Açúcar Ético II Seminário Científico Brasileiro sobre as Problemáticas Sociais e Ambientais do Setor Canaviero Problemáticas e Desafios da Indústria Sucroalcooleira Brasileira no Século XXI SÃO PAULO, 30 E 31 DE MAIO DE 2006 Açúcar Ético 3 © 2006 CAPA Nome do Artista PROJETO GRÁFICO Ezequias Tomé da Silva FOTO DE CAPA Crédito do Fotógrafo 500 exemplares 1ª edição – dezembro/2006 Impresso na Copypress A reprodução parcial ou total desta obra, por qualquer meio, somente será permitida com a autorização por escrito da Editora. (Lei n° 9.610 de 19.02.1998) Impresso no Brasil Presita em Brazilo Seminário realizado na Avenida Paulista, 2009, São Paulo, 30 e 31 de maio de 2006 Sede Internacional : 6, allée de la Malletière – 69600 Oullins-Lyon, França. Antena no Brasil : Rua Maine, 170, CEP 86061-090 Londrina, PR, Brasil Página na internet: www.sucre-ethique.org Açúcar Ético 4 SUMÁRIO Prefácio..........................................................9 Açúcar Ético: Desafios Ambientais e de Manejo no Setor Sucroalcooleiro, Oswaldo Lucon ...........................................13 Desafios da Indústria Sucroalcooleira Brasileira no século 21 – Problemáticas Econômicas e Sociais no Setor Sucroalcooleiro, 30/05/2006 .................................................17 Desafios da Indústria Sucroalcooleira Brasileira no século 21 – Desafios Ambientais e de Manejo no Setor Sucroalcooleiro, 31/05/2006 .................................................64 Mission Report ..........................................109 Açúcar Ético 5 Agradecimentos Especiais para: Scott Longefellow, Juliana Yumi e Anne Louette, pela organização do evento. Patricia Kaetsu e Ines Polegato, pela digitação dos dois dias e muitas noites… François Beaujolin, Dr. Nivaldo Trama e Richard Perkins, sem os quais o evento não teria acontecido. Olivier Girard, pela amizade e apoio moral. Sra. Patricia Audi e Pedro Américo Furtado de Oliveira da OIT (Brasília), Sr. Angelo Bressan, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Brasilia), Profa. Suani Teixeira Coelho, Secretária Adjunta – Secretaria do Meio Ambiente do Estado de S. Paulo. Os presidentes de sessão de trabalho (por ordem cronológica): Dr. Ricardo Garcia, Procurador do Ministério do Trabalho. Dr. Oswaldo Lucon, Assessor da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de S. Paulo. Sr. Alexandre Betinardi Strapasson, Coordenardor-Geral de Açúcar e Álcool do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os palestrantes (por ordem de apresentação): Dr. Carlos Eduardo Vian, Dep. de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ, Piracicaba – SP. Prof. Sebastião N.R Guedes, coordenador do Dep. de Economia da Unimep, Piracicaba – SP. Dr. Isaias de Carvalho Macedo – Unicamp – SP. Profa. Maria Cristina Gonzaga, mestre da Unicamp, pesquisadora da Divisão da ergonomia na Fundacentro – SP. Dr. Francisco Alves, Professor do Departamento de Engenheira da Produção, UFSCar, São Carlos – SP. Sr. José Carlos Bimbatte Júnior, Fundação Abrinq. Dr. José Eduardo Delfini Cançado, pesquisador no laboratório de poluição atmosférica experimental da FMUSP – SP. Açúcar Ético 6 Dr. Daniel Bertoli Gonçalves, Doutor da UFSCar, engenheiro de produção. Dr. Felipe Dias - Universidade Católica Dom Bosco, Laboratório de Geoprocessamento, Campo Grande – MS. Sr. Paulo Itacarambi, Diretor Executivo do Instituto Ethos. Dr. José Maria Gusman Ferraz, Embrapa Meio-Ambiente, Jaguariúna – SP. Prof. Manoel Regis Lima Verde Leal, Unicamp – NIPE – SP. Pelo apoio institucional: - Fondation des droits de l’Homme au Travail (Fundação dos Direitos Humanos no Trabalho). - Abiodiesel – Associação Brasileira de Biodiesel. - Fasp – Faculdades Associadas de São Paulo, - Organização Internacional do Travalho – Brasil. - Ministério do Trabalho. - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. - Secretaria do Meio Ambiente – Estado de São Paulo. - Fundacentro – Fundação Jorge D. Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho. - Instituto Ethos. - Observatório Social. - Associação de Agricultura Orgânica. Pela presença especial de: Sua Excelência Marc Th. Vogelaar, Cônsul Geral dos Países Baixos – São Paulo; Sr. Manuel Marciaux, encarregado da Agricultura – Embaixada da França – Brasilia; Sra. Helga Nussbaumer – Consulado Geral da Áustria. Por fim, a todos os participantes: empresas, sindicatos, ONG’s e a sociedade civil brasiliera. Açúcar Ético 7 Açúcar Ético 8 PREFÁCIO A cultura da cana-de-açúcar faz parte da história do Brasil, em suas mais profundas raízes. Trazida em 1532, por Martim Afonso de Sousa, fidalgo do Rei de Portugal, a cana-de-açúcar foi precursora do desenvolvimento da colônia portuguesa. Mesmo durante os seus diversos ciclos econômicos, como o pau-brasil, o ouro e o café, a cana sempre teve relevante importância à economia brasileira. Os engenhos de açúcar tornaram-se parte integrante da cultura nacional, com reflexos até os dias de hoje. Naquela época, buscava-se o máximo de riqueza à coroa portuguesa, ao senhor de engenho e à sua família, em terras sem horizontes, sob o exaustivo e forçoso trabalho de mão-de-obra escrava, trazida da África. As cicatrizes do período escravagista e de seu autoritarismo são um triste retrato de nossa história. Mas muitos anos se passaram, desde a abolição da escravatura, em 1888. O Brasil diversificou sua economia, desenvolveu sua indústria e conquistou novos mercados. A agricultura canavieira manteve sua relevância como geradora de emprego e renda na zona rural, seguindo passos gradativos de modernização ao longo do século XX, a exemplo de diversos outros países produtores de açúcar. No entanto, apesar dos avanços alcançados, as preocupações sociais e ambientais eram tratadas como meras externalidades da agroindústria canavieira: custos indesejados; problemas ocultos, vistos com naturalidade pela sociedade em geral. Mas esse cenário passou por fortes mudanças Açúcar Ético 9 nas últimas décadas, graças ao avanço das discussões trabalhistas e ambientais, tanto no Brasil, quanto nos foros internacionais. Nesse período, o Brasil também presenciou uma grande modernização do padrão tecnológico dos engenhos convencionais, que também passaram a produzir álcool em destilarias anexas. O Programa Nacional do Álcool (Proálcool), criado em 1975, deu um novo impulso à agroindústria canavieira, ao inserir o álcool como substituto à gasolina na matriz energética nacional. Com os mercados de açúcar e álcool aquecidos, aliados aos benefícios concedidos pelo Governo Federal, o setor sucroalcooleiro viveu um de seus períodos de maior apogeu. Apesar da crise do mercado de álcool hidratado na década de 90, o setor manteve sua agressividade, conquistando novos mercados internacionais para o açúcar. Nessa época, também houve grande avanço quanto aos aspectos ambientais e sociais. A rigidez das legislações trabalhistas e ambientais brasileiras, associadas às ações de fiscalização do Estado, deram início a um novo paradigma de desenvolvimento ao setor sucroalcooleiro. Atualmente, a agroindústria canavieira vive um novo período de intenso progresso. O setor se profissionalizou muito, algumas empresas abriram seu capital e projetaram-se internacionalmente. Já não há mais quaisquer subsídios governamentais sobre a produção de açúcar e álcool. As legislações ambientais e trabalhistas têm sido cada vez mais respeitadas, mas ainda subsistem algumas situações inaceitáveis, que são objeto de intenso e gradual trabalho de repressão pelos órgãos competentes, a fim de eliminar por completo essas discrepâncias. A despeito da prática da colheita manual da cana-de-açúcar se tratar de um trabalho árduo e desgastante, há também que se reconhecer sua importância social e o fato de sua remuneração ser, em média, superior à de outras atividades similares na agricultura brasileira. São mais de um milhão de empregos formais diretos envolvidos na agroindústria canavieira, responsável pela movimentação direta de aproximadamente US$ 20 bilhões ao ano. Nos últimos anos, observa-se um crescimento da formalização da mão-de-obra canavieira, bem como da fiscalização e autuação de empreendimentos irregulares. Por outro lado, o avanço da mecanização da colheita da cana-deaçúcar tem se revelado um processo inevitável, especialmente, nas áreas de expansão da cana-de-açúcar. Surge então um novo desafio, melhorar as condições de trabalho e a qualidade de vida dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, promover a inclusão social e a capacitação técnica dos Açúcar Ético 10 mesmos, para exercício de outras atividades no setor produtivo. O Brasil depara-se com uma oportunidade histórica no âmbito do setor sucroalcooleiro, devido a três principais aspectos: a expansão do mercado internacional de açúcar, frente ao aumento do consumo per capita de açúcar em países asiáticos e à reforma do regime açucareiro na União Européia; o intenso crescimento da demanda por álcool combustível no mercado interno, devido ao sucesso de venda dos veículos flex fuel e sua crescente inserção na frota de veículos leves; e o imenso mercado internacional do álcool, ainda em potencial, dada a escassez das reservas internacionais de petróleo e seu preço elevado, bem como aos compromissos internacionais no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Nesse sentido, as organizações não-governamentais, em conjunto com os esforços dos governos federal, estadual e municipal, Ministério Público, universidades e setor privado são fundamentais na busca do desenvolvimento sustentável do setor sucroalcooleiro, com respeito ao meio ambiente e ao trabalhador em geral. Este livro é uma prova concreta disso. Os debates promovidos pela Açúcar Ético têm contribuído substancialmente à articulação da cadeia produtiva da agroindústria canavieira, em busca de soluções aos problemas vigentes e futuros. Ainda há muito por se fazer, mas já se observa uma forte tendência da valorização do trabalhador rural e da conscientização ambiental, mas isso não se constrói da noite para o dia. Para se vislumbrar o futuro, é preciso unir esforços e seguir adiante, sempre. Alexandre Betinardi Strapasson Coordenador-Geral de Açúcar e Álcool Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Açúcar Ético 11 Açúcar Ético 12 AÇÚCAR ÉTICO: DESAFIOS AMBIENTAIS E DE MANEJO NO SETOR SUCROALCOOLEIRO Oswaldo Lucon julho de 2006 O automóvel foi uma das maiores inovações trazidas à humanidade no século passado. Sua tecnologia avançou consideravelmente mas não mudou em sua concepção: motores de combustão interna são basicamente canhões com explosões controladas e elevado desperdício de energia. Hoje, cerca de 700 milhões de veículos dominam os espaços urbanos, consomem notáveis frações da renda de países e contribuem de forma significativa para o desequilíbrio do clima na Terra. Mesmo assim, a posse de veículos é um indicador de bem-estar e um símbolo de status e independência, intimamente ligado aos desejos modernos de consumo. Um quarto do petróleo retirado do subsolo terrestre alimenta os automóveis. As reservas mundiais de petróleo concentram-se em poucos países, com altos riscos geopolíticos. A grande maioria dos demais é dependente do energético, ou deverá ser em poucos anos, quando as reservas internas se tornarem escassas. É certo que cedo ou tarde uma nova crise do petróleo se aproxima, fato que mobiliza as pesquisas de países desenvolvidos e em desenvolvimento pela busca de alternativas e de aumento de eficiência Açúcar Ético 13 na produção e consumo. Alie-se a esses fatores determinantes a alarmante concentração na atmosfera terrestre de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e outros gases causadores do aumento do efeito estufa gerados por atividades humanas, notadamente a combustão de carvão, petróleo e gás natural. Trinta anos após o início do Programa Brasileiro do Álcool, criado pelo choque do petróleo na década de 1970, o etanol de cana-de-açúcar apresenta-se ao mundo como uma das melhores soluções para os problemas causados pelas emissões de gases de efeito estufa no setor de transportes. Por ser renovável, o biocombustível é também uma interessante alternativa aos derivados de petróleo, gerando empregos locais e reduzindo a dependência de insumos energéticos produzidos em regiões geopoliticamente instáveis. No Brasil, o álcool da cana-de-açúcar é obtido através de processos com alto rendimento, pelos quais se obtêm de 8 a 10 unidades de energia para cada unidade aplicada. Isso é bastante superior aos outros biocombustíveis produzidos a partir de grãos nos países desenvolvidos. O custo de produção é inferior ao dos concorrentes e o álcool de cana é competitivo até com a gasolina em preços internacionais. Com uma enorme vastidão de terras e grande insolação favorecendo a fotossíntese das plantas, o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, com cerca de 420 milhões de toneladas em 5,6 milhões de hectares. A produção de álcool no Centro-Sul do país obteve ao longo dos anos consideráveis ganhos de produtividade com melhoramentos genéticos (que aumentou a resistência a pragas e os teores de açúcar na cana), melhores práticas agrícolas (como a mecanização da colheita e a disposição controlada de vinhaça no solo para fertilização) e novas tecnologias industriais (como a recirculação de água e a obtenção de excedentes de energia pela cogeração do bagaço da cana). Junto com esse aprendizado vieram também melhores práticas ambientais, exigidas pela sociedade. A tecnologia dos veículos flexíveis serviu para consolidar sucesso comercial do álcool carburante no Brasil. A aprendizagem nacional é replicável em diversos outros países em desenvolvimento, uma vez que quase uma centena de nações produz cana-de-açúcar. A maioria desses países planta cana e produz açúcar, mas gera pouco ou quase nenhum etanol que substitua, pelo menos em parte, sua dependência de importações de derivados de petróleo. É o caso, por exemplo, da América Central e da África subsaariana. Açúcar Ético 14 Por sua vez, países desenvolvidos em clima temperado não possuem condições tão favoráveis e procuram produzir seus biocombustíveis através de inovações tecnológicas, políticas de inserção gradativa e subsídios a agricultores. Ainda assim, a elevada demanda de seus transportes requer significativas importações adicionais, tanto para cumprir com as metas de Quioto quanto para reduzir sua dependência do petróleo, cada vez mais caro. A introdução de 10% de etanol na gasolina mundial é um objetivo possível, que reduziria as emissões de carbono em 1%, ou um quinto das metas do Protocolo de Quioto. A geração destes 35 milhões de trilhões de joules (unidade energética) renováveis requer 30 milhões de hectares de terra, ou 3% a mais nas áreas cultivadas atualmente no planeta. O etanol combustível é também um importante vetor para a redução de poluentes locais, como os óxidos de enxofre, o monóxido de carbono e o especialmente o chumbo. Apesar das grandes vantagens apresentadas pelos biocombustíveis em seu uso final nos transportes, há também uma crescente preocupação quanto à sustentabilidade ambiental e social de sua produção. Hoje, não só o carvão mineral, o petróleo, as usinas nucleares e as grandes barragens estão sob a lupa da opinião pública. A necessidade de informações detalhadas sobre os impactos ambientais de alternativas energéticas hoje abrange também a biomassa. O uso insustentável da lenha é reconhecidamente um grave problema, principalmente em ecossistemas sensíveis. Os biocombustíveis são questionados pelos desmatamentos induzidos pela expansão da fronteira agrícola, a perda de biodiversidade causada pela monocultura, o aumento no uso de água, fertilizantes e pesticidas e, em termos macro, a competição entre as plantações energéticas e as de alimentos. A sustentabilidade é um assunto de fundamental importância para o Estado de São Paulo, onde se produz 63% do total de cana-de-açúcar do Brasil, quase 18 milhões de toneladas de açúcar e 10 bilhões de litros ao ano de etanol. Para se ter uma idéia, no mundo são produzidos anualmente cerca de 150 milhões de toneladas de açúcar e 30 bilhões de litros de etanol, com todos os insumos (cana, beterraba, milho, trigo e outros). Dos 22 milhões de hectares de terras no Estado de São Paulo, as florestas ocupam 19%, as culturas ocupam cerca de 35% e as pastagens 46%. A cana de áçucar ocupa 3,6 millhões de hectares de terra no Estado e há planos para aumentar essa extensão em 50% nos próximos 5 anos, Açúcar Ético 15 preferencialmente substituindo pastagens extensivas com ganhos de produtividade. Tal processo deverá ser acompanhado de perto pelas autoridades. Por ser a primeira etapa onde devem ser preenchidos os requisitos de sustentabilidade, o licenciamento ambiental deve ser célere, porém exigente. Por lei, a queima da cana antes da colheita é objeto de progressiva eliminação via mecanização. As emissões de poluentes das usinas é objeto de controle, incidindo tanto o licenciamento renovável (a cada 5 anos) quanto à compensação de emissões locais em áreas saturadas. Há muito a se controlar no que se refere ao uso da água, aos defensivos agrícolas, à aplicação de vinhaça no solo como fertilizante, à poluição local ainda gerada pelas queimadas, ao respeito às áreas de preservação permanente. Aspectos trabalhistas e fatores demográficos (migração) também devem ser alvo de controle e planejamento. Para garantir a sustentabilidade da cana-de-açúcar e dar o melhor exemplo possível ao resto do mundo, o Estado de São Paulo precisa de todo o apoio da sociedade civil. É imprescindível, também, aprimorar o nível técnico-científico das investigações e dos questionamentos, tendoem perspectiva não só os problemas locais mas também a necessidade mundial emse modificarem os padrões insustentáveis criados com o uso do petróleo. Embora muitos desses questionamentos possam a uma primeira vista ser interpretados por uns como “barreiras técnicas a importações” e por outros como “denúncias de agressões ao meio ambiente”, é preciso analisar todos os aspectos de uma forma imparcial. Esse é o objetivo do Açúcar Ético (Sucre Ethique), que realizou um importante encontro em São Paulo no mês de maio de 2006. Os resultados do evento são aqui relatados. Açúcar Ético 16 DESAFIOS DA INDÚSTRIA SUCROALCOOLEIRA BRASILEIRA NO SÉCULO 21 30/05/2006 PROBLEMÁTICAS ECONÔMICAS E SOCIAIS NO SETOR SUCROALCOOLEIRO Manhã – Perspectivas do setor sucroalcooleiro brasileiro numa economia globalizada 9h37 – Olivier Genevieve, apresentação de Sucre Ethique. 9h44 – Nivaldo Trama, Presidente da Abiodiesel. É uma imensa satisfação para a FASP receber aqui o Açúcar Ético. E a Abiodiesel traz sua contribuição à comunidade aqui presente, apoiando este evento. 9h45 – Prof. Carlos Eduardo de Freitas Vian. Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ USP. Açúcar Ético 17 Evolução e perspectivas do complexo agroindustrial canavieiro Inicialmente, apresentarei uma retrospectiva do setor. Ao final, haverá uma discussão sobre perspectivas atuais, com análise dos desafios e oportunidades. A produção de cana chega ao Brasil juntamente com a empresa agrícola, visto que ela representa um produto muito perecível, não podendo assim, ser exportada in natura. Existe toda a necessidade do processamento e refinamento visando sua conservação. E esse processo é contínuo, exigindo uma evolução tecnológica na produção com um nível técnico diferenciado. A cana-de-açúcar, originária da Ásia, foi posteriormente levada para a Europa pelos navegadores italianos e portugueses, em seguida, veio para o Brasil e para outros países da América central. Na região primeiramente citada, hoje em dia quase que inexiste sua produção, pois esta era utilizada para outros fins, sem processamento. No Brasil, a cana chegou inicialmente no Nordeste, uma região que vem perdendo, em termos de produtividade, para o estado de São Paulo. O deslocamento da produção para as regiões de fronteira de expansão (que utilizam o terreno antes usado na criação de gado), leva a migração de trabalhadores para as unidades planejadas construídas nas regiões oeste de São Paulo, Triângulo Mineiro e oeste do Mato Grosso. Atualmente, as cidades de Piracicaba e Ribeirão Preto são as maiores concentrações de unidades de produção. Açúcar Ético 18 A questão primordial e muito discutida para a ida da produção de cana para o oeste do Brasil fala sobre o acesso ao mercado interno pela hidrovia, que possibilita a exportação, mas que, hoje em dia não é muito utilizado pela mudança de modal (rio e rodovia) e tem a utilização de transporte rodoviário como essencial nesse processo. A exemplo de algumas usinas que escoam a produção pelo Rio Paraná para exportar para o sul através da Argentina e que enfrentam os problemas com modal, visto que não há eclusas e o transporte deve ser revezado entre fluvial e terrestre, inúmeras vezes ao longo do rio. Na faseologia, há a tentativa de enquadrar em fases as várias crises e épocas de expansão como a Crise no Nordeste, Coligação de Pernambuco, Crise de 29, Criação do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), Criação do Pró-álcool. A primeira crise e a conseqüente modernização são decorrentes da concorrência com as Antilhas, quando o Nordeste deixa de ser exportador e passa a abastecer o centro-sul. Nesse processo, o ganho escala acontece, provocando assim, o desenvolvimento das grandes usinas que centralizam o processo e compram a produção dos pequenos produtores, em detrimento aos pequenos engenhos. Em 1920, na coligação do açúcar, que durou de 3 a 4 anos, a tentativa de auto-regulação fracassou em decorrência dos comportamentos oportunistas que não respeitaram o processo. O Nordeste apresenta um Açúcar Ético 19 atraso técnico, se comparado à região sul e forte tendência ao oportunismo, onde grandes controlam arrendamento de terras. O Centro-sul, então, inicia sua expansão após o café. Onde antes era produzida muita cachaça e pouco açúcar para mercado interno, com a prevalênciado capital comercial, os antigos cafeicultores tornam-se usineiros. Os grandes conflitos entre usineiros e cortadores de cana levaram, em 1930, a criação do IAA no intuito de resolver os problemas do setor sucroalcooleiro. Surge então o primeiro açúcar para álcool, visto como resíduo da produção de açúcar até 1997, quando se incentiva a produção do álcool motor. A regulamentação prevê as cotas de produção, fornecimento e exportação, tabelamento de preços, subsídios e equalização de preços com o Nordeste. O álcool permanece como forma de utilização dos resíduos, já que o volume de exportações segue mínimo. Isso unido às políticas implementadas pelo IAA gera a superprodução, que apresenta ainda a falta de integração na cadeia produtiva, sem a integração de terras. Em 1975, mudanças ocorrem com intervenção do Programa Próálcool, que visa promover o maior consumo de álcool combustível e que levam ao surgimento e expansão das destilarias autônomas que dividem ainda mais o setor. Em 1980, há a estabilização do álcool e a visão deste como substituto a gasolina, mesmo que o fator motivador não seja a conscientização ambiental e sim as variações no preço do petróleo que influenciam diretamente o mercado. Mas uma crise na produção do álcool e sua conseqüente escassez limitam a produção automobilística, levando a uma perda de credibilidade e diminuição da produção ao longo da década. O processo de desregulamentação vem em 1990 junto com as pressões de determinados segmentos prejudicados. O mercado passa a ser livre, sem cotas de produção, sem controle de exportação e de preços. Assim, as decisões tornam-se individuais a cada usina e a cada produtor. Ao longo da década de 90, houve um crescimento de 158%. Mesmo com o consumo interno de açúcar estagnado, as exportações aumentaram, aumentando também a produção proveniente da região centro-sul. Há o surgimento de novas tecnologias e a mecanização do corte. Realizam-se testes para plantio e automação, com a conseqüente redução do número de empregos e uma maior qualificação profissional passa a ser exigida. O setor sucroalcooleiro, antes conhecido como um grande empregador, perde sua importância. E os trabalhadores mal qualificados têm dificuldades para a re-inserção no mercado. Açúcar Ético 20 Faseologia da cana-de-açúcar no Brasil. Fonte: Adaptado de Belik et al (1998) Estratégias competitivas: Aprofundamento da capacitação visando uma melhoria na qualidade e buscando a redução de custos. Diversificação na produção para diferenciação e agregação de valor. O número de destilarias autônomas diminuiu visto que atualmente elas trabalham de forma integrada com uma produção mais diversificada. Como exemplo existe a Nova América, uma reunião de empresas integradas, onde os resíduos são utilizados dentro da própria empresa em outros processos da produção. Volta do capital estrangeiro ao Brasil. Basicamente capital francês, nas regiões centrais. Fusões de empresas nacionais, que trazem benefícios à escala de produção. Surgem assim os “pools” de comercialização, onde 5 grandes grupos dominam o mercado e trabalham juntos para compras de materiais. As usinas cooperam entre si em grupos menores. Açúcar Ético 21 Apresentação de dados do mercado. Concentração Econômica da Agroindústria. % da produção A auto-gestão. Através da CONSECANA, houve a tentativa de regularizar as usinas com seus fornecedores, bem como esclarecer as muitas dúvidas sobre o processo de produção e a fixação do preço da cana. Apresentam dificuldade de coordenação de investimentos e expansão. Problemas, também, de administração, visto que o setor está usando diferentes estratégias. Existe uma desconcentração técnica e concentração de capitais. Market Share das Principais Marcas de Açúcar Refinado Açúcar Ético 22 Panorama interno. As vendas de carros FLEX e o conseqüente aumento da produção de etanol refletiram nos preços, mas os riscos de 89 e possível perda de credibilidade devem ser considerados. Existem também os problemas ambientais, como proibição de queimadas, utilização de vinhoto (altamente tóxico podendo atingir lençóis freáticos) como fertilizante, liberação de ozônio e utilização do bagaço como fonte energética. Panorama externo. Outros países demonstram maior interesse pelos biocombustíveis. Mas o otimismo exagerado quanto ao mercado externo gera expectativa interna que pode não se concretizar. Levando a discussão sobre questões da OMC que não foram solucionadas. Inserção sustentável. O setor sempre envolvido com denúncias e os seus problemas de mercado de trabalho e meio ambiente podem tornarse barreiras não tarifárias, levando a queda da dinâmica interna. 