NARRATIVAS MÍTICAS E MIDIÁTICAS NA FIGURA DO PAPA JOÃO PAULO II Paulo Ferreira1 Resumo Desde o início de seu pontificado, o papa João Paulo II viu-se cercado de um sofisticado aparato midiático que, somado a seu carisma pessoal, gradativamente construiu a imagem de um homem determinado, com forte rigor doutrinário e disposição pessoal. A figura do papa descrevia um homem incansável, forte, esportista, acessível com intensa presença social e midiática, sob a cultura da celebridade e da espetacularização. Seu pontificado fez uma opção pelas multidões, notadamente os jovens. A institucionalização do Dia Mundial da Juventude em 1985 e Das Jornadas Mundiais da Juventude - encontros promovidos a cada dois ou três anos em diversas partes do mundo com centenas de milhares de jovens (ou milhões, em algumas edições) - retratam a força midiática desta liderança que soube, como nenhuma outra personalidade papal, romper os limites de sua influência dogmática ou doutrinária atingindo a todos indistintamente em uma arena de interculturalidades e mediações midiáticas. Palavras-chave: religião e mídia, religião midiatizada. 1 Graduado em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado (1996), especialista em Comunicação Organizacional e Relações Públicas pela Escola de Comunicação e Artes ECA-USP (1999) e mestre em Comunicação e Mercado pela Faculdade Cásper Líbero (2003). Solidificou carreira em empresas multinacionais na área de Comunicação Corporativa. Atua como professor universitário e coordena o curso de relações públicas na Universidade Metodista de São Paulo. É doutorando no Programa de PósGraduação em Comunicação Social na Universidade Metodista de São Paulo. Perfil completo em http://lattes.cnpq.br/7547109819266142. Contatos pelo e-mail [email protected]. 1 Pontífice de fato e direito? João Paulo II como construtor de pontes míticas e midiáticas Um dos pontificados mais longos da história do catolicismo – o de João Paulo II durou mais de 26 anos – foi marcado por importantes fatos históricos dos dois últimos séculos: a crise do regime comunista e a derrocada dos países da “Cortina de Ferro”, a unificação da Europa, a efervescência política na América Latina e os conflitos bélicos no Oriente. Consequência direta do Concílio Vaticano II, na década de 1980 a Igreja Católica vivenciava um embate interno entre progressistas e liberais. A ala marxista, sob o pontificado de João Paulo II, perdeu força e este cenário favoreceu o surgimento, no governo da Igreja, de uma revalorização da cultura. O documento Gaudium et Spes, elaborado no Concílio Vaticano II, coloca a cultura como centro do diálogo entre igreja e sociedade. Neste contexto, a socióloga Brenda Carranza propõe – em sua tese de doutorado apresentada em 2005 ao Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas – “que é o homem que se humaniza por meio da cultura, isto é, através da própria atividade e não pelo trabalho como se afirma na concepção marxista” (CARRANZA, 2005, 174). É neste chão sociológico que, em 16 de agosto de 1978, Karol Józef Wojtyla, arcebispo de Cracóvia, primeiro papa não italiano e mais de 450 anos, assume o pontificado, após breves 34 dias do papado de Albino Luciani, João Paulo I. (CARRANZA, 2005, 175) João Paulo II publicou 14 encíclicas. Em uma das últimas – Fides et Ratio que trata sobre a razão e a fé – aflora de forma mais proeminente sua formação filosófica. Tomemos em consideração os relatos biográficos que colocam Karol Wojtyla como operário e estudante de seminários clandestinos proibidos pelos nazistas em um recorte histórico que se confunde com um dos momentos mais significativos do pensamento do século passado. Embora categorizado como pensador positivista, Edmund Gustav Albrecht Husserl posicionou-se na contramão do materialismo de Marx. Husserl restabeleceu os poderes da intuição essencial do ser e a intencionalidade nos processos mentais 2 instaurados pela filosofia fenomenológica. Foi esta vertente existencial renovadora que influi sobre o jovem sacerdote Wojtyla. Em