O olhar do adolescente no universo da paixão Francieli Cristina Pigosso1 Rochele R. Andreazza Maciel - Orientadora2 Resumo: Este artigo contempla parte dos estudos, observações e reflexões advindas de uma pesquisa de opinião, originadas pelas inquietações dos alunos da turma 23N do Colégio Estadual São Tiago, no Município de Farroupilha, RS. O tema pesquisado busca algumas respostas sobre os fatores relevantes aos adolescentes entre 16 e 18 anos, os quais estudam no turno noturno da escola, quanto à escolha do parceiro(a) ideal para um romance. A partir disso, o objetivo proposto demanda responder a seguinte questão: “O que cada adolescente, entre 16 e 18 anos, procura no sexo oposto quanto à relacionamento?” Nesse sentido, algumas preocupações tornaram-se significativas para a turma em torno das expectativas na procura do par ideal, procurando desvendar ou confirmar as assertivas proveniente do senso-comum, como o quanto as moças valorizam o dinheiro enquanto os rapazes a beleza física, a escola é o pior lugar para encontrar o par perfeito, os homens preferem as mulheres mais novas e elas o contrário, entre outras. Para tanto, utilizou-se suporte teórico através dos estudos realizados anteriormente por diversos pesquisadores do mundo todo, inclusive dados do IBGE; as palavras valiosas de PEASE (2000), TIBA (1986), ZAGURY (2000), entre outros. Desse modo, os dados foram construídos e analisados a partir destas informações coletadas, destacando que o adolescente encontra-se numa fase repleta de descobertas físicas e emocionais, muitas vezes surpreendendo-se a si mesmos com fatos que fogem do previsto. Um universo hormonal/emocional com o qual a escola precisa lidar diariamente, na tentativa de desenvolvimento de cidadãos. Com essa proposta de desvendar o perfil emocional dos estudantes do Ensino Médio da escola propriamente dita, estreitando os vínculos entre a instituição de ensino e os educando é que esse projeto se justifica. Palavras-chave: relacionamento amoroso, adolescente, escola, preferência. Introdução O artigo intitulado “O olhar do adolescente no universo da paixão” foi criado e desenvolvido, por meio da pesquisa de opinião, realizada no curso do NEPSO3 pela professora/pesquisadora e realizada com a turma 23N, do 1 Graduada em Licenciatura em Letras – Português e Literatura em Língua Portuguesa. Professora de Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa, em nível Médio, no Colégio Estadual São Tiago. 2 Mestre em Educação pela Universidade de Caxias do Sul. Professora e coordenadora de projetos na Educação Básica e Laboratório de Aprendizagem na Educação Superior. 3 NEPSO é a sigla representativa do projeto de pesquisa “Nossa Escola Pesquisa Sua Opinião”. segundo ano do Ensino Médio do Colégio Estadual São Tiago, que está localizado no município de Farroupilha, Rio Grande do Sul. Desse modo, ao longo do estudo discute-se os resultados da pesquisa realizada com os alunos da turma que entrevistaram 121 alunos entre 16 e 18 anos, todos frequentadores do Ensino Médio noturno da escola propriamente dita, respondendo algumas inquietações dos estudantes sobre os aspectos que cada qual considera relevante na hora de escolher o par ideal para um relacionamento amoroso, bem como desvendar outros questionamentos acerca das características observadas, de fato, pelo outro e as que pensam serem consideradas primordiais. A finalidade do artigo não é simplesmente apresentar os resultados obtidos com a aplicação do questionário sobre os aspectos relevantes na escolha do(a) parceiro(a), mas também de refletir, estimular o diálogo entre a classe, abrindo um espaço mais amplo do tema e do problema proposto pelos adolescentes. A iniciativa de realizar uma pesquisa de opinião partiu de certa forma, de uma fuga dos assuntos mais „burocráticos‟ que envolvem as instituições de ensino, partindo para um tema que se apresenta com bastante força na etapa da adolescência que, direta ou indiretamente, afetará toda a construção de relações entre as teorias que devem ser ensinadas aos discentes e as bases de seu mundo, interesses