10h35 – Sebastião N.R. Guedes. Coordenador do Departamento de Economia da Unimep, Piracicaba. Mercadorias fictícias Economicamente falando, existem três fatores que consideramos: a terra, o trabalho e o capital, que representam as mercadorias fictícias. No capitalismo (economia de mercado) o primeiro elemento, a terra, incluindo assim, a natureza, as árvores e os animais podem ser convertidos, com a transformação em mercadoria e a constituição de mercado de terras, conversão de terras comuns em terras privadas (rurais e fortunas). O segundo elemento é o trabalho que convertido em mercadoria, não representa apenas a força de trabalho, mas a análise das sub-atividades do trabalhador que constituem o mercado de trabalho. Terceiro: capital e moeda. Todos esses elementos reagem de maneira desorganizada e necessitam de regulamentação via Estado, com a mediação de leis, normas e portarias (legislação). Esse entendimento é necessário para compreensão da agroindústria. O enforcement é a capacidade de fazer a cumprir. A agroindústria não se organiza apenas segundo o modelo brasileiro. A indústria sucroalcooleira no Brasil é semi-integrada, a usina produz, mói e beneficia. Na Índia e Austrália, as atividades de produção da cana são realizadas apenas por fornecedores, as usinas são responsáveis pela parte industrial. A legislação desses países proíbe as usinas de produzirem cana. Açúcar Ético 23 A regulamentação tenta definir quem, como e por que. Para entender como o capital, terra e trabalho afetam o mercado. A instituição da propriedade privada da terra no Brasil, que inicialmente era feito pelo sistema de doação, o sistema de uso e acesso não era via mercado, mas via as benesses do mercado patrimonial português. Em 1850, a instituição da Propriedade Privada Plena permite a compra e venda de terras. A capacidade regulamentar passa para os estados e sofre várias mudanças ao longo do tempo. No inicio do século XX (1994), Turner afirma que “As fronteiras americanas acabaram”. Terras ou eram públicas ou privadas. Atualmente, no Brasil, pesquisa do INCRA não consegue definir o que são as terras públicas, levando a dificuldade de definir quais seriam as privadas. Essa é uma das causas dos conflitos fundiários, pois a estrutura necessita regulamentação efetiva. Falta do enforcement. Direito de uso e abuso sobre a terra. Em 1964, cria-se o Estatuto da Terra. A lei de terras ainda é válida enquanto a terra é utilizada, enquanto ela esteja sendo produzida. Sujeita à utilização e a domínio social. Liberdade de uso da propriedade privada. Existem assim as leis que limitam o direito de propriedade, de uso e abuso, como por exemplo, a proibição de queimadas, as leis trabalhistas. Como características do mercado de terras no Brasil, podemos citar a concentração fundiária, mas com mercado dinâmico e flexível (correspondem a 5% das trocas de mercado no Brasil). Mas possuem problemas de regulamentação e alto custo da terra. Área Cultivada de Cana no Estado de São Paulo Açúcar Ético 24 Na análise da área cultivada de cana no estado de São Paulo, em 5 anos a área de plantio de cana aumentou em 5%. Mostrando uma capacidade de expansão elevada no Brasil, se comparado à Índia e à Austrália. No mercado de trabalho, existe a conversão do homem em uma mercadoria que reage rapidamente, visto a possibilidade de regulamentação: CLT (1943), Estatuto do Trabalhador Rural (1963). Lei no 5.889 (1973), revoga ETR e regulamenta a lei do trabalhador permanente. Lei no 6.019 (1974), trabalhador temporário urbano. Lei no 9.601 (1998) sobre o trabalho por tempo determinado e Portaria 1964 (1999), Consórcio de empregados. Pouca formalização das relações de trabalho. Sobre as características da força de trabalho, há uma elevada mobilidade e rotatividade, com baixa formalização (mas com aumento nos últimos anos) e baixos salários, se comparados a outros trabalhadores rurais. Numa análise dos trabalhadores volantes no estado de São Paulo, houve um aumento percentual e quantitativo desde 2003 a 2005. O dinamismo na agricultura resulta num aumento do mercado de trabalho. Trabalhadores Volantes Empregados em Atividades Agrícolas no Estado de S. Paulo e % de Trabalhadores Residentes O número de fornecedores em Ribeirão Preto aumentou nos últimos anos, conseqüentemente a quantidade de cana entregue também. A escala média aumentou. Conclui-se que os fornecedores ativos são 60% dos produtores sendo que 40% arrendam terras. Açúcar Ético 25 INDICADORES DE DESEMPENHO DOS FORNECEDORES DE CANA DO ESTADO DE SÃO PAULO E DA MICROREGIÃO DE RIBEIRÃO PRETO – MÉDIAS DOS TRIÊNIOS 1983-1985, 1990-1992, 2002-2004 Conclui-se que existe a necessidade de estruturação e regulamentação dos mercados de terra e trabalho, de dinâmica econômica, dos problemas tecnológicos e ambientais, das relações de trabalho, da relação do subsetor dos fornecedores de cana. 11h20 – Isaias de Carvalho Macedo, ÚNICA, UNICAMP, Campinas-SP Aspectos da sustentabilidade da produção de cana-de-açúcar, açúcar e etanol no Brasil Dentre os princípios da declaração da Conferência no RIO, destacase o tripé: social, econômico e ambiental. Os horizontes da cana-de-açúcar são os impactos nos recursos naturais pertinentes à cana-de-açúcar, relacionados à energia, à água e aos materiais. Impactos relacionados ao ar, ao clima, às pragas e doenças, ao uso de agrotóxicos e fertilizantes, ao solo e a biodiversidade. Impactos da produção em ações comerciais e impactos socioeconômicos, incluindo relações de trabalho. Impactos no uso de energia. Há o esgotamento do uso de energia e aumento da poluição pelo uso cada vez maior de energia, especialmente de combustíveis fósseis poluentes. Na cana, existe uma imensa produção de biomassa, que pode ser utilizada como fonte de energia, sendo a Açúcar Ético 26 indústria auto-suficiente, mas que no momento, produz excedente. O álcool está penetrando no setor de combustíveis fortes com potencialidade, sendo investigado pelo mundo inteiro. Contexto mundial: esgotamento das reservas de petróleo; aumento da demanda por energia; aumento na poluição local e global • A indústria da cana-de-açúcar é auto-suficiente e produz excedentes de energia; os totais são: 9,7 TWh energia elétrica + mecânica (3% da eletricidade no Brasil) 17,5 M tep de bagaço (equivalente a todo o GN + óleo combustível) Etanol (~ 40% do ciclo Otto); • Potenciais atingíveis, com tecnologias comerciais e a mesma produção de cana: mais 30 TWh eletricidade ou 40% mais etanol (dos resíduos); • Para cada 100 Mt cana adicionais: + 3,8% da demanda de eletricidade atual, e + 4,9 M m3 etanol (com 52% da cana para etanol). Impactos na utilização de materiais. Existe a utilização de fertilizantes, de ferro no processo de transformação, mas este produz também fontes de materiais renováveis. Há o potencial, mas com pequena implementação, pois atualmente, a energia provinda do papel e celulose é vista como tendência. Agricultura: fonte de materiais renováveis • Cana-de-açúcar no Brasil, 2004: 55 M t sacarose; 100 M t material celulósico (50% “perdido”); • Produtos derivados da sacarose podem usar 1.5 M t sacarose / ano, nos próximos anos (amino ácidos, ácidos orgânicos, sorbitol, extratos de leveduras, plásticos); • Produtos derivados do etanol: nos anos 80, + de 30 produtos. Impactos no clima global (emissões de GEE). Taxa de substituição dos combustíveis fósseis. O processamento do etanol é feito com base no Açúcar Ético 27 bagaço, sendo mais vantajoso que o álcool de milho, que utiliza carvão e outros combustíveis no processo produtivo. No mesmo caso, temos a beterraba que também utiliza combustível fóssil em sua produção. O primeiro grande resultado da produção de etanol consistiu na redução de chumbo numa época em que as emissões não eram pensadas. Representando um melhor aditivo na gasolina pelas vantagens trazidas por suas reações. A queima da palha pode causar riscos, apesar de não mensurável e comprovado até hoje e mesmo que não causem doenças crônicas, os seus efeitos incomodam. Os Sindicalistas e os defensores do meio ambiente se desentenderam nessa discussão, pois sem queimadas, haveria diminuição dos trabalhadores pela mecanização exigida. As usinas eram imparciais, pois havia o custo da mecanização. A proposta então é a diminuição gradativa das queimadas para que a mão-de-obra seja absorvida e a mecanização seja implementada. Contexto: há consenso crescente sobre a necessidade de evitar um aumento de aproximadamente 2º C. na superfície da Terra até 2050 (o aumento foi de + 0.6°C, na Era Industrial); conseqüências. • A relação entre a energia produzida (com o etanol) e a energia fóssil usada na sua produção é hoje 8,2. Este resultado extraordinário leva a evitar emissões de GEE equivalentes a 13% do total de emissões do setor de energia no Brasil (base 1994) • Emissões evitadas de GEE em 2004: etanol substituindo gasolina: 27.5mt C02eq. bagaço na produção de açúcar 5.7 MtCO2eq. • Cada 100 Mt cana adicionais evitaria 12.6 Mt C02eq. (etanol, bagaço e eletricidade excedente) Impactos no suprimento e qualidade da água. Geralmente, 80% da água de um país são utilizadas na agricultura. No Brasil, a necessidade de irrigação é menor, sendo, então, analisada de uma forma diferente. A vantagem da cana consiste na não-utilização da irrigação com exceção de casos de urgência. Além disso, existem os Programas de APP (Áreas de Proteção Permanente) aplicados a todos os setores, inclusive a cana. Uso do solo. Um estudo mundial de previsão de potencial de Açúcar Ético 28 produção e consumo até 2050 mostrou grandes potencialidades da América do Sul e África abaixo do Saara, dada possibilidade de expansão nessas regiões. Recuperação de áreas degradadas mostra-se como tendência para preservação das áreas florestais Na recuperação dos solos, a cana apresenta-se mais vantajosa que outros produtos agrícolas visto que as perdas de nutrientes deste são menores. A produção utiliza mais herbicidas que o milho, mas menos pesticidas. As doenças são combatidas com a utilização das variedades existentes, diminuindo assim, a utilização excessiva de agrotóxicos. País grande e sujeito à entrada de pragas mundiais, o Brasil necessita de culturas de variedades fortes, como a cana. Essa é a solução. A capacidade de resistência de melhoramento genético avançou muito. Em 1984, existiam duas variedades, enquanto hoje há uma quantidade enorme de variedades. A formalidade dos empregos na área agrícola atinge 88% em São Paulo. No Nordeste, o custo é menor, pois a oferta mão-de-obra é abundante e a mecanização menor. No entanto, nos dois casos, a cana-de-açúcar é, dentre os setores agrícolas, a que tem os melhores salários, com exceção da cultura de soja (por ser totalmente mecanizada, não exige muita mão-de-obra). Atualmente, expandir cana pelo Brasil é mais fácil em decorrência do elevados salários do setor agrícola. Uso do solo. • Dos seus 850 M ha, o Brasil usa 7% para agricultura; 35% como pastagens, e 55% têm florestas. • A cana-de-açúcar usa 0,6% da área do Brasil (metade para etanol); as áreas consideradas adequadas para a sua expansão (água e clima) correspondem a pelo menos 12% da área do país. • Nas últimas décadas a cultura da cana-de-açúcar cresceu no CentroSul; de 1992 a 2003, 94% da expansão ocorreu em torno das unidades produtoras existentes. O uso dos Cerrados (25% do território) foi relativamente pequeno. Açúcar Ético 29 Fonte: IBGE Estudo mundial de previsão de potencial de produção e consumo até 2050. Potencialidades da América do Sul e África abaixo do Saara, dada a possibilidade de expansão nessas regiões. Recuperação de áreas degradadas mostra-se como tendência pela preservação das áreas florestais. Uso do solo e biodiversidade • O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo; as prioridades para conservação foram estabelecidas principalmente em 1995-2000. • A Mata Atlântica foi em grande parte substituída durante séculos (muito antes das considerações sobre conservação); a utilização dos Cerrados é mais recente, e a expansão agrícola deve ser cuidadosamente planejada para promover a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos. Açúcar Ético 30 Impactos no uso do solo A recente expansão da cana-de-açúcar ocorreu em solos relativamente pobres (pastagens, ou cerrados fortemente antropizados). Ela ajuda na recuperação da qualidade destes solos pela adição de fertilizantes e matéria orgânica, melhorando as suas condições. Para a recuperação dos solos, a cana apresenta-se mais vantajosa que outros produtos agrícolas, pois as perdas de nutrientes são menores. Ela utiliza mais herbicidas que o milho, mas menos pesticidas. Cana-de-açúcar no Brasil apresenta perdas por erosão relativamente pequenas; o aumento do corte de cana sem queimar e técnicas de cultivo mínimo têm melhorado estas condições, levando a perdas comparáveis às do plantio direto em culturas anuais. Açúcar Ético 31 Uso de agro-químicos As doenças são combatidas com as variedades existentes. Sem utilização excessiva de agrotóxicos. Brasil mostra-se grande e sujeito à entrada de pragas mundiais, portanto a cultura de variedades fortes é a solução. Contexto: a legislação brasileira cobre todas as áreas importantes. Devese continuar buscando aumentar os controles biológicos (já importantes) e considerando algumas práticas da “agricultura orgânica”; modificações genéticas da cana são uma promessa. • O uso de pesticidas na cana-de-açúcar é menor que em cítricos, milho, café e soja; o uso de inseticidas é baixo, e o de fungicidas é praticamente zero. • A broca da cana-de-açúcar é objeto do maior programa brasileiro de controle biológico. Tem sido possível reduzir substancialmente o uso de pesticidas com aplicações seletivas. • Cana-de-açúcar ainda usa mais herbicidas que café ou milho; menos que cítricos, e o mesmo que a soja. • Doenças da cana-de-açúcar são combatidas com o desenvolvimento de variedades resistentes. Elas têm sido suficientes para resolver ocorrências graves como as do vírus do mosaico (1920), do carvão e ferrugem da cana (1980’s), e do SCYLV (1990’s), com a substituição de variedades. • Modificações genéticas (na fase de testes de campo) produziram plantas resistentes a herbicidas, carvão, ao vírus do mosaico, ao vírus SCYLV e à broca da cana. Uso de fertilizantes • Entre as culturas no Brasil (área > 1 M ha), a cana usa menos fertilizantes que algodão, café e laranja; é equivalente à soja. O uso também é menor que nas culturas de cana em alguns outros países (a Austrália usa 48% mais). • Um fator muito importante é o reciclo de nutrientes (especialmente K) com o uso integral da vinhaça e torta de filtro. As aplicações consideram as limitações por topografia, ambientais e por tipo de solo. Açúcar Ético 32 • Lixiviação do solo e contaminação de águas subterrâneas com vinhaça devem ser controladas limitando as taxas de aplicação. Por exemplo, uma norma técnica da Secretaria do Meio Ambiente (São Paulo) regulamenta todos os aspectos relevantes: áreas de risco (proibição); taxas permitidas; e tecnologias. Sustentabilidade da base de produção agrícola Capacidade para resistir a pestes, doenças e variações climáticas periódicas. • A proteção contra pestes e doenças é um dos pontos fortes da produção da cana no Brasil: é baseada no suprimento contínuo de variedades resistentes, e nem tanto em barreiras fito-sanitárias. • Os quatro principais programas de melhoramento genético no Brasil trabalham com mais de 2 M seedlings por ano; 51 variedades foram liberadas nos últimos dez anos. As vinte mais importantes ocupam 80% da área, mas nenhuma acima de 12.6%. • Há variedades transgênicas (não-comerciais) desde os anos 90. Resultados comerciais podem surgir nos próximos cinco anos. A capacidade de resistência de melhoramento genético avançou muito. Em 1984, existiam 2 variedades, enquanto hoje há uma quantidade enorme de variedades. Impactos da produção em ações comerciais Açúcar Ético 33 A produção/comercialização precisam de subsídios? • Os produtos da cana-de-açúcar (Centro-Sul do Brasil) não têm mecanismos de suporte de preços; não há subsídios à produção ou comercialização do açúcar. • Os custos de produção do etanol são competitivos com os da gasolina para petróleo a US$ 25-30/bbl. E são muito menores que os custos de etanol de milho (EUA) ou beterraba/grãos (UE), ou os custos (prospectivos) de etanol de celulose. • Os custos de açúcar são os menores do mundo; custos de produção/ exportação são 65% da média dos outros exportadores. • Há boas possibilidades para redução de custos através de diversificação (energia/co-produtos). Alguns impactos econômicos • A substituição de gasolina por etanol entre 1976 e 2004 correspondeu à economia de US$ 60.7 billhões (ou US$ 121.3 bilhões, incluindo juros) em divisas. • A indústria de equipamentos brasileira desenvolveu-se de modo importante; o maior fabricante forneceu 726 destilarias e 106 usinas de açúcar completas, incluindo as plantas de co-geração. • Foram criados empregos para uma ampla faixa de capacitação de mão de obra. Empregos e renda • Comparada à taxa brasileira de empregos formais (45%) a produção de cana-de-açúcar tem uma formalidade de 68,8% (2003, partindo de 53,6% em 1992). No Centro-Sul, a formalidade atinge 82,8 % (88,4 % em São Paulo, 2003). • Regiões mais pobres são caracterizadas por menores salários e um uso muito maior de mão de obra, consistente com a tecnologia empregada (automação, mecanização na lavoura).” Açúcar Ético 34 • O índice de sazonalidade dos empregos na produção de cana foi 2,2 em São Paulo no inicio dos anos 80; 1,8 no final dos anos 80; e 1,3 em meados dos anos 90. • No final dos anos 90 havia 650 000 empregos diretos e 940 000 indiretos (mais cerca de 1 800 000 empregos induzidos). O número de empregos por unidade de produto era 3,5 vezes maior na Região N-NE que no Centro-Sul. • Os empregos formais, diretos estão novamente crescendo (mais 18% de 2000 a 2002), atingindo 764000 em 2002. Os empregos decrescem na agricultura, e crescem na indústria. • No Centro-Sul a renda das pessoas trabalhando na cultura da cana é maior que no café, laranja e milho; mas menor que na soja. No Norte-Nordeste, a renda na cana-de-açúcar é maior que no café, arroz, banana, mandioca e milho; mas também é menor que na soja. Observações Todos os aspectos (econômicos, sociais e ambientais) relevantes para a sustentabilidade devem ser considerados na análise das fontes para o suprimento de energia, e dos usos finais. Os fatores externos devem ser claramente identificados. A agro-indústria da cana-de-açúcar, com sua participação na produção de alimentos e, crescentemente, energia, apresenta alguns aspectos importantes de sustentabilidade. Tem evoluído muito nesta direção, e ainda mostra potencial para melhorar significativamente seu desempenho. DEBATE Edson Dias Bicalho, Diretor da Federação dos Químicos do Estado de São Paulo e representante dos trabalhadores na Câmara Setorial Sucroalcooleira: O primeiro palestrante propôs pensarmos uma solução, penso que falta uma política para o setor em geral: uma discussão junto ao Governo Federal em relação à distribuição do combustível. O setor não tem estabilidade, ocasionando perda de credibilidade no Açúcar Ético 35 mercado nacional e internacional, dado que se pratica um valor na safra e se triplica o preço na entressafra. A câmara setorial vem discutindo a respeito. E como hoje o Banco do Brasil e o BNDES injetam grandes investimentos na mecanização e informatização, necessitamos definir uma política. Hoje, observa-se que as unidades das usinas estão sendo construídas mais distantes das cidades, causando menores problemas pelas queimadas e fuligens. A câmara setorial participou de vários encontros com montadoras, distribuidoras, donos de postos, representantes dos fornecedores de cana e usineiros, porém, não houve qualquer discussão relacionada à política de qualificação de trabalhadores, em virtude da mecanização, para re-inserção no mercado. Maria Cristina Gonzaga, Fundacentro: Em relação ao aumento da formalização do setor através de carteira assinada, você teria algum dado que mostre se os arrendatários dos fornecedores estariam também contratando com carteira assinada? Foi mencionada diminuição no uso de pesticidas, há algum dado acerca dos maturadores de cana? Resposta Sebastião Guedes: Os dados de formalização do mercado de trabalho provêm de pesquisas realizadas pela profa Márcia Azanha (ESALQ). Mostram aumento no mercado agrícola, especificamente no setor sucroalcooleiro. Quanto aos fornecedores de cana há uma grande heterogeneidade regional. Na região de Ribeirão Preto, dentre os dados que apresentei, 72% dos trabalhos assalariados temporários em colheitas são realizados pelas usinas; há um arranjo diferenciado, a própria usina colhe a cana de boa parte dos fornecedores. Dedução: se há crescimento da formalização de trabalho em geral, supomos que as usinas também estariam empregando na colheita parte desses formalizados. Em Piracicaba é diferente; os fornecedores de cana contratam através de terceiros, embora tenha boa parte de pessoas que contratam na safra, ainda é um número pequeno em relação ao total empregado, porque para o fornecedor não é viável financeiramente contratar um trabalhador permanente, para uma colheita pequena, em termos de área e por alguns dias apenas, talvez seja o setor mais penalizado. Em Piracicaba, contrata majoritariamente por meio de terceiros. Resposta Isaías C.Macedo: Talvez não tenha ficado claro com os dados estatísticos cruzados da PINAD, da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais)* dos empregadores, da Unicamp e da ESALQ, um é a pesquisa realizada em domicílio com os trabalhadores dos fornecedores, que revela um avanço do setor. Quanto aos maturadores, neste ano, suponho que eles foram utilizados muito mais pela pressa de antecipar a safra. Sua eficiência é discutível em muitos casos. Açúcar Ético 36 Francisco Alves, Universidade Federal de São Carlos: Em relação à ocupação do Oeste do estado e das áreas de fronteiras, há de se levar em conta a dinâmica do setor, isto é, mão-de-obra barata, terra barata e forte impacto ambiental. Quanto ao subsídio para o setor, não dá para desconsiderar a CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), não mencionada até o momento. Naércio Souza, Fundacentro, MS: Em meu estado, está havendo um implemento de usinas. Vian mencionou a nova geografia que está sendo desenhada. Gostaria de compreender melhor a tendência de migração dos trabalhadores do NE para outras regiões, e sobre a mão-deobra acessível. Alcides Faria, Rios Vivos, MS: Uma primeira questão relacionada ao alimento em expansão para Amazônia e áreas nativas de cerrado, com base em notícias veiculadas pela imprensa, em que o maior empresário do setor de carne no Brasil, está entregando uma fazenda de gado de 11mil hectares em SP para cana, e outras que dizem respeito aos avanços da cana sobre plantações de mamão e abacaxi. Não estaria ocorrendo uma dramática substituição da produção de alimento pela produção de etanol na área de biocombustível? Resposta Carlos E. Vian: Sem dúvida você tem razão, Francisco, o acesso à terra barata e às degradadas de pastos, observando-se as estruturas das usinas instaladas na época do pró-álcool, na região de Araçatuba e Presidente Prudente, muitas tinham como acionistas ex-pecuaristas, que fizeram este primeiro movimento de levar seus bois para o Mato Grosso, onde as terras eram mais baratas e utilizaram as terras para cana. A questão da CIDE com relação à distribuição do álcool também é muito importante, confesso que não me aprofundei nesses estudos. Quanto à mão-de-obra acessível, por exemplo, na região do Oeste Paulista, embora a topografia seja propícia à mecanização, é uma das regiões menos mecanizada, pois havia um certo contingente de trabalhadores que foi empregado, num primeiro momento no corte de cana, e outra parte por migrantes. Hoje, há no Pontal do Paranapanema arrendamentos de terras que eram de assentamentos para a produção de cana, com relativa importância em alguns casos. Por exemplo, na região de Piracicaba há acordos entre as usinas e as prefeituras para tentar contratar mão-de-obra da região em vez de trazê-la de outros estados. Como há um horizonte relativamente grande de mecanização total da cana, também há a importância do uso da mão-de-obra, que é um pouco diferenciada em cada região, dada a disponibilidade. Para complementar Açúcar Ético 37 a questão, pois conheço os dados e participei do trabalho junto com a Márcia, nos dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) e da PINAD, nota-se que o nível de formalização é maior no estado de SP, em comparação com outras regiões. Têm-se situações regionais bem diferenciadas, mas há uma tendência de melhoria da formalização. A maior brecha em relação à avaliação do mercado de trabalho relaciona-se às condições de trabalho, pois não se avalia pela RAIS ou PINAD. É preciso desenvolver outra metodologia de pesquisa de campo. Resposta Isaías C.Macedo: Com relação à CIDE, quando falei sobre subsídios mencionei também que seria preciso maior tempo para abordar, pois a base é a seguinte: hoje, há gás natural veicular com preço arbitrário, sem relação com o custo, há diesel mais barato que a gasolina sem nenhuma razão técnica para isso e existe diferença na CIDE e diferença regional. O que não temos: uma política nacional estável com relação ao combustível em líquido, ou seja, à energia como um todo; a primeira intervenção aqui, hoje, se referiu a isso. É preciso acertar essas distorções primeiramente. Veronika Heering, Cônsul Geral da Holanda: Sobre desafios da indústria, parece-me que o primeiro é, no caso do etanol, atender a demanda em crescimento no Brasil e no mundo. Pergunto, qual a solução desse desafio, seria o crescimento mais rápido da produção brasileira, com impactos ambientais em níveis aceitáveis ou a exportação para outros países como a África ou ainda uma combinação de ambas? Mario Cardoso, Ministério do Meio Ambiente: Vian, mantendo a tendência da distribuição de cana pelo Brasil entrando mais para o cerrado, qual a perspectiva do setor sucroalcooleiro no Nordeste? Pedro Ramos, professor da Unicamp: Três questões, prof. Vian, você entende que a estrutura da produção de cana, açúcar e álcool no Brasil é sustentável do ponto de vista social e ambiental. Sebastião, entendo que o mercado interno e de trabalho no Brasil é extremamente antidemocrático, porque o nível salarial no Brasil não permite que grande parte dos trabalhadores tenha acesso à terra. E ao Isaías, se ele entende que a cana paga os melhores salários da indústria agro-pecuária brasileira, porque o faz à custa da exaustão, da vida e da saúde dos trabalhadores, cf. vem se constatando nos últimos anos pela elevada produtividade do trabalhador nos canaviais de São Paulo. Resposta Isaías C.Macedo: Quanto ao nível de produção brasileira: é possível aumentar de forma sustentável, como também no caso da África neste setor e em outros. Mas não considero o álcool como um combustível Açúcar Ético 38 universal e creio que nenhum produtor considera como substituto do petróleo; o álcool irá fazer uma parte desse trabalho. Acredito que o álcool no mundo tem futuro a partir do momento em que o hemisfério norte conseguir produzir álcool de hidrólise, de material celulósico em grande quantidade economicamente; com este desenvolvimento conseguiremos produzir álcool mais barato e será uma commodity universal, sem isso o álcool permanece restrito, não temos nenhuma ilusão. O Brasil pode aumentar a produção, sustentável sim, porémhá limites, como a África também. Mas queremos mais álcool do mundo inteiro e álcool de celulose, de resíduo. Quanto aos salários, a afirmação não é minha, mas são dados revelados pelo PINAD e RAIS, que indicam que o nível de salário da indústria da cana, com exceção da soja, é o mais elevado; são dados oficiais brasileiros, no Nordeste quanto no Sudeste, em níveis diferentes. Se isso é obtido à custa da exaustão do trabalhador, eu coloco uma questão, também, com relação a muitas outras atividades no Brasil. No caso da cana, creio que está sendo estudado, uma vez que aumenta o interesse em relação a tudo o que está relacionado à cana. Há vários grupos trabalhando nesta direção e dentro de algum tempo teremos respostas. No entanto, não saberia fazer uma comparação entre o setor sucroalcooleiro e outros setores como a construção civil, para afirmar qual seria ou não o pior. Resposta Carlos E. Vian: Com relação ao futuro da cana no NE, pode se pensar numa certa estabilização. Há um trabalho recente acerca da indústria no NE, feito pelo orientado do Prof. Pedro, no qual se constata que a cana teve migração em determinadas áreas mais planas no NE, propícias à tecnologia atual, e cada vez mais percebe-se que a expansão dos grupos nordestinos não está ocorrendo no NE; o investimento recente é no Centro-Sul, seja na antiga região de Campos no RJ, que está crescendo novamente em virtude sobretudo da proximidade do porto do que talvez por outros fatores, no Triângulo Mineiro, Mato Grosso e nas regiões novas de São Paulo. Portanto, no mínimo, poderíamos pensar em estabilização. Os dados mostram que até agora, e continuamente, o NE tem perdido participação na produção de cana, açúcar e álcool. Na minha opinião, falta política para essas outras áreas, quais as atividades que vão ser desenvolvidas, pois temos uma política referente aos movimentos históricos, como p.ex. a de evitar que falte álcool, porém falta discutir fortemente algumas questões. Há anos, tivemos a iniciativa de câmara setorial em SP, na qual participei em alguns momentos, e não funcionava, Açúcar Ético 39 devido à ausência de participantes dos trabalhadores ou dos usineiros; no entanto, seria um espaço para discussão de política de sustentabilidade e outras. Quanto à pergunta do Pedro, historicamente o setor não foi socialmente efetivo. Ambientalmente talvez não haja dados, pois estão envolvidos outros fatores como a degradação de outros setores com relação à promoção do desenvolvimento. Há uma série de progressos em relação ao acesso a terra, p.ex., como Sebastião colocou, porém ainda não é efetivo, pois está relacionado à nossa trajetória histórica. Para a Austrália, talvez seja mais efetivo gerar desenvolvimento social a partir da produção de cana, no entanto, existe uma regulamentação de acesso a terra e trabalhistas que nós não temos, a não ser alguns embriões. Espero uma reversão de nossa trajetória e gostaria que não fosse feita por questões de mercado como se observa ultimamente; na ESALQ temos seminário em que se discute a mecanização do corte e outros fatores sociais, se a discussão se efetivar em escala nacional, teremos a garantia de um mercado externo melhor em algum tempo. Resposta Sebastião Guedes: No decorrer de minha fala, não fiz uma reflexão aprofundada sobre alguns mercados, apenas quis caracterizar que os dois mercados não têm sido obstáculo ao padrão de crescimento da agroindústria; ao contrário, o mercado de terras tem sido um fator importante para garantir a mobilidade e a plasticidade da agroindústria. Apontei rapidamente a alta concentração, o preço elevado da terra, o qual é obviamente uma barreira para entrada de novos produtores. Não me ative à exclusão do acesso a terra, mas mostrei que o mercado de terras não tem sido obstáculo para expansão atualmente. Tarde – Cana: açúcar e álcool, quais impactos sociais? 