LEILA GUIMARÃES LOBO DE MENDONÇA De que sofrem as crianças, hoje? Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-graduação em Psicanálise, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Pesquisa e Clínica em Psicanálise. Orientadora: Prof.ª Dra. Rita Maria Manso de Barros Rio de Janeiro 2011 CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA CEH/A M539 Mendonça, Leila Guimarães Lobo de. De que sofrem as crianças, hoje? / Leila Guimarães Lobo de Mendonça. – 2011. 119 f. Orientadora: Rita Maria Manso de Barros. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Psicologia. 1. Psicanálise infantil – Teses. 2. Crianças– Teses. 3. Desamparo (Psicologia) - Teses. 4. Subjetividade – Teses. I. Barros, Rita Maria Manso de. .II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Psicologia III.Título. dc CDU 159.964.2-053.2 Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação. ________________________________ Assinatura ________________ Data LEILA GUIMARÃES LOBO DE MENDONÇA De que sofrem as crianças, hoje? Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-graduação em Psicanálise, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Pesquisa e Clínica em Psicanálise. Aprovada em 17 de junho de 2011. Banca Examinadora: Prof.ª Dra. Rita Maria Manso de Barros (Orientadora) Instituto de Psicologia - UERJ Prof.ª Dra. Ana Maria Medeiros da Costa Instituto de Psicologia - UERJ Prof. Dr. Joel Birman Universidade Federal do Rio de Janeiro Rio de Janeiro 2011 DEDICATÓRIA A todas as crianças, em especial às crianças de Araçuaí - Vale do Jequitinhonha que souberam fazer do vazio e do silêncio um espaço para criar e não um abismo para morrer: "Quando o sol se escondeu muito além do chão e a luz viajou carregando o azul, o luar me chegou me acarinhou. Estrelou sobre o meu quarto de dormir. Sobre mim meu sonhar vagalumeou. E eu ouvi a canção de adormecer." (Acalento - Meninos de Araçuaí) AGRADECIMENTOS Com Freud, aprendi que somos marcados pelo desamparo. Com a vivência de análise, aprendi que, revolvendo a terra e abrindo sulcos, é possível semear, plantar e colher flores no deserto. É possível criar vida, onde existe a morte. Para mim, a experiência do mestrado foi mais que uma construção profissional; foi a construção de uma história, a qual me possibilitou colher flores no meu deserto. Assim, gostaria de agradecer as pessoas que estiveram comigo nessa construção. Agradeço, especialmente, a três pessoas que, junto a mim, semearam a terra. Ana Beatriz Lima da Cruz, pelos nossos encontros preciosos, onde semeei e plantei o desejo de aventurar-me no mestrado. Gilberto Barbosa Salgado (in memoriam) – grande querido amigo – pelos ensinamentos, troca de idéias e incentivos. Com ele semeei e plantei a coragem de continuar a aventura. Heitor Lobo de Mendonça – na grandeza de homem, de companheiro e de pai de nossos filhos – por sempre acreditar em mim, ajudando-me na expansão da minha potência de ser e de existir. Com você e nossos filhos, estou sempre semeando, plantando e colhendo vida. Agradeço também: À Rita Maria Manso de Barros, minha orientadora, que além de ter me acolhido nesse mundo do saber, me proporcionou a liberdade da escrita. A Joel Birman, pelo incentivo ao tema da minha pesquisa, pelas férteis contribuições na ocasião do exame de qualificação e, fundamentalmente, pelo o quê, com ele, aprendo a respeito do universo das subjetividades. À Ana Maria Medeiros da Costa pelas ricas contribuições e indicações literárias no exame de qualificação e, principalmente, pela sua abertura e delicadeza diante de outros caminhos teóricos. Aos meus pais, Luiz e Lúcia, pela minha existência e por terem me oferecido a semente pelo gosto do saber. Aos meus filhos, Fillipe e Renato, meus eternos meninos, pelas nossas experiências sempre tão cheias de vida. As minhas irmãs, cunhados e sobrinhos pelos momentos gostosos de sombra e água fresca. Aos meus amigos Carlos Meireles, Éder Schmidt, Francisco Farias, Germana Vitoi, Jodemar Porto, Leila Mendonça, Lucélia Schmidt e Luciana Gouvêa que, com ternura, souberam apaziguar minha tensão. À Lêda Lobo de Mendonça e Leila Lobo de Mendonça que me acolheram, na cidade maravilhosa, ao longo desses dois anos. À Sânya Paula Zancanelli pela dedicação e carinho a minha família e pelas organizações domésticas, favorecendo o bom funcionamento da casa. À Moema Rodrigues Brandão Mendes, pela gentileza, cuidado e dedicação na revisão de meu texto. Aos meus clientes, que me ensinam a cada momento. Aos colegas de mestrado, pelos momentos vividos de solidariedade, fraternidade e amizade, em especial à Cláudia Oliveira e Flávia Bonfim. À Congregação Redentorista, pelo trabalho que, durante muito tempo, realizamos em conjunto, em prol de um social mais fraterno. À Sociedade de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora, berço de ouro dos meus estudos psicanalíticos. Agradeço, também, aos seus membros, pela troca de idéias, sempre frutíferas. Ao Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos, pela abertura de novos horizontes em minha vida. Aos colegas da Faculdade Machado Sobrinho pelo incentivo, em especial a historiadora e professora Elaine Laier pelas contribuições históricas. Aos meus alunos do curso de Psicologia da Faculdade Machado Sobrinho, em especial os do 5º período – grandes interlocutores. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise do Instituto de Psicologia da Universidade de Estado do Rio de Janeiro pela transmissão e pelas questões que me suscitaram, em especial a professora Sônia Altoé que, desde o início dessa aventura, contribuiu muito para a realização dessa pesquisa. Agradeço também, ao corpo de funcionários da Secretaria, em especial Rita, Nazareth e Neide que sempre se mostraram presentes e atenciosas as minhas questões burocráticas. Por fim, agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro / FAPERJ, por ter me concedido uma bolsa de estudo possibilitando a realização desta pesquisa. Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: "coitado, até essa hora no serviço pesado." Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo. Adélia Prado RESUMO MENDONÇA, LEILA GUIMARÃES LOBO DE. De que sofrem as crianças, hoje?. 2011. 119 f. Dissertação (Mestrado em Psicanálise) - Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011. Esta dissertação, partindo da história social da criança, a qual permite a verificação de que o investimento do Outro (representante da cultura) sobre ela é fruto de uma construção que abarca os aspectos políticos e econômicos de uma época, tem como objetivo demonstrar que na cultura atual - que lança o sujeito para o imperativo de gozo - um vazio nas funções parentais se constituiu, visto que as figuras parentais estão mais voltadas para seus projetos individuais. Assim, novas atenções especializadas surgem como uma tentativa de preenchê-lo, uma vez que estão encarregadas não apenas dos cuidados e educação da criança, mas de seu processo de socialização primária. A existência de um grande número de especialistas em torno da criança aponta para o fato de que a ela são destinados inúmeros olhares e inúmeras palavras que, nos seus excessos, acabam por se transformar em olhares vazios e palavras perdidas. Desta forma, a criança hoje parece ser fruto de um desejo anônimo, onde o Outro regido pelo imperativo da satisfação, não abrindo mão de sua satisfação narcísica, acaba por não sustentar um olhar, uma palavra, comprometendo, assim, a constituição da imagem do corpo daquela e, consequentemente, o seu processo de simbolização. Este é o ponto focado nesta pesquisa: a precariedade desse investimento primordial, que tem como função retirar o infante de um estado de desamparo, na medida em que realiza um contorno ao que é da ordem do real, possibilitando, por conseguinte, outro destino para o excesso pulsional, impedindo a prevalência da pulsão de morte no psiquismo. Palavras-chave: Criança. Outro primordial. Desamparo psíquico. Cultura. RÉSUMÉ Le objectif majeur de cette recherche est démontrer que, dans la culture actuelle - qui pose en evidence l'impératif de jouissance - il y a un type de vide des fonctions de la parentalité, puisque les figures parentales ont comme fin les projects individuels. Pour cela on part de l'historie sociale de l'enfance, selon laquelle on a possibilité de vérifier que l'investissiment de l'Autre (le representant de la culture) sur l'enfant c'est le résultat d'une construction qui englobe les aspects politiques et économiques d'une époque. De cette manière, des nouvelles enterprises spécialisés chargées des soins, de l'éducaction de l'enfant et du porcessus de la socialisation primordial, se sont posées a fin de que ce vide soit rempli. L'éxistence d'une grande quantité de profissionels spécialisés qui s'occupent de l'enfant indique que plusieurs régardes et de nombreux mots qui, en raison de leur excès, finissent pour devenir en formes des régards vides e des mots perdus. Ainsi, l'enfant d'aujoud'hui semble être produit par un désir anonyme, selon lequel l'Autre est régis par l'impératif de satisfaction qui ne laisse pas a côté leur satisfaction narcisique. Comme consequénce, l'Autre, dans ces conditions, ne sert pas du suport d'un régard, d'un mot et à cause de ça, reste commis la constitution de l'image du corps de l'enfant et aussi le processus de symbolisation. Voilá le problème en question de cette recherche: la précarité de ce type d'investissement pulsionnelle qui a pour fonction SUMÁRIO INTRODUÇÃO 11 1 O QUE É UMA CRIANÇA 22 1.1 A miniatura do adulto ou a criança fora de cena 27 1.2 O futuro da nação ou a criança como o centro da cena 38 1.3 O encontro com Freud 43 2 A CRIANÇA E O INFANTIL 49 2.1 O filhote do homem e o desamparo primordial 51 2.2 A criança entre a mãe e a mulher 2.2.1 2.2.2 2.3 De menina à mulher De mãe e filho Quando as palavras custam a chegar: a criança mal acolhida 59 61 70 3 CRIANÇAS INVISÍVEIS: O SOFRIMENTO DA CRIANÇA HOJE 88 3.1 A cultura em que vivemos 89 3.2 Outra ordem familiar 93 3.3 E a criança com isso? 98 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 105 REFERÊNCIAS 113 74 11 INTRODUÇÃO Quando saio ao terraço, vejo o garoto pela janela do prédio em frente, a partir de duas da tarde. Tem cerca de dez anos e passa o dia sentado em seu quarto, diante da televisão, e sempre num desenho animado. A diferença é que seu rosto fica a três palmos da tela, e esta é daquelas de parede, com mais de 50 polegadas. Ninguém assiste de tão perto a uma TV dessas. Mas ele não está vendo TV. Está no computador - o teclado e o monitor ficam bem debaixo da super tela. A cena se repete pelo resto do dia e invade a noite e a madrugada. Quando eu próprio acho que é hora e saio apagando as luzes do meu apartamento, deixo-o lá, acordadíssimo, digitando sob um Pernalonga gigante. Assim como eu, ele mora na quadra da praia, a qual não é de jogar fora. Vem gente de longe para conhecer o Leblon. Nesta semana, tivemos uma ressaca que atirou areia na pista, levantou parte do calçadão e fez a delícia dos surfistas. Foi um espetáculo bonito. Posso apostar que ele não desceu para apreciá-lo. Corre na televisão um comercial de outro garoto sentado ao computador, sendo admoestado pela mãe: “Larga esta internet, Pedro Henrique!”, ou coisa que o valha. Pedro Henrique de frente para a câmara e de costas para a mãe, faz todas as caras de aporrinhação e tédio. A mãe não tem esse direito. De repente, ele perde a paciência. Digita alguns controles e, ploft, “deleta” a mãe. Era o que faltava para a sua felicidade: livrar-se daquela chata. A internet agora é só dele - ou ele, dela. Meu jovem vizinho aqui no Leblon é mais feliz: não precisa deletar a mãe. Nunca vi um adulto no dito apartamento. E, se houver, nunca foi ao seu quarto mandá-lo largar o teclado e ir fazer qualquer outra coisa. Mas tanto faz se há ou não esse adulto. O guri mora sozinho. (Ruy Castro, Sem mãe para deletar). 1 Publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 03/08/2007. 1 12 Muito antes de formular o tema dessa pesquisa, eu 2 já me encontrava envolvida por aquilo que penso ser a resposta à interrogação que intitula essa dissertação – a precariedade ou a inconsistência da função materna, isto é, quando o investimento do Outro primordial sobre o infante opera de forma frágil. A experiência de um trabalho que durou cerca de quatorze anos, realizado em uma instituição religiosa, a qual recebia meninos que desejavam ingressar no seminário, a fim de se tornarem padres ou religiosos, foi a mola propulsora das minhas inquietações. Muitos deles vinham da zona rural do Vale do Jequitinhonha, dessa terra árida, onde desde muito pequenos já experimentavam o peso da vida ou a morte à espreita. Filhos da seca, da fome e da miséria, mostravam ser sujeitos devastados pela precariedade, não apenas da água e do alimento, mas de todo um investimento libidinal por parte do Outro, o que os tornavam precários em suas defesas simbólicas. Como o que estava em jogo era a sobrevivência, parece possível que o olhar do Outro materno se desviasse para a sua própria dor, não tendo libido suficiente para investir o filho. Antes de o dia raiar, seus pais saíam para trabalhar a terra e, não raro, eles, os filhos, eram deixados sob os cuidados de um irmão, que muitas vezes não passava de uma outra criança. Expostos a toda sorte de perigo, viviam sob constante tensão. Nem sempre a volta dos pais era sinal de amparo, de apaziguamento da tensão. Tomados, também, pelo excesso de tensão que a luta pela sobrevivência lhes infligia, era comum descarregá-lo através de atos violentos sobre os filhos, comumente movidos pelo uso do álcool. Assim, a negligência, os maus-tratos, o espancamento, tal como o abuso sexual e a exploração de menores eram práticas comuns a que esses sujeitos ficavam submetidos. Ali eles pareciam viver a partir de um lema “cada um por si e Deus por todos”, já que a religiosidade, nessa região, é uma presença forte. Por várias vezes, escutando esses sujeitos, ficava a pensar: como sobreviveram a tamanho desamparo, na sua faceta mais radical? Muitos desses meninos pareciam viver uma experiência limite. Sustentados por um fio de vida, conseguiam manter um pouco de organização psíquica. Isso me remetia ao texto Em defesa de uma certa anormalidade de Joyce McDougall (1978/1983), em que, 2 A presença da 1ª pessoa do singular – eu – nos parágrafos iniciais insere-se propositalmente, à pesquisa, objetivando fundamentar experiências pessoais vividas de forma única e intransferível. A posterior há retomada da 1ª pessoa do plural – nós – atendendo às normas acadêmicas. 13 através de algumas experiências clínicas, ela constatara que para alguns sujeitos a problemática do desejo edipiano parecia ser da ordem do luxo. Esta era a impressão que eu tinha ao escutar alguns desses sujeitos, pois não era o conflito edipiano que se colocava à frente, mas o reconhecimento da existência, devido à precariedade do investimento narcísico e, consequentemente, da fragilidade simbólica. Se esta era apenas uma impressão, certo era que, mais do que buscar uma formação sacerdotal, esses sujeitos buscavam vida. O investimento da instituição religiosa sobre eles proporcionava um refúgio para manutenção de alguma organização psíquica. Além de casa, comida, estudos, cuidados com a saúde e lazer, a existência de alguém, representando uma autoridade e uma referência, possibilitava um contorno ao que era da ordem do real, permitindo, dessa forma, com que esses sujeitos passassem a se ocupar com o que era da ordem do desejo. Claro era que o investimento da instituição, cumprindo uma função de intervenção, abria outra via para esses sujeitos, possibilitando outro destino para as intensidades pulsionais, que não fosse lesionar o corpo. Vale dizer que quadros como psoríase, bronquite asmática, gastrite e dermatite eram comuns na história desses meninos. Portanto, se os “filhos do Jequitinhonha” deixavam às claras a face radical daquilo que Freud afirmou ser a condição fundante do humano – o desamparo –, a experiência com eles deixava transparecer o ensinamento freudiano, de que o investimento do Outro sobre o sujeito é capital para que uma organização psíquica possa se estabelecer. Uma outra experiência de trabalho, realizado na enfermaria da neonatologia de um Hospital localizado na cidade de Juiz de Fora/MG, também foi fundamental para pensar as questões relativas à precariedade do investimento libidinal do Outro primordial. Não muito raro, deparava-me com situações em que o encontro da mãe com o bebê real, o qual não correspondia ao bebê idealizado durante a gestação, se constituía em um trauma para ela. Nestas circunstâncias, era percebida uma escassez de investimento do Outro materno. Por viver a dor do luto de seu bebê imaginário, a mãe não conseguia investir suficientemente seu filho. O investimento libidinal materno que seria destinado ao bebê retornava para ela. Essas situações apontavam para um cenário que colocava em risco, quando não a vida do recém-nascido, a sua saúde psíquica. 14 Logo, era bastante evidente, como veremos mais adiante, os efeitos sobre a criança quando a função materna operava de maneira deficiente. Ainda que fossem experiências distintas, em que cada qual possuía objetivos próprios e bastante diferentes, havia um denominador comum entre elas: a precariedade ou a inconsistência do investimento libidinal do Outro primordial e seus efeitos sobre o sujeito. Por isso, o desejo de citá-las na abertura dessa pesquisa. Além de elas terem despertado em mim uma consciência maior sobre a importância da inserção da psicanálise no social, não se restringindo à clínica, essas experiências me impulsionaram a refletir, a questionar e a abraçar, como causa da minha investigação, o que eu observara a respeito da criança no mundo atual, visto que me remetiam a esta ordem de investimento. Portanto, entre outras razões, essas experiências se tornaram caras a mim por terem possibilitado com que eu saísse da pura e simples observação e avançasse para o campo da pesquisa. Assim, essa pesquisa parte de alguns pontos que, há algum tempo, destacam-se sobre outros. São observações que nasceram tanto na clínica como fora dela. Citamo-las: Concorrendo com outras manchetes, veiculadas diariamente pelos principais meios de comunicação, que apontam para a desgraça, a violência contra a criança tem aparecido sob formas diversas: abuso sexual, abandono de bebês, espancamento, negligência, maus-tratos. Em muitos casos os autores da violência são seus pais, seus responsáveis, seus cuidadores, enfim, aqueles que teriam como função cuidar e proteger. O abandono de bebês tem sido tão frequente que, no Brasil, tramita nos órgãos federais a aprovação da lei do parto anônimo, 3 assim como alguns países europeus voltaram a adotar, em seus hospitais, uma prática medieval: a “roda do milênio”, uma versão moderna da antiga roda dos enjeitados. Em se tratando de classes sócioeconômicas mais favorecidas, a contratação de inúmeras prestações de serviços para cuidar da criança que acabou de nascer – enfermeiras, dormideiras e babás – tem sido habitual, uma vez que os pais, por diversas razões, não têm tido disponibilidade para os necessários cuidados. 3 Tendo como finalidade reduzir o número de abortos clandestinos e de abandono de recém-nascidos, foram criados e apresentados três Projetos de Lei (PL nº 2.747/08, 2.834/08 e 3.220/08) que hoje tramitam na Câmara dos Deputados. 15 O surgimento de produtos, fruto das novas tecnologias, substituindo o que, em geral, era realizado pelo agente materno: Zaky Infant Pillow ou “sossega nenê”, baby says ou “pulseira do choro” 5 e o berço eletrônico. 4 6 A busca imediata pelo pediatra para que este possa nomear, dar uma significação e fazer cessar àquilo que do bebê escapou ao controle dos pais. É importante sublinhar que esta busca, normalmente realizada pela mãe, num tempo anterior era remetida a sua própria mãe, avó e mulheres mais experientes da família. A presença dos pais tem se limitado ao período da noite e aos finais de semana. Aprendemos que a intensidade, a qualidade da presença, é muito mais importante que a sua quantidade. Entretanto, observamos que essa qualidade tem sido precária, na medida em que a presença parece ser muito mais para suprir a culpa sentida pelos pais – por se ausentarem – do que propriamente uma disponibilidade de estar com a criança. As crianças têm frequentado, cada vez mais cedo, os consultórios psicanalíticos. Sabemos, desde Melanie Klein, que não existe uma idade estipulada para que alguém seja escutado por um analista, mas é a partir de algumas décadas que estudos, pesquisas e a prática da psicanálise com bebês ou intervenção precoce ganharam campo fértil. As crianças não têm tido tempo para brincar, em função das inúmeras atividades extras escolares que praticam em nome de um futuro brilhante, da mesma forma que elas não têm tido tempo para ficar em casa. Tratando-se de crianças menores, é comum elas passarem o dia inteiro na creche. Portanto, a casa parece ter se restringido a um local para dormir, já que as crianças têm ficado cada vez mais nos espaços públicos. A clínica com a criança tem nos apresentado outra ordem de fenômenos, muito diferente de tempos atrás: fenômenos que expressam um excesso pulsional, o qual se manifesta sobre a forma de violência, seja contra o outro, seja contra o próprio sujeito. Assim, tem sido comum a criança mostrar sua desorganização, seu excesso pulsional, através da hiperatividade, bulimia, anorexia, pânicos, apatia, fenômenos psicossomáticos, atos antissociais, enfim uma série de atos 4 Consiste em dois acolchoados, em forma de mãos humanas, que se encaixam na cabeça e no tronco do recém-nascido, simulando o carinho materno. 5 Um sensor colocado dentro do travesseiro do bebê analisa o choro da criança e transmite a causa dele para a pulseira usada pelos pais. O Baby says alerta assim para o motivo do choro, podendo ser definido em seis palavras, nas pulseiras usadas pelos pais, como sono, fome, fralda, tédio, doença ou stress. 6 Embala o bebê e oferece várias opções de músicas para ninar o bebê. 16 que apontam como sendo o único destino para o seu excesso pulsional, devido à inconsistência de recursos simbólicos que possibilitem a colocação de margens ao percurso pulsional (BARROS e OLIVEIRA, 2004). A prontidão e a frequência com que as crianças têm sido medicadas pela psiquiatria atual, mesmo em se tratando de crianças menores. As inúmeras observações realizadas sobre a criança na atualidade favoreceram o surgimento de algumas questões: “de que forma as transformações ocorridas na esfera sóciopolítico-econômica, a partir da segunda metade do século XX, afetaram a criança?”, “qual o lugar da criança na sociedade e na família no tempo atual?”, “qual o lugar de um filho para a mulher hoje?”, “de que forma ele tem sido inscrito em seu desejo?”. Sem a pretensão de responder a todas essas questões isoladamente, até porque algumas delas se constituem como tema de uma pesquisa (como por exemplo, qual o lugar de um filho para a mulher, hoje?), percebemos a existência de uma ligação entre elas, a qual contribuiu para a composição do tema desse estudo – o sofrimento da criança na atualidade – que pensamos apontar para a precariedade do investimento do Outro sobre ela. Discorrer sobre a criança torna-se complexo, pois o Outro, como representante da cultura, está implicado. A sua existência está subordinada a ele. É a partir dele, de seu investimento, que ela é nomeada e que um discurso sobre ela é produzido. Desta forma, é através do Outro que a criança é definida, significada e um lugar de pertinência lhe é dado. Isso pressupõe que o Outro exerce um poder sobre ela, que tanto pode ser da ordem de um investimento, que possibilita a vida, como pode ser da ordem de uma destituição, levando à morte; se não a uma morte física, com certeza a uma morte simbólica. Partindo desse preceito, percorrer a história social da criança foi fundamental para essa pesquisa, pois ela possibilitou a percepção de que a criança, tal como a conhecemos, é fruto de um investimento afetivo que nem sempre existiu, tanto por parte da sociedade, quanto por parte da família. Isso nos levou a reconhecer o que o historiador francês Philippe Ariès (1973/1981) demonstrou de forma bem clara: que a infância é fruto de uma construção social, ou seja, ela pode ser compreendida a partir de uma noção histórica e cultural construída. Portanto, o primeiro capítulo dessa pesquisa – O que é uma criança? – se constitui, eminentemente, de elementos históricos, em razão da história social da criança possibilitar a percepção de que os dados conceituais concernentes à criança 17 não são atemporais. Eles surgem em função de um tempo, de um lugar e de um contexto histórico. Assim é que a história social da criança tem a propriedade de mostrar a construção do investimento do Outro sobre a criança, através do qual foi possível a ela a inscrição de um lugar no campo social e na família. Ao nos valermos dos conhecimentos da História, tomamos ciência de que nem sempre a criança polarizou a atenção do Outro. Muito ao contrário, houve um tempo, mais precisamente na Idade Média, em que à criança não era destinado um lugar próprio, deixando claro que a sua particularidade não era reconhecida. Se escapasse da morte precoce, cedo ela entrava no mundo do adulto e era confundida com ele. Foi preciso um longo tempo, para que ela ganhasse uma inscrição na língua e fosse reconhecida, saindo, assim, do anonimato. Portanto, fora de cena – do social, da família e, até mesmo, da língua – em épocas pretéritas, a criança não possuía nenhum valor. Equiparada ao animal, confundida com o adulto, julgada como representante do mal e considerada um estorvo, a criança, principalmente a pequena, tinha a sua existência ameaçada. Não por acaso, o índice de mortalidade infantil era absurdamente alto, tão grande era a falta de investimento do Outro sobre ela. Fruto de uma construção, que se iniciou com a preocupação dos educadores, moralistas e religiosos do século XV, em separar a criança do mundo dos adultos, a fim de mantê-la em sua inocência primitiva, nasceu o sentimento da infância e, com ele, o sentimento da família – formadores da família moderna ou família nuclear, possibilitando à criança ocupar um lugar central a partir do qual recebia toda sorte de investimento afetivo. Porém, não somente essa preocupação se fez presente. A preocupação por parte do Estado com a alta mortalidade infantil, que começava a ser uma ameaça para o seu projeto que a anunciava como “futuro da nação”, foi fundamental para que a criança ocupasse efetivamente um lugar. Considerada o “futuro da nação”, ela passou a ser o centro da cena, tendo a atenção, o cuidado, enfim, o investimento do Outro concentrado sobre ela. Assim, de objeto imperfeito e, portanto, desprezível, a criança foi promovida a objeto altamente valorizado. Como “futuro da nação”, ela passou a constituir a peça fundamental do projeto da modernidade e, em função disso, novos saberes surgiram, a fim de protegê-la, educá-la, discipliná-la e, principalmente, conhecê-la inteiramente. Embora a preocupação com a criança visasse aos interesses políticos e econômicos da época, compreendemos que ali havia uma positividade, uma vez 18 que, além de ter retirado a criança do anonimato ou de uma posição de dejeto, essa preocupação construiu uma imagem da criança e para a criança, que possibilitou com que a sua condição de objeto fosse contornada, o que outrora era descortinada. De qualquer forma, o que se evidencia é que o investimento do Outro tirou a criança das margens do real da morte, levando-a, efetivamente, à vida. Foi neste cenário, final do século XIX, que surgiu a psicanálise; um cenário em que se pensava a existência da criança visando ao adulto – “adulto em potencial”. Ainda que, atendendo, também, ao ideal estabelecido, a psicanálise subverteu esta ordem de existência, à medida em que ela nasceu pensando o adulto a partir da criança que ele foi. Assim, enquanto os saberes científicos da época se voltavam para a tradução daquilo que se observava na criança – suas manifestações –, o pensamento freudiano era atravessado pelo resto das manifestações que a observação, restrita a tradução, não alcançava, por lhe escapar. Tendo como fio condutor esse resto, o pai da psicanálise, escutando seus pacientes, pôde pensar o infantil por uma outra via, não mais arraigado à dimensão cronológica e evolutiva, sujeito ao tempo da realidade material, à continuidade e à harmonia e, consequentemente, passível de ser moldado e adaptado. Voltando-se para o resto das manifestações que a observação não alcançava, Freud localizou, então, o infantil. Demonstrando-nos que esse aponta para a descontinuidade – sendo assim impossível de ser moldado – ele esclarece-nos que o infantil se identifica com o resto que sempre escapa às expectativas e pretensões de uma harmonia, fundamentando a realidade psíquica. Desde a sua criação, a psicanálise deu lugar de destaque ao pai em relação ao sofrimento daquele que, mais tarde, teria seu estado de espírito perturbado. Assim foi na teoria do trauma real, em que a figura do pai havia sido apontada como a causadora dos excessos sexuais, como foi, também, nos diversos casos clínicos que apontavam para a função paterna que, como lei, havia fracassado. Todavia, Freud (1905/1987) não deixou de observar a importância da função do Outro primordial – a de despertar a pulsão sexual, ou seja, a de produzir vida em um organismo marcado pela possibilidade real da morte e, portanto, atravessado pelo estado de desamparo – sendo esta a tônica do segundo capítulo – A criança e o infantil – da presente investigação. Esta compreensão indica que a presença do Outro primordial não se reduz, apenas, em suprir as necessidades vitais, ação que qualquer um pode realizar. Trata- 19 se de uma presença impregnada de um desejo singular; trata-se de uma presença desejante e consistente que, além de retirar o infante do estado de desamparo, favorece a construção de um corpo erógeno, isto é, propicia a transformação do organismo em um corpo simbólico/imaginário, contornando o que é da ordem do real – o desamparo psíquico, caracterizado pelo transbordamento energético. Evidentemente, que esse processo não está livre dos aspectos singulares da subjetividade do outro. Muito ao contrário, eles são os determinantes que colocam em ação, ou não, as funções materna e paterna. Vale lembrar que, por se tratar de funções, não necessariamente tem que haver uma justaposição às figuras parentais para o exercício delas. Porém, é importante assinalar que o lugar que o filho ocupa na subjetividade de uma mulher carrega uma especificidade, uma vez que ele representa, simbolicamente, aquilo que lhe faltou – o falo. Desta forma, ela o toma como objeto privilegiado de seu desejo, obturando, ilusoriamente, a sua castração. Assim, a partir da sua condição de faltante, a mãe investe libidinalmente o filho. Trata-se de um investimento primordial e fundador, sendo a condição necessária para a inserção do infante no mundo simbólico e o suporte para a constituição de uma imagem de si, reconhecida e confirmada pelo Outro primordial. Porém, nem sempre o investimento é dessa ordem. Nem sempre a mãe tem prazer em se ocupar com o seu bebê, seja porque ele lhe cansa, seja porque é mais um filho entre tantos outros, seja porque se sente tão desamparada quanto ele, seja porque ele resulta em uma frustração para ela, isto é, ele representa para ela a sua própria castração. Dessa forma, a ação que era para ser realizada entremeada pelo prazer da mãe, na ausência dele, passa a ser realizada de forma mecanizada. Situações assim, parecem levar à precariedade da função materna, cujos efeitos sobre o sujeito são devastadores. Dentro desse aspecto, vários autores contribuem para a nossa linha de pensamento. Com Freud, ao nos debruçarmos sobre os textos Além do princípio de prazer (1920/2006) e Inibições, sintomas e ansiedade (1926/1987) compreendemos que a função materna, na medida em que propicia uma vinculação da energia livre realiza uma contenção, funcionando como um escudo protetor contra a invasão excessiva de estímulos. Quando a função materna falha, a criança se vê exposta à invasão, a qual é vivenciada como uma situação traumática. Lacan, ao formular o conceito estádio do espelho (1949/1998), demonstra que pela mediatização do olhar desejante do Outro a imagem de um corpo unificado é construída, constituindo-se 20 como um anteparo contra a angústia de despedaçamento e da fragmentação corpórea. Ferenczi, em A criança mal acolhida e sua pulsão de morte (1929/1992), destaca que a criança que não foi um “hóspede bem-vindo na família” perde o gosto pela vida e, finalmente, Winnicott, ao destacar a importância da preocupação materna primária (1956/2000) e da criação do espaço potencial (1971/1975), fruto da confiança que a mãe suficientemente boa inspira ao bebê, alega que o fracasso na confiança provoca um empobrecimento da capacidade de experiências criativas, ou seja, restringe a capacidade de brincar e de criar, devido às limitações do espaço potencial. A partir, então, dessas formulações teóricas, podemos constatar que o investimento do Outro primordial – motor para o funcionamento da função materna – é a primeira defesa do infante, visto que ele impede a prevalência da pulsão de morte no psiquismo. Compreendemos ser ele, a base para a criação de recursos simbólicos do sujeito, ou seja, a base para uma maior capacidade do sujeito em criar novos objetos de satisfação num a posteriori. Atualmente, onde tudo indica que o sujeito é movido pelo imperativo da satisfação, parece que o Outro não está podendo, junto à criança, construir um espaço potencial que possa favorecer uma maior capacidade de simbolizar e de criar, a qual a protegeria das intensidades pulsionais, como nos elucida Winnicott (1971/1975). É para isso que as observações mencionadas, logo no início, apontam – para a precariedade de uma disponibilidade afetiva dirigida àquele que está por construir o prazer de viver, isto é, apontam para precariedade do investimento narcísico do Outro primordial no infante e, consequentemente, para a fragilidade simbólica que isso gera nele. Consideramos que a tônica dessas observações está intimamente relacionada com duas grandes transformações que ocorreram na esfera sóciopolítico-econômica, a partir da segunda metade do século XX, as quais afetaram a criança frontalmente, sendo esta a essência do terceiro e último capítulo dessa pesquisa – Crianças invisíveis: o sofrimento da criança hoje. A primeira das transformações diz respeito à nova ordem familiar que se constituiu a partir da revolução feminista, do nascimento da pílula anticoncepcional e da legalização do divórcio, propiciando que a mulher fosse para “o mundo” em busca de novos projetos identitários. Somadas a isso, as novas formações familiares – monoparental, homoafetiva e família resultante de vários casamentos com os filhos de uniões anteriores – criaram outras formas de relação de parentesco, gerando um 21 novo “arranjo” familiar; um “arranjo” que aponta para a indefinição de papéis – se comparado ao tempo anterior em que estes eram rigidamente demarcados. Entretanto, é necessário levar em consideração que essas mudanças estão inseridas em uma conjuntura político-sócioeconômica, a qual apresenta um discurso que promete a satisfação plena e imediata, sendo essa a segunda grande transformação referida acima. Sem negar a positividade que cada qual trouxe ao mundo, essas transformações exerceram forte efeito sobre as crianças, como já foi expresso. Em consequência delas, entendemos que um vazio em relação às funções parentais se constituiu e as crianças foram entregues às novas atenções especializadas e às inúmeras prestações de serviços criadas para elas. Enfim, no mundo atual, temos um grande número de especialistas em torno da criança, que nos faz pensar que a ela são destinados inúmeros olhares e inúmeras palavras que, nos seus excessos, acabam por se transformar em olhares vazios e palavras perdidas. De “miniatura do adulto”, a criança passou a ser o “futuro da nação”. Da altura desse lugar, ela caiu. A imagem que envelopava a sua condição de objeto se desfez, e a ela restou ou o lugar de objeto de gozo ou o lugar de dejeto. Enquanto sujeito parece que ela se tornou invisível aos olhos do Outro. Estaríamos voltando às épocas passadas? 