e, para muitos, prioridade. Investigar as ansiedades dos alunos adolescentes em relação às construções afetivas também é conhecer um pouco mais aqueles que se sentam na frente do docente todos os dias, a fim de dividir momentos de troca de saberes, interligando, estes, com conhecimentos prévios, os quais envolvem desde a leitura de um anúncio publicitário até todas as emoções e aspectos do caráter de cada um. A pesquisa proporcionou também um olhar mais reflexivo da professora/pesquisadora sobre as aspirações dos alunos, inclusive o quanto a pesquisa, o ouvir o que o outro tem a dizer, é relevante para os adolescentes que estudam no turno noturno. Grande maioria de discentes que passa o dia todo seguindo as regras do trabalho, e buscam na escola um momento de aprender, interagir e descansar. Assim, esse artigo está organizado na análise da idade ideal para o par perfeito (Mamãe é mais nova que papai), a importância dos bens materiais na escolha do(a) parceiro(a), representado pelo subtítulo “Ter ou ser? Eis a questão!”, a (des)importância dos bens materiais, em especial do carro, na procura pelo(a) grande amor (Quero andar de carro velho, amor. Então venha!, o desvendar do lugar ideal para encontrar a paixão (Onde estará o meu amor?) e a investigação dos aspecto observados no(a) outro(a) no momento de optar pelo(a) parceiro(a) ideal (O adolescente e o outro, numa troca de olhares). O último tópico da análise, antes das considerações finais, de destina a um aspecto que não constava nas hipóteses, mas se mostrou interessante: o percentual de solteiros(as) e compromissados(as) numa comparação entre adolescentes de dezesseis, dezessete e dezoito anos, sob o título de “Ainda em tempo: um fato inusitado”. 1. O Adolescente e as relações amorosas Antes de discutir os resultados obtidos na pesquisa, faz-se necessário definir o que significa ser um “adolescente”, pois são os anseios dessa faixa etária tão delicada que foram explorados. Cabe nesse espaço criar um panorama mais específico da adolescência, para depois fazer com que as respostas apresentem coerência. Puberdade: palavra que vem do latim “púbis”, que significa penugem, pelo. Momento no qual, biologicamente falando, ocorre um grande aumento da produção dos hormônios responsáveis pelo desenvolvimento sexual dos jovens. Fase também que caracteriza o período entre os doze e vinte anos chamado de adolescência. A adolescência (do latim, crescer, engordar) é o momento no qual “surgem conteúdos sexuais nas relações afetivas e ocorre então a mudança das sensações afetivo-sexuais” (TIBA, 1986) Todo aquele afeto que outrora era dirigido apenas para a mãe e o pai agora é depositado na figura do outro, mas não é algo tão simples e mágico como parece quando apresentado teoricamente. O interesse dos alunos, nessa faixa etária, por investigar um tema sobre relacionamento amoroso pode ser justificado com as palavras de ZAGURY (2000): “o prazer sexual, a atração pelo sexo oposto, as festinhas, o encontro com o grupo de amigos, tudo parece (e é...) mais interessante, mais atraente, mais fascinante do que a escola”. Logo, se a educação se insere no campo das relações entre curiosidade e valorização afetiva que se dá ao aprendizado, de certa forma é um dever do docente vincular projetos didáticos pedagógicos com afinidades apresentadas pelos discentes, ou seja, utilizar-se de temas que abordem o universo dos alunos, nesse caso as relações afetivas. Para o adolescente essa realidade dos relacionamentos amorosos é uma grande novidade a ser descoberta, “não estamos mais no território tradicional da relação entre homens e mulheres, mas ainda há julgamentos e expectativas conservadoras que confundem os passos da dança da sedução” (MALDONADO, 2006). Dentre vários aspectos dessa faixa etária e os relacionamentos amorosos, também se destaca que “o jovem que „fica‟ não está preocupado com o prazer do outro, mas unicamente em obter o próprio prazer” (LIMA, 2006). Mas, como já ressaltado anteriormente, não é fácil definir quem o adolescente é numa fase repleta de transformações. Em debate com