NARRATIVAS MÍTICAS E MIDIÁTICAS NA FIGURA DO PAPA
JOÃO PAULO II
Paulo Ferreira1
Resumo
Desde o início de seu pontificado, o papa João Paulo II viu-se cercado de um
sofisticado aparato midiático que, somado a seu carisma pessoal, gradativamente
construiu a imagem de um homem determinado, com forte rigor doutrinário e
disposição pessoal. A figura do papa descrevia um homem incansável, forte, esportista,
acessível com intensa presença social e midiática, sob a cultura da celebridade e da
espetacularização. Seu pontificado fez uma opção pelas multidões, notadamente os
jovens. A institucionalização do Dia Mundial da Juventude em 1985 e Das Jornadas
Mundiais da Juventude - encontros promovidos a cada dois ou três anos em diversas
partes do mundo com centenas de milhares de jovens (ou milhões, em algumas edições)
- retratam a força midiática desta liderança que soube, como nenhuma outra
personalidade papal, romper os limites de sua influência dogmática ou doutrinária
atingindo a todos indistintamente em uma arena de interculturalidades e mediações
midiáticas.
Palavras-chave: religião e mídia, religião midiatizada.
1
Graduado em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas pelas Faculdades
Integradas Alcântara Machado (1996), especialista em Comunicação Organizacional e Relações
Públicas pela Escola de Comunicação e Artes ECA-USP (1999) e mestre em Comunicação e
Mercado pela Faculdade Cásper Líbero (2003). Solidificou carreira em empresas multinacionais
na área de Comunicação Corporativa. Atua como professor universitário e coordena o curso de
relações públicas na Universidade Metodista de São Paulo. É doutorando no Programa de PósGraduação em Comunicação Social na Universidade Metodista de São Paulo. Perfil completo
em http://lattes.cnpq.br/7547109819266142. Contatos pelo e-mail [email protected].
1
Pontífice de fato e direito? João Paulo II como construtor de pontes míticas e
midiáticas
Um dos pontificados mais longos da história do catolicismo – o de João Paulo II
durou mais de 26 anos – foi marcado por importantes fatos históricos dos dois últimos
séculos: a crise do regime comunista e a derrocada dos países da “Cortina de Ferro”, a
unificação da Europa, a efervescência política na América Latina e os conflitos bélicos
no Oriente.
Consequência direta do Concílio Vaticano II, na década de 1980 a Igreja
Católica vivenciava um embate interno entre progressistas e liberais. A ala marxista, sob
o pontificado de João Paulo II, perdeu força e este cenário favoreceu o surgimento, no
governo da Igreja, de uma revalorização da cultura. O documento Gaudium et Spes,
elaborado no Concílio Vaticano II, coloca a cultura como centro do diálogo entre igreja
e sociedade.
Neste contexto, a socióloga Brenda Carranza propõe – em sua tese de doutorado
apresentada em 2005 ao Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas da Universidade de Campinas – “que é o homem que se humaniza
por meio da cultura, isto é, através da própria atividade e não pelo trabalho como se
afirma na concepção marxista” (CARRANZA, 2005, 174).
É neste chão sociológico que, em 16 de agosto de 1978, Karol Józef Wojtyla,
arcebispo de Cracóvia, primeiro papa não italiano e mais de 450 anos, assume o
pontificado, após breves 34 dias do papado de Albino Luciani, João Paulo I.
(CARRANZA, 2005, 175)
João Paulo II publicou 14 encíclicas. Em uma das últimas – Fides et Ratio que
trata sobre a razão e a fé – aflora de forma mais proeminente sua formação filosófica.
Tomemos em consideração os relatos biográficos que colocam Karol Wojtyla como
operário e estudante de seminários clandestinos proibidos pelos nazistas em um recorte
histórico que se confunde com um dos momentos mais significativos do pensamento do
século passado.
Embora categorizado como pensador positivista, Edmund Gustav Albrecht
Husserl posicionou-se na contramão do materialismo de Marx. Husserl restabeleceu os
poderes da intuição essencial do ser e a intencionalidade nos processos mentais
2
instaurados pela filosofia fenomenológica. Foi esta vertente existencial renovadora que
influi sobre o jovem sacerdote Wojtyla.