muitos de seus discursos (foram quase 20 mil) proferidos em 104 viagens pastorais internacionais, mais de 300 visitas paroquiais em Roma, 1,1 mil audiências gerais assistidas por 18 milhões de pessoas, 45 cartas apostólicas e cinco livros, o papa João Paulo II afirmava que o diálogo com outras culturas só poderia ser benéfico ao serem percebidos os valores que têm em comum e os que as distinguem. Em editorial intitulado “O papa filósofo” publicado no dia seguinte aos funerais de João Paulo II, o jurista Miguel Reale contextualizava que “a cultura cristã, em virtude de sua inevitável contingência histórica, não podia permanecer isolada, devendo abrir-se para todas as formas de civilização” (OESP, 2005, A2). Em tempos midiáticos, esta abertura a que se refere Reale não pode prescindir dos meios de comunicação. “Intensificar a presença da Igreja no mundo da comunicação há de ser certamente uma das vossas prioridades”. Com estas palavras proferidas no discurso inaugural do Encontro Latino Americano de Santo Domingo ocorrido na República Dominicana em 1992, o então papa João Paulo II deixou claro o posicionamento da Igreja Católica frente ao uso dos meios de comunicação de massa para a evangelização. É indiscutível a percepção de uma refinada e bem elaborada estrutura midiática ou espetacularizada em torno da imagem do papa João Paulo II. A sensação de ubiquidade que a personagem papal transfere às pessoas se deve de forma especial à sua presença midiática. Também é construída por meio do domínio de idiomas – ao ser eleito, o papa João Paulo II dominava quase uma dezena de idiomas, o que lhe permitiu vencer muitas barreiras culturais – o que propicia a construção de visões de mundo pela imersão nas culturas locais ou regionais (lembremos que o papa fez mais de uma centena de viagens internacionais). O exercício da interculturalidade de João Paulo II decididamente rompeu as barreiras geográficas, étnicas e religiosas e permitiu-lhe construir a imagem de um líder extra-religioso. Seguindo esta linha de pensamento, algumas inquietações podem surgir. Tal personalidade papal, incorporada na figura de outros pontífices, poderá subsistir ao futuro, a despeito de surgirem papas não-carismáticos ou não-midiáticos como é o caso de Bento XVI, o atual papa? As estruturas estabelecidas somente sobre o viés da 3 interculturalidade e prescindindo de uma elaborada imagem midiática seriam capazes de preservar de manter tal diálogo com a sociedade? O papa João Paulo II desempenhou um importantíssimo papel na história recente do mundo, não somente por sua constante atuação política mas especialmente por seu uso consciente da mídia. Em Puebla (1979), a Igreja deixa claro o caminho que iria trilhar nas últimas duas décadas do milênio quando promulgou: “comunicar é evangelizar”. Consciente da necessidade premente de sobrevivência num contexto de efemeridade de toda ordem de valores como nos lembra Bauman (2001), a Igreja busca perpetuar seu discurso doutrinário e dogmático – e, portanto, inflexível – por meio de sínteses-dialéticas. Atento aos sinais do tempo, na década de 1980 o então papa João Paulo II aproveita a institucionalização de 1985 como o Ano Internacional da Juventude e inicia um movimento direcionado especificamente aos jovens. Surge a Jornada Mundial da Juventude. As Jornadas apresentam números exorbitantes. Dez anos após a primeira edição (em 1985 reuniu 200 mil jovens em Roma) 4 milhões de jovens reuniram-se em Manila, nas Filipinas em 1995. Outras grandes concentrações realizaram-se em Buenos Aires (Argentina) com 1 milhão de participantes em 1987, Santiago de Compostela (Espanha) em 1989 com 400 mil, Czestochowa (Polônia) em 1991 com 1,6 milhão de jovens, Denver (EUA) em 1993 onde registrou-se a presença de 500 mil, Paris (França) em 1997 com 1,2 milhão. De volta a Roma (Itália) a Jornada reuniu 2 milhões de jovens em 2000; dois anos depois, em Toronto (Canadá), contou com 800 mil; em Colônia (Alemanha) em 2005 reuniram-se 1,2 milhão de jovens; Sydney (Austrália) registrou 400 mil em 2008 e, a mais recente edição do evento, contou com quase 2 milhões em Madrid (Espanha)2. Convém notar a importância estratégica na escolha destas megacidades ícones do secularismo contemporâneo. Embora não seja possível inferir que as massas juvenis presentes às Jornadas Mundiais da Juventude não fossem formadas por rebanho religioso ou não 2 A próxima edição da Jornada Mundial da Juventude será realizada no Rio de Janeiro, de 23 a 28 de julho de 2014. 