Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 The graphical elements of brazilian tv chains during the decades of 1950 and 1960 Arruda, Giselle Sant’Iago, Mestranda, Programa de Pós-graduação em Design – UERJ [email protected] Resumo Panorama do que havia de elementos gráficos na aplicação das identidades visuais dos canais de televisão exibidos na cidade de São Paulo nas décadas de 1950 e 1960 Palavras Chave: Televisão, Vinheta, Identidade Visual Abstract Panorama of graphical elements applied at visual identities of broadcast television chains shown at São Paulo during the decades of 1950 and 1960 Keywords: Television, Titles, Visual Identity Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 Com o advento da televisão no Brasil, nos anos 1950, começaram a surgir elementos gráficos nas transmissões que eram as identidades visuais acontecendo de forma incipiente. O objetivo desse trabalho é traçar um panorama do que existia de elementos gráficos nas transmissões dos canais de televisão exibidos em São Paulo até o final da década de 1960. Os primeiros gráficos utilizados em televisão eram basicamente as cartelas fixas com as imagens e textos referentes aos programas e patrocinadores. Eram desenhadas manualmente por um artista gráfico e filmadas por uma câmera. Posteriormente esse processo foi sofisticado com a utilização de técnicas de animação. O conceito de identidade visual em televisão foi introduzido pelo canal norte-americano CBS no início da década de 1950. Em 1951, cerca de 11% dos domicilios americanos possuiam um aparelho de televisão e o processo de produção de identidade visual foi uma aposta de que um projeto de design gráfico consistente servia para construir uma reputação de qualidade para o canal, já que com o aumento da audiência, havia uma cobrança por um aumento de qualidade das imagens televisionadas. E dessa forma surgia a marca desenvolvida por William Golden, inspirada na obra "O falso espelho" de Magritte. A partir da década de 1960, o projeto foi aprofundado com a utilizaçao de uma tipografia, a Didot, para padronizar todas as inserções de textos na grade de programação e associando esse tipo aos desenhos que apareciam nas chamadas promocionais da empresa. Figura 01 - Vinheta com o logo da CBS (fonte: http://www.youtube.com/watch?v=wB63odkphhg) Nesse momento em que começava a existir essa preocupação com a qualidade visual da televisão no exterior, começavam as primeiras transmissões de TV no Brasil. A estréia oficial da TV brasileira foi em 18 de setembro de 1950 com a TV Tupi-Difusora PRF-3. No início tudo era feito de forma experimental e a programação que ia das 18h às 23h era ao vivo. E nessa época foram introduzidas as cartelas gráficas com informações e chamadas dos programas, consideradas "a primeira forma de vinheta utilizada pela TV no Brasil" (AZNAR, 1997:83). As vinhetas apareciam como imagens paradas em formato semelhante ao cartaz focalizadas pela câmera enquanto o locutor da emissora lia o que estava escrito na cartela. 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 Nessa fase eram usados cartões de 30cm x 40cm apoiados em uma estante para partituras. Essas vinhetas estáticas além de atuar como abertura dos programas, anunciavam a próxima atração ficando no ar de 10 a 40 minutos e dessa forma dando tempo da equipe de produção montar os cenários, preparar o programa e fazer diversas arrumações de ordem técnica. Do estático ao animado Nessa etapa inicial a única forma de mostrar os letreiros dos programas era com a câmera. Também eram utilizados slides, mas para alguns elementos pontuais como disse Mário Fannuchi em depoimento: "Quanto ao projetor de slides, só era utilizado para transmitir o padrão de ajuste de imagem, a vinheta de identificação da emissora e as logomarcas dos raros patrocinadores, pois a confecção das transparências exigia um processo fotográfico que só podia ser executado nos laboratórios dos Diários Associados, no