ENTREVISTA
FOTOS PAULO NEGREIROS
O econom
omista
A economia move o mundo e as
pessoas. E a solidariedade, até que
ponto mobiliza? Para os cerca de
22 mil empreendimentos em
economia solidária do Brasil, o
esforço coletivo vem gerando
força de trabalho e renda. Uma
alternativa à falta de emprego
que, a longo prazo, pode ajudar
no desenvolvimento do país,
onde agricultores, pescadores e
artesãos vêm se organizando
desde o início da década de 1990.
Muitos grupos acabam se
extinguindo em pouco tempo,
outros se mantêm de forma frágil,
na informalidade, resistindo às
pressões do mercado e às
barreiras financeiras. E também
existem aqueles que dão certo,
talvez menos numerosos. Mas
falta adequar a legislação para
regulamentar os negócios e criar
mais linhas de crédito a juros
baixos, compatíveis com a
realidade socioeconômica
dos empreendimentos.
“A inclusão social e econômica,
realizada por meio da expansão
da economia solidária, contribui
para a economia nacional”,
solidário
afirma o economista austríaco
naturalizado brasileiro, que se diz
um privilegiado por morar aqui.
Paul Israel Singer – ou Paul Singer,
como é conhecido – é formado
em Economia e Administração,
e possui doutorado em Sociologia
pela Universidade de São Paulo
(USP). É ele quem está à frente da
Secretaria Nacional de Economia
Solidária (Senaes), vinculada ao
Ministério do Trabalho e Emprego,
desde quando foi criada, em 2003.
Quando o assunto envolve
economia e solidariedade, todos
os caminhos vão dar num mesmo
lugar: Distrito Federal, Brasília,
Esplanada dos Ministérios, bloco
F, sala 331, onde está instalado
o secretário, tido como grande
responsável pela criação da atual
rede de economia solidária,
formada por entidades governamentais e não-governamentais,
clubes de trocas, fóruns e redes.
Por e-mail, ele concedeu a seguinte
entrevista à REVISTA DO IDEC
Idec: Se a economia solidária não surgiu para
“resolver” a pobreza, qual é sua finalidade?
Paul Singer: Ela surge como sistema econômico
alternativo ao capitalismo. Nele, desaparece a divisão entre capitalistas e trabalhadores, pois todos
são membros do empreendimento por igual, participam do trabalho, das decisões – é a autogestão – e
do excedente. Como sua construção está sendo
feita, em grande parte, por pessoas excluídas da
economia pelo desemprego ou marginalizadas pela
pobreza, ela efetivamente gera trabalho autônomo
associado e renda, não “emprego”, pois não há salário na economia solidária.
Idec: O empreendedor solidário ganha em
média R$ 333,76, segundo o último mapeamento da Senaes. O setor fatura quase R$ 8 bilhões
por ano, e o número de pessoas empregadas diretamente é de 1,6 milhão no país. O que fazer para
ampliar esse mercado ainda tão pequeno no
Brasil? O cenário é o mesmo em outros países?
PS: Não creio que a economia solidária seja “tão
pequena”, considerando que ela só tem presença
significativa na economia brasileira há menos de
uma década. Em alguns países, como a Espanha, a
Itália e o Canadá francês (Quebec), a economia
solidária é mais antiga, alcançando dimensões expressivas em certas regiões.
Idec: O cooperativismo é o embrião da economia solidária. O senhor pode contar um pouco
dessa história?
PS: O cooperativismo nasceu na Grã-Bretanha,
nos primórdios da primeira Revolução Industrial,
início do século 19, como reação dos trabalhadores,
forçados a trabalhar em fábricas, à perda de sua
autonomia e à piora de suas condições de vida. Ao
Revista do Idec | Junho 2008
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mesmo tempo, os trabalhadores
assalariados conquistaram direitos
sociais – inclusive o de se organizar
em sindicatos e de fazer greve. A
melhora das condições nos trinta
anos que se seguiram à 2a Guerra
Mundial levou-os a dar preferência
ao emprego em firmas capitalistas
ou estatais, debilitando o cooperativismo. Mas, a partir do último
quartel do século passado, o neoliberalismo tornou-se dominante e
passou a substituir o pleno emprego
por desemprego em massa. A milhões de excluídos não restava outra
alternativa de sobrevivência a não
ser as atividades por conta própria.