Em muitos de seus discursos (foram quase 20 mil) proferidos em 104 viagens
pastorais internacionais, mais de 300 visitas paroquiais em Roma, 1,1 mil audiências
gerais assistidas por 18 milhões de pessoas, 45 cartas apostólicas e cinco livros, o papa
João Paulo II afirmava que o diálogo com outras culturas só poderia ser benéfico ao
serem percebidos os valores que têm em comum e os que as distinguem. Em editorial
intitulado “O papa filósofo” publicado no dia seguinte aos funerais de João Paulo II, o
jurista Miguel Reale contextualizava que “a cultura cristã, em virtude de sua inevitável
contingência histórica, não podia permanecer isolada, devendo abrir-se para todas as
formas de civilização” (OESP, 2005, A2).
Em tempos midiáticos, esta abertura a que se refere Reale não pode prescindir
dos meios de comunicação. “Intensificar a presença da Igreja no mundo da
comunicação há de ser certamente uma das vossas prioridades”. Com estas palavras
proferidas no discurso inaugural do Encontro Latino Americano de Santo Domingo
ocorrido na República Dominicana em 1992, o então papa João Paulo II deixou claro o
posicionamento da Igreja Católica frente ao uso dos meios de comunicação de massa
para a evangelização.
É indiscutível a percepção de uma refinada e bem elaborada estrutura midiática
ou espetacularizada em torno da imagem do papa João Paulo II. A sensação de
ubiquidade que a personagem papal transfere às pessoas se deve de forma especial à sua
presença midiática. Também é construída por meio do domínio de idiomas – ao ser
eleito, o papa João Paulo II dominava quase uma dezena de idiomas, o que lhe permitiu
vencer muitas barreiras culturais – o que propicia a construção de visões de mundo pela
imersão nas culturas locais ou regionais (lembremos que o papa fez mais de uma
centena de viagens internacionais). O exercício da interculturalidade de João Paulo II
decididamente rompeu as barreiras geográficas, étnicas e religiosas e permitiu-lhe
construir a imagem de um líder extra-religioso.
Seguindo esta linha de pensamento, algumas inquietações podem surgir. Tal
personalidade papal, incorporada na figura de outros pontífices, poderá subsistir ao
futuro, a despeito de surgirem papas não-carismáticos ou não-midiáticos como é o caso
de Bento XVI, o atual papa? As estruturas estabelecidas somente sobre o viés da
3
interculturalidade e prescindindo de uma elaborada imagem midiática seriam capazes de
preservar de manter tal diálogo com a sociedade?
O papa João Paulo II desempenhou um importantíssimo papel na história recente
do mundo, não somente por sua constante atuação política mas especialmente por seu
uso consciente da mídia. Em Puebla (1979), a Igreja deixa claro o caminho que iria
trilhar nas últimas duas décadas do milênio quando promulgou: “comunicar é
evangelizar”.
Consciente da necessidade premente de sobrevivência num contexto de
efemeridade de toda ordem de valores como nos lembra Bauman (2001), a Igreja busca
perpetuar seu discurso doutrinário e dogmático – e, portanto, inflexível – por meio de
sínteses-dialéticas.
Atento aos sinais do tempo, na década de 1980 o então papa João Paulo II
aproveita a institucionalização de 1985 como o Ano Internacional da Juventude e inicia
um movimento direcionado especificamente aos jovens. Surge a Jornada Mundial da
Juventude.
As Jornadas apresentam números exorbitantes. Dez anos após a primeira edição
(em 1985 reuniu 200 mil jovens em Roma) 4 milhões de jovens reuniram-se em Manila,
nas Filipinas em 1995. Outras grandes concentrações realizaram-se em Buenos Aires
(Argentina) com 1 milhão de participantes em 1987, Santiago de Compostela (Espanha)
em 1989 com 400 mil, Czestochowa (Polônia) em 1991 com 1,6 milhão de jovens,
Denver (EUA) em 1993 onde registrou-se a presença de 500 mil, Paris (França) em
1997 com 1,2 milhão. De volta a Roma (Itália) a Jornada reuniu 2 milhões de jovens em
2000; dois anos depois, em Toronto (Canadá), contou com 800 mil; em Colônia
(Alemanha) em 2005 reuniram-se 1,2 milhão de jovens; Sydney (Austrália) registrou
400 mil em 2008 e, a mais recente edição do evento, contou com quase 2 milhões em
Madrid (Espanha)2. Convém notar a importância estratégica na escolha destas
megacidades ícones do secularismo contemporâneo.