centro da cidade. Dada a premência de tempo entre os ensaios da tarde, quando se confirmavam os letreiros, e o início da transmissão, o único modo de executar a apresentação dos programas era focalizar os cartões no estúdio." (ROSA, A., 2004:184). Com o desenvolvimento da TV, nos Estados Unidos foi criado um projetor de opacos, que recebeu o nome de Gray Tellop. Esse equipamento já possibilitava uma "pseudo-animação" pelo deslocamento de imagens que era desenhadas em um suporte com vários quadros exibindo uma seqüência de movimentos. Dessa forma já podiam ser feitas pequenas transições entre as imagens. Em um momento posterior, a TV Tupi importou esse projetor e a equipe técnica passou a chamar as vinhetas de GT e esse equipamento possibilitou a exibição de desenhos e letreiros com mais qualidade. Figura 02 - Projetor Gray Tellop (ALVES, 2008:142) 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 Essas primeiras vinhetas eram feitas de forma artesanal em um processo que funcionava de forma amadora, já que só era possível ver o trabalho através do monitor com a ação já acontecendo. Nesse período ainda não existia o videotape, que só foi introduzido na década de 1960, permitindo a correção dos erros que ocorriam nas gravações. As pseudo-animações que não eram executadas quadro-a-quadro foram evoluindo para essa técnica. A animação por esse princípio é constituída por folhas onde cada uma contém um desenho único e a ilusão do movimento contínuo é produzida quando esses desenhos são dispostos sequencialmente e as páginas viradas de forma rápida. Dentro desse formato passaram a ser utilizados cartões sobrepostos desenhados de forma a produzir efeitos de animação por sua movimentação ou pelo descobrimento de partes do desenho. Com o advento do videotape, que foi introduzido nas emissoras brasileiras a partir de 1960, foi possível trabalhar com essa técnica, já que os desenhos podiam ser filmados e reproduzidos durante a programação. As vinhetas de identificação da TV Excelsior foram as primeiras a usar esse tipo de técnica de animação na televisão com a exibição dos seus mascotes, um casal de bonecos que vieram a se tornar o símbolo da emissora. E a TV Cultura também utilizou a animação quadro-a-quadro nas primeiras vinhetas dos programas que eram baseadas em desdobramentos do símbolo da marca, o "bonequinho" feitos em letra-filme sobre folhas de acetato que foram posteriormente filmados em película. Elementos gráficos das cadeias de televisão Até o final da década de 1960 era possível assistir na cidade de São Paulo os seguintes canais: TV Tupi, TV Paulista, TV Record, TV Excelsior, TV Cultura e TV Bandeirantes. Alguns desses canais passaram por esse momento de TV totalmente ao vivo com os elementos gráficos ocorrendo de forma manual. Outros já estrearam após a presença do equipamento de videotape no Brasil e com uma proposta de identidade visual mais elaborada, como o caso da TV Excelsior que é tida como a primeira do país a ter um programa de identidade visual e ser reconhecida pelos telespectadores por uma linha gráfica consistente. TV Tupi A TV Tupi foi a primeira emissora de televisão no país e na ocasião de sua inauguração, não haviam pensado com antecedência sobre como funcionariam os "letreiros" na televisão. No dia do programa de inauguração, o diretor artístico Cassiano Gabus Mendes chamou Álvaro de Moya que era desenhista e tinha interesse em trabalhar na televisão para fazer os letreiros. Os desenhos foram aprovados também pelo diretor geral e recomendou que os fizesse para o programa de estréia. Álvaro de Moya entrou em contato com a equipe técnica para confeccionar esse material: "Eles pegaram uma estante de música e disseram: É aí que tem que colocar os cartões. Nada de papel branco, porque a luz reflete mais. E então lembramos das cartolinas cinza e as letras em preto." (ALVES, 2008:79) Com o sucesso da inauguração, continuaram usando os cartões que foram a primeira forma de vinheta na televisão brasileira. 