4 respondessem de forma unânime aos preceitos da Igreja Católica – pois as razões para participarem são das mais diversas razões –, como explicar a presença massiva desses jovens nos eventos católicos como este impregnados de mensagens moralizantes e extremo rigor doutrinário? Como uma espécie de astro rock espiritual, os encontros serão o palco de retransmissão doutrinal para as novas gerações, convocadas para escutarem o convite a engrossarem os quadros de reprodução institucional (...). João Paulo II exortaria os jovens a viver alinhados com a moralidade sexual e os preceitos da Igreja (...). A mensagem papal incentivou constantemente seus jovens ouvintes a valorizar a castidade como meio de se prevenir da AIDS e de resistir às relações sexuais pré-matrimoniais. (CARRANZA, 2005, 179) O atual papa ainda mantém a Jornada Mundial da Juventude. A última participação de João Paulo II (morto em 2005) foi em sua 17ª edição realizada em 2002 no Canadá. Cerca de 800 mil jovens (muitos não-católicos) na manhã do dia 28 de julho daquele ano receberam o papa com um entusiasmo impressionante. Usando tênis e mochilas, os jovens acolheram o pontífice cantando, dançando e entoando bordões como “João Paulo II, nós amamos você!”. O papa, já encurvado e doente, apresentava-se aos jovens como “um velho papa, com muitos anos de vida, mas com um coração jovem” e caminhava apoiando-se numa bengala a qual girava periodicamente enquanto cantava com os jovens. Um indiscutível fenômeno de massas. Fácil constatar a força da imagem daquele ancião, então com 82 anos, mesmo sobre os não-católicos e os jovens católicos não praticantes. Muitos católicos praticantes, inclusive, que discordam do posicionamento do papa João Paulo II acerca do uso de preservativo ou do aborto, por exemplo, mas reconhecem nele a figura de líder. Praticamente dez anos mais tarde, por ocasião de sua beatificação, João Paulo II, ainda suscita manifestações no imaginário de católicos e não católicos. Carlos Alberto Di Franco, em editorial no jornal O Estado de S.Paulo que tratou da cerimônia de beatificação, retrata isso: Lembro-me, entre outros, de um depoimento sugestivo. Bruno Mastroianni era um jovem filósofo romano. Sobrinho de Marcello Mastroianni, o falecido ator de La Dolce Vita, de Fellini, nasceu depois da eleição de João Paulo II. Encontrei-o enturmado na Praça de São Pedro. “Nestes meus 24 anos”, dizia-me então, “João Paulo II sempre esteve presente. Lembro-me, quando era criança, daquele homem vestido de branco (...) Mais tarde, durante os anos da adolescência, fiquei rebelde. O papa, no entanto, estava sempre lá, um pouco 5 mais velho, mas sempre forte. Dizia-nos, então, que o amor de Deus era a única resposta, o único caminho para um futuro melhor. (...) Continua lá. É uma rocha firme e segura”. (DI FRANCO, 2011, A2). Este depoimento é especialmente emblemático. O pano de fundo histórico (nas mais diversas vertentes do conhecimento humano, notadamente sociologia, filosofia e antropologia) no qual se desenvolveu o pontificado de João Paulo II coincide com período que muitos pensadores contemporâneos classificam como (pós-) modernidade. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ao tratar da questão da modernidade líquida alega que a humanidade está condenada “a mudar obstinadamente, carregando no processo incertezas”. O que tempos atrás era apelidado erroneamente de “pós-modernidade”, e que prefiro chamar de “modernidade líquida”, traduz-se na crescente convicção de que a mudança é a nossa única permanência. E a incerteza, a nossa única certeza (apud GREENHALGH, 2011). Sob esta ótica estaria a figura do papa João Paulo II na contramão dos valores ou padrão contemporâneos expressos e difundidos na (pós-) modernidade? Vivemos a “lógica da fragmentação” descrita por Cristopher Lasch que expressa que vivemos em um cenário midiático, de materialismo e narcisismo. Segundo ele o “eu” é diminuído ao mínimo e, por sentir-se sitiado, o nosso “eu” se retrai e surge a preocupação exagerada da própria imagem (personalidade narcísica) e com o “outro” o que gera insegurança, desconfiança e temor. O indivíduo desgarrado apenas em transe é capaz de sentir-se fazendo parte de alguma coletividade ou de algo que dê sentido à sua existência (LASCH, 1986). Tal “lógica da fragmentação” em Lasch ocorre em detrimento da “lógica da construção de identidade” descrita por Stuart Hall e a necessidade de um referencial não efêmero constitui-se como reação de uma sociedade (notadamente jovem) sem esperanças comuns – somente individuais – ou vínculos sólidos; daí o contraponto à modernidade líquida. Segundo Hall, as identidades modernas estão fragmentadas e o sujeito, antes unificado e estável, passa a ser composto de várias identidades, muitas vezes contraditórias (HALL, 1999). A temporalidade expressada no depoimento do jovem na Praça de São Pedro acerca da presença ostensiva do papa João Paulo II (“Continua lá. É uma rocha firme e 6 segura”) contrapõe-se diretamente à efemeridade evidenciada na sociedade líquida onde os quadros de referência ou mesmo as crenças mudam antes que se solidifiquem. Midiatização e mitificação As explicações acerca do poder de mobilização de lideranças doutrinadoras sobre um público aparentemente avesso ou resistente a discursos dogmáticos - embora construídas sobre uma estrutura midiatizada -, parecem não se circunscrevem apenas à dimensão carismática. Além de uma estrutura midiática existe uma construção mítica ao redor da figura do papa João Paulo II. Sem a apropriação dos valores simbólicos mais latentes do imaginário humano (DURAND, 2002) através da contingência intercultural, a interação dialógica entre o papa e as multidões das Jornadas Mundiais não se estabeleceria de forma plena. As narrativas, quando ligadas ao imaginário, são carregadas de sentimento e afetividade baseada na subjetividade. O fenômeno transita de uma narrativa meramente histórica (documental e fechada) para uma narrativa mitológica. Neste sentido os mitos são uma narrativa ou, ao menos, preenchem lacunas na narrativa. Na narrativa histórica surge a figura dos arquétipos. Platão dava um tratamento formal aos arquétipos definido-os na forma do bem, do belo, da verdade. Na contemporaneidade Jung vai defini-los como um conjunto de imagens psíquicas do inconsciente coletivo que constitui um patrimônio comum de toda a humanidade. Do grego Archétypon (modelo, padrão), o arquétipo é uma narrativa. A matriz arquetípica do inconsciente coletivo se personifica em figuras mitológicas que nos falam de situações cotidianas centradas nas grandes questões da humanidade. Para analisar a construção mítica em volta da figura do papa João Paulo II, opto por duas abordagens distintas, embora ambas de ordem antropológicas. De um lado, os estudos sobre os valores simbólicos constituídos no imaginário humano de Gilbert Durand3. Para Maffesoli “em Durand, não existe verdadeira diferença entre simbólico e 3 Professor de filosofia, professor titular e emérito de sociologia e antropologia Universidade de Grenoble na França, Gilbert Durant é fundador e atualmente diretor do Centro de Pesquisas sobre o Imaginário (Centre de recherche sur l'imaginaire). Discípulo do epistemólogo Gaston Bachelard e de Carl Jung influenciou outros pensadores como Michel Maffesoli, Durand é reconhecido mundialmente nos meios acadêmicos por seus estudos acerca do imaginário. 