a turma as hipóteses levantadas buscavam confrontar dados a serem pesquisados com pensamentos corriqueiros das pessoas (mulheres preferem os homens mais velhos e eles as moças mais novas que os mesmos, mulheres só desejam homens que possuam carro e os adolescentes só sabem reparar na bunda das adolescentes, etc.). Muitas pesquisas já foram realizadas com intuitos semelhantes a essa. Segundo o pesquisador britânico da University of Wales Institute, em Cardiff, Dr. Michael Dunn, “fêmeas se concentram no poder aquisitivo de seus parceiros porque, por séculos, o homem sustentou a casa. Se o macho possui boas condições de manter um lar, ele será um bom marido e um bom pai” (2009). Quanto aos adolescentes de sexo masculino, a revista americana Cosmopolitan publicou uma pesquisa afirmando que os itens mais reparados pelos rapazes nas mulheres são em ordem de preferência, cabelo, sorriso, seios, voz e cintura. Uma pesquisa norte-americana mostrou que as pessoas “acabam de eleger os tropeços de gramática como uma das principais razões que arruínam um primeiro encontro ou flerte com um potencial parceiro” (Língua Portuguesa, 2013). Outra pesquisa publicada pela versão online do Jornal O Globo descobriu que “nordestinos não suportam um companheiro preguiçoso. No Sudeste, eles buscam mais afeto e elas querem homem com responsabilidade financeira.” (2011). Mas todas essas e muitas outras informações não se fizeram suficientes para que a investigação não ocorresse: os alunos do Ensino Médio do Colégio Estadual São Tiago não haviam sito entrevistados sobre essas preferências na escolha do par ideal, fator que gerou todo o processo desenvolvido durante o primeiro semestre do presente ano de 2013. 2.Apresentação e análise dos resultados da pesquisa Ao iniciar a construção da análise e interpretação dos dados coletados percebe-se que projeto tornou-se algo muito significativo para os adolescentes envolvidos direta ou indiretamente com o mesmo. Desvendar as facetas do “Olhar do Adolescente no universo da paixão” significou aprender a reconhecer e interpretar o próximo dentro de certos contextos sociais. Dessa forma, a pesquisa, citando FREITAS, “não deve ter apenas o objetivo de ocupar o aluno, de modo que o mesmo não fique sem fazer nada em casa, sua finalidade vai além, formar pessoas curiosas acerca do que se passa no mundo, assim, por meio dessa busca, o conhecimento será construído pelo próprio educando” (2010). Esse estudo suscitou o anseio de conhecer uma parte do imenso mundo das relações humanas, do interpretar e reconhecer o próximo e a si mesmo. Assim, muitas foram às descobertas. 2.1 Mamãe é mais nova que papai. Investigamos, por meio do questionário base, qual seria a idade ideal do par perfeito, sendo este mais novo ou velho que o informante. Nesse contexto temos a indagação se realmente as meninas sonham com o “príncipe” mais velho e os meninos com a garota “indefesa”. Conforme pesquisa realizada por austríacos, essa referência pode ser ocasionada por motivos evolucionistas. Os pesquisadores afirmam que “teoria de que os homens preferem mulheres mais jovens e atraentes para aumentar suas chances de um sucesso reprodutivo” (PRESSE, 2007) enquanto as mulheres “preferem homens mais velhos e bem-sucedidos que possam prover meios e segurança e, assim, aumentar sua chance de sobrevivência da prole” (PRESSE, 2007). Entre as garotas de dezesseis anos, todas responderam que desejam que ele seja mais velho, enquanto apenas 70 por cento deles desejam uma menina mais nova. Quanto às adolescentes de 17 anos, 95 por cento preferem mais velhos enquanto eles (65 por cento) preferem mais novas. As respostas obtidas com as entrevistadas de dezoito anos mostraram que todas preferem mais velhos e 80 por cento deles mais novas. As figuras abaixo ilustram esses dados. Você prefere que o parceiro seja... (geral) 0% Mais novo Mais velho 100% Figura 1 Informantes do sexo feminino, dezesseis anos. Você prefere que a parceira seja... (geral) 30% 70% Mais nova Mais velha Figura 2 Informantes do sexo masculino, dezesseis anos. Houve uma pequena variação entre os informantes compromissados e solteiros, mostrando que as meninas são praticamente unânimes na opção por adolescentes com idade superior à delas, enquanto os adolescentes do sexo masculino são mais flexíveis em todas as faixas etárias, especialmente os que já possuem algum tipo de relacionamento. Logo, a hipótese inicial de que os rapazes preferem as adolescentes mais novas e vice-versa foi parcialmente refutada. As garotas preferem os mais velhos, mas para os garotos idade não é tão significativa. 