. Os Estados Unidos e Israel, por exemplo, alegam que enfrentam uma guerra assimétrica contra o
terrorismo internacional. Por isso criaram regras cínicas: pode-se torturar
desse e daquele modo, afogamento
sim, choque elétrico na vagina não...
A historiadora Mariana Joffily, que
estudou as ditaduras do Cone Sul, repressão política, transição democrática
e violência política na USP e na Sorbonne (Université de Paris IV), comenta: “A tortura é vista, do ponto de
vista teórico, como um “castigo cruel
e degradante”, salvo em condições
excepcionais”. Nos EUA e em Israel, a
defesa desse tipo de violência se faz com
base no argumento extremo do terrorismo
e se expande no tratamento com tudo
aquilo que parece socialmente indesejável. Abre-se uma brecha que se torna
o próprio sistema. Por isso, a recusa à
tortura tem de ser completa, absoluta.
Não pode haver meio-tortura, nem ela
pode ser aceitável em qualquer circunstância que seja.
Quem defende o uso da tortura, nunca se vê no lugar do torturado.
É sempre o outro o alvo potencial. No
Brasil, a tortura é claramente um
instrumento de contenção social. Ela
não é defendida abertamente no discurso público, porém, em filmes como
Tropa de Elite, o espectador é levado
a torcer para que o policial seja violento para extrair a informação que o
adolescente ligado ao tráfico não quer
fornecer espontaneamente. Vemos em
várias situações do cotidiano, indivíduos vivendo sob enorme precariedade social sendo espancados, queimados vivos, ameaçados de morte. E
não apenas pelas autoridades policiais,
mas também por “cidadãos comuns”,
comerciantes, jovens de classe média,
sem falar dos setores ligados à criminalidade. Ou seja, a tortura é algo que
não se defende teoricamente, mas que
se aplica com muita frequência.
Em 2010 a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Cidh)
analisou o desaparecimento de quase
setenta brasileiros envolvidos com a
Guerrilha do Araguaia, no início dos
anos 70. Eram na maioria jovens militantes do PC do B (Partido Comunista
do Brasil) que haviam se infiltrado no
Bico do Papagaio (região de rios caudalosos e muita mata, que engloba o
norte de Tocantis e o sul do Pará e
do Maranhão) em meados da década
anterior e ali se misturavam aos camponeses, enquanto semeavam a tão
idealizada, pela esquerda, guerrilha rural. A Cidh acusou o Estado brasileiro
de omissão e exigiu que ele esclarecesse se os militantes foram mortos,
onde estão seus corpos, e que punisse
exemplarmente os responsáveis. Mas,
no mesmo ano, a Corte Suprema do Brasil decidiu que a Lei de Anistia impedia
que o país tomasse essas providências.
No entanto, procuradores da
república corajosos entenderam que
o sequestro com sumiço do corpo é
crime sem prescrição até que se encontre os restos mortais da vítima.
Isso está levando a enfrentamentos
inéditos, como em dezembro do ano
passado, quando compareceram - diante do juiz federal Hélio Egydio de
Matos Nogueira, em uma ação com
instrução penal - os delegados de
polícia Carlos Alberto Augusto, o “Carlinhos Metralha”, e Alcides Singillo. O
coronel reformado do Exército Carlos
Alberto Brilhante Ustra, que comandava o DOI-Codi, um dos principais centros de repressão do país, embora convocado não apareceu. Eles depuseram
sobre o desaparecimento do marinheiro pernambucano Edgar Aquino Duarte. Do outro lado da mesa, estavam
as testemunhas sobreviventes José
Damião Trindade, Pedro Rocha Filho,
Ivan Seixas e Maria Amélia de Almeida
Teles, que relataram com detalhes as
sevícias às quais foram submetidos.
Segundo a professora Joffily,
“esse enfrentamento simbólico entre
torturados e torturadores é de extrema
importância, pois ainda que setores
conservadores de nossa sociedade
insistam em ratificar a Lei da Anistia,
mostra o quanto o país avançou ao
colocar no lugar dos acusados aqueles
que em nome do Estado perpetraram
torturas e assassinatos. O Estado hoje
está ao lado dos outrora perseguidos
e isso demonstra uma guinada fundamental. Mas esse passado apenas será
passado a limpo se esses eventos todos tiverem um efeito de significação
no presente, produzindo uma aversão
pública e generalizada à prática da
tortura e uma reformulação das for41
42
insuspeita revista Veja, que, em 26 de
março de 2003, falando sobre a UDR,
cravou que ela “ficou célebre na segunda metade dos anos 80 por sua
disposição beligerante no campo.
Entre 1985 e 1989, quando se encontrava no pico de suas atividades, a UDR
tornou-se nacionalmente conhecida, e
as mortes no campo chegaram a 640,
um recorde.”
Para Kehl essa cultura da
violência passa pelo Massacre de
Maio de 2006, quando, entre 12 e 20
daquele mês, pelo menos 493 pessoas
foram assassinadas em São Paulo,
a maioria com sinais de execução
sumária. Era a resposta à revolta e
aos ataques comandados pelo PCC
(Primeiro Comando da Capital) de dentro da prisão à polícia, com a morte de
43 agentes públicos. “Não só há um
número enorme de jovens assassinados pela polícia, como de desaparecidos. Os pais e mães desses jovens não
conseguem encontrar os corpos de
seus filhos, porque eles também são
ameaçados”, declarou aos senadores
Maria Rita Kehl, conforme a página
na internet da Comissão Nacional da
Verdade. Segundo o site, o senador
João Capiberibe (PSB-PA) - presidente da Subcomissão Permanente
de Memória, Verdade e Justiça, vinculada à Comissão de Direitos Humanos
e Legislação Participativa (CDH), do
Senado - vai agendar neste primeiro
semestre audiências públicas para ouvir as Mães de Maio.
Outro resquício da ditadura
apontado por Kehl é o lento e progressivo extermínio dos índios
guarani-kaiowa, do Mato Grosso do
Sul. Aos senadores ela denunciou que
no final do ano passado fazendeiros da
região fizeram um leilão de gado cujo
fundo arrecadado seria usado para
financiar milícias armadas que estão
cercando os índios. Os guarani-kaiowa vêem o que restou de suas terras
tradicionais ser cobiçado por forças
truculentas, sentem-se ameaçados,
isolados, sem o atendimento adequado
por parte do Estado no campo da educação e da saúde - o que leva alguns ao
recurso extremo do suicídio.
O fato é que não só ainda não
passamos a limpo aquele período de
exarcebado militarismo, como ainda
vivemos sob os seus auspícios. Mas
alguns passos importantes foram dados recentemente, conforme destaca
Mariana Joffily: “O trabalho dessas comissões tem resultados diversos. Um
deles é a coleta de informações novas
sobre modalidades pouco conhecidas
da repressão, como aconteceu com
as recentes descobertas a respeito
do massacre de povos indígenas ou detalhes sobre as circunstâncias de morte
de desaparecidos políticos. Outro é
investigar os alcances do arbítrio em
diferentes esferas, como por exemplo
em uma categoria de trabalhadores ou
dentro de uma determinada universidade. O principal resultado, no entanto,
é trazer para a sociedade brasileira um
debate crítico sobre o que foi a ditadura militar, no sentido de condenar
as práticas de autoritarismo e violência
política perpetradas pelo Estado.”
Práticas essas tão comuns
no noticiário até hoje. Elas repercutem
nas redes sociais intensamente, mas
depois de algum tempo, parece, tudo
cai no vazio. Quem se lembra do covarde massacre de 111 presos desarmados no Carandiru, ou da “Operação
Castelinho”, com doze mortes no pedágio
de Sorocaba da rodovia Castelo Branco
e, mais recentemente, do sequestro e
tortura do pedreiro carioca Amarildo
em plena sede da UPP da Rocinha,
para ficar apenas em três exemplos?
“Unidade da Polícia Pacificadora”, eis
um primor irônico que a ficção dificilmente alcançaria. Mais que criar uma
“novilíngua”, urge recomeçar do zero,
fundar uma nova polícia - essa desmilitarizada - e sem a metástase da corrupção e da violência seletiva.