13h58 – Maria Cristina Gonzaga, Divisão de Ergonomia, Fundacentro. Segurança no trabalho, acidentes de trabalho e equipamentos de proteção (EPI) no corte manual de cana-de-açúcar Sou pesquisadora da Divisão de Economia da Fundacentro. Trabalho com os cortadores de cana a aproximadamente 12 anos, de forma ativa junto ao movimento social representado pela Feraesp (Federação dos Empregados Rurais Assalariados) e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais Açúcar Ético 40 de Araraquara. O que irei expor foi realizado junto com a Feraesp. Inicio falando sobre as atividades dos cortadores que é banhada por sangue, suor, dor e sofrimento, por diversos fatores, mas para entrar em minha temática, irei apontar como isso não se constata via estatísticas brasileiras e mundiais, sobre segurança, saúde e trabalho. Legalmente, acidente de trabalho é aquele que ocorre dentro ou fora do ambiente de trabalho, com lesão corporal ou disfuncional, caracterizados como acidentes típicos, em três categorias distintas: os que ocorrem durante a jornada de trabalho; acidente de trajeto no translado residência/trabalho/residência; e doenças relacionadas ao trabalho. Os dados da OIT, 2002 destacam uma sub-notificação mundial; ou seja, os países mais ricos, que possuem melhores controles de registro, registram mais, enquanto países pobres, com formas de controle precárias, registram menos. Países que menos registram: Brasil, México e Ásia, com menos medidas de segurança. No Brasil, registra-se 30% de acidentes mortais e 4% de acidentes de trabalho em média, enquanto Ásia registra 0%. Países que mais registram acidentes: Finlândia, Alemanha e França registram acima da média estimada pela OIT, aproximadamente 130%. Açúcar Ético 41 Registro de acidente de trabalho é efetuado no Brasil através do CAT (Cadastro de Acidentes de Trabalho), e refere-se aos trabalhadores com registro em carteira de trabalho, os que não possuem registro não têm direito ao CAT. Dentre os registros do setor formal, excluem-se os funcionários públicos, estatutários e civis, militares, produtores rurais, garimpeiros, pescadores, empresários, religiosos; ou seja, registros de acidentes no Brasil atingem em média 20% da população. Por isso a diferença com a OIT, que considera a população ocupada economicamente no mundo, e o Brasil não leva em consideração os trabalhadores do mercado informal e as categorias de trabalhadores mencionadas. O sistema de informação da Previdência Social deveria, teoricamente, atingir 50% da população ocupada economicamente. Em relação ao mercado informal, equivale a quase 50% da população economicamente ativa, não há nenhum tipo de controle. Alguns motivos para a não emissão do CAT: empresas não têm interesse em responsabilizar-se, seja em função de impostos ou penalizações; trabalhador desconhece direitos em relação ao registro de acidentes de trabalho; precariedade da perícia da Previdência Social, sobretudo em relação à doençaocupacional em que é necessário comprovar a doença e estabelecer um nexo causal entre doença e trabalho; trabalhador afastado por doença ou acidente detrabalho tem estabilidade de emprego por um ano e garantia de recebimento do FGTS enquanto estiver afastado; trabalhador afastado por doença comum pode ser demitido após seu retorno, sem direito ao FGTS no caso de trabalhadores informais; custo do trabalhador afastado por doença ou acidente de trabalho é maior que o trabalhador sumariamente demitido. Dados da CNAE (Classificação Nacional das Atividades Econômicas) e Dataprev (Banco de Dados da Previdência Social) indicam que, dentre as atividades agrícolas de São Paulo, a cana-de-açúcar é causa de muitos acidentes. Acidentes do trabalho (%) na Agricultura São Paulo CNA e/ Dataprev (2000-2004) CNAE: Classificação Nacional das Atividades Econômicas DATAPREV: Banco de Dados do Instituto da Previdência Social Açúcar Ético 42 Causas de desligamento dos trabalhadores da cana por CNAE (1995) em São Paulo – RAIS 2003 CNAE: Classificação Nacional das Atividades Econômicas DATAPREV: Banco de Dados do Instituto da Previdência Social No Brasil, registro de um caso de acidente e zero no estado de SP, em 2003, nenhum justificando doença de trabalho. O estado de São Paulo não notifica, alguns dados (Dataprev, por CNAE e Código Internacional de Doença) apresentam índices baixos de ocorrência em 2003. Questiono onde estão os registros, pois zero é impossível. Em acidentes com o corte manual de cana, o principal agente causador é o facão e há alto índice de esforços repetitivos. Segundo quadro de casos analisados, o período em que os cortadores mais se acidentam é 3 horas depois do início da jornada de trabalho. Apresentação da avaliação de trabalho focado na ergonomia dos EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), e ferramentas no corte manual de cana, realizado pela Fundacentro, juntamente com o Sindicato dos Empregados de Araraquara e Única. Na ergonomia, tarefa consiste no que é prescrito pelo empregador e a atividade é o que é realizado. O trabalho apresentado é baseado na metodologia de análise quantitativa e qualitativa. Entrevistas estruturadas, observação de campo, e análise de EPIs. Açúcar Ético 43 A tarefa prescrita dos cortadores de acordo com ISO-9002, equipados de facão e todo o conjunto de EPI e inúmeras outras prescrições que não consideram as condições reais (tipo de cana, declives do terreno, ritmos intensos imputados, movimentos executados etc.). Foi efetuada também a distribuição entre homens e mulheres do grupo, para ampliação dos dados. Legalidade do EPI no Brasil: CLT determina o fornecimento do EPI gratuito e adequação ao risco. Norma Regulamentadora rural anterior, pois hoje há outra em vigência, prescrevia uso obrigatório do EPI e demissão por justa causa em caso de não utilização. Iniciei este estudo porque um trabalhador foi demitido por justa causa por não usar perneira de proteção e, quando passou por exames, os joelhos estavam lesionados em decorrência do uso das perneiras, e acabou sendo readmitido. A aceitação dos trabalhadores durante entrevistas com trabalhadores revela que os EPIs protegem e também atrapalham: Aceitação do uso dos equipamentos de proteção individual. Fte: GONZAGA (2002) No caso das luvas, atrapalha; os óculos provocam tontura e dor de cabeça, o tamanho é padronizado, e as folhas da cana cortam os olhos mesmo quando utilizados. Existe resistência na utilização, pois embaçam e atrapalham a visão; a perneira de proteção esquenta, escorrega e machuca, especialmente em curva de nível, pois dificulta a curvatura dos pés e lesiona o metatarso; é fornecido apenas um par de sapatos de segurança, que precisam ser utilizados todos os dias, molhados por chuva ou suor; as luvas de raspa de couro são inadequadas e não aderem ao cabo de proteção, com risco de acidentes, e com asacarose tornam-se inflexíveis, Açúcar Ético 44 provocando dormência nas mãos, dor nos braços e na coluna lombar. Há a alegação de doença de trabalho, pelas condições e jornada. Problemas osteomusculares já que o atrito das luvas e cabo do facão aumenta a carga de força. Quantidade de benefícios concedidos para lesões de mãos e punhos, segundo CID –10 por CNAE- ano 2003. Fonte: Instituto da Previdência Social - Informar (2005) CNAE: Classificação Nacional das Atividades Econômicas Acidentes de Trabalho – Corte Manual da cana 1. Principal Agente Causador – facão (GONZAGA et al 1996, 2004; CORRÊA et al. 2004; TEIXEIRA e FREITAS, 2003). 2. Partes do corpo atingidas: dedos da mão (84,8%), perna (91,8%), mão (75%), pé (62,8%) e dedos do pé (97,1%) (GONZAGA et al 1996, 2004). Açúcar Ético 45 3. Doenças do trabalho: lesões por movimentos repetitivos: 47,14% (TEIXEIRA e FREITAS, 2003) 4. Lesões: lesões e ferimentos membros superiores e inferiores (48,4%), lesões oculares (9,6%), tendinites(7,6%), lombalgias (4,6%), entorses (4,5%), contusões (4,1%) (GONZAGA et al 1996). Testes realizados em luvas seguem a NBR 13712 ABNT e a EN388 da Comunidade Européia, e medem a qualidade do material e a resistência a cortes, desconsiderando conforto, tamanho, atividade etc. Foram realizados testes com três pares de luvas de diferentes materiais para cada trabalhador. A lesão se inicia com o atrito estático, além do dinâmico. A melhor luva de proteção, segundo os trabalhadores, é de raspa de couro e nylon, considerando que a melhor e a pior têm o mesmo certificado deaprovação do Ministério do Trabalho. Fatores decisivos para a escolha: ajusta melhor à mão, sem prejuízo dos movimentos, melhor costura interna (pequenas) e maciez, mas escorrega no cabo do facão. Portanto, para melhorar o nível de produção é necessário adequar os equipamentos e todas as ferramentas de forma mais eficaz. O certificado de aprovação do Ministério do Trabalho desconsidera qualidade, conforto, adequação à atividade e a medida dos corpos dos trabalhadores. DEBATE Naércio Souza, Fundacentro, MS: Em seu estudo junto aos trabalhadores percebe-se uma parcela ativa de mulheres. Existe uma diferenciação com relação aos homens? Resposta: Normas não prevêem diferenciação. Os EPIs e ferramentas são todos do mesmo tamanho, a barraca de uso sanitário é de uso comum, não há critérios de diferenciação ou de proteção às mulheres. Erivelton Fontana, engenharia de produção da Unimep: Houve barreiras em relação à recepção dos produtores? Resposta: O sindicato acordou recepcionar mediante um acordo tripartite formalizado. Também é necessário um forte movimento de trabalhadores. Pedro Ramos, prof. Unicamp: Com relação ao corte da cana queimada, diria que é algo pré-escravagista. Diante de dados não confiáveis Açúcar Ético 46 em virtude de inúmeras variantes, não seria necessário globalizar também os dados de organizações internacionais e qual a posição da OIT? E quanto à fragilidade dos sindicatos? Resposta: A federação com a qual trabalho é muito forte. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Araraquara tem um movimento organizado. Você se referiu ao corte da cana queimada, que já é duro, a crua é bem pior. Por isso quando se discute parar a queimada pela tragédia que se vê, é preciso conseguir para os trabalhadores subsídios, pois a queima da cana favorece o corte. O corte da queimada é mais produtivo e fácil. Quanto à precarização, esta é mundial, há uma sub-notificação de acidentes. Os países mais pobres são mais precarizados: 4 % de registro no Brasil e 0% na Ásia e África revelam que a precarização do trabalho vem junto com a globalização. Juliana Andrade de Oliveira, socióloga da Fundacentro: Gostaria de ouvir algum representante da mesa da manhã, pois acredito que há conflito entre dados. De manhã, declararam maior formalização da força de trabalho e melhores condições de maneira geral do setor da cana, seria um dos mais avançados tecnicamente dentre o setor agrícola. Queria saber por que essas técnicas não estão chegando às condições de trabalho, pois me parece que as apontadas pela Cristina seriam simples de serem implementadas. Resposta: Infelizmente, os palestrantes não estão presentes. A Unicamp apontou dados de melhoria através de indicadores, porém não capta informações mais específicas em relação à precariedade das condições de trabalho no corte. Aparecido Bispo, diretor Sindicato Trabalhadores Rurais de Andradina: Andradina é uma das cidades para onde as usinas estão migrando na região de Araçatuba. A fiscalização ainda é insuficiente e encontraram parte de trabalhadores sem registros. Em relação à questão ambiental, gostaria de mencionar oportunamente. Na região há perseguição ao sindicato pela polícia para que não acompanhe a fiscalização, a empresa bloqueia o acesso aos trabalhadores. Houve melhoria das condições dos trabalhadores na empresa que foi objeto de sua pesquisa? Resposta: Algumas mudanças, tais como: o formato das perneiras e outros equipamentos, mudança autorizada referente aos procedimentos ISO-9002, adotando-se a entrada lateral do trabalhador e não frontal no leito constituído de cinco ruas, e que no procedimento exigido anteriormente pelo fiscal de campo os trabalhadores corriam risco de Açúcar Ético 47 receber sanções, mudança no formato do ângulo do facão, que antes era reto e passou a ser curvilíneo, facilitando o trabalho; o corte e o desponte conjunto; embora não seja EPI, aumentaram a produção e diminuíram o desgaste dos trabalhadores. Ezio Gomes, Deser, Curitiba-PR: O uso dos equipamentos de proteção pelos cortadores de cana causa lesões, assim como a não utilização. Você sugere, nesse estudo, alternativas de equipamentos. Minha questão é se você conseguiu identificar a relação entre jornada excessiva e utilização dos EPIs? Resposta: Francisco Alves irá abordar a questão. 15h02 – Dr. Francisco Alves. Professor do Departamento de Engenharia da Produção, UFSCar, São Carlos. Migrações e mecanização: evolução da identidade dos bóias-frias Para falar dos trabalhadores assalariados rurais é preciso fazer uma retrospectiva histórica. O fim da escravidão no Brasil não acontece e sim a substituição, o coronelismo, a parceria, um conjunto de formas de sujeição dos trabalhadores aos proprietários de terra e que praticamente “eliminam” a escravidão negra, poderíamos dizer, que a partir de 1888 a escravidão tenha se tornado talvez mais democrática no sentido étnico. A categoria dos trabalhadores assalariados rurais vai se constituir muito tempo depois com a modernização e a tecnificação da agricultura e com que características? É o trabalhador assalariado que será expulso das propriedades onde morava até a década de 50-60, momento em que inicia o processo de tecnificação; é expulso e será contratado como trabalhador volante para cumprir determinadas tarefas. A partir daí, criase a categoria, tornando-se assalariados rurais, volantes e temporários, necessários apenas nos momentos de pico de utilização força/trabalho, fundamental no momento do plantio e do corte de cana. Nos tratos de culturas é utilizado um número menor de trabalhadores, por ser motomecanizados ou químicos em sua maioria. Portanto, o trabalhador será assalariado porque sua reprodução depende do salário que ganha; é por tempo determinado porque irá ser contratado para tarefas específicas e não para todo o ciclo produtivo; e é volante porque irá trabalhar para diferentes propriedades ao longo do ano agrícola, realizando diferentes atividades. Esse é o processo de constituição desta categoria, porém o conceito de identidade somente é compreensível se Açúcar Ético 48 acompanharmos as lutas desses trabalhadores, pois identidade só se dá com luta, é exatamente das lutas que surge os direitos trabalhistas. Ou seja, direito trabalhista ou melhorias das condições de trabalho não é dado por decreto a ninguém. Analisando, por exemplo, o processo de trabalho como engenheiro de produção, diz-se que o engenheiro faz melhorias. No entanto, as melhorias sempre vêm por um processo de luta dos trabalhadores, e, evidentemente em se tratando de cana, não dá para se pensar em boas condições de trabalho, pois se fosse não haveria necessidade de EPIs. Só utiliza EPI quando a atividade é realizada em más condições e é lesiva ao trabalhador. Contudo, o próprio EPI também é resultado do processo de luta. Se olharmos para esse Brasil canavieiro, encontraremos contrastes, como pudemos ver nesta manhã, quando foi mencionado o processo de crescimento do plantio de cana na região Centro-Sul do país (SP, sul de Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás), com grupos nordestinos. Se visitarmos, por exemplo, às usinas do NE, encontraremos trabalhadores cortando cana de bermuda e sandália havaiana, enquanto, na região Centro-Sul, utiliza-se os EPIs, também produto da greve de trabalhadores de Guariba em 1984. Nas lutas dos trabalhadores é que ocorre a constituição de identidade dos trabalhadores assalariados e, em decorrências dessas lutas que alguns direitos chegam efetivamente aos trabalhadores da cana, embora já estivessem na legislação trabalhista da década de 30. Em 1943, ocorre a consolidação dessas leis, e chega aos trabalhadores do campo na forma de Estatuto do Trabalhador Rural apenas em 1964. No entanto, só chega efetivamente aos trabalhadores no processo de luta que vai ser o resultado da greve dos trabalhadores de Guariba, ao conseguirem contrato de trabalho direto das usinas, sem a intermediação dos “gatos”, que são os empreiteiros de forças de trabalho, cujas funções, dentre outras é também fiscalizar os trabalhadores. Grande parte desses são remunerados pela produtividade, por turnos. Uma parcela dos gatos passou a ser funcionários das usinas, mas são eles que organizam os turnos de trabalhadores. Outra grande conquista da greve de Guariba, que inclusive foi o mote principal da greve, foi o retorno do corte de cana em 5, em vez de 7 ruas. Outras conquistas: fim de semana remunerado, recebimento gratuito de EPIs, da barraca sanitária e dos facões e limas fornecidos pelas usinas, que, até aquele momento, eram usados por conta própria, Açúcar Ético 49 embora já constassem na legislação trabalhista, sequer o Governo fiscalizava ou obrigava o cumprimento pelas usinas. Ou seja, a partir do processo de lutas, o que estava na legislação trabalhista chega efetivamente ao campo. O pagamento por metro de cana só obteve êxito com a greve de 1986; a produção, que era paga por tonelada, passa a ser por metro de cana, possibilitando ao próprio trabalhador controlar sua produção diária e seu ganho. Entretanto, as usinas não aceitaram, alegando que todo o cálculo de produção era por tonelagem. Não conseguiram o pagamento por metro, apenas que fosse utilizada a conversão de tonelada de cana em metros, efetuada pelas usinas e sem nenhum controle dos trabalhadores. O que significa que nem todas as conquistas foram bem sucedidas na década de 80, as principais foram a chegada dos direitos trabalhistas no campo e o aumento significativo do salário com piso salarial de 2,5 salários mínimos, que convertido para hoje equivaleria a R$ 930,00 aproximadamente. Porém, hoje,em algumas localidades do estado de São Paulo gira em torno de R$ 410,00. Este é o piso salarial da categoria hoje. Ao compararmos os dados do crescimento da formalização com outros dados, tem-se a impressão de que está ocorrendo uma modernização gradativa do setor, atingindo todas as fases do processo, e que está beneficiando os trabalhadores e o meio ambiente. E minha avaliação do setor é exatamente o contrário, pois chega às raias da esquizofrenia, é dicotômico, pois faz uso das tecnologias mais avançadas de um lado, em termos de agricultura de precisão etc; do outro, o que há de mais atrasado do ponto de vista das relações de trabalho e da preservação do meio ambiente. Em decorrência das mobilizações da década de 80, tem início o processo de mecanização do corte com a cana queimada, no estado de São Paulo; ou seja, não com o corte da cana crua que realmente melhoraria as condições de saúde e meio ambiente. A partir da década de 90, ocorre redução no nível de organização das lutas dos trabalhadores assalariados rurais e, em geral, impulsionada por uma maior mecanização, maior desemprego no campo e em geral, e também por um aumento da pressão do Estado contra o movimento sindical. Tem-se, portanto, uma redução do poder de organização dos movimentos de trabalhadores. A partir da década de 90 e do ano 2000, para se manter empregado, o trabalhador deve produzir, no mínimo, 10 toneladas por dia, que em Açúcar Ético 50 1980 eram 6 toneladas produtividade média/dia, e o piso salarial que corresponde, hoje, ao salário base de R$ 410,00 se não cortar cana; caso corte, recebe por produção, em medida da conversão de toneladas em metro não linear, mas em área (constituída de cinco ruas, sendo que, cada uma tem 1,50m de distância da paralela, e o comprimento varia de acordo com a produtividade/dia, equivalente a 7,5m de superfície). Antes os trabalhadores, trabalham mais e ganhavam menos com o corte de cana em sete ruas, pois havia uma economia de combustível diesel do caminhão e das máquinas de coleta, embora seja um setor produtor de açúcar, de álcool, ou seja, em que todas as máquinas agrícolas são movidas a diesel, que permitia uma economia de 30% de redução no custo de produção. Portanto, quando reivindicaram cinco ruas foi para ter um menor desgaste e um rendimento maior, porque cortariam mais metros lineares e menos larguras. E o que não conseguiram ganhar, porque o pagamento ainda é a tonelada convertida em metro, ou seja, o pagamento por produção é condenado desde o século 18, por Adam Smith, Marx, e a legislação trabalhista brasileira, a NR 15, também impede o pagamento por produção em atividades repetitivas, tal como é o corte da cana, atividade repetitiva. Hoje, há cursinhos nas usinas para o trabalhador começar seu trabalho no corte da cana, e na indumentária adotada por algumas usinas há também o mangote no braço esquerdo, constituído de um reforço de espuma na manga, para segurar o feixe de cana, e com a mão direita executar o corte na posição curvada e em seguida o corte das folhas no ar ou no chão, depositando a cana na leira a 0,50cm, atividade que será feita o dia inteiro. Deve-se fazer o cálculo da quantidade de movimentos repetitivos (cortes, flexões de pernas, costas, peso de transporte da cana até a leira), com a indumentária descrita pela Cristina(botinas com ponteira de aço, perneira, mangote...), andando cerca de 4 km/dia debaixo de um sol como o da região de Ribeirão Preto, com umidade relativa do ar caindo para 12%, com fuligem, suor, além da sacarose que sai da cana queimada. E com todos esses fatores, perguntam porque os trabalhadores estão morrendo por excesso de trabalho. A Pastoral do Migrante, presente aqui, conseguiu denunciar 14 mortes nos dois últimos anos, e duas outras estão no momento em investigação por excesso de trabalho na cana. Na década de 80, os trabalhadores cortavam cana há 20 ou 30 anos, hoje, no setor há relatos de trabalhadores incapacitados para o trabalho, por lesões decorrentes de 8 a 10 anos de atividade. Açúcar Ético 51 Atualmente, estou fazendo um trabalho sobre migração no qual observo que, do final da década passada para este século, está aumentando o número de trabalhadores migrantes, os quais historicamente já migravam do NE para a Zona da Mata em função da cana. No estado de São Paulo também ocorre isso. Há um estudo de Maria Aparecida de Moraes que mostra esse processo na década de 80, isto é, que o crescimento da produção junto com o Pró-Álcool ocasionaria falta de trabalho. Tanto que, as primeiras experiências para mecanizar o corte de cana são da década de 70, e não se desenvolveu porque o processo de modernização da cultura brasileira colocou à disposição do setor que estava oferecendo subsídios ao álcool um grande contingente de trabalhadores provenientes do Vale do Jequitinhonha, ao sul da Bahia. Nesse estudo, Moraes mostra que os trabalhadores vêm do Jequitinhonha porque estavam atravessando um processo semelhante ao da secularização primitiva, como bem colocou anteriormente Sebastião, o mercado de trabalho se constitui a partir de um conjunto de mudanças históricas. A expansão da siderurgia e da necessidade de carvão em Minas Gerais levou toda a região dos Tabuleiros a ser ocupada por eucaliptos, impossibilitando a mão-de-obra familiar. O que assistimos hoje é que grande parte de trabalhadores migrantes que chega na região não é oriunda do Jequitinhonha, mas do Maranhão, Piauí, do mesmo lugar de onde saem os peões de trechos que serão trabalhadores escravos no Pará, Amazonas e Mato Grosso. O que está ocorrendo nessa região? O mesmo que ocorreu na década de 70 e 80 no Vale do Jequitinhonha, ou seja, são frentes de expansão do gado e da soja prejudicando os pequenos produtores e, esses, sem trabalho percebem uma saída na migração para o trabalho com a cana. São trabalhadores jovens na faixa de 18-20 anos, que não sabem o que irão encontrar, pois não há cana nessas regiões – a Pastoral dos Migrantes pode confirmar –, eles praticam um tipo de agricultura, arrendam a terra adentrada na mata, derrubam a mata e com o resto da madeira cercam a agricultura e não o pasto, tanto no Norte como Nordeste, diferentemente das práticas do Sul; o corte da cana requer trabalhadores acuados a este trabalho duro, e o setor sucroalcooleiro vai buscar esses trabalhadores nessas regiões, pois garantem a produtividade de cerca de 10 ton/dia. Observa-se, ainda, que em locais onde os movimentos sindicais são mais ativos, o Estado fiscaliza melhor, pois existe uma sinergia entre ambos. E ocorre o contrário em locais onde os movimentos sindicais são menos ativos, o que explica a região de Piracicaba, com recorde de 11 mil trabalhadores sem carteira assinada, e deixa mais claro por que a cana Açúcar Ético 52 está se dirigindo para o Oeste do estado, Andradina, onde o movimento sindical é menos articulado do que na região de Ribeirão Preto, em que também há problemas como qualquer movimento, mas piora onde não há fiscalização. Sabemos que a estrutura de fiscalização do poder público é insuficiente para todo o Brasil, que a fiscalização depende dos movimentos sociais, e que as melhorias das condições de vida e de trabalho não se efetiva por decreto ou necessidades técnicas, mas somente quando se exerce pressão. Na questão da mecanização, os próprios trabalhadores relatam que não é trabalho de “gente”, encurta a vida, porém a afirmação de que o trabalhador gosta de cortar cana e de ganhar por produção é um absurdo. Se aceita a regra do jogo é porque não sobrou alternativa. Portanto, se quiser acabar com a morte, a lesão e a superexploração dos trabalhadores tem que extinguir o pagamento por produção; no entanto, cabe aos trabalhadores à decisão de como querem receber. Há pisos salariais que chegam a R$ 350,00 em Mato Grosso. Com isso fica claro a razão pela qual as usinas estão se dirigindo para esses locais: terra barata irrigável e plana, além de mão-de-obra barata. Com o enfoque no mercado externo em crescimento, faltou álcool na entressafra e não se consegue avançar em relação às condições trabalhistas, salariais e ambientais, assim como em uma questão fundamental para um setor de energia, que é a participação do álcool e do setor na matriz energética, porque se o mercado externo está crescendo, querem liberdade total de mercado para vender a quem paga mais. E um setor que produz energia não pode ser livre, uma vez que iremos pagar um preço por isso. Muito obrigado. DEBATE Daniel Bertoli Gonçalves, UFSCar: Qual é a situação das trabalhadoras, já que no setor existe a questão da gravidez durante o período de safra? Telma Monteiro, ATLS, ONG de Juquitiba: Há indústrias à procura de terras de pastagem para revitalizar e plantar cana e dado a migração de indústrias da cana para o Centro-Oeste do Maranhão, para ocupar áreas indígenas, com mão-de-obra barata, cerca de 20 usinas de álcool irão ocupar uma área de 40 mil hectares, pergunto se há alguma intervenção sendo efetivada? Irmã Inês Facioli, Pastoral do Migrante, Guariba: Estamos na região de Ribeirão Preto há 23 anos e acompanhamos a migração temporária Açúcar Ético 53 para o corte de cana e as regiões de origem dos migrantes, tais como Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Piauí. Francisco mencionou que a mão-de-obra dos migrantes é barata e necessária, há alguma pesquisa sobre a mão-de-obra local, porque nas regiões visitadas, constatamos que os pais não querem seus filhos no corte de cana, preferem que estudem ou assumam outro emprego fora. Quanto à busca de trabalhadores, temos informação sobre trabalhadores, que vieram para a safra, que passaram por exames médicos mais completos e os portadores da doença de chagas não foram admitidos, cerca de 90 tiveram que regressar. Quanto aos salários, temos dados que os trabalhadores estavam recebendo R$ 180,00 por quinzena. Portanto, existem situações mais graves diante do cenário exposto. Resposta Maria Cristina Gonzaga: A informação da qual disponho é a contratação de mulheres que já fizeram a laqueadura de trompas, ou em casos de não registro em carteira, ocorre demissão. Resposta Francisco Alves: Observa-se com a Constituição de 1988 e as denúncias de sindicatos a redução do contingente feminino em decorrência de gravidez (licença...) e contratações de mulheres que apresentam comprovação de laqueadura, segundo as informações correntes. Já com relação aos migrantes, o número de homens é predominante; além disso, deve-se considerar que o trabalhador recebe por produção e trabalha apenas 8 meses no ano, durante o período de safra e os 4 meses restantes e não tem garantia se terá trabalho, ou seja, terá que fazer uma reserva de fundos para os 12 meses. Faço então uma analogia, se o homem fosse um urso poderia hibernar, assim como as mulheres que engravidam. Quanto à pergunta sobre migração para áreas indígenas, não tenho informações, exceto as denúncias que acompanho pelos jornais acerca da morte dos trabalhadores indígenas, o chamado suicídio dos índios na reserva indígena de Mato Grosso, com etnias e culturas diferentes. No Centro-Oeste, sobretudo em Mato Grosso existem usinas que utilizam mão-de-obra indígena, com intermediação de “cabeçantes” que negociam os trabalhadores junto às usinas. Inclusive, há dois anos, na região de Ribeirão Preto, houve denúncia de 700 índios que chegaram e estavam em condições análogas a de escravos (sem carteira assinada, instalados em locais com galinhas, sem banheiro). Embora não tenha a informação que você se refere, cana, Mato Grosso e trabalho indígena estão juntos desde a década de 80, momento em que chegam as destilarias em Mato Grosso. Açúcar Ético 54 Com relação à pergunta referente aos dados de mão-de-obra local, o que é divulgado é o desemprego na região e, ao mesmo tempo, há pessoas da região que se recusam trabalhar com a cana por ser um trabalho duro, pois sabem o que significa. A minha pergunta é: se as condições de trabalho fossem melhores seria necessário buscar trabalhadores no Maranhão e Piauí? Eles são necessários, segundo entendo, do ponto de vista relacionado a uma produtividade maior e como produzem mais submetem-se a condições precárias maiores; portanto, se não fosse por esses fatores, os trabalhadores poderiam ser da própria região. E como se resolve o impasse? A meu ver, por políticas públicas na região de origem e na de destino, para que não sejam expulsos, indo para locais submetendose a qualquer tipo e condição de trabalho por fome. Este é o migrante ideal e não aquele que reivindica e aceita determinados tipos de trabalho. Qual a condição que o migrante tem para reivindicar quando é um estranho? Dado que, muitas vezes, as entidades sindicais não mobilizam lutas e proteção aos migrantes e não há presença de agentes da Pastoral. Outra informação após a denúncia da Pastoral dos Migrantes sobre o número de mortos, de 14, talvez passe para 16. As usinas estão mais rigorosas com relação aos exames médicos admissionais nesta safra, pois esta é a solução encontrada para reduzir morte, não pela melhoria das condições de trabalho, mas pela contratação de trabalhadores mais aptos para realizá-los. A meu ver, os cortadores de cana se assemelham a fundistas e não a corredores velocistas. Edson Dias Bicalho, Federação dos Químicos do Estado de SP: Francisco, acompanhamos qualquer discussão junto ao Ministério do Trabalho e especialistas e estudiosos, penso que é necessário um diálogo para haver mudanças primeiramente cultural junto aos trabalhadores, p.ex., em Jaú discutiu-se a retirada de trabalho por produção e a adoção de um salário fixo numa assembléia de trabalhadores, na qual rejeitaram a hipótese por considerar que os bons cortadores iriam ganhar menos. Outro fator, por que as empresas estão saindo do estado? Porque, p.ex., em Bauru temos hoje apenas seis fiscais do Ministério do Trabalho, uma vez que uma das formas de coibir é a contratação de novos fiscais. Há muitos jovens no corte de cana atualmente, considerando que em 8 anos estarão fora do mercado de trabalho por lesões, existe algum estudo sobre esses jovens na faixa dos 18 anos que serão jogados à margem da sociedade posteriormente? Juliana Andrade de Oliveira, socióloga da Fundacentro: Peço a opinião de Ricardo Garcia sobre o exposto na palestra do prof. Sebastião, Açúcar Ético 55 pois o mercado da cana anda de acordo com a regulamentação do Estado, cabe, acredito, ao Estado e ao Ministério Público e órgãos competentes a regulamentação. O Estado é apenas um regulamentador e não produtor. Como o prof. Francisco se referiu, as melhorias só vêm quando a classe de trabalhadores se organiza, mas uma classe que está dispersa pelo território, sobretudo no período de 4 meses em que não se tem produção, imagino a dificuldade de constituir um sindicato com uma classe que mal se reconhece como tal. Como é o diálogo do promotor Ricardo, do Ministério Público, com os trabalhadores, as Delegacias Regionais do Trabalho? Gostaria de saber também qual a posição da ONG Sucre Ethique diante dessas questões? Resposta Maria Cristina Gonzaga: Quando o trabalhador não possui vínculo, permanece 4 meses sem trabalho, e quando tem com uma empresa permanece no plantio de cana, que também é uma atividade muito perigosa, e nos tratos culturais, na aplicação de venenos e maturadores. Resposta Francisco Alves: É preciso fazer uma distinção entre trabalhadores com registros, que são permanentes, e trabalhadores com registros e que são safristas; existem também algumas usinas que fazem contratos permanentes por safra. Conheço trabalhadores com 15 anos de atividade em uma mesma empresa, mas sempre com contratos por safra, em intervalos, o que evita um controle maior da produtividade do trabalhador, da freqüência, ausência, das questões sindicais e trabalhistas, porque o trabalhador poderá participar de assembléias e será banido das frentes, assim como não serão contratados pelas usinas, e isso pode ser confirmado por qualquer dirigente sindical do estado de São Paulo, como também ocorre com as demais categorias (bancários, digitadores...), em que se proíbe pagamento por produção em atividades repetitivas conforme a NR 15. Também houve rejeição dos trabalhadores, porque os mais produtivos não queriam a redução de salário. No entanto, a questão maior não é necessariamente salário, mas continuar vivo e em condições produtivas para qualquer trabalho. Há sindicatos que não querem levar adiante a discussão porque, a princípio, os trabalhadores não querem. Acredito que o movimento sindical está sendo atropelado pelo poder público e a universidade, deixando de levar a questão aos trabalhadores, que é fundamental. No que tange ao pagamento, deve ser acompanhado pelo sindicato. Quanto à pesquisa com trabalhadores jovens tenho apenas relatos quando acompanhei, na safra anterior, a Irmã Inês junto aos trabalhadores Açúcar Ético 56 maranhenses num alojamento onde havia 15 trabalhadores e péssimas condições de instalações, dois deles chegaram arrasados e mal conseguiam caminhar, imaginei que haviam cortado mais do que a meta estabelecida para a produção, porém me disseram que haviam “borrado”, que significa não cumprir com a tarefa, devido a câimbras nas pernas, barriga, tórax. Alcides Faria, Rios Vivos: Cristina, o conjunto de dados e resultados de sua pesquisa tem possibilidade de ser transformado em normas junto ao Ministério do Trabalho? E ao prof. Francisco, acerca do grande contingente de trabalhadores de Piauí se dirigindo para São Paulo e Mato Grosso. Resposta Maria Cristina Gonzaga: Estamos tentando transformar em normatização, pelo menos no que se refere às luvas e ao atrito. No entanto, o Governo Federal não quer discutir, tentamos também junto à Comunidade Européia, discutir a norma AN388 para exigir aqui o Certificado de Aprovação de EPIs, mas não desejam discutir. Resposta Olivier Genevieve: Nosso posicionamento em relação às condições particularmente injustas, sobretudo, é de uma grande convicção na democratização brasileira e creio que ocorre um forte movimento da sociedade civil. Nós, do Açúcar Ético, somos favoráveis à mecanização numa escala humana, ou seja, deve ser acompanhada por um trabalho de diversificação. Como já mencionei, este seminário é brasileiro e eu não sou brasileiro. Resposta Ricardo Garcia: O Ministério Público não produz normas, regulamentos ou legislação do trabalho. Na realidade, investigamos as condutas que ferem a lei, que lesam socialmente os trabalhadores. Nosso melhor relacionamento é direto, eu particularmente tenho percorrido todos os canaviais do estado de São Paulo. A partir do que o trabalhador diz e sente procuramos pautar nossa atuação, isto é, a partir dos problemas encontrados pelo trabalhador e não pelo Ministério Público. Por isso, discordo do prof. Francisco quando se refere ao salário por produção, porque nem a academia ou o Estado tem o direito de atropelar os trabalhadores, e se a liderança sindical dos trabalhadores, na sua unanimidade, seja a corrente que for, rejeita a discussão dos salários da forma como é colocada, repito rejeita a forma e não a discussão, alguma razão existe. Tenho visto na área rural e industrial que a indignação ao salário por produção não significa necessariamente a eliminação do ritmo desenfreado da produção. Encontramos trabalhadores lesionados por trabalho repetitivo na digitação do setor bancário, frigorífico, pastifício e papéis, que ganham salário fixo, mas com tarefas, ritmos ditados na Açúcar Ético 57 maioria das vezes pelos empresários e não por eles, com conseqüências nocivas comparadas ao salário por produção, pois produzem e não ganham. Embora a NR 17 proíba o salário por produção em tarefas que exigem movimentos repetitivos, a legislação permite ao empresário usar seu poder de gestão para determinar o ritmo e o modo como a produção é realizada. Eliminar o modo de produção sem eliminar o trabalho de produção é prejudicar o trabalhador, conforme relatos dos trabalhadores. Resposta Francisco Alves: Foram realizadas audiências públicas para saber porque os trabalhadores estão morrendo. A classe patronal disse que não há nexo causal entre morte dos trabalhadores e excesso de trabalho. Falou-se em exumação dos corpos para buscar indícios do nexo causal, mas a evidência é difícil. Pautando minha reflexão diretamente no processo de trabalho, que leva a avaliação do dispêndio de energia do trabalhador em termos de produtividade, isso me leva a afirmar que se quiser acabar com a morte nos canaviais, deve-se parar com o pagamento por produção, isso não quer dizer que não haverá morte em decorrência de outros fatores e acidentes. Não estou pautando o movimento sindical, pois ele é livre, mas me referindo ao que constato junto aos movimentos sindicais e que se poderia discutir com os trabalhadores. Intervenção Maria Cristina Gonzaga: A cadeia produtiva da cana é totalmente por produção, desde a produção do álcool e do açúcar até o corte manual. Estamos reunindo na Fundacentro toda a cadeia produtiva para discussões, pois sabemos que no meio rural é pior do que na indústria. Se houver uma paralisação do transporte, a produção do álcool e do açúcar, com intervenção também da Feraesp, poderá haver uma mudança. Pausa para café 17h00 – Aparecido Bispo. Sindicalista Feraesp, região de Andradina. Pontos a serem discutidos: Terceirização, só serve para confundir os sindicalistas com relação aos direitos e salários. Arrendatários impõem trabalho e cotas, pois precisam pagar pela terra. Também são pressionados pela produção. Registro em carteira: O corte da cana para moagem é muito mais Açúcar Ético 58 fiscalizado, mas no cultivo e plantio há um número maior de trabalho sem registro e de trabalho de menores em mudas para o plantio, pois não há muita fiscalização do Ministério do Trabalho. Pagamento por produção: Embora eu, particularmente, seja contra este tipo de pagamento é preciso solucionar os entraves que são muitos, pois sua eliminação não significa que o trabalhador deixará de trabalhar por produção. Para garantir o emprego, o trabalhador que corta 7 toneladas deve se esforçar para o corte de 10 toneladas exigido pelas empresas. A substituição do pagamento por produção por um salário médio base, fixo, não significa que deixará de cortar as 10 toneladas colocadas como meta. As empresas adotam metas como o PPR (Programa de Participação nos Resultados) que devem ser cumpridas para conseguir o benefício ao final da safra, sacrificando mais o trabalhador; trabalho 5x1, trabalhar domingos, feriados; deixar a cana amontoada a cada 3m (uma máquina poderia fazer o trabalho), aumentando o desgaste físico. Num primeiro momento é preciso sanar diversas dificuldades para discutir a retirada do pagamento por produção e, num segundo momento, adotar a melhor solução. Migrantes: Condições péssimas; recebem em torno de R$ 200 a R$ 300,00 na região de origem (Maranhão, Vale do Jequitiba), terão um salário melhor, porém como a maioria dos migrantes não tem conhecimento do movimento sindical, o que para as empresas é interessante, concorda em trabalhar aos domingos porque não tem familiares próximos, ao contrário dos trabalhadores locais que não concordam com a jornada 5x1. Quando há assembléias para abolir a jornada de trabalho de domingo (5x1), se o sindicato não for articulado, as empresas contratam migrantes em detrimento do trabalhador local. Além disso, o migrante corta mais cana, reclama menos e tenta ganhar mais. Com a legitimidade da Feraesp, os sindicatos deixaram de fazer acórdãos que causavam maior prejuízo ao trabalhador e há uma participação maior do trabalhador. Luta pela terra: quando se menciona a luta pela terra é necessário levar em conta a mecanização, o baixo índice de alfabetização do trabalhador por qualificação de salário, visto que não é suficiente qualificar cortadores de cana para operar máquinas quando são necessárias outras qualificações para uma reforma agrária e como alternativa de mercado de trabalho também, caso contrário, ficarão restritos ao setor da construção civil como serventes de pedreiro. Transporte precário dos trabalhadores rurais: Acredito que mata Açúcar Ético 59 mais que a exaustão. Quando um ônibus perde a barra de direção, não tem freio, morre maior número de trabalhadores num acidente do que no ambiente de trabalho. Questão ambiental: Dramático, o meio ambiente não está sendo respeitado. Usinas estão desmatando, plantando cana em áreas preservadas, já comunicamos as denúncias, no entanto não houve ainda fiscalização do Ministério Público Estadual. 17h14 – José Carlos Bimbatte Jr. – Fundação Abrinq (parceira OIT), representando Pedro Américo F. de Oliveira OIT) Situação da criança na cadeia produtiva da cana-de-açúcar A Fundação Abrinq tem várias ações e projetos em defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, mas aqui serão mencionadas a metodologia de pactos setoriais e as cadeias produtivas de risco, para prevenção e erradicação do trabalho infantil. O trabalho é realizado com a participação de vários setores, mas iremos nos restringir aqui ao trabalho relacionado à plantação de cana. A Abrinq desenvolveu três programas para erradicação do trabalho infantil: o estabelecimento de pactos setoriais; o selo “Empresa Amiga da Criança” - 1000 empresas aproximadamente, no Brasil, assumem três compromissos para erradicar o trabalho infantil, tanto na empresa quanto na cadeia produtiva; e o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, em parceria com instituições e organizações do Brasil. Os pactos setoriais visam promover o diálogo e a parceria de diferentes segmentos sociais (empresas, poder público, ongs, sociedade civil) para identificar os atores da cadeia produtiva em risco. Segundo relatório da OIT, o Brasil erradicou 60% do trabalho infantil, com o estabelecimento de programas desses vários segmentos. Para elaboração de um pacto são identificados e mobilizados responsáveis por todos os elos da cadeia, desde organizações governamentais até privadas, que elaboram um plano de ação para erradicação. O elementochave na elaboração do pacto são os compromissos firmados e cada grupo tem autonomia para estabelecer vários compromissos. A Fundação Abrinq, por meio do Programa “Empresa Amiga da Criança” propõe 18 compromissos aos atores sociais, com recomendação aos associados, fornecedores e demais componentes da cadeia de produção, para eliminação de trabalho infantil em quaisquer níveis. Açúcar Ético 60 “Incentivar ações que beneficiem a permanência das crianças na escola e apoiar ações de melhoria do ensino. Colaborar no desenvolvimento de ações que promovam a capacitação de adolescentes para inserção no mercado de trabalho, em particular na condição de estudante”. Aqui temos a regulamentação da lei de aprendizagem, de dezembro/2005, pelo Governo Federal. “Recomendar a seus associados a destinação das doações previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente, na legislação do Imposto de Renda, no sentido de auxiliar a administração dos objetivos do compromisso”. “Apoiar e propor iniciativas do Governo Federal, Estadual e Municipais e ONGs, na participação conjunta das ações previstas no compromisso”. “Desenvolver campanha de conscientização de acesso e permanência da criança na escola”. “Participar de projetos de complementação de renda para as famílias manterem os filhos na escola”. O Governo Federal tem um Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PET), que vem cumprindo sua função na área da agricultura. Sugerir ao Comitê Estadual Executivo da Assistência Social do Setor Sucroalcooleiro que os recursos do PAS (Plano de Assistência Social) sejam aplicados de forma a auxiliar na consecução dos objetivos do compromisso. 13) Mobilizar os meios de comunicação locais e regionais para a divulgação voluntária de campanhas de conscientização; 14) Assegurar a implantação das ações propostas no Programa Regional para Erradicação do Trabalho Infantil; 15) Garantir o acompanhamento e avaliação do programa por meio de encontros regulares dos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente; 16) Observar a proibição do trabalho de adolescentes em atividades e locais que possam comprometer o seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social; 17) Divulgar campanhas que visem à erradicação do trabalho infantil e proteção do trabalhador adolescente; 18) Sugerir aos seus associados, empresas, fornecedores e demais atores envolvidos na cadeia produtiva que facilitem o desenvolvimento de campanhas que visem a erradicação do trabalho infantil, em particular o relacionado à cadeia produtiva do setor mineral. Açúcar Ético 61 A Fundação Abrinq, a Unicef, a OIT e outras organizações da sociedade civil têm o programa “Presidente Amigo da Criança”, uma rede que monitora as ações do Poder Executivo Federal, com indicadores de melhoria da vida de crianças e adolescentes. Com o Estatuto da Criança e do Adolescente, a partir da Constituição de 1988, que foi um grande avanço, temos todas as instâncias legais para articular as ações. A Abrinq integra o colegiado do Fórum Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil desde sua criação em 1995, a proposta é criar uma agenda com os diferentes setores da sociedade para pensar as ações.£ A Abrinq, juntamente com a OIT, desenvolve programa de erradicação de trabalho infantil em suas piores formas na agricultura, também com a questão do narcotráfico no RJ. O último relatório da OIT mostra um avanço, porém há mais de 3 milhões de crianças, segundo dados do IBGE e da PINAD, embora o Brasil seja referência mundial na erradicação, há muito a fazer e através de estratégias de diálogo, temos obtido resultados. DEBATE Francisco Alves, prof. UFSCar: Desde a década de 80 tenho constatado que não há crianças no corte da cana; no entanto, houve crescimento de dois problemas gravíssimos, droga e gravidez precoce nas cidades de Guariba, Dumont e Barrinha, regiões do interior de São Paulo. Resposta José Carlos: No plantio há crianças trabalhando. O problema é complexo e exige políticas públicas. Luiz Alberto, Força Sindical: Como evitar que o jovem entre para o narcotráfico. Maria Cristina, Fundacentro: Numa empresa do setor citrícola em que trabalhei havia um selo da Fundação Abrinq na porta, porém os trabalhadores eram obrigados a passar por um banho de agrotóxico antes de iniciar as atividades. A Abrinq leva em consideração as demais condições antes de dar um selo ou apenas o trabalho infantil? Resposta José Carlos: A estratégia de selo é de mobilização, de reconhecimento e não de certificação. Fazemos um trabalho com a máxima lisura e transparência para identificar as denúncias de todas as partes, junto à Delegacia Regional do Trabalho, Ministério Público, não para fiscalizar o selo, mas para efetivar ações de mobilização. Os compromissos do selo são dez, três dentre esses referem-se à erradicação Açúcar Ético 62 do trabalho infantil, e são ações voltadas para empresa. Quando há denúncia de trabalho escravo em qualquer cadeia produtiva, inclusive as mais complexas como a siderúrgica, a Abrinq suspende o selo obrigatoriamente. Finalização Ricardo Garcia, procurador Ministério do Trabalho: A sessão de hoje deixou claro quais são os impactos econômicos e sociais da globalização, como exposto pela manha, com o neoliberalismo e sua estratégia de compartilhar mercados mundiais para aumentar o lucro, pregou a desmobilização do Estado; por outro lado, revelou diversas causas que levam o trabalhador a adoecer, a acidentar-se, a morrer, assim como nosso desconhecimento em relação a essas causas. Em suma, a globalização mostrou-se eficaz no que tange ao lucro e escravagista quanto ao impacto social. Açúcar Ético 63 Açúcar Ético 64 DESAFIOS DA INDÚSTRIA SUCROALCOOLEIRA BRASILEIRA NO SÉCULO 21 31/05/2006 DESAFIOS AMBIENTAIS E DE MANEJO NO SETOR SUCROALCOOLEIRO Olivier Geneviève: Nosso objetivo, após este seminário, será realizar um trabalho com base nos eixos do milênio estabelecidos pela ONU. Tais eixos tratam dos desafios da água e da mecanização. Faremos mesas redondas para refletir e buscar soluções; no entanto, quero ressaltar que o Açúcar Ético não está trazendo respostas aos desafios brasileiros, pois é da alçada de vocês, apenas estamos evidenciando. Manhã – Impactos ambientais do setor canavieiro (açúcar e álcool) 9h40 – Presidente da sessão: Oswaldo Lucon, Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Sou assessor técnico da Secretária Estadual do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, é importante ressaltar a importância de um evento Açúcar Ético 65 como este diante dos grandes impactos e dos desafios para o desenvolvimento sustentável de nosso planeta. 9h45 – Dr. José Eduardo Delfini Cançado, pesquisador no Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da FMUSP. Saúde e ambiente: relação entre a queima da cana-de-açúcar e a saúde Irei abordar o aspecto ambiental e os reflexos especialmente para a saúde humana. A poluição atmosférica é um problema de saúde pública há algumas décadas. Os primeiros estudos de observação dos impactos na saúde humana iniciaram na década de 50, com o fenômeno de picos de poluição atmosférica ocorridos na Bélgica, Pensilvânia, Londres em 1952, chamando a atenção das autoridades e pesquisadores, que passaram a avaliar o impacto da poluição atmosférica na saúde humana. Independentemente da fonte de poluição, seja por queima de combustíveis fósseis, proveniente das indústrias e veículos automotivos, ou por queima de biomassa, os principais poluentes produzidos são os mesmos: principais SO2, monóxido de carbono, ozônio, NO2, compostos orgânicos voláteis (metano, mais importante), e o material particulado que hoje se divide em partículas inaláveis abaixo de 10 micrômetros e penetram no aparelho respiratório causando forte impacto na saúde humana, e as partículas menores, chamadas finas e ultrafinas, amplamente estudadas atualmente; ou seja, quanto menor a partícula maior a penetração no aparelho respiratório. A inalação desses gases e partículas compromete, sobretudo, os extremos da faixa etária: crianças, porque não têm o sistema imunológico bem formado, e idosos visto que, freqüentemente, são portadores de outras patologias (bronquite, problemas cardíacos e pulmonares), têm uma exacerbação da doença base no pico da poluição. A partir da década de 70, surgem os principais indicadores de poluição atmosférica. Em 1990, o CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente) estabeleceu os padrões de qualidade do ar a partir dos quais haveria danos à saúde das pessoas expostas. Hoje, no entanto, sabemos através de estudos comprovados que não existe nível de padrão atmosférico seguro à saúde, mesmo dentro dos padrões aceitáveis de poluição. O mais importante a destacar é o material particulado, que no padrão nacional é de 150 microgramas/m3 de ar (média de pico máximo Açúcar Ético 66 diário), e a média de pico anual é de 50 µg/m3 de ar. Desde a década de 90, tem sido demonstrado em estudos um efeito sistêmico sobre a saúde: a partícula inalada penetra no pulmão levando a um processo inflamatório com a produção de substâncias químicas que partem na corrente sanguínea e causam impacto, p.ex., no aparelho cardiovascular. Após dois dias do pico de poluição aumentam as internações no Incor, por dor torácica, angina, arritmia, infarto do miocárdio etc. Há um estudo realizado pelo HC com os controladores de tráfego, os “amarelinhos” que trabalham nas marginais de SP, demonstrando aumento da proteína C reativa e do fibrogênio, substâncias que aumentam a coagubilidade do sangue e, portanto, maiores probabilidades do indivíduo desenvolver angina, infarto e derrame cerebral. Há aumento da freqüência cardíaca, da arritmia, da pressão arterial, diminuição da variabilidade da freqüência cardíaca, e aumento da mortalidade por doenças cardiovasculares. Efeitos respiratórios da poluição atmosférica: aumento de sintomas: tosse, sensação de aperto no peito, chiados, câncer de pulmão, infecções respiratórias, inclusive tuberculose, bronquite; e aumento das exacerbações por eczema, asma, alergias, rinites alérgicas, bronquite, internações hospitalares, irritações gerais (olhos, garganta, narinas) e maior mortalidade. Os estudos sobre os efeitos da queima de vegetação na saúde humana são mais recentes e baseados principalmente em episódios fortuitos de queimas de florestas, observando-se uma redução da função pulmonar após exposição entre 1 e 2 meses, aumento do número de atendimento em pronto-socorro, de sintomas respiratórios, de hospitalizações e de mortalidade. Cabe ressaltar que a mortalidade é um fenômeno grave, a maioria das pessoas exposta à poluição adoece, toma medicamentos, vai ao pronto-socorro, é internada e não morre. Na Science de 1990, há estudos demonstrando que a queima de biomassa é uma das principais responsáveis pela poluição da atmosfera no mundo. Na comparação da queima de biomassas e de emissões mundiais, constata-se grande parte das emissões de monóxido de carbono proveniente da biomassa; ou seja, grande parte da produção mundial de carbono orgânico particulado e carbono elementar provém da queima de biomassa, concluindo-se que a queima de biomassa, cujo maior percentual, cerca de 80%, ocorre nos trópicos, é uma das principais fontes de produção de material particulado e de gases de efeito estufa do planeta. Inicialmente, imaginava-se que a queima de combustível fóssil fosse o principal vilão com efeitos na saúde, e estudos realizados após queima Açúcar Ético 67 de biomassa (incêndios em florestas, palha de arroz etc. – ocorridos na Califórnia, 1987; Canadá, 1992; Cingapura, 1994 e Sudeste Asiático, 1997), demonstraram além dos efeitos nocivos à saúde humana (afecções respiratórias agudas, exacerbação de sintomas pré-existentes etc.), aumento de internações hospitalares, ausências ao trabalho, alto custo no tratamento da saúde, chamando, assim, a atenção da OMS (Organização Mundial da Saúde) para o problema da queima de biomassa. Além dos episódios fortuitos relacionados à queima de florestas, há um problema regional em SP por queima de biomassa. A cartografia de 2001/Jan-2002 do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) revela aumento vertiginoso nos meses de julho, agosto e setembro, com os focos de queimada no estado. Esse cenário vem ocorrendo em decorrência do primeiro choque do petróleo, o barril de petróleo que em 1973 custava U$ 2,9 passou para U$ 12,0 em janeiro de 1974, gerando alteração na balança comercial brasileira, e conseqüente esforço para desenvolver tecnologias alternativas, surgindo em 1975 o Decreto no 76593, o Programa Proálcool, cujo