2.2 Ter ou ser? Eis a questão Outro tópico a ser investigado nessa pesquisa é que os adolescentes solteiros de ambos os sexos valorizam que o(a) parceiro(a) possua bens materiais, em comparação aos compromissados. A pesquisa apresentou que a preferência das adolescentes solteiras de dezesseis anos são os valores morais (62 por cento), seguido pela aprovação da família (13 por cento) e aparência (13 por cento). As de dezessete preferem a aparência (22 por cento) e as de dezoito optam por valores morais (67 por cento) e aprovação da família (33 por cento). As respostas obtidas dos solteiros de sexo masculino foram: adolescentes de dezesseis anos reparam na aparência (29 por cento) e nos valores morais (28 por cento); os de dezessete anos preferem que a parceira possua específicos valores morais (46 por cento), seguido da aprovação da família e vocabulário (ambos com 14 por cento). Os de dezoito se dividiram em ser ligada à família e vocabulário (com 50 por cento cada). Logo, tanto elas como eles, solteiros, reparam em aspectos como valores morais, família, aparência e, de longe possuir bens ou carro. As respostas dos compromissados não apresentou muita diferença, nesse aspecto, que a dos solteiros. Para elas, com dezesseis anos, os valores morais predominaram com 40 por cento, seguidos do vocabulário, ser ligada à família e possuir carro, ambos com 20 por cento cada. Os de dezessete optam por valores morais (80 por cento) e, para os de dezoito, valores morais, com 67 por cento. Como se percebe, os valores morais foram considerados relevantes pela maioria, seguido de itens relacionados à família, vocabulário e afins. A opção possuir carro foi citada, em baixíssima escala, apenas pelos informantes de dezesseis anos. Das respostas obtidas constata-se que possuir bens materiais, carro e afins não está entre as prioridades nem dos solteiros(as), nem dos(as) compromissados(as). Existe uma grande preocupação com aspectos referentes à caráter, família ou outros também imateriais, o que refuta a hipótese inicial propriamente dita. As informações obtidas contradizem, de certa forma, teorias como as do Dr. Michael Dunn, “fêmeas se concentram no poder aquisitivo de seus parceiros porque, por séculos, o homem sustentou a casa. Se o macho possui boas condições de manter um lar, ele será um bom marido e um bom pai” (2009). Esses dados soam como se essa preocupação primitiva acerca do homem ser o provedor e a mulher a mãe dedicada vem mudando assim como os hábitos das pessoas, com a igualdade entre os sexos e o aumento de casos de lares sendo mantidos pelas mulheres. Os dados asseveram, parcialmente, o que foi investigado no sudeste do Brasil, publicada pelo jornal online “O Globo”, que postulou que eles buscam mais afeto e elas querem homem com responsabilidade financeira. (2011). Uma surpresa dessas respostas obtidas é a preocupação, dos rapazes mais velhos, com a forma de falar da parceira, item que também apareceu, em menor escala, nas demais respostas das adolescentes femininas e masculinas de ambas as idades, quando se trata de itens preferenciais. Isso vai de encontro à pesquisa norte-americana que pessoas “acabam de eleger os tropeços de gramática como uma das principais razões que arruínam um primeiro encontro ou flerte com um potencial parceiro” (Língua Portuguesa, 2013). Logo, o brasileiro também repara na forma de se expressar vocabularmente do(a) outro(a). 