Agora que se “comemora”
os cinquenta anos do início da Ditadura Militar é importante que se multipliquem os canais de discussão de
seu legado. Que a chuva de comissões
da verdade façam germinar pelo país a
consciência não só do que foi aquele
período, mas do que ele é hoje - o que
ele repercute, significa, implica e rebate
na sociedade brasileira contemporânea.
Eduardo Rascov é jornalista e editor do site do
Memorial da América Latina.
Colecionador cearense
arremata fotos históricas do
golpe de 64
por Leonor Amarante
Fotos: agencia a4
ças de segurança. Portanto, apenas
será superado quando forem criados
mecanismos institucionais sólidos no
sentido de evitar que no presente ou no
futuro próximo se lance mão de medidas autoritárias de controle social.”
A constelação de comissões
da verdade expressa o crescente interesse da sociedade em conhecer
e enfrentar o que aconteceu no país
naquele período. Um dos aspectos
do trabalho da Comissão Nacional da
Verdade é ampliar o número de vítimas
reconhecido. As violações sistemáticas
dos direitos humanos se estenderam,
por exemplo, a povos indígenas e a
trabalhadores da terra. A psicanalista
e escritora Maria Rita Kehl preside
um grupo de trabalho da Comissão
Nacional da Verdade sobre esse tema.
Ela investiga a violência cometida diretamente por agentes públicos ou por
pessoas a seu serviço ou no interesse
do Estado contra pessoas - índios e
camponeses - que mal entendiam o
que estava acontecendo. Em dezembro
do ano passado Maria Rita Kehl compareceu ao Senado brasileiro e relatou
um pouco do que apreendeu na região
da Guerrilha do Araguaia. Ela ouviu de
índios Surui que foram obrigados à,
não só, denunciar onde se escondiam
os militantes e à servir de mateiros
(guias), como também à cortar a cabeça de alguns deles e a carregá-las no
ombro. “Alguns índios disseram que,
durante muito tempo, sonhavam e
tinham a sensação horrível do
sangue quente escorrendo nas costas deles”, relatou.
Diante dos senadores, Maria
Rita Kehl puxou uma linha de progressão da violação dos direitos humanos que vem até nossos dias. Ela
contou que logo em seguida ao fim
oficial da ditadura militar foi criada em
vários estados brasileiros uma associação de proprietários rurais chamada
União Democrática Ruralista (embrião
de um partido político posterior), cujo
objetivo declarado era “a preservação
do direito de propriedade e a manutenção da ordem e respeito às leis
do país” e se opor à Reforma Agrária.
Nos seus quatro primeiros anos de
existência foram mortos centenas de
lideranças camponesas que resistiam
à tomada de suas terras. A fonte é a
Silvio Frota é um colecionador
especial. Para começar não mora no
eixo Rio/São Paulo, vive em Fortaleza,
no Ceará. Depois, é um apaixonado
pela fotografia. Durante muitos anos
só tinha olhar para as artes plásticas.
Um dia em Houston, no estado americano do Texas, entrou numa exposição
do legendário fotógrafo Steve McCurry
e ficou cara a cara com a Afegan Girl,
uma espécie de Mona Lisa contemporânea da fotografia. Apaixonou-se,
comprou a obra na hora e tornou-se
colecionador de foto. Sorte do Brasil.
Hoje ele é um dos mais importantes
guardiões de imagens raras, como as
do Golpe Militar de 64 que ilustram sua
matéria e fazem parte de um acervo de
mais de 2.000 imagens.
Frota começou a adquirir
registros da ditadura há cinco anos.
“O tema me interessa porque faz parte
da história do Brasil que os jovens
pouco conhecem. Decidi começar
pelo que há de mais significativo, mais
pontual sobre o tema. Não me interessa
apenas a imagem de um autor, mas diversas imagens que permitam a leitura
completa de um fato. “Minha intenção
é a de colocar essa coleção ao alcance
do público e dar ao espectador uma
leitura do que ele estará vendo e de contar-lhe uma história”. Frota começou
a coleção com o objetivo de propiciar, especialmente aos estudantes, o
acesso às imagens raras e, para isso,
vai construir um museu em Fortaleza.
“Já adquiri um terreno com mais de
dois mil metros quadrados para abrigar toda a coleção. Não é possível que
os jovens não conheçam a história de
seu país. Quero com isso também promover estudos e debates. A coleção de
Frota tem fotos sensacionais captadas
por repórteres fotográficos com passagem pela grande imprensa e, para
esta edição, selecionamos algumas
de Evandro Teixeira, um dos mais
premiados nomes do foto jornalismo
brasileiro. Baiano, iniciou sua carreira
em 1958, no jornal Diário da Noite, no
Rio de Janeiro e, em 1963, entrou para
o Jornal do Brasil aonde está até hoje.
Cobriu o golpe militar no Brasil e a derrubada de Salvador Allende no Chile.
Juca Martins, português,
fotógrafo independente, radicado no
Brasil desde 1957, cobriu o Golpe Militar e outras manifestações políticas e
Orlando Brito, mineiro, que iniciou sua
carreira de fotógrafo aos 15 anos de
idade no jornal Última Hora e trabalhou
em O Globo, Veja, Jornal do Brasil.
Além deles há muitos outros
profissionais e fotos importantes que
não foram publicadas na época por
questão da censura. “Muitas das revistas como as extintas O Cruzeiro, Manchete, Fatos e Fotos, não tinham tanto
material disponível porque naquele
tempo a censura era implacável, mas
com isso consegui fotos inéditas diretamente com fotógrafos”.
O colecionador, que é também frequentador de leilões e feiras de
arte em vários países, tem acompanhado
o crescimento do colecionismo de fotografias e afirma: “O Brasil está mudando
e já temos feira de fotografia, galerias
especializadas e colecionadores interessados. Por isso, quero fazer o museu”.
Frota tem razão e o ano de 2015 promete
ser especial para a fotografia e para os
fotógrafos brasileiros!
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Na página ao lado à esquerda:
AI-5: Além do
Poder,1968, dezembro,
sexta-feira,13,
foto de Orlando Brito.
Abaixo à esquerda: Praça da
Sé antes: Manifestação do
Movimento
Contra a Carestia, na
Praça da Sé. SP. 27.08.1978 e
Praça da Sé depois:
Manifestação do Movimento
Contra a Carestia, na
Praça da Sé.
SP. 27.08.1978,
fotos de Juca Martins.
À direita acima:
Em 1978 Geisel visitou o
México e viu protesto
contra o Brasil, foto de
Orlando Brito.
Abaixo à direita: foto de
Juca Martins. Ato
Público do
Movimento pela
Anistia. Em 1979
44
45
Deputado Ulysses Guimarães cercado de militares, assume temporariamente a presidência da república
durante a viagem do presidente José Sarney. Base Aérea de Brasilia. 1986. Foto de Orlando Brito
Acima: Passeata dos 100 mil, Rio de Janeiro, 1968. Foto de Evandro Teixeira, da
qual participaram entre outras personalidades Luiz Carlos Prestes, Clarice Lispector, Paulo Autran e Odete Lara. Abaixo: o cartunista Ziraldo, um dos criadores do
lendário tablóide Pasquim, protesta na câmara dos deputados contra a censura
à imprensa no fim de 1960. Foto de Orlando Brito. Ao lado: o cartunista Henfil,
um dos militantes contra a ditadura. Foto de Juca Martins. Ao lado abaixo: César
Camargo Mariano, Elis Regina e João Bosco no Show de maio de 1979 em apoio
à greve dos metalúrgicos
Movimento estudantil, Rio de Janeiro, 1968. Foto de Evandro Teixeira
46
47
Acima: 1975, o novato Lula e os veteranos Ulysses Guimarães e Tancredo
Neves. Foto de Orlando Brito. Abaixo à esquerda: militante descansa depois de manifestação. Foto de Evandro Teixeira. Abaixo à direita: Retorno de
Miguel Arraes ao Brasil, Rio de Janeiro, 1979. Foto de Juca Martins. Página
ao lado acima: General Ernesto Geisel na Praia dos Artistas no RN em 1979.