objetivo inicial era produzir álcool a partir da cana-de-açúcar para misturar ao petróleo, visando principalmente reduzir o custo da importação e não a melhoria da qualidade do ar. Com o desenvolvimento de uma tecnologia totalmente nacional em 1978, surgiram os primeiros veículos movidos a álcool, houve um boom do álcool como combustível, resultando, portanto, além da diminuição do custo das importações do petróleo, a melhoria do nível da qualidade de ar principalmente nas grandes cidades. Progressivamente a partir de 1972, a cultura da cana teve uma expansão em todo o Brasil e, sobretudo, no estado de São Paulo, que hoje conta com 63% da produção brasileira, e alcança 6 milhões de hectares no País. O maior problema não é a cana-de-açúcar nem o álcool, excelente combustível renovável, mas a forma de produção com a queima de 80% das plantações na pré-colheita que, devido à extensão e à constância anual, produz grande quantidade de poluentes, alterando as propriedades físicoquímicas da atmosfera. Portanto, durante cerca de sete meses a população fica exposta a níveis altíssimos de poluição, e vale lembrar que o prazo para extinção total das queimadas foi prorrogado em 2002 pela Lei no 11.241 para 2031 nas áreas não mecanizáveis e 2021 nas mecanizáveis. O Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP, que desde a década de 80 já estudava o impacto da poluição na cidade de SP, realizou estudo na cidade de Araraquara para avaliar a queima de biomassa e efeitos na saúde humana e a de combustíveis fósseis que Açúcar Ético 68 ocorre na cidade de SP, uma vez que 90% da poluição urbana provêm da queima de combustíveis fósseis. Estudos do prof. Marcos Arbex, do Laboratório de Poluição de Araraquara, demonstram os efeitos da queima da palha da cana e a existência de associação causal entre a poluição da queima da palha e o indicador de morbidade durante a safra, com efeitos agudos na saúde no mesmo dia da poluição. Arbex coletou material particulado durante três meses, com auxílio de baldes, pois a Cetesb não faz medição regular em Araraquara, instalando baldes com 1 litro de água no centro de Araraquara e dentro do canavial a 10 km do centro, para receber a fuligem das queimadas durante 24h, e, ao mesmo tempo, procedia a medição das inalações na cidade, especialmente no Hospital SP, para demonstrar a correlação de aumento, excluindo-se o efeito da temperatura e da umidade relativa do ar, e concluiu que o aumento das inalações decorria do aumento da poluição. Na região de Piracicaba, se traçarmos um raio de 20 km do centro de Piracicaba, 80% da área é constituída de plantações de cana, 11% de pastagem, 6% de área urbana, e apenas 3% de florestas naturais remanescentes que vêm sendo substituídas nas últimas décadas pelo cultivo da cana-de-açúcar. A revista americana Environmental Health Perspect, maio/2006, publicou meu estudo de doutorado, no qual foram quantificadas as internações hospitalares em 1997-98, em dois hospitais públicos da cidade: Santa Casa de Misericórdia e Hospital dos Fornecedores de Cana. No mesmo período, outro estudo publicado por Luciane Lara, física da ESALQ, realizou análises da composição de material particulado, para estabelecer a contribuição de cada uma das fontes de poluição, verificando-se que o pico de poluição coincide com o pico da safra anual, período de maio a outubro, na região de Piracicaba, ressaltando-se que o pico da produção de partículas ocorre principalmente durante a noite e no período de safra, devido à queima de palha da cana, enquanto na entressafra o percentual é baixo. O estudo de Lara demonstrou, dessa forma, que 62% da produção de partículas finas estão relacionadas à queima de biomassa, 14% de material de ressuspensão do solo, que acaba sendo queimado e ressuspenso junto com a biomassa; e 12% provenientes do combustível indústria; enquanto 81% da fumaça no ar são produzidas por queima de biomassa e material do solo, 11% oriundos da indústria e 7% do óleo combustível na região de Piracicaba. Quero chamar atenção para os dados de poluentes, pois, a média de PM10 no ano, na região de Piracicaba, foi de 56 µg/m3 de ar, lembrando que o máximo permitido pelo Conselho Nacional de Meio Açúcar Ético 69 Ambiente é 50 µg/m3; no entanto, no período da safra chega a 88 µg/ m3, enquanto na entressafra cai para 29 µg/m3 . Se observarmos o potássio, principal marcador de queima de biomassa na atmosfera, apesar de não poluente é o marcador principal da emissão de queima de biomassa de oceano, como não existe oceano próximo à Piracicaba, provavelmente grande parte do potássio é pela queima de biomassa. A média é de 380, mas na safra atinge 626 e na entressafra 169, revelando que a poluição atmosférica da região de Piracicaba é muito semelhante à de SP, pois a média de PM10 foi de 56 µg/m3 de ar. Isso demonstra que o consenso de melhor qualidade de ar residindo-se no interior de SP pode ser descartado, dado que na época da safra é tão ruim quanto morar na área urbana de SP. Correlacionando as internações hospitalares de crianças e idosos na safra e entressafra, observase grande aumento na safra, mesmo excetuando-se o efeito da temperatura e da umidade relativa do ar, baixa nesse período do ano. Segundo o Relatório Técnico da Cetesb, a concentração anual detectada em Piracicaba é da mesma ordem de grandeza de algumas estações de medição de SP (Lapa, Parque D.Pedro, Pinheiros), portanto recomenda o monitoramento diário do PM10 e adoção de medidas de controle das fontes emissoras de poluição, para melhorar a qualidade de ar e proteger a saúde e o bem-estar da população, porém a Cetesb ainda não está medindo rotineiramente a poluição. Conclusão de nosso estudo recém-publicado: a queima da palha, fonte de poluição atmosférica na região canavieira do estado de SP, leva ao aumento das internações hospitalares de crianças e idosos por problemas respiratórios, e o efeito desse tipo de poluição é semelhante à queima de combustíveis fósseis dos grandes centros urbanos. Políticas públicas devem ser adotadas para banir a queima de canaviais na précolheita. O método de produção utilizado nas últimas cinco décadas piorou muitíssimo a qualidade do ar na região interiorana de SP e, do ponto de vista da saúde pública, a única solução é mecanizar a colheita. Com relação ao efeito estufa, observa-se que nos últimos 400 anos a produção de gases como CO2 e metano permaneceu relativamente estável, porém se continuarmos com a industrialização sem considerar o meio ambiente haverá efeitos devastadores. A temperatura nos últimos 100 anos aumentou 1,6ºC e a previsão para os próximos 100 anos pode atingir 5ºC; doenças como a malária e a febre amarela, exclusividade de países em desenvolvimento e tropicais, provavelmente irão se disseminar com as enchentes em várias regiões do planeta. Açúcar Ético 70 DEBATE Prof. Manoel Regis, Unicamp: Na região de Campinas, não há queima de cana. Existe um cronograma para o término da queima, resultado de anos de discussões, envolvendo atores da cadeia, órgãos públicos, igreja, Cetesb, e sou favorável, dado que se fosse instituído a mecanização total haveria problemas sociais graves. As usinas estão buscando terras planas para mecanização, mas é necessário tempo em função dos investimentos exigidos na infra-estrutura, p.ex., uma colhedora custa R$ 700 mil, além de se levar em consideração o ciclo da cana de cinco anos, em que é preciso multiplicar o canavial para passagem do corte manual ao mecanizado. Em sua apresentação, observa-se que a análise foi feita detalhadamente, eliminando fatores climáticos e de umidade, mas deveria haver uma pesquisa também nas regiões onde não há cana-de-açúcar para comparação. Resposta: O estudo realizado em Araraquara mediu a fuligem da cana, e o outro em Piracicaba comparado à Piracicaba, foi realizado justamente para não correr o risco de mudança de população, usou-se o mesmo contingente em períodos diferentes, safra e entressafra, em que praticamente não há mudanças. Por isso, optou-se por não comparar uma cidade com outra, trazendo resultados diferentes. Com relação ao prazo para extinção das queimadas, vale lembrar que foi prorrogado para 2031. Concordo com o que o professor colocou e acho que o problema social não é tão sério como se advoga, e a própria lei de 2002 prevê a requalificação do trabalhador rural, e parece-me que não está havendo muita mobilização e cobranças efetivas. Por um lado, sabemos que requer grandes investimentos; por outro, há incentivos para aumentar as plantações de cana, como se observa no interior de SP, em que diversos proprietários de plantações de café, soja e pastos estão arrendando terras às usinas de cana, mais rentáveis hoje e exige menos trabalho do proprietário. Como você mencionou, existe um custo para a mecanização, mas também o custo da saúde pública. O prazo é longo e não se pode aceitar que a população dessas regiões continue exposta ao impacto da poluição atmosférica, diminuindo a qualidade de vida e da saúde e apenas o setor sucroalcooleiro fique com os benefícios. Não identificado: No decorrer da palestra foi correlacionado o efeito estufa com a imagem da alta poluição, que não está relacionada diretamente à queima da cana-de-açúcar, pois sabemos que a queimada de florestas contribui muito comparada à queima da cana, em se tratando Açúcar Ético 71 de biomassa. No que tange à qualidade de vida nas regiões de cana, mesmo com as queimadas, você citou na conclusão que é prejudicial à qualidade de vida na cidade. Os dados expostos podem levar a concluir que no período da safra a queima tem um efeito negativo no sistema respiratório; por outro lado, a qualidade de vida parece que tem sido favorecida com os benefícios econômicos. Resposta: Claro, sabemos que a queima de biomassa para o efeito estufa é muito pequena. Quanto ao benefício, há dois lados, dependendo do olhar; sem dúvida há o benefício para um e o custo para outro: a população pode estar ganhando indiretamente, p.ex., em Piracicaba, 60% da economia gira em torno do setor sucroalcooleiro; no entanto, há o outro custo que fica para a população exposta, e também com a saúde pública, o município, o estado e o Governo Federal, sem uma quantificação em termos de doença (atendimento em pronto-socorro, gasto com remédios, internações hospitalares). Portanto, depende do enfoque: o benefício econômico indireto fica através do desenvolvimento da cidade e conseqüentemente da melhora da qualidade de vida; porém, há um ônus que não sei se a população quer continuar a pagar. Luiz Alberto, Força Sindical: Com o longo prazo para mecanização e o término da queima da palha da cana, como equacionar a questão das empresas multinacionais que entram acelerando as queimadas e o processo de mecanização? Resposta: A solução é mecanizar a colheita e impedir a entrada de empresas poluidoras como se observa hoje na Amazônia, que é a principal fonte de queima de biomassa. Um recente levantamento do Ministério do Meio Ambiente revelou que nos 5.600 municípios do País, mais de 60% têm poluição atmosférica alta e na grande maioria desses, especialmente no interior, a principal fonte é a queima de biomassa. Sabemos que a Amazônia é um problema enorme, há queimadas, empresas explorando sem se preocuparem com o desenvolvimento sustentável. Mário Cardoso, Ministério do Meio Ambiente: Participo de várias discussões nas áreas sucroalcooleira (álcool) e bioenergia, há uma tendência em desqualificar a queima da cana argumentando-se que no decorrer da cultura de cana há dispersão de carbonos, liberados por ocasião da queima, qual sua visão? Resposta: Existe esta discussão. O prof. Carlos Eduardo VIAN da ESALQ, uma das autoridades no assunto, participa da discussão pelo Governo brasileiro no Protocolo de Kyoto, e o que se coloca é que o verde é excelente para a economia de carbono na atmosfera; durante o Açúcar Ético 72 crescimento da cana há uma economia brutal de carbono que, em seguida, é perdida ao jogar fogo no canavial, lançando-o na atmosfera. Existe uma enorme diferença têmporo-espacial: enquanto a cana demora meses crescendo, retirando carbono da atmosfera, em 10’ é jogada para o ar; logo não há qualquer benefício e não vamos vender crédito de carbono enquanto continuarmos queimando. Na verdade o crédito de carbono é a partir de 2009, e não iremos conseguir esta commoditie para vender no mercado externo a não ser que se mecanize a cultura; ou seja, tudo que a cultura propicia de benefícios para o meio ambiente é jogado na atmosfera, desperdiçando essa energia e poluindo o ambiente. Maria Cristina, Ministério do Trabalho: Como estudo os canaviais, o que tenho visto é máquina cortando cana queimada e seres humanos cortando cana crua. Portanto, com a mecanização não haverá a extinção da queimada, visto que o lucro é maior com a cana queimada, mesmo com máquina cortando. Resposta: Sem dúvida. Por isso, precisamos de leis e fiscalizações mais eficientes, pois vemos na região de Ribeirão Preto que grande parte dos canaviais são queimados e colhidos de forma mecanizada, exatamente porque aumenta a produtividade da colheita e diminui o custo. Concordo, há riscos realmente que isso ocorra, porém é indispensável também uma melhor conscientização, por meio de uma nova educação, pois o setor trabalha com tecnologia de colheita utilizada há 50 anos. Melhorou a produtividade do setor do ponto de vista técnico e não houve nenhuma diferença em relação à colheita. Presidente da sessão, Oswaldo Lucon: Obrigado prof. José Eduardo, sinto impulso de abrir várias janelas, como paulistano, vivendo sob fumaça do diesel, costumamos brigar semanalmente com a Petrobrás para diminuir o teor de enxofre dos combustíveis. Tanto a população em geral como os “amarelinhos” respiram esses níveis de fumaça, que são muito mais altos do que as concentrações médias em estações de monitoramento se comparada, na maioria das vezes, às marginais de SP. Temos brigas saudáveis e outras nem tanto na Secretaria do Meio Ambiente. A questão da mecanização foi e ainda é discutida. Acredito que os próprios incentivos econômicos destinados ao setor podem acelerar o processo, com a queima do bagaço, com recuperação da palha, ou seja, há um incentivo da geração de excedentes de eletricidade para a rede. O Poder Público, sem dúvida, poderia e deveria agir mais; da mesma forma que uma colheitadeira custa U$ 200 mil, uma estação de monitoramento custa U$ 80 mil. Diariamente, discutimos a necessidade de estações de Açúcar Ético 73 monitoramento no estado de SP para conhecer a qualidade do ar, mas isso é só uma parte; porque o que está na atmosfera é uma informação e o que sai de cada chaminé, posto de gasolina, indústria, veículo etc. é outra. A outra parte é a relação causa-conseqüência a essa modelagem. Vem à mente a Cerâmica de Santa Gertrudes e as Refinarias de Paulínia que abriria uma questão interminável e a intenção não é criar sofismas. Temos de fato problemas de saúde pública. Temos também as externalidades, pagas de maneira difusa, enquanto os investimentos são feitos de forma concentrada e o Estado precisará regular. 10h39 - Daniel Bertoli Gonçalves, Doutorado pela UFSCar, engenheiro de Produção. Meio ambiente e cana-de-açúcar: impactos e perspectivas Uma rápida apresentação: sou engenheiro agrônomo, especializado em agroecologia e agroindústria, com mestrado em Desenvolvimento Econômico Espaço e Meio Ambiente pela Unicamp e, em 2005, terminei o doutorado na UFSCar em Engenharia de Produção, analisando a relação entre cana-de-açúcar e desenvolvimento sustentável regional. Meu orientador foi o prof. Francisco Alves, aqui presente. Sou atualmente pesquisador independente e convidado também pela UFSCar, pelo Departamento de Economia e Sociologia da USP. Para falar de impactos gerais da cana-de-açúcar no meio ambiente vou me referir a uma pesquisa da qual venho participando há 7 anos, com a participação de empresas, atores sociais, prefeituras, ONGs, na região hidrográfica do Rio Mogi-Guaçú, representando cerca de 50% da produção agroindustrial canavieiro do estado de São Paulo; da qual resultou também minha tese de doutorado, dado que nesta região foi gestado a agroindústria canavieira. A área de cana da região ocupa 40% da área de contágio e abrange 54 municípios, com importância relevante para a economia e o dilema da produção, visto que o álcool de cana traz benefícios ao meio ambiente, porém a produção em larga escala requer algumas propostas e soluções para encontrar um caminho de sustentabilidade, e aqui não faço crítica a nenhuma usina ou realidade específica, pois fui convidado para fazer uma análise, um diagnóstico de um paciente com problemas que é a cana-de-açúcar do estado de SP. A produção em larga escala chega atingir 60 mil hectares pertencentes a uma única usina, 10 hectares nas usinas Açúcar Ético 74 médias, gerando problemas sociais, ambientais, econômicos, culturais e políticos. Fatores de insustentabilidade ambiental apontados por trabalhadores, moradores, ambientalistas da região: Sociais: mecanização da lavoura com a geração de desemprego; empregos disponíveis de péssima qualidade. Ambientais: relacionados ao regime de monocultura, expulsando outras atividades da região; queima da palha que além de incomodar traz problemas à saúde pública e ao meio ambiente, assim como o uso de agrotóxicos. Políticos: concentração latifundiária, concentração de riquezas e poder político. Econômicos: pouca opção de trabalho no campo, visto que toda mão-de-obra disponível está relacionada à cana; exclusão da pequena propriedade, promovida pelo regime monoculturado da cana. Culturais: degradação paisagística do meio rural; impactos culturais provocados pelo fluxo de migração. Fatores verificados em pesquisa de campo: Erradicação da vegetação natural - resta hoje menos de 1%; desrespeito completo às áreas de proteção ambiental, apenas com a pressão da sociedade, organismos fiscalizadores tem conseguido recuperar áreas de proteção permanente; degradação do solo com perda de fertilidade, conforme pesquisas da ESALQ, a cana degrada o solo com o tempo e, por isso, é dependente da adubação química; contaminação ambiental de agrotóxicos por resíduos Açúcar Ético 75 industriais; uso do fogo, além de poluir o ar com gases e partículas, causa acidentes em APAs (Área de Proteção Ambiental), morte de animais silvestres, além de dano à saúde da população local. Áreas de Proteção Ambiental (APA): A lei no 4.771, do Código Florestal de 1965, é considerada uma das melhores do mundo. Recentemente uma revista química voltada à agricultura mostrou que nos canaviais onde não existe mata ciliar foram encontrados maiores níveis de agrotóxicos permanentes nos leitos dos rios e ribeirões, comprovando a relevância da função da APA, inclusive na qualidade da água consumida pela população, captada e tratada com métodos de tratamento que não eliminam traços de agrotóxicos. Numa análise histórica, essas áreas foram extremamente devastadas pela expansão canavieira, e hoje começam a ser lentamente recuperadas, graças à fiscalização e atuação de órgãos públicos, embora ainda incipiente para o estado de SP. Áreas de Reserva Legal numa área com muita produtividade: necessária ao uso sustentável, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção da fauna e da flora. A profa Ima Vésper, Unesp Jaboticabal, é uma das autoridades, no mundo, em conservação do solo, com pesquisas que comprovam a relação entre uma propriedade com Reserva Legal e o controle de pragas, e função da melhor umidade do solo, do controle de pragas por inimigos naturais, que na entressafra procuram abrigos nas matas. Exceto na Amazônia, essa reserva deve ser de 20% da propriedade. A Lei permite a soma das Áreas de Proteção Permanente (APP) caso ultrapasse 50% da média e da grande propriedade, e 25% da pequena propriedade. O pequeno agricultor não informado imagina que não terá área de plantio se manter a reserva quando, na verdade, se houver rios, p.ex., já terá 25%, restando os 75% da propriedade à produção. A lei está clara, na ausência permite a compensação com área externa. Cabe insistir, o Poder Público, sobretudo municipal precisa elaborar um planejamento agroambiental, uma vez que privilegia apenas o Plano-Diretor em atendimento à área urbana e em detrimento da área rural. Existem mecanismos vigentes que obrigam os municípios a ter, e a sociedade civil tem um papel relevante na cobrança do Poder Público. Praticamente não há Reservas Legais nas propriedades canavieiras da região analisada. Empresários e agricultores não concordam com a obrigatoriedade e não há planejamento local para compensação dessas áreas. Os grandes e médios produtores não são autuados por descumprir a lei. Açúcar Ético 76 Aplicação de agrotóxicos: Tem sido reduzida gradativamente, mas no controle de pragas e doenças; além disso, há o desenvolvimento de variedades de canas resistentes a essas. O uso ainda elevado de herbicidas é equivalente ao nível da soja, e a alternativa seria manejo da palha de cana crua, como algumas usinas, p.ex. a Santa Elisa, têm demonstrado. Outros riscos: Conservação do solo, embora exista maior conscientização, ainda há muita erosão, perda das camadas superficiais do solo, nas quais se encontram a matéria orgânica e o adubo, portanto a mais fértil. Aplicação de vinhaça, apenas com controle severo, visto que quando existe colchão composto pela palha da cana crua, a estrutura do solo fica permeável e qualquer elemento líquido empregado atinge o lençol freático, o qual se comunica com rios e, por sua vez, com os poços d’água da população. Queimadas: Facilita o corte manual; as máquinas têm 30% de economia de combustível, pois a grande quantidade de palha da cana crua atrapalha a velocidade da máquina. Cabe lembrar que há grande consumo de combustível fóssil para produzir um combustível alternativo utilizado em máquinas, tratores de preparo do solo, caminhões com carretas combinadas, caminhões comboio, que levam combustíveis e lubrificantes à área do campo, ônibus de trabalhadores etc. Traz prejuízo ao meio ambiente e à saúde humana. A combustão da palha libera gases tóxicos e partículas (ozônio, monóxido e dióxido de carbono, dióxido de enxofre etc.). Necessário lembrar ainda a questão da ética no trabalho, p.ex. aceitar trabalho em usinas que promovem práticas prejudiciais à saúde. Há um juramento na conclusão de uma faculdade, no meu caso em agronomia, em que jurei usar meus conhecimentos e a tecnologia para defender o meio ambiente e o ser humano. No entanto, vemos indústrias defendendo interesse de uma restrita parcela de seres humanos. O fogo destrói ecossistemas, fauna, flora e microorganismos, afetando negativamente o equilíbrio agroecológico que, ao longo do crescimento da cana, procura se estabelecer com o controle biológico de algumas pragas. Algumas usinas optaram pela produção orgânica, p.ex., a Usina São Francisco, em Sertãozinho, não emprega a queima desde 1995, ou seja, antes do Decreto Estadual de 1997. Crime ambiental com possível reclusão pela morte de animais da flora silvestre; coloca em risco áreas ambientais adjacentes; os predadores procuram suas presas à noite, período em que se coloca fogo no canavial. Questão energética da queima da palha: Equivalente à capacidade energética do etanol, embora não seja possível veículo movido à palha Açúcar Ético 77 muitos são os sistemas que permitem, dentre esses, as caldeiras das usinas, que hoje são movidas a bagaço. Para isso, é necessário desenvolver mais tecnologia. Aspectos jurídicos das queimadas: A justiça não reconhece malefícios à saúde, embora haja estudos e evidências existem inúmeras ações judiciais em que se encontra “não há evidências científicas” e o juiz dá ganho de causa ao que fez a queimada, são ações do Ministério Público geralmente. As decisões judiciais são controversas, o prof. Marcelo Pereira da USP de São Carlos entende que é preciso fazer uma análise mais profunda entre juiz, promotor, advogado etc., para identificar se o julgamento está baseado na lei, na ética ou em ideologias políticas e econômicas. O promotor público de Ribeirão Preto, Dr. Marcelo Goulart, sintetizou o problema da cana na questão ambiental, ao se referir que não é a queima nem a mecanização, mas o padrão de produção agrícola que caracteriza a região, centrada na monocultura, no latifúndio, na motomecanização, na agroquímica e no desemprego. Propostas: Cumprimento da legislação Estadual e Federal e aperfeiçoamento da Municipal para desenvolvimento sustentável; movimentos e mobilizações da sociedade civil local (como promovido pela ONG Pau-Brasil em Ribeirão Preto, junto à Câmara Municipal), além das cidades do entorno (canavieiros ou não) para mobilização conjunta, visando integrar programas sociais; maior fiscalização, multas e penalidades; incentivar a discussão da conversão produtiva no sistema de cana crua; construção de planos de desenvolvimento agroambientais; promover o zoneamento agroecológico do município, com definição dos locais de ocupação da cana em pequenas propriedades e de preservação ambiental; promover a integração das unidades de conservação ambiental, interligadas por corredores ecológicos a outras áreas para que realizem sua função; criar uma agência de recuperação local em cada bacia hidrográfica para centralizar esforços, dado que há usinas produzindo mudas para recomposição de matas ciliares em diferentes municípios, de forma isolada e sem uma ligação efetiva entre essas, o que dinamizaria e abriria propostas sociais de emprego aos trabalhadores que estão sendo liberados pela mecanização da cana, para geração de emprego na regeneração de APAs, em que se requer nos dois anos iniciais a demanda de mão-de-obra para capinar, adubar solo etc. Conclusão: Obtenção de um modelo de produção de cana-de-açúcar que respeite as delimitações legais de matas nativas. Os problemas sociais e ambientais que envolvem a produção canavieira regional não estão Açúcar Ético 78 relacionados à carência tecnológica, e economicamente as tecnologias são viáveis. O desenvolvimento sustentável passará a ser realidade nas regiões, a partir do momento em que a voz dos atores sociais puder ser ouvida e respeitada por toda sociedade e não houver assimetria no diálogo. Propostas ambientais: • Fazer com que se cumpram as legislações Federal e Estadual • Aperfeiçoar as legislações municipais no sentido do desenvolvimento sustentável • Discutir a proibição das queimadas em nível local • Incentivar a conversão produtiva para o sistema cana crua • Construir planos de desenvolvimento agro-ambiental nos municípios e regiões. • Promover o zoneamento agroecológico nos municípios • Promover a integração das unidades de conservação ambiental (UCs, ARLs e APPs) • Criar uma Agência de Recuperação Ambiental em cada Bacia Hidrográfica DEBATE Mário Cardoso, Ministério do Meio Ambiente: Neste evento, como um todo, a discussão está sendo focada em SP, com a exemplificação das exceções, tais como Usina Santa Elisa e poucas outras, enquanto a realidade como um todo no Brasil é bem outra. Quando se colocou a questão das grandes usinas, uma está localizada em Pradópolis, região de Ribeirão Preto, e a outra em Itamarati, MS, localizada na região de mata de transição, entre cerrado e mata amazônica, local onde nascem os rios que banham o pantanal, com 100 mil hectares de plantio de cana, essa realidade é bem outra. Quanto à vinhaça, distribuída por fertirrigação, Açúcar Ético 79 mas sempre por gravidade, ou seja, sempre na mesma área onde a questão de cotas permite, não se observa investimento para levá-la a locais mais altos em relação ao local onde é produzida, portanto existem zonas de sacrifício sim. Outra questão: devido à fragmentação da reserva legal das propriedades, estão surgindo outros desertos verdes distanciados de rios, que ocasionam também a morte de animais remanescentes, uma vez que atravessam o canavial em busca de reservas d’água e morrem na queimada, portanto já é um fato a criação de Reservas Legais sem nenhum animal silvestre, pois não existe mais o animal em SP. A questão da utilização maior de maturadores em função do aumento da demanda de etanol no consumo interno ou externo, 15% da formulação do biodiesel é de etanol, portanto existe uma tendência forte para que a colheita seja antecipada, favorecendo o amadurecimento rápido. Resposta: O próprio herbicida é utilizado como maturador. O herbicida ora é usado como pós-emergente, aplicando-se nas folhas; ora como pré, aplicado no solo, e ora como maturador por glifosato, e se aplicado por avião agrícola prejudica as culturas de outros alimentos no entorno. Lúcia Ortiz, Núcleo Amigos da Terra Brasil: Sobre a questão