22 1 O QUE É UMA CRIANÇA? Portanto, sempre se é filho da época em que se vive, mesmo naquilo que se considera ter de mais próprio. Sigmund Freud 7 A princípio essa parece ser uma interrogação que detém uma resposta evidente e imediata. Se recorrermos aos dicionários, encontraremos a seguinte definição: criança é o ser humano de pouca idade, menino ou menina. A mesma impressão teremos com a palavra infância quando interrogada, que significa o período de crescimento que vai do nascimento até a puberdade. Contudo, esses sentidos nem sempre existiram. Segundo Ariès (1973/1981), as idades da vida possuíam outro ordenamento lógico, muito diferente do que conhecemos. Houve um tempo, por exemplo, em que a infância e a adolescência se confundiam, não sendo diferenciadas. Os termos puer e adolescens eram utilizados de forma indiferenciada. Na França, empregava-se o termo enfant para designar a criança, porém seu sentido era amplo. Ele podia significar tanto o putto – criança nua com asas representada na arte medieval – como podia representar o adolescente – garoto, menino grande, mas, também, menino mal educado. Somente durante o século XVII surgiu uma diferenciação. Essa nasceu em meio à burguesia, enquanto nas classes sociais mais dependentes, a indiferenciação persistiu. Com a diferenciação, a palavra infância passou a se limitar ao seu sentido moderno e a expressão “criança pequena” ou “criancinha” ganhou o lugar que hoje lhe atribuímos. Porém, até o século XVII, não havia um termo para distingui-la da criança maior. Palavra como baby, da língua inglesa, designava, também, a criança grande ou em idade escolar, da mesma forma que poupart da língua francesa, que parecia ser aplicada à criança bem pequena, na realidade era usada para designar os pequenos clérigos. Diante do novo interesse que começava a surgir em torno da criança pequena, a França importou da língua italiana a palavra bambino, diminutivo de bambo, de onde se originou a palavra francesa bambin. Nesta época, tornou-se 7 Jeffrey Masson, A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess, 1887 – 1904, Rio de Janeiro: Imago, 1986, p. 278. 23 frequente o emprego de termos no diminutivo para se referir a criança, aliás, um hábito que se estendeu até os dias atuais. Entretanto, essas nomeações eram endereçadas à criança pequena que já possuía algum desembaraço. Quanto à criança muito pequena – aquela que conhecemos como bebê – essa só recebeu uma inscrição na língua a partir do século XIX, quando o francês importou do inglês a palavra baby, que deu origem ao termo bébé. Esse breve percurso pela terminologia das idades nos permite verificar que foi preciso um longo tempo para a criança ser nomeada e, consequentemente, reconhecida como um ser que possui características peculiares. Porém, mesmo com todo o processo de investimento que se construiu em torno dela, suas peculiaridades são vinculadas ao que é da ordem da incapacidade e da deficiência. Vale ressaltar que os dicionários trazem outras acepções para o termo criança e seus associados. Essas carregam uma tonalidade que pode apontar para um caráter depreciativo, tais como: pessoa ingênua, infantil e tola ou ingenuidade, imprudência, simplicidade e irreflexão ou, ainda, escravo, servente e pequeno. Essas significações fazem parte do imaginário social que acaba por atrelar a criança não a uma diferença em relação ao adulto, mas a uma inferioridade. Presentes desde a Antiguidade, que considerava a criança um adulto imperfeito e, portanto, inferior, essas significações se estenderam no tempo, visto que não se silenciaram em nosso discurso. É comum escutarmos tais expressões: “não seja infantil”, “não leve em consideração, é apenas uma criança”, “deixe de ser criança”, “não sabe o que diz, é uma criança”, entre tantas outras. É curioso observarmos que essas significações de cunho depreciativo se encontram na rede de articulações que a origem das palavras, criança e infância, produzem. Essa rede de articulações, que traça uma configuração da criança ligada à idéia de dependência e submissão, parece servir de sustentação para a construção de um discurso sobre ela. Assim, vejamos. De procedência latina, o termo criança tem sua origem em creantia, particípio presente do verbo creare (criar), relativo ao animal que se está criando. De o termo criar, podemos destacar algumas significações: a que diz respeito ao ato de gerar, formar, produzir ou inventar, a que se refere a uma ação realizada – criado – e que, assim, pode ser remetido àquele crescido, educado ou formado e, enquanto substantivo comporta uma significação de serviçal, escravo, aquele que não é livre. Pueril, um outro termo para designar o que é próprio de criança ou infantil, pode 24 significar servente ou ajudante. Sua origem está no radical latino puer, que por sua vez tem sua origem em pōu, cujo significado é pouco, pequeno ou pobre. Bambino (criança em italiano) possui diversas significações de acordo com a língua ou com o dialeto: abobado (dialeto milanês), tolo (dialeto córsico), gago e balbuciante (latim tardio). Bambolo (a), além de significar menino (a), exprime, também, boneca, fantoche. Bamboccio é o bebê vivo e gracioso. Além de reportar-se a uma pequena figura humana feita de trapos – que serve como um brinquedo – refere-se ironicamente, ao indivíduo adulto simples e ingênuo, aquele que "não cresceu" ou que é "imaturo". Igualmente, o termo infância carrega na sua origem significações depreciativas. Infantis ou infans refere-se àquele que não fala, que não possui expressão. Infantia é a falta de eloqüência, dificuldade em explicar-se. Infante, que diz respeito ao infantil e à criança, significa homem de poucas qualidades, servidor, soldado raso e ignorante como uma criança, apontando para uma condição social, uma condição subalterna, em que prevalece a hierarquia de poder. Esse mesmo termo reporta, também, à condição do filho, dos reis espanhóis e portugueses, não herdeiros da coroa. Partindo do que foi exposto acima, é possível perceber que a resposta à interrogação que intitula esse capítulo não é tão evidente e simples o quanto aparenta. A existência de inúmeras significações que compõem o universo das representações da criança e da infância nos demonstra que a compreensão da questão tratada transforma-se de época em época, de sociedade em sociedade, sendo revelado em seus discursos o lugar destinado à criança. Assim é que, no campo da História Social, há uma grande controvérsia em torno da questão da existência do conceito de infância nas sociedades préindustriais. Alguns historiadores recentes, 8 – críticos da tese que Ariès sustentou em História Social da Criança e da Família (1973/1981), de que o mundo medieval ignorava a infância – sugerem que todas as sociedades de todas as épocas possuíam o conceito de criança e infância, ou seja, de que elas possuíam “a noção de que as crianças podem ser diferenciadas dos adultos de várias formas” (HEYWOOD, 2001/2004, p.22). Porém, segundo eles, essas sociedades vão divergir em suas concepções de infância. O fato de elas apresentarem uma forma de pensar 8 Fazemos referência principalmente ao filósofo e historiador David Archard (1993) e a historiadora Doris Desclais Berkvan (1981) citados por Colin Heywood in: Uma história da infância: da idade media à época contemporânea no ocidente. Porto Alegre: Artmed Editora, 2004, p. 22. 25 a infância muito diferente da nossa – “idéias contrastantes referentes à duração da infância, às qualidades que diferenciam os adultos das crianças e à importância vinculada às suas diferenças” (HEYWOOD, 2001/2004, p.22) – nos leva a um não reconhecimento. Assim, a criança e a infância são percebidas de formas distintas em diferentes épocas e sociedades, de acordo com a mentalidade dessas, cuja constituição se dá através dos aspectos políticos, econômicos, religiosos e sociais – formadores de uma cultura. Resgatar, então, os antecedentes históricos da infância permite verificar que a criança atravessou a história da humanidade recebendo distintas concepções, as quais nos dizem sobre o investimento destinado a ela. Em consonância com a mentalidade da época e, por conseguinte, com o seu discurso, essas concepções apontam tanto para um tempo em que não havia um lugar próprio para a criança, como para um tempo em que a sua existência – atrelada à conformidade de um ideal – torna-se o centro das atenções. Assim, se no mundo medieval, a criança era uma “miniatura do adulto”, como afirmou Ariès (1973/1981, p.17) e a infância era considerada “o estado mais vil e abjeto da natureza humana, depois da morte”, conforme o religioso francês Pierre de Bérulle (HEYWOOD, op.cit, p.21), no mundo moderno, segundo a historiadora Michelle Perrot (1987/2009), a criança era o “futuro da nação” (p.134). Essas posições antagônicas propõem uma idéia de que a criança e a infância são frutos de uma construção social, ou seja, de que elas podem ser compreendidas a partir de uma noção histórica e cultural construída. Isso pressupõe que a infância sempre existiu desde os primórdios da civilização, porém, enquanto uma categoria social e dotada de uma representação, foi preciso “esperar pelos séculos XV, XVI e XVII, quando então se reconheceria que as crianças precisavam de um tratamento especial” (HEYWOOD, op.cit, p.23). Entretanto, o deslocamento da criança como miniatura do adulto – a criança fora de cena – para a criança como futuro da nação – a criança como o centro da cena – não se deu sem delonga. A pesquisa realizada por Ariès (op.cit), nos revela que o fio condutor para a realização desse deslocamento foi o sentimento da infância; um sentimento que equivale “à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem” (p.99). Contudo, foi preciso um tempo relativamente longo para que essa consciência se arraigasse nas mentalidades e os adultos passassem a investir na 26 criança uma atenção e um cuidado até então inexistente, conforme nos esclarece a filósofa francesa Elizabeth Badinter (1980/1985). Mesmo sabendo das inúmeras criticas que Ariès sofreu por parte de alguns historiadores, 9 não temos a intenção de entrar nas querelas em torno da ausência ou da presença do sentimento de infância em civilizações passadas ou se essas possuiam ou não algum conceito da mesma. Certo é que a criança pela sua condição específica – tamanho, insuficiência motora e dependência – estabelece com o Outro (representante da cultura) uma relação que expressa, também, a condição de submetimento a ele. Para sobreviver, ela depende do investimento dele. A sua forma de sentir e pensar a criança, além de produzir um discurso sobre ela, pode permitir um investimento, o qual lhe define um lugar no social, um lugar de pertinência. Isso significa que o Outro está envolvido ao exercer um poder sobre ela. Conforme já enunciamos, esse tanto pode ser da ordem de um investimento que possibilita a vida, como pode ser da ordem de uma destituição, cujo efeito será, quando não a morte de fato, com certeza a morte simbólica. Assim, a criança é definida fundamentalmente na relação com o Outro. Sua existência se dá a partir dessa relação – uma relação assimétrica que, dependendo da sua dimensão, tanto pode se constranger “ao apassivamento em arco-reflexo que a faria cópia, reprodução ou diminutivo” (VORCARO, 1997, p.25), reduzindo a criança à posição de objeto, como pode, tal qual efeito de refração, propiciar a criação do novo para além da especularidade, isto é, possibilitar o nascimento de um sujeito. Desta forma, a questão “o que é uma criança?” abarca uma complexidade, uma vez que implica o Outro. A história social da criança nos conta que esse investimento nem sempre existiu. Ele passa a existir a medida em que a vida da criança passa a ser vinculada a um ideal sustentado pelo Estado. Daí pensarmos que o investimento sobre ela é fruto de uma construção, que, inclusive, provocou uma grande transformação na estrutura familiar. Como ele se deu, quais as razões para o seu empreendimento e os efeitos sobre a criança são questões que pretendemos explorar nesse capítulo. Para isso, compreendemos ser importante 9 Embora Ariès tenha sofrido inúmeras críticas dos historiadores, por considerarem a sua tese sobre a inexistência do sentimento da infância no mundo medieval um tanto exagerada, sua pesquisa teve um grande mérito. Ao direcionar seus interesses históricos para a relação entre natureza e cultura, ou seja, para as formas pelas quais uma cultura vê e classifica fenômenos naturais – por exemplo, a infância e a morte – Ariès contribuiu com a sua pesquisa ao “colocar a infância no mapa histórico, inspirar centenas de estudos sobre a história da criança em diferentes regiões e períodos, e chamar a atenção de psicólogos e pediatras para a nova história” (BURKE, 1990/1992, p.82). 27 sublinhar algumas considerações que a história registra, a fim de que possamos perceber e entender as transformações ocorridas. 1.1 A miniatura do adulto ou a criança fora de cena A criança era tão insignificante, tão mal entrada na vida, que não se temia que após a morte ela voltasse para importunar os vivos. Philippe Ariès. 10 A história da civilização registra um tempo em que a existência da sociedade repousava na autoridade absoluta do Outro, estando seu poder concentrado na figura do Pai: Deus, soberano e pai de família. Esse tinha o poder de sua autoridade sustentado nos discursos aristotélico, teológico e político. Referindo-se à natureza masculina como àquela que simboliza a perfeição, 11 o discurso aristotélico, segundo Badinter (1980/1985), alegava que: É ‘natural’ que a mais acabada das criaturas comande os demais membros da família, e isso de duas maneiras: em virtude de sua semelhança com a divina, como “deus comanda suas criaturas”, e em virtude de suas responsabilidades políticas, 12 econômicas e jurídicas, como um “Rei comanda seus súditos” (p.33). Reinando sobre o corpo da família, o pai desde a Antiga Roma tinha um poder absoluto sobre o filho. Ele tanto podia legitimá-lo quanto podia abandoná-lo, mesmo tendo nascido do ventre de sua esposa. Os laços de sangue não significavam nada, se não fossem somados aos laços por adoção. Com a consolidação do cristianismo, o pai da Idade Média passou a simbolizar a eternidade: “à imagem de Deus, o pai é visto como a encarnação terrestre de um poder espiritual que transcende a carne” nos esclarece a historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco (2003, p.22). Transmissor de um duplo patrimônio – o sangue e o nome – o pai medieval, sem deixar de ser um corpo 10 ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. LTC, Rio de Janeiro, 1981, p.22. A idéia de perfeição, de acordo com a visão aristotélica, surgiu associada à quantidade de calor vital. Sob a perspectiva dos quatro elementos naturais, os quais possuíam uma hierarquia a partir de suas características, pensava-se que a perfeição de qualquer corpo vivo estava ligada a uma quantidade maior de calor. Como o que era quente e seco era da ordem do masculino e o que era frio e úmido era da ordem do feminino, a natureza humana foi pensada por esta perspectiva, sendo os órgãos sexuais apenas instrumentos. Assim, o sexo masculino foi pensado como portador de maior calor, em função da externalização de seus órgãos, e, portanto, o único capaz de transmitir o calor vital necessário para a formação da vida. 12 Segundo Badinter, o discurso da teologia cristã e o discurso do absolutismo político alimentaram-se desses dois temas aristotélicos. 11 28 regido pelas leis da natureza, isto é, um corpo fadado à morte, tornou-se um corpo imortal, uma vez que, através do nome que seus descendentes levavam consigo, eternizava “a lembrança de seus ancestrais, que igualmente perpetuaram a memória da imagem original de Deus pai” (ROUDINESCO, 2003, p.27). Essa mentalidade não se restringia apenas ao pai. Possuidor de dois corpos também – um corpo fadado à morte e um corpo político eterno, “o rei é a imagem de Deus na terra, pais de seus súditos” (BADINTER, 1980/1985, p.41). Assim, fundamentado na analogia “o pai é para os seus filhos o que o rei é para os súditos, o que Deus é para os homens, ou seja, o que o pastor é para o seu rebanho” (Ibidem), o poder da autoridade medieval revelava não somente a diferença de natureza entre um e outro em cada relação expressa, mas, também, a condição de submissão e de inferioridade existente do segundo para com o primeiro. Segundo a autora, a relação entre o pastor e o rebanho deixa isso às claras: “do humano em relação ao divino há a mesma distância que entre o animal e o homem” (Ibidem). De um lado a equivalência entre Deus, o rei, o pai e o pastor, do outro lado a equivalência entre o homem, o súdito, o filho e o animal. Entre um lado e o outro, a existência do poder absoluto e soberano que marcou a mentalidade dos tempos arcaicos. A esse poder a criança, pela sua condição – e a mulher, pela sua natureza –, estivera entregue, de tal forma que sua palavra era destituída de valor, assim como seu desejo não possuía voz. Marcado pelo feudalismo e pela ascensão do cristianismo, o período medieval revelou mudanças substanciais na forma de viver do indivíduo. Diferentemente da Antiguidade romana em que “a alegria de viver estava nas ruas e nos grandes monumentos urbanos” conforme o historiador Michel Rouche (1985/2004, p.403), a civilização medieval, em função da ameaça que o mundo exterior oferecia, decorrente da dissolução do Estado, refugiou-se em comunidades isoladas – lugar onde “cada qual quis então se fazer rei a partir das próprias entranhas” (Ibidem, p. 413). Em razão, então, do enfraquecimento do Estado, produziu-se um estreitamento dos laços de sangue – que outrora não existia – e de outras relações humanas e de dependência, devido a uma necessidade de proteção. Assim, nessa época de insegurança, a família “tinha por missão a conservação dos bens, a prática comum de um ofício, a ajuda mútua quotidiana” (ARIÈS, 1973/1981, p.X), cabendo ao pai manter a integridade do patrimônio. Como guardião do patrimônio, competia a ele governar a família e o patrimônio como um rei, sustentando e reproduzindo o que 29 havia herdado de seus ancestrais. Como a existência da família era em função da manutenção de patrimônio, o único sentimento existente, de caráter familiar, era o sentimento da linhagem que, muito diferente do sentimento da família, “estende-se aos laços de sangue, sem levar em conta os valores nascidos da coabitação e da intimidade” (ARIÈS, 1973/1981, p.145). Entretanto, como nos informa o historiador francês Georges Duby (1985/2004), tão logo o Estado recupera suas forças, oferecendo as garantias suficientes ao indivíduo, os laços de sangue se afrouxam. Contudo, a autoridade do pai permanece inalterada. Sendo dono de tudo e de todos a sua volta, ele era reverenciado e visto como uma pessoa sacrossanta. Isso significa que tudo o que se encontrava dentro dos limites de sua propriedade, tudo o que se encontrava encerrado na grande casa, inclusive os indivíduos, dependia do poder doméstico. Compreendemos que diante do poder paterno, família e patrimônio pareciam comportar uma unicidade, visto que ela “se confundia com a prosperidade do patrimônio, a honra do nome” (ARIÈS, op.cit, p.159). À criança cabia contribuir com isto, para o estabelecimento da família. Na realidade, desejava-se que a criança possuísse, tão logo, uma postura de adulto, pois, dessa forma, encontrar-se-ia apta a cuidar não só do patrimônio, mas, também, em reproduzir as tradições seculares. Ela em si não possuía valor algum. 13 Considerada um ser imperfeito, incompleto, incapaz e frágil, a criança na concepção da teologia cristã, por um longo tempo, foi identificada tanto ao animal, visto que, como ele, não possui consciência moral, razão e domínio linguístico, como foi identificada ao mal ou ao pecado. Um dos grandes representantes da Igreja – Santo Agostinho – a retratava como “um ser imperfeito esmagado pelo peso do pecado original” (BADINTER, 1980/1985, p.55), ou seja, um ser ignorante, apaixonado e caprichoso capaz de se precipitar em qualquer crime. Desta forma, a criança teria que ser disciplinada, para que pudesse corresponder ao ideal humanitário: o sexo masculino, adulto, com força física, possuidor de raciocínio lógico e consciência. Esses eram os atributos que compunham o modelo da perfeição humana, sendo esta uma das razões para o enjeitamento das crianças do sexo feminino e para 13 o sacrifício das crianças portadoras de deficiência física. Para Esse valor era dado ao filho adulto, visto que ele correspondia aos ideais da família. Porém, a história nos conta que não bastava ser um filho adulto para possuir um valor, era preciso ser o primogênito. Tratando-se de famílias nobres, ele era o herdeiro do patrimônio e, mesmo em outros meios sociais, ele gozava de todos os privilégios, inclusive, o de ser alimentado e cuidado pela própria mãe. a 30 correspondência desse ideal, era necessário, então, livrar-se desse estado negativo e corrompido, isto é, para sair do estado de animalidade e tornar-se humano e cidadão era preciso “debelar e rejeitar o estado infantil em que os homens se encontravam nas idades precoces” (CECCIM; PALOMBINI, 2009, p.159). A visão sobre a criança como a encarnação da imperfeição – aquela que obstaculizava a perfeição a que todo adulto deveria atingir – e como um ser maligno se prolongou até o fim do século XVII, embora a noção da inocência infantil começasse já a se impor. Inspirados na representação agostiniana da criança, alguns movimentos pedagógicos e moralistas do século XVII recomendavam tanto a família quanto as escolas que mantivessem uma atmosfera de dureza em relação à criança, não havendo lugar para a tolerância. Para eles, essa resultava do egoísmo dos pais que, ao preferirem as diversões que a vida oferecia, não se ocupavam com o trabalho cansativo de educar o ser maligno que a criança correspondia. Era a esse espírito dos pais que a teologia do século XVII combatia, uma vez que acreditava que os pais deixavam “a alma infantil entregue ao seu pecado original” (BADINTER, 1980/1985, p.60). Logo, pensava-se que para combater o mal, a criança deveria ser submetida a uma rigorosa educação, incluindo, inclusive, o castigo sobre o corpo. Somente assim, a alma estaria salva do pecado. Entretanto, essa imagem da criança não parecia ser a imagem mais proeminente. Ainda que a influência do pensamento dos teólogos, dos pedagogos e dos filósofos fosse grande nas classes dominantes, ela não atingia os outros meios sociais. De qualquer forma, na sociedade antiga, a criança era mal vista, como bem afirmou Ariès (1973/1981). Considerada como um estorvo ou, até mesmo, como uma desgraça, a criança atravessou a era medieval despossuída de qualquer valoração positiva. O sentimento que existia em relação a ela, o qual Ariès denominou de “paparicação” (Ibidem, p. X), era um sentimento que a identificava como um objeto de diversão: “as pessoas se divertiam com a criança pequena como com um animalzinho, um macaquinho impudico” (Ibidem). Esta é uma outra representação dada a ela, isto é, a criança “como um brinquedo divertido, do qual se gosta pelo prazer que proporciona, e não pelo seu bem” (BADINTER, op.cit, p.78). Portanto, ao deixar de distrair, perdia-se o interesse por ela. Como afirma a autora acima, a criança era “um ‘jogo’ nas mãos dos adultos” (Ibidem). 31 Assim, privada de qualquer positividade, a criança, principalmente o lactente, frequentemente, era entregue ao abandono físico e moral, já que representava um fardo para os seus pais. Embora inúmeras leis tivessem sido criadas proibindo o abandono, segundo a historiadora Maria Luiza Marcílio (1998/2006) essa prática ainda era tão frequente que os hospitais, seguindo as orientações da Igreja, passaram a receber e a recolher essas crianças, a fim de evitar o acúmulo de tantas mortes miseráveis. 14 Quanto ao infanticídio, esse passou a ser considerado um crime e, consequentemente, severamente punido. Entretanto, era praticado em segredo, era camuflado sob a forma de um acidente, como afirma Ariès (1973/1981): “as crianças morriam asfixiadas naturalmente na cama dos pais, onde dormiam. Não se fazia nada para conservá-las ou para salvá-las” (p.XV). Em relação à criança que apresentasse alguma deformidade ao nascer, o infanticídio era tolerado. O pai decidia o seu destino que, frequentemente, era a fogueira ou o mar, visto que se acreditava que a deformidade era um mau presságio para a comunidade e para a família (MARCÍLIO, op.cit). 15 Como assinala Badinter (1980/1985), do infanticídio à indiferença existiam inúmeras formas dos pais se livrarem da criança. Segundo a autora, uma dessas formas era o hábito de enviá-la à casa de amas-de-leite. Por motivos econômicos – a criança era um impedimento para a mulher ajudar o marido em seu ofício, garantindo uma maior rentabilidade – ou por motivos sociais – numa sociedade em que o homem ocupava a posição central, os interesses do marido tinham prioridade sobre os da criança, ou seja, tudo devia girar em torno dele – esse hábito, que era restrito apenas às famílias aristocráticas no século XIII, estendeu-se a toda a sociedade no século XVIII: “dos mais pobres aos mais ricos, nas pequenas ou grandes cidades, a entrega dos filhos aos exclusivos cuidados de uma ama é um fenômeno generalizado” (Ibidem, p.67). Um fenômeno generalizado de um 14 Conforme Marcílio, as leis foram criadas muito mais em função dos resultados que o abandono poderia ocasionar – incesto, prostituição, estímulo a relações extramatrimoniais – do que propriamente uma preocupação com a criança. MARCÍLIO, Maria Luiza. História social da criança abandonada. São Paulo: Editora Hucitec, 2006. Badinter nos fornece uma outra posição em relação a isso, ao dizer que a partir dos séculos XII e XIII, tanto a Igreja quanto o Estado passaram a condenar a prática do abandono, do aborto e do infanticídio. Sendo o filho criatura de Deus era preciso fazer dele um bom cristão. Porém, em função da miséria da maioria, entenderam que seria melhor tolerar o abandono a fim de que o infanticídio fosse reduzido. Assim, as primeiras casas para o acolhimento de crianças abandonadas só foram criadas no século XVII, mais exatamente em 1638, quando o Abrigo das Crianças Achadas foi fundado por São Vicente de Paula. BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p.42. 15 Embora o poder do pai já encontrasse alguns limites impostos pela Igreja e pelo Estado, que cada vez mais interferiam no governo doméstico, para tal situação ele era soberano. Cabia a ele decidir sobre o destino do filho. MARCÍLIO, Maria Luiza. História social da criança abandonada. São Paulo: Editora Hucitec, 2006. 32 “infanticídio disfarçado”, que nem sempre as razões econômicas, sociais ou a ignorância serviram como justificativas. Muitas vezes, o desinteresse e a indiferença pela criança eram as razões para tal feito. De qualquer forma, até o século XVIII, a sociedade reservava uma indiferença em relação à criança, ou seja, no mundo antigo não existia um lugar para ela. Logo que nascia a criança era entregue a ama-de-leite, permanecendo sob seus cuidados até os seus quatro ou cinco anos de idade; período em que os pais, normalmente, esqueciam-se dela. Raramente a visitavam ou escreviam, pedindo notícias, tamanho o desinteresse pela criança. Com exceção das famílias mais abastadas, 16 a escolha da ama não era muito criteriosa. Essa era uma preocupação que só surgia após o nascimento da criança. Sem verificar a sua saúde, a primeira camponesa encontrada levava o lactente. Às vezes, recorriam-se às mensageiras ou recomendadoras. 