Foto de Orlando Brito. Página ao lado abaixo: José Sarney três dias antes de
deixar a presidência em 1990. Foto de Orlando Brito
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A luta DEMOCRÁTICA
das ruas
por Marco Aurélio Nogueira
As amplas manifestações que
entre 1983 e 1984 pediram a volta das
eleições diretas no Brasil ocupam um
lugar de destaque na história política
brasileira. Um de seus ápices foi o gigantesco comício que, em 25 de janeiro
daquele ano, fez a Praça da Sé, em São
Paulo, parecer pequena, envolta numa
chama cívica que contagiou a cidade
e a cena nacional. Meses depois, em
abril, uma multidão ainda maior ocupou o Vale do Anhangabaú, iniciativa
agora coordenada por um fortalecido
comitê suprapartidário. Dar-se-ia o
mesmo em outras cidades do país. No
Rio de Janeiro, por exemplo, a Candelária receberia um gigantesco contingente de pessoas.
Era uma demonstração de
força para a votação da emenda que
o deputado Dante de Oliveira (PMDBMT), em março de 1983, apresentara
ao Congresso Nacional prevendo o
restabelecimento de eleições diretas
para a Presidência da República. Em
abril daquele ano, o PMDB lançou
oficialmente a campanha nacional de
apoio à emenda, com o slogan que
ganharia as ruas: Diretas Já. A campanha só fez crescer, contagiando o país.
As diretas não foram, porém,
aprovadas daquela vez. Em 25 de abril
de 1984, numa histórica votação, a
emenda foi rejeitada pelo Congresso.
Recebeu 298 votos favoráveis, 65
contrários e 3 abstenções. 113 deputados (todos do então PDS) não compareceram. Faltaram 22 votos para a
aprovação. Mas a luta pelas Diretas
Já ajudou a mudar a dinâmica política,
consolidando a vertente que prevaleceria nos meses seguintes, com o fortalecimento das oposições democráticas, a eleição de Tancredo Neves no
Colégio Eleitoral no final do ano e o início dos trabalhos que levariam à plena
constitucionalização do país em 1988.
As ruas de 1983-1984 joga-
de modo a que o povo – com suas demandas mais urgentes e radicalizadas
– dela participasse somente de modo
subsidiário, mais como espectador do que
como agente.
Algum paralelo pode ser
traçado entre o movimento de 1984
e outros dois grandes momentos de
presença popular na política brasileira:
o que ajudou a que se decretasse o
impeachment do presidente Fernando
Collor, em 1992, e as impressionantes
manifestações que, em 2013, tomaram
as ruas de inúmeras cidades.
Se na luta pelas diretas e
pelo impeachment a agenda esteve
dada pela dimensão imediatamente
político-institucional, em 2013 as
ruas foram além: pediram tudo, ou
quase tudo, fazendo isso de modo desorganizado e sem uma agenda clara.
Se, em 1984, tinha-se pelas costas um
regime que há duas décadas rebaixara
a cidadania e a democracia e criara
Deputado Dante de Oliveira, no plenário
ram, assim, papel decisivo na redemocratização brasileira, obrigando-nos a relativizar
a ideia de que nossa transição teria sido
excessivamente “transada”, negociada
um país todo torto, deseducado para
a vida cívica e a prática democrática,
em 2013 o que se questionou não foi
uma herança autoritária mas a baixa
50
qualidade da democracia, as falhas da
política, a inoperância dos governos,
a corrupção excessiva, o fracasso das
políticas públicas e, sobretudo, a
falta de perspectivas para o futuro.
Lá atrás, no momento mais
estratégico da transição, os democratas estavam juntos, procuravam articulação e se orientavam pelo desejo
comum de ver o país reorganizado.
Não escondiam suas diferenças, mas
davam mais valor ao que os aproximava do que ao que os afastava. Hoje,
os democratas se deixaram corroer
pelo que os separa, não conseguem
organizar nenhum projeto suprapartidário e assistem, cada qual no seu
canto, ao país avançar meio fora de
controle e sem coordenação.
Não se deve, evidentemente,
levar esse paralelismo longe demais.
Entre 1984 e 2013 foram tantas as mudanças estruturais, as transformações
socioculturais e as alterações no modo
de vida que não seria exagero dizer que
se estaria a visualizar, na comparação,
dois países distintos, unidos por fios
de continuidade que foram se apagando
com o tempo. A transição democrática
não foi “revolucionária”, mas se fez
acompanhar de uma revolução. A
sociedade que a iniciou foi-se modificando com o passar dos anos e
chegou, três décadas depois do Comício das Diretas, a assumir outra feição,
outro molejo cultural, outra dinâmica
política. Nos anos 1980-1990, a sociedade era mais simples e a política
ainda se fazia à moda antiga, com
partidos dotados de algum poder de
agenda, governos de coalizão que se
dispunham a seguir programas claros,
cidadãos que buscavam canalizar suas
demandas pelas instituições políticas,
comícios de massa. Aos poucos, tudo
isso foi evaporando, impulsionado
pelo capitalismo global turbinado, pelas ondas hipermodernas da sociedade
em rede, pela corrosão do poder do
Estado, pela força do mercado, pela
fragmentação geral que complicou os
movimentos da sociedade civil. Processadas e assimiladas, as marcas dos
anos ditatoriais (1964-1984) seriam
sentidas por muito tempo.
Desdobramentos de 1964
Os acontecimentos de 1964
foram um ponto de inflexão na história
brasileira. Naquele ano, não houve
apenas um golpe no Brasil, mas uma
alteração nas formas do Estado e na
qualidade do processo sócio político.
A ditadura combinou-se simultaneamente com os grupos dominantes
mais atrasados e com o grande capital
monopolista, promovendo uma rápida
e desigual modernização. Colocou em
prática uma política econômica voltada para a produção de bens de consumo duráveis, favoreceu as grandes
empresas nacionais e estrangeiras,
capitalizou e reprivatizou a economia,
reduziu salários e estimulou um verdadeiro "inchaço" do sistema financeiro.
Modernizou o país, mas não de forma
sustentada ou consistente, na medida
em que recheou de artificialismo a estrutura produtiva e implicou elevado
custo social.
A ditadura foi antidemocrática
e anticomunista, prendeu, espancou e
torturou, disseminou ódio e pavor,
abusou do arbítrio e da repressão. Seus
porões foram indignos e repulsivos.
Milhares sofreram barbaridades em
suas mãos, tiveram vidas destroçadas,
morreram trucidados e violentados.
O país explodiu em termos capitalistas. Expandiu suas forças produtivas,
estatizou-se como nunca dantes, internacionalizou sua economia, dinamizou
sua agricultura e se industrializou.
Urbanizou-se e movimentou-se freneticamente para todos os lados. Em
vinte anos, tornou-se outro: mais desenvolvido, mais moderno, mais deformado e injusto, radicalizando uma
tendência que vinha se acentuando
desde a década de 1950.
O Brasil converteu-se, assim, em uma vigorosa sociedade de
massas. Mas não conseguiu se livrar
de seus mais tristes e assustadores
fantasmas. A desigualdade social e
a injustiça na distribuição da renda
cresceram na mesma proporção em
que a economia capitalista se fortaleceu. Foi uma espécie de tragédia que
se projetou como uma sombra lúgubre
sobre as gerações seguintes, travando
o país e impondo-se como desafio a
todos os governos.
Os sucessivos governos
militares reproduziram os traços mais
perversos da história nacional e criaram muitas outras mazelas. Suas escolhas fragmentaram a sociedade em
compartimentos estanques, presos a
interesses particularistas e desejosos de
um diálogo direto com o Estado, sem
a mediação de partidos ou de instituições representativas. A movimentação
social por eles ativada, ao se divorciar
51
52
o fim de uma época e deu passagem
a uma nova dialética entre o Estado e
a sociedade.
O país avançará rumo ao
final do século de modo não linear.