2.3 Quero andar de carro velho, então venha! As mulheres querem homens que possuam bens materiais, entre eles carro! Uma assertiva do senso-comum que, nessa pesquisa, perdeu sua credibilidade. Analisando a figura 3 quanto as preferências assinaladas percebe-se que estão em último lugar, para as meninas solteiras de dezesseis anos, o que menos importa é possuir carro (44 por cento), seguido de bens materiais diversos e aprovação doa amigos (ambos com 13 por cento); para as compromissadas 45 por cento julgam menos importante possuir automóvel, seguido de possuir bens materiais diversos (18 por cento) ou possuir estabilidade financeira (13 por cento). As informantes com dezessete anos solteiras disseram que possuir carro (56 por cento), a aprovação dos amigos (33 por cento) ou possuir estabilidade financeira (11 por cento) pouco importam na hora de escolher o parceiro ideal. As compromissadas afirmaram que possuir bens materiais diversos (42 por cento), possuir estabilidade financeira, possuir carro ou ser estudioso (ambas as opções com 17 por cento) não pesam tanto quanto outros aspectos na escolha do par ideal. Aspectos menos relevantes na escolha do parceiro (geral) 9% 18% 23% Possuir estabilidade financeira Possuir carro Aprovação dos amigos 32% 18% Possuir bens materiais diversos Ser estudioso Figura 3 Informantes do sexo feminino, dezessete anos. As informantes de dezoito anos, solteiras, admitiram que possuíssem carro, bens materiais diversos ou a aprovação dos amigos (alternativas com 33 por cento cada uma) ficam em último lugar nas prioridades para envolvimento amoroso, assim como as compromissadas, que elegeram os mesmos itens, mas deram mais ênfase ao possuir automóvel. A figura 4 ilustra que para os rapazes com dezesseis anos, solteiros, possuir carro (54 por cento), possuir bens materiais (18 por cento) ou a aprovação dos amigos (14 por cento) são itens menos relevantes, enquanto para os compromissados da mesma faixa etária ter automóvel foi eleito desnecessário (40 por cento), seguido da aprovação dos amigos, aprovação da família ou aparência, ambas com 20 por cento. Os jovens de dezessete anos solteiros votaram em possuir carro também (36 por cento), seguido da estabilidade financeira (15 por cento), aprovação dos amigos e possuir bens materiais diversos (ambas opções com 14 por cento cada). Aspectos de menor relevância na escolha da parceira (geral) 5% 5% Aprovação dos amigos 5% 15% Possuir estabilidade financeira Possuir bens materiais diversos 15% 35% Possuir carro Ser ligada à família 20% Aprovação da família Valores morais Figura 4 Adolescentes de sexo masculino, dezessete anos. Os compromissados de mesma idade elegeram como desnecessárias as opções que se referiam aos bens materiais em geral (possuir carro como o item mais votado, com 40 por cento) e a aprovação dos amigos, com 20 por cento. Os jovens que possuem envolvimento amoroso escolheram carro (67 por cento) e aprovação dos amigos (33 por cento) como desnecessário e os solteiros se dividiram em ser estudiosa e possuir automóvel (ambos com 50 por cento de preferência). Realmente os adolescentes de sexo masculino prezam mais os valores morais e, em menor número, a aparência, do que bens materiais diversos, tendo em vista que essas opções que envolvem estruturas financeiras no geral. Conforme CARNEIRO, em seu artigo “A escolha amorosa e interação conjugal na heterossexualidade e na homossexualidade”, postula que “capacidade econômica, ambição e competência profissional são características culturalmente identificadas como masculinas, o que pode explicar o fato de os homens heterossexuais não valorizá-las nas mulheres” (1997) Um aspecto curioso é o quanto a aprovação dos amigos não é relevante para os adolescentes na escolha do par ideal, principalmente para aqueles com dezessete e dezoito anos. Conforme pesquisa americana publicada no site “Ciência diária‟, “a escolha não acontece de forma tão individual como pensamos, mas de acordo com a preferência dos outros” (2010), só que os dados da presente pesquisa vão na direção contrária desta afirmação, mostrando que, talvez, os jovens, ao responderem o questionário, ou fizeram pouca reflexão acerca de cada item ou tentar “forjar” uma autoimagem de independência emocional que, no fundo, não possuam. 