A solidariedade, por meio da associação, acabou sendo redescoberta
pelos microprodutores. Desse modo, a economia solidária ressurgiu
nas últimas décadas em diversos
países, reinventando o cooperativismo e outras instituições, como fundos rotativos, clubes de troca e bancos comunitários.
Idec: Pelo último levantamento
da secretaria, uma parte muito pequena dos atuais empreendimentos recebeu apoio de sindicatos.
Esse apoio não deveria ser maior?
PS: A participação dos sindicatos
na economia solidária não pode ser
avaliada pela proporção dos empreendimentos apoiados por eles, porque a maior parte é atualmente formada por agricultores, apicultores,
artesãos etc., além de quilombos e
indígenas, que nunca foram assalariados e, portanto, nunca tiveram
contato com sindicatos. Os empreendimentos solidários maiores em
número de membros são empresas
recuperadas pelos ex-empregados,
em cuja constituição os sindicatos
têm tido papel crucial.
Idec: Existem poucas linhas de
crédito para os empreendedores solidários. As entidades de microcrédito no Brasil, por exemplo, se desenvolveram com altas taxas de juros, e poucas aceitam o que ficou
conhecido como grupo ou aval soli-
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dário, em que um credor garante o
financiamento do outro. Por quê?
PS: O microcrédito vem se desenvolvendo rapidamente no Brasil e
não dá para generalizar. O CrediAmigo do Banco do Nordeste do
Brasil, de longe o mais importante,
trabalha com grupos de aval solidário e vem aperfeiçoando a metodologia. Mas o microcrédito se volta predominantemente para o microempreendedor individual ou familiar.
Uma fonte de crédito que vem se
expandindo são os bancos comunitários e também as cooperativas de
crédito. Seja como for, o acesso ao
capital é ainda um ponto de estrangulamento para a economia solidária, que, aos poucos, vai sendo aberto.
Idec: Reduzir as taxas de juros é
tão complicado assim? O Banco de
Palmas, no Ceará, por exemplo,
um dos modelos em economia solidária, concede uma taxa entre
2% e 2,5% ao mês, a mesma praticada por alguns bancos comerciais. Enquanto isso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dispõe
de créditos volumosos para grandes empresas, com prazos estendidos e a juros baixíssimos (cerca
de 7% ao ano), com recursos do
Fundo de Amparo ao Trabalhador
(FAT) e do Fundo de Garantia por
Tempo de Serviço (FGTS), isto é,
do trabalhador. Por que a economia solidária não desfruta dessas
mesmas taxas?
PS: No campo, a agricultura familiar dispõe do Pronaf [Programa
Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], que oferece crédito
a juros baixos. As cooperativas e assentamentos de reforma agrária, que
fazem parte da economia solidária, se
beneficiam. Mas, nas áreas urbanas,
nada há de semelhante, ainda. O movimento reivindica do governo o Pronades (Programa Nacional de Economia Solidária). Outra alternativa é o
Banco Popular do Brasil, que está
investindo nos bancos comunitários,
a começar pelo Banco de Palmas.
Idec: Cerca de metade dos empreendimentos de economia solidária é voltada para a produção
agrícola. Milho, feijão e arroz estão entre os mais produzidos e são
justamente os que estão puxando
a inflação no Brasil e no mundo.
Não haveria aí uma oportunidade
de o governo alavancar a produção de alimentos, a partir da economia solidária, ao menos para o
mercado interno?