Conhecerá uma Constituição “cidadã”
em 1988, voltará a eleger seus presidentes, normalizará a vida democrática, domará o monstro da inflação,
tomará consciência da questão do Estado e da gestão pública, mergulhará
na globalização. Mas continuará claudicando na área social, que não mudará
significativamente de perfil. Por volta
de 2000/2001 – década e meia após o
retorno da democracia –, o Brasil continuaria a exibir níveis vergonhosos de
pobreza. Houve melhorias tópicas na
distribuição de renda, mas nada se traduziu em termos de qualidade de vida
ou de melhores indicadores sociais.
O século XXI chegará com um
enorme fardo nas costas. O país flertará com o neoliberalismo, ajustará seu
Estado, assistirá à ascensão política e
eleitoral do Partido dos Trabalhadores
(PT) e à consolidação da democracia.
As sucessões presidenciais irão se
fazer sem sobressaltos ou golpes de
mão. Ao mesmo tempo, o país irá se
globalizar e se conectar, adquirindo
doses adicionais de diferenciação e
fragmentação. Passará a conviver com
Mudanças e novos desafios.
uma complexa trama de problemas e
pressões difícil de ser decodificada e
assimilada. Tornou-se “hipermoderno”
sem ter conseguido ser plenamente
moderno. Ganhou uma agenda imensa, desafiadora, enigmática.
A sociedade não permaneceu
passiva. Ainda que esteja hoje cortada
por vetores de desinteresse político e
de individualização, muito fragmentada e dinamizada por um capitalismo
extremamente desregulado e competitivo, não se trata de uma sociedade
parada no tempo ou desinteressada de
seu futuro. Os protestos que em junho
de 2013 ganharam as ruas das principais cidades do país provam isso. A
seu modo, a sociedade continuou indo
à luta: questionando escolhas eleitorais, interpondo uma pauta “social” à
agenda política nacional, agitando-se
e protestando nas zonas rurais e nas
periferias urbanas, onde exibe seu
descontentamento e sua disposição
de mudar. Não se mostra facilmente
governável e tem cobrado alto preço
dos que se dispõem a tentar algum
movimento virtuoso de integração e
recomposição social. Mas está aí, às
portas do poder, nas ruas e nos campos do país. Diversificada, colorida,
fragmentada, tensa e contraditória.
O atual ciclo político do país
organizou-se impulsionado pelos
sucessos governamentais das duas
últimas décadas: a estabilização
monetária e o controle da inflação,
principal realização dos anos FHC, ao
lado da retomada do crescimento e do
início de um processo mais induzido
de distribuição de renda, ênfase introduzida pelos anos Lula. Esse legado
constitui hoje uma espécie de estrela
polar da sociedade brasileira, ainda
que não esteja plenamente consolidado. Nada parece indicar que o país
retrocederá desse ponto, seja porque
não deseja o retorno da inflação, seja
porque não aceita mais a desigualdade
e a exclusão como marcas distintivas
da nacionalidade.
Mas o período governamental
de Dilma Rousseff teve características
operacionais típicas e foi marcado pelo
estilo mais técnico e gerencial da presidente, que ajudou a embaralhar as cartas da política. Foi também condicionado pelos efeitos da herança negativa
dos governos anteriores.
Os governos FHC e Lula
deixaram, cada qual a seu modo,
pequenas bombas de efeito retardado, que não esgotaram seu potencial
complicador. Ambos se propuseram,
por exemplo, a reatar os laços com
o desenvolvimento, mas não conseguiram materializar nenhuma ideia
nova nesse terreno, com o que o país
voltou a crescer sem sustentabilidade,
fato que põe o futuro num quadro de
indefinição. Nunca o capitalismo foi
tão poderoso e tão hegemônico no país
quanto nos dezesseis anos desses dois
governos. Ambos também ajudaram a
estimular a sociedade a ver o Estado
com lentes distorcidas e maniqueístas:
ou como algo a ter seus custos sempre
mais minimizados, ou como uma Meca
a ser perseguida em busca de abrigo,
proteção e assistência. Contribuíram,
ainda que sem intenção deliberada,
para rebaixar a atividade política a
níveis sem precedentes de indigência
e falta de responsabilidade pública. Fizeram isso, entre outras coisas, porque optaram por organizar
governos de coalizão despojados de
substância programática ou ideológica, que levaram seus partidos, o PSDB
e o PT, personagens distintos mas
convergentes da social-democracia à
brasileira, a largarem pela estrada o
patrimônio reformista que haviam acumulado ao longo do tempo.
Como em outras passagens e
transições, o processo que se abrirá a
partir das eleições de 2014 terá de assimilar o legado positivo e a herança
negativa do ciclo anterior. Poderá
sem dúvida fazê-lo, mas não sem dificuldades. A sociedade brasileira,
por mais que persista a exibir traços
de vida tradicional, continuou a se
modernizar de forma acelerada nos
últimos anos. Não se mostra como objeto modelável por governos e partidos,
ainda que não queira se ver livre deles
e consiga reconhecer sua relevância.
Tornou-se uma sociedade difícil de ser
governada, até mesmo porque é muito
diferenciada e fragmentada e não encontra pontos de unificação e organização efetivamente eficientes. Mas
é uma sociedade, ao mesmo tempo,
que se reposiciona e se recompõe o
tempo todo, que acessa sempre mais
os circuitos de informação e comunicação, que está se tornando reflexiva
e refratária a comandos unilaterais de
autoridade. Mesmo que de maneira
não sistemática, está reconhecendo
que precisa encontrar novos mecanismos de convivência e de estruturação
coletiva, que não tolham a liberdade
nem a individualidade, possibilitem a
correção dos desníveis sociais e facilitem a introdução de outros critérios de
igualdade e justiça social.
Marco Aurélio Nogueira é Professor Titular
e Diretor do Instituto de Políticas Públicas e
Relações Internacionais-IPPRI, da Unesp. Integra a Comissão de Orientação da Cátedra Unesco
do Memorial da América Latina. Autor, dentre
outros, de As ruas e a democracia. Ensaios
sobre o Brasil contemporâneo. Brasília, FAP; Rio
de Janeiro, Contraponto, 2013.
Fotos:Grmisiti
da democracia, apresentaria muitos
traços pré-políticos. A recessão posterior ao fracasso do “milagre econômico” (1968-1973) faria com que o país
ingressasse numa espécie de guerra
de todos contra todos.
Quando, no início de 1980,
a transição democrática se fixou no
horizonte, ela será vivenciada por uma
sociedade em estado lastimável, verdadeira Babel onde se falavam línguas
diversas e se entrecruzavam tempos
históricos variados. Uma sociedade
que, a rigor, não estava preparada para
neutralizar o asfixiante controle do
Estado, promover uma rápida ruptura
com o autoritarismo e impulsionar a
transformação política do país.
Em decorrência, a abertura
foi sempre marcada por uma pressão
democrática que crescia sem conseguir se completar. Jamais deixou de
estar determinada pela tensão entre
um excludente projeto oficial de autorreforma e um processo político orientado em sentido popular-democrático.
Avançou de modo gradual, impulsionada por uma contestação delimitada
pelo calendário eleitoral e pelas mudanças que se operavam na estrutura
da sociedade. E não conseguiu derramar uma cultura democrática
consistente pelos canais de irrigação da sociedade.
Mas a aspiração por democracia, liberdade de opinião e maior competição política prevaleceria, como
uma exigência da sociedade que se
modernizava. Aos poucos, foi-se extenuando a capacidade de o regime
continuar detendo a iniciativa política.
A luta pela eleição direta do
presidente da República (1983-1984)
uniu as oposições num mesmo movimento tático, dando a elas condições
de desencadear uma grande campanha
popular de contestação e de vocalização de um desejo de mudar. Embora derrotada no plano parlamentar, a
campanha empolgou o país e produziu
a energia necessária para a manobra
final das oposições – a de reunir os
descontentes, atrair os dissidentes do
oficialismo e enfrentar vitoriosamente
o regime em seu próprio campo de
batalha, o Colégio Eleitoral.