Embora não seja possível inferir que as massas juvenis presentes às Jornadas
Mundiais da Juventude não fossem formadas por rebanho religioso ou não
2
A próxima edição da Jornada Mundial da Juventude será realizada no Rio de Janeiro, de 23 a 28 de
julho de 2014.
4
respondessem de forma unânime aos preceitos da Igreja Católica – pois as razões para
participarem são das mais diversas razões –, como explicar a presença massiva desses
jovens nos eventos católicos como este impregnados de mensagens moralizantes e
extremo rigor doutrinário?
Como uma espécie de astro rock espiritual, os encontros serão o palco de
retransmissão doutrinal para as novas gerações, convocadas para escutarem o
convite a engrossarem os quadros de reprodução institucional (...). João Paulo II
exortaria os jovens a viver alinhados com a moralidade sexual e os preceitos da
Igreja (...). A mensagem papal incentivou constantemente seus jovens ouvintes
a valorizar a castidade como meio de se prevenir da AIDS e de resistir às
relações sexuais pré-matrimoniais. (CARRANZA, 2005, 179)
O atual papa ainda mantém a Jornada Mundial da Juventude. A última
participação de João Paulo II (morto em 2005) foi em sua 17ª edição realizada em 2002
no Canadá. Cerca de 800 mil jovens (muitos não-católicos) na manhã do dia 28 de julho
daquele ano receberam o papa com um entusiasmo impressionante. Usando tênis e
mochilas, os jovens acolheram o pontífice cantando, dançando e entoando bordões
como “João Paulo II, nós amamos você!”.
O papa, já encurvado e doente, apresentava-se aos jovens como “um velho papa,
com muitos anos de vida, mas com um coração jovem” e caminhava apoiando-se numa
bengala a qual girava periodicamente enquanto cantava com os jovens. Um indiscutível
fenômeno de massas. Fácil constatar a força da imagem daquele ancião, então com 82
anos, mesmo sobre os não-católicos e os jovens católicos não praticantes. Muitos
católicos praticantes, inclusive, que discordam do posicionamento do papa João Paulo II
acerca do uso de preservativo ou do aborto, por exemplo, mas reconhecem nele a figura
de líder.
Praticamente dez anos mais tarde, por ocasião de sua beatificação, João Paulo II,
ainda suscita manifestações no imaginário de católicos e não católicos. Carlos Alberto
Di Franco, em editorial no jornal O Estado de S.Paulo que tratou da cerimônia de
beatificação, retrata isso:
Lembro-me, entre outros, de um depoimento sugestivo. Bruno Mastroianni era
um jovem filósofo romano. Sobrinho de Marcello Mastroianni, o falecido ator
de La Dolce Vita, de Fellini, nasceu depois da eleição de João Paulo II.
Encontrei-o enturmado na Praça de São Pedro. “Nestes meus 24 anos”, dizia-me
então, “João Paulo II sempre esteve presente. Lembro-me, quando era criança,
daquele homem vestido de branco (...) Mais tarde, durante os anos da
adolescência, fiquei rebelde. O papa, no entanto, estava sempre lá, um pouco
5
mais velho, mas sempre forte. Dizia-nos, então, que o amor de Deus era a única
resposta, o único caminho para um futuro melhor. (...) Continua lá. É uma rocha
firme e segura”. (DI FRANCO, 2011, A2).
Este depoimento é especialmente emblemático. O pano de fundo histórico (nas
mais diversas vertentes do conhecimento humano, notadamente sociologia, filosofia e
antropologia) no qual se desenvolveu o pontificado de João Paulo II coincide com
período que muitos pensadores contemporâneos classificam como (pós-) modernidade.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ao tratar da questão da modernidade
líquida alega que a humanidade está condenada “a mudar obstinadamente, carregando
no processo incertezas”.
O que tempos atrás era apelidado erroneamente de “pós-modernidade”, e que
prefiro chamar de “modernidade líquida”, traduz-se na crescente convicção de
que a mudança é a nossa única permanência. E a incerteza, a nossa única certeza
(apud GREENHALGH, 2011).
