nossa américa y o h Revista do Memorial da América Latina 04 - 2014 / R$ 5,90 50 anos do Golpe Militar de 1964 Situação do negro no Brasil pouco muda em duas décadas MEMORIAL 25 ANOS XII Jogos dos Povos Indígenas reúne 1600 índios de 16 países Confira nesta edição: dicas do que se tem do Equador na cidade 3 Índice Editorial João Batista de Andrade América Latina Luis Fernando Ayerbe 05 06 XII Jogos dos Povos Indígenas Tânia Rabello Índios Online Beatriz Marmol 12 16 Memorial 25 Anos Daniel Pereira VISITE O NOVO MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 São Paulo, SP, ao lado da estação Barra Funda do metrô Barra Funda Karla Oliveira 18 28 O Homem que Amava os Cachorros Leonor Amarante Livros Joelma Gomes 32 36 Ditadura Militar Eduardo Rascov Colecionador de fotos do Golpe de 64 Leonor Amarante 38 41 Diretas Já Marco Aurélio Nogueira Mandela Dojival Viera 48 52 Negros no Brasil Dojival Viera Festival de Cinema Francisco Cesar Filho e Jurandir Müller 56 58 Equador Tânia Rabello Imagem da Edição por Juca Martins 62 66 4 5 GOVERNADOR GERALDO ALCKMIN MARCELO ARAÚJO FUNDAÇÃO MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA CONSELHO CURADOR PRESIDENTE ALMINO MONTEIRO ÁLVARES AFFONSO SECRETÁRIO DA CULTURA MARCELO ARAÚJO nossa SECRETÁRIO DA CULTURA américa DIRETOR JOÃO BATISTA DE ANDRADE EDITORA EXECUTIVA/DIREÇÃO DE ARTE LEONOR AMARANTE SECRETÁRIO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA ASSISTENTE DE REDAÇÃO REITOR DA USP DIAGRAMAÇÃO RODRIGO GARCIA MARCO ANTONIO ZAGO REITOR DA UNICAMP JOSÉ TADEU JORGE REITOR DA UNESP JULIO CEZAR DURIGAN MÁRCIA FERRAZ REVISÃO JOELMA GOMES KARLA OLIVEIRA REITOR DA FACULDADE ZUMBI DOS PALMARES COLABORARAM NESTE NÚMERO JOSÉ VICENTE PRESIDENTE DO CIEE RUY ALTENFELDER SILVA Beatriz Marmol, Daniel Pereira, Dojival Vieira, Eduardo Rascov, Francisco Cesar Filho, Joelma Gomes, Jurandir Müller, Karla Oliveira, Luis Fernando Ayerbe, Marco Aurélio Nogueira, Mylene Lyra e Tânia Rabello. DIRETORIA EXECUTIVA DIRETOR PRESIDENTE JOÃO BATISTA DE ANDRADE DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS DA AMÉRICA LATINA MARÍLIA FRANCO DIRETOR DE ATIVIDADES CULTURAIS LUIZ FELIPE BACELAR DE MACEDO DIRETOR ADMINISTRATIVO E FINANCEIRO NOSSA AMÉRICA HOY é uma publicação bimestral da Fundação Memorial da América Latina. Redação: Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664. Prédio da Administração, 2º andar, sala 5. CEP: 01156-001. São Paulo, Brasil. Tel.: (11) 3823-4669. Vendas: (11)3823-4618 Internet: www.memorial.sp.gov.br Email: [email protected] SERGIO JACOMINI CHEFE DE GABINETE IRINEU FERRAZ Os textos são de inteira responsabilidade dos autores, não refletindo o pensamento da revista. É expressamente proibida a reprodução, por qualquer meio, do conteúdo da revista. DIRETOR PRESIDENTE MARCOS ANTONIO MONTEIRO DIRETOR VICE PRESIDENTE MARIA FELISA MORENO GALLEGO DIRETOR INDUSTRIAL IVAIL JOSÉ DE ANDRADE DIRETOR DE GESTÃO DE NEGÓCIOS JOSÉ ALEXANDRE PEREIRA DE ARAÚJO Capa: Foto Repressão à Greve dos Bancários. SP. 1979. Autor: Juca Martins 6 W Editorial 25 anos de Memorial ARTHUR GUMIERI DE SOUZA RENATO LUIZ CANEVER PRESIDENTE DA FAPESP CELSO LAFER hoy Ao completar 25 anos, o Memorial da América Latina mostra vigor ao participar do processo de renovação, em lugar de se deixar dragar pela cultura da queixa e do imobilismo. Uma corrente de brasileiros e estrangeiros tem nos ajudado na superação do tempo recente que vai ficando para trás e dá espaço a uma energia vital que nos impulsiona para o futuro e atiça a imaginação criadora. Isso toca todos os funcionários do Memorial, protagonistas permanentes das cíclicas transformações. O Memorial é uma instituição que, aos olhos da cultura nacional, ganha muitos contornos e realidades. Sem o Auditório Simón Bolívar, temporariamente em fase de restauração, nossa programação será concentrada na praça onde se encontra a Mão da América Latina, imenso palco sem fronteiras, onde tudo se movimenta de acordo com nossa situação de cidadãos contemporâneos dessa imensa metrópole. Nesta quarta edição da revista Nossa América Hoy o jornalista Daniel Pereira repercute fatos e eventos relevantes que marcaram o Memorial, nesse quarto de século, e algumas personalidades que deram brilho à nossa história. Os 50 anos do golpe militar de 1964 quando o Brasil, sob a intervenção, viveu seus anos de chumbo, é o tema abordado pelo jornalista Eduardo Rascov. O período sob domínio dos militares também é revivido na valiosa contribuição do colecionador cearense Silvio Frota, empresário e proprietário de primoroso acervo iconográfico sobre a ditadura, que concedeu entrevista à editora Leonor Amarante. Depois de 20 anos de regime militar, o povo foi para as ruas e exigiu Diretas Já com manifestações que explodiram em várias cidades do Brasil. O famoso Comício da Praça da Sé, em São Paulo, completou 30 anos no último 25 de janeiro e foi um marco desse anseio geral e o local foro das grandes manifestações e protestos que se seguiram e que depois viraram showmícios. Esses eventos foram o embrião dos movimentos que recentemente vêm tomando conta das avenidas paulistanas e de várias outras cidades do Brasil. Quem comenta é o sociólogo Marco Aurélio Nogueira. O bairro da Barra Funda sofre intensas mudanças arquitetônicas e sociais impulsionado pela construção do Memorial onde hoje se instalam shopping centers, galerias de arte, centros culturais, casas de espetáculos, torres de escritórios e novos bairros dentro do bairro. Acompanhando o movimento global, a América Latina também sofreu mudanças substanciais nos terrenos político, econômico e cultural, de 1989 até hoje, e quem analisa é o historiador Luis Fernando Ayerbe. Em entrevista exclusiva à jornalista Tânia Rabello, líderes de diferentes etnias da América Latina relatam e reivindicam maior proteção aos direitos e integração das comunidades indígenas. Eles participavam dos XII Jogos dos Povos Indígenas, em Cuiabá, que reuniu 1600 índios de 46 etnias de 18 países. A situação dos negros no Brasil pouco mudou nas duas últimas décadas, como constata Dojival Vieira, diretor da Afro Press e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em artigo repleto de dados pouco animadores, neste momento em que o mundo perdeu o líder Nelson Mandela. Para finalizar, o escritor cubano Leonardo Padura, autor do sucesso editorial O Homem que Amava os Cachorros, que trata do assassinato do Trotski e de seu algoz Ramón Mercader, concedeu entrevista, de sua casa em Cuba, à revista Nossa América Hoy. Boa leitura ! João Batista de Andrade Cineasta e Presidente da Fundação Memorial da América Latina. 7 AMÉRICA LATINA 1989 - 2014 imagens fotograma O “fim da história” que não aconteceu por Luis Fernando Ayerbe 8 9 10 e 70 a região foi governada predominantemente por forças políticas nacionalistas ou socialistas. Seriam elas as responsáveis pela bomba relógio de pobreza, subdesenvolvimento, déficit público, endividamento externo e inflação que explode concomitantemente à transição democrática, contaminando a percepção dos anos 1980 com o rótulo de década perdida da economia. No entanto, o que prevaleceu de fato nos trinta anos prévios foi a imposição de regimes militares que buscaram legitimar-se pelo discurso do combate ao comunismo e ao “populismo”. De quem era então a responsabilidade pelos descaminhos que o novo “consenso” prometia consertar? A ideologia acabou solapando a perspectiva histórica, compondo um relato de época que se tornou hegemônico. O momento de auge coincidiu com as administrações de Bill Clinton (1993-2001), que passa a apregoar uma política externa de promoção da democracia e do livre-mercado. Coerentemente, anuncia nova divisão do mundo em quatro categorias de países, ainda vigente: o “Núcleo Democrático”, correspondente aos Estados do capitalismo avançado, combinação “virtuosa” de liberdade política e econômica, ponto de chegada da civilização; os “Estados em transição”, em processo de adesão à ordem liberal; os “Estados fora-da-lei”, patrocinadores da desestabilização e do terrorismo, e os “Estados falidos”, em que a ausência de governabilidade os torna santuários de atores ilícitos. Como parte do estímulo à ampliação dos “Estados em transição”, Clinton institui nas Américas uma diplomacia de Cúpulas Presidenciais. Na primeira, realizada em 1994 em Miami, o mandatário estadunidense delimita os contornos políticos e econômicos da iniciativa: Cuba está excluída sob o argumento de que seu sistema político não é democrático, será criada uma Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA). Aprovação unânime que se mantém na segunda cúpula em Santiago do Chile, em 1998. Na Cúpula de Quebec de 2001, já na gestão George W. Bush, houve apenas uma voz dissonante, o presidente venezuelano Hugo Chávez, que durante os dias do Acima: Augusto Pinochet, ex-presidente do Chile; abaixo: Hugo Chávez ex-presidente da Venezuela Acima: atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; abaixo: ex-presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush Fotos: divulgação Em 1989, parecia que o mundo finalmente transitava pelos trilhos de uma das utopias evolucionistas do século XIX, conduzido por quem estrearia em breve o título de única superpotência, Estados Unidos. Coube a um ideólogo do establishment cunhar a famosa frase: trata-se do “fim da história”, em que a derrota da União Soviética estaria encerrando as disputas sistémicas até então enfrentadas pelo “capitalismo democrático e liberal”. Em termos de impacto, depois do leste europeu, em que a transformação atingiu existencialmente o que era conhecido como Socialismo Real, foi na América Latina que a prédica de “ausência de alternativas” adquiriu status dominante nas políticas de Estado. Os evolucionistas receiam de pontos fora da curva, o que não se aplica aos Estados Unidos, cujos presidentes se orgulham em enaltecer o excepcionalismo do país. Por convencimento ou falta de opção, os governantes eleitos das nossas nascentes democracias foram aderindo paulatinamente à aplicação de políticas que, desde o final do século XVIII, se creditavam como responsáveis pela excepcional trajetória do vizinho do norte. O nome do receituário era autoexplicativo: Consenso de Washington. Nas recomendações sobre como liberalizar a economia, dois exemplos regionais eram cita importante, o Chile de Pinochet e a Bolívia de Paz Estenssoro pós-1985, precursores da desregulamentação do mercado interno, privatização de empresas públicas e abertura externa. Para impulsionar o processo, o presidente George H. W. Bush lançou o Plano Brady, ao qual aderiram as três maiores economias da região, com graves dificuldades para cumprir com os compromissos das suas dívidas e qualificar-se para renegociá-las e aceder novamente ao crédito internacional. O México foi o primeiro, seguido pela Argentina e finalmente o Brasil. A América Latina adotava aquela utopia evolucionista que sempre “teimou” em evitar, insistindo em “populismos” distributivistas que, finalmente, pareciam tornar-se pesadelo do passado. A dificuldade dessa leitura é que transmite a ideia de que entre 1950 11 Evo Morales, presidente da Bolívia No caso já mencionado de Hugo Chávez, eleito pela primeira vez em 1998, exerce o poder em sucessivas reeleições até o seu falecimento em março de 2013, instituindo um processo de mudanças que combina políticas sociais redistributivas no plano interno e um protagonismo regional de oposição à arquitetura hemisférica proposta por Estados Unidos, materializado na criação da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) em 2004. No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, assume a presidência 12 em 2003, reeleito em 2006 e sucedido em 2011 pela sua ex-ministra Dilma Rousseff, dando forte impulso à agenda interna de combate à pobreza e no âmbito externo à promoção de mecanismos regionais de articulação. O país atua decisivamente na criação da União Sul-americana de Nações (Unasul) em 2008 e da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) em 2010, iniciativas que estabelecem equidistância com relação aos Estados Unidos. Na Argentina, as presidências de Néstor Estados Unidos de inclusão da ALCA nas discussões, o que na prática paralisou, desde aquele momento, a iniciativa lançada por Clinton. Um mês após a Cúpula, Evo Morales, do Movimento ao Socialismo e liderança dos camponeses indígenas plantadores de coca, torna-se presidente da Bolívia, sendo reeleito em 2009. No Equador, Rafael Correa derrota em 2006 o candidato conservador Álvaro Noboa e em 2013 é reeleito para um novo mandato, interrompendo a trajetória de sucessivas crises que tema extraoficial inevitável imposto a Barack Obama, ao ponto do presidente colombiano Juan Manuel Santos, anfitrião da última reunião, solicitar que esse fosse o último encontro sem a participação da Ilha. Como mencionamos anteriormente, os evolucionismos receiam do imponderável. Para os saudosos dos consensos dos anos 1990, o que vem acontecendo na região há mais de uma década seria um acidente de percurso na contramão da história. Novamente, a ideologia busca solapar a realidade. O porquê do retorno ao topo da agenda das políticas sociais distributivas e da construção de autonomia decisória nas relações exteriores resiste perspectivas obtusas do estilo “recaída populista tipicamente latino-americana”. Após breves anos de euforia, os dogmas sobre a virtuosa desregulamentação dos mercados se chocaram com uma realidade internacional altamente desafiadora: o “efeito tequila” a partir de dezembro de 1994, em que a desvalorização abrupta do peso mexicano leva Clinton a liberar em- Rafael Correa, presidente do Equador Kirchner, que assume em 2003, e Cristina Kirchner, eleita em 2007 e reeleita em 2011, promovem a recuperação do país após a crise de 2001 que interrompeu o governo de Fernando De La Rua, adotando uma política externa de maior aproximação ao entorno latino-americano, revendo o alinhamento automático com Estados Unidos que prevaleceu nos anos 1990. O novo cenário político da América do Sul se expressa na Cúpula das Américas de Mar del Plata em 2005, quando Argentina, Brasil e Venezuela lideram o bloqueio à proposta dos tornaram inconclusas as presidências anteriores de Abdalá Bucaram, Jamil Mahuad e Lucio Gutiérrez. Durante as administrações de Morales e Correa, novas constituições institucionalizam formas de sociabilidade originárias do mundo andino pré-colombiano, e tanto Bolívia como Equador se tornam membros da ALBA. Nas Cúpulas de Trinidad y Tobago em 2009 e Cartagena em 2012, já sem a ALCA no horizonte, o outro componente que destacamos das convocatórias presidenciais iniciadas por Clinton, a exclusão de Cuba, torna-se préstimo de 50 bilhões de dólares para conter a sangria de reservas do país; a crise financeira asiática deflagrada no verão de 1997, atingindo Tailândia, Malásia, Indonésia, Filipinas e Coréia do Sul, com consequências ampliadas na Rússia, que declara moratória em agosto de 1998; o “efeito samba” pela desvalorização do real em janeiro de 1999, com impacto direto na Argentina, fortemente dependente das exportações ao Brasil, precipitando a crise que em janeiro de 2002 leva ao abandono do regime de câmbio fixo vigente desde 1991. Esse encadeamento de episódios, além de tornar explícita a vulnerabilidade das economias latino-americanas, comprometeu sua capacidade de crescimento, transformando os anos 1990 em uma nova década perdida, com a consequente impopularidade dos governos comprometidos com as reformas de mercado, que terminam incorporando o estigma do ajuste perpetuo, sem a contrapartida da prosperidade anunciada. O decênio posterior, marcado pela ascensão à presidência em vários países de lideranças de esquerda - ainda que de origens e posições diversas -, passa a ser reconhecido como década ganha da América Latina. Sob a chancela do crescimento, da diminuição da pobreza, da desigualdade e da projeção no cenário internacional, a região se revela menos vulnerável que os Estados Unidos e a União Europeia aos impactos da crise financeira deflagrada em 2008, considerada a mais grave desde 1929. Certamente, a realidade presente ainda está longe de “um outro mundo possível”. Assim como no passado, novos atores, com novas demandas, ideias e projetos, desafiam saberes convencionais e constroem histórias sem fim. Não é outra a mensagem aos atuais governantes dos movimentos sociais que se espalharam pelo Brasil em junho de 2013: o tempo não para (e a fila anda). Fotos: divulgação encontro questionou em entrevistas a meios de comunicação a exclusão de Cuba, e na assinatura da declaração final fez constar objeções à Cláusula Democrática aprovada na reunião e aos prazos estabelecidos para o processo de implementação da ALCA. O que naquele momento se apresentava como ruído isolado que não compromete o conjunto da obra, transforma-se em pouco tempo em discurso insistente de um crescente número de países, principalmente na América do Sul. Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI-Unesp). 