A chegada ao poder da Aliança Democrática, em 1985, simbolizou
53
Mandela
Mandela (centro)
na sede
militar argelina
em 1962
com o
jornalista
exilado Robert
Resha (esq.)
e o comandante
Mohamed Lamari
o grande revolucionário
do século XXI
Em Estocolmo,
na Suécia, 1990
por Dojival Vieira
Nelson Mandela morreu no
dia 05 de dezembro passado aos 95
anos de complicações pulmonares, e
foi enterrado no dia 15, após receber
homenagens em todo o mundo – das
pessoas mais simples a chefes de
Estado. Sua vida, porém, continuará,
54
por séculos, fonte de inspiração para
todos os homens e mulheres – negros
ou não negros – que lutam por valores
perenes como o direito à igualdade
(vale dizer, o direito à não discriminação), a liberdade e a Justiça.
Nobel da Paz em 1994 pela
luta travada contra o odioso regime
do apartheid implantado na África
do Sul, após 1948 pelo Partido Nacional, que representava os interesses
dos afrikaners, Mandela tornou-se o
primeiro presidente negro na África
do Sul (1994/1999). Antes, passou 27
anos preso na Ilha de Roben, a oeste
do país, por suas ideias e por ser o
comandante do Congresso Nacional
Africano (ANC), partido do qual foi um
dos fundadores, que liderou a luta contra o regime.
Contudo, o legado que Nelson
Mandela – nascido Nelson Rolihlahla
Mandela em 18 de julho de 1918, filho
único do casal Henry Mgadia Mandela
e Noseki Fanny, que integrava antiga
família de aristocratas da casa real
de Thembu - deixou não foi apenas
político como, por exemplo, a lição de
desapego ao recusar todos os apelos
de que fosse candidato à reeleição e se
mantivesse no poder.
Também não será como
comandante militar do período em que,
empurrados à violência pelo regime
racista, o Congresso Nacional Africa-
no recorreu às armas, como gesto de
legítima defesa e único caminho para
botar fim à opressão e a violência.
O legado maior de Madiba,
como carinhosamente era chamado
pelos mais próximos e até pelos que à
distância se miravam no seu exemplo,
foi mostrar ao mundo que é possível
combinar combate à opressão com
doçura e odiar a opresssão sem odiar
o opressor.
Mais do que em palavras, esses valores estavam estampados no
rosto de Madiba por meio de um sinal,
perceptível por qualquer um e que podia ser entendido por qualquer língua e em qualquer lugar no mundo:
o seu sorriso.
Quando saiu da prisão, lá estava a sua marca: o sorriso de quem
não tinha guardado qualquer res-
sentimento, nem mágoas pessoais.
Quando na cerimônia de recebimento
do Prêmio Nobel apertou a mão do
representante do regime que o manteve preso e matou pela violência crua
e pela tortura como fez com outro
grande líder sul africano, Steve Biko,
lá estava o sorriso de Mandela a desarmar o espírito da revanche.
“Ninguém nasce odiando
outra pessoa pela cor de sua pele, ou
por sua origem, ou sua religião. Para
odiar, as pessoas precisam aprender,
e se elas aprendem a odiar, podem ser
ensinadas a amar, pois o amor chega
mais naturalmente ao coração humano
do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta,
jamais extinta”, costumava dizer.
55
A ética Ubuntu
No Brasil: em casa
Para se compreender a grandeza de Mandela pode-se voltar aos
muitos momentos de sua vida, desde
a aldeia em que nasceu e onde foi enterrado – Qunu – na província do Cabo
Oriental, passando pela sua trajetória
de iniciação e pelo começo de sua luta
na Faculdade de Direito, onde se tornou advogado e ativista.
Mas, será certamente, no
sorriso desarmado e doce, a marca
de tudo o que foi e fez na vida até
tornar-se inspiração permanente –
como “uma melodia que continuará”,
no dizer do parlamentar sul-africano
Bantu Holomisa, presidente do Partido
Movimento Democrático Unido.
Suas convicções e sua
firmeza aliada a postura que ensinou
ao mundo – o respeito ao outro e a
tolerância - só podem ser entendidas
à luz do Ubutun, a palavra que etimologicamente nasce das línguas dos
povos bantu, zulu e xhona, e sintetiza
mais que uma filosofia: trata-se de
uma ética, que pode ser traduzida por
“eu sou porque nós somos”, “eu existo
porque nós existimos”.
Para o teólogo congolês
Bas’llele Malomalo, ubuntu traduz a
cosmovisão africana de que toda
existência é sagrada, ou seja, há um
pouco do divino em tudo o que existe.
Mandela esteve no Brasil por
duas vezes, na primeira vez em 1991,
logo após sua saída da prisão, quando
passou pelas cidades do Rio de Janeiro, Brasília, Vitória, São Paulo e Salvador ao longo de cinco dias, acompanhado da segunda mulher Winie, e
na segunda, já como presidente eleito,
em 1998.
No Rio, foi recebido por uma
multidão de 40 mil pessoas, na Praça
da Apoteose, ao som da música Sob o
sol de Johannesburgo, composta especialmente em sua homenagem por
Martinho da Vila. Quando perguntaram
como se sentia, respondeu bem humorado sem esconder o cansaço pela
longa jornada de cinco dias: “Quase fomos mortos de tanto amor. Agora estou preparado para encontrar Holyfield
ou Mike Tyson”, brincou.
Na segunda vez, em julho de
1998, desembarcou, em plena lua de
mel, após dois dias do seu terceiro
casamento com Graça Machel, a
viúva de outro grande líder africano,
o herói da independência de Moçambique do jugo colonial português,
Samora Machel.
Ao tomar contato com a realidade da desigualdade sociorracial brasileira, Mandela disse ter sentido um
forte “sentimento de amargura” entre
os negros brasileiros e que a discrimi-
A luta de Mandela teve ressonância nos
Estados Unidos onde a população negra
também sofria segregação racial
nação racial ainda existia aqui.
Na Bahia, em 1998, já como
presidente foi recebido por uma multidão, que se reuniu para saudá-lo na
Praça Castro Alves, em Salvador. O
ativista do movimento negro baiano
e ex-presidente da Fundação Cultural
Palmares, autarquia vinculada ao
Ministério da Cultura, foi o apresentador da homenagem e lembra ainda hoje
com emoção: “Tive a oportunidade de
conhecê-lo pessoalmente, era o apresentador do evento que tinha como
objetivo maior saudá-lo e reverenciá-lo
por sua gigantesca vitória, além, evidentemente, de fortalecer a nossa luta
contra o racismo no Brasil. Foi uma
noite memorável, milhares de pessoas
(em torno de 80 mil) tomaram a Praça
Castro Alves cantando e dançando em
homenagem a Mandela”, relata.
A postura de Mandela era
parte de sua convicção e já havia sido
demonstrada, quando, uma vez eleito,
ao invés de buscar vingança, dedicou
ao mandato energia e liderança para
pacificar o país, como no episódio retratado no filme Invictus, estrelado por
Morgan Freeman, ao utilizar a partida
final do campeonato mundial de Rugby, - esporte odiado pelos negros –
para unir o país em torno de uma equipe
majoritariamente formada por brancos,
que naquele momento simbolizavam a
recém-criada nação sul-africana.
Também no estabelecimento da
Comissão da Verdade e da Reconciliação,
mais uma vez, se veria a tradução da
ética Ubuntu: os opressores e torturadores do regime tiveram a oportunidade de revelar seus crimes e se
desculpar publicamente das atrocidades cometidas, evitando-se o verdadeiro banho de sangue que, inevitalmente, ocorreria caso prevalecesse
o desejo da revanche e vingança. Para
os negros brasileiros – que constituem
50,7% da população do país, de acordo
com o Censo do IBGE 2010 – Mandela será sempre o símbolo maior
da luta por igualdade, por um país
justo e solidário, sem racismo
nem discriminação.
Será também a fonte de
inspiração e de lições para formas
de luta contra o racismo, capazes de
abranger a todos – negros e não negros – com firmeza, altivez, determinação, mas jamais com ressentimentos que nos dividam, francionem e
fragilizem: afinal, como bem o dizia
Madiba “ressentimento é como beber
veneno e, em seguida, esperar que ele
mate seus inimigos”.
Dojival Vieira é jornalista, diretor da Afropress
e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.