2.4 Onde estará o meu amor? Uma das questões investigadas foi que a escola seria o pior local para encontrar o par ideal. Indubitavelmente, dentre as alternativas escola, trabalho, redes sociais, baladas e lugares diversos, esta última foi a prioridade de todos os informantes, independentemente de qualquer compromisso amoroso, idade ou sexo. Na verdade essa opção, em outras palavras, traduz que não existe um lugar específico para tal acontecimento, o amor pode surgir em qualquer local, dependendo das pessoas e os interesses que se cruzam. Outras opções curiosas foram assinaladas. Conforme a figura 5 os adolescentes de dezesseis anos, além de optarem por lugares diversos, elas votaram no trabalho, na escola e em outros, com percentuais menores de 10 por cento cada. As de dezessete pensam que, além do lugar propriamente dito, trabalho, escola, baladas, redes sociais e outro também podem auxiliar no encontro do par perfeito, mas, novamente, cada uma dessas alternativas não somou nem 10 por cento. As de dezoito anos optaram por lugares diversos com grande percentual de diferença das demais (no restaurante ou ninguém sabe onde). Para os jovens de sexo masculino também prevaleceu a opção lugares diversos. Os que contavam com dezesseis anos variaram um pouco mais nas opções, em especial os solteiros, que também citaram redes sociais, escola, cama, zona, em casa, nas baladas, no motel, mas nenhum dos itens chegou a atingir mais de 5 por cento. Os compromissados se detiveram nos lugares diversos (60 por cento), C.T.G. e redes sociais (ambas com 20 por cento cada). 4% 4% 4% Lugar ideal para encontrar o par perfeito (solteiros) 4% Em lugares diversos Nas redes sociais Na escola 4% 4% 6% Na cama 70% Em casa Nas baladas No motel Figura 5 Adolescentes do sexo masculino, solteiros, com dezesseis anos de idade Os jovens com dezessete anos optaram pelos lugares diversos, mas além dele também citaram escola, viagens, balada, redes sociais, mas em um percentual bem menos expressivo. Adolescentes com dezoito anos votaram em lugares diversos (todos). Com os dados levantados, a escola não é o lugar menos citado para encontrar o parceiro, para ambos os sexos, pois apareceu em praticamente todas as idades. Outra conclusão que se pode chegar é que, tanto para o sexo masculino como feminino, lugares diversos foi a opção que prevaleceu. A única diferença mesmo foi na variedade de respostas que os garotos solteiros de dezesseis anos deram. Os lugares menos votados acabaram sendo redes sociais e baladas. 2.5 Os adolescentes e o outro, numa troca de olhares Sobre a hipótese do que cada um repara no parceiro e o que pensam que o outro repara neles, obtiveram-se resultados instigantes. As adolescentes solteiras de dezesseis anos afirmaram que observam o rosto dos rapazes (57 por cento), seguido dos olhos (25 por cento), e acreditam que eles reparem no rosto (44 por cento) seguido de aspectos da personalidade (31 por cento). As que possuem relacionamento observam os olhos (64 por cento), depois o sorriso (12 por cento). Elas também afirmaram que acham que o outro observa aspectos da personalidade (50 por cento), seguido dos olhos/rosto (26 por cento). Outras respostas foram mencionadas, mas cada uma não obteve sequer 7 por cento, entre elas corpo. Já as garotas com dezessete anos, solteiras, responderam que observam o sorriso (33 por cento), o rosto (22 por cento), a barba (12 por cento), entre outros, acreditando que eles reparem mais em aspectos da personalidade (44 por cento), nada (22 por cento), carinho (12 por cento, entre outros aspectos. As informantes solteiras de dezoito anos escreveram que reparam mais em todo o corpo, no sorriso e nos olhos, igualmente votadas por 33 por cento das meninas. Elas também pensam que eles reparam no sexo, no jeito e no olhar, com também 33 por cento dos votos. As compromissadas optaram por eleger os olhos como a parte do corpo que observam mais no outro (43 por cento), seguido da boca, rosto ou modo de vestir, com 14 por cento cada. Essas informantes também