13 XII JOGOS DOS POVOS INDÍGENAS por Tânia Rabello (colaborou Mylene Lyra) 14 Foto: Marcos Vergueiro Cuiabá reuniu 1600 índios de 46 etnias no A Corrida com Tora, prova disputada pelos Krahô, Xerente e Apinajé, está associada a ritos. Dois grupos rivais se revezam para carregar os troncos da palmeira Buriti, através de um mesmo percurso “Ambrósio Kaiwá era meu amigo... a última vez que falei com ele, estava feliz por participar de um filme que contava a história da luta de seu povo. Era um dos protagonistas... acho que o filme se chamava Terra Vermelha. Agora ele tombou dentro de sua casa e passa a ser mais uma vítima da violência anti-índio que assola Mato Grosso do Sul.” Assim ficou registrada, na página do Facebook do índio Marcos Terena, um dos pioneiros do movimento indígena do Brasil, mais uma morte de um índio por causa da disputa por terras no Brasil. Ambrósio Vilhalva foi assassinado, com punhaladas, no dia 1º de dezembro de 2013, em sua aldeia Guyra Roká, em Mato Grosso do Sul, e era conhecido por sua luta contra a invasão das terras dos guaranis por lavouras do agronegócio, principalmente a cana-de-açúcar. “Os assassinatos de líderes indígenas correm o risco de se tornar normais diante da omissão do Estado, fortalecendo as ações anti-índio nas regiões de conflitos por demarcação das terras”, declarou, à Nossa América Hoy, Marcos Terena. Comandados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), presidida pela senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) – que também integra a bancada ruralista, a mais poderosa do Congresso Nacional –, no Brasil atualmente são os grandes produtores rurais e o agronegócio que se têm revelado a principal ameaça à integridade dos povos originais do Brasil. Com declarações contra a demarcação de terras, Kátia Abreu constantemente incentiva os produtores a contestar a posse ancestral de áreas. A CNA já definiu, inclusive, entre seus desafios para 2014, “solucionar os conflitos envolvendo terras indígenas”. O governo federal, por sua vez, refém do poder econômico do agronegócio, responsável por 25% do PIB do País, e de uma aguerrida bancada ruralista no Congresso Nacional – que aprovou, contra a orientação governamental, no dia 10 de dezembro, a instalação de uma comissão que propõe que a demarcação de reservas indígenas passe a ser atribuição do Congresso Nacional, e não mais da Fundação Nacional do Índio, a Funai –, mantém-se “omisso”, como qualifica Marcos Terena. Percorrendo a América Latina tem-se a impressão de que o problema dos indígenas só muda de endereço, pois a luta entre o capital e os povos autóctones é uma constante “há séculos”, destaca Marcos Terena. No Chile, por exemplo, uma das principais disputas não é pela terra, mas pelo mar. Ali, os indígenas resistem à indústria do salmão, que pressiona pela transferência dos atuais criatórios – infestados por doenças devido à alta concentração de peixes em pouco espaço e contaminantes das águas marinhas – para o preservado litoral sul chileno, onde vivem, além de indígenas, pequenas comunidades de pescadores. É Juan Antonio Correa Cancin, um índio mapuche morador de Temuco, no sul do Chile, quem relata a gravidade do problema: “O governo protege a indústria do salmão”, diz. “No ano passado, por exemplo, dois indígenas foram assassinados por policiais e a Corte defendeu a ação violenta da polícia, transformando os índios culpados pela agressão.” Cancin, assim como índios de 48 etnias de várias nacionalidades das Américas do Sul, Central e do Norte estiveram no Brasil, em Cuiabá, em novembro, para os 12º Jogos Indígenas. De lá, ele falou à Nossa América Hoy. Observando-se os números 15 da indústria do salmão e o que ela significa em termos de divisas para o Chile, percebe-se por que ocorre tal proteção, em detrimento dos povos indígenas, à semelhança do que acontece no Brasil em relação ao poderio econômico do agronegócio. Em 2012, as exportações de salmão chileno alcançaram US$ 2,9 bilhões, com 488 mil toneladas exportadas – 15% delas para o Brasil, o terceiro maior comprador, atrás do Japão e dos Estados Unidos. Para os indígenas, segundo a socióloga argentina Norma Giarraca, da Universidade de Buenos Aires (UBA), só resta mesmo a legislação para defender-se deste poderio econômico. Mas as leis nem sempre funcionam. Embora os direitos indígenas estejam, efetivamente, garantidos pela legislação em vários países latino-americanos, como confirma o líder Marcos Terena, que foi um dos organizadores do evento em Cuiabá, “quando se trata de aplicar essas normas o sistema estatal encontra dificuldades, já que a força, a base política e os próprios interesses econômicos se tornam moedas mais fortes nessa relação, na qual o índio passa a ser um obstáculo para ações de interesse 16 Foto: Mylene Lyra Foto: Mylene Lyra Marcos Terena, líder da tribo Terena Quéchua Mario Santi, do Equador econômico”, diz o líder brasileiro, lembrando que Brasil, Colômbia, Equador e Bolívia – que conta, inclusive, com um presidente indígena, Evo Morales, da etnia uru-aimará – possuem as regras mais avançadas de proteção ao direito indígena. Na Argentina, as questões também não diferem muito das acima relatadas. Ali, a situação se agrava por causa da política neoliberal imposta pelo governo da presidente Cristina Kirchner, disfarçada de “desenvolvimento produtivo”, conforme destaca Norma Giarraca, em artigo sobre o tema. “Atividades extrativas como o agronegócio e a mineração, ou especulativas, como o negócio imobiliário, ameaçam bosques, montanhas, glaciares e os direitos das populações”, escreveu a socióloga. Carlos Ocampo, cujo povo é originário da província de Tucuman, no noroeste da Argentina, relata, também em Cuiabá (MT), que a principal questão da região é a disputa pelo território, no caso, entre indígenas e mineradoras de ouro e prata, além do agronegócio. “Estamos na luta constante para defender nosso território”, diz ele, comentando que o governo apoia, efetivamente, os mineradores. “Re- centemente houve uma morte de um indígena, Javier Chocobar, por causa de disputas territoriais”, lamenta Carlos Ocampo, lembrando ainda que até o momento não se fez justiça em relação ao crime. “Além disso, as populações indígenas na Argentina (são cerca de 20 etnias) estão muito dispersas, o que dificulta uma união maior”, conclui. No Equador, o primeiro país a reconhecer, em sua Constituição de 2008 os inalienáveis direitos da natureza, a principal contenda das populações autóctones tem sido com a indústria petrolífera, e, também, com a má vontade do presidente, Rafael Correa, em respeitar o artigo 71 da Constituição, atraído pelos bilhões de dólares que reservas de petróleo no meio de parques nacionais podem render. Em agosto, por exemplo, Correa anunciou que o Equador iria perfurar e extrair petróleo na floresta amazônica, nos campos ITT (Ishpingo, Tambococha, Tiputini), dentro do Parque Nacional Yasuni. Para desistir da exploração, Correa havia conclamado a comunidade internacional a fornecer US$ 3,6 bilhões ao longo de 12 anos – equivalente à metade do que o país ganharia com a retirada Matis Cara de Onça, índios da Amazônia do petróleo nesse período – em troca da preservação da floresta, da garantia dos direitos dos povos indígenas locais e da biodiversidade. O presidente equatoriano conseguiu “apenas” alguns milhões de dólares, insuficientes para barrar a exploração. O quéchua Mario Santi, participante dos Jogos Indígenas e que vive na porção da Amazônia Equatorial, rica em biodiversidade e florestas, se orgulha da constituição do Equador, mas garante que, muito além do artigo 71 e da política incerta de Correa em relação aos povos autóctones, as populações indígenas equatorianas têm procurado se organizar por conta própria. “Estamos tentando desenvolver nossa própria administração territorial e também um autogoverno, além de estabelecermos nosso próprio sistema de desenvolvimento”, diz Mario Santi, acrescentando que a população indígena tem pleiteado que se façam consultas prévias aos indígenas, seja por parte do governo ou dos grupos interessados na exploração de madeira, petróleo e da biodiversidade. “Nossa proposta é defender a selva”, diz Mario Santi, lembrando que, na ONU, o governo do Equador declara sempre que apoia os povos indígenas para obter verbas internacionais. “Temos, portanto, de fazer valer nossos direitos.” Como no Equador, em várias partes da América Latina, há, efetivamente, movimentos de resgate dos direitos indígenas, por iniciativa dos próprios. Em outubro de 2013, várias comunidades sul-americanas se reuniram no estado venezuelano de Bolívar para o lançamento do Mercosul Indígena, cujo objetivo, segundo anunciou na ocasião a ministra dos Povos Indígenas, Aloha Nuñez, é “a criação de um órgão especializado para o tratamento das questões comuns a esses povos dentro do bloco, além de reivindicar a identidade cultural originária da região e desenvolver foros para debater o tema da restituição de todo o patrimônio indígena confiscado”. Para Marcos Terena, a formação do Mercosul Indígena no Cone Sul, que reunirá países indígenas como Bolívia, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai e Brasil, instalados, em sua maior parte, em regiões que não fazem parte dos grandes blocos da geopolítica, como Amazônia e Andes, pode prestar uma grande contribuição. “Justamente por estarem, em grande parte, fora desses blocos mais visíveis, são as que mais têm sofrido as consequências e as discriminações de um desenvolvimento pobre e sem nenhum compromisso com um futuro melhor”, pontua Marcos Terena, acrescentando que “é preciso um movimento indígena independente, autônomo e capaz de enfrentar as ameaças de forma digna e com conhecimento de causa”. O caminho apontado já vem sendo seguido em ações pontuais. Além dos Jogos Indígenas que já ocorreram em 2013 em Cuiabá, em 2014, mais dois grandes eventos estão programados: a Conferência Mundial dos Povos Indígenas da ONU, em setembro, em Nova York, e os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em julho de 2014, em município ainda a ser definido, consolidando ainda mais a importância das nações autóctones para a evolução da humanidade e – por que não dizer? - a preservação da biodiversidade humana neste planeta. Tânia Rabello é jornalista e também colabora com a revista Brasileiros. 17 Índio também quer Tecnologia Livro de Eliete S. Pereira Site da aldeia Kamayura Fotos: divulgação Site da aldeia Tekoa Mboy-ty Gemerson, 14 anos, Tupinambá, internauta há algum tempo Espaço digital, inaugurado em 2012 pela Oca Digital por Beatriz Marmol O acesso à internet transpôs fronteiras e chegou para os povos indígenas, que por sua vez, sempre foram considerados e tratados como excluídos. Por meio de programas de inclusão vindos do governo, de fundações e ONGs, foram disponibilizados computadores para algumas aldeias, em meados de 2000. Mas era preciso treinamento, pois se tratava de uma ferramenta nova e com um mundo dentro dela. Muitos equipamentos foram abandonados na ocasião, justamente pela carência de capacitação, conexões lentas e falta de assistência técnica. Apesar de ser ainda um 18 pequeno passo comparado ao longo caminho à frente no qual a população urbana (os brancos) já se encontra, alguns índios que tiveram acesso à internet, começaram a desenvolver meios de gerar intercâmbio com outras tribos, através de sites e blogs, com suas mobilizações e a ter mais acesso às informações, direitos e educação. À medida que o mundo digital chega às aldeias, cresce a preocupação dos líderes mais antigos, de que é preciso saber usar e ter objetivos definidos para seu uso. A princípio, o maior interesse desses líderes, quanto a utilização da internet, é fortalecer a organização social e atualizar as políticas indígenas, em relação à sua gestão e ampliação político-social. Atualmente, é possível realizar muitas pesquisas deste universo, tanto sob o ponto de vista de estudiosos do tema, como dos próprios índios em seus blogs e portais. Um dos estudos feitos pela pesquisadora Eliete da Silva Pereira aborda o tema em seu mestrado intitulado ciborgues indígenas.br: a presença nativa no ciberespaço, onde mapeou os sites indígenas e avaliou o significado dessa interação entre os índios e o ciberespaço. Eliete coletou testemunhos de alguns índios que já faziam uso da internet, como o líder Marcos Terena: “os povos indígenas devem se apropriar das tecnologias, para proteger e disseminar os seus conhecimentos tradicionais” e ainda da militante Yakui Tapinambá, que a v a l i o u a importância desta ferramenta, dizendo que “não significa a perda da cultura do povo indígena e sim fortalecimento”. Diferentes tribos de todo o Brasil comunicam-se entre si e com a sociedade em geral, através do site indiosonline.net, que surgiu no Nordeste com a iniciativa dos próprios índios e funciona como um portal de diálogo, encontro e troca. Parece estranho afirmar que através de uma ferramenta tão moderna possam resgatar, preservar e atualizar sua cultura e história, mas tem sido justamente por esse meio, que vem sendo cada vez mais disseminados seus costumes e tradições. A internet tornou-se um canal focado no futuro, mas com um incrível poder de registrar o passado, sem deixar que ele perca sua relevância. A perspectiva é d e q u e a p o p u l a ção indígena tenha acesso ao que acontece no país e no mundo e que também seja agente for- mador de opinião e informação através do mesmo canal. O uso da internet pode colaborar para preservar sua história e promover o respeito pela diferença, pois a imagem romantizada de um índio intocável e afastado de qualquer progresso, não condiz com a evolução natural que toda e qualquer nação tem o direito de usufruir com livre arbítrio e eleger o que se faz necessário ou não, para sua existência. Beatriz Marmol é arquiteta e pesquisadora de blogs e sites. 19 MEMORIAL anos por Daniel Pereira O Memorial da América Latina celebra 25 anos de vida consciente de que fincou raízes no conceito da população como instituição cultural pluralista e vem desempenhando papel relevante na missão de encurtar a distância entre os povos irmãos de língua espanhola e dos países lusófonos. 20 Gestado nos ideais dos libertadores da América, o Memorial precisou superar o estigma de ter nascido sob o signo da desconfiança e de intrigas políticas e midiáticas nada edificantes para o processo de redemocratização que o país começava a experimentar no final dos anos 1980. Este recorte histórico é um dos temas da primeira edição de 2014 da revista Nossa América Hoy, um convite à reflexão sobre as lições que o passado deixa como contribuição para o futuro do Memorial em seu aniversário de 25 anos no próximo dia 18 de março. Um marinheiro de primeira viagem no Memorial da América Latina talvez não se dê conta, de imediato, do valor histórico e de quanta simbologia há impregnada nos acervos do monumental complexo arquitetônico e cultural que no dia 18 de março de 1989 mudou visceralmente a paisagem urbana da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista. A data será celebrada com pompa e circunstância, como a ocasião merece. Mas, coerente com a nova filosofia de gestão, e considerando que os tempos andam bicudos, será uma festa de viés mais popular, com atrações de qualidade e à altura do que os paulistanos e nuestros hermanos esperam. Uma breve digressão para lembrar quem somos a nós mesmos, como sugere Eduardo Galeano quando narra a saga dos desbravadores que libertaram a América do jugo espanhol (1). E também para não deixar no limbo a luta daqueles que, mais tarde, empunharam a bandeira da integração latino-americana, hoje hasteada em 84 mil metros quadrados no antigo bairro de operários e imigrantes onde, 100 anos antes, nasceu o samba paulistano. (2) De lá para cá a trajetória desse gigante de “arquitetura especulando no concreto”, como Niemeyer gostava de dizer, baloiçou várias vezes em águas turbulentas, mas nunca se desviou do norte indicado por Darcy Ribeiro, autor do projeto que daria o conteúdo cultural e político para alavancar, na figura do Memorial, o processo de integração latino-americana. O que os seus críticos se perguntam, ainda hoje, é: por que raios uma obra de tal grandiosidade justamente no Brasil, o menos latinoamericano dos países dessa banda do planeta e, mais ainda, em um nicho urbanístico degradado da zona oeste de uma cidade tão cosmopolita quanto São Paulo? Foi esse o tom dos petardos desferidos pela Imprensa de São Paulo, onde Folha e Estadão disputavam renhidamente a audiência de um ano eleitoral que prometia ser dos mais disputados. Curiosamente, a imprensa carioca não foi tão intolerante quanto os dois jornalões paulistas. O Jornal do Brasil, considerado o melhor do país por muitos anos, em manchete estampada na capa da edição daquele sábado, 18 de março de 1989, nomeou o Memorial como “O Megacentro cultural de SP. E não foi ironia. No dia seguinte, deu um verniz carioca ao editorial “Memorial, obra de engenharia política”, misto de resenha social e política, do qual vale a pena pinçar um trechinho pelo seu contexto histórico: “Todas as tendências ideológicas estiveram representadas...com este ecumenismo, o palanque armado para a cerimônia esteve animado. A começar pelo discurso de Niemeyer, que encerrou sua fala citando o ‘velho Marx’ – ele que era o único a ter tamanha intimidade com o autor de O Capital. (...) Cruzando com os jornalistas, Ulisses (Guimarães) brincou: Eu estou treinando para fazer campanha no Nordeste”. Já o então vetusto Estadão (histórico adversário do político Orestes Quércia), ignorou a cobertura factual da inauguração. Deu destaque à pauta política: era ano de eleições e 11 governadores do PMDB vieram a São Paulo prestigiar a festa do Memorial. Na terça-feira, 21(o jornal não circulava na segunda), porém, dedicou seu principal editorial a defenestrar a obra: um “atentado