Divulgação
Nelson Mandela, com o
então governador Leonel
Brizola em 1991, quando
ainda não era presidente
da África do Sul e nem
havia ganho o Nobel da
Paz. Veio ao Rio para
participar de discussões
sobre o racismo e curtiu,
ao lado da então mulher,
Winnie, o samba de
Martinho da Vila
Invasão policial em Soweto, em 1986
56
57
Negros no Brasil
O direito à cidadania continua distante
O Mapa da Violência em suas
várias edições, inclusive, na última de
2.013, repete um dado que, de tão
conhecido começa a se banalizar: de
acordo com o Mapa, realizado pelo
Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), com apoio
do Ministério da Justiça, negros são
maioria entre as vítimas de homicídio – a principal causa de mortes não
naturais e violentas entre jovens. De
2002 a 2010, dos 231 mil homicídios
de jovens, 122,5 mil eram negros, o
que corresponde a 53%. No mesmo
período foi registrado um aumento de
18,4% nos casos de negros assassinados, enquanto entre os brancos o
número diminuiu em 39,8%.
A situação no mercado de
trabalho não autoriza otimismo: o IBGE
acaba de divulgar nova pesquisa em
que aponta que, em 2013, pretos e par-
dos ganharam, em média, pouco mais
da metade – 57,4% - dos salários dos
trabalhadores brancos. A média salarial, segundo o IBGE, de um negro é de
R$ 1.374,79, contra R$2.396,74 para
trabalhadores brancos.
Os dados mais recentes
do Laeser (Laboratório de Análises
Econômicas, Historicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais) levantam um aspecto, normalmente ignorado e que desmente o senso comum de
que os baixos salários, o subemprego,
a ausência nos postos de mando e
comando nas empresas seriam decorrência da pouca formação escolar. A
educação, embora seja fundamental
para enfrentar o racismo e a cultura
discriminatória – que nada mais são do
que a expressão da ignorância – não
basta em si:
Com instrução (11 anos ou mais de estudo) ou sem instrução ou menos de
1 ano de estudo, persiste um abismo
de diferença nos salários: brancos tem
rendimento médio real de R$ 2.897,89
contra R$ 1.657,00 de pretos e pardos
– nas situações em que ambos tem 11
anos ou mais de estudo (veja tabela).
Paradoxalmente, a tabela mostra
que é exatamente na condição de
sem instrução ou menos de 1 ano
de estudo, que negros se aproximam
mais dos salários dos brancos, mesmo
que continuando em desvantagem: R$
844,62 contra R$ 823,37. Todos os
dados disponíveis de estudos acadêmicos e dos mais prestigiados institutos de pesquisa (IBGE, Dieese, IPEA,
Fundação Seade) têm sido recorrentes
e não autorizam grande otimismo, apesar de avanços pontuais, a começar
pela maior visibilidade do tema nos meios
de comunicação e na mídia em geral.
O acesso à cidadania e a direi-
tos como o de ter salário igual, morar
com dignidade e não em habitações insalubres e sem saneamento, um sistema de saúde capaz de ampará-los quando precisam; ser tratado como cidadão
pelo aparato do Estado e não como
“suspeito padrão” como frequentemente ocorre: o direito de acesso à
justiça em igualdade de condições,
continuam distantes da população negra brasileira.
Divulgação
por Dojival Vieira
ações por racismo e injúria racial nos
Tribunais de Justiça de todos os Estados da Federação e no Distrito Federal
entre 2007 e 2008, expôs com a eloquência dos números o retrato da impunidade: “os réus ganharam as ações
em 66,9% dos casos, contra apenas
29,7% das situações em que os tribunais deram vitória às vítimas.
Se conseguem sobreviver
a um sistema judicial que tem um
“olhar enviesado” para negros (não
custa lembrar o professor emérito da
Faculdade de Geografia da Universidade de S. Paulo, Milton Santos, uma
das maiores autoridades mundiais em
Geografia Humana, morto em 2001,
para quem “ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar
vesgo e ambíguo”) o jovem negro não
escapa da violência que rotineiramente o
condena à morte.
A Chacina da Candelária, ocorreu na noite de 23 de julho de 1993, próximo à Igreja da Candelária, no centro do Rio de
Janeiro. Onde, seis menores e dois maiores de idade sem-teto foram assassinados por policiais militares
Vinte e cinco anos depois da
Constituição de 1988 entrar em vigor,
garantindo a todo o brasileiro o acesso
a direitos fundamentais como o de expressão e manifestação, e definindo o
racismo como crime inafiançável e imprescritível (art. 5º), o acesso à cidadania continua sendo um sonho para os
negros brasileiros que correspondem a
50,7% da população, de acordo com o
Censo do IBGE 2010.
A Abolição que, no ano passado completou 125 anos, não se traduziu na inclusão dos descendentes
dos escravizados que, desde o primeiro Censo realizado no país em 1872,
58
sempre representaram a maioria. Essa
maioria, contudo, está bem representada nos presídios, nas periferias das
grandes cidades, no subemprego, nos
espaços reservados à pobreza e a miséria, mas muito pouco – ou quase
nada - representada no mercado de
trabalho, nos espaços de maior visibilidade social e de poder.
Segundo dados do Conselho
Nacional de Justiça, recentemente
divulgados, os negros, por exemplo, constituem maioria na população
carcerária e no sistema prisional – são
54% dos 584 mil presos.Os números
são tão eloquentes que o Conselho,
este ano, decidiu fazer pesquisa para
saber se os jovens negros sofrem algum tipo de discriminação no sistema
judicial, quando se encontram na condição de réus. A pesquisa que será
conduzida pelo Departamento de Pesquisas Judiciárias do órgão, muito provavelmente, avaliam os especialistas,
confirmará os dados do Laboratório
de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), coletados pelo professor Marcelo
Paixão, da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ).O relatório de
Paixão, também recente e que analisou
julgamentos em segunda instância nas
59
e a discussão dos novos caminhos para a produção e circulação audiovisual da região
por Francisco Cesar Filho e Jurandir Müller
Ângelo Antônio, ator do filme Entre Vales,
de Philippe Barcinski, 2011
“Discutir a singularidade estética da cinematografia latino-americana
e fomentar os novos caminhos da coprodução e circulação de bens audiovisuais da região” – assim foi definida
a missão do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo quando
de sua criação, ocorrida em 2006 por
iniciativa do então Secretário de Estado
60
da Cultura de São Paulo, o cineasta
João Batista de Andrade. Apontando
claramente para uma vocação que
vai além da exibição de filmes, sejam
obras recentes ou históricas, tal enunciado também distingue a iniciativa de
outros eventos congêneres realizados
no Brasil e em outros países da América Latina. E talvez explique a razão
do festival ser reconhecido pela crítica
especializada como o mais importante
festival latino-americano do país.
Ao promover atualização
constante da produção audiovisual da
América Latina e revisitar grandes marcos de sua história cinematográfica, a
qualidade da proposta curatorial adotada certamente, é responsável pelo
Fotos:divulgação
Festival de Cinema
Latino-Americano
de São Paulo
imediato sucesso de público alcançado
e, ao mesmo tempo, desempenha papel importante no prestígio crescente
alcançado no Brasil e no exterior junto
aos profissionais da área. Em linhas
gerais, o eixo central do desenho de
programação adotado reúne títulos
inéditos e destacados das recentes safras, retrospectivas focadas em movimentos divisores, homenagens a autores fundamentais, uma competição
com filmes de formatura de cursos
superiores audiovisuais (promovido
em parceria com a Cilect - International Association of Film and Television Schools) e programas especiais.
Ressalte-se que a produção televisiva
mais empenhada artística e culturalmente encontra-se aí contemplada.
Mas, além das projeções nas
telas do Memorial da América Latina e
de diversas outras salas da capital paulista e do interior do estado, nas quais
é destaque no calendário cultural, o
Festival de Cinema Latino-Americano
de São Paulo dedica generoso espaço
para discussões e debates, seminários
e ciclos, oficinas e laboratórios de desenvolvimento de projetos. Reunindo
expoentes internacionais da prática e
da reflexão do campo das imagens em
movimento, estas atividades tornaram
o evento como momento estratégico
para se conhecer e se avaliar as novas
perspectivas da produção e da circulação de bens culturais audiovisuais de
toda a América Latina e Caribe.