mencionaram que eles supostamente reparam na forma de ser comportar, corpo e ser objetiva (ambas opções com 15 por cento) e comportamento/ simpatia, olhos e amor, com 14 por cento cada. Dessa forma, quase que unanimemente, elas reparam no rosto, olhos ou sorriso, e acreditam que eles observem o corpo, assim como aspectos da personalidade. Por sua vez, esses dados confirmam o que Pease fala sobre as mulheres “o homem que chega a uma festa e vai procurar a mulher "ideal" com base na testosterona - belas pernas, sem barriga, bundinha arrebitada, seios empinados e assim por diante. A mulher irá procurar um homem sensível e carinhoso, com uma silhueta em Vê personalidade forte.” (PEASE, 2000, p.111). Mas, quanto ao que o teórico asseverou sobre o sexo masculino, a realidade foi outra (exceto a dos informantes com dezesseis anos, solteiros). A figura 6 ilustra o quanto aos adolescentes de sexo masculino, com dezesseis anos, solteiros, eles afirmaram que observam, como preferência, o rosto (25 por cento), seguido pelos olhos (22 por cento) e a bunda (11 por cento). As demais respostas se dividiram em pés, nada, partes íntimas, peitos e beleza, mas todas ficaram com menos de 10 por cento dos votos. Sobre o que, supostamente, as meninas veriam neles, a personalidade (34 por cento) foi eleita majoritariamente, seguida de nada (19 por cento) e rosto/olhos/sorriso (15 por cento). Os compromissados elegeram o rosto (60 por cento), seguido pelos dentes e os olhos (20 por cento cada), e disseram que elas devem reparar no intelecto, nos sentimentos, no rosto/olhos/sorriso, valores morais ou personalidade, em igual proporção (20 por cento). Aspecto físico que você observa no outro primeiro (geral) 3% Dente 3% 3% Rosto 7% Olhos Pés 10% 34% 6% Corpo Partes íntimas 3% Sorriso 3% 3% N.D.A. Bunda 3% 22% Peitos Beleza Tudo Figura 6 Informantes do sexo masculino, dezesseis anos. Os adolescentes de dezessete anos, solteiros, afirmaram repararem nos olhos, seguido pelo rosto (20 por cento). Demais itens mencionados (sorriso, dedão do pé, teta, orelha, não atingiram 15 por cento cada), afirmando imaginarem que as adolescentes reparem no caráter (35 por cento), na personalidade (20 por cento) e nas partes genitais (13 por cento) como mais votadas. Os que possuem relacionamento afirmaram que observam os olhos (60 por cento), seguido das pernas e de tudo (20 por cento cada), e acreditam que personalidade e educação (40 por cento cada) sejam os aspectos mais reparados neles, seguido de nada (20 por cento). As respostas obtidas com os informantes solteiros de dezoito anos apontaram que olhos ou nada são os dois aspectos observados na potencial parceira (50 por cento cada), e elas reparariam em nada ou nos olhos (50 por cento cada). Os que possuem relacionamento afirmaram que rosto, sorriso e olhos (33 por cento cada) são aspectos primordiais que observam na possível parceira, enquanto elas devem reparar, supostamente, no caráter, em nada ou ser querido, com 33 por cento cada uma das opções. Eles, logo, reparam sim em partes sexuais do corpo (bunda, partes íntimas, etc.), mas a preferência ficou com olhos, sorriso, rosto. Esse aspecto confirma a pesquisa publicada pela revista americana Cosmopolitan, afirmando que os itens mais reparados pelos rapazes nas mulheres são, em ordem de preferência, cabelo, sorriso, seios, voz e cintura. Da mesma forma, os adolescentes acreditam que elas reparem na sua personalidade, caráter, ou em nada, o que mostra, de certa forma, uma baixo-estima quanto à suas visões de si mesmos, não tendo um suposto atrativo para o sexo oposto. De certa forma, as adolescentes, tanto solteiras como compromissadas, reparam no rosto, olhos, ou sorriso, pensando que eles reparem na personalidade, caráter ou até mesmo corpo e sexo. As expectativas de ambos os sexos, ao serem confrontadas, não se concretizam, pois os(as) informantes reparam praticamente nos mesmos aspectos, e acreditam, erroneamente, que o outro procure algo diferente daquilo que eles mesmos procuram. Hipoteticamente, “não estamos mais no território tradicional da relação entre homens e mulheres, mas ainda há julgamentos e expectativas conservadoras que confundem os passos da dança da sedução” (MALDONADO, 2006), e nesse universo de experimentação e aprendizados, desejos pessoais e fatos se confundem num desvendamento do outro. 