da palha da cana na geração de energia, a Única afirma que se encontra disponível, desde 2001, 3000 MW de energia, por que este recurso não está sendo utilizado? O Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Produção de Energia dentro do setor da cana não seria uma prática econômica atrativa a ser utilizada na rede de energia elétrica ou nas caldeiras para geração de calor? Sobre maturação, estão estudando o uso de transgênicos na produção, qual a expectativa para o setor? Naércio F. Souza, Diretor Fundacentro, MS: No estado de MS, estão ocorrendo alguns problemas gravíssimos relacionados aos trabalhadores migrantes e à contratação de indígenas, além dos correlacionados à mudança da cultura tradicional local, que implicam também em alcoolismo, drogas e estupro coletivo após a saída de trabalhadores das usinas. Um rapaz ateou fogo ao próprio corpo em protesto à instalação de usina no Pantanal, o que traria repercussões nefastas ao equilíbrio ecológico, e vemos que a mobilização é importante para mudar o percurso e encontrar a saída. Gostaria de pedir aos organizadores do evento para disponibilizar o material das apresentações, pois para mim são relevantes. Maria Cristina, Fundacentro: Posso disponibilizar, se houver Açúcar Ético 80 interesse, dados sobre casos de mortes de trabalhadores por maturadores no mundo inteiro, fiz a pesquisa para ver os efeitos na saúde e temos vários pontos de interrogação. Os glifosatos são considerados de baixa toxidade no Brasil, mas é delicada esta afirmação porque há morte em várias partes do mundo. Resposta: Glifosato é veneno, não há baixa toxidade quando há morte. Nitrogênio, uréia aplicada nos canaviais, na profundidade do solo, transformam-se em nitrato, que é altamente tóxico e cancerígeno. Sobre a questão de bioenergia, existem problemas no recolhimento da energia gerada pela palha. A máquina colhedora tem um braço mecânico que conduz a cana até o comboio, um trator com caçambas, que vai ao lado e que, às vezes, é adaptado com pneus de alta flutuação, por razões de compactação do solo, recolhendo apenas os tonetes da cana, enquanto a palha é cuspida pelos ventiladores. Teria que ser analisado a melhor forma de recolhimento dessa palha por outro tipo de caçamba viável. Será necessário explicar melhor: não se gera energia elétrica a partir da palha; a palha aquece as caldeiras que, por sua vez, aquece a água, e essa água gera o vapor que faz circular as turbinas. O setor tem contribuído com uma grande alavancagem da produção de energia, e as turbinas geradoras de energia das usinas estão, às vezes, defasadas, sendo preciso trocá-las para maior produção de energia. Com relação aos transgênicos. O setor da cana já discute a questão há muito tempo, são 15 anos desde o início do seu desenvolvimento, mas o impacto no meio ambiente envolve longos prazos. Para falar especificamente sobre a cana ainda não existem dados conclusivos. Quanto às questões de tradições culturais locais, conforme Laércio da Fundacentro mencionou, sou agrônomo e não saberia abordar, com um olhar de sociólogo, o impacto da migração e do trabalho indígena. Minha tese está disponível na base da biblioteca da UFSCar: www.ufscar.br, poderá ser feito o download, e no site www.danielbertoli.cjb.net, juntamente com inúmeras outras pesquisas. Quanto à disponibilidade do material apresentado durante este evento, Olivier poderá responder. Olivier Geneviève: Simultaneamente aos dois dias de palestras, estamos fazendo a gravação audiovisual e a digitação dos principais aspectos, além de recolher os materiais apresentados, que serão transformados e publicados em livro com o financiamento da Fundação. O livro terá um valor simbólico, e após uns nove meses estará disponível em nosso site. Açúcar Ético 81 11h20 – Dr. Felipe Dias. Universidade Católica Dom Bosco, Laboratório de Geoprocessamento, Campo Grande, MS. A questão da água: poluição e uso abusivo Minha formação é como engenheiro agrônomo, trabalhei durante 12 anos na produção agrícola de soja, mandioca e nunca com a cana-deaçúcar. Porém, em 2004, finalizei o doutorado em Geografia Física, trabalhando com a ecologia da paisagem direcionada aos recursos hídricos das bacias hidrográficas, e como Laércio, de Campo Grande, se referiu, houve uma tentativa de alteração na legislação, com a possibilidade de instalar usinas de álcool na Bacia do Alto Paraguai, onde o Pantanal se insere. Creio que motivado pelos debates havidos, meu nome acabou sendo levado à ONG Sucre Éthique, evidente que não tenho conhecimento técnico em cana, mas que diz respeito à água. Vou tentar relacionar a questão da água com a cana e alguns dos impactos, além de algumas idéias particularmente. É interessante lembrar que quando se coloca a relação cana-de-açúcar versus água, o “versus” não significa o estabelecimento de um embate, mas a relação da cana com a água, abrangendo seu sistema de produção, de industrialização, ou seja, abordar a questão da demanda e da disponibilidade de água em relação à atividade sucroalcooleira. Portanto, “água versus cana” é na verdade uma interação entre dois elementos, uma vez que a produção agrícola depende do clima que interage com a vegetação e o solo, numa relação de interdependência. O clima forma a paisagem e, com a paisagem alterada, transforma-se o clima, ocorrendo mudanças globais climáticas. Uma pesquisa realizada no município de Terenos, vizinho a Campo Grande, onde se retirou a vegetação nativa e foram implantadas áreas de pastagem, constatou-se o aumento de 2ºC na média do município, influenciando na pluviosidade. Da mesma forma que a paisagem influencia o clima, o contrário também é válido. Temos cerrado em MS e em algumas regiões de SP por conta do clima, a Mata Atlântica se deve a outra característica climática. As alterações entre paisagens estão inter-relacionadas; portanto quando se retira uma determinada vegetação e adota-se uma monocultura, altera-se o clima local. A cana tem necessidade premente de água, CO2 e energia solar, e somente cerca de 15% de nutrientes do solo são necessários. A produção de cana-de-açúcar é bastante heterogênea, de um lado, com práticas do Açúcar Ético 82 século XVII e XVIII; do outro, com o uso de alta tecnologia, colheita mecanizada, revirada do solo (prática trazida da Europa para aquecimento de camadas profundas do solo durante o inverno), porém nossa região é tropical. Na verdade, deve-se proteger o solo a fim de que não seja carreado para dentro dos rios, córregos e mananciais, ocasionando sedimentação, elevação do lençol freático, diminuição da quantidade presente no sistema etc. Durante a lavagem da cana, o material que vai agregado com a queima, diminui a qualidade dessa água. Outro fator na implantação da cana é o desmatamento e a Área de Preservação Permanente (APP), no mínimo uma área vegetal de 30m para um rio de 10m de largura, o que não é a realidade dos rios do estado de SP, os quais possuem uma largura maior. Conforme a largura do rio, a APP junto aos rios deverá ser maior. Encontramos em uma mesma propriedade, áreas relativamente preservadas em torno de uma nascente e áreas não protegidas junto a uma outra nascente, quer dizer, o uso da característica do ambiente deixou de ser relevante ao tipo de atividade. E quando se fala em água, o nível do lençol freático depende da água que se infiltra no solo, p.ex. MS tem um período de seca acentuada de 3-4 meses e o rio continua perene se abastecido pelo lençol freático, conhecido como Aqüíferos Guarani, hoje em evidência, que se assemelha a uma caixa d’água presa entre as rochas e que deve ser abastecido para o período de seca. A tendência natural, quando não se preserva a vegetação ciliar que acompanha os córregos e se deixa chegar ao leito do rio solos e sedimentos, é a elevação do nível do leito e a diminuição da quantidade de água no rio. E agricultura, qualquer que seja, depende de água. Necessário preservar áreas legais, em função de manter a diversidade, pois há perda de resistência e das características principais, tal como ocorre com as plantas seqüencialmente reproduzidas. Ou seja, vegetação ciliar é para proteger o rio, uma vez que dentro dele também há vida. Na industrialização, segundo os dados da CETESP, sobram quantidades enormes de resíduos. Necessidade de tratamento do vinhoto e vinhaça, pois a produção é enorme por tonelada de cana. O alto índice de DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio), necessário à decomposição aeróbica e de DQO (Demanda Química de Oxigênio) causa sérios problemas ao sistema aquático. O vinhoto a 107ºC, é ácido e corrosivo se lançado na natureza, e possui um teor mil vezes maior do que o esgoto sanitário lançado nas estações de tratamento. A carga de matéria orgânica no vinhoto é muito maior e conseqüentemente precisa de mais oxigênio, Açúcar Ético 83 que será retirado da própria água. Para ser usado como biofertilizante deve ser armazenado em condições específicas para não ocorrer vazamento. Daí minha participação nas discussões na Bacia Hidrográfica do Pantanal, pois, em caso de acidentes, a planície pantaneira se transformaria numa grande lagoa de estabilização, semelhante a uma estação de tratamento, lembrando que há períodos de seca e cheia. O problema do uso da fertirrigação é a possibilidade de salinizar o solo, o nível de potássio, os demais elementos químicos são complementados, como nitrogênio e outros produtos. No tratamento do vinhoto, para não agredir a natureza, utiliza-se as membranas (osmose inversa), recuperação de metano por tratamento anaeróbio. Uma imprensa veiculou: “IMA (Instituto do Meio Ambiente) autua usina de álcool por crime ambiental. Usina despeja vinhoto no Rio Pratagy”. Falha humana ou vontade humana? Há um estudo da Embrapa demonstrando que o lençol freático de Ribeirão Preto chegou a níveis alarmantes; se algum dos presentes conhecer este estudo e puder me informar, pois não tive mais acesso. Precisamos de conscientização: qual a velocidade que queremos atingir com um produto? A que preço queremos a produção? Focarmos, também, a questão da água, essência da vida e a própria vida em todo seu percurso. Pode trazer doença como também saúde dependendo da qualidade para todo organismo vivo: flora, fauna, clima, relevo etc. O volume de água doce (2,5% do volume total de água do mundo) disponível é pequeno, levando-se em conta também os rios poluídos. 12% do volume estão no Brasil, desses 9,6% estão na região Amazônica. Nos últimos 15 anos, a oferta de água limpa disponível por habitante diminuiu 40%, e a demanda da agricultura tem sido cada vez maior. Em 20 anos haverá grande falta. Em São Paulo estamos em escassez hídrica, que significa buscar água em locais mais distantes em função do alto custo de tratamento dos rios. Sob a ótica do desenvolvimento sustentável, a água é um bem público e todos têm direito a ela. Quando jogamos dejetos também estamos usando a água, e embora seja um direito de todos, não está socializada ou disponível a todos. O desenvolvimento é necessário, mas as gerações futuras também necessitarão desse bem vital. Precisamos suprir nossas necessidades, observando com atenção e consciência a questão da água, pois é o primeiro indicativo de degradação. Açúcar Ético 84 DEBATE: Presidente da sessão, Oswaldo Lucon: Sugiro, como documentoreferência, o Relatório de Qualidade das Águas do Estado de São Paulo, site: www.cetesb.sp.gov.br. Não identificado: A lei que trata de crimes de responsabilidade ambiental pressupõe multa independente de a empresa reconhecer a culpa, fala-se em responsabilidade objetiva. Resposta: Independente do erro, a responsabilidade é da empresa. Quanto à informação veiculada pela imprensa, desconheço a veracidade do fato. José Maria, Embrapa: Acerca da poluição do aqüífero que você solicitou, gostaria de esclarecer que o artigo foi retirado do site, visto que estava em processo de apuração e não havia ainda uma conclusão. Francisco Alves, prof. UFScar: Pesquisas indicam que uma usina de médio porte, com 10 mil ton/dia, consome, por ano, água equivalente a uma cidade de 40 mil habitantes. Poucas usinas utilizam circuito fechado. Gostaria que você falasse sobre o impedimento de utilização do circuito fechado nas usinas. Resposta: Insisto na questão da vontade: o quê e como se quer, porque tecnologia existe, mas na prática isso não acontece. Há tecnologia para o reuso, bastante difundida e nos debates a afirmação é unânime quanto à reutilização. Há sobra de recursos, mas necessita-se investir em equipamentos que encarecem o processo. Mario Cardoso, Ministério do Meio Ambiente: Embora não estejam instaladas no Pantanal, as usinas estão localizadas junto à Bacia que abastece o Pantanal, inclusive o Acre irá produzir açúcar, portanto, o Pantanal não deixa de estar implicado. Gostaria de saber a origem dos dados de produção de vinhoto. Oswaldo Lucon: São dados da CETESB e há dados mais atuais da utilização da água na produção da cana, são atualizados constantemente, o prof. Regis e Isaias seriam uma excelente fonte também. Quanto ao estado da arte não saberia responder, porém tenho uma informação, espero que seja a correta, o Ministério da Agricultura proíbe a venda de vinhoto ou a cessão de vinhaça para outros proprietários e esta barreira legislativa acaba concentrando essa disposição em poucos lugares. Nivaldo Siqueira, Federação da Agricultura Familiar: Com relação ao vinhoto, ocorre ser lançado sem tratamento? Resposta: Não saberia afirmar porque não conheço suficientemente Açúcar Ético 85 bem o setor sucroalcooleiro, acredito que estejam procedendo ao tratamento. Oswaldo Lucon: A osmose reversa é caríssima, processo inviável até para esgoto sanitário. Tratamento anaeróbico há uma gama imensa e a recuperação por esse processo é passível de crédito de carbono pelo Protocolo de Kyoto. O prof. Regis poderá explicar. Reiner H. Gatto, Usina Santa Elisa: Uma observação quanto à mudança de paradigma de resíduos: a vinhaça é poluente, já temos uma nova lei de aplicação de resíduos na agricultura, ou seja, mecanismos para utilizar adequadamente os subprodutos da usina canavieira, sem necessidade de adubação química que tem sua flutuação em dólar. Resposta: O que encarece é o tratamento do vinhoto. Não sei se você é agrônomo e conhece a definição de planta daninha. Uma planta de milho em meio a uma cultura de soja é caracterizada como daninha, invasora. O poluente também, caso não seja tratado para reuso continuará poluente. Prof. Regis L. V. Leal, Unicamp: Lucon criou certa expectativa a respeito de minha capacidade de esclarecer este assunto. Mas o vinhoto é fato na produção de álcool e existe tecnologia para reduzir o volume em até 10%. O tratamento por osmose reversa é inviável para o altíssimo volume de afluente, inclusive no tratamento de água das caldeiras é usado em condições muito específicas. A tendência das membranas é baratear, porém será preciso muito tempo para chegar a ser aplicado ao vinhoto. O tratamento por biodigestão reduz o teor de matéria orgânica, mas não altera os teores de sais, potássios, sulfatos, nitratos, fósforo, nitrogênio etc; no entanto, o poder fertilizante da vinhaça continua. Quero lembrar que o potássio presente na vinhaça provém do campo, num processo de produção do álcool não é utilizado potássio, portanto veio da cana e está sendo retornado à cana; se não for colocado através do vinhoto, deverá ser através do adubo químico, portanto o vinhoto economiza adubo químico. A matéria orgânica do vinhoto é muito benéfica ao solo, estabiliza o pH do solo brasileiro, que de modo geral é ácido, além de melhorar as estruturas do solo. Os experimentos realizados em seis safras aproximadamente mostram um ganho de produtividade nas áreas fertirrigadas pelo vinhoto. Entretanto, não pode ser lançado nos cursos d’água pela altíssima carga de DBO e DQO, a Legislação Federal é muito clara desde o final da década de 70, proibindo expressamente o lançamento. Inclusive se houver tubulações de vinhoto atravessando um curso d’água, deve ser encapsulada para evitar a contaminação. A empresa Açúcar Ético 86 que não cumpre é penalizada, como no caso de Alagoas. Numa usina média, na qual se produz 50% de açúcar e 50% de álcool, para ser adequadamente distribuído, deve ser lançado sobre 30% do canavial, de preferência canaviais próximos às usinas por questões de custo e distribuição. A legislação de SP está sendo melhorada para determinar a dose máxima tolerável. Existe toda uma legislação para fazer a coisa certa. Luciana Cury, Advogada: Existem incentivos ou algum tipo de pontuação no reuso da água para empresas socialmente responsável? Resposta: Sim, o documento, elaborado pela Agência Nacional de Águas (ANA), trata especificamente do reuso da água e poderá esclarecêla. Você pode encontrar no site da ANA. Quanto à pontuação, deixo para o Instituto Ethos abordar. Tarde: Melhores práticas de gerência 14h00 – Presidente da sessão: Alexandre Strapasson, Ministério da Agricultura. Represento o Ministério da Agricultura, responsável pela fase agrícola e a parte industrial da produção de cana-de-açúcar. Este evento é extremamente oportuno em que se observa um amadurecimento ambiental e social dos atores do setor sucroalcooleiro. Há uma câmara setorial constituída no Ministério da Agricultura, que reúne representantes do setor sucroalcooleiro, e será preciso avançar nas discussões da câmara. Intervenções, prof. Francisco Alves e Maria Cristina: Universidades, Ministérios do Trabalho e movimentos sociais organizados não participam desta câmara. Alexandre Strapasson: Vamos abordar isso na seqüência. 14h20 – Paulo Itacarambi, Diretor Executivo do Instituto Ethos. Responsabilidade social, sustentabilidade dos negócios e da sociedade Apresentarei a abordagem que estamos propondo ao setor sucroalcooleiro, visto que estamos iniciando um trabalho junto ao setor, em particular um conjunto de usinas associadas à Única. A responsabilidade social é mais uma linha estratégica para enfrentar Açúcar Ético 87 problemas antigos, uma vez que não há um único caminho. O importante é ter várias estratégias com ações convergentes. Há alguns caminhos de resolução de problemas numa sociedade: via Estado, regulando a atividade e estabelecendo direitos a serem respeitados nessas regulamentações; via mobilização da sociedade civil e sindicatos de empregados ou empregadores, mediante interlocução e negociações. O Instituto Ethos busca outro caminho, que não necessariamente é o da regulação, mas que pode ser convergente com a mesma, é convergente com as ações da sociedade civil; porém, nosso trabalho é convencer as empresas que sua atividade poderá ser feita com benefícios à sociedade e para a própria empresa também. O Ethos, assim como outras instituições estão trabalhando com a responsabilidade social e os resultados estão aparecendo. Desde 1998, a missão do Ethos é mobilizar, sensibilizar, apoiar as empresas para gerir o negócio com responsabilidade social, e buscar construir parcerias com as próprias empresas para promover a sustentabilidade da sociedade. Inicialmente com 11 e hoje com 1.173 empresas associadas, que não significam socialmente responsáveis, mas que se propõem a ser socialmente responsável, visto que há uma série de desafios a vencer. Portanto, ser associado ao Ethos não significa ser socialmente responsável, mas que participa desse movimento, o qual irei apresentar aqui. Responsabilidade social significa desenvolver uma qualidade de relacionamento com todo seu público, com ética, transparência e solidariedade, e com todos os afetados pelo negócio; ou seja, a empresa não está apenas preocupada com o próprio resultado, mas com o de todos, para estabelecimento de metas compatíveis com o desenvolvimento sustentável, garantindo que a riqueza natural, a base material da vida continue disponível as outras gerações. Responsabilidade social é do interesse do negócio e são quatro indicadores de tendência: a) está se transformando em exigência de mercado, como se observa pela construção da ISO26000 (auto-regulação do mercado); b) empresas têm uma tradição de filantropia e há uma tendência de se transformar em uma ação planejada na forma de investimento social; ou seja, ter o mesmo comportamento nas ações sociais quanto no negócio, um compromisso com a continuidade das ações. Há algumas empresas que se comprometem com 1% do faturamento, o conceito de responsabilidade social não significa só a resolução de problemas existentes pelas empresas, mas não produzir novos, uma vez Açúcar Ético 88 que esses surgem de nossa atividade econômica e social; c) na própria atividade de marketing da empresa, a importância da responsabilidade social está presente, tentando ser reconhecida como socialmente responsável no mercado e na sociedade, para agregar valor à empresa. Algumas buscam fazendo pouco, outras com persistência; d) há um esforço real de algumas empresas em internalizar a responsabilidade social tanto na cultura da empresa como na cadeia de valor. O mesmo processo ocorrido com gestão de qualidade está se efetivando com a qualidade do relacionamento, internalizando no processo, com pessoas, e na cadeia de valor. O gráfico Dow Jones Sustainability Indexes revela que os investidores se orientam pelo comportamento das empresas. No Brasil, o Bovespa lançou o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que destaca empresas com rendimento maior. No início do ISE, discutiu-se a entrada de determinados setores, p.ex., cigarro, pois na Bolsa de Londres não é permitida. O Ethos integrou o comitê na estruturação e gestão do índice, no qual se discutiu a questão, pois há empresas que possuem comportamentos mais responsáveis com a sociedade, embora seu produto não, como no caso de bebidas e comidas prejudiciais à saúde, optou-se por medir o impacto do produto, além do comportamento na sociedade. Nenhuma outra bolsa no mundo coloca essa análise. A partir do ISE, diversos bancos constituíram fundos de investimento (Itaú, HSBC, BB, Bradesco...), assim como os fundos de pensão estão definindo critérios para seus investimentos e acompanham a gestão das empresas. Tendência de mudança de comportamento do consumidor, demonstrada em pesquisas que estão sendo realizadas pela Akatu há cinco anos. Em 2000, maior percentual de consumidores assinalavam que o papel das grandes empresas era gerar lucro, emprego, pagar impostos e cumprir leis, ou seja, o papel social da empresa. No entanto, hoje, além desses aspectos, há o diferencial competitivo do mercado que é a ação de responsabilidade social no negócio, com a adoção de padrões éticos mais elevados, indo além do que é determinado pela lei. Este é nosso conceito de responsabilidade social. Lei se respeita ou se discute mudanças. Do ponto de vista da empresa ou da cadeia de valor, a responsabilidade social agrega valor à marca, melhorando o desempenho, e também não resta dúvida de que o ambiente de responsabilidade social cria possibilidade de melhor rendimento de produtividade, uma facilidade maior em assumir lideranças no mercado, além de melhor penetração no mercado externo, com discussão de barreiras não tarifárias. Açúcar Ético 89 Responsabilidade social beneficia também a sociedade, pois o uso predatório dos recursos naturais, a acumulação de renda e não de distribuição, a exclusão social, a redução da participação no processo produtivo, a má aplicação e gestão dos recursos geram problemas sociais. As empresas precisam inverter a lógica do pensar apenas em sua fatia de participação e passar a participar do controle social do Estado, ou seja, defender o interesse conjugado com o interesse do bem público. Os problemas ambientais e sociais são resultados de nosso comportamento cotidiano: a ética de ganhar o máximo possível. Na produção de nossa matriz energética de carvão, vemos o trabalho de crianças, o desmatamento pelas queimadas, extração de madeiras e a poluição dos rios. Os fenômenos naturais que produzimos, seca, inundações, furacões, não é só a regulação que irá resolver, e devemos perguntar, portanto, qual a ética que está implícita. Estratégia de mudanças social e empresarial: Melhoria nos processos de governança e gestão. Parceria com a Única. Ferramentas diversas utilizadas pelo Ethos na aplicação: indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial, uma fotografia da empresa, os quais mostram o comportamento que a sociedade espera da empresa. Educativos, pois sinalizam em que aspectos as empresas podem evoluir, dando uma visão de conjunto ao aliar com a estratégia de posicionamento no mercado. Ajudam a estabelecer estratégias. A participação das pessoas na aplicação coletiva, cria para a direção da empresa uma percepção dos funcionários, que vale muito, pois é diferente da cultura em vigor. Estrutura de tema: valores, transparência e governança (enraizamento da cultura organizacional internamente e estabelecimento de diálogo com fornecedores e concorrência); público interno (qualidade das relações com sindicatos, trabalhadores, se esses participam da gestão); meio ambiente (gerencia o impacto no meio ambiente, minimização da entrada e saída de resíduos); fornecedores (trabalho infantil, trabalho forçado, relação de desenvolvimento com fornecedores); consumidores e clientes, comunidade (tema das ações sociais, na forma de relação de desenvolvimento ou filantropia); governo e sociedade (contra propina e Açúcar Ético 90 corrupção, transparência e liderança social, associando suas ações com política públicas). Verificação se a empresa respeita a lei. Identificação do nível de comprometimento a partir dos procedimentos internos, definição através de indicadores quantitativos e questões. Existem indicadores setoriais, porém não existe ainda no setor de açúcar e álcool. A partir disso, é feito um relatório confidencial disponível para empresa, comparando com o grupo melhor classificado no mesmo setor (benchmarking). Nesses relatórios, a idéia é produzir uma média do setor e cada empresa identifica como está localizada nessa média, buscando assim posicionar-se num nível mais próximo do seu próprio setor. Existe também a resposta dos indicadores do GRI, para formular o relatório de sustentabilidade. Correlações com outras normas. No trabalho com a Única, cada empresa receberá a média e as melhores práticas do próprio setor, promovendo melhorias e um diferencial competitivo no conjunto das empresas e para cada uma em particular. Em parceria com o BIRD, estamos convidando uma outra empresa do setor, que participará do Programa TEAR (Tecendo Redes Sustentáveis), com três anos de duração, estabelecendo uma âncora em cada setor, que integre uma rede setorial (15 clientes ou fornecedores), reproduzindo isso entre outros grupos de empresas. O mesmo processo é estendido às várias empresas de diferentes setores, Governo, mídia, investidor e consumidor seriam indutores para que o programa se propague. Várias âncoras transferem conhecimentos para várias outras âncoras. O trabalho inicial é de sensibilização, auto-avaliação, capacitação e implantação. Esses dois programas podem criar uma nova estratégia, um novo caminho que se soma à estratégia da regulamentação, dos confrontos necessários entre sociedade, empresa e câmaras. A empresa que defende interesse público e privado tem diferencial no mercado. Gostaria de finalizar com algo que aprendi das meninas do TEAR, ou seja, terminando com uma mensagem: “O futuro assim como o sonho é um espaço aberto para a construção coletiva”. DEBATE Francisco Alves, prof. UFSCar: Trabalho no setor sucroalcooleiro há mais de vinte anos, e penso que estamos no mesmo caminho no sentido Açúcar Ético 91 de construir uma sociedade mais justa e relações melhores entre trabalhadores, empresas do setor e meio ambiente. Minha dúvida é a seguinte, ontem foi colocada a questão do aumento da formalização dos trabalhadores, que é um indicativo interessante; por outro lado, se cresceu a formalização, a exigência é maior em relação à produtividade dos trabalhadores, que era de 6 passando hoje para 12 ton/dia de corte, isso não aparece nas estatísticas; ou seja, aumenta a exploração do trabalhador, redundando em morte por exaustão, são 14 casos até o momento, e não vi o Ministério da Agricultura presente em qualquer dessas audiências públicas. Além dessas mortes, está subindo o número de acidentes de trabalho, além de tornar inativo o cortador após 8 anos de atividade. Como o Ethos trabalha diferentes indicadores que possam demonstrar de fato se há ou não um avanço? Pois se pegarmos um indicador isoladamente, como me pareceu que o Governo está pegando para afirmar que há problemas, mas está se avançando; em contrapartida, tanto o setor sucroalcooleiro