17 De acordo com Badinter (1980/1985), tinha-se mais atenção e exigência ao escolher uma criada, alguém para cuidar dos cavalos ou um cozinheiro. Diante desse desprezo, a criança pequena ficava entregue à própria sorte. Sobrevivendo a viagem de condições extremamente precárias, a criança teria que sobreviver ao tempo em que permanecia sob os “cuidados” da ama que, não muito raro, encontrava-se em estado deplorável. Pobreza, sujeira, falta de higiene e práticas utilizadas para a criança dormir ou ser apaziguada em seu sofrimento 18 eram fatores que, inevitavelmente, levavam-na à morte, justificando o alto índice de mortalidade da época. Quando não morriam, voltavam para a casa dos pais gravemente doentes, o que era motivo de muitas lamentações e queixas por parte deles, preferindo que o filho tivesse morrido, pois “uma criança doente representa muitas despesas futuras e poucas vantagens a longo prazo” (Ibidem, p.127). Isso significa que a morte de um filho representava muito pouco. Considerada uma banalidade, logo era compensada pelo nascimento de um outro filho. À volta para a casa dos familiares, não representava que um vínculo afetivo iria se estabelecer entre os pais e o filho. Conforme já destacamos, esse vínculo, tal como entre os cônjuges, não era necessário para que a família se constituísse, uma 16 Era com o aval de um médico que os pais escolhiam uma ama. Extremamente exigentes, elas eram avaliadas quanto à saúde e quanto ao seu temperamento. Além do mais, por se tratar de famílias nobres, costumavam usar o sistema de contratar amas a domicílio ou escolhiam amas que moravam em regiões próximas, como forma de melhor vigiar a criança e de evitar uma longa viagem para aquela que acabou de nascer. 17 Eram as intermediárias que faziam ponto nos mercados ou nas praças. Normalmente, elas recolhiam a criança sem ao menos terem ainda uma ama. Não raro, elas entregavam a criança à primeira ama que aparecia, sempre pelo menor preço. 18 Era comum a ama utilizar-se de xaropes ou aguardente. 33 vez que ela significava a manutenção do patrimônio. Sendo assim, a relação com o filho era permeada pela distância e pela severidade. Em se tratando das famílias mais abastadas, a criança era confiada a uma governanta ou a um preceptor, os quais ficavam encarregados de sua educação até por volta dos oito anos de idade, quando ingressavam no internato, a fim de aperfeiçoarem sua educação. Porém, antes do século XVII, quando da inexistência dos internatos para esse fim, a criança era enviada a outras famílias para que, servindo a um mestre, tal como um criado, pudesse aprender um ofício. Através desse, seu mestre lhe transmitia “a bagagem de conhecimento, a experiência prática e o valor humano que pudesse possuir” (ARIÈS, 1973/1981, p.156). Assim, ela era educada através da aprendizagem; uma aprendizagem realizada pela prática. Desta forma, ela ingressava no mundo dos adultos e não se diferenciava mais deles. Vestia-se como eles, participava das conversas, das festas, dos jogos, dos trabalhos, enfim, era nessa mistura com os adultos, no dia a dia, que ela aprendia a viver. Ela era a miniatura do adulto (Ibidem). Sua inserção no mundo dos adultos se dava para que pudesse aprender e encarnar a moral e os bons costumes, contribuindo para a conservação dos bens e a proteção da vida e da honra. Nesta realidade, o convívio com a família era muito pequeno; a criança convivia mais com a comunidade. Nesse sentido, a função da família, longe de ser afetiva, era de assegurar a transmissão da vida, dos bens e dos nomes, ficando sob os encargos da outra família a transmissão de valores, dos conhecimentos e a socialização. Segundo Ariès (Ibidem), “a família era uma realidade moral e social, mais que sentimental” (p.164). Como nas sociedades do século XVII, especificamente a partir do século XV, a fortuna não era mais o fator que assegurava uma posição mais honrosa numa sociedade, mas a habilidade e a sagacidade nas redes de relações sociais, 19 “a casa grande” era o lugar destinado à realização dessas relações. Portanto, era nas casas grandes que os indivíduos se encontravam e se reuniam. Fossem por motivos profissionais, fossem por motivos sociais, era lá que aconteciam as conversas, os contratos, os negócios, as soluções dos problemas, enfim, tudo acontecia nos mesmos cômodos em que se vivia com a família, visto que a casa exercia uma função pública (Ibidem). Desta forma, longe de ser um “refúgio contra a invasão do mundo”, 19 É importante assinalar que inúmeros tratados de civilidades foram criados com o intuito de ensinar o indivíduo a viver em sociedade. 34 como era na Alta Idade Média, essa grande família constituía “os núcleos de uma sociedade, os centros de uma vida social muito densa” (ARIÈS, 1973/1981, p.182). Portanto, em uma atmosfera “densa e quente”, por onde circulavam homens, mulheres, crianças, velhos, criados, amigos e vizinhos, onde as pessoas viviam misturadas umas com as outras, não havia lugar para o privado. Por conseguinte, não havia momentos em que se experimentava a solidão e a intimidade, já que a vida coletiva era intensa – a casa era a “rua”, o indivíduo era a “multidão”. Era nesta vida coletiva incessante, que a promiscuidade se fazia presente, que as trocas afetivas e as comunicações sociais eram realizadas. Vale ressaltar que, nesse meio “caloroso” onde a sexualidade fervilhava, a presença da criança não era um empecilho para que assuntos, gestos ou brincadeiras referentes à sexualidade surgissem. Muito ao contrário, não raro, os adultos faziam dela a protagonista de suas brincadeiras sexuais, envolvendo, inclusive, o contato físico. Esse costume, que era extremamente natural, demonstra que o homem medieval não possuía a consciência das inúmeras particularidades que diferenciava a criança do adulto. Somente com a renovação religiosa e moral, cuja instalação se deu no século XVII 20 , que os costumes sofreram uma grande reforma, possibilitando, efetivamente, o surgimento dessa consciência, que Ariès (Ibidem) denominou de sentimento da infância. Porém, não foi somente o sentimento da infância que surgiu, mas o sentimento da família, o qual foi propiciado pela transformação que a escola sofreu. Portanto, o alicerce de toda esta construção nasceu como consequência do grande movimento de moralização da sociedade realizado pelos juristas, educadores e eclesiásticos que supunham que a sociedade medieval se encontrava dominada pela anarquia. Esses moralistas, cuja preocupação era separar a criança do mundo adulto, a fim de mantê-la em sua inocência primitiva, reconheciam que, através da escola, poderia-se educar a criança a resistir às tentações dos adultos. A partir desta perspectiva, surgiu a escola visando ao adestramento moral, o disciplinamento físico e a rigidez de pensamento. Desta forma, segundo Ariès, “a escola deixou de ser reservada aos clérigos” (Ibidem, p.159) e se estendeu à criança; uma extensão que possibilitou a construção do sentimento da família, visto 20 Na realidade, essa renovação, embora de forma incipiente, se deu no século XV, ao ser estudado os costumes particulares da infância (suas práticas sexuais – masturbação e ereção). Inúmeras recomendações começaram a ser feitas. Ainda que não fossem exercidas, percebemos que nessas orientações já se encontrara o germe daquilo que mais tarde seria o princípio da educação: a vigilância em torno da sexualidade. 35 que os pais passaram a não mais entregar seus filhos aos cuidados de uma outra família, significando o desejo de estarem mais perto deles. A educação que até então era através da aprendizagem pela prática e, portanto, a criança ingressava no mundo do adulto, ao final da Idade Média passou a ser realizada através da escola – “uma escola transformada, instrumento de disciplina severa, protegida pela justiça e pela política”, nos elucida Ariès (1973/1981, p.195). Assim, a criança é retirada do anonimato, porém sob um regime disciplinar rigoroso, que a priva de toda e qualquer liberdade. A família e a escola retiraram juntas a criança da sociedade dos adultos. A escola confinou uma infância outrora livre num regime disciplinar cada vez mais rigoroso, que nos séculos XVIII e XIX resultou no enclausuramento total do internato. A solicitude da família, da Igreja, dos moralistas e dos administradores privou a criança da liberdade de que ela gozava entre os adultos. Infligiu-lhe o chicote, a prisão, em suma, as correções reservadas aos condenados das condições mais baixas. Mas esse rigor traduzia um sentimento muito diferente da antiga indiferença: um amor obsessivo que deveria dominar a sociedade a partir do século XVIII (Ibidem). Essas mudanças, propiciadoras de um olhar destinado à criança, além de representarem a separação da criança do mundo dos adultos, representam também “uma aproximação da família e das crianças, do sentimento da família e do sentimento da infância, outrora separados” (Ibidem, p.159). Considerando que a partir disso a família passou a se concentrar em torno da criança, outras mudanças surgiram: não se beneficiava mais um filho em detrimento dos outros, da mesma forma que a criança entregue aos cuidados da ama-de-leite não era mais afastada de seus pais – a ama-de-leite passou a morar com a família, pois os pais não desejavam viver separados de seus bebês. Dessa forma, se antes a ocupação da família com a criança era muito mais pela contribuição que ela podia dar ao estabelecimento dessa, a nova realidade fez 36 nascer uma preocupação em torno dela. Com a volta ao lar, a criança passou a ter um investimento mais consistente dos pais, conquistando um lugar junto a eles, diferente do tempo em que era enviada a outras famílias. Esse grande acontecimento foi a principal característica que diferenciou a família medieval da família do século XVII, embora essa ainda fosse voltada para o público, visto a influência que sofria dos aspectos políticos e econômicos que dominavam a sociedade. Vale ressaltar que a decadência do feudalismo gerou inúmeras mudanças, as quais deram origem ao renascimento comercial e ao renascimento urbano, que propiciaram a formação da burguesia. Estas mudanças promoveram a expansão do trabalho assalariado, a obtenção de lucros e uma economia monetarizada – embriões do capitalismo – transformando não só a economia, mas a vida em sociedade, pois a expansão comercial proporcionava o contato com outros povos de forma mais intensa. Evidentemente, outros valores começaram a surgir; valores que não subordinavam a vida à “vontade divina”, dando início a uma certa diluição do poder da Igreja. Portanto, a família do século XVII ainda era mais voltada para o público, pois as relações sociais tinham um caráter de extrema importância, já que o comércio se expandindo para o mundo era essencial para a sobrevivência. Essa sociabilidade não foi um impedimento para que um investimento fosse destinado à criança. Embora ela não fosse ainda o centro de todo um investimento ou, como afirmara Ariès (1973/1981), “o pivô de todo o sistema” (p.189), justamente porque a vida pública ainda prevalecia na família, ela “tornou-se um elemento indispensável da vida quotidiana, e os adultos passaram a se preocupar com sua educação, carreira e futuro” (Ibidem), a medida que ela era o “instrumento de uma especulação matrimonial e profissional, destinada a promover um avanço da família na sociedade” (Ibidem, p.188). Compreendemos que, este olhar sobre a criança, o qual despertou uma afetividade por parte dos pais, parece ser um dos frutos das mudanças originadas de um movimento histórico, o qual englobava os aspectos políticos, econômicos, e religiosos da época, cujo efeito foi uma outra representação da família e, como consequência, uma representação para a criança. Tudo indica, e Ariès (Ibidem) tem o cuidado de demonstrar isso, que o nascimento da família moderna, ou seja, o nascimento do sentimento da família, da intimidade doméstica, tem uma íntima relação com os progressos da vida privada. Segundo ele, enquanto a casa estava muito aberta para o mundo, o sentimento da 37 família não podia se desenvolver na sua plenitude, uma vez que ele exigia uma intimidade que a antiga sociabilidade não permitia. Portanto, se durante algum tempo houve um equilíbrio entre a sociabilidade tradicional e a consciência nova da família – essa relação afetiva entre pais e filhos – esse equilíbrio não resistiu à evolução dos costumes e aos novos progressos da intimidade, que, inclusive, afetaram a organização dos cômodos da casa – considerada uma das maiores mudanças da vida cotidiana – visto a necessidade de isolamento. Como nos indica Ariès (1973/1981), “a reorganização da casa e a reforma dos costumes deixaram um espaço maior para a intimidade, que foi preenchida por uma família reduzida aos pais e à criança, da qual se excluíam os criados, os clientes e os amigos” (p.186), propiciando um maior estreitamento afetivo. As crianças tal como são e a família tal como é, com suas dores e alegrias quotidianas, emergiram de uma rotina elementar para atingir as zonas mais luminosas da consciência. Esse grupo de pais e filhos, felizes com sua solidão, estranhos ao resto da sociedade, não é mais a família do século XVII, aberta para o mundo invasor dos amigos, clientes e servidores: é a família moderna. (Ibidem, p.188). Substituindo o modelo de família tradicional, a qual se organizava em torno do poder absoluto do pai e que o casamento e os filhos tinham como função assegurar a transmissão de um patrimônio, a família moderna, ou nuclear, ordena-se pela conjugalidade e pela lógica afetiva, isto é, ela se sustenta na união do casal – em que o vínculo entre eles é ditado pelo amor romântico – e nos cuidados dirigidos à criança. Embora a figura paterna seja a autoridade, a existência de uma reciprocidade de sentimentos entre os cônjuges, favorecendo a realização de alianças e de trocas entre eles, demonstra que o poder do pai, até então tirânico e soberano, sofreu limitações (CAVALCANTI, 2005). Assim, muito diferente da família tradicional que, fundada no poder absoluto do pai, assumia uma dimensão real, a família moderna é fundada em uma dimensão simbólica. Compreendemos que o mundo moderno estabeleceu uma nova forma de vida, visto que a vida privada ganhou um lugar diferenciado; uma forma de vida, em que a família se volta mais para a casa, que se antes era uma continuidade da rua, agora ela passa a ser reservada aos pais e as crianças. Com isso, a intimidade entre eles passou a prevalecer e os laços afetivos passaram a ser de outra ordem, deixando a criança de ser um mero objeto de distração ou aquela que promoveria a família na sociedade. A partir de agora, o filho passa a ter uma outra significação 38 para os seus pais, de tal forma que é preciso cuidar da saúde dele; cuidado que, até então, era praticamente inexistente. Considerado insubstituível, sua perda, agora, assume um caráter de irreparabilidade, não sendo mais consolada com a esperança de ter um outro filho. Entretanto, os cuidados não foram destinados somente à saúde da criança. Eles passaram a ser destinados a sua educação também, pois o reconhecimento da importância dela na vida da criança já se apresentava. Deste modo, saúde, higiene e educação ganharam um lugar ímpar na preocupação da sociedade e, consequentemente, na da família, demonstrando que todo o investimento é destinado à promoção da criança. Como afirma Ariès (1973/1981), “cada uma em particular, e sem nenhuma ambição coletiva: as crianças, mais do que a família” (p.189). Mesmo a família estando mais voltada para a sua intimidade, ela conserva um vínculo com a esfera pública, já que a esta foram prescritas normas – através dos meios jurídicos, médicos e educacionais – a fim de obter a garantia da civilidade – uma forma de proteger o cidadão. Portanto, o cuidado com a saúde e a educação dos filhos torna-se uma tarefa dividida entre família e Estado, os quais formarão uma aliança na construção de um projeto coletivo de nação. Logo, segundo Perrot (1987/2009), o filho não pertence somente aos pais, “ele é o futuro da nação e da raça, produtor, reprodutor, cidadão e soldado de amanhã” (p.134). 1.2 O futuro da nação ou a criança como o centro da cena O filho é o futuro da família, sua imagem sonhada e projetada, sua forma de lutar contra o tempo e a morte. Michelle Perrot 21 Entendemos que toda essa conjuntura sociopolítico-econômica, centrada no capitalismo, provocou mudanças fundamentais na estrutura da família, dando início a uma nova ordem familiar. Conforme nos elucida Perrot (Ibidem), o poder paterno, que até então era absoluto e soberano, passa a ser relativizado, uma vez que alguns limites lhes são 21 PERROT, M. Figuras e papéis, in História da vida privada, v. IV, São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.146. 39 impostos, definidos pelo direito. 22 Porém, mesmo com algumas restrições, o pai tem duplos poderes. Além de dominar o espaço público, pois só ele goza de direitos políticos, seus poderes são domésticos também: controla as despesas, as decisões fundamentais cabem a ele e possui o direito de exercer vigilância sobre a sua mulher. A figura da mulher, vista antes, apenas, como um corpo reprodutor, a partir desse momento, ao ser associada à condição de mãe, ganha um poder, embora, ainda, estivesse muito submetida ao poder do marido. Quanto a criança, na qualidade de filho, em um duplo movimento por parte dos pais, ela é um objeto de investimento. Além de ser objeto de amor, é objeto de investimento econômico, educativo e existencial, a fim de que possa realizar os sonhos de seus pais que não foram realizados, isto é, “como herdeiro, o filho é o futuro da família, sua imagem sonhada e projetada, sua forma de lutar contra o tempo e a morte” (PERROT, 1987/2009, p.134). Analisando essa questão a partir de uma outra perspectiva, o filósofo Michel Foucault (1979/2010) avalia que com o desenvolvimento do capitalismo, em fins do século XVIII e início do século XIX, o corpo foi socializado enquanto força de produção, força de trabalho. Como ele nos demonstra: O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade bio-política [...] (Ibidem, p. 80). De acordo com o autor, a partir do século XVII, o poder se organizou sob duas formas, dois pólos, que se ligam por uma rede de relações. Um pólo – o primeiro que se formou – diz respeito às disciplinas, as quais têm como objeto o corpo individual, o corpo como uma máquina, sendo assim, adestrado, disciplinado, para que seja economicamente útil e politicamente dócil. Entretanto, como esclarece o autor, os governos percebem que não se trata, apenas, de lidar com os sujeitos, mas com uma população e com tudo o que concerne a ela. Deste modo, a partir de meados do século XVIII, formou-se o outro pólo, uma bio-política da população, centrado no corpo-espécie, suporte dos processos biológicos – a proliferação, a natalidade e a mortalidade, o estado de saúde, a duração da vida, a fecundidade e a longevidade – que através de “toda uma série de intervenções e controles reguladores” (Idem, 1988/2003, p.131), o poder é cada vez mais o direito de intervir 22 Segundo a autora, por lei, não lhe é mais permitido infligir maus-tratos aos filhos, da mesma forma que deve reconhecer a paternidade dos filhos que foram frutos de estupro e violação. 40 para fazer viver e sobre a maneira de como viver, controlando os acidentes, as deficiências, em suma, a morte, como fim da vida (CASTRO, 2009). É nesse sentido que a mortalidade infantil ganha um lugar de destaque. De forma elevada, ela atravessou a história da humanidade sem causar espécie alguma de mobilização na sociedade. Somente na passagem do século XVIII para o século XIX que este cenário começa a mudar, ao tornar-se alvo de grande preocupação do Estado, visto que sua alta incidência passou a ser uma ameaça para o projeto desse, que consistia na produçao e acumulação de riquezas e, consequentemente, no fortalecimento do seu poder. Para tal fim, era necessário a preservação da força de trabalho, ou seja, era preciso constituir indivíduos sadios. Assim, em uma tentativa de amortecer a mortalidade infantil, a disseminação das doenças e a promiscuidade, outro discurso passou a ser instituído como uma forma de garantir, não só a preservação da burguesia, mas a força de trabalho. Um discurso permeado pelo biopoder (FOUCAULT, 1988/2003), em que a qualidade de vida passou a ser articulada à riqueza do Estado, ou seja, o que está em jogo aqui é a qualidade de vida da população como um bem precioso, para que ela possa produzir e, consequentemente, aumentar a riqueza daquele. Logo, o biopoder, a serviço do capitalismo, garantiu a inserção controlada dos corpos no aparelho de produção e ajustou os fenômenos da população aos processos econômicos. Conforme o psicanalista Joel Birman (2009), a existência de uma relação intrínseca entre qualidade de vida da população e riqueza das nações passou a dominar na modernidade, visto que nessa “não seria apenas a posse de múltiplos recursos naturais o que consubstanciaria a riqueza de um dado Estado, mas a qualidade de seus trabalhadores” (p.25). Segundo o esclarecimento do autor, isso parece justificar a posição privilegiada tanto da medicina quanto da pedagogia, uma vez que uma população saudável e bem-educada proporcionaria a produção de riqueza da nação. A partir dessa perspectiva, a mortalidade infantil tornou-se alvo de preocupação e de ação dos moralistas, juristas, educadores e médicos. Como o índice da mortalidade infantil era muito maior entre os recém-nascidos, em função da prática de depositá-los às rodas dos enjeitados e de encaminhá-los às amas-deleite, todo um discurso sobre a higiene da maternidade passou a dominar, sendo incorporado como valores. Assim, casamento, fidelidade conjugal, ausência de 41 prazer sexual e espaçamento da prática sexual após um nascimento, passaram a ser pregados como valores morais (CECCIM; PALOMBINI, 2009). Sustentam os autores que, ao representar um “vir a ser”, é fundamental que à criança seja destinado um intenso investimento, ao que diz respeito a sua saúde e a sua educação. Se o cuidado com a saúde é imprescindível para a sua sobrevivência, a educação é a única forma de transformá-la em um adulto aprimorado, em um adulto desejado pela sociedade. Desta forma, a escola ocupará um lugar privilegiado, à medida que, através da vigilância e disciplinamento do corpo e da mente, sua função será a de “formar cidadãos com retidão moral, capazes de amar e servir à humanidade e detentores do conhecimento competente para explicar o mundo e as relações entre os homens” (Ibidem, p.168). Entretanto, para a consolidação do projeto do Estado, que incluía controlar a disseminação das doenças e os óbitos infantis, alguém deveria se encarregar dos cuidados com a saúde da criança e da sua educação. Em função da sua natureza, a mulher foi “promovida ao estatuto de principal responsável pelos cuidados e pela educação dos filhos” (NUNES, 2000, p.21). Vale ressaltar que, até então, a mulher, tal como a criança, era considerada um ser imperfeito e, portanto, desprezível. 23 Transformada em “figura fundamental de poder que lhe foi outorgado no âmbito familiar, para mediar as relações com a ordem médica e pedagógica, a mãe foi a figura crucial na qualificação familiar da futura riqueza das nações, isto é, as crianças e os adolescentes” (BIRMAN, 2008, p.96). Assim, de objetos imperfeitos e desprezíveis, a criança e a mulher foram promovidas a objetos altamente valorizados. A mulher, como mãe, e a criança, como o futuro da nação, passaram a constituir as peças fundamentais do projeto da modernidade. Foi a partir desta época que estes três significantes femininos – mulher, mãe e criança – ganharam um cunho que não possuíam, gerando uma ligação mais estreita, ou mais bem definida, entre eles. Fica-nos a impressão de que este investimento sobre a criança tem outra causa que não a proteção ou a atenção a mesma, isto é, de que esse investimento não visa à criança em sua singularidade, como afirma Perrot (1987/2009), 23 24 Conforme NUNES, Silvia Alexim. O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha – Um estudo sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 24 Segundo Michelle Perrot, a noção de “interesse da criança” só se desenvolve mais tarde, por enquanto abrange, somente, aos interesses mais altos da coletividade, isto é, a criança como ser social. PERROT, Michelle, “Figuras e Papéis”: in História da Vida Privada; da Revolução Francesa à Primeira Guerra, São Paulo, Companhia das Letras, 2009. 42 importando, apenas, que uma criança bem investida vale, no futuro, a garantia da qualidade vital de um adulto. Entretanto, percebemos uma positividade. Foi a partir desse investimento que a criança passou a fazer parte do discurso social e que uma imagem positivada lhe foi outorgada. Deste modo, de “miniatura do adulto” (ARIÈS, 1973/1981, p.17) à “futuro da nação” (PERROT, 1987/2009, p.134), a criança passou de uma condição de inexistência à objeto de pesquisa de alguns saberes científicos – como a pediatria, a psicologia e a pedagogia – que se constituíram a fim de protegê-la, educá-la, discipliná-la e conhecê-la “inteiramente”, uma vez que ela passou “a condensar o Capital simbólico e econômico da futura riqueza das nações” (BIRMAN, 2008, p.95), atendendo ao ideal de um projeto histórico. Conhecê-la sob todos os ângulos, cuidá-la para que se previnam todos os riscos, superar os efeitos danosos do meio familiar ao seu florescimento eficaz, otimizar suas potencialidades, são imperativos asseguradores do controle das incertezas do futuro da civilização, e esperança de garantia da estabilidade da ordem social (VORCARO,1997, p. 33). Assim, tanto a pediatria quanto a psicologia e a pedagogia vão se incumbir de traçar as várias especificidades da criança e da infância, legitimando uma natureza própria delas. Se antes ela era vista pela ótica da imaturidade biológica e da imperfeição, a partir da constituição desses saberes passa a ser vista por uma ótica em que a curiosidade, a espontaneidade e a preponderância do sentimento sobre a razão são levadas em consideração, apontando para uma natureza diferenciada do adulto (FERREIRA, 2000). Porém, percebemos que as “antigas” especificidades em relação à criança persistem, já que, para reconhecerem a criança como tal, esses saberes se pautam em uma visão cronológica e desenvolvimentista. Sendo assim, eles possuem um discurso que nos diz de uma continuidade, de uma sequência, de uma harmonia e, portanto, de uma “correção” quando algo nele não está de acordo com o ideal estabelecido, que diz respeito à maturação completa – a qual pertence à natureza do adulto. 25 Desta forma, mesmo sendo reconhecida e levada em consideração, a natureza da criança é vista como sendo da ordem da incapacidade e da inferioridade. É comum, como já foi dito anteriormente, escutarmos sobre as crianças: “ela não sabe o que diz”, “não leve em consideração, é apenas uma criança...”. Por essa via, a criança é despossuída de saber. 25 Podemos constatar isso nos inúmeros estágios teorizados por Jean Piaget. 43 É próprio de esses saberes a prática da anamnese, em que os dados colhidos sobre a criança, apontam para o saber do outro sobre ela, ou seja, são dados sobre a criança que só o “outro sabe”. Da mesma forma, estes saberes se fundamentam na queixa do outro sobre a criança e não naquilo que faz questão para a criança (FERREIRA, 2000). Trata-se, então, de saberes que portam um discurso, em que a adaptação, a ortopedia, e a moral se fazem presentes em nome de um ideal, uma vez que visam à “cura social”, levando a criança a responder de acordo com as normas regidas pela família, pela escola, pelo médico, enfim, a responder de acordo com um ideal preestabalecido. De acordo com o psicanalista Patrick Valas (1991), estes discursos se fundamentam na jurisdição da infância, onde a criança, para efeitos civis e penais, não pode responder pelos seus atos, consequentemente, alguém responderá por ela. Segundo o autor, isso ocorre “porque a criança não é considerada um ser comprometido com sua palavra” (p.142) e, desta forma, será o outro que irá dizer por ela, sobre ela e quem é ela. Assim, se antes, a criança parecia não existir, à medida que era confundida com o adulto, agora uma existência lhe é dada, embora uma existência representada pelo Outro; uma existência circunscrita no discurso médico, pedagógico, psicológico e jurídico. Se antes, ela era identificada com animalidade, agora, atravessando os caminhos traçados pela ciência, escola e família, ela representa a promessa do futuro, a imagem da esperança. 1.3 O encontro com Freud O que foi infância sempre é monumento íntimo, fincado na praça do vento. Lêdo Ivo Foi neste cenário que surgiu a psicanálise; um cenário em que se pensava a existência da criança a partir do adulto – “adulto em potencial”. Ainda que, atendendo, também, ao ideal estabelecido, a psicanálise nasce subvertendo esta ordem de existência, visto que ela surge pensando o adulto a partir da criança que ele foi. Embora Freud não tivesse tido uma clínica com a criança, ele estava voltado para ela, tanto na criação do corpo teórico da psicanálise quanto na escuta em 44 relação aos seus analisandos. Enquanto a psicologia clássica se voltava para a transcrição ou tradução daquilo que se observava na criança, ou seja, suas manifestações, a metapsicologia freudiana se voltava para aquilo que dessas manifestações escapavam à tradução ou à transcrição. Desde a criação da psicanálise, o pensamento freudiano foi atravessado por aquele resto das manifestações da criança que a observação, restrita à tradução ou à transcrição, não alcançava. Por essa via, as manifestações da criança, “inseriramse como pontuações vigorosas que apoiaram e articularam importantes veios teóricos” (VORCARO, 1997, p.46). Para nos demonstrar isso, a autora percorre a obra freudiana, porém pinçaremos, apenas, alguns textos a título de exemplificação: a criança que grita (1895) permite a Freud situar o desamparo humano e a experiência de satisfação que o encontro com o outro proporciona; a criança que sonha (1900) possibilita-lhe consolidar, mais uma vez, que o sonho é realização de desejo; a criança que brinca (1907) porta-se como o adulto que fantasia; a criança que investiga e teoriza sua origem (1908) aponta para ele que o esforço de saber dela surge das pulsões que a governa e não de uma capacidade inata de pensar; a criança que se angustia (1909) apresenta-lhe o lugar que ela ocupa na economia subjetiva do outro; a criança que repete situações desagradáveis (1920) leva-o a formular que, através do jogo, ela repete o que lhe causou grande impressão na vida, transformando a passividade em atividade. Desta forma, Freud irá construir a representação da criança, não através de observações diretas a ela, mas a partir da análise de seus pacientes adultos, no que eles lhe apresentavam um “tecido tramado pela construção [...] do que teria sido sua infância” (Ibidem), cujo fio condutor seria esse resto, isso que escapa. Neste tecido tramado, Freud pôde encontrar uma criança diversa daquela que os saberes da época promulgavam. Assim, se nos primórdios da psicanálise, Freud pensou ter encontrado uma criança seduzida e traumatizada, a qual estaria perturbando o espírito daquele que, tempos depois, tornou-se um adulto, é porque acreditava que essas perturbações, tanto histéricas quanto obsessivas, apoiavam-se em experiências de caráter sexual, vivenciadas na tenra infância, pela qual o corpo do sujeito teria sido afetado, isto é, ele acreditava que uma sedução sexual real havia acontecido. Nestes termos, Freud formulava a teoria da sedução, acreditando, então, que as perturbações psíquicas se alicerçariam no real da infância, ou seja, a causação da neurose seria um 45 acontecimento real, de ordem sexual, na infância, ocasionando um trauma no sujeito, como ele nos afirma: As experiências sexuais infantis que consistem na estimulação dos órgãos genitais, em atos semelhantes ao coito, e assim por diante, devem, portanto ser consideradas, em última análise, como os traumas que levam a uma reação histérica nos eventos da puberdade e ao desenvolvimento de sintomas histéricos (FREUD, 1896/1994 p. 203). Entretanto, logo Freud descartou esta idéia. Com a sua célebre fala, dirigida a Fliess, “não acredito mais em minha neurótica” (1897/1987, p.309), ele inicia uma desconstrução em relação à teoria do trauma que, até então, sustentara, já que não acredita mais na realidade material das cenas de sedução infantil. Um dos motivos de sua descrença foi o fato de que, para sustentar essa teoria, teria que reconhecer todos os pais, inclusive o dele, como pervertidos. Seu descrédito possibilitou-lhe realizar uma leitura inédita da sexualidade, onde esta se inscreveria no registro da fantasia – a de que se teria sido seduzido –, isto é, no campo do desejo. A partir disso, o discurso da psicanálise passa a ter como fundamento não mais o sexual de uma realidade objetiva, mas o sexual de uma realidade psíquica, que teria como vestimenta a fantasia, vivida pelo sujeito como algo da sua realidade externa. É a partir da plena compreensão de Freud, “de que as fantasias podem atuar com toda a força das experiências reais” (Ibidem, p.311), que a teoria traumática pôde ser abandonada. 