7 imaginário. Uma coisa contamina a outra. Tanto que sua investigação se dá sobre a imaginação simbólica” (MAFFESOLI, 2001, p.79). Os vereditos acerca dos mecanismos de construção dos mitos lançados por Joseph Campbell4 serão o outro ponto deste processo de análise. Para Campbell os mitos nos ajudam a passar pelos inúmeros estágios do desenvolvimento humano (infância, adolescência, velhice e morte). Os mitos revelam modelos ideais para as atividades humanas e produzem a nossa compreensão para os desafios e questões fundamentais da humanidade. Após alguns ensaios nas áreas da fenomenologia, epistemologia e sociologia, Durand opta por estudar a questão do simbolismo imaginário sob a ótica da antropologia e da psicanálise ao afirmar que “parece que para estudar in concreto o simbolismo imaginário será preciso enveredar resolutamente pela via da antropologia” (DURAND, 2002, p.40). Para tanto, Durand propõe um método de análise que ele denomina “trajeto antropológico” ao concluir que “para tal, precisamos nos colocar deliberadamente no que chamaremos o trajeto antropológico, ou seja, a incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas” (DURAND, 2002, p.41). Entretanto, Durand precisa admitir que não pode abrir mão de se considerar o discurso como fator preponderante na análise do simbolismo imaginário: “é aqui precisamente que surge uma das dificuldades da pesquisa antropológica. Obrigatoriamente, para expor os resultados [...] é-se levado a utilizar o discurso” (DURAND, 2002, p.45). Nesta estrutura de discurso, ele considera a presença de um esquema mitodológico que acaba por prescindir de uma narrativa ao afirmar que “no prolongamento dos esquemas, arquétipos e simples símbolos podemos considerar o mito. [...] Entenderemos por mito um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos que [...] tende a compor-se em narrativa” (DURAND, 2002, p.62) Além de tal narrativa, o estudo antropológico do simbolismo imaginário não pode prescindir também de uma análise arquetípica. Para tanto, Durand adota a abordagem de Carl Jung, de quem é discípulo confesso. Durand declara que “Jung, na 4 Antropólogo norteamericano que dedicou-se ao estudo do mito e mapeamento das semelhanças entre as mitologias das mais diversas culturas humanas. 8 esteira da psicanálise, viu igualmente bem que todo o pensamento repousa em imagens gerais, os arquétipos” (DURAND, 2002, p.30). Para Jung, os arquétipos vão sendo construídos sobre imagens coletivamente assimiladas. Jung deduz que as “imagens primordiais” – um outro nome para arquétipos – se originam de uma constante experiência durante muitas gerações e, como exemplos de algumas das imagens primordiais existentes no inconsciente coletivo, propõe algumas estruturas arquetípicas universais como os arquétipos da “Grande Mãe”, do “Herói”, do “Velho Sábio” e da “Morte”. Para enfocar a construção do imaginário sobre a estrutura arquetípica do “herói” a partir das estruturas midiáticas no caso do papa João Paulo II, trazemos os estudos do também antropólogo Joseph Campbell que, embora tenha “rompido” com a academia ao abandonar seu doutorado, conduz seu trabalho “independente” a uma análise das idéias e conceitos de arquétipos de Carl Jung. Para Campbell, em todas as histórias existe um herói e a narrativa gira em torno de suas ações. Segundo ele o herói parte do mundo cotidiano e se aventura numa região de prodígios sobrenaturais. Ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva. O herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes (CAMPBELL, 1995, p.36). Joseph Campbell pesquisou a estrutura dos mitos. Cunhou o conceito do “monomito” em sua obra “A Jornada do Herói” de 1949. Na obra Campbell propõe uma estrutura de narrativa que demonstra que o herói passa por 12 etapas. Trata-se de uma jornada cíclica; daí o conceito de monomito. Seu trabalho de pesquisa analisou histórias modernas bem como muitos roteiros de filmes. O padrão do monomito foi adotado por George Lucas para a criação de “Star Wars”. Christopher Vogler5, roteirista de Hollywood, também usou o conceito do monomito na produção dos estúdios Disney (trilogia Matrix) o que deu origem ao livro “A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Roteiristas” (VOGLER, 2006). 