ao idioma em nome da integração com os povos vizinhos que custou a bagatela de 44 milhões de dólares norte-americanos”. Quando o Memorial fez 18 anos, em 2007, o jornal requentou as críticas (Grandioso, caro e ainda controverso”) mas, paradoxalmente, abre o texto com uma declaração capitular do arquiteto catalão Josep Maria Botey y Gomez : “O Memorial da América Latina criou uma memória visual para um lugar que não tinha paisagem”. A Folha também foi figadal, mas, pragmática e cautelosa, esbofeteou com a mão direita e afagou com a esquerda em editorial que pontuava o contraste entre a majestade do projeto e a “miséria do país e o imenso número de problemas sociais irresolvíveis”. Logo à frente, amenizou: “Por certo, não depende da decisão de construir ou não o Memorial o fim dos problemas sociais em São Paulo...uma vez concluída a obra, um sentimento de (1) A bem da coerência histórica é preciso admitir que o Brasil continua sendo o patinho feio da América Latina. Ainda recentemente um livro de geografia publicado nos Estados Unidos registrava Buenos Aires como capital do país. Numa sociedade consumista como a norte-americana, isso certamente contribuiu para manter aceso o equívoco geográfico, embora não seja mais relevante nos dias. A questão da latino-americanidade do Brasil - e o próprio conceito de América Latina foi abordada por vários historiadores, um dos mais recentes o inglês Leslie Bethell. Segundo ele, foi só a partir da segunda metade do século 20 que os Estados Unidos e o resto do mundo começaram a pensar o Brasil como parte integrante de uma região chamada Latin America. Nesse período surgiram os primeiros brasilianistas, como Ralph Della Cava, que apresentou o padre Cícero ao mundo e foi expulso do Brasil quando se manifestou contra a ditadura. Depois,Thomas Skidmore, professor de História da América Latina em Wisconsin, que publicou “De Getúlio a Castelo”. (2) O Brasil vivia a travessia para a democracia – cantada duas décadas antes por Milton Nascimento. No ano seguinte, tomaria posse o primeiro presidente eleito pós-brava, depois apeado pela mobilização dos caras pintadas. Foi nesse clima que nasceu o Memorial. “A integração da América Latina não será obra dos governos, mas de toda a sociedade” André Franco Montoro 21 pois que o cenário de terra arrasada deixado pelos regimes militares inviabilizou a consecução imediata dos objetivos alinhavados na criação de entidades como a Aladi (Associação Latino-Americana de Integração), que surgiu em 1980 como sucessora da Alalc (Associação Latino-Americana de Livre Comércio). Essas experiências seriam o embrião do Mercosul e o combustível a mover os que sonhavam com a criação de um locus como ponto de convergência da produção artística, cultural e acadêmica do continente, passo fundamental para promover a integração entre os povos da incipiente América Latina. Na proa dessa caravela estava Franco Montoro, que quando governador (1983-1987) criou o ILAM (Instituto Latino-Americano), com o objetivo de fomentar o intercâmbio cultural entre os países da região. O ILAM surgiu com um acervo de 10 mil títulos, entre livros, vídeos e fotografias relacionados à cultura da AL. Montoro tinha tanta convicção de que seu discurso um dia se transformaria em realidade que prometeu transferir aquele acervo para a futura biblioteca do Memorial – o que de fato aconteceu. “Político audaz, pragmático, mas sem o charme intelectual de seu antecessor”, na definição do historiador Shozo Motoyama, o vice-governador Orestes Quércia prestou atenção em tudo o que Montoro pregava e, quis a História que fosse ele, no mandato seguinte, o político que tiraria o Memorial do papel. Com as obras em andamento, Montoro deu a pincelada decisiva que definiria a missão do Memorial, ao fazer inserir o seguinte artigo na Constituição de 1988: “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”. Fotos: acervo Memorial da América Latina admiração predomina, irrefreável...”. Mais adiante, elogia, morde e assopra: “Uma obra de arte inquestionável, construída num ato de escárnio às carências da sociedade brasileira : o paradoxo, hoje clamoroso, talvez se desfaça com o tempo”. Puro Proust, pois o tempo se encarregou de mostrar que o Memorial é uma realidade que transcende a picuinhas políticas ou de etimologia. Basta ver a história. A razão e o porquê do seu nascimento remontam à saga dos heróis da independência dos países latino-americanos - Simón Bolivar, San Martin e José Marti -, passa pelas páginas infelizes das ditaduras militares e chega ao período de redemocratização, que veio embalada pelo ônus da instabilidade econômica causada por décadas de convulsões sociais. O processo de redemocratização iniciado com o fim das ditaduras seria o momento propício para impulsionar o projeto. Demorou um pouco, A fotógrafa Maureen Bisiliat e o antropólogo Darcy Ribeiro Ex-presidente de Cuba Fidel Castro e ex-governador Orestes Quércia “O Memorial é um ato por meio do qual todos nós nos assumimos como latino-americanos”. (Darcy Ribeiro, mentor intelectual do Memorial) O fator Darcy Nessa cruzada, enquanto Montoro agia nos bastidores da política, o etnólogo, antropólogo, educador e ensaísta Darcy Ribeiro fazia o discurso da persuasão como autêntico peregrino da causa latino-americana. Não hesitava em usar recursos irônicos para despertar corações e mentes. “A América Latina existe?”. Foi assim, provocativo, que abriu o debate em A América Latina: A Pátria Grande, título do ensaio que lançou no México em 1976. “Ainda hoje – cutucou Darcy nós, latino-americanos, vivemos como se fôssemos um arquipélago de ilhas que se comunicam por mar e pelo ar e que, com mais frequência, voltam-se para fora, para os grandes centros econômicos mundiais, do que para dentro”. Qual Dom Quixote moderno, Darcy Ribeiro incorporou os traços da personalidade de Simón Bolívar e José Marti e empunhou de forma inconfundível o estandarte dos ideais de 22 uma nação latino-americana mais “humana, generosa e aberta à convivência com todas as raças e culturas”. Não foi por acaso, portanto, que veio a se tornar mentor intelectual, incumbido de pensar as grandes linhas de atuação do Memorial. Ele mesmo fez questão de liderar uma visita de personalidades e jornalistas ao canteiro de obras do complexo arquitetônico, em fins de 1988, para anunciar as linhas de atuação do Memorial. “Já ali, dava uma definição que era uma resposta a quaisquer dúvidas sobre a condição de São Paulo como protagonista de uma missão integradora dessa natureza”, escreveria em artigo no jornal Folha de S.Paulo o ex-presidente Fernando Leça (2005-2012) na celebração dos 20 anos do Memorial. O efeito Quércia Eleito governador, Orestes Quércia ainda não havia tomado posse quando foi ao México e lá conheceu o Museu da Independência, onde estão as estátuas dos Libertadores da América. Ficou ofendido por não ter visto no mesmo panteão qualquer referência a José Bonifácio, patriarca da Independência do Brasil. O episódio foi narrado por Almino Affonso, presidente do Conselho Curador da Fundação Memorial da América Latina, na edição especial em homenagem a Oscar Niemeyer publicada em dezembro de 2012. Segundo Almino, à época vice-governador eleito, Quércia o chamou para um almoço, contou sua decepção com o que viu no México e assumiu o compromisso de levar adiante o sonho de Montoro e homenagear todos os que lutaram pela independência dos países latino-americanos, incluindo José Bonifácio. “Já trazia amadurecida a intenção de convidar Oscar Niemeyer para assumir o projeto”, que seria iniciado ainda no final de 1987, primeiro ano do governo Quércia. Hoje, José Bonifácio tem busto de bronze na Biblioteca Latino-Americana 23 Adolfo Bioy Casares Fernando Birri Fernando Leça e o Papa Bento XVI Com a benção do Papa Vista da Praça do Memorial com a instalação de Magdalena Fernández 24 “A América Latina será a grande potência sonhada por ele (Bolívar) quando cada um de nós souber respeitar as diferenças com o outro”. Recém-chegado ao cenário geopolítico da América Latina em 2010, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, escolheu o Brasil para sua primeira visita internacional e veio ao Memorial no início de setembro daquele ano. A declaração, diante do busto bolivariano, explicava o gesto de dias antes, quando hasteou bandeira branca para seus vizinhos da Venezuela e Equador. O presidente colombiano foi um dos tantos chefes de Estado que visitaram o Memorial nesses 25 anos. Especialmente quando o Parlamento Latino-Americano fazia parte do Memorial, por aqui estiveram Bill Clinton (EUA), Fidel Castro (Cuba), Hugo Chavez (Venezuela), Mickhail Gorbachev (União Soviética), César Gaviria (Colômbia), Mário Soares (Portugal), Eduardo Duhalde (Argentina), Carlos Mesa (Bolívia), Valentín Paníagua (Peru), Rodrigo Carazo (Costa Rica), Ernesto Peres-Balladares (Panamá) e, mais tarde, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Roussef. Essa galeria de celebridades teve seu ponto alto em 2007, na visita do Papa Bento XVI. O Memorial seria apenas o ponto de troca do carro que trazia o chefe da Igreja Católica do Mosteiro São Bento, pelo papamóvel panorâmico que o levaria para o Estádio do Pacaembu, onde se encontraria com a Juventude Católica. O forte esquema de segurança organizado pelo Exército e policias de SP era tão rígido que nem mesmo o presidente do Memorial à época, Fernando Leça, estava autorizado a entrar na Praça Cívica, onde o papa faria a troca. Foi quando o “acaso divino” entrou em cena: a fotógrafa oficial da comitiva papal no Mosteiro São Bento era, nada mais, nada menos, do que a artista plástica Angela Barbour, gerente da Galeria Marta Traba, no Memorial. Católica de carteirinha, Angela articulou a homenagem a Bento XVI – uma placa em frente da biblioteca -, intermediou com o militar que comandava a operação o acesso do presidente e dois jornalistas, e ainda convenceu o staff do Vaticano a levar Bento XVI até a escultura da Mão para uma benção aos países da América Latina. Artistas, Intelectuais e... A plêiade de notáveis do meio artístico que passa pelo Auditório Simón Bolívar dispensa comentários. A lista é longa e, só para registro, inclui nomes como os de Tom Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento, Toquinho, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Cauby Peixoto, Simone, Quarteto em Ci, Vânia Bastos, Fafá de Belém, Mônica Salmaso, Moraes Moreira, Raices de América, Hamilton de Hollanda, Trovadores 25 Fotos: acervo Memorial da América Latina Nestor Canclini Victor Civita. Em 1988 o canteiro de obras do Memorial lembrava um daqueles filmes épicos das Ilíadas ou das cruzadas que singravam por mares nunca dantes navegados. A grandiosidade do projeto exigia comprometimento e esforço concentrado – sentimentos que na reta final da construção moviam os 2.800 trabalhadores que se entregavam freneticamente para cumprir o cronograma de trabalhos e entregar a obra no prazo previsto. Uma das dificuldades que a legião de obreiros enfrentava era o terreno escolhido para a construção: um pátio de cargas da Fepasa (antiga Ferroviária Paulista S.A.), numa várzea do rio Tietê. Além disso, aquele era um “projeto de Niemeyer”, portanto, inédito, ousado e inovador do ponto de vista tecnológico. Fora do canteiro de obras, porém, um episódio de grande repercussão no contexto de críticas à iniciativa por pouco não inviabilizaria o início da construção do Memorial não fosse a mão firme e a vontade política de Orestes Quércia. Para evitar que o início dos trabalhos se atrasassem, o governador simplesmente descartou fazer licitação e, numa jogada arriscada ao limite, agregou o projeto à planilha de custos das obras do Metrô. Mais tarde, confessaria que “se fosse fazer concorrência, como manda o figurino, não sairia nada”. O formato proposto por Quércia foi aprovado pelo Tribunal de Contas do Estado, que deu razão ao governador por considerar que, aditado ao Metrô, o projeto saiu por um custo bem menor. Ex-presidente de Cuba Fidel Castro Ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton 26 Fotos: acervo Memorial da América Latina Urbanos, Zeca Baleiro, Agnaldo Rayol, Beto Guedes, Alceu Valença, Dominguinhos, Jair Rodrigues. E artistas internacionais, como Mercedes Sosa, Pablo Milanês, Paco de Lucia, Fito Paez, Libertad Lamarque, Piazzolla, Armando Manzanero, Balé de Cuba, Orquestra de Câmara de Florença, Filarmônica de Israel e maestro Zubin Mehta, Quarteto Debussy (França), Coral da Fundação Gulbenkian (Portugal). Nas artes plásticas e visuais, o Memorial recebe importantes mostras, a exemplo das retrospectivas de Johann Moritz Rugendas, Fernando Botero e Oswaldo Guayasamín, além de uma exposição dedicada ao escritor e fotógrafo Juan Rulfo. Em 2012, Guerra e Paz, de Portinari, atraiu ao Salão de Atos cerca de 250 mil pessoas e contribuiu para que o Memorial registrasse o seu maior público de todos os tempos, com cerca de 1 milhão e 200 mil visitantes no ano, segundo dados da Diretoria de Atividades Culturais. Diretores, atores, atrizes e dramaturgos da filmografia nacional e do continente marcam presença nos festivais latino e ibero-americano de cinema e de teatro. Aqui estiveram, entre muitos, Alberto Birri (Argentina), Miguel Littin (Chile), Paul Leduc (México), Fernando Solanas (Argentina), Octavio Getino (Espanha), Marcelo Piñeyro (Argentina), Nelson Pereira dos Santos, João Batista de Andrade (atual presidente do Memorial), Phillipe Barcinsky (Brasil), Lima Duarte, Denise Fraga, Fernanda Montenegro. Escritores e acadêmicos de expressão do cenário brasileiro e internacional frequentam seminários, palestras e fóruns organizados no âmbito da Cátedra Unesco-Memorial da América Latina, inaugurada em 2006 em parceria com USP, Unicamp e Unesp e cujo escopo é debater as questões sociais, culturais e políticas comuns aos países da AL. Nesses encontros aqui estiveram, entre outros: Bioy Casares, Adolfo Perez Esquivel, Néstor García Canclini, Stuart Hall, Antonio Callado, Thiago de Mello, Chico Buarque, Antonio Cândido, Haroldo de Campos, João Ubaldo Ribeiro, Alberto Dines, Nélida Piñon, Eduardo Galeano, Nicolau Svenko, Achille Bonito Oliva. Zubin Mehta, maestro indiano Astor Piazzolla, músico argentino Antonio Cândido, escritor brasileiro O Ballet Nacional de Cuba dirigido pela bailarina e coreógrafa Alicia Alonso inaugurou o auditório Simon Bolívar em 1989, onde voltou a apresentarse 17 anos mais tarde 27 Na virada para as comemorações de seu 25º aniversário, a nova gestão inspirou-se na metáfora de Castro Alves, “a praça é do povo, assim o céu é do condor” para flexibilizar a programação do Memorial e deixá-la com um perfil mais popular. Assim, a Praça Cívica ganhou parque infantil, pista de caminhada, equipamentos para ginástica, vaporizadores contra o calor, mesas e bancos sob as árvores, barracas de artesanato, de alimentação, tendas para descanso, livraria multimídia, brinquedos. Essas inserções na paisagem da praça vieram acompanhadas de uma programação eclética de lazer cultural que tem como base o Circo Paratodos, com capacidade para 350 pessoas, onde, todo fim de semana, são realizadas performances, espetáculos de teatro, contação de histórias, cinema, saraus, lançamento de livros, shows musicais e atividades de qualidade e perfil popular.. Não é uma mudança de paradigma, muito menos uma ousadia conflituosa com o projeto arquitetônico de Niemeyer. Pelo contrário. Quando bancou a aposta de dar um caráter mais popular ao Memorial, o atual presidente, João Batista de Andrade, não estava blefando.“Muitas pessoas sequer têm a curiosidade de entrar no Memorial porque não sabem para que serve aquele enorme espaço cimentado que é a Praça Cívica, e o que são os prédios brancos que a rodeiam. Precisamos mudar essa realidade. Acho que Niemeyer e Darcy Ribeiro ficariam felizes em ver a praça cheia de gente do povo.” Performance do Circo para Todos 28 O Memorial da América Latina é uma fundação de direito público, mantida pelo Governo do Estado de São Paulo. Tem área total de 84.482m² - dos quais, 20 mil m2 de verde - dividida pela avenida Auro Soares de Moura Andrade. Sua localização, ao lado do Terminal da Barra Funda – que integra metrô, trens e ônibus - contribui para que o Memorial seja um dos pontos mais visitados na capital. Acessibilidade universal: rampas, banheiros adaptados para cadeirantes e piso tátil em toda a sua área, além de totens com dispositivos de leitura em Braile instalados nos portões de entrada do conjunto. Mais de 1.200.000 pessoas passaram pelos diversos eventos realizados no Memorial em 2012, números que o colocam como a instituição pública mais visitada do país. A exposição Guerra e Paz, de Portinari, foi a principal atração da temporada, com cerca de 250 mil visitantes. O traço de Oscar Niemeyer, autor do projeto arquitetônico, garante a funcionalidade da estrutura e a adequação de suas instalações para abrigar eventos de todos os tipos e tamanhos. A concepção do projeto cultural idealizado por Darcy Ribeiro dá unidade às ações e atividades desenvolvidas em cinco edifícios. A Praça Cívica é o local de grandes manifestações e eventos populares e pode receber até 40 mil pessoas. Abriga o Salão de Atos, a Biblioteca Latino-Americana e a Galeria Marta Traba. No mesmo espaço fica a escultura Mão da América, autoria de Niemeyer, com 7 metros de altura, símbolo da saga dos libertadores da América e cartão postal da cidade. No outro lado, o Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro, o prédio da Administração e o Auditório Simón Bolívar que também tem dois anexos: Sala dos Espelhos e Congressistas. O prédio redondo de vidros negros onde funcionava o Parlamento Latino-Americano (Parlatino) hoje abriga a Secretaria Estadual da Pessoa com Deficiência. Acima: Concerto da Orquestra Filarmônica de Israel com regência de Zubin Mehta; abaixo: festa do Dia das Crianças, em 12 de outubro de 2013 Fotos: acervo Memorial da América Latina ...e povo Daniel Pereira é jornalista, escritor e assessor de imprensa do Memorial da América Latina. 