como o Estado estão tentando fortemente aumentar as exportações, em vista do Protocolo de Kyoto, o álcool está se tornando uma commoditie, e, ao mesmo tempo, estão tentando esconder de outros países as mazelas do setor. A Abrinq destacou os dados acerca da redução do trabalho infantil, eu, p.ex., não vi crianças trabalhando na região de Ribeirão Preto, porém vi recentemente no NE crianças em turnos de trabalhadores no corte da cana, em compensação cresceu a gravidez precoce e o consumo de crack, portanto se houve a erradicação do trabalho infantil, por outro lado não houve nenhum tipo de política pública que deveria ser feito juntamente com as indústrias para que esse problema fosse reduzido. Outra pergunta, relacionada ao PAS (Programa de Assistência Social), no setor há uma lei quando da criação do IAA, de 1937, que obrigava as empresas a depositar 2% do faturamento da cana, ou seja, um fundo destinado a programas sociais; a lei está vigente ainda, mas não se cumpri nem se fiscaliza, uma vez que era o IAA que fiscalizava e o órgão acabou. Resposta: O Ethos não fala “em nome de”, mas apenas dialoga com as empresas no sentido de mudança de comportamento. Portanto, não representa as empresas, visto que já têm seus mecanismos de representação (associações, sindicatos etc.). Sugerimos e provocamos as empresas para mudanças de comportamento e apoiamos as mudanças caso queiram. Não defendemos nem divulgamos, pois a empresa é o ator. No caso de situações de trabalhos indecentes, estimulamos relações de trabalho formalizados que criam direitos e compromissos respeitados, Açúcar Ético 92 para atender à legislação. Por exemplo, há relações consideradas como trabalho escravo até pelo nível de produção, de vínculo se a pessoa pode ou não deixar esse vínculo. A OIT fez um levantamento junto com a ONG Repórter Brasil em cada empresa na qual se mantinha trabalho escravo, levantando a cadeia toda, da produção às vendas, e apontou ao Ethos, pois havia várias empresas associadas ao Ethos. O que fizemos? Perguntamos às empresas se iriam fazer algo antes ou depois da divulgação da lista negra. Todas tiveram a iniciativa concreta de tentar eliminar não era a empresa que tinha trabalho escravo, mas comprava de quem tinha, dando início a um trabalho efetivo, e a se constituir um pacto nacional de combate ao trabalho escravo. É nesse aspecto que atuamos, expondo os problemas e não escondendo. Quanto aos indicadores, apresentamos todos juntos, a empresa tem a medição e não divulgamos, pois os indicadores não são pesquisas para serem divulgadas, é uma ferramenta de gestão para a empresa. O Ethos produz essa informação e o resultado global a Única terá, e caberá a ela divulgar ou não. Sinalizamos a cada uma das empresas e a pontuação de cada empresa no conjunto. Quanto ao fundo, há vários exemplos de fundos parados para ter aplicação e precisamos analisar para tentar reforçar as políticas públicas. Alexandre Strapasson, Ministério da Agricultura: Vamos, portanto, colocar as principais ações que têm sido desenvolvidas pelo Ministério, a fim de não reinventar iniciativas que já existem ou que não deram certo. Estamos cientes das dificuldades que estão acontecendo, mas é importante que nas missões internacionais o Brasil se projete com os produtos brasileiros. As relações de trabalho devem ser resolvidas aqui dentro. A cana-de-açúcar não pode ser um vilão porque é um combustível não fóssil. Cada vez mais, percebemos que os problemas das relações têm que ser enfrentados conjuntamente. A própria Organização Internacional do Açúcar está discutindo com a WWF para incentivar melhores práticas ambientais e sociais. É necessário implementar ações concretas, projeto de lei, decreto, linha de financiamento etc. Quanto ao PAS, a lei foi derrogada, continua vigente, mas não vigente de fato, pois trata de preço controlado e não há mais preço controlado. A posição da Consultoria Jurídica, que é a Advocacia Geral da União, a qual o Ministério jamais pode deixar de atender, pois se trata de um parecer jurídico da República e o Governo terá que aguardar a decisão judicial, e nos cumprimos à lei. Não é algo simples porque se trata de uma assistência social única no Brasil, portanto, criar planos Açúcar Ético 93 paralelos é inconstitucional. De qualquer forma, são boas essas provocações com pontos de vista contraditórios, pois, na verdade, se avança quando há conflitos de idéias. Perguntaram, aqui, por que o Ministério da Agricultura não organiza conferências e seminários com audiências públicas para resolver essas questões, posso afirmar que esses temas já foram tratados no Gabinete da Presidência da República. E quanto às audiências públicas também já tiveram, concordo que é preciso fazer mais. Maria Cristina Gonzaga, Fundacentro: Antes de fazer a pergunta quero colocar que o Ministério do Trabalho, após inúmeras audiências públicas está convocando em Brasília uma câmara setorial para reuniões com a cadeia produtiva da cana, desde a produção do álcool e do açúcar até os cortadores, e foram nessas reuniões que as federações filiadas à CUT e à Força Sindical estranharam ter uma câmara setorial em Brasília, e as federações não foram chamadas para participar. A Fundação tem essas informações para disponibilizar. Como o Ethos mensura objetivamente fatores relacionados ao compromisso ético, às condições de trabalho, p.ex. faltas ao trabalho, relações com sindicatos, que são de caráter subjetivo? Resposta: Questões como as que se encontram na agenda de trabalho da OIT, da SA8000 e na legislação geral do trabalho constam do questionário geral, as relacionadas especificamente ao setor, solicitamos que sejam feitas recomendações para compor o questionário setorial. A questão ética não é medida apenas subjetivamente, pois, embora haja questões subjetivas como descrever determinados relacionamentos, avaliase os procedimentos de forma qualitativa e quantitativa. Não-identificado: Como o Ethos acompanha e fiscaliza as ações? Resposta: Não acompanhamos nem fiscalizamos. Não temos função de Estado, nem de representação, mas a de provocar mudanças de comportamento. Não somos um selo, ou seja, certificadores. Achamos importante estimular a mídia a fazer uma visão crítica e já capacitamos uma rede de jornalistas Ethos, cerca de 700 jornalistas preparados para entender indicadores e exercer um controle social que nós não nos propomos a fazer. Aparecido Bispo, Dirigente Feraesp, região de Andradina: O Ethos mede o índice de ausência ao trabalho por acidentes? Resposta: Sim, medimos. Intervenção Fabrício Vieira Juntolli, Ministério da Agricultura: Gostaria de prestar um esclarecimento. Sou agrônomo, fiscal federal e Açúcar Ético 94 pecuário e estou na Coordenação de Apoio às Câmaras Setoriais e Temáticas, criada em janeiro/2006, pelo Decreto no 5153, com representação hoje de 26 câmaras setoriais e temáticas, com tendência a aumentar o número. A coordenação de apoio possui seis divisões nas quais estão distribuídas as câmaras. Minha função é de supervisor da Câmara Setorial do Açúcar e do Álcool da cadeia produtiva. Desde sua criação, foi efetuado um levantamento das documentações antigas, para estruturar e conseguir acompanhar todas as demandas que mantêm uma câmara ativa. Foram despachados ofícios a todos os ministérios e órgãos responsáveis do setor público, para participação de representantes na Câmara. Após criação da câmara não podemos expedir ofícios e cabe a instituição enviar um ofício, demonstrando interesse em participar. Recebido o oficio, há um pleito na reunião seguinte da Câmara e até hoje não foi negada nenhuma participação. A Coordenação de Apoio a assuntos setoriais foi criada para dar suporte ao setor produtivo, interligar, trocar informações e solucionar problemas conjunturais e estruturantes de cada câmara, por exemplo, entre a câmara da borracha natural e a de cacau, pois os problemas correlacionados com ambas são solucionados, como também a Câmara Produtiva do Biodiesel está relacionada à Câmara do Açúcar e do Álcool. 16h13 – José Maria Gusman Ferraz, Embrapa, Jaguariúna, SP Certificação e rotulação social e ambiental A discussão deste tema é oportuna quando há um novo plano de energia ligado ao álcool. Em 1998-99, participamos junto aos grupos coordenados pela Imaflora e Fase para tentar propor uma certificação socioambiental ao setor sucroalcooleiro. Para lembrar o conceito mais clássico, toda certificação é como instrumento econômico baseado no mercado, visando diferenciar produto, fornecendo incentivos tanto para os consumidores como produtores. No entanto, com o desenvolvimento do agronegócio, as certificações foram crescendo com diferentes tipos de selo (verde, orgânico etc.). As empresas brasileiras que desejam exportar buscam uma certificadora para reconhecimento externo, o que gera dificuldade para o agricultor familiar, em função de exclusão do mercado. De modo geral, essas certificações surgiram em decorrência da preocupação dos países europeus e do continente Norte com a qualidade Açúcar Ético 95 dos alimentos que estavam ingerindo, em conseqüência da venda de seus insumos a outros países, cujo retorno se dava na forma de alimentos contaminados. No que tange aos produtos orgânicos, predominam a IFOAM (Federação Internacional de Movimentos de Agricultura Orgânica); a FLO, para o comércio justo, que trabalha basicamente com agricultura familiar, pequena produção, é uma instituição que trata do comércio justo de países menos desenvolvidos para os mais desenvolvidos economicamente, isso também é uma reserva de mercado; a ECO-OK, de origem americana, que trata das exportações da América Latina para os Estados Unidos e a Europa; o HPCC, que surgiu por exigência também de mercado em avaliar e monitorar os pontos de risco durante todo o processo e atender às exigências para exportar. A certificação dá credibilidade junto aos consumidores e compradores, em função da distância dos mercados. Assim como existem também as ISOs, 9000, a 14000 indiretamente está relacionada conosco, que também são excludentes em relação às empresas de pequeno porte, em função do custo elevado. Existem alguns critérios em relação à ISO: empresas que tenham implantado ISO não significa necessariamente que tenham consciência ambiental ou tratem seus empregados de forma justa quanto aos aspectos trabalhistas e sociais; estão tentando uma representação equilibrada dos setores para conseguir uma certificação diferencial para o mercado; apresentam sistema de gestão ambiental eficiente, mas não garante que seja ambientalmente adequado, uma vez que são eficientes na administração de perdas e no tratamento dos resíduos, porém ainda não ambientalmente adequado efetivamente; relação com o consumidor final, às vezes não é transparente e não considera aspectos sociais, mesmo a ISO14000. A certificação socioambiental preocupa-se com a sustentabilidade do aspecto econômico, social e ambiental cuja importância é dar voz e o mesmo poder de voto aos setores envolvidos no processo. Esta certificação foi implementada e está funcionando com a madeira, por exigência de mercado, e há alguns problemas ao se retirar uma árvore de uma floresta sem modificar todo o entorno, existe portanto um avanço, como também há restrições, que são melhoradas ao longo do tempo. Diferença entre ISO e certificação socioambiental: essa última trabalha com a performance do resultado e não somente com procedimentos; ou seja, no caso da ISO, a empresa elabora os procedimentos em função do que se propôs a fazer, enquanto a certificação Açúcar Ético 96 socioambiental tem uma performance mínima que o setor produtivo ou empresa deve manter, uma sutil diferença. A certificação socioambiental baseia-se em princípios e critérios. Nos princípios são definidas as estruturas básicas dos padrões, p.ex. devem ser conservados os recursos naturais. E cada princípio é composto de uma série de critérios, p.ex. a preservação da água deve ser monitorada etc; e a partir dos critérios serão definidos os indicadores técnicos, tal como monitorar a qualidade da água etc. Nem sempre os indicadores são adequados para determinados critérios e será necessário buscar alguns indicadores para mensurar, p.ex., a saúde dos trabalhadores, pois dependendo dos indicadores utilizados obtêm-se dados diferentes e pode também ser tendencioso, caso não seja utilizado um indicador adequado. De modo geral, para exportar é preciso um credenciador fora do país, que garante que sua certificação seja adequada aos padrões estabelecidos pelo credenciador internacional. Benefícios da certificação: consumidores: passam a ter mais confiança em relação ao produto; grupos ambientais e sociais: pois têm um espaço na criação da certificação, em que podem discutir a relevância de determinados aspectos, além de acompanhar o processo de certificação; Estado: que poderá utilizar os mecanismos discutidos, inclusive com definição de políticas públicas para direcionar também linhas de financiamento, facilitação de créditos para os que atendem aos parâmetros mínimos, e a pesquisa para definir indicadores mais adequados para os pontos definidos; produtores: os mais interessados, pois faz parte do negócio, para acessar novos mercados com produto diferenciado, neutralizar críticas de dumping ambiental e social e obter um preço maior inicialmente, porque está saindo na frente. Produto: também pode ter alguns benefícios com as certificações, como também no caso da ISO, normalmente tem um prêmio de seguro mais baixo quando coloca algo no seguro, o financiamento é mais fácil, a fiscalização pública normalmente é menor, uma vez que se está sendo certificado, está sendo auditado ou fiscalizado pelo menos teoricamente, porque é isso que manterá ou não a certificadora no mercado. Portanto, se há 100 empresas e dentre essas 20 apenas estão sendo auditadas, o Estado irá auditar as demais. Imagem institucional: bastante forte, como exposto pelo Ethos, que irá refletir no mercado, créditos etc. Cenário: favorável à expansão do setor sucroalcooleiro por ser uma alternativa de biocombustível. Áreas de expansão: Centro-Oeste, Tocantins, sul do Maranhão e Piauí. Se formos verificar os 40 novos Açúcar Ético 97 projetos de usinas, 25 estão localizados no estado de São Paulo, e já vimos os problemas existentes em SP com relação à cana, que deverá ainda concentrar mais problemas social e ambiental etc. Tendência de fechamento de pequenas usinas juntando-se com os conglomerados. O prof. Francisco pode discutir isso porque vem acompanhando de perto, sobretudo o aporte de capital externo no setor com a compra de usinas grandes, que se assemelha à compra do gerenciamento de água do país dada a lucratividade. Competitividade brasileira é atrativa em decorrência do custo de produção, portanto a tendência de se produzir aqui é muito maior. Cabe destacar que o trabalhador para cortar 10 ton/dia de cana estima-se que dê 10 mil golpes de facão, ou seja, de movimentos repetitivos para ganhar um salário “razoável” durante o período de safra e poder sobreviver nos meses restantes. Apresentarei brevemente o processo de certificação do setor sucroalcooleiro: a certificação socioambiental brasileira surgiu por iniciativa da Imaflora, com parceria da Fase, entre 1996-98, baseada na experiência com o setor madeireiro, e nessa época discutia-se a retomada do Proálcool. O Plano Nacional de Agroenergia, do qual a Embrapa participou, realizado e editado pelo Governo, com o cenário de 2006 a 2011, revela expansão muito forte. Tem-se no setor sucroalcooleiro, conforme estudos e pesquisas, inclusive dos participantes e instituições presentes aqui hoje, duas realidades distintas, grupos trabalhando com tecnologia de última geração, de um lado; e em condições semelhantes a da escravidão, de outro; e a certificação tem um papel relevante, embora exista toda uma legislação. Estabelecimento de objetivos e parcerias: pretendia-se definir o padrão para avaliação de monitoramento e certificação socioambiental de forma participativa; definir e implementar o sistema de certificação para estabelecer uma estrutura que regulamentasse o funcionamento da certificação, pois não existe no setor sucroalcooleiro uma certificadora específica, e harmonizar o sistema criado internamente com as iniciativas internacionais de certificação. Construção do sistema interno: reuniões preparatórias em que foram convidados todos os possíveis interessados do setor, para apresentar o tema e colher informações. Foram organizados dois workshops com organismos públicos e instituições para discutir padrões a serem estabelecidos na certificação, procurando-se equilibrar o econômico, o social e o ambiental, e após discussão com grupos de trabalho, colocouse em plenária. O resultado dos workshops foi passado para 200 Açúcar Ético 98 instituições que retornaram o material para rediscussão em outro workshop e, finalmente, após determinados os padrões e indicadores, foi feito um teste de campo para verificar na prática se eram adequados, uma vez que as discussões eram controvertidas e teóricas. Em assembléia final, foram submetidas as discussões por grupos de interesses, divididas em 3 câmaras, não se levando em conta o número de integrantes de cada câmara, pois cada câmara teria 1:3 de votos para estabelecer os padrões. A assembléia também determinou a certificação agrícola. Houve um equilibro em relação aos grupos de interesse econômico, social e ambiental e um desequilíbrio na representação de instituições com trabalhadores, embora tenham participado, não foram constantes na participação ao longo do processo. Participação ativa das ONGs, focadas no aspecto ambiental (queimadas) e não tanto no aspecto social, dado que há um movimento atuante em Ribeirão Preto, a Pau-Brasil, que conseguiu mudar a situação do município. Empresas, produtores, e também algumas usinas se destacaram mais, pois na época já tinham uma visão avançada do que a média, o que favoreceu muito o desenvolvimento do processo. Somente na assembléia final, a CUT teve maior participação, no decorrer, embora os trabalhadores não estivessem, havia a participação de pesquisadores e professores universitários com uma visão social profunda, fortalecendo o papel do trabalhador, dando um caráter de equilíbrio. Houve participação atuante de instituições governamentais. É preciso destacar que este estudo piloto foi feito em SP, pois cerca de 60% da produção é no estado, embora tenha participação do NE quando da elaboração da publicação do livro. Os padrões foram alterados ao longo da discussão, incluindo-se aspectos industriais e de produção, para certificação como um todo do setor sucroalcooleiro. Outros temas amplamente discutidos: Terceirização: inicialmente foi estabelecido que o trabalhador não poderia ser terceirizado por estar circunscrito à atividade fim da empresa; após consenso, optou-se por priorizar a mão-de-obra e não seria obrigatório, p.ex. a empresa que conseguisse priorizar uma mão-de-obra própria teria vantagens em relação às demais, porém não necessariamente essas últimas seriam excluídas da certificação; Queimadas: além do atendimento à legislação, exigida por qualquer certificador, as empresas deveriam apresentar um planejamento de redução e eliminação de queimadas, acompanhado de contrapartidas sociais para o trabalhador e a comunidade do entorno; Área de Preservação Permanente: em torno dos cursos d’água, inicialmente chegou-se a conclusão de que serviriam, num primeiro momento, como atividades Açúcar Ético 99 não impactantes, pois observa-se no setor sucroalcooleiro de modo geral que não é respeitada; Reserva Legal: com a legislação vigente, procura-se juntar à APP cuja legislação não é confusa, porém pode-se interpretar de diversas formas com a Reserva Legal e obter uma redução da área total. Além disso, se houver uma área que por algum motivo não possa ser recuperada, tem de ser feito dentro da microbacia um ponto crítico, porque a maioria das usinas não possui. A ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio) tem se empenhado em reduzir os 20% destinados à Reserva Legal, argumentando se fosse estabelecida para todo o estado haveria desemprego, mortalidade, e a recuperação deve ser feita com prazos factíveis, e, por outro lado, a mão-deobra temporária pode se transformar em permanente na APP no período de entressafra, dentre outras possibilidades. Com esses conflitos entre padronização estabelecida e a legislação na obtenção de certificação com o cumprimento apenas da exigência da Reserva Legal e APP, definiu-se pelo cumprimento de um plano de recuperação bem determinado e com prazos bem definidos para obter a certificação; Trabalhadores migrantes: inicialmente, optou-se pelos trabalhadores do local para evitar êxodo, condições desumanas e precárias, pois vivem em barracos nas regiões de Ribeirão Preto e nas demais regiões do estado de SP. Embora seja uma medida excludente, os trabalhadores seriam prioritariamente do local. Foram realizados testes de campo em duas usinas para avaliar e monitorar a adequação, utilizando-se o método adotado pelo CIFOR (Center for International Forest Research) para o setor madeireiro, com adaptações ao setor sucroalcooleiro. Houve empenho das usinas na concessão de espaços e de informações para cumprir definições do padrão e concluiu-se que eram bastante adequadas para proceder à certificação socioambiental do setor sucroalcooleiro. Com o padrão definido seria preciso regulamentar e constituiu-se um comitê de certificação mais amplo, um grupo de trabalho em que houvesse o equilíbrio entre grupos de interesse nos aspectos ambiental, social e ecológico e de categorias (ONGs, trabalhadores, produtores etc). O comitê seria uma instância de decisão e responsável por credenciar e monitorar as certificadoras, avaliaria os relatórios e daria parecer favorável ou não à certificação; o grupo de trabalho seria uma instância operacional, discutindo-se, na verdade, procedimentos ou questões pendentes em relação à certificação. Teria uma assembléia que é o fórum máximo para revisão dos padrões, uma vez que houve todo o trabalho de construção desses padrões e para modificá-los não caberia a decisão proveniente de um grupo pequeno, mas de uma assembléia como ocorreu inicialmente. Açúcar Ético 100 Foi proposta também uma harmonização internacional, com consultas às organizações, tais como: ECO-OK, que aceitou as reivindicações desses padrões para ser a representante internacional; a Fair Trade, que trabalha muito mais com a agricultura familiar, não se dispôs porque não é o foco dela no Brasil, trabalha com o café e outras culturas, infelizmente, pois seria bastante interessante não só para o açúcar e o álcool, mas também para os produtos como a rapadura e outros oriundos da agricultura familiar – um mercado interessante -, que não deve ser desprezado, inclusive para exportação; e a INFOAM, que, no caso, tem uma parceria com a IBD, trabalha com produtos orgânicos e não daria para fazer uma ligação direta com eles, visto a possibilidade de fazer uma certificação como orgânicos e após fornecerem uma certificação socioambiental. Todo o processo se encontra nesta reedição, com estudos de vários pesquisadores e instituições. Estamos discutindo porque não se validou esta certificação e foi aceita a da madeira, talvez devido ao próprio contexto do mercado para uma certificação deste tipo. O que seria interessante discutir aqui para entender a lógica. Citarei apenas alguns indicadores trabalhados para o setor sucroalcooleiro, com caráter obrigatório ou facultativo, os quais agregam pontos à empresa para obter a certificação: conformidade com os acordos internacionais; programa social; direito ao uso da terra; segundo a Pastoral dos Migrantes, em SP há cerca de 40 mil trabalhadores no período da safra; morte de trabalhadores na região de Ribeirão por exaustão não há outro nome, com problemas de coração, câimbras; não houve nenhuma melhoria nas ferramentas dos trabalhadores, o facão continua o mesmo, passando a produtividade na década de 80, de 6 para 10 ton/dia no mínimo, chegando a atingir 12-15 ton/dia por trabalhador hoje, a população teria ficado mais forte?; com a exigência mínima do corte de cana ocorre uma exclusão de trabalhadores com mais idade (40 anos) e de mulheres, em função da exigência de produtividade; critérios de pagamento e sistema de medição em vigor, pois o trabalhador corta a cana e não pesa, essa medição é correta em alguns locais enquanto em outros é controvertida; comissões de negociações; respeito às culturas locais; controle de agroquímicos, inclusive da pulverização aérea, que atinge quilômetros além do local, com morte de pessoas e animais como ocorreu no setor arrozeiro. Há um estudo recente da Embrapa em usinas onde não há queimada, mostrando que os animais de várias espécies em extinção estão voltando Açúcar Ético 101 ao sistema ou se reproduzindo, em virtude de melhores práticas desenvolvidas pelas usinas. Portanto a certificação destacaria os grupos com cuidado ambiental. DEBATE Mario Cardoso, Ministério do Meio Ambiente: Nota-se dois caracteres presentes na certificação: voluntário e dependente. Portanto, para fazer políticas públicas utilizando a certificação já tira um pouco o caráter voluntário e passa a ter o de imposição de lei na certificação. Penso que há uma deturpação da certificação neste caso. Outra questão diz respeito ao caráter obrigatório “deve cumprir a lei”, quanto à sua colocação de que em raríssimos casos há a Reserva Legal e a APP preservada, por aí já não cumprem a lei, logo raríssimos casos poderiam ser certificados quando se questiona os 20% de Reserva Legal, o que diríamos dos 80% da Floresta Amazônica e dos 35% do cerrado na Amazônia legal. Resposta: Você tem razão. A legislação na Amazônia e muito mais restritiva (80%), considerando que os solos e os sistemas da Amazônia são extremamente mais frágeis em comparação aos de SP, que já estão destruídos e não caberia destruir a Amazônia também, portanto a legislação não é muito controvertida neste ponto. Em alguns pontos a certificação teve que enfrentar casos controversos, p.ex., o da Reserva Legal e APP, embora no geral a legislação do País tem que ser observada há casos específicos que não dá para certificar, e o governo não tem condições de multar a todos e se multar pára o setor também. É efetuado um trabalho para elaborar um plano de recuperação junto aos órgãos ambientais brasileiros. Cada caso é diferente, e a certificadora teria essa função ao obrigar a empresa a fazer uma proposta de curto, médio e longo prazo para poder ser certificada. Quanto às políticas públicas, eu não disse que o setor público deveria usar este referencial, p.ex., alguns países europeus, na França também se observa a multifuncionalidade da agricultura, os agricultores que preservam o ambiente e a cultura têm algumas vantagens em relação aos demais. O governo faz esse papel; e na verdade não está indo contra a legislação, mas acrescentando algo para aqueles que estão produzindo um bem público, e as empresas que tiver avançado além da legislação se beneficiariam de alguma forma. Karina, Instituto OIA Brasil: A maior dificuldade que enfrentamos, acredto, são os protocolos da legislação brasileira, muito mais rígidos do Açúcar Ético 102 que os existentes no mundo, sobretudo na agricultura. Existe um mercado diferenciado para a cana ou o açúcar certificado? E por que os indicadores de boas práticas? Silvia Miguel, Jornal da USP: Você mencionou que a IMAFLORA e outras ainda participaram do processo, e não ficou claro se ainda está implantado em alguma usina, já que não existe uma certificadora socioambiental no Brasil. Não-identificada (Instituto Ethos): Gostaria de parabenizar por sua apresentação e se puder disponibilizar ao Ethos seria de muito auxílio. Complementando sua exposição quanto à ISO-9000 e ISO-14000, que não abordam o desempenho, apenas sistema de gestão e de processo, está sendo desenvolvida a ISO-26000 que é de responsabilidade social, mas irá incorporar também questões ambientais, e não será certificável nem de sistema de gestão, portanto o foco estará no desempenho, o que é importante para setores que estão exportando observar este movimento internacional, pois estará em vigor em 2008. E me instiga saber por que uma iniciativa tão importante não tenha vingado no mercado nacional, talvez uma iniciativa internacional que tenha um apelo maior de comércio internacional possa ser uma ancoradoura para a iniciativa de vocês. Maria Cristina, Fundacentro e Ministério do Trabalho: Gostaria de ter mais detalhes sobre os indicadores utilizados para medir a saúde dos trabalhadores. Resposta: Iniciando pela última questão dos indicadores, um dentre esses é a intoxicação por agrotóxico. Temos um trabalho com o Ângelo Trapia, da Unicamp, que tem ampla experiência neste setor, e as notificações nem sempre correspondem ao número real de intoxicação ou de mortandade por exaustão. Posso disponibilizar todos os estudos e você poderá contribuir também com sua análise. Referi-me somente à ISO-9000 e 14000 em vigência; porém, foi muito bem lembrado por você, pois irá melhorar a forma de certificação. Com relação aos indicadores de boas práticas, foram incluídos e não daria para abordar todos aqui, pois foram mais de 300 instituições participantes do processo. Na verdade, não se implementou a certificação e pensei, aqui, em discutir e entender a lógica, mas é o mercado que determina se pega ou não, e na época, havia um excesso de álcool nas usinas e quando estávamos no trabalho de certificação, percebemos que uma usina estava usando resina para vender álcool anidro, para retirada da água do álcool, em vez de benzeno, que é cancerígeno. Conseguiu vender por esse diferencial para o Japão, porque era uma restrição exigida. Açúcar Ético 103 E na certificação são preconizados esses benefícios ambientais e as inovações tecnológicas. Algumas usinas mais avançadas adotaram a Certificação Orgânica que, naquele momento, era mais interessante e mais rápida. Acho interessante destacar que na expansão do setor não serão respeitadas muitas condições, o problema ambiental irá agravar muito e de forma critica, tanto no estado de SP quanto em outros estados, pois também há diversos grupos que chegam de fora sem a intenção de preservar, e será preciso saber como o setor e o Governo irão se posicionar. Alexandre Strapasson, Ministério da Agricultura: Uma informação acerca da exportação do setor. Com a demanda de etanol no mercado interno e externo e do mercado do açúcar no plano internacional; hoje, existem 89 projetos em andamento no Brasil, 30 dentre esses ainda em construção e a maioria na região Centro-Sul. Dos projetos viáveis ainda em construção, a maioria está localizada em SP, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Sergipe e Ceará, e não há projetos para a região amazônica, exceto a reativação de uma usina no Acre. Gostaria de ressaltar a necessidade de colocar atenção no trabalho dos órgãos que focam o meio ambiente, porque não existe mais intervenção do Governo Federal no setor para estabelecer em que lugar poderá ter uma usina, pois desde a extinção do IAA, em 1990, houve um processo de liberalização até bem recentemente, há alguns anos. E a única intervenção do Governo hoje é a mistura de álcool à gasolina, portanto há dificuldades legais, o que, por outro lado, é um avanço em termos de estimular a competitividade do setor, a não ser por questões ambientais, ou pela construção de outros mecanismos. Delcio, Instituto Vitae Civilis: Embora não tenha mais o IAA, existem outras formas indiretas, tais como BNDES, Ministério do Meio Ambiente, Conama, Ministério da Agricultura que devem ter instrumentos. José Maria, Embrapa: O mercado tende a expandir por vários motivos, a Organização Internacional do Comércio seguramente está se abrindo para o álcool e principalmente o açúcar brasileiro; em contrapartida, teremos que comprar produtos tecnológicos e vamos continuar degradando o ambiente para vender uma commoditie e comprar produtos caros, esse ponto ainda não foi discutido. 