Assim, logo em sua edição
inaugural, em julho de 2006, um alentado ciclo de debates colocava em
pauta questões como a distribuição e
exibição alternativas e as novas modalidades de difusão televisiva.
Também discutiu-se o papel histórico do cineclubismo e dos chamados
novos cinemas dos anos 1960 (reunindo
cineastas como o venezuelano Edmundo Aray, o chileno Miguel Littín, o
brasileiro Nelson Pereira dos Santos
e o argentino Octavio Getino). Finalmente, conceitos sofisticados como A
Invenção da Fronteira, A Invenção do
Caminho e A Desinvenção da Fronteira
mereceram diálogos públicos com participação de críticos e cineastas – entre
outros, Andrés Wood (Chile), Eduardo
Escorel (Brasil), José Carlos Avellar
(Brasil), Juan Carlos Cremata Malberti
Cena do filme 3, de Pablo Stoll, 2012
61
(Cuba), Kiko Goifman (Brasil), Lírio
Ferreira (Brasil), Marcelo Céspedes
(Argentina), Marcelo Gomes (Brasil),
Marcelo Piñeyro (Argentina), Mario
Handler (Uruguai), Pablo Trapero
(Argentina), Pedro Butcher (Brasil),
Roberto Gervitz (Brasil), Santiago
Loza (Argentina). Estes encontros
foram transcritos no livro “Ciclo de
Debates - 1º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo 2006”,
organizado por Maria Dora Mourão e lançado em 2008.
Parcerias de produção já estavam no centro de um dos debates
realizados no ano seguinte, significativamente ao lado de uma análise das
novas geografias produtivas da região
(com presenças da equatoriana Tânia
Hermida, da paraguaia Gália Gimenez
e do uruguaio Sebástian Bednarik) tema que mereceu continuidade na
terceira edição do evento, desta vez reunindo Alejandro Legaspi (Peru), John
Petrizelli (Venezuela) e Sergio Wolf
(Argentina). Ainda em 2007, atores do
México e do Brasil, fotógrafos argentinos e brasileiros, e professores da
Argentina, México e Brasil debateram,
respectivamente, interpretação, ensino e
62
imagens do atual cinema latino-americano. Destaque absoluto em 2008, a
mesa “Realidade: Apreensão e Representação” foi por muitos considerada
histórica, ao colocar lado a lado, pela
primeira vez, três autores brasileiros
de propostas radicais e distintas: o mineiro Cao Guimarães, o pernambucano
Cláudio Assis e o paulista radicado no
Rio de Janeiro Eduardo Coutinho.
A terceira edição marcou
ainda o início dos laboratórios de coprodução, definitivo mergulho do festival no fomento a essa modalidade
de realização. Em parceria com a FIA
(Fundación para la Investigación del
Audiovisual), Universidade de São
Paulo e Cilect, tiveram lugar cinco
oficinas de formação e capacitação
em audiovisual para produtores, diretores, roteiristas e distribuidores.
Contando com professores vindos da
Argentina, Espanha e México, as oficinas tiveram como propósito “incentivar a discussão das co-produções
internacionais e fomentar parcerias
entre países ibero-americanos”. Os
temas: “Desenvolvimento de Projeto:
Pitching, O Papel do Produtor e A Criação do Roteiro”, “Estratégias de Co
Produção”, “Formas e Estratégias de
Financiamento: Como Captar e Gerenciar Recursos Internacionais”, “Marketing e Investigação de Mercado” e
“Modelos e Novas Formas de Exibição
e Distribuição”.
Diante bem-sucedida acolhida,
o seminário internacional proposto em
2009 teve por temas a co-produção, financiamento, desenvolvimento de projetos, marketing e modelos de negócios, contando com profissionais da
Argentina, Brasil, Espanha, Itália e México. E culminaria, a partir de 2010, na
criação de um evento autônomo e de
grande procura: o BrLab – Laboratório
de Desenvolvimento de Projetos Latino-Americanos, cujas três primeiras
edições foram de responsabilidade da
Associação do Audiovisual, entidade
organizadora do Festival de Cinema
Latino-Americano de São Paulo.
Entre os debates da quarta
edição do evento, “Cinema da América
Latina e Internacionalização” trouxe
uma mesa expressiva, com Carlos
Cuarón (diretor de “Rude e Brega”,
México), Camilo Matiz (diretor de
“1989”, Colômbia), Fabiano Gullane
(produtor da Gullane Filmes, Brasil)
com profissionais da América Latina e
da Europa debatendo metodologias de
trabalho, desenvolvimento tecnológico
e conteúdo audiovisual, de maneira a
fortalecer atuações regionais e criar um
projeto comum de alcance continental
com foco na formação de público para
esta cinematografia. Estiveram representados projetos da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Holanda, México,
Uruguai e Venezuela. Também teve lugar o 2° Encontro de Film Comissions
da América Latina, uma parceria com o
Ecine – São Paulo City Film Commission e a Abrafic - Associação Brasileira
de Film Commissions que contou com
presenças de iniciativas da Argentina,
Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru,
Uruguai e Venezuela.
Em 2012, mais duas novas frentes ligadas à produção e coprodução cinematográfica foram
criadas pelo Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Uma
delas, o Prêmio Finaliza 2012, selecionou sete longas-metragens brasileiros em fase de pós-produção para
concorrer a serviços de laboratório
no valor equivalente a R$ 99,4 mil.
A iniciativa, inédita em festivais brasileiras, foi fruto de parceria entre a
Associação do Audiovisual, a Cinecolor
Digital e o Programa Cinema do Bra-
sil. Seu vencedor, eleito por um júri
internacional, foi o longa-metragem O
Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra.
Também definido por júri internacional, o Prêmio Itamaraty para
o Cinema Sul-Americano é uma promoção anual feita em parceria com o
Ministério das Relações Exteriores do
Brasil. A premiação, de R$ 90 mil, é
destinada a filmes contemporâneos
da programação do festival que sejam
realizados em regime de coprodução
envolvendo pelo menos dois países da
América do Sul. Foram contemplados,
em 2012, “3”, de Pablo Stoll (Uruguai,
Argentina, Alemanha, Chile) e “Um
Mundo Misterioso”, de Rodrigo Morena (Argentina, Alemanha, Uruguai); em
2013 o vencedor foi “Entre Vales”,
de Philippe Barcinski (Brasil, Alemanha, Uruguai).
Como se constata, em sua
trajetória de oito anos, o Festival de
Cinema Latino-Americano de São
Paulo já representa papel central na
discussão dos novos modelos de
produção audiovisual da América Latina. E é só o início.
Francisco Cesar Filho e Jurandir Müller
são diretores do Festival de Cinema
Latino-Americano de São Paulo.
Philippe Barcinski, vencedor do
festival em 2013, com o filme
Entre Vales
63
Fotos: acervo do Memorial da América Latina
Fotos:divulgação
Um Mundo Misterioso,
de Rodrigo Morena, 2011
e Jorge Sanchez (então diretor geral
do Festival de Cinema de Guadalajara,
México). Em 2010, o papel da coprodução internacional foi atualizado
em discussão reunindo o produtor
Pablo Rovito (Argentina) e o professor e roteirista Joan Álvarez (Espanha). No mesmo ano, uma série
de oficinas abordaram estratégias de
coprodução e difusão; crítica cinematográfica; montagem; roteiro;
e direção e criação cinematográfica.
Um time estrelar de roteiristas - como Miguel Machalski (França/
Argentina), Fernando Bonassi (Brasil),
Jorge Durán (Chile/Brasil) e Jean-Claude
Bernardet (Brasil) -, e os produtores
Gustavo Montiel (México) e Clélia
Bessa (Brasil) estiveram no centro dos
“Diálogos BrLab”, ocorridos em 2011.