29 Funda Barra Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico - em 1975 e em esfera municipal pelo Conpresp - Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo - em 1991. O imóvel localizado à rua Lopes Chaves, 546, projetado por Oscar Americano no início da década de 1920, é um sobrado geminado em estilo eclético, em alvenaria de tijolos. Atualmente pertence à Secretaria de Estado da Cultura e desde 1990 funciona como a Oficina da Palavra, cuja programação é voltada para o teatro e literatura. Em 1917 foi inaugurado o Teatro São Pedro construído pelo português Manuel Fernandes Lopes. Na época da inauguração o local foi classificado como o mais moderno e luxuoso da cidade de São Paulo. Possuía, na ocasião, 28 frisas, 28 camarotes, balcões com mais de 100 assentos, plateia para 800 cadeiras e uma geral para 1000 pessoas. Hoje, a capacidade é de 636 espectadores. O teatro é situado à esquina das ruas Barra Fun- A arquitetura atual do bairro com torres comerciais de vidros e aço escovado contrasta com os casarões do passado como o Teatro São Pedro por Karla Oliveira Fotos:divulgação Um passeio pela história da Barra Funda, região que corresponde à antiga Fazenda Iguape, propriedade de Antônio da Silva Prado, o Barão de Iguape, um importante aristocrata e político no Brasil Imperial - nos mostra como o bairro passou por radicais mudanças. Uma região que foi potencialmente industrial no passado - tendo grande destaque neste sentido, o conhecido Império Matarazzo, o maior complexo industrial da América Latina, que foi se enfraquecendo até se extinguir na década de 1980, atualmente, abre espaço para novos ares. Hoje é um dos bairros da cidade que mais cresce em termos de valorização. Em muitos aspectos a Barra Funda vem mudando sua cara, antes, galpões e fábricas, agora, novos edifícios comerciais e residen30 ciais, além de um forte comércio. São grandes centros de compras e serviços como hipermercados, shoppings, hotéis, casas noturnas, bares e diversas empresas. A região também conta com diferenciada infraestrutura de transporte público, com terminais de ônibus, metrô e trens nas imediações. A cultura e a arte possuem grandes espaços, lá estão fixados importantes patrimônios culturais do país. São construções que se estabeleceram, marcando época, e que merecem destaque especial, pontuam, ou pontuaram, física e culturalmente, o bairro, no contexto da cidade. O bairro expôs para o país grandes nomes, como Mário de Andrade, que nasceu e viveu na Barra Funda, que conserva até hoje sua antiga residência, a Casa Mario de Andrade que foi tombada em esfera estadual pelo Condephaat - Conselho de Defesa do 31 da e Albuquerque Lins. No ano 1989 foi concluída a construção do Memorial da América Latina, um grande complexo cultural inaugurado sobre o antigo Largo da Banana e projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Além disso, o bairro é endereço que atrai novos seguimentos ligados à cultura e arte, isto é notado por meio da ampla chegada de ateliês e galerias que se instalaram em antigos galpões e depósitos pela região. Estes locais oferecem exposições, cursos e aquecem o mercado de arte da região. O Bairro da Barra Funda é atualmente considerado o novo point de arte da capital paulista. Além de atrair artistas novos e consagrados, a região tem chamado atenção de empresários interessados em investir em cultura e negócios. Ambos apostam na arte popular como uma grande tendência. Um destes espaços é a Baró Galeria, referência na promoção da arte latino-americana. Dirigida por Maria Baró e Adriano Casanova, o local está instalado em um espaço de 1500 m de um antigo galpão de estacionamento. Nos últimos quatro anos, a galeria tem desempenhado um papel impor32 tante no circuito da arte internacional ajudando a estabelecer um intenso diálogo entre artistas, curadores e instituições culturais. Outra galeria encontrada no bairro é a Fortes Vilaça. Inaugurada em 2001, é hoje, no circuito mundial, referência do vigor e qualidade da arte contemporânea. Sob a direção de Márcia Fortes, Alessandra d’Aloia e Alexandre Gabriel, apresenta um programa dinâmico em que artistas brasileiros e estrangeiros, jovens e consagrados, realizam exposições ambiciosas. Mostras coletivas organizadas por curadores convidados também são frequentes no programa. Estas colaborações estendem-se para palestras e publicações. A Galeria participa das mais importantes feiras de arte internacionais. Também localizada na Barra Funda e com segunda filial na Vila Madalena, temos a Galeria Transversal, sobre arte contemporânea, que representa artistas consagrados e talentos emergentes, da pintura ao grafite, passando pelo desenho, gravura, escultura, fotografia, vídeo, instalações e intervenções urbanas. Outro seguimento de arte lo- Fotos:divulgação Galeria Baró espaço para arte contemporânea, ponto de encontro de jovens artistas. Nas paredes, obra do argentino Pablo Siquier calizado no bairro é o Ateliê LaTintota. Nesse espaço, artistas e pesquisadores de arte e tecnologia visam a expansão do campo de atuação e de difusão de trabalhos em ações coletivas. O LaTintota, que atualmente funciona como ateliê do grupo homônimo especializado em cenografia, está ampliando seu leque de atuação para se tornar um espaço de encontros para criação e estúdio de produção e gravação multimídia, com diversos tipos de produções artísticas. Seus criadores, o videoartista e artista plástico venezuelano Carlos Pedreañez, o designer e escultor Leonardo Ceolin, e o arquiteto e músico Flávio Lima, atuam no espaço desde 2006, criando cenários, esculturas, gravuras e música. Já trabalharam em parceria com diversos artistas como Jorge Garcia, André Gerreiro Lopes, Lívia Sabag, Ballet da Cidade, Marku Ribas, Rede Tranzmidias, Maria Bonomi, entre outros. E por falar em cultura, não podemos deixar de citar que a Barra Funda é considerada o berço do samba paulistano, onde se deu a origem de muitos grupos e blocos carnavalescos. Um dos pontos da cidade onde era possível encontrar amigos, tocar e dançar o samba era o largo da Banana – na Barra Funda – e nos becos do Bexiga. Alguns grupos ficaram conhecidos, como o Grupo dos Teimosos do Bexiga e o Bloco dos Boêmios da Barra Funda, que logo depois se transformaria em cordão famoso. O fundador dos cordões carnavalescos paulistanos, Dionísio Barbosa, morava no bairro desde 1906. Fundou o Grupo Carnavalesco Barra Funda. O nome do grupo mudou para Camisa Verde e Branco e passou a engrossar fileiras na luta por um carnaval paulista por várias décadas. A Barra Funda também abriga complexos esportivos. Neste bairro encontra-se a nova sede da Federação Paulista de Futebol, a FPF, fundada em 22 de abril de 1941, é a entidade máxima do futebol no Estado de São Paulo. Lá são organizados todos os torneios oficiais que envolvam as equipes do Estado, como o Campeonato Paulista, Copa São Paulo de Juniores - principal competição da categoria no país - e Copa Paulista de Futebol. A Federação responde à Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Dentro do prédio da Federação Paulista, situado na Rua Federação Paulista de Futebol, está o Museu Paulo Machado de Carvalho (Museu do Futebol), localizado no quinto andar, onde estão expostos diversos objetos e até mesmo a bola oficial da decisão da Copa do Mundo de Futebol de 1958, a primeira ganha pela Seleção Brasileira de Futebol. Também estão instalados no bairro o Estádio Palestra Itália, pertencente ao clube de futebol Palmeiras e os Centros de Treinamento (CT) do mesmo Palmeiras e do São Paulo F.C. A Barra Funda apesar de já ter mudado sua cara, ainda se encontra em processo de transformação. Os novos edifícios comerciais, residenciais, além do forte comércio, os grandes centros de compras e serviços, como os hipermercados, shoppings, hotéis, casas noturnas, bares, empresas e os novos seguimentos ligados à cultura e a arte, evidenciam que a o bairro vem se qualificando e se requalificando no cenário da cidade de São Paulo e indicam que sem dúvida o seu porvir será ainda mais promissor. Projeto do novo estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras, um marco da cultura italiana no bairro 33 O HOMEM QUE AMAVA OS À esquerda: Liv Davidovich Bronshtein conhecido com Leon Trotski, líder do Exército Vermelho, por volta de 1924, autor desconhecido. À direita ao lado: Ramón Mercader. Abaixo: Trotski no leito de morte O escritor cubano Leonardo Padura, debruçou-se sobre um dos crimes mais perturbadores do século XX, o assassinato de Leon Trostki exilado na Turquia, França, Noruega e, finalmente, no México, onde foi morto a mando de Stalin - e a história de seu algoz, o catalão Ramón Mercader, voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola. Padura, que é escritor de romances policiais, faz um mergulho 34 nas contradições das utopias revolucionárias. A trama se desenvolve em três momentos distintos - a Revolução Espanhola, a Revolução Russa e a Revolução Cubana. Em 1939 Jaime Ramón Mercader Del Rio entra no México com passaporte falso, sob o nome de Jacques Mornard, um negociante belga, com a missão de matar Trotski. Em 24 de maio de 1940 o plano de assassiná-lo não dá certo. Na segunda tentativa, Ramón se envolve amorosamente com Sylvia Agelof, secretária de Trostki, que facilita sua entrada na casa repleta de seguranças, em Coyoacán, bairro da cidade do México, onde ele o golpea na cabeça com uma picareta de alpinismo. Por telefone, de sua casa em Havana, Leonardo Padura dá entrevista para revista Nossa América Hoy. Fotos: divulgação por Leonor Amarante Acima: casa onde Trotski morou em Coyoacán, no México, e foi morto. Ao lado: Leonardo Padura durante visita ao túmulo de Ramón Mercader, em Moscou Arquivo pessoal CACHORROS 35 NOSSA AMÉRICA HOY – O quanto há de verdade e de ficção em seu livro Homem que Gostava de Cachorros? LEONARDO PADURA - O episódio sobre o assassinato de Trotski é o mais verdadeiro, porque sua vida está muito documentada. Meu livro começa no momento em que ele está exilado em Alma-Ata, do Cazaquitão, em 1934, justamente terminando sua biografia Minha Vida, que ele havia começado em 1930, quando foi expulso da União Soviética. Pesquisei bastante outros livros, muitos deles romanceados e tive que organizar tudo de maneira literária. Ao contrário de Trotski, praticamente não existe nada sobre Ramón Mercader porque ele sempre viveu na clandestinidade. Isso dificultou qualquer acesso a uma biografia documentada, mas ao mesmo tempo me permitiu ter uma maior liberdade de ficção. A parte cubana é totalmente imaginada. O personagem Yvan foi criado e nessa história entra em cena todo meu conhecimento da vida de meu país. N. A. H. – O que o impulsionou, verdadeiramente, a escrever essa trama policialesca? L. P. – O Século das Luzes, de Alejo Carpentier, que trata de como a Revolução Francesa se perverteu e como foi perversa com muito militantes que a ajudaram a triunfar. O Homem que Amava os Cachorros, 36 também. Stalin teve um papel decisivo na desconstrução da utopia. Afinal, um estado não pode governar o tempo todo provocando medo, perseguições e barbaridades. Meu livro não tem a ver só com a revolução russa, mas reflete sobre a utopia e suas contradições. N. A. H. – Ramón Mercader é descrito no livro como um fantoche que depois de ser preso no México por 20 anos vai para a U.R.S.S., onde é tratado como “indesejável”, um bobo da corte, embora tenha sido condecorado por Brezhnev, em 1961. Não estaria no livro meio caricato? L. P. - Eu creio que foi isso mesmo o que aconteceu com Mercader, foi um fantoche. Nos 20 anos em que ele ficou na prisão, a Espanha já havia confrontado sua impressão digital e confirmado que ele era realmente o assassino de Trotski, mas ele nunca confessou ser Ramón Mercader. Ele foi fiel a esse pacto de silêncio com a U.R.S.S. Quando saiu do cárcere, já havia alguma mudança naquele país. Khrushchev já havia denunciado as atrocidades cometidas por Stalin. E Ramón, afinal, representava o pior do stalinismo, ele cometeu um crime coordenado por Stalin. Em carta, Mercader chegou a afirmar que era uma “batata quente” nas mãos do governo e outros países não queriam abrigá-lo. Como havia escrito, ele queria viver fora da U.R.S.S., a única solução foi passar a “batata quente” de Moscou a Havana. N. A. H. - Esse acordo foi feito entre Brezhnev e Fidel Castro? Qual a posição de Cuba? L. P. – O trâmite foi feito em alta esfera, pelo comando. Ele viveu em Havana por quatro anos, também com uma vida clandestina, com o nome de Ramón Lopez e poucas aparições públicas. Os cubanos, na verdade, nunca souberam que Ramón Mercader vivia entre eles. Não tínhamos a menor ideia de toda a história. N. A. H. - Jamais a imprensa cubana publicou a morte de Trotski? L. P. - Em Cuba, se sabia quem era Trotski e que ele havia sido morto por um espanhol chamado Ramón Mercader que lutou na guerra civil espanhola. Mas não conhecíamos nada mais sobre isso. Em Cuba, ele chamava-se Ramón Lopez, um homem como outro qualquer, e morreu aqui com este nome. Quando o cadáver foi levado para Moscou, também o enterram com o nome de Ramón Lopez, e assim ficou inicialmente na lápide. Ele não tinha recuperado seu nome verdadeiro até os anos 90, quando o governo russo revelou sua verdadeira identidade e gravou finalmente o nome: Jaime Ramón Mercader. N. A. H. – É difícil acreditar que Trotski não fosse conhecido em Cuba? Nem mesmo pelos estudantes de ciências políticas? Como é essa história? L.P- Eu mesmo cursei Ciências Humanas e nunca estudei Trostki. Sabíamos que havia participado da Revolução Russa e que fora assassinado. Quanto ao Mercader havia uma ignorância total. Por isso, quando meu livro foi publicado aqui em 2009, as pessoas começaram a comentá-lo e em pouco dias foram vendidos os primeiros quatro mil exemplares, depois uma nova edição de mais quatro ou cinco mil também esgotou-se. A maioria das pessoas me agradece por ter revelado parte de uma história que passou aqui e ninguém conhecia. Muitos queriam saber o título de outros livros sobre o tema para aprofundar-se no assunto. N.A.H- Você já falou algumas vezes que gostaria de visitar o Brasil. Quando virá? L.P- Conhecer o Brasil é um sonho antigo. Na verdade, são três países que me interessam. A Grécia por questões culturais, Israel por que é o berço da civilização Ocidental e o Brasil por questões culturais e sentimentais. Sempre fui fanático pelo futebol brasileiro, desde muitos anos, desde o tempo de Pelé e não só porque agora está na moda Ronaldo e Ronaldinho (Gaúcho). Faz muito tempo que sigo a esse esporte. Em abril vou à Bienal do Livro em Brasília e depois a São Paulo. Estou curioso e ansioso para chegar. Sei que meu livro está indo muito bem por aí. A primeira edição está esgotada! A Morte de Trotski no Cinema Richard Burton vive Trotski e Alain Delon, Ramón Mercader, no filme dirigido por Losey O Assassinato de Trotski, um filme britânico de 1972, dirigido por Joseph Losey, com roteiro de Nicholas Mosley e foi estrelado por Richard Burton como Leon Trotski, Alain Delon, como Ramón Mercader e Romy Schneider, como secretária do revolucionário russo.Depois de conquistar Sylvia Agelof, Mercader encontra-se por duas vezes com Trotski sob o pretexto de ser um patrocinador canadense de suas ideias. Na segunda tentativa, feriu-o mortalmente. Segundo alguns relatos, os seguranças de Trotski iriam matá-lo, mas Trotski impediu, gritando “Não o matem! Este homem tem uma história a contar.” Mercader foi conduzido às autoridades mexicanas, a quem se recusou a revelar sua real identidade. Foi condenado por assassinato e sentenciado a 20 anos de prisão, ficando os primeiros cinco anos em solitária. Somente em agosto de 1953 sua verdadeira identidade foi descoberta, e as suas conexões com a NKVD não foram reveladas até que tivesse ocorrido a dissolução da União Soviética. Fotos: divulgação No México, Leon Trotski também ficou hospedado na casa de Diego Rivera e Frida Kahlo com quem teve um breve envolvimento amoroso. Durante todo o tempo em que esteve na capital mexicana foi protegido pelo famoso casal de pintores Alain Delon e Richard Burton 37 Ricardo Piglia e a vida nas universidades americanas Fotos: divulgação por Joelma Gomes Há quinze anos lecionando nas universidades de Princeton e Harvard, Ricardo Piglia é um escritor argentino cujas obras literárias já foram reconhecidas e laureadas. Entre as premiações, está a II edição do Prêmio Ibero Americano de Narrativa Manoel Rojas, promovido pelo governo do Chile. Piglia vive atualmente em seu país de origem e está aposentado, estado que, conforme afirmou em entrevistas, é importante para elaboração de novos romances e novelas. Seu mais recente trabalho, lançado na Argentina e Espanha é o romance El Camino de Ida, que trata da vida dentro das universidades estadunidenses. De modo geral, o protagonista, Emilio