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 Álvaro de Moya não aceitou ser contratado como desenhista e foi substituido por Mario Fanucchi que era produtor de rádio e que acabou entrando nesse mundo por acaso, já que pretendia ser produtor de televisão como conta em depoimento: "Cassiano foi direto ao assunto: 'Me contaram que você é desenhista'. Sem entender o motivo da conversa, confirmei que, desde menino, gostava de desenhar nas horas vagas. 'Você topa fazer uns desenhos para televisão? Essa coisa de letreiros para a apresentação dos programas... Você desenha letras, não é?' Demorei a responder, tentando imaginar quem havia espalhado que eu tinha a mania de fazer caricaturas dos colegas nas costas dos roteiros. Cassiano, em dúvida, tornou a perguntar: "Você sabe desenhar letras?". Não foi fácil disfarçar o desapontamento, mas conclui que o importante era entrar na televisão, mesmo que não fosse pela porta da frente. Sim, eu sabia desenhar letreiros. E, claro, eu topava a oferta." (SILVA, P., 2004:55) E a primeira forma de identificação da emissora era um cartão com o letreiro "PRF3-TV, Tupi Difusora, Emissoras Associadas", que se alternava com a figura de um índio e a legenda "Canal 3". O índio que era exibido na cartela era um velho índio norte-americano que vinha da marca da rádio Tupi pertencente ao mesmo grupo de comunicação. E como essa cartela ficava em exposição durante bastante tempo para que dar tempo de arrumar tudo que era necessários para o programa seguinte, esse índio ficou associado com um evento maçante e as pessoas falavam "Chato como o índio da Tupi!" Portanto, era necessário achar uma solução que reguardasse a marca da Rádio Tupi e agradasse a audiência. E havia o desafio de mexer nesse símbolo sem desrespeitar a conotação indigenista que era a marca dos empreendimentos de Assis Chataubriand. Após muito pensar, Mário Fanucchi chegou a conclusão que teria de ser o índio: "Se a emissora era nova, recém-nascida, por que não apresentá-la com a figura de um índio criança? Com essa figurinha simpática, mesmo que o padrão ficasse no ar por bastante tempo, as pessoas não tinham como implicar. Era mais aceitável. Mais agradável." (ALVES, 2008:91) E a partir daí foi desenvolvida a figura do Curumim com um cocar de antena de TV que virou o símbolo da emissora. Figura 03 - Marca da TV Tupi (ALVES, 2008:90) 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 Além do símbolo e das vinhetas, a Tupi introduziu as chamadas de programação que eram feitas com as cartelas que tinham uma sonoplastia própria e exibiam os títulos dos programas do dia seguinte. Com a introdução do Curumim, essas chamadas sofreram adaptações. O indiozinho aparecia de diversas maneiras de acordo com o assunto como por exemplo, na chamada do programa Imagens Hispano-Americanas ele aparecia com trajes mexicanos. E por mais de dez anos, era exibido todo dia às 21h um aviso ao som do jingle "Já é hora de dormir" cumprindo uma função educativa em que o Curumim aparecia deitado em uma rede indo dormir. Esse aviso foi integrado posteriormente nas mensagens comerciais dos Cobertores Parahyba e permaneceu no ar por outra década. Figura 04 - Chamadas de Programação da TV Tupi (fonte: http://www.youtube.com/watch?v=IshPN8FidbU) TV Paulista Pertencente ao grupo do deputado Ortiz Monteiro, o canal 5 de São Paulo foi inaugurado em 1952. Foi a segunda emisora de televisão de São Paulo. A emissora tinha seus estúdios em um pequeno edifício de apartamentos na Rua da Consolação e tinha três câmeras de equipamento. Era um funcionamento totalmente improvisado, principalmente se comparado com a estrutura da principal concorrente a TV Tupi. A TV Paulista tinha como slogan "A Imagem Perfeita e o Melhor Som" e alardeava isso devido a localização da sua antena que era no topo do edifício onde estavam localizados suas instalações e a captação dos sinais era considerada melhor e dessa forma gerava uma imagem mais nítida. Em 1955, o canal foi vendido ao radialista Victor Costa que era proprietário da Rádio Nacional de São Paulo e da rádio Excelsior e assim começaram as melhorias no modo de operação com a mudança de endereço para um prédio de cinco andares na Rua das Paineiras. A marca da TV Paulista seguiu a tendência de diversas marcas de televisão da época que faziam referência ao globo, seja ele ocular ou terrestre. No caso o símbolo da TV era um olho que dentro tinha o número cinco, que era o canal onde operava em São Paulo. 