5 Roteirista de Hollywood trabalhou para os estúdios Disney, Fox e Warner, sempre na área de desenvolvimento de idéias. Vogler usou o trabalho de Campbell para criar o “lendário” memorando de sete páginas para os roteiristas de Hollywood “A practical guide to the hero with a thousand faces” o que deu origem ao livro “A Jornada do Escritor”. 9 As doze etapas do monomito de Campbell estão divididas em 3 atos: 1) a PARTIDA (também chamada SEPARAÇÃO): lida com o herói aspirando à sua jornada; 2) a INICIAÇÃO: mostra as várias ações do herói e 3) o RETORNO: momento que o herói volta para casa com o conhecimento e os poderes adquiridos ao longo da jornada. A “Partida” compreende as cinco primeiras etapas da trajetória do herói: 1. O Mundo Comum 2. O Chamado da Aventura 3. Reticência ao Chamado 4. Encontro com o Mentor 5. O Cruzamento do Portal No ato “Iniciação” a saga do herói prossegue com: 6. Provações, Aliados e Inimigos 7. Aproximação do Objetivo 8. Provação Máxima 9. Conquista da Recompensa E, por fim, a saga conclui-se no “Retorno” com as etapas: 10. O Caminho de Volta 11. Depuração e Ressurreição 12. O Retorno Transformado A espetacularização da beatificação de João Paulo II: a construção do imaginário do mito (e do santo) com base em estruturas midiáticas Em 1º de maio de 2011, com a presença de mais de um milhão de pessoas e 16 chefes de estado , além de representantes de 86 delegações estrangeiras (ROMA,..., 2011, on line), o Vaticano promoveu a cerimônia de beatificação do papa João Paulo II: Após os ritos iniciais da Santa Missa, o Vigário do Papa para a Diocese de Roma, Cardeal Agostino Vallini, apresentou o pedido de Beatificação do até 10 então Venerável Servo de Deus João Paulo II. Em seu pedido, o Cardeal lembrou João Paulo II como um homem que "mirava sempre o horizonte da esperança, convidando os povos a derrubar os muros das divisões". Logo após, Bento XVI pronunciou a fórmula que tornou João Paulo II Beato da Igreja e, da mesma janela onde foi apresentado como Papa ao mundo, em 1978, foi desvelada a imagem oficial do novo Beato (JOÃO..., 2011, online). Apenas com o uso de imagens intensamente divulgadas pela mídia na ocasião da morte e da cerimônia de sua beatificação é possível apresentar o processo de mitificação do papa João Paulo II tomando-se como base a estrutura do monomito de Campbell, a seguir: 1. O Mundo Comum: O herói é apresentado em seu dia-a-dia; a vida normal do herói antes das história começar. Fotos da juventude e fase adulta da vida de Karol Józef Wojtyla antes de ingressar na vida religiosa. 11 2. O Chamado da Aventura: A rotina do herói é quebrada por algo inesperado, insólito ou incomum. Um desafio se apresenta ao herói. Fotos da apresentação de Karol Wojtyla como o novo papa no balcão de pregações da Basílica de São Pedro em Roma em 16 de outubro de 1978. 3. Reticência ao Chamado: Manifesta-se o sentimento de medo no herói. Legendas de trecho do discurso do então nomeado papa João Paulo II ao ser apresentado à multidão presente na Praça de São Pedro em 16 de outubro de 1978. As cenas oriundas de um documentário (TG) da emissora de TV italiana LA7 estão disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=6negG6a5S5I 12 4. Encontro com o Mentor: O herói encontra ajuda; às vezes sobrenatural. Em 1982, ao visitar o santuário mariano de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal, João Paulo II deixou uma das balas que o atingiu no atentado (ver página 14) na coroa da imagem. 5. O Cruzamento do Portal: O herói abandona o mundo comum para entrar em um mundo especial ou mágico. Liturgia solene onde Karol Wojtyla recebe os paramentos papais em 22 de outubro de 1978. A data é tão importante a ponto de ser estabelecida como a data oficial para a veneração do beato João Paulo II. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=QVfEC9OXPH8 13 6. Provações, Aliados e Inimigos: No mundo especial é que o herói enfrentará sua realidade e assimilará as regras deste mundo especial Atentado sofrido por João Paulo II na tarde de 13 de maio de 1981 em plena Praça de São Pedro, no Vaticano, durante audiência pública realizada sempre às quartas. O turco Mehemed Ali Agca deferiu três tiros. Imagens disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=TuNMQliamY8 7. Aproximação do Objetivo: O herói se aproxima do objetivo de sua missão. O nível de tensão aumenta mas o herói tem êxitos durante as provações. Em 1983, João Paulo II visita Ali Agca na prisão de Ancona, na região central da Itália. O pontífice perdoa Agca. No ano de 2000, o extremista ganhou a anistia da Justiça italiana. Extraditado para a Turquia cumpre pena pelo assassinato do jornalista Abdi Ipecki, em 1978. Imagens disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=TuNMQliamY8 14 8. Provação Máxima: A maior crise da aventura. De vida ou morte. Sequência de fotos de uma das últimas aparições de João Paulo II na janela de seus aposentos no Vaticano, de onde proferia suas bênçãos dominicais. 9. Conquista da Recompensa: O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha sua recompensa: o elixir. Imagens dos funerais de João Paulo II em reportagem da Rede Globo de Televisão estão disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=fTZzYUIvIIc e http://www.youtube.com/watch?v=BsKgohal1ck 15 10. O Caminho de Volta: Após ter alcançado seu objetivo, o herói deve voltar para o mundo comum. Foto da tumba de João Paulo II nos subterrâneos do Vaticano 11. Depuração e Ressurreição: Aqui o herói ressurge após o martírio ou morte. 16 12. O Retorno Transformado: É a finalização da história. O herói volta ao seu mundo mas já não é mais o mesmo. Foto da retirada do caixão da tumba de João Paulo II nos subterrâneos do Vaticano por ocasião da cerimônia de sua betificação. Imagens da exumação em reportagem do GloboNews estão disponíveis em http://www.youtube.com/watch?v=z2ZGtOqEw9Q Volta para casa com o elixir O sangue de João Paulo II foi conservado em uma ampola como relíquia pelo Escritório de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. Disponível em http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=281410 17 e o usa para ajudar todos no mundo comum. Referências bibliográficas BAUMAN. Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. ___________. A face humana da sociologia. Entrevista a Laura Greenhalgh. O Estado de S.Paulo, Caderno Sabático, 30.abr.2011, p.S4. CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 1995. ___________. O poder do mito. Org. Betty Sue Flowers. Trad. Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Palas Athena, 1990. CARRANZA, Brenda. Movimentos do Catolicismo Brasileiro: cultura, mídia, instituição”. Tese de doutorado apresentada ao Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, SP, 2005. DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1999. LASCH, Christopher. O Mínimo Eu. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1986. VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para roteiristas. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. Periódicos DI FRANCO, C.A. O papa dos jovens. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2 mai. 2011. Opinião, A2. GREENHALGH, L. A face humana da sociologia. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 30 abr. 2011. Caderno Sabático, S4. 18 Artigos e reportagens disponíveis em sites MACHADO, Daniel; MEIRA, Leonardo. João Paulo II é proclamado Beato, o dia esperado chegou, diz Papa. Disponível em: <http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=281488>. Acesso em 2 mai. 2011. MAFFESOLI, Michel. O imaginário é uma realidade. Revista Famecos, Porto Alegre, 15 ago. 2001. Entrevista concedida a Juremir Machado da Silva. Disponível em: <http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/famecos/article/view/285/217>. Acesso em 10 mar. 2010. “ROMA celebra a beatificação de João Paulo II” In: Veja. Seção Internacional. São Paulo, 1 mai.2011. Disponível em <http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/comosera-a-beatificacao-do-primeiro-papa-da-era-global>Acesso em 9 ago. 2012 19