Renzi, de nacionalidade argentina, é convidado a lecionar em uma universidade dos Estados Unidos, caracterizando, uma espécie de alter ego do autor, já que, o escritor também deixou seu país para viver na grande potência mundial. De sorte que, Piglia e seu personagem passam a fazer parte, não apenas da sociedade comum, mas, principalmente, da elite do saber. Na realidade, o enredo do livro é inspirado na história real do brilhante professor de matemática Theodore Kaczynski condenado à prisão perpétua por atentados que 38 mataram três pessoas e feriram mais de vinte. Para tanto, o autor cria o personagem Thomas Munk, matemático prisioneiro por direcionar diversos ataques contra o meio acadêmico. Numa análise mais precisa, percebe-se que a discussão proposta, é política. Ao basear a ficção em uma história real, o escritor pretende levantar questões humanísticas da sociedade norte americana, como por exemplo, a sensação de opressão social e inatividade política dos intelectuais das universidades. Interpretando, literariamente, o que dizem os crimes que aparentemente são inexplicáveis e sempre apontados como crimes de caráter psicológico. O escritor assinala para a falta de interesse do governo americano em tratar esses crimes como políticos. O professor Thomas Kaczynski opunha-se ao regime capitalista e industrial. No entanto, para levar a público as suas opiniões, teve que “driblar” o FBI e sacrificar a vida de alguns cidadãos americanos. Nessa perspectiva, o escritor, em algumas falas e pensamentos das personagens, faz alusões à políticas públicas que poderiam amenizar as estatísticas desses tipos de crimes entre o povo norte americano, como, na fala do protagonista Renzi: “Les haría falta un poco de peronismo a los Estados Unidos para bajar la estadística de asesinatos masivos realizados por individuos que se rebelan ante injusticias de la sociedad.” Na verdade, o escritor não está preocupado, na obra, em estabelecer uma discussão entre ideologias esquerdistas ou de partidos de direita, ele está pensando na falta de debates não somente entre os cidadãos, mas, sobretudo, da falta de luta e de “paixão” entre os intelectuais. Com efeito, Ida Brown, professora universitária no romance, postula que pensar e lutar são dois verbos que vão juntos. No entanto, os professores universitários, que estão no centro das questões filosóficas que comumente abordam polêmicas, apenas compartilham o saber, mas suas ideias radicais não surtem em ações reais. O debate dentro da filosofia é comum. Na sociedade grega, o compartilhamento de ideias para tomada de decisões também era comum, está aí o cerne do enredo proposto por Piglia, mesmo que se crie tecnologia de ponta tendo em vista o crescimento econômico de uma sociedade, é necessário, entretanto, saber qual o melhor caminho para que esse crescimento aconteça. O interesse do autor é dar importância ao debate e à discussão, com os quais as tomadas de decisões políticas serão melhores pensadas. Outra personagem de cunho político é Nina Andropova, vizinha russa de Renzi. A discussão presente nessa personagem está na cegueira dos ideais da esquerda, principalmente, na revolução russa que comumente rompia violentamente com as grandes tradições. Se por um lado, os esquerdistas têm ideias que priorizam as classes mais inferiores, por outro, são extremos em tudo. Ricardo Piglia, ao contrário, defende o meio termo conseguido pela agregação de ideias daqueles que assumem posturas contrárias. Os temas presentes no livro não são meramente um problema estadunidense, mas um problema vivido inclusive nos países de menor desenvolvimento. Diante do avanço tecnológico, as discussões entre as esferas sociais parecem perder espaço, e cada vez mais os cidadãos estão se tornando mais individualistas e solitários. A literatura é um excelente caminho para a abordagem de questões políticas, é o modo de levar, ao interesse de todos, assuntos que parecem fazer parte apenas dos governantes, ou dos poderes legislativo e executivo. Contudo, a política deve ser pensada e vivida entre todos os participantes da comunidade. A novela, o conto, o romance abordam a questão de uma perspectiva artística sem aquela sensação de trabalho administrativo. Sendo assim, pode-se dizer que o romance histórico é ainda mais atrativo porque apresenta a realidade como pano de fundo para a ficção. El Camino de Ida será publicado no Brasil em 2014 pela Companhia das Letras. Federico em sua sacada, obra póstuma de Carlos Fuentes Já dizia Raul Seixas: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Longe de ser o primeiro a discutir sobre as várias facetas do ser humano, o músico trouxe, em poucas palavras, aquilo que é próprio do ser racional, a mudança de opinião, a virada de lado. Como definir certo e errado? Quem definiu o que é moral e amoral? O que é a beleza? Como se define o belo? Quem ensinou a amar? E como se aprende a odiar? Como se configura o crime? Hoje se pensa de um modo, amanhã o que se pensou hoje pode se tornar completamente contrário, o que parecia inaceitável, logo se torna imprescindível para a vida e temos que fazer. Todas essas questões são parte da própria concepção mutante da mente humana. Sob esse foco, Carlos Fuentes escreve Federico em sua sacada. Similar a um tratado de filosofia, o livro aborda questionamentos próprios do universo racional, da concepção do homem como participante da sociedade, um mundo natural à parte criado pelo próprio homem. Para tanto, ele insere em sua narrativa um personagem filosófico que tratou da moral, Friedrich Nietzsche, e é com esse ator que Federico, criado por Fuentes, discute as questões vividas por todos, mas despercebidas pela maioria. Nietzsche, na verdade, é o próprio Federico, é o seu conceito, é o que aprendeu. Dessa forma, eles discutem os aspectos cotidianos e universais a que todo sujeito passa pela sua trajetória nesse mundo de racionalidade. Somadas a todas essas questões, está a interlocução com o eu, o que fazemos sempre, sem percebermos que conversamos, muitas vezes, com a nossa própria consciência. Livro póstumo do escritor mexicano Carlos Fuentes, autor de Gringo velho e Os anos com Laura Díaz é um testamento literário que consegue, com as discussões de seus personagens, transmitir a inteligência e a perspicácia do autor em sua visão de mundo. Lançado pela editora Rocco está disponível em diversas livrarias do Brasil. 39 O legado da Ditadura Militar em pele viva Cinquenta anos após o início do ciclo de violência, a sociedade quer esclarecimentos e pede o fim do desrespeito aos direitos humanos. por Eduardo Rascov A USP tem uma. O Sindicato dos Jornalistas tem outra. O Estado de São Paulo tem a sua. A cidade de São Paulo também. Essas e as quase cem similares espalhadas pelo Brasil estão sob o guarda-chuva da Comissão Nacional da Verdade, cujo trabalho árduo vai até dezembro de 2014, se não houver nova prorrogação. Tantas Comissões da Verdade estão tentando iluminar amplas zonas e episódios entrevados do período da Ditadura Militar, verdadeira Idade das Trevas brasileira. Deflagrada há 50 anos - em 1º de abril de 1964 - sua duração varia de acordo com o gosto: para alguns terminou em 1985, com a eleição indireta do cordato Tancredo Neves, seguida de seu calvário e morte, e posse do inelutável José Sarney; para outros, a redemocratização efetiva foi em 1989, com a escolha por sufrágio universal do infante direitoso Fernando Collor. Para muita gente boa, porém, a superação do legado da ditadura militar ainda não se deu. É o caso da pesquisadora Mariana Joffily, da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc), professora de História da América. Para ela, “uma 40 das piores marcas que a ditadura deixou para as gerações atuais foi a militarização da segurança pública, com uma abordagem que encara os desafios colocados à segurança em termos de guerra interna. Além disso, a ditadura incrementou uma cultura política que vem desde pelo menos a escravidão, de que o uso da violência é um instrumento necessário e válido para a manutenção da ordem social. Superar a ditadura, ao meu ver, significa reformular completamente a maneira pela qual a segurança pública vem sendo estruturada e pensada.” Joffily publicou o alentado livro No centro da engrenagem: os interrogatórios na Operação Bandeirantes e no DOI de São Paulo (1969 - 1975), editado pelo Arquivo Nacional e Edusp, em 2012. Atualmente, a tortura é disseminada no Brasil nas delegacias que cuidam de bandidos pobres. Crime comum. Se já era assim antes, com o ciclo militar isso se entranhou e se entranhou, pois ganhou ares de política institucional, ao ponto do general Ernesto Geisel ter declarado que sem a tortura não se venceria a guerra interna (“Acho que a tortura, em certos casos, torna-se necessária, para obter confissões”, Élio Gaspari in A Ditadura Escancarada, Cia. das Letras, pág. 37). Muitas são as razões usadas para justificar a tortura. Os Estados Unidos e Israel, por exemplo, alegam que enfrentam uma guerra assimétrica contra o terrorismo internacional. Por isso criaram regras cínicas: pode-se torturar desse e daquele modo, afogamento sim, choque elétrico na vagina não... A historiadora Mariana Joffily, que estudou as ditaduras do Cone Sul, repressão política, transição democrática e violência política na USP e na Sorbonne (Université de Paris IV), comenta: “A tortura é vista, do ponto de vista teórico, como um “castigo cruel e degradante”, salvo em condições excepcionais”. Nos EUA e em Israel, a defesa desse tipo de violência se faz com base no argumento extremo do terrorismo e se expande no tratamento com tudo aquilo que parece socialmente indesejável. Abre-se uma brecha que se torna o próprio sistema. Por isso, a recusa à tortura tem de ser completa, absoluta. Não pode haver meio-tortura, nem ela pode ser aceitável em qualquer circunstância que seja. Quem defende o uso da tortura, nunca se vê no lugar do torturado. É sempre o outro o alvo potencial. No Brasil, a tortura é claramente um instrumento de contenção social. Ela não é defendida abertamente no discurso público, porém, em filmes como Tropa de Elite, o espectador é levado a torcer para que o policial seja violento para extrair a informação que o adolescente ligado ao tráfico não quer fornecer espontaneamente. Vemos em várias situações do cotidiano, indivíduos vivendo sob enorme precariedade social sendo espancados, queimados vivos, ameaçados de morte. E não apenas pelas autoridades policiais, mas também por “cidadãos comuns”, comerciantes, jovens de classe média, sem falar dos setores ligados à criminalidade. Ou seja, a tortura é algo que não se defende teoricamente, mas que se aplica com muita frequência. Em 2010 a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Cidh) analisou o desaparecimento de quase setenta brasileiros envolvidos com a Guerrilha do Araguaia, no início dos anos 70. Eram na maioria jovens militantes do PC do B (Partido Comunista do Brasil) que haviam se infiltrado no Bico do Papagaio (região de rios caudalosos e muita mata, que engloba o norte de Tocantis e o sul do Pará e do Maranhão) em meados da década anterior e ali se misturavam aos camponeses, enquanto semeavam a tão idealizada, pela esquerda, guerrilha rural. A Cidh acusou o Estado brasileiro de omissão e exigiu que ele esclarecesse se os militantes foram mortos, onde estão seus corpos, e que punisse exemplarmente os responsáveis. Mas, no mesmo ano, a Corte Suprema do Brasil decidiu que a Lei de Anistia impedia que o país tomasse essas providências. No entanto, procuradores da república corajosos entenderam que o sequestro com sumiço do corpo é crime sem prescrição até que se encontre os restos mortais da vítima. Isso está levando a enfrentamentos inéditos, como em dezembro do ano passado, quando compareceram - diante do juiz federal Hélio Egydio de Matos Nogueira, em uma ação com instrução penal - os delegados de polícia Carlos Alberto Augusto, o “Carlinhos Metralha”, e Alcides Singillo. O coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandava o DOI-Codi, um dos principais centros de repressão do país, embora convocado não apareceu. Eles depuseram sobre o desaparecimento do marinheiro pernambucano Edgar Aquino Duarte. Do outro lado da mesa, estavam as testemunhas sobreviventes José Damião Trindade, Pedro Rocha Filho, Ivan Seixas e Maria Amélia de Almeida Teles, que relataram com detalhes as sevícias às quais foram submetidos. Segundo a professora Joffily, “esse enfrentamento simbólico entre torturados e torturadores é de extrema importância, pois ainda que setores conservadores de nossa sociedade insistam em ratificar a Lei da Anistia, mostra o quanto o país avançou ao colocar no lugar dos acusados aqueles que em nome do Estado perpetraram torturas e assassinatos. O Estado hoje está ao lado dos outrora perseguidos e isso demonstra uma guinada fundamental. Mas esse passado apenas será passado a limpo se esses eventos todos tiverem um efeito de significação no presente, produzindo uma aversão pública e generalizada à prática da tortura e uma reformulação das for41 42 insuspeita revista Veja, que, em 26 de março de 2003, falando sobre a UDR, cravou que ela “ficou célebre na segunda metade dos anos 80 por sua disposição beligerante no campo. Entre 1985 e 1989, quando se encontrava no pico de suas atividades, a UDR tornou-se nacionalmente conhecida, e as mortes no campo chegaram a 640, um recorde.” Para Kehl essa cultura da violência passa pelo Massacre de Maio de 2006, quando, entre 12 e 20 daquele mês, pelo menos 493 pessoas foram assassinadas em São Paulo, a maioria com sinais de execução sumária. Era a resposta à revolta e aos ataques comandados pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) de dentro da prisão à polícia, com a morte de 43 agentes públicos. “Não só há um número enorme de jovens assassinados pela polícia, como de desaparecidos. Os pais e mães desses jovens não conseguem encontrar os corpos de seus filhos, porque eles também são ameaçados”, declarou aos senadores Maria Rita Kehl, conforme a página na internet da Comissão Nacional da Verdade. Segundo o site, o senador João Capiberibe (PSB-PA) - presidente da Subcomissão Permanente de Memória, Verdade e Justiça, vinculada à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), do Senado - vai agendar neste primeiro semestre audiências públicas para ouvir as Mães de Maio. Outro resquício da ditadura apontado por Kehl é o lento e progressivo extermínio dos índios guarani-kaiowa, do Mato Grosso do Sul. Aos senadores ela denunciou que no final do ano passado fazendeiros da região fizeram um leilão de gado cujo fundo arrecadado seria usado para financiar milícias armadas que estão cercando os índios. Os guarani-kaiowa vêem o que restou de suas terras tradicionais ser cobiçado por forças truculentas, sentem-se ameaçados, isolados, sem o atendimento adequado por parte do Estado no campo da educação e da saúde - o que leva alguns ao recurso extremo do suicídio. O fato é que não só ainda não passamos a limpo aquele período de exarcebado militarismo, como ainda vivemos sob os seus auspícios. Mas alguns passos importantes foram dados recentemente, conforme destaca Mariana Joffily: “O trabalho dessas comissões tem resultados diversos. Um deles é a coleta de informações novas sobre modalidades pouco conhecidas da repressão, como aconteceu com as recentes descobertas a respeito do massacre de povos indígenas ou detalhes sobre as circunstâncias de morte de desaparecidos políticos. Outro é investigar os alcances do arbítrio em diferentes esferas, como por exemplo em uma categoria de trabalhadores ou dentro de uma determinada universidade. O principal resultado, no entanto, é trazer para a sociedade brasileira um debate crítico sobre o que foi a ditadura militar, no sentido de condenar as práticas de autoritarismo e violência política perpetradas pelo Estado.” Práticas essas tão comuns no noticiário até hoje. Elas repercutem nas redes sociais intensamente, mas depois de algum tempo, parece, tudo cai no vazio. Quem se lembra do covarde massacre de 111 presos desarmados no Carandiru, ou da “Operação Castelinho”, com doze mortes no pedágio de Sorocaba da rodovia Castelo Branco e, mais recentemente, do sequestro e tortura do pedreiro carioca Amarildo em plena sede da UPP da Rocinha, para ficar apenas em três exemplos? “Unidade da Polícia Pacificadora”, eis um primor irônico que a ficção dificilmente alcançaria. Mais que criar uma “novilíngua”, urge recomeçar do zero, fundar uma nova polícia - essa desmilitarizada - e sem a metástase da corrupção e da violência seletiva. Agora que se “comemora” os cinquenta anos do início da Ditadura Militar é importante que se multipliquem os canais de discussão de seu legado. Que a chuva de comissões da verdade façam germinar pelo país a consciência não só do que foi aquele período, mas do que ele é hoje - o que ele repercute, significa, implica e rebate na sociedade brasileira contemporânea. Eduardo Rascov é jornalista e editor do site do Memorial da América Latina. Colecionador cearense arremata fotos históricas do golpe de 64 por Leonor Amarante Fotos: agencia a4 ças de segurança. Portanto, apenas será superado quando forem criados mecanismos institucionais sólidos no sentido de evitar que no presente ou no futuro próximo se lance mão de medidas autoritárias de controle social.” A constelação de comissões da verdade expressa o crescente interesse da sociedade em conhecer e