26 Portanto, não seria mais um acontecimento datado na infância o causador das perturbações psíquicas, mas uma fantasia de ordem sexual, inconsciente e infantil, derivada das primeiras relações de objeto. O encontro com esse sujeito movido por sua fantasia deu condições a Freud de realizar várias formulações: a criança e a fantasia, a criança e o Outro, a criança e o sonho, a criança e a palavra, a criança e o brincar, a criança e a sexualidade, a criança e o saber, a criança e a angústia, a criança e a identificação, a criança e o jogo, a criança e o desconhecido, enfim, inúmeras questões tematizadas por Freud, que lhe permitiram pensar o infantil por uma outra via, não mais arraigado à dimensão cronológica e evolutiva passíveis de narração, as quais sustentam a realidade material, mas um infantil que fundamenta a realidade psíquica. Segundo Birman (1997): 26 Importante salientar que, mais tarde, Freud irá retomar esta problemática. 46 Nesta perspectiva, a infância foi remanejada na sua significação, pois se deslocou do registro genético e cronológico para o do funcionamento psíquico. Foi aqui que se constituiu propriamente o conceito de infantil, marcando a sua diferença com a noção evolutiva de infância. Existiria assim um infantil no psiquismo que seria irredutível a qualquer dimensão cronológica e evolutiva. Vale dizer, foi pressuposta a existência de um infantil no psiquismo que não se dissolveria na infância cronológica do sujeito. Seria desta maneira, enfim, que o sujeito seria marcado pelo infantil não por acidente de percurso, pelas vicissitudes do processo maturacional de desenvolvimento, mas por vocação (BIRMAN, 1997, p.19). Assim, se a infância diz respeito a um tempo da realidade material e, consequentemente, à evolução, à continuidade e à harmonia, referindo-se à idéia de uma natureza passível de ser moldada e adaptada, o infantil diz respeito à atemporalidade – daí a permanência dele no humano adulto – identificando-se com um resto que sempre escapa às nossas expectativas e pretensões de uma harmonia; um resto que ao apontar para a descontinuidade, nos diz da impossibilidade de ser moldado, ou seja, trata-se, então, de um infantil que é indomável à dimensão cronológica e evolutiva. É por este viés, da “existência de uma lógica marcada não por uma característica evolutiva, mas por uma estrutura de descontinuidade, na qual elementos e ações psíquicas persistem, insistem, retornam” (FERREIRA, 2000, p.37), que Freud irá construir uma outra significação do infantil, pelo qual o sujeito é marcado. Quando Freud escreve os seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/1987), afirmando que a criança, já na sua mais tenra infância, possui uma sexualidade e que esta é referida às satisfações que ela obtém já no ato de sugar, buscando assim repeti-la, ele começa a desconstruir várias idéias, as quais vigoravam na época. Para compreendermos a leitura freudiana, é preciso que destaquemos quais eram as idéias que dominavam a cultura ocidental nesse tempo. Formulada por Kraft-Ebing, a sexologia originária do ocidente defendia a tese de que a sexualidade possuía um único sentido, isto é, ela era associada, apenas, a genitalidade e, desta forma, sua finalidade seria a reprodução da espécie. Restrita, então, ao campo biológico, qualquer variação daquela, quanto a sua finalidade ou quanto à modalidade de seu exercício, era considerada como uma perversão, degeneração ou monstruosidade (BIRMAN, 1999). Sobre esse aspecto, a sexualidade era delimitada no registro do comportamento e, como tal, envolta em uma série de normas e interditos – estabelecidos pela tradição cristã –, os quais identificavam o prazer e o gozo como sendo da ordem do pecado. 47 Ao alocar a sexualidade no campo da fantasia, Freud rompe com a tradição científica dominante. Definindo a sexualidade a partir do gozo e do prazer, ele tanto “problematizou a exigência reprodutiva da sexualidade” (BIRMAN, 1999, p.21), como a retirou do campo do comportamento, demonstrando que, tendo a fantasia como fundamento, aquela pode adotar variadas formas de comportamentos. Assim, a partir das suas formulações sobre a fantasia como lugar psíquico onde a sexualidade se inscreve, foi possível a Freud postular a existência da sexualidade infantil, indo de encontro ao que se pensava na época sobre a criança: “as crianças não seriam apenas pequenos seres mergulhados no universo lúdico, mas também seres lúbricos e imersos no mundo das volúpias eróticas” (Ibidem, p.30). Dessa forma, ele desconstrói a idéia de que a presença da sexualidade na criança seria um sinal de degeneração ou aberração sexual. Muito ao contrário disso, ele sustenta a tese de que a sexualidade humana seria perverso-polimorfa, isto é, por ser concebida no campo do desejo, ela se manifesta de várias formas, apresentando múltiplos objetos, sendo o indivíduo do sexo oposto e a sua genitália, apenas, um entre tantos outros objetos (Ibidem). Assim, independente da anatomia sexual do sujeito e da sua idade, o que ele busca é a satisfação e o gozo pelo erotismo, que, inclusive, pode ser favorecido pelo próprio corpo – autoerotismo. Na medida em que esse é atravessado pela pulsão sexual, cujo despertar é possibilitado pelo encontro com o outro, ele se torna fonte de prazer e gozo. Nesse sentido, Freud (1905/1987) atribui ao corpo sexual um caráter de “diversidade quase infinita de territórios eróticos” (BIRMAN, op.cit, p.32, grifo do autor), os quais ele denomina de zonas erógenas. Segundo Freud (op.cit), essas são órgãos receptores de estímulos, cuja excitação confere à pulsão um caráter sexual. Embora mais tarde, afirme que todo corpo é uma zona erógena (1914/2004), ele demonstra que determinadas partes do corpo – a boca, o ânus, os olhos, os genitais – são mais propícias para esta função na origem do psiquismo, uma vez que são órgãos que ficam mais expostos aos cuidados maternos e pelos quais se obtém satisfação (1905/1987). De mais a mais, por se situarem na periferia do corpo – delimitando a exterioridade/interioridade deste – contatam-se com um outro corpo, denunciando a descontinuidade e a incompletude daquele, porém, propiciando uma abertura para o erotismo, a qual leva à realização de um intercâmbio com o outro (BIRMAN, op.cit). 48 A partir disso, percebemos que o estatuto que a psicanálise dá ao corpo é de um corpo constituído de fraturas, de hiâncias, não existindo, então, a possibilidade de uma evolução, a fim de se alcançar uma maturidade ou uma completude. Essa por não favorecer a produção do erótico – e por ser através desse que a vida se faz possível –, nos leva a compreensão, então, que com a completude o corpo estaria fadado à morte. Como nos esclarece Birman (1999), seria por esta incompletude, pelos buracos da carne, que o erotismo se produziria. Assim, a descontinuidade do corpo afirma a incompletude do sujeito e a sua condição de precisar do outro para a experiência de satisfação, para o viver. Rompendo, então, com o discurso científico de sua época, Freud revela ao mundo científico uma outra compreensão da sexualidade. Apontando para a descontinuidade, o discurso psicanalítico atesta a presença de um corpo que, marcado pelo encontro com o outro, é atravessado pela pulsão sexual, inserindo aquele, em via de advir, no campo do desejo, na vida. É dessa forma que ele sustenta que a criança deseja e que é desejando que ela torna-se alguém. Contudo, isso só é possível porque alguém a desejou antes, porque alguém a seduziu. Por esta antecipação, ela é introduzida no campo pulsional e um corpo – erógeno – é constituído, possibilitando o ingresso numa relação erótica e amorosa com o outro – única via para o “filhote do homem” sair da condição de puro desamparo. Desta forma, diferentemente de outros saberes que se fundamentam no alcance do ideal, na normatização e nos preceitos morais, sustentando a criança em uma condição de objeto, a psicanálise, ao revelar a impossibilidade do ideal, em função da existência do infantil, possibilita o encontro com o desejo. Portanto, Freud ao encontrar a criança incrustada no adulto lhe deu a palavra, descortinando algo que, até então, todos os discursos ignoravam: de que a criança é um sujeito e, como tal, desejante. 49 2 A CRIANÇA E O INFANTIL A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros nesta vida. Vinicius de Moraes O capítulo anterior indica que o advento do ser humano na vida e no mundo, propriamente dito, é marcado por uma complexa trama, a qual caracteriza uma época, uma cultura e uma sociedade. O fato de essas serem possuidoras de características que se diferenciam entre si, leva cada uma ao estabelecimento de condições e formas distintas de receber e inserir aquele no mundo. Entretanto, dois aspectos parecem apontar para uma universalização, quando pensamos nas condições pela qual o filhote do homem faz seu advento no mundo. O primeiro aspecto diz respeito ao fato de que nascer significa ingressar em um mundo organizado e, nessas condições, a forma de vida humana deverá ser o artífice de um percurso no sentido do “tornar-se humano”. Isso quer dizer que, o homem terá que sobreviver em um espaço já estruturado que lhe é preexistente. Diferentemente das outras formas de vida animal que, praticamente, são o que são por ocasião do nascimento, o homem em sua origem se apresenta como a possibilidade de tornar-se naquilo que deverá ser, independente da época, da cultura e da sociedade. Assim, o homem é a única forma de vida que, ao nascer, é apenas uma possibilidade que poderá ser ou não. Deste modo, podemos pensar que a espécie humana quando vem ao mundo é um esboço inacabado. Eis a condição do homem em sua origem que, se para o discurso da biologia trata-se de uma prematuração ou imaturidade, para a psicanálise pensa-se em desamparo, visto que, por si só, o filhote do homem é impossibilitado de sustentar a sua sobrevivência do ponto de vista biológico, além de ser incapacitado para regular a abundância de estímulos com que se depara. Assim, a presença do outro – segundo aspecto mencionado acima – é imprescindível para viabilizar a vida do ser. Ao possibilitar o estabelecimento de sentidos às experiências, cujos excessos afetam aquele que acabou de nascer, o outro o retira de um registro totalmente biológico e o introduz no campo do simbólico. Ainda que nem tudo seja passível de ser simbolizado é a sua inserção neste campo que o diferenciará das outras espécies animais. 50 Diante do exposto, compreendemos que todo o processo da constituição do infantil encerra uma complexidade, visto que o outro precisa comparecer com seu desejo implicado; um desejo particularmente voltado para o infante e que, na sua consistência, leva-o a desejar a vida. Isso significa que não basta alimentar, higienizar e aquecer esse corpo, ações que qualquer um pode cumprir. É preciso que estas ações sejam entremeadas por um “interesse” específico, por uma sedução da parte do outro. Trata-se, então, de uma escolha do outro em acolher, em reconhecer a existência do infante em seu desejo. Somente por este voto amoroso transmitido, que o filhote do homem terá a possibilidade de sair do caos do desamparo. Isso já aponta para a dependência absoluta que se estabelece no início da vida de cada humano; uma dependência que remete à importância tanto do outro enquanto semelhante, quanto do Outro primordial – representante do campo simbólico. Evidentemente, que esta escolha não está isenta dos aspectos singulares da subjetividade do outro, desse que cumpre a função de Outro primordial. Serão com eles e a partir deles que as funções materna e paterna irão operar. Embora tenhamos a compreensão de que o exercício dessas funções não precisa, necessariamente, acoplar-se aos agentes parentais, é importante salientar o lugar que o filho ocupa na subjetividade de uma mulher. Entre a mulher e a mãe, encontramos a criança. Este é o lugar que, a princípio, a criança ocupa. A partir de a sua condição de faltante, a mulher toma a criança como objeto privilegiado de seu desejo (FREUD, 1905/1987), exercendo uma função – materna – que possibilita introduzir a criança em uma rede simbólica fundante. Tanto Freud (1931/1987, 1932/1994) quanto Lacan (1956-57/1995, 195758/1999) servem-nos de suporte, para que possamos compreender que a função materna é resultante do processo construtivo da feminilidade, que traz em seu cerne a falta imaginária, a qual é determinante para o surgimento do desejo de ter um bebê. Recorrendo, ainda, aos autores citados, é possível perceber que a função materna só poderá ser realizada sob uma condição: a de que a função paterna tenha sido operada nessa mulher/mãe. A engrenagem que se estabelece entre as funções materna e paterna é o que, normalmente, possibilitará a constituição de um laço mãe-bebê consistente. Entretanto, existem situações que nos apontam para um outro cenário: quando, em decorrência das dificuldades do outro materno, o investimento libidinal sobre a criança é precário. Os efeitos podem ser desastrosos, ou porque podem 51 comprometer a própria vida da criança ou porque podem comprometer a sua organização psíquica. Situações assim, levam-nos a pensar que, não raro, a criança espera por um longo tempo pela palavra daquele que encarna o grande Outro, para ser apaziguada em sua tensão, assim como, muitas vezes, o alimento lhe chega, apenas, para satisfazer sua necessidade e não para nutrir o seu desejo. À “criança mal acolhida” restará lutar contra o deslizamento e o retorno ao “não-ser” (FERENCZI, 1929/1992), ou seja, restará a ela um árduo trabalho de construção de sentidos em uma tentativa de dominar os excessos pulsionais. 2.1 O filhote do homem e o desamparo primordial É preciso amor, pra poder pulsar... Renato Teixeira (Tocando em frente) Comecemos com uma frase evidente, porém inspiradora: “Pendurado pelo cordão umbilical eclode o filhote do homem” (CATÃO, 1998, p.103). Pendurado ao corpo do outro, o filhote do homem responde com o grito ao corte que é realizado e que inaugura uma vida própria, mas que não tem como se sustentar, em função de sua prematuridade fisiológica. Munido de quase nada, a morte se faz presente como uma ameaça real; se o outro não comparece, ela se impõe. Se enquanto habitante do ventre materno, o filhote humano se encontrara mergulhado em um estado de absoluta quietude, emerso no mundo real, encontrase em um estado de desamparo, decorrente da sua insuficiência constitutiva. A bem dizer, o filhote do homem “emerge no que lhe é estrangeiridade radical, abaladora dos fundamentos do organismo” (VORCARO, 1997, p.71), visto que se defronta com os inúmeros estímulos advindos tanto do mundo externo quanto do interior de seu organismo, o que o leva a experimentar as mais variadas sensações corpóreas, até então desconhecidas – fome, sede, frio, calor, dor e tantas outras. Sensações brutas e cruas, sem nome, sem contorno e sem lapidação. Sem saber do que se trata grita, em uma tentativa de descarregar a tensão que se estabelece no organismo, devido à quantidade de energia acumulada, oriunda dos incontáveis estímulos que ele recebe ao ser inserido no mundo real (FREUD, 1895/1987). Em seu Projeto para uma psicologia científica (1895/1987), Freud apoiado na fisiologia do sistema nervoso demonstra que, através do movimento de descarga, o 52 organismo tende a se livrar tanto dos estímulos advindos do seu exterior quanto daqueles que advém do seu interior, em virtude desses abalarem a sua homeostase. Assim, a qualquer estimulação externa ou interna, a tendência do organismo será a de descarregá-las, pois estas são sentidas como um excesso, ocasionando tensão e desprazer. Desta forma, pela ação reflexa e muscular, o organismo busca, através da descarga total dos estímulos, restaurar o estado primitivo, o estado anterior de coisas, ou seja, “tornar-se mais uma vez inorgânico”, em função de este estado ser marcado pela ausência de tensão e, sendo assim, ser marcado por uma “quietude absoluta”, como é esclarecido por Freud em Além do princípio de prazer (1920/1987, p. 56). Porém, a descarga dos estímulos pela via motora não é possível quando eles provêm do interior do organismo, afirma Freud (1895/1987). Ainda no seu Projeto, Freud demonstra que, diante desses estímulos que se apresentam, primitivamente, através das necessidades básicas, o filhote do homem grita em uma tentativa de descarregar o acúmulo de tensão que lhe gera uma vivência de desprazer. Contudo, seu grito, como via de descarga motora, não elimina o acúmulo de tensão, pois como o estímulo endógeno é contínuo, a tensão se restabelece. Muito diferente dos estímulos provenientes do exterior do organismo, os quais são descarregados através de uma ação reflexa e muscular, constituindose como um mecanismo de fuga do estímulo, aos estímulos internos a fuga é impossível; isto quer dizer que eles não são dominados pela ação motora. Portanto, ante a impossibilidade do organismo em esquivar-se das grandes necessidades criadas pelos estímulos endógenos – precursores das pulsões – uma outra ação terá que ser realizada, na medida em que esses “cessam apenas mediante certas condições, que devem ser realizadas no mundo externo” (Ibidem, p.349). Logo, somente por meio de uma intervenção, de uma ação, qualificada de específica, cujo caráter é da ordem de uma satisfação, que será possível suspender, temporariamente, a descarga do estímulo no interior do organismo. Devido a sua impotência motora inicial, em função do organismo humano não possuir uma maturação biológica, o filhote do homem é impedido de realizar uma ação específica que possa atender a sua necessidade e, consequentemente, eliminar o acúmulo de tensão que se restabelece constantemente (Ibidem). Isso quer dizer que, entregue a si mesmo, ele não tem a mínima condição de sobreviver – “a autonomia é mortal: a impotência vital de sua insuficiência adaptativa, o inacabamento anatômico do sistema piramidal e a carência de coordenação motora e sensorial 53 constituem seu drama” (VORCARO, 1997, p.71). Aqui se revela um imperativo: para sobreviver é imprescindível o outro. Esta é uma condição própria e específica do humano, o que faz com que o outro tenha uma importância ímpar para o infante. Se a alteração da situação em que o humano se encontra ao nascer depende do outro – agente materno – em realizar uma ação específica, é importante destacar que essa não se traduz, apenas, em suprir as necessidades vitais. Mais do que isso, a ação específica implica o outro, na medida em que ele se sente afetado pelas manifestações do infante. O efeito de ser afetado é o que permite a ele cumprir com a função de Outro primordial, isto é, dar uma nomeação, uma significação, ou seja, uma representação, um sentido às manifestações vitais do organismo. Assim, ao banhar o real do corpo com palavras, mesmo que não formuladas, ele contorna as sensações corpóreas brutas e cruas; ele lapida as experiências vividas pelo infante. Logo, é por se sentir afetado, que o outro “permite que as manifestações vitais do rompimento da homeostase orgânica sejam marcas a serem lidas como mensagem, apagadas pela resposta oferecida e balizadas por precauções que as evitem” (Ibidem, p.72). Assim, o Outro primordial toma o grito do infante – via de descarga motora – como um apelo, como uma mensagem a ser interpretada, por ele supor a existência de um sujeito onde há apenas um organismo. Não é de outra forma que o ato realizado pelo Outro primordial possibilita que o grito adquira “a importantíssima função secundária da comunicação” (FREUD, 1895/1987, p.370). Posto isto, não é, também, de qualquer forma que ele realiza essa interpretação. Com o motheress 27 – em português, traduzido como manhês – estabelecido, a mãe diante do choro do seu bebê, por exemplo, lhe diz: “você está com fome?”, ao que ela interpreta como se fosse uma resposta dele: “eu quero mamar”. Ao lhe dar o peito diz: “meu neném está com fome?”, e ele ao sugar, ela, novamente, interpreta: “sim mamãe, estou com fome”. Um outro exemplo muito interessante é quando a mãe toma a “mímica facial” do recém-nascido – contração muscular involuntária facial – como sendo um sorriso dado a ela: “você gosta quando a mamãe faz assim, você está sorrindo para mim”. Pois bem, o Outro primordial toma as manifestações vitais do infante como atos dirigidos a ele, como sendo demandas daquele. Se esse encontro com o Outro possibilita a criação de uma experiência de 27 Segundo Laznik (2006, p.98) o manhês “é o dialeto de todas as mães do mundo quando elas falam com seus bebês: a voz é postada um tom mais alto e a entonação é exagerada.” Falando na primeira pessoa, a mãe fala no lugar do bebê e lhe responde como se fosse ele que tivesse falado. Segundo a autora, a prosódia da voz materna manifesta o seu prazer que a situação suscita nela. 54 prazer no infante, ele possibilita as primeiras inscrições psíquicas, as quais impedem a livre circulação das excitações e, por conseguinte, a descarga total. 28 Desde modo, ao mesmo tempo em que o Outro retira o infante do estado de desamparo, possibilita a construção do psiquismo, uma vez que a ação específica realizada por ele juntamente com a eliminação de tensão, “constitui então a experiência de satisfação, que tem as consequências mais radicais no desenvolvimento das funções do indivíduo” (FREUD, 1895/1987 p.370), pois a partir dela se estabelecem as primeiras trilhas no aparelho psíquico, isto é, o funcionamento do aparelho psíquico é inaugurado com a primeira experiência de satisfação, através da qual surgem as primeiras inscrições psíquicas, levando o infante a se inserir no mundo do desejo e da demanda, no campo do simbólico. Em suma, a realização da ação específica envolve, então, o investimento do Outro sobre o infante – função materna. Esta intervém contra a descarga mortífera total do organismo, isto é, contra a tendência originária do organismo para a “quietude absoluta” (Idem, 1920/1987, p.56) na medida em que, através da oferta de objetos (o seio, a voz, por exemplo), os quais proporcionam uma experiência de satisfação ao infante, promove uma vinculação da força pulsional ao campo dos objetos. Assim sendo, a função materna realiza “uma transformação brusca da expulsão inicial, rearticulando-a para o organismo do infans e delineando uma mudança no rumo da força pulsional” (BIRMAN, 1999, p.156). Portanto, o investimento do Outro primordial, determinante para o exercício da função materna, proporciona uma organização pulsional ao converter a energia livre – destinada à expulsão e consequentemente à morte – em uma energia vinculada – destinada à satisfação, à vida. Por este investimento, a força pulsional se transforma em um circuito pulsional, impedindo a perda de energia pelo organismo, visto que aquela se ordena em experiência de satisfação (Ibidem). Em uma tentativa de ilustrar o que expomos acima, apresentamos um fragmento de uma experiência de trabalho realizado na Enfermaria da Neonatologia de um Hospital da cidade de Juiz de Fora, MG. Esta enfermaria destina-se aos recém-nascidos que precisam dos cuidados de uma Unidade de Tratamento 28 Conforme nos esclarece os textos Projeto para uma psicologia científica (1895/1987), Carta 52 (1896/1987) e A interpretação de sonhos (1900/1987), isso possibilitou Freud a afirmar que o aparelho psíquico, diferentemente de um aparelho reflexo em que a excitação sofre uma descarga total, se constitui pela memória que, como traços, impedem a livre circulação das excitações e, consequentemente, a sua descarga total, a qual leva o organismo à morte devido à falta de energia. 55 Intensivo (UTI) neonatal. Dessa forma, antes de irem para casa permanecem, alguns dias, semanas ou, na pior das situações, meses, na enfermaria. Uma equipe multidisciplinar composta de médicos, fonoaudiólogas, fisioterapeutas, psicólogas, assistentes sociais e enfermeiras acompanham cada caso. Traremos como ilustração o RN de Maria, ou seja, o recém-nascido de Maria. Na falta de um nome próprio, a instituição o nomeia, sendo este um procedimento natural. Tratava-se de um bebê, do sexo feminino, que nasceu prematuro ou, na linguagem médica, era um recém-nato pré-termo. Nasceu fora do tempo previsto, fora do tempo normal. No discurso da equipe, normalmente, o significante que circulava era a falta: falta temperatura, falta peso, falta desenvolvimento muscular, falta resistência, etc. Para a sua sobrevivência era preciso completar este tempo dentro de um “ventre artificial” (incubadora), com todo um aparato artificial também, da mesma forma que existia toda uma conduta da equipe que se traduzia não só em cuidados, mas, igualmente, em estímulos, visto que os exames realizados em seu corpo eram constantes: coleta de sangue, introdução de sondas e cateteres, exercícios fisioterápicos, etc. Vale ressaltar que o ambiente de uma UTI neonatal e de uma enfermaria neonatal oferecem inúmeros estímulos sonoros. A fragilidade corpórea deste bebê fazia com que a equipe ficasse presa a ela. O toque era em função das manipulações dos exames, da higiene, e muitas vezes acompanhado de uma urgência, o que fazia com que a palavra faltasse. Falava-se do bebê, sobre o bebê e, no entanto, ninguém falava com o bebê. Parecia que existia, apenas, a temperatura, a pressão arterial, o batimento cardíaco, a respiração, enfim, parecia que existia apenas o organismo. O bebê era este corpo precário que muitas vezes estava próximo da morte. Mal ou muito mal, ele havia nascido. Sem dúvida, não discutimos a importância e o quanto são imprescindíveis todo o aparato usado, seja dos exames, das aparelhagens, ou mesmo dos profissionais em uma unidade de cuidados intensivos neonatais. Porém, pensamos que neste tempo intermediário – entre o nascimento e a saída da enfermaria – existe um sujeito em via de advir recebendo inúmeros estímulos, sem nomeações, sem sentidos e sem significações. Como mencionamos anteriormente, qualquer estímulo, interno ou externo, é vivenciado como tensão, em função do acúmulo de energia. Necessário se faz, então, dar representações, significações; converter em representações as experiências corpóreas, isto é, retirar o corpo do registro do real e inseri-lo no campo 56 do simbólico, no campo da linguagem. Entendemos que essa operação é o que possibilita um outro destino para a energia, diferente da expulsão e da descarga total; é o que possibilita uma experiência integrada – uma experiência de integração que possa ser constituída “em oposição às falhas, excessos e faltas traumáticas” (FIGUEIREDO, 2009, p.123). A mãe, Maria, se encontrava muito deprimida. O encontro com o seu bebê, tão distante daquele que ela havia idealizado durante a gestação, se constituiu em um encontro traumático; um encontro que “o real em todo o seu horror conduz o jogo” (MATHELIN, 1999, p.65). Diante disso, ela não conseguia investi-lo. Por viver a dor do luto de seu bebê imaginário, o investimento libidinal que seria destinado a ele retornou para ela, de tal forma que seu desejo materno parecia “suspenso”. RN de Maria com seu corpo excitado e tenso, apresentando perda de peso e de nutrientes – mesmo sendo alimentado por sonda nasogástrica 29 – era quem revelava a obstrução do investimento do Outro para o exercício da função materna. O quadro era este, quando fomos inseridas na equipe multidisciplinar. Maria, por ser a mãe, era a acompanhante do bebê. Como residia em outra cidade, ela e seu bebê costumavam receber visitas somente aos finais de semana. Durante uma reunião da equipe, em meio às inúmeras falas, já que se tratava de uma equipe grande, nossa atenção foi despertada para o relato de uma enfermeira que havia dado plantão no final de semana. Ela relatava sobre a visita da avó materna de RN 57 forma, o investimento do Outro contornava aquele organismo em que a prematuridade saía do campo da condição humana e ganhava o campo da doença; um contorno que não se realiza sem sedução. A sedução transcende os cuidados básicos e necessários que se tem com o bebê, embora seja passada no momento em que estes ocorrem. A sedução é este voto amoroso que se transmite pela voz, pelo olhar, pelo tocar que sinaliza a presença simbólica de um Outro desejante. (VESCOSI, 1999, p. 344). Embora alguns da equipe tivessem se surpreendido quanto ao aumento de peso de Joana, para nós, psicanalistas, não foi surpresa. Percebíamos que quando a função materna operava sem maiores problemas, ou seja, quando o outro dispunha de libido para investir o bebê, ele rapidamente ganhava peso, suportava melhor a manipulação dos exames e respondia a medicação. Era visível o que Jerusalinsky (1999) sustenta a respeito do desenvolvimento do bebê humano, de que ele “não opera por simples automatismo biológico” (p.18). Joana deixava isso às claras. Mesmo recebendo os nutrientes diretamente no seu estômago, ela não se encontrava alimentada. Era preciso muito mais que isso; era preciso ser alimentada pelo prazer do Outro, pelo desejo do Outro. Foi isso que ela pôde experimentar a partir do encontro com a avó. Um encontro em que, seu corpo envolvido e embalado pelo prazer do Outro, possibilitou a passagem do organismo vivo para um corpo transpassado pelas pulsões; um encontro que ao contornar o real do corpo possibilitou um outro destino para a energia, diferente da expulsão e da descarga total. Portanto, é bastante evidente que a presença do Outro primordial é fundamental, não se reduzindo ao suprimento das necessidades vitais. Ela é uma presença constituída de palavras, olhares e toques, que são impregnados por um desejo singular – desejo materno – que ao erogenizar o corpo do infante, desperta a pulsão sexual, desperta a vida (FREUD, 1905/1987). Uma presença que “cria corpo e cria o corpo: o corpo da palavra, o corpo do sujeito” (WANDERLEY, 1977, p. 23). É uma presença que transpira o prazer do Outro materno. Assim, entre palavras e sedução, o Outro primordial parece escrever no corpo do infante, “permitindo construir o que depois será sua ‘imagem corporal’” (BERNARDINO, 2006, p.33). Ele verte em palavras o grito daquele; ele dá um sentido às sensações precoces, ele nomeia cada parte do corpo, e, gradativamente, o organismo vai ganhando 58 inscrições psíquicas, vai sendo simbolizado. Porém, não é sem o envolvimento dele. O outro – habitualmente a mãe – se envolve com esse pequeno corpo; seu cheiro, sua tez, seus barulhos, seu silêncio, seus movimentos a seduz. Ela brinca com as dobrinhas do corpo de seu bebê, beija a sua barriga, faz cosquinha, beija as pontinhas de seus dedos e pergunta: cadê o toicinho que estava aqui? O gato comeu! Cheira seus pezinhos, ri, acaricia seu bebê. Conversa com ele. É a cara do papai, cadê o narizinho do neném? De quem é essa boquinha? Ela aperta-o, abraça-o em seu colo. Ele a olha atentamente. Ele gosta disso, e ela também. Esse envolvimento – fruto do desejo materno – erogeniza o pequeno corpo, fundando as pulsões parciais: “pontos do corpo que se destacam e passam a ter um registro psíquico, a partir da significação colocada pelo Outro” (BERNARDINO, 2006, p.33). Conforme mencionamos no final do capítulo anterior, esses pontos – zonas erógenas –, que no início da vida psíquica se destacam como sendo a boca, o ânus e os genitais por receberem maior estimulação em função dos cuidados maternos, são, portanto, segundo Freud (1905/1987), órgãos receptores de estímulos, cuja excitação confere à pulsão um caráter sexual, uma vez que através deles o infante obtém satisfação. Esta propriedade torna as zonas erógenas fontes das diversas pulsões parciais. Logo, por estarem em contato com um outro corpo, favorecendo uma abertura para o erotismo, elas propiciam a realização de um intercâmbio com o outro (BIRMAN, 1999). Ao depositar um investimento nessas fontes, o Outro dá condições para que retornem ao infante erogenizados, instaurando, assim, um circuito pulsional. Desta forma, a função materna “introduz o bebê no campo pulsional, instilando Eros em sua constituição” (ARAGÃO, 2007, p.30), inscrevendo as marcas do desejo no corpo do infante. Ela injeta vida nesse corpo, que por si só não tem condições de sobreviver. Assim, sendo atravessado pelas pulsões sexuais, o corpo do infante vai ganhando representações, recebendo inscrições psíquicas, na medida em que essa troca com o Outro se constitui como experiência de prazer e de satisfação para o infante: Essas experiências plenas de sentido se repetem e deixam marcas: vão aos poucos formando um mapa de partes do corpo e da realidade exterior, que passam a existir porque foram descobertas nessas trocas com o outro, deram prazer, surpreenderam o outro (BERNARDINO, op.cit, p.34). É nesse sentido que o Outro primordial parece escrever no corpo do infante. Esta escritura impede a livre circulação das excitações e, consequentemente, a sua 59 descarga total, favorecendo a transformação do organismo em um corpo simbólico/imaginário, como já foi mencionado. Depreendemos disso, então, que a função materna, ao criar Eros no corpo do filhote do homem, transformando-o em humano, dota-o do poder de estabelecer ligações (ARAGÃO, 2007). O que está em pauta aqui é a transformação da carne em um corpo simbólico/imaginário, em que o prazer, a satisfação do Outro primordial será o ingrediente fundamental para que essa metamorfose possa acontecer. Fruto do narcisismo do outro e da equação simbólica falo-bebê – quando é a figura feminina que exerce essa função – o investimento libidinal do outro retira o infante de uma estagnação mortífera, produzindo as bases para a constituição de sua subjetividade. Se a função materna, necessariamente, não precisa ser exercida pela figura da mãe, podendo, inclusive, ser desempenhada pela figura do pai, isso significa que a questão do gênero não se faz presente. Entretanto, é importante salientar que a criança, na condição de filho, possui um lugar específico na subjetividade da mulher, visto que ela será tomada, a princípio, como o objeto obturador da castração feminina, isto é, ela será tomada como o objeto que aponta para a mulher a realização, ilusória, de um desejo fálico. 