Sob esta ótica estaria a figura do papa João Paulo II na contramão dos valores ou
padrão contemporâneos expressos e difundidos na (pós-) modernidade? Vivemos a
“lógica da fragmentação” descrita por Cristopher Lasch que expressa que vivemos em
um cenário midiático, de materialismo e narcisismo. Segundo ele o “eu” é diminuído ao
mínimo e, por sentir-se sitiado, o nosso “eu” se retrai e surge a preocupação exagerada
da própria imagem (personalidade narcísica) e com o “outro” o que gera insegurança,
desconfiança e temor. O indivíduo desgarrado apenas em transe é capaz de sentir-se
fazendo parte de alguma coletividade ou de algo que dê sentido à sua existência
(LASCH, 1986).
Tal “lógica da fragmentação” em Lasch ocorre em detrimento da “lógica da
construção de identidade” descrita por Stuart Hall e a necessidade de um referencial não
efêmero constitui-se como reação de uma sociedade (notadamente jovem) sem
esperanças comuns – somente individuais – ou vínculos sólidos; daí o contraponto à
modernidade líquida. Segundo Hall, as identidades modernas estão fragmentadas e o
sujeito, antes unificado e estável, passa a ser composto de várias identidades, muitas
vezes contraditórias (HALL, 1999).
A temporalidade expressada no depoimento do jovem na Praça de São Pedro
acerca da presença ostensiva do papa João Paulo II (“Continua lá. É uma rocha firme e
6
segura”) contrapõe-se diretamente à efemeridade evidenciada na sociedade líquida
onde os quadros de referência ou mesmo as crenças mudam antes que se solidifiquem.
Midiatização e mitificação
As explicações acerca do poder de mobilização de lideranças doutrinadoras
sobre um público aparentemente avesso ou resistente a discursos dogmáticos - embora
construídas sobre uma estrutura midiatizada -, parecem não se circunscrevem apenas à
dimensão carismática. Além de uma estrutura midiática existe uma construção mítica ao
redor da figura do papa João Paulo II. Sem a apropriação dos valores simbólicos mais
latentes do imaginário humano (DURAND, 2002) através da contingência intercultural,
a interação dialógica entre o papa e as multidões das Jornadas Mundiais não se
estabeleceria de forma plena.
As narrativas, quando ligadas ao imaginário, são carregadas de sentimento e
afetividade baseada na subjetividade. O fenômeno transita de uma narrativa meramente
histórica (documental e fechada) para uma narrativa mitológica.
Neste sentido os mitos são uma narrativa ou, ao menos, preenchem lacunas na
narrativa. Na narrativa histórica surge a figura dos arquétipos. Platão dava um
tratamento formal aos arquétipos definido-os na forma do bem, do belo, da verdade. Na
contemporaneidade Jung vai defini-los como um conjunto de imagens psíquicas do
inconsciente coletivo que constitui um patrimônio comum de toda a humanidade. Do
grego Archétypon (modelo, padrão), o arquétipo é uma narrativa. A matriz arquetípica
do inconsciente coletivo se personifica em figuras mitológicas que nos falam de
situações cotidianas centradas nas grandes questões da humanidade.
Para analisar a construção mítica em volta da figura do papa João Paulo II, opto
por duas abordagens distintas, embora ambas de ordem antropológicas. De um lado, os
estudos sobre os valores simbólicos constituídos no imaginário humano de Gilbert
Durand3. Para Maffesoli “em Durand, não existe verdadeira diferença entre simbólico e
3
Professor de filosofia, professor titular e emérito de sociologia e antropologia Universidade de Grenoble
na França, Gilbert Durant é fundador e atualmente diretor do Centro de Pesquisas sobre o Imaginário
(Centre de recherche sur l'imaginaire). Discípulo do epistemólogo Gaston Bachelard e de Carl Jung
influenciou outros pensadores como Michel Maffesoli, Durand é reconhecido mundialmente nos meios
acadêmicos por seus estudos acerca do imaginário.
7
imaginário. Uma coisa contamina a outra. Tanto que sua investigação se dá sobre a
imaginação simbólica” (MAFFESOLI, 2001, p.79).