PS: Cerca de 70% dos alimentos
são produzidos pela agricultura
familiar no Brasil, e ela está sendo
favorecida pela grande expansão do
Pronaf, pelo seguro agrícola e outros
programas de fomento. O que contribui para a expansão da economia
solidária. O recém-lançado programa dos Territórios da Cidadania
[programa do governo federal de
combate à pobreza e fomento regional] vai na mesma direção. A hipótese da pergunta é provavelmente
verdadeira, mas a difusão da agricultura ecológica exige toda uma revolução cultural, o que leva tempo
[considerando que, na economia
solidária, os alimentos são produzidos de maneira orgânica].
Idec: A maioria dos empreendimentos de até dez pessoas é formada por mulheres, e a maior
parte dos grandes empreendimentos, com mais de cinqüenta pessoas, é formada por homens. Por
que acontece essa distribuição?
PS: Nas classes mais marginalizadas, urbanas, as mulheres tomam mais a iniciativa de se associar
para produzir em conjunto, enquanto muitos homens preferem continuar tentando um emprego formal.
Já nas cooperativas e associações
agrícolas, a família é em geral representada pelo chefe, quase sempre
homem. As mulheres participam
vitalmente da produção, mas seu
papel é ignorado pelos que respondem aos pesquisadores. Aliás, a
omissão das mulheres também é
feita pelos censos agropecuários.
Estamos aperfeiçoando o mapea-
mento para tentar captar o protagonismo feminino na economia solidária rural, e também urbana.
Idec: De que forma o consumidor responsável pode colaborar
para a expansão da economia solidária?
PS: Ele pode colaborar associando-se a outras pessoas, formando
uma cooperativa de consumo ou um
grupo de compras. Em seguida,
pode travar relações com empreendimentos de economia solidária e
forjar, com os que produzem bens
ou prestam serviços necessários aos
consumidores responsáveis, um relacionamento que começa com intercâmbio comercial, mas pode se
estender a outros campos: política,
cultura, tecnologia. Em que os interesses das pessoas envolvidas coincidam. Dessa forma, consumidores e
produtores podem planejar como
adequar os produtos ou serviços às
necessidades e preferências dos
primeiros, e os preços e condições
de pagamento às necessidades dos
segundos. Produz-se assim um intercâmbio de mercadorias e dinheiro, e também de conhecimentos e
sentimentos, que enriquece a vida
de uns e outros.
Idec: A venda direta ao consumidor é a forma mais importante
de comercialização dos empreendimentos?
PS: Grande parte da venda dos
produtos da economia solidária é
feita em feiras, onde produtores e
consumidores se encontram cara a
cara. Essa aproximação cria laços de
solidariedade entre vendedores e
compradores, que podem desembocar em contratos de fornecimento,
principalmente de alimentos, de
longo prazo. Mas não dá para limitar
a distribuição dos produtos a esta
modalidade. Outras são o comércio
justo, em que há intermediários que
adotam os princípios da economia
solidária e fazem questão de remunerar melhor os produtores que o
mercado convencional. A Senaes
está envolvida na regulamentação
do comércio justo no Brasil, além de
promover a distribuição dos produtos por meio de um portal dos
Correios na internet e também de
lojas operadas por cooperativa de
comercialização.
Idec: Onde mais podem ser
encontrados os produtos da economia solidária?
PS: Os consumidores responsáveis podem encontrar não só os
produtos, como os parceiros da
economia solidária, junto aos Fóruns de Economia Solidária dos
municípios ou dos estados onde residem. Ou, alternativamente, por
meio do Sistema de Informações da
Economia Solidária.
Saiba mais
Onde encontrar informações, empreendimentos e produtos da economia solidária:
● Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária: www.mte.gov.br/ecosolidaria
● Fórum Brasileiro de Economia Solidária:
www.fbes.org.br
● Para endereços: www.fbes.org.br/farejador
o
● Saiba mais na REVISTA DO IDEC n 116
(nov/2007)
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O consumidor
pode colaborar
associando-se a
outras pessoas,
formando uma
cooperativa de
consumo ou um
grupo de compras
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