2.2 A criança entre a mãe e a mulher O fato é que, depois que virei mãe, luto infernalmente para não ceder às tentações de tornar-me uma chantagista. É que de mãe para chantagista é um passo de bebê. Aliás, a maternidade aflora diversos aspectos perigosos no caráter feminino, do horror aos ventos à paixão por doces... O domínio só não está nas mãos da gente porque somos umas loucas. Umas loucas com poder - olha que susto! Eu tenho a força! Perigo, perigo! O mundo poderia até se tornar melhor caso essa tendência meio mesquinha meio psicótica das mães fosse controlada. Mas sabe, Jacques, é difícil. Ter filho dá um treco na cabeça das mulheres, que elas ficam doidonas de vez. Um tipo de barato permanente, em ressaca permanente, que é um coquetel de sensação heróica, estado de graça, culpa, raiva e um amor desembestado. Fernanda Young 31 A experiência clínica nos permite verificar que um filho ocupa um lugar muito particular na vida das mulheres. Em algum momento da análise, eis que ele surge 31 O trecho acima foi extraído do Jornal do Brasil, publicado no dia 31 de julho de 2001. 60 como uma questão para elas: seja em torno da dúvida de ter ou não ter filhos, de ser ou não ser mãe, que lhe gera grande sofrimento; seja em relação à dificuldade encontrada para engravidar e a intensa frustração vivenciada com a chegada da menstruação; seja relacionada às ansiedades, aos medos e às expectativas diante daquele que vai nascer ou daquele que acabou de nascer; seja uma questão referente a um filho já crescido. Enfim, percebemos uma intensidade nas questões que as mulheres apresentam em relação aos filhos, o que pressupõe a existência de uma especificidade no lugar que eles ocupam no psiquismo feminino. De menina à mulher um longo e complexo – algumas vezes turbulento – caminho terá que ser percorrido. Não se nasce mulher, torna-se mulher. Essa foi uma das revelações que Freud pôde fazer em relação ao universo feminino, em meio a tantos obscurantismos em que ele se encontrava. Se ele usou da expressão continente negro (1926/1987) para se referir à vida sexual da mulher, Lacan proclamou que A Mulher não existe (1972-73/1985), para dizer da falta de um significante no inconsciente que a represente. Enquanto um apontava para um mundo a ser explorado, o outro apontava para algo a ser criado, ou seja, a mulher na sua essência teria que se inventar. E a mulher na falta de um esteio, que a deixa muito mais próxima do real, muitas vezes tenta encontrá-lo na maternidade, sua doce ilusão. Entretanto, se a maternidade não lhe dá a completude fálica, o investimento libidinal que surge em função dessa esperança, e que ela dispensa ao seu bebê, é promissor ao favorecimento de uma organização psíquica. 61 2.2.1 De menina à mulher Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina? - Não é no cabelo, ou no dengo, ou no olhar, é ser menina por todo lugar. Ô mãe, então me ilumina, me diz como é que termina? - Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar. Costura o fio da vida só pra poder cortar. Depois se larga no mundo pra nunca mais voltar.(...). Prepara e bota na mesa com todo o paladar. Depois, acende outro fogo, deixa tudo queimar.(...). E esse mistério estará sempre lá, feminina, menina, no mesmo lugar. Joyce (Feminina) Ao se debruçar sobre a sexualidade infantil, muito distante ainda dos esclarecimentos quanto à sexualidade feminina, Freud nos indica o lugar da criança na subjetividade da mulher. Em seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/1987), ele afirma que a mãe contempla a criança com os sentimentos provenientes de sua sexualidade: “ela a acaricia, beija e embala, e é perfeitamente claro que a trata como o substituto de um objeto sexual plenamente legítimo” (p.211). Essa afirmativa harmoniza-se com o que, mais adiante, no texto Sobre o narcisismo: uma introdução (1914/2004), ele tece sobre a vida amorosa feminina. Esclarecendo-nos que a forma de amar do humano é fundamentada no tipo de escolha de objeto – tipo de escolha por veiculação sustentada e tipo narcísico –, Freud afirma que a forma feminina de amar se diferencia da forma masculina. Fundamentando-se no fato de que as pulsões sexuais apóiam-se, a princípio, no processo de satisfação das pulsões de autoconservação, ele afirma que, as pessoas envolvidas nessas experiências – mãe ou seu substituto – tornam-se os objetos sexuais primordiais, constituindo o tipo de escolha por veiculação sustentada, própria do universo masculino. Entretanto, afirma ele existirem determinadas pessoas que, num a posteriori, a escolha de seu objeto de amor vai se pautar no próprio eu e não na imagem da mãe, constituindo, então, uma escolha do tipo narcísico. Essa, segundo ele, seria, predominantemente, a forma de amar da mulher, embora afirme a existência de mulheres que amam de acordo com o modelo masculino (Ibidem). Às mulheres que amam conforme o tipo narcísico, a estruturação de um amor objetal completo acha-se prejudicada, visto que a supervalorização do objeto sexual encontra-se ausente. Apenas em relação ao filho que ela desenvolve um pleno amor 62 objetal: “a criança que gerarão apresentar-se-á diante delas como se fosse uma parte de seu próprio corpo, na forma de outro objeto, e, assim, partindo de seu próprio narcisismo, elas podem dedicar-lhe todo o seu amor objetal” (FREUD, 1914/2004, p.109). Assim, se o homem toma a mulher como seu objeto sexual, supervalorizandoa, a mulher toma o filho como substituto de um objeto sexual. De qualquer maneira, ambas as formas de escolha de objeto encontram-se intimamente relacionadas com o complexo de castração, o qual se apresenta diverso entre o homem e a mulher. Durante um longo tempo, Freud, por se deparar com a obscuridade que envolvia a mulher, sustenta a sua teoria sobre a sexualidade referindo-se ao sexo masculino. Isso o levou a construir as primeiras formulações a respeito do complexo de Édipo acreditando existir uma analogia entre ambos os sexos. Se o reconhecimento da inexistência de uma analogia entre os dois sexos, possibilitou Freud a dedicar dois textos, 32 inteiramente, à psicologia da mulher, isso não significou que ele tenha decifrado totalmente o enigma da feminilidade. Ele é o primeiro a reconhecer este fato, ao dizer para os seus interlocutores: “se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e mais coerentes” (1932/1994, p.134). Entretanto, mesmo deixando para os poetas e para a ciência o deciframento do enigma da mulher, Freud lança alguma luz sobre aquele universo que ele denominara de “continente negro” (1926/1987, p.205), fazendo algumas revelações. Talvez, a sua maior revelação tenha sido de que não se nasce mulher; tornase mulher (1932/1994). Para a realização de tal processo, a menina deverá realizar duas árduas tarefas, o que faz com que o desenvolvimento da sexualidade feminina seja mais complicado, se comparado com o do menino (1931/1987). Sendo a mãe o primeiro objeto de amor, tanto do menino quanto da menina, uma vez que foi por ela alimentado e amparado (1905/1987), Freud começa a indagar como a menina encontra o caminho que a leva ao pai e, mais, como, quando e por que ela se afasta da mãe (1931/1987). Conhecedor, desde as suas correspondências com Fliess, 33 de que a menina teria uma tarefa a realizar – trocar de zona erógena, visto que a sua sexualidade, inicialmente, tem um caráter inteiramente masculino – Freud, a partir das indagações acima, descobre que a 32 33 Referimo-nos aos textos Sexualidade feminina (1931/1987) e a Conferência XXXIII (1932/1994). Na carta de 14 de novembro de 1897, carta 75, que escreve a Fliess, Freud já fizera menção a isso. 63 menina terá que realizar uma segunda tarefa. Para o bom desenvolvimento da sua sexualidade, ela terá que, não apenas, renunciar a sua sexualidade ativa, mas como terá que trocar o seu objeto de amor – se antes era a mãe, agora deverá ser o pai. A observação da intensidade e da duração da relação da menina com sua mãe levaram Freud (1931/1987) a atribuir uma grande importância à fase pré-edipiana nas mulheres, uma vez que naquela relação se encontrariam todos os elementos causadores de fixações e disposições. Sustenta, ainda, que essa relação marcará, definitivamente, a vida da mulher, de tal forma que a relação intensa estabelecida, posteriormente, com o pai, nada mais é que uma herança desse primeiro vínculo. Para compreender a natureza das relações libidinais da menina com a sua mãe, Freud retoma a questão da teoria da sedução, a qual havia abandonado. Se, anteriormente, o sedutor era o pai, nesse momento, diante de as novas descobertas, a pessoa que seduz é a mãe. O que antes era considerado fruto de uma fantasia, agora Freud afirma: Aqui, a fantasia toca o chão da realidade, pois foi realmente a mãe quem, por suas atividades concernentes à higiene corporal da criança, inevitavelmente estimulou e, talvez, até mesmo despertou, pela primeira vez, sensações prazerosas nos genitais da menina (1932/1994, p.121). Conforme expomos no início dessa seção, Freud, de alguma forma, já mencionara essa questão em seu texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/1987). Além de afirmar que, através dos seus cuidados, a mãe desperta a pulsão sexual do filho, ele também dá a entender que pênis e bebê possuem uma equivalência, ao afirmar que a criança “é o substituto de um objeto sexual plenamente legítimo” (Ibidem, p.211). Longe ainda de conhecer o processo construtivo da feminilidade, Freud já lançara o cerne da questão: de que a criança na relação com a mãe representa o falo – objeto de seu desejo. Ainda que tivesse em mente a primazia do pênis, muito antes de se debruçar às questões caras do universo feminino, Freud já pensara no lugar que o filho ocupa no psiquismo da mulher. No texto As transformações do instinto exemplificadas no erotismo anal (1917/1987), ele faz algumas referências a isso ao apontar para a equivalência existente entre pênis-bebê: “[...] bebê e pênis mal se distinguem um do outro e são facilmente intercambiáveis” (Ibidem, p.136), “[...] a natureza dá bebês às mulheres como substitutos para o pênis que lhes negou” (Ibidem, p.137) ou “de início, 64 haviam desejado um pênis, como os homens; depois, num estádio posterior, embora ainda infantil, surgiu em lugar deste, o desejo de um bebê” (FREUD, 1917/1987). Com a primazia do falo (1923/1987), esta equivalência assume uma forma simbólica, que nos mostra que a mulher busca não o pênis, mas o seu representante simbólico – o falo, o qual dará uma dimensão simbólica à falta da mulher. Não se trata mais de ter ou não ter o pênis, o que concerne ao registro imaginário, mas da presença ou ausência do falo, isto é, ter o falo ou ser castrado. Atravessado, ainda, pela vinculação intensa da menina com a mãe, ele demonstra que o complexo de castração é o fator decisivo que põe fim a essa ligação. Diferentemente do menino, que abandona o complexo de Édipo a partir do complexo de castração, a menina entra no complexo de Édipo a partir do complexo de castração. Vejamos como ele esclarece essa diferença, que por muito tempo ficou sombria. Somente no menino a clássica e trágica combinação, “amor por um dos pais e, simultaneamente, ódio pelo outro, como rival” (1931/1987, p.237) se faz presente, ou seja, o menino ao investir libidinalmente sua mãe (por ser o primeiro objeto de amor), toma seu pai como rival. Diante da constatação da ausência do pênis nas mulheres, ele é acometido pelas lembranças das ameaças que sofrera ao brincar com seu órgão. Se ele, antes, não deu valor às ameaças, agora ele dará uma grande significação a elas, pois construirá a fantasia de que a ausência do pênis nas meninas deve-se ao fato de terem sido punidas, em função, também, das suas atividades masturbatórias, as quais carregariam fantasias relacionadas ao desejo pela mãe. Sob a influência do temor de castração, ele renuncia a seu desejo incestuoso pela mãe, isto é, em nome do “seu interesse narcísico por seus órgãos genitais” (Ibidem) ele abre mão do investimento pela mãe. Pela angústia e temor de castração, o menino coloca um ponto final no seu complexo de Édipo. Com a menina, esse processo se dá por uma via oposta. Ao se deparar com os genitais do outro sexo, ela reconhece a sua castração, porém não sem se rebelar. Por associar a presença do órgão a uma superioridade, diante da sua falta passa a se sentir inferior, tornando-se vítima da inveja do pênis: “ela o viu, sabe que não tem e quer tê-lo”, afirma Freud (1925/1987, p.281). A partir disso, abrem-se três destinos possíveis para ela: o primeiro, diz respeito ao fato de a menina crescer insatisfeita com seu clitóris. A comparação com o menino, leva-a a abandonar sua atividade fálica e, com ela, sua sexualidade em 65 geral, tendo como efeito a inibição sexual ou a neurose. O segundo refere-se ao fato de a menina aferrar-se com desafiadora autoafirmatividade à sua masculinidade ameaçada, mantendo a esperança de um dia conseguir um pênis, o qual poderá levá-la ao homossexualismo. O terceiro destino seria a menina tomar o pai como objeto de amor, encontrando o caminho para o complexo de Édipo e atingindo, assim, a atitude feminina normal final (FREUD, 1932/1994). Responsabilizando a mãe pela sua falta, a menina sente-se injustiçada, porém, isso não a leva a se afastar da figura materna. A descoberta de que a mãe é castrada é que será decisivo para abandoná-la como objeto de amor. Ao pai, agora como objeto de amor, ela demandará o que a mãe lhe recusou – o pênis – e à mãe dirigirá uma intensa hostilidade, uma vez que essa se tornou uma rival, por receber do pai o que ela deseja. Contudo, para o estabelecimento da atitude feminina, o desejo pelo pênis terá que ser substituído pelo desejo de ter um bebê – um bebê de seu pai, onde a ênfase recai sobre o bebê, ficando o pai em segundo plano (Ibidem). Desse modo, a menina ingressa na triangulação edípica, marcando uma grande diferença em relação ao menino – enquanto o menino sai de seu complexo edípico pelo complexo de castração, a menina entra naquele através desse, como já explicitamos acima. Entretanto, como foi exposto no início dessa seção, para a menina tornar-se mulher, antes de cumprir a tarefa de trocar de objeto, ela tem que trocar de zona erógena, ou seja, transferir seu gozo clitoridiano para a vagina. Partindo da afirmação de que a bissexualidade é muito mais nítida nas mulheres do que nos homens, Freud sustenta que no início a menina é um “homenzinho” (Ibidem, p.118). Pelo clitóris – zona erógena, por excelência – a menina, através da atividade masturbatória, retira sensações prazerosas, tal como o menino obtém de seu pênis. Isso significa que em um primeiro tempo, a sexualidade da menina assume um caráter masculino e ativo, em função de o clitóris possuir uma equivalência com o órgão masculino. Já em um segundo tempo, a vagina, “verdadeiramente feminina” (Ibidem), assume a posição de ser a principal zona erógena, uma vez em que há a transferência de sensibilidade e de importância de uma zona erógena para outra. Esta transição não se dá sem uma reorganização pulsional. Se, a princípio, a criança dirige “impulsos cheios de desejo, intensos e ativos” (1931/1987, p.247) à mãe, é em uma tentativa de satisfazer o desejo da mãe – ter o falo –, o qual implica o seu próprio desejo – ser o que satisfaz a mãe – ser o falo. A passagem para o pai, movida pela frustração, a qual afetou intensamente os impulsos ativos, se dá através 66 da ascensão dos impulsos passivos, visto que os ativos sofreram um acentuado rebaixamento. Assim, o tornar-se “verdadeiramente feminina”, somente se realizaria através de um rebaixamento dos impulsos sexuais ativos – dirigidos à mãe e que culminam na masturbação clitoridiana – e da ascensão dos impulsos sexuais passivos. Por essa via, haveria uma prevalência da passividade e a menina se voltaria para o pai, como objeto de amor, através dos impulsos passivos (FREUD, 1932/1994). O que está em pauta na relação com o pai, diferente da relação com a mãe, é a demanda de ter o falo, a qual se expressa no desejo da menina de receber um bebê do pai. Na ausência de qualquer incidente que impeça a elaboração das questões suscitadas nesse processo, como demonstra o caso da jovem homossexual (Idem, 1920/1987), a menina encontrará possibilidades para deslizar o seu desejo pela equação simbólica. Isso significa que, mesmo com a inveja do pênis inscrita em seu inconsciente (Idem, 1937/1987), “a menina passará da inveja do pênis, para o desejo do pênis e, concomitantemente, para o desejo de um homem” (ZALCBERG, 2003, p.38). Assim, por esse processo – em que a mudança de zona erógena deve corresponder a uma mudança no sexo do seu objeto (FREUD, 1931/1987) – que consiste em um árduo trabalho psíquico, a menina alcançaria o caminho da feminilidade: um caminho que abre as portas para, mais tarde, encontrar um homem – o único que pode satisfazer a sua demanda: bebê-falo. Partindo da formulação freudiana de que a criança simboliza o falo para a mãe, Lacan (1956-57/1995) indica que a relação entre a mãe e a criança não é uma relação dual, visto que entre elas existe um terceiro termo: o falo, objeto de desejo da mãe. Seguindo as coordenadas freudianas, ele afirma que “se a mulher encontra na criança uma satisfação é, muito precisamente, na medida em que encontra nesta algo que atenua, mais ou menos bem, sua necessidade de falo, algo que a satura” (p.71). Assim, entre uma e outra existe o desejo da mãe, fundamental para a constituição do psiquismo. Se em um primeiro tempo de sua teorização sobre a sexualidade feminina, Lacan determina a relação da mãe com a criança mediada pelo falo, isto é, de que “para a mãe, a criança [está] longe de ser apenas a criança, já que ela é também o falo” (Ibidem, p.56), é por lhe faltar um significante feminino, uma vez que o inconsciente só admite o significante masculino – o falo. Logo, a mulher busca um substituto fálico para não ter que se a ver com a falta de uma identificação feminina – advinda da falta de um significante próprio – cuja caracterização se dá pelo 67 enigma, precisamente do universo feminino, “o que é ser mulher?” Entretanto, Lacan esclarece, em um segundo tempo da sua teorização, que a mãe busca na criança um substituto fálico para sua falta não apenas como ser, mas como mulher. Essa se dá pela vertente do gozo, isto é, através da criança ela tenta recuperar uma parcela de seu gozo perdido, o qual foi imposto pela castração. Essas particularidades da mulher, Lacan esclarece através da passagem pelo Édipo. Ser o objeto do desejo materno é o ponto de partida que permite com que uma primeira dimensão de ser se constitua para a criança. A necessidade de se sentir amada e desejada, consequentemente protegida contra o desamparo, levá-la a se identificar com o objeto que a mãe deseja – o falo. Se a ausência da mãe é vivida pela criança como falta de amor, tornar-se, ilusoriamente, o objeto que causa o desejo daquela é garantir, então, a presença dela; é se assegurar de seu amor (ZALCBERG, 2003). Assim, mesmo que desconhecendo o significado desse objeto – nas palavras de Lacan, “ela, não sabe nada disso” (1956-57/1995, p56) – a criança se identifica com o objeto de desejo da mãe; uma identificação fálica, mas que lhe assegura um lugar de existência no desejo do Outro. Dessa forma, a relação mãe-criança parece constituir-se como uma relação de complementaridade 34 – a mãe busca substitutos fálicos para o preenchimento de sua falta e em contrapartida a criança se oferece como o objeto que lhe trará a sua satisfação. Entretanto, a intervenção paterna, ao nomear o objeto de desejo da mãe, introduz um corte simbólico, o qual retira a criança de uma condição alienante e, por conseguinte, de uma posição submissa ao desejo da mãe, cujo poder impera através de uma lei – lei da mãe (Idem, 1957-58/1999, p. 195) – não controlada. Sobre a lei da mãe, Lacan elucida que: [Ela] reside simplesmente, ao menos para o sujeito [a mãe], no fato de que alguma coisa em seu desejo é completamente dependente de alguma outra coisa, que sem dúvida já se articula como tal, e que é realmente da ordem da lei, só que esta lei está, toda ela, no sujeito que a sustenta, isto é, no bem-querer ou malquerer da mãe, na mãe boa ou má (Ibidem). Estando a criança profundamente “assujeitada ao capricho daquele de quem depende, mesmo que esse capricho seja um capricho articulado” (Ibidem), ao pai caberá intervir, promovendo um corte nessa relação, a qual se caracteriza pela falta 34 Uma relação ilusória de complementaridade, visto que sendo mediada pelo falo, esse já aponta para a presença da falta. 68 de movimentação e por um aprisionamento. Contudo, a entrada do pai não se realiza sem a mãe. É preciso que ela se reconheça faltosa, permitindo que seu desejo não se esgote na criança. É nesse sentido que compreendemos que a mãe funda “o pai como mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho” (LACAN, 1957-58/1999, p.197). Na medida em que o seu desejo é móvel, que se move para outro lugar – lugar que chamamos de pai – é que um corte pode incidir na relação mãe-criança; um corte que tem dupla função: Por um lado, a de proibir a mãe de encontrar na criança uma representação simbólica de sua necessidade imaginária de objetos compensatórios para a falta que ressente como mulher, requerendo que ela encontre outros objetos de desejo; por outro, de proibir a criança de continuar desejando ser este objeto de desejo da mãe – desejo, em si, mortífero (ZALCBERG, 2003, p.95). Desta forma, a função paterna confronta a criança com a falta, com a perda de ser o objeto de desejo da mãe. Somente por esta falta-a-ser que “a criança adquire o status de sujeito na plena acepção do termo” (Ibidem, p.68). Evidentemente, que isso abarca ambos os sexos. Somente após a intervenção paterna, que meninos e meninas terão destinos diferentes. Enquanto o menino deixa de ser o falo e passa a querer tê-lo, em função da identificação ao pai, a menina terá que aceitar não tê-lo, visto que, pela sua natureza, ela é impossibilitada de se identificar com o pai tal como o menino. Portanto, o menino sai da sujeição ao desejo da mãe, que lhe dava a condição de ser, e passa para o suposto ter o objeto de desejo do Outro. Nesse sentido, a sexualidade masculina está sempre referida ao falo, a esse organizador simbólico. À menina, por não se identificar totalmente com o pai, restará a ela a nostalgia da falta-a-ter, cuja inscrição em seu inconsciente será a de não ser. Aqui se instaura uma grande questão para ela. Se enquanto objeto da mãe ela possuía uma identificação que dizia quem era ela, a partir da entrada do pai, a menina se depara com uma complexa dificuldade, visto que renunciar a sua posição fálica em relação à mãe e a correspondente fantasia de completude materna suscita nela “uma questão sobre sua própria existência” (Ibidem, p.94). Isso porque, se na passagem pelo complexo do Édipo o menino é marcado pela identificação ao pai, a menina também é, porém, por uma identificação não toda, já que aquele fica impossibilitado de lhe oferecer um significante feminino. Assim, se a função paterna retira a menina da alienação total ao Outro, ao que diz respeito ao tornar-se mulher 69 é insuficiente, pois não lhe fornece um significante feminino. Daí ela encontrar no filho, representante fálico, uma solução para a falta de um significante feminino. Entretanto, não é somente por essa via que a criança é representada na subjetividade da mulher. Se o pai – a função – realiza o seu ato libertando a criança do poder do desejo da mãe, liberta-a também de seu desejo de gozar ilimitadamente e, portanto, de seu desejo mortífero. Dessa forma, ele não realiza seu ato sem colocar um limite. “A castração é consequência de haver desejo, mas possibilita a indicação de um limite ao gozo (satisfazer-se sem limites, num jorro mortal, ignorando o estado de cultura), que é também sofrimento” (BARROS, 2009, p.30), em função de sua perda parcial, a qual, através da fantasia, o sujeito tentará recuperar essa parcela de seu gozo perdido imposta pela castração. Essa tentativa de recuperação de gozo é o que o objeto (a) causa do desejo, na fantasia, significa, e, por isso, Lacan chamará o objeto (a) de objeto mais-de-gozar; [...] Esse objeto mais-de-gozar terá uma função específica na mulher, principalmente na relação que estabelece com os filhos, tomados como objeto (a) em sua fantasia” (ZALCBERG, 2003, p.121). Devido ao fato de a criança se identificar com o objeto de desejo da mãe – o falo - ela será tomada como objeto de gozo na fantasia materna. Como forma de compensar sua perda de gozo, Zalcberg (2003), apoiada em Lacan (1972-73/1985), explica-nos que “a criança torna-se uma ‘rolha’ para a mãe – uma rolha que estanca sua falta, isto é, para a sua falta de gozo, a mãe, como mulher, encontra na criança, em sua fantasia, uma suplementação de gozo” (p.128). Desde Freud, sabemos que antes da criança se constituir como sujeito, ela é objeto do Outro. Ser tomada, inicialmente, pela mãe como objeto de sua fantasia proporciona à criança uma organização psíquica, em função do investimento libidinal que ali é depositado. Contudo, esta organização psíquica só se efetivará na medida em que houver uma regulagem do gozo do Outro materno pela função paterna. Essa impedirá que a criança seja reduzida ao objeto de gozo na fantasia materna, onde sua única função será a de realizar a verdade desse objeto (LACAN, 1969/2003). Partindo das elaborações freudianas e lacanianas ao que diz respeito à especificidade da criança na subjetividade da mulher, torna a nós possível a compreensão de que a função materna por si só não existe. Como já sublinhamos, ela é resultante do processo construtivo da feminilidade, que traz em seu bojo a falta-a-ser (como sujeito e como mulher). Assim, para a sua efetivação, é necessário 70 que a função paterna tenha operado nessa mulher/mãe, servindo-lhe de sustentação para que ela possa cumprir com sua função. 2.2.2 De mãe e filho O primeiro espelho que a criança descobre sua imagem é o rosto enternecido de sua mãe. Assim, o bebê sente-se existir no brilho do olhar emocionado que sua mãe lhe dirige. Juan David Nasio 35 Sobre a esteira da falta, onde o desejo da mulher desliza – pênis-bebê –, surge o investimento libidinal, o qual é remetido ao filho que ela acredita ser muito mais do que realmente ele é. O fato de o filho já existir no desejo da mãe bem antes dele nascer, possibilita que, nesse tempo, ele já seja imaginado e falado por ela, o que faz com que ele já chegue ao mundo marcado simbolicamente, embora não tenha ainda a sua própria função simbólica, que advirá somente a partir da entrada do pai em cena. Esta carga de investimento libidinal – fruto do narcisismo parental – permite que as primeiras linhas da história da criança sejam traçadas, de tal forma que, quando chega ao mundo, ela já possui um lugar na rede de subjetividades que se compõe de “experiências significativas vividas por seus familiares e antecedentes” (BERNARDINO, 2006, p.27). Sem escolha ou por uma escolha forçada, à criança resta ocupar o lugar que recebe, corresponder ao sentido que lhe dão e tomar para si a imagem com que lhe cobrem. Do contrário, a vida não lhe será possível. Assim, é a partir do que vem do Outro – nomeação e imagem, as quais se encontram entrelaçadas à demanda, ao desejo e à fantasia dele – que, por um processo identificatório – identificação imaginária –, inicia um primeiro esboço do eu; um eu ideal que, identificado ao objeto de desejo da mãe, aponta para uma imagem idealizada; uma imagem de perfeição narcísica que compõe o corpo do infante – um corpo imaginário – formado pelas inscrições maternas. Longe de ser a aparência física, o corpo imaginário “é o corpo apreendido em sua massa, percebido instantaneamente como uma silhueta ou percebido globalmente como uma sombra humana” (NASIO, 2009, p.81). Consequência de um 35 NASIO, J. D. Meu corpo e suas imagens. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2009, p. 172. 71 processo que envolve o Outro, o corpo imaginário não se apresenta com o nascimento do infante. Isso significa que, a princípio, o corpo não é vivenciado como uma unidade. Muito ao contrário, inicialmente o infante experimenta seu corpo como “despedaçado” (LACAN, 1949/1998, p100), descoordenado e desordenado devido à sua prematuração do nascimento. É um corpo que, como superfície crivada pelos impactos pulsionais, apresenta-se como um mosaico (NASIO, 2009) e que por entre as partes a pulsão circula desordenadamente. Desta forma, o corpo despedaçado – corpo real – é um corpo constituído de fendas, caracterizando “o desamparo originário do bebê humano cujo retorno sempre possível constitui uma ameaça” (ROUDINESCO, 1998, p.532). 