Os vereditos acerca dos mecanismos de construção dos mitos lançados por
Joseph Campbell4 serão o outro ponto deste processo de análise. Para Campbell os
mitos nos ajudam a passar pelos inúmeros estágios do desenvolvimento humano
(infância, adolescência, velhice e morte). Os mitos revelam modelos ideais para as
atividades humanas e produzem a nossa compreensão para os desafios e questões
fundamentais da humanidade.
Após alguns ensaios nas áreas da fenomenologia, epistemologia e sociologia,
Durand opta por estudar a questão do simbolismo imaginário sob a ótica da
antropologia e da psicanálise ao afirmar que “parece que para estudar in concreto o
simbolismo imaginário será preciso enveredar resolutamente pela via da antropologia”
(DURAND, 2002, p.40).
Para tanto, Durand propõe um método de análise que ele denomina “trajeto
antropológico” ao concluir que “para tal, precisamos nos colocar deliberadamente no
que chamaremos o trajeto antropológico, ou seja, a incessante troca que existe ao nível
do imaginário entre as pulsões subjetivas” (DURAND, 2002, p.41). Entretanto, Durand
precisa admitir que não pode abrir mão de se considerar o discurso como fator
preponderante na análise do simbolismo imaginário: “é aqui precisamente que surge
uma das dificuldades da pesquisa antropológica. Obrigatoriamente, para expor os
resultados [...] é-se levado a utilizar o discurso” (DURAND, 2002, p.45).
Nesta estrutura de discurso, ele considera a presença de um esquema
mitodológico que acaba por prescindir de uma narrativa ao afirmar que “no
prolongamento dos esquemas, arquétipos e simples símbolos podemos considerar o
mito. [...] Entenderemos por mito um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos que [...]
tende a compor-se em narrativa” (DURAND, 2002, p.62)
Além de tal narrativa, o estudo antropológico do simbolismo imaginário não
pode prescindir também de uma análise arquetípica. Para tanto, Durand adota a
abordagem de Carl Jung, de quem é discípulo confesso. Durand declara que “Jung, na
4
Antropólogo norteamericano que dedicou-se ao estudo do mito e mapeamento das semelhanças entre as
mitologias das mais diversas culturas humanas.
8
esteira da psicanálise, viu igualmente bem que todo o pensamento repousa em imagens
gerais, os arquétipos” (DURAND, 2002, p.30).
Para Jung, os arquétipos vão sendo construídos sobre imagens coletivamente
assimiladas. Jung deduz que as “imagens primordiais” – um outro nome para arquétipos
– se originam de uma constante experiência durante muitas gerações e, como exemplos
de algumas das imagens primordiais existentes no inconsciente coletivo, propõe
algumas estruturas arquetípicas universais como os arquétipos da “Grande Mãe”, do
“Herói”, do “Velho Sábio” e da “Morte”.
Para enfocar a construção do imaginário sobre a estrutura arquetípica do “herói”
a partir das estruturas midiáticas no caso do papa João Paulo II, trazemos os estudos do
também antropólogo Joseph Campbell que, embora tenha “rompido” com a academia ao
abandonar seu doutorado, conduz seu trabalho “independente” a uma análise das idéias
e conceitos de arquétipos de Carl Jung.
Para Campbell, em todas as histórias existe um herói e a narrativa gira em torno
de suas ações. Segundo ele
o herói parte do mundo cotidiano e se aventura numa região de prodígios
sobrenaturais. Ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva. O
herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos
seus semelhantes (CAMPBELL, 1995, p.36).
Joseph Campbell pesquisou a estrutura dos mitos. Cunhou o conceito do
“monomito” em sua obra “A Jornada do Herói” de 1949. Na obra Campbell propõe uma
estrutura de narrativa que demonstra que o herói passa por 12 etapas. Trata-se de uma
jornada cíclica; daí o conceito de monomito. Seu trabalho de pesquisa analisou histórias
modernas bem como muitos roteiros de filmes.
O padrão do monomito foi adotado por George Lucas para a criação de “Star
Wars”. Christopher Vogler5, roteirista de Hollywood, também usou o conceito do
monomito na produção dos estúdios Disney (trilogia Matrix) o que deu origem ao livro
“A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Roteiristas” (VOGLER, 2006).