Um representativo debate sobre
“Televisão Brasilera: Desafios Criativos” contou com Regina Gambini,
gerente adjunta do SescTV; Renato
Nery, então gerente de coprodução e
políticas publicas da TVCultura; Rogério Brandão, gerente de programação
da TV Brasil; Vanessa Cardim, gerente
de produção e ativos do Canal Futura;
e Malu Viana Batista, diretora executiva
da TAL – Televisión América Latina. E,
pela primeira vez no Brasil, ocorreu
uma edição do Encontro da Rede de
Cines Itinerantes da América Latina,
América Latina
por
Tânia Rabello
em
Como chegar
São Paulo
A cada edição focamos um país da região :
EQUADOR
Em 2013 foi inaugurado o
voo direto entre São Paulo e Equador.
Os voos da companhia aérea equatoriana Tame Airlines saem de São Paulo
todas as terças, quintas e sábados e
passam por Quito, finalizando a viagem
em Guayaquil. Até então, só era possível acessar o Equador fazendo escala
no Panamá ou em outros países.
Viajar
É difícil indicar, no Equador,
qual rumo seguir para conhecer a
fundo o país latino-americano. Apesar de pequeno, com apenas 256 mil
quilômetros quadrados (pouco maior
do que o Estado de São Paulo, que
tem 248 mil quilômetros quadrados),
o país oferece paisagens tão diversificadas que, a não ser que o seu território seja totalmente percorrido, vão
ficar faltando regiões importantes para
visitar. A oeste está o Oceano Pacífico,
com praias paradisíacas. Rumo ao
leste, país adentro, logo se alcançam
as altitudes extremas da Cordilheira
dos Andes, com vários vulcões, alguns
ainda ativos. Mais a leste, a floresta
amazônica, de biodiversidade extremamente rica, encanta o visitante.
Mas a principal e imperdível
atração do Equador são as ilhas Galápagos, a mil quilômetros da costa
equatoriana. Por meio das observações
dos animais que fez ali, o naturalista
britânico Charles Darwin lançou as
bases da sua teoria da evolução,
contida no livro A Origem das Espécies, em 1835. São 13 ilhas principais
que compõem o arquipélago de Galápagos, além de dezenas de outras
ilhotas no Oceano Pacífico. Ali vivem
iguanas, leões-marinhos e tartarugas gigantes, e também albatrozes e
tentilhões-de-Darwin.
A principal porta de entrada
para as ilhas é pela ilha de Santa Cruz,
servida pelo aeroporto de Baltra. O local com as melhores acomodações turísticas é Puerto Ayora, de onde sai a
maioria dos passeios. Entretanto, para
conseguir aproveitar melhor o tempo,
várias operadoras de turismo oferecem
pacotes nos quais o viajante pode dormir no barco, que se desloca de ilha
em ilha à noite, quando todos dormem.
Se você não enjoar durante o trajeto,
esta é a melhor opção.
Em Quito: o site do Lonely
Planet Brasil (lonelyplanetbrasil.com.
br) elegeu o Equador como a quarta
melhor viagem entre os dez países imperdíveis em 2013. Segundo o site, a
rede ferroviária do Equador, reformada, tem novas linhas chegando Quito,
a capital, ao porto de Guayaquil. Além
disso, a linha férrea ligará a capital
ao famoso vulcão Cotopaxi, de 5.900
metros, e o Nariz Del Diablo, que
promete ser o trecho de estrada
ferroviária mais íngreme do Ocidente.
Ilhas Galápagos
64
Vestir
Chapéu Panamá
Engana-se quem pensou que
o famoso adereço é originário do país
de mesmo nome. O chapéu panamá
surgiu, na verdade, no Equador, onde
é chamado de el fino. Este modelo de
chapéu, feito com a palha da planta
Carludovica palmata, pode ser encontrado em São Paulo em algumas tradicionais chapelarias. Entre elas, a Plas,
na Rua Augusta, 724, Centro, e-mail
[email protected], tel. (11) 34598173 e 3257-9919.
Comer
São Paulo não dispõe de
nenhum restaurante de comida típica
equatoriana. Entretanto, a culinária do
país, apesar de muito diversa (devido
à diversidade de climas e regiões, com
floresta, costa, ilhas e montanhas), tem
vários ingredientes básicos facilmente
encontrados na capital paulista, como
peixes marinhos (para um ceviche, por
exemplo); banana (a fruta mais popular
do Equador, usada em grande variedade de pratos); arroz e tubérculos
como batata, mandioca e batata-doce.
A iguaria mais típica e que só se encontra em pet shops em São Paulo, porém,
é um porquinho-da-índia, o cuy, que
desde antes da colonização espanhola é consumido pelos indígenas. No
Equador, é servido assado na brasa,
no espeto.
65
O país dos vulcões
Ler
São 64 vulcões, dos quais
11 ativos em um território semelhante
ao do Estado de São Paulo. Assim é o
Equador, país pródigo nesse tipo de
formação geológica – ele está situado
no chamado Anel de Fogo do Pacífico,
que atravessa praticamente todos os
continentes, formando uma linha contínua de vulcões. Comenta-se que, de
•
Com o pano de fundo da
década de 60, onde a juventude participava ativamente da luta por ideais
políticos, Entre Marx y una mujer desnuda
de Jorge Enrique Adoum mostra a
atormentada relação de um grupo de
jovens ativistas com sua realidade, a
filosofia marxista e o sexo no Equador.
Momentos em que a revolução parecia
estar logo na esquina e onde tudo era
proibido, até o amor.
El Altar
cada três equatorianos, um vive aos
pés de um vulcão. O Equador tem,
até, uma estrada no coração do país
batizada de Avenida dos Vulcões, na
Cordilheira dos Andes. Nesta estrada, que parte de Quito, a capital, em
direção ao sul, pode-se conhecer nove
entre os dez picos mais altos do Equador, além de oito vulcões, em paisagens de perder o fôlego.
Cotopaxi
Ilinizas
•
Outra pedida para quem quer saber mais sobre o Equador e aprecia a natureza
selvagem, em um livro em inglês, Lonely Planet Ecuador & The Galapagos Islands, vendido no Brasil, pode se admirar a fauna e a flora de Galápagos com uma coleção de fotos
que são verdadeiros cartões postais.
Cultivar
Orquídeas – o Equador é um
dos países mais ricos nesta flor, contando com 1.714 espécies endêmicas,
incluindo a menor orquídea do mundo,
com apenas 2,1 milímetros. A Associação Orquidófila de São Paulo (www.
aosp.com.br) promove, anualmente,
•
Entre os mais importantes escritores equatorianos, está Jorge Icaza
(1906-1978), romancista da época do
indigenismo. Seus livros, porém, não
foram traduzidos para o português.
Assim, é possível encontrar vários deles (entre eles En las calles; Cholos; El
chulla Romero y Flores) no site Estante
Virtual (www.estantevirtual.com.br).
Além disso, no site www.literaturaecuatoriana.com há uma imensa lista de
escritores daquele país desde o século
20 até inícios deste século.
na Rua São Joaquim, 381, no bairro
da Liberdade, uma grande exposição
de orquídeas. Em 2014, ela será realizada entre os dias 14 e 16 de março.
No ano passado, trouxe, pela primeira
vez, orquídeas do Equador, por meio
da empresa equatoriana Equagenera.
Web
Na Biblioteca Virtual da América Latina (www.bvmemorial.fapesp.br) há inúmeras informações, em português, sobre o Equador, com indicativos de vários sites sobre os seguintes assuntos: o país, artes, arquivos, bibliotecas, bibliotecas
digitais, fundações, governo federal, jornais eletrônicos, literatura, museus, revistas eletrônicas, turismo e universidades.
Menor Orquìdea do
mundo da família
Platystele
66
EMBAIXADA DO EQUADOR NO BRASIL
Fica em Brasília, DF
Site: www.embequador.org.br
Endereço: SHIS QL 10, conj. 8, casa 1, Lago Sul, tel. (61) 3248-5560
67
Imagem da edição
“
Leia também a revista
Nossa América no site
www.memorial.org.br
Intervenção policial no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. SBC. 1980. Foto de Juca Martins
68
69
Shows
Exposições
Eventos
70
Praça de lazer
Publicações
Infocentro
Biblioteca
Congressos
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50 anos do - Memorial da América Latina