enfrentar o que aconteceu no país naquele período. Um dos aspectos do trabalho da Comissão Nacional da Verdade é ampliar o número de vítimas reconhecido. As violações sistemáticas dos direitos humanos se estenderam, por exemplo, a povos indígenas e a trabalhadores da terra. A psicanalista e escritora Maria Rita Kehl preside um grupo de trabalho da Comissão Nacional da Verdade sobre esse tema. Ela investiga a violência cometida diretamente por agentes públicos ou por pessoas a seu serviço ou no interesse do Estado contra pessoas - índios e camponeses - que mal entendiam o que estava acontecendo. Em dezembro do ano passado Maria Rita Kehl compareceu ao Senado brasileiro e relatou um pouco do que apreendeu na região da Guerrilha do Araguaia. Ela ouviu de índios Surui que foram obrigados à, não só, denunciar onde se escondiam os militantes e à servir de mateiros (guias), como também à cortar a cabeça de alguns deles e a carregá-las no ombro. “Alguns índios disseram que, durante muito tempo, sonhavam e tinham a sensação horrível do sangue quente escorrendo nas costas deles”, relatou. Diante dos senadores, Maria Rita Kehl puxou uma linha de progressão da violação dos direitos humanos que vem até nossos dias. Ela contou que logo em seguida ao fim oficial da ditadura militar foi criada em vários estados brasileiros uma associação de proprietários rurais chamada União Democrática Ruralista (embrião de um partido político posterior), cujo objetivo declarado era “a preservação do direito de propriedade e a manutenção da ordem e respeito às leis do país” e se opor à Reforma Agrária. Nos seus quatro primeiros anos de existência foram mortos centenas de lideranças camponesas que resistiam à tomada de suas terras. A fonte é a Silvio Frota é um colecionador especial. Para começar não mora no eixo Rio/São Paulo, vive em Fortaleza, no Ceará. Depois, é um apaixonado pela fotografia. Durante muitos anos só tinha olhar para as artes plásticas. Um dia em Houston, no estado americano do Texas, entrou numa exposição do legendário fotógrafo Steve McCurry e ficou cara a cara com a Afegan Girl, uma espécie de Mona Lisa contemporânea da fotografia. Apaixonou-se, comprou a obra na hora e tornou-se colecionador de foto. Sorte do Brasil. Hoje ele é um dos mais importantes guardiões de imagens raras, como as do Golpe Militar de 64 que ilustram sua matéria e fazem parte de um acervo de mais de 2.000 imagens. Frota começou a adquirir registros da ditadura há cinco anos. “O tema me interessa porque faz parte da história do Brasil que os jovens pouco conhecem. Decidi começar pelo que há de mais significativo, mais pontual sobre o tema. Não me interessa apenas a imagem de um autor, mas diversas imagens que permitam a leitura completa de um fato. “Minha intenção é a de colocar essa coleção ao alcance do público e dar ao espectador uma leitura do que ele estará vendo e de contar-lhe uma história”. Frota começou a coleção com o objetivo de propiciar, especialmente aos estudantes, o acesso às imagens raras e, para isso, vai construir um museu em Fortaleza. “Já adquiri um terreno com mais de dois mil metros quadrados para abrigar toda a coleção. Não é possível que os jovens não conheçam a história de seu país. Quero com isso também promover estudos e debates. A coleção de Frota tem fotos sensacionais captadas por repórteres fotográficos com passagem pela grande imprensa e, para esta edição, selecionamos algumas de Evandro Teixeira, um dos mais premiados nomes do foto jornalismo brasileiro. Baiano, iniciou sua carreira em 1958, no jornal Diário da Noite, no Rio de Janeiro e, em 1963, entrou para o Jornal do Brasil aonde está até hoje. Cobriu o golpe militar no Brasil e a derrubada de Salvador Allende no Chile. Juca Martins, português, fotógrafo independente, radicado no Brasil desde 1957, cobriu o Golpe Militar e outras manifestações políticas e Orlando Brito, mineiro, que iniciou sua carreira de fotógrafo aos 15 anos de idade no jornal Última Hora e trabalhou em O Globo, Veja, Jornal do Brasil. Além deles há muitos outros profissionais e fotos importantes que não foram publicadas na época por questão da censura. “Muitas das revistas como as extintas O Cruzeiro, Manchete, Fatos e Fotos, não tinham tanto material disponível porque naquele tempo a censura era implacável, mas com isso consegui fotos inéditas diretamente com fotógrafos”. O colecionador, que é também frequentador de leilões e feiras de arte em vários países, tem acompanhado o crescimento do colecionismo de fotografias e afirma: “O Brasil está mudando e já temos feira de fotografia, galerias especializadas e colecionadores interessados. Por isso, quero fazer o museu”. Frota tem razão e o ano de 2015 promete ser especial para a fotografia e para os fotógrafos brasileiros! 43 Na página ao lado à esquerda: AI-5: Além do Poder,1968, dezembro, sexta-feira,13, foto de Orlando Brito. Abaixo à esquerda: Praça da Sé antes: Manifestação do Movimento Contra a Carestia, na Praça da Sé. SP. 27.08.1978 e Praça da Sé depois: Manifestação do Movimento Contra a Carestia, na Praça da Sé. SP. 27.08.1978, fotos de Juca Martins. À direita acima: Em 1978 Geisel visitou o México e viu protesto contra o Brasil, foto de Orlando Brito. Abaixo à direita: foto de Juca Martins. Ato Público do Movimento pela Anistia. Em 1979 44 45 Deputado Ulysses Guimarães cercado de militares, assume temporariamente a presidência da república durante a viagem do presidente José Sarney. Base Aérea de Brasilia. 1986. Foto de Orlando Brito Acima: Passeata dos 100 mil, Rio de Janeiro, 1968. Foto de Evandro Teixeira, da qual participaram entre outras personalidades Luiz Carlos Prestes, Clarice Lispector, Paulo Autran e Odete Lara. Abaixo: o cartunista Ziraldo, um dos criadores do lendário tablóide Pasquim, protesta na câmara dos deputados contra a censura à imprensa no fim de 1960. Foto de Orlando Brito. Ao lado: o cartunista Henfil, um dos militantes contra a ditadura. Foto de Juca Martins. Ao lado abaixo: César Camargo Mariano, Elis Regina e João Bosco no Show de maio de 1979 em apoio à greve dos metalúrgicos Movimento estudantil, Rio de Janeiro, 1968. Foto de Evandro Teixeira 46 47 Acima: 1975, o novato Lula e os veteranos Ulysses Guimarães e Tancredo Neves. Foto de Orlando Brito. Abaixo à esquerda: militante descansa depois de manifestação. Foto de Evandro Teixeira. Abaixo à direita: Retorno de Miguel Arraes ao Brasil, Rio de Janeiro, 1979. Foto de Juca Martins. Página ao lado acima: General Ernesto Geisel na Praia dos Artistas no RN em 1979. Foto de Orlando Brito. Página ao lado abaixo: José Sarney três dias antes de deixar a presidência em 1990. Foto de Orlando Brito 48 49 A luta DEMOCRÁTICA das ruas por Marco Aurélio Nogueira As amplas manifestações que entre 1983 e 1984 pediram a volta das eleições diretas no Brasil ocupam um lugar de destaque na história política brasileira. Um de seus ápices foi o gigantesco comício que, em 25 de janeiro daquele ano, fez a Praça da Sé, em São Paulo, parecer pequena, envolta numa chama cívica que contagiou a cidade e a cena nacional. Meses depois, em abril, uma multidão ainda maior ocupou o Vale do Anhangabaú, iniciativa agora coordenada por um fortalecido comitê suprapartidário. Dar-se-ia o mesmo em outras cidades do país. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Candelária receberia um gigantesco contingente de pessoas. Era uma demonstração de força para a votação da emenda que o deputado Dante de Oliveira (PMDBMT), em março de 1983, apresentara ao Congresso Nacional prevendo o restabelecimento de eleições diretas para a Presidência da República. Em abril daquele ano, o PMDB lançou oficialmente a campanha nacional de apoio à emenda, com o slogan que ganharia as ruas: Diretas Já. A campanha só fez crescer, contagiando o país. As diretas não foram, porém, aprovadas daquela vez. Em 25 de abril de 1984, numa histórica votação, a emenda foi rejeitada pelo Congresso. Recebeu 298 votos favoráveis, 65 contrários e 3 abstenções. 113 deputados (todos do então PDS) não compareceram. Faltaram 22 votos para a aprovação. Mas a luta pelas Diretas Já ajudou a mudar a dinâmica política, consolidando a vertente que prevaleceria nos meses seguintes, com o fortalecimento das oposições democráticas, a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral no final do ano e o início dos trabalhos que levariam à plena constitucionalização do país em 1988. As ruas de 1983-1984 joga- de modo a que o povo – com suas demandas mais urgentes e radicalizadas – dela participasse somente de modo subsidiário, mais como espectador do que como agente. Algum paralelo pode ser traçado entre o movimento de 1984 e outros dois grandes momentos de presença popular na política brasileira: o que ajudou a que se decretasse o impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, e as impressionantes manifestações que, em 2013, tomaram as ruas de inúmeras cidades. Se na luta pelas diretas e pelo impeachment a agenda esteve dada pela dimensão imediatamente político-institucional, em 2013 as ruas foram além: pediram tudo, ou quase tudo, fazendo isso de modo desorganizado e sem uma agenda clara. Se, em 1984, tinha-se pelas costas um regime que há duas décadas rebaixara a cidadania e a democracia e criara Deputado Dante de Oliveira, no plenário ram, assim, papel decisivo na redemocratização brasileira, obrigando-nos a relativizar a ideia de que nossa transição teria sido excessivamente “transada”, negociada um país todo torto, deseducado para a vida cívica e a prática democrática, em 2013 o que se questionou não foi uma herança autoritária mas a baixa 50 qualidade da democracia, as falhas da política, a inoperância dos governos, a corrupção excessiva, o fracasso das políticas públicas e, sobretudo, a falta de perspectivas para o futuro. Lá atrás, no momento mais estratégico da transição, os democratas estavam juntos, procuravam articulação e se orientavam pelo desejo comum de ver o país reorganizado. Não escondiam suas diferenças, mas davam mais valor ao que os aproximava do que ao que os afastava. Hoje, os democratas se deixaram corroer pelo que os separa, não conseguem organizar nenhum projeto suprapartidário e assistem, cada qual no seu canto, ao país avançar meio fora de controle e sem coordenação. Não se deve, evidentemente, levar esse paralelismo longe demais. Entre 1984 e 2013 foram tantas as mudanças estruturais, as transformações socioculturais e as alterações no modo de vida que não seria exagero dizer que se estaria a visualizar, na comparação, dois países distintos, unidos por fios de continuidade que foram se apagando com o tempo. A transição democrática não foi “revolucionária”, mas se fez acompanhar de uma revolução. A sociedade que a iniciou foi-se modificando com o passar dos anos e chegou, três décadas depois do Comício das Diretas, a assumir outra feição, outro molejo cultural, outra dinâmica política. Nos anos 1980-1990, a sociedade era mais simples e a política ainda se fazia à moda antiga, com partidos dotados de algum poder de agenda, governos de coalizão que se dispunham a seguir programas claros, cidadãos que buscavam canalizar suas demandas pelas instituições políticas, comícios de massa. Aos poucos, tudo isso foi evaporando, impulsionado pelo capitalismo global turbinado, pelas ondas hipermodernas da sociedade em rede, pela corrosão do poder do Estado, pela força do mercado, pela fragmentação geral que complicou os movimentos da sociedade civil. Processadas e assimiladas, as marcas dos anos ditatoriais (1964-1984) seriam sentidas por muito tempo. Desdobramentos de 1964 Os acontecimentos de 1964 foram um ponto de inflexão na história brasileira. Naquele ano, não houve apenas um golpe no Brasil, mas uma alteração nas formas do Estado e na qualidade do processo sócio político. A ditadura combinou-se simultaneamente com os grupos dominantes mais atrasados e com o grande capital monopolista, promovendo uma rápida e desigual modernização. Colocou em prática uma política econômica voltada para a produção de bens de consumo duráveis, favoreceu as grandes empresas nacionais e estrangeiras, capitalizou e reprivatizou a economia, reduziu salários e estimulou um verdadeiro "inchaço" do sistema financeiro. Modernizou o país, mas não de forma sustentada ou consistente, na medida em que recheou de artificialismo a estrutura produtiva e implicou elevado custo social. A ditadura foi antidemocrática e anticomunista, prendeu, espancou e torturou, disseminou ódio e pavor, abusou do arbítrio e da repressão. Seus porões foram indignos e repulsivos. Milhares sofreram barbaridades em suas mãos, tiveram vidas destroçadas, morreram trucidados e violentados. O país explodiu em termos capitalistas. Expandiu suas forças produtivas, estatizou-se como nunca dantes, internacionalizou sua economia, dinamizou sua agricultura e se industrializou. Urbanizou-se e movimentou-se freneticamente para todos os lados. Em vinte anos, tornou-se outro: mais desenvolvido, mais moderno, mais deformado e injusto, radicalizando uma tendência que vinha se acentuando desde a década de 1950. O Brasil converteu-se, assim, em uma vigorosa sociedade de massas. Mas não conseguiu se livrar de seus mais tristes e assustadores fantasmas. A desigualdade social e a injustiça na distribuição da renda cresceram na mesma proporção em que a economia capitalista se fortaleceu. Foi uma espécie de tragédia que se projetou como uma sombra lúgubre sobre as gerações seguintes, travando o país e impondo-se como desafio a todos os governos. Os sucessivos governos militares reproduziram os traços mais perversos da história nacional e criaram muitas outras mazelas. Suas escolhas fragmentaram a sociedade em compartimentos estanques, presos a interesses particularistas e desejosos de um diálogo direto com o Estado, sem a mediação de partidos ou de instituições representativas. A movimentação social por eles ativada, ao se divorciar 51 52 o fim de uma época e deu passagem a uma nova dialética entre o Estado e a sociedade. O país avançará rumo ao final do século de modo não linear. Conhecerá uma Constituição “cidadã” em 1988, voltará a eleger seus presidentes, normalizará a vida democrática, domará o monstro da inflação, tomará consciência da questão do Estado e da gestão pública, mergulhará na globalização. Mas continuará claudicando na área social, que não mudará significativamente de perfil. Por volta de 2000/2001 – década e meia após o retorno da democracia –, o Brasil continuaria a exibir níveis vergonhosos de pobreza. Houve melhorias tópicas na distribuição de renda, mas nada se traduziu em termos de qualidade de vida ou de melhores indicadores sociais. O século XXI chegará com um enorme fardo nas costas. O país flertará com o neoliberalismo, ajustará seu Estado, assistirá à ascensão política e eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT) e à consolidação da democracia. As sucessões presidenciais irão se fazer sem sobressaltos ou golpes de mão. Ao mesmo tempo, o país irá se globalizar e se conectar, adquirindo doses adicionais de diferenciação e fragmentação. Passará a conviver com Mudanças e novos desafios. uma complexa trama de problemas e pressões difícil de ser decodificada e assimilada. Tornou-se “hipermoderno” sem ter conseguido ser plenamente moderno. Ganhou uma agenda imensa, desafiadora, enigmática. A sociedade não permaneceu passiva. Ainda que esteja hoje cortada por vetores de desinteresse político e de individualização, muito fragmentada e dinamizada por um capitalismo extremamente desregulado e competitivo, não se trata de uma sociedade parada no tempo ou desinteressada de seu futuro. Os protestos que em junho de 2013 ganharam as ruas das principais cidades do país provam isso. A seu modo, a sociedade continuou indo à luta: questionando escolhas eleitorais, interpondo uma pauta “social” à agenda política nacional, agitando-se e protestando nas zonas rurais e nas periferias urbanas, onde exibe seu descontentamento e sua disposição de mudar. Não se mostra facilmente governável e tem cobrado alto preço dos que se dispõem a tentar algum movimento virtuoso de integração e recomposição social. Mas está aí, às portas do poder, nas ruas e nos campos do país. Diversificada, colorida, fragmentada, tensa e contraditória. O atual ciclo político do país organizou-se impulsionado pelos sucessos governamentais das duas últimas décadas: a estabilização monetária e o controle da inflação, principal realização dos anos FHC, ao lado da retomada do crescimento e do início de um processo mais induzido de distribuição de renda, ênfase introduzida pelos anos Lula. Esse legado constitui hoje uma espécie de estrela polar da sociedade brasileira, ainda que não esteja plenamente consolidado. Nada parece indicar que o país retrocederá desse ponto, seja porque não deseja o retorno da inflação, seja porque não aceita mais a desigualdade e a exclusão como marcas distintivas da nacionalidade. Mas o período governamental de Dilma Rousseff teve características operacionais típicas e foi marcado pelo estilo mais técnico e gerencial da presidente, que ajudou a embaralhar as cartas da política. Foi também condicionado pelos efeitos da herança negativa dos governos anteriores. Os governos FHC e Lula deixaram, cada qual a seu modo, pequenas bombas de efeito retardado, que não esgotaram seu potencial complicador. Ambos se propuseram, por exemplo, a reatar os laços com o desenvolvimento, mas não conseguiram materializar