17h21 – Manoel Regis L.V. Leal, Unicamp–NIPE, núcleo disciplinar energético do BSI Better Sugarcane Initiative. Açúcar Ético 104 BSI Sugarcane Initiative – Iniciativa Internacional para uma melhor cana-de-açúcar Primeiramente, quero esclarecer que esta apresentação foi preparada pelo grupo que está desenvolvendo esta iniciativa para uma melhor canade-açúcar e tentarei transmitir a mensagem tentando explicar o que, a que se propõe e quais as dificuldades desta iniciativa. Participei da reunião inicial, de modo que conheço um pouco a metodologia, mas pode ser que tenha aspectos que eu não consiga esclarecer. Por que se pensou nesta iniciativa? Embora a Embrapa, há pouco, tenha explicado todo o processo mais adiante que este, com o processo de certificação, e este não menciona diretamente, mas no desenvolvimento de boas práticas de gerenciamento, na produção e no processamento da cana. Essa iniciativa foi motivada pelo interesse dos clientes finais do setor e consumidores com os aspectos ambiental e social na produção dos ingredientes alimentícios. Participam deste movimento, empresas, associações de plantadores e usineiros, de diferentes países como Austrália, África do Sul. Há diversas iniciativas mundiais para relacionar a preferência do mercado por produtos endossados por boas práticas, visando alcançar um nível entre o factível e o ideal. O açúcar é uma commoditie de baixo valor, pois tem pouco valor agregado à matéria-prima. Hoje, a maior parte do açúcar é consumida na forma de alimentos industrializados e torna-se difícil sua rastreabilidade, conhecer a origem do açúcar presente nos diferentes produtos alimentícios. O grupo inicial contou com a representação de vários setores: finanças, comércio, produção, tecnologia, social, trabalhista e ambiental. Os critérios deveriam ser medidos de forma sustentável, fugindo dos critérios subjetivos para que pudessem ser auditados. Definição de metas a serem atingidas da BSI. As bases para início do trabalho, definindo a cana-de-açúcar: planta com bom potencial de crescimento de áreas tropicais. China, Índia e Brasil respondem por metade da cana do mundo. Grande biomassa produzida. Existe a irrigação apenas de salvação, sem necessidade freqüente. Os produtos (açúcar e álcool) podem ser transportados a grandes distâncias sem que se deteriorem, diferentemente da cana, que não pode ser transportada por fácil deterioração. Açúcar Ético 105 As usinas podem oferecer serviços sociais para comunidades. A produção e consumo normalmente ocorrem nos mercados domésticos. As políticas públicas são bastante regulamentadas, que aqui no Brasil teve um relaxamento e a partir disso pudemos atingir o grau de desenvolvimento ao qual chegamos. As práticas de cultivo entre os paises são muito variadas, desde irrigação até mecanização. As mudanças e boas práticas devem ser levadas em conta. Cenário no canavial: a saúde do solo e a degradação ambiental, a saúde e segurança ocupacional e outros tópicos mencionados no slide, foram levados em conta para analisar as boas práticas. 70% da água são utilizadas na agricultura, sendo o item de uso da água muito importante, mesmo que a cana no Brasil não seja um grande utilizador de água. Do ponto de vista trabalhista, as condições de trabalho foram levadas em conta, o trabalho infantil e trabalho informal. Impactos nas comunidades. Impactos no processamento. Segurança alimentar na produção de açúcar como alimento, com instituição de normas de saúde alimentar. A usina utiliza bastante água para produzi-la. O que se espera do trabalho desse grupo: desenvolvimento de boas práticas, sem que elas sejam exportadas, já que elas devem ser adaptadas às realidades de cada região. O suporte de políticas públicas é importante para incentivar os financiamentos. As razões para usinas se convencerem desse processo não estão muitas claras e devem ser melhoradas. O Grupo de Trabalho ainda não está consolidado e mantêm a comunicação aberta para melhor desenvolvimento. Os impactos globais chaves foram detalhados. Redefinição das metas, o conceito de melhorar as práticas da canade-açúcar com foco em beneficiar a cadeia de produção para poder ser mensurado pelo IPEM. Fóruns e grupos de trabalho foram formados para continuação das discussões. As incertezas sobre os processos, custos e financiamentos ainda estão sendo discutidos. Existe um aspecto sensível para acesso à tecnologia, já que há concorrência. Áreas não sustentáveis serão abandonadas. Benefícios seriam a sustentabilidade. Açúcar Ético 106 Alguns paises já têm discussões e esforços que podem auxiliar nessas iniciativas. DEBATE Silvia, Jornal da USP: Peço alguns esclarecimentos sobre os grupos e os participantes, se existem e se irá ter uma continuidade? Como o processo de boas práticas poderia melhorar o desempenho das usinas? Resposta: Porque existe a cultura do setor e a tentativa de convencimento é difícil. Existem as diferenças tecnologias e muitas usinas com boas práticas, mas outras estão acostumadas a usarem práticas antigas. São empresas familiares na maioria, sendo difícil mudar a cultura. O grupo que iniciou o processo está montando os grupos de discussão. Tentando contratar os líderes do grupo de trabalho e, dentro, montar equipes que não seriam pagas. Juntar os líderes de vários paises é um processo caro e o mais difícil é implantar tudo isso. Fechamento Presidente da sessão, Alexandre Strapasson: O Brasil está num momento propício para desenvolvimento do setor em seu território, com a expansão do etanol e do açúcar. O Brasil não pode perder essa oportunidade histórica para conseguir maior competitividade internacional. E o desafio é fazer nosso dever de casa, cuidando do trabalhador rural e cuidando do que está sendo feito aqui dentro, de maneira sustentável. Há diversos desafios a enfrentar para caminhar na direção do desenvolvimento. O Ministério da Agricultura está à disposição para dialogar, ouvir críticas e propostas, para um trabalho conjunto, ciente das dificuldades e limitações. Olivier Geneviève, Sucre Ethique: Nestes dois dias de seminário, fico feliz com o alto nível de competência dos palestrantes e interlocutores. Embora a história da cana-de-açúcar no Brasil tenha começado de uma forma, diria, não tão feliz, espero que no século XXI o etanol e o açúcar sejam uma oportunidade para reverter o processo histórico com instrumentos de sustentabilidade que dignificam os homens e os seres vivos, cabendo a cada um de nós demonstrar nossa capacidade de aprendizagem e de colocação em prática desses instrumentos, no compartilhamento de um gesto generoso. Açúcar Ético 107 Agradeço, primeiramente, a Fundação dos Direitos Humanos ao Trabalho, a Biodiesel, que cedeu a sala e a infra-estrutura, ao Ministério da Agricultura, ao Ministério do Trabalho, ao Instituto Ethos, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, a profa. Suani Teixeira Coelho, a Associação de Cultura Orgânica. Minha gratidão também ao Scott, a Anne Louette, e a Patrícia, que registrou as anotações no micro durante os dois dias de evento. Obrigado a todos. Açúcar Ético 108 Ethical Sugar – Açúcar Ético – Azúcar Ético MISSION REPORT 2nd scientific meeting. SECTORAL MEETING SET UP BY THE FRENCH NGO SUCRE ÉTHIQUE (ETHICAL SUGAR). Issues and challenges facing the Brazilian Sugar & Ethanol Industry of the 21st Century, within a globalized sector 30th and 31st of May 2006. FASP (Associated Universities of São Paulo) SÃO PAULO – BRAZIL Synopsis I. Antecedents and justificatiogran ............ Page 110 II. Methodology ........................................ Page 111 III. Program .............................................. Page 112 IV. Presence ............................................... Page 113 V. Perspectives ........................................... Page 113 Açúcar Ético 109 I. Antecedents and justification In June, 2004, whereas the UNCTAD meeting took place in São Paulo, Ethical Sugar organised the meeting “Sugar market globalisation vs. socio–economic rights globalisation” in the PUC–SP. The goal was to create synergies between the different actors that take a part in this sector, which is growing rapidly, in order to build and secure a sustainable development, taking the Corporate Social Responsibility’s tools. Since then, the structural and contextual reasons of such an expansion, in a certain way, changed. The European sugar market reform laid out by the WTO still consolidates the growing perspectives of the sugar producers (Price and production). Indeed, labour, generosity and extension of Brazilian agricultural surfaces makes cane sugar the most competitive in the world. The innovation is the importance of Ethanol facing the crisis of fossil energies. Brazil, in addition of its comparative advantages, owns technology, experiment and market. Brazil‚s alcohol is the most competitive in the world; neither European colza, nor North–American corn can compete with the Ethanol. Nowadays, 76% of the new cars are "flex". Exportation grows by 200% in three years and the biggest investors are interested in the sector – Cargill just bought a mill – and a private equity firm was created by the Société Générale specially for the mills, which blossomed in the new cane area (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, etc). The demand is such a that the alcohol produced in the 2005 campaign wasn’t able to ensure the between–season, and the available campaign started one month in advance. This is a bit worrisome due to the intensive use of "maturador" of which the effects on environment and health are more than ignored. In light of this, it is imperative to think about sector growth in a sustainable and responsible way. It was from this point of view that the ONG Ethical Sugar organized this sectoral meeting. Açúcar Ético 110 II. Methodology. The economical and power interests are serious in the sugarcane sector. The cutters‚ working conditions are particularly alarming as the domination of this labour is registered in the Brazilian history (colonization, slavery and ground ownership). Environmentally speaking, the sugarcane is viewed too often as the Ethanol producer that "cleans" the cities. In fact, it was essential to create the meeting methodology under the spectrum of neutrality. The speakers were practically PhDs. This is true in two different ways. First, it is of primary importance to promote the dialogue between academic researchers and financial companies or decision makers. Indeed, the academics paid by teaching institutions perform research without purpose of practical order (technological, productivity...). For example, the book published by the UNICA (trade union of the factories of the State of Sao Paulo), the Sugarcane Energy which wants to analyse the socio–environmental impacts of this culture, does it only partly: it is completely ignores the question of social impacts in terms of health or of occupational safety. In addition, it is said that the sugarcane burn has no impact on health, nor on the atmospherical pollution Then, and from a purely strategic point of view, this neutrality was considered as the only way to bring together all the actors of the sector. Once again, the interests are huge and the social and environmental condition worrying. What can explain a certain animosity between the shareholders of the sector? CSR’s goal was not to make a great trade–union mass, nor was it to join together NGO environmentalists. CSR’s intention was definitely not to create a strategical point for the companies, but rather, to support the social dialogue as well as solutions in terms of better practises. Yet, to better build these practices, a diagnostic is compulsory. Lastly, it was decided at the last minute to include the trade unions because they are the traditional social dialogue promoters. When neutrality was not the rule, the following balance was put into play: a representative of the UNICA and one of the FERAESP (federation of the rural employees) were each invited. Açúcar Ético 111 III. Program 30th May – Economic and Social issues on the sugarcane sector Morning: Brazilian sugarcane perspectives in a globalized sector. 09h00 – 09h30: Welcome Speech and Coffee. Dr Nivaldo Trama's Intervention, Abiodiesel's President (Biodiesel producers association) 9h30 –10h30: Presentation total and general of the sector – Situation and anticipation of the expansion due to the crisis of fossil energies, the ecological reference, the sugar market European reform and the Brazilian price of production. – Importance of alcohol as well as the national level (cars "flex– fuel", petrochemical sector...) than the international one (Exportation to the United States, technology ownership, etc.) – Situation of the investments in Brazil and in the state of São Paulo: prospects for financing (construction of factories) and for mechanization in the decades to come. Dr Carlos Eduardo Vian, Economy, Sociology and Adm. ESALQ Dept., USP, Piracicaba. 10h30 – 11h30: Structure and regulation of the ground and work markets in Brazil: situation of the sugarcane. – Regulation of the grounds: intervention of the federal and national authorities (property, social function of the ground, land reform problems, etc.) – Land markets: high prices of the ground, concentration; growth and preponderance of cane–with–sugar with São Paulo (more than 40% of agricultural surface). Açúcar Ético 112 – Regulation of the labour market: Various laws for the rural workers (times partial, complete, seasonal, etc.) that it is on the level of the States that federal. – Characteristics of the rural labour market and cannier: very high mobility, just as rotation; very weak formalization and very low wages. Dr Sebastião N.R Guedes, coordinator of the departament economies of Unimep, Piracicaba. 11h30 – 12h00: Book presentation 'The Sugarcane Energy' The book published by the UNICA (trade union of the factories of São Paulo) falls under a Corporate Responsibility optic. It is the research publication on sugarcane‚s social and environmental impacts and on the conditions of a sustainable growth. It was mainly carried out in collaboration with the Sugarcane Technology Center of Piracicaba and aims at informing the collaborators of the employers' federation of the sugarcane stakes. Dr. Isaias de Carvalho Macedo – UNICA – UNICAMP, Campinas. 12h00 – 12h30: Debate, answers and public participation. 12h00 – 13h30: Lunch Afternoon: Sugar and Alcohol Social impacts Presidency: Dr Ricardo Garcia – Work Attorney. Public Work Ministry 13h30 – 14h30: Work Safety Industrial accidents and EPI(Individual protection equipments) in the sugarcane cut. Açúcar Ético 113 – Industrial accidents: definition and official classification, underestimated Brazilian statistics (only hard–working contracted officially, character quasi–optional of the declaration of the accidents, etc.) : no case listed in the State de São Paulo for example, most frequent causes and cases. – Safety equipments: presentation of the laws and their negotiation, work methodology (qualitative and quantitative investigation), presentation of the various equipment and the causes of the wounds: glasses, machete, shin guard, shoes, arm and finally gloves analyzes (matters, dimensions, seams...) Maria Cristina Gonzaga, Unicamp PhD – Campinas, enquiring in ergonomics of the public foundation for the occupational safety (Fundacentro). 14h30 – 14h45: Debate, answers and public participation. 14h45 – 16h00: Migration, Mechanization and deaths: 'bóias–frias' (Sugarcane cutters) identity evolution. – Current situation (18 deaths by exhaustion last season, already 13 this year) and causes of the deaths: production structure (fields organization in 5 streets, repetitive, painful work, cane burning...), production payment (2,45 reals the ton: less than one Euro), perspective history and analyzes exploitation. – Migrations: important need for labour and strong deficit in the State of São Paulo (higher level of education, wage requirement...) from where the call for a labour of other states and in particular from Minas Gerais and Nordeste (Maranhão and Pará in particular). Conditions of recruitment by the "Gatos" (literally "cat", kind of gangster headhunter), system of the debt, etc. Dr. Francisco Alves, UFSCar Professor, department of Production Engineering, São Carlos. Açúcar Ético 114 16h00 – 16h15: Debate, answers and public participation. 16h15 – 16h30: Coffee break 16h30 – 17h00: Intervention of Bispo Aparecido da Silva, Feraesp representant (rural employee’s‚ federation) of Andradina – SP. Testimony and presentation of the reality of the workers: questioning on the impacts of the maturator strongly used this season because of its precocity, put in prospect for the mechanization and the sugarcane burning, presentation of the new establishments in the West of the state, where the workers movement isn’t well installed, thus where the wages and the working conditions are interesting in a production cost context. 17h00 – 18h00: fight against the child work: example and methodology. – The method followed by the Abrinq Foundation is the sectoral pacts in the riskily productive chains, it consists in pushing the companies which join the program "Company friend of childhood" to require its suppliers and customers the formal and real prohibition of the children and teenagers work. The company that follows the program receives a stamp of the foundation, which can have marketing advantages. – With specific regards to sugarcane, the foundation established 7 sectoral pacts what allowed the construction of schools and of various education programs and, at the same time the eradication of the child work in the sugar cane fields. Carlos Bimbatte Junior, Abrinq Foundation for the children and teenagers rights. 18h00 – 18h15: President Conclusion. Açúcar Ético 115 31st May – Environmental and Management challenges on the sugarcane sector Morning: Environmental Impacts Presidency: Oswaldo Lucon, Environment Secretary of the State of São Paulo. 09h00 – 10h00: Health and Environment – Relation between Sugarcane burning and Health The prime objective of its intervention is to point the biomass burning as an important source of pollution, which is largely ignored. The motivations and the incidences of such burnings were presented while insisting on pathologies observed. Two specific sugarcane investigations in the State de São Paulo were showed and in particular the respiratory mortality profile that the population suffers and were exposed to was not well studied. Dr. José Eduardo Delfini Cançado, Researcher in the atmospheric pollution laboratory of the FMUSP 10h00 – 11h00: sugarcane general impacts on the environment. The conference shows the ignored face of alcohol, often presented as a reduction factor of the greenhouse effect, by presenting the consequences of the culture of the cane: – Monoculture: toxics massive use which has serious consequences on the rivers and the ground water. Without forgetting, the correlative abandonment of other cultures, destruction of the forests of origins. – Sugarcane: important effects on air pollution as well as on fauna and the micro–organisms – Discharge of water used for washing and transformation residues in the rivers, which put the balance of the river beds in danger Açúcar Ético 116 – propositions in terms of better practices were presented. Dr Daniel Bertoli Gonçalves, Phd in Production engineering da UFSCar. 11h00–12h00: Water Issues: Pollution and improper use. The analysis method of such an issue was to study the sugarcane consequences on water due to: – Culture: sugarcane miss roots and other plants' roots (in particular trees) are essential for the balance of the distribution of water. River pollution because of burnings and toxic fertiliser use. – Industrialization: process of transformation which requires an excessive quantity of water, problem of the residues and water discharge pours directly into the rivers. Modification of the water oxygen content. Dr. Felipe Dias, Environment engineering Coordinator of the Dom Bosco University in Campo Grande, MS 12h00 – 12h15: Debate, answers and public participation. 12h15 – 12h30: President of the Section Conclusions. 12h30 – 14h00: Lunch Afternoon: Better Management Practices Presidency: Mr. Alexandre Strapasson, Ministry of Agriculture. 14h00–15h15: Ethos Institute: indicators of Corporate Social Responsibility and specific action for the sugarcane sector. – Detailed presentation of the method of the Ethos institute, different way of action than trade–union for the improvement of Açúcar Ético 117 the socio–environmental conditions, and in particular assessment heuristics which provides the indicators application. – Sugarcane specific presentation: Ethos indicators application program to 95 factories in partnership with the UNICA and installation of a complex and structured tool to study the sugarcane added–value chain to establish the best a repertory of better practices (work starting with a big company to its SME network, in order to widen the network). Mr Paulo Itacarambi, Ethos institute executive director. 15h15 – 15h30: Debate, answers and public participation 15h30 – 16h00: coffee break. 16h00 – 17h00: Socio–environmental Certification and Labelling. – Definition of the certification principles and basic motivations. – Initiatives for the sugarcane sector, methodology and construction of the principles, criteria and indicators (Imaflora and FSC) – Analysis of the experience relative failure and setting in prospect with the success for the wood sector. This standard created in 1998 was a failure due to, in particular, the lack of interests of the companies at the time. 17h00 – 17h15: Debate, answers and public participation. 17h15 – 17h45: Better Sugarcane Initiative (BSI). – Presentation of the initiative, of the members and of the methodology of meeting of the sector various actors of the (companies, social and environmental NGOs,etc.). – Presentation of a need for establishment in Brazil. Açúcar Ético 118 Dr Manoel Regis Lima Verde Leal, UNICAMP – NIPE 17H45–18H15: President of the Section Conclusions 18h15–18h30: Closing speech Prof. Olivier Genevieve, Ethical Sugar President IV. Presence. Approximately 180 groups attended the conference, they belong to various entities as the next scheme (without speakers): Companies: consultants, banks, communication agencies, millers, sugar and alimentary groups‚ representatives. Trade–unions: workers (rural and mill), millers, petrochimal industry, alimentary industry trade–unions‚ representatives. NGOs: Environmentalists (WWF, Earth‚s friends, etc.), social rights defenders (Reporter Brazil, Social Observatory, etc.), development organisations(OXFAM, FLO, etc), organic associations (AAO), e etc. Universities: from various departments: sociology, engineering, geography, economics,.etc. Other: government representatives, (Agriculture an EnvironAçúcar Ético 119 ment secretaries), public and private foundations, health public institutions, journalists, etc. V. Perspectives. In the short run, the first work to be carried out is the acts‚ publication. Indeed, the information joined together all along the seminar is the base of a Corporate Social Responsibility, yet many of the key actors pertaining to the sector were not present during those days, and this is for several reasons. The first, is the distance, there was no representative of Nordeste, however contacts by mail showed their interest. Furthermore "the new" sugar areas were under–represented. Then, and from a strategic point of view, few factories and sugar groups came. This shows that the methodology did not function that well. However, it is of primary importance that these companies have access to this information and not only to those of the UNICA. The entire seminar was filmed and it was requested from speakers to provide us with an article corresponding to their conference. We are currently working on re–transcription and on data organization. The publication will be available in August and will be consequently diffused. In the medium and long term, that is to say the future actuation of Ethical Sugar in Brazil, will be broadly overviewed, as it is not the subject of this report. The idea is to initially organize modest "workshops" (approximately 20 people) on precise subjects and with only the key people, who would represent in the same proportion the institutions present during the seminar. The subjects will be selected among the most problematic statements detected during the seminar, for example: The "Maturador" (Dupont de Nemour), transition towards prohibition of sugarcane burning and towards mechanization, subcontracting of labour, etc. Their goal will be to identify and promote the best practices. Açúcar Ético 120 Moreover, Ethical Sugar in Brazil wants to take a great part in the Brazilian BSI implementation and in particular on the social aspect. It is absolutely necessary that this Better Sugarcane Initiative have a strong action of support in Brazil. Lastly, the organization wants to renew the sugarcane sectoral chamber, so that beyond the CSR, these practices will find an echo in public policy. Açúcar Ético 121 Açúcar Ético 122