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 Figura 05 - Marca TV Paulista (fonte: LONGO, 2007:67) O falecimento de Victor Costa no início da década de 1960, acelerou um processo de declínio da emissora, com a falta de investimentos e a falta de habilidade dos herdeiros para gerir os negócios. Em 1965, a TV Paulista foi vendida às Organizações Roberto Marinho e até o final da década foi acontecendo a mudança gradual para a implantação da TV Globo Paulista. TV Record Em 1953, foi inaugurada a TV Record. Fundada pelo empresário Paulo Machado de Carvalho, foi a primeira emissora a ter um prédio no bairro de Congonhas, construído especificamente para as instalações de televisão. Tinha equipamentos avançados para a época e foi pioneira nas transmissões esportivas exibindo quase todos os eventos esportivos em São Paulo, desde o Grande Prêmio de Turfe, que foi a primeira transmissão interestadual da televisão brasileira, passando pelo futebol e o boxe. A primeira marca da emissora, usada até a década de 1970, era composta de uma rosa dos ventos com a palavra TV escrita em perspectiva e abaixo escrito Record. A marca simulava com o uso de sombra e luz um efeito de três dimensões. E seguindo a tendência da época, a emissora também tinha um mascote representado por um tigre e que veio da marca da Rádio Record. Figura 06 - Marca TV Record (fonte: http://www.youtube.com/watch?v=Upy6Ujpk4VM) 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 Figura 07 - Vinheta com o mascote da TV Record (fonte: http://www.youtube.com/watch?v=Upy6Ujpk4VM) No caso da TV Record, havia uma preocupação em divulgar mais o meio de comunicação do que necessariamente a empresa e além disso não havia uma coerência visual nas aplicações da marca. Refletindo uma inexperiência no sentido de produção de material gráfico que existia nas emissoras. TV Excelsior As Organizações Victor Costa, proprietária da TV Paulista, ganhou em 1959 a concessão de um segundo canal que se chamaria TV Excelsior. A concessão foi vendida a um grupo de empresários constituidos Mário Wallace Simonsen, presidente de um grande conjunto de empresas que atuava no mercado nacional e no mercado internacional, João de Scatimburgo (dono do jornal Correio Paulistano), José Luís Moura (exportador de café) e pelo deputado federal Ortiz Monteiro (um dos fundadores da TV Paulista). Junto com a concessão veio o material necessário para a instalação da emissora e toda uma proposta de uma nova visão empresarial que ainda não havia sido experimentada no meio televisivo brasileiro. A TV Excelsior inaugurada em 1960, lançou diversos conceitos que hoje são usuais na televisão brasileira como a grade de programação horizontal (horários fixos para os programas durante toda a semana) juntamente a uma programação vertical (os programas eram sequenciais, levando o telespectador a assistir um programa após o outro). E com a introdução do videotape passou a trabalhar o conceito de rede enviando as cópias dos programas para as outras praças usando da estrutura da Panair que era do grupo Simonsen. Apesar da sua marca mais conhecida ser o casal de bonequinhos, a primeira marca da emissora foi desenvolvida por Álvaro Moya que desenhou o Planeta Terra com um foguete que contornava o planeta e depois saía da órbita, formando um nove. Mas dentro da proposta da emissora de não dar espaço a improvisação, foi desenvolvida uma padronização dos elementos