5
Roteirista de Hollywood trabalhou para os estúdios Disney, Fox e Warner, sempre na área de
desenvolvimento de idéias. Vogler usou o trabalho de Campbell para criar o “lendário” memorando de
sete páginas para os roteiristas de Hollywood “A practical guide to the hero with a thousand faces” o que
deu origem ao livro “A Jornada do Escritor”.
9
As doze etapas do monomito de Campbell estão divididas em 3 atos:
1) a PARTIDA (também chamada SEPARAÇÃO): lida com o herói aspirando à sua
jornada; 2) a INICIAÇÃO: mostra as várias ações do herói e 3) o RETORNO:
momento que o herói volta para casa com o conhecimento e os poderes adquiridos ao
longo da jornada.
A “Partida” compreende as cinco primeiras etapas da trajetória do herói:
1. O Mundo Comum
2. O Chamado da Aventura
3. Reticência ao Chamado
4. Encontro com o Mentor
5. O Cruzamento do Portal
No ato “Iniciação” a saga do herói prossegue com:
6. Provações, Aliados e Inimigos
7. Aproximação do Objetivo
8. Provação Máxima
9. Conquista da Recompensa
E, por fim, a saga conclui-se no “Retorno” com as etapas:
10. O Caminho de Volta
11. Depuração e Ressurreição
12. O Retorno Transformado
A espetacularização da beatificação de João Paulo II: a construção do imaginário
do mito (e do santo) com base em estruturas midiáticas
Em 1º de maio de 2011, com a presença de mais de um milhão de pessoas e 16
chefes de estado , além de representantes de 86 delegações estrangeiras (ROMA,...,
2011, on line), o Vaticano promoveu a cerimônia de beatificação do papa João Paulo II:
Após os ritos iniciais da Santa Missa, o Vigário do Papa para a Diocese de
Roma, Cardeal Agostino Vallini, apresentou o pedido de Beatificação do até
10
então Venerável Servo de Deus João Paulo II. Em seu pedido, o Cardeal
lembrou João Paulo II como um homem que "mirava sempre o horizonte da
esperança, convidando os povos a derrubar os muros das divisões". Logo após,
Bento XVI pronunciou a fórmula que tornou João Paulo II Beato da Igreja e, da
mesma janela onde foi apresentado como Papa ao mundo, em 1978, foi
desvelada a imagem oficial do novo Beato (JOÃO..., 2011, online).
Apenas com o uso de imagens intensamente divulgadas pela mídia na ocasião da
morte e da cerimônia de sua beatificação é possível apresentar o processo de mitificação
do papa João Paulo II tomando-se como base a estrutura do monomito de Campbell, a
seguir:
1. O Mundo Comum: O herói é apresentado em seu dia-a-dia; a vida normal do herói
antes das história começar.
Fotos da juventude e fase adulta da vida de Karol Józef Wojtyla antes de ingressar na vida
religiosa.
11
2. O Chamado da Aventura: A rotina do herói é quebrada por algo inesperado, insólito
ou incomum. Um desafio se apresenta ao herói.
Fotos da apresentação de Karol Wojtyla como o novo papa no balcão de pregações da Basílica
de São Pedro em Roma em 16 de outubro de 1978.
3. Reticência ao Chamado: Manifesta-se o sentimento de medo no herói.
Legendas de trecho do discurso do então nomeado papa João Paulo II ao ser apresentado à
multidão presente na Praça de São Pedro em 16 de outubro de 1978. As cenas oriundas de um
documentário (TG) da emissora de TV italiana LA7 estão disponíveis em
http://www.youtube.com/watch?v=6negG6a5S5I
12
4. Encontro com o Mentor: O herói encontra ajuda; às vezes sobrenatural.
Em 1982, ao visitar o santuário mariano de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal, João Paulo
II deixou uma das balas que o atingiu no atentado (ver página 14) na coroa da imagem.
5. O Cruzamento do Portal: O herói abandona o mundo comum para entrar em um
mundo especial ou mágico.