2.6 Ainda em tempo: um fato inusitado Uma das perguntas consistia em descobrir qual o estado civil dos informantes, mas não existia um questionamento prévio sobre esse detalhe. Porém, durante a tabulação dos dados, ressaltou-se uma conclusão curiosa. Percebeu-se que, conforme as adolescentes vão ficando mais velhas, o percentual de solteiras diminui. Quanto aos adolescentes, esse fator também ocorre. A diferença está na quantidade de solteiros que, em todas as idades, apresentou decréscimo conforme envelheciam. Porém o percentual feminino de solteiras foi menor do que o masculino em todas as idades pesquisadas. Esses dados convergem com os levantados pelo IBGE, numa pesquisa de 2010, que mostra que “para cada 100 mulheres solteiras existem 122 homens na mesma condição”. Nesse aspecto, a pesquisa comprovou o que os dados oficiais proclamam. Considerações finais Nestes meses de pesquisa grande foi o aprendizado por parte de todos os envolvidos. A turma participou ativamente do processo, o que parecia ser um desafio imenso (alunos do turno noturno, na sexta-feira, entre feriados e eventos promovidos pela escola), o qual foi superado. Os discentes, de fato, aderiram ao projeto e dedicaram-se em cada etapa, buscando respostas para as indagações previamente suscitadas. Com o desenvolvimento da pesquisa, percebeu-se uma maior sensibilização na interpretação do outro, suscitando, por conseguinte, uma visão crítica das relações afetivas e da forma de compreender a sociedade e a si mesmos. Também foi possível, por meio do projeto, dialogar sobre questões de interpretação de enunciados e instruções, haja visto que muitos dos questionários tiveram que ser descartados por não contemplarem o que fora solicitado. Analisando com esse olhar, pesquisar, atitude que faz parte do cotidiano, desde a procura por algum objeto até a simples elaboração de uma lista de compras, enriqueceu os encontros semanais da disciplina de Língua Portuguesa. Conforme BAGNO “se quisermos que nossos alunos tenham algum sucesso na sua vida futura – seja ela do tipo que for... é fundamental e indispensável que aprendam a pesquisar” (2007, p. 21), logo, tenho certeza que as experiências adquiridas com a participação no NEPSO colaborarão na construção de cidadãos aptos para o mercado de trabalho e para a vida, na amplidão de relações sociais. O objetivo foi alcançado: os alunos conheceram e reconheceram-se através dos dados levantados, muitas vezes não concordando, num primeiro momento, com as respostas obtidas (foi complicado para eles acreditarem que as afirmativas do senso-comum passaram tão distante dos resultados). Os discentes constataram que, apesar de estarem numa fase da vida bastante confusa, certos aspectos assemelham-se aos do universo adulto, que ainda é uma incógnita para tantos deles. Por fim, com os dados analisados como docente, percebi que apesar do turbilhão emocional e físico em que se situam o adolescente, aproximando-se de questões que envolvem suas realidade é possível mediar a construção do aprendizado com satisfação e que, na verdade, os anseios dos alunos muitas vezes assemelham-se aos dos adultos, mostrando que eles possuem sensibilidade e anseios próprios, cabendo aos profissionais da educação os ouvi-los, para melhor interagir e fazer com que toda essa gama de teorias, as quais chamamos de conteúdos, mostrem-se interessantes e façam sentido para esses que serão o futuro da sociedade. Referências Bibliográficas ARNOLD, Luciano. As regras da atração. Língua Portuguesa, São Paulo. Editora Segmento. Ano 8, n° 89. p. 16-17. Abr. 2013 BAGNO, Marcos. Pesquisa na escola: como é e como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 2007 BARROS, Michele. Pesquisa mostra o que os brasileiros gostam e detestam no sexo oposto. 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