visuais exibidos. E dessa forma podemos dizer que a TV Excelsior foi a primeira emissora do país a ter uma identidade visual. Cyro del Nero, primeiro diretor de arte da emissora confirma essa postura: "... eu fui contratado pelo Álvaro Moya para dar a imagem gráfica da televisão ... e organizei um departamento de desenho... A Excelsior foi a primeira TV brasileira a ter 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 uma imagem própria, um design ... Pela primeira vez o telespectador teve a experiência de ligar uma televisão num intervalo e saber que ela era a Excelsior pelo seu design, pela qualidade gráfica no ar. ..." (MOYA, A. 2004:159). As vinhetas eram feitas através de colagens em cartões o que gerava um desenho com bastante constraste, reforçando a idéia de qualidade de imagem que queriam associar com a emissora. Os cartões usados pela emissora eram pretos ou brancos e recortados conforme a figura que desejavam. Posteriomente os cartões eram fotografados e e revelados, até alcançar a tonalidade pretendida e depois transformados em slides para serem utilizados pelo projetor do telecine da emissora. E numa tentativa de popularizar a emissora foram introduzidos os mascotes que se tornaram o símbolo da TV Excelsior. A idéia foi trazida da Argentina pelo diretor artístico Edson Leite e foi elaborada pelo seu assistente José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, pelo desenhista Laerte Agnelli e por Rui Perotti. Os mascotes eram a dupla de bonequinhos Ritinha e Paulinho, que representavam crianças da faixa etária de sete anos e eram veiculados em filmes de animação ou slides para as chamadas de programação e também para informar a hora certa, temperatura ou pedir desculpas quando havia alguma falha técnica. Com o tempo, essa comunicação aumentou para celebrar datas festivas e realizar campanhas beneficentes e serviços de utilidade pública. Além disso, os bonequinhos eram usados nos comunicados oficiais, nas propagandas e nos equipamentos e viaturas. Figura 08 - Mascotes da TV Excelsior (MOYA, 2004) Figura 09 – quadro de vinheta animada com os mascotes (fonte: http://www.youtube.com/watch?v=uD4wYr0F7Xk) Os bonequinhos foram tão marcantes que na década de 1980, Edson Leite foi chamado pela TV Bandeirantes para desenvolver vinhetas com os bonequinhos. Eles apareceram com um 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 visual um pouco diferente da época da TV Excelsior, mas significavam a retomada de um símbolo de grande valor afetivo que foi encerrado devido ao falecimento do seu criador. TV Bandeirantes João Saad comprou a Rádio Bandeirantes em 1945 e ainda no governo Vargas, conseguiu a concessão de um canal de TV na cidade de São Paulo. Na visão de Saad, a televisão iria se tornar um item essencial a sociedade brasileira e a partir daí, foram realizadas várias viagens ao exterior para pesquisar o que havia de mais moderno no setor. Em 1961, iniciaram-se as obras do prédio que seria a sede da emissora no Morumbi e que foi construído com a finalidade de abrigar a mais moderna televisão da América Latina. A TV Bandeirantes de São Paulo (canal 13) entrou no ar no dia 13 de maio de 1967, com um discurso de Saad e um show dos cantores Agostinho dos Santos e Cláudia. A abertura teve a presença de diversas autoridades como o presidente Costa e Silva e o prefeito Faria Lima. Na sua fase inicial teve como marca um símbolo que remetia ao olho e que alguns chamavam de "ovo frito" e nas vinhetas institucionais usava um coelho com trajes de bandeirante que com uma espingarda na mão explodia o centro da cartela de abertura da emissora e iniciava a programação. Figura 10 - Marca da TV Bandeirantes (fonte: http://www.band.com.br/grupo/historia.asp) Figura 11 - Coelho utilizado na imagem da TV Bandeirantes (fonte: http://www.sampaonline.com.br/colunas/elmo/coluna2001ago17.htm) Com apenas dois anos de existência, a emissora foi atingida por um grave incêndio que destruiu boa parte do equipamento e do acervo. As transmissões seguiram de forma precária, mas com a compra do equipamento para substituir o que havia sido perdido no incêndio, tornou-se a primeira emissora a produzir e transmitir integralmente uma programação em cores, no ano de 1972. 