36 Pela presença do Outro, com seu desejo implicado, o corpo real vai ganhando um contorno, possibilitando a constituição de um corpo unificado, totalizado. O corpo que se apresentava como disperso e anárquico, com o contorno que recebe daquele, vai se ordenando em uma imagem totalizada e unificada, com a qual o infante se identifica. Logo, a totalidade do corpo, pelo olhar desejante do outro, é constitutiva do eu. O que está em pauta nessa operação é o fato de que o Outro antecipa uma imagem que contorna o corpo real – esse corpo despedaçado – que a criança, em seu início de vida, vivencia. Daí compreendermos que a imagem veste o corpo real e através dessa vestimenta a criança se protege contra “a angústia causada pelos fantasmas decorrentes do esfacelamento corporal” (FORTES, 2008, p.141). Segundo Costa (2006), essa “antecipação se situa numa certa condição de aposta que vai permitir à criança, por exemplo, antecipar a unidade corporal” (p.16). Por essa aposta, o infante antecipa uma imagem de um corpo unificado, quando, ainda, vivencia seu corpo como descoordenado e despedaçado (Ibidem). Assim, a autora esclarece-nos que como essa unidade apreendida vem de fora, ou seja, se situa no Outro materno, a antecipação nos remete, então, a relação ao Outro. 36 Dentro de uma concepção econômica, esse momento inicial é marcado pelo autoerotismo – prazer de órgão –, isto é, “uma excitação sexual que nasce e se apazigua ali mesmo, ao nível de cada zona erógena tomada isoladamente”. Desta forma, “as pulsões se satisfazem cada uma por sua própria conta, sem existir qualquer organização de conjunto” (LAPLANCHE/PONTALIS, 1992, p.80). Portanto, o autoerotismo diz respeito ao estado originário da pulsão – anárquico e disperso – que antecede ao narcisismo, onde, nesse, há a convergência das pulsões parciais em direção a um objeto – o eu. 72 Essa relação é o que permite muitas coisas: as condições de recorte dos orifícios do corpo – os orifícios pulsionais – tanto quanto o suporte corporal que vai se sustentar a partir desses orifícios, na medida em que é também ali que se dá a inscrição de um suporte simbólico. Quer dizer, essa espécie de confiança, de suposição, ou de hipótese do Outro primordial, antecipa o sujeito onde ainda ele não está: antecipa que ali – no lugar do infans, quando a criança ainda não toma a palavra – pode vir a se constituir um sujeito (COSTA, 2006, p.16). Vale lembrar, conforme indicamos acima, que essa imagem é construída pelos traços que constituem o narcisismo das figuras parentais. Isso significa que aquela imagem, com a qual o infante se identifica e pela qual o seu eu se constitui, é a imagem narcísica dos pais, mais precisamente da mãe. Freud (1914/2004) nos fornece esse indicativo ao afirmar que a mulher se encontra mais inclinada a fazer uma escolha de objeto narcísica: “amar o que se é (a si mesmo), o que se foi, o que se gostaria de ser ou a pessoa que outrora fez parte de nosso si mesmo” (p.109). Além disso, diferentemente do homem em que a supervalorização sexual – que provém do narcisismo originário – é transferida para o objeto sexual, a mulher transfere-a para o filho, ou seja, ela toma a criança que gerou como se fosse parte de seu próprio corpo, na forma de outro objeto. Desta forma, partindo de seu narcisismo, ela dedica todo o seu amor objetal. De qualquer forma, o que Freud constata é que o amor dos pais pelo filho, no fundo tão infantil, é, a bem da verdade, o narcisismo renascido de cada um deles. Embora tenha sido transformado em amor objetal, não deixa de revelar sua antiga natureza: “tornar-se de novo o centro e a essência da criação do mundo” (Ibidem, p.110). His majesty the baby é a expressão usada por ele para se referir a supervalorização que os pais conferem ao eu do infante, sendo essa da ordem de uma idealização, “uma espécie de utopia redentora de suas decepções e feridas narcísicas, já que realizaria tudo aquilo que foi impossível para a existência dos pais” (BIRMAN, 1999, p.43). Portanto, essa imagem com que o infante se identifica é, ao mesmo tempo, a imagem do outro: “O amor por si mesmo que já foi desfrutado pelo eu verdadeiro na infância dirige-se agora a esse Eu-ideal. O narcisismo surge deslocado nesse novo Eu que é ideal e que, como o Eu infantil, se encontra agora de posse de toda a valiosa perfeição e completude” (Ibidem, p.112). A esta experiência, pela qual “a criança forma uma representação de sua unidade corporal por identificação com a imagem do outro” (GARCIA-ROZA, 2002, p.212), Lacan denominou de estádio do espelho: “basta compreender o estádio do 73 espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação no sujeito quando ele assume uma imagem” (LACAN, 1949/1998, p.97, grifo do autor). Esta experiência, que tem início por volta dos seis meses de idade e termina em torno dos dezoito meses, tem como essência a construção da imagem de si, mais precisamente o amor de si, isto é, essa relação à imagem do semelhante tem como resultado um “eu especular” que corresponde ao narcisismo originário, cuja constituição não se realiza sem o intermédio do olhar desejante do Outro. Como constata Garcia-Roza (2002), “o narcisismo não é, portanto, estritamente falando, uma relação com o si mesmo senão através de um outro com o qual o indivíduo se identifica e no qual se aliena” (p.215). A elaboração de Lacan sobre o estádio do espelho fornece a compreensão de que a imagem do corpo se constrói a partir da mediatização do olhar desejante do Outro, que além de refletir a imagem da criança – função do outro imaginário – funciona como testemunho desse processo da constituição da imagem – função do Outro simbólico –, isto é, ele reconhece pela vertente da palavra – “sim, esta é você” – a existência do corpo da criança (ZALCBERG, 2003). Assim, a criança só reconhece seu corpo, porque o outro antes o reconheceu e, mais, nomeou. Este é um momento de grande júbilo para a criança. Entretanto, devido à discordância existente entre o que o infante vê – a imagem total – e o que ele sente – desordens das sensações internas –, somente o reconhecimento do outro não será suficiente. O outro precisa confirmar. Logo, o Outro do estádio do espelho desempenha uma dupla função: ser cúmplice do júbilo e ser testemunho da cena. Portanto, a assunção de um corpo pela confirmação do olhar da mãe leva à estruturação do eu, que se precipita na matriz simbólica. Essa primeira demarcação de si, pela identificação ao outro, leva à diferenciação entre o interior e o exterior, mais especificamente, entre o corpo da mãe e o corpo da criança. Contudo, por se tratar de uma relação especular, imaginária, não existe ainda uma separação entre a criança, enquanto sujeito, e o outro. Até porque, neste momento, por estar identificada com o objeto do desejo da mãe – o falo – a criança não se constituiu, ainda, como sujeito. Portanto, nesse momento, ela encontra-se alienada nesta imagem que não é ela, mas o outro; encontra-se alienada no desejo do desejo do Outro. 74 Ora, a suposta unidade do sujeito seria pois da ordem da alienação e da ficção, já que centrada no olhar do outro. Nesse contexto, o eu seria a materialização do falo, a essência da onipotência primordial do infante. Seria essa, enfim, a matéria-prima do eu ideal (BIRMAN, 1999, p.44). Ser o suposto objeto de desejo do Outro e se alienar ao desejo dele é fundamental para a constituição psíquica. Como esclarece Zalcberg (2003), “é preciso que na condição do estádio do espelho a criança seja investida realmente pelo olhar desse outro, isto é, que ela seja o objeto real de um certo desejo particularizado” (p.166). Somente por essa vertente que um lugar de existência se delineia, inscrevendo-se, simbolicamente, neste que está por advir como sujeito. Portanto, o reconhecimento do Outro ao favorecer ao infante um lugar de existência, confere a ele a certeza de existir. Todavia, nem sempre as coisas se passam assim, e é a própria criança que nos dirá, seja com seu corpo adoecido, seja na relação que estabelece com o Outro. 2.3 Quando as palavras custam a chegar: a criança mal acolhida Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Clarice Lispector Dentro do que já foi exposto, verificamos que discorrer sobre os primórdios da constituição do infantil implica em discorrer sobre o investimento do Outro primordial, sobre o desejo da mãe; um investimento que, como já exploramos, além de propiciar uma imagem que contorna o real do corpo favorecendo uma proteção ao infante contra a angústia que advém do desamparo, dá condições para que um lugar de existência se inscreva no psiquismo. Porém, como nos indica Barros (2009) “ter um filho nem sempre coincide com o desejo de ser mãe e se ocupar dos cuidados de uma criança” (p.29). E isso, claro, terá efeitos sobre a criança. Como já assinalamos, a criança para sobreviver necessita da mediação do olhar desejante do Outro. Sem essa mediação ela encontra a morte como destino – se não a morte real, a perda da vitalidade. Sobrevivendo, a criança – na pior das hipóteses – ignorante do que é, sem lugar no desejo do Outro, se abate e deprime. Como afirma Ansermet (2003), “a sombra do que lhe falta recai sobre ela” (p.70). 75 Talvez, os bebês abrigados em orfanatos sejam aqueles os que mais podem exemplificar, com toda radicalidade, essa dura realidade, visto que, normalmente, se tem uma única pessoa para cuidar de vários bebês. Mesmo recebendo os cuidados necessários – alimentação, higiene e saúde – a falta do afeto se faz presente. Lembremos das pesquisas e dos estudos realizados pelo médico e psicanalista René Spitz (1979). Acompanhando bebês que viviam em orfanatos, ele constatou que muitos desenvolviam um quadro depressivo – depressão anaclítica – constituindo o que ele designou como hospitalismo. Segundo ele, a privação total dos cuidados maternos e do provimento afetivo leva a criança à deterioração física e psíquica, onde a perda gradual de interesse pelo meio, a perda ponderal, os comportamentos estereotipados (tais como balanceios), o atraso acentuado no desenvolvimento geral e uma intensa propensão a infecções se apresentam, podendo ocorrer uma evolução para um quadro de marasmo seguido de óbito. Não é difícil perceber que são crianças sem história, sem lugar e, consequentemente, sem sentido. Na falta de um apoio que possa sustentála – o desejo da mãe – a criança, como já assinalamos, se não morre, perde a vitalidade (ANSERMET, 2003). Entretanto, compreendemos que considerar esse quadro resumindo apenas aos bebês que vivem em instituições é incorrer na crença de que aquilo que os sustentariam se reduziria à presença física da mãe. Quando constatamos que crianças que vivem em seu ambiente familiar, na companhia de suas mães, não estão livres dessa realidade, fica claro que não se trata da falta da presença física da mãe. Trata-se da falta ou da precariedade de um investimento, o qual se caracteriza por um desejo particularizado remetido a ela, e que, na ausência dele, os efeitos sobre o sujeito são devastadores. O caso da pequena Joana – usado como ilustração no início desse capítulo – e o caso que usaremos mais adiante são prova disso. Assim, dentro desse aspecto, supomos que certas elaborações teóricas possam contribuir para a sustentação da nossa linha de pensamento. Ao nos debruçarmos sobre o texto Além do princípio de prazer (1920/2006), percebemos que Freud retoma, vigorosamente, o aspecto econômico do psiquismo. Formulando o conceito de compulsão à repetição e de pulsão de morte, ele atribui ao traumatismo psíquico uma dimensão econômica que, até então, era pouco evidenciada. 76 Considerando que a todo instante o sujeito é afetado por estímulos externos e internos e que a função do aparelho psíquico é ser capaz de ligar essas excitações afluentes a representações, isto é, “proceder ao processamento dessas estimulações criando e ligando representações, configurando sentidos” (ALBUQUERQUE, 2009, p.316), a fim de que delas, ele possa se desvencilhar, Freud (1920/2006) assevera que quando essas excitações são suficientemente poderosas em relação à capacidade do aparelho psíquico em dominá-las e vinculá-las, ele é inundado por elas, constituindo o que ele define como experiência traumática. Demonstrando que o psiquismo dispõe de uma proteção – escudo protetor – contra a quantidade excessiva de excitação proveniente do exterior, Freud (Ibidem) conclui que na experiência traumática a grande quantidade de estímulos atravessa o escudo protetor – seja por excesso de intensidade, seja pela ausência de uma preparação prévia – provocando uma grave perturbação na economia psíquica. Diante da invasão, restará ao psiquismo “tentar lidar com esse excesso de estímulos capturando-o e enlaçando-o psiquicamente para poder então processá-lo” (p.154). Assim, o psiquismo para lidar com esse excesso “tende a concentrar seu investimento no trabalho de vincular essas intensidades a representações psíquicas, visando a criar uma rede de sentidos e reduzir a quantidade de energia livre, que é vivida como angústia” (ALBUQUERQUE, op.cit, p.316). Esclarecendo que quanto mais alta a energia vinculada maior é a sua força vinculadora, Freud (op.cit) afirma que a consequência da ruptura do escudo protetor será mais violenta, quanto mais baixa for a energia vinculada. Nesse sentido, entendemos que, se a função materna proporciona uma organização pulsional ao converter a energia livre em uma energia vinculada, favorecendo a produção de uma “rede de sentidos” (ALBUQUERQUE, op.cit), ela propicia o aumento da energia vinculada e, por conseguinte, o aumento da força dessa. Assim, podemos supor que o Outro primordial exerce “uma função de contenção ao aparelho psíquico” (ZORNIG, 2006), funcionando como um anteparo, como um escudo protetor contra a angústia que advém do real. 37 Compreendemos, então, que a função materna ao favorecer a produção de uma rede de sentidos, fornece ao sujeito recursos simbólicos para lidar com o perigo 37 Entendemos por angústia que advém do real, a angústia não inscrita no campo das representações e que Freud a nomeou como angústia automática, ao se referir a uma situação análoga ao trauma do nascimento, que se estabelece no id, seguindo-se uma reação automática de angústia (1926/1987). 77 vislumbrado, caso contrário, o sujeito se vê diante de um excesso de intensidade, cuja vivência é da ordem de uma angústia inominável. Partindo do princípio de que a angústia surge, originalmente, como uma reação a uma situação de perigo e que é reproduzida sempre que um estado dessa natureza se repete, Freud, em Inibições, sintomas e ansiedade (1926/1987), nos elucida que essa situação de perigo é análoga ao trauma do nascimento, onde há uma grande perturbação na economia psíquica – “um transbordamento energético sem representação, no qual o real ameaça o sujeito, apontando para a experiência radical da morte” (ZORNIG, 2006, p.28). Nesse sentido, a presença do Outro materno é desejada pelo infante. Segundo Freud (op.cit), ele sabe por experiência que através daquela suas necessidades, as quais lhe provocam uma crescente tensão e que ele não possui meios para se defender, serão atendidas sem demora. Dessa forma, a não satisfação de suas necessidades constitui para ele uma situação de perigo. A situação de não satisfação na qual as quantidades de estímulo se elevam a um grau desagradável sem que lhes seja possível ser dominadas psiquicamente ou descarregadas deve, para a criança, ser análoga a experiência de nascer – deve ser uma repetição da situação de perigo. O que ambas as situações têm em comum é a perturbação econômica provocada por um acúmulo de quantidades de estímulos que precisam ser eliminadas. Em ambos os casos a reação de [angústia] se estabelece (Ibidem, p.136). Ao pôr fim à situação de perigo que a criança vivenciava, a presença do Outro materno cria condições para que aquela deixe de vivenciar o perigo passivamente e passe a vivenciá-lo ativamente, à medida que o conteúdo que a ameaça sofre um deslocamento: se a princípio o que ela temia era ser invadida pelas quantidades de estímulos, agora o que ela teme é a perda do Outro, ou seja, o perigo se desloca da situação econômica para a perda de objeto. Esse deslocamento permite que a 78 como sinal – Freud esclarece que tanto uma como a outra devem ser consideradas “um produto do desamparo mental da criança, o qual é um símile natural de seu estado de desamparo biológico” (1926/1987, p.136). Assim, enquanto o primeiro tipo de angústia diz respeito à vivência de desamparo ante o acúmulo de excitação que inunda o psiquismo, visto que há uma falência dos recursos simbólicos para lidar com tamanha excitação, o segundo tipo de angústia – como sinal – é uma defesa posta em ação, uma ação protetora, ou seja, um dispositivo acionado pelo eu perante uma situação de perigo, que evita o transbordamento do afluxo de excitações. Esse leva o sujeito à experiência da angústia automática que o remete ao sentimento de risco de catástrofe iminente, cuja integridade do eu, de seu narcisismo primário se vê ameaçada (MAIA, 2009), devido ao fato de o sujeito não possuir recursos simbólicos para elaborar o acúmulo excessivo de excitação pulsional que o invade. Nesse sentido, o sujeito encontra-se diante do perigo mais extremo, por se ver completamente despreparado, já que o eu não teve condições de emitir um sinal de angústia anteriormente, através do qual o sujeito se defenderia contra o terror vivenciado nessa situação. Ainda nesse mesmo texto, Freud indica que a situação traumática (grifo do autor) remete a uma situação de desamparo – caracterizado pela ausência de representações e, concomitantemente, pelo excesso de excitação no aparelho –, onde o eu experimentou o trauma passivamente. Afirmando ser esse um bom motivo para diferenciar aquela da situação de perigo, ele demonstra que: O indivíduo terá alcançado importante progresso em sua capacidade de autopreservação se puder prever e esperar uma situação traumática dessa espécie que acarrete desamparo, em vez de simplesmente esperar que ela aconteça. Intitulemos uma situação que contenha o determinante de tal expectativa de uma situação de perigo. É nessa situação que o sinal de ansiedade é emitido (p.161). O que ele depura disso é que na situação de perigo existe uma atividade por parte do sujeito. Por ser uma situação reconhecida, lembrada e esperada de desamparo, a angústia, como reação original ao desamparo no trauma, é reproduzida depois da situação de perigo como um sinal em busca de ajuda. Assim, “o ego, que experimentou o trauma passivamente, [ficando entregue ao excesso de excitação no aparelho] agora o repete ativamente, em versão enfraquecida, na esperança de ser ele próprio capaz de dirigir seu curso” (Ibidem, p.162). 79 Em se tratando de um infante – que não tem como representar o transbordamento do afluxo de excitações, mas tem a vivência de grandes somas de excitações que lhe acometem –, cabe ao Outro materno processar e ligar através de representações o excesso pulsional, isto é, inseri-lo em “uma estrutura que possa ser considerada a pré-história do sujeito” (ZORNIG, 2006, p.28). Ao exercer sua função de forma consistente, o Outro materno cria condições para que o sujeito, num a posteriori, diante de uma nova situação de perigo, em vez de reagir com um estado de angústia – reação ao perigo anterior que foi ativado –, inicie uma reação mais apropriada ao perigo recente. Isso significa que ele favorece a constituição de um eu mais enriquecido simbolicamente, de tal forma que esse possa emitir um sinal de angústia, permitindo uma preparação prévia diante do perigo à vista. Desse modo, o sujeito pode livrar-se imediatamente da angústia recorrendo a medidas mais adequadas (FREUD, 1926/1987). Concordamos com a observação de Ansermet (2003), de que o remanejamento tanto do conceito de angústia quanto da noção de traumatismo realizado por Freud, torna centrais o papel do meio ambiente, o papel da mãe e a necessidade de ajuda exterior em situações de desamparo. De acordo com ele, “a referência à constância e às qualidades do meio ambiente se integra às fontes intrapsíquicas do traumatismo em suas conexões com os acontecimentos do mundo exterior” (Ibidem, p.134). Masud Khan, psicanalista de origem indiana, ao desenvolver o conceito de traumatismo cumulativo (1984), demonstra que a mãe é um representante da barreira protetora para a criança, ou seja, ela exerce a função de escudo protetor, visto que os cuidados dispensados ao bebê o protege contra os estímulos externos e internos, aos quais ele está constantemente submetido. Dessa forma, quando a função materna falha, a criança – por se encontrar ainda incapacitada de processar o acúmulo de excitação devido à própria imaturidade – se vê diante da invasão excessiva de estímulos. Isso é vivenciado como uma experiência traumática, a qual será reativada em toda angústia posterior (FREUD, op.cit). Conforme Khan (op.cit), essas lacunas na função da mãe, como escudo protetor, acumulam-se silenciosa e imperceptivelmente. Daí o nome dado por ele de traumatismo cumulativo, isto é, pequenas experiências traumáticas que se repetem, comprometendo de modo expressivo a organização psíquica. De acordo com a sua teoria, as repetidas falhas da mãe permitiriam a invasão progressiva dos estímulos externos e internos 80 constituindo “uma espécie de barreira, de passagem impossível, de limite fatal, curto-circuitando uma possível integração psíquica” (ANSERMET, 2003, p.135). Façamos uma pausa, para que possamos ilustrar um pouco as nossas reflexões. Trata-se de um fragmento de uma entrevista clínica em que o sujeito parece mostrar sua precariedade simbólica, precisando lançar mão do corpo para dar vazão ao seu excesso pulsional. Através de um trabalho realizado em uma instituição, a qual conta com uma infraestrutura muito bem organizada, recebe-se um menino para as entrevistas preliminares. Ele chega para o encontro falando muito e com uma intensa agitação corporal, deixando às claras sua angústia. Enquanto ele falava, o olhar da analista se voltava para toda aquela movimentação. Era esta movimentação que ela escutava. Ela já não ouvia mais os seus relatos, quando o seu olhar se voltou para as pernas dele: cheias de cicatrizes; uma ferida, aberta e bastante infeccionada, parecia insistir. Ela lhe interrompe dizendo que sua perna está machucada. Passando a mão por cima da ferida com certo descaso, ele diz: “Ah, isso é sangue ruim. Desde pequeno tenho estas perebas”. Volta a contar seus casos, com a mesma agitação. A ferida parecia não lhe doer. Novamente a fala dele é interrompida, para lhe ser dito que teria tempo para falar, mas que antes era preciso cuidar daquela perna. O responsável pela enfermagem é chamado para providenciar os cuidados necessários àquele ferimento, enquanto a analista aguarda na sala de atendimentos. Logo depois, o menino retorna. Com curativo na perna, sem agitação e com uma fala mais pausada diz: “Nunca ninguém olhou para as minhas perebas”. A sua fala, acrescida de seus relatos posteriores, parecia indicar que o olhar do Outro primordial sempre estivera alhures e, em razão disso, o investimento desse sobre ele foi bastante precário, não lhe favorecendo a construção de recursos simbólicos mais consistentes que pudessem lhe servir de suporte diante do excesso pulsional, cuja descarga se realizava pela via do corpo. Conforme já expusemos, o investimento narcísico dos pais constitui a base para a organização psíquica da criança, a qual implica a constituição da imagem de si e de seus ideais (FREUD, 1914/2004). Já apresentamos também, que as manifestações do bebê afetam ao outro. Esse, por se sentir afetado, produz respostas àquele; respostas que advêm do narcisismo dos pais e, sendo assim, revelam não somente os sonhos deles depositados sobre o filho, mas os desapontamentos sofridos por eles – quando aquele não corresponde ao ideal deles. 81 Sabemos que através dessas respostas o infante apreende quem ele é, como ele é, qual o seu lugar no desejo de seus pais. Entretanto, por tantas vezes essas respostas carregam uma ambivalência. Como assinala Albuquerque (2009): Complexas, as interações humanas são sempre compostas por diferentes dimensões de sentido, trazendo consigo, em cada gesto, indícios de desejos secretos, inconscientes, mesclados, com maior ou menor sucesso às intenções conscientes. A mesma mãe que cuida com carinho de seu filho, buscando atender suas necessidades, pode sentir, ao mesmo tempo, ressentimento por esse pequeno ser lhe roubar tanto de seu sono, seu tempo, sua própria vida (p.314). Assim, são respostas que tanto podem se fazer conhecer por uma sonoridade e por um semblante terno, como podem se dar através de uma transmissão ríspida e severa; são respostas que tanto podem ser da ordem de um cuidado afetuoso, como podem ser da ordem de um gesto brusco, atendendo ou não às demandas do bebê. E o bebê parece que não as recebe impassível. Ele as responde com sua satisfação ou com sua inquietação (Ibidem). Embora as mensagens transmitidas ao filho tragam consigo imagens que assinalam a diferença entre como os pais vêem o filho naquele momento e como desejariam que ele fosse, a imagem ideal do filho superpõe à imagem do filho presente. Devido à necessidade de se sentir amada, de se sentir reconhecida no desejo do Outro e, portanto, sentir sua própria vida garantida, a criança reorganiza essas imagens compondo a imagem de si e de seus ideais, conforme a interpretação que dá ao desejo de seus pais. Ainda que a composição da imagem de si seja tão próxima da imagem ideal, sempre haverá uma distância entre uma e outra; sempre haverá algo que aponte para a falta de uma coincidência. Essa desarmonia suscitará uma angústia que servirá de motor para novas construções, à medida que ela “impulsiona o sujeito a buscar sempre um pouco mais, a ir atrás de seus objetivos, a alcançar algumas metas propostas, enfim, a produzir vida” (Ibidem, p.315). Já tivemos oportunidade de explorar que a constituição da imagem é um processo que se dá não sem o desejo do Outro, não sem o seu investimento. Com Lacan (1949/1998), através da formulação do estádio do espelho, compreendemos que, por este processo de identificação, o qual leva à estruturação do eu, um lugar de existência se delineia, inscrevendo-se, simbolicamente, neste que está por advir como sujeito. Porém, este só poderá se reconhecer nessa imagem se o Outro o reconheceu antes. Portanto, o processo dessa identificação primordial só ganha 82 consistência à medida que o Outro a sustenta pelo seu reconhecimento e por uma confirmação. Essa imagem, além de inaugurar uma experiência de reconhecimento, inscrevendo no infante a certeza de existir, ela, ao “fornecer um continente e uma forma totalizadora para a anárquica produção pulsional originária do corpo infantil” (BIRMAN, 2008, p.102), protege o sujeito contra a angústia de despedaçamento e da fragmentação corpórea, cujos sinais, segundo Lacan (1949/1998), podem revelar-se tanto nos sonhos, como nos processos de desintegração psicótica ou de espasmo da histeria. Entretanto, quando a distância entre a imagem do filho sonhado e desejado pelos pais e a imagem do filho presente é muito grande, ou seja, quando não há uma harmonia entre elas, ou há de forma precária, a criança pode não se ver reconhecida no desejo do Outro e, por conseguinte, não se ver reconhecida como ela mesma. Assim, a precariedade da sustentação do reconhecimento e confirmação do Outro incidirá, então, sobre a imagem do corpo próprio e, consequentemente, sobre o processo de simbolização, pelo qual a existência daquele se inscreve. Muito mais como aquela que parece representar a castração do que, propriamente, como aquela que representa a ilusão narcísica de seus pais, a criança parece ter dificuldades para encontrar insígnias que possam fundamentar uma imagem de si; uma imagem de si diferente daquela em que subjaz um profundo sentimento de menos valia e inadequação, acompanhado de uma angústia que a paralisa no movimento de produção de vida (ALBUQUERQUE, 2009). Para Lacan (1957-58/1999), o que está implicado aqui não é o fato de a criança ter sido mais ou menos satisfeita, já que a relação dela não é com um objeto que a satisfaça ou não em sua necessidade. Visto que a relação dela se constitui com o desejo do sujeito materno, o que é sublinhado é o fato de ter sido uma criança desejada ou não, o que comporta uma série de consequências. Afirma ele: “esse termo é essencial. É mais essencial do que ter sido, neste ou naquele momento, uma criança mais ou menos satisfeita. A expressão criança desejada corresponde à constituição da mãe como sede do desejo” (Ibidem, p.268). Assim, supomos que o fato de a criança se constituir ou não enquanto objeto de desejo da mãe fará toda diferença na constituição de sua imagem, pois é a partir desse lugar que um investimento é derramado sobre ela; um investimento que, como Freud (1905/1987) bem assinalou, a desperta para a vida. Quanto a isso, Zalcberg (2003) nos oferece um esclarecimento, concluindo que: 83 Quando o falo representado pela criança não agrada à mãe, ou não lhe convém, é a própria existência da criança que fica em suspenso, pois não encontra insígnias para fundamentar seu ser. É o que acontece quando a criança procura sua imagem fálica no olhar da mãe e não a encontra; surge, então, um sentimento de estranheza, de angústia. Para a criança destituída desse começo que lhe dá uma primeira identificação – ser o objeto do desejo do Outro – castração e morte estão associados ou se implicam mutuamente em seus pensamentos. Não é isso que a criança lê no olhar da mãe – ser tudo ou nada? (ZALCBERG, 2003, p.92). Dentro desse raciocínio, Lacan faz referência aos sujeitos “mais ou menos caracterizados pelo fato de terem sido filhos não desejados”, como àqueles que apresentam um “irresistível pendor para o suicídio” (1957-58/1999, p.254). Entendido não apenas como o próprio ato em si, mas, também, como uma não aceitação de ser aquilo que são, esses sujeitos parecem ter uma grande resistência a entrar na vida, visto que “não querem essa cadeia de significante na qual só foram aceitos com pesar por sua mãe” (Ibidem). Parece-nos que, o que está em jogo aqui, é a prevalência da pulsão de morte no psiquismo, isto é, a prevalência de o “voltar ao repouso das pedras” (Ibidem, p. 252). Ferenczi, em seu breve texto A criança mal acolhida e sua pulsão de morte (1929/1992), indica-nos de forma bastante precisa essa problemática. Partindo dos ensinamentos freudianos, em Além do princípio de prazer (1920/2006), de que os 84 Argumentando que a idéia de que a pulsão de vida no início da vida é preponderante e que na velhice atinge seu ponto zero não procede, Ferenczi (1929/1992) esclarece que, muito ao contrário, o bebê, diferentemente do adulto, está muito mais próximo do não-ser, justo porque “a força vital” no início da vida não é muito forte; apenas quando essa ganha sustância, através de um “tratamento e de uma educação conduzidos com tato” (p.50), que o bebê obtém uma imunização contra o que ele designa de atentados físicos e psíquicos. A respeito disso, ele esclarece: A criança deve ser levada, por um prodigioso dispêndio de amor, de ternura e de cuidados, a perdoar aos pais por terem-na posto no mundo sem lhe perguntar qual era sua intenção pois, em caso contrário, as pulsões de destruição logo entram em ação (Ibidem). Neste sentido, ele destaca o que Freud (1920/2006) já ensinara, de que a pulsão de morte antecede a pulsão de vida, ou seja, é da pulsão de morte que nasce a pulsão de vida. Entretanto, essa só entra em ação sob condições particularmente favoráveis. Será o desejo do Outro, revestido pela ternura, que ao favorecer o despertar da pulsão de vida da criança e, consequentemente, o seu desejo de viver, aplacará a pulsão de morte. Jorge (2008) comentando o texto ferencziano elucida: Vê-se o quanto a exposição de Ferenczi se coaduna com a idéia de que é da fantasia do Outro parental que provém os elementos que vão desencadear no sujeito em constituição tendências que serão marcantes para o decorrer de sua vida. A fantasia amorosa do Outro parental e o desejo que ela sustenta, ao erogeneizar o corpo do bebê e nele investir maciçamente sua libido, produz um aplacamento da pulsão de morte e traz uma grande porção desta ao âmbito do princípio de prazer (Ibidem, p.240). Dessa forma, se a experiência da vida possibilita com que a criança