nenhuma ideia nova nesse terreno, com o que o país voltou a crescer sem sustentabilidade, fato que põe o futuro num quadro de indefinição. Nunca o capitalismo foi tão poderoso e tão hegemônico no país quanto nos dezesseis anos desses dois governos. Ambos também ajudaram a estimular a sociedade a ver o Estado com lentes distorcidas e maniqueístas: ou como algo a ter seus custos sempre mais minimizados, ou como uma Meca a ser perseguida em busca de abrigo, proteção e assistência. Contribuíram, ainda que sem intenção deliberada, para rebaixar a atividade política a níveis sem precedentes de indigência e falta de responsabilidade pública. Fizeram isso, entre outras coisas, porque optaram por organizar governos de coalizão despojados de substância programática ou ideológica, que levaram seus partidos, o PSDB e o PT, personagens distintos mas convergentes da social-democracia à brasileira, a largarem pela estrada o patrimônio reformista que haviam acumulado ao longo do tempo. Como em outras passagens e transições, o processo que se abrirá a partir das eleições de 2014 terá de assimilar o legado positivo e a herança negativa do ciclo anterior. Poderá sem dúvida fazê-lo, mas não sem dificuldades. A sociedade brasileira, por mais que persista a exibir traços de vida tradicional, continuou a se modernizar de forma acelerada nos últimos anos. Não se mostra como objeto modelável por governos e partidos, ainda que não queira se ver livre deles e consiga reconhecer sua relevância. Tornou-se uma sociedade difícil de ser governada, até mesmo porque é muito diferenciada e fragmentada e não encontra pontos de unificação e organização efetivamente eficientes. Mas é uma sociedade, ao mesmo tempo, que se reposiciona e se recompõe o tempo todo, que acessa sempre mais os circuitos de informação e comunicação, que está se tornando reflexiva e refratária a comandos unilaterais de autoridade. Mesmo que de maneira não sistemática, está reconhecendo que precisa encontrar novos mecanismos de convivência e de estruturação coletiva, que não tolham a liberdade nem a individualidade, possibilitem a correção dos desníveis sociais e facilitem a introdução de outros critérios de igualdade e justiça social. Marco Aurélio Nogueira é Professor Titular e Diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais-IPPRI, da Unesp. Integra a Comissão de Orientação da Cátedra Unesco do Memorial da América Latina. Autor, dentre outros, de As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo. Brasília, FAP; Rio de Janeiro, Contraponto, 2013. Fotos:Grmisiti da democracia, apresentaria muitos traços pré-políticos. A recessão posterior ao fracasso do “milagre econômico” (1968-1973) faria com que o país ingressasse numa espécie de guerra de todos contra todos. Quando, no início de 1980, a transição democrática se fixou no horizonte, ela será vivenciada por uma sociedade em estado lastimável, verdadeira Babel onde se falavam línguas diversas e se entrecruzavam tempos históricos variados. Uma sociedade que, a rigor, não estava preparada para neutralizar o asfixiante controle do Estado, promover uma rápida ruptura com o autoritarismo e impulsionar a transformação política do país. Em decorrência, a abertura foi sempre marcada por uma pressão democrática que crescia sem conseguir se completar. Jamais deixou de estar determinada pela tensão entre um excludente projeto oficial de autorreforma e um processo político orientado em sentido popular-democrático. Avançou de modo gradual, impulsionada por uma contestação delimitada pelo calendário eleitoral e pelas mudanças que se operavam na estrutura da sociedade. E não conseguiu derramar uma cultura democrática consistente pelos canais de irrigação da sociedade. Mas a aspiração por democracia, liberdade de opinião e maior competição política prevaleceria, como uma exigência da sociedade que se modernizava. Aos poucos, foi-se extenuando a capacidade de o regime continuar detendo a iniciativa política. A luta pela eleição direta do presidente da República (1983-1984) uniu as oposições num mesmo movimento tático, dando a elas condições de desencadear uma grande campanha popular de contestação e de vocalização de um desejo de mudar. Embora derrotada no plano parlamentar, a campanha empolgou o país e produziu a energia necessária para a manobra final das oposições – a de reunir os descontentes, atrair os dissidentes do oficialismo e enfrentar vitoriosamente o regime em seu próprio campo de batalha, o Colégio Eleitoral. A chegada ao poder da Aliança Democrática, em 1985, simbolizou 53 Mandela Mandela (centro) na sede militar argelina em 1962 com o jornalista exilado Robert Resha (esq.) e o comandante Mohamed Lamari o grande revolucionário do século XXI Em Estocolmo, na Suécia, 1990 por Dojival Vieira Nelson Mandela morreu no dia 05 de dezembro passado aos 95 anos de complicações pulmonares, e foi enterrado no dia 15, após receber homenagens em todo o mundo – das pessoas mais simples a chefes de Estado. Sua vida, porém, continuará, 54 por séculos, fonte de inspiração para todos os homens e mulheres – negros ou não negros – que lutam por valores perenes como o direito à igualdade (vale dizer, o direito à não discriminação), a liberdade e a Justiça. Nobel da Paz em 1994 pela luta travada contra o odioso regime do apartheid implantado na África do Sul, após 1948 pelo Partido Nacional, que representava os interesses dos afrikaners, Mandela tornou-se o primeiro presidente negro na África do Sul (1994/1999). Antes, passou 27 anos preso na Ilha de Roben, a oeste do país, por suas ideias e por ser o comandante do Congresso Nacional Africano (ANC), partido do qual foi um dos fundadores, que liderou a luta contra o regime. Contudo, o legado que Nelson Mandela – nascido Nelson Rolihlahla Mandela em 18 de julho de 1918, filho único do casal Henry Mgadia Mandela e Noseki Fanny, que integrava antiga família de aristocratas da casa real de Thembu - deixou não foi apenas político como, por exemplo, a lição de desapego ao recusar todos os apelos de que fosse candidato à reeleição e se mantivesse no poder. Também não será como comandante militar do período em que, empurrados à violência pelo regime racista, o Congresso Nacional Africa- no recorreu às armas, como gesto de legítima defesa e único caminho para botar fim à opressão e a violência. O legado maior de Madiba, como carinhosamente era chamado pelos mais próximos e até pelos que à distância se miravam no seu exemplo, foi mostrar ao mundo que é possível combinar combate à opressão com doçura e odiar a opresssão sem odiar o opressor. Mais do que em palavras, esses valores estavam estampados no rosto de Madiba por meio de um sinal, perceptível por qualquer um e que podia ser entendido por qualquer língua e em qualquer lugar no mundo: o seu sorriso. Quando saiu da prisão, lá estava a sua marca: o sorriso de quem não tinha guardado qualquer res- sentimento, nem mágoas pessoais. Quando na cerimônia de recebimento do Prêmio Nobel apertou a mão do representante do regime que o manteve preso e matou pela violência crua e pela tortura como fez com outro grande líder sul africano, Steve Biko, lá estava o sorriso de Mandela a desarmar o espírito da revanche. “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta”, costumava dizer. 55 A ética Ubuntu No Brasil: em casa Para se compreender a grandeza de Mandela pode-se voltar aos muitos momentos de sua vida, desde a aldeia em que nasceu e onde foi enterrado – Qunu – na província do Cabo Oriental, passando pela sua trajetória de iniciação e pelo começo de sua luta na Faculdade de Direito, onde se tornou advogado e ativista. Mas, será certamente, no sorriso desarmado e doce, a marca de tudo o que foi e fez na vida até tornar-se inspiração permanente – como “uma melodia que continuará”, no dizer do parlamentar sul-africano Bantu Holomisa, presidente do Partido Movimento Democrático Unido. Suas convicções e sua firmeza aliada a postura que ensinou ao mundo – o respeito ao outro e a tolerância - só podem ser entendidas à luz do Ubutun, a palavra que etimologicamente nasce das línguas dos povos bantu, zulu e xhona, e sintetiza mais que uma filosofia: trata-se de uma ética, que pode ser traduzida por “eu sou porque nós somos”, “eu existo porque nós existimos”. Para o teólogo congolês Bas’llele Malomalo, ubuntu traduz a cosmovisão africana de que toda existência é sagrada, ou seja, há um pouco do divino em tudo o que existe. Mandela esteve no Brasil por duas vezes, na primeira vez em 1991, logo após sua saída da prisão, quando passou pelas cidades do Rio de Janeiro, Brasília, Vitória, São Paulo e Salvador ao longo de cinco dias, acompanhado da segunda mulher Winie, e na segunda, já como presidente eleito, em 1998. No Rio, foi recebido por uma multidão de 40 mil pessoas, na Praça da Apoteose, ao som da música Sob o sol de Johannesburgo, composta especialmente em sua homenagem por Martinho da Vila. Quando perguntaram como se sentia, respondeu bem humorado sem esconder o cansaço pela longa jornada de cinco dias: “Quase fomos mortos de tanto amor. Agora estou preparado para encontrar Holyfield ou Mike Tyson”, brincou. Na segunda vez, em julho de 1998, desembarcou, em plena lua de mel, após dois dias do seu terceiro casamento com Graça Machel, a viúva de outro grande líder africano, o herói da independência de Moçambique do jugo colonial português, Samora Machel. Ao tomar contato com a realidade da desigualdade sociorracial brasileira, Mandela disse ter sentido um forte “sentimento de amargura” entre os negros brasileiros e que a discrimi- A luta de Mandela teve ressonância nos Estados Unidos onde a população negra também sofria segregação racial nação racial ainda existia aqui. Na Bahia, em 1998, já como presidente foi recebido por uma multidão, que se reuniu para saudá-lo na Praça Castro Alves, em Salvador. O ativista do movimento negro baiano e ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, foi o apresentador da homenagem e lembra ainda hoje com emoção: “Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, era o apresentador do evento que tinha como objetivo maior saudá-lo e reverenciá-lo por sua gigantesca vitória, além, evidentemente, de fortalecer a nossa luta contra o racismo no Brasil. Foi uma noite memorável, milhares de pessoas (em torno de 80 mil) tomaram a Praça Castro Alves cantando e dançando em homenagem a Mandela”, relata. A postura de Mandela era parte de sua convicção e já havia sido demonstrada, quando, uma vez eleito, ao invés de buscar vingança, dedicou ao mandato energia e liderança para pacificar o país, como no episódio retratado no filme Invictus, estrelado por Morgan Freeman, ao utilizar a partida final do campeonato mundial de Rugby, - esporte odiado pelos negros – para unir o país em torno de uma equipe majoritariamente formada por brancos, que naquele momento simbolizavam a recém-criada nação sul-africana. Também no estabelecimento da Comissão da Verdade e da Reconciliação, mais uma vez, se veria a tradução da ética Ubuntu: os opressores e torturadores do regime tiveram a oportunidade de revelar seus crimes e se desculpar publicamente das atrocidades cometidas, evitando-se o verdadeiro banho de sangue que, inevitalmente, ocorreria caso prevalecesse o desejo da revanche e vingança. Para os negros brasileiros – que constituem 50,7% da população do país, de acordo com o Censo do IBGE 2010 – Mandela será sempre o símbolo maior da luta por igualdade, por um país justo e solidário, sem racismo nem discriminação. Será também a fonte de inspiração e de lições para formas de luta contra o racismo, capazes de abranger a todos – negros e não negros – com firmeza, altivez, determinação, mas jamais com ressentimentos que nos dividam, francionem e fragilizem: afinal, como bem o dizia Madiba “ressentimento é como beber veneno e, em seguida, esperar que ele mate seus inimigos”. Dojival Vieira é jornalista, diretor da Afropress e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares. Divulgação Nelson Mandela, com o então governador Leonel Brizola em 1991, quando ainda não era presidente da África do Sul e nem havia ganho o Nobel da Paz. Veio ao Rio para participar de discussões sobre o racismo e curtiu, ao lado da então mulher, Winnie, o samba de Martinho da Vila Invasão policial em Soweto, em 1986 56 57 Negros no Brasil O direito à cidadania continua distante O Mapa da Violência em suas várias edições, inclusive, na última de 2.013, repete um dado que, de tão conhecido começa a se banalizar: de acordo com o Mapa, realizado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), com apoio do Ministério da Justiça, negros são maioria entre as vítimas de homicídio – a principal causa de mortes não naturais e violentas entre jovens. De 2002 a 2010, dos 231 mil homicídios de jovens, 122,5 mil eram negros, o que corresponde a 53%. No mesmo período foi registrado um aumento de 18,4% nos casos de negros assassinados, enquanto entre os brancos o número diminuiu em 39,8%. A situação no mercado de trabalho não autoriza otimismo: o IBGE acaba de divulgar nova pesquisa em que aponta que, em 2013, pretos e par- dos ganharam, em média, pouco mais da metade – 57,4% - dos salários dos trabalhadores brancos. A média salarial, segundo o IBGE, de um negro é de R$ 1.374,79, contra R$2.396,74 para trabalhadores brancos. Os dados mais recentes do Laeser (Laboratório de Análises Econômicas, Historicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais) levantam um aspecto, normalmente ignorado e que desmente o senso comum de que os baixos salários, o subemprego, a ausência nos postos de mando e comando nas empresas seriam decorrência da pouca formação escolar. A educação, embora seja fundamental para enfrentar o racismo e a cultura discriminatória – que nada mais são do que a expressão da ignorância – não basta em si: Com instrução (11 anos ou mais de estudo) ou sem instrução ou menos de 1 ano de estudo, persiste um abismo de diferença nos salários: brancos tem rendimento médio real de R$ 2.897,89 contra R$ 1.657,00 de pretos e pardos – nas situações em que ambos tem 11 anos ou mais de estudo (veja tabela). Paradoxalmente, a tabela mostra que é exatamente na condição de sem instrução ou menos de 1 ano de estudo, que negros se aproximam mais dos salários dos brancos, mesmo que continuando em desvantagem: R$ 844,62 contra R$ 823,37. Todos os dados disponíveis de estudos acadêmicos e dos mais prestigiados institutos de pesquisa (IBGE, Dieese, IPEA, Fundação Seade) têm sido recorrentes e não autorizam grande otimismo, apesar de avanços pontuais, a começar pela maior visibilidade do tema nos meios de comunicação e na mídia em geral. O acesso à cidadania e a direi- tos como o de ter salário igual, morar com dignidade e não em habitações insalubres e sem saneamento, um sistema de saúde capaz de ampará-los quando precisam; ser tratado como cidadão pelo aparato do Estado e não como “suspeito padrão” como frequentemente ocorre: o direito de acesso à justiça em igualdade de condições, continuam distantes da população negra brasileira. Divulgação por Dojival Vieira ações por racismo e injúria racial nos Tribunais de Justiça de todos os Estados da Federação e no Distrito Federal entre 2007 e 2008, expôs com a eloquência dos números o retrato da impunidade: “os réus ganharam as ações em 66,9% dos casos, contra apenas 29,7% das situações em que os tribunais deram vitória às vítimas. Se conseguem sobreviver a um sistema judicial que tem um “olhar enviesado” para negros (não custa lembrar o professor emérito da Faculdade de Geografia da Universidade de S. Paulo, Milton Santos, uma das maiores autoridades mundiais em Geografia Humana, morto em 2001, para quem “ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo”) o jovem negro não escapa da violência que rotineiramente o condena à morte. A Chacina da Candelária, ocorreu na noite de 23 de julho de 1993, próximo à Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Onde, seis menores e dois maiores de idade sem-teto foram assassinados por policiais militares Vinte e cinco anos depois da Constituição de 1988 entrar em vigor, garantindo a todo o brasileiro o acesso a direitos fundamentais como o de expressão e manifestação, e definindo o racismo como crime inafiançável e imprescritível (art. 5º), o acesso à cidadania continua sendo um sonho para os negros brasileiros que correspondem a 50,7% da população, de acordo com o Censo do IBGE 2010. A Abolição que, no ano passado completou 125 anos, não se traduziu na inclusão dos descendentes dos escravizados que, desde o primeiro Censo realizado no país em 1872, 58 sempre representaram a maioria. Essa maioria, contudo, está bem representada nos presídios, nas periferias das grandes cidades, no subemprego, nos espaços reservados à pobreza e a miséria, mas muito pouco – ou quase nada - representada no mercado de trabalho, nos espaços de maior visibilidade social e de poder. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, recentemente divulgados, os negros, por exemplo, constituem maioria na população carcerária e no sistema prisional – são 54% dos 584 mil presos.Os números são tão eloquentes que o Conselho, este ano, decidiu fazer pesquisa para saber se os jovens negros sofrem algum tipo de discriminação no sistema judicial, quando se encontram na condição de réus. A pesquisa que será conduzida pelo Departamento de Pesquisas Judiciárias do órgão, muito provavelmente, avaliam os especialistas, confirmará os dados do Laboratório de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), coletados pelo professor Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).O relatório de Paixão, também recente e que analisou julgamentos em segunda instância nas 59 e a discussão dos novos caminhos para a produção e circulação audiovisual da região por Francisco Cesar Filho e Jurandir Müller Ângelo Antônio, ator do filme Entre Vales, de Philippe Barcinski, 2011 “Discutir a singularidade estética da cinematografia latino-americana e fomentar os novos caminhos da coprodução e circulação de bens audiovisuais da região” – assim foi definida a missão do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo quando de sua criação, ocorrida em 2006 por iniciativa do então Secretário de Estado 60 da Cultura de São Paulo, o cineasta João Batista de Andrade. Apontando claramente para uma vocação que vai além da exibição de filmes, sejam obras recentes ou históricas, tal enunciado também distingue a iniciativa de outros eventos congêneres realizados no Brasil e em outros países da América Latina. E talvez explique a razão do festival ser reconhecido pela crítica especializada como o mais importante festival latino-americano do país. Ao promover atualização constante da produção audiovisual da América Latina e revisitar grandes marcos de sua história cinematográfica, a qualidade da proposta curatorial adotada certamente, é responsável pelo Fotos:divulgação Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo imediato sucesso de público alcançado e, ao mesmo tempo, desempenha papel importante no prestígio crescente alcançado no Brasil e no exterior junto aos profissionais da área. Em linhas gerais, o eixo central do desenho de programação adotado reúne títulos inéditos e destacados das recentes safras, retrospectivas focadas em movimentos divisores, homenagens a autores fundamentais, uma competição com filmes de formatura de cursos superiores audiovisuais (promovido em parceria com a Cilect - International Association of Film and Television Schools) e programas especiais. Ressalte-se que a produção televisiva mais empenhada artística e culturalmente encontra-se aí contemplada. Mas, além das projeções nas telas do Memorial da América Latina e de diversas outras salas da capital paulista e do interior do estado, nas quais é destaque no calendário cultural, o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo dedica generoso espaço para discussões e debates, seminários e ciclos, oficinas e laboratórios de desenvolvimento de projetos. Reunindo expoentes internacionais da prática e da reflexão do campo das imagens em movimento, estas atividades tornaram o evento como momento estratégico para se conhecer e se avaliar as novas perspectivas da produção e da circulação de bens culturais audiovisuais de toda a América Latina e Caribe. Assim, logo em sua edição inaugural, em julho de 2006, um alentado ciclo de debates colocava em pauta questões como a distribuição e exibição alternativas e as novas modalidades de difusão televisiva. Também discutiu-se o papel histórico do cineclubismo e dos chamados novos cinemas dos anos 1960 (reunindo cineastas como o venezuelano Edmundo Aray, o chileno Miguel Littín, o brasileiro Nelson Pereira dos Santos e o argentino Octavio Getino). Finalmente, conceitos sofisticados como A Invenção da Fronteira, A Invenção do Caminho e A Desinvenção da Fronteira mereceram diálogos públicos com participação de críticos e cineastas – entre outros, Andrés Wood (Chile), Eduardo Escorel (Brasil), José Carlos Avellar (Brasil), Juan Carlos Cremata Malberti Cena do filme 3, de Pablo Stoll, 2012 61 (Cuba), Kiko Goifman (Brasil), Lírio Ferreira (Brasil), Marcelo Céspedes (Argentina), Marcelo Gomes (Brasil), Marcelo Piñeyro (Argentina), Mario Handler (Uruguai), Pablo Trapero (Argentina), Pedro Butcher (Brasil), Roberto Gervitz (Brasil), Santiago Loza (Argentina). Estes encontros foram transcritos no livro “Ciclo de Debates - 1º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo 2006”, organizado por Maria Dora Mourão e lançado em 2008. Parcerias de produção já estavam no centro de um dos debates realizados no ano seguinte, significativamente ao lado de uma análise das novas geografias produtivas da região (com presenças da equatoriana Tânia Hermida, da paraguaia Gália Gimenez e do uruguaio Sebástian Bednarik) tema que mereceu continuidade na terceira edição do evento, desta vez reunindo Alejandro Legaspi (Peru), John Petrizelli (Venezuela) e Sergio Wolf (Argentina). Ainda em 2007, atores do México e do Brasil, fotógrafos argentinos e brasileiros, e professores da Argentina, México e Brasil debateram, respectivamente, interpretação, ensino e 62 imagens do atual cinema latino-americano. Destaque absoluto em 2008, a mesa “Realidade: Apreensão e Representação” foi por muitos considerada histórica, ao colocar lado a lado, pela primeira vez, três autores brasileiros de propostas radicais e distintas: o mineiro Cao Guimarães, o pernambucano Cláudio Assis e o paulista radicado no Rio de Janeiro Eduardo Coutinho. A terceira edição marcou ainda o início dos laboratórios de coprodução, definitivo mergulho do festival no fomento a essa modalidade de realização. Em parceria com a FIA (Fundación para la Investigación del Audiovisual), Universidade de São Paulo e Cilect, tiveram lugar cinco oficinas de formação e capacitação em audiovisual para produtores, diretores, roteiristas e distribuidores. Contando com professores vindos da Argentina, Espanha e México, as oficinas tiveram como propósito “incentivar a discussão das co-produções internacionais e fomentar parcerias entre países ibero-americanos”. Os temas: “Desenvolvimento de Projeto: Pitching, O Papel do Produtor e A Criação do Roteiro”, “Estratégias de Co Produção”, “Formas e Estratégias de Financiamento: Como Captar e Gerenciar Recursos Internacionais”, “Marketing e Investigação de Mercado” e “Modelos e Novas Formas de Exibição e Distribuição”. Diante bem-sucedida acolhida, o seminário internacional proposto em 2009 teve por temas a co-produção, financiamento, desenvolvimento de projetos, marketing e modelos de negócios, contando com profissionais da Argentina, Brasil, Espanha, Itália e México. E culminaria, a partir de 2010, na criação de um evento autônomo e de grande procura: o BrLab – Laboratório de Desenvolvimento de Projetos Latino-Americanos, cujas três primeiras edições foram de responsabilidade da Associação do Audiovisual, entidade organizadora do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Entre os debates da quarta edição do evento, “Cinema da América Latina e Internacionalização” trouxe uma mesa expressiva, com Carlos Cuarón (diretor de “Rude e Brega”, México), Camilo Matiz (diretor de “1989”, Colômbia), Fabiano Gullane (produtor da Gullane Filmes, Brasil) com profissionais da América Latina e da Europa debatendo metodologias de trabalho, desenvolvimento tecnológico e conteúdo audiovisual, de maneira a fortalecer atuações regionais e criar um projeto comum de alcance continental com foco na formação de público para esta cinematografia. Estiveram representados projetos da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Holanda, México, Uruguai e Venezuela. Também teve lugar o 2° Encontro de Film Comissions da América Latina, uma parceria com o Ecine – São Paulo City Film Commission e a Abrafic - Associação Brasileira de Film Commissions que contou com presenças de iniciativas da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Em 2012, mais duas novas frentes ligadas à produção e coprodução cinematográfica foram criadas pelo Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Uma delas, o Prêmio Finaliza 2012, selecionou sete longas-metragens brasileiros em fase de pós-produção para concorrer a serviços de laboratório no valor equivalente a R$ 99,4 mil. A iniciativa, inédita em festivais brasileiras, foi fruto de parceria entre a Associação do Audiovisual, a Cinecolor Digital e o Programa Cinema do Bra- sil. Seu vencedor, eleito por um júri internacional, foi o longa-metragem O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra. Também definido por júri internacional, o Prêmio Itamaraty para o Cinema Sul-Americano é uma promoção anual feita em parceria com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. A premiação, de R$ 90 mil, é destinada a filmes contemporâneos da programação do festival que sejam realizados em regime de coprodução envolvendo pelo menos dois países da América do Sul. Foram contemplados, em 2012, “3”, de Pablo Stoll (Uruguai, Argentina, Alemanha, Chile) e “Um Mundo Misterioso”, de Rodrigo Morena (Argentina, Alemanha, Uruguai); em 2013 o vencedor foi “Entre Vales”, de Philippe Barcinski (Brasil, Alemanha, Uruguai). Como se constata, em sua trajetória de oito anos, o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo já representa papel central na discussão dos novos modelos de produção audiovisual da América Latina. E é só o início. Francisco Cesar Filho e Jurandir Müller são diretores do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Philippe Barcinski, vencedor do festival em 2013, com o filme Entre Vales 63 Fotos: acervo do Memorial da América Latina Fotos:divulgação Um Mundo Misterioso, de Rodrigo Morena, 2011 e Jorge Sanchez (então diretor geral do Festival de Cinema de Guadalajara, México). Em 2010, o papel da coprodução internacional foi atualizado em discussão reunindo o produtor Pablo Rovito (Argentina) e o professor e roteirista Joan Álvarez (Espanha). No mesmo ano, uma série de oficinas abordaram estratégias de coprodução e difusão; crítica cinematográfica; montagem; roteiro; e direção e criação cinematográfica. Um time estrelar de roteiristas - como Miguel Machalski (França/ Argentina), Fernando Bonassi (Brasil), Jorge Durán (Chile/Brasil) e Jean-Claude Bernardet (Brasil) -, e os produtores Gustavo Montiel (México) e Clélia Bessa (Brasil) estiveram no centro dos “Diálogos BrLab”, ocorridos em 2011. Um representativo debate sobre “Televisão Brasilera: Desafios Criativos” contou com Regina Gambini, gerente adjunta do SescTV; Renato Nery, então gerente de coprodução e políticas publicas da TVCultura; Rogério Brandão, gerente de programação da TV Brasil; Vanessa Cardim, gerente de produção e ativos do Canal Futura; e Malu Viana Batista, diretora executiva da TAL – Televisión América Latina. E, pela primeira vez no Brasil, ocorreu uma edição do Encontro da Rede de Cines Itinerantes da América Latina, América Latina por Tânia Rabello em Como chegar São Paulo A cada edição focamos um país da região : EQUADOR Em 2013 foi inaugurado o voo direto entre São Paulo e Equador. Os voos da companhia aérea equatoriana Tame Airlines saem de São Paulo todas as terças, quintas e sábados e passam por Quito, finalizando a viagem em Guayaquil. Até então, só era possível acessar o Equador fazendo escala no Panamá ou em outros países. Viajar É difícil indicar, no Equador, qual rumo seguir para conhecer a fundo o país latino-americano. Apesar de pequeno, com apenas 256 mil quilômetros quadrados (pouco maior do que o Estado de São Paulo, que tem 248 mil quilômetros quadrados), o país oferece paisagens tão diversificadas que, a não ser que o seu território seja totalmente percorrido, vão ficar faltando regiões importantes para visitar. A oeste está o Oceano Pacífico, com praias paradisíacas. Rumo ao leste, país adentro, logo se alcançam as altitudes extremas da Cordilheira dos Andes, com vários vulcões, alguns ainda ativos. Mais a leste, a floresta amazônica, de biodiversidade extremamente rica, encanta o visitante. Mas a principal e imperdível atração do Equador são as ilhas Galápagos, a mil quilômetros da costa equatoriana. Por meio das observações dos animais que fez ali, o naturalista britânico Charles Darwin lançou as bases da sua teoria da evolução, contida no livro A Origem das Espécies, em 1835. São 13 ilhas principais que compõem o arquipélago de Galápagos, além de dezenas de outras ilhotas no Oceano Pacífico. Ali vivem iguanas, leões-marinhos e tartarugas gigantes, e também albatrozes e tentilhões-de-Darwin. A principal porta de entrada para as ilhas é pela ilha de Santa Cruz, servida pelo aeroporto de Baltra. O local com as melhores acomodações turísticas é Puerto Ayora, de onde sai a maioria dos passeios. Entretanto, para conseguir aproveitar melhor o tempo, várias operadoras de turismo oferecem pacotes nos quais o viajante pode dormir no barco, que se desloca de ilha em ilha à noite, quando todos dormem. Se você não enjoar durante o trajeto, esta é a melhor opção. Em Quito: o site do Lonely Planet Brasil (lonelyplanetbrasil.com. br) elegeu o Equador como a quarta melhor viagem entre os dez países imperdíveis em 2013. Segundo o site, a rede ferroviária do Equador, reformada, tem novas linhas chegando Quito, a capital, ao porto de Guayaquil. Além disso, a linha férrea ligará a capital ao famoso vulcão Cotopaxi, de 5.900 metros, e o Nariz Del Diablo, que promete ser o trecho de estrada ferroviária mais íngreme do Ocidente. Ilhas Galápagos 64 Vestir Chapéu Panamá Engana-se quem pensou que o famoso adereço é originário do país de mesmo nome. O chapéu panamá surgiu, na verdade, no Equador, onde é chamado de el fino. Este modelo de chapéu, feito com a palha da planta Carludovica palmata, pode ser encontrado em São Paulo em algumas tradicionais chapelarias. Entre elas, a Plas, na Rua Augusta, 724, Centro, e-mail [email protected], tel. (11) 34598173 e 3257-9919. Comer São Paulo não dispõe de nenhum restaurante de comida típica equatoriana. Entretanto, a culinária do país, apesar de muito diversa (devido à diversidade de climas e regiões, com floresta, costa, ilhas e montanhas), tem vários ingredientes básicos facilmente encontrados na capital paulista, como peixes marinhos (para um ceviche, por exemplo); banana (a fruta mais popular do Equador, usada em grande variedade de pratos); arroz e tubérculos como batata, mandioca e batata-doce. A iguaria mais típica e que só se encontra em pet shops em São Paulo, porém, é um porquinho-da-índia, o cuy, que desde antes da colonização espanhola é consumido pelos indígenas. No Equador, é servido assado na brasa, no espeto. 65 O país dos vulcões Ler São 64 vulcões, dos quais 11 ativos em um território semelhante ao do Estado de São Paulo. Assim é o Equador, país pródigo nesse tipo de formação geológica – ele está situado no chamado Anel de Fogo do Pacífico, que atravessa praticamente todos os continentes, formando uma linha contínua de vulcões. Comenta-se que, de • Com o pano de fundo da década de 60, onde a juventude participava ativamente da luta por ideais políticos, Entre Marx y una mujer desnuda de Jorge Enrique Adoum mostra a atormentada relação de um grupo de jovens ativistas com sua realidade, a filosofia marxista e o sexo no Equador. Momentos em que a revolução parecia estar logo na esquina e onde tudo era proibido, até o amor. El Altar cada três equatorianos, um vive aos pés de um vulcão. O Equador tem, até, uma estrada no coração do país batizada de Avenida dos Vulcões, na Cordilheira dos Andes. Nesta estrada, que parte de Quito, a capital, em direção ao sul, pode-se conhecer nove entre os dez picos mais altos do Equador, além de oito vulcões, em paisagens de perder o fôlego. Cotopaxi Ilinizas • Outra pedida para quem quer saber mais sobre o Equador e aprecia a natureza selvagem, em um livro em inglês, Lonely Planet Ecuador & The Galapagos Islands, vendido no Brasil, pode se admirar a fauna e a flora de Galápagos com uma coleção de fotos que são verdadeiros cartões postais. Cultivar Orquídeas – o Equador é um dos países mais ricos nesta flor, contando com 1.714 espécies endêmicas, incluindo a menor orquídea do mundo, com apenas 2,1 milímetros. A Associação Orquidófila de São Paulo (www. aosp.com.br) promove, anualmente, • Entre os mais importantes escritores equatorianos, está Jorge Icaza (1906-1978), romancista da época do indigenismo. Seus livros, porém, não foram traduzidos para o português. Assim, é possível encontrar vários deles (entre eles En las calles; Cholos; El chulla Romero y Flores) no site Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br). Além disso, no site www.literaturaecuatoriana.com há uma imensa lista de escritores daquele país desde o século 20 até inícios deste século. na Rua São Joaquim, 381, no bairro da Liberdade, uma grande exposição de orquídeas. Em 2014, ela será realizada entre os dias 14 e 16 de março. No ano passado, trouxe, pela primeira vez, orquídeas do Equador, por meio da empresa equatoriana Equagenera. Web Na Biblioteca Virtual da América Latina (www.bvmemorial.fapesp.br) há inúmeras informações, em português, sobre o Equador, com indicativos de vários sites sobre os seguintes assuntos: o país, artes, arquivos, bibliotecas, bibliotecas digitais, fundações, governo federal, jornais eletrônicos, literatura, museus, revistas eletrônicas, turismo e universidades. Menor Orquìdea do mundo da família Platystele 66 EMBAIXADA DO EQUADOR NO BRASIL Fica em Brasília, DF Site: www.embequador.org.br Endereço: SHIS QL 10, conj. 8, casa 1, Lago Sul, tel. (61) 3248-5560 67 Imagem da edição “ Leia também a revista Nossa América no site www.memorial.org.br Intervenção policial no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. SBC. 1980. Foto de Juca Martins 68 69 Shows Exposições Eventos 70 Praça de lazer Publicações Infocentro Biblioteca Congressos Videoteca