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 TV Cultura A TV Cultura entrou no ar em 1960 no Canal 2 de São Paulo e era uma emissora comercial integrante das Emissoras Associadas de Assis Chateubriand, também proprietário da TV Tupi. Em 1967, foi criada a Fundação Padre Anchieta - Centro Paulista de Rádio e TV Educativa, entidade de direito privado instituída pelo governo do Estado e administrada por um conselho representado por instituições públicas e privadas ligadas à área de cultura e educação que adquiriu a TV Cultura. Em 1968, as transmissões do Canal 2 foram interrompidas para a montagem de todo o aparato técnico e o corpo profissional para as operações até retornar experimentalmente em abril de 1969 e no dia 15 de junho começaria oficialmente a nova fase da TV Cultura. E nessa data foi introduzido um elemento presente na identidade visual do canal que prevalece até hoje, o "bonequinho" que era o símbolo utilizado na marca e no restante dos elementos visuais que fazem parte de uma emissão televisiva como as vinhetas e cenários. A marca da emissora foi desenvolvida pelo escritório de João Carlos Cauduro e Ludovico Martino, que no momento do concurso para a escolha da identidade visual tinham uma certa experiência em projetos de identidade corporativa, ramo do design gráfico que estava começando a acontecer no mercado brasileiro, sendo um dos pioneiros a atuar nesse setor. No período de surgimento da TV Cultura boa parte das marcas dos canais de televisão tanto no Brasil, quanto no exterior seguiam uma temática baseada no globo. E o objetivo de Cauduro e Martino foi desenvolver algo fora dessa temática para dessa forma gerar uma identificação forte da TV diferenciando-a das emissoras concorrentes. O símbolo proposto para a TV Cultura foi baseado na idéia de indivíduo formador da sociedade e daí a marca formada pelo "bonequinho" com formato que remetia a forma humana. Figura 12 - Marca da TV Cultura (fonte: http://www.agitprop.vitruvius.com.br/ensaios_det.php?codeps=MTZ8ZkRFd2ZBPT0=) Podemos destacar nesse projeto de identidade visual o fato do símbolo ter sido utilizado em diversos produtos da emissora como os cenários e as vinhetas. As vinhetas foram desenvolvidas em letra-filme sobre folhas de acetato que foram filmados em película e eram exibidos por videotape. A idéia de trabalhar com esse desdobramento do símbolo nas vinhetas, veio de um incômodo da dupla com o material da TV Tupi que considerava muito parado. "O signo de comando, formado por elementos que lembram uma figura humana de braços abertos e cabeça quadrada, poderia ser rotacionado em incrementos de 45 graus e combinado dentro de um 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 diagrama quadriculado para formar sinais antropomórficos de identificação de toda a programação." (STOLARSKI, A. "A identidade visual toma corpo" in DE MELO, 2006:239) E é importante destacar a presença de elementos sonoros que ajudavam a reforçar essas vinhetas como disse Cauduro em entrevista ao Estado de São Paulo: "Desde a criação da marca, imaginamos as vinhetas, mas só agora esse processo foi retomado. Antes mesmo do ‘plim-plim’ da TV Globo, tínhamos emprestado movimento e som à marca para fixar a identidade do canal." Figura 13 - Storyboard da Vinheta Música da TV Cultura (fonte: http://www.agitprop.vitruvius.com.br/ensaios_det.php?codeps=MTZ8ZkRFd2ZBPT0=) Apesar da televisão na época ser em preto-e-branco, foi estabelecida a cor verde para o símbolo nas aplicações onde o uso da cor fosse viável. Já para as assinaturas nominais da emissora e dos programas foi escolhida a fonte Univers Bold em caixa alta que foi bastante utilizada também em outros projetos do