seja afastada do não-ser, supomos que a precariedade do investimento do Outro sobre ela a leva, facilmente, a deslizar para o não-ser. Assim, compreendemos que o investimento do Outro se constitui como uma defesa, a qual protege a criança contra o deslizamento e o retorno ao não-ser. Dentro de uma outra perspectiva, mas apontando também para a importância da função materna, Winnicott (1958/2000) desenvolve o conceito de preocupação materna primária – um estado psíquico muito especial da mãe, que favorece o exercício da função materna nas fases mais primitivas da criança, através da qual “capacita o bebê a começar a existir, a ter experiências, a constituir um ego pessoal, 85 a dominar os instintos e a defrontar-se com todas as dificuldades inerentes à vida” (1958/2000, p.404). Para o autor, essa condição organizada da mãe, cuja sensibilidade exacerbada é o seu cerne e que ele se refere como uma “doença normal” – a mulher precisa possuir uma salubridade tanto para desenvolver esse estado quanto para recuperar-se dele à medida que o bebê não mais necessita – possibilita “a adaptação sensível e delicada às necessidades do bebê já nos primeiros momentos” (Ibidem, p.401), a qual protege o bebê das reações à intrusão. Partindo do princípio de que a constituição do ego “é um suficiente ‘continuar a ser’ não interrompido por reações à intrusão” (Ibidem, p.403), Winnicott esclarece que a falha materna faz com que as reações à intrusão surjam, provocando uma interrupção no ‘continuar a ser’, que se for excessiva deixa de provocar a frustração e passa a ser uma ameaça de aniquilação do eu do bebê. Assim, favorecer o processo de ‘continuar a ser’ é tarefa da mãe suficientemente boa. Essa, à medida que diminui a sua adaptação às necessidades do bebê, propicia que o bebê passe de um estado de sentir-se fundido a ela para um estádio de separá-la do eu (Idem, 1971/1975). Compreendemos que para Winnicott, a preocupação materna primária é a base para a organização psíquica. A adaptação, proveniente desse estado da mãe, confere a ela uma fidedignidade que produz um sentimento de confiança no bebê, o qual possibilita uma separação do não-eu a partir do eu. Esclarecendo que essa separação favorece a criação de um espaço entre o bebê e a mãe – um espaço potencial que varia conforme a vivência das experiências primitivas do bebê com sua mãe – o autor afirma que o fundamento desse espaço se encontra na confiança que a mãe inspira ao bebê: “confiança experimentada por um período suficientemente longo, no estádio decisivo da separação entre o não-eu e o eu, quando o estabelecimento de um eu (self) autônomo se encontra no estádio inicial” (Ibidem, p.152). Assim, “o uso desse espaço é determinado pelas experiências de vida que se efetuam nos estádios primitivos de sua existência” (Ibidem, p.139). Isso quer dizer que, dependendo das primeiras experiências de vida, o espaço potencial pode ou não servir de área vital na vida psíquica do indivíduo. Quando tudo corre bem, isto é, quando o amor da mãe permite com que o bebê passe da dependência para a autonomia, com o estabelecimento da confiança e fidedignidade, o espaço potencial é preenchido criativamente com o brincar e, posteriormente, com a experiência cultural, que nada mais é que uma extensão do 86 brincar criativo – fruto das experiências primitivas com a mãe – que se origina de um estado relaxado. Esclarece o autor: Observe-se que estou examinando a fruição altamente apurada do viver, da beleza, ou da capacidade inventiva abstrata humana, quando me refiro ao indivíduo adulto, e, ao mesmo tempo, o gesto criador do bebê que estende a mão para a boca da mãe, tateia-lhes os dentes e, simultaneamente, fita-lhe os olhos, vendo-a criativamente. Para mim, o brincar conduz naturalmente à experiência cultural e, na verdade, constitui seu fundamento (WINNICOTT, 1971/1975, p.147). Entretanto, quando as experiências primitivas na relação com a mãe não são favoráveis, o espaço potencial perde sua significação, à medida que não houve uma sustentação da confiança e da fidedignidade. Esse fracasso leva à criança a perda do brincar criativo, visto que um símbolo significativo se perdeu. Se em situações favoráveis, a criança faz uso dos objetos da própria imaginação criativa para preencher o espaço potencial, nas situações em que a falha materna se impõe, a ausência do uso criativo de objetos é proeminente. Portanto, nas experiências em que existe um fracasso na confiança, tanto a capacidade lúdica é restrita como a experiência cultural, isto é, o fracasso na confiança provocará um empobrecimento da capacidade de experiências criativas, as quais restringem a capacidade de brincar e de criar, devido às limitações daquele que parece sustentar os recursos simbólicos – o espaço potencial. Neste sentido, se ele viabiliza que a separação entre o bebê e sua mãe ocorra de forma menos traumatizante, ou seja, uma separação que possa provocar a frustração, com a sua limitação, diante da separação da mãe, o que se presentifica para o bebê é a ameaça de aniquilação. Em presença do que foi exposto, entendemos que se o investimento materno, no momento primordial, se faz precário, ele deixa o infante entregue às invasões pulsionais. Ante nossa compreensão, supomos que a função materna é a primeira defesa do infante contra o excesso pulsional, à medida que ela, através da oferta de objetos, dá outro destino à pulsão – experiência de satisfação – impedindo, deste modo, a prevalência da pulsão de morte no psiquismo, a qual tem como objetivo a expulsão e, consequentemente, a mortificação. Dessa forma, parece ser ela a base para uma criação de recursos simbólicos do sujeito, ou seja, a base para uma maior capacidade do sujeito em criar novos objetos de satisfação num a posteriori. “É a brincadeira daqueles que ainda não ouviram falar em jogos”, como afirma Winnicott 87 (1971/1975, p.139), que leva o sujeito a ter novas experiências criativas, uma vez que lhe foi possível à construção favorável de um espaço potencial. No mundo atual, onde tudo indica que o sujeito é movido pelo imperativo de gozo, parece que o Outro não está podendo, junto à criança, construir um espaço potencial que possa favorecer uma maior capacidade de simbolizar e de criar. Acreditamos que as inúmeras e profundas transformações na esfera sóciopolíticoeconômica que o mundo ocidental sofreu tenham contribuído com isso, afetando a criança radicalmente. Em se tratando de um tempo em que o sujeito espera pelas palavras, essas parecem que tardam a chegar, devido à ausência de um olhar mais consistente e mais desejante sobre ele. Incidindo sobre a constituição de sua imagem corporal, essa não terá uma sólida consistência que possa servir de continente, de contorno à intensidade pulsional, o que faz com que o sujeito fique entregue aos ataques pulsionais. 88 3 CRIANÇAS INVISÍVEIS: O SOFRIMENTO DA CRIANÇA HOJE Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo (...) Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida. Vinicius de Moraes 38 Tanto o título da pesquisa como o título de esse capítulo recebe uma marcação temporal identificada pelo vocábulo hoje. Com isso queremos sublinhar que não estamos nos referindo a um sujeito atemporal. Compreendemos ser impossível pensar o sujeito fora do campo históricocultural. Como afirma Birman (1997), “a cultura é o outro do sujeito, sem a qual é impossível pensar nas condições de possibilidade para a constituição do sujeito” (p.9). Assim, nos referimos a um sujeito que está inserido em um contexto sociocultural, o qual o leva ao imperativo de gozo e, consequentemente, à experiência de desamparo de forma demasiadamente intensificada. Sabemos com Freud (1930/1987), que a grande intenção do homem – busca da satisfação irrestrita e imediata – coaduna-se com o princípio de prazer, cuja efetivação vai de encontro às normas estabelecidas pela cultura, as quais são regidas pelo princípio de realidade. Portanto, segundo ele, a vida humana em comum só se torna possível mediante a restrição dessa ordem de satisfação que move o sujeito, ou seja, para ingressar na cultura é necessária certa dose de renúncia pulsional “que não deixa ninguém – [exceto os incapazes de ingressar na cultura] – à mercê da força bruta” (Ibidem, p.102). Mergulhado em uma cultura que impunha sacrifícios não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, Freud afirma que “o homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança” (Ibidem, p.119). Entretanto, se nos tempos dele, o sujeito estava inserido em uma cultura restritiva, em que “a neurose orientava a norma social” (LAIA, 2001, p.15), nos tempos atuais, o imperativo de gozo parece se evidenciar cada vez mais como uma norma, visto que na cultura ocidental atual o 38 MORAES, V. Antologia Poética, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960. 89 poder do indivíduo prevaleceu sobre o poder do coletivo, em prol da obtenção de seu prazer. Diante disso, supomos que se trata de uma cultura em que prevalece o individualismo e, com isso, o apagamento da alteridade. A partir dessas reflexões, questionamos de que forma a cultura atual afetou a família, em especial a mulher, que foi quem mais rompeu com a tradição e com isso se deslocou mais, “deixando de serem ‘donas de casa’ para se tornarem ‘donas da casa’” (LAIA, 2001, p.20), e quais os efeitos disso sobre a criança, já que a mulher, inserida em uma cultura que lhe oferece inúmeros objetos, que prometem uma completude, parece obter com estes novos objetos a mesma equivalência em que outrora ela obtinha com o filho, ou seja, na cultura contemporânea parece que o filho não é mais o objeto privilegiado do desejo de uma mulher. Assim, supomos que o lugar que o filho ocupa para a mulher contemporânea e a forma como ele tem sido inscrito em seu desejo, somado à precariedade da função paterna, tem rompido com toda uma configuração simbólica - pai, mãe e filho - dando lugar a uma configuração do real - homem, mulher e criança – tal como nas sociedades pré-modernas – a qual deixa em evidência um gozo, privando a criança de um olhar desejante mais consistente, que a retiraria de um estado de desamparo, na medida em que este olhar realiza um contorno ao que é da ordem do real, como já assinalamos. 3.1 A cultura em que vivemos “Quero comprar, quero comprar, mais e mais e mais”. “Quero comprar uma bola de futebol brilhante, tamanho quatro, para eu estragar, depois comprar outra, depois estragar ela, depois comprar outra, depois estragar ela...”. “Quero comprar tudo. Compra um pouco com dinheiro e um pouco com cartão de crédito”. 39 Consideramos que discorrer sobre a cultura atual não é tarefa fácil. Diferentemente dos tempos de outrora, em que a cultura se organizava a partir de um centro de referência, a cultura atual, marcada pela ausência dessa referência, se 39 Entrevistas, com crianças de três a dez anos de idade, realizada pela atriz Regina Casé no programa Fantástico da Rede Globo de Televisão em agosto e setembro de 2005. 90 torna bastante complexa, podendo ser abordada por diversos ângulos. Posto isso, não temos a pretensão de um esgotamento acerca da cultura em que vivemos. Entretanto, procuraremos nos ater as temáticas que compreendemos serem possuidoras de elementos que vão ao encontro do que pretendemos abordar nesse capítulo. Dessa forma, pensamos tratar nesta seção sobre o modo de produção, de circulação de riqueza particular, que caracteriza o mundo atual – uma economia globalizada e neoliberal – visto que ele provoca certos efeitos nas formas de funcionamento subjetivo dos indivíduos (BIRMAN, 2009). 40 Embora tenhamos conhecimento de que modernidade, pós-modernidade contemporaneidade e outras formas menos utilizadas causam inúmeras querelas teóricas acerca da definição do melhor significante que circunscreva a cultura atual, visto que não há unanimidade quanto à denominação do estado presente em que vivemos, 41 42 não nos deteremos aqui nessa discussão. Mesmo havendo dissonâncias sobre este aspecto, tanto os que sustentam as idéias relativas à contemporaneidade quanto os que sustentam as idéias relativas à pós-modernidade, vão considerar como marca dos tempos recentes, pelo menos nos últimos vinte anos, o fenômeno da globalização ou da mundialização, como nos esclarece o cientista social e psicanalista Gilberto Salgado (2005). Segundo o autor acima, essa característica pode ser definida através do estabelecimento da hipermídia, isto é, uma rede de informações à distância e de fluxo contínuo, que possui como suporte a tecnologia avançada da informação – a informática – a qual organiza a vida econômica, política, científica e social, segundo uma ordem mundial. Assim, as comunicações ultrapassam quaisquer limites ou barreiras nacionais dos Estados, criando um fluxo rápido e contínuo de dados, sons e imagens que cruzam o planeta, sem controle e sem limite. Anexado a isso, vivemos, hoje, em uma sociedade que organizou sua atividade econômica, cuja tecnologia avançada – a mecatrônica, a robótica e a informática – vem substituindo o sujeito, devido ao fato de esta proporcionar um aumento extraordinário na produção de mercadorias, em um mínimo período de tempo, gerando, assim, um 40 Programa CPFL Cultura, Educação e Limites / Relações familiares no mundo contemporâneo: a educação dos filhos com Ivan Capellato e Joel Birman, exibido pela TV Cultura, publicado no site www.cpflcultura.com.br. 41 Talvez, as inúmeras nomeações existentes para definir o tempo atual seja um reflexo da ausência de uma referência central. 42 Escolhemos contemporaneidade sem termos, no entanto, a pretensão, neste momento, de explorar suas bases conceituais para diferenciarmos das outras formas de definição, pois isto nos desviaria da nossa temática central. 91 lucro cada vez maior para um mercado competitivo. Não nos é difícil constatar que o tempo, na cultura contemporânea, é do imediato e da urgência; um tempo em que nada se pode perder, nem mesmo tempo, sendo este o lema do mundo atual. Movida por uma economia neoliberal e globalizada, 43 a cultura contemporânea é pautada por fatores que, inevitavelmente, atingem a forma de ser e de pensar do sujeito: a rapidez, a competição e a obtenção de um lucro cada vez maior. Estes são fatores que, ao capturarem o sujeito, transformam-se em premência, apagamento da alteridade e a obtenção de um gozo cada vez maior, sendo encontrado em seu bojo o culto pela imagem, a qual diz que se “é” a partir do que se “tem”, isto é, o sujeito se reconhece pelos objetos que possui. Deste modo, ele busca a completude tendo a ilusão de que, nada lhe faltando, aquela será obtida, alcançando, portanto, sua plena felicidade. Assim, em uma cultura que oferece inúmeros objetos, em um espaço mínimo de tempo, prometendo a tal felicidade, ao sujeito caberá consumir. Consumir excessivamente. Por um momento, o sujeito pensa ter encontrado a satisfação; contudo é uma satisfação ilusória e fugaz. Temos, então, uma cultura que apela para o consumo – na medida em que o mercado, aliado à mídia, lança outro objeto, onde o anterior já não diz mais nada, sendo assim descartado – e um indivíduo faminto de um objeto fulgente, que com ele possa gozar até a morte. Mas, nesta busca desvairada, nesta compulsão pelo consumo, nesta crença pelo objeto, a morte já não está instalada? Segundo Peixoto Júnior (2003), “estamos diante de um sintoma social que torna os sujeitos meros consumidores de produtos que lhes prometem o gozo de uma existência plena e, paradoxalmente, os tornam cada vez mais insatisfeitos” (p.160). Para o autor, na cultura atual impera “uma espécie de falicismo patológico”, que se presentifica através dos vários imperativos, os quais apontam para a insaciabilidade do “fantasma do gozo que se espera alcançar nesse mundo perverso”. Afirma ele: Trabalhe mais! Ganhe mais! Compre mais! Transe mais! Só assim você será feliz, não sofrerá, porque nem sequer terá tempo para pensar, e conseguirá ser alguém nesse mundo que não comporta lugar para perdedores, nesse mundo do mercado global em que o vencedor leva tudo e cuja estrutura competitiva predispõe ao fracasso e à exclusão um número cada vez maior de pessoas (Ibidem, p.160). 43 Entendemos por economia neoliberal e globalizada um conjunto de idéias políticas e econômicas capitalistas que defendem a existência do livre mercado, ou seja, a total liberdade de comércio, consequentemente, a não participação do estado na economia. 92 Portanto, em um mundo caracterizado pela globalização econômica, pela velocidade nas comunicações, informatização crescente e pela produção de objetos em série, impulsionando o sujeito para o imperativo de gozo, o qual traz como conseqüência a exacerbação do narcisismo e o apagamento da alteridade, a cultura contemporânea parece tentar, a todo o momento, encobrir a condição própria e inerente do humano: seu desamparo (MENDONÇA; SALGADO, 2005). 44 Ao se referir às consequências do processo de globalização econômica, Birman (2008) considera que esse, devido ao seu “ 94 Para isto, a mulher, de objeto imperfeito e desprezível, foi transformada em uma figura de poder. Como uma figura idealizada, a ela foi imposta uma cota de sacrifício, pois teve que renunciar “seus anseios, seus projetos, sua capacidade de pensar, seus direitos pessoais e civis, em nome dos filhos e do marido” (NUNES, 2000, p.49), ou seja, a ela foi destinado um lugar, onde seu ser foi reduzido à maternidade. De acordo com a psicanalista Maria Rita Kehl (2001), como a mulher não possuía nenhum outro significante, que não fosse o de mãe, para identificar-se, ela precisava se fixar aos filhos, a fim de não perder sua identidade. Considerada a “rainha do lar”, ela tinha como único destino o casamento e, consequentemente, a maternidade; seu único lugar era na família; sua função, a criação dos filhos. Dessa forma, a família dos tempos modernos, com seus papéis parentais tão rigidamente definidos – pai provedor e mãe voltada para os afazeres domésticos e a criação dos filhos – era a família edípica, a família da fixação da mãe aos filhos e, logo, dos filhos ao amor materno, trazendo como consequência o sofrimento das histéricas e dos neuróticos obsessivos. Esta fixação não surgiu do nada, como sabemos. Apoiada em poderosas impressões infantis, ela surge, também, como consequência de uma cultura regida pela moral sexual civilizada, onde a mulher, tendo como único destino a maternidade, transferia para o filho sua necessidade de amor, despertando-o, assim, para a precocidade sexual, como assinala Freud no texto Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna (1908/1987). Segundo Nunes (op.cit), a sociedade moderna, caracterizada por uma dupla moral sexual onde o homem podia se dividir entre a “prostituta” e a “santa”, à mulher restava o amor do filho, numa tentativa de diluir suas frustrações impostas pela restrição da vida doméstica e pela dessexualização do convívio amoroso com o marido. Acreditava-se que o homem definido como um ser sexual e a mulher como um ser maternal, como elucida a autora, seus lugares na cultura eram diferenciados, assim como suas sexualidades tinham destinos diferenciados. Enquanto o homem exercia seu excesso sexual com uma outra mulher – a prostituta – a mulher burguesa vivia sua sexualidade na relação com o filho. Isso implica dizer que a mulher só encontrava satisfação na maternidade, sendo o filho o objeto privilegiado de seu desejo. Portanto, a relação com o filho era o lugar do prazer da mulher, o lugar em que ela vivia sua sexualidade (Ibidem). Assim, a mulher moderna amava um homem para se tornar uma mãe, e não para gozar deste amor (KEHL, op.cit). 95 Por volta da metade do século XX, o surgimento de diversos acontecimentos, no qual destacamos o movimento feminista, os meios anticoncepcionais, a legalização do divórcio, entre outros, levaram a estrutura familiar moderna a sofrer uma transformação radical, prenunciando a constituição de outra ordem familiar. Birman em seu texto Laços e desenlaces na contemporaneidade (2007), esclarece-nos de forma brilhante a construção dessa passagem. Vejamos. Considerado o que deu origem a esta transformação, o movimento feminista, ao pleitear a condição de igualdade entre homens e mulheres, propiciou que a mulher fosse “para o mundo” em busca de novos projetos identitários, deixando para trás o posto de “rainha do lar”. Com a eficácia dos procedimentos anticoncepcionais, o que era uma remota possibilidade para algumas mulheres tornou-se uma possibilidade de fato. Os diversos e seguros meios contraceptivos colocavam um ponto final na imprevisibilidade das gestações – responsável pelo grande número de filhos e, consequentemente, pela dificuldade que a mulher encontrara para se dedicar a outra atividade que não fosse à maternidade. Entretanto, se esses novos procedimentos favoreceram a mulher a ir “para o mundo”, a construir novos objetos de satisfação, eles favoreceram, também, algo que consideramos de extrema valia para a emancipação da mulher – a sobreposição de seu desejo em relação ao biológico. Birman (Ibidem) ao indicar que antes, em nome da reprodução social, o desejo era regulado pelo registro da reprodução biológica (grifo do autor), nesse momento, com as inovações contraceptivas, isso vai sofrer uma inversão, causando uma revolução nos costumes. São palavras dele: [...] com a invenção de meios anticoncepcionais seguros e múltiplos, as mulheres puderam separar finalmente os registros do desejo e da reprodução biológica, podendo então definir quando ter filhos e quantos filhos queriam ter. Com isso, a liberdade feminina se instituiu em larga escala, podendo ser mulher e mãe ao mesmo tempo, pois não estavam mais assujeitadas ao determinismo dos ciclos hormonais que sempre aprisionaram seus corpos (p.55, grifo do autor). A nova liberdade experimentada pelo universo feminino provocou outra mudança nos costumes: a experiência matrimonial passou a ser realizada mais tarde, não sem antes a mulher se estabelecer profissionalmente. Almejando a realização de um projeto identitário, articulado com a sua independência financeira, as mulheres passam a desejar a se realizarem enquanto singularidades e não mais somente como mães. Assim, a construção e a manutenção dos laços conjugais se 96 dão mediante a possibilidade dos parceiros poderem sustentar a sua condição desejante na conjugalidade, que diz respeito não apenas ao “exercício prazeroso do erotismo entre os parceiros, mas também a possibilidade que cada um ofereça ao outro para a expansão de sua potência de ser e de existir” (BIRMAN, 2007, p.56, grifo do autor). Não sendo possível, a busca de outras relações, constituindo novos laços conjugais, passou a ser considerada uma saída natural. Com o estabelecimento do divórcio, surgem as novas formações familiares – monoparental, família resultante de vários casamentos com os filhos de uniões anteriores e, recentemente, a homoafetiva – que criaram outras formas de relação de parentesco, gerando um novo “arranjo” para a família, não mais centrada em uma configuração monogâmica e patriarcal; um “arranjo” que aponta para uma indefinição de papéis – se comparado ao tempo anterior em que estes eram rigidamente demarcados. Portanto, como numa máquina em que ao se deslocar uma peça modifica-se toda a sua engrenagem, a entrada da mulher no tecido social, como sujeito, provocou outra ordem de funcionamento, a princípio porque houve uma diluição do poder que, até então, se encontrava concentrado na figura do homem (BARROS; FARIAS, 2003). Dessa forma, o deslocamento da mulher para o mundo do trabalho, galgando outro lugar no espaço social, ganhou uma maior proporção e contribuiu para uma nova significação quanto aos papéis parentais, já que o homem deixou de ser o único e exclusivo provedor da família. Isso significa que o patriarcado, de existência bastante longa na civilização ocidental, é derrocado “e os gêneros sexuais passam a estabelecer relações mais igualitárias, em um processo que tende a romper com a hierarquia e a assimetria entre as figuras do homem e da mulher, marca insofismável da tradição patriarcal”. (BIRMAN, 2003, p.62, grifo do autor). Outros autores também apontam para essa questão. Roudinesco (2003), assemelhando a família contemporânea “a uma tribo insólita, a uma rede assexuada, fraterna, sem hierarquia nem autoridade, e na qual cada um se sente autônomo ou funcionalizado” (p.155), deixa evidenciado que o poder encontra-se descentralizado, ou seja, uma ordem familiar que se sustenta em relações igualitárias, e não mais em relações hierárquicas. Figueira (1987), defendendo a mesma idéia, porém, esclarece que na família hierárquica existia um mapeamento, uma organização, na medida em que seus membros eram definidos de acordo com a sua posição, o seu sexo e a sua idade, sendo as relações entre eles, assim como 97 suas funções, sustentadas a partir da existência das “diferenças intrínsecas”. Diferentemente, na família contemporânea, indica o autor, as diferenças pessoais ganharam relevância em relação às diferenças sexuais, etárias e posicionais, demonstrando que essas não são mais determinantes na família, mas, sim, as diferenças pessoais, ao que elas revelam as expressões desejosas de cada um. Pensamos que, se de um lado, a nova ordem de funcionamento provocou um “desarranjo” na estrutura da família, deixando pais e filhos desamparados, em função da falta de referenciais, por outro lado, ela criou condições para a família se estruturar de outro modo, não mais aprisionada aos papéis demarcados anteriormente. Isso possibilitou uma nova forma de convívio e, mais, permitiu dessubstancializar as figuras parentais, colocando em evidência as funções, materna e paterna, onde aquelas poderiam ser substituídas sem que necessariamente as funções fossem prejudicadas (BIRMAN, 2008). Entretanto, é necessário levar em consideração que essas mudanças estão inseridas em uma conjuntura histórica, social e econômica, como assinalamos no início do capítulo, cujo discurso promete a satisfação plena e imediata, levando o sujeito a crer que a tudo pode. Portanto, temos duas grandes transformações que, a nosso ver, marcam a passagem do mundo moderno para o mundo contemporâneo – o processo de globalização econômica e a nova ordem familiar – que não se constituem separadamente, visto que possuem a mesma espinha dorsal, a “quebra da autoridade”, a “quebra da soberania”. Neste sentido, compreendemos que as crianças parecem ser as grandes vítimas, já que são seres dependentes e, por isso, ficam impossibilitadas de escaparem das pequenas ou grandes devastações que a cultura contemporânea impõe ao sujeito. Assim, em uma cultura marcada pelo excesso, imediatismo e apagamento da alteridade vemos a criança à deriva. 98 3.3 E a criança com isso? ... Meus filhos berram meu nome função querendo pão, ternura, verdade e ainda possibilidade de ilusão... Elisa Lucinda 46 Pensamos que no conjunto dessas transformações as crianças foram frontalmente afetadas. Conforme nos indica Birman (2008), com a inserção da mulher no mundo do trabalho, os homens não se dispuseram a dividir seu tempo, a fim de preencherem, relativamente, a ausência que se instalou no âmbito familiar. Isso significa que a mulher foi para o mundo, o homem, que já estava no mundo, permaneceu e a criança parece ter sido esquecida. Desta forma, segundo o autor, devido ao imperativo de realização do desejo e o da sustentação dos projetos existenciais de cada uma das figuras parentais, um vazio em relação às funções parentais se constituiu e as crianças ficaram entregues às novas atenções especializadas como, por exemplo, as creches e as escolas maternais. O processo de socialização primária – esse primeiro investimento sobre a criança que lhe serve como base, como uma sustentação, para que mais tarde ela possa ir para o mundo e estar no mundo se sentindo menos ameaçada – que antes era realizado pela família, isto é, que era de sua responsabilidade, atualmente é realizado pelas instituições citadas acima, visto que a família delegou essa responsabilidade, essa atribuição para elas, tal como a expressão popular “toma que o filho é teu”. Mesmo sabendo da existência de instituições que, ainda com certas limitações, conseguem exercer as funções materna e paterna, sabemos, também, que a existência de muitas delas se dá em função da motivação econômica, ou seja, muitas delas existem porque é um bom negócio, gera lucro. Desta forma, o investimento destinado à criança será precário, pois a criança, como objeto, como mercadoria que gera lucro, terá um investimento mecanizado, padronizado e esvaziado no que diz respeito às essas funções. É importante assinalar também, que hoje, em se tratando de classes sócioeconômicas mais favorecidas, tem sido habitual a contratação de prestações de serviços para cuidar da criança que acabou de nascer – enfermeiras, 46 Lucinda, E. Chupetas punhetas guitarras. In O semelhante, São Paulo: Massao Ohno, 1994. 99 dormideiras, babás especializadas – uma vez, que os pais, por diversas razões, não têm tido disponibilidade interna para os determinados cuidados, cuja realização, muitas vezes, demanda certo trabalho e um dispêndio de energia. É correr o risco de sair de uma zona de conforto e entrar numa zona de desconforto. Façamos uma pausa, para uma pequena ilustração. Certa vez, uma analisanda que acabara de se tornar mãe explicava: “Quando ele chora de cólica fico desorientada”. Rindo, continua dizendo: “Acho que o deixo desorientado também. Santo Tylenol! Acaba com a cólica e, lógico, eu me acalmo. Quando a minha sogra está comigo, ela o pega no colo, passeia pela casa, massageando a sua barriga. Ela canta e conta historinhas para ele, e a cólica passa”. Quando indagada se nunca experimentou fazer desta forma, ela retruca: “Ah, não consigo, acho que não tenho paciência”. Já uma outra mulher, que há dois meses se tornou mãe, diz: “estou tranqüila agora. Estou cercada de ajuda. Tenho a empregada, a babá para o dia e a enfermeira para a noite. Aproveito a enfermeira para dar banho nele. Ela tem mais técnica. Separo a roupinha, entrego a ela e ela me devolve-o pronto. Somente nos domingos, durante o dia, que é muito cansativo, muito confuso, porque só tenho o meu marido para ajudar”. De acordo com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2004), ter um filho significa correr o risco de ter que se deparar com uma “fonte prolífica de ansiedade e medo” (p.60) Ao metaforizar que essa experiência “é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável” (Ibidem), o autor sustenta que “as alegrias da paternidade e da maternidade vêm, por assim dizer, num pacote que inclui as dores do auto-sacrifício e os temores de perigos inexplorados” (Ibidem, p. 61). De um modo geral, parece que as figuras parentais não estão dispostas a correr tais riscos ou carregar esse pacote, descrito por Bauman (Ibidem), o que faz com que surjam inúmeras prestações de serviços destinadas às crianças, principalmente aos bebês, para que possam nomear, dar uma significação e fazer cessar àquilo que dele escapou ao controle do Outro e em função disto lhe angustia. Em um mundo marcado por uma organização capitalista da acumulação, em que a obtenção de um lucro não satisfaz, visto que ele tem que ser cada vez maior, sem limites, não nos surpreende os avanços tecnológicos e as invenções científicas crescerem em escalas galopantes. O que nos era impossível de imaginar a algum tempo atrás, hoje é natural, fazendo parte do cotidiano de milhares de pessoas. E 100 nestes avanços e invenções, a criança também é inserida. Assim, se antes a criança para nascer precisava do encontro de um homem com uma mulher, hoje já se tem bancos de espermatozóides e óvulos, onde a ciência oferece com todas as garantias; se antes, a criança era fruto de um encontro, hoje é fruto da tecnologia; se antes, para gerar um filho era preciso se deparar com o real do sexo, hoje o corpo do outro não é necessário, porque, através da tecnologia, a possibilidade de risco é mínima. Também tem sido comum, a aquisição de produtos, fruto das novas tecnologias, que surgem com o objetivo de “facilitar o dia a dia dos pais”. Conforme as propagandas, as quais costumam ter como slogan “a tecnologia a serviço da mãe”, a criação deles visa a que a mãe mantenha suas atividades anteriores ao nascimento do bebê, a fim de não afetar seu padrão financeiro, interromper sua carreira profissional ou deixar de lado suas necessidades individuais. Assim, enquanto o bebê está entretido com as imagens e os sons emitidos por um programa televisivo – produzido, especialmente, para a sua faixa etária –, ou enquanto ele adormece com a cantiga de ninar cantarolada pelo CD – em substituição a voz do outro materno – e com os embalos realizados pelo moderno berço eletrônico, o outro pode dispor de tempo para si. Portanto, são infinitos objetos que nascem, substituindo o que, em geral, era realizado pelo Outro materno. Não é nossa intenção fazer uma apologia ao tempo anterior. Porém, pensamos que é importante destacar que a criança na atualidade tem sofrido de um grande desamparo, embora haja um discurso que a eleva à categoria de um bem precioso, dando a impressão do quanto ela está sendo investida e amparada, já que se tornou objeto de atenção dos vários discursos especializados existentes. As inúmeras prestações de serviços destinadas aos bebês e o grande número de especialistas em torno da criança maior, nos faz pensar que a ela são destinados inúmeros olhares e inúmeras palavras que, nos seus excessos, acabam por se transformar em olhares vazios e palavras perdidas. Compreendemos que, deste modo, a criança hoje parece ser fruto de um desejo anônimo, 47 o qual a coloca como um objeto de gozo, pois o que se presentifica é um desejo sem lei, regido por uma exigência de satisfação. O Outro não “abrindo mão” de sua satisfação narcísica, acaba por não sustentar um olhar, 47 Ao se referir à constituição subjetiva, Lacan demonstra que a função da mãe e a função do pai estão relacionadas com um desejo que não é anônimo, visto que os cuidados realizados pela a mãe trazem a marca de um interesse particularizado, mesmo que seja por intermédio de suas faltas, e a função do pai é a encarnação da Lei no desejo (LACAN, 1969/2003). 