Liturgia solene onde Karol Wojtyla recebe os paramentos papais em 22 de outubro de 1978. A
data é tão importante a ponto de ser estabelecida como a data oficial para a veneração do beato
João Paulo II. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=QVfEC9OXPH8
13
6. Provações, Aliados e Inimigos: No mundo especial é que o herói enfrentará sua
realidade e assimilará as regras deste mundo especial
Atentado sofrido por João Paulo II na tarde de 13 de maio de 1981 em plena Praça de São
Pedro, no Vaticano, durante audiência pública realizada sempre às quartas. O turco Mehemed
Ali Agca deferiu três tiros. Imagens disponíveis em
http://www.youtube.com/watch?v=TuNMQliamY8
7. Aproximação do Objetivo: O herói se aproxima do objetivo de sua missão. O nível de
tensão aumenta mas o herói tem êxitos durante as provações.
Em 1983, João Paulo II visita Ali Agca na prisão de Ancona, na região central da Itália. O
pontífice perdoa Agca. No ano de 2000, o extremista ganhou a anistia da Justiça italiana.
Extraditado para a Turquia cumpre pena pelo assassinato do jornalista Abdi Ipecki, em 1978.
Imagens disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=TuNMQliamY8
14
8. Provação Máxima: A maior crise da aventura. De vida ou morte.
Sequência de fotos de uma das últimas aparições de João Paulo II na janela de seus aposentos
no Vaticano, de onde proferia suas bênçãos dominicais.
9. Conquista da Recompensa: O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e
agora ganha sua recompensa: o elixir.
Imagens dos funerais de João Paulo II em reportagem da Rede Globo de Televisão estão
disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=fTZzYUIvIIc e
http://www.youtube.com/watch?v=BsKgohal1ck
15
10. O Caminho de Volta: Após ter alcançado seu objetivo, o herói deve voltar para o
mundo comum.
Foto da tumba de João Paulo II nos subterrâneos do Vaticano
11. Depuração e Ressurreição: Aqui o herói ressurge após o martírio ou morte.
16
12. O Retorno Transformado: É a finalização da história. O herói volta ao seu mundo
mas já não é mais o mesmo.
Foto da retirada do caixão da tumba de João Paulo II nos subterrâneos do Vaticano por ocasião
da cerimônia de sua betificação. Imagens da exumação em reportagem do GloboNews estão
disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=z2ZGtOqEw9Q
Volta para casa com o elixir
O sangue de João Paulo II foi conservado em uma ampola como relíquia pelo Escritório
de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. Disponível em
http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=281410
17
e o usa para ajudar todos no mundo comum.
Referências bibliográficas
BAUMAN. Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
___________. A face humana da sociologia. Entrevista a Laura Greenhalgh. O Estado
de S.Paulo, Caderno Sabático, 30.abr.2011, p.S4.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 1995.
___________. O poder do mito. Org. Betty Sue Flowers. Trad. Carlos Felipe Moisés.
São Paulo: Palas Athena, 1990.
CARRANZA, Brenda. Movimentos do Catolicismo Brasileiro: cultura, mídia,
instituição”. Tese de doutorado apresentada ao Departamento de Sociologia do
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, SP, 2005.
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. 3ª Ed. São Paulo:
Martins Fontes, 2002.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A,
1999.
LASCH, Christopher. O Mínimo Eu. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1986.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para roteiristas. 2ª Ed.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
Periódicos
DI FRANCO, C.A. O papa dos jovens. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2 mai. 2011. Opinião,
A2.
GREENHALGH, L. A face humana da sociologia. O Estado de S. Paulo, São Paulo,
30 abr. 2011. Caderno Sabático, S4.
18
Artigos e reportagens disponíveis em sites
MACHADO, Daniel; MEIRA, Leonardo. João Paulo II é proclamado Beato, o dia
esperado chegou, diz Papa. Disponível em:
<http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=281488>. Acesso em 2 mai. 2011.
MAFFESOLI, Michel. O imaginário é uma realidade. Revista Famecos, Porto Alegre,
15 ago. 2001. Entrevista concedida a Juremir Machado da Silva. Disponível em:
<http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/famecos/article/view/285/217>.
Acesso em 10 mar. 2010.
“ROMA celebra a beatificação de João Paulo II” In: Veja. Seção Internacional. São
Paulo, 1 mai.2011. Disponível em <http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/comosera-a-beatificacao-do-primeiro-papa-da-era-global>Acesso em 9 ago. 2012
19
Download

narrativas míticas e midiáticas na figura do papa joão paulo ii