escritório. Nesse projeto também foram desenvolvidas aplicações que iam além do que aparecia no vídeo como o layout do ônibus da TV. Considerações finais Podemos dizer que no período analisado, o trabalho do designer gráfico no Brasil era tão incipiente quanto das transmissões televisivas. Talvez por isso, nas primeiras emissoras de televisão não houvesse tanta preocupação com uma linguagem visual coerente como vemos posteriormente nos casos da TV Excelsior e da TV Cultura. Nesse período, já começavam a tomar forma os primeiros projetos de identidade visual sob um aspecto mais profissional e a ter a atuação dos considerados pioneiros do design gráfico brasileiro. Outro aspecto interessante a ser considerado é que por ser um momento que ainda não era utilizada a computação gráfica, não havia muita diferença no modo de operação dos trabalhos voltados para a televisão. Haviam determinadas preocupações com leitura, cores, mas os recursos eram os mesmos de um projeto impresso como ilustrações e colagens. 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 Referências AZNAR, S. Vinheta: do pergaminho ao vídeo. São Paulo: Arte e Ciência, 1997. ALVES, V. TV Tupi: uma linda história de amor. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008. COSTA, J. Identidad Televisiva em 4D. La Paz: Design Grupo Editorial, 2005. HINGST, B. Uma Visão Histórica da Televisão no Brasil. Líbero, no 13/14, p. 24-39, 2004. KRASNER, J. Motion Graphic Design: Applied History and Aesthetics. Oxford: Focal Press. 2008. MACHADO, A. A televisão levada a sério. São Paulo: Editora Senac, 2000. MATTOS, S. História da Televisão Brasileira - Uma visão econômica, social e política. Petrópolis: Editora Vozes, 2002. MOYA, A. Glória in excelsior: ascensão, apogeu e queda do maior sucesso da televisão brasileira. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. ROSA, A. Essa Louca Televisão E Sua Gente Maravilhosa. São Paulo: Butterfly, 2004 . SILVA, P. TV Tupi, a pioneira na América do Sul. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro - Secretaria de Comunicação Social, 2004. STOLARSKI, A.; DE MELO, C. (org.) O design gráfico brasileiro: anos 60. São Paulo: Cosac e Naify, 2006. WADE, R.. Staging TV programs and commercials; how to plan and execute sets, props, and production facilities Nova Iorque: Hastings House, 1954. XAVIER, R., SACCHI, R. Almanaque da TV 50 anos de memória e informação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. LONGO, C. Design total: Cauduro Martino, 1967-1977. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2007. LONGO, C. CauduroMartino, design total. http://www.agitprop.vitruvius.com.br/ensaios_det.php?codeps=MTZ8ZkRFd2ZBPT0= Acessado em: 29 de dezembro de 2009. 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design Os elementos gráficos das emissoras de televisão brasileiras durante as décadas de 1950 e 1960 FRANCFORT, E. Bonecos e Mascotes na TV http://www.sampaonline.com.br/colunas/elmo/coluna2001ago17.htm Acessado em: 30 de dezembro de 2009. FRANCFORT, E. Nasce a TV Record. http://www.sampaonline.com.br/colunas/elmo/coluna2001jun08.htm Acessado em: 17 de janeiro de 2010. SENS, A. Evolução: Marca da Rede Record. http://blogtelevisual.com/2008/05/13/a-evolucaoda-record-atraves-de-suas-marcas/ Acessado em: 25 de dezembro de 2009. SENS, A. A evolução do design da TV Tupi. http://www.telehistoria.com.br/thnews/colunas_integra.asp?id=2480 Acessado em: 25 de dezembro de 2009. História Rede Bandeirantes de Televisão http://www.band.com.br/grupo/historia.asp Acessado em 30 de dezembro de 2009. Cronologia da logomarca da Band ao passar dos anos. http://www.tvbandvale.com.br/v2/band_cronologia.php Acessado em 30 de dezembro de 2009. Na simplicidade das marcas, a identidade dos produtos. O Estado de S. Paulo, 28/11/05 http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=357ASP008 Acessado em 19 de janeiro de 2010. 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design