101 uma palavra, que possa servir de anteparo para a criança contra os ataques pulsionais, comprometendo, assim, a constituição da imagem do corpo daquela e, consequentemente, o seu processo de simbolização, o que nos aponta para a existência de uma precariedade da função do Outro primordial. A experiência na clínica com a criança tem nos demonstrado isso, ao apresentar outra ordem de fenômenos, muito diferente de tempos atrás. De um modo geral, antes, a clínica evidenciava, com certa predominância, uma conflitiva edípica, ou seja, o sofrimento do sujeito era centrado na conflitiva psíquica pautada entre o desejo e a lei. Basta pensarmos no pequeno Hans (FREUD, 1909/1987): o cavalo que pode morder, a carroça que pode cair e as calcinhas da mãe, para representar simbolicamente a hostilidade pelo pai, o desejo intenso pela mãe e acima de tudo, seu apelo ao pai para fazer frente aos seus excessos. Tratava-se de um funcionamento em torno do ter e não ter. Sendo assim, uma clínica marcada pela fantasia, pela representação, por uma organização simbólica em funcionamento, enfim, uma clínica marcada pela prevalência da pulsão de vida. Atualmente, “os sujeitos estão cada vez menos organizados pelo Édipo e pelo fálico” (DRUMMOND, 2007, p.01), em função da família não mais se ordenar em torno das estruturas edípicas da metáfora paterna, como nos demonstra o psicanalista francês Éric Laurent (2006). De acordo com Birman (2007), a transformação na ordem familiar “incidiu na economia do narcisismo das crianças inicialmente e dos adolescentes em seguida” (p.57), produzindo “perturbações psíquicas que se condensam cada vez mais nos registros do corpo, da ação e das intensidades, nos quais a passagem ao ato passa a dominar a regulação psíquica, com descargas sobre o corpo e a ação” (p.58, grifo do autor). Compreendemos que essa abordagem do autor justifica aquilo que na clínica atual se tornou evidente: fenômenos que expressam um excesso pulsional, o qual se manifesta sobre a forma de violência, seja contra o outro, seja contra o próprio sujeito, uma vez que o processo de simbolização se encontra precário em função da fragilidade do investimento narcísico. Seguindo as elaborações teóricas do autor acima, parece-nos, então, que a questão que se inscreve atualmente, é em torno do ser e não ser e, sendo assim, os efeitos serão outros, já que o quê está em pauta aqui é da ordem da existência, do reconhecimento de uma existência. Assim, não é raro encontrarmos crianças devastadas, deprimidas, excessivas e debilizadas; sujeitos devastados na sua subjetividade, devido à precariedade de um olhar primordial, de um olhar desejante 102 e consistente, que tem como função retirar o infante de um estado de desamparo, uma vez que ele realiza um contorno ao que é da ordem do real, possibilitando outro destino para o excesso pulsional. Desta forma, tem sido comum, a criança mostrar sua desorganização, seu excesso, através da hiperatividade, bulimia, anorexia, pânicos, apatia, fenômenos psicossomáticos e atos antissociais, enfim, uma série de atos que apontam como sendo o único destino para o seu excesso pulsional, indicando a prevalência da pulsão de morte sobre a pulsão de vida no psiquismo. Compreendemos que a precariedade desse primeiro investimento, cujo efeito sobre o sujeito é a fragilização simbólica, o deixa imerso na pulsão de morte, à mercê de seu gozo, portanto distante da sua condição de ser desejante. Histórias de abandono e histórias de violência são o que as crianças do mundo contemporâneo contam – através de seus atos – estarem sofrendo. Elas falam de um excesso pulsional e que a ele estão entregues, constituindo, assim, uma forma de abandono e uma forma de violência contra elas, à medida que seus responsáveis não sustentam suas funções, isto é, não sustentam um olhar desejante e responsável sobre elas. Diante da destituição das funções parentais, o sujeitocriança parece sobreviver ao abandono e à negligência dessa forma, ou seja, parece que através da violência, contra si mesmo ou contra o outro, se faz reconhecer em sua existência. Pensamos com isto que, no mundo contemporâneo, as crianças não deixaram de existir, como tanto se escuta, mas tornaram-se invisíveis, aos olhos das figuras parentais, constituindo, dessa forma, seu sofrimento psíquico. Laia (2001), ao afirmar que “a família é secundária a uma ordem Outra: a família é ela mesma, tanto quanto a criança nascida em seu seio, um produto da Ordem Simbólica” (p.17), indica a existência de uma similaridade. Retomando o conceito lacaniano de objeto a, para ele, a criança, “no corpo mesmo do mundo”, se encontra nessa posição, como resto e como aquele que atrai. Embora o discurso do mundo atual seja um discurso de amparo à criança, o que observamos são crianças nas esquinas da noite se prostituindo, são crianças se drogando, são crianças trabalhando, são crianças consumindo excessivamente, são crianças com suas agendas abarrotadas, são crianças erotizadas excessivamente, são crianças pedindo esmolas nas ruas, são crianças apresentando inúmeros transtornos, enfim, é a própria criança que nos diz o tempo todo que se o mundo atual a quer protegê-la, visto que lhe garantiu um “Estatuto Universal”, este mesmo mundo a coloca como objeto. 103 Dessa forma, como “objeto de discursos especializados, objeto de atenção especializada, objeto capaz de atrair e de ser abandonado com intensidade avassaladora” (LAIA, 2001, p.22), a criança atingiu um estatuto no mundo semelhante àquele que, muitas vezes, a encontramos em um circuito mais restrito – como objeto do Outro materno, o qual tem como função a de revelar a verdade desse objeto (LACAN, 1969/2003). A respeito dessa similaridade, Laia (op.cit) nos esclarece: Ora, se retomarmos o quanto a mãe encarna, por vezes ferozmente, no circuito mais intimista da família, a fidelidade aos ideais civilizatórios, se nos lembrarmos de que a mãe corporifica para a criança a presença do Outro, se considerarmos esse imperativo de “a dona de casa” se tornar a “dona da casa” e se, enfim, [...] como que, hoje, os ideais cedem cada vez mais seu lugar à dimensão imperativa da satisfação, verificaremos, então, o quanto a criança – da prostituta infantil ao bebê geneticamente perfeito – está, inclusive sob a sanção do discurso da ciência, “aberta a todos os tipos de captura fantasmática”, às fantasias mais fundamentais da subjetividade de nossa época. Nesse contexto, a criança, hoje, [...] vem revelar a verdade desse objeto que é entregue aos caprichos que atravessam o precário campo da alteridade moderna ou, [...], que caracterizam esse Outro inexistente que, no entanto, ganha corpo em nossa civilização (p.23, grifo do autor). Assim, devido ao estado da criança em nossos tempos, tem sido comum nos depararmos com as expressões “não existe mais criança”, “desaparecimento da infância”, “a infância acabou”, proferidas tanto pelo senso comum como pela literatura científica. Talvez, o melhor a dizer é que a representação dada, atualmente, à criança não é mais a mesma de outrora – o futuro da nação. Em um mundo em que os ideais cedem cada vez mais seu lugar ao imperativo categórico de gozo, à criança será dada uma outra representação, um outro lugar, que, na nossa compreensão, se aproxima muito da criança de épocas pretéritas. Em uma proporção menor, mas, nem por isso menos importante, a prática de infanticídio, de abandono de recém-nascido, de maus-tratos e negligência tem sido comum. Se durante um longo tempo, foi associada à pobreza e à miséria, isto é, relacionada às classes sócioeconômicas mais desfavorecidas, hoje é de senso comum que este cenário atinge a todos os estratos sociais. Porém, não somente essa problemática nos evoca o tempo passado. Além de nos depararmos com imagens de crianças transvestidas de adultos, o que nos faz pensar na expressão “miniatura do adulto”, tão bem formulada por Ariès (1973/1981, p.17) para nos dizer da criança dos tempos antigos, defrontamos-nos também com um estilo de vida infantil que muito se aproxima do estilo de vida de um adulto. A título de exemplificação citaremos, apenas, alguns pontos: as brincadeiras foram 104 substituídas pela agenda repleta de compromissos, em nome de um futuro promissor, a vivência precoce da sexualidade e o uso de medicação, como ansiolíticos e antidepressivos que, salvo exceções, eram ministrados para adultos. Compreendemos que a criança contemporânea não faz parte da famosa frase – Sua majestade, o bebê – que Freud (1914/2004) cunhou para se referir ao investimento das figuras parentais sobre ela. Muito ao contrário, o aumento do número de famílias constituídas por um único filho, ou de casais sem filhos, parece que é indicador de um não-desejo de crianças, 48 constituindo um novo fantasma, como afirma Birman (2007). Este fantasma pode ser enunciado como matemos as crianças. Isso não tem mais o sentido que lhe deu Leclaire num ensaio [...] intitulado “Mata-se uma criança” [...], mas o de não se querer ter mais filhos e crianças, pois estes perturbam e impedem a nossa possibilidade desejante de existir. Enfim, as crianças passariam a atrapalhar a nossa liberdade e mobilidade, de existir e de desejar (p.59, grifo do autor). Portanto, em um mundo em que se pretende “matar as crianças”, nada mais natural que ela concorra com outras manchetes, veiculadas diariamente pelos principais meios de comunicação, que apontam para a desgraça. Sem a imagem de “futuro da nação” que, durante um tempo, a protegeu, o que se configura é uma condição onde o real se escancara. Como objeto para o gozo imediato do Outro, não somente seu corpo é devastado – ao ser manipulado sexualmente, ao ser jogado nos cantos das ruas ou nos lixões, ao ser espancado e maltratado, ao ser explorado para o tráfico, prostituição e trabalho escravo – como toda a sua possibilidade de sonhar e fantasiar. Como em uma terra devastada, a morte se impõe – se não a morte real, com certeza a perda de vitalidade. Resta à criança um árduo trabalho para que da terra seca, a vida possa surgir. 48 Gostaríamos de chamar atenção para o fato, extremamente comum na atualidade, de que a espécie canina tem substituído à criança. Tratada como filho, ela goza de todos os cuidados e mimos que se espera dar a um filho. 105 CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa realizada nesta dissertação, sem dúvida nenhuma, foi apenas o início de um processo que possibilitará futuras ampliações. Ao inserirmos relatos de experiências vivenciadas em torno do desamparo a que a criança foi e está submetida familiar e socialmente, procuramos criar possibilidades de novos olhares dentro de uma mesma temática, suscitando, assim, outras descobertas que podem ser pesquisadas. Por mais que tenhamos tentado desvendar o porquê da precariedade ou a inconsistência da função materna, o conjunto da pesquisa mostra o quanto o investimento do Outro é essencial sobre o infante e que, na ausência ou inconsistência dele, os efeitos sobre ele são devastadores. Certamente, ainda há muito o que se descobrir. O primeiro olhar sobre como as crianças sobreviveram a tamanho desamparo, na sua faceta mais radical e como estes menores pareciam viver uma experiência limite, despertou emoções como curiosidade, seguida de admiração, intensificada pelo encantamento e finalizada com um desejo incontido de perscrutar os caminhos, pelos quais a psicanálise percorre ao que diz respeito a esta temática. Entretanto, para estudar esta proposta, algumas vertentes foram primordiais na condução do processo, além da experiência motivadora da pesquisa. Essa foi seguida da seleção de informações etimológicas dos vocábulos que se referiam aos infantes ao longo do tempo, catalogação e análise do material selecionado, uma vez que a relação da criança na sociedade se torna a senha para a entrada no mundo desta pesquisa. Estes elementos informativos possuem a função de completar o sentido do texto. Isso posto, é importante sublinhar que essa pesquisa foi atravessada pela escuta na clínica psicanalítica somada ao acompanhamento diário dos noticiários veiculados pelos principais meios de comunicação. Eles foram as fontes que, a cada momento, alimentaram o desejo da pesquisadora na realização deste estudo. Enquanto os principais meios de comunicação noticiam os abandonos de bebês, os espancamentos, os infanticídios, as negligências, enfim, toda a sorte de falta de investimento na criança, a clínica mostra os efeitos desta ausência ou desta precariedade sobre a mesma. Esses efeitos, mesmo se apresentando de várias formas, que vão desde os fenômenos psicossomáticos até os atos antissociais, nos indicam a existência de um ponto em comum: a descarga de um excesso pulsional através da violência – seja contra o outro, seja contra si mesmo –, uma vez que o 106 campo simbólico, o campo das representações, encontra-se precário para dar vazão ao excesso da pulsão que, na falta de representação, circula livremente no psiquismo. Assim, pensamos que a criança contemporânea não possui um leque de opções para que ela possa fazer outra escolha, que não seja a descarga mortífera. Sem escolha ou por uma escolha forçada, ela parece viver a partir de um lema – “salve-se quem puder e da forma que puder”. Isso nos permitiu formular a hipótese de que a criança na atualidade está sendo pouco investida, uma vez que o Outro primordial não está sustentando sua função – materna –, cujos efeitos sobre a constituição subjetiva do infante, como vemos, são extremamente danosos. Servindo-nos dos ensinamentos de Freud, Lacan e de outros teóricos da psicanálise, constatamos que o investimento do Outro primordial destinado ao infante, quando consistente, caracteriza-se como sendo a primeira defesa desse contra os ataques pulsionais, pois ao favorecer a constituição do simbólico, ele o retira de um estado de desamparo, propiciando ao sujeito, num a posteriori, a sustentação de seu desejo e a criação de novos objetos de satisfação. Pedimos a devida licença acadêmica ao cineasta chinês John Woo para nos apropriarmos de seu curta-metragem Song Song & Little Cat, 49 visto que o hipertexto fílmico nos oferece, com toda riqueza de detalhes, a temática dessa pesquisa, embora a intenção do cineasta tenha sido outra – a de confrontar a infância rica e a infância pobre da China contemporânea. Song Song, vestida de branco, com sua tez pálida, ensaia algumas notas no seu piano branco na casa em que mora. Seu olhar perdido nas teclas, parece não acompanhar suas mãos sobre o piano. Poucos são os traços que lhe revelam vida. A discussão entre os pais quebra o som monocórdico do teclado. Violentamente, Song Song toca as teclas, expressando sua angústia. A aproximação de seu pai é para lhe dizer que vai viajar e que logo volta, porém está implícito de que ele está indo embora. A mãe tomada por seus fantasmas, encerra-se num silêncio profundo. Tal profundidade do silêncio possibilita o encontro com o nada, àquilo que a presença do marido outrora tamponou e que agora é revelado por sua ausência. A angústia presentificada pelo real vem informar o lugar que o homem ocupava para esta mulher, o de obturador de sua falta, dando-nos a entender que, em função disso, seu mundo 49 Este curta-metragem compõe o filme “Crianças Invisíveis”, produzido pelos italianos Chiara Tilesi e Stefano Veneruso. 107 era ao redor dele, não existindo, assim, nada mais. Sem a presença dele, nada mais parece existir. Nem mesmo Song Song. Assim, o desamparo da mãe acentua o desamparo da filha, que, engolida pela aridez dele, caminha em direção à morte. Intercalada com a história de Song Song, temos a história de Little Cat (Pequena Gatinha) que, quando bebê, foi abandonada na rua, junto a entulhos, pela sua mãe. Encontrada e acolhida por um senhor, que vive de recolher sucatas ou coisa parecida, a criança passa os primeiros cinco anos de sua vida sendo cuidada por ele em uma espécie de cortiço. Desejando que ela frequentasse uma escola, o senhor parece se esforçar para a realização desse desejo, que passa a ser o dela também. Com a morte dele, ela, junto a outras crianças, fica sob “os cuidados” de um homem que a explora com o trabalho infantil – vender flores. Song Song & Little Cat é um curta em que podemos ver os destinos do sujeito diante de seu desamparo. Vida ou morte. Não existe outra saída, não existe outro destino. Enquanto a Pequena Gatinha realiza criações, ou seja, caminha em direção ao seu desejo, à vida, Song Song é engolida pela aridez de seu desamparo, caminha em direção à morte, embora não tenha sido deixada debaixo de um viaduto, não tenha vivido em cortiços, não tenha se separado bruscamente de seu Outro primordial e não tenha sido explorada. Este real pertence à Pequena Gatinha que, com a riqueza de seu simbólico, pôde contornar àquilo que de sua história se apresentou como um abismo para a morte. Song Song não possuía esta riqueza. A pesquisa realizada nos fornece a compreensão de que a função do Outro primordial, ao sustentar, através de seu investimento, a constituição da imagem do sujeito assegurando a sua existência, propicia a criação de recursos simbólicos, sendo possível para aquele ir ao encontro de seu desejo, isto é, fazer do vazio e do silêncio um espaço para criar e não um abismo para morrer. Song Song parece não possuir um simbólico bem sedimentado, bem constituído. Muito ao contrário, ela se apresenta como pobre, como precária em seu simbólico, justamente porque o olhar desejante do Outro dirigido a ela foi precário. Lembremos da passagem do célebre texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/1987), em que Freud destaca que são as expressões de ternura da mãe para com seu filho, ou seja, seu investimento libidinal sobre ele, que desperta a pulsão de vida deste. Song Song parece ter construído, com o Outro, apenas um fio tênue de vida. É com este fio de vida que ela tenta se defender das invasões pulsionais. Sem o olhar desejante do Outro, que possa lhe dar uma sustentação simbólica maior, ela 108 parece ficar entregue às invasões pulsionais, ou seja, entregue a todo um desamparo, colocando em risco sua subjetividade. Assim, ela lança mão de recursos extremamente capengas para dar um outro destino àquilo que lhe invade. É possível ver nela sinais de depressão, de destrutividade, autísticos, enfim, sinais que nos falam de uma violência contra o próprio sujeito, que nos apontam para a prevalência da pulsão de morte no psiquismo – muito diferente da história da Pequena Gatinha. Essa, por ter tido um investimento do Outro mais consistente, pôde construir não um fio, mas um cordão; um cordão simbólico, o qual sustenta a constituição da imagem do sujeito, assegurando e reconhecendo a sua existência. A partir deste simbólico bem sedimentado, bem constituído é que foi possível para a Pequena Gatinha fazer do vazio e do silêncio um espaço para criar e não um abismo para morrer; é que foi possível a ela seguir adiante, ir ao encontro de seu desejo. O final do curta é marcado pelo encontro com a vida. Defronte do insuportável do real, a mãe de Song Song decide pôr fim a vida das duas. No caminho, paradas no sinal que havia se fechado, Song Song observa a Pequena Gatinha vendendo flores. O encontro das duas parece ter favorecido para aquela, um encontro com a vida, com o quê de vida havia nela. Com o carro diante de um abismo, prestes a serem lançadas ao encontro do real da morte, o desejo pela vida se fez presente em Song Song, ao cantarolar para a mãe. O canto, com vida e pela vida, parece ter dado um outro destino àquilo que de mortífero invadia tanto filha quanto mãe. Song Song & Little Cat torna-se um curta encantador pelo que ele deixa transparecer nas suas entrelinhas, ou seja, o olhar desejante da Pequena Gatinha, a sustentação de seu desejo, a sua criatividade e, enfim, o que ela tem de vitalidade, e por isso não se deixou abater com o lado dramático da vida ao qual teve que se deparar. Em meio a tanto desamparo, ela soube criar vida; flores nasceram em seu deserto. E isso só pôde ser possível, porque o Outro primordial se fez presente consistentemente. Portanto a presença deste curta, enriquecendo as considerações finais, porta-se como fundamental importância na retomada dos elementos pesquisados e remetidos através da intertextualidade do hipotexto com o hipertexto fílmico. O referencial psicanalítico sublinha que a família é a estrutura responsável pela transmissão e inserção do infante na cultura, por meio das figuras parentais que exercem funções primordiais na inscrição da criança no universo simbólico. Sublinha, também, que por se tratar de funções simbólicas não se faz necessário 109 que o agente das funções materna e paterna recaia sobre as figuras da mãe e do pai, respectivamente, o que não quer dizer, com isso, que são funções anônimas, onde qualquer um pode exercê-las, já que pressupõe o desejo do outro. Assinala igualmente que o pai (enquanto função) é o centro do Édipo e que uma das suas incidências se dá sobre o desejo materno (LACAN, 1957-58/1999); desejo este que se inaugura quando esta mulher é ainda uma menina, sendo essa uma das saídas que ela se dá, ao se deparar com sua incompletude, devido à equivalência simbólica (falo-bebê) que se inscreve na subjetividade dela (FREUD, 1932/1987). Isso nos leva à observação de que existe uma especificidade no “interesse” do Outro em relação aos cuidados dedicados ao infante, a qual fará com que o vínculo construído entre eles, além de ser estruturante, seja singular. Assim, o que, usualmente, é chamado de cuidados maternos – alimentar, higienizar e etc –, e que qualquer um pode realizar, somente ganhará o estatuto de função materna, na medida em que esta especificidade se faz presente, através da qual o infante ganhará um lugar específico na economia do desejo do Outro. Isso implica em uma diferença radical entre o que é da ordem do universal – a maternagem – e o que é da ordem do singular – a função materna –, mesmo tendo em vista que o Outro da função materna realiza também uma maternagem (KAMERS, 2004). Desta forma, se a função paterna ocupa um lugar central na trama edípica é porque existe uma anterioridade que possibilita a vivência edipiana; anterioridade, esta, marcada por um investimento libidinal, ou seja, pelo desejo materno, o qual é o motor para o funcionamento da função materna, instaurando o outro como Outro primordial para o infante, e que sem ela fica impossibilitada a constituição do psiquismo. Mesmo com todas as transformações que a família sofreu em sua estrutura, ela permanece como o lugar em que a criança irá satisfazer suas primeiras necessidades vitais, tornando-se objeto de investimento, por ocupar um lugar na subjetividade daqueles que cuidam dela, o que a constituirá como sujeito a partir das possibilidades determinadas por esses (TANIS, 2001). Porém, nem sempre foi assim. Foi preciso um longo tempo para a criança ser nomeada, ser reconhecida e ser investida enquanto sujeito. Resgatar, então, os antecedentes históricos da criança permitiu-nos verificar, dentro de uma perspectiva histórica, que houve um tempo em que não se destinava um investimento a ela. Sem inscrição na língua, sem lugar na sociedade e na 110 família, seu corpo definhava. Atravessada pela imagem de dejeto, muitas vezes não resistia, levando muitas delas à morte. A lógica que prevaleceu, até um determinado tempo na civilização ocidental, foi de que “era possível prescindir das mães para se criar uma criança. [...] E assim o fizeram até o momento em que a questão da mortalidade infantil e da sobrevivência das crianças começou a se constituir um problema de Estado” (NUNES, 2000, p.19). A presença de um investimento deu a ela uma inscrição no social, um reconhecimento no desejo do Outro. A partir de então, a criança foi ganhando corpo; um corpo, pelo qual fundou uma imagem que a constitui como sujeito desejado e, portanto, desejante; um corpo coberto por uma imagem que passa a protegê-la do real da vida. Esse resgate foi de muita valia, pois nos favoreceu uma abertura e, por conseguinte, uma amplitude de nossa percepção a respeito da constituição da subjetividade do humano, cuja construção não se dá sem os aspectos formadores de uma cultura. Assim, a questão central dessa dissertação se desdobra em algumas outras – de que forma as transformações ocorridas, a partir da segunda metade do século XX, afetaram a criança e qual o lugar da criança na sociedade e na família no tempo atual – que estão articuladas entre si. A pesquisa realizada possibilitou-nos a constatação de que na atual conjuntura histórica – marcada por uma economia neoliberal e globalizada, a qual lança o sujeito para o imperativo de gozo – um vazio nas funções parentais se constituiu, visto que as figuras parentais se voltaram para seus projetos pessoais. Isso acarretou o surgimento de novas atenções especializadas, em uma tentativa de preencher o vazio nas funções parentais, já que estão encarregadas, não apenas dos cuidados e educação da criança, mas de seu processo de socialização primária. Pudemos verificar que com isso a criança foi afetada de forma radical, na medida em que incidiu sobre a constituição de seu narcisismo – alicerce para sua organização psíquica. No mundo atual, muito se tem dito sobre o pai. É comum escutarmos que a função paterna declinou, pulverizou e há quem diga de sua inexistência na atualidade. Entretanto, a clínica, cada dia mais, tem facilitado a percepção do quanto as crianças estão sendo pouco investidas, pouco desejadas, enquanto sujeitos. Assim, antes daquela nos apontar para o declínio da função paterna, como se todos os sujeitos sofressem porque a lei não se presentificou, ela nos aponta para uma desorganização psíquica, para a fragilidade simbólica devido à precariedade do investimento narcísico ou à desnarcisação. Com isso, ela nos apresenta toda uma 111 caracterização das formas de dor contemporânea que remetem à fragilidade narcísica – hiperatividade, bulimia, anorexia, pânicos, apatia, fenômenos psicossomáticos, compulsões –, isto é, uma outra ordem de sintomas, muito diferentes da de tempos atrás. Temos, então, na contemporaneidade a clínica da desorganização, da falta de representação, das compulsões, enfim, a clínica da prevalência da pulsão de morte. A partir disso, dessa mudança na ordem do investimento libidinal sobre a criança, podemos constatar que a mesma não ocupa mais o lugar que outrora ocupou. Se antes ela era o signo do futuro e, por isso, ocupava o lugar de majestade, hoje ela parece ser considerada um fardo, visto que parece se constituir um empecilho aos pais diante de seus projetos individuais. Essa consideração produz outras questões que não nos ativemos nela, visto a sua extensão, porém, consideramos importante que seja abordada. Quando Freud afirma a existência da equivalência simbólica, falo-bebê, e que a partir desta se inaugura o desejo materno (1932/1987), a mulher não tinha outra escolha, pois não tinha outro objeto para investir – além de seu bebê – que lhe desse a ilusão da completude. Até então, ela era destinada ao casamento e à maternidade, e o bebê era o seu único objeto de desejo, ou seja, a sua esperança de completude. Não restam dúvidas de que hoje ela tem outros destinos, com novos objetos ofertados pela cultura, que, inclusive, prometem a mesma completude. Assim, no mundo atual, será que a equivalência simbólica freudiana não sofreu uma transformação, na medida em que novos objetos foram inseridos? Sendo assim, qual o lugar de um filho para a mulher contemporânea e de que forma ele tem sido inscrito em seu desejo? Diante de tantos objetos que prometem a tal completude, será que o desejo materno, o investimento libidinal materno, não sofreu uma pulverização, o que faz com que o infante seja pouco libidinizado, ficando à mercê dos ataques pulsionais? Enfim, consideramos ser essas questões merecedoras de um aprofundamento, entretanto, para um outro momento. Gostaríamos de destacar que todos os elementos listados nesta dissertação e mais tantos outros ainda por listar compõem o universo dos pesquisadores e possuem sua função como parte desta rede que compõe o descaso com a vida do outro. 112 Para finalizar estas considerações – já que uma pesquisa nunca propõe o fim, mas a abertura para outras – citemos o poeta Carlos Drummond de Andrade: 50 Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído um menino chora, O choro atrás da parede a luz atrás da vidraça perdem-se na sombra dos passos abafados das vozes extenuadas. E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher. Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua, longe um menino chora, em outra cidade talvez, talvez em outro mundo. E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça. E vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino, Escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas). E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando. 50 ANDRADE, C. D. Menino Chorando na noite. In: Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006, p.31. 113 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, A.B. Violências cotidianas. In: MAIA, M. (Org). Por uma ética do cuidado. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. p. 307-322. ANSERMET, F. Clínica da origem: a criança entre a medicina e a psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2003. [Coleção Opção Lacaniana]. ARÁN, M. (Org.). Soberanias. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2003. p. 9-14. ARAGÃO, R. O. A construção do espaço psíquico materno e seus efeitos sobre o psiquismo nascente do bebê. 2007. 120 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). Laboratório de Psicopatologia Fundamental. Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2007. ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2.ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981. BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. BARROS, R. 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